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Bf Introducsao aoa novo testamento D. A.~ CARSON DOUGLAS J. MOO th ay Os 7S aa Quando algném se dispoe a estudar o Novo ‘Testamento deseja ter, acima de tudo, um melhor conhecimento da Palavra de Deus. Afinal, estamos falando da POse Oe Cee RCC cect Mas por onde comegar? Por questdes histéricas como autoria, data, fontes, POR cnn roe i ccers ern remer ten eres ts nly historicos? Introducdo ao Novo Testamento oferece uma saida estratégica: Reo ReneS nonin cme tron ere ccs eae a questées histéricas, sem desprezar a importincia das demais para o estudo do Novo Testamento. Ao contrério, sempre que se aplicarm a um assunto em pauta, Pen MT COS ern Ree nee syne Oa terns entram em cena. Eumacombinacio perfeita. Introducao ao Novo Testamento ja nasce com uma misao: conduzir estudantes Pee ee ene ene ite vaetcan Se rs ecm cera ty eee Cee me RR CTO ere a ROU cy escolhas precisam ser feitus com rek COR OM ane eee mmc arenes icc] RE on cn UE ce eee er Lato} Pe ee Te Tn ee cen Re an Tee Cem So CST Ce ee Oe ORC ose Moa Tenn) Pen ee Rs OS ee ease O estudioso do Novo Testamento vai encontrar nesta obra uma ajuda de OO Rr Om Deemer CoCr es oe ee Secs se conduzidoa uma analise segura, clara ¢equilibrada, ee a ei eer Os AAU Ten. Peer ering Dados internacionais de catalogacio ma publicagdo (cr) (Camara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Carson, D. A. TIntrodugdo ao Novo Testamento (D, A. Carson, Douglas 1. Man ¢ Leon Morris: | traducdo Marcio Loureiro Redando |. — S30 Paula : Vids Nova, 1997, Titulo oniginal: An introduction w dhe New ‘Testament Bibliografia 1 Biblia, NT. Introdugau 1 Mow, Douglas J IL Morris, Leon, Il, Tito. 97-0491 con-225.61 irs Indices para catétogo sistenticn 1. Nova Tesiamento : Inodugao 225.61 akthicond IntroduGcsao ao novo testamento Sey" D. A. CARSON DOUGLAS J. MOO LEON MORRIS TRADUGAO Marcio Loureiro Redondo Os VIDANOVA © 1992 de D. A. Carson, Douglas J. Moo e Leon Morris ‘Titulo do original: 4n Introduction to the New Testament ‘Traduzido da edigo publicada pela Zondervan Publishing House (Grand Rapids, Michigan, EUA) Lt edigio: 1997 Reimpressdes: 1997, 1998, 1999, 2001, 2002, 2004, 2006 (capa nova), 2007 Publicado no Brasil com a devida autorizagio € com todos os direitos reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIGOFS VIDA NOVA Caixa Postal 21266, Sao Paulo, SP, 04602-970 yeww.vidanova.com.br Proibida a reprodugio por quaisquer meios (mecinicos, letrénicos, xcrogrificos fotogrificos, gravacio, estocagem em banco de dados ete:), a nlo ser em citacées breves, com indicacio de fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil ISBN 978-85-275-0234-4 CooRneNaGAO EDITORIAL Robinson Malkomes COooRDENACAO DR PRODUCAO Roger L. Malkomes REvIsAc Hans Udo Fuchs Gordon Chown Cama JULIO CARVALHO DracraMacao Janete D. Celestino Com gratiddo este livro é dedicado a doy, Jenny e Mildred conteudo PREFACIO ABREVIATURAS 1. Os Evangelhos Sinéticos 2. Mateus 3. Marcos 4. Lucas 5. Joao 6, Atos 7. Paulo: O Homem e Suas Epistolas 8. Romanos 9. Le 2 Corintios 10. Gélatas 11. Efésios 12. Filipenses 13. Colossenses 14. Le 2 Tessalonicenses 15. As Epistolas Pastorais 16, Filemom 17. Hebreus 18. Tiago 19. 1 Pedro 20. 2 Pedro 21. 1,2e 3dodo 22, Judas 23. Apocalipse 24. O Canon do Novo Testamento ll 19 67 99 123 151 241 267 287 319 335 349 363 517 541 prefacio Este livro enfoca principalmente 0 que se cuslumava chamar “inlrodugao especial” — ou seja, das questées histéricas acerca de autoria, data, fontes, propésito, destino e assuntos afins. Nao 6 pequeno o numero de obras recentes que dedicam mais espaco do que nés a forma literaria, critica retsrica e paralelos hist6ricos. Nao minimizamos a importancia de tais tépicos e apresentamo-los quando diretamente relacionados com 0 assunto especificamente em foco. Na nossa experiéncia, porém, o melhor contexto para examinar tais questtes em profundidade é o das disciplinas exegéticas, especialmente as de exegese de livros ‘especificos, e receamos que uma atengao demasiada a esses tdpicos A custa de questées introdutérias tradicionais tenda a estabelecer um divércio entre os livros do Novo Testamento e seu contexto histérico e entre os estudantes e algumas questées importantes debatidas nos primeiros séculos da igreja crista. Isso também significa dizer que com freqiiéncia nos referimos a fontes primérias, Nos debates de questies como, por exemplo, o que Papias quer dizer com ‘o anciéo Joao”, tendemos a citar a passagem e a trabalhar nela de modo que os estudantes possam ver por si Mesmos quais sao (ou devem ser!) as questoes decisivas do assunto em pauta. Embora