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Ordenações Filipinas- considerável influência no direito brasileiro

O sistema jurídico que vigorou durante todo o período do Brasil-Colônia foi o mesmo que existia
em Portugal, ou seja, as Ordenações Reais, compostas pelas Ordenações Afonsinas (1446),
Ordenações Manuelinas (1521) e, por último, fruto da união das Ordenações Manuelinas com as
leis extravagantes em vigência, as Ordenações Filipinas, que surgiram como resultado do domínio
castelhano. Ficaram prontas ainda durante o reinado de Filipe I, em 1595, mas entraram
efetivamente em vigor em 1603, no período de governo de Filipe II.

Não houve inovação legislativa por ocasião da promulgação da Ordenação Filipina, apenas a
consolidação das leis então em vigor. O foco eram casos concretos reduzidos a escrito, isto é,
essa legislação estava muito distante do tipo de consolidação que se deu na França no início do
século XIX, como conseqüência da Revolução Francesa, na qual se baseiam os nossos atuais
códigos, que buscam sanar as contradições, repetições e lacunas - as consolidações da época mal
tinham uma parte geral, com regras abstratas. Além disso, como não era intenção de Filipe I e
Filipe II, castelhanos que circunstancialmente governavam Portugal, impor novas leis a esse povo,
aproveitaram-se das normas já existentes, optando por não corrigir as contradições e lacunas
anteriormente existentes. A norma editada seguia a estrutura dos Decretais de Gregório IX,
dividindo-se em cinco livros que continham títulos e parágrafos: (I) Direito Administrativo e
Organização Judiciária; (II) Direito dos Eclesiásticos, do Rei, dos Fidalgos e dos Estrangeiros; (III)
Processo Civil; (IV) Direito Civil e Direito Comercial; (V) Direito Penal e Processo Penal. Destaca-
se o livro II, que demonstra a principal característica dos direitos do Antigo Regime, ou seja, a
existência de normas especiais para cada uma das castas que compunham a sociedade daquele
período.

Como os costumes que imperavam à época eram muito variados e locais, a regra que vigorava nos
julgamentos era, sempre que possível, seguir a jurisprudência do mais alto tribunal do Reino - a
Casa de Suplicação. Construía-se, assim, uma forma de buscar uniformidade nas decisões e, em
última instância, fortalecer o poder central em detrimento dos vários poderes locais. Nos casos a
serem julgados e que não estivessem previstos nas Ordenações Filipinas, casos omissos da
legislação nacional, aplicavam-se subsidiariamente (i) o direito romano (Código de Justiniano), a
partir das glosas (interpretações) de Acúrsio e das opiniões de Bártolo ou (ii) o direito canônico.
Este último invocado quando estivesse em voga o pecado, como nos casos de crimes de heresia
ou sexuais. Portanto, para julgar os casos que a eles chegassem, os tribunais deveriam ter à sua
disposição o texto das Ordenações, o Corpus Iuris Civilis de Justiniano (glosas de Acúrsio) e os
textos de Bártolo. Na falta de qualquer solução a partir dessas fontes, e não fosse o caso passível
de ser avaliado pelos tribunais eclesiásticos, deveria ser remetido ao rei. A decisão proferida pelo
rei passava a valer como lei para outros feitos semelhantes.

As penas previstas nas Ordenações Filipinas eram consideradas severas e bastante variadas,
destacando-se o perdimento e o confisco de bens, o desterro, o banimento, os açoites, morte atroz
(esquartejamento) e morte natural (forca). Mas, como típica sociedade estamental da época, não
poderiam ser submetidos às penas infamantes ou vis os que gozassem de privilégios, como os
fidalgos, os cavaleiros, os doutores em cânones ou leis, os médicos, os juízes e os vereadores.

É de salientar que a aplicação do direito no vasto espaço territorial do Brasil-Colônia não fazia
parte das preocupações portuguesas, já que o objetivo da Metrópole era principalmente assegurar
o pagamento dos impostos e tributos aduaneiros, mas mesmo assim as Ordenações Filipinas
foram a base do direito no período colonial e também durante a época do império no Brasil. Foi a
partir da nossa Independência, em 1822, que os textos das Ordenações Filipinas foram sendo
paulatinamente revogados, mas substituídos por textos que, de certa forma, mantinham suas
influências. Primeiro surgiu o Código Criminal do Império de 1830, que substituiu o Livro V das
Ordenações; em seguida foi promulgado, em 1832, o Código de Processo Criminal, que reformou o
processo e a magistratura; em 1850 surgiram o Regulamento 737 (processo civil) e o Código
Comercial. Os Livros I e II perderam a razão de existir a partir das Revoluções do Porto em 1820 e
da Proclamação da Independência brasileira

O livro que ficou mais tempo em voga foi o IV, vigorando durante toda a época do
Brasil Império e parte do período republicano, com profundas influências no nosso
atual sistema jurídico. As Ordenações, portanto, tiveram aplicabilidade no Brasil por
longo período e impuseram aos brasileiros enorme tradição jurídica, sendo que as
normas relativas ao direito civil só foram definitivamente revogadas com o advento do
Código Civil de 1916. O estudo do texto das Ordenações Filipinas é salutar para a
compreensão de boa parte dos nossos atuais institutos jurídicos.

Jornal Carta Forense, segunda-feira, 4 de setembro de 2006

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