Você está na página 1de 5
Feteréncias bibiogréicas Dorset Hasan. Ae and Spavia es. Camtle/Londees: ME assin Joto Adal. A temporada ma eta cotempontnen. Cota ump, 1099 ager, Das. The Condition of Poemaderaity. Cambri: / Oxf Blacka, 1908 (1 1030), Hyssen Andean, Seducids ple momdria. Mo de Jno: Acrorano, 3000 Jossow, Fede. Re modernise. gic eutaral do cepalome ter “io. So Pal Aen, 1996 (red 1901), Sio PAULO NAO & MAIS UMA CIDADE Layer Garcia dos Santos Minka exposicn vai ser eomposta de duas pares: plmeira é uma espeécle de rea quente ao que fot expontoc do qua ew 36 conhecla uma sinopse e, na segunda, vou ler um tree de um texto que escres hi algun tempo vltado para a questo da cidade te S80 Paulo Creio que Claudia Botner fex uma exposig bastant resante © panorlimica da evolugio da diseussio da arte pablien Intemactonal, prineipalmence a amerieana ea européia, dos anos 70 para ci, ucalizando mals especificamente os desdobramentos do que se chamou, naguela década, de ste specific. Vimos uma le panorama do que éoste spect, seus lems e ambi Em su fala prcei, basicamente, duas tendéncias: a que cla pouco abordow oo ex musko mpaiente, que s¢4o do site specific como aguilo que jf fot chamado de igo, sea: a negragtodessas grandes mise-en-scines, les espeticulosarsticos — que no principio tinham 0 ou um vgs de tornarvisivel um determinado esp J5¢ tornado iniferenciado na cidade, afi de sens 0 pia apreensio esse espago a recuperagao pla ez disso, tansformandoasem mals um prato le serios, nclundo aa arte ovo museu dentro do A primeira grande porta ou grande evel cific foi rapidamente apontada por cla como wna ‘enndencia que nto the interes, porque 6a tendénca que va fazee ‘Comm que a arte se tome apenae mals umn servigo a favor da valor: Scio no mereado. A sepinda grande tendéncia parece segutr na ‘inegzo de tentar desdabrar a sensibilizasio de um espago pabl ‘co, que & cada vez mats questionado pelo proceso que estamos “vendo —e iso fol bastante debatido. Claudia Batiner proce: Tou entaofocalizar como é que se poderia ver esse segundo des ‘obramento, um desdobramento positive que de certo modo ‘eseapa a0 mereado. ‘icjo af uma série de problemas também. Fim seu panorama, «la passou por vrios artistas importantes nesse process (Christ Bollanal, Buren), fazendo sealmente wm mapeamento do que fot essa taeda durante os Glimos inte anos. Mas, de certo modo, fo chegar ao final da ua Sntervencio, fui fcando melancslen 8 ‘medida que ela ft desenvolvendo sua andlise. Comecet a ver que igo é a fronteira entre a ate e a vida que fl se apagando no processo, nem que. sentido politico, provocative ou revolucions Soda are fol seatenuando, Fut leando melaneilico porque, er Sits exposigio, A medida que a evolugio dessa tendéncia fo che- fando até nds, vos que os artistas comegaram a se tomnar ass tente socials, antmadones culturas, a se tomar fucitadores de ‘omuneagao (alguns mais ineligentemente, autros menos). De ‘qualquer modo, fend papel do que se channa de terceltose- {or como as ONGs fazem quando o Estado de benm-estar se retra fedelxa as pessoas entregues a prdpria sorte, Ento, essa pop {a0 que esta destiogada, frgmentada, que estfjustamente em froceaso progressive de perda de Mentidade, vai receber dos ar- {istasalgum apoio pra aflemagio de uma identidade perdida ou fem via de desaparecer. ‘Greio que os trabulhos que ela mostrou tém uma qualidade muito grande, alguns so muito agudos. Destacaria, por exer, de Boltansiie também o trabalho de Hans Haack — que pot final fot por ele mesmo apresentado em slides aqui no Goethe tm ou dois anos aris; fol nteressante notar que esse trabalho fot destru, De cetta manera, po intensidade da questo his térlea que eolocaa,o trabalho fo destruido por wma parcela da popuigo que néotoleava justamente a emergéneia da historia rhage site, digamos assim, naquele local em que 0 artista fot buscar histri que estava ll soterrada Tabalhos desse ipo sto ‘mui interessntes, mas eu disa que, numa perspective nossa, de pats periféric, eles