a énfase deste livro recaia sobre “introdugao especial’, incluimos um breve esbogo ou resumo de cada documento neotestamentario, as vezcs apresen- tando os fundamentos Idgicos das escolhas que fizemos. Em cada caso, apresenta- mos um relato resumido dos estudos que atualmente estao sendo feitos sobre o livro e indicamos um pouco da contribuigéo teolégica que cada documento neotestamentario presta ao cénon. Nossa preocupacao principal 6 que as novas geragées de estudantes de teologia alcancem uma melhor compreensao da Palavra de Deus. Procuramos escrever tendo em mente os alunos de primeiro e segundo anos de semindrios e faculdades tealégicas. Nao ha divida de que, na maioria dos casos, 0 material seré suplementado por prelegdes. Alguns professores vao preferir ulilizar o material numa sequéncia diferente da apresentada aqui (e.g., dando como tarefa a leitura dos capitulos sobre Mateus, Marcos e Lucas, antes do capitulo sobre os Evangelhos Sindticos). Igualmente importante é o fato de que limitamos o tamanho desta Introduedo, de sorte que pode ser usada coma livre de texto. Conquanto a concisao deste volume impega uma andlise minuciosa de muitos assuntos que gostarfamos de ler abordado em profundidade, espera- mos que os limites que escolhemos para esta obra acentuem-lhe o valor. Os trés autores sao de confissio evangélica. Nao resta duvida de que, de alguma forma, a heranga religiosa predispée nossa interpretag&o do Novo Testamento, mas (assim esperamos) nao tanto a consciéncia de nossas predispo- 10 INTRODUGAO AO NOVO ‘TESTAMENTO. sigdes. Somos da opiniao de que tal heranga nao interfere em nossas interpreta- gdes mais do que acontere com ontras pessoas que escrevem sahre a Novo Testamento, E verdade que procuramos evitar 0 obscurantismo, mas, por outro lado, as vezes levantamos possibilidades e perguntas que algumas introdugées deixam de lado com excessiva facilidade. Procuramos lidar com uma amostragem relevante da vasta quantidade de literatura contemporanea seguindo, por vezes, a abordagem tradicional e, em alguns casos, sugerindo uma nova perspectiva para determinada questdo. Quando os dados ndo nos permitiram chegar a conclusao alguma, deixamos as questdes em aberto Cada um de nés escreveu cerca de um tergo deste volume e apresentou, por escrito, uma avaliagao do trabalho dos outros dois. Um entre nés procurou reduzir ao minimo as diferencas de estilo e outras. Em dois ou trés casos, as referéncias no texto revelam o autor especifico. Nas demais passagens, os leitores sao cordialmente convidados a identificar 0 redator com as fontes individuais. Soli Deo gloria. D. A. Carson Douglas J. Moo Leon Morris AB AGIU AGSU AJT ALGHS AnBib ANRW ASNU ATR AusBibRev AUSS: b. BAGD Barker/Lane/ Michaels BETL BECT BGBE BIP BJ BJRL BL BNTC Bornkamm BR abreviaturas Anchor Bible Arbeiten zur Geschichte des antiken Judentums und des Urchristentums Arbeiten zur Geschichle des Spatjudentums und Urchristentums American journal of theology Arbeiten zur Literatur und Geschichte des hellenistischen Judentums Analecta Biblica Aufstieg und Niedergang der rdmischen Welt Acta seminarii neotestamentici upsaliensis Anglican theological review Australian biblical review Andrews university seminary studies Babylonian Talmud Walter BAUER, William F. ARNDT, F. Wilbur GINGRICH e Frederick W. DANKER, A Greek-English lexicon of the New Testament and other early christian literature, 2 ed. (Chicago, University of Chicago Press, 1979) Glenn W. BARKER, William L. LANE e J. 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Philip SCHAFF & Henry Wace, 2 série, 14 v, (reimpressdo, Grand Rapids, Eerdmans, 1975) Neutestamentliche Abhandlungen New Testament commentary Das Neue Testament Deutsch New Testament studies Ostkirchliche Studien Norman PERKIN & Dennis C, DULING, The New Testament: an introduction, 2 ed., ed. Robert Ferm (San Diego, Harcourt Brace Jovanovich, 1982) Patrologia latinu (Migne) Penguin New Testament commentaries Leighton Pullan, The buuks of the New Testament (London, Rivingtons, 1926) Reformed theological review Revue biblique Revue de Qumran Revue d'histoire et de philosophie religieuses Regensburger Neucs Testament A. Roper? & A. 