A Amiga Genial

Infância, Adolescência

Infância.com) ©Relógio D'Água Editores. Lda. Novembro de 2014 Encomende os seus livros em: www.0: 384238/14 . Adolescência Título original: L'amica geniale . Depósito Legal n.relogiodagua.cvasconcelos.pt ISBN 978-989-641-479-5 Composição e paginação: Relógio D'Água Editores Impressão: Guide Artes Gráficas.: 218 474 450 fax: 218 470 775 relogiodagua@relogiodagua. adolescenza (2011) Autora: Elena Ferrante Tradução: Margarida Periquito Revisão de texto: Inês Dias Capa: Carlos César Vasconcelos (www.Infanzia. n.relogiodagua. Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo.pt www.pt L'amica geniale © 2011 Edizioni e/o Publicado por acordo com The Elia Sher Literary Agency Título: A Amiga Genial .0 15 1000-282 Lisboa te!.

Elena Ferrante A Amiga Genial Infância. Adolescência Tradução de Margarida Periquito Ficções .

A acção do Homem depressa se atenua. J. por isso. Goethe. Em pouco tempo já quer repouso inteiro. De todos os espíritos negadores É o Maligno o que menos me agasta. Nunca odiei os seres da tua casta. Fausto . mandar-lhe um companheiro Que o espicaça e incita e como diabo actua.O SENHOR: Fica à vontade. É bom. e vem quando quiseres. W.

Rino Cerullo. Rino será também o nome do filho deLila. Carmela Peluso. O pai é porteiro da Câmara. Outros filhos. A família Greco (a família do porteiro): Elena Greco. Pinuccia e Alfonso Carracci. mãe deLila. a quem chamam Lenuccia ou Lenu. os outros dois filhos de dom Achille. Outros filhos. filho de dom Achille. Pasquale Peluso. Giuseppina Peluso. filho de Alfredo e Giuseppina. mulher de Alfredo. também sapateiro. a quem todos chamam Lina. Raffaella Cerullo. Maria Carracci. É a mais velha. que também responde por Carmen. sapateiro. pedreiro. Gianni e Elisa. dirige a charcutaria da família. Nunzia Cerullo. A família Peluso (a família do carpinteiro): Alfredo Peluso. seguem- -se-lhe Peppe. irmão mais velho deLila. irmã de Pasquale. mulher de dom Achille. Stefano Carracci. só Elena lhe chama Lila. carpinteiro. A mãe é doméstica. o papão das histórias infantis. . cai­ xeira de retrosaria. Índice das Personagens A família Cerullo (a família do sapateiro): Fernando Cerullo. A família Carracci (a família de dom Achille): Dom Achille Carracci.

também vendedor de fruta e hortaliça. prima da mãe deLila. Rosa Spagnuolo. Outros filhos.10 Índice das Personagens A fann1ia Cappuccio (a família da viúva maluca): Melina. Antonio Cappuccio. professor da escola secundária. Galiani. A fann1ia Sarratore (a família do ferroviário-poeta): Donato Sarratore. Os professores: Ferraro. mecânico. Gigliola Spagnuolo. que descarregava caixas no mercado da fruta e da hor- taliça. Manuela Solara. professor e bibliotecário. o filho do farmacêutico. Oliviero. os filhos mais novos de Donato eLidia. Nino Sarratore. mulher de Donato. . O marido de Melina. professora da escola primária. filha de Donato eLidia. Nella Incardo. filho de Nicola e Assunta. Clelia e Ciro Sarratore. Assunta Scanno. Ada Cappuccio. A família Solara (a farm1ia do proprietário do bar-pastelaria homónimo): Silvio Solara. Marcello e Michele Solara. vendedor de fruta e hortaliça. Enzo Scanno. A família Spagnuolo (a família do pasteleiro): O senhor Spagnuolo. pasteleiro do bar-pastelaria Solara. viúva maluca. Outros filhos. Marisa Sarratore. seu irmão. o mais velho dos quatro filhos de Donato eLidia. mulher de Nicola (Nino). mulher do pasteleiro. dono do bar-pastelaria. Outros filhos. Pino. Gino. A família Scanno (a família do vendedor de fruta e hortaliça): Nicola Scanno. filha do pasteleiro. de Ischia. Gerace. mulher de Silvio. prima da professora Oliviero. professora do liceu. filha de Melina. filhos de Silvio e Manuela. Lidia Sarratore. revisor.

Prólogo Apagar o rasto .

Nada. que eu acolheria com prazer. me­ tade em italiano . nunca saíra de Nápoles em toda a sua vida. Ele é que era viajante .» Mas acabara por ficar preocupado . dos seus quarenta anos . faz o que lhe dá na gana. que nunca trabalhara na vida. Nunca tem sono . como de costume . e só gostava de si próprio . ela piorou . a mãe não esta­ va em parte nenhuma. já viera a minha casa pelo menos dez vezes . Imaginei o cuidado com que fizera as buscas . Rino telefonou-me esta manhã. Tentou desculpar­ -se mas fê-lo confusamente . Perguntara a toda a gente . «Há quanto tempo?» «Há duas semanas . só negociatas e esban­ jamento . Disse que estava convencido de que a mãe andava a passear por Nápoles . 1. Tu não a vês há muito tempo . pensei que quisesse outra vez dinhei­ ro e preparei-me para lhe dizer que não . sai . «Não estará aí contigo?» . Não tinha miolos . Que filho tão bom ! Um homem corpulento .» «Pois sei . atrapalhando-se . entra. perguntou-me de súbito . «Mesmo de noite?» «Bem sabes como ela é. falava só por falar. Nenhum .» «E agora é que me ligas?» O tom deve ter-lhe parecido hostil . Ao passo que a mãe . sem ser convidado . dera uma volta pelos hospitais . A mãe? Aqui em Turim? S abia perfeitamente o que se passava. Respondi-lhe: . até tinha ido à polícia. Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe . metade em dialecto . tinha apenas uma ponta de sarcasmo . mas achas normal duas semanas de ausência?» «Sim. embora eu não estivesse zangada nem indignada.

E como a conheço bem. A sua intenção foi sempre outra: queria volatilizar-se. para onde foi ela?» Começou a chorar e deixei-o fazer a fita de quem está desesperado . . Fui vendo o correio electrónico e o correio normal . mas toda a gente a tratou sempre por Lina. ao menos uma vez . Aprende a viver sozinho e não voltes a ligar-me também. A mãe de Rino chama-se Raffaella Cerullo . Para mim. É inútil . era sinal de que a nossa amizade chegara ao fim. Há pelo menos trinta anos que me diz que quer desaparecer sem dei­ xar rasto . 2. assim de repente . tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo . Preferia o telefone ou as longas noites de conversa quando eu ia a Nápoles . E nunca pensou em suicídio .» «Mas o que estás tu a dizer?» «Aquilo que ouviste . ou pelo menos creio que conheço . queria que todas as suas células desaparecessem. que dela não fosse possível encontrar nada. nunca fiz uso de nenhum desses nomes . já te disse que não está. Se lhe chamasse Lina ou Raf­ faella. Nunca lhe passou pela cabeça uma fuga. 3.» E desliguei . e ela quase nunca me respondeu . de ser obrigado a ocupar-se dele . Passaram-se dias . Sempre lhe escrevi com frequência. e só eu sei bem o que ela quer dizer.» «Tens a certeza?» «Por favor. o sonho de refazer a vida noutro lado . mas sem esperança. comporta-te como ela desejaria: não a procures. Rino . Eu não.14 Elena Ferrante «Claro que não está aqui comigo . há quase sessenta anos que é Lila. pois repugnava-lhe a ideia de Rino ter alguma coisa a ver com o seu corpo . uma mudança de identidade . soluços que começavam por ser fingidos e se tomavam verdadeiros . disse-lhe: «Por favor. Quando terminou .» «Então . O hábito foi sempre esse .

mesmo aquelas de quando eu era pequeno . quando lhe dava jeito . «Vi que ligaste . Descobri que não tenho nada dela. a s caixas d e metal onde guardo todo o géne­ ro de coisas . fazer um apelo . tudo . Desaparecido o computador. «Não há cá nada. Deitei tanta coisa fora. que eu não tenha querido conservar qualquer coisa dela? É possível . que começara a familiarizar-se com os computadores em finais da década de sessenta.A Amiga Genial 15 Abri a s minhas gavetas . mas depois telefona-me e diz se encon- traste nem que seja só um alfinete que lhe pertença. Desta vez telefonei eu a Rino. Eu própria me surpreendi . Desaparecidos os filmes . É possível que em todos estes anos não me tenha deixado nada de si . As fotografias . Os sapatos dela. nem um bilhete . Os poucos livros que possuía.» Disse-me coisas sem pés nem cabeça. nada?» «Não . Rino estava estupefacto . principalmente o que se relacionava com ela. e ela sabe-o . pior. ou .» Ligou-me no dia seguinte . Escutei com paciência.» «Procuraste bem?» «Em todo o lado . «Vai ver. suplicar-lhe que volte . Mandei-o procurar pela casa toda. fi-lo contrariada. Disse-lhe: «Leva o tempo que quiseres . Tens notícias?» «Não . Ligou-me ao serão . Queria ir à televisão . nem uma imagem. nem uma prendinha. desaparecidos . desaparecidos . ao pro­ grama onde se fala das pessoas desaparecidas . de Verão ou de Inverno . nem um vestido da mãe .» «Nada. bem como as velhas disquetes que dantes se usavam . todas desaparecidas . todas as coisas relacionadas com a sua expe­ riência de feiticeira electrónica. a coisa mais óbvia não lhe ocorrera. no tempo dos cartões perfurados . só as cruzetas velhas . pedir perdão à mãe por tudo .» Foi e verificou que não havia lá nada. Tinha o tom de voz com que tenta causar pena.» . E tu?» «Nada. depois perguntei-lhe: «Viste o guarda-fato dela?» «Para quê?» Naturalmente . Recortou a imagem dela de todas as fotografias em que está­ vamos juntos . Poucas . Não atendia no fixo nem no móvel . muito agitado .

como é costume. velhas certidões de nascimento .» «Amanha-te .16 Elena Ferrante «Na cave . Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto .» Desliguei e . Lila está a exagerar. tudo aquilo que me ficara na memória. re­ cibos de contas . aos ses­ senta e seis anos. também?» «Em todo o lado . Senti-me deveras irritada. Liguei o compu­ tador e comecei a escrever os pormenores da nossa história. contratos telefónicos . disse-lhe que estivesse descansado . pensei . quando ele voltou a ligar. não sei como lidar com isto. não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás . . Sentei-me à secre­ tária. «Posso ir passar uns dias a tua casa?» «Não . Agora. desta vez . não consigo dormir. Rino . sobretudo dele . O que significa isto? Que alguém roubou tudo? O que procuravam? O que querem da minha mãe e de mim?» Tranquilizei-o . Sei lá. Até a caixa com os documentos desapa­ receu . disse para mim. já te disse . Vamos ver quem vence .» «Por favor. Era improvável que alguém quisesse alguma coisa. não atendi .

Infância História de dom Achille .

de olhos semicer­ rados . Em minha casa. Pela maneira como o meu pai falava dele eu imaginava-o corpulento . esperando que as baratas não me su­ bissem pela pele e que os ratos não me mordessem. de olhar para ele . degrau após degrau . e eu fazia o mesmo logo a seguir. dos odores de um entardecer ameno de Primavera. pendurava-se da barra de ferro a que estava preso o arame da roupa. e dirigiu-se para o prédio onde morava dom Achille . Lila trepava até à janela do rés-do-chão da senhora Spagnuolo . tinha de agir como se ele e a farm1ia não existissem. eram horas de ir para casa. e depois . Lila espetava sob a pele o alfinete de segurança ferrugento que achara na rua sei lá quando . firme . cheio de borbulhas violá- . As mães estavam a fazer o jantar. dentro e fora da escola. embora com medo de cair e de me magoar. sem dizermos uma palavra. Lila enfiava a mão e o braço inteiro na escuridão de uma boca de esgoto . balançava-se e depois deixava-se cair para o passeio . A nossa anúzade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir as escadas escuras que . quando ela o retirava e mo estendia. estava terminan­ temente proibida de me aproximar dele . eu observava a ponta de metal a abrir-lhe um túnel esbranquiçado na palma da mão . mas que guar­ dava na algibeira como se fosse o presente de uma fada. A certa altura lançou-me um olhar dos dela. de o espiar. mas nós deixámo-nos ficar. e não só na minha. de lhe falar. Lembro-me da luz violácea do pátio . e eu em seguida fazia o mesmo . Havia algum tempo que não fazía­ mos outra coisa. dando provas de coragem ao desafio . com o coração aos saltos . 1. Gelei de medo . havia uma animosidade e um ódio para com ele que eu não sabia de onde vinham. fazia a mesma coisa. Dom Achille era o papão das histórias infantis . lanço após lanço . iam até à porta do apartamento de dom Achille .

mas nada ouvimos . Esperei um pouco. Ficou-me a impressão do ombro a roçar pela parede esfolada e a ideia de que os degraus eram muito altos. Os candeeiros da rua ainda não se tinham acendido . a princípio não via nada. . não . E então . Esse gesto mudou tudo entre nós para sempre . empoeiradas . daquelas para abrir o peito às galinhas . quando a alcancei . deixando amplas zonas de sombra.20 Elena Ferrante ceas . Estava toda suada. ela não sei . como o meu pai fazia com os salmonetes . Maria. No quarto lanço Lila comportou-se de forma inesperada. para ver se Lila reconsiderava e desistia. Ela achava que estava a fazer uma coisa certa e necessária. Depois habituei-me ao escuro e vi Lila sentada no primei­ ro degrau do primeiro lanço de escadas . sem dúvida. nem as luzes das escadas . Quando finalmen­ te me decidi . mas pálidas . De repente as luzes acenderam-se . dois degraus à frente . Acredi­ tava que mesmo que o visse só de longe me lançaria para os olhos qualquer coisa aguçada e ardente . Cada ruído de passos ou de vozes era dom Achille que subia atrás de nós ou que descia ao nosso encontro com uma grande faca. Era um ser feito não sei de que matéria. cheias de pe­ rigos . tentando perceber se fora dom Achille que girara o interruptor. Parámos muitas vezes . se cometesse a loucura de me aproximar da porta de sua casa. só se via o tom cinzento das janelonas em cada patamar. Para acompanhá-la tinha de sair da luz azulada do pátio e penetrar no negrume da porta. De vez em quando Lila olhava para o alto . Esperámos . violento apesar do «dom» . Sentia-se um chei­ ro a alho frito . Das casas chegavam-nos vozes nervosas . eu esque­ cera qualquer boa razão e . urtigas . mais altos do que os do prédio onde eu morava. íamos expor-nos ao medo e questioná-lo . dirigindo-nos para o maior dos nossos terro­ res de então . e eu segui-a. nem porta nenhuma a abrir ou a fechar. ferro . Avançámos encostadas à parede. vivo e com um bafo escaldante que lhe saía do nariz e da boca. que me sugeria uma autoridade calma. os filhos comer-me-iam e ele chuparia a minha cabeça. sentia apenas um cheiro a coisas velhas e aDDT. Subíamos devagar. e de cada vez esperei que Lila resolvesse vol­ tar para trás . Parou à minha espera e . Sabia o que ela queria fazer. vidro . Levantou-se e começámos a subir. mas vivo . deu-me a mão . matar-me-ia. mas afinal . a mulher de dom Achille . só estava ali porque ela também estava. ela. dois degraus atrás e indecisa entre encurtar a distância ou deixá-la aumentar. nem passos . Tremia. esperara em vão que se esquecesse. Depois Lila continuou . meter-me-ia na frigidei­ ra com óleo a ferver. mas não percebi porquê . eu .

Gostávamos daquele sítio . Usava um vestidinho azul que a minha mãe lhe fi­ zera num raro momento feliz . Para cima ou para baixo . em dialecto: Tina. tinha um corpo de trapo amarelado cheio de serradura. Tinha cara de plástico . que se chamava Nu . pregos . tirara-me a bone­ ca à traição e lançara-a para dentro de uma cave .dez dias . à espera do amanhã . Ali púnhamos pedras . e eu no outro . por entre as grades e contra a rede de protecção da fresta. Eu captava o que Lila dizia a Nu e dizia o mesmo a Tina em voz baixa. sei lá. a minha boneca sabia mais do que eu . nessa época . mas fazendo de conta que não brincávamos juntas . Falava com ela. num dos lados da fresta de uma cave . as coisas da minha boneca. senão vais ter frio . isto é o dia. para o desconhecido .. talvez nem sintamos necessidade disso . florzinhas . ela falava comigo . No resto não querem pen­ sar. Até aquele . Se ela pegava numa tampa e a punha na cabeça da boneca como se fosse um chapéu . as escadas são estas . que se chamava Tina. A culpa fora dela. Espiavam-se mutuamente . lascas de vidro . Quando se está há pouco tempo no mundo . A boneca de Lila. é difícil com­ preender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre . cabelos de plástico e olhos de plástico . e era linda. Eu era pequena e. e a correr.A Amiga Genial 21 2. vendo bem . este é o papá. tampas de gasosa. e da boneca de Lila. As crianças não sabem o significado do ontem . põe a coroa de rainha. Os adultos . para mim era feia e asquerosa. isto é a noite . esta é a mamã . embora existisse havia mais tempo do que nós . daí a pouco eu punha Tina a fazer o mesmo . nem do amanhã. tudo é isto e agora: a rua é esta. eu dizia à minha. parecia-nos sempre que íamos ao encontro de algo terrível que . e nessa altura tínhamo-nos sentido na obrigação de descer. Não havia muito tempo . tiravam as medidas uma à outra . se alguém maior e mais forte e com os dentes afiados lhes quisesse pegar. Brincávamos no pátio . Agora íamos subindo em direcção ao medo . Lila sentava-se no chão . estavam prontas para saltar para os nossos braços se rebentasse um temporal . se fizesse trovões . com ligeiras alte­ rações . Se Nu jogava à macaca nas mãos de Lila. em primeiro lugar porque podía­ mos arrumar sobre o cimento do peitoril . a porta é esta. u m mês . do anteontem. era por nós e só por nós que esperava. não sabíamos nada sobre o tempo . movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada. Mas nunca acontecia combi­ narmos uma brincadeira e participarmos nela em conjunto . pelo con­ trário .

os sentimentos reprimi­ dos mas sempre quase a explodir. sobre os prédios . Era bonito e assustador. no último andar. E depois gostávamos das grades com teias de aranha. Dom Achille . Pressentíamos-lhe os cantos negros . punha-me também ao pé da fresta. sobre os campos. uma aranha entre as aranhas . mas do lado oposto . Por aquelas aberturas o escuro podia tirar-nos de repente as bonecas. 3. ela. Depois . e nele metia matéria viva e morta. Por isso . E atribuíamos a essas bocas escuras . uma forma que assumia todas as formas . tanto do meu lado como do de Lila. até em casa. fingindo que ia para outro sítio . Não confiávamos na luz que incidia sobre as pedras . mas as mais das vezes postas de propósito junto da rede retorcida e portanto expostas ao bafo frio da cave. assim que lhe entreguei Tina. por exemplo . Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. formando duas fendas paralelas . tudo aquilo que nos assustava à luz do dia.22 Elena Ferrante lugar não era escolhido por acordo . aos estalidos . logo no dia em que trocámos de bonecas pela primei­ ra vez sem combinar sequer. enfiou-a pela rede e deixou-a cair para o escuro . tinha-o sempre consigo . através das quais podíamos dei­ xar cair pedras para o escuro e ouvir o ruído quando chegavam ao chão. do escuro e da rede de malha fina. Aquilo que mais nos atraía era o ar frio que vinha da cave. Esse saco era um aspecto funda­ mental de dom Achille . não estava apenas em sua casa. aos ruídos ameaçadores que de lá saíam. Lila ia para lá e eu andava às voltas . como todas as coisas naquele tempo. Os terrores que nós saboreávamos todos os dias eram os delas . Lila sabia que eu tinha aquele medo . como quem não quer a coisa. às cavernas que por trás delas se abriam sob os prédios do bairro . a minha boneca falava disso em voz alta. às raspadelas. sobre as pessoas fora e den­ tro de casa. uma lufada que nos refrescava na Primavera e no Verão . sempre pronto para recolher num grande saco negro tudo o que deixá­ vamos cair pelos cantos soltos da rede . Imaginava-o de boca aberta por causa das compridas presas de animal . ao resmalhar. Naquela turma éramos todas um bocadi- . por vezes em segurança no nosso colo. corpo de pedra vidrada e ervas venenosas . um rato entre os ratos . avermelha­ da pela ferrugem e encaracolada nos cantos . só com olhares e gestos . Nu e Tina não eram felizes . mas também ali em baixo .

debaixo de um bombardeamento. e Lila a olhar para ela de cara séria. A professo­ ra berrou como só ela sabia . O pai da minha mãe trabalhava na construção de um edifício . e depois comido pelos tubarões . atrás do quadro . a bomba. pois continuou a atirar bocados de mata-borrão ensopados em tinta para todos os lados. uma mulher pesadona que nos parecia muito velha. Tenho na lembrança muitos incidentes deste tipo . cheio de pala­ vras que matavam: o garrotilho . Ficou caída no chão como morta. nem sequer pareceu ter-se assustado . a gritar de medo. supuravam. caiu dele abaixo e morreu . ferira-se com um prego e morrera de tétano . o tétano . uma trouxa escura. Um primo meu que tinha vinte anos foi uma manhã remover entulho e à noite estava morto . não conseguiu equilibrar-se e foi bater com a cara na quina de uma carteira. o tifo . A irmã de Giuseppina. embora devesse ter pouco mais de quarenta. Então a professora Oliviero . morrera de tifo . o entulho . ou talvez não. enfiou-os um a um no tinteiro e de­ pois pôs-se a pescá-los com o aparo e a atirá-los para cima de nós . esmagado . um dia morreu porque encontrou uma bomba e mexeu-lhe . Os da farru1ia Mel­ chiorre tinham morrido todos abraçados . que andava na quarta quando nós andávamos na primeira. Ela. a su- . Eu fui atingida duas vezes no cabelo e uma vez na gola branca. morrera de tuberculose aos vinte e dois anos . com sangue a sair-lhe dos ouvidos e da boca. longa e pontiaguda. a guerra. tropeçou não se sabe bem em quê . mas só quando a professora Oliviero não conseguia ver-nos . O filho mais novo da senhora Spagnuolo morrera de garrotilho . o bombardeamento . O pai do senhor Peluso não tinha um braço . afogado no oceano Pacífico . Vivíamos num mun­ do em que crianças e adultos se feriam com frequência. A velha dona Clorinda morrera por respirar gás em vez de ar. era má sempre . Luigina. O que aconteceu logo a seguir não me recordo . Uma vez rasgou o papel mata-borrão em pedacinhos . lembro-me apenas do corpo imóvel da professora.fora para a guerra e morrera duas vezes: primeiro .A Amiga Genial 23 nho más . com quem tínhamos brincado no pátio. com uma voz de agulha que nos aterroriza­ va. mulher do senhor Peluso .nunca o vi mas parecia-me que me lembrava dele . desceu do estrado ameaçando-a. pior do que os rapazes . a tuberculose . e eles por vezes morriam. Uma das filhas de dona Assunta. porém. o tomo arrancara-lho à traição . O nosso mundo era assim. a vendedora de fruta e hortaliça. e mandou-a imediatamente para o castigo . Giannino. o trabalho . era ape­ nas um nome . O filho adulto de dom Achille . o tomo . o gás . Lila não obedeceu . as feridas san­ gravam.

ou se quando subimos juntas as escadas que iam ter a casa de dom Achille e tínhamos oito .24 Elena Ferrante puração . Podíamos morrer. Também se podia morrer de coisas que pareciam normais . atirava-as também . Já nesse tempo havia qualquer coisa que me impedia de abandoná-la. quase nove . Depois . fiz muitas coisas na vida mas sem convicção . parava e esperava por ela. embora cheia de medo . Podíamos morrer se mastigássemos pastilhas elásticas america­ nas e por distracção as engolíssemos . se estivéssemos a transpirar e bebêssemos água fria da torneira sem ter molhado os pulsos primeiro . uma total determi­ nação como característica. tínhamos um ataque de tosse e não conseguíamos respirar.espetar a caneta na madeira da carteira com um movimento preciso . a vendedora de fruta e hortaliça. apesar de estarmos sempre a competir uma com a outra. Remeto para essas palavras e para aqueles anos os muitos me­ dos que me têm acompanhado toda a vida. nunca tínhamos trocado uma palavra. sempre me senti um bocado desligada das minhas acções . como ela não se mexia. A têmpora era um ponto muito frágil . acertar nos . ou o corrimão das escadas escuras . Mas quando notava que ela ficara para trás . Ao passo que Lila tinha. sobretudo . hoje diria elegante . se levássemos uma pancada na têmpora. A princípio ficava escondida em qualquer canto e espreitava para ver se Lila já aí vinha. um dos filhos de Assunta. mas mais novos do que eu e nunca aprendera nada com eles . na aula e fora dela. desde pequena . não sei . ou uma pedra. eu também tinha irmãos . Mas tinha a vaga sensação de que se fugisse . dávamos todas muita atenção a isso . começou a atirar-nos pedras . e as pedradas eram a regra. Quer empunhasse o cabo tricolor da caneta. Não a conhecia bem . Bastava uma pedrada. Mas fazia-o sem convicção . que conti­ nuava a andar no seu passo normal e às vezes até parava. menos Lila. sentia-me na obri­ gação de ir ter com ela. Tinha um irmão mais velho e talvez tivesse aprendido com ele . À saída da escola.. Podíamos morrer.agora não consigo precisar se aos seis ou se aos sete anos . atirar bolinhas ensopadas em tinta. Sentiam-se ofendidos por sermos melhores alunas do que eles . transmitia a ideia de que aquilo que se seguia . Quando as pedras vinham direito a nós fugíamos todas . Podíamos morrer se comêssemos cerejas pretas sem cuspir o caroço . por exemplo. deixaria com ela algo de meu que ela nunca mais me restituiria. um bando de rapazes do cam­ po chefiado por um que se chamava Enzo ou Enzuccio . como as outras . Ficávamos cobertos de pontinhos vermelhos . passava-lhe as pedras . Era muito es­ perta a calcular a trajectória das pedras e a evitá-las com um movimento calmo .

A Amiga Genial 25 rapazes do campo . tinha pelo menos mais três anos do que nós . era repetente. Enzo . Sangue . fornecendo-se de pedras no meio dos carris . era um menino muito perigoso . o braço já estava no ar para fazer o lançamento . Eu agarrei-a por um braço. No instante seguinte estava estendida no passeio com a cabeça partida. fazê-lo irritar-se ainda mais e responder de imediato com tiros igualmente perigosos . Ainda estava agarrada ao braço de Lila quando a pedrada a atingiu na fronte . As raivas deles assustavam-me e tinha sobretudo medo de que . Mas não houve tempo . 4. Uma vez atingimo-lo no artelho direito. um contacto brusco e assustado. Era sempre essa a ordem das coisas . Tinha entre o polegar e o indicador a pedra que se preparava para atirar. Lila. deixando-lhe uma marca vermelha de onde saiu imediatamente san­ gue . Quando falava dele com a minha mãe chamava-lhe «O teu primo» . apesar de ter o artelho a sangrar. proferia insultos e ameaças sem parar se alguém. arrancando-ma da mão. A pedra roçou pela pele de Enzo como uma lâmi­ na. mas a minha mãe negava imediatamente esse laço de sangue (havia um parentesco muito afastado) e reforçava a dose de in­ sultos. Enzo. O meu pai . Sentia um rancor especial por dom Achille . como ele dizia. o cabecilha. foi o nosso pri­ meiro contacto físico. Geralmente só saía das feridas depois de se terem trocado maldições terríveis e obscenidades nojentas . Lançava com precisão pedras pequenas com rebordos afiados . estupefacto. e Lila aguardava os tiros dele para lhe mostrar como os evitava. Pressenti que o bando se enfureceria mais e queria que nos afastássemos . e digo atingimo-lo porque eu é que entregara a Lila uma pedra achatada com os bordos todos lascados . O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro . recuperou do espanto e lançou a pedra que tinha na mão . O menino olhou para a perna ferida. Os rapazes que ele comandava também olharam incrédulos para o sangue . parece que ainda estou a vê-lo. não mostrou a mínima satisfação pelo êxito da pedrada e baixou-se para apanhar outra. subir até à porta de dom Achille . Tinha sempre qualquer coisa para lhe atirar à cara e eu às vezes tapava os ouvidos com as mãos para não ficar tão incomodada com as suas palavras horríveis.seria feito sem hesitações . tinha cabelos loiros muito curtos e olhos claros . que até me parecia ser um bom homem. mas deteve-se. não fosse dig­ no de andar à face da terra. porém.

Porém. Peluso era o pai de Carmela. Durante anos vi-lhe sair do corpo tosco e pesa­ do . Factos ocorridos em tempos obscuros . o inimigo figadal de dom Achille não era o meu pai . talvez nem fosse possível fazer-lhe um arranhão . Era isso que nessa época a deixava perplexa e por vezes até a enervava. um carpinteiro muito habilidoso que andava sempre sem cheta. a turquês . sobre os quais os adultos guardavam silêncio ou se pronunciavam com muita reticência .acontecimentos de um modo geral obscuros . no armazém das traseiras do bar Solara. Acusava-o de lhe ter tirado sub-repticiamente .o «antes de nós» . com as quais eu e Lila às vezes brincávamos e que na escola e não só tentavam sempre roubar as nossas coisas . o tomo e milhares de pregos a serem suga­ dos . . de fisionomia animal-mineral incerta. feito de matérias heterogéneas . Durante anos imaginei o alicate . Dom Achille devia ter-se ma­ nifestado em toda a sua monstruosa natureza antes de nós nascermos . Quando nos tomá­ mos amigas falou-me tanto daquela coisa absurda . o senhor Peluso parecia-nos a imagem do desespero . banha e presunto . o martelo . morta­ dela. e por isso voltavam para casa cheias de nódoas roxas por causa das pancadas que lhes dávamos . a serra. o tempo em que dom Achille se mostrara a todos como aquilo que era: um ser malvado . Lila usava essa expressão muitas vezes .parecia .que acabou por me transmitir o seu nervosismo .26 Elena Ferrante dom Achille tivesse o ouvido bem apurado e conseguisse ouvir os insul­ tos mesmo a grande distância. Não só perdia tudo ao jogo como andava à pancadaria em público . enquanto o dele nunca vertia.tirava o sangue aos outros . Por razões obscuras atribuía a sua ruína a dom Achille . como se o corpo tenebroso dele fosse um íman . na escola e fora dela. como um enxame metálico .. Mas parecia que não lhe importava tanto aquilo que acontecera antes de nós . queijos provolone . to­ das as ferramentas próprias do ofício de carpinteiro . e de outros dois . crianças mais miseráveis do que nós . Receava que ele viesse matá-los . muito longo . nossa companheira de escola. o que tomara a oficina inútil . «Antes» . que era já grande. salames. como o facto de ter realmente havido um antes . Era um tempo lon­ go . durante o qual não tínhamos existido. a ca­ neta. a marmelada. também sob a forma de enxame . mas sim o senhor Peluso . porque não sabia como matar a fome à farm1ia. Todas as vezes que o víamos . a borracha. pois perdia ao jogo tudo o que ganhava. para o interior da matéria de que era composto dom Achille . Censurava-o mesmo por lhe ter tirado também a oficina e tê-la transformado numa charcutaria. que . de Pasquale .

com o sangue a correr-lhe das inúmeras fe­ ridas na cabeça e por todo o lado . e que dom Achille se afastara de Stefano . O marido era da mesma idade . das rãs . Tinha pouco mais de trinta anos e seis filhos . Aconte­ cia-nos de tudo . As mulheres lutavam mais umas com as outras do que os homens . apresentando-se por u m instante n a sua forma mais horripilante . todos os dias . que era da nossa idade . mesmo para as raparigas . do pó . nós no segundo andar e ela no terceiro . s e ati­ rara a Peluso . à saída da missa. sem que o pobre homem pudesse ao menos dizer: socorro ! 5. em casa e fora dela. saíam dos charcos . talvez . A vida era assim e mais nada. fazendo as nossas mães e avós ficarem raivosas como cadelas sedentas .A Amiga Genial 27 Andávamos na segunda classe . antes que os outros a tomassem difícil a nós . magoavam-se . Em pequena imaginava animais pequeninos . agarravam-se pe­ los cabelos . mas não me lembro de ter alguma vez pensado que a vida que nos calhara fosse particular­ mente desagradável . crescíamos com a obrigação de tomá-la difícil aos outros . uma parente da mãe . de Pinuccia. Fazer mal era uma doença. e da mulher e . e ainda não nos falávamos . quase invisíveis . Não tenho saudades da nossa infância. que apareciam de noite no bairro . e metiam-se na água e na comida e no ar. Eram mais contaminadas do que os homens. conciliadoras . foi cheia de violência. o senhor Peluso se pusera a gritar furiosamente contra dom Achille . quando se zangavam enraiveciam-se de tal maneira que nunca mais lhes passava. É claro que teria gostado das maneiras delicadas que a professora e o padre pregavam. Melina morava no mesmo pré­ dio que os meus pais. quando constou que mesmo e m frente da igreja da sagrada Fanu1ia. ao passo que as mulheres . descarregava caixas no mercado da fruta e . porque eles enfureciam-se a todo o passo mas acabavam por se acalmar. das carruagens de comboio abando­ nadas do lado de lá do aterro . mas sentia que esses modos não eram adequados para o nosso bairro . das ervas malcheirosas a que chamavam fedorentas . Lila ficou muito marcada por aquilo que aconteceu a Melina Cappuc­ cio . e ali o deixara. que pareciam ser caladas . o levantara no ar e o lançara contra uma árvore do jardim. E eu também. desmaiado . das salamandras . de Alfonso . o filho mais velho . mas parecia-nos uma velha. das moscas . das pedras .

Lembro-me dele baixo e largo . por ele ter um feitio tão dócil . Lidia passava sob as janelas e ela cuspia-lhe para a cabeça ou despejava-lhe baldes de água suja para cima. sabe-se lá o que aconteceu a Melina. Era um homem amistoso mas muito sério . a mulher o dominava. casa. A viúva preferia pensar que . para que ela o libertasse e permitisse assim que ele se juntasse com ela. Tudo coisas muito anóma­ las no bairro . os meus pais também e os pais de Lila igualmente . Todos os homens da vizinhança. o mais velho dos quais se chamava Nino . o consideravam um tipo efeminado . Antonio . esforçou-se muito por ela. com as sílabas alongadas por um desespero raivoso: Aaa-daaa. que morava no apartamento por cima do dela. dedicava-se a arranjos disto e daquilo em casa. Não . em paixão . e arranjando-lhe colocação para o filho mais velho .28 Elena Ferrante da hortaliça. Quando não andava em viagem no percurso Nápoles-Paola e regresso . e ela insistia em bater no tecto toda a noite com o cabo da esfregona. tinha um ordenado fixo com que sustentava decentemente a mulher. fazia parte do pessoal de bordo da Companhia dos Caminhos de Ferro do Estado . Miii-che . com o meu pai à cabeça. Teve um funeral muito triste . na oficina de Gorresio . uma mulher seca com o nariz grande . A guerra que se seguiu a princípio pareceu-me divertida. como bom cristão . le­ vava o filho mais novo a passear no carrinho . Melina ficou-lhe tão grata que a gratidão se transformou . Não passava pela cabeça de ninguém que Donato se esfor­ çasse daquele modo para aliviar os trabalhos da mulher. Não se sabia se Sarratore se apercebera disso . a andar pela casa juntamente com os filhos endiabrados . mas bonito . com um rosto altivo . e por isso decidiu lutar ferozmente contra Lidia Sarratore . dentro do seu peito de mulher desolada. em amor. tanto mais que até escrevia poesias e as lia com prazer a quem calhava. seu conhecido . Uma noite saiu de casa como era habitual e morreu . Lidia. os cabelos já grisalhos . em que todo o bairro participou . recolhendo dinheiro . no quarto e último piso . Por fora continuou a mesma. Donato era frequentador assíduo da igreja paroquial da Sagrada Fanu1ia e. ia fazer as compras . a voz aguda com que à noite chamava os filhos da janela. falava-se disso em minha casa e fora dela entre risotas maldosas . roupas e sapatos usados . Lidia estendia os len­ çóis acabados de lavar e Melina subia para o parapeito e sujava-lhos com uma cana cuja ponta queimara de propósito no lume. e cinco filhos . talvez assas­ sinado ou então de cansaço . pelo nome. Decorrido algum tempo . igreja e trabalho . Lidia fazia barulho de dia por cima dela. um por um. A princípio foi muito ajudada por Donato Sarratore . Sarratore tentou por to- . Tal coisa também não passou pela cabeça de Melina.

fria e decidida. éramos quatro ou cinco meninas . como costumava fazer em todas as situações de violência. sem uma palavra de pré-aviso . e eu pensei que ela en­ carava as coisas dessa forma porque no íntimo era má e também porque ela e Melina eram parentes afastadas . Ou porque Donato era dela e tínhamos percebido que Me­ lina lho queria tirar. que tinha mais uns aninhos do que nós . e ajudei-a a levantar-se . continuando a provocar-se mutuamente . repetindo simplesmente a ex­ pressão que ouvia à mãe em casa. Lila. estávamos do lado de Lidia Sarratore . depois virei-me para ver o que Lila fazia. Disse apenas . continua com a minha mãe a correr para a porta de casa. e o mais velho . com tanta força que a atirou ao chão . Talvez porque ela tinha feições regulares e cabelo loiro . Nino . poder entrar em contacto com o irmão mais velho . apesar de ser mais baixa e muito magra. mas nunca nos explicou porquê . Primeiro socorri Marisa. e fê-lo a sangue frio . crian­ ças. e a cabeça de Melina a bater no chão do patamar. através dela. E assim . Um dia vínhamos da escola. A partir daí comecei a ter medo delas . e termina com a imagem. Con­ nosco encontrava-se Marisa Sarratore . Foi ela a primeira a avistar Melina. que se Lidia Sarratore acabasse por ser morta era bem feito . era bonito . Vinha pelo outro lado da lon­ ga rua em passo lento . crianças . Marisa chamou-nos a atenção para ela cha­ mando-lhe «a puta» . Só Lila pendia para o lado de Melina. É difícil dizer porque é que naquele tempo nós . como um melão branco que nos escapuliu da mão . ainda hoje insuportável para mim . que estava a chorar. sem prestar atenção aos ca- . das duas vizinhas a rebolar pela escada agarradas uma à outra. mas sem desprezo . a poucos centímetros dos meus sa­ patos. as duas mulheres começaram a trocar insultos quando se cruzavam na rua ou na escada. com os insultos que gritavam das janelas e depois na escada. e trazia na mão um cartucho do qual ia tirando qualquer coisa e comendo . sem gritar antes e sem gritar depois . deu-lhe imediatamente uma bofetada. não porque simpatizássemos com ela mas porque esperávamos . Uma das muitas cenas terríveis da minha infância come­ ça com os gritos de Melina e Lidia.A Amiga Genial 29 dos os meios que houvesse paz . a abri-la e a aparecer no patamar seguida por nós . bem penteados . ou seja. que habitualmente nos acompa­ nhava. gostávamos dele . sem arregalar os olhos . ao passo que os de Lidia andavam limpos. com palavras duras e raivosas . em determinada ocasião . Nino . Ou porque os filhos de Melina andavam andrajosos e sujos . Descera do passeio para atra­ vessar a estrada larga e ir ter com Melina. demasiado delicado . mas era um homem demasiado sensível .

era elogiada a toda a hora por causa da caligrafia.breve. A professora Olivie­ ro voltou para a escola viva e começou a dar atenção a Lila. dos nossos dias e da nossa memória. e ofereceu à professora dois saquinhos de papel. foi chamada à escola. A professora aceitou a oferta de bom grado e disse . professora e aluna. embora o fizesse com a determinação habi­ tual . e pareceu-me que como consequência disso também Lila morreria. escura. que trazia na mão o sabão escuro e macio acabado de comprar na cave de dom Carla . No dia em que a professora Oliviero caiu do estrado e foi bater com a maçã do rosto na carteira. de forma que por agora me limitarei a dizer assim: embora se movesse . crisma. A melhor da aula era eu . a ela e a toda a turma. Vi-lhe . ganhava os laços com as três cores da bandeira que a professora costurava. não com a intenção de a castigar.30 Elena Ferrante miões que passavam. olhando para Lila que por sua vez olhava para a carteira. sabia contar um dois três quatro .nada aconteceu . morta no local de trabalho como o meu avô e o marido de Melina. longo . mas de a enaltecer. pequena. a atravessar a estrada. Era uma só com Melina. etc . julguei-a morta. como disse. imóvel de pasmo como as estátuas . nessa época. eu . apesar de Lila a ter feito cair e a ter manda- . Uma manhã o contínuo bateu à porta e anunciou-a. Mas tudo era muito surpreendente . Andá­ vamos ainda a aprender o alfabeto e os números de um a dez . imóvel pelo desgosto . do qual tirava pedacinhos com a outra mão e comia. mais na atitude do que no rosto . To­ davia. Esta nova fase começou quando a senhora Cerullo. uma pequena bolsa brilhante . 6. durante um período de tempo que não consigo definir . comunhão . algo que me perturbou e que ainda me é difícil definir. Ela. nervosa. Logo a seguir entrou Nunzia Cerullo . mãe de Lila. Mas afinal . vivia entrouxada em chinelos e velhos vestidos coçados . irreconhecível . que como a maioria das mulheres do bairro . . um com açúcar e outro com café. funeral) . toda de escuro. Cola­ da. estava imóvel . por causa do terrível castigo que apanharia. Limitaram-se ambas a desaparecer. surpreendentemente . Imóvel dentro daquilo que a parente da mãe estava a fazer. Estávamos na primeira classe . frases cujo sentido geral me desorientou . apareceu em traje de cerimónia (casamento . já conhecia as letras todas . sapatos com um bocado de salto que lhe martirizavam os pés inchados.

quase assustados . Depois leu .» Depois ordenou-lhe: «Vem cá. quase uma careta. a nossa professora. e deitou-se toda de lado . por isso vou inventar) a palavra «sol» . Depois. «"giz". muito concentrada. Lila fez um meio sorrizi­ nho . de facto . e a professora entregou-lhe o giz . ela.» Nunzia Cerullo olhou para a professora com olhos incertos . ferindo-se na maçã do ros­ to . vem ao quadro . Verdade que ela era a mais má. Aqui calou-se. casualmente . desenhando uma letra mais acima e outra mais abaixo . disse-lhe . Mas existia um facto que a enchia de alegria enquanto profes­ sora e enquanto pessoa. Cerullo . em tom amuado: «Sol. escreveu: «gi» . atrás do quadro. ainda não sabia ler.A Amiga Genial 31 do para o hospital . para cima da compa­ nheira de carteira. disse a Lila: «Muito bem. o que está aqui escrito?» Na aula fez-se um silêncio de expectativa.» Lila. que deu vários sinais de irritação . A professora acrescentou o «Z» e a senhora Cerullo . Mas depois deve ter deduzido que Nunzia não sabia ler ou que não tinha a certeza de que a palavra escrita no quadro era mesmo «sol» . em parte para esclarecer a situação à senhora Cerullo e em parte para encarecer a nossa companheira. o que ali está escrito é "sol" . vendo a correc­ ção . A professora a princípio pareceu não compreender porque é que naqueles olhos de mãe não se via o seu próprio entusiasmo . Verdade que fizera aquela coisa horrível de atirar peda­ ços de mata-borrão sujos de tinta para cima de nós .» Lila foi ao quadro contrariada. disse que a melhor da aula era ela. Verdade que era obrigada a castigá-la constantemente com a vara de madeira ou mandando-a ajoelhar-se em cima do trigo rijo. Verdade que se aquela menina não se comportasse de maneira tão indisciplinada. «Escreve aí» . disse desconsolada à filha: «Erraste .» Mas a professora tranquilizou-a de imediato: . com uma caligrafia trémula. não teria caído do estrado . Depois perguntou a Lila: «Cerullo . um facto maravilhoso que descobrira havia poucos dias . Pegou num bocado de giz e escreveu no quadro (agora não me lembro o que foi . como se as palavras não lhe bastassem ou como se quisesse ensinar à mãe de Lila e a nós que os factos contam quase sem­ pre mais do que as palavras . e franziu o sobrolho .

Portanto. graças às folhas de jornal em que os clientes embrulhavam os sapatos velhos e que o pai às vezes levava para casa. Segundo dizia Rino . a massa de sapateiro . fazer contas . o facto relevante era este: Lila sabia ler e escrever. Cerullo?» Cerullo . aprender poesias de cor. com evidente admiração . de olhos baixos: «Eu . Ainda ele não tinha dez anos quando o pai . A Lila tem de praticar. Era mais provável que ela tivesse compreendido precoce­ mente como funcionava o alfabeto . perguntou-lhe diante de todas nós : «Quem te ensinou a ler e a escrever. Mas a verdade é que nunca tivera um silabário e nunca se sentara. olhando para as letras e para as gravuras do seu silabário . a fazer os trabalhos de casa. para lhe ensinar o ofício de remen­ dão. não . Fernando . sobretudo no lançamento do pião. Enquanto fazia os trabalhos de casa na cozi­ nha. sentíamos-lhe o cheiro a pés sujos . a gáspeas velhas . Talvez fosse por isso que ele se gabava de estar na origem da proeza da irmã. começou a levá-lo todos os dias para a sua oficina de sapateiro numa ruela do outro lado da rua larga. nem um minuto. Mas ler. era impossível que Lila tivesse aprendido devido à aplicação escolar dele . era um rapaz deste­ mido que se destacava em todos os jogos do pátio e da rua. sobretudo . E daquela manhã cinzenta em que a pro­ fessora no-lo revelou ficou-me na lembrança. com um laço cor-de-rosa ao pescoço e apenas seis anos de vida. a menina tinha aprendido a ler por volta dos três anos . ela sentava-se a seu lado e conseguia aprender mais do que ele . fosse de uma maneira ou de outra. as meninas . mas já sabe ler e já sabe escrever. pequena. Rino era quase seis anos mais velho do que Lila. Então a professora dirigiu-se a Lila e . e gozávamos com ele . pois tem. respondeu: «EU . a sensação de . Não importa. o irmão mais velho de Lila. quando o encontrávamos . de cabelos e olhos escuros e de bata.» «Mas em vossa casa ou no prédio há alguém que o possa ter feito?» Nunzia fez energicamente que não com a cabeça.» 7. não eram coisas para ele. não . Quem a ensinou?» A senhora Cerullo disse .32 Elena Ferrante «Não . não . para ler à farm1ia as notícias locais mais interessantes . Nós . escrever. chamávamos-lhe chineleiro .

opulenta. estava sempre sentada a seu lado . Mas se não fores boa aluna. embora ele às vezes lhe batesse e soubesse ser ameaçador para mim. tinha a impressão de que ela fazia tudo para me dar a perceber que eu era supérflua na vida dela. Não era feliz . Em casa era a preferida do meu pai e os meus irmãos também me esti­ mavam. Prometi aos dois que seria boa aluna. que me dissera no primeiro dia de escola: «Lenuccia. O problema era a minha mãe. contra ela. Discutiam. Em todo o bairro . nos primeiros tempos . e o passo dela perturbava-me . cheia de raiva. aprendia. sobretudo de noite . Estava com atenção nas aulas . fazia com o má­ ximo cuidado tudo o que me diziam para fazer. como quando se irritava comigo . ia à cozinha. Não simpatizava comigo . ia para lá cheia de entusiasmo . de olhos azuis . ela chamava-lhe a perna ofendida. Fora ele . que lhas impusera. Desde o primeiro dia que a escola me parecera um lugar muito mais bonito do que a minha casa. Mas como o meu pai nun­ ca levantava a voz . Mas gostava sobretudo de agradar à professora. gostava de agradar a toda a gente . sen­ ti que fora a minha mãe que lhas sugerira. as baratas que se introduziam pela porta de entrada. vem sentar-te ao pé de mim. as coisas com ela nunca corriam bem. Zangava-se muitas vezes com o meu pai . e não a minha mãe . E a perna direita também não funcionava bem. recomeçava. eu tomava sempre o partido dele . as tarefas da casa consumiam-na e o di­ nheiro nunca chegava. embora pronunciadas por ele . e assim reforçava em mim o desejo de fazer tudo bem. e imaginava-a com os olhos furiosos . Já nessa altura. Coxeava. nem quando perdia a paciência. com pouco mais de seis anos . A professora tinha sempre junto de si uma cadeira vazia e chamava as melhores alunas para ali se sentarem. como prémio . berrava-lhe que ele tinha de inventar qualquer coisa. Eu . era o sítio onde me sentia mais em segurança. Repugnava-me o seu corpo . com certeza.» Era um grande privilégio . Era aloirada. voltava para trás . nem eu com ela. coisa que ela provavelmente intuía. quando não conseguia dormir e caminhava pelo corredor. que nós deixamos-te estudar. que assim não se podia continuar. Ela incitava-me com palavras encorajadoras . todavia. gabava os meus caracóis loiros. o papá precisa de ajuda e tu vais trabalhar. se não fores a melhor. que era porteiro na câmara. porta-te bem com a professora. E as coisas tinham logo corrido tão bem que a professora me dizia muitas vezes: «Greco . Às vezes ouvia-a esmagar com o calca­ nhar.» Aquelas palavras tinham-me assustado muito.A Amiga Genial 33 fraqueza que essa notícia causou em mim. Mas nunca se sabia para onde o seu olho direito estava a olhar. Era o .

o passo da minha mãe . Pensei que . A princípio talvez nada. mais subtil . que só me apetecia esconder-me num canto escuro e esperar que ela nunca mais me encon­ trasse . deixaria de ser uma ameaça para mim . Tal­ vez fosse por isso que fixei o pensamento em Lila. Depois aconteceu que a senhora Cerullo veio à aula e a profes­ sora Oliviero nos revelou que Lila estava muito mais adiantada do que nós . claro está. e às vezes de insultos . nunca a perder de vista. principalmente . que . para aceitar de bom grado a superioridade de Lila em tudo . mas dava a impressão de que o fazia mais para ela se portar bem do que para premiá-la. e também as suas prepotências . de tal forma que ela se irritava e depressa a mandava voltar para o lugar. É verdade que chamava Lila muitas vezes para se sentar a seu lado . acompanhando a sua passada. Mas foi sem dúvida nessa altura que nasceu em mim uma preocupação . corria constantemen­ te o risco de ficar coxa. a professora elogiava-me primeiro a mim com mo- . a professora comportou-se de maneira muito perspicaz . encorajou-me a ser cada vez mais disciplinada. Deixou-me brilhar com uma luz viva. Ou talvez tenha disfarçado desse modo o senti­ mento de subalternidade . um pouco de ciúmes . o sortilégio que estava a sofrer. É provável que tenha sido essa a minha maneira de reagir à inveja e ao ódio e de sufocá-los . Quando Lila se deixava de turbulências e me passava à frente sem esforço . mais diligente . al­ guma coisa me convenceu de que . embora as minhas pernas funcionassem bem. hoje é-me difícil dizer com exactidão e clareza aquilo que sen­ ti . a mim. me cobria tan­ tas vezes de repreensões . O que essa despromoção causou dentro de mim não sei . que me estava gravado na cabeça e dela não saía. Acordava com essa ideia na cabeça e levantava­ -me logo da cama. E mais ainda: passou a chamá-la mais vezes do que a mim para nos sentarmos a seu lado . Preparei-me . Com efeito . Então . continuou a elogiar Marisa Sarratore . Decidi que tinha de me regular por aquela menina. Car­ mela Peluso e . mesmo que ela se aborrecesse e corresse comigo . quando eu estava em casa. dava ponta­ pés mesmo quando estava sentada ao lado da professora. 8.34 Elena Ferrante contrário da minha mãe . que tinha umas perninhas muito magras e ágeis e não parava de as mexer. para ver se as pernas ainda estavam em ordem. Além disso . como todas . se eu andasse sempre atrás dela.

e transmitia uma impressão de delicadeza que enternecia. os alunos sentiam que me esforçara muito para aprender aquilo tudo de cor. Era uma menina de caracóis loiros . Cácios. a fazer divisões e multiplicações . só para me manter a par daquela menina terrível e brilhante . foi a menina mais detestada da escola e do bairro . bonitinha. Geralmente ganhava eu . fazia uma expressão resignada de aceitação . Por isso empreguei todas as minhas energias de menina. Por isso levava-nos muitas vezes às outras salas de aula. O caso de Lila era diferente . Se depois fosse a melhor a recitar as poesias . com os quais por vezes parecia perto de chegar a vias de facto . Para todos os outros alunos . Sentia mais o veneno da derrota quando era a Sarratore ou a Peluso que me ultrav. Apeninos . Graios . de que era a melhor professora da escola primária do nosso bairro . A professora Oliviero gostava dessas competições . Na primeira classe já estava além de qualquer competição possível . A professora até dizia que com um pouco de esforço seria capaz de fazer a prova da segunda classe e passar para .assavam. mas sem exagerar. Habitualmente eu era enviada para apalpar o terreno . feliz por me exibir mas não atrevida. que me eram estranhas . Lila era simples­ mente terrível . e por isso não me odiavam. Brilhante para mim.parecia-me impossível consegui-lo . Da primeira à quinta classe da primária. para competir com outras crianças . ou último lugar. creio que só receava uma coisa: nunca vir a estar a par de Lila nas hierarquias estabelecidas pela professora Olivie­ ro. ou a Cerullo e a Peluso. Nesses anos. por culpa do director e também um pouco por culpa da professora Oliviero . Dediquei-me ao estudo e a muitas outras coisas difíceis . Se ficava em segundo lugar depois de Lila. a dizer que os Al­ pes eram Marítimos . a cantar a tabuada. etc .. . Pelo menos duas vezes por ano o director obrigava as classes a com­ petirem umas com as outras . sem humilhar professores nem alunos . nunca a ouvir dizer com orgulho que a Cerullo e a Greco eram as melhores . os outros professo­ res faziam-me uma festa. servia-se de Lila e de mim como prova evidente da sua competência. quarto . Em permanente conflito com os seus colegas . para sondar o nível de competência do inimigo . quais os professores mais competentes . independentemente dos encontros organizados pelo director. Se um dia ela dissesse que as melhores eram a Cerullo e a Sarratore. eu caía morta. não para me tomar a melhor da aula . meninas e meninos . mas para não cair para terceiro . consequentemente . de forma a apurar quais os alunos mais brilhantes e.A Amiga Genial 35 deração e só depois exaltava a competência dela.

Todos os seus movi­ mentos avisavam que era inútil fazer-lhe mal . antes de qualquer resposta acertada. Depois essa distância aumentou . Andava desgrenhada. nem mais nem menos . portanto . porque . nos ditados não dava um erro . E o director. Aliás . falava sempre em dialecto como todos nós . O ódio . mais do que alunas e professoras . eu sentia-o . Mas foi exagero meu . nos joelhos e nos cotovelos tinha sempre crostas de feridas que não tinham tempo de sarar. mas os rapazes mais abertamente . havia uma expressão que não só parecia pouco infantil . reconhecer a sua competência era o mesmo que admitir que nunca se­ ríamos capazes de a alcançar. Lila era de mais para qualquer pessoa. fomos levadas . Toda a gente conhecia Enzo . talvez até muito . a professora Oliviero tinha prazer em levar­ -nos. podíamos humilhar alunos e professores . De modo que . e Nino Sarratore . Além disso . como talvez não humana. era tangível . e para os profes­ sores e professoras significava aceitar que tinham sido crianças medío­ cres . A sua rapidez mental fazia lembrar um sibilo . não dava abertura para amabilidades . extinguia-se qualquer hipótese de lhe mostrarem boa cara. crianças . quando a professora a mandava para o terreno para dizer os modos e os tempos dos verbos . «com todo o gosto» . Os olhos gran­ des e vivos sabiam transformar-se em duas fendas . a do professor Ferrara . O que é certo é que uma manhã nós duas . Lila fazia de cabeça contas complicadas . por motivos seus igualmente secretos . sobretudo . Para nós . Era repetente e pelo menos duas vezes tinham-no levado a percorrer as salas de aula com um cartaz ao pesco- . Cheguei a pensar que na escola se apostasse dinheiro . ou de permitir que o director tivesse rédea curta sobre os professores menos capazes ou menos obedientes . privilegiava sobretudo competições desse mesmo tipo . no fundo das quais . o malvado filho da vendedora de fruta e hortaliça. onde se encontra­ vam Enzo Scanno . suja. que era inútil competir. mas quando era preciso pu­ xava de um italiano como mandam os livros . a uma quarta classe .36 Elena Ferrante a terceira com menos de sete anos . por qualquer motivo secreto . o irmão de Marisa que eu amava. «luxuriante» . ela arranjaria maneira de nos fazer ainda mais mal . E nada no seu aspecto poderia servir para suavizar essa impressão . ou resolver problemas de aritmética. naqueles nossos encontros . usando até palavras como «avezado» . às salas de aula onde . que na altura andávamos na segunda classe . um relâmpago . fosse como fosse . uma picada letal . Tanto as raparigas como os rapazes a detestavam. Provavelmen­ te era apenas uma forma de dar vazão a velhos rancores . os ânimos exaltavam-se .