so mals ineressantes do que aqueles que Claudia Batiner mostrou depois, sugrindo que fossem feos no Brasil, como, por exemplo, 0s pequenas traballos de weforco da ‘dentidade no plano comunitri, or que estou dizendo is90? Porque tenho a impressio que trabathos como 0 de Haack vao sensibilizar 0 processo que ests acontecendo nas eidados. Flos vio sensibilizarJstamente a8 rads de histriae de destruigio da istria portant, de mend ria ede ientidade também. Ent, esse tipo de trabalho me parece interessante. Agora, considerand a questi a potir de Sao Pa creo que o trabalho de tentarreconfortar ot reabiliar a Xdentda de porida das pessoas & uma questio problemitica¢, de coro ‘meal, sem said Por qué? Porque estamos viendo uma situagio| fem que a identiade e o invidio ft foram perdidos. Eo cdadio {a periferi, ns 40 pemlemos antes de @-o formad complet mente, ndo ehogamos li; até para tntar defender um eidado & necessdrio construe uima cidadania, que agora ests sendo des montada © invlbilizada muito rapidamnente. Se isso é verdad, ‘reio que J4 io hi mais a possiildade de tentar construlr ou resgatar uma identidade: com sua sagacidadee capacdade de re ceuperagio, 0 capital yal muito mais ripido na dissolugto dessa ‘dentidade A prépria maneisa como oeapital processa 4 arte um sinal desa vloesdade Se nos lembrazmoe de cectos comentiies de Gilles Deleuze sobre a sociedade de controle, que & soeiedade na qual todos fstamos entrando —embora de modo difeenciado no Primeiroe ho Terceiro Mundos —, veremos algo bem interessante: segundo fle, na sociedade de contol, 0 avo no € um indviduo, 0 que o rer process én individual. Ou se, si estratos infra individ visadoseimestidos pelo poder num plane muite mais stl do que 13 ‘odo proprio indviduo, Como Iso se passx? Ths extratos to pro- ‘esstdos a partir da eaptagio das vrwaladesinfes-ndieduals e tratados ness nivel infra-individal. Com arte contemporinea ‘capital est fazendo mesmo, de certo modo indo até mats répido {do que el, vsailo as virtualldades em todos os planos da existe ‘da —e a8 vsando para desenhar ot programat © modo como ‘estas iro se atuallat Quando se tabalha no plano ina-indivi- ‘tual — por exemplo, quando so considerados os meninos de pe ‘feria —, eles no vao ser processados pela miquina como Individuos, mas sim como consumidores de crack, ou como crn: ‘9s sem pal, ou como meninas de rua. Nao so mais individuos ‘que contam e @ investimento do poder sobre cls va se dar de Imaneira infra individual. & tentatva de rocuperagio do Indiv duo, de eerta maneiea, é uma baalha pera, "ho ous sa exposigao, a ila que me velo caboga quanto 2 questio do espago pblico &a segunte: 0 expaco pablico nas cidades europélas€ um espago eri, est se transformande am espugo erica na medida em que 6 questonado pelo cores ago e por todo esse processo que est acontecendo com ase fles, Mas na periferia de uma grande cidade como Sao Paulo, tessa questo de espace public se coloea de unt manelra muico ‘mais radieal do que no Primeiro Mundo. Veja, por exemplo, na ‘ima Documenta de Kassel discussao sobre o que Catherine David chamov de parcours, eo questionamento da deamiulagio na cidade, da ineegragao da arte no eireuito urbano ete. Eu feo guid perferiapensondo oseguinte: em Kassel, Catherine David lta para que os artistas trabalhem as chamadas ruinas do pre fente, prodirdas pelo processo de globalizacto. Mass, da pe rifera, de uma eidade como So Paulo, perguntamos: como & ‘que podemos pensar 4 relacio entre a construcio de ruinas do presente em Kassel ¢ etn Sto Paulo? A diferengs de escala é Bigantesca, porque a produgto de rinas do presente nesta He zn a produc de destruigso da propria cidade adquirem uma ‘elocidade tio grande que fleo me perguntando seo site specie «4 conta de manta ¢ expresar esse process, Talvez, part 6s, 2 questio interessante sg como a arte poderia colocae a ques to da produgio de destruicio em Si0 Paulo? E entio verifico ‘que quando comecamos a ouvir um pouco 0s urbanites, os a ‘quitetos ou mesmo os artistas