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Edição Lisboa • Ano XXVII • n.º 9788 • 1,70€ • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • Director: David Dinis Adjuntos: Diogo Queiroz de Andrade, Tiago Luz Pedro, Vítor Costa Directora de Arte: Sónia Matos

o XXVII • n.º 9788 • 1,70€ • Sábado, 4 de Fevere
o XXVII • n.º 9788 • 1,70€ • Sábado, 4 de Fevere
Beyoncé A estrela pop que se tornou um ícone barroco Cultura, 32 Fugas Viagem ao

Beyoncé A estrela pop que se tornou um ícone barroco

Cultura, 32

A estrela pop que se tornou um ícone barroco Cultura, 32 Fugas Viagem ao mundo dos

Fugas Viagem ao mundo dos resistentes sámi, os últimos nómadas da Europa

Cultura A obra provocadora de Artur Barrio, o vencedor do Grande Prémio EDP Arte

Cultura, 28/29

Relatório legitima a maior parte dos vínculos a prazo no Estado

Avaliação das Finanças indica a passagem aos quadros de um número limitado de “precários” Autarquias de fora da regularização extraordinária PCP, BE e sindicatos querem mais do Governo Destaque, 2 a 4 e Editorial

Campanha Marine Le Pen segue programa de Trump: meter a França em ordem p22/23

ROBERT PRATTA/REUTERS
ROBERT PRATTA/REUTERS

O clássico é de tudo ou nada para Sporting e FC Porto

Jogo importante na decisão do título opõe um Porto moralizado que já só depende de si próprio a um Sporting que não tem mais margem para errar p46

a um Sporting que não tem mais margem para errar p46 Os terroristas que atacam os

Os terroristas que atacam os

Mãe obrigada

a

pagar para ver

Estados Unidos

o

filho que lhe

vêm

dos EUA

foi retirado

Lista de nacionalidades cujos cidadãos foram banidos por Donald Trump terá mais que ver com os negócios do que a segurança da nação p26/27

Encontros vigiados costumam ser um encargo da Segurança Social, mas uma mãe vai ter de pagar 60 euros para estar uma hora com o filho p12/13

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2 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

DESTAQUE

PRECÁRIOS NO ESTADO

Governo justifica parte significativa dos vínculos temporários

Relatório identifica 89.406 pessoas com vínculos de carácter temporário na administração central e nas empresas públicas. Governo avisa que há “muitos milhares de trabalhadores” que não se justifica que tenham vínculo

Raquel Martins

E m meados do ano passado, havia cerca de 90 mil pessoas a trabalhar para o Estado com contratos a prazo, em regime de prestação de serviços, inseridos em

contratos emprego-inserção, a fazer estágios ou com bolsas de

investigação. O relatório que fez o levantamento dos instrumentos de contratação de natureza temporária na Administração Pública, divulgado ontem, reconhece que ainda não é possível identificar em concreto qual a dimensão da precariedade no Estado

e avisa que a resposta só chegará no

final de Março, após uma análise mais detalhada de cada caso. Ainda assim,

e antevendo o resultado, o Governo

defende a existência de uma parte significativa das situações contratuais

temporárias, dando já a entender que nem todos os trabalhadores

serão abrangidos pelo programa de regularização extraordinária. Esta posição de partida contraria as expectativas do PCP e do BE que, on- tem, deixaram claro que é preciso dar resposta a todas as pessoas que satis- fazem necessidades permanentes dos serviços. Os bloquistas querem que sejam incluídos na contagem os tra- balhadores de empresas de trabalho temporário que exercem funções na administração central e local e nas empresas públicas. “Não seria acei- tável deixar qualquer caso de fora”, avisou o deputado José Soeiro. Os comunistas exigem que todos os trabalhadores identificados sejam integrados. Rita Rato, deputada do

PCP, reafirmou que “a um posto de trabalho permanente deve corres- ponder um vínculo efectivo”.

De manhã, antes da divulgação ofi- cial do documento — que aponta para a existência de 89.406 pessoas com vínculos de carácter temporário na administração central e nas empresas

públicas — o ministro do Trabalho,

Vieira da Silva, deixou o aviso de que

o relatório inclui inúmeras situações em que os vínculos temporários se justificam. “Não podemos confundir pessoas com vínculos inadequados, com outras situações, como as que existem na Segurança Social, onde

há equipas médicas que fazem veri- ficação de baixas, que têm a sua pro- fissão mas que têm uma avença [para prestar esse serviço]. E essas pessoas estão nestes números, como muitas outras”, disse à TSF. “Existem muitos milhares de tra- balhadores na Administração Pública que não se justifica que tenham vín- culo”, acrescentou mais tarde. O documento revela uma realidade diversificada de relações contratuais no Estado, com expressões diferentes de sector para sector. A contratação

a termo é a que tem maior peso nas

89.406 situações identificadas na ad-

ministração central e no sector em- presarial do Estado. O relatório dá

e no sector em- presarial do Estado. O relatório dá O Estado tem de olhar para

O Estado tem de olhar para si próprio ao espelho, porque não pode dar o exemplo se ele próprio for empregador precário

Catarina Martins Líder do BE

for empregador precário Catarina Martins Líder do BE Há 116.391 trabalhadores com vínculos temporários no

Há 116.391 trabalhadores com vínculos temporários no Estado

Por sector Administração Central 71.279 Total 116.391 Sector 18.127 Empresarial do Estado 24.090
Por sector
Administração
Central
71.279
Total
116.391
Sector
18.127
Empresarial
do Estado
24.090
Administração
Local

2895

Sector Empresarial Local

Fonte: Ministério das Finanças

Por tipo de vínculo

Contratos a termo resolutivo

Finanças Por tipo de vínculo Contratos a termo resolutivo 76.669 Contratos de prestação de serviços 19.157

76.669

Contratos de prestação de serviços

resolutivo 76.669 Contratos de prestação de serviços 19.157 Contratos emprego-inserção e inserção+ 15.061

19.157

Contratos emprego-inserção e inserção+

15.061 Bolsas de investigação 3662 Estágios 1842
15.061
Bolsas de investigação
3662
Estágios
1842

Na Administração Central e Sector Empresarial do Estado

Estágios

793

Contratos emprego-inserção e inserção+

2129 Bolsas de investigação 3662
2129
Bolsas de investigação
3662

Contratos de prestação de serviços

2129 Bolsas de investigação 3662 Contratos de prestação de serviços 12.834 Contratos a termo resolutivo 69.988

12.834

Contratos a termo resolutivo

2129 Bolsas de investigação 3662 Contratos de prestação de serviços 12.834 Contratos a termo resolutivo 69.988

69.988

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 3

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 3 JORNAL PÚBLICO Os ministérios com mais
Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 3 JORNAL PÚBLICO Os ministérios com mais

JORNAL PÚBLICO

• Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 3 JORNAL PÚBLICO Os ministérios com mais precários
Os ministérios com mais precários Ciência e Educação Ensino 26.435 Superior Defesa 13.073 Trabalho e
Os ministérios com mais precários
Ciência e
Educação
Ensino
26.435
Superior
Defesa
13.073
Trabalho e
11.811
Seg. Social
4661
4087
Saúde
Restantes
precários

PÚBLICO

conta de 69.988 contratos a termo resolutivo. Seguem-se prestações de serviços (12.834), bolsas de investiga- ção (3662), contratos emprego-inser- ção (1834) e estágios (793). Educação, Defesa, Ciência e Ensino Superior e Saúde empregavam 95% dos trabalhadores a contrato. No caso da Educação, que tem 26.133 contra- tos a termo, o documento refere que “o recrutamento de docentes através de contratos a termo resolutivo não corresponde, em princípio, a neces- sidades permanentes do sistema”; ainda assim, há medidas em curso para integrar até 3200 professores no quadro e contratar auxiliares (ver página seguinte). O PÚBLICO apurou que nesta área há situações, como os contratos para substituir mais de 10 mil professores de baixa prolongada, que não darão lugar à integração. Na Saúde, o problema coloca-se sobretudo nos hospitais EPE (10.336 contratos a termo), nomeadamente nos enfermeiros e auxiliares de acção

A um posto de trabalho

alho
alho

permanente tem que ue corresponder um vínculo efectivo

Rita Rato Deputada do PCP

Greve: centenas de escolas fechadas, dizem os sindicatos

Ministro garante que escolas encerradas foram em “número reduzido”

S indicatos e directores coincidem na avaliação.

Ontem houve muitas escolas que fecharam

devido à greve de pessoal não-docente. O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, contrapôs:

“Relativamente aos números, a indicação que temos é que há um número reduzido de escolas

“Penso que poderá ser uma das maiores greves dos últimos anos”, diz também o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, após ter feito um levantamento de norte a sul da situação no terreno: “O grosso das escolas está fechado”, diz, acrescentando que agora só espera que haja “consequências positivas” desta greve. A greve, convocada pelos sindicatos afectos à CGTP

da Educação admitiu ser

preciso reforçar ainda mais

o

escolas, porque, apesar de tecnicamente os assistentes operacionais serem em número adequado, é necessário dar

resposta ao problema das muitas baixas médicas, disse. Mas os sindicatos questionam também os rácios que determinam

pessoal não-docente nas

que viu a sua actividade lectiva afectada”, mas não adiantou números. Logo de manhã tanto

o

cálculo das necessidades

de pessoal não-docente nas escolas, uma vez que este só tem em conta o número de alunos,

Federação Nacional da Educação, afecta à UGT, como

a

e

à UGT, tem na base, entre

esquecendo as diferentes tipologias existentes e os vários serviços oferecidos pelas escolas. Os sindicatos afectos à UGT avaliam que para satisfazer as necessidades permanentes nas

outras razões, o combate à

a

Federação Nacional dos

precariedade entre o pessoal não -docente e a criação de carreiras especiais, de modo a valorizar as funções desempenhadas por estes funcionários nas escolas.

Trabalhadores em Funções Públicas apontaram para uma adesão à greve que rondava os

90% e de centenas de escolas encerradas por todo o país. “É provavelmente uma das maiores greves do pessoal não-docente”, disse ao PÚBLICO o presidente da Federação dos Sindicatos da Administração Pública (FESAP), José Abraão. “Só esperamos que

E

realiza-se numa altura em

escolas faltam colocar dois mil funcionários. Já a Federação Nacional dos Trabalhadores

que se multiplicam as queixas das escolas e dos pais devido

à

falta de auxiliares, o que tem

em Funções Públicas situa este número em cerca de quatro mil. O ministro considerou estes números “claramente excessivos”. C.V.

levado ao encerramento de vários serviços escolares, como bibliotecas e cantinas.

o

Governo tire as suas ilações.”

 

Na quinta-feira, o ministro

 

médica. Ora, no relatório, uma parte não quantificada destas contratações

é justificada com a necessidade de

responder à “elevada taxa de absen- tismo no sector da saúde” e às situ- ações decorrentes do facto de estes grupos profissionais serem constituí- dos maioritariamente por mulheres,

o que leva a ausências no âmbito da

protecção na parentalidade. Na Defesa, a quase totalidade dos 12.771 contratos a termo resolutivo corresponde a efectivos militares que prestam serviço em regime de volun- tariado e que, na perspectiva do Go- verno, “não podem ser consideradas como relações laborais precárias”. No caso das prestações de serviço,

uma fatia significativa diz respeito à área do Trabalho e da Segurança So- cial que declarou ter 4460 vínculos desta natureza. Os formadores con- tratados pelo IEFP representam 85% dos recibos verdes, com o relatório

a alertar que a flexibilidade das ac-

ções formativas exige que o perfil e

habilitações dos formadores tenham a mesma adaptabilidade. Há ainda

as situações de médicos contratados para verificação de baixas por doença que se limitam a prestar serviços. Olhando para estas justificações, que ao longo do relatório se esten- dem a outras áreas, poderá concluir-

se que haverá uma parte significativa de trabalhadores a ficar fora dos qua- dros do Estado. O relatório identifica quase 27 mil vínculos temporários nas câmaras, juntas de freguesia e sector empresarial local, dos quais mais de 12.700 são contratos empre- go-inserção, mas este sector ficará fo- ra do programa de regularização. A identificação dos que estão efectiva- mente em situação de precariedade no Estado só chegará no final de Mar- ço, quando as comissões de avalia- ção criadas junto de cada ministério analisarem em concreto se os traba- lhadores precários estão a satisfazer

necessidades permanentes. Ao mesmo tempo, os serviços que

recorrem a instrumentos de contrata- ção temporária “deverão fazer uma análise detalhada das necessidades futuras de emprego público”. Essa análise deve incluir uma projecção das saídas voluntárias (aposentação), as cessações dos contratos temporá- rios que venham a ocorrer e a dimen- são do mapa de pessoal. Com base nessa avaliação, será apresentado um programa de regu- larização extraordinária dos vínculos precários, que terá de estar definido no final do primeiro trimestre, e só nessa altura será possível ter uma ideia das vagas disponíveis e das pessoas que vão ser integradas. O concurso deverá ser o modelo a pri- vilegiar, mas como será aberto a todos os trabalhadores não há a garantia de que os precários serão seleccionados, embora a experiência na função pos- sa ser valorizada, dando vantagem a quem ocupou o lugar. com M.L.

raquel.martins@publico.pt

4 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

DESTAQUE

PRECÁRIOS NO ESTADO

Escolas, tribunais, hospitais: o que os sindicatos pedem e o que o relatório diz

E ducação é o sector com mais trabalhadores com vínculos temporários. Mas há vários outros onde é

responder a necessidades permanentes das escolas. Quanto ao pessoal não- -docente, segundo os dados apresentados pelo ministério no levantamento sobre a precariedade no Estado, o número de precários estará

agora nos cerca de 5000. Destes,

Público, António Ventinhas,

de bolsa motivou críticas dos sindicatos e é uma das

Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais estima que faltem 6000 funcionários auxiliares e administrativos no SNS. O relatório do Governo identificou 429 avençados e 1169 tarefeiros nas unidades de saúde do Sector Empresarial do Estado. Há também 10.336 contratados a termo, muitos dos quais a termo incerto, que o Governo justifica com os atrasos nas contratações e necessidades temporárias por absentismo que acabam por prolongar-se no tempo. Romana Borja-Santos

Nas polícias faltam sobretudo efectivos

Os únicos precários que o Governo admite ter entre as forças de segurança são praticamente só os vigilantes florestais dos incêndios, 955

estima que faltam cerca de 200.

O

dirigente destaca que este

justificações de PCP e BE para terem apresentado, no mês passado, propostas de alteração à lei aprovada em Agosto, que está neste momento em discussão no Parlamento. Samuel Silva

ano foi aberto um concurso para

visível o peso dos precários.