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(Edinburgh, 1909) Zeitschrift fiir die neutestamentliche Wissenschaft Zeitschrift fur Theologie und Kirche Tradugao biblica conhecida como Versdo de Almeida, Revista e Atualizada Traducao biblica conhecida como Versdo de Almeida, Corrigida e Revisada Tradugao biblica conhecida como Versdo de Almeida, Edigdo Contemporanea Tradugao biblica conhecida como Verso de Almeidu, Revistu e Corrigida Tradugao biblica conhecida como Versdo da imprensa Biblica Brasileira, também conhecida como Versdo segundo os Melhores Textos Tradugao biblica conhecida como Nova Verséo Internacional Tradugao biblica conhecida como Tradugéo Brasileira Tradugao bfblica conhecida como Biblia na Linguagem de Hoje Tradugao biblica conhecida como Bfblia de Jerusalém Tradugao biblica conhecida como Versdo do Pontificio Instituto Biblico Tradugao biblica conhecida como Versdo de Motos Soares Tradugao biblica conhecida como Versdo do Centro Riblico Cat6lico Tradugao biblica conhecida como Edigao Pastoral Tradugio btblica conhecida como Tradugéo Ecuménica da Biblia Tradugao bfblica conhecida como LEB-Loyola Tradugao das epistolas do Novo Testamento conhecida como Cartas Para Hoje os evangelhos sin6ticos INTRODUGAO Os trés primeiros evangelhos foram pela primeira vez chamados “evangelhos sinéticos” por J. J. Griesbach, um estudicso da Biblia de nacionalidade alema, no final do século XVIII. O adjetivo “sindtico” vem do grego avvoTiats (synopsis), que significa “ver em conjunto”. Griesbach escolheu a palavra devido ao altu grau de semelhancas entre Mateus, Marcos e Lucas em suas apresentagies do ministério de Jesus. Essas semelhangas, que envolvem estrutura, contetido e enfoque, $40 visiveis mesmo ao leitnr desatento. Elas servom nao apenas para unir os rds primeiros evangelhos, mas também para separa-los do evangelho de Joao. Mateus, Marcos ¢ Lucas estruturam 0 ministério de Jesus de acordo com uma seqiiéncia geografica geral: ministério na Galiléia, retirada para o norte (tendo por climax e ponte de transicao a confissao de Pedro), ministério na Judéia e Peréia quando Jesus se dirigia para Jerusalém (algo nao tao claro em Lucas) e o ministério final em Jerusalém. Essa seqiiéncia esta praticamente ausente em Joao, evangelho que se concentra no ministério de Jesus em Jerusalém durante as visitas que periudicamente fazia a cidade. Quanto ao contoddo, os trés primeiros evangelistas narram muitos dos mesmos acontecimentos, concentran- do-se nas curas, exorcismos e ensinos por meio de parabolas realizados por Jesus. Joao, embora narre algumas curas significativas, nao traz qualquer relato de exorcismo nem pardbolas (pelo menos das do tipo encontrado em Mateus, Marcos e Lucas). Além disso, muitos dos acontecimentos que consideramos caracteristi- cos dos trés primeiros evangelhos estao ausentes em Jodo: o envio dos Doze, a transfiguragao, o sermao profético, a narruliva da Ultima ceia. Ao apresentarem Jesus constantemente em atividade e ao sobreporem agdes — especialmente milagres — e ensinos (geralmente) curtos, os primeiros trés evangelistas criam um clima de acao intensa e ininterrupta. Isso contrasta claramente com 0 clima mais contemplativo de Joao, que narra bem menos acontecimentos do que os 20 INPRODUGAO AG Nove TLS TAMENTO evangelistas sinéticos e prefere apresentar Jesus fazendo longas dissertagées em vez de parabolas curtas ou declaragdes breves e expressivas, Ao longo dos ultimos 200 anos, os eruditos tém esmiugado os evangelhos sindticos a partir de variados angulos e tém chegado a diferentes conclusdes. Esse é um resultado inevitavel da importancia fundamental que esses livros tem para a fé ea vida cristas. Nesses livros, encontramos a historia da vida dAquele que 60 instrumento esealhido especialmente por Deus para fazcr-sc conhecer aos seres humanos. O significado da histdria e o destino de cada individuo dependem dos acontecimenius descritos nesses livros: a morte e ressurrei¢ao do Messias, Jesus. Questées pertinentes a cada um desses livros isoladamente serao aborda- das no respectivo capitulo; aqui tratamos de temas relevantes que envolvem os trés relatos. Fxaminamos trés indagagées espeeificas: Como surgiram os evange- Thos sinéticos? Como devemos entender os Evangelhos como obra literdria? Eo que us Evangelhos nos contam sobre Jesus? A FVOLUGAO DOS EVANGELIIOS SINOTICOS Como os evangelhos sinéticos foram escritos? Uma resposta simples, ¢ em alguns aspectos adequada, seria identificar as pessoas que, sob a inspiragao do Esptrito de Deus, escreveram esses livros e assinalar as circunstancias em que foram escritos. Essas questées sao tratadas nas introducdes dedicadas a cada um dos quatro evangelhos. Mas, simplesmente identificar os autores dos evangelhos sinéticos deixa sem respostas algumas perguntas. Como os autores obliveram as informagdes que utilizaram sobre Jesus? Por que os trés relatos sao tao parecidos em tantos lugares € tao diferentes em outros? Qual foi o papel dos préprios evangelistas — registrar a tradigéo? Autores com um ponto de vista préprio? E, para trager & tona a