A primeira é que o pequeno Alfonso Carracci me derrotou imediatamente . espan­ tou-me a mim e a Lila . de ca­ belos grisalhos cortados à escovinha. Houve uma certa tensão entre Oliviero e Ferrara . Por outro lado . Alfonso . que por vezes ficava calada como se não tivesse ouvido a per­ gunta. incapaz e delinquente . preguiçoso . apesar da apatia de Lila. quase dois anos mais velho . A terceira é que Lila fez frente ao filho de dom Achille sem garra. Pelo menos duas vezes . A cena só se animou quando se passou aos cálculos de cabeça de adi­ ções . surpreendentemente . terceiro filho de dom Achille . era tão bom.A Amiga Genial 37 ço . Lila também não estava à altura. dizer o resultado certo . que era conhecido e querido principalmente por mim. primeiro n o quadro e depois de cabeça. vinda das últimas carteiras . perante as duas classes reunidas numa mesma sala. que aparentava menos do que os sete anos que tinha. soubesse fazer contas de cabeça complicadas melhor do que eu . errava sobretudo as multiplicações e as divi­ sões . Passava por ser muito inteligente . começou a falhar. e o que tinha de bom era que não gozava com uma pessoa quando a vencia. Como era possível que um rapaz como Enzo . ouviu-se a voz de Enzo Scanno cheia de desprezo . devido à convoca­ tória imprevista de Carracci . Os nossos adversários . um menino muito estimado . por isso andavam mais ou menos a par. A segun­ da é que Nino Sarratore . havia escrito «burro» . ficou embasbacado como se não percebesse o que os dois professores lhe perguntavam. escolarmente falando . pelo contrário . olhos inquietos . rosto pequeno e enrugado . subtracções . os professores . como se não lhe importasse que ele a vencesse . em que o professor Ferrara . Dessa particular ocasião fica­ ram-me na lembrança três coisas . quase nunca respondeu às perguntas .Alfonso Car­ racci . Aquilo espantou os outros alunos . em ques­ tões de inteligência.descobrimos logo . Mas a certa altura deu-se um facto imprevisto . tão silencioso . Alfonso fi­ cou fora de jogo num instante e . tão dócil . perguntaram-nos as quatro operações . com o consentimento orgulhoso do . da se­ gunda classe como nós . era calmo e preciso . multiplicações e divisões . eram Nino e . um homem alto e muito magro . o director. tinham-no debaixo de olho só porque era brigão . É claro que Enzo não valia nada. perguntaram-nos a s tabuadas . quando Lila não respondeu ou Alfonso errou . do que Nino Sarratore? Foi como se Lila tivesse acordado de repente . e depois o desafio começou . do que Alfonso Carracci . e percebeu-se que o professor o chamara ali à quarta classe por ter mais confiança nele do que em Nino . Perguntaram-nos os verbos . se o filho de dom Achille se ia abaixo . Nino .

eu calculava qual era a razão . mas depois postou-se junto ao quadro . em frente de Lila. A verdade é que não era preciso fazer perguntas . mas ele recusou-se a ir. O dia de escola acabou assim. assim como o bairro . Fora isso que fizera com o filho de dom Achille . muito determinados . para junto de Lila. que prontamente trocou de paladino . Aquela manhã do duelo entre ela e Enzo é importante na nossa longa história. Não sabíamos de onde vinha aquele medo-rancor-ódio­ -condescendência que os nossos pais mostravam sentir pelos Carracci e que nos transmitiam. O rapaz dava as respostas em dialecto . Mas a partir daí o bando dos rapazes começou a atirar-nos pedras . como se estivesse na rua e não numa sala de aula. iniciou-se um duelo entre Lila e Enzo . porque Lila acordara definitivamente e agora tinha os olhos semicerrados . o cheiro miserável dos patamares . Perdeu mas não se conformou . como calibrara silêncios e respos­ tas de forma a não se deixar vencer. Enzo levantou-se da última carteira entre risadinhas nervosas . sem à-von­ tade . sério . a poei­ ra das ruas . Não só não quisera vencê-lo . suas e dos seus acólitos . e respondia com precisão . se quisesse . 9.38 Elena Ferrante professor. O professor mandou-o pôr-se de joelhos atrás do quadro . era um facto . mas o resultado estava sempre certo . mas existia. Começou a pra­ guejar. Fizeram frente um ao outro durante muito tempo . a gritar obscenidades horríveis . também ela estava proibida de fazer desconside­ rações . Ali se iniciaram muitos comportamentos de difícil decifração . A certa altura o director. também Nino Sarratore ficara . Tal como eu . o filho da vendedora de fruta e hortaliça. Enzo por fim perdeu . não só a dom Achille como a toda a farm1ia. Por exemplo . Depois começou a ir-se abaixo . Nessa altura ainda não éramos amigas e não podia perguntar-lhe porque tivera aquele comportamento . passando por cima do professor. Levou chibatadas nos dedos e foi arrastado pelas orelhas até ao canto do castigo . e o professor corrigia-lhe a dicção . O duelo prosseguiu com contas de cabeça cada vez mais difíceis. Com toda a probabilidade . as suas casas de um branco-sujo. Enzo parecia muito orgulhoso daquele momento de glória. viu-se claramente que Lila. ele próprio admirado de ser tão inteligente . Era assim. era capaz de do­ sear o uso das suas capacidades . chamou ao estrado .

chegando a ameaçá-la. que me entristeceu . o roxo que lhe engolira de repente os olhos: como era bonito assim. Enzo não entrara de propósito na competição em curso . porém. de catorze anos . delicado e nervoso. pelo contrário . diria eu hoje. Fora deci­ são dele . que era aprendiz na charcutaria (na antiga oficina do car­ pinteiro Peluso) que pertencia ao pai . com aquelas pestanas compridas . mas antes . Aquele gaguejar. bem penteado . como me desagradara a sua languidez . aquilo que aconteceu depois atingiu-nos de modo inespera­ do . A expressão era: «não o fiz de propósito» . Com efeito . Subira-lhe um rubor às faces . Eu pusera-me de parte porque Alfonso realmente era melhor do que eu . iluminara-se como uma santa guerreira. no dia seguinte apareceu no exterior da escola e disse coisas muito feias a Lila. no entanto decidira apostar no empate . poucas coi­ sas gaguejara e por fim calara-se . caiu-nos em cima uma caterva de coisas imprevistas . exalava um cheiro a bravio . nunca lá punha os pés . nem o humilhara de propósito . Os factos que daí resultaram convenceram-nos de que era conveniente fazer tudo de propósito . de incontrolável . Também Lila a certa altura me parecera bonita. a bonita era eu . para sabermos o que se podia esperar. Bonito . fora só uma passagem necessária. Mas cá no fundo tinha certas dúvidas . Mas quando decidira eliminar Alfonso e Enzo . Geralmente . apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro . por conseguinte . Lila podia tê-lo batido imediatamente . de tal forma que pela primeira vez pensei: Lila é mais bonita do que eu . por ter sido derrotado . e todavia .o qual . E ele? Houve qualquer coisa que me confundiu . e não derrotara Alfon­ so de propósito . de perigoso . lânguido . premeditadamente . mas não vencera tam­ bém Alfonso de propósito . nem desistência. Como quase nada fora feito de propósito . uma após outra. era seca como uma anchova salgada. Lila vencera Enzo de propósito . O seu irmão Stefano . uma cedência. quis pensar que tinha sido assim. a palidez . como acontecera com Lila? Não tinha a certeza. Para continuar a amá-lo . Mas a coisa mais importante daquela manhã foi ter descoberto que uma expressão que usávamos muito para nos eximirmos aos castigos continha algo de verdadeiro e. Portanto . Ela.A Amiga Genial 39 calado para permitir que Alfonso desse o seu melhor. que era o sinal de uma chama libertada por cada recanto do corpo . Alfonso voltou para casa lavado em lágrimas . tinha uma cara comprida. A certa altura ela gritou-lhe . estreita nas têmporas . eu era segunda em tudo . Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso . De facto . tal­ vez: não foi incapacidade dele ..

vendo Lila naquele estado . um homem baixo e muito magro . com orgulho . Pouco tempo depois eu e Lila ferimos Enzo no artelho com uma pedra e Enzo atirou uma pedra que feriu Lila na cabeça. pai de Lila e de Rino . nem aos irmãos . que lhe vinha até à fronte por baixo do cabelo . abeirou-se timidamente de dom Achille e pediu-lhe desculpa. A mim nunca disse nada. gritando que queria picar-lha com um alfinete . 1 0. Depois tirou a ligadura e mostrava a quem lho pedisse a ferida negra e averme­ lhada nos bordos . Por fim esqueceu-se do que lhe acontecera. desceu do aterro e . embora dom Achille tivesse continuado a andar. a tia Maria. foi trava­ do por Stefano . que quase nem se defendeu . quanto mais ela falava. mas constou que o pedido de desculpa foi feito em voz alta e de maneira que todos ouvissem. E mais ainda: Enzo não falou dessas pauladas ao seu bando . e estava mais motivado . acabaram-se as vinganças . ao murro e a pontapés . Nessa altura. com o sangue a pingar de sob os cabelos. Lila andou uns tempos com a cabeça ligada. e aos nossos olhos incompreensível . um domingo depois da missa Fernando Cerullo . o sapateiro . Rino de manhã foi à procura de Stefano e andaram à luta. ele empurrou-a contra uma parede e tentou agarrar-lhe a língua. aproximou-se da escola e deu umas valentes pauladas a Enzo . quando regressava a casa à noite sem o bando dos campónios. o irmão adorado de Lila. Lila voltou para casa e contou tudo ao irmão Rino . bateu à porta dos Cerullo e fez uma cena de gritos e insultos a Nunzia. e se alguém olhava fixamente para a marca esbranquiçada que lhe ficara na pele. como se o sapateiro não estivesse a falar com ele . de modo imprevisto . também a sangrar. sem dizer do quê . mais vermelho ele se fazia e mais os olhos lhe luziam. Enzo . maior. Passaram-se uns dias e Rino . Rino era mais velho . Eu não o vi . fazia um gesto agres­ sivo que significava: para onde estás a olhar? Mete-te na tua vida. Passado pouco tempo . Enquanto eu berrava de medo e Lila se levan­ tava. que trabalhavam todos no campo e vendiam fruta e hortaliça numa carriola. ou pelo menos não me lembro . e. nem à mãe . nem aos primos . nem sequer uma palavra de agradecimento pelas . Entretanto Enzo . graças a ele . Dias depois a mulher de dom Achille .40 Elena Ferrante um insulto muito obsceno . que o atacou à chapada. nem ao pai . começou a chorar. batendo um no outro mais ou menos por igual .

para experimentar. Gostava da minha boneca de plástico como se fosse o que eu tinha de mais precioso . «Aquilo que tu fazes . faço eu» . como se fosse natural . E assim chegou o dia em que estávamos ao pé da janela da cave que tinha a rede despregada e fizemos uma troca. fiz apenas um gesto sem despeito . fechada por um ferrolho que mantinha os dois batentes mal unidos . papagueei imediatamente em voz alta. mas como quem não quer a coisa. Víamo-nos cada vez mais no pátio . Sentia uma dor violenta. sustive-o na orla dos olhos brilhantes . A certa altura co­ meçámos a permitir que elas se encontrassem. Todas as crianças eram tentadas . e Lila de repente enfiou Tina pela abertura da rede e deixou-a cair. mas nunca esperaria que me fizesse uma coisa tão maldosa. Mas a partir dali começou a sujeitar-me a provas de coragem que nada tinham a ver com a escola. «Agora vais-ma lá buscar. muito assustada. e ao mesmo tempo amedrontadas . Foi o que nós fizemos . e outro possível . a perda da boneca. À entrada do prédio . Sabia que Lila era uma menina muito má. pela possibilidade de forçar a porta apenas o necessário para conseguir passar para o lado de lá. Não disse nada. à esquerda. Limitei-me a atirar para a cave a sua Nu .uma das meias-portas estava segura por uma única dobradiça . no meio de tanta bicharada que lá vivia. embora natural não fosse e sabendo eu que estava a arriscar muito . deixou-me em deses­ pero . Senti um desgosto insuportável . o u por lhe ter enxugado o sangue com a ponta da bata. Lila olhou para mim .» Fomos juntas . Sustive o desespero . um já a ocorrer. havia uma porta já nossa conhecida por onde se ia para as caves . e saber que ela estava no fundo da cave . Para mim a boneca tinha vida. a boneca que acabara de me entregar. Era como se estivesse a ser es­ trangulada por dois sofrimentos . a perda de Lila. incrédula. Era uma porta desconcha­ vada .» «Só se tu fores buscar a minha.. de tal modo que Lila me perguntou em dialecto: «Não te importas?» Não respondi .A Amiga Genial 41 pedras que lhe passara. brincando num espaço próximo como se cada uma de nós estivesse sozinha. Abrimos uma nesga . mas pensava que a dor de discutir com ela seria ainda mais forte . ela segurou um bocadinho na minha boneca e eu um bocadinho na dela. Mas nesse momento aprendi uma arte em que depois me tornei exímia. para ver se se davam bem. Mostrávamos as nossas bonecas uma à outra.

Sentia sob as solas das sandálias objectos que rangiam. Vi-a pendurada numa armação de madeira. descemos cinco de­ graus de pedra e chegámos a um sítio húmido. Não tenho a certeza. primeiro Lila e depois eu . indicando-a a Lila. encaminhando­ -se para a saída. sem boca. a convenceu a tirá-la do rosto e lançá-la para um canto . o que . evidentemente . e gritei . A pouca luz que penetrava no escuro caía por vezes sobre objectos reconhecí­ veis: o esqueleto de uma cadeira. incapaz de me ir embora com ela sem ter encontrado a boneca. Lila olhou em volta. Acalmei-me . o pé de um candeeiro . Uma única vez me pareceu ter visto Tina e . Apanhei um grande susto com algo que me pareceu uma cara flácida com uns grandes olhos de vidro .42 Elena Ferrante suficiente para os nossos corpos delgados e flexíveis se esgueirarem para o interior. fundos e painéis de armários . pontiagudos . vultos escuros . não estão aqui . Eu tinha medo . Não estão aqui . Avancei às apalpadelas . Era isso que o pai lhe chamava. localizou a abertura por onde tínha­ mos deixado cair Tina e Nu . Passaram-se minutos longos . Pusera a cara dos olhos de vidro sobre a sua e agora tinha uma cara enorme . grumo­ sa. tinha uma semelhante em casa. e inspeccionava o chão com as mãos . coisa que eu não tinha coragem de fazer. não estão aqui . mas era só uma folha de jornal amachucada. mas devo ter soltado um grito de verdadeiro terror. perscrutámos na sombra. cascalho . que parecia zangada e concentrada em encontrar a boneca. apenas aquele queixo escuro de rabeca a balançar-lhe sobre o peito . procurei manter-me atrás de Lila. No cimo dos degraus ela disse: . Lila repetia em dialecto: não estão aqui . Ela virou-se bruscamente . Senti-me perdida. arredondados . Depois voltou-se . Continuei a tremer e a gemer de medo . na arrecadação . repetiu Lila. As bonecas não estavam lá. com um baque do coração. gonzos de ferro . mal iluminado pelas pequenas aberturas ao nível da rua. Foram instantes que me ficaram bem impressos na memória. Aproximámo-nos da parede áspera. aproximou-se devagar de costas para mim. com órbitas redondas sem pupilas . incapaz de ficar ali sozinha a procurar. com uma expressão desolada. fazendo um grande barulho e levantando pó . pois ela apressou-se a dizer em voz ribombante que era só uma máscara. vidro . estendeu a mão com cuidado e arrancou-a da armação . insectos. quadrados . Uma vez lá dentro . caixas de fruta. Em redor havia coisas não identifi­ cáveis . inclinei-me para apanhá-la. que se adensou entre as línguas de luz das frestas . alongada por um queixo em forma de caixa. uma máscara antigás .

11. melhorei . durou anos . senti que o espaço também estava mudado. como se o conjunto das coisas assim comprimidas . Tinha ido . meteu-as no saco negro . deixando espaços vazios entre a massa interna e a folha da super­ fície . Sentia-me apertada dentro daquele torno . o desgosto pela perda de Tina era ainda insuportável . o túnel . parecia-me tumefacto . já a torcer-se com agilidade e a esgueirar-se pela porta desengonçada. O meu próprio corpo . as superfícies sólidas se tornavam moles sob os meus dedos. os campos. Tinha a certeza de ter bochechas como balões . Acreditava em tudo o que ela me dizia. Mas quando estava ainda no começo . me moesse . fugi para não me perder de Lila. Foi antes de eu e Lila experimentarmos subir até à casa de dom Àchille . Parecia acorrentado entre dois pólos escuros . comprimindo-os . uma sensação permanente de náusea que me esgotava. enquanto to­ dos os seres animados em meu redor aceleravam os ritmos da sua vida. e ti­ nha um mau gosto na boca. cada vez mais apertadas . se o apalpasse . juntamente com o aglomerado de coisas e de pessoas do dia-a-dia. as ruas . recebi inesperada­ mente a minha primeira declaração de amor. mãos re­ cheadas de serradura. Fui atacada por uma espé­ cie de disfunção táctil. talvez . no quarto andar do prédio onde morava dom Achille . pés do feitio de pães redondos. adoeci de novo . que na minha imaginação atravessava obliquamente os apartamentos . Sofri muito . Então abandonei Tina ao seu destino . Adoeci com febres pueris. que as roubara. Às vezes tinha a impressão de que . reduzindo-me a um creme repugnante . entrou pela adoles­ cência dentro . As duas bolas estavam como que aparafu­ sadas às extremidades de uma barra de ferro .A Amiga Genial 43 «Dom Achille apanhou-as . Foi um mal-estar resistente . Do outro lado o globo lá no alto . a roçar-se pelas formas indistintas das coisas . o que me entristecia. Ficou-me gravada na mente a massa informe de dom Achille a correr por passagens subterrâneas com os braços pendurados . os carris . De um lado a bola de ar subterrânea que pressionava as raízes das casas . lobos das orelhas parecidos com sorvas . a caverna assustadora para onde tinham caído as bonecas . Quando regressei às ruas e à escola.» E nesse instante ouvi dom Achille a arrastar os pés . ou incha­ vam. segurando com os grandes dedos de uma mão a cabeça de Nu e com os da outra a cabeça de Tina.

me tirava a respiração . Com o passar do tempo . Durante um certo tempo deve ter receado que eu contasse às outras meninas . quanta angústia me causava a separa­ ção de Tina. das casas . cortou-me o caminho . depois sorria de novo . Dali para a frente comecei a meter-me por ruelas sempre que o via. ao pé da escola. olhos intensos com longas pestanas . pescoço alto . não posso . Não podia saber como eu me sentia desorientada. gritou-lhe . Após muitos olhares longos e assustados que me lançava de longe . e com a outra puxou para si o irmão . fazia-o sair de casa sempre na companhia de Pino . só para estar perto dele e fazermos juntos o caminho para casa. se comportara dessa forma quando Enzo lhe pediu namoro . Por fim disse pausadamente . muito magro . Era um pouco mais alto do que eu . sobretudo à sua irmã. mas . nem sequer a Lila quando nos tornámos amigas . apeteceu-me responder: «Não . Também eu senti a tentação de contar tudo . Estava pálido . mas depois deixei-me disso . Nino fez menção de me ultrapassar. No entanto . Nos dias de Verão a mãe . como o esforço de acompanhar Lila me consumia. achava-o lindo . quando me apercebi de que Nino Sar­ ratore se arrastava atrás de mim. . Lídia. e o pão ainda quente contra o peito . testemunha silenciosa da sua proeza. também ele começou a evitar-me . O esforço que fazia para conter a timidez era impressionante . do bairro . a proposta que me fizera. em vez de passar adiante . Embora eu também quisesse casar com ele . primei­ ro sorria. Sabia-se que Gigliola Spagnuolo . A minha mãe tinha-me mandado e estava de volta a casa com o troco bem apertado na mão para não o perder. até ameaçara matá-la com uma faca. Quantas vezes me aproximara da sua irmã Marisa. até que ponto o espaço comprimido do pátio . contrariada. com a recomendação de nunca o largar.44 Elena Ferrante comprar pão . Claro está que me fez a declaração na hora errada. no italiano da escola: «Quando formos grandes quero casar contigo . com o irmãozinho pela mão . eu própria me esqueci disso . pouco depois da charcutaria dos Carracci . orelhas um pou­ co afastadas da cabeça.» Depois perguntou-me se entretanto queria ser namorada dele . Ofe­ gante . depois punha-se sério . Enzo teve conhecimento e ficou zangado .» Ele ficou de boca aberta. empurrou-me contra a parede e apoiou nela a mão livre . não contei a ninguém . disse qualquer coisa que não compreendi . que ela era mentirosa. Tinha cabelo rebelde . Perto de uma esquina. como uma barra para me impedir de fugir. Fugi . que na altura não tinha mais de cinco anos. a filha do pasteleiro . Pino deu-lhe um puxão .

talvez para acenarmos um adeus à farm1ia que se ia embora. entre as quais também essa? Todas nós . atarefado a transportar caixas a abarrotar de coisas e senti a culpa. Procurei o olhar de Nino . Lídia Sarra­ tore apareceu vestida como se fosse para uma festa. mas ele parecia ter mais que fazer. estávamos à janela. Agora ia-se escapulir como um passarinho . de seis . Vi que Lila e Nunzia. de palha azul. tendo aos lados as duas filhas . mais cedo ou mais tarde se descobria que o mal de facto existia. Assal­ tou-me então . grandes e pe­ quenas .disse a minha mãe . oito ou nove . o próprio Nino e também Lídia começaram a trazer coisas para baixo . a pena de lhe ter dito que não . e o seu olho estrábico parecia feito de propósito para detectar os movimentos secretos do bairro .A Amiga Genial 45 Voltou-me à lembrança mais tarde . Pensei que talvez ele me tivesse feito a declaração porque já sabia que se ia embora e queria dizer-me antes o que sentia por mim. Daí a pouco . como era costume . também se debruçavam para ver.foi a mulher que o obrigou à mudança. que lhe quer tirar o marido . que ela tivera um filho de Sarratore e depois o matara? E seria possível que ela se pusesse a gritar coisas horríveis . incluindo a minha mãe e eu . e os mesmos olhos azuis e cabelos loiros que o filho Enzo . Além de vender fruta e hortaliça. Donato Sarratore . pusera até um cha­ peuzinho estivo . A minha mãe via sempre o mal onde . e acondicionaram tudo na carroça. assim que ouviram o ruído das rodas no pátio . Uma manhã apareceu no pátio a carroça e o cavalo que per­ tenciam ao marido de Assunta. Por fim o desfile de móveis e de trastes acabou . Parecia que Donato recebera uma casa nova directamente dos Caminhos de Ferro do Estado . Marisa. para minha grande contrariedade . Como reagiria Melina? Seria verdade . sem um motivo concreto . Havia uma grande curio­ sidade . também fazia mudanças . Nicola tinha um rosto largo e atraente . quando toda a farm1ia Sarratore se mudou . que era da minha idade . Empurrava o carrinho com o filho bebé . perto de uma praça que se chamava Piazza Nazionale . para prender tudo bem à carroça. colchões . móveis . para fugir à perseguição de Melina. Nicola e Donato co­ meçaram a passar cordas . Nicola. Era provável . magra e viúva. um que­ branto que tornava indistinto tudo o que me rodeava. a mesma carroça e o mesmo cavalo velho com que ele e ela vendiam fruta e hortaliça pelas ruas do bairro . As mulheres . Ou então . assoma­ ram-se às janelas . ou para assistirmos ao espectáculo da raiva daquela mulher feia. sua mãe . como eu ouvira murmurar. Olhei para ele . Ouviu-se de repente um barulho de coisas partidas . e Clelia. bugigangas de todo o género .

Gigliola Spagnuolo recebia constan­ temente propostas de namoro e eu também era muito requisitada. a poucos centímetros de Nino . usava o da minha mãe . garrafas . ferro puro: manípulo de ferro e base de ferro . Não a víamos . Melina.não o matou .46 Elena Ferrante no segundo andar. sem um adeus para ninguém. e ela nunca me disse se isso lhe dava desgosto. como que hipnotizado pela quantidade de ob­ jectos frágeis atirados contra o asfalto . apenas «aaah . mas também por ter a língua afiada. mamã. não . Por pouco . ressaltavam e se quebravam. espalhando estilhaços por entre as patas nervosas do animal. Melina começou a gritar. Quase ao mesmo tempo . Após um instante de hesitação também eu tapei os ouvidos . como se precisasse de sons nítidos para compreender. dela não aparecia um braço nem uma mão ao atirar as coisas . embora com a professora exibisse vocábulos da língua . como se estivesse ferida. a segunda filha de Melina. pratos . Ecoou também a voz dolorosa de Ada. antes de mais porque era um palito . porém. para junto dos seus bens. Panelas de cobre . copos . Inventava alcunhas humilhantes e. aaah» . e dom Nicola segurava o cavalo pelo freio enquanto as coisas tombavam no asfalto. em forma de proa. Mas entretanto começaram a voar objectos da jane­ la. porca e sempre com feridas . enquanto Nino parecia sem vontade de se ir embora. que gritava: mamã. não gritava palavras . e a curiosidade foi tanta que libertei os tímpanos . 1 2. Deve ter percebido que olhava para ela e desapareceu logo da janela. fazendo de conta que era um navio numa tempestade . Era um ferro de engomar. Ao rés da parede . com as filhas atrás . Por último vi voar da janela uma espécie de mancha negra. e Donato subiu para a carroça. Mas Lila não agradava. Procurei Lila com os olhos . curvada sobre o carrinho . Eram gritos de um tal tormento que vi Lila tapar os ouvidos com as mãos. e na rua Lídia Sarratore caminhava de cabeça baixa. Lídia e os três filhos mais pequenos esgueiraram-se também direito ao portão . E vi-lhe outra cara.por muito pouco . Quando ainda tinha Tina e brincava em casa. O objecto despenhou-se em voo picado e com um baque seco fez um buraco no chão . Nenhum menino alguma vez declarou o seu amor a Lila. idêntico. uma cara de desnor­ teamento . parecia que voavam da janela por vontade pró­ pria. Entretanto a carroça pôs-se em movimento .

que matava à nascença qualquer sentimento amoroso . Pouco falávamos . Senti que se ela me desse a prenda que recebera de Enzo . fica tu com elas . cheio de palavrões . em tom divertido: «Eu gosto de sorvas . não sendo propriamente um pedido de namoro. Disse aquela frase para fazer uma experiência. que contara a toda a gente que ele se lhe declarara. até se alegrou . e ele não ficou triste por isso . Enzo virou costas e correu para o trabalho . era demasiado preguiçoso . esperando que Lila mas oferecesse: toma. Disse-lhe apenas . estendeu a Lila uma coroa de sorvas . Mas quando amadureciam às janelas e se tornavam castanhas e moles como pequenas peras secas . vimo-lo· cada vez menos . 13. de ser rejeitado por Gigliola Spagnuolo. perante os meus olhos incrédulos . Atraía-me a cor ver­ melho-amarelada de quando ainda estavam verdes .» «Não as quero . eu ficaria mais contente do que se ela me oferecesse uma coi­ sa sua. Vi-a pendurar nele a coroa. e recordo ainda a sensação de traição quando as levou para casa.» Estava a mentir. «Ü que faço eu a isto?» «Come-as . Só Enzo fez uma coisa que.» Foi tudo .A Amiga Genial 47 italiana que ninguém conhecia. era no entanto um sinal de admiração e de respeito. por isso o professor não o propôs para o exame de admissão . . pondo à vista uma polpa granulosa que não sabia mal . nem lhes tocava. connosco falava só um dialecto desprezí­ vel. mas que se desfazia de uma maneira que me fazia lembrar as carcaças dos ratos que encontrávamos na rua. Mas não o fez . aliás . Depois da altercação com Giglio­ la. Ela própria espetou o prego na janela. era um fruto que não apreciava. e antes . Eu e Lila come­ çámos a rir.» «Verdes?» «Deixa-as amadurecer. e a pele se ti­ rava facilmente . Embora tivesse mostrado ser muito hábil com as contas de ca­ beça.» «Deita-as fora. Enzo nunca mais lhe deu presentes . mas tínhamos sempre uma risada para tudo o que nos acontecia. parece-me. Muito depois de lhe ter partido a cabeça com a pedra. a sua dureza que resplandecia nos dias de sol . ele seguiu-nos pela rua larga e .

além do exame final da instrução primária. também o exame de admissão à escola média. que era porteiro e sabia ter boas maneiras . Eu estudei todas as maneiras de convencer o meu pai a não mandar à escola a minha mãe . desenhava com realismo princesas com penteados . com um olho dançarino e sempre cheia de raiva. perguntou o meu pai . Nunzia Cerullo fez algumas tentativas com pouca convicção . e deu uma bofetada a Rino por ele lhe dizer que fazia mal . porque é que a professora tem de lhe dar aulas pagas?» «Porque assim ela viverá melhor e nós pior. mas ela fez com que o director os mandasse chamar. os de Gigliola e os de Lila. vestidos e sapatos nunca vistos em livro nenhum. «Para ela poder estudar Latim. Diz que tem de lhe dar aulas extraordi- nárias . A princípio a minha mãe estava contra e o meu pai indeciso. de modo que Nunzia teve de ir. que fosse antes ele. Mas os pais de Lila disseram que não . vendendo produtos do campo . severa mas calma. Levantava-se muito cedo . mas o pai nem quis discutir o assunto . senão tiravam-me imediatamente da escola. finalmente deci­ diram deixar-me fazer o exame . fomos informadas de que tínhamos capacidades para continuar a estudar. jóias . nos encantavam a todas . Não consegui . e até desenhos muito coloridos que na aula. quando estávamos quase a terminar a quinta classe . A pro­ fessora chamou por turnos os meus pais. depois . Nem era in­ tenção deles ir falar com a professora. falou com a professora e regressou a casa carrancuda. a professora perdeu a calma e arrastou a mãe de Lila até . surripiando lápis de cor Giotto . mas sempre na condição de eu ser óp­ tima aluna. para ir com o pai ao mercado da fruta e da hortaliça ou para correr as ruas do bairro com a carroça. quando Lila os fazia. Perante a sua tímida mas firme recusa. apresentou­ -lhe composições maravilhosas . pois ela. problemas resolvidos com inteligência. a professora Oliviero . «A professora quer dinheiro .» Discutiram muito . porque o exame é difícil» «Mas para que serve esse exame?» . coxa. Foi ela. para lhes dizer que nós devíamos fazer sem falta.» «Mas se é inteligente . Mas nós . o meu pai mostrou-se cautelosamente a favor e a mi­ nha mãe resignou-se a ser um pouco menos contrária.48 Elena Ferrante Inscreveu-se na escola comercial . Mas quando a recusa se confirmou .» «Mas porquê?» «Porque disseram que ela é inteligente . mas na verdade já trabalhava com os pais . por isso depressa se desligou da escola. nem no cinema paroquial .

Mas Nunzia não podia ceder. embora de má vontade . depois de uma longa espera muda em frente da porta. quando íamos para a escola. mais forte do que o irmão Rino . Aliás . procurava ter ânimo para continuar.» . que nos podiam meter na cadeia. vi-lhe na boca um dente de ouro muito brilhante . Dentro do apartamento ouviam-se vozes . subimos os últimos lanços . de cortar a respiração . Também era proibido ir a casa de dom Achille . as mãos suadas bem apertadas . trazia um roupão verde desbotado . diante dela qual­ quer proibição perdia consistência. como se fosse uma aluna indisciplinada. No dia seguinte . mas ela decidiu fazê­ -lo na mesma e eu fui atrás dela. Assim. Sabia como passar dos limites sem nunca chegar a sofrer as consequências . se sentiam na obri­ gação de elogiá-la. Pensou que procuráva­ mos Alfonso . procuramos dom Achille . do que Stefano . depois ouviu-se chinelar. foi naquela ocasião que me convenci que nada podia detê-la. talvez de Alfonso. mas eu a cada degrau tinha vontade de virar costas e voltar para o pátio. mais forte do que os nossos pais. Quando falou. não tinha autorização do marido . pois todos sabiam que era inútil proibi-la de alguma coisa. Queríamos que dom Achille nos devolvesse as nossas bonecas . Acreditei . Por isso subimos as escadas . de Stefano ou de Pinuc­ cia. ao lado uma da outra. Fez-se silêncio . Lila. mas consolei-me pensando que era também o som do coração dela. mais forte do que todos os adultos . Lila disse-lhe em dialecto: «Não .A Amiga Genial 49 ao director. Ainda sinto a mão de Lila a agarrar a minha. sentia-o nos ouvidos . com aquele gesto . incluindo a professora e os carabinieri. Parecia ser a mais forte das meninas . mais forte do que Enzo . Dona Maria abriu-nos a porta. Apesar do seu aspecto frágil . Em frente da porta de dom Achille o meu coração batia com força. mas também porque ela própria. eu do lado da parede e ela do lado do corrimão . 14. e cada acto seu de desobediência tinha desfechos espantosos . girou o botão da campainha. Lila disse-me no tom habitual: mas eu faço o exame na mesma. a professora e o director se cansarem. do que Alfonso . estava um tanto admirada. Portanto foi repetindo que não até ela própria. e dá-me prazer pensar que ela o fez não só porque pressentiu que eu não teria coragem de ir até ao último andar. Todos acabavam por se dar por vencidos e ainda por cima.

via-se a brasa.» O homem. Tinha olhos luzidios . aborrecido . ao ouvir estas últimas palavras . a boca era grande e delgada. pernas curtas . um pouco baixo . e só tinha algum cabelo desgrenhado por cima das orelhas .» «Alfõ . apanhaste a boneca da filha do sapateiro?» «Eu não . e a tia Maria a pôr a mesa para o jantar. Nada de minerais nem cintilar de vidros . um pouco desproporcionado . Stefano e Pinuccia. Tinha o tron­ co alto . o queixo volumoso com uma cova ao centro . e meteu-as no seu saco negro . Eu nem podia crer que estávamos ali diante de dom Achille .» A mulher gritou: «Achl . e que ao fundo entrevíamos Alfonso . «Que bonecas?» «As nossas . um pouco calvo . O rosto era de carne . mas não tanto como imaginara. «Vocês .» «É com ele que temos de falar. braços que lhe chegavam aos joelhos e um cigarro na boca.50 Elena Ferrante «Diz-me a mim. Por isso esperava que de um momento para o outro ele se transfor­ masse . mas nor­ mal . não sei onde foi buscar tanta coragem: «0 senhor é que as apanhou . . perguntou dom Achille . o alto da cabeça brilhava.» «Não precisamos aqui das vossas bonecas . e que Lila falava com ele daquele modo e ele olhava para ela perplexo . vimo-lo bem.» Dom Achille virou-se e gritou para o interior do apartamento: «Piou . pela primeira vez . Não podia crer que ele era uma pessoa normal . franziu a testa. Achei-o feio . Lila disse com firmeza.» Houve um instante de silêncio .» «0 senhor apanhou-as lá em baixo na cave . «Sim. comprido . Perguntou em voz rouca: «Quem é?» «A filha pequena do sapateiro com a filha do Greco . apanhaste-a tu?» Risotas . com o branco coberto de riachos verme­ lhos . Uma figura opulenta surgiu da penumbra. «Então?» «As bonecas» . disse Lila. a mim?» .» Mais chinelar.» Dom Achille chegou à luz e. nós vimo-lo .

» «Vou já. para nos prepararmos para o exame de admissão . Ele debruçou-se do corrimão e resmoneou : «E lembrem-se de que fui eu que as ofereci . disse . os pais não tinham concordado em pagar à professora. Mas afinal tirou o porta-moedas . oferecia-nos bolinhos secos em forma de coração e uma gasosa.» Eu disse em italiano. como agora éramos muito amigas . Lila nunca foi . Nós apertámos as mãos com força. continuava a dizer-me que ia fazer o exame e que iria para o primeiro ano da escola média. parece-me . A professora morava mesmo ao lado da igreja paroquial da Sagrada Famí­ lia. está pronto .» 15. na mesma turma que eu . e Maria gritou: «Achi . à espera que ele tirasse de lá uma faca . abriu-o . Gigliola passava por baixo das minhas janelas e chamava-me . duas por semana. como se quisesse perceber bem o sentido das palavras: «Eu peguei nas vossas bonecas e meti-as no saco negro?» Senti que ele não ficara zangado .» Mas entretanto . atenta para não cair nas escadas : «Boa noite e bom apetite . «E os livros?» «Emprestas-mos tu . A professo­ ra.A Amiga Genial 51 Dom Achille repetiu . Decidiu comprá-lo porque já o conhecia e gostara . no fim da aula. Eu já estava pronta. saía a correr. as janelas davam para os jardins da igreja e dali avistava-se . Logo a seguir à Páscoa. não me recordo quanto . Gigliola Spagnuolo e eu começámos a ir a casa da professora. Mas ela. «Vão comprar bonecas» . mas sim desgostoso de repente . como se estivesse a ter a confirmação de uma coisa que já sabia. Gosta­ va daquelas aulas particulares . olhou lá para dentro e entregou algum dinheiro a Lila.» Dom Achille levou uma mão grande e larga ao bolso de trás das cal­ ças . Lila arrancou-lhe o dinheiro da mão e arrastou-me pela escada abai- xo . os postes da linha férrea. para lá dos campos . Disse algo em dialecto que não percebi . com o dinheiro de dom Achille comprou um roman­ ce : Mulherzinhas .

uma da outra. era um rapaz muito nervoso e iniciara uma batalha pessoal para ser pago pelo trabalho que fazia. ao lado . começaram a cair fios e a soltar-se os cadernos . Andámos a lê-lo durante meses . Mas o rapaz insistia. Mas essas palavras escandalizavam o pai e a mãe. gostávamos muito dele . Então . dentro do prazo estabelecido pela professora para devolução . Começavam a falar de dinheiro e acabavam a litigar por causa de Lila. sem uma só palavra que me explicasse do que se tratava. Assim que nos tomámos proprietárias do livro . Nessa altura Rino teria uns dezasseis anos . Lila. Rino. e não tarda muito serás capaz de fazer um sapato inteiro . A ela calhara-lhe Mulherzinhas . e dizia que não havia comparação . achava in­ justo trabalhar tanto como o pai e não receber um centavo . terminara Cuo­ re a custo . ou em voz alta.» Mas esse pagamento com base no ensino não era bas­ tante para Rino . Por isso uma manhã decidiu-se . mas está bem para ti» . Era uma leitora vagarosa. para que queria dinheiro? A sua obrigação era ajudar a fannlia. Chegava. lamentou-se de não poder continuar a reler Mulh er­ zinhas e de não poder falar comigo sobre o livro . se chegava. Fernan­ do Cerullo respondia-lhe com aparente paciência: «Eu já te pago. porque Lila não se sentia à vontade para tê-lo em casa dela. por isso discutiam. porém. tantas e tantas vezes que o livro ficou sebento . com a seguinte frase a acompanhar: «Este é para as mais crescidas . Na quarta classe a professora Oliviero tinha dado às melho­ res alunas livros para lermos . ele e o pai discutiam constantemente . Lila havia lido Mulherzinhas e Coração em pouco tempo . pegámos nele e fomos perguntar à Iolanda da papelaria. principalmente ao jantar. fomos ao paul . pago-te generosamente ensinando-te o ofício completo . Quando houve a questão do exame de admis­ são . tinha-o em casa no meio dos livros da escola. ou umas meias-solas. protegia-a.52 Elena Ferrante muito dele . Rino tinha uma cama onde dormir. na opinião dela Mulherzinhas era muito bonito . esfrangalhado . tinha onde comer. co­ meçámos a encontrar-nos no pátio para lê-lo . e não empobrecê-la. Rino . o teu pai está a ensinar-te tudo o que sabe. ao sítio onde tínhamos enterrado o dinheiro de dom Achille numa caixinha de metal . nos últimos tempos . Mas era o nosso livro . que tinha na montra sei lá desde quando um exemplar de Mulherzinhas amarelecido pelo sol . quero ter um salário. Chamou-me da rua. . quando teve de restituir o livro à professora. ainda o sou . O pai . venho para a loja e trabalho até às oito da noite. Tu daqui a pouco sabes apenas pôr uns saltos novos ou uma orla. ou em silêncio . Eu não conseguira lê-lo . zangava-se se a apanhasse a ler. e a mim calhara Coração . perdeu a lombada. Eu era a guardiã. O seu raciocínio era: levanto-me às seis.

sobre a questão do estudo era como falar com uma parede . à espera de que a encontrássemos . «Estudar? Porquê? Eu estudei?» «Não . Só o irmão pensava de maneira diferente e lutava corajosamente contra o pai . Dizia que ele era todo cheio de gentilezas . Por isso . A farru1ia era nume­ rosa. «Se for preciso pagar propinas . profundamente . E tam­ bém não cabia nas suas possibilidades financeiras .» «E tu estudaste?» «Não . e ainda duas irmãs solteiras de Fernando . E Lila. mostrava-se convencida de que Rino havia de ganhar. que é rapariga. quando precisava de fazer contas . dentro de arcas que quando se abriam soltavam clarões . dir-se-ia que a riqueza estava escondida em qualquer sítio do bairro . mas ficou-me a impressão de que enquanto eu odiava a minha mãe . há-de estudar?» O assunto encerrava-se quase sempre com uma bofetada na cara de Rino .» «Então porque é que a tua irmã. Mas o que se havia de fazer. O rapaz . ele paga-mas» . por razões que eu não com­ preendia. Falávamos dela como nas histórias se fala da busca de um tesouro . tomou-se a nossa ideia fixa. viviam todos da pequena oficina de sapateiro . dizia que no dia do santo do seu nome era ele próprio que lhe levava chocolate quente à cama e quatro bolachas . que de uma forma ou de outra. para o estojo. Conse­ guiria ter um salário e com o seu dinheiro lhe pagaria a escola. Tinha a certeza de que o irmão também lhe daria dinheiro para os livros escolares .A Amiga Genial 53 «Se me pagares . com o único objecti­ vo de fazer do irmão a pessoa mais rica do bairro . Ela nunca mo disse . mesmo sem querer. Pensámos que . encarrego-me de a mandar estudar» . sem chorar. pedia desculpa com voz rancorosa. Dizíamos que quando fôssemos ricas faríamos isto e faríamos aquilo . para o mapa-múndi . ela apesar de tudo não tinha rancor ao pai . e até para as canetas . Adorava-o. dizia-me . Lila ficava calada durante aquelas discussões . A riqueza. Depois . e também os pais de Nunzia. e odiava-a mesmo . dizia Rino . Disse-me que quando acabasse de estudar queria ganhar muito dinheiro . a bata e o laço . lhas mandava fazer a ela. . as coisas alte­ raram-se e começámos a associar os estudos ao dinheiro . dizia que ele . Ouvindo-nos . não cabia na sua maneira de ver que ela continuasse a estudar. e a mãe ao fim e ao cabo era da mesma opinião . naquele último ano da primária. não sei porquê . para os lápis de cor. faltara ao res­ peito ao pai . dizia que o ouvira dizer aos amigos que a filha dele era a pessoa mais inteligente do bairro .

54 Elena Ferrante

se estudássemos muito , seríamos capazes de escrever livros e que os
livros nos tomariam ricas . A riqueza continuava a ser um resplendor de
moedas de ouro fechadas dentro de inúmeras arcas , mas para a alcançar
bastava estudar e escrever um livro .
«Escrevemos um juntas» , disse Lila uma vez , o que me encheu de
alegria.
Talvez a ideia tenha tomado forma quando ela descobriu que a autora
de Mulherzinhas ganhou tanto dinheiro dessa maneira que deu um pou­
co da sua riqueza à fanu1ia. Mas não garanto . Falámos sobre isso , disse­
-lhe que podíamos começar logo depois do exame de admissão . Concor­
dou , mas não conseguiu resistir. Enquanto eu tinha muito que estudar,
ainda mais por causa das aulas da tarde com a Spagnuolo e a professora,
ela tinha mais tempo livre; meteu mãos à obra e escreveu um romance
sem mim.
Fiquei magoada quando ela o trouxe para eu ler, mas não disse nada,
contive a desilusão e elogiei-a muito . Eram dez folhas de papel quadri­
culado, dobradas e presas com um alfinete de costureira. Tinha uma capa
desenhada a lápis de cor e lembro-me do título . Chamava-se A Fada
Azul, era apaixonante e cheio de palavras difíceis. Disse-lhe que o desse
a ler à professora. Não quis . Implorei-lhe , ofereci-me para ser eu a
entregar-lho . Com pouca convicção , fez sinal que sim.
Um dia, quando estava em casa da professora para a aula, aproveitei
a ida de Gigliola à casa de banho e tirei da pasta A Fada Azul. Disse que
era um romance muito bonito escrito pela Lila e que ela queria que a
professora o lesse . Mas a professora, que nos últimos cinco anos sempre
se entusiasmara com tudo o que Lila fazia, à parte as maldades , respon­
deu friamente:
«Diz à Cerullo que faria bem em estudar para o exame da primária,
em vez de perder tempo» . E embora ficasse com o romance de Lila,
deixou-o em cima da mesa sem sequer olhar para ele .
Aquela atitude desorientou-me . O que é que acontecera? Zangara-se
com a mãe de Lila? Tinha alargado a zanga a Lila também? Estava abor­
recida por causa do dinheiro que os pais da minha amiga não lhe tinham
querido dar? Não compreendi . Uns dias depois , cautelosamente , per­
guntei-lhe se já lera A Fada Azul. Respondeu-me num tom insólito , de
modo pouco claro , como se só eu e ela fôssemos capazes de perceber.
Tenho as frases bem gravadas na memória.
«Sabes o que é a plebe , Greco?»
«Sim. A plebe , os tribunos da plebe , os Gracchi.»

A Amiga Genial 55

«A plebe é uma coisa muito feia.»
«Sim.»
«E se uma pessoa quer continuar a ser da plebe , ela , os filhos, os fi­
lhos dos filhos, nada merecem. Esquece a Cerullo e pensa em ti .»
A professora Oliviero nunca mais disse nada a respeito de A Fada
Azul. Lila pediu-me notícias duas ou três vezes , depois não fez mais
caso . Disse , pesarosa:
«Assim que tiver tempo escrevo outro , aquele não era bom.»
«Era maravilhoso.»
«Metia nojo .»
Mas tomou-se menos vivaça, sobretudo nas aulas , provavelmente
porque percebeu que a professora já não a elogiava, por vezes até se
mostrava incomodada com o seu excesso de qualidades . Quando se
realizou a competição do final do ano ela foi a melhor, mas sem o atre­
vimento de outros tempos . Para terminar o dia, o director apresentou a
quem estava ainda em competição - Lila, Gigliola e eu - um proble­
ma dificílimo que ele mesmo inventara. Gigliola e eu esforçámo-nos
sem resultado . Lila reduziu os olhos a duas gretas como era costume e
concentrou-se . Foi a última a capitular. Disse em tom tímido , insólito
nela, que o problema não se podia resolver porque havia algo errado no
enunciado , mas não sabia dizer o quê . O que ela foi dizer ! A professora
deu-lhe uma grande ensaboadela. Vi Lila no quadro com o giz na mão ,
franzina, muito pálida, a ser atingida por rajadas de frases cruéis . Sentia
o sofrimento dela, não conseguia suportar o tremor do seu lábio inferior
e pouco faltou para eu desatar a chorar.
«Quando não sabemos resolver um problema» , concluiu a professora
com frieza, «não dizemos que o problema está errado , dizemos que não
somos capazes de o resolver.»
O director ficou em silêncio . Tanto quanto me lembro , o dia termi­
nou ali .

16.

Pouco antes do exame final da primária, Lila desafiou-me para fazer
outra das muitas coisas que eu nunca teria tido coragem de fazer sozi­
nha. Decidimos não ir à escola e atravessar as fronteiras do bairro .
Nunca acontecera. Tanto quanto conseguia lembrar-me , nunca fora
além dos prédios brancos de quarto andar, do pátio , da igreja paroquial ,

56 Elena Ferrante

dos jardins , nem alguma vez sentira o impulso de fazê-lo . Passavam
comboios constantemente do lado de lá dos campos , automóveis e ca­
miões circulavam de um lado para o outro na rua larga, mas não me
lembrava de uma só vez ter perguntado a mim mesma, ou ao meu pai ,
ou à professora, para onde iam os automóveis , os camiões , os comboios ,
para que cidade , para que mundo?
Lila também nunca se mostrara particularmente interessada, mas
daquela vez organizou tudo . Recomendou-me que dissesse à minha mãe
que depois das aulas iríamos todas a casa da professora a uma festa de
final de ano escolar, e apesar de eu tentar recordar-lhe que as professo­
ras nunca tinham convidado as alunas todas para ir a suas casas fazer
uma festa, ela disse que precisamente por isso é que devíamos dizer
aquilo . O acontecimento pareceria tão excepcional que nenhum dos
nossos progenitores teria o atrevimento de ir à escola perguntar se era
verdade ou não . Confiei , como sempre , e correu precisamente como ela
dissera. Em minha casa todos acreditaram, não só o meu pai e os meus
irmãos, como também a minha mãe .
Na noite anterior não consegui dormir. O que haveria para além do
bairro , para além do seu perímetro que tão bem conhecia? Atrás de nós
elevava-se uma colina densamente arborizada e uns escassos edifícios
junto dos carris cintilantes. Na nossa frente , para lá da rua larga, esten­
dia-se uma rua toda esburacada que bordejava os pauis . À direita, quan­
do se saía do portão , havia uma faixa de terras sem árvores por baixo de
um céu enorme . À esquerda havia um túnel com três bocas , mas se
trepássemos até aos carris da linha férrea, nos dias limpos via-se , depois
de algumas casas baixas e muros de tufo e uma vegetação cerrada, uma
montanha azul com um cume mais baixo e outro um pouco mais alto ,
que se chamava Vesúvio e era um vulcão .
Mas nada daquilo que tínhamos diante dos olhos todos os dias , ou que
podíamos avistar se subíssemos a colina, nos impressionava. Habituadas
pelos livros da escola a falar com muita competência daquilo que nunca
tínhamos visto , o que nos excitava era o invisível . Lila dizia que mesmo
na direcção do Vesúvio era o mar. Rino , que já lá fora, contara-lhe que
era feito de água azul e cintilante , uma beleza de espectáculo . Ao domin­
go , principalmente no Verão , mas também muitas vezes no Inverno , ele
corria para lá com os amigos para ir tomar banho , e prometera-lhe que a
levava. Não era ele o único que tinha visto o mar, evidentemente , outros
nossos conhecidos também o tinham visto. Uma vez Nino Sarratore e a
sua irmã Marisa falaram-nos do mar, num tom de quem achava normal

A Amiga Genial 57

ir lá de vez em quando comer biscoitos e marisco . Gigliola Spagnuolo
também já lá estivera. Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais
que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de
passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim,
faltava-lhes tempo , faltava-lhes dinheiro , faltava-lhes vontade . Na verda­
de parecia-me que tinha uma vaga lembrança azulada do mar, a minha
mãe dizia que me levara com ela em pequena, quando ia fazer banhos de
areia à perna ofendida. Mas eu pouco acreditava na minha mãe , e com
Lila, que nada sabia a tal respeito , eu admitia que também nada sabia. De
modo que ela planeou fazer como Rino , pôr-se a caminho e chegar lá
sozinha. Convenceu-me a ir com ela. No dia seguinte .
Levantei-me cedo , fiz tudo como se fosse para a escola, as sopas de
pão no leite quente, a pasta, a bata. Esperei por Lila em frente do portão
como sempre , só que , em vez de irmos para a direita, atravessámos a rua
larga e seguimos para a esquerda, na direcção do túnel .
Era de manhã cedo e já fazia calor. Havia no ar um odor forte a terra
e a erva que enxugavam ao sol . Subimos por entre arbustos altos , por
veredas incertas que se dirigiam para os carris . Chegámos a um poste de
electricidade , tirámos as batas e metemo-las nas pastas , que esconde­
mos no meio das moitas . Depois corremos pelos campos que conhecía­
mos bem e voámos excitadas por um declive que nos levou até ao túnel .
A boca da direita era muito escura, nunca tínhamos penetrado naquela
obscuridade. Demos as mãos e seguimos . Era uma passagem comprida,
o círculo luminoso da saída parecia distante . Quando nos habituámos à
penumbra vimos , aturdidas pelo ribombar dos passos , as linhas de água
prateada que deslizavam pelas paredes e as enormes poças . Prossegui­
mos , muito tensas . Lila soltou um grito e riu-se da explosão violenta dó
som. Depois gritei eu_ e ri-me também. A partir daí não fizemos senão
gritar, ao mesmo tempo e em separado . Risadas e gritos , gritos e risadas ,
só pelo prazer de os ouvir ampliados . A tensão afrouxou , começou a
viagem.
Tínhamos diante de nós muitas horas durante as quais nenhum dos
nossos familiares nos procuraria. Quando penso no prazer de ser livre,
penso no início daquela jornada, quando saímos do túnel e nos encontrá­
mos numa estrada sempre a direito a perder de vista, a estrada que , segun­
do o que Rino dissera a Lila, temos de percorrer toda para chegar ao mar.
Senti-me exposta ao desconhecido com alegria. Nada que fosse compará­
vel com a descida às caves ou a subida até casa de dom Achille. Estava
um sol nebuloso , um forte cheiro a queimado . Caminhámos muito tempo

58 Elena Ferrante

entre muros desmoronados invadidos pelas ervas , edifícios baixos de
onde vinham vozes em dialecto , por vezes um clangor. Vimos um cavalo
descer cautelosamente uma ladeira e atravessar a estrada a relinchar. Vi­
mos uma mulher jovem debruçada de uma varanda, a pentear-se com o
pente fino para os piolhos . Vimos um grupo de garotos ranhosos que pa­
raram de brincar e nos olharam com ar ameaçador. Também vimos um
homem gordo em camisola interior, que saiu de uma casa em ruínas , abriu
as calças e nos mostrou o pénis. Mas não tivemos medo de nada: Dom
Nicola, o pai de Enzo , às vezes deixava-nos fazer festas ao cavalo, os
garotos também no nosso pátio eram ameaçadores , e havia o velho dom
Mimi que nos mostrava o seu coiso asqueroso sempre que vínhamos da
escola. Durante pelo menos três horas de caminho a grande estrada que
percorríamos não nos pareceu diferente do segmento que víamos todos os
dias . E não senti a responsabilidade do caminho certo . Íamos de mão
dada, avançávamos lado a lado, mas para mim, de acordo com o que era
costume, era como se Lila fosse dez passos à minha frente e soubesse com
precisão o que fazer, por onde ir. Estava habituada a sentir-me segunda
em tudo , por isso estava certa de que para ela, que desde sempre era a
primeira, tudo era claro: o passo , a contagem do tempo de que dispúnha­
mos para ir e voltar, o percurso para chegar ao mar. Para mim era como
se ela tivesse tudo arrumado na cabeça, de tal modo que o mundo em
volta não conseguiria criar desordem. Abandonei-me com alegria. Lem­
bro-me de uma luz difusa que não parecia vir do céu e sim das profunde­
zas da terra, mas que vista à superfície era fraca, feia.
Depois começámos a ficar cansadas , a ter sede e fome . Nisso não tí­
nhamos pensado . Lila abrandou o passo , e eu abrandei também. Surpre­
endi-a duas ou três vezes a olhar para mim como se estivesse arrepen­
dida de me ter feito uma maldade . O que se passava? Reparei que se
virava muito para trás e comecei a virar-me também . A mão dela come­
çou a suar. Há muito tempo que se deixara de ver atrás de nós o túnel ,
que era a fronteira com o bairro . A estrada já percorrida era-nos pouco
familiar, tal como a que continuava a abrir-se diante de nós . As pessoas
pareciam totalmente indiferentes à nossa sorte . E entretanto ia surgindo
à nossa volta uma paisagem de abandono: bidões amolgados , madeira
queimada, esqueletos de automóveis , rodas de carroça com os raios
partidos , móveis semidestruídos , ferragens ferrujentas . Porque olhava
Lila para trás? Porque deixara de falar? O que é que não corria bem?
Olhei melhor. O céu , que a princípio estava muito alto , era como se
tivesse baixado . Atrás de nós estava a ficar tudo negro , viam-se nuvens

que ela também tenha medo? O que se passa com ela? As primeiras grandes pingas chegaram. os cabelos colados à cabeça. primeiro debaixo de grandes báte­ gas . cegas pela chuva.que de repente a impeliu a arrastar-me para casa à pressa. depois sob uma chuva miudinha. Era um esquema de raciocínio que aprendera com ela e admirava-me que não o pusesse em prática. camiões ruidosos passa­ vam. foi com pouca convicção que corri na direcção do bairro .» «Porquê?» Vi-a agitada como nunca vira. Havia qualquer coisa . Senti medo . bateram na poeira da estrada e formaram manchas castanhas . a luz ainda encandeava.» «Então vamos até ao mar. Passámos de novo pelo túnel . e quer voltássemos para casa. «E o mar?» «É longe de mais. Relâmpagos . para trás . se chovesse molhávamo-nos na mesma. Levan­ tou-se vento . Nenhuma de nós se lembrou de procurar abrigo . «Voltemos» . os lábios roxos . com o coração em tumulto . que não ade­ riam ao terreno enlameado . pesadas . nova para mim. as pingas engrossaram ainda mais . Fizemos o caminho em passo rápido . trovejou com mais força. velozes. os olhos arregalados . perguntei-me . Lila deu-me um puxão . À nossa frente . os vestidos de repente ensopados . um rio de água corria de cada lado da estrada. quer continuássemos em frente .» «Não .qualquer coisa que ela tinha na ponta da língua mas não se resolvia a dizer-me . Uma luz violácea fendeu o céu escuro . Ouviram-se trovões ao longe . Tinha a boca aberta. os pés nus dentro das sandálias gastas .» «E a casa?» «Também. levantando ondas de lama. Estávamos ensopadas . Corremos até ficar sem fôlego . mas o que mais me assustou foi a expressão de Lila. os olhos assustados . mas parecia ser pressionada dos lados por um cinzento violáceo prestes a sufocá-la.A Amiga Genial 59 grossas . Por que razão não prosseguíamos? Tínhamos tempo . Será possível . no espaço de poucos segundos transformaram-se numa cascata de água. Corremos . e apertava-me a mão com força. Depois não conseguimos mais . o mar não devia estar longe . Não percebi . disse Lila. pousadas por cima das árvores e dos postes da luz . pelo contrário. atravessámos os cam- . trovões . abrandámos . e por fim sob um céu cinzento . olhava nervosamente para a frente . para o lado .