84

procuradores, o maior dos

Na educação há 15% de precários, muitos há anos

últimos anos, mas alerta que têm que continuar a ser abertas vagas para compensar as saídas por reforma, bem como o défice existente. Há também uma falta preocupante de juízes nos tribunais administrativos e fiscais, que faz com que muitos processos se arrastem durante anos naquela jurisdição. A presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Manuela Paupério, fala num défice na ordem das “dezenas”. Mariana Oliveira

Solução abrange 16% dos bolseiros na Ciência

2950

estão com horários anuais.

 
Cerca de 15% dos trabalhadores da rede dependente do

Cerca de 15% dos trabalhadores da rede dependente do

As estruturas afectas à UGT defendem que são necessários mais dois mil. As ligadas à CGTP sobem este limiar para quase 4000. Clara Viana

Faltam pelo menos 1600 profissionais nos tribunais

Todos concordam que o défice mais grave de profissionais na área da Justiça ocorre com os funcionários judiciais responsáveis por tramitar os processos nos tribunais. O presidente do Sindicato dos

São precisos mais enfermeiros do que médicos

São precisos mais enfermeiros do que médicos

Ministério da Educação (ME) estavam a contrato a prazo em Setembro de 2016, segundo os dados constantes da última síntese estatística do emprego público. Na altura, de um total de 168.310 funcionários, 24.634 eram precários, um número que representa um acréscimo de 6177 em comparação com a situação existente em 2015. Segundo a Federação Nacional de Professores, estarão actualmente nas escolas mais de 20 mil docentes a contrato, que asseguram necessidades permanentes das escolas. Muitos deles estão nesta situação há mais de dez anos. Cerca de 3700 entrarão este ano no quadro por via de um processo de vinculação extraordinária e pela aplicação da directiva comunitária que impede a utilização abusiva de contratos a prazo. Apesar destas medidas, o ME insiste, no relatório sobre a precariedade no Estado, que por regra os docentes a prazo não visam

O

relatório do Governo sobre

Funcionários Judiciais, Fernando Jorge, estima que faltam entre

precariedade no Estado identifica um total de 3662 bolseiros que trabalham nas instituições de ensino superior, centros de investigação e laboratórios. Esta contabilidade foi apurada em

civis que trabalham nas torres de vigia entre Maio e Outubro.

1400

e 1500 oficiais de justiça, um

Tanto a Ordem dos Médicos como os sindicatos do sector dizem que não há falta de clínicos. Contrapõem que

E

as associações sindicais não

número que deverá descer este ano, já que no mês passado foi aberto um concurso para admitir 400 funcionários, que devem chegar nos próximos meses aos tribunais. No Ministério Público também existe carência de procuradores. O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério

contestam. O problema é

o

mesmo a falta de efectivos na PSP e GNR. Pelas contas da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, fazem

30

de Junho, antes da entrada

só faltam médicos no sector

em vigor de um regime jurídico de estímulo à contratação de investigadores doutorados que está previsto abranger 3000 cientistas. As bolsas de investigação são pagas apenas durante 12 meses e não incluem direitos de protecção laboral em caso de doença, por exemplo. O Governo quer transformá-las em contratos de trabalho com o novo regime legal. O diploma abrange, porém, apenas os bolseiros de pós- doutoramento, que totalizam 601 pessoas (16,4% dos bolseiros existentes). De fora ficam os bolseiros de doutoramento (2037 investigadores), bem como as

bolsas de gestão de ciência

público, por terem saído para

a

reforma e para o privado.

falta mais dois mil polícias, que

Ainda assim, há carências em algumas especialidades e em

se juntariam aos quase 21 mil que já existem. O sindicato quer ainda um reforço substancial

zonas do país menos atractivas.

A

contabilização oficial indica

dos civis ao serviço da PSP. A Associação dos Profissionais da Guarda tem idêntica posição:

fala num défice de cinco mil militares, num universo composto hoje em dia por 21 mil homens e cerca de um milhar de mulheres. O facto de

que faltam mais de 600 médicos de família. O próprio Governo estimou que nas especialidades

que faltam mais de 600 médicos de família. O próprio Governo estimou que nas especialidades hospitalares faltassem mais de 700 médicos, surgindo a medicina interna à cabeça. No caso dos enfermeiros, mesmo com as contratações recentes, os centros de saúde e hospitais precisariam de mais 30 mil profissionais para chegar à média da OCDE, indicam os dados da Ordem dos Enfermeiros e do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses. Já a Federação

o

rácio agente de segurança por

cidadão ser em Portugal superior ao de outros países não faz desarmar os dirigentes sindicais, que dizem — e nisso não são contrariados pela tutela — que existem demasiados polícias e guardas adstritos a tarefas não- policiais. Ana Henriques

e de técnico de investigação.

A

exclusão destes três tipos

Nacional dos Sindicatos dos

6 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

POLÍTICA

Só Oeiras e Amadora querem participar na gestão da Carris

Das cinco câmaras, além de Lisboa, onde

a

Carris opera, só duas gostariam de gerir

a

transportadora pública. Para Odivelas,

a

opção actual é mais satisfatória. Loures

e

Almada respondem sem responder

Transportes

Sónia Sapage

A Carris não é só Lisboa. Também é

Amadora, Almada, Odivelas, Oeiras

e Loures, os cinco concelhos que são

abrangidos pela rede das suas car- reiras. Numa altura em que o Parla- mento se prepara — por iniciativa do PCP, que apresentará propostas de alteração —, para apreciar o diplo- ma que decretou a municipalização da gestão da empresa, o PÚBLICO perguntou aos cinco municípios se teriam interesse em “entrar” na Car- ris. Só Oeiras e Amadora, presididas por um independente e por uma so- cialista, admitiram a hipótese. O “sim” de Paulo Vistas, eleito presidente da Câmara de Oeiras em 2013, depois de ter assumido o mandato na sequência da prisão de

Isaltino Morais, foi claro. “A Câmara Municipal de Oeiras está disponível para participar na gestão da Carris, se isso se traduzir numa melhoria significativa dos serviços prestados

à população e numa melhor articu-

lação com os restantes sistemas de transporte”, assume o autarca. Para Carla Tavares, presidente da Câmara da Amadora, apesar de ser uma grande “mais-valia a entrega da gestão da Carris à Câmara de Lisboa”, por se manter a empresa na esfera pública, ao invés de ser privatizada, faz todo o sentido que a Amadora ve- nha a ter “um papel efectivo na ges- tão conjunta dos serviços de trans- portes públicos rodoviários”. Essa possibilidade, lembra a socialista, decorre da legislação em vigor e das regras comunitárias, de acordo com as quais “em 2018/2019 terão de ser lançados concursos públicos para os

transportes públicos rodoviários, pe-

lo que a Carris deverá fazer parte da

solução a encontrar ao nível da Área Metropolitana de Lisboa e, em par- ticular, no concelho da Amadora”. Em Odivelas, onde tanto a Carris como o Metro operam, Hugo Mar- tins (PS) mostra-se satisfeito com a

solução encontrada pelo Governo, incluindo com o plano de investi- mentos apresentado, e com a polí-

tica tarifária proposta. “Lisboa não

é uma ‘ilha’”, defende o autarca.

“Muitos dos utentes da Carris tam-

bém são munícipes dos concelhos limítrofes”. As respostas de Almada e Loures são mais vagas. “Trata-se de maté- ria demasiado importante em que a avaliação em curso e o interesse dos almadenses desaconselham respos- tas gerais, abstractas, descontextu- alizadas e a destempo em torno de ‘eventual’ cenário”, diz Joaquim Ju- das, presidente da Câmara de Alma- da (PCP), ao PÚBLICO. Sobre a disponibilidade da autar- quia de Loures para participar na gestão da Carris, Bernardino Soares

(PCP), em declarações à SIC, na quin- ta-feira à noite, afirmou que “é ma- téria que não está em cima da mesa neste momento e qualquer proposta nesse sentido teria de ser avaliada no momento em que fosse avaliada

e nas condições em que fosse apre-

sentada”. Ainda assim, Bernardino Soares defendeu que os municípios afectados por decisões relacionadas com alterações da rede de transpor- tes públicos devem ser envolvidos. Ontem, Pedro Santana Lopes re- feriu-se ao assunto da Carris na sua crónica no Correio da Manhã, dei-

da Carris na sua crónica no Correio da Manhã , dei- A municipalização da gestão da

A municipalização da gestão da Carris entrou em vigor na quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Falta parecer prévio e vinculativo O presidente da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT),
Falta parecer prévio e vinculativo
O presidente da Autoridade
da Mobilidade e dos
Transportes (AMT), João
Carvalho, confirmou
ao PÚBLICO que ainda
não recebeu qualquer
documento sobre as
alterações ao contrato
de concessão da Carris
para poder emitir um
parecer que a lei diz ser
prévio e vinculativo.
João Carvalho esclarece
que a mudança de
preços já configuram alterações
contratuais. O líder da AMT
tem indicações de que haverá
esse tipo de alterações e
refere que tem havido diálogo
com o Governo para o envio
da documentação. Do lado
da autarquia, o assessor de
Fernando Medina garante ao
PÚBLICO que, “quando houver
alterações contratuais, a
Autoridade da Mobilidade e dos
Transportes será informada”.
Relativamente a descontos em
passes sociais, por exemplo,
o mesmo assessor afirma
que, “como se trata de um
acto definido por decreto do
Governo, a AMT não tem de
se pronunciar”. O deputado
do CDS Hélder Amaral, que
questionou a legalidade da
transferência da Carris para a
Câmara de Lisboa, diz “estranhar
como é que o primeiro-ministro
e Fernando Medina anunciam
um novo serviço e descontos
sem instrumentos legais”.
O que a câmara explica, em
relação às rotas já anunciadas
propriedade não carece
de parecer, mas novas
rotas ou descontos nos
(o que configura alterações ao
contrato), é que a informação
será enviada em breve à
reguladora. S.R.

xando conselhos e recados. “A opo- sição não deve desejar, nesta matéria, crises na maioria e os partidos que compõem a maioria não devem ser egoís- tas na defesa da posições próprias de cada força política”, escreveu. Santana, para quem os transportes públi- cos — como o Metro

ou a Carris — devem car sob a alçada da Autoridade Metropo- litana, numa gestão in- tegrada, como “Madrid faz há 30 anos”, avisa:

“Não deve haver política

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 7

PATRICIA MARTINS

• Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 7 PATRICIA MARTINS nem voluntarismo pessoal em ano

nem voluntarismo pessoal em ano de eleições que secundarize a lógi- ca do bom senso necessário para a construção de um quadro que deve

regular esta gestão para as próximas décadas”. O provedor da Santa Ca- sa da Misericórdia de Lisboa chama

a atenção para o facto de 2017 ser

ano de eleições autárquicas e de os interesses dos utentes poderem não se compatibilizar com politiquices. Faltam ainda 20 dias para o Parla- mento debater e votar as apreciações parlamentares sobre a municipali- zação da Carris. Mas o primeiro-mi- nistro decidiu e está decidido (e até apresentado publicamente em jeito

de inauguração). “A transferência es-

tá hoje consumada, está feita”, disse

António Costa a 1 de Fevereiro.

sonia.sapage@publico.pt

o
o
António Costa a 1 de Fevereiro. sonia.sapage@publico.pt o A oposição não deve desejar, nesta nesta matéria,

A oposição não

deve desejar, nesta nesta

matéria, crises s na maioria

Pedro Santana Lopes Provedor da Misericórdia de Lisboa

Teria interesse em participar na gestão da Carris?

 

As respostas dos autarcas de Almada, Amadora, Loures, Odivelas e Oeiras

 
e as regras comunitárias, em

e

as regras comunitárias, em

e as regras comunitárias, em

2018/2019 terão de ser lançados concursos públicos para os transportes públicos rodoviários, pelo que a Carris deverá fazer parte da solução a encontrar ao nível da Área Metropolitana de Lisboa. Nesse sentido, faz todo o sentido para a Câmara da Amadora que o serviço da Carris faça parte de uma solução intermunicipal, isto é, que o nosso município tenha um papel efectivo na gestão conjunta dos serviços de transportes públicos rodoviários. Será através do

Hugo Martins

Presidente da Câmara de Odivelas (PS)

A

solução encontrada para

Carris é muito satisfatória, permitindo manter a empresa

a

na esfera pública. É importante realçar que a entrega da Carris

   

à

Câmara Municipal de Lisboa

Carla Tavares

Presidente da Câmara da Amadora (PS)

respostas gerais, abstractas, descontextualizadas e a destempo em torno de “eventual” cenário.

possibilita que esta se mantenha como “operadora interna”. Caso contrário, estaria sujeita

a

um concurso de concessão,

 

correndo o risco de ser entregue

É

uma mais-valia a entrega da

diálogo intermunicipal que vão ser encontradas as melhores soluções que sirvam os nossos munícipes

Bernardino Soares

Presidente da Câmara

uma entidade privada. Temos plena confiança na capacidade da Câmara Municipal de Lisboa em assumir, com qualidade e eficácia, a gestão da Carris, vendo com muito agrado quer o plano de investimentos apresentado quer

a

gestão da Carris à Câmara de Lisboa, porque se mantém na esfera pública, ao invés de ser privatizada, com uma gestão mais próxima dos munícipes. É também um passo importante para a mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa. Estando a decisão e a gestão mais próximas, é uma grande mais-valia para os municípios. Na Amadora, a Carris tem um peso significativo

nos transportes públicos rodoviários, nomeadamente com uma forte presença do seu serviço junto a dois dos

mais importantes interfaces do concelho (Damaia e Reboleira),

e

o serviço público de transportes.

de Loures (PCP)

Paulo Vistas

Há muitas formas de resolver esse problema, é preciso é

que haja vontade política para

o fazer. Nós estamos abertos

a

política tarifária proposta,

Presidente da Câmara de Oeiras (ind.)

Presidente da Câmara de Oeiras (ind.)

a discutir as soluções no

sentido de garantir que haja, de facto, participação [nas decisões]. Quando se decide

que uma carreira que passa por vários municípios tem menos autocarros ou mais autocarros,

qual presta uma particular atenção às crianças e aos reformados.

a

qual presta uma particular atenção às crianças e aos reformados. a

afectados por essa decisão possam ser envolvidos nela.

preciso] que os municípios

 

[A

participação na gestão]

o

que evidencia que muitos

 

é

matéria que não está em

dos seus utentes não são só de Lisboa mas também munícipes dos concelhos limítrofes. Existindo um excelente relacionamento institucional

entre as autarquias de Lisboa

Sim, a Câmara Municipal de Oeiras está disponível para

cima da mesa neste momento

e

qualquer proposta nesse

 

participar na gestão da Carris, se isso se traduzir numa melhoria significativa dos serviços prestados à população

sentido teria de ser avaliada

Este assunto foi, naturalmente, por diversas vezes, conversado com a Câmara Municipal de Lisboa e com o presidente Fernando Medina. Lisboa não é uma “ilha”, muitos dos utentes da Carris também são munícipes dos concelhos limítrofes e por isso temos a garantia firme de que a Câmara Municipal de Lisboa nada fará de costas voltadas para os restantes municípios e que Odivelas será sempre ouvida nas decisões que, de futuro, serão tomadas e que tenham impacto no nosso concelho.

no momento da avaliação e nas condições em que fosse apresentada. [Declarações

e

da Amadora, fulcral na

e

numa melhor articulação

prestadas à SIC Notícias]

intermunicipalidade dos transportes, estamos convictos de que o funcionamento da Carris continuará a ter em conta as necessidades dos nossos munícipes, sendo o município da Amadora chamado a participar sempre que a Câmara de Lisboa necessitar de tomar

decisões que tenham impacto no nosso território. De acordo com a legislação em vigor

com os restantes sistemas de transporte.