questéo maior que se oculta por tras de todas as demais — Por que quatro evangelhos? Tais perguntas © vutras semelhantes tém sido a preocupagao de cristdos zelosos desde o inicio da igreja. Um crist&o do século II, Taciano, combinou os quatro evangelhos em seu Diatessaron. Agostinho escreveu um tratado intitulado A Harmonia dos Evangelhos.! Os estudiosos, no entanto, tém se debrucado mais profundamente sobre essas questées desde o surgimonto da critica biblica moderna em fins do século XVI Embora possamos rejeitar como irrelevantes algumas das perguntas feitas durante esse perfodo e até como simplesmente erradas muitas das respostas dadas a tais perguntas, nda podemns fugir & questao das origens dos evangelhos indticos ¢ do relacionamento entre eles. O numero e a natureza dos evangelhos dao margem a tais perguntas de urdem literdria e historiea, Ademais, um dos evangelistas menciona como, no seu caso, chegaram-lhe as informagées contidas em seu evangelho: "Pode ser encontrado em NPNF (vol. 6, p. '/'/-236). OS BVANGELHOS INOTICOS 21 Visto que muilus houve que eupreenerau uma narrayav vourtkeuads dus falus que entre nés se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o principio foram deles testemunhas oculares, ¢ ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigagao de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentissime Teéfilo, uma exposicdio em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruido. (Le 1.1-4) Nessa introdugio a sua “histéria das origens cristas”, escrita em dois volumes, Lucas reconhece trés etapas na origem da sua obra: as “testemunhas oculares, ¢ ministros da palavra”, que “transmitiram” a verdade acerca de Jesus, aqueles “muitos” que jé haviam empreendido um relato escrito acerca de Jesus e da igreja primitiva; e 0 préprio Lucas, que, depois de fazer uma “acurada investigagao” dessas fontes, agora elabora seu proprio relato “em ordem”, ou saja, com “ordem e seqtiéncia” (LEB). Parece que é bem oportuna uma investigacdo do processo a que Lucas se refere. Assim, examinaremos primeiramente a etapa inicial de transmissao, durante a qual testemunhas oculares e outros transmiti- ram a tradigdo acerca de Jesus, boa parte dela oralmente; depois, a etapa em que as fontes escritas comegaram a cresrer e a se tarnar mais importantes; e, final- mente, a etapa da autoria final.” A Elapa de Tradigées Orais: A Critica da Forma No curso da investigacéio das origens dos evangelhos, surgiram ao longo dos ultimos 200 anos vdrios enfoques diversos e distintos, cada um deles enfatizando aspectos ou etapas diferentes do problema. Em particular, trés enfoques deram contribuigées distintas ¢ relevantes para o problema das origens e desenvolvi- mento dos evangelhos: a critica da forma (Formgeschichte), que concentra a ateng&o no periodo de transmissdo oral; a critica das tontes, que focaliza a maneira como unidades literarias diferentes foram reunidas para constituir os evangelhos; e a critica da redagao (Redaktionsgeschichte), que focaliza as contribuigées literérias c tcoldgicas dos autores dos ovangelhos. Esses métodos correspondem, de modo geral, as trés etapas que Lucas menciona em sua introdugéo. Kles, contudo, nao sao mutuamente exclusivos; na atualidade, a maioria dos criticos emprega simultaneamente todos 0s trés no que se convencio- nou chamar de analise da tradigdo ou critica da tradigao (Traditionsgeschichte). No entanto, esses trés enfoques sao distintos tanto histérica quanto metodologi- camente, e examinaremos um por vez. Principiamos com a critica da forma porque, embora surgida somente depois do auge da critica das fontes, ela se concentra na etapa mais remota do processo de formagdo dos evangelhos: a etapa oral. Esse foi o periodo anterior a existéncia de quaisquer relatos escritos de maior importancia sobre a vida ¢ 0 ensino de Jesus, periodo durante o qual foram transmitidas oralmente as informagoes que ?Martin emprega Lucas 1.1-4 de modo parecido em sua introduco (vol. 1, p. 119-21). 22 INtRODUGAD AO NOVO TESTAMENTO: formaram nossos evangelhos. Se atribuirmos a Marcos a data mais antiga de meados dos anos 50 do século I, com a possivel existéncia de outras fontes escritas com data nao muito anterior, essa ctapa de transmissdo, basicamente oral, deve ter durado pelo menos 20 anos. Neserigao A critica da forma foi inicialmente aplicada ao Antigo Testamento por eruditos tais como Hermann Gunkel e foi entao transportada para a drea da Novy Testamento na segunda e terceira décadas deste século por uma trinea de homens que viam no enfoque da critica das fontes, a que estudiosos haviam se dedicado com afinco durante dezenas de anos, um esgotamento de potencial. Esses homens foram Karl Ludwig Schmidt, Martin Dibelius e Rudolf Bultmann.