Encontrámos as pastas . Devíamos ter ido ao mar e não fomos . Durante toda a noite tentei perceber o que tinha de facto acontecido . Os arbustos carregados de água roçavam por nós . apesar d a chuva. irritado consigo mesmo . Depressa compreendemos que nada correra como previsto . Encontrámo-nos nos jardins .descobrira-o pela primeira vez . Encolhi os ombros. Descobrira que eu não me encontrava na escola e que não havia festa nenhuma. gritando que me mata­ va se eu voltasse a fazer algo daquele género . quis regressar aos confins do bairro . Ocorrera uma misteriosa inversão de atitudes .60 Elena Ferrante pos . Em casa dela ninguém dera por nada. Nem me deixou falar.ex­ tinguia em mim todos os vínculos e todas as preocupações. sentia-me longe de tudo e de todos . já não me mandassem para a escola média? Ou trouxera-me para trás a toda a pressa justamente para evitar esse casti­ go? Ou . A minha mãe fora até lá com o guarda-chuva. Quando avistei ao longe a sua figura a coxear. o céu fizera-se negro à hora da saída da escola. No bair­ ro . Tensa. ela descobriu as nódoas negras nos meus braços e perguntou-me o que acontecera. Não conseguia compreender. e começaram a discutir. vestimos as batas secas por cima da roupa molhada. Esbofeteou-me e bateu-me com o guarda-chuva. Seria possível? Arrastara-me consigo na esperança de que os meus pais . como castigo . corri-lhe imediatamente ao encontro deixando Lila para trás . Havia horas que me procurava. perplexa. encaminhámo-nos para casa. Lila pirou-se . fui sozinha para a escola.desejara uma coisa e outra em momen­ tos diferentes? .interrogo-me hoje . Ao serão a minha mãe contou tudo ao meu pai e obrigou-o a bater­ -me . as coisas agora estavam assim. renunciara ao mar. e eu levara tareia por nada. Eu . Lila de re­ pente arrependera-se do plano que concebera. Lila não voltou a dar-me a mão . Primeiro ele deu-lhe uma bofetada e depois . Ele enervou-se . pois não queria fazê-lo . teria prosseguido caminho . e a distância . deu-mas pela medida grande . «Só te bateram?» «Que mais haviam de me fazer?» «Ainda te vão mandar estudar latim?» Olhei para ela. para que ela não se zangasse com Lila. sempre de olhos baixos . No dia seguinte não a esperei ao portão . fazendo-nos es­ tremecer. para me acompanhar até à festa da professora.

A Amiga Genial 61

17.

Fizemos juntas o exame final da primária. Quando percebeu que eu
faria também o de admissão , perdeu a energia. Aconteceu algo que sur­
preendeu toda a gente: eu passei nos dois exames com dez em todas as
disciplinas ; Lila passou no exame da primária com nove em todas e
oito em aritmética.
Não me disse uma única palavra de raiva ou de descontentamento .
Mas começou a fazer conluio com Carmela Peluso , a filha do carpin­
teiro-batoteiro , como se eu já não bastasse para ela. No espaço de pou­
cos dias formámos um trio , no qual eu , apesar de ter sido a número um
da escola, estava quase sempre em terceiro lugar. Falavam e diziam
piadas uma à outra constantemente , ou melhor, Lila falava e dizia pia­
das , Carmela ouvia e divertia-se . Quando dávamos os nossos passeios
entre a igreja e a rua larga, Lila ia sempre no meio , e nós , uma de cada
lado . Se notava que ela tendia para se aproximar mais de Carmela, eu
sofria com isso e tinha vontade de voltar para casa.
Nesse último período da primária parecia que andava atordoada, co­
mo se tivesse sofrido um golpe de sol . Já fazia muito calor e costumá­
vamos molhar a cabeça na fonte . Recordo-a com os cabelos e a cara a
pingar água e sempre a querer falar da nossa ida para a escola no ano
seguinte . Tornara-se o seu tema preferido e tratava-o como se fosse um
dos contos que tinha intenção de escrever para ficar rica. Agora, ao fa­
lar, dirigia-se de preferência a Carmela Peluso , que no exame da primá­
ria tivera sete em tudo e também não fizera o exame de admissão .
Lila tinha muito jeito para contar histórias , parecia ser tudo verdade ,
a escola para onde iríamos , os professores , fazia-me rir e preocupava­
-me . Mas uma manhã interrompi-a.
«Lila» , disse-lhe , «tu não podes ir para a escola média, não fizeste o
exame de admissão . Nem tu nem a Peluso podem ir.»
Zangou-se . Disse que iria na mesma, com exame ou sem exame .
«E a Carmela também?»
«Também .»
«Não é possível .»
«Então vais ver.»
Mas as minhas palavras devem ter-lhe dado um grande abanão . A
partir daí deixou de contar histórias sobre o nosso futuro escolar e tor­
nou-se silenciosa. Depois , com uma determinação repentina, começou
a atormentar a farm1ia, gritando que queria estudar latim como Gigliola

62 Elena Ferrante

Spagnuolo e eu íamos estudar. Zangou-se sobretudo com Rino , que
prometera ajudá-la e não o fizera. Era inútil explicar-lhe que já não
havia nada a fazer, pois mostrava-se ainda mais irracional e mais má.
No princípio do Verão assaltou-me um sentimento difícil de explicar
por palavras . Via-a nervosa e agressiva como sempre fora, e isso alegra­
va-me , reconhecia-a. Mas também sentia, por trás dos seus antigos
modos , um desgosto que me incomodava. Ela sofria, e a sua dor não me
agradava. Preferia-a quando ela era diferente de mim, muito distante
dos meus anseios. E o mal-estar que sentia por descobrir que ela era
frágil transformava-se por vias secretas numa necessidade minha de ser
superior. Sempre que podia, cautelosamente e de preferência quando
Carmela Peluso não estava presente , arranjava maneira de lhe recordar
que a minha caderneta escolar era melhor do que a dela. Sempre que
podia, cautelosamente , lembrava-lhe que ia para a escola média e ela
não . Deixar de ser a segunda, passar-lhe à frente , pela primeira vez pare­
ceu-me um sucesso . Teve de se compenetrar disso e tomou-se ainda
mais áspera, mas não para comigo, para a fanu1ia.
Muitas vezes , enquanto esperava que ela descesse para o pátio , ouvia
os seus berros que vinham das janelas . Lançava insultos no pior dialec­
to de rua, tão pesados que ao ouvi-los me ocorriam pensamentos de
ordem e de respeito , não me parecia certo ela tratar os adultos daquela
maneira, e até o irmão . É verdade que o pai , o sapateiro Fernando , quan­
do estava com os azeites tomava-se mau . Mas todos os pais se enfure­
ciam. Além disso o dela, se não fosse provocado , era um homem gentil ,
simpático , muito trabalhador. De cara parecia-se com um actor que se
chamava Randolph Scott, mas sem a sua finura. Era mais grosseiro ,
nada de tons claros , tinha uma barbaça preta que começava logo abaixo
dos olhos , e umas mãos largas e curtas sulcadas de porcaria em cada
prega e debaixo das unhas . Gostava de brincar. Quando eu ia a casa da
Lila ele prendia-me o nariz entre o indicador e o médio e fingia que mo
arrancava. Queria fazer-me acreditar que mo tinha roubado e que ele
agora se agitava, aprisionado entre os seus dedos , tentando escapulir-se
para voltar para a minha cara. Eu achava graça àquilo . Mas se Rino , ou
Lila, ou os outros filhos , o faziam zangar, até eu me assustava ao ouvi­
-lo da rua.
Uma tarde , não sei o que aconteceu . No tempo quente ficávamos na rua
até à hora do jantar. Dessa vez, Lila não se deixava ver, e fui chamá-la por
baixo das janelas , que eram no rés-do-chão. Chamei «Ll , Ll, Ll» , e a mi­
nha voz juntava-se à de Fernando , muito alta, à da mulher e à voz insis-

A Amiga Genial 63

tente da minha amiga. Ouvi claramente que se passava qualquer coisa que
me aterrorizava. Das janelas saía um napolitano grosseiro e o ruído de
objectos a partirem-se. Aparentemente não era nada diferente daquilo que
acontecia em minha casa quando a minha mãe se enfurecia porque o di­
nheiro não chegava, e o meu pai se zangava porque ela já tinha gastado a
parte do ordenado que lhe dera. Na realidade , havia uma diferença subs­
tancial. O meu pai continha-se , mesmo quando estava furioso, tornava-se
violento em surdina, impedindo a voz de explodir, embora as veias do
pescoço se lhe dilatassem e os olhos lançassem chamas . Fernando, pelo
contrário, gritava, partia coisas , e a raiva crescia, não conseguia parar; as
tentativas que a mulher fazia para o acalmar enfureciam-no ainda mais , e
mesmo que a zanga não fosse com ela acabava por lhe bater. Portanto
insistia em chamar Lila, para tirá-la daquela tempestade de gritos , de
obscenidades , de ruídos de destruição . Eu gritava «Ll , Ll , Ll» , mas ela
- bem a ouvia - não parava de insultar o pai .
Tínhamos dez anos , daí a pouco fazíamos onze. Eu estava a ficar mais
cheia, Lila continuava baixinha, magra, era leve e delicada. De repente os
gritos pararam e daí a instantes a minha amiga voou pela janela, passou
por cima da minha cabeça e aterrou no asfalto atrás de mim.
Fiquei estarrecida. Fernando apareceu à janela, continuando a gritar
ameaças horríveis à filha. Atirara-a como se fosse um objecto .
Olhei para ela aterrorizada, enquanto tentava levantar-se , dizendo-me
com uma careta quase divertida:
«Não me aconteceu nada.»
Mas estava a sangrar, tinha partido um braço .

18.

Os pais podiam fazer aquilo e mais , às meninas atrevidas . Depois ,
Fernando tornou-se mais sisudo , mais trabalhador do que o habitual .
Durante esse Verão , eu , Carmela e Lila passámos muitas vezes em fren­
te da sua oficinazita, mas enquanto Rino nos acenava sempre alegre­
mente , o sapateiro , enquanto a filha teve o braço engessado , nem sequer
olhava para ela. Via-se que estava arrependido . Os seus actos violentos
de pai pouca coisa eram, se comparados com a violência dispersa pelo
bairro . No bar Solara, com o calor, entre perdas ao jogo e bebedeiras
importunas , chegava-se com frequência ao desespero (palavra que em
dialecto significava ter perdido toda a esperança, mas , também , estar

64 Elena Ferrante

sem um tostão) , e depois às cenas de pancadaria. Silvio Solara, o dono ,
um homem corpulento com uma barriga imponente , olhos azuis e testa
muito alta, tinha um bordão escuro atrás do balcão , com o qual não
hesitava em bater em quem não pagasse o consumo , quem tivesse pedi­
do empréstimos e quando se vencesse o prazo não os liquidasse , quem
fizesse acordos de qualquer tipo e não os cumprisse , e muitas vezes era
ajudado pelos filhos, Marcello e Michele , rapazes da idade do irmão de
Lila, mas que batiam com mais força do que o pai . Ali , dava-se pancada
e levava-se . Depois os homens voltavam para casa exasperados pelas
perdas ao jogo , pelo álcool , pelas dívidas , pelos prazos , pelas pancadas ,
e à primeira palavra torta batiam na fanu1ia, um chorrilho de dislates
que davam origem a outros dislates .
A meio daquela longa estação ocorreu um facto que perturbou toda a
gente , mas que teve um efeito particular sobre Lila. Dom Achille , o
terrível dom Achille , foi assassinado em sua casa ao início da tarde de
um dia de Agosto surpreendentemente chuvoso .
Encontrava-se na cozinha, acabara de abrir a janela para deixar entrar
a frescura da chuva. Levantara-se da cama de propósito , interrompendo
a sesta. Vestia um pijama azul-claro muito gasto , calçava apenas meias
de cor amarelada, escurecidas nos calcanhares . Assim que abriu a jane­
la, bateu-lhe na cara uma rajada de chuva e, do lado direito do pescoço ,
a meio caminho entre o maxilar e a clavícula, foi trespassado por uma
faca.
O sangue esguichou-lhe do pescoço e atingiu uma panela de cobre
pendurada na parede . O cobre era tão brilhante que o sangue parecia
uma mancha de tinta da qual escorria - assim contava Lila - uma li­
nha negra irregular. O assassino - mas ela inclinava-se mais para uma
assassina - entrara sem arrombar a porta, a uma hora em que as crian­
ças e os jovens estavam na rua e os adultos, se não estavam a trabalhar,
estavam a repousar. Entrara de certeza com uma chave falsa. Certamen­
te tencionava apunhalá-lo no coração enquanto dormia, mas encontrara­
-o acordado e dera-lhe a facada no pescoço . Dom Achille virou-se , com
a lâmina espetada no pescoço , os olhos arregalados e o sangue a sair a
rodos e a ensopar-lhe o pijama. Depois caiu de joelhos e em seguida de
cara no chão .
O assassínio impressionou tanto Lila que quase todos os dias , muito
séria, nos obrigava a ouvir a descrição como se tivesse assistido , acres­
centando sempre novos pormenores . Eu e Carmela ficávamos assusta­
das de a ouvir, Carmela nem conseguia dormir de noite . Nos momentos

A Amiga Genial 65

mais horríveis , quando a linha negra de sangue escorria pela panela de
cobre , os olhos de Lila tornavam-se duas gretas ferozes . Com certeza
imaginava que o criminoso era mulher, só porque lhe era mais fácil
identificar-se com ela.
Nesse tempo íamos muito para casa dos Peluso , para jogar às damas
e ao jogo dos três , Lila tinha então essa paixão. A mãe de Carmela
mandava-nos entrar para a sala de jantar, cujos móveis haviam sido
feitos pelo marido , antes de dom Achille lhe ter tirado as ferramentas de
carpinteiro e a oficina. Sentávamo-nos à mesa, entre dois aparadores
com espelhos , e jogávamos . Antipatizava cada vez mais com Carmela,
mas fingia ser sua amiga, pelo menos tanto como era de Lila, e em cer­
tas ocasiões até lhe fazia crer que gostava mais dela. Por outro lado ,
simpatizava muito com a senhora Peluso . Trabalhara na Tabaqueira,
mas perdera o posto de trabalho meses antes e estava sempre em casa.
Mas tanto na boa sorte como na má era uma pessoa alegre , gorda, com
um grande peito , faces afogueadas por duas rosetas vermelhas , e embo­
ra o dinheiro escasseasse tinha sempre qualquer coisa boa para nos
oferecer. O marido também parecia um bocado mais tranquilo . Agora
servia à mesa numa pizzeria e tentava não ir ao bar Solara perder às
cartas o pouco que ganhava.
Uma manhã estávamos na sala de jantar a jogar às damas , eu e Car­
mela contra Lila. Nós duas sentadas de um lado e ela do outro . Atrás de
nós encontravam-se os dois móveis idênticos , com os espelhos . Eram de
madeira escura e tinham cornijas com volutas . Via a imagem das três
reflectida até ao infinito e não conseguia concentrar-me , não só por
causa das imagens que não me agradavam, como devido aos gritos de
Alfredo Peluso , que naquele dia estava muito nervoso e implicava com
a mulher, Giuseppina.
A certa altura bateram à porta e a senhora Peluso foi abrir. Exclama­
ções , gritos . Nós fomos as três espreitar ao corredor e vimos os cara­
binieri , figuras que muito temíamos . Os carabinieri agarraram Alfredo
e levaram-no . Ele esbracejou , gritou , chamou os filhos pelos nomes ,
Pasquale , Carmela, Ciro , Immacolata, agarrava-se aos móveis feitos
pelas próprias mãos, às cadeiras , a Giuseppina, jurava que não matara
dom Achille , que estava inocente . Carmela chorava desesperada, todos
choravam, também comecei a chorar. Lila não , Lila fez aquele olhar que
anos antes fizera a Melina, mas com algumas diferenças : agora, embora
imóvel , parecia estar em movimento juntamente com Alfredo Peluso ,
que lançava gritos roucos e assustadores: «Aaaah ! »

. fizera muito bem em matar dom Achille . Cochichavam uma com a outra sem parar e. consolou-a. se eu me aproximava. para evitar que eu ouvisse .66 Elena Ferrante Foi a coisa mais terrível a que assistimos ao longo da nossa infância. Lila preocupou-se com Carmela. Dizia-lhe que se de facto fora o pai . e em breve fugiria da prisão . Estava inocente de certe­ za. chegavam-se um bocado mais para lá. mas que na sua opinião não fora ele . impressionou-me muito .

Adolescência História dos sapatos .

mães de filhos . Estávamos no exterior. 1. mas imperceptível . Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa. A 3 1 de Dezembro de 1 959 Lila teve o seu primeiro episódio de des­ marginação . pela comida. no meio dos rebentamentos . como depois contarei . apesar do frio começou a cobrir-se de suor. naquela noite . me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião . usávamos vestidos leves e decotados para parecer­ mos bonitas . ainda incapaz de lhe dar nome . Começou a sentir aversão pe­ los gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos . como se aqueles . Olhávamos para os homens.. Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente .. pelo espumante . forçando o significado corrente da palavra. e que ainda lhe acontecia. Mas de repente - disse-me . presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre . numa noite de Novembro de 1 980 . que estavam alegres . no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1 960 . Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teve a impressão de que alguma coisa totalmente material . figuras escuras excitadas pela festa. ritual a que Lila. Apesar de fazer muito frio . O coração batia-lhe descontroladamente. no alto de um dos prédios do bairro . Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o novo ano . Quando . foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo .tínhamos ambas trinta e cinco anos. estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se . éramos casadas . assustou-se e guardou o caso para si . foi ela que sempre o usou . dera a sua colaboração . Só anos depois . agressi­ vos . e pela primei­ ra vez recorreu a esse vocábulo . e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu . O termo não é meu .

os narizes . E o asco. tenho de atirá-lo para fora de mim. Uma sensação de repugnância apoderara-se de todos os corpos em movi­ mento. E no dia em que o pai a atirara pela janela. mau cheiro a mais . embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez. da sua estrutura óssea. os braços . 2. tomara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. sabe-se lá porquê . Lila tentara acalmar-se . caídos de qualquer recanto do céu negro. como somos insuficientes . deixando ver a sua natureza assustadora. concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino. os olhos . membruda. ou num número . já não foguetes e morteiros . de que pequenos animais avermelhados .70 Elena Ferrante sons obedecessem a leis novas e desconhecidas . enquanto voava em direcção ao asfalto. como que o sopro de um bater de asa. Como somos mal feitos . pareciam-lhe atributos de seres monstruosos . E isso tinha-a transtornado. O tumulto do coração dominava-a. a mais voraz . Alguém estava a disparar. do frenesim com que se agitavam. durante fracções de segundos . sentia-se sufocar. violando­ -lhe os contornos . já tivera muitas vezes a sensação de entrar. o dia­ lecto deixou de lhe ser familiar. as pernas. Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era. uma forma animal atarracada. não era totalmente nova para ela. A náusea cresceu. ou numa sílaba. a pessoa que afinal lhe era mais familiar. Por exemplo . a mais feroz. a pessoa que ela mais amava. chegou a um . a que mais gritava. uma espécie de última detonação . o pai . pensou ela. e passou-lhe qualquer coisa ao lado . Fernando . Fumo a mais . Na altura em que me fez essa descrição . demasiado relampejar de fo­ gos na geada. mas tiros de pistola. tivera a certeza absoluta. muito amigáveis . Quando tiraram o gesso a Lila e reapareceu o seu bracinho muito branco mas perfeitamente funcional . numa pessoa ou numa coisa. a mais mesquinha. Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de en­ tidades desconhecidas . as orelhas . entre os gritos de alegria. dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me . Os ombros largos . O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcção dos clarões amarelados . que quebravam o contorno habitual do mundo . Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação. transformando-a numa matéria lisa e macia. estavam a dissolver a composi­ ção da estrada. Mas nesse instante ouviu .

De vez em quando encontrava à entrada Alfonso . mas sim pela boca de Rino e da mulher. Nunzia foi chamada pelos professores . e lutámos o ano inteiro para não ficarmos entre os piores . era como se ele carregasse parte da culpa pelo terror que dom Achille me causara durante anos . ou economia doméstica. Acabei por me encontrar numa espécie de lamaçal . sempre metido consigo . tal como Gigliola. Custou-me muito . A certa altura apanhou uma gripe má. voltava-lhe a febre . se a interrogavam recusava-se a responder. e embora não o admitisse claramen­ te . Depois correu o boato que ela ia morrer em breve . quase contra vontade . Um dia vi-a na rua e pare­ ceu-me um fantasma. o filho mais novo de dom Achille . permitiu-lhe que frequentasse uma escola para aprender não sei bem o quê . No início tive grandes expectativas . Eu não sabia o que lhe dizer. Estava . achava que Alfredo Peluso fizera bem em ma­ tar-lhe o pai e não me ocorriam palavras de conforto . sem Lila. sentia-me contente por ter entrado juntamente com Gigliola Spag­ nuolo . éramos uns bichinhos assustados com a nossa própria mediocridade . Também eu não fui bem sucedida no primeiro ano da escola média. com a desculpa de se sentir fraca. mais pálida do que o habitual . Mas comecei logo a claudicar. Mas afinal recompôs-se . porque a filha faltava muitas vezes sem justificação . seria a melhor aluna. muito pior do que aquela que tivemos quase todos . Em alguma parte secreta do meu ser eu aspirava a uma escola a que ela nunca tivesse acesso . ou essas três disciplinas . Mas ela pareceu aceitá-la com uma espécie de resignação . na sua ausência. Nunzia. nunca se ria . o que me causou uma ansiedade insuportável . que eu vira desenhado num livro da professora Oliviero . estenografia. gabando-me . em que eu . Usava uma faixa preta cosida no casaco. Passavam-se os dias e não conseguia recuperar. Ela foi . Assim que experimentava sair. Mas foi cada vez menos à escola.A Amiga Genial 71 acordo consigo mesmo e . ou contabi­ lidade . e no final do ano reprovou . o fantasma de uma menina que tinha comido ba­ gas venenosas . perturbava as aulas . sem se pronunciar directamente . Nem a sua condi­ ção de órfão me comovia. contrariada. e da qual lhe falaria quando isso se concretizasse . se tinha de fazer exercícios fa­ zia-os em cinco minutos e depois incomodava as colegas . Começou a despontar em surdina a ideia de que . de tal modo que o vírus depressa lhe tirou todas as energias . foram muitos os que mos­ traram ser melhores do que eu . e não com Lila. mas fazíamos de conta que não nos conhecíamos . nunca mais saborearia o prazer de pertencer ao grupo restrito dos melhores .

e a figura torta da minha mãe . ao passo que Gigliola reprovara em duas . Sentia que Lila já não queria ser minha amiga. que ela precisava de ajuda em casa e eu devia deixar de estudar. O coração saltava-me de medo . talvez por recear uma repri­ menda da minha mãe por me ter magoado entre as pernas . Gigliola tinha de repetir Latim e Matemática. o dialecto vergado a um italiano cheio de erros de gramática. que me falava muito do jovem estudante universitário que ia a casa dar-lhe explicações e que . espremi-as e voltei a vesti-las molhadas . e envergonhei-me também pela diferença entre a figura harmoniosa. Discutiram muito .72 Elena Ferrante numa turma diferente da minha e constava que era muito bom aluno . com o seu italiano que se assemelha­ va um pouco ao da Ilíada . de­ centemente vestida da professora. disse ao meu pai que os professores não estavam satis­ feitos comigo . Quando já não suportava o medo . uma vez que eu afinal fora aprovada. geralmente em companhia de Gigliola. Senti que estava outra vez a ficar molhada. Fui à retrete ver o que tinha e descobri que as cuecas estavam sujas de sangue . Uma tarde adormeci deveras e ao acordar senti-me molhada. que só me salvara em Latim graças à sua generosidade . mas que se não tivesse aulas particulares no ano seguinte não conseguiria passar. Quando saíram as notas . na opinião dela. eu safei-me com seis em tudo . Ela também deve ter sentido o peso daquela humilhação . No fim do ano soube-se que passara com média de oito . merecia continuar. na minha presença. litigaram e por fim o meu pai decidiu que . Depois saí para o calor do pátio . pensando que seria a humidade das cuecas . Voltou para casa carrancuda. Aterrorizada não sei bem por que razão . mas tentei sossegar. no pátio . a professora mandou chamar a minha mãe e disse-lhe. Passei um Verão entorpecido . o que me deprimiu muito . Eu escutava-a mas aborrecia-me . lavei-as bem . a amava. sussur­ rei a Lila: . os seus sapatos velhos . Encontrei Lila e Carmela. o cabelo sem brilho . Às vezes . e esse pensa­ mento dava-me um cansaço como se tivesse sono . fui passear com elas até à igreja. De vez em quando via Lila a passear com Carmela Peluso . que também frequentara uma escola não sei de quê e também reprovara. Sofri uma dupla humilhação: envergonhei-me porque não fora capaz de alcançar o nível que tinha na primária. esperando não ser apanhada pela minha mãe . estendia-me em cima da cama e passava pelo sono .

E quem o tem também me dá nojo . A naturalidade com que me dissera o pouco que sabia tranquilizou-me e fez-me simpatizar com ela. E reprovara. até à hora do jantar.» «E o que vais fazer?» «Aquilo que me apetecer. mais pe­ quena do que sempre a achara.» «De certeza?» «De certeza. dissemos-lhe ambas num falso tom de consolação .A Amiga Genial 73 «Tenho uma coisa para te dizer. só pele e osso . Fiquei a saber que daquela ferida não se morria.» Peguei-lhe num braço . «Também te há-de aparecer» . dá-me nojo. depois . todos os meses . tens dores na barriga e nas costas . A preocupação era tal que acabei por me confessar às duas .» Fez menção de se ir embora. Sangra-se durante uns dias . «Ü que poderá ser?» . e vimo-la hesitar. «As mulheres têm isso por natureza. Carmela sabia tudo.» Pensou um bocado e murmurou: «Eu fiz de propósito para reprovar. Perguntámos­ -lhe se já tinha o sangue . mas ela seguiu­ -nos . tentando afastá-la de Carmela. mas depois parou e perguntou-me: «Como é o latim?» «Bonito . como nós . perguntei . disse . embo­ ra dirigindo-me só a Lila. «É normal» .» O silêncio de Lila impeliu-me para Carmela.» «Ü quê?» «Quero dizer só a ti . Pelo contrário . sem nada ou quase nada dizer.» «És boa?» «Muito . Era seis ou sete centímetros mais baixa. disse . Passei a tarde toda a falar com ela. se um homem te enfiar o coiso na barriga. muito pálida apesar dos dias ao ar livre . E nem sabia tão-pouco o que era o sangue .» Lila ficou a ouvir-nos . mas depois passa. «significa que já és adulta e já podes ter filhos.» . «eu não o tenho porque não quero ter. Nunca mais quero ir para escola nenhuma. com má vontade respondeu que não . Já havia um ano que tinha o sangue . «Estou-me nas tintas» . E ainda nenhum rapaz se lhe declarara. De repente pareceu-me pequena.

Gostei do seu tom dramático . que vivia com os ratos e saía das sarjetas do esgoto mesmo de dia. Engordei . Contou-me que a nova escola fora muito desagradável: todos implicavam com ela e os professores não a podiam ver. Oscilava entre a irritação por ver uma recriação que me parecia uma caricatura. Falou-me de quando ia a Poggiorea­ le com a mãe e os irmãos visitar o pai . que estava apaixonada por Alfonso Carracci . sofrera a influência de Lila de maneira tão forte que às vezes era uma espécie de sucedâneo . Foi uma confidência que me impressionou muito e que consolidou a nossa amizade . nem sequer com Lila. Aquela espécie de apropriação indevida desagradava­ -me por um lado e por outro atraía-me . 3. Não se deixou ver o resto do Verão . Começou um período de indisposição . e o fascínio . os modos de Lila encantavam-me na mesma. e dos prantos que faziam. embora adulterados . a filha do assassino estava apaixonada pelo filho da vítima. Ao falar imitava-lhe os tons . Mas que história ! Talvez nem Lila fosse capaz de construir uma his­ tória assim . gesticulava de modo seme­ lhante e ao andar tentava reproduzir os movimentos dela. vendia saúde como eu . Tomei-me muito amiga de Car­ mela Peluso . um pouco masculina mas sobretudo feminina. Era um amor que a atormentava e a consumia. Bastava vê-lo atravessar o pátio ou caminhar pela rua para se sentir desmaiar. S e decidira abrir-se comigo era porque j á não conseguia guardar tudo lá dentro . De um momento para o outro passou do sorriso às lágrimas . fazia as coisas terríveis que tinha a fazer e depois escapulia-se para debaixo do chão . que quem matara dom Achille fora uma criatura escura. sob a pele do peito despontaram-me dois rebentos duros . com um sorriso fátuo . Anali­ sámos todas as possíveis consequências daquela paixão até as escolas reabrirem e eu deixar de ter tempo para escutá-la. porque . Contou-me que o pai estava inocente .74 Elena Ferrante Deixou-nos ali no meio do pátio e foi-se embora. embora oscilasse desagradavelmente entre risadas a mais e lamúrias a mais . usava certas expressões recorrentes . Foi com esses modos que Carmela acabou por me conquistar. que . Carmela jurou que nunca falara disso com ninguém . floriram-me pêlos nas axilas e na . embora fisi­ camente fosse mais parecida comigo: bonita e rechonchuda. Contou-me inesperadamente .

» «Porquê . dez liras ficavam para ele e as outras dez eram para mim. tomou-se maior e mais macio .» «E se tiveres algodão?» «Não tenho . o filho do farmacêutico . Por fim disse que . com um olho torto . mas .» Deu-me dez liras e subimos os três em silêncio até ao último andar de um prédio que ficava a poucos metros do jardim. Ali . Aquele pedido assustou-me . como se não acreditassem no que os seus olhos viam. mas tinha de lhe provar que não usava algodão . Mas pouco depois voltou .A Amiga Genial 75 púbis. Gino disse: «Ele tem de estar presente. Gino . estava sempre ansiosa. os meus seios não eram verdadeiros . Depois viraram-se e fugiram pela escada abaixo . Entretanto o peito . repentinamente . Já não sabia quem era. Senti pela primeira vez a força magnética que o meu corpo exercia sobre os homens . achava que eram verdadeiros . os exercícios de matemática quase nunca davam o resultado previsto no caderno de exercícios . Comecei a desconfiar que iria continuar a mudar. com uma penugem por cima do lábio. na opinião dos seus companheiros . Ficaram os dois parados a olhar. sou eu que tenho razão?» «Sim. as frases de latim pareciam­ -me não ter pés nem cabeça. que tinha apostado vinte liras . Dei um suspiro de alívio e fui ao bar Solara comprar um gelado . onde eu era perfeitamente delineada pelos delicados segmentos de luz . Uma manhã. caso ganhasse a aposta. Sentia-me à mercê de forças ocultas que actuavam no interior do meu corpo . recorri conscientemente ao tom atrevido de Lila: «Dá-me as dez liras .» Pôs-se a andar e eu prossegui . Assim que podia fechava-me na retrete e via-me ao espelho . decepcionada. Aquele episódio ficou-me gravado na memória. seguiu­ -me na rua e disse-me que . ao pé da porta de ferro que dava para o terraço . Disse ainda que ele . que eu lhes punha algodão . Chorava mui­ to. tomei-me triste e nervosa. nua. na companhia de um rapaz da sua turma. Falava e ria-se . Na escola esforcei-me mais do que nos anos precedentes . e ninguém mais gostaria de mim. até que de mim ressurgisse minha mãe . levantei a blusa e mostrei os seios . à saída da escola. senão os outros não acreditam que ganhei . co­ xa. Não sabendo como proceder. pelo contrário . a princípio tão duro .» Recorri novamente ao tom de Lila: «Primeiro o dinheiro . um magrinho de cujo nome não me recordo .

em tacão inteiro e meio tacão . Tinha sempre que fazer. começava a falar ininterruptamente e com admiração do trabalho que o pai e o irmão faziam. e era capaz de fazer uso de todas . ficava. 4. A mãe pedia-lhe que a ajudasse em casa. até para os que iam para a guerra. decidiria ficar. e foi trabalhar para uma fábrica de calçado em Casaria. mas não era capaz de explicar em que sentido . como sempre . após uma breve hesitação pusera-me no lugar dela. que também era sapateiro . em . fugiu da oficina do avô . Naquele ano Rino obrigou-a a matricular-se de novo na escola. sentia com preci­ são que me passara a mim mesma para trás . Soube que o pai quando era rapaz quis emancipar-se . na sua ausência. um pouco ansiosa: faço como Carmela? Parecia-me que não . fui tentada a chamá-la e a contar-lhe tudo . mas também conhecia bem as máquinas . como um fantasma exigente .76 Elena Ferrante sobretudo dei-me conta de que Lila actuava. o pai pedia-lhe para estar na oficina.. a cortadora. Se eu numa situação daquelas tivesse de tomar uma decisão com as emoções na mais pura desordem. onde fizera sapatos para toda a gente . Mas ela não me viu e eu segui caminho . não só sobre Carmela mas também sobre mim. e ficava muito contente . Porém. pareceu até contente de trabalhar para ambos . como sempre . em vez de opor resistência. Descobriu que Fernando sabia fazer um sapato à mão do princípio ao fim. As raras vezes em que nos encontrámos . em peleiros e em pelarias . a esmeriladora. Quando passei com o gelado em frente da oficina de Fer­ nando e vi Lila absorta a arrumar sapatos sobre uma comprida pratelei­ ra. para ver o que ela pensava. em gáspeas . Falou-me em couro . que imitara o olhar e o tom e os gestos da Cerullo em situações de conflito descarado . o que teria feito? Tinha fugido . na preparação do fio . abrira lugar para ela em mim. porque ela. e depois . parecia-me que era diferente . não mostrou qualquer curiosidade pela minha escola. Mas às vezes interrogava-me . e ela. E se estivesse na companhia de Lila? Puxava-lhe por um braço e sussurrava-lhe «vamos embora» . e o meu contentamento des­ vanecia-se . Ou melhor.ao domingo depois da missa ou a passear entre os jardins e a rua larga . em meias-solas . inesperadamente . a pespontadora. Quando pensava de novo naquele instante em que Gino me fez o pedido . mas mais uma vez ela pouco compareceu e nova­ mente a reprovaram.

o rosto emaciado . e fazia­ -me caretas cómicas para eu me rir. E puxou-me para dentro daquele vocabulário com um entu­ siasmo tão enérgico que o pai e Rino . passava sem interrupção dos comentários às histórias de amor ficcionais aos comen­ tários à história do seu verdadeiro amor. quando ela me via e me fazia adeus . como se fosse uma cliente interessada na mercadoria. Um domingo dei por mim a falar apaixonadamente de sapatos com Carmela Peluso . tão satisfeito que agora preferia a pequena oficina da fanu1ia. do qual re­ gressara como um explorador plenamente satisfeito . Aos olhos dela. o martelo . e ela voltava a concentrar-se no trabalho . A princípio parecia-me tempo perdido . fugia sem esperar pelo olhar de Lila. Mas muitas vezes era Rino que dava por mim primeiro . o pé de ferro . tomando-os mais cómodos . pareceram­ -me ser as melhores pessoas do bairro . Ela comprava a revista Sogno e devorava fotonovelas . sem aulas . por trás da porta de vidro . no jardim . passava pela oficina de Fernando só para ver Lila no seu posto de traba­ lho . escrito em letras brancas sobre fundo negro . graças à habilidade que tinham de encerrar os pés das pessoas em sapatos sólidos e cómodos . por Alfonso . e eu respondia à saudação . sentada a uma mesinha. en­ quadrada pela cabeça inclinada do pai e a cabeça inclinada do irmão . Envergonhada. Gino .. mas lá estava. Nas aulas comecei a sentir-me inutilmente presente . e co­ mentávamos as histórias e aquilo que cada personagem dizia. uma vez falei-lhe no filho do farmacêutico . para não lhe ficar atrás .A Amiga Genial 77 como se aplicava uma sola e se coloria e se dava brilho . o pescoço delgado . depois comecei a dar uma olhadela também e passámos a lê-las juntas .Casoria. activa. atordoada pela infelicidade . toda a energia. Não sei o que ela fazia exactamente . por não passar os meus dias na oficina de um sapateiro e tendo por pai um banalíssimo porteiro . Sobretudo . os sapatos velhos com solas novas . Só me ia embora. voltava sempre para casa com a impressão de que . ao fundo . com o seu peito magro sem som­ bra de seios . Carmela. disse-lhe que me amava. Por vezes parava para ver na montra as caixas de cromatina. a fábrica . e os novos metidos numa forma que dilatava o cabedal e os alargava. Eu . o cheiro bom da cola misturado com o dos sapa­ tos velhos. mais do que eu . estava excluída de um privilégio raro . e de má vontade . sem livros . o filho do farmacêutico era uma espécie . o balcãozito sossegado . sem trabalhos de casa. À saída da escola. Durante meses e meses pareceu-me que tinham fugido dos manuais escolares todas as promessas . Usou todos aqueles termos do ofício como se fossem mágicos e o pai os tivesse aprendido num mundo encantado .

78 Elena Ferrante de príncipe inacessível . pareciam­ -me decisivamente menos sugestivos do que o acabamento de um sapa­ to . até ao átrio . Ao contrário de mim. mantinha-se fiel às únicas coisas que a cativavam: as fotonovelas e o amor. um sentimento de mim que eu já não tinha. Tínhamos ido . que tentava fazer minha a nova pai­ xão de Lila. A escola média. À saída Lila disse que tinha que fazer e afastou-se . Mas vi que não se dirigia para casa. Depressa tive de admitir que aquilo que eu fazia sozinha não me dava emoção . e que eu mostrara e ganhara dez liras . Segui com Carmela. Mas se ela se afastava. 5. à catequese . que trouxe con­ sigo uma sensação de à-vontade . Todo aquele período teve este ritmo . iluminada com lâmpadas de néon . Entrei pela única porta aberta no rés-do-chão . Contei uma dezena de adultos e muitas crian- . com embaraço . as coisas ficavam sujas . As escolas ao domingo estavam fe­ chadas . e a fantasiar que se usássemos sapatos assim. Carmela. Para minha grande surpresa. se a sua voz se distanciava das coisas . Mas um domingo tudo mudou outra vez . a língua dos livros . Lila e eu . nem Gino nem Alfonso nos resistiriam. um senhor que nun­ ca se casaria com a filha de um porteiro . con­ tornei o edifício e voltei para trás . e estive quase a contar-lhe da­ quela vez que me pedira para lhe mostrar o peito . ela. Carmela ouviu-me distraída. Era uma sala ampla. como é que Lila entrara? Após muitas hesitações lá me aventurei a passar pela porta. futuro herdeiro da farmácia. os professores . só aquilo em que Lila tocava é que era importante . comecei a gabá-los e a gabar quem os tinha feito tão bonitos . e depois disse que tinha de ir. e isso deprimiu-me . e tinha as paredes cobertas de estantes repletas de velhos livros . Nunca mais entrara na minha antiga escola e senti uma grande emoção. entrou no edifício da escola primária. Mas quanto mais falava mais me apercebia. Sapatos e sapateiros pouco ou nada lhe interessavam. mas depois aborreci-me. despedi-me dela. cheias de pó . o Latim. andávamos a preparar-nos para a primeira comu­ nhão . Pareceu-me um assunto muito oportuno . Mas tínhamos a revista Sogno bem aberta sobre os joelhos e os meus olhos caíram sobre os lindos sapatos de salto de uma das actrizes . embora imitasse os modos de Lila. e não pude conter-me . os livros . reconheci o cheiro . mais do que a his­ tória das maminhas .

se queria ser namorada dele . até no pátio . Os rapazes insistiam. outras preocupações me afligiam. o professor Ferraro . Pirava-me . O soutien tornou-me o peito ainda mais visível . com o cabelo grisalho cortado à escovinha. não passavam de resmungos . Disse-lhe que não . talvez já tivesse saído . comprimia o peito cruzando os braços sobre ele . Depois punham-se em fila em frente de uma secretária a que estava sentado um velho inimigo da professora Oliviero . sentia-me misteriosamente culpada e sozinha com a minha culpa. Parecia envergonhada de eu ter seios e de me ter vindo o sangue . receava ter más notas . Com medo de me importunarem. estudava muito . Experimentei afastá-los uma vez ou duas imitando os modos de Lila. por vingança. mas orgulhosa por o filho do farmacêutico me querer. ia ali buscar livros? Gostava daquele espaço? Porque não me convidava para ir com ela? Porque me deixara com Carmela? Porque falava comigo sobre a maneira de esme­ rilar as solas e não daquilo que lia? Irritei-me . Não tinha tempo de lhe fazer perguntas antes que ela me virasse as costas e se afastasse no seu passo de esguelha. por atrapalhação . Riam-se. Olhei em volta: Lila não estava. Depois fui assoberbada pela chusma de trabalhos e de dúvidas de final do ano . Gino e o colega tinham espalhado o boato que eu não tinha problemas em mostrar o físico . já só saía para ir à escola e contrariada. perturbado . No dia seguinte perguntou-me . metia-me em casa. até esco­ lherem um. A minha mãe disse-me que eu era indecente com todo aquele peito que me crescera e levou-me a comprar um soutien . Andava mais brusca do que o habitual . até na rua. fui-me embora. Pegavam em livros . mas não me saíram bem. e de vez em quando vinha um pedir-me que repetisse o espectáculo . gozavam comi­ go . interessava-se por sapatos e chinelada. Ferraro exa­ minava o texto escolhido . sem nada me dizer. magro . embora sem interesse . aliás . Uma manhã de Maio . Além disso . escrevia qualquer coisa no livro de registo e as pessoas saíam com um ou mais livros. sem fanfar­ ronice . Os toscos esclarecimentos que me dava eram breves e insufi­ cientes . punham-nos no lugar. folheavam-nos. O que andava ela a fazer. e então não me aguentei e comecei a chorar.A Amiga Genial 79 ças . Gino seguiu-me e perguntou-me . Nos últimos meses de escola fui perseguida pelos rapazes e depressa percebi porquê . Estudava muito . por ressentimento . já não frequentava a escola. Durante uns tempos as horas na escola pareceram-me mais insignifi­ cantes do que nunca. no entanto .

quando eu tinha mais tempo livre . Falámos as três no assunto . portanto .80 Elena Ferrante outra vez e nunca mais desistiu de perguntar. para minha admiração . Esta. atraiu para junto dela muitas outras meninas . Carmela não queria acreditar que eu rejeitasse o filho do far­ macêutico . O resultado foi que a filha do sapatei­ ro . nem com os colegas . falando de amor. todas vestidas de branco como as noivas . quando fizemos a primeira comunhão . quer dizer que o amor não é verdadeiro . Não era verdadeiro amor. até Junho . para ela e para Carmela durante todo o Verão . para ela perceber que . mas na condição de ele aceitar comprar gelados para mim. Porém . «Porque lhe disseste que não?» . se tornou em poucos dias a mais acreditada conselheira sobre assuntos . «Se não aceitar. perguntou-me Lila em dialecto . o que reduziu Carmela a uma ouvinte pura e simples . aquele episódio não teve o seguimento que eu esperava. O desafio com Lila dera-me um prazer tão intenso que planeei dedicar-me totalmente a ela. e contou a Lila. voltando de súbito ao dialecto . como se tivesse levado uma pancada na cabeça que me trouxera à memória imagens e palavras .» Era uma frase que eu aprendera nas leituras da revista Sogno . em vez de se afastar com o ar de quem se está nas tintas . De frase em frase . para a impressionar.» Fiz como ela me disse e Gino desapareceu . embora eu passasse o tempo a falar de namorados . demos início a uma conversa na linguagem das histórias aos quadradinhos e dos livros . não devia ser tratada como Carmela: «Porque não estou certa dos meus sentimentos. interessou-se pelo caso . mas não sofri com isso . Sentira-me outra vez inteligente . Assim vestidas . Lila convenceu-me de que no amor só se obtém alguma segurança submetendo o pretendente a duras provas . Depois . Como se fosse um daqueles nossos desafios da primária. que não tinha seios nem menstruação e nem sequer um pretendente . aconselhou-me a namo­ rar com Gino . e Lila pareceu-me impressionada. Foi maravilhoso . Em vez de reatar a minha relação com Lila e torná-la exclusiva. e o seu efeito . Aqueles momentos iluminaram-me o coração e a cabe­ ça: eu e ela e aquelas palavras bem arquitectadas . nem com os professo­ res . A conversa e o conselho que ela me dera. Na escola média não acontecia nada do género . Entretanto queria que aquela conversa se tornasse o modelo de todos os nossos próximos encontros . demorámo-nos no adro da igreja já a pecar. Respondi inesperadamente em italiano . sobretudo no Ve­ rão . haviam impressionado tanto Carmela Peluso que ela acabou por contar a toda a gente .

que culminaram com uma humilhação que sofri e que já devia ter previsto .» Foi tudo o que disse. Disse em dialecto . Peppe e Gianni . depois de mim havia dois rapazes e outra rapariga. tomara-se evidente que eu não era boa aluna: o filho mais novo de dom Achille passara a tudo e eu não. Mas uma manhã ouvi que me chamavam da rua. pelo menos é o que recordo. a filha do paste­ leiro Spagnuolo passara a tudo e eu não. apesar de comprado usado fora uma grande des­ pesa. Tinha de me conformar. via-a a cochichar com esta e com aquela . ora convidando-me para brincar com eles . Depois . Os manuais escolares tinham custado muito dinheiro .» . chamava ela. No dia seguinte co­ mecei a estudar. Debrucei-me na janela. mas podes experimentar estudar sozinha e ver se passas no exame . Acres­ centou: «Não está escrito em parte nenhuma que não podes fazê-lo . que depois de terminarmos a primária perdera aquele hábito . o Campanini e Carbone. Captava sempre frases que achava lindas e sofria com isso . Era a primogénita. a pequena Elisa. E ela.A Amiga Genial 81 do coração . no tom áspero habitual: «Não te podemos pagar as lições . Passava-lhe ao lado .» Olhei-a. Se não estava ocupada em casa ou na oficina. ora trazendo-me fruta. Tinha de repetir em Setembro essa única disciplina. Dessa vez foi mesmo o meu pai que disse que era inútil continuar. senti minha mãe aproxi­ mar-se por trás de mim. Mas sobretudo . Era Lila. Gigliola Spagnuolo passou com média de sete . Chorava noite e dia. duvidosa. mas estava tão compenetrada que nem me ouvia. tomei-me feia de propósito para me castigar. uma tarde . com um triste destino . «Tenho uma coisa para te dizer. e eu tive seis em tudo e quatro em Latim. 6. O dicionário de Latim. e não conseguia tranquilizar-me . os dois rapazes . corpo pesado . olho dançarino . surpreendendo-me uma vez mais. Foram dias desconsoladores . impondo a mim própria não ir ao pátio nem aos jardins . e que em vez disso fizera de conta que não era importante: Alfonso Carracci passou com média de oito . nariz grande . Mas eu sentia-me sozinha na mesma. cumprimentava-a. «Lenu» . vinham consolar-me por turnos. aceitou esse papel . Era sempre a mesma: cabelo baço . Não havia dinheiro para me mandarem ter explicações durante o Verão .

Perguntei-lhe com indolência que novidades havia a respeito de namoros .» Senti no peito uma lufada de alegria. e que no pátio eram todas assim. Era uma possibilidade . metade masculino e metade feminino . como se reduzir os olhos a uma greta lhe permitisse ver de forma mais concentrada. não quero falar com ninguém» .» «E quem seria o assassino?» «Um ser. pois para se tomar um facto verdadeiro seria preciso que nascesse um amor verdadeiro . Quando fazia aquilo . Demos uns passos pelo pátio . perguntou-me . contou-me ela. em­ bora brusco como era costume .82 Elena Ferrante «Ü que é?» «Vem cá abaixo . de tal forma que a princípio não entendi . «É bonito» . fazia-me lembrar as aves de rapina que vira em filmes no cinema paroquial .» Fui de má vontade . no lugar dela. mas nela não havia soberba nenhuma.» Lila estreitou os olhos . que nos romances e nos filmes a filha do assassino podia apaixonar-se pelo filho da vítima. Mas daquela vez pareceu-me que havia descoberto qualquer coisa que a irritava e assustava ao mesmo tempo . que está escondido no esgoto e sai pelas sarjetas como os ratos. e percebi que não o dizia com des­ prezo . E estava a dizer-mo num tom que não lhe conhecia. Recordo-me de ter perguntado explicitamente se havia desenvolvimentos entre Carmela e Alfonso . ao sol . Que pedido estava contido na­ quela bela frase? Estava a dizer-me que queria falar só comigo porque eu não tomava como certo tudo aquilo que lhe saía da boca e lhe res­ pondia? Estava a dizer-me que só eu era capaz de seguir aquilo que lhe passava pela cabeça? Sim. «Que está inocente . e acrescentando que Carmela tomava como certo tudo o que ela lhe dizia.» «Sim. Mas Carme- . murmurei . mas só se quando falas há alguém que te responde . Disse a Carmela. séria. mostrando-se desgostosa de repente . «Não te disse nada a respeito do pai?» . balbuciou amuada. «falar com os outros. disse ela. «Não quero falar mais . Eu . aborrecia-me confessar-lhe que tinha de repetir uma disciplina. sem um sorriso . fiável . sentiria muita soberba. «Que desenvolvimentos?» «Ela gosta dele .» «Então é verdade» . que não exprimia orgulho nem altivez por exercer influência sobre todas nós . só uma espécie de impaciência associada ao medo da responsabilidade .

que mer­ gulhara a faca no pescoço de dom Achille . se quem o fizera tivesse sido o habitante do esgoto . antes de jantar. se tornava aceitável . descer aos esgotos através das sarjetas . «Não te darei chatices» . nos jardins . sabíamos fazê-lo . . 7. A certa altura perguntou-me . era saber jogar. dormir em estábulos .pensava eu . Falámos sobre isso . Queria simplesmente que nos encontrássemos uma vez por dia. abandonar o bairro . e se a filha do assassino casasse com o filho da vítima. disse .A Amiga Genial 83 la não compreendera. no meio do pó e das moscas que os velhos camiões levantavam ao passar. O essencial . nas pessoas . estreitamente chegadas uma à outra. e que eu levasse o livro de Latim. mesmo se fizesse frio. Havia qualquer coisa de insuportável nas coisas . Nós duas . uma mentira. Ninguém se compreendia. nos prédios . para se exibir junto das outras . nas ruas . mas que poderia ter sabe-se lá que consequências . Naqueles anos da escola média muitas coisas mudaram diante dos nossos olbos . como duas velhotas a fazer o ponto das suas vidas cheias de desilusões . só nós duas . desde que nos lembrávamos . mas no dia a dia. mesmo se chovesse . Tínhamos doze anos . porém. sabíamos que o peso que oprimia o bairro desde sempre . mesmo que fosse só durante uma hora. mas caminhámos muito tempo pelas ruas escaldantes do bairro . que só reinventando tudo . mas como se todas aquelas conversas não pudessem deixar de chegar àquela pergunta: «Ainda somos amigas?» «Sim. e num primeiro instante decepcionou-me . cederia pelo menos um pouco se não tivesse sido Peluso . naquela manhã de reaproximação: fugir de casa. como num jogo .» «Então fazes-me um favor?» Por ela faria qualquer coisa. eu e ela apenas . por isso não nos pareceram verdadeiras mudanças . Mas o que ela me pediu pa­ receu-me não ser nada. e apenas nós .nos compreen­ díamos . alimentar-me de raí­ zes . nunca mais voltar para casa. o ex-carpinteiro . Já sabia que eu tinha de repetir a cadeira e queria estudar comigo . aparentemente sem nexo . e logo no dia seguinte fora contar a toda a gente que estava apaixonada por Alfonso. e eu e ela. isto é .

Manejava a balança com grande habilidade . e o meu pai não se opunha. Assunta. e ao domingo enchia-se de homens novos e velhos . o mari­ do . Quando por lá se passava sentia-se um aroma a especiarias . que iam comprar bolos para as farm1 ias . A viúva. e depois . Stefano apontava tudo num livrinho e pagá­ vamos no fim do mês . que uma vez na posse de dom Achille se transformara numa charcutaria. também porque . de aspecto forte e saudável . preten- . Marcello . a enchidos . começara de um dia para o outro a trabalhar uma jovem costureira e a loja fora ampliada. A morte de dom Achille afastara pouco a pouco a sua sombra ameaçadora daquele lugar e de toda a família. juntamente com Pinuccia. onde Car­ mela Peluso era caixeira havia pouco tempo . pouco mais novo . cabelos loiros desgre­ nhados . Despontavam iniciativas em todo o bairro . era o filho mais velho . embalava as batatas ou a fruta no cartucho de papel . que andava pelos vinte anos . a filha de quinze anos . Agora. Na retrosaria. o ruído de ferro a correr contra ferro. que vendia fruta e hortaliças pelas ruas com Nicola. Gostava de ver a velocidade com que ele fazia correr o peso ao longo do braço da balança até encontrar o equilíbrio certo . e corria a metê-las no saco da senhora Spagnuolo ou no de Melina. Tomara-se um rapaz ponderado . quem corria as ruas do bairro todas as manhãs com a carroça puxada pelo cavalo . só com os gestos . a torresmos e a banha. e passados alguns meses uma pneumonia quase lhe matara o cônjuge . debaixo de chuva e debaixo de sol . de olhar sedu­ tor e sorriso doce . tomou-se uma pastelaria bem abastecida . Até a minha mãe me mandava lá fazer compras . a pão fresco . que abria o apetite .cujo experiente pasteleiro era o pai de Gigliola Spagnuolo . Enzo . e uma voz potente com que gabava a mercadoria. Os dois filhos de Silvio Solara. um carácter honesto e tranquilizador ao servir os clientes . a dona Maria. ou da minha mãe. tomara-se um rapaz encorpado . e Michele . Mas esses dois infortúnios revelaram-se um bem.. olhos azuis .84 Elena Ferrante O bar Solara foi ampliado . veloz . compraram um 1100 branco e azul e ao domingo pavoneavam-se pelas ruas do bairro . quando não havia dinheiro . encheu-se de coisas boas que ocupa­ ram o seu interior e também um pouco do passeio . e Stefano . tivera de se reformar devido a fortes dores nas costas . de Verão e de Inverno . a azeitonas . que quase nada tinha do garoto que nos atirava pedras. A clientela aumentara muito . Tinha excelentes produtos e transmitia. adoptara modos muito cor­ diais e era ela que geria agora a loja. que já não era o rapazinho furioso que tenta­ ra puxar a língua a Lila. A antiga carpintaria de Peluso.