Joaquim Judas

Joaquim Judas

Presidente da Câmara de Almada (PCP)

Trata-se de matéria demasiado importante em que a avaliação em curso e o interesse dos almadenses desaconselham

8 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

POLÍTICA

Marcelo “feliz” com hipótese de “pacto de regime” sobre descentralização

No dia em que o conselho geral da ANMP aprovou por unanimidade posição favorável à descentralização, o Presidente afirmou que o Governo poderá anunciar “qualquer coisa” nas próximas semanas

Presidência Leonete Botelho

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-se ontem “muito feliz” com a possibi- lidade, cada vez mais próxima, de haver um “consenso de regime en-

tre forças partidárias independentes que à partida tinham posições muito diferentes” em matéria de descen- tralização. No dia em que o conse- lho geral da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) aprovou por unanimidade solicitar ao Governo o aprofundamento da descentralização de competências para as autarquias, o Presidente da República afirmou-se convicto de que “o Governo poderá anunciar qualquer coisa nas próximas sema- nas”, como pedira, e de que poderá “haver votação no Parlamento até ao fim deste mês ou no início do pró- ximo mês, muito longe das eleições autárquicas deste ano”. O chefe de Estado falava no final do encontro que promoveu com os presidentes de câmara de todo o país

a pretexto a comemoração dos 40

anos do poder local democrático — que, disse na intervenção aos autar-

cas, “só valem a pena se os próximos 40 forem melhores ainda”. Sem falar de descentralização no discurso — não era preciso, até por- que tem repetido os apelos para um “acordo de regime” nesta reforma —,

o chefe de Estado pediu aos autarcas

para olharem para o futuro com “o modo de ser autárquico, que é frater-

nal”, porque, independentemente

dos partidos ali representados, “aqui-

lo que os une é muito mais importan-

te que aquilo que os separa”. O optimismo de Marcelo era acompanhado pelo do presidente da ANMP: “Nós estamos prontos, temos total disponibilidade para aju- dar a encontrar soluções”, afirmou Manuel Machado aos jornalistas, à

margem do encontro. “As negocia- ções estão a ser construtivamente desenvolvidas, temos tido um rela- cionamento construtivo com todos os órgãos de soberania, incluindo o Presidente da República”, disse Ma- chado, sublinhando que o chefe de Estado tem ajudado com os “estímu-

MIGUEL MANSO
MIGUEL MANSO

Presidente convidou todos os presidentes de câmara do país para Belém, para comemorarem os 40 anos de poder local democrático

Presidente desvaloriza pré-anúncio da Fitch

O Presidente desvalorizou ontem o facto de se ter antecipado ao fecho dos mercados, como mandam

as regras europeias, quando anunciou que a agência Fitch tinha mantido o rating de Portugal. “Os operadores já sabiam desde ontem que não havia novidade, eu limitei-me a dizer que não havia novidade”, afirmou Marcelo aos jornalistas no final do encontro com os autarcas. O Presidente anunciou

almoço em casa de um casal

de antigos sem-abrigo, quando

a

revelada às 18h. “Os operadores anteviam o que se ia passar e eu considerei que era positivo haver a expectativa. As outras duas agências também se vão pronunciar e eu desde já digo que a expectativa que tenho

notação da agência só foi

é

que não haja um piorar do

juízo em relação a Portugal

e

haja um compasso de

espera, aguardando a posição

a avaliação da Fitch ao início da tarde, à entrada para um

das instituições europeias”, acrescentou.

los” e o “esforço de consensualizar soluções”. Consenso que diz ser fundamen- tal: “Um processo de transferência de competências de legislação inovado- ra para o poder local é de enorme im-

portância que seja consensualizada para ter durabilidade suficiente, para serem leis boas e bem estudadas”. “Estou esperançado que vai haver uma solução bastante equilibrada, consolidada e eficaz”, garantiu. E especificou quando disse ter “boas expectativas de que, atempadamen-

te antes das eleições autárquicas, se conclua o processo legislativo de for-

ma a que os próximos autarcas elei- tos saibam com o que contam”. Manuel Machado disse ainda que a ANMP espera que esta reforma seja implementada até ao fim da legisla-

tura, ou seja, até ao Outono de 2019,

o que representa uma antecipação

em dois anos no período estimado pelo Governo. Questionado sobre a ausência de propostas sectoriais da parte do Go- verno, que tem sido criticada por al- guns autarcas, o também presidente da Câmara de Coimbra desdramati- zou. “Havendo uma lei-quadro com amplo consenso, um compromisso

político na Assembleia da República e

a garantia do Governo de que, quan-

do estivermos na discussão final, es- tarão consolidados os decretos-leis nas áreas sectoriais de modo a todos confluírem no mesmo sentido, acre- dito que seja possível e sendo possí- vel é politicamente adequado”, disse.

leonete.botelho@publico.pt

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 9

Distritais aplaudem oposição de Passos à TSU

Partidos Sofia Rodrigues

Numa reunião com dirigentes distritais, líder do PSD lamentou que haja tantas notícias sobre candidatos para Lisboa

Os dirigentes distritais do PSD ex- pressaram apoio ao presidente do partido pela sua oposição à descida da taxa social única (TSU), acorda- da em Concertação Social, mas sem apoio à esquerda no Parlamento. Nu- ma reunião, nesta quinta-feira, na se- de do partido, os sociais-democratas falaram muito sobre autárquicas. E até Passos Coelho desabafou sobre Lisboa: ajudava se todas as semanas não houvesse notícias sobre pessoas convidadas. Na quinta-feira, o jantar de Passos Coelho com os líderes distritais, que se prolongou até à uma e meia da manhã, serviu para falar das autár- quicas mas também de política na- cional. Ao que o PÚBLICO apurou, houve um sentimento generalizado de que Passos Coelho esteve bem na posição contra que assumiu sobre a descida da TSU, fazendo com que os partidos que apoiam o Governo se comprometam mais uns com os ou- tros. Uma ideia que consideraram ter ficado reforçada com a declaração posterior do primeiro-ministro de que o PSD não faz falta. Na descrição de uma fonte, os dirigentes distritais mostraram satisfação por terem um líder que também sabe fazer oposi- ção, se quiser. Quanto às autárquicas, as distritais fizeram o ponto de situação sobre a escolha e apresentação de candida- tos. E foram referidos alguns proble- mas ainda por ultrapassar em coli- gações com o CDS, como o da Meda (Guarda) e de Santarém. Em Vila Real já é certo que não haverá nenhuma aliança com o CDS no distrito, ao contrário do que aconteceu em 2013. Em Lisboa, onde ainda não há can- didato, o líder do partido lamentou os muitos convites que têm sido noti- ciados e que não ajudam a trabalhar com serenidade. Um desses nomes foi o da vice-presidente Teresa Mo- rais. A deputada foi, no entanto, de- safiada a ser candidata em Sines.

srodrigues@publico.pt

ENRIC VIVES-RUBIO
ENRIC VIVES-RUBIO

Alterações reivindicadas implicam alteração estatutária

Simpatizantes do PS querem intervir mais no partido

Partidos Margarida Gomes

Promotores de petição online esperam recolher dez mil assinaturas e fazem apelo ao secretário-geral dos socialistas

Simpatizantes do PS lançaram esta

semana um apelo ao secretário-geral, António Costa, através de uma peti- ção online, para que o partido pro- ceda a uma alteração estatutária com vista à regulamentação da figura de simpatizante com direitos e deveres previamente estabelecidos. “Nós, cidadãos portugueses, pre- ocupados com a elevada abstenção que se tem verificado nos últimos anos em particular e solidários com

a causa socialista, com a qual nos

identificamos plenamente, pedimos

que se digne analisar da possibilida- de de o Partido Socialista proceder

à alteração estatutária, de modo a

permitir a nossa inscrição como seus simpatizantes, com direitos e deve- res previamente estabelecidos”, es- creveram. Luís Correia, um dos mentores da petição, diz que, apesar de a figura de simpatizante estar prevista nos estatutos, não tem competências de- finidas, nem direitos nem deveres. “Não há nenhum vínculo a nível de decisões, nem de participação acti- va”, constata. Adianta que “o que se pretende é fazer um enquadramento correcto do estatuto de simpatizante, atribuindo competências para que

as pessoas possam, ainda de uma maneira livre, participar em actos de decisão e governação de ordem interna e também no caso de deci- sões de âmbito global”. Apoiante de António Costa, a quem deixa elogios pela “inteligên- cia” e pelo “trabalho meritório na li- derança do partido”, o simpatizante não tem dúvidas que, enquanto os partidos não sofrerem um “abanão” para se libertarem das “lógicas apa- relhísticas”, os “jovens vão continuar a distanciar-se da política e os níveis de abstenção em actos eleitorais vão continuar a aumentar”. Assumindo-se sobretudo como simpatizante dos “ideais socialistas”, Luís Correia reconhece que as altera- ções profundas não se fazem de uma só vez, até porque a “tradição e a his- tória são valores muito enraizados e que devem de alguma forma ser mi-

nimamente respeitados”. Acredita, porém, que o PS será sensível a esta petição. “António Costa, que é uma pessoa muito inteligente, sabe que

determinadas situações são incontor- náveis e que é apenas uma questão de tempo”, afirma, acrescentando que esta iniciativa não é contra os objectivos do secretário-geral do PS, até porque o que se pretende é uma direcção mais eficaz, legitimada pelo maior número de apoiantes”. Os promotores desta iniciativa, pa- ra quem a “mudança é o segredo do sucesso”, querem ver a petição assi- nada por 10 mil pessoas e só depois será enviada ao líder do PS, António Costa.

margarida.gomes@publico.pt

POLÍTICA

Socialistas propõem descida dos salários dos administradores dos reguladores

Parlamento

Ana Brito

Salários de administradores das entidades reguladoras não devem ir além de 12 mil euros. Banco de Portugal e CMVM são excepções

O PS entregou ontem na Assembleia

da República uma proposta de alte-

ração à lei-quadro das entidades re- guladoras que visa uma “redução generalizada” dos salários dos ad- ministradores destas entidades. Pelas contas do grupo parlamentar, “no máximo, os ordenados dos admi- nistradores não deverão ultrapassar um valor à volta dos 12 mil euros”, revelou ao PÚBLICO o deputado Luís Moreira Testa, que coordena o grupo de trabalho criado na Comissão par- lamentar de Economia para analisar

os projectos de alteração à lei-quadro

das entidades reguladoras. Até agora, apenas o Bloco de Es- querda, Os Verdes e o CDS tinham entregado projectos de alteração à lei visando a redução salarial, mas o PS entregou hoje uma proposta que também será votada na próxima se- mana. Os montantes estabelecidos como tecto pretendem reduzir o ní- vel salarial, mas “salvaguardar que as entidades reguladoras vão conseguir contratar os profissionais altamente especializados de que necessitam”, frisou Moreira Testa. Os ordenados dos administradores das diversas en- tidades reguladoras oscilam entre 14 mil e 16 mil euros mensais.

reguladoras oscilam entre 14 mil e 16 mil euros mensais. Votação esperada para este mês Na

Votação esperada para este mês

Na proposta socialista, os venci- mentos não poderão ultrapassar em mais de 30% o nível máximo da tabe- la de remuneração da função públi- ca (o 115), que está actualmente nos 6350,68 euros. A este valor acrescem despesas de representação que não poderão ir além de 40% do valor global da remuneração, explicou o parlamentar. Estas alterações, que não se apli-

cam aos actuais titulares dos cargos, mas a quem assumir novos mandatos (estão na calha, por exemplo, novos líderes para a ERSE e para a Anacom, cujos actuais presidentes terminam em breve os seus mandatos), deverão ser aprovadas “o mais rapidamente possível”. Deixam de fora o Banco de Portugal e a Comissão do Merca- do dos Valores Mobiliários (CMVM), assim como a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), que “tem um nível salarial mais baixo e não é encarada como um verdadeiro regulador”,

adiantou. Já os outros dois têm be- neficiado de um estatuto de excep- ção por se englobarem num quadro regulatório europeu. Sobre os projectos de alteração do Bloco, d’Os Verdes e do CDS Luís

Moreira Testa frisou que “há diversas coisas que aproximam” os vários gru- pos parlamentares. “As diferenças são mais de fórmulas do que de con- teúdo”, pelo que o deputado acredi- ta haver espaço para consensos. En- quanto o BE pretende limitar o orde- nado dos administradores ao de um ministro, o CDS propõe como tecto

o vencimento do primeiro-ministro

(cerca de seis mil euros). Já Os Verdes propõem como tecto máximo o ven- cimento mais alto de cada entidade, acrescido de 40% para despesas de representação. O objectivo é que as propostas se-

jam votadas no grupo de trabalho na próxima semana e que, depois de a Comissão de Economia aprovar o texto substitutivo, este seja votado em plenário, ainda durante este mês. Outra alteração proposta passa por exigir que a comissão de vencimen- tos (que continuará a ser composta por um membro escolhido pelas Fi- nanças, outro pelo ministro da área correspondente e um representante do próprio regulador) apresente ao Governo e Parlamento “um relatório devidamente fundamentado” sobre

a remuneração proposta.

ana.brito@publico.pt

10 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

POLÍTICA

PÚBLICO & NOTÓRIO

O PSD está em contramão com os portugueses”

Manuel Caldeira Cabral Ministro da Economia

“Não há outra oportunidade”

Paulo Macedo Presidente da CGD

 
 

Bastidores

 

Um social- -democrata fotógrafo de Jerónimo

Único Digital; Assuntos Económicos e Monetários; Emprego e Solidariedade; Energia; Ambiente; Negócios

Estrangeiros; Mercado Único

 

Protecção do Consumidor; Comércio Internacional;

e

Estava no meio de alentejanos de Elvas que iam conhecer o Parlamento, naquelas visitas organizadas das escolas para explorarem a “Casa da Democracia”. Eis que lhes surge à frente o político que

Justiça e Direitos Cívicos; Novas Tecnologias; Saúde Pública; Desenvolvimento Regional; Investigação & Inovação; Transportes; Direitos das Mulheres e Igualdade de Género. São muitas categorias,

é

Jerónimo de Sousa. E como não é só Marcelo que gosta de tirar fotografias, lá encostou Jerónimo a cabeça a dois estudantes. Tudo normal até aqui. São conhecidas as potencialidades fotogénicas (se calhar mais telegénicas, a dançar) do secretário-geral do PCP, mas o Público & Notório ficou sem saber se na fotografia não ficou assim com um ar mais alaranjado. É que o fotógrafo de serviço foi o homem que estava junto ao elevador, José Matos Rosa. Também ele alentejano, mas secretário-geral do PSD. L.V.

o ídolo de muitos do grupo:

E o Óscar do cibermercado comum vai para

não são? E cada uma tinha três nomeados. A má notícia é que houve apenas um português entre estes 54 eurodeputados.