® Embora divergissem em diversos pontos importantes, esses pioneiros da critica da forma tinham em cumum pelo menos seis pressuposigdes € crengas que sc tornaram a base da critica da forma. 1. Relatos sobre a vida e declaragies de Jesus circularam em pequenas unidades independentes. Os primeiros criticos da forma viram na narrativa da paixao uma excegao, a qual julgaram ser uma unidade literaria auténoma e independente com origem num periudo bem remoto.* Mesmo essa excegao nao € reconhecida por muitos dos criticos da forma da atualidade. 2. Pode-se comparar a transinissdo dos dados dos evangelhos com a transmis- sio de outrae tradigdes populares e religiosas. A responsahilidade por essa transmissao nao é de individuos, mas da comunidade, dentro da qual o material toma forma e é transmitido, Certas leis de transmissdo, geral mente observaveis em tais casos de transmissao oral, podem ser aplicadas a transmissao dos evangelhos 44 obra de Schmidt, Der Rahmen der Geschichte Jesu: Literarkritische Untersuchun- gen zur ditesten Jesus-iiberlieferung, foi publicada em 1919 e nunca foi traduzida. Em 1919 também apareceu a edigao original cm alemée da obra de Martin Dibelius que foi _traduzida para o inglés com o titulo de From tradition to gospel. The history of the synoptte tradition, de Rudolf Bultmann, foi publicada em aleuiao em 1921. 'B.g., DIRELTUS, em From tradition to gospel (p. 178-9). OS EVANGELIIOS SINOTICOS 23 Tabela 1 Terminologia da critica da forma Forma Dibelius Bultmann Taylor* Declaragdes curtas de Jesus Paradigmas Apotegmas Relatos de Pro- apresentadas dentro de um. nunciamentas contexto (e.g., Mc 12.13-17, em que o climax 4 “Dai a César 0 que é de César, ea Deus 0 que é de Deus") Relatos sobre feitos mila- Contos Relatos de Mila Relatos de Mi grosos de Jesus (e.g., a ali- gres lagres mentagdo dos 6.000) Relalus que exallam Jesus Lendas Relatos Ilistéri- Relatos sobre de- como “her6i” (e.g., 0 relato cos & Lendas sus lucano sobre Jesus no tem- plo aos doze anos de idade [2.41-52}) Ensinos de Jesus que nao Paréneses Declaragoes do Declaragoes e Pa- tém como climax um dito Senhor rdbolas isolado (e.g., a Oragdo Domi- nical) 3. Os relatos e declaracdes de Jesus assumem certas formas padronizadas (dai o nome critica da “forma” ou “histéria das formas"), em sua maioria ainda facilmente perceptfveis nos evangelhos. Os eriticos da forma nao chegaram a um avordy yuanto ao ndmero e & exata natureza dessas formas. A Tabela 1 apresen- ta trés abordagens de influentes.® 4. A forma de um relato ou declaragao especificos possibilita a determinagao de seu Sitz im Leben (“situagao vivencial”) ou seu contexto na vida da igreja primitiva. Segundo Bultmann, “A correta compreensao da critica da forma repousa sobre o entendimento de que a literatura que surgiu da vida de determi- nada comunidade, até mesmo a comunidade crista primitiva, emerge de condi- ges e necessidades existenciais bem definidas, a partir das quais se desenvolvem um estilo bem definide e formas e categorias bem especificas. Assim, toda categoria literaria tem sua ‘situagao vivencial”.® 5Além das obras de Dibelius e Bultmann ja mencionadas, veja-se Vincent TAYLOR, em The formation of the gocpel tradition (2 ed). Taylor omproga a critica da forma com menos ceticismo histérico do que o fazem Dibelius e Bultmann. SBULTMANN, Synoptic tradition, p. 4. 24 INTRODUGAG AQ NOVO TESTAMENTO 5. A medida que transmitiu as declaragées ¢ histérias de Jesus, a comunida- de cristA primitiva nao somente colocou esse material em certas formas, mas também o modificou sob pressdo de suas préprias necessidades e situagdes. A partir deste ponto, passamos daquilo que pode ser chamado de critica da forma propriamente dita (uma empreitada literdria) para um conceito mais amplo da disciplina, em que se fazem jufzos histéricos que, de modo geral, nao sao fruto da disciplina como tal Criticos da forma divergem grandemente quanto ao grau em que a igreja primitiva modificow © criou os dados. Bultmann, por exemplo, acredila que a influéneia foi imensa e atribui a maior parte das informagoes a igreja primitiva, quase nada encontrando que se pudesse dizer com seguranga ser origindrio do ministério terreno de Jesus. Ele pode atribuir uma quantidade tao grande do material a igreja primitiva porque, junto com muitos outros criticos da forma, acredita que a igreja primitiva nao se preocupava em fazer distingao entre coisas que Jesus disse enquanto esteve na terra e coisas que continuava a dizer através dos profetas na vida da igreja. No dizer de Norman Perrin, “a distingao que se faz hoje em dia entre o Jesus histérico e 0 Senhor rcssurreto era bem estranha a igreja primitiva”.’ Juizos histéricos radicais como esses nao sao intrinsecos & critica da forma, € muitos criticos da forma sdo bem mais conservadores em suas avaliacées historicas. Vincent Taylor 6 um deles. Existem outros ainda mais conservadores que limitam a influéncia da igreja primitiva basicamente a organizacéo dos dados (e.g., a série de relatos de controvérsias em Marcos 2.1—3.6 e passagens paralolas), Mas esses sao excegao a regra, ¢ deve sc dizer que a grande maioria dos criticos da forma entende que sua tarefa implica uma boa dose de ceticismo histérico. 6. Os criticos classicos da forma tém empregado, normalmente, varios critérios para Thes permitir determinar a idade e a fidedignidade histérica de pericopes especificas. Essos eritérios basciam-se em certas leis de transmissao, as quais acredita-se que sao validas para quaisquer materiais transmitidos oralmente. De acordo com essas supostas leis, as pessoas tendem a (1) encompri- dar seus relatos; (2) acrescentar-lhes detalhes; (3) conforma-los cada vez mais com seu préprio linguajar; e (4) geralmente preservar e criar somente o que se harmoniza com suas necessidades e erengas. Com base nessas leis, muitos criticos da forma declararam que os dados mais breves, com menos detalhes, em que ha semitismos e nao se harmonizam com os interesses da igreja primitiva ou do judaismo do século I séo mais antigos e, por esse motivo, tém maior probabilidade de serem histéricos. O tltimo critério, que podemos chamar de critério de dessemelhanca, 6 muito importante para os eriticos da forma mais radicais. Ao eliminar qualquer coisa que provavelmente foi introduzida pela igreja primiliva vu que pode Ler sido recebida do contexto judaico, esse método *Normann PERKIN, Rediscovering the teaching of Jesus, p. 27; cf. BULTMANN, em Synoptic tradition (p. 127-8). OS EVANGEHOS SINGTICOS 2 a € capaz de chegar a um numero minimo de declarayoes ev alividudes “criticamente asseguradas”, sobre os quais é possivel basear uma compreensao supostamente histérica de Jesus. Esse critério, por exemplo, insinua que Marcos 13.32 — “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, sendo somente o Pai” — pode muito bem ter sido dito por Jesus, pois emprega uma linguagem que nao é tipica do judaismo (“o Filho”) e contém uma premissa (a ignorancia de Jesus) que se choca com uma crenga da igreja primitiva. O quinto critério é subproduto deste e sustenta que o material auténtico concorda com material isolado pelo “critério de dessemelhanga”, ao passo que o sexto critério, “confirmacao multipla”, da preferéncia aos dados encontrados cm mais de uma corrente de tradi¢ao (e.g., Marcos e “Q”), Avaliagao U ceticismo histérico, que caracteriza muitos dos mais proeminentes criticos da forma, deu 4 prépria critica da forma a fama de atacar a historicidade dos evangelhos. Mas, conforme propusemos acima, esse nao 6 necessariamente 0 caso. Como diseiplina literdria, a erftica da forma néo pressupde nenhum juizo a priori sobre a historicidade do material que analisa. Ademais, muitas das pressuposigoes em que se baseia a critica da forma parecem ser validas: houve de fato um perfodo de transmissao basicamente oral do material evangélico; grande parte desse material provavelmente se compunha de unidades pequenas; 6 provavel que esse material tendesse a uma forma padrao; e, sem duvida alguma, a igreja primitiva influenciou a maneira como esse material foi transmi- tido. De modo que, numa definicao assim restrita, ha sem sombra de duvida espaco para a critica da forma no estudo dos evangelhos. Devemos, no entanto, destacar certas precaucdes mesmo acerca dessa aplicagdo limitada da disciplina. Em primeiro lugar, 6 possivel quo desde época muito remota ja existisse, em forma escrita, um volume muito maior de informa- cao do que os erfticos estao dispostos a admitir, ¢ que boa parte do material restante j tivesse sido reunida em unidades literdrias maiores.” Em segundo lugar, devemos ter 0 cuidado de nao impor ao material uma camisa de forga de normas especificas e claramente delineadas. A existéncia das formas denomina- das mistas sugere que qualquer classificagaéo deve ser vista, na melhor das hipéleses, como provisoria e genérica. Em terceiro lugar, as alegagées de criticos da forma de que, com base em formas especificas, sio capazes de identificar a situagao vivencial da igreja, devem ser tratadas com um ceticismo saudavel. Com freqiiéncia -— talvez em geral — nao temas dados suficientes para qualqner identificagao do género. Por fim, e talvez o aspecto mais pernicioso, so suspeitas as pressuposigdes de muitos dos criticos da forma acerca da natureza do processo de transmissao. Diversos autores tém defendido que a maioria dos criticos da forma nao avaliaram suficientemente a dindmica e a natureza da transmissdo *C. H. DODD, por exemplo, propée que desde o inicio 0 padréio homilético da igreja primitiva imps certo padrao aos dados dos evangelhos (The framework of the gospel narrative, ExpTim 43, p. 396-400). 