Ele . uma coisa leva a outra. como tinha de sustentar a fami1 ia. Depois . As cores também se modificaram. O irmão mais velho de Carmela. sabia-as todas . tentava transformar-se numa pequena fabriqueta de motociclos . fendiam o ar. e os verbos também. E cortou muitas . Enquanto eu e Lila estudá­ vamos latim nos jardins . tudo se ar­ queava. A ofi­ cina onde trabalhava o filho de Melina. Depressa percebi . a folhas massacradas e a mar. onde se erguiam pilares piso após piso . emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura. E agora estava no estaleiro de obras perto da linha férrea. que ela já sabia muito latim. debaixo de sol . Enfim. Algum tempo antes um amigo dissera-lhe que tinha vindo gente ao bar Solara à procura de rapazes . a máquina fumegante crepitava. foi contratado para ir cortar as árvores junto à linha férrea. pois fora naquele bar que o seu pai se desgraçara . e por vezes víamo-lo sobre os andaimes dos novos edifícios . Perguntei­ -lhe com cautela como era possível . por exemplo . Pasquale . o silvado . A mancha verde desapareceu e no seu lugar surgiu uma clareira amarelada. mudou . tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro .embora não gostasse de Silvio Solara nem dos filhos. para irem cortar durante a noite as árvores de uma praça do centro de Nápoles . enquanto ele e os outros serravam. foi . também o puro e simples espaço que nos ro­ deava. preferindo mostrar uma cara nova. a comer pão com salsichas e grelos du­ rante o intervalo do almoço . Voltara. com as narinas cheias do odor a madeira viva. ao romper do dia. voltara a ser cha­ mado para trabalhos daquele tipo . e ela. rachavam. fazendo o rolo compressor avançar lentamente sobre a camada prepara­ da. Pasquale arranjara aquele serviço por um acaso da sorte . pela fealdade . com aquele jeito maldoso de rapariga que não quer perder tempo . Antonio . a fonte . exausto . Gentile Corresio . ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias : as árvores estremeciam. pelas tensões . Lila irritava-se se eu me punha a olhar para Pasquale e me distraía. para meu espanto . extirpavam raízes que exalavam um odor a subter­ râneo . ou com um chapéu feito de jornal .A Amiga Genial 85 dendo tomar-se uma ambiciosa alfaiataria de roupas de senhora. Sentía­ mos um cheiro permanente a alcatrão . trabalhadores em tronco nu ou em camisola interior asfaltavam as estradas e a rua larga. As declinações . por iniciativa do filho do velho proprietário . tudo se agitava. uma cova ao lado da estrada. como se não quisesse ser reconhecido pelos ódios acumulados .. admitiu que logo que eu entrei para o primeiro ano da escola média requisitara uma gramática na bi- . como se pretendesse alterar os sinais exteriores .

mostrou-me com orgulho todos os car­ tões que possuía .» Experimentei . e estudara-a por curiosidade . com aquelas mãos compridas e magras . Mandava-me traduzir trinta frases por dia. um em nome de Rino . Com cada um deles levava um livro emprestado . depois vai ver onde está o verbo . pesado . limitava-se a marcar os exercícios . tão grosso . com tantas páginas . Eu é que me regulava daquele modo . com ar duvidoso . a que era dirigida pelo professor Ferra­ ro . como eu procurava no dicionário as palavras que não conhecia. «Uma amiga minha. um bocado trombuda. Nunca lhe perguntei que livros já lera e que livros andava a ler. a biblioteca era um grande recurso . Fazia-me perguntas e enfurecia-se quando eu não sabia. tínhamos de estudar. «Quem te deu explicações?» . não só as que apareciam nos exercícios . perguntou prudentemente: «Foi a professora que te disse para fazeres assim?» A professora nunca dizia nada. pareceu-me fácil traduzir. muito mais depressa do que eu . No fim do Verão . Quando tiveres o sujeito . e ia apontando os significados principais . aliás . pela mesma ordem em que as encontrava na frase que tinha de traduzir. fiz a prova escrita sem um erro e na oral soube res­ ponder a todas as perguntas . Para ela. e só depois me esforçava para perceber o sentido . e não me pediu desculpa. não houve tempo . Marcava trabalhos de casa no tom que aprendera com a nossa professora Oliviero . pro­ curas os complementos: o complemento directo se o verbo for transiti­ vo . Palavra puxa palavra. ou outros complementos se não for. Estava encantada com o dicionário de latim. Uma vez deu-me uma bofetada num braço . ou seja. Ela também as traduzia. A partir do verbo percebes qual é o sujeito . quando o exame estava próximo . disse que se eu voltasse a errar me batia outra vez e com mais força. com força. Em Setembro fui fazer o exame . Procurava palavras constan­ temente . · vinte de latim para italiano e dez de italiano para latim.86 Elena Ferrante blioteca que emprestava livros . Calou-se por instantes e depois aconselhou-me: «Lê primeiro a frase em latim. outro em nome do pai e outro em nome da mãe . mas todas as que lhe viessem à cabeça.» . Devorava-os e no domingo seguinte ia devolvê-los e levantava outros quatro . que eram quatro: um dela. de maneira que tinha sempre quatro ao mesmo tempo . nunca vira nenhum. depois de observar. perguntou a professora. De repente . Experimenta assim.

Marcello . Tomei-me a melhor da aula. no 1100. Eu agora tenho uma coisa para fazer com o meu irmão . sentado ao lado dele . o mais novo . ao volante . de cabelo muito escuro e brilhante e o sorriso branco . Mas dos dois .» «Não gostas?» «Sim. pareceu-me que convidá-la para conti­ nuarmos era uma bela maneira de lhe mostrar a minha alegria e a minha gratidão . Disse que só que­ ria perceber que coisa era o latim que estudavam os inteligentes . Uma vez que fora ela a primeira a propor que nos encontrássemos só para estudar. de coxas .» «Em latim?» «Sim. Tomei­ -me ainda mais cheia de peito . o que mais me agradava era Marcello.» «Estuda tu por mim. e se eu tiver dificuldades . Eram os dois bonitos . «E então?» «Já percebi . os irmãos Solara aproximaram-se de mim no 1100. Basta. Respondi que sim.» 8. Um domingo em que ia para os jardins . Quando saí abracei-a. de traseiro.» «Ü que é?» «Depois mostro-te . e por isso creio que não estudava tanto para a escola como para ela. Lila estava à minha espera lá fora. disse-lhe que me correra lindamente e perguntei-lhe se podíamos estudar juntas no ano seguinte . o mais velho . eu no passeio e eles ao lado .A Amiga Genial 87 «Universitária?» Não sabia o que significava.» «Mas ainda há muito que estudar. onde marcara encontro com Gigliola Spagnuolo . Naquele ano pareceu-me ter dilatado como a massa de piv. «Já andaste de automóvel?» . Acompanharam­ -me todo o caminho . Vou buscar uns livros à biblioteca. Recomeçou a escola e saí-me bem em todas as disciplinas desde o início . e Michele . Não via a hora de Lila me pedir que a ajudasse com o latim ou outra coisa. ajudas-me . parecia-se com Heitor. à sombra. nem na primária tinha sido tão boa aluna. Esquivou-se com um gesto quase de enfado .a . tal como estava representado na versão escolar da Ilíada .

interveio em seu auxílio . Os Solara também sa­ biam. punha bâton . Mas entre aqueles que a viram ser puxada à força para dentro do carro .88 Elena Ferrante «Não . às escon­ didas da mãe . e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos . Mas algum tempo depois não o foram com Ada. dis­ ciplinado . Ao domingo . e embora gostasse muito de mim.» «0 meu pai não quer. Michele chegou mesmo a agarrá­ -la por um braço . apesar de ainda serem pequenos . Gigliola Spagnuolo e Carmela Peluso tomaram o partido dos Solara. Não havia regras escritas . houve quem fosse contar a Antonio .» «Entra. ne­ nhum dos clientes . Uma hora depois deixaram-na no mesmo sítio . pensei . Eu vacilei . foi esperar Marcello e Michele em frente do bar Solara. raparigas . isto é . Quando é que tens ocasião de entrar num carro como este?» Nunca. Na presença das minhas duas . mas depois o pai Solara e um dos barmen saíram para a rua. e com as pernas compridas e direitas e os seios maiores que os meus.» «E nós não lhe dizemos . a viúva maluca que dera escândalo quando os Sarratore se mudaram . Os quatro espancaram Antonio até sangrar. de tentar matar os irmãos Solara. mas só porque eles eram bonitos e tinham o 1100. No entanto disse que não e continuei a dizer que não até aos jardins . Ada tinha catorze anos . a filha mais velha de Melina Cappuccio . parecia já crescida e bonita. quando o automóvel acelerou e desapareceu como uma flecha para lá dos prédios em construção . Os irmãos So­ lara disseram-lhe palavras grosseiras . tímido . Durante alguns minutos deu conta do recado . tanto mais que tinham sido simpáticos . Nós . agora e no futuro . e nenhum dos passantes . e quando os dois irmãos apareceram recebeu-os a soco e pontapé. o irmão mais velho que era mecânico na oficina de Gorresio . Antonio era um bom trabalhador. sabia-se que era assim e pronto . limitando-se apenas a con­ vidar-me a entrar. matava-me com pancada imediatamente . Sem dizer uma palavra aos amigos ou à farm1ia. Peppe e Gianni . dividimo-nos sobre este episódio . e Ada estava um pouco zan­ gada. sentir-se-iam na obri­ gação . levamos-te a dar uma volta. Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel. no entanto ria-se . sem uma só palavra de preâmbulo . embora fosse um homem bom e amável . visivelmente afectado pela morte precoce do pai e também pelos desequilíbrios da mãe . abriu a porta do carro e puxou-a para dentro .

embora não fosse musculoso como eles . descosia. A dada altura contou-me o plano que tinha em mente .» Continuava delgada como sempre. Fazer sapatos à mão . na presença de Lila. tivera a coragem de os enfrentar. era dinheiro deitado fora. pois na verdade eram muito atraentes e era impossível não imaginarmos a figura que faríamos sentadas ao lado de um deles no automóvel . trataria da saúde àqueles dois pessoalmente. embora não fosse uma beleza. iam às lojas do Rettifilo .A Amiga Genial 89 amigas inclinava-me para os Solara.é uma arte sem futuro . em série . hoje em dia era tudo feito nas fábricas . espantada. uma coisa que nada tinha a ver com livros: andava a tentar convencer o pai a começar a fazer sapatos novos . Eis a razão por que naquele ano não me perguntou nada de latim. ia à ruína. séria: «Melhor assim. e pensámos que Lila se ia enfurecer. e já manejava as ferramentas de Fernando quase como o irmão . por isso . como as do pai .dizia-lhe . e o dinheiro ou está no banco ou na mão dos usurários . Mas em vez disso . e que Antonio . «Üra. não o vendia. respondeu . Mas ela insistia. Por isso . quando as pessoas precisavam de sapatos novos não iam ao sapateiro do bairro . até debruava. e trabalho . talvez porque não era tão desenvolvida como nós e não conhecia o prazer-temor de sentir o olhar dos Solara em cima dela. dizia-lhe: «Ninguém sabe fazer sapatos como tu sabes . Mas também achava que se tinham comportado muito mal com Ada. disse Gigliola Spagnuolo . cola­ va.não era essa a sua tarefa na oficina . embora fosse verdade. que exprimia sem meias palavras essa minha posição . mas tensa em cada fibra. e não nos bolsos da farru1ia Cerullo . Em pouco tempo tinham ficado como as de Rino . sabia bem a porcaria que aparecia no mercado . e discutíamos para ver quem os adorava mais . a baixo custo.» E ele respondia que. também eu ex­ pressava algumas reservas . Hoje existem máquinas . Embora ninguém a obrigasse a isso . Olhava­ -lhe para as mãos . com a pele das pontas dos dedos amarelada e gros­ sa. en­ chia-o de elogios sinceros. Mas pouco havia a fazer. se lhe acontecesse o que acontecera a Ada. Mas Fernando não queria saber disso . papá. Uma vez a discussão tornou-se tão acesa que Lila. mesmo que alguém quisesse fazer o produto artesanal com todas as regras da arte . para evitar sarilhos ao pai e ao irmão Rino . .começara a fazer trabalhinhos . empalideceu mais do que o habitual e disse que . Marcello e Michele nem sequer olham para ti» . e as máquinas custam dinheiro. e como tinha trabalha­ do em fábricas . preparava o fio . que iam todos os dias ao ginásio levantar pesos.

as pessoas ganham e querem gastar. onde já não era uma questão de livros e em que o especialista era ele . deu a passada maior que a perna. Dito isto . e os ti­ vesse reproduzido no papel . e agora discutia com o pai dia sim.» «As pessoas gastam em comida.90 Elena Ferrante Lila não se deixara convencer e .» «Estou-me nas tintas para isso . Mas pouco a pouco deixara-se seduzir. que era capaz de defendê-la de quem quer que fosse . E. dia não . «Pelo menos tentemos .» «Não . primeiro não se comem. como se tivesse tido oportunidade de observar de perto sapatos daquele género em qualquer mundo paralelo ao nosso . irritado pelo facto de ela meter o nariz nas coisas do trabalho . repetindo aquilo que ela lhe metera na cabeça.» «Mete-te na tua vida e esquece os Solara. ricos em pormenores coloridos com precisão .» Gostava de ver como aquele rapaz .» «Junto ao caminho-de-ferro está a nascer um novo bairro .» «Papá. nos tempos que correm . Uma vez estava a mostrar-me os desenhos dos sapatos que queria fazer com o irmão . Ao passo que os sapatos. libertando-me a mente . ao passo que Lila podia contar com Rino . já viste como a charcutaria dos Carracci vai de vento em popa?» «0 que eu vi foi que a retrosaria que queria fazer uma alfaiataria fe­ chou . apoiava sempre . é arranjar sapatos e mais nada. quan­ do se estragam mandas arranjar e podem durar vinte anos . O irmão a princípio alinhara com o pai . O nosso trabalho . descobri que ela achava o mesmo . devido à estupidez do filho .» «Já viste o automóvel que os Solara têm. como de costume . sempre gentil comigo mas capaz de brutalidades que até ao pai metiam medo . Na realidade tinha-os inventado ela no seu todo e em cada detalhe . em todas as situações . para homens e para mulheres . a irmã. Invejava Lila por ter aquele irmão tão sólido e às vezes pensava que a verdadeira diferença entre mim e ela era eu só ter irmãos pequenos . e segundo .» «Mas os Solara continuam a crescer. e de qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. portanto ninguém capaz de me encorajar e de me apoiar contra a minha mãe . conversan­ do com Lila. feitos em folhas de papel quadriculado . porque é preciso comer todos os dias . puxara Rino para o seu lado . sentia que estava do lado dele . e vi que o Gorresio . Eram desenhos lindos . eu achava que Fernando tinha razão . na oficina. como fazia na primária quando desenhava prin- .

mas que ele e Rino não podem perder tempo comigo . embora já não fosse à escola.» «Ü que significa isso?» «Significa que para fazer realmente as coisas é preciso tempo e ma­ teriais que custam dinheiro . Mas limitou-se a encolher os ombros à sua maneira despreocupada.» E fez menção de me mostrar também as contas que fizera. Andava a aprender latim pensando nisso e cá no fundo estava convencida de que ela ia buscar tantos livros à bi­ blioteca do professor Ferraro só porque . Tentei falar-lhe do velho projecto de escrever romances . devíamos che­ gar ao ponto de ter tudo . não s e pareciam com aqueles que se viam no bairro . devíamos passar a ricas . Por isso pensava começar com um único par de sapatos .» «Porquê?» «Disse que enquanto eu estiver a brincar.» «Ü papá não quer fazê-los . Depois desistiu . de não termos nada.explicou­ -me . nada muda.» Aquilo que devia mudar. como fizera a autora de Mulherzinhas . para perceber quanto dinheiro era realmente necessário para fazê-los .» «Fernando zanga-se . Agora . tudo bem.» «Mas sabe fazê-los?» «Jura que sim. nem tão-pouco com os das actrizes das fotonovelas .» «E o teu pai?» «Esse é capaz de certeza.» «Então façam-nos. na opinião dela. para ficarmos realmente ricas precisávamos de uma actividade económica. Eu tinha essa ideia firme . voltou a dobrar as folhas que agitava na mão e disse que era inútil perder tempo . «E então?» «Devemos experimentar na mesma.A Amiga Genial 91 cesas . às escon­ didas de Rino .» «Rino diz que são difíceis . embora tivesse o pensamento fixo nos sapatos . «Gostas deles?» «São muito elegantes.» «Se uma pessoa não tentar. era sempre a mesma coisa: de pobres . porque o pai tinha razão .. Tinha reduzido Mulherzinhas às devidas proporções . pois apesar de serem sapatos normais. de qualquer maneira queria escrever um romance juntamente comigo e ganhar muito dinhei­ ro . só . queria concretizá-la.

» «Porque Ada não tem pai . Depois .» «Achas?» «Claro . a marca gravada nas gáspeas: Cerullo. Se isso acontecer.» Conclusão . todos reluzentes .» «E sabes porque se comportaram da maneira que se comportaram corn Ada?» «Não . quatrocen­ tos num ano .» «Não . trinta num mês . para que dentro de pouco tempo ela. «mas a ti pode ser que sim. e depois os sapatos Cerullo por inteiro . a mãe e os outros irmãozinhos . porque têm dinheiro . conseguissem montar uma fábrica de calçado com as respectivas máquinas e cinquenta operários . era preciso iniciar a produção . porque sou feia e ainda não tenho o sangue» . Lila embatocou . ou também nós ganhávamos dinheiro . com frases em italiano que pintavam diante dos meus olhos o anúncio luminoso da fábrica: Cerullo. acentuando o ar de menina-velha que me parecia estar a tomar-se o seu traço carac­ terístico: «Sabes porque é que os irmãos Solara se julgam os donos do bairro?» «Porque são prepotentes . ou então . divertimo-nos . diz-me . «Uma fábrica de sapatos?» «Sim. todos muito elegantes como nos seus desenhos . uma vez que Fernando se tivesse convencido . para nos defendermos dos dois irmãos era preciso passar a fazer-lhes muito mal . são tão bonitos e cómodos que à noite vais dormir sem os descalçar. pelo menos: a fábri­ ca de calçado Cerullo . sapatos daqueles que uma vez cal­ çados. Já viste que eles nunca incomodaram Pinuccia Carracci?» «Sim. Depois . com Tina e Nu ao pé da fres­ ta da cave . «A mim não me tocam. Rino . disse . Pareceu dar-se conta de que estávamos a brincar como anos antes com as bonecas . Dois pares de sapatos hoje.» Falou-me da fábrica com grande convicção. e disse-me . o pai . quatro amanhã. como ela sabia fazer. o irmão Antonio não conta para nada. e ela ajuda Melina a limpar as escadas dos prédios . mais do que os Solara. Rimo-nos.92 Elena Ferrante para mostrar ao pai como eram bonitos e confortáveis .» . como que numa urgência de solidez. Mostrou-me um trinchete muito afiado que obtivera na oficina do pai . disse ela.

Repetíamos . e senti-me feliz . ela começou de imediato a falar-me do modo como Alfonso olhava para ela quando passava. ela disse a rir. Passei no exame final da escola média com oito em tudo . que a partir dali começou a gabar-se a toda a gente de que a sua filha primogénita tivera nove em italiano e nove . 9. os professores não o tinham dado a ninguém nas cadeiras importantes . disciplina por disciplina. mas não a percas . e de longe melhor do que Gino . e ela também sabia. e agora atirava-mo à cara. Ainda por cima.A Amiga Genial 93 Olhei para ela desconcertada . Gigliola Spagnuolo entristeceu-se porque ti­ nha de repetir Latim e Matemática. com o seu tom de maldosa: «Não te deram nenhum dez?» Fiquei aborrecida. para minha surpresa. e talvez Marcello tam­ bém a amasse . se lho tivessem permitido . mas ela não lhe dava confiança porque estava apaixonada por Marcello Solara. A minha mãe . e tentou recuperar o prestígio con­ tando-me que Gino andava atrás dela. e isso já eu sabia desde sempre . os meus pais começaram a falar . aquilo que sempre ouvimos e vimos à nossa volta desde a primeira infância. em latim.» Menos sucesso tive no pátio . Quando lhe disse as minhas notas . nada menos . Fui a melhor da escola. Concluí que com aquelas últi­ mas frases ela admitira que eu era importante para ela. Com quase treze anos . Melhor do que Alfon­ so . Lila também não se mostrou particularmente contente . Dez só davam em comportamento . que teve média de oito . justiça. Mas bastou aquela frase para que um pensamento latente se tomasse de chofre cla­ ro: se ela andasse na escola comigo . Fui muito elogiada pelo meu pai . Durante dias e dias gozei essa supremacia absoluta. A justiça não era feita com pancadaria? Peluso não matara dom Achille? Voltei para casa. que estava na cozinha ao pé do lava-loiça a escolher horta­ liça. lei s . e fazíamo-lo com con­ vicção . Ali só os amores e os namorados é que contavam. na mesma classe . Fui para casa incubando o desgosto de ser a primeira sem ser verda­ deiramente a primeira. este ano teria tido dez a tudo . nove em italiano e nove em latim. não sabíamos nada de instituições . disse-me sem se virar: «Podes pôr a minha pulseira de prata no domingo . Quando disse a Carmela Peluso que era a melhor da escola.

tudo me parecia sem brilho . O meu nariz era largo e esborracha­ do .94 Elena Ferrante entre eles de onde poderiam colocar-me . dinheiro. o que serviu para me inflamar ainda mais a cara. Olhava-me ao espelho e não via aquilo que gostaria de ver. No tempo que me sobrava não saía. Pirandello . percorri o caminho até à biblioteca. embora sem se definir. mas depois perdia o interesse. fábrica de calçado. Levei tempo a espremer os furúnculos. aquilo em que me transformaria: uma vendedora gorda e furunculosa na papelaria em frente da igreja. a cuidar da desordem que os meus irmãos deixavam atrás de si . em que o professor Ferraro me chamava à biblioteca nessa ma­ nhã. Deprimida. pus a pulseira de prata da minha mãe . e eu pouco a pouco acharia que os romances que lia eram inúteis e que a minha vida era uma lástima. cadernos e manuais escolares. a cozinhar. e fui . Tchékhov. estimulada por um convite em meu nome vindo pelo correio . sentava-me a um canto a ler romances que ia buscar à biblioteca: Grazia Deledda. por forma a atribuírem-me um lugar de prestígio . como queria acreditar que ainda era. O meu pai imaginava negociações futu­ ras com os seus conhecimentos na câmara municipal . Mas continuei a não gostar do que via. uma funcionária da câmara solteirona. Achava ela que . Co­ mecei por iniciativa própria a ajudar a minha mãe a limpar a casa. Tolstoi . agora que tinha nem mais nem menos do que o diploma da escola média. sapatos . de frases que aprendera de cor. Por vezes sentia uma grande necessidade de ir procurar Lila à oficina e falar­ -lhe de personagens de que tinha gostado muito . Todo o meu corpo continuava a dilatar-se . tinha competência para vender canetas . cresceu . como uma mão inchada pela febre . que depois se faziam violáceos e por fim ganhavam pontas amareladas . A minha mãe queria pedir à senhora da papelaria que me aceitasse como ajudante . começaria a falar dos planos que fazia com Rino . lápis . a mais pequena. proliferavam arquipélagos de inchaços avermelhados . . como desde peque­ na me parecia que era. até ao ponto de já nem ao domingo me apetecer sair. no queixo . a ocupar-me de Elisa . cresceu . debaixo do calor que naquela época do ano caía sobre o bairro desde manhã. Dostoievski . Já não estava satisfeita comigo mesma. Senti uma tristeza dentro de mim que . Até a pele se estava a estragar: na testa. Gogol. soltei o cabelo . tal como o meu futuro . decidi finalmente reagir. cresceu . mas sem crescer em altu­ ra. em volta dos maxilares . Um domingo . Ela diria uma maldade qualquer. inteligente como eu era. Tentei pôr-me bonita. mais cedo ou mais tarde estrábica e coxa. Os cabelos loiros tinham-se tomado castanhos .

olhámo-nos de novo e rimo-nos . a quinta classificada. que tagarelava com Alfonso e Gino muito feliz . olá. o máximo que con­ seguiam ler era: Sal e Tabacos . junto ao fogão . ajudando-se um ao outro . que algo fora do nor­ mal se passava.» . Ao sairmos . Rino Cerullo. Olhámos um para o outro. Agradeci e perguntei . Jerome . para lhos entre­ gar?» O professor entregou-me os livros dos Cerullo . que a dona Nunzia lia de pé . enquanto Carmela sussurrava com insistência: «Porque se riem?» Não lhe respondemos . ressentida. com o cabelo .. sentindo ainda os olhos cheios de riso . também o director da escola primá­ ria e a professora Oliviero . se juntava a Gigliola.A Amiga Genial 95 Percebi logo . fui chamada eu . pouco à vontade . Pasquale disse-me em dialecto coisas que me fize­ ram rir ainda mais: que Rino estragava a vista com os livros . pela pequena multidão de pais e crianças da primária e da escola média que entrava pela porta principal . cobrin­ do a boca com a mão. Elena Greco . ele e o amigo . de Jerome K. Fazendo­ -me elogios . «Bruges-la-Morte . Fernando Cerullo. Ferrara entregou-me Três Homens num Barco. sentei-me ao fundo da sala. Nunzia Cerullo. Procurei Lila. quinto. Agitei-me na cadeira. eram os mais assíduos . A pequena cerill}ónia começou . numa mão um romance e na outra a colher de pau . Instantes depois sentaram-se junto de mim Carmela Peluso e o irmão Pasquale . ou seja. Olá. sufocando o riso . para receber o meu prémio. Ele andara na primária com Rino . Vi filas de cadeiras já totalmente ocupadas . Correios e Telégrafos . Os premiados foram: primeiro. depois de o professor perguntar várias vezes se estava alguém da frum1ia Cerullo na sala. Compreendi que o professor tivera a ideia de oferecer um livro a todos os leitores que . eu. com lágrimas de riso nos olhos . Cobri melhor as faces irritadas . De­ pois perguntou-me qual era o prémio do seu ex-companheiro de escola. quar­ to . companheiros de turma e de carteira . e a Pasquale também. após seis ou sete anos de escola incluindo as repetições . o pároco . Raf­ faella Cerullo. que o sa­ pateiro Fernando não dormia de noite para ler. Como a cerimónia ia começar e a requisição de livros estava suspensa naquele momento. Foi assim que . e com uma inesperada sensação de bem-estar. e ambos . segundo. enquanto cozia massa com batatas . de acordo com os seus regis­ tos . mas vi apenas Gigliola Spagnuolo na companhia de Gino e de Alfonso . Entrei . Deu-me vontade de rir. terceiro . Charcutaria. festões coloridos . enquanto Carmela. baixinho: «Posso levar também os prémios da farm1ia Cerullo . Ferraro .disse-me .

«Não posso . Deus do céu . professora. era a professora Oliviero . Soube que foste a melhor da escola. dizer-lhes que me mandassem estudar mais . E também boa aluna. Nesse instante ouvi chamar por mim. Palavras como liceu . É Lina quem lê tudo . e devo dizer que um bocado assustada. como tantas palavras que encontrava nos romances . iria desencadear de novo discussões que não me apetecia enfrentar. resignar-me a ser . se calhar sou eu que não sei apreciar-me . para mim eram abstractas . gordinha.» «Sim. aquela rapariga é mesmo esperta. Coisa de doidos . olhou-me com o seu olhar sempre avaliador e disse-me . como que a confirmar a legitimidade de um juízo mais gene­ roso sobre o meu aspecto: «Que bonita que estás .» Entristeceu-se .» Olhei-a surpreendida.» «Tens a certeza?» «Sim. posso entregar- -lho eu .» «Então eu vou falar com os teus pais. Fui ao encontro dela. cheia de saúde . Preferia as coisas tal como estavam: ajudar a minha mãe .96 Elena Ferrante «Tem fantasmas?» «Não sei .» As atenções de Pasquale Peluso consolaram-me muito . gostei que ele me fizesse rir.» «E o que vais fazer agora?» «Vou trabalhar. O que mais havia para estudar? Eu nada sabia sobre a organização escolar.» «Posso ir contigo quando lho fores entregar? Aliás . trabalhar na papelaria. com as minhas próprias mãos?» Desatámos outra vez a rir. Talvez eu não seja assim tão feia. pensei .» «Deram o prémio ao Rinuccio .» «Quanto te deu em Latim o professor de Letras?» «Nove .» «É verdade . «Nem pensar nisso . ou universidade .» Fiz menção de me afastar. o s meus pais não me deixam. estás uma estrela. e como cresceste ! » «Não é verdade . Se a professora Oliviero fosse de facto falar com o meu pai e a minha mãe . tu tens de continuar a estudar. não tinha uma ideia exacta sobre o que se seguia à escola média. «Sim.

Pasquale disse-me que no domingo seguinte ele . para irmos à oficina do sapateiro en­ tregar os livros a Lila e a Rino . o pai é comunista e matou dom Achille . Tinha os cabelos negros e muito encaraco­ lados . E vem de uma farm1ia horrível . Lila não fazia isso havia já pelo menos três anos.» «Adeus. «Ainda és pedreiro?» . que estava à minha espera. Perguntou-me se também queria ir. e recolhi a minha.» «E és comunista?» Olhou-me com ar perplexo . «Não percas tempo com aquele» .» Mas ela agarrou-me por um braço .» . comunista. mas eu também já não o era. comunista. vou pensar. Achei-a fascinante . «até à vista.» «Adeus. já sabia que a minha mãe nunca me deixaria ir. disse . dura e áspera. não irá mais além. talvez até comunista. disse .A Amiga Genial 97 feia. Assim que virámos a esquina. Não quero de maneira nenhuma ver-te com ele. ser saudável e gorda. Comunista e filho de assassino . «Sim. Não era um rapaz bonito . como dizia a professora. iam a casa de Gigliola aprender a dançar. tinha a boca grande e era filho de assassino . embora soubesse que era. Mas mesmo assim disse: está bem. talvez até com Lila. com certeza é comunista como o pai . mas que a professora marcara imediatamente com um sinal negativo . «Sim. perguntei-lhe . mas depois ouvi com prazer que vinha atrás de mim . mal toquei na dele . que não estava habituada a tais ges­ tos .» Fiz um gesto de assentimento e afastei-me sem me despedir de Pas­ quale . hesitei . Comunista. professora» . a dez passos de distância. marcá­ mos encontro para o dia seguinte . recomeçando a rir. era escuro por natureza e por causa do sol . à parte os seus sonhos loucos de filha e irmã de sapateiro? «Obrigada. Então ele estendeu-me a mão e eu . referindo-se a Pasquale .» «E vais visitar o teu pai a Poggioreale?» Ficou sério: «Quando posso . que para mim não tinha sentido . Percorremos o caminho juntos até poucos metros de casa e . Pasquale apanhou-me . Dei voltas e voltas na cabeça à palavra «comunista» . e labutar na miséria. que primeiro ficou espantado . Antes de nos separarmos . ter furúnculos . a irmã e quem quisesse . Fiquei de boca aberta. «É pedreiro .

senão a Oliviero não deixaria de a atormentar e chumbaria sabe-se lá quantas vezes a pequena Elisa como represália. Ria. uma espécie de demência da felicidade . «Esta rapariga» . Era Ada.98 Elena Ferrante 10. nunca mais te atrevas a falar com Pasquale Peluso .. e enquanto o meu pai . Contou ao meu pai . Exigiu que ambos lhe jurassem que me iam ma­ tricular na escola secundária mais próxima. ainda na presença dos meus pais. mostrando as coxas descama­ das e as cuecas aos filhos assustados . e tentei esgueirar-me . Fez um trejeito de desprezo e perguntou-me: «Sabe que tiveste nove em Latim?» Fiz sinal que sim . punha em ordem as contas e a loja. Per­ cebeu-se que Melina. dizia que agora era pre­ ciso mandar-me para a escola dos ricos . Juraram-lhe solenemente que me iam inscrever na escola secundária. lançando o meu pai na mais total angústia e exas­ perando a minha mãe . Corremos para as janelas . «Diz-lhe que agora também vais estudar grego . estava a ter uma nova crise de loucura. mas olhando-me com ar severo . por exemplo cantar alto enquanto lavava as escadas dos prédios ou atirar baldes de água suja para a rua sem ver se ia alguém a passar . vimos um grande alvoroço no pátio . austero: «Lenu . exclamou . Ofereceu-se para arranjar ela própria os livros de que eu precisaria. e o meu pai disse . é verdade. como se fosse aquele o proble­ ma principal . a filha de Melina. A professora Oliviero apresentou-se em minha casa nessa mesma tarde sem ter avisado .» Despediu-se dos meus pais toda empertigada. inter­ rogando as mulheres debruçadas das janelas . Disso se inteirou minha mãe. Os meus pais não ousaram contradizê-la. em quem se depositava tão grandes esperanças . dava saltos em cima da cama e levantava a saia. furiosa. companhia totalmente inadequada para mim. um pouco distraída. Respondi-lhe que ajudava o pai e o irmão . «vai dar-nos grandes alegrias .» Antes de se despedir a professora perguntou-me por Lila. mas no essencial as excentricidades eram raras e inócuas . ouviu-se um grito agudo que nos silenciou . que me vira sozinha com Pasquale Peluso . que depois da mudança dos Sarratore geralmente se portara bem .um pouco melancólica.» Nessa noite . enquanto a minha mãe . a gritar por socorro . ameaçava partir-me as duas pernas se soubesse que eu trocara uma só palavra com Pasquale Peluso . Diz-lho . Vi que Nunzia Cerullo e Lila se apressavam para ir ver o que se passava.

se tudo corresse pelo melhor. manifestando sensibilidade pelas coisas do amor. Mas enquanto falava. e apoiada pelo amor de Pasquale . o que naqueles últimos desenvolvimentos continuava a excitar-me era o facto de Donato Sarra­ tore ter. ao ouvir aquele despropósito . com manchas brancas de cal por todo o lado . por ir para aquela escola difícil que se chamava secundária. Disse-lhe que estes últimos acontecimentos eram a prova de que ela não era maluca. dei-me conta de que . publicara um livro . Ajeitou o cabelo e . conseguisse es­ crever um sozinha. A ela. e encontravam-se assinalados a tinta vermelha os poemas que ele escrevera para ela. Alguém fora entregar um livro a Melina. Este último acontecimento provava que Lila tinha razão em pensar que nos podia acontecer o mesmo . Um livro . insultou de forma muito obs­ cena o ferroviário-poeta. O meu pai . e descobrira que uma pessoa que até há pouco tempo morava no bairro .A Amiga Genial 99 pela porta para ir ter com elas . mas talvez eu . 11. publicado um livro . Quem sabe . foi ela mesma avaliar a situação. nem mais nem menos. No dia seguinte encontrei-me com Pasquale Peluso em segredo . enquanto Pasquale me dava razão . no seu passo claudicante . tentando acalmá-la mas em vão . mais do que qualquer outra coisa. mesmo no prédio em frente do nosso . que Donato se apaixonara realmente por ela e ainda a amava. vinha indignada. sobretudo Antonio e Ada. um livro . com os seus desenhos de sapatos e a sua fábrica de calçado . que o máximo que tinha era o segundo ano da primária e nunca na vida lera nenhum. escrita a caneta. Ele chegou a arquejar. Eu . Pelo caminho contei-lhe a história de Donato e Melina. todo suado . Quando voltou . É certo que ela já desistira disso . estava dominada pelo espanto . Aquele empregado dos Caminhos de Ferro do Estado era agora o autor de um livro que o . mas a minha mãe impediu-me. na primeira página. ficaria rica primeiro do que Lila. com a roupa do trabalho . como fizera Sarratore . No mesmo dia atraíra a atenção de um jovem misterioso como Pasquale . Toda a noite ouvimos Melina cantar de felicidade e ouvimos as vozes dos filhos . uma dedicatória para Melina. sim. A minha mãe disse que alguém devia tomar a iniciativa de abrir àquele homem de merda a cabeça de merda que ele ti­ nha. Na capa do livro estava o nome de Donato Sarratore . Dentro . abrira-se uma nova escola no meu caminho . por outro lado .

excluindo talvez o formato maior dos olhos e uma pequena ondulação no peito . Entre­ guei à minha amiga os presentes do professor Ferrara . fraco . disse eu a Pasquale . Era a primeira vez que alguém me interrogava sobre a nossa amizade e falei sobre isso todo o caminho . Melina. tive a tendência para reduzir a relação entre mim e Lila a afirmações empolgadas e peremptoriamente positivas . dizia que sim só para não me contra­ dizer. enquanto . Também foi a primeira vez que senti que . daí a pouco começou a mudar de assunto .1 00 Elena Ferrante professor Ferrara poderia muito bem incluir na sua biblioteca e empres­ tar. com grande entusiasmo .mais atento a eles do que eu estava Rino . mas sim um poeta. pele e osso . se éramos muito amigas . eu também a leio . tendo de procurar as palavras para um assunto para o qual não tinha palavras prontas . diante dos nossos olhos nascera um seu amor trágico . Porque a olhava assim. isto é. não um tipo qualquer. o que via nela? Eram olhares longos e intensos que ela parecia nem notar. a fazer-me perguntas sobre Lila: como era ela na escola. como se quisesse evitar que ouvíssemos o que os divertia tanto a respeito de Bruges . o que pensava eu dela. abrindo-lhe o presente debaixo dos olhos e dizendo-lhe: «Depois de leres a história desta Bruges morta dizes-me se gostaste . Pasquale lançava olhares furtivos a Lila. debruçados sobre qualquer coisa que olhavam com hostilidade . pôr-lhe os pés em cima. com ar apreen­ sivo . Ou seja. e se for esse o caso . Respondi com prazer. o que procurava. Quando chegámos à loja ainda íamos a falar nisso . pálida. que se apressou a arrastar Pasquale para a rua. Lidia. todos nós havíamos conhecido . Portanto . mas na realidade aborrecido com o modo como o amigo lhe olhava para a irmã. certamente obscenas . Pareceu-me sem­ pre a mesma rapariga delgada. Fernando fora a casa fazer a sesta. e assim que nos viram através da porta de vidro guardaram tudo . o cora­ ção saltava-me no peito . Fui com Lila até à arrecadação nas traseiras da loja. Ela arrumou os livros junto de outros que tinha no meio dos sapatos velhos e de alguns cadernos com as capas em mau estado .» Riram-se muito e de vez em quando segredavam ao ouvido um do outro frases sobre Bruges . Excitei-me muito . pela maneira como deixava a mulher. esforçando-me para descobrir nela o que atraíra a atenção de Pasquale.pareceu-me . enquanto Pasqua­ le fazia troça do amigo . Mas a certa altura reparei que . que fora inspirado por uma pessoa que conhecíamos muito bem . mas Lila e Rino estavam lado a lado . Mas percebi que sobre esse assunto Pasquale não era capaz de me acompanhar. E de facto . Referi-me às maluqueiras de . embora trocando piadas com Rino .

Pareceu-me . A capa era avermelhada. reproduzia-os carregados de tensão. eu inflamo-me juntamente com Lila. assim que ela começava a fazê-lo . e não só fisicamente . e se o Sarratore não vier ela sofrerá mais do que sofreu até aqui .» Que bela conversa. injectava-lhe energia. esses poe­ mas só causaram danos.» «E não foi uma acção bonita?» «Sabe-se lá. talvez esteja a mudar. pensei .» Emocionei-me . Donato Sarratore . o seu filho Nino foi nosso companheiro de escola. que cativantes gestos formulava. Agora a Melina está à espera dele . Que mãos fortes e bonitas que ela tinha. «Se assim for. como também estava a desenvolver um dom que já lhe conhecia: melhor do que fazia em criança. Donato . mesmo por cima do título . aqui . Mas Lila fez um daqueles seus olhares intensos e vi que estava presa ao livro que eu tinha na mão . para a forma delicada das orelhas . E experimentava. também na maneira de se exprimir.» «Porquê?» «0 Sarratore não teve coragem de se encontrar pessoalmente com Melina. e saía-me bem. para tirá-lo para sempre da vista e do alcance da mãe . no próprio momento em que ela fala comigo . Dera-lho Antonio . Sim. Foi emocionante ler. pegava nos factos e . pensa. «0 Nino terá um carro mais bonito do que o dos Solara» . «Com isto?» . examinei-o . disse. sem uma fis­ sura.dito com palavras de hoje .pensei . Olhei-lhe para a pele branca e lisa. com naturalidade . que olhares. senti um calafrio na nuca. Isto . provavelmente toda a fa­ nu1ia Sarratore vai ficar rica. reforçava a realidade ao reduzi-la a palavras . com um desenho do Sol a brilhar no cimo de uma montanha. contente . . o filho mais velho de Melina. disse-lhe . porque final­ mente podíamos dizer que conhecíamos alguém que acabava de publicar um livro . Estendeu a mão e mostrou-me o livro de Sarratore . Intitulava­ -se Expressões de Bonança . Olhei-lhe para os lábios . «Por agora. resmoneou . Abri-o e li em voz alta a dedicató­ ria escrita a tinta: «À Melina. logo sentia em mim a capacidade para fazer o mesmo . na raiz dos cabelos .A Amiga Genial 101 Melina. Sussurrei-lhe em italiano: «Pensa. Nápo­ les. e no seu lugar mandou-lhe o livro . logo saberemos» . que alentou o meu canto .» Ela fez um meio sorriso duvidoso . mas contei-lhe sobretudo o entusiasmo que senti . Donato Sarratore . Peguei-lhe . Mas também notei com prazer que . 12 de Junho de 1 958.distingue-me de Carmela e de todas as outras.que não só sabia dizer bem as coisas .

longamente . a Lenuccia tam­ bém vai . e o irmão . e pôs-se a andar. quase contra vontade . Deitei uma olhadela ao que eles estavam fazendo . Lila disse-me que ela e Rino andavam a tentar fazer um sapato de viagem para homem. senão o papá volta e já não podemos fazer mais nada. sem me perguntar se queria ir com ele . Pasquale confessou a rir que se escapulira do estaleiro da obra sem dizer nada ao mestre-de-obras . tirinhas de pele . o prazer embotou-se e veio-me um pensamento desagradável . interrompendo a nossa conversa. Pasquale deitou um último olhar a Lila. e as observava perplexo . o nome e o apelido terem vindo inflamar de novo o coração da­ quela mulher? Falámos com tanta paixão que Rino de repente perdeu a paciência e gritou: «Então não param com isso? Lila. Em­ polámos exageradamente Sarratore . 12. o facto de a capa. Enquanto Rino tirava de debaixo do balcão as coisas em que estava a trabalhar antes de chegarmos. vamos trabalhar. o comunista. ansioso . não a leitura dos versos . mas tinha de voltar já para o trabalho . Senti uma irritação que me pôs nervosa. a loucura de amor de Melina. mas o objecto em si . Aquele pensamento tolheu-me a respiração por u m instante . para ter oportunidade de a ver. vocês também irão?» «Domingo ainda está longe . enquanto também eu falava dele . o papel daquele livro . depois logo se vê» . Percebi de repente que me enganara: Pasquale . Comecei a tocar com os dedos nas zonas mais inflamadas das faces . O que iria acontecer? Que reacções iria desenca­ dear. E entretanto disse . Notei que olha­ va de novo para Lila. bocados de couro espesso . o título . uma forma de madeira cercada por uma confusão de solas . o filho do assassino . o pedreiro . talvez para lhe dar a ver: estou a correr o risco de ser despedido apenas por tua causa. imediatamente me . intensamente . quisera acompanhar-me até ali não por mim . mas por ela. dirigindo-se a Rino: «Domingo vamos todos dançar em casa da Gigliola. mas tive consciência disso e contive-me . respondeu Rino .» Parámos . à mistura com facas e sovelas e ferros de toda a espécie . tentei continuar a falar de livros e de histórias de amor com Lila.1 02 Elena Ferrante Mas enquanto Lila falava de amor. Quando os dois rapazes reentraram. que não lhe prestou atenção nenhuma.

eu estava excluída. dez amanhã. embora apontando­ -me para aquele amontoado de couro . e de tentar convencê-la. Contei-lhe que fora a professora Oliviero que impusera isso aos meus pais . como diziam que se fazia quando se namorava. não conti­ nuasse a sentir lá dentro . por se lhe ter metido na cabeça. tratava-se de uma experiência em que eu só podia participar como testemunha. e achasse muito mais interessante aquele clima de tensão em tomo de um sapato? Tínhamos falado tão bem sobre Sarratore e Melina. Fingi estar interessada no seu projecto secreto . como podia ser que . porque tinha coisas só dela em que eu não podia partici­ par. Eu queria lá saber de sapatos . não um rapazinho . Mas sobretudo . era como se ela e eu tivéssemos lido um romance juntas . porque não fora possível convencer o pai a ajudá­ -los . como se para evidenciar o meu valor e o facto de ser indispensável . certamen­ te procuraria outras oportunidades de olhar para ela e de lhe pedir. Dedicavam à criação do sapato cinco minutos agora. Não podia crer que . os movimentos mais secretos daquela história de fidelidade violada. Embora os dois irmãos me tivessem incluído . Rino conseguira o couro e a pele através de um amigo que ganhava a vida numa fábrica de curtumes na Ponte de Casanova. de paixão . um filme muito dramático . ela me acompanhas­ se à porta como estava fazendo . me sentiria cada vez menos necessária. como se para afugentar a sensação de asco que aqueles pen­ samentos me causavam. porque Pasquale . mas na verdade fiquei triste . Aliás . em suma. fazendo de mim sua confidente . diante dos meus olhos . porque sabia ser independente . como se tivésse­ mos visto . aos dezanove anos e faltando-lhe ao respeito . e a beijá-lo . pele e ferramentas . depois das nossas conversas intensas sobre amor e poesia. ao passo que eu precisava dela. de canto que se transformara em livro . que poderia ser mais do que o pai . cada vez que puxavam a conversa. prome- . quando já estava na rua. Lila por aquele caminho viria a fazer grandes coisas sozinha. por ela preferir a aventura dos sapatos às nossas conversas . ou melhor. disse-lhe de chofre que ia para a escola secundária. Trabalhavam às escondidas de Fernando . ali na arrecadação da loja e não no salão paroquial ao domin­ go . e a tocar-lhe . Por isso . como eu . porque . Disse-lho à porta da loja.A Amiga Genial 1 03 fez jurar pela minha irmã Elisa que nunca falaria daquilo a ninguém. Senti-me desgostosa pelo desperdício . por ser obrigada a ir-me embora. Fernando mandava Lila para casa e gritava que não queria voltar a vê-la na oficina. Ainda tinha presentes . a namorar com ele em segredo . uma ansiedade pela mulher que so­ fria por amor. e ameaçava Rino de morte . um tipo já crescido .

que tinham chegado primeiro a mim . mais cedo ou mais tarde . ela? Comecei a arranjar-me melhor.» E .» «E mais nada?» «E também grego . O facto de eu ir para a escola secundária num instante perdeu a aura. mesmo que ela enriquecesse a fabricar sapatos com Rino . ou Carmela? Ficaria feia como eu? Cheguei a casa e observei-me ao espelho . Pasquale .» Fez uma expressão de quem se perdeu e não sabe o que dizer. os cabelos muito escuros em desordem. Tornar-se-ia bonita como Pinuccia Carracci . e que . de graça. Quando me encontrei com Lila senti um prazer secreto ao vê-la como andava todos os dias . Portanto agora também ela sangrava. Por fim murmurou . livros usados .» «Grego?» «Sim.pensei . como eu não podia passar sem ela. 13.1 04 Elena Ferrante tendo arranjar-me ela própria. sem que Rino a tivesse chamado . perguntou . Os movimentos secretos do corpo . nunca poderia passar sem mim. e pus a pulseira de prata que a minha mãe me dera.» «E o que vais para lá fazer?» «Estudar. sem qualquer nexo: «Na semana passada apareceu-me o sangue .apercebeu-se primeiro do que eu . Nada a diferenciava da . Fi-lo porque queria que ela percebesse que eu era mais única do que rara. ou Gigliola. e iriam mudá-la. «Uma escola importante que vem depois da escola média. Olhou-me . Um domingo à tarde .» «0 quê?» «Latim. Ele e provavelmente outros rapazes . um vestidinho liso e debotado . à hora do habi­ tual passeio da rua larga até aos jardins . Durante alguns dias não consegui pensar noutra coisa senão na incógnita das mudanças que iriam afectar Lila. um vestido azul com o decote quadrado . já estava a mudar. vesti a minha roupa melhor. perplexa. «0 que é a escola secundária?» . Como era eu realmente? Como seria. também a ela haviam che­ gado como a réplica de um terremoto . voltou para dentro .

Os dedos de Marcello em volta do meu pulso arrepe­ laram-me a pele . A dizê-los a am­ bas . mas não podemos. olhem que Nápoles é grande . uma menina nervosa e descamada. em vez de continuar a con­ versar com Lila. nem o carro . Marcello ao lado . pensando na minha mãe . mas fiz. Fomos até ao jardim. Não devia tê-lo feito . por necessidade de me sentir atraente e afortunada. Disse-lhe o pouco que sabia. Marcello estendeu a mão . disse ele abrindo a porta. e ela ouvia com muita atenção . ainda não havia a agitação dos domin­ gos . Era cedo . «Meu Deus . «Calma» . exclamei . não se cansam de andar para a frente e para trás . Trauteava em dialecto frases do tipo: mas que lindas senhorinhas . Foi num . talvez . onde muito provavel­ mente encontraria rapazes com automóveis mais bonitos do que o dos Solara. tentou agarrar-me outra vez o pulso . Queria que ela se interessasse . Vi que era larga e curta. Miche . A pulseira partiu-se . olha o que me fizeste» . cordial . entrem. e saiu do carro . formas de mulher.A Amiga Genial 1 05 habitual Lila.» Então . meia hora apenas e trazemo-las aqui outra vez . «Vou repará-la. Caminhava do lado da estrada. mas empolando-o o mais possível . caiu entre o passeio e o carro . Este começou a dizer-nos gracejos . Só me pareceu mais crescida. só um centímetro de diferença. nem os vendedores de avelãs e amêndoas torradas e de tremoços . enquanto a sua voz dizia: «Trava. que desejasse ao menos um bocadinho participar naquela minha aventura pelo lado de fora. tão pequenina que era e fizera-se quase tão alta como eu . bonita como vocês . é a cidade mais bonita do mundo . Os cinco dedos saíram da janela e vie­ ram agarrar-me pelo pulso . embora ele fosse um rapaz alto e bem feito . Michele ao volante . já viste que bela pulseira tem a filha do porteiro?» O carro parou . Falava.» Mostrou-se alegre . Lila fez-me de novo perguntas cautelosas sobre a escola secundária. como eu temia sempre perder muito dela. Em vez de continuar a andar como se ele não existisse . Depois o 1100 dos Solara pôs-se ao nosso lado . percorremos de novo o ca­ minho até ao jardim. não só a mim . nem o irmão . e quase a ir para a escola dos ricos . co­ mo se quisesse criar uma familiaridade que me acalmasse . voltámos para trás . Mas o que era essa mudança? Eu tinha o peito grande . voltei-me e disse em italiano: «Obrigada. que sentisse que estava a perder alguma parte de mim . puxei o braço com nojo. ela pelo lado de dentro . ignorando-o .

» Lila desencostou lentamente a ponta da lâmina da garganta de Mar­ cello . 14. dizendo em tom tranquilizador: «Ela não te faz nada. observou-a e reparou-a. mimada. «Muito bem. Tacteou por baixo do carro. olhando não para mim. na minha frente . Uma vez que me ia matricular na escola secundária. . De onde estava via bem que a ponta do trinchete já ferira a pele de Marcello . sua valente» . Senti-me amada. Ainda fazia muito calor. qua­ se divertido . Estava um lindo dia claro e ventoso . «vem cá e vais ver se não tenho coragem. Lila. havia poucos transeuntes. essa puta não tem coragem.» Marcello imobilizou-se . Lila estava encostada a Marcello como se lhe tivesse visto um insecto na cara e lho quisesse enxotar. não por ter medo» . Uma manhã o meu pai levou-me com ele . disse e . Michele saiu imediatamente do carro . Ajoelhou-se no passeio . disse . ele quis que eu soubesse bem que transportes tinha de apanhar e quais as ruas por onde devia ir para me dirigir à nova es­ cola em Outubro . Ele fez-lhe um sorriso tímido . Marce .» Michele deu a volta ao carro . sempre com a mesma calma.1 06 Elena Ferrante ápice . E foi a ela que disse: «Desculpa. disse . encontrou a pulseira. «Entra. e eu comecei a chorar. Entregou-ma. que fazia metade dele .» Depois entrou para o carro e partiram . mas para Lila. Disse com calma. disse Lila. Tenho a cena gravada na memória com nitidez . Michele também percebeu isso . meteu-se no carro . «Um momento» . tinha o olhar desorientado . Fiquei com a mesma absoluta certeza que tive na altura: ela não teria hesitado em cortar-lhe a garganta. como se quisesse pedir per­ dão da forma mais humilhante . empurrou-o contra o automóvel e encostou-lhe o trinchete à garganta. em dialecto: «Toca-lhe outra vez e vais ver o que te acontece . Marce . A s fronteiras do bairro esbateram-se n o decurso daquele Verão . apertando com as unhas a argolinha de prata que se abrira. incrédulo . um corte de onde saía um fiozinho de sangue .» «Vem cá» . pede desculpa às meni­ nas e vamo-nos embora. ao afecto que sentia por ele depressa se juntou uma admiração crescente . «Comecei a chorar por causa da pulseira.

como se quisesse transmitir-me em poucas horas tudo o que de útil aprendera ao longo da sua existência. com a habilidade com que ele falava com o vendedor de pizza a quem me comprou uma pizza bem quente com re­ queijão . era assim desde sempre: corta-se . com o ar de festa por todo o lado . o Asilo dos Pobres . o teu papá e aquele ali . Seria possível que só o nosso bairro estivesse cheio de conflitos e violência. dom esse que no bairro e em casa escondia. Levou-me pelo Corso Garibaldi . estava mais afeiçoado a ela. não me re­ cordo de mais nenhum. o rapagão . dizia ele . em Nápoles há dois verdadeiros machos . ou um eléctrico . que vinham japoneses do Japão de propósito para estudá-la e fazer uma idêntica no país deles.A Amiga Genial 1 07 Conhecia muito bem a enorme extensão da cidade . Reparei que repetia muito «tudo em ordem?» . sobretudo os pilares . à Via Toledo . abrir portas . Nápoles . Disse-me que também ali tudo fora renovado . nos escritórios . a única coisa velha é o Maschio Angioino . Dedicou-se muito a mim. até ao edifício onde era a minha futura escola. com as vozes. podia acelerar processos . e com o vendedor de fruta a quem me comprou um pêssego muito amarelo . Levou-me à Via Costantinopoli . parte-se . sabia onde se apa­ nhava o metropolitano . Tratava toda a gente com familiaridade . tinha o dom de se tomar simpático . cumprimentou este e . Fiquei assoberbada com os nomes . e o dinheiro corre e gera trabalho . a Via Foria. enquanto o resto da cidade era radioso e benevo­ lente? Levou-me a ver o sítio onde trabalhava. Tratou do necessário na secretaria com extrema simplici­ dade . o Museu . Mostrou-me a Piazza Cario III . ou um autocarro . Vejam agora quanto espaço . Dizia que ela era tão modema. Mas confessou-me que gostava mais da estação anterior. mas é bonito . as árvores todas cortadas e rachadas . Mostrou-me a Piazza Garibaldi e a estação que estava a ser construída. com as cores . Paciência. com o barulho do trânsito . ou «faz-se o que se pode fazer» . com o esforço de guardar tudo na memória para depois contar a Lila. como logo desco­ briu . e arranjava sempre maneira de dar a conhecer ao interlocutor que trabalhava na câmara municipal e que . que em casa quase nunca tinha. que era na Piazza Municipio . Gabou a minha extraordinária caderneta escolar a um contínuo cujo padrinho de casamento conhecia bem. Na rua mos­ trava-se muito sociável e de uma cortesia dócil. se quisesse . o único nas nossas vidas . o Jar­ dim Botânico . à Port' Alba. Passámos o dia inteiro juntos . à Piazza Dante . e depois volta-se a fazer. nos transportes públicos . Fomos à câmara.

mesmo que não tivesse estado presente . Contei a Lila tudo sobre as ruas . o vento cortava a respiração . cheio de luz e de fragor. eu ter-me-ia imiscuído com um contracanto indis­ pensável . Dirigimo-nos para a Via Caracciolo. imensas coisas . ter-me-ia sentido . cada vez mais sol . embora absorvesse muito daquele espectáculo . aos pés da qual se amontoavam as pedras esbranqui­ çadas da cidade . Na verdade apetecia-me largá-lo . nós duas com aquela capacidade que juntas . correr. e o mar. o II 00 dos Solara estaciona­ do em frente do bar. atravessar a estrada. os seus nomes. Foi um momento inesquecível. O meu pai apertou-me a mão como se receasse que eu me escapulis­ se . e que agora eu pagaria sei lá o quê para que desa­ parecesse da face da terra. deixar-me atingir pelos estilhaços brilhantes do mar. era muito conhecido . apenas está bem. de ruídos . Eis no­ vamente as ruas conhecidas . Naquele momento tão tremendo . ruidoso . juntamente com uma pequena multidão que apre­ ciava o espectáculo . sim. afastar-me . e. o fragor. e o mar. Enzo a vender fruta. colava a roupa ao corpo e levantava os cabelos da fronte .apenas juntas - tínhamos de pegar na massa de cores . eu e Lila. vencedora: eu . As ondas rolavam como tubos de metal azul . exposta à fúria inconstante das coisas mas . de certeza. com um «oh ! » de espan­ to e temor de todos os que observávamos. o senhor manda e eu faço . de coisas e pessoas . Senti-me atordoada pelas fortes rajadas e pelo ruído . Com alguns foi jovial . Ainda bem que ninguém fora contar a Rino aquilo que acontecera. Que pena Lila não estar ali . Estava muito agitado . e expressá-la por palavras e dar-lhe força.108 Elena Ferrante aquele . Se fosse ela a fazer o relato daquele dia. com a vida inteira pela frente . Mas de repente senti-me desconsolada. se espalhavam em volta sem se deixarem captar. com outros foi quase mudo . Por fim anunciou-me que me ia mostrar o Vesúvio de perto . Mas que mar. fiz de conta que estava só no novo da cidade . Depois quebravam-se em mil estilhaços cintilantes e chegavam até à estrada. Ficámos do outro lado da estrada. repetiu pela enésima vez que eu na escola tivera nove em italiano e nove em latim. a luz ex­ traordinária. er­ guendo ao alto a clara de ovo da espuma. Tinha a impressão de que . Regressei ao bairro como se tivesse ido a uma terra distante . o perfil cor de terra do Castel dell ' Ovo . eis novamente a charcutaria de Stefano e da sua irmã Pinuccia. O Vesúvio era uma forma deli­ cada de tom pastel . nova eu também. apresentou-me . demasiadas . cada vez mais vento . Ainda bem que a minha mãe nada soubera do episódio da pulseira.