A

boa é que ganhou na sua

categoria. Foi o socialista Carlos Zorrinho, uma fera na defesa do mercado único digital. A.V.

Carreiras e o “rodízio das secções”

O

coordenador autárquico

nacional do PSD, Carlos Carreiras, está debaixo de fogo amigo, acusado de inabilidade política na gestão do processo. Indiferente, o autarca de Cascais parece empenhado em fazer o “rodízio das secções”, fazendo o jogo do aparelho do partido, mesmo quando significa desperdiçar

 

candidatos que poderiam ajudar

A

revista mensal The Parliament

o

partido. E qual é a vantagem

Magazine, dedicada ao

desta estratégia? Se o resultado

Parlamento Europeu, já atribuiu os prémios com que distingue os eurodeputados que se evidenciaram em 18 áreas:

das autárquicas for mau para o PSD, como muitos vaticinam, Carreiras não fica sozinho.

Contará com o respaldo político das secções do partido. No PSD

Agricultura e Desenvolvimento Rural; Cultura, Educação e Desporto; Desenvolvimento

há quem diga: “Volta, Jorge

Moreira da Silva, que estás

e

Cooperação; Mercado

perdoado!” M.G.

MIGUEL MANSO
MIGUEL MANSO

Caso da semana Matam-na mas a CPIRCGDGB não morre

CPIRCGDGB. O que nasce com um nome destes tarde ou nunca se endireita e, a dois meses do fim do prazo de vida, a Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco (CPIRCGDGB) foi vítima de mais um golpe (quase) fatal. A CPIRCGDGB tem mostrado que é como as centopeias: pode ser muito golpeada, mas rabeia, vai sobrevivendo em modo morto- vivo. Esquerda e direita não se entendem nem sobre como deve ser feito o resto da discussão nem quanto a saber se já há material suficiente para perceber o que se passou no banco público desde 2000. Resultado: mais troca de acusações durante a semana. PSD e CDS acusam os três partidos que apoiam o Governo de “boicote” ao apuramento da verdade e de “construírem um novo muro” que não permite a transparência. Os três partidos da esquerda, sintonizados, responderam que a CPIRCGDGB não pode servir de “palco político” ao PSD. PS, PCP e BE chumbaram todas as audições pedidas pela direita; entre estas, algumas até

tinham sido colocadas na lista pelo PCP ou pelo BE. O caso mais sonante foi o de Armando Vara. Do ex-administrador da Caixa pretendia-se sobretudo que esclarecesse a sua relação com a CGD e o BCP e os créditos concedidos a empreendimentos como Vale de Lobo. Vara pediu para ser ouvido para “salvaguardar” a sua “dignidade pessoal e profissional”. A esquerda ignorou o pedido e chumbou esta e outras audições. O PSD e o CDS agendaram-nas potestivamente. São 14. A comissão de inquérito que a esquerda nunca quis ainda não morreu, mas anda a sangrar e já ninguém acredita que saia dali um relatório consensual, como no caso do BES. Entretanto, o BE decidiu apresentar as suas próprias conclusões. PSD e CDS acusam- -no de estar a “condicionar”

o trabalho do relator, que

é socialista. Com tantas

divergências, acusações, trocas

e

baldrocas dificilmente haverá

um relatório que agrade a gregos

e

troianos, à esquerda e à direita.

E

ainda faltam dois meses para

que acabe. 60, 59, 58, 57

L.V.

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 11

SOCIEDADE

Partículas radioactivas da central de Almaraz chegam ao rio Tejo

Águas registam níveis de trítio superiores às detectadas noutros rios do país, segundo o Laboratório de Segurança Radiológica. A 100 quilómetros da fronteira, o caudal tem mais 80% deste tipo de partículas

Nuclear

Lurdes Ferreira

Os efeitos do funcionamento da central nuclear de Almaraz, em

Espanha, embora dentro dos parâ- metros considerados normais para

a vida humana, sentem-se em Por-

tugal, nas águas do rio Tejo, é o que mostram os resultados da vigilância radiológica ambiental do país a cargo do Laboratório de Protecção e Segu- rança Radiológica (LPSR). As concentrações de partículas radioactivas, resultantes do funcio- namento de centrais nucleares (cé- sio, estrôncio e trítio), “são muito baixas [a nível nacional] e situam-se frequentemente abaixo dos valores da actividade mínima detectável, com excepção do rio Tejo, onde os valores de trítio são superiores ao valor normal, mas sem significado do ponto de vista dos efeitos radio- lógicos”, destacam os autores do úl- timo relatório anual sobre os níveis de radiação ambiental a que a po- pulação portuguesa está exposta. O documento foi divulgado no ano pas- sado, é relativo ao ano de 2014, e é o mais recente com o retrato do país. Os dados da recolha mensal de amostras de água em Vila Velha de Rodão, Valada do Ribatejo e no rio Zêzere e da recolha anual no Douro, Mondego e Guadiana, indicam, por exemplo, que a água do rio Tejo che- ga a Valada do Ribatejo com cerca de 80% menos de trítio do que quando passa em Vila Velha de Rodão, a lo-

calidade portuguesa mais próxima da central. Pelo caminho, o caudal do rio vai diluindo a concentração destas partículas radioactivas, por isso ligadas à actividade da central espanhola que precisa das águas do rio internacional para arrefecer os seus reactores. Face aos níveis de trítio em causa (1,5 a 9,8 becquerels por litro em Vila Velha de Ródão e 0,8 a 5,6 em Valada do Ribatejo), o director adjunto do LPSR, João Garcia Alves, explica que

o

chamado valor paramétrico para

o

trítio estabelecido na lei de água

para consumo humano é de 100 be- cquerels por litro. Os níveis regista- dos, neste caso, “são cerca de uma a

A central nuclear de Almaraz divide actualmente os governos de Portugal e Espanha por causa
A central nuclear de Almaraz divide actualmente os governos
de Portugal e Espanha por causa dos planos para estender
Talavera
de la Reina
o tempo de vida de uma instalação industrial que tem acumulado
incidentes. Lisboa queixou-se a Bruxelas e os ambientalistas
Plasencia
Malpartida
espanhóis queixaram-se a Madrid, colocando-se
ao lado de Portugal
Navalmoral
de la Mata
Torrejoncillo
de Plasencia
Idanha-a-Nova
Segura
Castelo Branco
El Puente
del Arzobispo
Vila Velha
de Ródão
Alcântara
Garrovillas
Brozas
Arroyo de la Luz
Central de Almaraz
Cáceres
Rio Tejo
Nisa
Castelo de Vide
Santarém
Portalegre
Valada do Ribatejo
ESPANHA
PORTUGAL
Lisboa
Fonte: PÚBLICO

Lei da água

A lei da água para consumo humano, em vigor desde o ano passado, transpôs

para o direito nacional a directiva Euratom de 2013. Estabelece “que o controlo das substâncias radioactivas na água destinada ao consumo humano seja integrado nos processos já em rotina nas entidades gestoras dos sistemas de abastecimento” e, para o caso específico do controlo do trítio, passa a considerar os dados resultantes do programa de monitorização nacional ambiental do grau de radioactividade, levado a cabo pelo Laboratório de Segurança Radiológica. Não são abrangidas as

águas minerais naturais, de

nascente e as que forneçam sistemas particulares com menos de 50 pessoas.

duas ordens de grandeza inferiores ao valor paramétrico”, sublinha. A legislação citada é a de um diploma de Junho de 2016.

Valores registados

No conjunto dos grandes rios portu- gueses os valores medidos no Dou- ro, Mondego, Guadiana e Zêzere são muito semelhantes entre si, tendo es-

tes como locais mais sensíveis as bar- ragens de Castelo de Bode e Aguieira:

a primeira abastece a região de Lis-

boa, a segunda tem ainda a pressão da herança ambiental das antigas mi-

nas de urânio. Já em relação ao Tejo a situação é outra. Os valores de césio

e estrôncio detectados são semelhan-

tes aos medidos nos outros rios, mas quanto aos valores de trítio em Vila Velha de Ródão e Valada do Ribatejo, são ligeiramente superiores. Dois outros dados: o efeito da cen- tral sente-se mais na água do Tejo do

que nos sedimentos do seu leito e os teores de trítio notaram-se ligei- ramente menos do que nos anos anteriores. O programa de monitorização ra- diológica ambiental e a consequente publicação de relatórios anuais (com dois anos de diferimento em relação

anuais (com dois anos de diferimento em relação Tejo internacional tem partículas às análises) insere-se

Tejo internacional tem partículas

às análises) insere-se nos compromis- sos do Portugal e das recomendações da Comissão Europeia/Comunidade Europeia da Energia Atómica (conhe- cida como Euratom) e está a cargo do Instituto Superior Técnico desde 2012, ano em que integrou o Institu- to de Tecnologia Nuclear, com o La- boratório de Protecção e Segurança Radiológica. Portugal tem três programas ac- tivos de vigilância para as suas três fontes de risco radioactivo de origem humana — antigas minas de urânio,

reactor nuclear de investigação de Sacavém, para além da central de Al- maraz, a cerca de 100 quilómetros da fronteira portuguesa. O último

relatório lembra, aliás, que o rio Te- jo conta na sua zona de influência no troço espanhol com mais do que uma central nuclear. A outra fica em Guadalajara, Trillo.

A presença destas centrais justifica,

para o laboratório, “um programa de monitorização mais detalhado, que inclui um maior número de locais e maior frequência de amostragem, ti-

pos de amostras (água, sedimentos e

plantas aquáticas) e de análises”. Vila Velha de Ródão foi seleccionado “co- mo local de amostragem representa- tivo para águas de superfície por ser o local no rio Tejo mais próximo da fronteira com Espanha”.

A monitorização feita no ano de

2014 concluiu que, no conjunto do país, “a população portuguesa resi- dente não esteve exposta a níveis de radioactividade significativamente mais elevados do que os do fundo radioactivo natural, não sendo neces- sário recomendar qualquer medida de protecção radiológica”.

lurdes.ferreira@publico.pt

12 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

SOCIEDADE

Mãe obrigada a pagar a instituição para ver filho que lhe foi retirado

Centros que fazem acompanhamento de encontros vigiados entre pais e crianças em perigo são habitualmente financiados pela Segurança Social. Mas há excepções:

neste caso mãe paga 60 euros de cada vez

Protecção de crianças Ana Dias Cordeiro

Uma situação “atípica” e que “não es-

tá prevista na lei” — assim é descrito,

por juízes e profissionais da protec- ção de crianças e jovens, o caso de uma mãe que vai ter de pagar para ver um dos dois filhos, gémeos, que lhe foram retirados há cinco anos, quando tinham apenas quatro me- ses. Uma das crianças foi entregue aos tios paternos. A outra está com uma irmã mais velha. Um dos pro- cessos corre no Tribunal de Família de Sintra e o outro está no Tribunal de Família de Lisboa. São processos de promoção e pro- tecção, que não podem ser consulta- dos pelo PÚBLICO por envolverem crianças, em que foi determinada uma medida de apoio junto de um familiar. Num dos casos, a mãe não vê o filho há mais de dois anos. No outro, há mais de três. O encontro com este último, marcado para os próximos dias na associação ComDig- nitatis, uma instituição particular de solidariedade social (IPSS) de Mafra, resultou de uma decisão judicial. E terá sido decidido tendo como refe- rência o superior interesse da crian- ça, independentemente das razões que motivaram a retirada das crian- ças à mãe e, neste caso, também ao pai, separado da progenitora.

No ano passado, a juíza do Tri- bunal de Sintra solicitou o acompa- nhamento da visita e, na resposta enviada, a ComDignitatis disse es- tar “disponível” por que tem “licen- ciamento para o fazer”. No entanto, acrescenta, o protocolo que a insti- tuição tem com a Segurança Social “não abrange esta resposta, o que implica um custo para a execução do acompanhamento”.

Uma hora, 60 euros

A reunião entre mãe e filho, neste

caso, pressupõe a presença de dois técnicos, com um encargo de 30 eu- ros por hora por cada técnico. O en-

contro de uma hora teria assim um encargo total de 60 euros. A ComDig- nitatis explica que esse encargo se- rá acrescido de 25 euros por técnico por hora, “no caso de serem precisas

reuniões prévias de preparação da

mãe e da criança”, lê-se na carta en- viada em Novembro de 2016 à juíza que notifica as partes (neste caso, a mãe) para que digam se concordam.

A carta surgiu depois de a um reque-

rimento feito pela mãe para ver os filhos dez meses antes, em Janeiro de 2016. “Todos estes processos deviam ser gratuitos. Mas nós não vivemos num

Estado que permita isto”, diz o juiz Jo-

sé António Fialho, do Tribunal de Fa-

mília e Menores do Barreiro. E exem- plifica: “Em 2008, estivemos quase

a ter processos de adopção pagos,

porque a maior parte dos adoptantes não tinham apoio judiciário. Houve uma grande pressão e o legislador

acabou por introduzir os candidatos

à adopção nos artigos das isenções.”

O juiz desembargador Manuel Pin-

to Madeira, do Tribunal da Relação do Porto, instância a que chegam re- cursos de processos do Tribunal de Família e Menores do Porto e onde foi juiz entre 1998 e 2007, vai mais longe:

“A regra é haver apoio da Segurança Social para o cumprimento destas medidas e o apoio é gratuito, não é pago. A lei não prevê isto. É irregular,

no sentido em que não é normal.”

O juiz não conhece este caso, mas

considera que “está a ser posto em causa o direito da mãe em ver o filho, um direito constitucional que lhe es- tá consagrado”. E acrescenta: “É o Estado que tem de tomar conta das suas crianças e ter os meios para o acompanhamento dessas medidas, e isso cabe à Segurança Social.” Foi quebrado um dos princípios sobre os quais assenta a protecção das crianças? “A rede não é elástica. Como os casos vão aumentando, as

solicitações [para estes encontros] também vão aumentando. A questão

é saber se o juiz só tinha essa opção”, realça, por sua vez, o juiz José An-

essa opção”, realça, por sua vez, o juiz José An- A criança, que tem agora cinco

A criança, que tem agora cinco anos, foi retirada aos país por ordem judicial e está institucionalizada

aos país por ordem judicial e está institucionalizada Todos estes processos deviam ser gratuitos. Mas nós

Todos estes processos deviam ser gratuitos. Mas nós não vivemos num Estado que permita isto

José António Fialho Juiz do tribunal de Família e Menores de Barreiro

tónio Fialho. “O normal é efectiva- mente que as pessoas não tenham de pagar por isso.”