numa cidade como esta, veo que ‘problesna principal que o impede de colocer a veladeira ques ‘io, no mew entender, é que ees disetem a cidade ou a erise da cidade nos parimetros em que fora ou siv colocados pela dis «cussio européia e americans, Pes nio partem desta cidade, que 4 meu ver, jf nfo é mats uma cidade, Terfamos, talvez, que co” egar a tentarverificar oque acontcce com wma cidade quando laf se transformou, nao em uma eae morta, ms quando pas. sa a expressara morte da meteépole moderna. Isso fol entendido, ¢ paradosalmente entenddo, por um ae no muito interessante, o pintor Anselm Kiefer Ele velo a Si0 Paulo, andou por agut ¢ vt que io existe mais expago para 0 hhumano nesta cidade. Ent, como eaptou Sto Paulo? De hel ‘copter, visa de cima. Ele pitou-a vista de cima e na série de ‘quadros que prduziu tems Lith, a deusa procetora das eldades ‘morta, ou suas thas, pairando sobre a eldade. O modo como ele | apresenta ¢ 0 de urna grande meteipole-necrdpoe, & eurioso er, poraue Sto Puilo € uma cidade agitatssima, que Cem uma Intensidade muito forte. Cabe entio penguntar como um lugar ‘to frenetic pode ser representa ou apresentado de um moxlo lo sllencioss como uma metripole-necrépole? Acho que € por ‘aussa da panto de vista no qual ele se coloeos, studs na Interseegio entre o mito «hist. Ao se eolocarna perspectiva de Lath vendo a cidade, ele vi, por erds da agiagia a morte da metrdpole moderna. E pense ser muito interessante el ter perce bido 880, pots era preciso que alguém se dispusesse a vero que a ‘cidade express para alom da sua historiidade. E também para ‘ver como Sip Paulo € una edade que é a morte da cidade [Nao se se me fiz entender, mas era hasteamente isso que et sostaria de colocar Para Malizay, quero ler ut texto que eserev Ing dois anos para Paolo Gasparini, um fotOgrafo taloverezuelano ‘que velo a Sio Paulo e fez um trabalho mit forte sobre a cidade, [Nos itis anos, ele tom ftagrafide as metrdples do Terceiro Mundo — Cidade do México, So Paulo, Caracas eoutas. Ache muito instante 0 modo como ftogeafou Sto Paulo; pode-se di ‘er que era olime fot6grafo modemo fotografindo uma cidade ‘tue €a morte da cidade moderna, Quando vi a imagens que cle ‘queria editar ex iro, fiz um texto, um pequeno texto, que per saneceu inédita porque o limo nao fl publiado. Gostaria dK to porque me parece que cle refete ur pou a diiculdade que {emos em liar com tima cidade como Sao Paula. O texto diz 0 soguinte ‘ao Paulo nao mais uma cidade -constatago dura de acetar A cidade deiwon de sex No porter sido promovida & meré: pole, e, recentemente, a metrépole global, A cidade detzou de ser porque o espirita da cidade nao habita mats seus maradores. O ‘expirito ndo est mats Id, exgrgow-se até romper se sob as forcas ‘concomitantes complementares da riqueza ¢ da miséra, que, desonfreadas, tomaram conta do expago e do tempo, violentando os lugares as pessoas, So Paulo 6a cidade que detzou de sex Seu pita se evaneceu e agora tudo comeca a mostrar os sinais da tdesagregagdo eda decomposicdo, Mas ninguém se importa com 0 ‘que jd aconteceu, acontece ou es por aconteeer A agonia da ci ‘lade é um efeitocolateral que ninguém vé, nem quer ve. [Nao éque a metrdpote ence demais etornow-s ingovernd- vel Nem que la eareceu tanta de planejamento urbano que agora tormow-se ‘mpossivl. isso mato mais, Sao Paulo explode ‘mplodinde, se estlhaca como cidade fundindo num magma cad: ‘Heo cada um dos seus fragmento. Co-exiténeia de um movimen: to paradoxal,ceneripetoe centrifuge. ‘0s priileiades, sentindo na pele o feos da desagregago, desercaram,refugiando-se nos unkers em que setransformaram ‘as casas, of eifitos, 0 shoppings Foi tudo quase tmperceptivel, talvez porue eatendeu-se ao longo de duas décadas. Primetro, a ‘elite abendonow a rua, trocandea pelos expacos fechados; depois, ‘abreu mao do wrbano ¢ da urbanidade: enquento agin se trans: eriam para Mlam, os que iearam trancaram os automvets, para ‘no falar dos blindatos que estdo se ‘democratizando’echegando 2 