Com os ouvidos ouvia-me . mas sobretudo ao seu trabalho secreto . eu . com a mente . que acabava de comprar a Giardinetta e levava a seu lado a mãe .A Amiga Genial 1 09 viva e activa. a Pasquale . e às vezes Rino . e a princípio pensei que assim fizesse por maldade . Só faria caso daqueles espaços se lhe surgisse a oportunidade de lá ir. não fazia distin­ ções de idades . Mas tive de convencer-me de que não era assim. e ela. o bonito filho de dom Achille . acompanhava com todos . porque iria enriquecer-lho . que tinha o peso da mãe . Ao passo que ela se limitou a ouvir-me sem curiosidade . nos dias de festa. sem dúvida. Michele fazendo de conta que não nos via. Quando o dia estava. teria tentado demonstrar-lhe que devíamos fazer esse percurso juntas . naquele momento era apenas um conjunto de sinais inúteis de espaços inúteis . a Stefano . a Melina. ela disse apenas: «Tenho de dizer ao Rino que temos de aceitar o convite do Pasquale Peluso para domingo . bom iam à praia. num dos prédios do bairro . a que se aplicava para ir para a frente com o projecto dos sapa­ tos . estava solidamente ancorada à rua. os grandes e os mais pequenos . depois de eu ter falado tanto . O meu relato . enquanto Ada tentava arrastá-la para casa. para evitar discus­ sões com os meus pais . à espera dos amigos . e no banco de trás a irmã Pinuccia. enquanto Marcello não se esquecia de nos deitar um olhar cordial . e .» Ora aí está. Melina . Gigliola. Era um rapaz generoso . Lamentei . eu a falar-lhe do centro de Nápoles e ela a pôr no centro a casa de Gigliola. levantado questões . que agora queria que lhe chamassem Carmen . teria feito perguntas . necessaria­ mente . para ela. de longe . E de facto . mas com os olhos . e Carmela. Tínhamos sempre aceitado os convi­ tes de Peluso . que se alimentava de coisas concretas . que andava a passear com Alfonso e Carmela. onde Pasquale nos que­ ria levar para dançar. que os Solara tinham metido no carro e levado sabe-se lá para onde durante uma boa hora. no entanto nunca lá tínhamos ido . às escondidas do pai . como um livro ou uma fonte . e Antonio . porque Rino era contra . a Gigliola. a Marcello e Michele Solara que iam a passar no seu 1100. Mas víamo-lo muitas vezes . Geralmente esperava j unto à bomba de gasolin a e pouco a pouco iam chegando Enzo . para tirar força ao meu entusiasmo . todo asseado . que falava de Donato Sarratore em voz alta. ela simplesmente tinha uma linha de pensamento muito sua. que nos fazia adeus dos andaimes da obra. e se Melina estivesse calma vinha também a sua irmã Ada . seria uma companhia muito melhor do que o pai dela. às poucas plantas dos jardins. se não tivesse mais nada que fazer.

fazendo de homem. como pro­ fessor depressa se enervava. porém. A princípio fez-nos dançar com os pés sobre os dele . revelaram-se óptimos dançarinos . me entregou o manual de dança e voou pela sala com ele . gramofone . e aplaudia os pares mais acertados . a polca. rodopiávamos pela casa. e ali . a valsa. Também quis dançar. espreitava um livro esfrangalhado intitulado Gramática Grega . duvidosa. e não grego . Ou então . estudando-nos . Apareceu Rino . Tanto Pasquale como Rino . Mas entretanto vi que debaixo de Guerra e paz. gramofone . mesmo sem terem gramofone . Sem mais nem menos agarrou-me pela cintura e. dava a impressão de que o seu divertimento consistia só em aprender. quase sem fôlego: . e nós aprendemos com eles o tango . O que dissera ela? Gramofone era italiano . e depois . para minha sur­ presa. Enquanto dançávamos .» Olhei-a. Gramática. cujos pais eram mais toleran­ tes do que os nossos . uma exuberância surpreendente nela. estreitando os olhos: «Sabes o que essa palavra é?» «Não . que deu um grito suave . a mazurca. que desatou a rir ao ver-nos . é bom que se diga. embora sem música. Lila começou a puxar-me para aquelas festarolas . primeiro comigo e depois com a irmã. dera-lhe o interesse pela dança não sei como . com aquele seu ar de quem quer perceber bem como se faz .1 10 Elena Ferrante voltavam com a cara vermelha do sol . Descobri que gostava muito de dançar. Mas assim que ele disse aquela palavra . e cada movimento era explicado com desenhos de homens e mulheres a dançar. Uma vez que fui a casa dela mostrou-me um livrinho que trouxera da biblioteca. ao passo que Pasquale era muito paciente . obrigou-me a dançar o tango . quem sabia dançar dançava. e quem não sabia dançar aprendia. apetecia-me dançar sempre . Lila.gra­ mofone . onde estava escrito tudo sobre os passos de dança. trauteando a música. Grega. Ouvi que ela me prometia. contou-me que Lila apanhara uma tal mania do perfeccionismo que o obrigava constantemente a exercitar-se. para aprendermos bem os passos . tanto que muitas vezes ficava sentada a olhar. principalmente com a irmã. o que era mais fre­ quente . Rino entretanto largou-me e começou a dançar com a irmã. reuniam-se em casa de Gigliola. Rino .Lila gritou-me de um canto da sala.» «Grego . quando já estávamos mais experientes . Andava muito alegre nesse tempo . com uma etiqueta da biblioteca do professor Ferrara . Pousei o manual ao pé dos outros livros .

acertavam bem. que era tempo de férias? Fazia sempre as coisas que eu havia de fazer. e de uma maneira ou de outra sentir-me diminuída. o longo pescoço mostrava-se com uma nitidez enterne­ cedora. Apareceram-me mais furúnculos . Mas não consegui . Tomara-se sinuosa.A Amiga Genial 111 «Depois escrevo-te gramofone em letras gregas . pensei . não podia passar o meu tempo a segui-la ou a descobrir que ela me seguia. Sentia-me frágil . quando eu ainda nem pensava em tal coisa. andavam à procura de uma nova orques­ tração e pareciam prestes a encontrá-la. as maçãs do rosto . Quis que eu aprendesse também aquele alfabeto antes de ir para a escola. fui logo procurá-la. tornozelos de menina. As costas faziam uma curva profunda antes de chegarem ao arco cada vez mais firme do traseiro . Uma vez Lila exibiu-se numa valsa com o irmão . la aos bailes em casa de Gigliola com uma sensação permanente de inferioridade e de vergonha. exposta a tudo . Fui à biblioteca buscar uma gramática grega. Talvez eu devesse apa­ gar Lila de mim como se fosse um desenho no quadro . fiquei zangada. Os tornozelos ainda eram ma­ gros de mais . Esperei que passasse . Deixei que me mostrasse que sabia escrever todas as palavras italianas com o alfabeto grego .» Disse que tinha que fazer e fui-me embora. 15. Deixei que me ensinasse como se fazia a quadrilha. Começara a estudar grego ainda antes de eu ir para a escola secundá­ ria? Fizera-o sozinha. primeiro e melhor do que eu? Fugia de mim quando eu a seguia. de dia para dia mais visíveis . e obrigou-me a escrevê-lo e a lê-lo . Eram bonitos . e foi . os lábios . Fiquei encantada. mas entretanto ia na minha peugada para me passar à frente? Tentei não me encontrar com ela por uns tempos . creio . Olhando para eles compreendi perfeita­ mente que ela em breve perderia o seu ar de menina-velha. Quando se penteava com o rabo-de-cavalo . a primeira vez . Dançavam tão bem juntos que deixámos o espaço todo para eles . mas quanto faltaria para se adapta- . A fronte alta. os grandes olhos que se estreitavam de repente . do mesmo modo que se perde um tema musical muito conhecido quando é adapta­ do com demasiada imaginação . as orelhas . mas a inferioridade e a vergonha intensificaram­ -se . mas só existia uma e fora emprestada por turnos a toda a farm1ia Cerullo . e no Verão . o nariz pequeno . O peito tinha uns pequenos pomos graciosos .

como se as outras tivessem desaparecido . para quem o ouvia. 16. em qualquer lugar secreto de mim. Na presença dela atrapalhava-se . mas para todos . movimentos provocantes . mas também Antonio e tam­ bém Enzo . com sor­ risos incertos e aplausos exagerados . que a observava desde que andáva­ mos na primeira classe . Mas se era o meu lado infantil que desencadeava aqueles pensamentos . repetia amiúde uma frase que lhe dava prazer: basta pouco . para eu mijar na cara dos Solara. para quem o via. feições regulares . No entanto Carmela tinha uns olhos lindos e . pernas perfeitas . O corpo em mutação de Lila começara a emanar qualquer coisa que os machos sentiam. como o som já próximo da beleza que se avizinha. um bocadi­ nho de sorte . Lila era má. E de facto . trouxesse consigo a irmã. que emanava de Lila um fluido que não era apenas sedutor mas também perigoso . para uma pizza . gradualmen­ te tomou-se claro não só para mim. Também ele me parecia estar a mudar. contemplando-a enquanto dançava com Rino . Primeiro que todos Pasquale . Foi preciso que a música se interrompesse para eles voltarem a si . Apercebia-se de que Lila o olhava de mau modo . No entanto Gigliola tinha uns cabelos loiros deslumbrantes . como ele . nas saídas em grupo fora do bairro . queria ter o seu espaço . No final do Verão começaram a aumentar as pressões sobre Rino para que . Tinham os olhos postos nela.1 12 Elena Ferrante rem à sua actual figura de rapariga? Tive consciência de que os rapazes . porém. o certo é que havia neles um fundo de verdade . o efeito não era dos melhores . Lila despertara nele a fantasia e as esperanças . esboçava algumas frases . contudo . essas suas capacida­ des pareciam-me agora de pouca importância. viam ainda mais coisas do que eu . uma energia que os atordoava. um vocábulo exagerado que me vinha das histórias da infância. Era o que eu continuava a pensar. Dizia para comigo: há-de libertar alguma coisa ainda mais malvada. Mas . para um passeio . Tomara-se mais fanfarrão . não perdia uma oportuni­ dade de aludir a como era hábil no seu trabalho e que iria ficar rico. Rino . sobretudo . No entanto eu tinha mais peito . e recorria à palavra malefí­ cio . Mas não havia nada a fazer. mas depois continha-se . Já me mostrara que sabia ferir com palavras e também que seria capaz de matar sem hesitação . Mas para dizer essas gabarolices era indispensável que a irmã não estivesse presente .

outros faziam-lhe um gesto que significava: o que queres? De vez em quando puxava por ela. Mas se tinha ido . Mas a certa altura o tipo que fazia a pizza . um homem dos seus trinta anos. disse-nos que o homem que fazia a pizza . Antonio . sentimos o fedor a peixe estragado por causa do calor. Pasquale . imagine-se. Virámo-nos todos para olhar para ele . das tascas de fritos . para os rapazes . fomos sair (Rino veio generosamente assumir perante os meus pais a responsabilida­ de pela minha pessoa) . «Pára com isso» . rapariguinhas . sempre a rir: «É verdade . começou a fazer voltear a pizza no ar enquanto a amassava. que olhava para ele admirada. com uma risadinha nervosa a contrastar com o sorriso generoso de Pasquale . Mas Pasquale perguntou a Lila. demorava-se a olhar para um engraxador. soprando-o na ponta dos dedos. «Não estou a fazer nada» . parecia velho . tenho a certeza de que não me contara. respondeu: . e por isso preferia não a ter por perto . arrastava-a atrás de mim com medo de nos perdermos de Rino. Um domingo. Quis-me parecer que Antonio me cortejava um pouco .A Amiga Genial 113 estivesse a trair u m pacto secreto de compostura. de modo que alguns riam-se . mas ela fica­ va para trás . Mas as coisas agravaram-se . Esgueirava-se para se ir exibir como um pavão junto dos amigos . já bastava estarem todo o dia a trabalhar juntos na sapataria. de distanciamento . era pai de filhos com certeza . Fixava as pes­ soas com muita atenção . comemos com alegria. olhava-lhes directamente para a cara. vencendo a sua timidez . Mas por vezes tinha de se sujeitar. Estava ocupado com o seu trabalho e mais nada. Pasquale. à noite. e fiquei contente . Não me recordo se Lila já tivera alguma oportunidade de ir ao centro . para uma mulhera­ ça toda pintada. Vimos a cidade iluminada pelos anúncios luminosos . ou estou enganado?» Lila. tinha aliança no dedo . disse-lhe Rino . Do que me recordo bem é que daquela vez se manteve totalmente muda. para os homens escuros .que para nós . Nessa noite fomos a uma pizzeria do Rettifilo . dos bares-pastelarias muito mais bem abastecidos do que o dos Solara. com uma habilidade excessiva. respondeu ela.atirara às escondidas um beijo a Lila. mas também o perfume dos restaurantes . e trocando sorrisos com Lila. Carmela e Ada. isso equilibrava as atenções de Pasquale com Lila. esforçando-se para olhar para outro lado . após muitas discussões com os nossos pais. a rir. Atravessámos a Piazza Garibaldi . as ruas apinhadas . com o irmão ou com outros .

um homem forte . quase nunca lhe dirigiam as obscenidades que habitualmente nos reservavam. onde nos sentámos à mesa de um bar porque Pasquale . peque­ no e pálido . e que agora não haveria mais problemas . Mas Peluso levantou-se . Carmela. À nossa frente estava uma farru1ia a comer gelado à mesa. bonitas . como se estivesse envenenada. e Pasquale explicou-lhe com calma que não era preciso preocupar-se . que naquele tempo se comportava como um nababo . ela parava. ela retribuía o olhar. sobretudo Carmela. mãe e três filhos . intrigada. com idades entre os doze e os sete . foi ao balcão do fomo . bonitinhas . quis oferecer um spumone a todos . E quando saímos Rino deu um grande raspanete a Lila. Uma tarde de fim de Agosto fomos até à Villa Comunale . Parecia gente res­ peitável . que se limitara a fazer compreender ao seu empregado uma coisa que era pouco clara para ele . terminando com uma ameaça: continua assim e nunca mais te trago . Até porque . Se alguém lhe dizia qualquer coisa. Por fim. como nós : pai . o homem. olhou em volta e . O dono do estabelecimento . tinha ar de profes­ sor. Ir passear com ela ao domingo tomou-se um motivo de permanente tensão . feias . Pascà» .tínhamos aprendido instintivamente a manter os olhos baixos . Mas aquele senhor . um homem na casa dos sessenta. enquanto à nossa mesa o nervosismo de Rino .1 14 Elena Ferrante «Eu não vi nada.» «Deixa estar.não conseguia tirar os olhos dela.desta vez todos nós reparámos . Acontecia assim no bairro e fora dele . Se alguém olhava para ela. Acabámos de comer a pizza em silêncio . O que é que se passava? Na rua. Lila. e Lila. e por vezes respondia. O pai . os homens com quem nos cruzáva­ mos olhavam para todas nós . .principalmente depois do incidente com os Solara . Pasquale e Antonio cres­ cia. dos seus cinquenta. embora tentando controlar-se . como se não acreditasse que estavam a falar com ela. a fingir que não ouvíamos as porcarias que eles nos diziam e seguir em frente . com o seu sorriso cândido nos lábios . deu uma bofetada na cara do ho­ mem . E posso jurar que Lila não trazia nada que desse nas vistas: não pusera bâton e as roupas que vestia eram as mesmas de sempre. acorreu imediatamente . e eu própria . e Ada. com dentadas lentas . não . atirando-o contra a boca do fomo . de olhos baixos. fulminando a irmã com o olhar. correspondia ao olhar como se não se capacitasse de que estava a ser admirada. e não tanto os jovens como os homens feitos . evidentemente sem se dar conta do risco que corria. disse Rino . Mais vistosas estávamos nós . perplexa. que a mãe lhe fazia. coisa fora do normal .

Veio gente que às nossas festarolas de jovens nunca teria vindo . disse: «Vocês são afortunados. parou na frente de Lila e . na mesma escola que eu) e até trocou algumas palavras com Carmela. Peço desculpa. Também lá estavam Pasquale e Carmela Peluso. considerando todos os habitan­ tes do bairro potenciais clientes que iriam gastar dinheiro na sua loja. mas já disse isto à minha mulher e aos meus filhos . bolos de amêndoa. e senti necessidade de o dizer também a VÓS . muito colorida. fez-lhe uma vénia discreta e ia regressar à sua mesa quando Rino o agarrou pelo colarinho . Pinuccia estava sobretudo contente por ter ido a uma festa.A Amiga Genial 115 levantou-se . se bem me lembro) . virava a . Por exemplo . Stefano percebera precocemente que o comércio se baseia na ausência de discriminações . quase a entrar para a secundária como eu . Geralmente abria o seu bonito e simpático sorriso para toda a gente . pãezinhos de cassata . A mãe de Gigliola. Por exemplo Maria. Alfonso era um rapaz simpático (também ia para a secundária. um só instante que fosse . se via a senhora Peluso . e Antonio puxou Rino dali para fora. Gino . os filhos do assassino de dom Achille . O homem por sua vez sorriu . mas a adesão em tomo de Lila de tensões de proveniência diversa. e tam­ bém Stefano . Maria. foi tudo feito em grande: havia profiteroles em abundância. por isso limitou-se a evitar cruzar. o seu olhar com o de Pasquale . que . o sentou à força e . com o filho Alfonso e a filha Pinuccia. Por exemplo . por regra. Estas últimas presenças de início causaram grandes tensões . no dia do santo do seu nome (chamava-se Rosa. a mulher gritou metendo-se no meio . o professor Ferraro e a sua numerosa farm1ia. dos mais corriqueiros aos da última moda. dirigindo-se educadamente aos rapazes . descarregou sobre ele uma série de insultos . diante da mulher e dos filhos . pastéis folhados . deu uma festa com pessoas de todas as idades . o farmacêutico com a mulher e o filho mais velho . bebidas para crian­ ças e discos de música de dança. o fez percorrer a distância a correr. Mas depois tudo se compôs da melhor maneira. O homem zangou-se . Mas o pior aconteceu uma vez que Rino não estava. Têm aqui uma rapariga que virá a ser mais bela do que uma Vénus de Botticelli . como os dizíamos no bairro . Como o marido era o pasteleiro da pastelaria Solara. licores . Mais um domingo estragado . O que me espan­ tou não foi o facto em si .» Lila desatou a rir devido à tensão nervosa. pois sacrificava-se a trabalhar diaria­ mente na charcutaria. a viúva de dom Achille .

e ela tomara a crítica como um desafio e insisti­ ra em treinar-se sozinha. e que andava em todas as estações . naquela noite decidiu tam­ bém. perfeccionista como era em todas as coisas . e em casa de Lila. ao domingo . com o meu irmão Peppe . Olhou­ -o com gratidão e entregou-se à música. chegara a dizer-lho . que uma vez lhe oferecera uma coroa de sorvas . Mas no seu rosto de loiro em que tudo era claro . É claro que já sabia dançar o rock and roll. para minha satisfação . Eu . ao longo dos anos era como se tives­ se sido absorvido por um organismo de baixa estatura mas forte . pela qual todos . Ela respondeu: porque ainda não sei dançar bem esta mú­ sica. e . manter uma conversa. Mexia-se de modo um pouco ridícu­ lo . havia ainda um res­ quício do menino rebelde de quem tivéramos de nos defender. Lila também não me parecera muito em forma. tanta era. dos velhos às crianças . Aquilo que mais contribuiu para diluir as tensões foi o facto de termos começado a dançar sem demora. Via-se bem nas suas feições que se levantava antes de alvorecer. sobrancelhas e pestanas loiras . ficar de fora. De aspecto parecia mais velho do que Rino . a meu lado . que tinha de lidar com a camorra do mercado de fruta e hortaliças . O garoto que nos atirara pedras . não reagiu . que se alguém lhe tocava sem ela permitir saltava para o lado como se lhe tivesse picado uma vespa. não teria passado pela cabeça de nenhuma de nós trocar piadas com ele . No resto . evidentemente . Enzo era de poucas palavras mas tranquilas . Mas a certa altura Enzo aproximou-se dela. decidi ficar a olhar. o rock and rol!. já o dançara muitas vezes em casa. Mas . todas em dialecto . Foi ele que tomou a iniciativa. Ele ficou calado . que de todos nós era o que tinha mais idade . mas sentia-me muito desajeitada para aqueles movimentos rápidos e ágeis . Aliás . Mas quando pu­ seram a tocar outro rock and rol!. uma vez que Rino se recusava a dançá-lo . a algazarra aumentou e ninguém fez caso de mais nada. ti­ nham grande curiosidade . com frio . ignorou por completo os dois jovens e tagarelou muito tempo com a mãe de Gigliola. pegou-lhe num braço com naturalida­ de e levou-a para o meio da sala. a vender fruta e hortaliça com a carroça. calcor­ reando as ruas do bairro . Lila. que de surpresa competira com Lila em aritmética. a vontade que tinha de dançar. retirei-me para um canto . com ela. olhos azuis . habi­ tuado ao trabalho duro . a ver como Pas­ quale e Carmela Peluso dançavam bem. encalorada. debaixo de chuva. . embora de má vontade . e depois disse: eu também não .1 16 Elena Ferrante cara para o outro lado . Perguntou a Lila porque não dançava. Primeiro foram as danças tradicionais e depois passámos para uma nova dança.

E ela. Lila deu um saltinho gracioso de consentimento e bateu as palmas . Stefano . como se ti­ vesse perdido o pouco tino que tinha. disse­ ram qualquer coisa ao ouvido um do outro e Michele fez um visível sinal de concordância. Nessa altura Michele Solara. deitaram um olhar carregado a Ada. A agulha raspou o disco .até Stefano . parecia não estar zangado por causa da cena do trinchete . Me­ xia-se pouco . de modo sério e compassado . pretendia claramente dar-lhe prazer. conseguiu como sem­ pre captar a atenção de todos . pensei desolada. ou pelo simples gosto de armar desordem. embora não fosse tão exímia como Carmen . que agradava a todas . Bastou-me vê-los para ficar agitada.reparei imediatamente . Stefano e Marcello avançaram ao mesmo tempo para convidá-la para dançar.Marcello . Em poucos segundos foi completamente cativado pelo corpo flexível e ele­ gante de Lila. Olhou para ela o tempo todo como se olha para uma diva no cinema. Quatro homens de idades variadas moveram-se ao mesmo tempo na direcção daquela figurinha de rapariga de catorze anos . ou por amor ao irmão . Foi mesmo isto que se passou . dada a excelência do dançarino . que desviou o olhar. chegaram os irmãos Solara. Aconteceu tudo num ápice . Enzo tentou impelir Lila para o canto onde eu estava. Não os perdi de vista e não foi preciso muito para perceber que . ela imediatamente se desenfreou . mas estava muito atento a Lila. duvidosos . Pasquale começou a dançar com Lila e . justamente quando Lila estava a dançar com ele . pelo seu rosto fora do comum para o bairro e talvez para toda a cidade de Nápoles . Continuou a olhar para ela mesmo quando a música terminou . depois segredaram. por fim repararam em Lila. Mas . Foram cumprimentar o pastelei­ ro e a mulher. Muito pelo contrário .A Amiga Genial 1 17 Viu-se imediatamente que Enzo não sabia dançar grande coisa. Até Enzo gosta dela. deram uma palmada amigável a Stefano e depois puse­ ram-se também a observar os dançarinos . mas Pasquale antecipou-se-lhes . so­ bretudo Marcello . Deu uma cotovelada a Stefano e disse-lhe em voz alta: .. o dono da charcutaria. Nunca mais tirou os olhos dela. feliz . a música começou . Marcello e Enzo recuaram. permitir que ela se exibisse . do seu poder abso­ luto . à maneira de donos do bairro . indicaram um ao outro Anto­ nio . que era o que se sentiam. e fizeram-lhe um gesto de saudação exagerado que ele fingiu não ver. fixaram-na durante muito tempo . decidiu complicar a situação à sua maneira. Primeiro . cada um deles convencido . de modo diferente . E .

118 Elena Ferrante «Mas tu tens sangue na guelra. e ele em voz baixa mandou-a calar. sabia como o detestava. olhei para Enzo . Eu disse-lhe: . como se a seguir não existisse um braço e todo o cor­ po dele . Pasquale . A charcutaria ia de vento em popa. recomeçou a fazer o que naquele momento mais contava para ela: dançar. Esperámos que acontecesse qualquer coisa. e ouviu Stefano . com a vontade de dançar em cada músculo . ele planeava comprar um espaço ao lado para ampliá-la. disse Michele ao irmão . Tinha a certeza de que ela lhe diria que não . Olharam os dois de través para Michele Solara. baixando-a. Carmela pro­ testou em voz baixa. a mãe de Gigliola deu o braço a Pasquale cordialmente . que dançava com Lila. sentia-se afortunado . apontava para Stefano . Michele fez um trejeito de desagrado e foi à procura do pasteleiro e da mulher. Mas não foi assim que aconteceu . Disse a Mi­ chele . falou com Pasquale . ou não? Aquele é o filho do homem que matou o teu pai . ele dança bem» . apontava para Pasquale que estava a dan­ çar. puxando-a. A música terminou . Alfonso e Pinuccia. a rir. que estava ao pé de mim. como se a única coisa que lhe importasse naquele momento fosse ela. Olhei para Stefano . levou-o para um canto e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido . porque a música estava alta e ele es­ tava ocupado a fazer acrobacias com Lila. Antonio apro­ ximou-se deles . E Mar­ cello Solara voltou à carga com Lila. Depois An­ tonio foi buscar Ada à zona de dança. naturalmente . Estava tudo sob tensão . mas não aconteceu nada. A música recomeçou e ela. é um comunista de merda. elevando-a. «Vai» . ou seja. não o vendo . com o seu sorriso encantador: «Deixemo-lo dançar. e ficas aqui parado a vê-lo dançar com a miúda com quem tu querias dançar?» Pasquale de certeza não ouviu . e para Marcello . depois . apontava para Carmela que se exibia com Antonio . apontava para o canto onde estava Maria. primeiro procurou Pasquale com o olhar. Enquan­ to o coração me batia de ansiedade . a transpirar. Lila voltou para o pé de mim. O que queria ele fazer agora? Vi-o a falar com os donos da casa de modo agitado . e . que conversava de novo com Stefano . Assim que a música acabou . e continuou a olhar para Lila. sisudo . ou mesmo certo de que a vida lhe daria tudo o que desejava. e ouviu Enzo . agarrou a mão de Marcello como se fosse apenas uma mão . Mas eu ouvi . Stefano era um rapaz atilado . «O caminho está livre» . aproximou-se de Carmela e disse-lhe qualquer coisa com modos bruscos .

é melhor irmo-nos embora. dizendo: «Só mais uma dança. Pasquale veio até junto de mim e disse-me . Encaminhei-me para a porta sem esperar mais . que estava encostado a uma parede . dizendo-lhe .» Enzo desencostou-se da parede e agarrou o pulso de Marcello sem dizer uma palavra.A Amiga Genial 1 19 «Passa-se qualquer coisa. que soltou Lila com um esgar de dor e agarrou imediatamente o pulso com a outra mão . «Esperemos que a Lila termine esta dança. viste? A mim . Devo ter revelado tanta angústia na voz que ela finalmente olhou em volta. Estava calmo . parecia não estar a fazer o menor esforço . como se tivesse acordado . Voltei-me para ver o que Enzo fazia. e bateu-lhe com força com o ombro . mas Marcello agarrou-a com força. eu levo-te a casa. mas ele continuou encostado à parede a ver Lila dançar.» «Não .» Seria possível que não se tivesse apercebido de ter dançado com Marcello duas vezes? É possível . parecia-lhe impossível ele estar a tocar-lhe com tanta confiança. disse ele num tom que não admitia respostas . que tí­ nhamos de nos ir embora. e por Antonio que puxava por Ada. Tentou libertar o braço . A força do aperto só se revelou no rosto de Marcello Solara. Ainda bem que o Rino ali não estava. «Está bem. como se só então o reconhecesse .» Ela riu-se e exclamou: «Vou dançar mais uma música. . entre o riso e a súplica: «Fica. imediatamente» . a música recomeçou . e olhou para Enzo. Marcello Solara agarrou Lila por um braço . perplexa. olhou-o incrédula. Se o fizer mais alguma vez . cujos olhos brilhavam de satisfação . enervada.» Lila. Mas entretanto . indelicado . ouvi Lila dizer indignada a Enzo . duro . Depois foi de encontro a Michele Solara. Lila dirigiu-se para mim seguida por Marcello . A música terminou . seguido por Carmela. O outro riu-se e disse-lhe qualquer obscenida­ de entre dentes . vamos» . Marcello convidou-a mais uma vez e ela deixou-se arrastar de novo pela dança. quase gritei . «Temos de nos ir embora» . Enquanto nos dirigíamos para a saída. com ar sombrio . nem que venha um terremoto» . é um homem morto . em dialecto puro: «Tocou-me . e apesar de ser mais novo e mais baixo . relutante . Ainda estou a vê-lo . disse . aquele merdoso . Pasquale dirigiu-se para a porta da casa. ela era assim mesmo .

voltando-se para Lila. repeti­ ram várias vezes a Enzo . também Antonio começou a gritar.o que me perturbou ainda mais . e lágrimas desespe­ radas . resolvo o assunto dos Solara noutra altura. Dizia que dom Achille fora espião dos nazi­ -fascistas . vemo-nos ama­ nhã. tu até foste dançar com aquele pulha. em tom resignado: «Pronto . Antonio . mas também frisámos que o melhor era fazer de conta que não existiam.1 20 Elena Ferrante Lá fora encontrámos Pasquale . Enzo tentou convencer-nos a todos a sair da rua. Dizia que o bar Solara sempre havia sido um lugar de camorristas usurários . segundos depois . e depois apago também da face da terra Stefano e o resto da farm1ia. eu e Lila demos-lhe logo o braço e arrastámo-lo dali . também fico. Tinha raiva a Michele . dizia que o dinheiro com que Stefano desenvolvera a charcu­ taria fora ganho pelo pai no mercado negro . fingindo calma: «Vai tu . mas sobretudo a Marcello e Stefano . Pascà? Quem são os monárquicos? O que é o mercado negro?» . Enfurecidos . e quase parecia que estava zangado com Pasquale . pai e filhos .» Nesse instante . Dizia coisas que nós não tínhamos elementos para compreender. com olhos de louco . dos monárquicos . Pasquale estava fora de si .» E gritava: «Os Solara. Carmela e Ada.» E por fim gritou . que eu ainda nunca tinha visto chorar. como se a fúria de Pasquale lhe tivesse bombeado fôlego para o peito . sim. Mas Pasquale e Antonio calaram-no . Mas Pasquale só amansou quando viu Lila a chorar. vamos . Éramos já quatro raparigas lavadas em lágrimas . Depois Lila perguntou . «Vamos dormir» . debulhou-se em lágrimas também. nunca o tínhamos visto assim. encarrego-me eu de lhes cortar as goelas . que era a base para o contrabando e para recolher os votos da Estrela e Coroa. E Ada começou a chorar e Carmela não conseguiu conter-se mais. como se fosse a coisa mais grave: «E tu . enxugando as lágrimas com as costas da mão: «Quem são os nazi-fascistas . Gritava: «Ü meu pai fez bem em matá-lo.» Nesse momento fui eu que desatei a chorar e . Dissemos-lhe muito mal dos Solara para o consolar.» Por entre soluços . esta noite não . disse . foi Lila. e não havia maneira de o acal­ mar. por aquilo que haviam feito a Ada. vai . porque queria privá-lo de uma ale­ gria: a alegria de ser ele a matar os Solara. Disse . gritava a plenos pulmões .. queriam ficar para enfrentar os Solara. Gritava insultos .» Então Enzo disse baixinho: «Se vocês ficam.

de tal forma que até ao final do Verão me massacrou com uma única ideia. Quando saíamos indicava-me as pessoas . à sua maneira habitual . a guerra. aquele denunciou uma quantidade de pessoas . completou as insu­ ficientes informações dele com alguns livros que encontrou na bibliote­ ca. a usura. evidentemente . rostos . o sapateiro . ficou transtornada e alterada por causa disso . a república. este automóvel foi compra­ do com a venda de carne estragada e pão contendo pó de mármore no mercado negro . E assim deu motivações concretas e rostos comuns ao clima de tensão abstracta que desde pequenas havíamos respirado no bairro . Em linguagem de hoje. sobre esta pedra marcharam e fizeram a saudação romana. o pai Silvio . todos . o con­ trabando . a monarquia. tentarei resumir assim: não há gestos. O fascismo . palavras . todos aos seus olhos manchados até ao tutano por culpas tenebrosas . dizia-o de outra maneira. casas . elas não ti­ veram qualquer efeito concreto . até porque sobre mim.A Amiga Genial 121 17. e o seu pai . os aliados . e o meu pai . Ela. as ruas . o avô camorrista dos Solara. naquela casa torturaram e mataram. Peluso o comunista. e dizia: «Aquele foi à guerra e matou .» Depressa se sentiu insatisfeita com Pasquale . provavelmente ela própria dominada pela urgência de se sentir encerrada numa visão compacta. todos comprados com farelos . É difícil dizer o que as respostas de Pasquale fizeram a Lila. as coisas . Mas ela. dom Achille e o mercado negro . que não contenham a soma de todos os crimes que os seres huma­ nos cometeram e cometem. todos eles criminosos empedernidos ou cúmplices condescendentes . para mim insuportável . Fer­ nando . na altura. um fas­ cista ainda pior do que os filhos Marcello e Michele . na origem daquele bar está a camorra. Cada vez mais tensa e mais obcecada. aquele talho nasceu do roubo de cobre e de assaltos a comboios de mercadorias . o dinheiro destes vem-lhes da fome daqueles . aquele espancou e deu a beber óleo de rícino . o nazismo . corro o risco de errar ao contá-lo . sem fissuras . aquele até a mãe fez passar fome . todos. Era como se ele tivesse accionado um mecanismo na cabeça dela e agora a sua tarefa fosse pôr em ordem uma remessa caótica de sugestões . ela transformou-os em ruas . nesta esquina açoitaram. Ela e Pasquale encerraram-me num mundo terrível que não dava escapatória. . sus­ piros . Mas o que importa é que foi tomada pelo frenesim da revelação total .

depois de muitas gaba­ rolices («Sim. a pés sujos . uma das raríssimas turmas mistas daquela escola. conhecia Alfonso e Gino . agora era ele que ficava suspenso dos lábios dela.no sangue . E depois pensava: também Lila se apaixonará. Sentada numa das filas de trás de onde mal via. Fui parar a uma turma de quarenta e dois alunos . não conhecia nenhuma. 18. e quase fizeram de conta que não me conheciam. por um lado sofri muito porque sabia que já não disporia de tempo para Lila. Gigliola. Está apaixonado . um pivete ácido a suor. sempre com os dedos na testa ou nas faces cheias de acne . Ela interrogava-me acerca das discipli- . Dos rapazes . também ele derrotado pela capacidade de Lila de ligar uma coisa à outra. As raparigas eram pouquíssimas . sim. de certeza. sujos e muito usados. pôr tudo em ordem antes que chegassem o pai e o irmão . das cinco da manhã até às sete . mas por outro esperei desligar-me daquela sua avalia­ ção dos delitos e das cumplicidades e das cobardias das pessoas que conhecíamos . Quando recomeçou a escola. carregada de livros . formando uma corrente que nos apertava por todos os lados . ficamos na mesma carteira») . até à hora de jantar. pensava eu . que trazíamos . À saída de casa. depois casam-se . que ia a correr para ir abrir a loja. também vou para a escola secundária. Os dois anos de escola secundária foram muito mais trabalhosos do que a escola média. assim como ela era uma desconhecida para mim . encontrava muitas vezes Lila. e se a princípio era ela que ficava suspensa dos lábios dele . varrê-la.1 22 Elena Ferrante Depois Pasquale começou a ficar calado . mas sentaram-se juntos numa das primeiras carteiras .eu . cotovelo com cotovelo . depois namoram. não só os professores como o que escreviam no quadro . Graças à professora Oliviero depressa obtive o s livros de que precisava. e terão filhos que por sua vez falarão das mesmas questões . lavá-la. era uma desconhecida para a minha compa­ nheira de carteira. acabou por ir ajudar o pai na pastelaria dos Solara. Impus a mim própria uma disciplina que aprende­ ra na escola média: estudava toda a tarde . Pasquale . continuarão a falar destas questões políticas . A sala tresandava. Via-os passear juntos com frequên­ cia. Rino . todos nós . e depois . que amávamos . ela. com ar assustado . a medo . Durante os primeiros meses vivi a minha nova vida escolar em silên­ cio . quando eram horas de ir para a escola.

e de não ser capaz de responder aos professores. Stefano Carracci . a sacrificar o sono quente e profundo da manhã para fazer boa figu­ ra com a filha do sapateiro .. imediatamente . Vivia apavorada com o possível insucesso na escola. Se por acaso a avistava de longe . no regresso da escola. antes que Lila me anunciasse que andava com Pasquale .A Amiga Genial 1 23 nas que tinha nesse dia e o que tinha estudado . e os namorados . tinha a impressão de estar. Já era mais alta do que eu . cheios de exigências . quando me levantava ainda de madrugada e revia as lições na cozinha. da carranca da professora Oliviero . O seu andar já não era o da menina magricela que fora até alguns meses antes . Olá. ao tornear-se-lhe o corpo . deixaria de ter tempo para mim. ao voltar da escola. metia freneticamente na cabeça linguagens estranhas . Por isso . era Enzo . atormentava-me com perguntas que me punham ansiosa com medo de não ter estudado o suficiente . Ou até . era Antonio . o dono da charcuta­ ria. como de costu­ me . tinha agora uma única ideia firme: arranjar um namorado . encontrá-la e ficar a saber. Os tipos que an­ davam atrás dela eram quase homens. da sua própria boca. sei lá. E se não fosse ele . entre o projecto dos sapatos . olá. Lila era imprevisível . metia por outra . ia-me virando para trás para lhe deitar um último olhar.ela ia para a sapataria e eu para a estação do metropolitano . E se não fosse Enzo . com o espectro vesgo da minha mãe insatisfeita. Se não lhas desse . como se . como não era capaz de lhe responder a ela. Eu não fumava. Contudo . Engolia à pressa o leite e o café e corria para a rua. e queria respostas preci­ sas . as leituras sobre o mundo horrível em que caíramos ao nascer. Esperava à porta. dava uma grande volta para não passar em frente da sapataria. Via-a vir do prédio onde morava e constatava que ela continuava a mudar. Em certas manhãs frias . Por vezes . mais do que com os professores da escola dos ricos . ou mesmo Marcello Solara. Quando parávamos no cruzamen­ to e nos despedíamos . Até o pequeno-almoço era a correr por culpa dela. tons diferentes dos que se usavam no bairro . não falava com nin­ guém. Uma vez ou duas vi Pasquale chegar junto dela ofegante e acom­ panhá-la. O metropolitano ia apinhado de rapazes e raparigas . Receava. que já fazia amor com Peluso . também o passo se tivesse tomado mais suave . para não perder nem um metro do trajecto que fazíamos juntas . Nos poucos minutos do percurso revia as lições aterrorizada. e começávamos logo a falar. imundos de sono e do fumo dos primeiros cigarros . De dia para dia era mais forte a angústia de não ir a tempo .

O Outono voou . para eles sentirem o meu olhar e olharem para mim. indolente . Decidi dedicar-me à imagem de Nino Sarratore em silêncio . em que me transfor­ mara. não me reconheceu . olhei mais uma vez e o meu coração parou . angustiada. mas também me contentava com um do ano acima do meu . mas depois mudei de ideias . nucas bran­ cas por causa do pescoço bem rapado . Mas depois não resistia e ia ao encontro dela. dezassete? Observei-o bem. foi a primeira vez que fui chamada ao estrado . o impulso foi muito forte . mas reconheceria imediatamente Lila e ficaria fascinado . Se lhe contasse . como de uma fatalidade . ou apenas entrevê-lo . era óbvio que ainda não ficara rico . Fiquei muito perturbada por causa daquela aparição inesperada.1 24 Elena Ferrante rua. olhava para os rapazes . nos Solara. o essencial era que usasse calças compridas . O casaco estava deformado nos cotovelos . Era Nino Sarratore . o filho de Donato Sarratore . Não apresentava qualquer sinal de abastança. para vê-lo . Olhava para os mais velhos . um tal Gerace . Uma manhã fui interrogada sobre a Eneida . Olhava para os meus colegas da secundária. O pai . outros de calças à zuava ou compridas . como se via em Stefano e. desatou a rir assim que eu pronunciei «oraculo» em vez de «orá­ culo» . gorda e furunculosa. não reconhecera a menina loira e esbelta da primária na adolescente de catorze anos . Não lhe ocorreu que eu . embora tivesse escri­ to um livro de poemas . nunca de sobretudo . À saída pensei em ir a correr contar à Lila. A partir daquele dia fui para a escola como se vê-lo . em péssimas condições . Quantos anos podia ter? Dezasseis . tinham de provar. Também olhou para mim. que não tinham frio: cabelo à escovinha. homem dos seus sessenta anos . alguns ainda de calções . muito magro . e seguia pelo Corso Garibaldi . de certeza que me pedia para ir comigo à escola. embora conhecesse o significado da palavra. À entrada e à saída do liceu . mas distraído . O professor. Um dia reparei num aluno por causa do seu andar desengonçado . cabelos castanhos desalinhados . um rosto que achei boni­ to e com qualquer coisa de familiar. sempre a bocejar ruidosa­ mente . as calças puídas . fosse a verdadeira razão para lá ir. E já sabia o que aconteceria. Olhava com insistência. quase todos de casaco e gravata. Nino não re­ parara em mim. estreito de costas . sobre­ tudo a si próprios . os sapatos cambados . os do liceu . quando ele saía da escola de cabeça em baixo . o ferroviário-poeta. sobretudo . Preferia esses . um enorme edifício cinzento e escuro . vivia num mundo onde nunca ninguém tivera motivo para . com um andar bamboleante .

sobre a sintaxe . sapato!shoe . Mas sobretudo em Grego . Por alturas do Natal já todos me chamavam Greco e alguns Elena. Descobrira que eu estudava inglês e . embora ele fosse um palerma. Em cada um deles escrevera de um lado a palavra em italiano . Tive nove . e do outro a palavra inglesa equivalente: lápis!pencil.» Fez-me uma série de perguntas sobre as declinações . Já conhecia imensas palavras . vi Lila mais vezes . e é claro que a minha pronúncia não era melhor. Passaram-se uns dias e fize­ mos o primeiro trabalho de Latim. Um dia levou-me à loja e mostrou-me uma caixa de metal cheia de pedacinhos de papel . uma destreza na leitura. A partir daí foi um crescendo . como se pronuncia aquilo . sobre os verbos. mostrei uma familiaridade com o alfabeto . Um dia perguntou-me outra vez se podíamos ser namorados e eu . Depois entregou-me a folha sem qualquer comentá­ rio . uma óptima maneira de aprender vocabulário . deixei-o de boca aberta. Lia-me o lado em . naturalmente . Fui reabsorvida pelo bairro . dizia-me : quando recomeçar a escola pergunta ao professor como se pronuncia isto . populações . Respondi aterrorizada. Toda aquela exaltante tensão teve uma pausa durante as férias do Natal . Graças àquilo que aprendera com Lila. Aceitei . riquezas do subsolo . Disse que sim.A Amiga Genial 1 25 pronunciá-la. perceber/to unders­ tand. em História não errei uma data. para voltarmos juntos para o bairro . No trabalho de Italiano deu-me oito . arranjara uma gra­ mática. ali na primeira fila ao lado de Alfonso . sobretudo porque ele olhava para mim com uma atenção que até àquele momento nunca dispensara a nenhum de nós . uma desenvoltura na fonética. Todos se riram. perguntou: «Quem é a Greco ?» Levantei a mão . Até o professor de Religião me chamou à parte . agricultura. principalmente Gino . Mas ela atormen­ tava-me . e me perguntou se eu me queria inscrever num curso gratuito de Teologia por correspondência. que pronunciava de modo impre­ ciso . Sempre era melhor que nada. Gino começou a demorar-se à saída. tive mais tempo . em Geografia soube na perfeição super­ fícies . a esperar por mim . uma manhã. «Vem cá. As minhas qualidades atingiram os outros professores como um dogma. que finalmente arranquei um louvor público ao professor. Quando Gerace trouxe os trabalhos corrigidos . dei um suspiro de alívio . Senti-me humilhada. Fora o professor Ferraro que a aconselhara a fazer assim .

1 26 Elena Ferrante italiano e queria que eu lhe dissesse o equivalente em inglês . en­ quanto eu . Dobrada em duas . E uma tarde puxou de um comentário que me impressionou muito . eu preferia falar de outras coisas . degrau após degrau . agora trabalhava que nem uma máquina. Mas já não se a ouvia cantar. rendeste-te . Falou-me pormenori­ zadamente de Dido . ouvi esse nome pela primeira vez da boca dela. Mas . por isso continuava a lavar as es­ cadas dos prédios . Em poucos dias a lera toda. na escola. à violência em cada casa. primeiro . em cada farm1ia. e disse-lhe tudo de um fôlego. por lhe terem estragado o trabalho com pegadas . começava do último andar e ia passando com as mãos o trapo molhado . Vivia na miséria com os filhos . uma vez que eu pouco ou nada sabia do que acontecia nos prédios . começava a gritar insultos. Mas ela interrogou-me sobre as declinações gregas . aos campos destruídos pelos novos prédios . Depois passou bruscamente de Dido para Melina e falou-me muito sobre ela. ao passo que ela já sabia a terceira. Semicerrou os olhos. passara-lhe a eu­ foria. começou a gozar comigo . ainda mais bonito agora do que era na primária. Mas não . ia a meio do segundo livro . Descreveu-ma em por­ menor. atirava­ -lhe o trapo . que namorava com Gino . Se alguém descia ou subia. Vi que parecia estar mais adiantada do que eu em tudo . apaixonaste-te como a amada de Eneias» .» Não me recordo como ela se expressou exactamente . Notei também nela uma certa tensão . «esperta. como se an­ dasse numa escola secreta. apaixonara-se por ela. pois de manhã tinha escola e à noite estudava até tarde . como se nunca a perdesse de vista. Contara-lhe Ada que uma vez vira a mãe no auge de uma crise . Receei que ela recomeçasse a falar-me de fascis­ mo . Disse: «Se não houver amor. mas a ideia era essa. juntamente com Ada (o dinheiro que Antonio levava para casa não chegava) . queren­ do mostrar-me que estava à altura daquilo que eu estudava. figura sobre quem eu nada sabia. mas também a das cidades. e depressa deduziu que eu ia ainda na pri­ meira. aos jardins cheios de poeira. e não na escola. quis dar-lhe a saber que estavam a acontecer-me coisas boas . e eu associei-a às nossas ruas sujas . E não resisti . «Fazes amor com o filho do farma­ cêutico» . temi que fosse dizer-me: também eu namoro . com uma energia e uma agitação capazes de arrasar pessoas mais robustas do que ela. Também me fez perguntas sobre a Eneida . não é só a vida das pessoas que se toma árida. para dizer a verdade . lanço após lanço . Mas eu sabia pouco ou nada. nazismo . comunismo . Contou-me coisas sobre a sua parente . e segundo . que na minha escola andava Nino Sar­ ratore . beber a água . disse .

com maldade: «Pois é muito fácil escrever poemas» . sinal de que me es­ cutara com atenção .» «Pior para eles . e a Eneias que a abandonou . Fui-me embora. como essa tal Dido .» «É verdade . nunca hei-de escrever um poema» .A Amiga Genial 1 27 suja do balde . «Não acredito . .» «Não . que faz ele . que significava: Marcello Solara mete-me nojo.» «E tu?» Fez um meio sorriso de desprezo .» «Porque ele explica-me as coisas que aconteceram antes de nós .» Mostrei-me pouco convencida. como fez Eneias . «Conta-lhe a respeito de Melina» .» «E o Pasquale . Disse que nós não sabíamos nada. agora que tinha um namorado . declarou-se-te?» «Estás louca?» «Vi-o acompanhar-te à loja de manhã. Depois acrescentou . mas de maneira diferente da primária. irão enamorar-se de outra.» «Mas haverá quem se apaixone por ti .» «Sofrerão . Estão a perceber? Pas­ so a passo . «e diz-lhe que deve contar ao pai» .» «Ü Stefano atende-me sempre em primeiro lugar. nem em pequenas nem agora. incitou-me . nunca. mesmo se a loja estiver cheia.» Assim regressou o tema do «antes» . anda atrás de ti?» «Sim. que no fim se juntou à filha de um rei . aquelas conversas agradavam-me . «E o Enzo ?» «Somos amigos . e nunca. depois voltei . com cautela: «Ü Marcello Solara. E só naquela altura é que trouxe à baila Nino Sarratore . e tivera de lho arrancar das mãos . e por isso não estávamos em condições de compreender nada. Uma vez perguntei-lhe .» «Vês?» «Não há nada para ver. Por fim começou a rir e prometeu com uma certa solenidade: «Eu nunca me apaixonarei por ninguém. de Gino foi parar a Dido . pensam todos em mim?» «Sim.» «E o Stefano?» «Na tua opinião .

o dinheiro de dom Achille fora ganho antes . e para viverem tranquilos punham-lhe uma pedra em cima. Encontrava-me com Gino. 19. E não só nós . a charcutaria de Stefano antes era a carpintaria de Peluso . o meu pai . frequentava a escola secun­ dária. sem nunca pensarmos nelas sequer. nem do rei . e não eu dela. já ali estavam antes de nós . Ele comprava-me um bolo. Quando me falava de Dido ou do seu método para aprender vocabulário inglês . E o dinheiro dos Solara. vendedores de fruta. Ela fizera a experiência com o pai e a mãe . ou da terceira declinação. e assim. mesmo pequenas coisas . no pátio . na rua. a mesma coisa. remendões . não queriam falar de nada. Odiavam dom Achille e tinham medo dos Solara. Naquele período senti-me forte. como ela. E o mesmo fazia a mãe . passavam por cima disso e iam gastar o seu dinheiro na loja do filho de dom Achille e na dos Solara. e também lá nos metiam a nós . davam-lhes continuação . As férias passaram-se a falar continuamente . Às vezes até tinha a impressão de que Lila é que dependia de mim. e foi reconfortante .1 28 Elena Ferrante que todas as coisas do bairro . conforme os Solara queriam que eles fizessem. nas coisas de antes. todas as coisas . e Rino também. o pai de Pasquale . E no entanto . Na escola comportara-me de forma perfeita. O pai dela fazia de conta que não existira nada antes . E vo­ tavam nos fascistas . nem de opressões . e também a minha mãe . no entanto estavam metidos nelas . Não sabiam de nada. contei à professora Oliviero os meus sucessos. ou daquilo em que matutava nas conversas com Pasquale . Aquela conversa do «antes» impressionou-me mais do que as conver­ sas tenebrosas para as quais me arrastara durante o Verão . E no entanto . comíamo-lo a meias . Con­ támos tudo uma à outra. mas nós tínhamos crescido sem nos apercebermos delas . como se finalmente fosse ela que sentia necessidade de me demonstrar que era capaz de conversar comigo . mecânicos . na sapataria. Nem de injustiças . estava com rapazes que estudavam Latim e Grego e não com pe­ dreiros . e ela elogiou-me . nem de exploração . charcuteiros e sapa­ teiros. Passara as fronteiras do bairro . Nem do fascismo . e também lá nos mandavam a nós . dávamos todos os dias um passeio até ao bar Solara. sem saberem. voltávamos para trás . apercebia-me cada vez mais de que o fazia com um certo acanhamento. nos monárquicos . E pensavam que o que acontecera antes era passado . Todavia. cada pedra ou pedaço de madeira.

«e diz-me se a costura se sente . Até mesmo uma tarde em que resolveu mostrar-me . em que ponto estava o sapato secreto que andava a fazer com Rino . Pareceu-me antes que tanto ela como o irmão hesitavam em falar-me de coisas de tão pouco valor. esti­ mulada pelos meus elogios . Apalpa. séria: «Experimentemos outra vez com água. Temos de descolar e de descoser tudo outra vez . meteu a mão num dos sapa­ tos como se fosse um pé . encorajei-os com fingimento. «Apalpa aqui» .» Depois tirava-me os sapatos da mão .» Apalpei . do­ brava-os . Mas quando viu Lila tirar o sapato da água. não pode ser. mostrava-me a resistência que tinham .» «Está húmido . e fê-la andar um bocado dentro de água. Mas ela encheu uma bacia. Ou então era eu que começava a sentir-me superior a eles . Mas o par de sapatos de homem que me mostraram pareceu-me realmente fora do comum. Lila fez uma careta de desagrado . fui-lhes elogiando o trabalho com entusiasmo . com alguma indecisão. «Viste? Basta um minuto na água para ficar húmido . dizia Ri no . «não se sente . como fazia a professora Oliviero quando nos queria encorajar.» .» Rino enfiou uma mão e disse: «Está seco . disse . com um aspecto leve e robusto ao mesmo tempo . Quanto mais qualida­ des o irmão apontava.A Amiga Genial 1 29 de igual para igual .» «Só tu é que sentes a humidade . Enquanto me deixaram tocar-lhes e me apontavam as suas qualidades . Lenu . Nunca vira nada daquele género nos pés de ninguém. como um irmão mais velho que se aborrece com as criancices da irmã mais pequena. largava-os. já não senti que ela habitava uma terra maravilhosa de onde eu estava ausente. mais defeitos ela me mostrava. fez uma expressão preocupada e perguntou: «Então?» Lila retirou a mão .» O irmão mostrou­ -se contrariado . e dizia a Rino: «Quanto tempo leva o papá a descobrir estes erros?» A certa altura disse . respondia eu . esfregou os dedos e estendeu-lhe o sapato: «Apalpa. dizia «formidável» . castanhos . «Ela tem de brincar» . «Está um pouco húmido» .» «Não» . exactamente como os recor­ dava de um desenho de Lila. o número de Rino e de Fernando . Quando foram remexer numa arrecadação e apareceram com um embrulho . Mas Lila não parecia satisfeita. disse-me Rino . A medida era 43 . Eu aprova­ va.

Fez-se-lhe a cara vermelha. Pessoas que ele invejava e que via como inimigos a abater. e é o amor» . muito mais do que os irmãos Solara. mais . julgava-a realizável. e sobretudo mais do que os Solara. Lamentou-se que assim nunca mais se acabava. 20 . a ser escravo do pai e a ver os outros enriquecerem. inchou em volta dos olhos e nas maçãs do rosto . queria dar-se ares daquilo que não era. e o irmão era uma pedra importante dessa realiza- . era uma faceta de Rino que ela não conhecia. e se o tivesse feito a sé­ rio . Aproximava-se a festa da passagem do ano e a Rino deu-lhe a mania de lançar mais fogo-de-artifício do que todos. Gritou que não queria ficar para sempre naque­ le sítio asqueroso . Agarrou no pé de ferro . Lila nunca disse . lançando fogo-de-artifício em quantidade. que a princípio duvidava da possibili­ dade de ganhar muito dinheiro com os sapatos . agora apostava demasiado nisso . por um lado desorientada por aquela fúria de um jovem habitualmente gentil . mas não fanfarrão .1 30 Elena Ferrante «Mas que porra. Um patrãozi­ nho . disse-me Lila. para conseguir representar o papel deles . Sentia-se perto da riqueza. Repreendeu Lila por tê-lo encorajado primeiro e desencorajado depois . mas às vezes era bastante dura com ele. o que é um bocadinho de humidade?» Rino enfureceu-se . que aos seus olhos se haviam toma­ do o modelo de homem jovem a imitar. Ela própria acreditava nessa fantasia. é a satisfação que a escola te dá. Isto preocupava-a. E não só: sofreu uma espécie de transformação diante dos meus olhos . não se conseguiu conter e explodiu numa série de impropérios e insultos dirigidos à irmã. Nos dias que se seguiram descobri que o acne estava a secar. já se via como proprietário da fábrica de calçado Cerullo e não queria voltar a ser sapateiro-remendão . por o meu parecer se ter revelado credível e decisivo . Disse-me que achava que o irmão . «Estás muito bem. Porém agora. Alguém que já podia dar ao bairro um primeiro sinal da sorte que o novo ano lhe traria. Lila troçava do irmão . Eu fui-me embora. matava-a. e achei-a um pouco triste . Sempre lhe parecera apenas generosamen­ te impetuoso . e por outro orgulhosa. às vezes agressivo . fingiu que lho atirava. como acontecera com Carmela e as outras raparigas do pátio: talvez eu lhe tenha metido na cabeça uma fantasia que ele não é capaz de controlar. e mesmo a superar.

não queria tratá-lo como um garoto que não sabe gerir os seus sonhos . Mas afirmou muitas vezes que faltava firmeza a Rino. Luzes ofuscantes . acendia a mecha com a brasa do cigarro e . como não podia partir a cara aos Solara por fazerem a corte à irmã.» Quem sabe . Onde é que vai buscar dinheiro para o fogo-de-artifício?» Era verdade . disse eu uma vez . que não sabia enfrentar as difi­ culdades com os pés bem assentes na terra. o assobio dos foguetes . breves remoinhos de fogo a pouca distância dos meus dedos . indo à caça deles assim que terminava o caos dos festejos . tudo isso tinha custos. E queria-lhe bem. tinha tendência para se exce­ der. Nós . tanto a pé como no 1100. e Rino devia ter dado por isso . por ser a mais velha. À meia-noite punha na minha mão . o ferrinho das estrelinhas ou de uma girândola. No final atirava também a garrafa para a rua. O fumo denso da pólvora tornava tudo nebuloso . as canhonadas dos petardos contra as paredes . Marcello So­ lara passava e voltava a passar todos os dias em frente da sapataria. fazendo-se parva. «Se calhar tem ciúmes do Marcello» . Juntava-os todos na zona . acendia-a e eu ficava imóvel . «Se assim for. entusiasmado .A Amiga Genial 131 ção . não tínhamos dinheiro . estás a ver como tenho razão?» «Razão em quê?» «Que ele se tornou um fanfarrão . «Que dizes?» Riu-se . entrava nas casas . outra de rocas e outra de mini-foguetes . Ele entretanto enfiava a haste dos foguetes numa garrafa de vidro . e tinham fama as suas tentativas de recuperar petardos que não tivessem explodido . tanto que dis­ sera muitas vezes à irmã: «Não te atrevas a dar confiança àquele pedaço de merda. no bair­ ro e em toda a cidade de Nápoles. Desde os doze anos que tinha por hábito ir passar a meia-noite com pessoas mais audazes do que o pai . quem tinha mais dinheiro é que dis­ parava mais . Mas o estralejar das bombinhas . sobre o mármore da janela. fazia arder os olhos. mas ela própria me contara. por exemplo . era seis anos mais velho do que ela. Como naquela competição com os Solara. os Greco . talvez lhes quisesse mostrar a sua força com o fogo-de-artifício . e como era costume . explosões . e Rino depressa se rebelou . A noite de fim de ano era uma noite de batalha. excitada e temerosa. O meu pai comprava uma caixa de fitfit. provocava tosse . fazia subir para o céu o sibilo luminoso . a olhar para as faíscas . Em casa de Lila também soltavam pouco ou nenhum fogo . em minha casa o contributo para os fogos do fim do ano era pobre .