“Primeiro e único caso”

A Comissão Nacional de Promoção

dos Direitos e Protecção das Crian- ças e Jovens (CNPDPCJ) não dispõe de dados suficientes para emitir um parecer sobre o caso, diz Joana Gar- cia da Fonseca, da equipa técnica. “Aquilo que esteve na origem desta decisão foi um processo judicial. Cer- tamente foram analisadas todas as hi-

póteses. Mas é efectivamente uma si- tuação atípica, porque habitualmen-

te este tipo de apoio é solicitado aos

serviços da Segurança Social”, con- sidera. A directora da ComDignitatis, Célia Salgado, explicou ao PÚBLICO

que este “é o primeiro e único caso” em que a sua associação solicita que

uma mãe suporte o encargo, já que

o centro de apoio só tem acordo de

cooperação com a Segurança Social para a preservação familiar — que sig-

nifica o acompanhamento e apoio

a pais de crianças em perigo para

evitar a retirada — e que é isso que faz. Já se candidatou ao apoio para as outras duas actividades habituais

— ponto de encontro e reunificação

familiar —, mas ainda não o faz como acontece com outros centro de apoio familiar e aconselhamento parental (CAFAP). “Temos licenciamento,

mas não temos protocolo de coope- ração”, esclarece Célia Salgado.

Dos 61 centros deste tipo existen- tes no país, com acordo de coopera- ção, apenas 12 desenvolvem a mo- dalidade ponto de encontro familiar (PEF), tendo uma capacidade para 280 famílias, informa o gabinete de

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 13

PAULO PIMENTA

• Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 13 PAULO PIMENTA A regra é haver apoio
• Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 13 PAULO PIMENTA A regra é haver apoio

A regra é haver

apoio da Segurança Social para o

cumprimento

destas medidas e

o apoio é gratuito

não é pago. A lei não prevê isto.

É irregular

Manuel Pinto Madeira Juiz do Tribunal da Relação do Porto

SOCIEDADE

61

Centros de apoio familiar

e aconselhamento parental,

existentes no país, têm

acordo de cooperação com

a Segurança Social

imprensa do Instituto da Solidarieda- de Social (ISS). “O encaminhamento para os centros licenciados, logo com pagamento de serviços, pode ocorrer por indicação do tribunal ou por op- ção da própria família”, acrescenta em respostas por email. Existem casos em que as associa- ções podem ter licenciamento para essa missão, mas não receberem fundos da Segurança Social e ter de ser o pai ou a mãe a suportar o en- cargo de ver o filho? “Relativamente

à comparticipação familiar devida

pela utilização dos serviços presta- dos, informa-se que no âmbito da cooperação com a Segurança Social

As visitas, quando benéficas para a crianças, devem ser gratuitas

quando benéficas para a crianças, devem ser gratuitas Opinião Fernanda Salvaterra a noção da situação de

Opinião Fernanda Salvaterra

a noção da situação de perigo

em que colocam as crianças e dos efeitos adversos que os seus comportamentos e estilos de vida têm no desenvolvimento dos filhos, porque eles próprios

foram, na grande maioria das vezes, negligenciados /ou maltratados na infância. E, por

último, é uma decisão complexa para os profissionais (psicólogos,

assistentes sociais, magistrados)

que avaliam a situação e tomam

a decisão final, tendo em conta o

superior interesse da criança, a protecção dos seus direitos e o seu

bem-estar físico e psicológico. É

uma decisão tomada em situações graves, que comprometem o desenvolvimento físico, social e emocional da criança e após ter sido dada a oportunidade à família de se recuperar. Embora os interesses das crianças e dos pais estejam intimamente ligados, são os interesses da criança que devem

prevalecer e são estes que devem nortear as decisões dos

profissionais, baseadas numa avaliação criteriosa, ouvindo a

criança, o que ela diz, mas também

o que não diz e se manifesta

de diversas formas no seu comportamento, avaliando o seu

desenvolvimento e a qualidade da vinculação. Sempre que os pais não são capazes ou não desejam mudar

o seu estilo de vida e o seu

comportamento em função

DANIEL ROCHA

das necessidades dos filhos, então à criança deve ser dada a oportunidade de ter outros pais, de ter uma nova família. Havendo laços afectivos já estabelecidos com outros familiares que estejam motivados e desejem assumir a parentalidade da criança, essa deve ser a opção, ou então, de ter uma nova família através da adopção. Apenas no caso da adopção plena os vínculos com a família de origem se quebram, quer do

ponto de vista social, quer jurídico; quando ficam aos cuidados de outros familiares, a questão da continuidade ou não, da relação com os pais, coloca-se. Esta é mais uma questão complexa, em que os interesses da criança e o interesse dos pais entram muitas vezes em conflito e que deve ser resolvida tendo em conta o bem-estar da criança, a curto, e, sobretudo, a longo prazo. A manutenção dos contactos só deve ser decidida se for benéfico para a criança, não deve ser a vontade dos pais a prevalecer. Nalgumas situações, em que a criança é confiada

a familiares, estes também

preferem o distanciamento dos pais biológicos e dos problemas destes (dependência de álcool ou estupefacientes, comportamentos

violentos, entre outros), para evitar

a desestabilização do seu seio

familiar.

Caso seja do entendimento dos profissionais que as visitas dos pais

trazem benefícios para a criança, então estas devem ser mediadas

e avaliadas por técnicos, com

formação específica, em locais próprios, proporcionadas pela Segurança Social, ou outras IPSS que dispõem deste tipo de resposta (CAFAP — ponto de encontro) de forma gratuita, dado que é no interesse da criança.

Psicóloga e investigadora do Instituto de Apoio à Criança, doutorada em Psicologia do Desenvolvimento

não há lugar ao pagamento pelos ser-

A

decisão de retirada de uma

viços [quando são] objecto do acor-

criança à sua família de origem

do de cooperação”, responde o ISS.

é

sempre uma decisão difícil

A

excepção são “as situações em que

e

complexa para todos os

constitua opção da própria família o encaminhamento para um outro cen- tro sem que o mesmo seja detentor de acordo de cooperação”.

Apressar reencontro

Neste caso, a mãe, que falou ao PÚ- BLICO, diz que a opção foi-lhe apre- sentada pelo tribunal e que ela acei- tou pagar a quantia solicitada, por não querer adiar por mais tempo o reencontro com os filhos, depois da cessação dos contactos que, segun- do diz, foi proposta por técnicas da Segurança Social. O seu advogado, Gameiro Fernandes, considera ex- cessiva a influência dos profissio- nais da Segurança Social. Propõem uma medida de promoção e protec- ção. O Ministério Público pronuncia- se. O juiz decide. Questionado sobre essa observa- ção de que os tribunais de Família se baseiam quase exclusivamente nos relatórios da Segurança Social, o juiz Manuel Pinto Madeira diz: “Isso

é uma evidência, porque é à Segu-

rança Social que, nos termos da lei, cabe o acompanhamento das medi-

das e o apoio aos tribunais de Família

e Menores.” Concorda e lamenta que

“a maioria das situações” seja qua- se apenas decidida pelos relatórios da Segurança Social e com base nas declarações dos pais e de familiares

envolvidos. “Na minha opinião, os ju- ízes deviam utilizar outros meios de prova, externos à Segurança Social

e recorrer a entidades privadas, psi-

cólogos, pedopsiquiatras, no âmbito de todas estas medidas.”

acordeiro@publico.pt

intervenientes, mas ela deve ser tomada e não temida pelos profissionais, sempre que a criança

se encontra em situação de perigo.

É uma situação difícil, em primeiro

lugar para a criança que, embora esteja a ser vítima de negligência

grave e/ou maus tratos e/ou abusos de diversa ordem, que colocam em perigo o seu desenvolvimento saudável e harmonioso, ela está vinculada a esses pais. Sim, as crianças vinculam- se mesmo a pais maltratantes

e negligentes, pois é o único

modelo relacional que conhecem

e o único que lhes proporcionou

um mínimo de condições para a sua sobrevivência. A qualidade

da vinculação é que é distinta da das crianças que possuem pais, suficientemente bons, protectores

e sensíveis às necessidades dos

filhos. É também uma decisão difícil para os pais, que consideram os

filhos como propriedade sua e, algumas vezes, não têm sequer

uma decisão difícil para os pais, que consideram os filhos como propriedade sua e, algumas vezes,

14 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

SOCIEDADE

A reabertura dos tribunais está a saber a pouco para quem esperou dois anos

Justiça

Ana Henriques

Duas dezenas de edifícios passaram reabriram há um mês mas funcionam como meros balcões de atendimento

“Então, doutor, agora vamos fazer o julgamento em Murça?”. O advoga- do Daniel Faceira conta que teve de responder aquilo que os clientes não queriam ouvir: “Não é assim, vamos para Alijó”, apesar de a maioria dos intervenientes neste processo, rela- cionado com a disputa de uma parce- la de uma habitação, ser de Murça. E de o respectivo tribunal ter reaberto há um mês. Não houve volta a dar- lhe: há dois dias lá tiveram de ir todos para Alijó, a duas dezenas e meia de quilómetros. “As pessoas sentem-se desiludidas. E um bocadinho enga- nadas”, descreve o advogado. Um mês após os 20 tribunais encer- rados em 2014 terem voltado a abrir as portas, enquanto os presidentes das comarcas se debatem com falta de meios humanos, e também de ve- ículos de serviço, para corresponder às expectativas geradas, parte dos utentes dos tribunais sentem gorados os seus anseios: sem magistrados re- sidentes e por enquanto quase sem julgamentos, os imponentes edifícios têm funcionado como meros balcões de atendimento, tirando raras excep- ções. Não que fosse suposto haver já julgamentos: nos 20 tribunais só será obrigatório realizá-los para crimes ocorridos a partir de Janeiro deste ano — e desde que a sua moldura penal não ultrapasse os cinco anos de cadeia. Com um ou dois funcio- nários, neste primeiro mês uma das suas principais tarefas foi emitir cer- tificados de registo criminal. “Aqui as pessoas também se sen- tem desiludidas”, confirma, em Si- nes, a advogada Ana Vilhena. “Não chega. Queremos mais”, diz um co- lega mais velho, Agostinho Ferrei- ra. “Pretendemos que venha para cá tudo o que nos retiraram”: neste caso, as valências relacionadas com litígios laborais e familiares. Na rea- lidade, nenhuma promessa foi feita pelo Governo nesse sentido, apesar de todos os discursos oficiais a lou- var a reaproximação da justiça às populações: cuidadosa, a ministra

ENRIC VIVES-RUBIO
ENRIC VIVES-RUBIO

Tribunais, como o de Sintra (na foto), reabriram mas os utentes sentem gorados os seus anseios

Francisca van Dunem tem preferido usar o termo “reactivação” em vez de “reabertura”, como quem diz que as coisas não voltaram ao que eram antes do encerramento de 2014. E nunca deu mostras de ter embar- cado nas proclamações do programa do Governo no sentido de serem feitos julgamentos em todos os concelhos do país, algo de resto inédito em Portu-

Voluntário à força

A s recentes alterações à forma de organização dos tribunais implicam, nalguns casos, que

alguns juízes tenham prestar serviço em dois tribunais diferentes pelo menos até Julho. Um deles recusou-se. Mas o Conselho Superior da Magistratura entende que

o seu consentimento “não

é legalmente obrigatório”.

Manuela Paupério, da Associação Sindical de Juízes

Portugueses, diz existir uma “pressão sub-reptícia” sobre estes magistrados para aceitarem trabalho extra.

gal. Mas até os comunicados oficiais do conselho de ministros falam em

reabertura, e é por essas e por outras que há quem entenda que pôr uma coisa que dá pelo nome de juízo de proximidade no lugar de um tribunal

a sério não chega. “Os tribunais de-

vem ser tribunais — e não balcões de atendimento”, insiste o presidente do Sindicato dos Funcionários Judi- ciais, Fernando Jorge. Não é porém essa a principal pre- ocupação dos juízes que dirigem as comarcas. O de Setúbal, Manuel Se- queira, conforma-se mal com ter tido de ir buscar uma oficial de justiça ao tribunal de Grândola para atender cinco a seis pessoas por dia em Sines, uma média semelhante à de outros tribunais, como Armamar e Tabua- ço, no distrito de Viseu, mas mesmo

assim muito superior à dos quatro tri- bunais reabertos em Trás-os-Montes. Em Mesão Frio, a procura resumiu-se

a 11 pessoas num mês inteiro e em

Murça a 12 — muito embora neste úl-

timo tribunal tenham sido desempe- nhados 300 actos processuais. Porém, por muito que os funcioná- rios judiciais possam exercer algumas tarefas à distância, tramitando pro- cessos dos tribunais onde estavam antes para não ficarem desocupados, esse expediente de rentabilização de

recursos humanos não é válido para

todo o tipo de serviço, como assinala

o presidente da comarca de Aveiro,

Paulo Brandão. Está tudo de olhos postos na anunciada chegada de 400 novos oficiais de justiça, que poderá

vir a suceder já em Março. Ou não. Aquele magistrado faz ainda as contas ao tempo que os juízes perde- rão nas duas dezenas de quilómetros que separam Albergaria-a-Velha de Sever do Vouga, onde foi reactivado outro tribunal. Veículos de serviço não há: “Têm de usar carro próprio ou ir de táxi”. Em Leiria os proble- mas são da mesma ordem. “Temos um défice de cerca de 60 funcioná- rios judiciais, e apenas há um moto- rista para toda a comarca, necessá- rio para transporte de magistrados, funcionários e processos em todo o distrito”, descreve a presidente da comarca, Patrícia Costa. Mas nem tudo são reclamações.