classe meéia. Agora, com a saturaga do trfego, a pane dos servos, a escalada da criminatidade, o asséiodos miserdveis,« proiferagao das mafias ea corrupei faléncia de peter muni pal, a elite parece ter deststid da cidade mesma. Sdo Paulo s6 é ‘metrépole do capiatismo global nas reds ebernéticas, nos re faxrantes ¢ boutiques de lxo, nas pequenas thas de afluencia ‘guardadas por ede, segurancase toda uma arguitetura de campo ‘de concentragdo que protge seus felizespriioneros. O resto 69 ‘ane ningném quer vere todos se exforcam por ignorar A propria avenida Palisa, expe ccartdo pest do empreen ‘tedor modern, além de coraga fnanceiro de pas, nao escapa do process. Quando o Estado de Sao Paulo ‘acordow, assustado com sa provdeltramsformacdo numa nova Avenida Séo Jodo, $4 era tarde demas. Os bem-pensantes acham que os camelds poluem a ‘avenidae querer ensoti-bos dall. Mas quem se digna contra a tenda depléstico que a dingo do Masp tnstalou no to, obstrain ‘do precisamente a vista da cidade? Ou contra as barragutahas dos ‘antiguérios armadas aos doningos? Quem se incomoda com a ‘transformagao do proprio muse (o que ha de melhor em termos de sangutetura na cidade) mum cabide onde ve pendura todo 0 liso ‘conagrifco das empresas? A ole paulistana dest de Sao Palo « passow a conceber a espace urbano como um terreno baldio, onde endura as mensagens e imagens que quer vender para ‘0 ou tros’ sé ver sua volpia para emporcalhoraavenida Paulista e ‘08 pontos ‘nobres’, com suas faixas,eartazes, outdoors, displays ‘letrdniens toda a paraferndia kitsch que amon, sobre os te pos eresios dos miserdeers, 0 lxo das sonhos de consumo, ‘No expaco urbano agontzante weit projetaeconstrd, com ima gens, asua cidade — que é ao ou mats miserdel quanta aquela que la pretend ignorar. O resuado exibe obsconidade,vulgaridade ¢ truculencia por meio das quai wna classe driente rape, sobre a realidade a reatdade da imagen. O resultado desseaclo descend ta orga virtual do mereado com a violencia atual da miséia, w. Fm Sao Panto, os que esto por cima ou ndo aparecem ou 0 fazem atracss da imagem. Os gu esto por bain cepa 0 chao ‘embatxo, ards, dentro das mensagens e imagens lo outro manda Sao seresconcretos, tangieis,trimensionals, de carne eass0— ‘eres vivos. Mas porque habitam a cidade como ndo-pessoas, ito 6, ‘sujltos monetdrios sem dinkcir’, para usar a expressdo de Robert Kure, surgem como presengas quase irreais, ds vezes surreais, em todo caso sempre inadequadas ¢ ‘noportunas, pre sencas excesscus, nsstentes, que oar ndo quer econhscer nem fceita,presengasimprevatas que @ mente procira aboliPow ee tar. Nao se pense, porén, que a cidade é dees; muito ao contrério, Embora nela viva, af estdo como excluldas e por 80 parecem tao destocados, to sé, tao fantasmagéricas. Como se 9 imenso desej de elemind-tos da passagem urbana coasie em sua hum idade, mavcando-o¥ ao mesmo tempo como signos idole da diferenga eda indifrenca, que tes conferem um aspecto or pa ‘etic ora desesperado, oe absurdo ora alucnad, Entre os que deseraram eos que foram deserdados, nem pia legiados nem exculdos, passa pola cidade, aninimos © dese ruizadas, os rabathadores que compaem a massa hana, Para les 1 cidade parece redacirse ao longo e cansativotrajeto de easa ao ‘rabatho, ao tempo perdido do eransporte, Da perifera ao centr, do contro perferiao expago urbano &o que se isereve entre dois onto, cao sentido ameacador sera dado pels programas de ri dio e035 tlejornaissensacionatistas. Que uinenlas poem eles tecer ‘am uma cidade tema e evita sempre que pssivel? esertada, deserdada,evtade, «cidade detxou de ser, So Pa lo, ratnas do present"? A expresso é dela e serena demats para designar wm feror destratio, ena fore se az senter mesmo quedo realeamos equeremos nos iludtr com as tmprovdveis chances de wma redeneto Sao Paulo néo é uma cidade em ruinas, pois uma eldade em rutnas sempre pe ser rocnstradda. Agu estdo sendo destrogadas o conccto e a passbilidade meer de cidade. ‘Sao Paulo éa morte da aura da cidade.