Daí a cinco minutos as nos­ sas compras estavam prontas . Mas Stefano dirigiu-me . de uma vez em que não se chegou para trás a tempo. que nos fez um sorriso embaraçado .» Alcançou-nos . Mas era sabido . fazer as compras para a ceia à charcutaria de Stefano Carracci . um gesto de saudação . Como acontecia todos os anos. para aquele desafio no final do ano de 1 95 9 . olhando para Lila: .que com os Solara ninguém podia concorrer. mesmo depois do assassinato do pai .1 32 Elena Ferrante dos pauis . a mandado das nossas mães . Tinha uma expressão tranquila. havia dias que os dois irmãos andavam para cá e para lá no seu 1100. além de Stefano e Pinuccia estava também Alfonso . O meu colega de escola veio até fora do balcão e perguntou-me se tínhamos a lista das coisas que íamos comprar. gatos e ratos . casa. deitava-lhes fogo e divertia-se a ver as chamas altas . e trac ­ -trac trac a explosão final . Respondi . mas a olhar para mim: «Querem vir festejar o ano novo a minha casa? Alfonso gostaria muito. Aquele convite era uma novidade . pagámos o que era devido a dona Maria e fomo-nos embora. Entre as muitas razões . claras e secretas . charcutaria. assustariam cães . e fariam tremer os prédios desde as caves até aos terraços que os cobriam. para juntar um arsenal que fizesse pelo menos boa figura.ele tam­ bém sabia. Por isso se atarefou a recolher dinheiro aqui e além para comprar fogo-de-artifício . . As coisas tiveram uma pequena e inesperada alteração .» A mulher e os filhos de dom Achille . que na noite da passagem do ano matariam pássaros . Tinha ainda uma cicatriz escura na mão . inequivocamente a mim . A loja estava cheia de gente . e disse qualquer coisa ao ouvido do irmão . no máximo qualquer festarola a que não se podia dizer que não . Falou com as duas . Só o desfeava um pouco a bata branca manchada de gordura. em dialecto . o próprio Stefano . mas Stefano . uma . A atender ao balcão . Demos-lha e ele retirou-se . mancha grande . quando Lila e eu fomos . não Al­ fonso . há que admitir também que Rino talvez quisesse vin­ gar-se da sua infância pobre . com o porta-bagagem cheio de explosivos . faziam uma vida muito recatada: igreja. me chamou com a sua bonita voz de homem feito: «Lenu . que tinha mais um bocadinho de dinheiro . Mas poucos passos tínhamos dado quando. com Anto­ nio e sobretudo com Enzo . apesar da mania da grandeza que o atacara . Metemos tudo nos sacos . Rino observava­ -os da loja com rancor e entretanto negociava com Pasquale . Preparámo-nos para uma longa espera. um sorriso cordial .

A casa é grande .» Lila interveio . dançamos . dizendo coisas do género: «Ele faz isto por ti .A Amiga Genial 133 «Já estamos comprometidas .» «Não . e para os foguetes vamos para o terraço. e o filho de dom Achille não podia convidar os filhos de Alfredo para brindarem ao novo ano em sua casa. em tom decisivo: «0 Pasquale e a Carmen Peluso . venham todos: bebemos espumante .» «0 que estás tu a dizer? Ele nem sequer olhou para mim. No entanto .» Aquelas palavras sensibilizaram-me . Murmurou: «Temos de falar com o meu irmão . Olhei para Lila.» «E o fogo-de-artifício?» «0 que queres dizer?» «Nós trazemos o nosso .» O rapaz dirigiu-se de novo a mim: «Venham todos para minha casa e prometo-vos que quando romper o dia ainda estamos a lançar foguetes. vamos juntar-nos com o irmão dela e outros amigos . Alfredo Pe­ luso estava em Poggioreale por ter matado dom Achille . e retorquiu no tom que se usa para as coisas óbvias: «Está bem.» «Depois dêem-me a resposta. Ano novo . também vêm festejar a nossa casa. também ela es- tava desorientada.» «Digam também ao Rino .» . e para te ter em casa convida até os comunistas e os assassinos do pai . vida nova.» Aquela frase deveria eliminar qualquer outro argumento . por ti .» «Está apaixonado . e tu?» Stefano sorriu: «Que quantidade queres?» «Muitíssimo .» 21 . Durante todo o caminho não fizemos senão rir a bandeiras desprega- das . com um olhar muito intenso . e digam aos vossos pais . Stefano olhou para ela como se até àquele momento não a tivesse visto . e a mãe .

» Quanto aos nossos pais . Enzo . desde que começara a discutir assuntos com Pasquale . Lila achava que ele tinha outra coisa em mente . para os arreliar: fazia definitivamente as pazes com os Peluso .» Stefano . Não queria fazer de conta que nada acontecera. intrometendo-se assim na vida dos Carracci e fazendo com que Stefano parecesse não saber defender a memória do pai . o que queria? Pensámos que Ste- fano também pretendesse dar uma lição aos Solara. na opinião de Lila. murmurou: «Está bem. a sapataria. com ar de quem percebeu tudo . e perceber era uma coisa de que muito gostávamos . «E o que ganha com isso?» . que ficou furioso . Se não nos queria a nós . mas sim pôr em prática uma frase do tipo: bem sei . como se tivesse esquecido onde estava. não convencida. Mas a vontade de vencer os Solara fê-lo hesitar. vou . convidando-os mesmo para sua casa na passagem do ano . misturando factos reais e suposições . pareceu-lhe ter encontrado a solução . partindo de uma das suas ideias fixas dos últimos tempos . Lembrámo-nos de quando Michele fizera com que mandassem Pasquale embora da festa em casa da mãe de Gigliola. Pensando bem. Se puder. o bairro . e disse-me: «Enganámo-nos. O Stefano não me quer a mim nem a ti . ficaram muito felizes com aquele convite . perguntei a Lila. por sua vez. E pouco a pouco . E portanto agora ele agravava a acusação . o meu pai foi aquilo que foi . «Lembras-te de quando eu disse à Carmela que podia namorar com o Alfonso?» «Sim. mas também Stefano . e tê-las como amigas era uma honra. Lila a princípio parecia baralhada. e falou disso a Pasquale . queria apagar tudo . nessa ocasião os dois irmãos não tinham humilhado ape­ nas Pasquale . Depois apareceu em minha casa uma tarde .» «Ü Stefano tem em mente algo desse género .» «Perdoar?» Lila abanou a cabeça.» «Casar-se ele com a Carmela?» «Mais do que isso . pois para eles dom Achille já não existia e os filhos e a mulher eram pessoas de bem e respeitáveis .» Conversámos sobre o assunto à nossa maneira. estamos cá nós .1 34 Elena Ferrante Rino ouviu a proposta de Stefano e disse imediatamente que não . «Não sei . como faziam os nossos pais . as ruas . Quer fazer um gesto que aqui no bairro ninguém faria. Estava a tentar perceber. mas agora estou cá eu . Stefano não parecia um tipo capaz de perdoar. Queria tentar sair do antes . está­ vamos as duas a tentar perceber. isto é . e mais .

Giuseppina. «Melhores?» . outros de outra. a família de . os nossos pais . Essa hipótese agradou-nos . os filhos . depois da prisão do marido transformara-se numa mulher deprimida.» Lila fez os olhos pequeninos . exuberante . Resumindo . somos melhores do que eles . a do vendedor de fruta e hortaliça. triste: «0 dinheiro com que o Stefano está a ganhar mais dinheiro é o que o pai dele ganhou no mercado negro .A Amiga Genial 1 35 nada. por ocasião do ano novo . Foi falar com a mãe . que era como se ele estivesse a dizer: antes de nós aconteceram coisas horríveis. diversas farru1ias . discutiu o assunto com toda a farru1ia.» Mas era bom rapaz . em italiano . e se fossem capazes . Pasquale tentou até responder­ -me em italiano . uns de uma maneira. e Rino . que fazem pior do que o avô e o pai . a Pasquale . no dia 3 1 de Dezembro . Deci­ dimos tomar o partido dele . e dirigiu-se ao pároco . às 23 : 3 0 . falou muito tempo com Maria. que por trás dele existiam sig­ nificados importantes . O estabelecimento onde está a char­ cutaria é aquele onde era antigamente a carpintaria do meu pai .a família do porteiro . e foi falar com Giuseppina Peluso novamente . de­ pois da ceia de ano novo . era melhor para todos .» Falei muito emocionada. de reduzir os conflitos. A própria Lila me deitou um olhar admirado . quase não se viam . como se estivesse na escola. a Antonio . triste com a sua má sorte . e sentimos um impulso de grande simpatia pelo jovem Carracci . Por fim convenceram-se todos de que a vida já era bastante difícil . a do sapateiro . tomemos nota disso e mostremos que nós . perguntou Rino . mas logo desistiu . Pasquale e Antonio gaguejaram qualquer coisa. não se comportaram bem. tomámo-la logo por uma certeza. interessado . que o convite de Stefano era mais do que um convite . O pároco passou pela loja de Ste­ fano . embaraçados . «ao contrário dos Solara. «Isso é verdade . desenvolta. em parte por convicção e em parte por estar claramente com ciúmes do inesperado protagonismo de Stefano nas palavras de Lila: «Eu estou do meu lado e mais nada. Em seguida explicámos a Rino . Disse . e que os Peluso também não eram o ex-carpinteiro que o matara. disse eu . pensou e voltou a pensar. a partir de agora. E assim. dantes uma incansá­ vel trabalhadora de bom carácter. «Melhores» . queria que todo o bairro compreendesse que ele não era dom Achille . Mas preferem estar do lado de quem quer mudar ou do lado dos Solara?» Pasquale disse com altivez .

a pulsei­ ra de prata da minha mãe . sem mangas . era perigoso . o copo da mãe . Mas pareciam todos absorvidos pela festa do fogo-de-artifício à meia-noite .subiram aos grupi­ nhos até ao quarto andar. Aguardavam a sua guerra entre homens e nem sequer a Lila davam atenção . mas estava bem penteada e. Olhei para eles . que era da minha idade . e pensei que ser namorada de Gino . com maneiras de príncipe . Rino . Brindámos às coisas maravilhosas que aconteceriam no novo ano . Corri para cima. os velhos e as crianças com sobretudos e éc harpes . Enzo . vestia uma camisa branca. Lembro-me de que se tinha penteado com esmero . Começara a sentir-me bonita de novo . Lila. tinha o rosto um pouco vermelho da agita­ ção . até à velha casa tão odiada de dom Achille .1 36 Elena Ferrante Melina. gravata e um colete de malha azul . com os brincos e o seu velho vestido preto de viúva. Achei-o muito bonito . 22 . Já se ou­ viam os primeiros sibilas dos foguetes . e logo a se­ guir. mas não me ouviu ou fingiu que não ouviu . Apalpava com nervosismo os brincos . eu . Ada e Carmela tínhamos os vestidinhos finos que usávamos para os bailes. Os rapazes estavam em pulôver. porque fazia muito frio . e não um miúdo . e depois subimos em bando para o terraço . e tremíamos de frio e de excitação . Stefano foi particularmente gentil com a senhora Peluso e com Meli­ na. Eu queria um namorado crescido . Pasquale . Stefano recebeu-nos com muita cordialidade . cheio de estrelas e de trevas . para festejarem o novo ano juntas . Já se ouvia o baque das coisas velhas que voavam . que se arranjou muito bem para a festa . parecia uma grande dama. Stefano . gelado . porque os pais não o deixavam sair depois da meia-noite . que sulcavam o céu e explodiam em flores coloridas . o nariz com­ prido . Quando lhe pedira para ir ter comigo a casa dos Carracci respondera que não podia. em primeiro lugar. Chamei-o por boa educação . e queria que os olhos deles me dessem prova disso . Apercebi-me de que o único que se demorava indolentemente lá em baixo era Alfonso . o da mãe de Pasquale . que não dizia uma palavra. Calculei que teria mais sete anos do que eu e Lila. tinha os olhos irrequietos . Encontrei um céu tremendo por cima de mim. Antonio . queria um como aqueles rapa­ zes . andei de roda deles toda a noite . Pasquale e Enzo mesmo em mangas de camisa. À meia-noite o dono da casa encheu de espumante . era coisa pouca.

Entretanto os fósforos luzi­ ram. entre Mário e Sila.começa­ ram a movimentar-se no escuro e ao frio . que era o mais velho . que se mostrava muito animado . tal como nós . os meus irmãos Peppe e Gianni . embora por entre os clarões . arrumaram séries de foguetes dentro de gar­ rafas vazias enfileiradas . Rino . gritando que eles as desperdiçavam. os mais novos . mas com enfa­ do . embora através do fumo . antes da batalha eles teriam feito aqueles mes­ mos olhares . encarregou-me a mim. cada vez mais agitado e a gritar alto . conversando . e por Rino que tirava bombinhas aos meus irmãos e as usava. sérios e cordiais . os filhos . vá. das buzinas . apenas perturbado pelos gemidos lânguidos mas assustados de Melina.A Amiga Genial 1 37 pelas janelas . A varanda dos Solara tornou-se . víamo-los . Todos os rapazes . lhe tirava as coisas . orgulhosos de todas aquelas munições que tinham conseguido reunir. a golfada de fogo jorrou com um frufrulhar colorido . Por fim. que estrondo . Alfonso também ajudou . de gritos tipo viste estas cores . Stefano . Depois . os fa­ miliares . Ada e Carmela. os adultos acendiam cigarros uns aos outros com as mãos em concha. dei­ xando emergir o ruído dos automóveis . gostava de ver nos olhos delas o espanto assustado que eu sentira em pequena. Se houvesse uma guerra civil . estavam. A fúria cintilante da cidade atenuou-se lentamente . mis­ turando-se cada vez menos com os outros. e também o sapateiro . mais visível. com excepção de Alfonso . num clima festivo de excitação crescente . lançando petardos . extinguiu-se . encheram as camisas de bombinhas e de petardos . Enzo e Antonio transportaram caixotes e caixas e cartuchos de explosivos. os gritos . de reabastecer todos de munições constantemente . entre César e Pompeu . as risadas . e também Lila. Reapareceram am­ plas zonas de céu escuro . aquelas mesmas poses . e que o empurrava com maus modos . dominados pelo desejo de . Lila con­ venceu Melina a acenderem juntas um fogo-de-bengala. tratando-o co­ mo um miúdo . caramba. os novos e os menos novos . como as que houve entre Rómulo e Remo . mas tam­ bém o meu pai . os amigos . mais do que zangar-se . Rino . Alfonso retraiu-se . reagindo às incitações do irmão com gestos de contrariedade . Pareceu-me até intimidado por Rino . vá. Pasquale . Encontravam-se a pouca distância. Eu acendi os fitfit e as rocas às crianças . Gritaram ambas de alegria e no fim abraçaram-se . porque as lançavam sem esperar que a mecha pegasse realmente fogo . O pai . pensei . acendendo mechas e lançando fogos-de-artifício do parapeito para baixo ou para o céu .digamos . Todo o bairro estrepitava.

tens disto . depressa. dêmos-lhes a ouvir aquilo que nós temos .como se numa . e as outras começaram também a retirar dali as crianças .» Nesse momento o pânico apoderou-se de Melina. «Pascà. Anto . A um foguete dos Solara eles respondiam com outro foguete . Até o meu pai fora para baixo . «Enzo» . só no momento em que ficassem a ser eles os senhores absolutos da festa. aqui . de surpresa. absorta pelo espectáculo como por um enigma. convi­ dando os outros a fazerem o mesmo . o céu e a rua recomeçaram a explodir. A minha mãe seguiu-os imediatamente . a coxear. E assim foi . aqui . Stefano . o fogo intensificou-se bruscamente . raparigas . pedaço de bosta. Da varanda. e dali se abasteceu . Foi . que começou a gemer. a bombinhas com bombinhas . gritando insultos e lançando petardos às paredes . senão cais lá em baixo . Repetiam: sim . em vez de subir para o céu . com o sapateiro .138 Elena Ferrante caos . sem nada para fazer. Um foguete deles. Pasquale .disse-me ela . e faziam gestos obscenos na direcção da varanda dos Solara. Antonio e Rino come­ çaram a responder com novos lançamentos e idênticas obscenidades . tens disto . gritou . e no céu abriam-se corolas maravilhosas . tremia. Estávamos sozinhas . Correu para um canto onde depositara um caixote em que nós . com um clarão vermelho estrondoso e um fumo sufocante . rebentou contra o parapeito do nosso terraço . Stefano . que eles só se soltariam deveras quando os pobretanas tives­ sem dado por terminadas as suas festarolas e os seus rebentamentos in­ significantes e os seus chuviscos de prata e ouro . Estava a acontecer-lhe aquela coisa a que já fiz referência e a que ela depois chamou desmarginação. e lá em baixo a rua flamejava. fez-lhe sinal para se acal­ mar. Ada bufou de raiva. No bairro todos sabiam que o que acontecera até àquele momento era pouco. cabia-lhe a ela levá-la para casa. a rir. Rino. Lila. sem uma sombra sequer dos tons de voz subtis do co­ merciante. «Fizeram de propósito» . Mas . fora de si . uma silhueta escura no ar gelado .» Todos acorreram . mas Alfon­ so fez-lhe um sinal . As explosões provocadas pelos Solara eram cada vez mais fortes . enquanto a mãe berrava de terror e lhe ralhava: «Desce daí. estava em silên­ cio . aproximou-se e levou a mulher para baixo . Nós olhávamos para os seus frenéticos vultos escu­ ros . gritou Rino a Stefano . A cada lançamento . a tremer de frio . dêmos-lhes a ouvir. sobretudo se o petar­ do fazia um barulho de destruição . A certa altura Rino pôs-se em pé sobre o para­ peito . não sei . havíamos sido proibidas de tocar. da varanda chegavam obscenidades entusiásticas .

e a matéria expandiu-se como um magma. sentiu . exerceu sobre ele uma pressão tão intensa que lhe despedaçou os contornos . viu . sem essas atenções nada significávamos .o mais activo . pela simples satisfação de ganhar o desafio . Competiram com os Solara durante não sei quanto tempo . mas conseguiu . a divertira. Ali . de Ada. o mais gabarola. a protegera. Rino perdeu a fisionomia que sempre tivera desde que ela se lembrava. Também reparei que olhava fixamente o vulto do irmão .o irmão desfazer-se. desde que ela tinha memória. e . uma massa escuríssima de tempestade avançasse pelo céu . o que gritava com mais exagero insultos ferozes na direcção do terraço dos Solara . ou Rino . Mas não .A Amiga Genial 1 39 noite de Lua cheia. por entre os fumos que queimavam as nari­ nas e o cheiro agressivo do enxofre . ou Enzo . acabassem com a guerra. pouco ou nada da sua angústia se manifestou exteriormente . espantados com a reserva infin­ dável de Stefano . no ar gelado . à medida que Rino se movia. sobre o mar. Impres­ sionou-me . no meio do caos . pelo contrário . explosões de um lado e do outro como se terraço e varanda fossem trincheiras . honesto. por isso estávamos bem aconche­ gadas umas às outras para nos aquecermos . parecia estar assustada com isso. A verdade é que . qualquer coisa violou a estrutura orgânica do seu irmão . teve a impressão de que. parecia não ter necessidade nenhuma das atenções masculinas . no meio de explo­ sões violentas . Ela. Nós . admirados com a sua generosidade . reduzindo-o à sua ver­ dadeira natureza de tosca matéria insensata. Teríamos preferido que Stefano .como se fosse verdade . as suas margens . nos pressionassem o flanco contra o flanco e nos dis­ sessem palavras lisonjeiras . que geralmente nada temia. Fez um grande esforço para se controlar. se iam tornando moles e maleáveis . e ela própria. que se espalhava a si próprio em redor. a sua expressão de medo crescente . as feições agradáveis da pessoa em quem confiava. faíscas . creio . engolisse toda a claridade . Cada segundo da­ quela noite de festa lhe causou horror. nos pusessem o braço em volta dos ombros . explosões . mostrando-lhe aquilo de que ele era realmente feito . Mas foram impressões em que só voltei a pensar depois . Como sempre . a fisionomia do rapaz generoso . Lila imaginou . enquanto eles corriam a apanhar cilindros com grandes rastilhos . corroesse a circunferência do círculo lunar e desfigurasse o disco brilhante . Diante dos seus olhos . o perfil amado de quem desde sempre .. ali ao frio . fumo . do que dela. perturbados pela quantidade de dinheiro que era possível transformar em rastos luminosos . todas as mar­ gens caíam. com repulsa. a ajudara. lhe dei pouca atenção . naquele tumulto de explosões e cores . Naquele momento sentia-me mais próxima de Carmela.

23 . fez-se silêncio . evitando a sapataria.» Mas Enzo . não têm mais nada» . foi então que ocorreu a sua primeira mudança interior. sobre­ tudo .» «E os sapatos novos?» «Estão em banho-maria. Só Rino continuou a lançar insultos ferozes . os nossos continuaram. Não me apercebi daquilo que lhe aconteceu .» «E então?» . Chegou atrasada. Mas sobretudo . Então ergueram todos um coro vitorioso . pah . até não haver nem mais um rastilho sequer para quei­ mar. estavam a disparar sobre nós . Os Solara. raparigas . para ganha­ rem a competição . estrondos . que percebeu de imediato o que se estava a passar. transtornada pelo clima de festa e de perigo . berrando-lhe insultos por sua vez . saltando ou abraçando­ -se . E depois vimos clarões na varanda dos Solara. por gritos e insultos. por carros que avançavam pelas ruas pejadas de detritos . Contudo . de cujos corpos emanava uma chama mais ardente do que a dos fogos no céu .1 40 Elena Ferrante todo o bairro estremeceu . muitas coisas me escaparam. vibrou . vidros esmagados . e depois dele também Pas­ quale . como eu já disse . Por fim acalmaram-se . chegámos lá abaixo a gritar. «Não vais trabalhar?» «Não . e passeá­ mos pelo bairro . Tomou-se mais preguiçosa. descurei Lila. Nós . foi interrompido por um choro distante de criança. debruçando-se do parapeito do terraço . continuou . foi o primeiro a empurrar-nos para dentro . Mas das consequências dei-me conta quase de imediato . céu arrombado . Daquela noite . Rino gritou .» «Mas porquê?» «Já não me apetece . pah . também Stefano . mas ela não apareceu . decepcionado: «Estão a reco­ meçar. a alteração era difícil de perceber. Mesmo quando Enzo gritou: «Eles terminaram. amuada. chegaram-nos uns ruídos secos . Já não se percebia nada. Mas durou pouco . Rino . e então Lila afastou Pasquale e correu para puxar o irmão para dentro . embora ainda não tivesse escola. Dois dias depois levantei-me cedo . para ir com ela abrir a loja e ajudá-la a fazer as limpezàs . e pelo torveli­ nho dos rapazes .

De repente pareceu-me até que a riqueza em si mesma já não lhe interessava. se transformara em cimento: consolidava. O auge do conflito deu-se no dia da Befana. ele achava que já estava pronto . mas o ob­ jectivo já não era o mesmo da infância: nem arcas do tesouro . como Stefano . barrou-nos o caminho e disse-lhe: «Vem já trabalhar. tinha urgência em ser como os Solara . Então ele puxou-a por um braço . acordou e encontrou ao lado da cama uma meia cheia de carvão . Nem se despediu de mim e foi para casa. Por isso lhe dizia que era preciso tentar e voltar a tentar. sobre isso não havia discussões . que o caminho para chegar à fábri­ ca de calçado era um percurso difícil. mas ele não queria esperar mais . E foi justamente a partir dessa preocupação que começou a alterar as suas conversas sobre a riqueza . Com­ preendeu que fora Rino e pôs a mesa do pequeno-almoço para todos . ela rea­ giu com um insulto feio . Consertava sobretudo a cabeça de Rino .» Lila respondeu-lhe que isso nem lhe passava pela cabeça. Continuávamos a ter pressa de ficar ricas . reforçava. pendurada numa cadeira. Apareceu a mãe: o filho deixara-lhe . uma meia com rebuçados e chocolates . Mas Lila sabia bem (e dizia que Rino também sabia) que o trabalho estava cheio de defeito s . vai ajudar a mãe . aquele filho era o seu ai-jesus . e Lila não con­ seguia fazê-lo raciocinar. pelo menos comigo . Agora falava de dinheiro sem qual­ quer brilho . consertava isto e aquilo . nem brilhos de moedas e pedras preciosas . que o pai examinaria os sapatos e os deitaria fora. era apenas um remédio para evitar que o irmão se metes­ se em sarilhos . O par de sapatos que tinham feito em conjunto . Mas o irmão zangou-se . Por isso . «Tudo por minha culpa» . e logo nos primeiros dias de Janeiro assisti a mais uma briga feia. Rino na verdade enervava-se . magicava com olhos de má no que havia de inventar para acalmá-lo . nunca repreen­ deu Lila por ter deixado de ir para a sapataria. Rino aproximou-se de cabeça baixa. Pelo contrário . quando viu que a mesa não .A Amiga Genial 141 Tive a impressão de que ela nem sabia o que queria. e queria mostrá-lo a Fernando . Agora parecia que o dinheiro .» Mas como ao virar da esquina não estava. Ela. Fernando . «fi-lo acreditar que a sorte está ao virar da esquina . por exemplo . muito mais do que a vira ultimamente .» Ela obedeceu . excepto para ele . Rino deu-lhe uma bofetada e gritou: «Então vai para casa. o que a comovera. começou a admitir. A única certe­ za é que parecia muito preocupada com o irmão . na ideia dela. deu-lhe a entender que se sentia satisfeito por ela ficar em casa a ajudar a mãe . segundo parece .

Naquele sorriso. pensando que era a brincar. e depois o do esquerdo . Tirou da caixa os sapatos novos . Rino decidira sozinho mostrar ao pai os sapatos novos . examinou-os por cima. apareceu o irmão . todo vermelho . «Quem fez estes sapatos é um mestre» . por seu lado . sem dizer uma palavra. com a expressão de u m Randolph Scott encolerizado .1 42 Elena Ferrante estava posta para ele . no meio do fumo e dos estalos: Rino perdera o seu perfil habitual . do qual podia sair o irremediável . «Habilidosa. como se fossem uma prenda da Befana. Não sabia nada sobre aquela iniciativa. a Befana. que nada sabia sobre a história dos sapatos . preparou-se para o fazer. «São sapatos de gente fina» . disse . e via-se que estava furioso . pareceu-lhe ter a confirmação daquilo que a assustara no terraço . sob o olhar da farm1ia. por dentro e por fora. a sentir necessidade de estar ao lado dele para o ajudar e ser ajudada. «Que bonitos que são» . e ela atirou-lhe um pedaço de carvão . papá. feitos em segredo pelos dois filhos.» Em cada palavra sentia-se como sofria. mas quando percebeu que a irmã o fizera a sério . pensei que. que ela tives­ se apreciado a partida. primeiro o sapato do pé direito . por baixo . sentou-se e calçou . «Vejam o que a Befana me trouxe» . mas Lila não deixou . e como esse sofrimento o enchia de vontade de partir tudo . da surpresa. com uma caixa de cartão na mão . andou para a frente e para trás na cozinha. mais insuportável ainda porque continuava a amar o irmão . deitando olhares apaixo­ nados ao filho . mas sem que o rosto se lhe desanuviasse . disse Nunzia. disse a mulher. Fernando sentou-se de novo . quando lhe apanhou o olhar alarmado a observar o rosto do pai . «fê-los mesmo para os meus pés . queria sair da cozinha. Nesse instante apareceu Fernando em cuecas e camisola interior. Lila ficou de boca aberta. ela agora tinha um irmão desmarginado . Mas Rino parecia não perceber isso . Lila. tentou agarrá-la para lhe bater. disse . «A Befana» . Quando viu na cara do irmão um sorrisinho divertido e angustiado ao mesmo tempo . pronunciava frases incompletas: fiz assim. viu algo insuportavelmente mesquinho .» Levantou-se . Tirou-os . Rino riu-se . disse . experimentou-os. sorria. evitar o aces- . «São realmente cómodos» . A cada palavra sarcástica do pai ficava mais orgulhoso . acrescentei isto . comentou . naquele olhar. Fernando . Enquanto mãe e filha discutiam .

Lila só se meteu no meio quando viu que o irmão . mal fez o gesto de virar as costas . ir às compras . feliz e embaraçado . mas não conseguia decidir-se . não se sentia contente por se comportar as­ sim. não queria deixar o irmão sozinho . Ela encolhia os ombros . amuado . inicialmente ape­ nas preocupado em proteger-se de murros e pontapés .» Rino pensou que era uma brincadeira que encerraria definitivamente toda a controvérsia entre eles e virou-se . domingo de manhã. derrubando cadeiras . chamou-lhe besta e néscio . às vezes dava-lhe um beijo na . calados . Disse ao filho: «Vira-te . partindo pratos . Mas em vão . jurando que preferia matar-se a continuar a trabalhar de graça para o pai . Dos sapatos. Mas . mentindo . os outros irmãos e a vizinhança. atou-os . Rino . com este bico largo são bastante originais. esforçava-se bastante para voltar a ser o mesmo de antigamente . estendê-la ao sol . até esgotarem as forças . Se alguma coisa não lhe agradava. tristonho .» E depois pedia-lhe: «Ajuda-me. fechados na lojeca com os seus deses­ peros. andava de roda dela com brincadeiras . eu tenho de sair desta situação. e co­ meçou a exigir que a irmã fizesse as coisas de maneira que ele encon­ trasse sempre meias . e atirou-lhe tudo aquilo a que pôde jogar a mão . que o ser­ visse e o respeitasse quando voltava do trabalho .A Amiga Genial 1 43 so de cólera iminente do pai . e a chorar. voltou a calçá-los . Cozinhava. naturalmente. falava-lhe em tom gentil: «Estás zangada comigo porque fiquei com todo o mérito dos sapatos? Mas fi-lo» dizia-lhe. interpretou o facto como uma desconsideração incompreensível . Rinu . aterro­ rizando a mãe . cozinhar. protestava. por fim também os sapatos . o que havemos de fazer agora? Não podemos ficar parados . cuecas e camisas em ordem na gaveta. arrependia-se. não protestava. estafermo . começava tam­ bém a gritar. Nos dias bons . Lila decidiu que o seu papel era ajudar a mãe . passava a ferro .» Sentou-se . nunca os vi nos pés de ninguém. Depois volta­ ram a trabalhar juntos .» Lila ficava calada. o pai deu-lhe um violento pontapé no traseiro . durante algum tempo não se voltou a falar. «não têm nada atabalhoado . Ele próprio . tenho de agradecer à Befana. E sobretudo . e nunca mais foi à sapataria. «para evitar que o papá se zangasse tam­ bém contigo. continuou Fernando . dizia coisas desagradáveis do tipo: nem uma camisa sabes passar. Pai e filho tiveram de desabafar primeiro . por exemplo. tentava acalmar-se . passou a executar as suas tarefas com atenção e cuidado . «São leves e ao mesmo tempo robustos» . lavar a roupa.

Gaguejou que mal havíamos começado . Tanto trabalho deitado fora. e por terem nascido graças a um desenho numa folha de caderno . tentara apalpar-me o peito . Muitos dos meus colegas começaram a desistir. Um dia desatou a chorar durante o interrogatório de Grego . Tínhamos dado um beijo. excepto Gino que . Vinha sujo do trabalho e muito agitado . Pediu-me para continuarmos mais um pouco . existiam. mas não se aguentou . ia ao quarto de arrumos onde escondera os sapatos e apalpava-os . fui absorvida pelos ritmos torturantes que os pro­ fessores nos impunham. talvez devido à tensão . ela própria maravilhada porque. Gritava­ -lhe que ela é que o traíra. não se esforçava para compreen­ der. Gino teve insuficientes em tudo e pediu-me ajuda. Como namorados . Já sabia que não me custava nada deixar de ter a companhia dele na ida para a escola e no regresso . mas sem língua. ou pela satisfação de ver que também ao seu companheiro de carteira as coisas corriam mal . mas era preguiçoso .1 44 Elena Ferrante face. mas eu zanguei-me e repeli-o . bem ou mal . as primeiras da sua vida. Deixei-o copiar. Tentei ajudá-lo . o que para um rapaz era considerado muito humilhante . muito perturbados . Disse-lhe . Mesmo quando copiava não prestava atenção . Uma manhã. Regressei à escola. Lila por vezes . entre nós não acontecera grande coisa. 24 . também estava em dificulda­ des . pois mais tarde ou mais cedo casaria com um imbecil qualquer e ia-se embora. rebentou a rir. simplesmente . Poucos dias depois do meu rompimento com Gino . quando não estava ninguém em casa. e a turma a reduzir-se . mas mantive-me firme na minha decisão . Pasquale fora ao seu encontro . já não gostava dele . Lila confidenciou­ -me que recebera duas declarações quase ao mesmo tempo . Mas ele entretanto já se zangara de novo e acabava sempre por partir qualquer coisa. quando andava a fazer as compras . e havia de o trair ainda mais . embora muito disciplinado . olhava para eles . Viu-se claramente que preferia morrer em vez de deitar uma só lágrima diante da turma. À saída da escola disse-lhe que por causa daquela gargalhada já não éramos namorados . preocupado: «Gostas do Alfonso?» Respondi-lhe que . não estava certo . deixando­ -o a viver na miséria para sempre . mas na verdade ele só queria que o deixasse co­ piar os trabalhos de casa. A reacção dele foi perguntar-me . Ficámos todos em silêncio . pare ele perceber que já não estava zangada. Alfonso .

A Amiga Genial 1 45

que andava preocupado porque nunca mais a vira na sapataria, e pensou
que estivesse doente . Mas agora que a encontrava de boa saúde , estava
feliz. Porém , enquanto falava, não mostrava felicidade nenhuma no ros­
to . Interrompeu-se como se estivesse a sufocar e, para libertar a gargan­
ta, quase gritou que gostava dela. Amava-a tanto que , se ela estivesse de
acordo , ia falar imediatamente com o irmão , com os pais, com quem
fosse preciso , para um compromisso sério . Ela ficara sem palavras , du­
rante alguns minutos pensou que ele estivesse a brincar. Tantas vezes eu
lhe dissera que Pasquale andava de olho nela, e nunca acreditara. Mas
afinal ali estava ele , num lindo dia de Primavera, quase com as lágrimas
nos olhos, a suplicar-lhe , a dizer que a vida para ele perderia todo o valor
se ela dissesse que não . Como eram difíceis de deslindar os sentimentos
de amor. Lila, com muita cautela, sem nunca dizer que não , encontrara
as palavras para o rejeitar. Disse-lhe que também ela gostava dele , mas
não como se gosta de um namorado . Disse-lhe também que lhe seria
grata para sempre por todas as coisas que ele lhe explicara: o fascismo ,
a resistência, a monarquia, a república, o mercado negro , o comandante
Lauro , os neofascistas , a democracia cristã, o comunismo . Mas compro­
meter-se com ele , não , nunca se comprometeria com ninguém. E con­
cluíra: «Gosto de todos vós , do Antonio , de ti , do Enzo , como gosto do
Rino .» Pasquale , então , murmurara: «Mas eu não gosto de ti como
gosto da Carmela.» Escapulira-se e voltara para o trabalho .
«E a outra declaração?» , perguntei-lhe com curiosidade , mas também
um pouco ansiosa.
«Nunca terias imaginado .»
A outra declaração viera de Marcello Solara.
Ao ouvir aquele nome senti uma pontada no estômago . Se o amor de
Pasquale era um sinal de como Lila era capaz de agradar, o amor de
Marcello , um rapaz bonito , rico , com automóvel , duro , violento , camor­
rista, habituado , portanto , a ter as mulheres que queria, era, aos meus
olhos , aos olhos de todas as raparigas da minha idade , apesar da má
fama que tinha, ou talvez também por causa disso , uma promoção , a
passagem da rapariguinha magricela a mulher, capaz de vergar a si
qualquer um.
«E como aconteceu?»
Marcello ia ao volante do 1100, sozinho , sem o irmão , e viu-a quando
regressava a casa pela rua larga. Não encostara o carro , não falara com
ela através da janela. Deixou o carro no meio da rua , de porta aberta, e
aproximou-se dela. Lila continuou a andar, e ele atrás . Suplicou-lhe que

1 46 Elena Ferrante

lhe perdoasse a maneira como se comportara tempos atrás , admitindo
que ela teria feito bem em matá-lo com o trinchete . Recordou-lhe , emo­
cionado , como tinham dançado bem o rock na festa da mãe de Gigliola,
sinal de que podiam acertar bem o passo um com o outro . Fizera-lhe
muitos elogios: «Como tu cresceste , que lindos olhos que tens, que bo­
nita que és.» Depois contou-lhe o sonho que tivera nessa noite: ele
pedia-a em casamento , ela dizia que sim, e ele oferecia-lhe um anel de
noivado idêntico ao da avó , que tinha um engaste com três diamantes .
Lila finalmente falara, continuando a andar. Perguntou-lhe: «Nesse so­
nho eu disse-te que sim?» . Marcello confirmou e ela respondeu: «Então
foi mesmo um sonho , porque tu és um animal , tu e a tua fallll1 ia, o teu
avô , o teu pai , o teu irmão , e eu nunca te diria que sim, mesmo que digas
que me matas .»
«Disseste-lhe mesmo assim?»
«Disse-lhe ainda mais.»
«Ü quê?»
Quando Marcello , ofendido , lhe respondera que os seus sentimentos
eram muito delicados , que dia e noite só nela pensava com amor, e por
isso não era um animal , mas alguém que a amava, ela retorquira que se
uma pessoa se comportava como ele se comportara com Ada, e se essa
mesma pessoa na noite da passagem do ano se punha a disparar contra
outras pessoas com uma pistola, chamar-lhe animal era ofender os ani­
mais . Marcello percebera finalmente que ela não estava a brincar, que na
verdade o considerava muito menos do que uma rã, do que uma salaman­
dra, e ficou imediatamente deprimido . Murmurara baixinho: «Foi o meu
irmão que disparou .» Mas ao pronunciar esta frase compreendeu logo
que depois disso ela o desprezaria ainda mais . Verdade pura. Lila apres­
sou o passo , e quando ele ainda tentou segui-la, gritou-lhe: «Vai-te em­
bora» , e começou a correr. Ele parou , como se não soubesse onde estava
e o que havia de fazer, e depois voltou para o 1100 de cabeça baixa.
«Tu fizeste isso ao Marcello Solara?»
«Sim.»
«És doida. Não contes a ninguém que o trataste assim.»
Naquele momento pareceu-me uma recomendação supérflua, disse
aquilo só para mostrar que a história dela era importante para mim. Lila,
por natureza, gostava de falar e de fantasiar acerca dos factos , mas não
era de mexericos , ao contrário de nós , que estávamos sempre a mexeri­
car. E de facto , do amor de Pasquale falou só a mim , nunca me constou
que tivesse contado a mais alguém. Mas a respeito de Marcello Solara

A Amiga Genial 1 47

contou a toda a gente . Encontrei Carrne la, que me disse: «Soubeste que
a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» . Depois foi Ada que me
disse: «Nada menos , a tua amiga deu uma nega ao Marcello Solara.»
Pinuccia Carracci , na charcutaria, segredou-me ao ouvido: «É verdade
que a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» Até Alfonso me
disse um dia na escola, estupefacto: «A tua amiga disse que não ao
Marcello Solara?»
Quando vi Lila, disse-lhe:
«Fizeste mal em dizer a toda a gente , o Marcello vai ficar furioso .»
Ela encolheu os ombros . Tinha muito que fazer, com os irmãos , a
casa, a mãe , o pai , e não se deteve muito tempo a falar. Desde a noite
da passagem do ano , dedicava-se só às tarefas domésticas .

25 .

E era mesmo assim. Durante o resto do ano escolar, Lila desinteressou­
-se completamente daquilo que eu fazia na escola. Quando lhe perguntei
que livros ia buscar à biblioteca, o que andava a ler, respondeu com des­
peito: «Já não vou lá buscar nada, os livros fazem-me doer a cabeça.»
Eu , porém, estudava, e ler tomara-se um hábito agradável . Mas tive
de reconhecer que , desde que Lila deixara de me pressionar, de se ante­
cipar a mim no estudo e nas leituras , tanto a escola como a biblioteca
do professor Ferrara tinham deixado de ser uma espécie de aventura,
tomando-se simplesmente uma coisa que eu sabia fazer bem e pela qual
era muito elogiada.
Apercebi-me claramente disso em duas ocasiões.
Uma vez fui buscar livros à biblioteca, com o meu cartão todo preen­
chido com empréstimos e devoluções , e o professor, primeiro congratu­
lou-se com a minha assiduidade , depois perguntou-me por Lila, lamen­
tando muito que ela e toda a família tivessem deixado de ir buscar
livros. É difícil explicar porquê , mas aquela lamentação fez-me sofrer.
Pareceu-me a prova de um verdadeiro interesse por Lila, algo muito
mais profundo do que os louvores pela minha regularidade de leitora
assídua. Veio-me à ideia que , mesmo que Lila só tivesse ido buscar um
livro por ano , teria deixado nesse livro a sua marca, e o professor senti­
-la-ia no momento da devolução , ao passo que eu não deixava marcas ,
eu representava apenas a persistência com que ia somando um livro a
outro livro , desordenadamente .

148 Elena Ferrante

A outra ocasião teve a ver com a rotina escolar. O professor de Letras
trouxe as composições de Italiano corrigidas (ainda me recordo do te­
ma: «As várias fases do drama de Dido» ) , e enquanto geralmente se li­
mitava a dizer duas palavras para justificar o meu oito ou nove habitual ,
naquele dia elogiou-me com eloquência diante da turma, e só no fim
revelou que me dera nada menos do que um dez . No final da aula cha­
mou-me ao corredor, verdadeiramente admirado com a maneira como
eu desenvolvera o tema, e quando o professor de Religião apareceu ,
deteve-o e resumiu-lhe , cheio de entusiasmo , a minha composição . Dias
depois constatei que Gerace não se limitara ao padre , fizera circular
esse meu trabalho pelos outros professores também , e não só os da mi­
nha secção . Alguns professores do liceu agora sorriam-me nos corredo­
res , faziam-me até comentários . Uma professora do primeiro A, por
exemplo , a professora Galiani , muito considerada, e que todos evitavam
por ter fama de ser comunista, e porque em duas penadas era capaz de
deitar por terra qualquer argumentação mal fundamentada, dirigiu-se a
mim no átrio e entusiasmou-se sobretudo com a ideia, central no meu
trabalho , de que , se o amor for desterrado das cidades , a natureza bené­
fica das cidades transforma-se em natureza maléfica. Perguntou-me:
«Ü que significa para ti "uma cidade sem amor"?»
«Um povo privado da felicidade .»
«Dá-me um exemplo .»
Pensei nas discussões que tivera com Lila e Pasquale durante o Ve­
rão , e de repente senti-as como uma verdadeira escola, mais verdadeira
do que aquela que eu tinha todos os dias .
«A Itália sob o fascismo , a Alemanha sob o nazismo , todos nós , seres
humanos , no mundo de hoje.»
Sondou-me com acrescido interesse . Disse que eu escrevia muito
bem, aconselhou-me algumas leituras , ofereceu-se para me emprestar
livros seus. Por fim perguntou o que fazia o meu pai , e eu respondi: «É
porteiro na câmara municipal .» Afastou-se de cabeça baixa.
Aquele interesse da professora Galiani , como é natural , encheu-me de
orgulho , mas não teve grandes consequências , e a rotina escolar voltou
ao normal . Por isso , o facto de eu , ainda no primeiro ano da secundária,
já ser uma aluna com uma certa fama de excepcional , acabou por não me
parecer importante . Afinal o que é que isso provava? Provava acima de
tudo que fora proveitoso estudar e conversar com Lila, tê-la como estí­
mulo e apoio da minha aventura naquele mundo exterior ao bairro, entre
as coisas , as pessoas , as paisagens e as ideias dos livros. Sim, dizia para

A Amiga Genial 1 49

comigo , claro que a composição sobre Dido é minha, a capacidade de
formular frases bonitas é um dom meu; claro que aquilo que escrevi
sobre Dido me pertence; mas não foi elaborado juntamente com ela, não
nos estimulámos mutuamente , a minha paixão não cresceu com o calor
da dela? E aquela ideia da cidade sem amor, que tanto agradara aos pro­
fessores , não me viera de Lila, embora eu depois a tenha desenvolvido
com as minhas capacidades? O que devia eu concluir disto?
Fiquei à espera de novos elogios , que provassem as minhas capaci­
dades autónomas . Mas Gerace , quando marcou outro trabalho sobre a
rainha de Cartago («Eneias e Di do: o encontro de dois fugitivos») , não
se entusiasmou , limitou-se a dar-me um oito . Mas da professora Galiani
recebia cordiais gestos de saudação e fiz a agradável descoberta de que
ela era professora de Latim e Grego de Nino Sarratore , aluno do primei­
ro A. Sentia uma necessidade urgente de atenção e apreço renovados ,
tive esperança que me viessem dele , pelo menos . Tive esperança de que
a sua professora de Letras me elogiasse publicamente , digamos , na tur­
ma dele , fazendo com que se recordasse de mim e finalmente me diri­
gisse a palavra. Mas não aconteceu nada, continuei a entrevê-lo à saída,
à entrada, sempre com o mesmo ar absorto , nunca um olhar. Uma vez
cheguei mesmo a segui-lo pelo Corso Garibaldi e pela Via Casanova, na
esperança de que reparasse em mim e me dissesse: olá, estou a ver que
fazemos o mesmo caminho , ouvi falar muito de ti . Mas seguia apressa­
do , de cabeça baixa, e nunca se virou . Cansei-me , senti desprezo por
mim. Deprimida, meti pelo Corso Novara e fui para casa.
Fui avançando dia após dia, sempre preocupada em confirmar aos
professores , aos colegas , a mim própria, a minha assiduidade e diligên­
cia. Mas entretanto crescia-me cá dentro um sentimento de solidão ,
sentia que aprendia sem energia. Experimentei contar a Lila as queixas
do professor Ferrara , disse-lhe para voltar a ir à biblioteca. Também lhe
disse que o meu trabalho sobre Dido fora muito apreciado , sem lhe
contar o que tinha escrito , mas dando-lhe a entender que o sucesso em
parte também era dela. Ouviu-me apaticamente , talvez já nem se recor­
dasse da nossa conversa sobre aquela personagem, tinha outros proble­
mas . Assim que lhe dei oportunidade , disse-me que Marcello Solara não
se resignara como Pasquale , continuava a andar atrás dela. Se saía para
ir às compras , ele seguia-a, sem a incomodar, até à loja de Stefano , ou
até à carroça de Enzo , só para olhar para ela. Se se assomava à janela,
via-o parado à esquina, à espera de que ela se debruçasse na janela.
Andava enervada com aquela persistência. Receava que o pai desse por

os nossos acompanhan­ tes tinham caras muito perigosas . e detestava Fernando por não compreender a importância daquelas coisas . à Via Filangieri . Dizia à irmã. que o via diariamente . era assim que ele estava. Via-se magra.» Queria comprar um automóvel . e depois Via dei Mille . que acabavam em cenas de pancadaria dia sim. tentanto reacender nela o velho entusiasmo: «Nós somos inteligentes . e sobretudo que Rino se apercebesse . eu . 26 . Rino e Pasquale foram todo o caminho alerta. raparigas . dizia. Rino e Pasquale não concorda­ vam. «Levo as pessoas a fazerem coisas erradas . mas não . em meados de Abril . e não conseguia resignar-se ao trabalho quotidiano na oficina. no bairro havia muitas . e respondiam só com resmungos em dialecto e insultos a pessoas indeterminadas . A convicção de ter feito mais mal ao irmão do que bem consolidara-se . Desfeito o projecto da fábrica de calçado Cerullo . Nós . Uma vez disse-me: «Já viste como as pessoas quando acordam são feias . Rino continuava agarrado à mania de ficar rico como os Solara. perguntava. não têm olhar?» Na opinião dela. como Stefano . vestimo­ -nos o melhor que pudemos . mais ainda. que ia muito cheio . feia. afirmava. «Basta olhar para ele» . mas ela. dia não . Receavam que alguém nos apalpasse . Apanhámos o metropolitano . andava alarmada. Recordo-me de que um domingo à noite . Nós três unimo-nos e insistimos . tratava-a pior do que a uma serva. Pasquale e Rino . Porque é que Marcello se fixara nela? «Tenho alguma coisa de doentio?» . Dos dois ir- . todas deforma­ das . a quem chamavam «janotas» . «0 que tenho eu?» . mas não sabiam ou não queriam explicar-se . saímos os cinco: Lila. Lila insistia em ir à Via Chiaia. um televisor. e assim que saímos de casa pusemos bâton e pintámos um pouco os olhos . Descemos a Via Toledo a pé . até à Piazza Amedeo . ao pé de nós . Talvez nem se apercebesse de como o seu feitio se deteriorara. Lina.» Repetia muito essa ideia. ninguém nos leva a melhor. Nesse momento ouvimos buzinar. juntos . Mas quando Lila mostrava que já não queria apoiá-lo . Carmela. Voltámo-nos e vimos o 1 1 00 dos Solara. diz-m� o que havemos de fa­ zer.1 50 Elena Ferrante isso . Assustava-a a possibilidade de principiar ali uma daquelas histórias de homens . zonas onde se sabia que havia gente rica e elegante.

Está bem. voltou a insistir que queria ir passear onde se encontravam as pessoas elegantes . deve ter che­ gado por vias secretas aos dois rapazes . mal arran­ jados. Foi como se atravessássemos uma fronteira. Eram completamente diferentes de nós . quando usavam óculos . Eu não olha­ va para os rapazes . quatro jovens de automóvel . naturalmente . enquanto nós íamos a pé . Agar­ rou-se ao braço de Pasquale . Passara num relâmpago a imagem do poder. elas passavam e parecia que não me viam. calámos . e Pas­ quale concordou . que olharam para nós . Recordo um passeio entre multidões e uma espécie de diversidade humilhante . fez aquilo que para ela era pa­ rodiar uma pessoa fina. gritou . Nenhum deles falou em Ada. enquanto o carro desaparecia na direcção da Piazza del Plebiscito . a maneira certa de saírem do bairro para se irem divertir. e entrámos na Via Chiaia. tesos . com os lindos irmãos Solara. Ou éramos desinteressantes . terem-se vestido em qualquer outro planeta. Estava pasmada. Pareciam ter respirado outro ar. como se aquele encontro não tivesse acontecido . Pareceram­ -nos bonitas . E se por vezes o olhar lhes caía sobre nós . para as senhoras . agitando as mãos e gritando-nos saudações alegres . e de Pasquale . lindos brincos cin­ tilantes . Enquanto eu teria parado para olhar à vontade para vestidos . com a surpresa. de tão espantadas que ficámos com as duas raparigas que nos faziam adeus das janelas: Gigliola e Ada. sapatos . Não éramos perceptíveis. que remendava sapa­ tos . Lila foi a única que gritou qualquer coisa com entusiasmo e lhes fez adeus com gestos largos . A nossa maneira era errada: a pé . suspira­ ram e se deram por vencidos. disseram . belos penteados . depois Rino disse em voz baixa a Pasquale que desde sempre se sabia que Gigliola era uma puta. . Rino e Pasquale viraram a cara. Antonio era amigo de ambos e não queriam ofendê-lo . Mas Carmela disse muito mal de Ada. Deu-me vontade de voltar imediatamente para casa. exasperadas pela ideia de que Gigliola e Ada andavam a divertir-se num 1 1 00 . sério . que é como quem diz . Aquela nossa insatisfação . mas sim para as raparigas . riu . e desfez-se em grandes sorrisos e gestos lânguidos. Eu senti sobretudo amargura. nem responde­ mos . Não viam nenhum de nós .A Amiga Genial 151 mãos nem nos apercebemos . na companhia de Rino . Carmela e eu . saracoteou-se . terem aprendido a andar sobre fios de vento . ter comido outros alimentos. o tipo de óculos que usavam . que . Mas Lila. Nós hesitámos um pouco e de­ pois resolvemos secundá-la. Ficámos um bocado em silêncio . com lindos vestidos . que era pedreiro .

ao passo que nós . mais crescidos. para não estragarmos a noite . mas também estimula­ das a imaginar como nos transformaríamos . que não é bom?» «Bom?» . Lila.» E desatou a rir. se tivéssemos a possibilidade de nos reeducarmos . ficavas parecida com uma bola-de-berlim. disse ela. os tornava carrancudos . e na cabeça . aquilo são sapatos?» Fomos até ao Palazzo Cellamare . em olhar para ela. ironizando . Olhavam apenas umas para as outras .» «É um liceu clássico» . mas via­ -se que o mais pequeno contacto o perturbava. e apontou para uma rapariga loira que vinha na nossa direcção . «podes ter a certeza. acompanhada por um jovem moreno . que evitava de todas as formas estar ao pé de Lila.» «E viste os sapatos?» «Ü quê . feias . indispostos pela certeza de estarem num lugar que não era o deles . com bons modos (falava com ela.» «Valente . picada. mas percebemos que Rino e Pasquale . «Não presta» . alto . caminhando a meu lado. Sentíamo-nos acanhadas e ao mesmo tempo encantadas.e era principalmente isso que fazia rir Lila .um chapéu de coco como o de Charlot. claro . Todos nós reparámos nisso. Pasquale. não presta. a tua escola mete nojo. . Não é verdade . de pulôver branco com decote em V: «Se não houver lá uma como aquela. de nos vestirmos e de nos maquilharmos e de nos ataviarmos como deve ser.» «Eu usava. raparigas . como aquela que ali vai . rea­ gíamos com risotas . A rapariga estava toda de verde: sapatos verdes . e quando ela lhe dera o braço se libertara de imediato . o que os punha de mau humor.» «Quer dizer que não é uma boa escola. talvez até fosse capaz de fazê-lo chorar) . por aquelas ruas encontravam ape­ nas a confirmação de coisas que já sabiam. como se incomodadas . Entretanto . só naquele momento fazíamos essa descoberta e com sentimentos ambíguos . sentia um prazer evidente em ouvir-lhe a voz. insistiu ele . casaco verde . disse eu . saia verde . a rir e a dizer piadas .1 52 Elena Ferrante voltavam-se imediatamente para outro lado . perguntou-me com sarcasmo: «Na escola as tuas companheiras são assim?» «Não . também verde . se não há lá gente assim. Ninguém se pronunciou . «Tu alguma vez usavas aquele vestido?» «Nem que me pagassem.

sozinhas?» . Rino derrubou-o com um soco na cara.» «Calma. Lila acalmou-se . Rino» . Quando o par passou por nós . e Pasquale parou . Pascà.» «Nós . Ele soltou-se . olhando para trás de vez em quando . e apoiou-se à parede com um braço . Enquanto afastava o irmão . passámos bruscamente do riso ao pavor. antes que ele pontapeasse o jovem caído no chão . veste a pele de quem sabe sempre tudo . puxando-o por um braço e ameaçando-o . voltou para trás e dirigiu directamente a Rino uma série de frases insultuosas . Rino continuou agitado . Parámos na Piazza dei Martiri . mas que naquele momento lhe parecia inverosímil . Entretanto . desde a infância até aos nossos catorze anos de então . Empurrámos Rino e Pasquale para longe . como é hábito . raparigas . Pasquale . repete lá o que me cha­ maste .A Amiga Genial 153 A hilaridade dela contagiou-nos a todos . «a minha irmã pensa que .» Uma pequena pausa para controlar a respiração . gritando: «0 que foi que me chamaste? Não percebi . mas baixou o tom de voz . O rapaz de pulôver branco voltou-se . de quem percebe sempre tudo . vai ver o que faço a quem me chama labrego . Lila foi a primeira a lançar-se sobre o irmão . e tem de ir por força. de tanta vontade de rir. mas um braço da rapariga reteve-o de imediato . como se mil fragmentos da nossa vida. Pascà» . e acrescen­ tou: «Ouviste que aquele pedaço de esterco me chamou labrego? Labre­ go . sem fôlego: «A minha irmã trouxe-me aqui e vai ver se deixo que me chamem labrego . disse-lhe em dialec­ to . Foi num abrir e fechar de olhos. quando eu digo que é melhor não irmos para um sítio qualquer. com um riso nervoso na cara e dirigindo-se a Pasquale: «A minha irmã pensa que aqui se brinca. Rino fez um comentário grosseiro sobre o que a senhora de verde devia fazer com o chapéu de coco. puxando-o com uma expressão incrédula. virando-se para Carmela. dis­ se em tom frio: «Vocês agora vão para casa. respondeu-lhe Pasquale alarmado . lançava-lhe insultos ordinários . com olhos de louco . Rino continha-a com uma mão . estivessem a compor uma imagem finalmente nítida. a incre­ dulidade de Lila dava lugar à fúria desesperada. A rapariga e o acompanhan­ te deram alguns passos e pararam. Ouviste . enquanto a rapariga de chapéu de coco ajudava o namorado a levantar-se . o que ele me chamou?» Nós . a mim? Labrego?» E ainda.