Em Sines o mecanismo de videocon- ferência já foi posto a render: uma progenitora poupou uma viagem a Aveiro num processo de regulação do poder paternal. E em Abrantes, Mação e Ferreira do Zêzere a popu-

lação saiu ontem à rua, para aplaudir

o regresso da justiça.

ana.henriques@publico.pt

Sócrates avança com acção judicial contra Estado

Operação Marquês Claudia Carvalho Silva e Manuel Louro

“Manter inquérito aberto é uma violação escandalosa da lei e abuso inaceitável dos poderes do Estado”, diz ex-primeiro-ministro

“Se o Estado não arquiva nem acu- sa, acuso eu”, declarou José Sócrates logo no início da conferência de im- prensa que marcou para o início da noite de ontem, em Lisboa. O antigo primeiro-ministro entregou ontem uma acção contra o Estado — tinha anunciado esta intenção há cerca de seis meses, o que aconteceu agora. O motivo do processo é, segundo o anti- go primeiro-ministro, “a escandalosa violação dos prazos máximos legais de inquérito” da Operação Marquês. Sócrates diz ter uma “legítima suspei- ção de uma motivação política” por parte do Ministério Público. Sócrates fala de uma “campanha pública de difamação” contra si, con- siderando-a “permanente e maldo- sa”. Na conferência de imprensa, o

antigo primeiro-ministro recordou que o processo se baseia em “três an- damentos”: o primeiro relacionado com o Grupo Lena, que considera

o primeiro relacionado com o Grupo Lena, que considera Sócrates fala de uma “campanha pública de

Sócrates fala de uma “campanha pública de difamação” contra si, considerando-a “maldosa”

que “não passou de um monumental embuste”; o segundo com suspeitas em relação ao complexo de Vale de Lobo, que classifica como um “dispa- rate”; e, por último, novas suspeitas relacionadas com a PT, que, diz Só- crates, “comprovam a falsidade das anteriores” e são igualmente “falsas”. Ainda sobre os prazos da investiga- ção, o antigo governante garante que “manter o inquérito aberto é uma vio- lação escandalosa da lei e um abuso inaceitável dos poderes do Estado”. Por isso, conclui o ex-primeiro-mi- nistro, um “apagamento dos prazos é um apagamento da lei”.

claudia.silva@publico.pt

manuel.louro@publico.pt

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 15

ADRIANO MIRANDA
ADRIANO MIRANDA

Vários artefactos usados no ritual foram encontrados na praia

Líder religioso confirma ritual na praia em que grupo foi arrastado por onda

Acidente Maria José Santana e Sandra Rodrigues

Dirigente espiritual diz que os princípios da religião não foram respeitados. Mulher, de 34 anos, continua desaparecida no mar

Muito embora as autoridades poli- ciais não se pronunciem quanto à possibilidade de as pessoas que se encontravam na praia da Costa Nova, em Ílhavo, na noite de anteontem, estarem à beira do mar a fazer um ritual religioso — não obstante os

alertas emitidos —, a tese não levan- ta grandes dúvidas a quem pratica

o mesmo tipo de rituais, a que cha-

mam de “oferendas”. “Através das imagens que foram transmitidas pela comunicação social reconheci todos os artefactos como correspondentes à minha religião”, assegurou ao PÚBLICO o dirigente

espiritual de um terreiro (templo) si- tuado em Ílhavo, que, uma vez por ano (a 15 de Agosto), realiza um ritual semelhante na mesma praia. O dirigente Bàbá Ifáléké, que diz ser, também, representante dos Ter- reiros de Portugal — uma plataforma que congrega a maioria dos templos de umbanda e candomblé, e outras vertentes desta religião que sinte- tiza vários elementos das religiões africanas e cristãs, acredita que o grupo oriundo de Viseu e Tondela estaria a fazer uma “homenagem”

a Iemanjá — tida, por esta religião,

como rainha ou senhora dos mares —, “cujo dia, no Brasil, é celebrado a 2 de Fevereiro”.

“Mas em Portugal, uma vez que nesta altura é Inverno, optamos por celebrar a 15 de Agosto”, explicou. O dirigente espiritual disse desco- nhecer o grupo que acabou por ser atraiçoado pelas condições adversas do mar, mas não tem dúvidas em reconhecer que estas pessoas não cumpriram “os princípios que a re- ligião defende”. Quais? “O primeiro é a questão da segurança, depois, a poluição e, por último, o criar mis- ticismos em volta do nosso culto”, defendeu. “As autoridades tinham emitido um alerta, que não podia ser desres- peitado”, explicou. Ontem, as auto- ridades mantiveram as buscas em terra e no mar, tendo as operações sido suspensas às 18h30. Serão reto- madas hoje cerca das 7h. De acordo

com o comandante da Capitania do Porto de Aveiro, Carlos Isabel, duas das vítimas que foram transportadas para o hospital tiveram alta. O tercei- ro ferido foi transferido para o Hospi- tal de Viseu, área da sua residência. Uma mulher de 34 anos continua desaparecida. Belinda Carvalho é, juntamente com o marido, proprietária de uma loja de roupa, sapatos e malas de se- nhora no centro de Viseu, onde tam- bém residia. Tem duas filhas, entre os 3 e 15 anos. Ontem, o estabeleci- mento esteve todo o dia de porta fe- chada, facto que causou estranheza para alguns clientes que ali se dirigi- ram. Em Viseu, Belinda Carvalho é conhecida por ser uma pessoa activa no meio da moda, sendo responsá- vel pela realização de alguns desfiles

para dar a conhecer as colecções da sua loja.

maria.josé.santana@publico.pt

SOCIEDADE

Governo facilita acesso à nacionalidade a filhos de estrangeiros nascidos cá

Legislação Joana Gorjão Henriques

Regulamentação da Lei da Nacionalidade elimina prova linguística e entrega do registo criminal

O Governo quer tornar mais fácil o

acesso à nacionalidade a quem nas- ceu em Portugal, independentemen-

te da origem dos pais, ou pertença a

um país de língua oficial portugue- sa. A proposta de regulamentação da Lei da Nacionalidade que foi agora concluída pelo Ministério da Justiça elimina a prova de conhecimento de português para estrangeiros que nasceram num país com língua ofi-

cial portuguesa e a apresentação do certificado do registo criminal do país da naturalidade ou da naciona- lidade quando o candidato não tenha neles vivido após os 16 anos. Estes eram dois dos requisitos da lei mais criticados por várias associações e cidadãos que nasceram em Portugal e pertencem à chamada geração de “portugueses imigrantes”.

Segundo o comunicado enviado ontem pelo ministério, o diploma “agiliza e clarifica situações como

as dos netos de portugueses nasci- dos no estrangeiro” — apesar de não especificar detalhes, diz que torna “objetivos os termos em que é apre- ciada a existência de laços de efectiva ligação à comunidade nacional”. Além disso, o ministério garante que o procedimento de análise dos

pedidos de nacionalidade efectuados por filhos menores, cônjuges, uni- dos de facto ou adoptados “será mais simples, previsível e célere”. A Lei da Nacionalidade de 1981 já foi modificada várias vezes e a últi- ma alteração foi aprovada pelo Parla- mento em 2015. Faltava a regulamen- tação e o atraso levou a que o PSD e o BE apresentassem dois projectos para a alterar. O PSD defende que os netos de emigrantes nascidos no estrangeiro tenham nacionalidade portuguesa automática; os bloquistas defendem que, quem nasça em Por- tugal, independentemente da origem dos pais, deve ter logo direito à nacio- nalidade, como acontece nos Estados Unidos e no Reino Unido.

jgh@publico.pt

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Obras de Schumann, Brahms e Schubert “Podem ficar com os vossos Langs Langs, Yujas Wangs
Obras de Schumann,
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“Podem ficar com os vossos Langs Langs, Yujas Wangs ou
Evgenys Kissins. Eu trocava esse colectivo de virtuosos por
uma noite com o consumado pianismo de Volodos.”
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16 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

LOCAL

Santos vai ter jardim vedado e a PSP atrás dos copos dos miúdos

O reforço da segurança e da limpeza inserem-se numa das quatro campanhas que a Junta de Freguesia da Estrela tem preparadas para desenvolver em prol “do respeito na noite de Santos”

Lisboa Margarida David Cardoso

Copos e mais copos. Nos canteiros,

na beira da estrada, por todo o lado. Para já nem falar nos urinóis ao ar

As queixas dos moradores de

Santos, em Lisboa, são constantes. Já se mudaram horários de bares, é proibida a venda de álcool a menores, mas os problemas persistem. Agora chega à promessa do presidente da Junta de Freguesia da Estrela: os po- lícias vão andar por aqui e a limpeza vai ser reforçada. E o jardim ficará ve- dado, para impedir o vandalismo. O autarca da Estrela, Luís Newton, não tem dúvidas de que “é dos copos que as pessoas mais se queixam”.

livre

Aos anos que Nuno Macedo ouve isto. “É a velha e eterna questão de Santos à noite”, anui este funcionário do quiosque Red no meio do Largo Vitorino Damásio, um local de en- contro de várias dezenas de jovens todas as noites. Ao final de uma tarde anunciada de temporal, as esplana- das estão recolhidas ou estendidas pela metade no Largo Vitorino Da- másio. “Pensar que isto à noite é um mar de copos, nem parece verdade”, repara Nuno. Mas a câmara não tinha proibido a venda de álcool para consumir na rua a partir da 1h? “Pois, essa lei aqui não tem efeito”, refere Bruno Cunha, de 29 anos, sócio do Restaurante Flor Vasco da Gama. O restaurante tem esplanada, o que lhe permite vender

bebidas no exterior, mas, nos bares à volta, os copos vêm para a rua com os seus consumidores. “O que acontece é que havia para aí dez caixotes do lixo aqui ao lado”, conta Bruno, a olhar para um terre- no em obras, envolto em tapumes. “Tiraram os caixotes dali e não colo- caram noutro lado”, diz. “Resolveria um bocado o problema” se a coloca- ção de caixotes do lixo não tivesse de ser da iniciativa dos proprietários, como acontece no Pérola Bar, que, quando abre portas ao início da noi- te, coloca um caixote à entrada. Uns passos mais à frente, o jardim do Largo de Santos, onde à noite tu- do acontecia e onde se acumulavam centenas de copos de plástico, surge agora vedado. Mas isso “não impede

São frequentes os actos de violência para com as equipas que chegam às ruas à hora a que termina, para muitos, “uma noite de excessos” diz Luís Newton, autarca da Estrela

JORNAL PÚBLICO

diz Luís Newton, autarca da Estrela JORNAL PÚBLICO Há quem duvide de que as grades vão

Há quem duvide de que as grades vão impedir a entrada no jardim do Largo de Santos

que o jardim seja vandalizado”, diz Bruno, com descrença. Facilmen-

te se salta o gradeamento e o lixo é passado sem dificuldade por entre as grades, adianta.

É para tentar evitar esse cenário

que, a partir da 1h da manhã de hoje,

a noite em Santos vai ter um refor-

ço da limpeza e da vigilância. Esta é

a garantia da junta, que anunciou a

presença de quatro agentes da PSP no Largo Vitorino Damásio e nas proximidades nas madrugadas de sábado e domingo. Haverá ainda um reforço das equipas de higiene urba- na da autarquia, que vão começar a trabalhar mais cedo. Numa zona da cidade de Lisboa marcada por uma forte movida noc- turna, frequentada principalmente

por jovens das escolas secundárias e faculdades próximas, a parceria com

a PSP pretende garantir “a protecção

da integridade física e do trabalho” das equipas de limpeza da autarquia, adiantou Newton. São frequentes os actos de violência, sejam física ou verbal, para com as equipas que che-

gam às ruas à hora a que termina, pa- ra muitos, “uma noite de excessos”, refere o autarca. “Os trabalhadores têm denunciado muitas situações em que são incomodados ou impedidos de trabalhar, o que também atrasa todo o seu trabalho”.

A presença dos agentes da PSP pre-

tende ainda assegurar “que há uma contenção no usufruto da noite e do espaço público”, notou Luís Newton, referindo-se às autoridades como um “dissuasor das práticas menos cívi-

cas”, como o lançamento de copos para a via pública.

O reforço da segurança e da limpe-

za inserem-se numa das quatro cam- panhas que a Junta da Estrela quer desenvolver em prol “do respeito na noite de Santos”. Esta primeira co- meça às 1h e termina às 5h de hoje. Vai decorrer “durante as próximas semanas”, referiu o autarca. Seguem-

se mais três campanhas de sensibi- lização, sempre em parceria com a PSP, com a intenção de dissuadir o consumos de substâncias ilícitas, o consumo de álcool por menores e a entrada em locais não permitidos.

margarida.cardoso@publico.pt

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 17

ENRIC VIVES-RUBIO
ENRIC VIVES-RUBIO

As obras para a nova Feira Popular de Lisboa arrancaram em Novembro

Câmara realoja morador que vive em barracão no terreno da nova Feira Popular

Lisboa

A água utilizada pelo homem é aquela que é “cedida para cultivo” das hortas do Bairro Padre Cruz

A Câmara de Lisboa quer realojar um

homem de 54 anos que vive, de for- ma precária, num barracão sem luz nem água no local onde vai nascer a nova Feira Popular, na freguesia de Carnide. De acordo com a proposta que vai ser debatida na quinta-feira, em reunião privada do executivo, no ter- reno para onde se projecta a nova feira “existe uma ocupação precária, por parte de um senhor que aí vive sozinho, num barracão sem luz” e sem água. A água utilizada pelo homem é aquela que é “cedida para cultivo” das hortas do Bairro Padre Cruz, es- pecifica o documento a que a agência

Lusa teve acesso, assinado pelos vere- adores Manuel Salgado (Urbanismo), José Sá Fernandes (Estrutura Verde)

e Paula Marques (Habitação). Os autarcas explicam que em cau- sa está um homem de 54 anos que,

“após uma situação de desemprego, ficou desprovido de recursos econó- micos, aguardando actualmente a atribuição do Rendimento Social de Inserção”, e acrescentam que o mo- rador apenas tem subsistido devido ao apoio de familiares. Na proposta, os vereadores da maioria socialista (que inclui os movimentos Cidadãos por Lisboa

e Lisboa é Muita Gente) apontam que a criação da nova Feira Popu- lar no local torna “absolutamente necessário proceder à demolição do referido barracão, libertando o local da ocupação precária, e per- mitindo assim completar o projecto em causa”. “É necessário, ainda, acautelar o realojamento do ocupante em cau- sa, que, na sequência da intervenção no local, ficará numa situação vul- nerável com a perda da habitação”, salientam. A Feira Popular de Lisboa foi cria- da em 1943 para financiar férias de crianças carenciadas e, mais tarde, passou a financiar toda a acção social da fundação O Século. Antes de ter funcionado em Entrecampos, onde fechou em 2003, a feira tinha estado

instalada em Palhavã. No final de 2015, mais de 12 anos depois do encerramento, a autarquia

anunciou que a Feira Popular iria voltar, inserida num parque urbano de quase 20 hectares em Carnide, confrontado a sul com a estação do

Metropolitano da Pontinha e a norte com o Bairro Padre Cruz. Os vereadores Manuel Salgado, José Sá Fernandes e Paula Marques adiantam na proposta que “o terreno

forma uma faixa lon-

gitudinal de largura irregular orien- tada no sentido nordeste-sudoeste, caracterizada por uma topografia com pendentes suaves, sendo que

a zona mais a sudoeste se apresenta

como a zona com melhor aproveita- mento para a implantação das áreas

principais do parque de diversões”.