26 INTRODUGAO AO Novo TE TAMENTO oral © que nao se tem dado quase nenhuma atencdo ao papel de individuos na modelagao e transmissao dos dados.* Deve-se langar eriticas mais sérias contra a aplicagdo anti-histérica da critica da forma tipificada por Bultmann, Dibelius e muitos de seus herdeiros. Primeiro, nao hé base para afirmar que a igreja primitiva nao fazia distingao entre o Jesus terreno e o Senhor ressurreto e que, por isso, sentia-se A vontade para pér na boca do Jesus terreno declaragées de profetas cristaos primitives. Bultmann declarou que versfculos como 2 Corintios 5.16b — “se, de fate, chegamos a conhecer Cristo segundo a carne, agora j4 nao mais o conheceremos dessa maneira” (tradugao do autor) — demonstram que, na igreja primiliva, Paulo e outros n4o tinham qualquer interesse pelo Jesus terreno como tal. Mas, nesse texto, Paulo esta dizendo que jé nao teria qualquer interesse por um Jesus “de carne” (ie,, terreno), mas que estava decidido a nao mais considerar Jesus “de um ponte de vista terreno”. Na realidade, no Novo Testamento nao hé nada que confirme a nocao de que os cristaos primitivos néu fizessem dislingdo entre o Jesus terreno e o Senhor ressurreto, e os criticos da forma jamais chegaram préximos de explicar como as palavras de um profeta cristao da Antioquia de 42 d.C., por exemplo, teriam sido postas nos I4hios de Jesus quando ele ensinava numa localidade especifica da Galiléia uns 13 anos antes. Cada vez mais se questiona a idéia de que a profecia crisla funcionava dessa manciza,”” Segundo, devemos questionar se é possivel fazer uma comparac&o correta entre a transmissao dos dados dos evangelhos ao longo de um periodo de aproximadamente 20 anos e nntros dados que eriticos da forma costumam utilizar para tirar conclusdes sobre os evangelhos. Por exemplo, a literatura rabinica com que tanto Bullmazn quanto Dibelius comparam os evangelhos era um conjunto bem indefinido de dados, tendo sido coletados ao longo de séculos. Os rabinos jamais produziram algo que se assemelhasse, mesmo remotamente, a um evangelho. Em terceiro lugar e relacionado com esta ultima questao, h& dividas quanto a validuile das supostas leis de transmissao. E. P. Sandcrs ¢ outros demonstra- ram que nem sempre a transmissdo oral tende a aumentar o material." Por isso nao é valido 0 uso dessas leis para atribuir acontecimentos ¢ declaragoes a igreja e nana Jesus. Em particular, o que se deve criticar ¢ 0 critério de autenticidade. Alids, a aplicagdo desse critério é freqiientemente mal entendida: a maioria daqueles que o empregam nao afirma que somente essas declaragées quo o °V. esp. de Erhardt GUTTGEMANNS, Candid questions concerning gospel form criticism: A methodological sketch of the fundamental problematics of form and redactional criticism © Werner H. KELBER em The oral and the written gospel "22, David Hi, em New Testament prophecy (p. 160-85); J. D. G. DUNN, em Prophetic T-sayings and the Jeaus tradition: The importance of testing prophetic utterances within early Christianity (p. 175-98); David AUNE, em Prophecy in early Christianity and the ancient Mediterranean. world (p. 245). ME P. SANDERS, The tendencies of the synoptic tradition, SNTSMS 11 (Cambridge University Press, Cambridge, 1969). OS EVANGELHOS SIN6TICOS: a7 critério consegue isolar so auténticas, mas sim que essas sao as unicas de que podemos ter certeza. Entretanto, 0 scu emprego tende a concentrar a atengao naquilo que era peculiar a Jesus em contraste tanto com o seu ambiente judaico quanto com a igreja primitiva. Dessa maneira, 0 emprego desse critério tende a distorcer a imagem que fazemos de Jesus." Criticos da forma mais conservadores insistem em que nao se deve utilizar o critério isoladamente, devendo-se usd-lo com 0 propésito positive de colher provas de historicidade e nao com o propésito negativo de demonstrar a falta de historicidade. Assim mesmo, 0 emprego do critério pressupée uma descontinuidade no processo de transmissao, critério que € preciso questionar. O quarto problema da critica da forma radical é que ela deixa de levar em conta a presenga de testemunhas oculares, algumas delas hostis, as quais tinham condigées de contestar qualquer criacdo de incidentes e declaragées evangélicos em grande quantidade. Conforme o expressa McNeile, “Os criticos da forma escrevem como se as testemunhas oculares originais tivessem todas elas sido arrebatadas para 0 céu por ocasido da ascensao de Cristo e a igreja crista tivesse sido colocada a viver numa ilha desértica”.