Eram todos altos . primeiro levantou Lila e depois . Ela também percebeu que corria o risco: «Vou contar ao papá.» «Não mintas . era o 1100 dos Solara. junto do Castel dell 'Ovo . vi Rino a proteger-se das bastonadas com o braço . Gritámos por socorro . disse que voltava para junto do irmão.» «Vai» .» Vi que estava pronto para fazê-lo a sério . eu e Carmela seguimo-la. Ten­ támos convencê-la a ficar connosco . Rino e Pasquale ergueram-se . Mas pouco depois . mas não fez caso . batendo com uma violência fria que espero não voltar a ver na minha vida. puxei Lila por um braço . incitado por ela.» «Saímos de casa juntos e regressamos juntos. deu-lhe um encontrão: «Queres parar com isso? O irmão mais velho sou eu . que gritava de raiva e chamava o irmão . disse Rino a Lila. nos passeios de domingo . Com eles encontrava-se o rapaz a quem Rino esmurrara a cara. Depois parou um carro . e o grupo dos bem vestidos a persegui-los e a dar-lhes com os bastões . cinco ou seis .1 54 Elena Ferrante «Sim. bem constituídos . tentando conter-se . parou. Lila agarrou um dos agressores por um braço . Enquanto discu­ tíamos vimos um grupo de rapazes . Alguns leva­ vam um bastão . tirou qualquer coisa que parecia um pedaço de ferro reluzente e entrou na luta. a interceptar transeuntes . abriu o porta­ -bagagem sem pressa. bem vestidos . começámos a subir por Santa Caterina.» Incertas . pareciam os canoeiros que às vezes admirávamos . vá. Vi Pasquale de joelhos. outros não . anda. nem o gelado mereces .» Rino perdeu de novo a paciência.» «Carme . Lila soltou-se da minha mão e foi a correr. tens de fazer o que eu te digo . «toma lá dinheiro . Chegámos mesmo a tempo de ver Rino e Pasquale a recuar. as pessoas não ajudavam. não tarda nada parto-te a cara.» «Não sabemos o caminho . lado a lado . mas deitaram-na ao chão . Passaram ao lado da igreja em passo apressa­ do e dirigiram-se para a praça. dando murros e levando . vá. come­ çámos a chorar.» «E eu ralado ! Põe-te a andar. na direcção do monumento central da praça. pira-te . não quero discutir. Lila mudou de ideias . com o pulôver de decote em V sujo de sangue . com- prem gelados pelo caminho . mas os bastões metiam medo . Marcello saiu do carro . atirou-se para a refrega. Mexe-te . Só então Michele saiu do carro . atacado a pontapé .» «Não . Vão-se embora.

e ela. vendo-a depois molhada de vermelho . diziam. olhava para mim. Fizemos o resto do caminho a pé . procurando-a com o olhar através do espelho retrovi­ sor. sabia bem que os Solara eram gente impecável . que opu­ nha maior resistência. curiosas . Eu olhava para ela. Gigliola e Ada estavam muito irritadas . estávamos todas muito admiradas com o comportamento dos dois irmãos . em passo lento de princesa. apertando .A Amiga Genial 1 55 furiosos .» . disse Rino aos dois Solara. Marce­ llo apanhou do chão um molho de chaves e deu-o a Rino . batendo . protestaram pela forma incómo­ da de viajar. divertido . foi sentar-se à frente . que se dirigiam para a Riviera.» «É outro tipo de divertimento . mas num tom trocista: «Lá na escola. Exceptuando Lila. dissemos . Marcello travou . para evitarmos ser vistas no carro dos Solara. Eu estava paralisada de medo . em primeiro lugar Lila.» «Mas não te divertes como eu me divirto . A certa altura perguntou-me . Pasquale a coxear. «Não é possível» . disse Lila. diante dos nossos olhos . Marcello pronunciou algumas palavras . Eu desviava logo os olhos . que pare­ cia consumida pela raiva e pela preocupação . «Mas o que é que julgavam» . Amontoámo-nos todas no banco de trás . Fizemos assim a viagem. Os rapazes bem vestidos puseram-se em fuga. portaram-se bem . rasgando . Gigliola repetia sem parar: «Mas é claro» . Gi­ gliola desceu e . «Então apeiem-se e vão a pé» . As pessoas que antes se tinham afastado . com ar de quem . que agradeceu de má vontade . sentadas no colo umas das outras . por trabalhar na pastelaria. e partimos. aproximavam­ -se agora. Senti-me como se o bairro se tivesse ampliado e abrangesse Nápoles inteira. e estavam quase a agredir-se . no colo de Michele . no tom agra­ decido de quem faz um pedido que não pode evitar. mas Pasquale repeliu-o com maus modos e passou pela cara a manga da camisa branca. as cinco raparigas juntas . como é?» «Óptimo . incluindo as ruas da gente rica. Dentro do carro houve imediatamente conflitos. Quisemos que nos deixassem longe de casa. Voltei-me para olhar para Pasquale e Rino . enquanto dava beijos apaixonados . que sangrava do nariz . Marcello fez-nos entrar para o carro . com Gigliola e Michele a beijarem-se constantemente. «Levem daqui as raparigas» . Michele aproximou-se de Pasquale . mas ela não lhe deu resposta. Lila não voltou a falar até chegarmos ao bairro . de tal modo estavam alterados pelo ódio . Pareceram-me dois desconheci­ dos . «Mas sem dúvida» . Valentes .

Não estava de acordo . Ela não s e sentia muito bem. as coisas haviam melhorado . ficaram trinta e dois .» Ela abanou a cabeça energicamente . O rapaz. apresentara-se na oficina para se informar sobre o estado de Rino. de barco . Mas .1 56 Elena Ferrante Quando ela. comprados no bar Solara. da bolsa de estudo . pondo em alvoroço sobretudo Fernando . inventara que tinha caído . Já sabia que ela nunca me deixaria ir. depois da violência da Piazza dei Martiri. Aparentemente . dera-se um facto totalmente inesperado que a deixara perplexa. fazendo uma viagem por mar? Eu . mas elogiou-me muito . 27 . Aqueles da Via dei Mille podiam matá-los . para ver se ela me recebia em sua casa durante algum tempo . Gino foi reprovado . circunspecta: «ÜS Solara podem ser gente de merda. tinha qualquer coisa n a garganta que lhe doía. para lhe agradecer o seu interesse por mim . mas não disse nada à minha mãe sobre aquela possibilidade . Estava mais pálida do que o habitual e tinha sulcos roxos profundos sob os olhos . fui a casa da professora Oliviero . que tivera o cuidado de não contar ao pai o que acontecera (para justificar as nódoas roxas da cara e do corpo . ao Rino e ao Pasquale . até ia receber uma coisa que se chamava bolsa de estudo . não gostava que ela metesse o nariz na sua fann1 ia e se per­ mitisse tomar decisões a respeito dos seus filhos . a tomar banho em maiô? Nem a Lila falei nisso . um de açúcar e outro de café . pela honra que lhe era feita. Incitada pelo meu pai . regozijou-se com o meu bom aproveita­ mento . Eu . e não tinha coragem de me gabar da aprovação .» Ela não respondeu .minha mãe era contra. Passei com nove a tudo . Mas Rino . sem dúvida. passando por cima dela . Acrescentei . mas ainda bem que lá estavam. perdera até a aura aventureira da fábrica de sapatos . mas não me disse porquê . na praia. Dos quarenta que éramos . Agradeci . Carmela e Ada se separaram de nós para entrar em casa. de umas possíveis férias em Ischia. imagine-se . eu disse a Lila: «Üs ricos são piores do que nós . em Ischia? Eu sozinha. disse que me achava bastante pálida e que tencionava telefonar a uma prima sua que morava em Ischia.com os dois pacotes do costume . em poucos meses . A sua vida. Alfonso tinha que repetir três disciplinas em Setembro . pois Marcello Solara dei­ xara de andar atrás dela.

sem dúvida. «São perigosos . Quando reentrou na oficina.» «Tu não estás a ver. chamasse ele o que quisesse àquela coisa com os Solara. depois oferecera-se para o ensinar a conduzir. Daí a poucos dias Marcello voltara. Lenu . fazendo dele uma espécie de macaquinho feliz . tu ameaçaste o Marcello com o trinchete . ou no estô­ mago . Depois verificara que as atenções de Mar­ cello seduziam ainda mais o seu irmão mais velho do que os pais . Rino agradeceu contrariado a Solara. para tirar a carta. depois encorajara-o a tratar da licença de aprendizagem. Se ele quisesse .» «Ora.» «Aqui . depois convidara Rino para dar uma volta de automóvel. Co­ nhecia bem a fragilidade de Rino .» «Não existe amizade nenhuma. não é possível que se deixe enrolar.A Amiga Genial 1 57 da Lambretta de um amigo) . e despediram-se . o pai disse-lhe: «Finalmente estás a fazer uma coisa boa. ao contrário do pai .» «Ü quê?» «A amizade com o Marcello Solara. objectei uma vez . podia espetá-la no peito de um daqueles . tinham ganho estima por Rino . Dois mi­ nutos . alheia àquele convívio . papá. pensara: Rino odeia demasiado os Solara. quando ouvia falar nisso sentia. recordando-se da batalha do fogo-de-artifício . Provavelmente não se tratava de amizade . aquilo que ele tirou do carro na Piazza dei Martiri?» «Não . tudo é perigoso . e que o filho . mas também a gentileza de passar por ali para ver como ele estava. mas a barra estava bem afiada na ponta .» Fernando queria dizer que alguma coisa estava a mudar.» «Üs outros tinham bastões . «Que mal há nisso?» . que se passava em torno da sapataria. mas isso não evitava que se enfure­ cesse com a maneira como os Solara lhe estavam entrando na cabeça. receando que Marcello dissesse alguma palavra a mais. Lila. faria bem em encorajá-la. trazendo os sapatos do avô para pôr meias-solas. assumindo a responsabilidade de o deixar exercitar-se ao volante do seu 1100.» .» «Viste o Michele.» «Então quer dizer que tolo eras e tolo continuas a ser. levara-o imediatamente para a rua. Tinha razão . mas os Solara.» «Uma barra de ferro . A princípio . onde ela não punha os pés . uma grande preocupação . não só a sua intervenção. Deram um curto pas­ seio.

estava eu em casa de Lila. «Se ele te quiser.158 Elena Ferrante Ela irritou-se . Disse ao dono da casa que era muito estimado no bairro pelas suas qualidades de sapateiro . ameaçava­ -a. disse que eu não percebia. O rapaz convidara Solara para jantar. avançaram . a mim . ao passo que ela tinha outras necessidades . de bom ou de mau grado . e ríamos . Ele era irmão dela. Rino mandava-a calar. que não fora capaz de lhe dizer que não . a ajudá-la a dobrar os lençóis já secos . nem se fala. provoquei-a eu . ou outra coisa. e Fernando . Era evidente que se fize­ ra convidado . não meu. Disse-lhe que Rino sentia uma admiração sem limites pela sua competência como sapateiro .» «De verdade?» «Sim. abriu-se a porta de casa e entrou Rino . mas sem se esquecer nunca de servir água ou vinho a Nunzia . dizia Lila furiosa. enquanto Nunzia nos mandava calar. ou então ria sem motivo . e chegou mesmo a dizer que . e eu gostava de argumentar. Solara dirigia a conversa sobretudo a Fernando .» «Está muito enganado . Mas mal fazia qualquer alusão crítica. «Veio cá para se casar contigo» . Ficou agitada. à mesa esteve sempre calado . «Que o teu pai nunca saiba disso . cansado . que regressara havia pouco da oficina. já lhe disse que não . E o facto é que as coisas . confirmei eu . e avançaram tanto que numa noite de fim de Junho . «Vou deitar aqui veneno das baratas» . queria afastar Rino daquela relação . em parte por causa do vinho . ansiosa. agradeceu as três garrafas de bom vinho que Marcello trouxera. E provavelmente era verda­ de . mas depois sentiu-se honrado e mostrou cordialidade . mata-te . não me recordo . perguntou Nunzia.» «Que estás tu a dizer?» «É verdade» . Fernando .» «Porquê?» . comoveu-se . com Lila. a Lila. de início aborreceu-se . e Rino . Nunzia. «vai pedir a tua mão ao teu pai . dizes-lhe que não?» «Ora. só Marcello é que falou . levou os outros filhos para a cozinha. Disse­ -lhe que seu pai gabava muito a sua grande habilidade . Eu própria participei . junto do fogão . nos preparativos do jantar. às vezes batia-lhe . seguido por Marcello . Gaguejou qual­ quer coisa em louvor de Silvio Solara..» Durante o jantar. a fim de não incomodarem. senão .

Começa-se por uma cave . Só se ouvia o rebuliço do pintassilgo junto à janela. número 43 .» Fez-se um longo silêncio . Lila olhou directamente para o rosto de Solara. «Que exagero» . Mas Marcello sorriu-lhe com humildade e admitiu: «Sim. sedutor. En­ tão . elogiando a energia das gerações . Disse que o avô começara numa cave . «que o s vossos filhos fizeram u m lindo par de sapatos . talvez tenha exagerado um pouco . enervado: «Vai buscar os sapatos . e hoje. que gostaria de a beijar. Rino fixou os olhos no prato e não ousava olhar para o pai . Nunzia?» «Ela é que os tem» . depois o pai ampliara o negócio . que agradem . exclamou Lila. é exactamente o número 43 . estivesse a elogiá-la sobretudo a ela. e disse: «Tinha-os . de respirar o hálito dela.» Lila explodiu .A Amiga Genial 1 59 Rino era muito trabalhador e estava a tomar-se muito competente . concluiu Marcello . todos o conheciam . e enquanto falou não tirou os olhos da minha amiga. Mas anteontem a mãe disse-me para fazer limpeza e deitei-os fora. dirigindo-se ao pai: . E a partir desse momento começou a olhar para Lila como se . apontando para a irmã. Já que ninguém gos­ tava deles . Marcello começou a elogiar a necessidade de progredir. que aos olhos dele encarnava todas as qualidades femininas possíveis . o bar-pastelaria Solara era aquilo que se sabia. «Sei» . vinha gente de toda a parte de Nápoles tomar um café . Eu sentia e via que ele estava apai­ xonado por ela como nas canções . vai já buscar os sapatos . com visível incómodo de Rino . que ela poderia fazer dele tudo o que quisesse . se tiver habilidade . Fernando disse devagar: «Sim. se não se importarem. e o pai fulminou-a com o olhar. começou a enaltecer a ideia de fazer sapatos novos .» Rino irritou-se e disse: «És uma mentirosa. sim. anda. se for capaz de criar coisas com qualidade . disse Rino . comer um bolo . precisamente o meu número . mas é só para dizer que o dinheiro deve circular. e de geração para ge­ ração pode-se chegar longe . porque é que não há-de tentar? Falou num dialecto bonito .» Fernando também disse . estavam guardados na arrecadação .» Depois .» Fernando gaguejou: «Não sei onde estão . Dizia: se uma pessoa sentir vontade . Tu sabes .» «Gostaria muito de os ver.

» Nunzia saiu da sala. não estava. «Não quero que ele lhes toque sequer. murmurando: «Eu também trabalhei . que o trabalho fora todo dele . perguntei . Disse . na penumbra. Encontrei-a aninhada junto da porta do terraço . Mas houve da mesma maneira gritos . Não voltou a aparecer. algumas bofetadas . Ela começou a chorar. Quando voltou vinha muito atarantada. Fernando gritou-lhe que . tomaste-te uma besta enlouquecida. Tremia-lhe o lá­ bio inferior. Nunzia começou a chorar. levantou-se . desolado . o vinho estremeceu nos copos: «Levanta-te e vai buscar os sapatos imediatamente .» Lila afastou a cadeira. vi-os pela primeira vez acabados . disse Fernando . Rino arrancou-lhe os sapatos da mão . Mas assim que fechei a porta e me encontrei no patamar. repetiu baixinho e saiu da sala. Fez- . Assim que ele saiu . Abanou energicamente a cabeça. in­ sultos . subi em bicos de pés . assustada. Acompanhei-a a casa. Fer­ nando berrou para a mulher: «Tão verdade como Deus ser Deus. Convenci-a pouco a pouco a voltar para casa. Eu fui­ -me embora quase em bicos de pés . Procurámo-la por toda a casa. não en­ contrava Lila. disse que lhe pertenciam. despediu-se . Lila chamou-me . Estava no último andar. «Deitei-os fora» . algo que nunca lhe acontecia. Marcello .» Mas estava arrasada devido à sua reacção extrema. não podia ficar escon­ dida lá em cima eternamente .» Foi Nunzia quem pôs fim àquela tortura. Brilhavam à luz fraca de uma lâmpada pendurada de um fio eléctrico . por causa de um capricho .» «Não existem problemas» . «0 que te custava deixá-lo vê-los?» . nada.» Fernando bateu na mesa com a mão aberta. Chamámos da janela. O tempo foi passando em silêncio . O primeiro a alarmar-se foi preci­ samente Marcello . não me tinha apercebido de que existem problemas .1 60 Elena Ferrante «Então agora já os queres? Deitei-os fora porque disseste que não gostavas deles .» Rino uniu-se ao pai nas ameaças . Tinha os sapatos no colo . preocupado: «Se calhar errei . mas melhor seria que não o tivesse feito . e segredou à mulher: «Vai ver o que a tua filha está a tramar. desorientada. o obrigara a fazer má figura perante um convidado importan­ te . contando que a minha presença a protegesse . é desta vez que mato a tua filha.

e o que é querer bem para a nossa família? Estou à espera que me digas . O papá é capaz de fazer um par de sapatos. nem aos pais . Lila murmu­ rou : «Ü que é querer bem. que o acompanhasse até à sapataria. vais ver que não lhe fico atrás . conhecem gente importante . com palavras cautelosas . ele . Cada vez que me encontrava com Lila via-lhe uma nova nódoa roxa. para ti . e deixa-nos começar a trabalhar. E eu . em quatro dias . fazemo-los .A Amiga Genial 161 -se lívida e .» «E fá-lo-ão de graça?» «Se quiserem uma pequena percentagem. nos dias que se seguiram conti­ nuou a agredir a irmã com palavras e com as mãos . no máximo cinco . nem aos irmãos .. 28 . e daquela vez as coisas ficaram por ali . sempre?» «Os Solara são comerciantes . que lhe entregassem os sapatos . Fazemo-los .» «A quem os vendemos? Ao Marcello Solara. ordenou aos filhos . o papá muda de ideias . mas que ela não queria bem a ninguém. damos-lha. Farão re- clame aos nossos sapatos.» .» Palavra puxa palavra. se me aplicar.» «Nós três?» «Eu . com todos os acabamentos . se não queriam que ela se atirasse da janela. também. que não retorquissem uma única palavra.» «De certeza. Eu escapuli-me dali para fora. que era sempre submissa . o papá percebe que os teus modelos são bons . vendemo-los e autofinancia­ mo-nos . ele revelou-lhe o que tinha em mente . Rino deu-lhe logo os sapatos . Passado algum tempo senti que ela estava resignada. Rino disse-lhe que lhe queria bem. que acabassem imediatamente com aquilo . «Se o Marcello gostar dos sapatos . E então se o Marcello os comprar. Uma manhã ele impôs-lhe que saíssem juntos . que podem dar frutos .» «Não acredito . com uma voz fora do habitual . vende­ mo-los e autofinanciamo-nos. e tam­ bém ao marido .ela. Pelo caminho ten­ taram ambos .» «E porque haviam de se contentar com uma percentagem pequena?» «Simpatizaram comigo . e talvez tu . encontrar uma maneira de aca­ bar com aquela guerra. Mas Rino não se deu por vencido .

«Isso fui eu que disse» . nem sequer Marcello . «ponho os vossos sapatos na montra da loja. mas como se tivesse outras coisas em men­ te . ou nada feito . Experimentou-os . sou eu que decido . precisou Rino . sapatos da marca Cerullo . Marcello reapareceu .» Lila suspirou: «Vamos fazer uma coisa: eu digo ao papá. e vejamos o que ele pensa. mas disse que lhe ficavam um pouco aperta­ dos .» Pai e filho esperavam que a boa sorte chegasse . disse . Se alguém os quiser ver. e mais. que sabes falar melhor. de uma pequena percentagem sobre as vendas . Na montra. De qualquer modo . Rino estava a trabalhar. Não dava crédito às hipóteses ingé­ nuas do irmão e receava o indecifrável acordo entre o pai e a mãe . e ninguém mostrou o me­ nor interesse pelos sapatos na montra. que tinha o rosto afogueado . é que Solara olhou para eles . «Está bem. Descalçou-os de imediato e desapareceu sem uma palavra sequer de apreço . diante do irmão . amuada. falas tu . dois minutos depois . Um anúncio colado no vidro . se os quiser experimentar. entre caixas de cromatina e atacadores . Mas Lila estava céptica. muito nervoso . Lila percebeu que haviam falado so­ bre o assunto e chegado a uma conclusão secreta. «Amanhã» . decerto escrito por Rino . ao jantar. como até podia estar interessado em comprá-los . Só porque foi instado por Rino . de cabeça baixa.» Nessa noite . Rino pôs-se em pé de um salto . se se entusiasmasse com a questão do ponto de vista comercial . de olhos baixos . Mas .» Rino ficou calado .» «Não te atrevas .» Fernando olhou para a mulher. pomposamente: «Aqui . na verdade quase arrastado à força para a loja. se os quiser comprar. sim. em troca. ou outra porra qualquer. faria publicidade ao produto nos círculos que frequen­ tava. tem de falar comigo . Decepção para o pai e para o filho . Fernando estava a trabalhar.» Dias depois passei pela loja.1 62 Elena Ferrante «Üs Solara?» «Sim. radiante . os dois curvados . . vi os bonitos e harmoniosos sapatos da mar­ ca Cerullo . como se estivesse com dor de barriga e precisasse de ir a correr para casa.» «Ou é assim. dizia mesmo assim. Passou uma semana. naturalmente . «e não o Marcello . Isto é. esperava coisas más . Lila disse a Fernando que Marcello não só tinha mostrado muita curio­ sidade pela iniciativa dos sapatos .

em casa. para o bem dela. nunca trocara um beijo com ninguém. Eu fiquei pasmada com aquela notícia. que se esforçava para abrir. Pus-me imediatamente do lado dela. que juntamente com a mulher intuíra de imediato as reais intenções de Marcello . que o afastou do trabalho alguns dias . Fernando . habituá-la-ia pouco a pouco ao casamento . e como sair . de olhos arregalados . Disse-lhe que ela ainda era uma criança e não tinha de dizer que sim imediatamente . antes iria afogar-se nos pauis . teve manifestações inquietantes: levantava-se da cama no meio da noite . Um longo noivado . Quando a febre bruscamente desapareceu . dizendo que . Sabia muito bem que Marce­ llo queria por força ser namorado de Lila. mas acrescentou que . como se qualquer acordo . mas não me passaria pela cabeça que na nossa idade se pudesse receber uma proposta de casa­ mento . não só para o seu futuro como para o futuro de toda a farm1ia. dom Fernà: queria pedir-lhe a mão da sua filha Lina. Encorajei-a a combater aquela nova guerra contra o pai e jurei que a apoiaria. nunca namorara às escondidas . como pai . Mas não pude ficar ao lado dela. lhe partiria os ossos se não aceitasse um partido daquela importância. Seguiu-se uma grande altercação . com aquela simples reaparição . Em meados de Julho aconteceu uma coisa com que devia ter contado . Uma tarde . depois da habitual volta pelo bairro a conversar com Lila sobre aquilo que lhe estava a acontecer. e nem tinha ainda quinze anos . que em vez de ficar noiva e depois casar-se com Marcello Solara. mas que afinal me apanhou despreve­ nida e me perturbou . com idêntica calma. Mas Marcello ignorou-o e dirigiu-se directamente a Fernando . Nunzia e Lila. e em silêncio e muito agitado ia até à porta. falou com a filha calmamente .» 29 . Disse-lhe de um só fôlego: «As minhas intenções são muito sérias .A Amiga Genial 1 63 e estendeu-lhe a mão . absolutamente não . assustadas . No entanto . arrastavam­ -no de novo para a cama. Lila respondeu-lhe . apesar de ele já ter perdido a calma e andar a ameaçá-la. a aconselhava a aceitar. mas que não a fez mudar de opinião . Rino reagiu àquela viragem com uma febre violenta. Casar-se? Com Marcello Solara? Talvez até ter filhos? Não . Lila recebera-a. ficasse já estipulado . mas a dormir. Explicou-lhe que a proposta de Marcello Solara era importante .

» Mas passados dois dias . senão dou-te uma bofetada. e ordenou-me que lhos devolvesse todos n o final d o Verão . e que o mar era lindo e eu aprendera a nadar. bombardeou-me com recomendações . como tal . e a minha mãe disse-me . aborrecida: «A professora Oliviero diz que tu precisas de repousar. em Ischia. nem de saber nadar. como que a dizer que a culpa do meu eventual afogamento não devia ser atribuída a ela. mas simplesmente ao meu esquecimento . estava pálida e tinha a cara inchada. a que era coxa e tinha um olho torto . não se foi embora depois de me transmitir aquele re­ cado . excitada. Podes ir para casa dela.» Olhei para a professora sem compreender. Ao longo do caminho até ao porto . Entrei timidamente na sala. Mas eu não me lembrava de Coroglio . enquanto me comprava o bilhete e depois . «Esperemos que o mar não esteja agitado» . tinha eu três ou qua­ tro anos . foi ela mesma que me acompanhou ao barco . Só explodiu quando a professora. e disse-lho . Vai já fazer o jantar. Ela é que parecia precisar de repouso . sem u m único canto dobrado . E ela ficou com um ar ressentido . O que mais a assus­ tava era a travessia. que estava à espe­ ra disso e teria ficado orgulhosa. Dirigiu-se a mim: «A menina tem de ir para Ischia repousar. fosse apenas um ser vivo descartável . que na sala de jantar se encontrava a sua profes­ sora. que andas muito cansada. só tens de ajudá-la um pouco em casa. me levava a Coroglio todos os dias para me curar do catarro . nem do mar. A minha mãe aguentou com paciência. e. e jurou-me que em pequena.» Falou comigo como se fosse ela a minha mãe . embora o olho dançarino lhe desse um ar alucinado . finalmente . Além disso . Ficou sen­ tada. se despediu . Explicou-me quais os que devia ler primeiro e quais depois . Estava a conversar com a nossa mãe . fez-me prometer que antes de os ler os forraria . Disse . com um gesto de desdém para ela e nem uma carícia à minha irmã. e ficar até ao fim de Agosto . e como se a minha verdadeira mãe . mostrando-me os livros que trouxera para me emprestar. a menina anda muito can­ sada. atenta. enquanto aguardámos o embarque . Anunciou-me: «A minha prima respondeu ontem mesmo . anda. isto é. que fizera o que devia fazer para evitá-lo . Recebe-te com muito prazer. demorou-se ainda uma hora bem contada. dizia quase para si mesma. não devesse ser tomada em considera­ ção .1 64 Elena Ferrante daquela situação . a senhora Oliviero . Depois recomen- . depois de me ter tirado as medidas e me ter feito à pressa um fato de banho que copiou não sei de onde . voltei para casa e a minha irmã Elisa veio abrir-me a porta.

Quando o barco se afastou do cais . «Sobretudo» . O percurso pareceu-me longo . larga e de areia escura. escrevendo uma carta por dia a Lila.assim como o bairro e as atribulações de Lila . toda vestida. . 30 . uma viagem por mar. ou descer a pé por uma estrada branca e íngreme até uma praia comprida.quando cheguei estava lá um casal inglês com duas crianças . preparar o pequeno-almoço para ela e para os hóspedes . suportes . falado­ ra. O resto do tempo era meu . todas elas cheias de perguntas . nem mesmo com o mar calmo . Cheguei à povoação de autocarro . levantar a mesa e lavar chávenas e tigelas . num bonito tom de azul . Experimentei-o e ela entusiasmou-se . colchão) de manhã. disse que já eram horas de eu ir à praia. que se chamava praia dos Maronti . Podia estar no terraço a ler com o mar em frente . Descobri que tinha obrigações inevitáveis: levantar-me às seis e meia.» Antes de nos separarmos . mais justo no traseiro . ou se te aparecer o sangue . muito decotado no peito . achou que era de velha. disse ainda. com tantos medos que a minha mãe me inculcara e os problemas que tinha com o meu corpo . Mas Nella uma manhã fez troça de mim . No dia seguinte . A prima da professora chamava-se Nella Incardo e mo­ rava em Barano . peguei numa toalha e num livro e fui até aos Maronti . encontrei facilmente a casa. Desabrochei . dizendo: «0 que fazes tu assim? Veste o fato de banho. Tinha de fazer a cama à noite e desmontar tudo (tábuas . «quando tiveres o estômago cheio . passava o tempo no terraço . Nella revelou-se uma mulherona simpática. muito alegre . Saía de casa pela primeira vez ..foi ficando cada vez mais longe . não deves sequer molhar os pés . O corpo volumoso da minha mãe . pôr a mesa para o jantar e lavar a loiça antes de ir para a cama. chegava de terraço . e que ficasse em casa se ele estivesse agitado ou com a bandeira vermelha. entre mil receios e mil curiosidades .» Quando o vesti ela desatou a rir. pediu a um velho marinheiro que olhasse por mim. ex­ tinguiu-se . ia fazer uma viagem. Eu ia dormir na cozinha.A Amiga Genial 1 65 dou-me que não me afastasse da beira da água. Alugava os quartos a veraneantes e ficava com um quartinho para si e a cozinha. No início . senti-me aterrorizada e feliz ao mes­ mo tempo . Fez-me outro que na opinião dela era mais moderno . ditos espirituosos e descrições empolgantes da ilha. solteira.

a minha perdesse intensidade e impor­ tância. a perna saudável tapada até ao joelho pelo vestido . Apercebi-me de que movia instintivamente os pés e os braços de uma certa maneira. Dizia que eu era um palito quando cheguei e agora. não per­ dia a oportunidade de me fazer elogios . mas não chegaram. Portanto . Lila que não respondia às minhas cartas . Esbra­ cejei aterrorizada. Do mar chega­ va-me um odor intenso . dos jardins . Como era possível viver numa cidade como Nápoles e nunca ter pensado . os últimos dez dias de Julho deram-me uma sensação de bem­ -estar até então desconhecida. ler estendida ao sol . . Experimentei um sentimento que depois . Depois perdi o pé e afundei-me . mais nova. Fiquei muito tempo em pé a olhar para aquela massa de água. Depois sentei-me na toalha. um receio que nunca me passara: o medo de que . tínhamos pro­ metido escrever-nos à despedida. Levantei-me e fui mo­ lhar os pés . sem saber bem o que fazer. O facto de ela não me responder aumentava essa preocupação . estava muito bonita. sabia nadar. preparar o pequeno-almoço . Não tinha saudades do meu pai . enquanto ela fazia os banhos de areia. Nella. comecei a servir-lhe de intérprete . ler mais . Só sentia falta de Lila. da minha mãe . cozi­ nhava muito bem. e que . se repetiu muito: a alegria do que é novo . escureci . Esperava cartas de Lila. passear por Barano. das ruas do bairro . sentada na areia preta ao sol do meio-dia. engoli água. Fazia-me grandes pratos . voltei à superfície e ao ar. Queimei-me . descer e subir a estrada para os Maronti . deixando que a água me subisse dos pés até aos tornozelos . encorajava-me . nem uma vez só . boas ou más . ao longo da vida. Avancei com cautela. dos meus irmãos . Enfim. Entretanto . perdendo bocados da vida dela. sem eu estar presente . às coxas . eu aprendera. em ir tomar um banho de mar? Mas era verdade . um som seco e monótono . arrumar a cozi­ nha. Receava que lhe acontecessem coisas . para me manter à tona de água . Era um receio antigo . com um vestido branco às florinhas . Vi-a num relance . e a perna doente toda enterrada na areia escaldante . A água do mar e o sol depressa me apagaram do rosto a inflamação do acne . mergulhar. menos es­ tragada. Pratiquei um pouco de inglês com a família que estava hospedada em casa de Nella. fiz um grande avanço . Gostava de tudo: de me levantar cedo . a areia granulosa roçagava a cada passo . que estava sempre alegre . graças ao tratamento que me dava. A praia não tinha fim e estava deserta. Perceberam que eu queria aprender e falavam cada vez mais comigo com simpatia. Era verdade que a minha mãe me levara à praia em pequena.1 66 Elena Ferrante não encontrei ninguém a subir nem a descer.

um bonito rapaz . o meu rio de palavras e o seu silêncio pareciam demonstrar que a minha vida era maravilhosa. desejo de fuga. «Vê o que ele me escreveu» . a fazer as camas de lavado . deixando-me dois romances para praticar a leitura. em que desceria a estrada para os Maronti com ele . por ser disciplinada. que é um doce.A Amiga Genial 1 67 Embora me esforçasse para lhe transmitir nas cartas o privilégio que eram os meus dias em Ischia. «Vais deixar de estar sozinha» . Já os sabia todos de cor. dando-me até tempo de lhe escrever todos os dias . olharíamos para a Lua e para as estrelas . até sabes ler em inglês . disse-me . Quando voltei para a cozinha. muito educadas . Assim que os ingleses partiram. Fi-lo com gosto. Nella quis que a ajudasse a encerar os quartos . uma farm1ia napolitana. Páginas e páginas de apreensão . todas as noites lia um poema. em voz alta. para poder visitá-los se resolvesse ir a Inglaterra. Só no final de Julho é que Nella me disse que para o lugar dos ingle­ ses chegaria. e às suas compotas. e eu envergonhei-me . Era o segundo ano que vinham. fazia este ano dezassete anos. Era Expressões de Bonança . em que tomaríamos banho . por ler todo o dia e também à noite. mas pobre de acontecimentos .» 31. encontrei-a com um livro na mão . por ser ajuizada. Sobretudo o marido . Não fazia senão pensar nos momentos inten- . alto . A dedicatória di­ zia: «À Nella. Não te chegam os livros que trouxeste?» Fartou-se de me elogiar à distância. estendendo-me o livro . amá­ veis . receei que não conseguíssemos dizer duas palavras um ao outro . que ele não gostasse de mim. e enquanto lavava os pavimentos ela gritou-me da cozinha: «Que inteligente que és . Nella tinha-o sempre na mesa-de-cabeceira. no primeiro dia de Agosto . Disse que lhe fora oferecido pelo senhor que chegava no dia seguinte. ao passo que a dela era negra mas cheia. magro mas robusto . Pessoas muito finas . d e Donato Sarratore . fiquei ansiosa pela chegada desse rapaz . que fora escrito por ele . antecipação apaixonada do momento em que veria Nino Sarratore . a mudar as roupas . E depois o filho mais velho . um verdadeiro cavalheiro que lhe dizia sem­ pre belas palavras . e o seu endereço . disse . Escrevi imediatamente a Lila. dormi­ ríamos sob o mesmo tecto . pri­ meiro em silêncio e depois em voz alta. ale­ gria.

1 68 Elena Ferrante

sos em que ele , segurando o irmão pela mão , havia um século - ah ,
quanto tempo passara - , me declarara o seu amor. Éramos duas crian­
ças , então . Agora sentia-me adulta, quase uma velha.
No dia seguinte fui à paragem da camioneta, para ajudar os hóspedes a
trazer as bagagens . Sentia uma grande agitação, não dormira em toda a
noite . A camioneta chegou , parou , e os passageiros saíram. Reconheci
Donato Sarratore , reconheci Lidia, a mulher, reconheci Marisa, apesar de
estar muito mudada, reconheci Clelia sempre à parte, reconheci o peque­
no Pino , que era agora um rapazinho de rosto sério, e calculei que o me­
nino cheio de birras que estava a atormentar a mãe fosse aquele que , a
última vez que eu vira a farm1ia Sarratore completa, ainda ia no carrinho,
sob a chuva de projécteis atirados por Melina. Mas não vi Nino .
Marisa lançou-me os braços ao pescoço , com um entusiasmo que eu
não esperava. Ao longo de todos aqueles anos nunca, mas nunca mais ,
me recordara dela, ao passo que ela disse que pensara muito em mim ,
com saudades . Quando falou nos velhos tempos d o bairro , e disse aos
pais que eu era a filha do Greco , o porteiro , Lidia, a mãe , fez um trejei­
to de desagrado e correu a agarrar o filho pequeno , e a repreendê-lo não
sei porquê , enquanto Donato Sarratore se ocupou das bagagens , sem
uma frase sequer, tipo: como está o teu pai .
Fiquei deprimida. Os Sarratore instalaram-se nos quartos, eu fui à
praia com Marisa, que conhecia muito bem os Maronti e Ischia inteira,
e estava impaciente , queria ir ao Porto , onde havia mais animação , e a
Forio , e a Casamicciola, a toda a parte menos a Barano , que na opinião
dela era uma pasmaceira. Contou-me que estudava para secretária em­
presarial e que tinha um namorado , que eu em breve conheceria porque
ele vinha visitá-la, mas às escondidas . Por fim disse-me uma coisa que
me deu um baque no coração . Sabia tudo a meu respeito , sabia que eu
andava na secundária, que era uma óptima aluna e que namorava com
Gino , o filho do farmacêutico .
«Quem te contou?»
«Ü meu irmão .»
Portanto , Nino reconhecera-me , portanto sabia quem eu era, portanto
não era desatenção , mas talvez timidez , talvez falta de à-vontade , talvez
vergonha por causa da declaração que me fizera em criança.
«Já há tanto tempo que acabei tudo com o Gino» , disse , «O teu irmão
não está bem informado .»
«Só pensa em estudar, aquele , já há muito tempo que me falou em ti;
anda quase sempre com a cabeça nas nuvens.»

A Amiga Genial 1 69

«Ele não vem?»
«Vem quando o pai se for embora.»
Falou-me de Nino de forma muito crítica. Não tinha sentimentos .
Não se entusiasmava com coisa nenhuma, não se irritava mas também
não era simpático . Era metido consigo , a única coisa que o interessava
era o estudo . Nada lhe dava prazer, era de sangue frio . A única pessoa
que mexia um bocado com ele era o pai . Não quer dizer que discutis­
sem, era um filho respeitador e obediente . Mas Marisa sabia bem que
ele não suportava o pai . Ela, por sua vez , adorava-o . Era o homem me­
lhor e mais inteligente do mundo .
«E fica cá muito tempo , o teu pai? Quando se vai embora?» , pergun-
tei-lhe com um interesse talvez excessivo .
«Só três dias . Tem de ir trabalhar.»
«E o Nino chega daqui a três dias?»
«Sim. Inventou que tinha de ajudar a fami1 ia de um amigo a fazer a
mudança.»
«E não é verdade?»
«Ele não tem amigos . E aliás , não deslocaria aquela pedra dali para
aqui , nem pela mãe , a única pessoa a quem quer bem, quanto mais aju­
dar um amigo .»
Tomámos banho e enxugámo-nos passeando à beira da água. A rir,
indicou-me algo em que eu não reparara. Ao fundo do areal escuro
viam-se formas brancas , imóveis . Arrastou-me , a rir, pela areia escal­
dante , e a certo ponto viu-se claramente que eram pessoas . Pessoas vi­
vas cobertas de lama. Era um tratamento que faziam, não se sabia a quê .
Estendemo-nos na areia e rebolámo-nos, empurrando-nos uma à outra,
fingindo que éramos múmias , como aquelas pessoas . Divertimo-nos
muito e depois fomos tomar outro banho .
À noite a fami1ia Sarratore jantou na cozinha, tendo convidado Nella
e eu para lhes fazermos companhia. Foi um serão agradável . Lidia não
fez qualquer referência ao bairro , mas , passada a fase inicial de hostili­
dade , fez perguntas a meu respeito . Quando Marisa lhe disse que eu era
muito estudiosa e andava na mesma escola que Nino , tomou-se mais
amável . Mas o mais simpático de todos foi Donato Sarratore . Cobriu
Nella de elogios, deu-me os parabéns pelos resultados escolares que ti­
ve , dispensou muitas atenções a Lídia, brincou com Ciro , o mais peque­
no , quis ser ele a arrumar tudo , nem me deixou lavar a loiça.
Observei-o com muita atenção e pareceu-me uma pessoa diferente
daquela de que me lembrava. Sim, estava mais magro , deixara crescer

1 70 Elena Ferrante

bigode , mas à parte o aspecto físico havia algo mais que não entendi
bem e que resultava do comportamento . Talvez me tivesse parecido
mais paternal do que o meu pai e de uma cortesia fora do comum.
Essa sensação acentuou-se nos dois dias seguintes . Quando íamos
para a praia, Sarratore não permitia que Lidia nem nós duas , raparigas ,
levássemos nada. Ele é que ia carregado com o guarda-sol , os sacos com
as toalhas e a comida para o almoço , à ida, e a mesma coisa no regresso ,
quando o caminho era todo a subir. Só nos entregava a carga quando
Gianni choramingava e queria que o levassem ao colo . Tinha um corpo
seco , com poucos pêlos . Usava um fato de banho de cor incerta, não de
tecido , parecia de lã fina. Nadava muito mas sem se afastar, queria mos­
trar a mim e a Marisa como era o estilo livre . A filha nadava como ele ,
com as mesmas braçadas cuidadosas , lentas , e eu comecei a imitá-los .
Exprimia-se mais em italiano do que em dialecto e tendia, com uma
certa insistência, principalmente comigo , para compor frases complica­
das e perífrases fora do comum. Convidava-nos animadamente , a mim ,
Lidia e Marisa, para corrermos para c á e para lá com ele , junto à reben­
tação , para tonificar os músculos , e entretanto fazia-nos rir, com caretas ,
vozes desafinadas , passadas cómicas . Quando tomava banho com a
mulher, boiavam abraçados , falavam em voz baixa, riam muito . No dia
em que se foi embora fiquei triste , como Marisa ficou triste , como Lidia
ficou triste e como Nella ficou triste . A casa, apesar de ecoar as nossas
vozes , parecia tão silenciosa como um túmulo . A única consolação foi
que finalmente chegaria Nino .

32 .

Experimentei sugerir a Marisa que o fôssemos esperar ao porto , mas
ela recusou , disse que o irmão não merecia essas atenções . Nino chegou
à noite . Alto , muito magro , camisa azul, calças escuras , sandálias , um
saco ao ombro , não mostrou a mínima emoção por me encontrar em
Ischia, naquela casa, cheguei a pensar que tivessem telefone em Nápo­
les , que Marisa o tivesse de algum modo informado . À mesa expressou­
-se por monossílabos , ao pequeno-almoço não apareceu . Acordou tarde ,
fomos tarde para a praia, pouco ou nada levou . Mergulhou imediata­
mente , com decisão , sem o virtuosismo exibicionista do pai , com natu­
ralidade . Desapareceu , receei que se tivesse afogado , mas nem Marisa
nem Lidia se preocuparam. Reapareceu quase duas horas depois , pôs-se

A Amiga Genial 171

a ler e a fumar cigarro atrás de cigarro . Leu todo o dia, sem nunca nos
dirigir a palavra, e dispondo as beatas apagadas na areia, em filas de
duas . Também eu me pus a ler, recusando o convite de Marisa para
passear ao longo da rebentação . Ao jantar comeu à pressa e saiu . Levan­
tei a mesa e lavei a loiça, pensando nele . Fiz a cama na cozinha e pus­
-me de novo a ler, à espera que ele voltasse . Li até quase à uma e depois
deixei-me dormir com a luz acesa e o livro aberto sobre o peito . De
manhã acordei com a luz apagada e o livro fechado . Pensei que teria
sido ele e senti uma onda de amor nas veias , que nunca sentira.
Passados alguns dias as coisas melhoraram. Reparei que de vez em
quando olhava para mim , e depois desviava os olhos . Perguntei-lhe o
que estava a ler e disse-lhe o que eu estava a ler. Falámos das nossas
leituras , enfastiando Marisa. A princípio pareceu ouvir-me com atenção ,
mas depois , tal como Lila, começou a tomar as rédeas da conversa e
prosseguiu , cada vez mais preso aos seus raciocínios . Como queria que
ele se apercebesse da minha inteligência, tentava interrompê-lo , argu­
mentar, mas era difícil . Só parecia satisfeito com a minha presença se
eu ficasse em silêncio a ouvi-lo , o que depressa me resignei a fazer. Até
porque ele dizia coisas que eu me sentia incapaz de pensar, ou pelo
menos de dizer com a mesma segurança, e dizia-as num italiano forte ,
cativante .
Marisa às vezes atirava-nos bolas de areia, outras vezes começava a
gritar: «Acabem com isso , estou-me lixando para esse Dostoievski ,
estou-me nas tintas para os Irmãos Karamazov.» Então Nino interrompia­
-se bruscamente e afastava-se pela beira da água de cabeça baixa, até se
transformar num pontinho . Eu passava um bocado com Marisa a falar
do seu namorado , que afinal não podia vir vê-la em segredo , o que a
fazia chorar. Entretanto , sentia-me cada vez melhor, nem podia crer que
a minha vida pudesse ser assim. Talvez , pensava, as raparigas da Via dei
Mille - aquela toda vestida de verde , por exemplo - tivessem uma
vida como aquela.
De três em três ou de quatro em quatro dias , Donato Sarratore volta­
va, mas ficava no máximo vinte e quatro horas , e partia . Dizia que não
pensava em mais nada senão no dia 1 3 de Agosto , quando se instalaria
em Barano durante duas semanas seguidas . Assim que o pai aparecia,
Nino tornava-se uma sombra. Comia, desaparecia, reaparecia alta noite
e não pronunciava uma palavra. Ouvia o pai com uma espécie de sorri­
zinho tolerante , e nunca mostrava concordar nem opor-se a qualquer
coisa que ele dissesse . Só dava alguma opinião decisiva e explícita

1 72 Elena Ferrante

quando Donato mencionava o almejado 1 3 de Agosto . Então , passados
dois minutos , recordava à mãe - à mãe , não a Donato - que a seguir
ao feriado de 15 de Agosto tinha de regressar a Nápoles porque combi­
nara encontrar-se com alguns colegas de escola (planeavam reunir-se
numa casa de campo em Avellino) , e também para começar a fazer os
trabalhos de casa das férias . «É mentira» , sussurrava-me Marisa, «não
tem trabalhos de casa nenhuns .» Mas a mãe elogiava-o , e o pai também.
Aliás , Donato começava logo com um dos seus argumentos preferidos:
Nino tinha muita sorte em estudar; ele só pudera frequentar até ao se­
gundo ano da escola industrial , depois teve de ir trabalhar; mas se tives­
se podido fazer os mesmos estudos que o filho , sabe-se lá até onde teria
chegado . E concluía: «Estuda, Ninu , anda, ouve o que o pai diz , e faz o
que eu não consegui fazer.»
Aquele tom incomodava-o mais do que qualquer outra coisa. Por
vezes , só para o evitar, chegava a convidar as duas , eu e Marisa, para
sairmos com ele . Dizia em voz baixa aos pais, como se nós não fizésse­
mos senão atormentá-lo: «Querem ir comer um gelado , querem dar uma
voltinha, eu acompanho-as .»
Nessas ocasiões Marisa ia a correr preparar-se , toda contente , e eu
lamentava-me porque tinha sempre os mesmos trapos para vestir. Mas
parecia-me que pouco lhe importava que eu estivesse bonita ou feia.
Assim que saíamos de casa ele começava a falar, Marisa sentia-se con­
trariada, dizia que melhor seria ter ficado em casa. Eu , pelo contrário ,
estava suspensa das palavras de Nino . Admirava-me muito que , na
agitação do Porto , entre jovens e menos jovens que olhavam intencio­
nalmente para mim e para Marisa, e se riam, e tentavam meter conversa,
ele não mostrasse nem um traço daquela disposição para a violência que
existia em Pasquale , Rino , Antonio e Enzo , quando saíam connosco e
alguém nos deitava um olhar a mais. Como nosso guarda-costas , de
pouco valia. Talvez por estar absorvido pelas coisas que lhe passavam
pela cabeça, pela mania de me falar delas , deixava que à nossa volta
acontecesse de tudo .
Foi assim que Marisa fez amizade com uns rapazes de Forio , que a
vieram visitar a Barano , e ela levou-os connosco para a praia dos Ma­
ronti , e por isso passámos a sair todas as noites . Íamos os três até ao
Porto , mas , uma vez lá chegados , ela ia-se embora com os novos amigos
(quando é que Pasquale seria tão liberal com Carmela, ou Antonio com
Ada?) , e nós passeávamos ao longo do mar. Depois encontrávamo-nos
por volta das dez e voltávamos para casa.

» «Pensava eu que seríamos noivos e ficaríamos os três juntos para sempre .» Disse mesmo assim (toldava-me a cabeça) . toldava-me a cabeça. tornou-se difícil contar a Lila o que me estava a acontecer.A Amiga Genial 173 Uma noite . Depois sorriu e disse: «Lembras-te da declaração que eu te fiz?» «Sim. De qualquer maneira. «já não é assim . Voltava para a zona de rebentação e observava com apreensão o rasto que ele deixava. Resumindo . e deixei de lhe escrever. sussurrei estupidamente: «Obrigada. Sabia que ele acordava tarde e inventava todo o género de desculpas para não tomar o pequeno­ -almoço com os outros .» «Juntos?» Riu-se de como era em criança. disse . e gostaria de ter feito amizade connosco . quando ficámos sós . sempre a conversar.» «Gostava imenso de ti . ninguém conseguia apanhá-la.» Depois perguntou-me por Lila. ia com ele para a praia. . Esperava por ele . Nino disse-me sem mais nem me­ nos que invejara desde miúdo a relação que havia entre mim e Lila.» Fiquei toda afogueada. Mas quando ele se afastava para o largo não me sentia capaz de o acompa­ nhar. Via-nos de longe . sempre juntas . preparava-lhe as coisas e levava-lhas . Porém . e se antes ficara decep- cionada por ele ter dito que a declaração de amor fora só uma tentativa para se introduzir na minha relação com Lila. eu . tu e a tua amiga. «Continuou a estudar?» «Não . e feliz quando o via regressar. mas faltara-lhe sempre a coragem. amava-o e sabia que o amava e sentia-me contente por amá-lo .» E senti o impulso de acrescentar: «Ouviste o que os professores di­ zem de mim. desta vez sofri de forma evidente . na escola?» Felizmente consegui conter-me . o pontinho escuro da cabeça. «Não percebia nada de noivados . Dediquei a minha atenção a Nino . Ficava ansiosa quando o perdia de vista. de­ pois daquela conversa.» «Era óptima. ela não me respondia. senti realmente uma dor no peito .» «E faz o quê?» «Ajuda os pais. «Ela mudou» . tomávamos banho juntos .

por exemplo . no entanto .» «É um homem simpático . o sol e o mar tinham-me tornado mais esbelta. preferia ir passear até aos Maronti . quem era? Sentia-me de novo bonita. Mas a questão não era . Eu tivera o cuidado de nunca falar em Melina. a pessoa de quem eu gostava e que queria que gostasse de mim não mostrava interesse ne­ nhum pela minha pessoa. contava-me ela. Mas a violência daquelas poucas frases cons­ truídas com cuidado fez-me mal . Eu . traindo o outro namorado de Nápoles .1 74 Elena Ferrante Mas entretanto o feriado de Agosto ia-se aproximando . trocava beijos e abra­ ços . mas caçou-a na mesma. já não tinha furúnculos. A areia estava fria. Como está convencido de que faz toda a gente feliz . «Como está a Melina ?» Olhei-o estupefacta. onde tinha agora uma espécie de namorado com o qual . e agora ele perguntava por ela. Notei que estava nervoso . e sem se sentir responsável . «a tentar não me parecer com ele . que destino? Pensei no bairro como uma voragem da qual era uma ilusão tentar sair. a Lua estava cheia. como Rino e Fernando . por pura vaidade . «Mais ou menos. Não falou de livros . julga que tudo lhe é perdoado . Esperava que ele viesse comigo . disse . de repente come­ çou a falar do pai . que durante uns segundos o desfeou . «Dedicarei a minha vida» . Depois senti a areia ranger e vi a sombra de Nino . Mas ele foi com Marisa. batia na areia com o calcanhar esquerdo . Uma noite disse-lhe que não queria ir ao Porto . Nino odiava o pai com todas as suas forças . Trata os filhos com dedicação . negro-acinzentada à luz do luar.» «Toda a gente diz isso . Sabia muito bem que ela era uma mulher frágil .» «E então?» Fez uma careta sarcástica. o mar mal se mexia. desci a estrada pedregosa que ia para a praia. pais e filhos chegavam muitas vezes a vias de facto .» «Ele foi amante dela. que insistia em ir ao Porto . Que signos eram os meus. Desfaz-se em atenções com a minha mãe . É um hipócrita. Faria mal a qualquer pessoa por vaidade . mete-me nojo. renunciando a acompanhar a irmã. Sentou-se a meu lado . como se se tratasse de uma missão . Mas trai-a constantemente . Tinha de ir buscar a irmã dali a uma hora. por uma questão de princípio .» Não soube o que dizer-lhe . eis porque falava tanto dos Karamazov. O que era eu . Não se via vivalma e pus-me a chorar de solidão . Vai à missa todos os domingos. No bairro podiam acontecer coisas terrí­ veis . naqueles dias de conversas cerradas .

até do meu pai . com os lindos olhos a luzir. disse . como Dido e Eneias . Já se fora embora. A minha paixão desesperada comovia-me . Nella veio acordar-me e repreendeu-me . «Vou-me embora amanhã» . para não me incomodar.» «Jurou fidelidade perante Deus» . cheirava-o . Passei dias difíceis. Vesti-me à pressa. a mãe morrera havia pouco . «Não tem respeito por ela nem por Deus.» E deu um salto . se o seu peca­ do era a capacidade de amar. disse que Nino quisera tomar o pequeno-almoço no terraço . Sentia a boca dele na minha.» Não respondeu . «Nem sequer tu me compreendes» . Por isso . E pensa em Ascânio . eu não via nisso nada de particularmente mau. Alcancei-o . e afas­ tou-se em passos largos . mas são também muito comoventes . um beijo muito leve . aquele tom acu­ sador.» Corri até ao Porto . Murmurei: «Ele e Melina foram levados pela paixão . Adormeci ao alvorecer. «Vai lá» . não tinha nada de tão repelente . lambia-o com a ponta da língua e chorava. Chorei toda a noite. ela notou que eu estava a sofrer. Ele inclinou-se e beijou-me os lábios. O que me perturbou profundamente foi que Donato Sarratore . suavemente . beijava-o . . aquelas frases implacáveis . muito agitado . À noite . Quando arrumei os quartos encontrei um marca­ dor de livros de cartolina azul que pertencia a Nino e escondi-o entre as minhas coisas . com o coração aos saltos.A Amiga Genial 1 75 essa. na cozinha silenciosa. pareceram-me terríveis . exclamou em tom brusco . São coisas que nos caem mal . «talvez ainda vás a tempo . Além disso . disse . Nunca nos tínhamos tocado . Pensei que nem da minha mãe eu falaria assim. o pai devia estar de luto . e de facto Marisa adorava-o . na es­ perança de chegar antes de o barco partir. mas ele já ia ao largo . Regressámos a Barano falando de livros . «Mas o dia 1 3 é depois de amanhã. por aquilo que vira com os meus olhos e ouvira com os meus ouvidos . a minha mãe dizia com raiva que sabia-se lá o que ele por aí pintava. 33 . na cozinha. «Eu compreendo-te» . era o pai que qualquer rapariga ou rapaz gostaria de ter. permitiu­ -me finalmente . murmurei e dei-lhe o braço . lar- guei-o logo . depois fo­ mos buscar Marisa ao Porto . o contacto queimou-me os dedos . e o meu pranto alimentava-se a si próprio . já na cama.

a fronte enterrada sob os cabelos negros . Donato . Olhava para aquele homem e pensava: ele e o filho não têm absoluta­ mente nada em comum. Nino tem qualquer coisa a roê-lo por dentro . por sua vez.» A presença daquele homem transmitia segurança e acalmou-me . E se estiverem enga­ nados? O que tem de tão terrível Marcello Solara. com lábios convidativos. mas também . Ela e Nino mal se conhecem. o que é um dom e um sofrimento .para a escuri­ dão em que Lila me mergulhara. este homem. Nino olha tudo com olhos pensativos . mas ficou conten­ te por ele ir encontrar-se com os colegas em Avellino para estudar. não se entregam. proporcionava­ -nos alegria e tranquilidade naquela noite nos Maronti . pensei . não apenas contra o escuro para onde me atirara o filho ao ir-se embora. e ficou lá connosco até tarde . Quis conhecer os novos amigos de Marisa. que vêem para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. Marisa foi a primeira. nunca estão contentes . e tocava bem. tinha uma bonita voz . não . Donato tem um olhar receptivo . como se cada segundo vivido fosse de uma limpidez total . A partir daquela noite o pai de Nino pareceu-me um remédio sólido .apercebi-me disso com espanto . quase sem lábios . como calculo que o teu pai tenha orgulho em ti . é de estatura média. que adora o aspecto das coisas e das pessoas e está sem­ pre a sorrir-lhes . e agora sentia falta deles de maneiras diferentes . Gostava de ambos . «como tu . «É um rapaz realmente sério» . a boca sempre entreaberta. o que tem de tão ter­ rível Donato Sarratore? Eu não percebia. De repente senti- -me contente por nenhum dos dois estar presente na ilha. receiam aquilo que se passa em volta deles. improvisou algumas músicas de dança. Lamentou que o filho já se tivesse ido embora. e sabem sempre o que está certo e o que está errado . por não responder às minhas cartas . parece apreciar todas as manifestações da vida. depois de um beijo quase impercep­ tível .1 76 Elena Ferrante Depois chegou Donato Sarratore e começaram os seus quinze dias de férias . Tenho orgulho nele . O rapaz com quem Marisa namoriscava arranhava a guitarra e Donato cantou . tem grandes entradas no cabelo e a boca apertada. . Nino é alto . os traços do rosto são vincados . Quando a noite já ia alta pôs-se também a tocar. Alguns começaram a dançar. mas estava grata àquele pai odiado que dava importância a mim e aos outros jovens . Ele próprio se encarregou de juntar toda a lenha que conseguiu encontrar. disse-me . nunca se relacionaram. tem um rosto · delicado . mas agora pa­ recem-me muito semelhantes: não precisam de nada nem de ninguém. convidou-os uma noite para faze­ rem uma grande fogueira na praia. como Lila.