O resto do terreno será destinado ao

parque verde. De acordo com a proposta, o ob- jectivo do município é que “a nova

Feira Popular de Lisboa, em estreita articulação com o parque verde que

a envolverá, seja objecto de fruição

pelo maior número possível de visi- tantes e vá ao encontro das expec- tativas dos mesmos, mormente dos lisboetas e daqueles que residem na grande área de Lisboa, seus princi- pais potenciais utilizadores e que, de uma forma geral, há muito anseiam pela existência de um equipamento deste género”.

existente (

)

LOCAL

PSD “estranha” que Ministério do Ambiente não tenha detectado poluição no rio Nabão

Ambiente

O PSD afirmou ontem “estranhar” que o Ministério do Ambiente “te- nha desmentido a existência de po- luição no rio Nabão”, em Tomar, e que “não revele qualquer plano de monitorização mais apertada para encontrar os prevaricadores”. No seguimento de uma pergunta colocada pelos deputados do PSD relativamente à poluição no rio Na- bão, em Tomar, distrito de Santa- rém, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, respondeu esta semana aos deputados Duarte Marques, Nuno Serra, Teresa Leal Coelho, Berta Cabral e Jorge Olivei- ra, “desmentindo a existência de poluição no rio Nabão”, informou

o PSD, em nota de imprensa. Depois dos problemas do rio Te- jo e do rio Almonda, tal como de alguns dos seus afluentes, surgem cada vez com mais frequência rela- tos e evidências de focos de polui- ção no rio Nabão, em particular no concelho de Tomar, pode ler-se na pergunta que os deputados do PSD enviaram ao Governo no dia 23 de Dezembro de 2016. Na resposta, o Governo, citado pela Lusa, refere ter sido “alertado pelo município de Tomar” para o “aparecimento de bancos de espu- ma e escurecimento das águas do rio Nabão”, tendo acrescentado que, das amostras recolhidas e análises efectuadas, as mesmas se encontra- vam “a cumprir com as condições de descarga previstas”.

APRESENTAM TTexto e Encenação FERNANDO GOMES Música e Direção Musical QUIM TÓ Coreografia VICTOR LINHARES
APRESENTAM
TTexto e Encenação FERNANDO GOMES
Música e Direção Musical QUIM TÓ Coreografia VICTOR LINHARES
Cenografia KIM CACHOPO Figurinos ANA SABINO Desenho de Luz PAULO GOMES
interpretação
ANDREIA VENTURA
DIOGO BACH
HENRIQUE MACEDO
KIM CACHOPO
MARIA JOÃO VIEIRA
PAULO NETO
TIAGO DE ALMEIDA
TEATRO ARMANDO CORTEZ
Sáb. Dom. 15h de Ter. a Sex. 11h e 14h30
Bilheteira 217 154 057 - 916 993 180
Bilhetes à venda www.bol.pt e locais habituais
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18 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

ECONOMIA

BCP destaca “empenho” da Fosun no aumento de capital

Depois do aumento de capital do BCP, a chinesa Fosun, a angolana Sonangol, a EDP e a Interoceânico, os quatro grandes accionistas do banco, passaram a dominar 42,3% da instituição liderada por Nuno Amado

Banca Cristina Ferreira

A operação de aumento de capital do maior banco privado português terminou ontem com o reforço do eixo sino-angolano no topo da estru- tura accionista. Uma aliança entre a Fosun e a Sonangol que o próprio banco aplaude. Em declarações ao PÚBLICO, o administrador do BCP, Miguel Maia, lembrou que a procura dos investi- dores superou a oferta de títulos em mais de 20%. E considerou a opera- ção “um enorme sucesso, tendo em conta o contexto macroeconómico negativo”. O gestor evidenciou não só “o empenho da Fosun mas também a coesão e o suporte accionista dos restantes investidores ao BCP”: a Fosun subiu a sua presença de 17% para 23,5%, a Sonangol manteve a sua posição em 15%, o que aconte- ceu também com a EDP, agora com 2,1%, e com a holding luso-angolana Interoceânico com 1,7%. Para Miguel Maia, trata-se ainda do primeiro aumento de capital realiza-

1985

do por um banco europeu desde que a supervisão do sector (dos bancos com dimensão sistémica) passou a ser feita pelo BCE. O aumento de capital foi totalmen- te subscrito, o que implica a emissão de 14.169 milhões de novas acções. A operação acabou por ter uma adesão acima do esperado pelo próprio ban- co liderado por Nuno Amado, que tinha, à cautela, contratado a tomada firme das acções sobrantes com um sindicato bancário. De acordo com a informação divul- gada ao mercado, no exercício de di- reitos de subscrição foram subscritas proporcionalmente 13.943.683.125 acções, representativas de cerca de 98,4% do total de acções a emitir no âmbito da oferta. Para rateio ficaram disponíveis 225.682.455 acções, e os pedi- dos suplementares superaram a 3.463.624.516 acções, ou seja, exce- deram em cerca de 14,3 vezes a quan- tidade disponível. A procura total de capital, no montante de 1,3 mil mi- lhões de euros, representou cerca de 122,9% do montante da oferta. As novas acções, vendidas a 9,4 cêntimos cada uma, serão admitidas

à negociação na quinta-feira ou em

data aproximada, refere o comunica- do do BCP. Na sessão de ontem, as

acções registaram uma forte valoriza- ção, que chegou a superar os 7%, mas depois foram perdendo parte desses ganhos, fechando a subir 3,90%, pa- ra 0,17 cêntimos. Fechado o aumento de capital, o BCP ganha fôlego para liquidar junto do Estado a última parcela de 700 milhões de euros, do empréstimo obrigacionista de acções convertí- veis (CoCos), que chegou a totalizar três mil milhões de euros. Desde que em 2012 contraiu o financiamento público, o BCP já pagou ao Tesouro

à volta de mil milhões em comissões

e juros, o que equivale a mais de 33% do crédito que recebeu. Ao abandonar o suporte estatal, o BCP liberta-se ainda das restrições relacionadas com o apoio público, incluindo a proibição de distribui- ção de dividendos aos investidores. E deixa também de estar sujeito à obrigação de venda da operação na Polónia, onde controla o Millennium Bank. com Rosa Soares

cferreira@publico.pt

1993

Grupo Amorim

com Rosa Soares cferreira@publico.pt 1993 Grupo Amorim MSF 10 15% Têxtil Manuel Gonçalves 5,4 Cifial 2,9

MSF

com Rosa Soares cferreira@publico.pt 1993 Grupo Amorim MSF 10 15% Têxtil Manuel Gonçalves 5,4 Cifial 2,9

10

15%

Têxtil Manuel Gonçalves 5,4 Cifial 2,9 Abrantina 2,9 Teixeira Duarte 2,9 Hotéis Tivoli 2,9 Fábrica
Têxtil Manuel Gonçalves
5,4
Cifial
2,9
Abrantina
2,9
Teixeira Duarte
2,9
Hotéis Tivoli
2,9
Fábrica Têxtil de Vizela
2,9
48%
José Jorge Valério
TOTAL
2,9

Retrato das participações qualificadas (i.e., acima de 2%)

Fonte: BCP; PÚBLICO; BCP − A primeira década, de Miguel Figueira de Faria

Com a abertura dos primeiros dois balcões, um em Lisboa e outro no Porto, o BCP dava o seu pontapé de saída em Maio de 1986. A suportar a instituição estava um vasto conjunto de accionistas portugueses, liderados por Américo Amorim e pelo seu grupo familiar. Ao todo, eram 130 accionistas a título pessoal a que se juntavam mais outras 75 empresas. O o grupo Amorim evidenciava o peso da região norte, a que se juntavam outros como a Têxtil Manuel Gonçalves e a Cifial. Na altura, os três maiores accionistas concentravam 20% do capital, algo que demoraria muitos anos até se repetir. Este era o início de uma estrutura que não parou de se modificar até hoje.

DANIEL ROCHA
DANIEL ROCHA

A Fosun, liderada por Guo Guangchang, é o maior accionista do BCP

2002

CGD

8,4

Banca Intesa

7,4

Eureko

Teixeira Duarte 2,5
Teixeira Duarte
2,5

6,9

Banco Central Hispano*

7,4 Eureko Teixeira Duarte 2,5 6,9 Banco Central Hispano* Eureko 6 10 Cariplo 4,1 Têxtil Manuel

Eureko

Teixeira Duarte 2,5 6,9 Banco Central Hispano* Eureko 6 10 Cariplo 4,1 Têxtil Manuel Gonçalves 2,9

6

10

Cariplo

Duarte 2,5 6,9 Banco Central Hispano* Eureko 6 10 Cariplo 4,1 Têxtil Manuel Gonçalves 2,9 Teixeira

4,1

Têxtil Manuel Gonçalves

2,9 Teixeira Duarte 2,3
2,9
Teixeira Duarte
2,3

*Posição adquirida a Américo Amorim, após a ruptura do fundador com Jardim Gonçalves

Amorim, após a ruptura do fundador com Jardim Gonçalves 25 % Américo Amorim acaba por vender

25%

Américo Amorim acaba por vender a sua posição após um desentendimento com o presidente executivo, Jorge Jardim Gonçalves, sobre o que devia ser a estratégia do banco e a estrutura accionista. O BCP passa a ter uma blindagem dos estatutos que limita os direitos de voto a 10% do capital, e a presença de accionistas internacionais começa

a sentir-se. Dois anos depois, em

1995, e já depois de ter lançado a

Nova Rede, o BCP viria a absorver o Banco Português Atlântico, vencendo

a corrida no âmbito de uma oferta

pública de aquisição (OPA), e, com

isso, ganhando toda uma nova dimensão.

ABN Amro Bank 5,0 José de Mello SGPS 4,6 EDP 4,4 Sabadell 3,1 Dimitrios Contominas
ABN Amro Bank
5,0
José de Mello SGPS
4,6
EDP
4,4
Sabadell
3,1
Dimitrios Contominas
3,1
48,4%
Grupo Friends Provident
3,0

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 19

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 19 Nuno Amado passou a liderar um

Nuno Amado passou a liderar um banco dominado a 23,5% pelo grupo chinês

DUASPERGUNTASAMIGUELFIGUEIRADEFARIA

Estamos "no limiar de algo novo na história do sistema financeiro português"

M iguel Figueira de Faria, autor de BCP — A primeira década, diz que o banco resultou de um

centrada a norte e caracterizada pela actividade exportadora da qual Américo Amorim representa um exemplo maior. Como vê o banco hoje? O BCP Millennium actual tem já pouco que ver com o projecto da “Primeira Década”. Numa 1.ª fase, a do crescimento por aquisição de outras instituições — a “digestão” do BPA parece ter sido muita complexa —, o projecto sofreu uma inevitável mutação.

compromisso entre o poder político e uma nova classe empresarial. Na sua fundação, o BCP tinha uma componente accionista repleta de investidores

nacionais. Hoje, isso é quase inexistente. Foi uma evolução natural?

A

criação do BCP faz parte de

Numa 2.ª fase — na crise da sucessão — são conhecidas as dificuldades e muito agravadas com a intervenção evidente do poder político que nos conduz à

um contexto, o da geração de instituições derivadas da

reabertura à iniciativa privada. Foi uma oportunidade única para

a

formação de uma nova banca,

fase actual, afastando a essência privada que presidiu à fundação. Em todo o caso, o BCP, a par do BPI, representa, ainda que por pouco mais tempo, os últimos exercícios de sobrevivência da grande banca comercial privada nacional. É motivo de reflexão estarmos no limiar de algo novo na história do sistema financeiro português: o da deserção dos

partindo do nada, em confronto com uma banca nacionalizada, pesada na sua inércia e gerida nos compromissos partidários no rateio dos lugares de administração. O BCP nasceu nesse contexto, resultando de

um compromisso entre o poder político — Governo do bloco

central liderado por Mário Soares

e uma classe empresarial

investidores portugueses do sector, pelo menos em posições de referência. Luís Villalobos

que emergia no ocaso forçado dos grandes grupos, sobretudo

2008

O Estado acaba por entrar no capital do BCP através do maior banco do sistema financeiro português, a Caixa Geral de Depósitos. Isto depois de o BCP ter comprado o Banco Pinto & Sotto Mayor ao banco público no meio da venda do império de António Champalimaud (e que levou ao reforço do Santander em Portugal ao ficar com o Totta & Açores e o Crédito Predial Português). Ao mesmo tempo, absorveu o Banco Mello, ficando esta família accionista de referência do BCP. Dos fundadores, destaca-se a Teixeira Duarte, e os accionistas internacionais vão reforçando a sua presença. A expansão leva o BCP para Moçambique, Polónia e Grécia.

Retrato dos três maiores accionistas

Fosun não tem parado de crescer em Portugal

E m pouco tempo, a Fosun tornou-se o investidor mais importante deste país asiático em Portugal. Os valores

aplicados rivalizam com os 2700 milhões desembolsados pela CTG na compra de 21% da EDP, mas, além disso, tem um portefólio mais vasto: o grupo segurador Fidelidade (onde o Estado, via Caixa Geral de Depósitos, ainda detém 15%), o grupo Luz Saúde (via Fidelidade, que adquiriu via OPA e após uma guerra de preços) e uma fatia de 5,3% da

REN (onde a chinesa State Grid é

o maior accionista com 25%).

A estes investimentos há que

juntar agora o BCP, onde entrou no final do ano passado, pagando 175 milhões de euros por 16,7%

do banco através de um aumento de capital reservado à Fosun. Isto depois de ter estado na corrida ao Novo Banco. Criada em 1992 em Xangai e controlada por Guo Guangchang (que detém 58% deste empresa),

a Fosun está cotada na bolsa de

Hong Kong, e tornou-se mais conhecida a nível internacional pela compra do Cirque du Soleil e do Club Med. L.V.