* Em quinto lugar, muitos crilicos da forma sao culpados de subestimarem a capacidade de judeus do século I lembra- rem-se daquilo que Jesus havia feito e dito e transmitirem isso oralmente e com exatidao. A denominada Escola Escandinava, representada em especial pela obra de Birger Gerhardsson,'® viu nos lideres oficiais da igreja primitiva os transmis- sores da tradigao do evangelho e sustentou que o proceso Leria sidu semellante ao da transmisséo das tradicdes rabinicas, em que tanto materiais escritos quanto memorizagao cuidadosa teriam desempenhado papéis fundamentais. 5 vélida a critica de que este enfoque especifico pressupie uma semelhanga entre 0 contexto escoldstico dos rabinos e o ambiente mais popular do cristianismo primitivo. Mas é inegavel a importancia da meimorizagao na sociedade judaica do século I, e temos motivos para pensar que isso proporciona uma base suficien- te para a transmissao oral cuidadosa e exata dos dados dos evangelhos.'* Temos, entao, razées suficientes para pensar que os cristaos primitivos eram capazes € estavam desejosos de transmitir com exatidao os feitos ¢ as palavras de Jesus. “Veja-se,eg., M. D. HOOKER, em On using the wrong tool (Theol 75, p. 570-81). *Vejam-se especialmente Robert STEIN, em The “criteria” of authenticity (p. 225-63), Ben I, MEYER, The arms of Jesus (GP, vol 1, p. 85-7) “McNEILE, p. 53. ‘8Birger GERHARDSSON, Memory and manuscript: Oral tradition and written transmis- sion in rabbinic Judaism and early Christianity (ASNU 22). Para uma andlise desea proposta, veja-se Peter DAVIDS, em The gospels and Jewish tradition: Twenty years after Gerhardsson (GP vol 1, p. 75-99). ‘Rainer RIESNER, Jesus als Lehrer (WUNT 2.7); idem, Jidische Elementarbildung und Evangelieniiberlioferung, em GP, vol. 1, p. 209-23. a8 INTRODUGAD AG Novo TESTAMENTO Tabela 2 Paralelos Sinéticos: A Cura de um Paralitico Mateus 9.6 Marcos 2.10-11 Lucas 5.24 Ora, para que saibais que Ora, para que saibais que Mas, para que saibais que © Filho do homem tem 0 Filho do homem tem 0 Filho do homem tem sobre a terra autoridade sobre a terra antoridade sobre a terra autoridade para perdoar pecados — para perdoar pecados — para perdoar pecados — disse entin ao paralitico: disse ao paralitice:; Eu te disse ao paralitico: Bu te Levanta-te, toma o teu mando: Levanta-te,tomao —_ordeno: Levanta-te, toma o loito, ¢ vai para tua casa. teu Ieito, e vai para tua teu vito, e vai para casa. casa, A Etapa de Fontes Escritas: A Critica das Fontes (0 Problema Sindético) Introdugao A etapa oral do desenvolvimento dos evangelhos sinéticos, a qual examinamos na segao anterior, provavelmente incluia também algumas tradicoes escritas acerca da vida e ensinos de Jesus. Alguns dos apéstolos podem ter tomado notas dos ensinos e atividades de Jesus durante o proprio ministério, tendo eles e outras Weslemunhas oculares provavelmente acelerado 0 processo depois da ressurreigdo. Mas 6 provavel que s6 mais tarde um perfodo de trans- missio predominantemente oral abriu espago para um perfodo em que comeca- ram a ser elaborados corpos mais substancinsos de tradigaa escrita, num processo que acabou conduzindo aos evangelhos canénicos. A critica das fontes dedica-se a investigagao desaa etapa escrita na produgao dos evangelhs, Bla faz e procura responder a seguinte pergunta: Que fontes escritas, se é que houve, os evangelis- tas empregaram na compilagio de seus evangelhos? A pergunta é de interesse particular para o historiador do movimento cristao primitivo e sera fatalmente feita por qualquer estudante dos evangelhos sinéti- cos. Pois existem semelhangas surpreendentes ontre os sinéticos, tanto na estrutura em geral quanto nas palavras em particular. Considere o exemplo da tabela 2, exLraido do relato da cura de um paralitico, Nao apenas as palavras sao quase iguais (0 que também acontece no original grego), mas cada um dos trés evangelistas insere no mesmo local uma interrup- cao abrupta das palavras de Jesus. T'al duplicacao de construgdes incomuns ou desajeitadas ocorre em outros lugares, junto com passagens em que dois ou trés dos cvangclistas empregam exatamente as mesmas pulavras, ua mesma ordem, ao longo de varias linhas de texto. Na tabela 3, observe, por exemplo, como Mateus ¢ Lucas utilizam quase exatamente as mesmas palavras para registrar