Sonangol mantém posição de peso EDP investe 28 milhões e segura aliança A Sonangol deixou
Sonangol mantém
posição de peso
EDP investe 28 milhões
e segura aliança
A Sonangol deixou de ser o
maior accionista do BCP mas
assegura a segunda posição
numa altura em que se
A EDP não deixou escapar
o estatuto de accionista
de referência do maior
banco privado português.
defronta com sérias dificuldades
financeiras. Já em 2014, quando
A eléctrica, que tem 2,15%
do capital do BCP através
o preço do barril estava mais
favorável, a petrolífera precisou
de suprimentos do Estado
angolano para acompanhar o
aumento de capital que o BCP
realizou nesse ano. Pouco tempo
depois desta estratégia, em 2015,
Isabel dos Santos (empresária e
filha do Presidente da República
de Angola) avançou com uma
proposta para fundir o BCP com
do fundo de pensões (que
passou a concentrar todo o
investimento no banco com a
transferência das acções que
estavam na EDP Imobiliária,
em Dezembro), subscreveu o
aumento de capital e garantiu
que se mantém como o
maior accionista português
da instituição dominada pela
chinesa Fosun.
o BPI (do qual Isabel dos Santos
Com este investimento de
é o segundo maior accionista)
em reacção à primeira tentativa
do Caixabank em controlar o BPI.
Hoje, Isabel dos Santos ainda é o
segundo maior accionista deste
banco.
Por outro lado, já controla,
via Unitel, a instituição que o
BPI detém em Angola, o BFA. E,
acima de tudo, preside agora à
Sonangol: e se esta consegue, no
meio de todas as dificuldades, ter
dinheiro para manter peso no BCP
28 milhões, a empresa segurou
uma aliança estratégica com
quase 20 anos, que começou a
ser desenhada sob as gestões
de Jorge Jardim Gonçalves (no
BCP) e Mário Cristina de Sousa
(na EDP) no final da década de
1990 (quando a EDP ainda era
estatal). O BCP continua a ser
também o único accionista de
referência português na EDP
(uma parte do investimento via
fundo de pensões), igualmente
é
porque Isabel dos Santos assim
controlada por um grupo chinês,
o
entende. L.V.
a CTG, com 21,35%. Ana Brito
2016
Fosun
17,8
Sonangol
5,1
EDP
2,7
33,7%
Depois da crise financeira, surgiu a
crise das dívidas soberanas na zona
euro, e a intervenção em Portugal da
troika de credores formada pelo BCE,
Comissão Europeia e FMI. O banco,
liderado por Nuno Amado desde 2012,
recorre à ajuda do Estado através da
aplicação de 3000 milhões de euros
em capital contingente (os chamados
“CoCos”). Nesta fase, o banco começa
a vender activos, e vê-se obrigado a
aumentos de capital, provocando
alterações accionistas. O aumento
agora realizado servirá para reembolsar
os 700 milhões de CoCos ainda em
falta. Agora, e após o Sabadell ter
decidido sair do capital do banco,
Fosun e Sonangol controlam o BCP.

Luís Villalobos

Sonangol

Fosun e Sonangol controlam o BCP. Luís Villalobos Sonangol Eureko 7,1 Teixeira Duarte Este ano, negro

Eureko

7,1

Teixeira Duarte

Este ano, negro para a economia 10 mundial, mostra as cicatrizes da guerra accionista que surgiu no seio do banco. Jardim Gonçalves sai, e

que surgiu no seio do banco. Jardim Gonçalves sai, e 7 Joe Berardo Sabadell 4,4 CGD

7

Joe Berardo

no seio do banco. Jardim Gonçalves sai, e 7 Joe Berardo Sabadell 4,4 CGD 3,8 EDP

Sabadell

do banco. Jardim Gonçalves sai, e 7 Joe Berardo Sabadell 4,4 CGD 3,8 EDP 6,2 3,2

4,4

CGD

Jardim Gonçalves sai, e 7 Joe Berardo Sabadell 4,4 CGD 3,8 EDP 6,2 3,2 Sogema 2,7

3,8

EDP

6,2

3,2 Sogema 2,7 Stanley Ho 2,3
3,2
Sogema
2,7
Stanley Ho
2,3
4,4 CGD 3,8 EDP 6,2 3,2 Sogema 2,7 Stanley Ho 2,3 51,2 % Privado Financeiras (BPP)

51,2%

Privado Financeiras (BPP)

2,7 Stanley Ho 2,3 51,2 % Privado Financeiras (BPP) 2,3 Paulo Teixeira Pinto ocupa o cargo

2,3

Paulo Teixeira Pinto ocupa o cargo de CEO por pouco tempo, tal como Filipe Pinhal. O rosto dos novos accionistas, ligados ao “ataque” à estrutura do banco, é Joe Berardo, que hoje já não detém capital no banco. A liderança acabaria por ir parar às mãos de Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, que, no Governo de José Sócrates, estavam ao leme da CGD. Nesta fase, o banco ganha um novo accionista: a petrolífera angolana Sonangol.

IPG

estavam ao leme da CGD. Nesta fase, o banco ganha um novo accionista: a petrolífera angolana

2,2

20 • Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

ECONOMIA

Despesa com pessoal continuou a derrapar nos últimos meses do ano

UTAO calcula que défice público, excluindo as receitas extraordinárias de 2016, ficou nos 2,6% do PIB, em linha com aquilo que foi previsto e prometido pelo Governo

Finanças públicas Sérgio Aníbal

Para além da derrapagem na receita fiscal, foi na evolução das despesas com pessoal que o Governo revelou em 2016 mais dificuldades em cum-

prir o que estava previsto no Orça- mento, com as falhas nas previsões

a prolongarem-se pelos últimos três

meses do ano e já depois de o execu-

tivo ter revisto as suas estimativas. Na sua primeira análise aos dados da execução orçamental do total de

2016 apresentados pelo Governo na

semana passada, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) apre- senta dados que apontam para que

a meta de 2,4% para o défice apre-

sentada em Outubro e mesmo a re- cente promessa de um défice “não superior a 2,3%” sejam cumpridas.

Ainda assim, em alguns indicadores,

a execução ficou aquém das expec-

tativas. Do lado da despesa, o caso mais

evidente esteve nos custos assumidos com pessoal, assinala a UTAO. Quan- do se compara com as projecções fei- tas pelo Governo no início do ano quando apresentou a sua proposta de Orçamento do Estado para 2016, as despesas com pessoal acabaram por ficar 232 milhões de euros acima do previsto.

A existência de uma derrapagem

foi assumida pelo Governo em Outu- bro, quando apresentou o OE para

2017

e a despesa com pessoal para

2016

foi revista em alta em 142 mi-

lhões de euros. No entanto, apesar de faltarem nessa altura menos de três meses para o final do ano, a pre-

visão voltou a falhar, acabando por se verificar, como revelam agora os da- dos finais da execução orçamental, mais uma derrapagem de 91 milhões de euros.

A evolução das despesas de pesso-

al em 2016 esteve em destaque na re- cente visita do ministro das Finanças ao Parlamento para discutir os efeitos do regresso às 35 horas semanais no Estado. Mário Centeno, no entanto, garantiu que o aumento das despesas de pessoal se deveu a outros factores. Para além dos previsíveis efeitos da reversão da redução remuneratória,

MARA CARVALHO
MARA CARVALHO

Governo deverá ter atingido as suas metas orçamentais

Fitch mantém rating em “lixo”

N um cenário em que observa uma moderação dos riscos internos da

economia, mas avisa para a

vulnerabilidade do país face

a

acontecimentos externos, a

agência de notação financeira internacional decidiu não

realizar qualquer alteração ao rating atribuído a Portugal, mantendo-o no nível “lixo” em que se encontra desde o início da crise. No relatório publicado ontem

à

noite sobre Portugal, a

agência — uma das quatro que são consideradas pelo BCE na sua análise de risco dos

títulos de dívida — mantém

o

défice de BB+ com uma

tendência “estável”, o que significa que não está a antecipar para breve qualquer alteração na classificação atribuída. No relatório, a Fitch assinala a ocorrência de uma recuperação do ritmo de crescimento na segunda metade de 2016 e aponta para uma ligeira aceleração da economia em 2017, de 1,3% para 1,5%. No entanto, logo

a

seguir, são destacados os

perigos que Portugal ainda enfrenta e que não permitem uma saída do rating do “lixo”, como o efeito negativo que pode resultar das “ameaças proteccionistas crescentes” ou da “volatilidade dos mercados” decorrente das eleições na Europa. Apesar de as regras europeias exigirem que as agências anunciem, sem fugas, as suas decisões relativamente aos ratings depois do fecho dos mercados bolsistas, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já tinha revelado de manhã que a Fitch mantinha o rating. S.A.

o ministro falou de outros efeitos de

carácter extraordinário. Mas se as previsões para as despe- sas com pessoal e com a receita de impostos falharam, o Governo com-

pensou através de cortes noutras des- pesas, como o investimento (menos 956 milhões do que o previsto) ou os subsídios (menos 422 milhões), e conseguiu apresentar um défice que, tudo indica, irá cumprir aquilo que foi previsto em Outubro.

De acordo com as contas feitas pe-

la UTAO, o défice, excluindo as recei-

tas extraordinárias em 2016, deverá ter-se situado em 2,6% do PIB, um valor em linha com as mais recentes estimativas do Governo. Na semana passada, o Governo tinha apresentado os dados da exe- cução orçamental do total do ano

passado, mas os números que apre- sentou foram apenas em contabilida- de pública, um método contabilísti- co em que as despesas e receitas são registadas numa lógica de entrada e

saída de caixa. No entanto, o valor do défice que é apresentado a Bruxelas utiliza outra metodologia, a denomi- nada contabilidade nacional, em que

a lógica de registo é a do momento

em que é assumido o compromisso de despesa. Os técnicos da UTAO fizeram agora uma primeira estimativa da passa- gem de contabilidade pública para contabilidade nacional e a conclu-

são a que chegaram é que, retirando

o efeito das medidas temporárias,

se deverá ter registado “um défice em torno do limite definido para o

objectivo anual” pelo Governo. Isto significa, um défice de 2,6%. Em Outubro, quando apresentou

o OE para 2017, o Governo reviu a

sua meta para o défice de 2016 dos 2,2% iniciais para 2,4%, incluindo o efeito das receitas extraordinárias. Excluindo essas receitas, a estimativa correspondia a um défice de 2,6%, que, tudo indica, foi atingido. A UTAO nota que, face ao que era

previsto em Outubro, passou a ser incluída a receita relativa ao plano de regularização extraordinária de dívidas fiscais, com um valor próxi- mo de 550 milhões de euros.

sergio.anibal@publico.pt

Público • Sábado, 4 de Fevereiro de 2017 • 21

A SEMANA

886 Há mais de dois anos que a Autoridade Tributária tem um grupo de 886 inspectores tributários estagiários “em período experimental”. Em Janeiro, entraram no terceiro ano de estágio e o Ministério das Finanças não aponta uma data para o fim do processo. Para a Associação Sindical dos

ECONOMIA

Profissionais da Inspecção Tributária e Aduaneira, o estágio arrasta-se por “inércia” do fisco. Os atrasos estão a gerar desconforto interno e já chegaram reclamações ao provedor de Justiça. No Parlamento, Mário Centeno foi esta semana confrontado com a situação dos estagiários

AS CINCO MAIS

Montepio

Var. 0,24%
Var.
0,24%

0,43

0,42

0,411

AS CINCO MAIS Montepio Var. 0,24% 0,43 0,42 0,411 0,412 0,40 0 , 3 9 Valor
AS CINCO MAIS Montepio Var. 0,24% 0,43 0,42 0,411 0,412 0,40 0 , 3 9 Valor

0,412

0,40

0,39

Valor das acções em euros

27 Jan.

30

31

1 Fev.

2

3

O PSI-20 teve ontem o fôlego

de que precisava para terminar a semana com um balanço

positivo. Por uma curta margem,

o principal índice da Bolsa de

Lisboa conseguiu uma ligeira valorização semanal (0,28%), mesmo com mais dias em queda do que em alta. Um dos focos de atenção coube ao BCP, por causa do fim do processo de aumento de capital. Ontem, no dia em que o BCP deu a conhecer os resultados da operação, as

Sonae

Var. 0,90 0,24% 0,822 0,80 0,824
Var.
0,90
0,24%
0,822
0,80
0,824

0,75

0,70

Valor das acções em euros

27 Jan.

30

31

1 Fev.

2

3

acções do banco liderado por Nuno Amado chegaram a subir mais de 7% e encerraram com um ganho de 3,9%, prolongando

a trajectória ascendente desde o

fim dos direitos de negociação. Nas contas da semana, os títulos acumularam uma valorização de 9,52%, para 0,1679 euros cada. O melhor desempenho da semana teve, porém, outra protagonista: a Pharol (ex- Portugal Telecom SGPS), com uma subida superior a 15% no

Navigator

Var. 0,26%
Var.
0,26%

3,600

3,525

3,46 3,469 3,375 3,300 Valor das acções em euros 27 Jan. 30 31 1 Fev.
3,46
3,469
3,375
3,300
Valor das acções em euros
27 Jan.
30
31
1 Fev.
2
3

PSI- 20

Índice em pontos Var. 5200 0,28% 4900 4622,82 4701,14 4300 Última semana 4000 19 Ago.
Índice em pontos
Var.
5200
0,28%
4900
4622,82
4701,14
4300
Última semana
4000
19 Ago.
27 Jan.

BCP

Var. 9,52%
Var.
9,52%

0,200

0,175

0,1533 0,1679 0,125 0,100 Valor das acções em euros 27 Jan. 30 31 1 Fev.
0,1533
0,1679
0,125
0,100
Valor das acções em euros
27 Jan.
30
31
1 Fev.
2
3

somatório das últimas cinco sessões. Já o pior desempenho coube aos CTT (-16,62%), que tem vindo a desvalorizar-se em bolsa depois da revisão em baixa dos resultados do ano passado. A

queda dos títulos na segunda-feira (-14%) obrigou a CMVM a proibir as vendas a descoberto durante todo o dia seguinte. Na última semana, os mercados na Europa

e nos Estados Unidos foi reagindo

à boleia de alguns indicadores

económicos e decisões. E no meio

Pharol

Var. 15,48%
Var.
15,48%

0,340

0,315

0,290

0,252

E no meio Pharol Var. 15,48% 0,340 0,315 0,290 0,252 0,291 Valor das acções em euros
E no meio Pharol Var. 15,48% 0,340 0,315 0,290 0,252 0,291 Valor das acções em euros

0,291

E no meio Pharol Var. 15,48% 0,340 0,315 0,290 0,252 0,291 Valor das acções em euros

Valor das acções em euros

27 Jan.

30

31

1 Fev.

2

3

do rebuliço das duas primeiras semanas de Donald Trump como presidente, a reunião de política monetária da Reserva Federal dos Estados Unidos foi uma delas. O encontro não trouxe novidades, trouxe confirmações: as taxas de juro de referência vão manter-se inalteradas. Ontem chegaram mais dados económicos (a criação de 227 mil postos de trabalho

em Janeiro) que ainda tiveram

impacto positivo no desempenho das bolsas na Europa. P.C.

AS CINCO MENOS

CTT

Var. 6,2 6,012 -16,62% 5,7 5,2 5,013 4,7 Valor das acções em euros 4,2 27
Var.
6,2
6,012
-16,62%
5,7
5,2
5,013
4,7
Valor das acções em euros
4,2
27 Jan.
30
31
1 Fev.
2
3

Sonae Capital

Var. 0,750 -2,39% 0,725 0,695 0,712
Var.
0,750
-2,39%
0,725
0,695
0,712

0,675

0,650

Valor das acções em euros

27 Jan.

30

31

1 Fev.

2

3

Mota-Engil

Var. 1,800 -2,14% 1,685 1,649 1,575
Var.
1,800
-2,14%
1,685
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27 Jan.

30

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1 Fev.

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