Liguei-me mais à farm1ia Sarratore .A Amiga Genial 1 77 Recomecei a ler. ao ouvir aque­ las críticas . Mas eu ficava calada. e estragar a enorme esti­ ma que tinha por mim. que gostava muito de mim e que só comigo não fazia birras . Estava escrito com frases pomposas que ele lia com ênfase . o que lês aqui?» Chegou-se para mim e pôs-me o jornal diante dos olhos . acrescentou uma vez . e Lidia res­ pondia-lhe com um sorriso cúmplice . senti-me irmã de Marisa. ao passo que tu fazes tudo com muito juízo . Dizia: «É man­ driona. cuja hostilidade inicial para comigo se transformara em simpatia e afecto . entreter o menino . e ele também . Quando acabou . perguntou-me: «Gostaste?» Era um artigo sobre a velocidade da viagem de comboio . em contras­ te com a da viagem de outros tempos . respondi . e a cada duas linhas voltava-se para Lidia a sorrir. ofereceu-mo . que até os publicara. elogiava muito a precisão com que eu fazia tudo: pôr a mesa. enquanto eles tomavam banho da forma habitual .acharam que me ficava muito bem . nunca abrisse um livro. Eu achava estranho que uma pessoa que escrevia poemas . de Pinuc­ cio e do pequeno Ciro . não estuda. Em certos momentos até parecia apreciar-me mais do que à filha. palavras e frases que teriam enfurecido Pasquale e certamente tam­ bém a professora Galiani . Depois dos seus demorados banhos . e pediu a minha concordância com o olhar. Donato estendia-se a meu lado a secar ao sol e a ler o jornal . Donato reagiu e começou a gabar o filho mais velho . abraça- .» Lídia desatou a rir.chamado de urgência para dar uma opinião . de caleche ou a pé . e como Nella e Sarratore .» Mas . escrevi uma última carta a Lila em que lhe dizia que . não me parecia bem pôr-me a discutir com uma pessoa tão amável .» «Tal e qual como o Nino» . vaidosa. a única coisa que lia. brincava calmamente . emocio­ nada: «Donato Sarratore . eduquei-a mal . Por vezes lia-me em voz alta uma passagem de algum arti­ go . do princípio ao fim . arrumar os quartos. Deixaram-me na areia a tomar conta de Ciro . lavar a loiça. íamos os dois apanhar conchas . «SÓ que tu és bem-disposta e ele está sempre nervoso . uma vez que nunca me tinha respondido . disse . e eu fiz sinal que sim com grande convicção . por caminhos campestres . muito» . «Sim. Li­ dia. Não trouxera nenhum e nunca se interessara pelos meus. Uma manhã fez-me experimentar um vestido de praia que lhe ficava aperta­ do . «Vê quem o escreveu. o Roma . ler e estudar. «É uma jóia de rapaz» . Li . Uma vez leu-me um artigo inteiro . não voltaria a escrever-lhe .

com a minha tristeza. preparei o pequeno-almoço para todos. Lá dentro vinham cinco folhas bem cheias . impressionou-me o facto de a escrita conter a voz de Lila. Ainda antes de ficar transtornada pelo conteúdo . pobre Melina. Estava contente com tudo . mas passou-se mesmo assim.os aniversários nesse tempo eram considerados irrelevantes . com o meu amor por Nino . quando aquele período extraordinário estava prestes a terminar. com o afecto de que me sentia rodeada. e quando pronun­ ciei essas palavras veio-me à lembrança que Lila os fizera no dia 1 1 . Levantei-me . Olhei para eles e pensei . que Sarratore traía Lidia. também a compreendia. veio-me à . Fui lá abaixo a correr. mas também era poeta. com a minha capacidade de ler. Quanto a Melina. A mente frágil de Melina nunca mais conseguira adaptar-se à normalidade grosseira da sua vida sem ele . no mesmo dia. embora naquela altura o tivesse forçado a abandonar o bairro . pensar. Fiquei contente . vamos lá. 34 . Ho­ je pode parecer estranho . e jornalista. chegou o carteiro . que eu devorei . Estávamos a 25 . mas . em finais de Agosto . mais ainda do que no passado . Excluía a hipótese de os meus pais me terem escrito . Desde as primeiras linhas . Conhecera a alegria do amor por aquele homem acima do vulgar: era revisor nos comboios . rodeada de tantas emoções . na­ queles dias . com o coração aos saltos.. mas sem guardar rancor a Sarratore . mas não percebi quase nada do que li . reflectir em solidão . Embora segundo os nossos costumes se festejasse sobretudo o santo do nosso nome . Depois . agora que o conhecia tão bem não conseguia considerá­ -lo culpado . os Sarrato­ re e Nella insistiram que se fizesse uma pequena festa ao serão . Rasguei o sobrescrito . de cho­ fre . E não só . Era uma carta de Lila? De Nino? Era de Lila. mesmo admitindo . lembro-me perfeitamente porque era o dia do meu aniversário. Comprazia-me com estes pensamentos . e nisto . Assomei-me à janela e o carteiro disse que havia uma carta endere­ çada a Greco . Eles foram preparar-se para ir para a praia. tanto mais que a própria mulher não parecia considerá-lo culpado . aconteceram duas coisas importantes . Mesmo admitindo que Nino tivesse razão e que de facto tivesse havido alguma coisa entre eles. não me recordara.178 Elena Ferrante dos um ao outro e falando-se ao ouvido . e à mesa disse: «Hoje faço quinze anos» . eu comecei a arru­ mar a cozinha.

com o consentimento de Fernando . Envergonhei-me das páginas infantis que lhe escrevera. sem contar com os trabalhinhos da escola primária. apesar de ela não ter estudado mais. começara a apresentar-se para jantar todas as noites .A Amiga Genial 1 79 lembrança A Fada Azul. ao contrário de Sarratore nos seus artigos e nos poemas . aos quinze anos. e não queria estragar-me as férias com as suas histórias desagradáveis .não deixava qualquer sinal de falta de natu­ ralidade . da confusão do discurso oral. Aquela carta teve como primeiro efeito fazer-me sen­ tir. que me iludira ao dar-me nove em Italiano . Eu lia. no en­ tanto estava perfeitamente depurada das escórias da linguagem colo­ quial . que depositou na sala de jantar uma caixa de cartão enorme . ela exprimia-se através de fra­ ses tão bem construídas . e compreendi o que é que naquela época distante me agradara tanto . A sua voz era como um fluxo que me arrebatava e me fascinava como quando conversávamos uma com a outra. Logo depois da minha partida. e sem um erro . o único texto dela que eu lera antes daquele. Trazia sempre qualquer coisa: bolos. A qualidade que existia em A Fada Azul era a mesma que me estava a impressionar agora. pouco a pouco . açúcar. Lila mandava-me os parabéns pelo meu aniversário . por me dar bem com os Sarratore . decidira surpreendê-la. bombons . não lhe dava confiança nenhuma. Passada a primeira semana daquele suplício . Lila sabia falar através da escrita. comigo . por gostar tanto de Ischia e da praia dos Maronti . Depois . Senti desprezo e rancor pelo professor Gerace .além disso . Marcello Solara. ao contrário de mim quando escrevia. das frivolidades . foram chegando também os conteúdos . Mas agora sentira necessidade de quebrar o silêncio . Ela não tocava em nada. da dor falsa. não se sentia o artifício da palavra escrita. e a prova estava ali . todo suado . da alegria fingida. café . na carta de Lila. Sabe-se lá o que Lila pensara de mim. por amar Nino . possuía a viva ordem que eu imagi­ nava que o discurso apresentaria. mas que no bairro muito poucos . uma impostora. dos tons excessivos . ao contrário até de muitos escritores que eu lera e ainda lia. A esco­ la. Che­ gava às oito e meia e ia-se embora às dez e meia em ponto . se tivesse tido a felicidade de nascer da cabeça de Zeus e não dos Greco ou dos Cerullo . Ainda não me escrevera porque sentia-se contente por eu passar o tempo ao sol . e ele olhava para ela em silên­ cio . no dia do meu aniversário . uma vez que Lila fazia de conta que ele não estava lá. Apresentara-se de manhã na companhia de um tipo corpulento . e ao mesmo tempo via-a e ouvia-a. mas . tinha feito passar gato por lebre . Da caixa saiu um objecto de que todos tínhamos conhecimento .

Gostava sobretudo de vê-la com Melina. ficara em condições . ele uma noite dissera-lhe ao ouvido . Rino .1 80 Elena Ferrante tinham em casa: um televisor. dizia que adorava a televisão . por tê-lo abandonado ao seu destino de escravo do pai . ou . todas as raivas se descarregavam em cima dela: as raivas do irmão . Era o único momento de paz. Como ela não lhe respondia. a febre passara-lhe por completo . e tendia a passar da devoção silenciosa a tentativas de a beijar. para dizer a verdade . sem forças . ou então andava a vadiar até alta noite com Pasquale e Antonio . mas o bom sa­ bia a mau e o mau sabia a bom. se tivera outros namorados . mato-te e pronto . mas deixara de falar com Marcello . Mas andava aterrorizada. iam a casa dos Cerullo ver aquele milagre . Por causa desse tubo . apesar de ela não o ter aceitado . era realmente um bom arranjinho . e agora meio bairro . Marcello tinha-se ido embora. as raivas de Fernando e de Nunzia.» De modo que ela não sabia como sair daquela situação . ou melhor. pior ainda. o meu pai e os meus irmãos . Após várias tentativas . a sério: «Tu gozas comigo . uma amálgama que lhe tirava o ar. mas lembras-te de quando me ameaçaste com o trinchete? Pois bem. não me limito a ameaçar-te . seu dono . e continuava a trazer a arma consigo para qualquer emergência. isto é . mas que não vi­ nham de um projector e sim pelo ar. e pouco depois . se algum lhe tocara nem que fosse só com um dedo . e que no interior tinha um tubo misterioso que se chamava cátodo . um aparelho com um écran . a televisão estava apagada. Quando este aparecia. ou ia para a cama sem jantar. ao passo que ela se preparava para um casamento que faria dela uma senhora. Aliás . Nas últimas páginas dizia que sentia à sua volta todo o mal do bairro . quem encontrava. incluindo a minha mãe . tratava-o com sete pedras na mão. porque não era simpática para Solara. Quanto ao resto . se eu sei que gostas de outro . o aparelho não funcio­ nara durante dias . dizia de modo obscuro: o mal e o bem estão misturados e fortalecem-se mutuamente . e ainda as raivas de Marcello . Rino andava por fora e os pais estavam-se a deitar. ele começava a dizer mal da televisão . Ela encontra­ va-se sozinha na cozinha. o arreliava. e sentia-se cansada. que . exactamente como no cinema. se sentia cada vez mais noivo. a casa vazia. então . mencionado constantemente pelo homem corpulento e suado . Estava melhor. a perguntas desconfiadas sobre os lugares onde ela ia durante o dia. no qual se viam imagens . a lavar a loiça. muito concentrada. Lila. não . lembra-te bem disto . que comparecia todas as noites e se sentava em silêncio . falando de beijos e abraços de namorados inexistentes . Al­ gumas noites antes acontecera-lhe uma coisa que lhe metera realmente medo . Marcello .

senti um frenesim de me redimir.» Despedia-se . quando de repente s e ouviu u m estoiro . com Clelia. e o peso que o caso com Melina tivera para que aquele horrível sentimento nascesse . não me saíram bem. Lila virou-se de chofre e viu que a panela grande de cobre tinha explodido .enchia páginas e páginas em poucos minutos. a certa altura. com Lidia. «que me assusta. com os bordos levantados e retorcidos . A única coisa que parecia de facto verdadeira era a minha decepção . Mas se as outras cartas me tinham saído com facilidade . voltei a escrevê-la. da dela. com Marisa. com Sarratore . e a própria pane­ la estava toda deformada.. do sol . na carta parecia um pai de fanu1ia banal . e. embora precisasse urgentemente da minha ajuda. uma coisa após outra. do prazer de estar com Ciro . Felizmente que Nella. claro e ao mesmo tempo coloquial . parte-se tudo . que tivesse o tom essencial . apesar de me ter privado do mar. sozinha. E no respeitante a Marcello só consegui dar-lhe conselhos superficiais. sem nunca as corrigir . Sem mais nem menos. vindo do lado dos ta­ chos de cobre . em­ bora não visse a hora de eu regressar. O mundo de Lila. embora desejasse o contrário . Mas uma panela de cobre .A Amiga Genial 181 mesmo . A mãe aparecera a correr. mais do que seja quem for. em camisa de noite . como se já não pudesse conservar o seu as­ pecto de panela. veio fazer-me companhia no terraço e trouxe-me uma orchata. e escrevi-a de novo mais uma vez . Feliz- . 35 . mesmo que caia. E sinto que tenho de encontrar uma solução . Mas o ódio de Nino pelo pai . Estava pendura­ da no prego onde normalmente se encontrava. repetia os parabéns . como era costume . A descrição da relação com a fanu1ia Sarratore pareceu-me desprovida de interesse: Donato . depressa se sobrepôs ao meu . senão . mas ao centro tinha um grande rasgão . «É este tipo de coisas» . e culpara-a de a ter deixado cair e de a ter destruído . que na realidade era um homem notável . Não fui à praia. porque ela tinha televisão em casa e eu não . A carta perturbou-me muito . Tudo aquilo que eu lhe dissera por carta em Julho e Agosto pareceu-me banal . Mais do que o Marcello . não se parte e não se deforma daquela maneira. concluía Lila. Resumindo . com Pino . não consegui responder-lhe . tudo . tentei responder-lhe imediatamente com uma carta sé­ ria. aquela escrevi-a. esperava que eu pudesse ficar em Ischia com a simpá­ tica dona Nella e nunca mais voltar para o bairro . tudo .

a angústia causada pela decisão difícil que tinha de tomar. ela levantava-se para preparar o pequeno almoço . para ver se havia baratas . e por isso pensava ir-me embora antes do previsto . e ouvir Sarratore exclamar. os Sarratore se queixaram de eu ter ficado em casa e recomeçaram a festejar o meu aniversário . disse-o só para ouvir Nella dizer que tinha muita pena. se eu quisesse descansar mais um pouco . tivesse resolvido ceder. Lidia quis fazer um bolo coberto de creme pasteleiro . metida em sarilhos . As pa­ nelas brilhavam. Nelas . «Depois de amanhã. Disse . quando as lavava areava-as com muito cuidado . anunciei . enquanto eu estava tão bem e era tão felicitada. Depois Pino e Ciro começaram a dormitar. Nella disse-me que . de modo um pouco dramático . no máximo» . Pela janela chovia a luz branca da Lua. O meu olhar en­ controu as panelas de cobre . todos se retiraram. Sabia eu imaginar aque­ las coisas sem ela? Seria capaz de dar uma vida a cada objecto . quando foi apunhalado . Lembrei-me do gosto que ela tinha em vê-las brilhar. na noite anterior. de repente . Tu­ do coisas que me comoveram e tomaram a minha festa de anos ainda mais feliz . Um a um. Fiz a minha caminha no canto habitual e analisei a situação . e Lidia e Donato foram deitá-los . Acalmei-me . desolado: «E como vamos nós passar sem ti?» . se havia melgas . Nelas centrara agora aquela sen­ sação de ameaça. Nella abriu uma garrafa de vermute.1 82 Elena Ferrante mente que . Donato começou a cantar canções napolitanas . mas não conseguia esquecer Lila. Na verdade . tentei reler à luz ténue a carta da minha amiga. que recebera uma carta de uma amiga. o tecto exercia um peso opres- . quando voltaram da praia. deixar que eles se contorcessem em uníssono com a minha vida? Apaguei a luz . como se a sua forma. A escrita de q1a era muito sugestiva. olhei para as panelas com cres­ cente inquietação . Beijei o marcador como fazia todas as noites . Despi-me e meti-me na cama com a carta de Lila e o marcador de livros em tom pastel de Nino . isso era tarefa minha. fazendo explodir uma delas como se fosse um sinal . e ver Marisa contrariada. Marisa ofereceu-me um cavalo-marinho de estopa que comprara para si no Porto . as coisas mais preciosas que tinha naque­ le momento . e fiquei só . e Lidia dizer que Ciro ia sofrer com isso . a mesa dava estalidos . que essa amiga precisava de mim. não por acaso . Marisa ajudou-me a lavar a loiça. Protestei . situara o esguicho de sangue que espirrou do pescoço de dom Achille há cinco anos . mas com pouca convicção .

mas essa felicidade tomava-me culposamente infeliz . Nino tentara avisar-me . pelo prazer que todavia sentia. a língua era áspera. um pouco rouco . beijou-me na boca sem a suavidade do filho . Ele foi à torneira. levantou-se e saiu da cozinha. Acocorou­ -se ao meu lado . com os cotovelos apoiados na dobra do lençol . até àquela noite nunca dera prazer a mim própria. sim. não o conhecia. desfiz a cama. senti passos . O bigode picava-me o lábio superior. com pai­ xão . dos lados vinha a pressão do ar nocturno e do mar. pressionou dois dedos com força sobre as cuecas . . pela aversão que me causava. fica. Fiquei naquela posição não sei quantas horas . disse . Depois largou-o . Por mais que tentasse afastar a sen­ sação da sua língua. «Sei que estás acordada» .» «Não penses na tua amiga. Ficou uns segundos parado em frente do lava-loiça. Depois . Devagar. encheu um copo de água. Eu não disse nada. des­ calço . escrevi duas linhas de agradecimen­ to a Nella e fui-me embora. enevoaram-se-me os olhos . debruçando-se . afastou a mão .A Amiga Genial 1 83 sivo . e. pousou o copo . forçando-me os lábios com a língua. desceu a mão por entre as minhas pernas . Senti-me de novo humilhada pela capacidade de escrever de Lila. Fiquei imóvel . tanto quan­ to me lembrava. à primeira claridade . «Amanhã à noite vamos dar um belo passeio pela praia. precisa de mim. procurou-me o peito com a mão e acariciou-mo sob a camisa. Cobri-me com o lençol . murmurou boa noite . largou-me a boca. por aquilo a que ela sabia dar forma e eu não . Ele afastou o lençol continuando a beijar-me com cuidado . sem os livros da biblioteca. Por muito estranho que hoje possa parecer. das suas carícias . «quero-te muito e sei que tu também me queres . «Sim. estava aterrorizada por aquele comportamento . Vi a sombra de Sarratore entrar na cozinha. bebeu. pelo prazer que me ficara no corpo . Nisto .» «Ela tem problemas . com o seu pijama azul . disse . Sentia-me fe­ liz. senti-lo em mim surpreendeu-me . Ele roçou-me de novo os lábios com os lábios . por ela ser tão competente mesmo sem escola.» «Eu é que preciso de ti» . eu e tu» . Eu continuei imó­ vel . saí do torpor. não sei durante quanto tempo . guar­ dei as minhas coisas . sabia que iria acontecer? Senti um ódio irreprimível por Donato Sarratore e asco por mim. da pressão da sua mão . não con­ seguia. dirigiu-se para a minha cama. disse . não fiz nada. Não é verdade?» Eu não disse nada.

sem acne . pareciam pintados de ouro escuro . mas em pouco mais de um mês transformara­ -se . as pernas . a que Lila não poderia contrapor nada de tão memo­ rável . os braços . os prédios . encheu-me de elogios como nunca fizera. dezoito anos . Assim que pude. Os velhos . Na verdade . saiu do prédio a correr. ficou para trás . a minha transformação parecia-me própria do ambien­ te. 36. Encontrei Nápoles imersa numa canícula podre e malcheirosa. repetido centenas de vezes: «Senhores . cheia de trânsito e de poeira.» Olhei-me ao espelho e até eu me admirei : o sol dera-me um loiro esplendoroso . entre os quais se destacou . perguntou . As pessoas . Quando ele se pôs em movimento . com as suas cores ténues das primeiras horas da manhã.repreendeu-me por ter voltado antes do previsto . A mi­ nha mãe . onde todos os rostos e todas as ruas continuavam de uma palidez doentia. como as dos jornais. uma mulher de . preta do sol . mas o rosto . «portaste-te mal e a amiga da professo­ ra pôs-te na rua?» Correu de modo diferente com o meu pai . Com o dinheiro à conta que a minha mãe me entregara havia mais de um mês . «0 que fizeste?» . quase uma anomalia. assomou-se à janela. apanhei o primeiro barco a sair da ilha. Era a mesma. disseram com um certo desprezo: «Pareces uma negra. Já não parecia uma rapariga. sempre entre caras queimadas . a rua larga. pensei que finalmente tinha alguma coisa para contar. até fiquei atrapalhada com todo aquele afecto tão explícito. mas sim uma mulher. Chamei-a do pátio. Mas soube imediatamente que a repugnância que sentia por Sar­ ratore e o asco que tinha por mim me impediriam de abrir a boca. pareceu-me excessiva.1 84 Elena Ferrante A ilha estava quase silenciosa. pelo menos . só os odores eram in­ tensos . deram-me a impressão de uma fotografia mal impressa. beijou-me . fui procurar Lila. que linda filha que eu tenho ! » Quanto aos meus ir­ mãos. uma vez reintegrada no contexto do bairro . que com os olhos a luzir me cobriu de elogios . sem dizer uma palavra sobre o meu aspecto . e a ilha. Enquanto estava rodeada das cores de Ischia. o mar parado . Abraçou-me . é esta a primeira vez que procuro as palavras para aquele fim inesperado das minhas férias . agora. idade que então me parecia avançada.

Rino defen­ dera-a. Percebi que estava nervosa. Nunzia. Estava mais alta ainda. como fazia cada vez mais . ao contrário de quando estava acordado . e quis que a acompanhasse à charcutaria de Stefano . ele pessoalmente . E o rosto pálido sobre o pescoço fino pareceu-me de uma beleza delicada. devolvera-lho com maus modos. Rino atirou-se para cima da cama muito agitado . à casa. Ainda n a noite ante­ rior Marcello chegara com doces e espumante e oferecera-lhe um anel cravejado de diamantes . Pai e filho chegaram a vias de facto . para saberem o que se estava a passar. gostava das coisas boas que ele lhe levava para casa todas a noites . ele . à sapataria. pensava que tinha de esperar até Setembro . Fo­ ram encontrá-lo na cozinha.» Nunca havíamos feito aquele percurso até aos jardins tão chegadas uma à outra. e que . De modo que . ator­ mentaram-na mais do que o habitual . e tinha orgulho em ser proprietária de um tele­ visor. na rua olhou em volta e olhou para trás várias vezes . com o passo tão certo . ainda bem que regressaste. para evitar problemas na presença dos pais . estava no seu santo direito de o recusar. assim que Marcelo se foi embora. Disse apenas: «Vem comi­ go» . como se tivesse crescido dentro deles em poucos minutos . Marcello protestou . pois . explicando-lhe que Rino estava a dormir. . sinuosa. adormeceu imediatamente . à porta. tão felizes por nos reencontrarmos . Disse-me que a s coisas pioravam de dia para dia.A Amiga Genial 1 85 vestidos ficavam-lhe curtos e apertados . aterrorizada. graças ao parentesco com os Solara. dando-me o braço: «É uma coisa que só posso fazer contigo . E não só . Fernando e Nunzia aperceberam-se imediatamente de que algo não corria bem. Ela levara-o para o quarto e deitara-o . acordou Lila e disse-lhe: «Ü Rino quer realmente queimar-nos vivos . E acrescentou . podia encarar o futuro sem cuidados. Nunzia meteu-se no meio . mas pouco antes de ele se ir embora. gritando que se a irmã não queria um trambolho como Marcello . como se quisesse ver se havia fugas . queria certificar-se de que não havia fugas de gás . se eles insistissem em dar-lho . com as costas direitas . deitaria fogo a tudo . e a dormir. e cingiam-lhe o corpo mais do que o tolerável . Ela aceitara-o e pusera-o no dedo . e depois desatou a chorar. A mãe de Lila afeiçoara-se a Marcello . Lila tranquilizou a mãe . fora do normal . e toda a vizinhança acordou . ameaçou-a. Resultado: pela primeira vez desde há muito tempo . e Fernando sentia-se como se as suas atribulações tivessem termi­ nado .» Depois de ir ver o que se passava. mas não me deu explicações . a acender fósforo atrás de fósforo e a passá­ -los perto da torneira do gás . e uma hora depois teve outro dos seus episódios de sonambulismo . a si próprio e à família inteira.

» Ele também estava bem. apertou-me o braço e sussurrou: «Olha. «É bonito . como se eu pudesse carregá-la de energia. disse-me . «tu não imaginas o que eu passo . com olhos divertidos : «Comprei-o para a tua amiga.» «Eu também estive em Ischia.» Olhei para Lila.» Fiz sinal para o carro .» «Passei uma semana de férias .» Vi ao longe uma espécie de mancha vermelha que irradiava luz .» «Onde?» «Em Ischia.» Agarrou-se a mim. Ste- . cumprimentou-me cordialmente e disse: «Estás com muito bom aspecto . pareces uma actriz. Dei umas voltas em torno do carro . se calhar éramos os únicos em todo o bairro com um aspecto tão saudável . Stefano apareceu à porta da loj a . «É o carro novo que o Stefano comprou .» O automóvel estava estacionado em frente da charcutaria. não tinha nada a ver com o II 00 dos Solara. a Lina disse-me . mas ela não quer crer. As clientes. disse . Tens de me ajudar. «tudo te está a correr bem. como se esperasse uma manifestação de vio­ lência de um momento para o outro .» «Bem sei . concluiu . tinha agora duas entradas e estava à cunha.» Respondi-lhe que podia contar comigo para tudo e ela pareceu alivia- da. que estava muito séria. que fora ampliada. Andara ao sol como eu . «Tu estás bem» . à es­ pera de serem atendidas . com uma expressão tensa. Atravessou a rua . com o tejadilho descapotável .» O rosto de Stefano mostrou uma expressão moderada de concordân­ cia. mas não te vi. enquanto Lila se conservava à sombra vigiando a rua. à sombra. com a bata suja d e gordura. «0 que é?» «Então não vês?» Não estava a ver bem. que davam a ideia de desproporção . Um carro de gente rica. Procurei-te . mas não desagradável . a cabeça grande e a testa alta . Disse-lhe: «Como tu estás preto . Fazendo um gesto para Lila. te­ nho de sair desta situação .1 86 Elena Ferrante «Não aguento mais» . No bairro nunca se vira uma viatura daque­ le género . toda de vidro e metal . lançavam olhares admirados àquele símbolo de bem-estar e de prestígio .

havia aquele carro desportivo novo e flamejante . Sim. Pareceu-me que Lila me explicara tudo sem me explicar nada. «Tudo começou com a chegada deste automóvel» . Eu fiz menção de me enfiar no exíguo espaço traseiro .A Amiga Genial 1 87 fano disse-lhe. Senti-me bem. desorientada. como se estivesse a fazer uma experiência de resultado incerto . preto de cara. e depois .» Stefano voltou sem bata.» «E então?» «E então . O calor dispersou-se com o vento . vagamente irónico: «Agora a Lenuccia já veio . «Foi feito de propósito para ti» . es­ tava visivelmente preocupada. primei­ ro . E desde que lho entregaram. depois . sentou-se ao volante . respondeu-me. olhos pretos a brilhar. dissera-lhe. camisa branca e calças escuras .» E agora ali estávamos . com ele e Pinuccia. Mas ela respondera sempre que não . abriu a capota. «Não sei» . insiste . pedi­ ra-lhe assiduamente . Eu ape- nas vos acompanhei. mas Lila impediu-me . com gentileza. querendo dizer que não sabia com exactidão aquilo em que se estava a meter. mas sem a expressão atrevida de sempre. inebriada pela ve­ locidade e também pelas tranquilas certezas libertadas pelo corpo de Carracci . mas depois cada vez mais a sério . até . mas não de forma opressiva. dirigin­ do-se para os novos prédios . Por fim. comprado com a única finalidade de levá-la a dar uma volta. com ele e a mãe . primeiro em tom de brincadeira. venho cá. Acomodei-me pou­ co à vontade ao lado de Stefano e ele arrancou imediatamente .» Ele sorriu e entrou na loja. Tinha aquele ar de quando precisava de fazer uma conta de cabeça. disse-me . perguntei-lhe . «Mas ele sabe do Marcello?» «Claro que sabe . jurara-lhe que comprara o carro para ela. prometera-lhe: «Quando a Lenuccia regressar de Ischia. que fosse dar uma volta com ele e Alfonso.» «Lembras-te de quantas coisas fizemos que nos metiam medo? Espe­ rei por ti de propósito . . instalou-se ela atrás . o que vais fazer?» Lila disse . que começara agora mesmo . convidaste-a a ela. Abriu o carro . Lila. no final de Julho . Mas lembra-te . Stefano . «Ü que se passa?» . e não a mim. como se a conversa não lhe agradasse: «Vamos lá. pelo prazer de ao menos uma vez lhe abrir a porta para ela entrar. e logo se via o que ia acontecer. preto de cabelo .» «Tenho medo .

disse Stefano sem ênfase . Lila não fez qualquer comentário . Por isso ali íamos nós numa corrida. Lila não soube­ ra. E no entanto . embora soubesse de Marcello Solara. Contámos tudo . Pensei com horror na eventualidade de Marcello Solara disparar sobre ele . sem preâmbulos : «Tu és realmente diferente?» Ele procurou-a no retrovisor. eu sen­ tada a seu lado com se fosse a namorada dele . quando me disse que eu parecia uma actriz . disse eu . Sim. era provável que não tivesse em vista nada de preciso . Mas que espécie de amizade? Com aquele passeio de automóvel . dar-me os elementos necessários para eu compreen­ der. A volta pelos novos prédios serviu para evitar passar em frente do bar Solara. Pensei na possibilidade de ele vir a gostar mais de mim do que gostava da minha amiga agora. havia eu . havia aquele rapaz que .» . porém. ela sorriu . destruía equilíbrios só para ver de que outro modo podia recompô-los . assim está bem. dirigimo-nos para a Marina. «mas se te importa a ti . Era o caminho que eu e Lila tínhamos percorrido havia muitos anos . «0 que acham. não?» «Muito veloz» .1 88 Elena Ferrante Sim. como o cobre da panela de que Lila me falara na carta. como se nela visse a confirmação de qualquer coisa que eu devia perceber de imediato . séria.» Atravessámos o túnel . Stefano quis que contássemos . quando a chuva nos apanhou . Stefano a guiar com satisfeita perícia. O que tinha ela em mente? Era impossível que não soubesse que estava a preparar um terremoto pior do que quando atirava pedacinhos de papel ensopados em tinta. A sua bonita pessoa de gestos seguros perderia consistência. às vezes tocava­ -me no ombro para me indicar as casas em ruínas . Ela era assim. cabelos ao vento . «A mim não me importa se o Marcello nos vê» . a pobreza maltrapilha ao longo da estrada. entusiasmada. «De quem?» «Tu sabes. estava de certeza a acontecer algo de relevante . Mencionei esse episódio . arrastada a toda a pressa para aquela história. talvez mesmo uma amiza­ de . Depois perguntou a Stefano . Lembrei-me da maneira como olhara para mim . corre bem. Olhava em volta. divertimo-nos e entretanto chegámos aos Granili . es­ tava a violar as regras viris sem qualquer ansiedade visível . para esconder com a minha presença palavras secretas entre eles . ou não quisera.

agora alarmada. com seriedade . «A miséria aqui é pior do que para os nossos lados» . com os olhos semicerrados .» «A intenção é essa. voltámos pelo Rettifilo .» . sem qualquer nexo . «Cobarde hoje. Procurou-a de novo no retrovisor e perguntou: «Üs sapatos que estão na montra são os que vocês fizeram?» «Ü que sabes tu dos sapatos?» «Ü Rino não fala de outra coisa. E depois . cobarde amanhã. demorava a replicar. disse . Aquele tom alusivo era a prova de que havia intimidade entre eles . A volta durou pouco menos de meia hora. Depois disse em dialecto: «Queres que te diga a verdade?» «Sim. a rir: «Não penses que eu me esqueci de quando me quiseste picar a língua. estreitou-os até quase os fechar. Vi-a banhada de sol .A Amiga Genial 1 89 Não respondeu logo . pela Piazza Garibaldi .» Ele esboçou um sorrisinho embaraçado e.» Ela fez os olhos pequeninos . «Por quanto os vendem?» «Fala com o meu pai .» Nesse instante tive a confirmação de que Lila devia ter-me ocultado não poucos pormenores . mas não sei como irá acabar. «Ü teu irmão não está bem» . tinhas o dobro do meu tamanho . disse Stefano quando já estávamos per­ to do bairro .» Stefano deu uma decisiva volta em U que me atirou contra a porta. «Compra-os» .» «E depois?» «São muito bonitos. acelerou na direcção do porto . sem responder. «Ü que estás a fazer?» . perguntou Lila. disse .» Stefano abanou a cabeça. «Disseste-me para os comprar e vou comprá-los . metemos pela rua da sapataria. de que tinham falado um com o outro mais ve­ zes e não a brincar. «Eram outros tempos» . por ser vaga. a blusa cheia de seio e de vento . O que tinha eu perdido enquanto estivera em Ischia? Virei-me para olhar para ela. disse no seu tom provocatório . pensei que a resposta de Stefano a tivesse irritado .

ele examinou-os e elogiou-os: «São leves mas resistentes . com a ajuda da calçadeira. «Sim» . Rino foi a correr buscá-los . disse Fernando perplexo . perante o olhar de Rino e Fernando . continuando a espantar-nos .1 90 Elena Ferrante 37 . que as passou a Stefano .» «E não há. Não se preocupou com Lila. Stefano mostrou-me o desenho de um par de sapatos para mulher com o salto muito alto . estendendo as folhas de papel ao irmão . um desenho . estendeu­ -me a mão para me ajudar a sair. que se desembaraçou sozinha e ficou para trás . «Comprava-los para ti?» «Sim. deixou-me entrar primeiro .» Examinou de novo os desenhos . e que têm em projecto fazer mais . Parou o carro em frente da sapataria. ligeiramente agitado . Estavam ali todos os modelos que ela imaginara havia quase dois anos. Foi muito amável com pai e filho . Lenu?» Eu disse . qualquer coisa para perceber melhor?» Rino disse à irmã. Stefano abriu a porta da loja. tirou-lhe o outro sapato e repetiu a operação . Lila. De­ pois . olhando maravilhado para a irmã. ajoelhou-se em frente de Stefano e .» «Sim» . atrapalhada: «São muito bonitos . . mentiu Rino . e a seguir entrou ele sem dar prioridade a Lila. Eu e ele parámos em frente da montra. Foi às trasei­ ras da loja e voltou . perguntou se podia ver os sapatos . Quando Lila nos alcançou .» Ele voltou-se para Fernando: «A vossa filha disse que trabalharam bastante neles . têm umas linhas muito bonitas mesmo . «mas não é para já. que nos observavam do interior da loja com uma curiosidade carrancuda.» Perguntou-me : «0 que achas . continuando a surpreendê-lo . ajudou-o a enfiar o p é n o sapato novo . não opôs resistência. disse Rino . mas que até podia ser um 44» . mas para mulher. veio abrir-me a porta. Depois sentou-se num banco e des- calçou o sapato do pé direito . sei lá. «Qual é o número?» «43 .» Lila. os três. porque esperava uma recusa dela: «Vai-lhe buscar os desenhos .

abriu a porta.A Amiga Genial 191 Stefano . sem esperar pela resposta. vinte .» «Então o que és?» . «Deixamo-los estar na máquina pelo menos três dias» . perguntou Stefano em tom cordial e . mas num tom de incerteza. o que queria era ganhar tempo . Rino ensombrou-se . disse Lila com frieza. se não fossem um modelo exclusivo Cerullo? Quando estão prontos?» Rino olhou para o pai . um mês .» «Estás a ofender-me . «Está muito bem. mas era evidente que podia ter dito dez . estás enganado . Deu-me passagem e saiu atrás de mim. Estava zangada: «Pensas que o meu pai é estúpido .» Dobrou as folhas com os desenhos e meteu-as no bolso . ficou visivelmente perturbado . «Então compro-os . radiante . que até ali fizera o papel de homem prático e expedito .» Stefano sorriu . «Ouve. que o meu irmão é estúpido?» «Ü que queres dizer?» «Se pensas armar-te em palhaço com a minha farm1ia e comigo . Depois pôs-se em pé e deu uns passos . Rino reanimou-se . diante dos nossos olhos perplexos . perante aquela inesperada novidade . estes sapatos são um modelo exclusivo Cerullo. «Üs desenhos» . respondi . Ste' . interveio Fernando . como que a retomar o fôlego . falou num tom afectuoso: «E achas que eu os comprava.» Fernando ficou impassível . «Estão apertados» . Stefano olhou para mim e perguntou-me: «Que tal me ficam?» «Bem» . disse Fernan­ do . são ca­ ros . Eu não sou o Marcello Solara. desapontado . Já eu me acomodara no carro ao lado dele quando Lila nos alcançou . Esperou que Lila se erguesse e continuou sen­ tado mais alguns segundos. O senhor pensa num preço amigável e eu daqui a três dias venho buscá-los. «Posso trazer-tos dentro de três dias?» . Depois apertou a mão a Fernando e a Rino e dirigiu-se para a porta. «Podemos meter-tos na máquina e alargá-los» . disse .

Nos três dias que se seguiram ao espantoso passeio no descapotável . refiro-me a todos . tudo se redimensionou em poucas horas . mas a mim ninguém me compra. em italiano: «Por favor. Pus de lado a voz de Nino e a repugnância pelo bigode do pai .Marcello . E não me refiro só aos que comprei . e daqui a três dias encontramo-nos . mas mudou . os sapatos . de aparente objecto das atenções de Ste­ fano . certa de que ia chorar noite e dia por causa da mistura de felicidade e asco que sentia dentro de mim. Éramos apenas rapariguinhas .» 38 . Fi-lo com o coração aos saltos. «Digo-lhe assim» . Stefano .» Stefano olhou-a directamente nos olhos durante um longo instante . Não foi fácil . A ilha esbateu-se . Disse baixinho . . parte-me a cara. foi várias vezes à charcutaria de Stefa­ no . Mas afinal .com a nossa paixão habitual . marcada pelos lábios e pelas mãos do pai dele . nunca se viu coisa igual . conjecturava ela. ela. Stefano . A vida de Lila mudou de forma decisiva durante aquele mês de Se­ tembro . Debatíamos os factos . de cúm­ plice na maquinação de tramas . e parecia-nos sempre que éramos capazes de fazer com que tudo batesse certo. não se afastava do carro . Quanto a mim . como se quisesse ler-lhe a mente . se não achar que ela me pode render cem. mas pedindo-me sempre que a acompanhasse . deixas-me à esquina? Se a minha mãe me vê de carro contigo . Por fim disse uma frase que eu nunca teria tido a cora­ gem de pronunciar: «Olha que o Marcello já tentou comprar-me de todas as maneiras . receando uma possível aparição de Marcello . regressara de Ischia apaixonada por Nino . com a desculpa das compras .» Lila olhava-o fixamente . Agora tinha a certeza: o passeio de au- tomóvel fora uma espécie de consenso a que chegaram. Abri espaço para aquilo que se estava a passar com Lila. Os sapatos que desenhaste . desapareceu em qualquer canto secreto da minha mente . nem fiz qualquer tentativa de dar forma às minhas emoções .1 92 Elena Ferrante «Sou comerciante . depois de mui­ tos encontros e de muito falarem. «Eu não gasto uma lira.» Ligou o motor e arrancámos . embora nos considerássemos perfida­ mente desinibidas .» «E então?» «Então deixa-me pensar. mas também satisfeita com o meu papel de confidente pródiga em conselhos .

observava apreensiva o filho mais velho . «Emoldurar?» . ele foi à loja e comprou os sapatos . Pinuccia atendia os clientes irritada. sobretudo . Nos dias seguintes apareceu novamente na sapataria. vendendo a Stefano por um preço elevado o único par de sa­ patos produzido pelos Cerullo . mas na disposição de descerem até às dez mil . os dois Cerullo pediram-lhe vinte e cinco mil liras . O resto veio aglomerar-se em tomo desse objectivo quase por acaso . improvisávamos . dos quais . e por vezes uma verdadeira orquestração . «Sim. «Nunca gostei do Marcello . Enquanto durou aquele vaivém tentei perceber o que se passava realmente na cabeça de Lila. Como é natural . e dava ouvidos aos mexericos das bisbilhoteiras .» «E disseste à minha irmã que também ias comprar os desenhos dela?» «Sim. para poder estar em sintonia com os objectivos dela. A princípio tive a impressão de que ela pretendia simplesmente dar algum dinheiro a ganhar ao pai e ao irmão .gostava muito e pretendia man­ dá-los emoldurar. mas depressa me pareceu que a intenção dela era.» «Ficavas noiva do Stefano .disse . aproveitando-se do jovem charcuteiro . Entre muitas hesitações . Ou pelo menos assim pensámos . ela e Stefano falavam demoradamente a um canto atrás do balcão . enquanto Alfonso trocava meia dúzia de palavras comigo. que nos últimos tempos pouco se interessava pelo traba­ lho . o objectivo final de todas as nossas tramas pareceu-nos ser esse: lutar por todos os meios contra a intrusão de Mar­ cello na sua vida. na caixa registadora. tenho-lhe asco . pontualmente . diz-lhe assim.» «Como um quadro de um pintor?» «Sim.A Amiga Genial 1 93 e eu sugeria uma pequena variação: «Não. para correr com o Marcello de tua casa?» Pensou um pouco e respondeu que sim. e Maria. embora lhe ficassem apertados . Três dias depois . livrar-se de Marcello . A partir desse momento . e deu-lhes mais vinte mil em troca dos desenhos de Lila. Neste aspecto . Ele nem pestanejou . perguntou Rino . toda a acção partiu sempre e apenas de Stefano . ela foi decisiva quando lhe perguntei : «De qual dos dois gostas mais?» Encolheu os ombros .» Stefano não se ficou por ali . Na rea­ lidade . e anunciou ao pai e ao filho que alugara o espaço ao lado .» Depois . e nós limitámo-nos a dar-lhe um ritmo .

indicando o pai e o irmão . disse . ficando assente que os eventuais lucros seriam divididos a meias . chegou-se a um acordo verbal .» «E o dinheiro?» . «mas esperemos que não levem dois anos. e o jantar ainda não estava pron­ to . como de todos os outros modelos . disse: «Está a propor-vos transformar a sapataria numa oficina para fabricar os sapatos Cerullo . da mesma forma que se tomara amigo íntimo dos Solara. Tirou as folhas de papel do bolso e mostrou-lhos . perguntou Fernando . disse Lila. Têm de arranjar trabalhadores . após uma curta discussão . . Naturalmente . o mais entusiasta era Rino. «mas se um dia vocês decidi­ rem expandir-se .» Em casa dos Cerullo conversou-se muito . este . lembrem-se de que estou à vossa disposição . tanto do modelo que Lila e Rino já haviam executado. incrédulo . «Mas ele sabe que os sapatos feitos à mão são caros?» «Vocês já lhe mostraram isso . assim começou a tomar-se amigo íntimo de Stefano . pressionado por Nun- zia.» Toda a família viveu dias agitados . com base no qual ele enfrenta­ ria todas as despesas e os dois Cerullo dariam início à produção . embaraçado . co­ res .» Stefano abanou cordialmente a cabeça. «Expandir-nos?» Por fim Lila. Stefano compareceu na loja e. enquanto os Cerullo confabulavam noutra divisão . todas as reservas de Fernando se diluíram.1 94 Elena Ferrante da loja deles .» «A minha filha é rapariga» .» «E quem é que lhes paga?» . como sei que aconteceu com os outros . Chegava à noite .» «E se não se venderem?» «Vocês perdem o trabalho que tiveram e ele perde o dinheiro . «Por agora está ali » . «Entra ele com ele . e. finalmente . «e o Rino ainda não aprendeu bem o ofício . «Disse-o a vocês dois» . perguntou Rino cautelosamente . um após outro . alarmou-se Fernando . em voz baixa.» «E é só isso?» «É só isso . «Fazem este . de Pi­ nuccia. Quando . deixem-na estar sossegada. de Alfonso . que recuperou energias .» «Disse-o a ti?» . Muitas vezes viu-se sozinho com Melina e Ada em frente do televi­ sor. disse . alegria. «A Lina. justificou-se Fernando . sobre o que significaria aquela frase . uma vez que eles não chegavam lá sozinhos . Marcello passou para segundo plano . este» . e até da dona Maria. às oito e meia.

então . Stefano sorriu : «E quem é que se atreve a fazer alguma coisa. Stefano ouviu pacientemente . Disse que o seu erro tinha sido casar-se com Nunzia. perante a ideia de até ter empregados . coisa perfeita. já viste o carro que o Stefano comprou?» . mas depois insistiu que por agora só lhe interessava ver.» Stefano acenou-lhe com a mão . que .» Fernando . Rino disse: «Marce . que estava outra vez sério e não disse nada. perguntou . onde é que os penduras?» «Aqui mesmo . melhor do que as marcas Campanile e Isaia. quantos não se venderiam. gritou-lhe da porta. entusiasmou-se e soltou-se-lhe a língua. antes de ir passear com Pasquale e Antonio . examinou-os minuciosamente e perguntou-lhe com um ligeiro tom de troça: «Quando os tiveres emoldurados . se a tua irmã não esti­ ver de acordo?» Levantou-se . que tinha mãos fracas e vontade nenhuma de tra­ balhar. por fim .» 39 . Rino . e com uma gama de modelos digna de ser exposta no recinto da Mostra d'Oltremare . ao passo que se se tivesse casado com Ines . de acordo com o vosso critério . Rino acompanhou-o e. que tinha na ideia sapatos lindos . sem se virar: «Uma Cerullo os inventou e Cerullo se chamarão . os desenhos de Lila. há muito que teria uma activida­ de só sua. executados com perfeição . Nessa mesma noite . Disse . uma paixão da sua juventude que era muito trabalhadora. Contou como fora difícil o trabalho nas máquinas .A Amiga Genial 1 95 «Sou também eu . Escolham dois ou três . Falou de quando aprendera o ofício com o falecido pai . agora podiam ser produzidos e então . «A minha irmã está de acordo com tudo?» . livremente . enquanto Stefano se dirigia para o descapotável vermelho: «A marca dos sapatos continua a ser Cerullo . com evidente contrariedade do filho . se Stefano não tivesse fixado o pensamento naquelas maluquices de Lina.» Rino olhou para o pai . subitamente vencido por uma preo­ cupação sua. apertou vigorosamente a mão a Fernando e dirigiu-se para a porta. sim. em Casoria. pegou nos desenhos da irmã.

» «A Lenuccia também ia. Para mais .» Mas ao dizer aquela frase apercebi-me de como continuava a alterar-se a riqueza com que havíamos sonhado em crianças . O Stefano anda atrás da filha do porteiro . meu filho . Diga-lhe que nunca mais se encontre com ela. passei definitivamente para o lado de Stefano e comecei a enaltecer-lhe os mo­ dos discretos . e ele en­ tão gaguejou: «Ela gosta de outro?» «Claro que não . e o clima tomou-se cada vez mais tenso . Lila desaparecia. e impedir que ela se desmarginasse juntamente com as pessoas de .1 96 Elena Ferrante Marcello . que uma procissão de criados de libré depositariam no nosso castelo quando publicássemos um livro como Mulherzinhas - riqueza e fama . alegre: «Sabes que ele comprou os nossos sapatos por quarenta e cinco mil liras?» «Vê-se que tem dinheiro para deitar fora» .» «Eu sei que ela vai fazer as compras à charcutaria do Stefano . de olhos baixos. deu uma penteadela e disse. «Se a sua filha vai dormir assim que eu chego . Rino arranjou maneira de enervar Marcello todas as noites . e Melina rebentou a rir. não se sabe se por causa daquela boca ou do que estavam a transmitir na televisão . o que venho eu cá fa­ zer?» Esperava. que ela o confortasse . Talvez existisse ainda a ideia do dinheiro como cimento para consolidar a nossa existên­ cia. bem recebido por Nunzia. A partir dali . respondeu Marcello . assim que Solara chegava. E por último disse-lhe: «É rico . Rino tirou o pente do bolso.» Eu não era boa companhia? Lila não devia voltar a encontrar-se comi­ go? Quando a minha amiga me contou este pedido de Marcello . Os baús cheios de moedas de ouro. evidentemente . nem res­ pondeu .tinham-se evaporado para sempre.» «E onde há-de ela ir. entontecido pela televisão acesa e pela tristeza. fazer as compras?» Marcello ficou calado . «Foi vista no carro com o charcuteiro . dizia que estava cansada e ia dormir. com o moral muito em baixo . Mas Nunzia não soube o que lhe responder.» «A Lenuccia não me parece boa companhia para a sua filha. a determinação calma. dizendo-lhe qual­ quer coisa que o encorajasse a perseverar na tentativa de conquistar o amor da rapariga. Então . Uma noite Marcello . falou com Nunzia.

eram qualidades que Marcello não possuía. estava a tomar o aspecto de um rapaz de bata suja de gordura. emoldurava desenhos . melosa como nunca a ouvi­ ra. investia em pelaria e numa equipa de trabalho . e como ele parecia embevecido com a voz dela. queria picar-te a língua» . que tencionávamos escrever uma história como Mulherzinhas . «Era um miúdo» . Stefano . exprimia simpatia e bondade . ouvi que Lila repetia. a negociação . Nos dias que se seguiram tudo se foi tomando mais claro . Aderi ao pacto que eles tinham feito . que vendia enchi­ dos . Surgiram três aprendizes . nenhum baú . a disposição das coisas . ao ganhar forma em Stefano . era riqueza que se encontrava nos factos do dia-a-dia. que pretendia comprar um sentimento. quase não se ouviam falar. Vi como falava com Stefano . Esta riqueza da adolescên­ cia partia de uma iluminação fantasiosa ainda infantil .pareceu-me entender . de modo que só naquele momento compreendi que ela fora muito mais além do que aquilo que me dissera por palavras . «É rico» . e parecia convencido de que era capaz de inaugurar uma nova época de paz e de bem-estar para o bairro . e eu senti-me imediatamen­ te de acordo . aqueles dois adjectivos confundiram-me . mais uma ra­ zão para estar do lado de Stefano . senti que davam o golpe final nas fantasias infantis . não só queria nego­ ciar em queijo provolone como também em sapatos . também naquele rapaz amável . o filho mais velho de dom Achille . disse-lhe . Nenhum castelo . passo a passo . Mas depois acres­ centou: «Também é simpático e bondoso» . e por isso sem esplendor e sem glória. replicou ela comovida. A riqueza. Num canto continuaram a fazer-se arranjos .para arranjarmos maneira de mudar depressa as pessoas . e no resto do espaço .A Amiga Genial 1 97 quem gostávamos . e no televisor. e por fim.nós duas . mas materializara-se na insatisfação briguenta de Rino. Em suma. Mas o aspecto fundamental que agora prevalecia era o concreto . A sapataria foi reorganizada. não queria ficar de fora. eram de Melito . voz . os sentimentos . e começámos a rir. Fiquei agitada. estava a criar feições . o gesto quotidiano . nós três .. Chegou um operário ao espaço que ficava ao lado da sapataria e deitou abaixo a parede divisória.voltariam a dizer respeito apenas a Lila e a mim .os desenhos de sapatos nunca vistos . odor. tinha um carro vermelho descapotável . No entanto . era um tipo que nós conhecíamos desde sempre . rapazes da província. «No entanto . que queria gastar como um ricaço . E conspi­ rámos durante horas . nos bolos e no anel de Marcello . gastava quarenta e cinco mil liras como se não fosse nada.

» «Sim. disse Fernando .» «Que dizes tu?» Rino intrometeu-se .» . Gosto tanto dela que se ela for feliz com outro eu retiro-me . Puseram-se todos em pé de um salto . por fim. mas ela sabe melhor do que o senhor. tem de ma dar. Se ela quiser o Marcello Solara. não nos zanguemos . disse debilmente: «Stefano . eu resigno-me. Mas se ela me quiser a mim . anun­ ciou em voz baixa que queria casar com Lila. como se ele viesse fazer uma inspecção . Ele abriu a embalagem. estou a pedir-lhe que olhe pelo bem da sua filha. estantes . as suas ferramentas . a Lina está noiva do Marcello Solara. Eram as folhas de caderno de Lila. cheio de alegria: «Ele diz a verdade . mas sereno . e deu-lhes algumas liras . e Fernando .. Rino limitou-se a um sorrisinho sa- bichão .1 98 Elena Ferrante Fernando dispôs bancos . Fernando resmoneou qualquer coisa e Stefano pediu ajuda a Rino e aos aprendizes para pre­ garem os pregos . Fez-se um silêncio insuportável . Precisamente no dia em que os novos trabalhos iam principiar. Fernando também. Pediu licença a Fernando para pendurá-los nas paredes .» Fernando deitou um olhar maldoso ao filho . Assim que ficou sozinho com o sapateiro e o filho . protegidas por vidro como se fossem relíquias preciosas . todos do mesmo tamanho . as suas formas de madeira para os vários números. Só depois de os quadros estarem pendurados é que Stefano pediu aos três ajudantes que fossem tomar um café .» «Eu é que sei qual é o bem dela. mas a Lina nunca o quis nem o quer. Só lhe peço uma coisa. olhando em volta: «Temos um trabalho principiado . O charcuteiro disse com gentileza. Stefa­ no apareceu .a reflectir naquilo que ia fazer.» «A sua filha não sabe disso . e entre mim e o senhor fica tudo como está agora.se me quiser a mim . num tom de re- signada constatação . Tu e a mãe deixam aquele merdoso vir a casa. com molduras estreitas de cor castanha. «Não . ninguém o poderá impedir. dom Fernà: deixe que seja a sua filha a decidir. e dentro havia um considerável número de pequenos quadros . Trazia uma embalagem feita com papel de embrulho .inesperada num homem tão magro e devorado desde sempre por uma insatisfação rancorosa . e começou . com uma energia repen­ tina e inesperada .» «Estás a ameaçar-me» .

juntamente com Lila. «Um gelado? Sem termos comido primeiro? Eu e tu?» E perguntou imediatamente a Nunzia: «A senhora também quer vir?» Nunzia ligou o televisor e disse: «Não . Dez minutos . com a fria crueldade que facilmente lhe ocorria desde os primeiros anos de vida: «Nunca te disse que te queria. mais do que à minha pró- pria vida. que andava a passear. Queres casar comigo?» Lila respondeu . feliz . Lila perguntou a Marcello: «Levas-me a comer um gelado?» Marcello não quis crer nos seus ouvidos . Mas . ela encarou-o e disse pausadamen­ te. dois dias depois . Stefano dirigiu-se a Lila: «Digo-to diante do teu pai: amo-te muito . Mas agora já me queres?» . antes de liga­ rem a televisão . «Lenu . vão e voltem.A Amiga Genial 1 99 E aqui Stefano pôs-se em pé . assim que saíram do prédio . Marce . «obrigado . Agora quem é que diz isto àquele pobre rapaz?» Lila disse: «Eu .» Fernando atrapalhou-se um pouco e depois murmurou . chamou-me . Lila ia dizer-lhe que sim.» «Sim» . abriu a porta. excep­ to Rino . Que prazer nos dava sentirmos que estávamos no centro daqueles acontecimentos . só . à noite . e que íamos encaminhá-los para uma solução .» Entrámos . mas a todos os Solara. diante de toda a fallll1ia. obrigada.» «Bem sei . com a mesma subserviência que em tempos passados manifestara em relação a dom Achille: «Estamos a fazer uma grande ofensa.» Repetiu obrigado pelo menos quatro vezes . séria: «Sim. Lembro-me da enorme tensão daquele momento . antes de irem para a mesa. as duas juntas . Parecia-lhe que era che­ gado o momento tão esperado .» 40 . não só ao Marcello . a mim que estava lá fora à espera. Mas não se demorem muito . Com efeito . prometeu ele .

» «Eu já sabia. mordeu a mão direita fechada em punho até ela sangrar.» «Vou matar-te a ti e a ele . é assim mesmo . nada. «É mesmo não?» «Não.» Marcello . não precisamos dele .» Marcello desencostou-se do candeeiro bruscamente . e Lila finalmente parec­ eu-me feliz .200 Elena Ferrante «Não . apoiou-se ao poste de um candeeiro com o coração destroçado . dera uma oportunidade ao irmão e a toda a fami1 ia. comecei de novo a estudar até às onze da noite e a pôr o despertador para as cinco e meia.» «Comigo podes tentar já.» «Podes acreditar. ou o teu pai .» «Então manda o teu irmão fazê-lo . pode ser que eles sejam capazes . O que podia ela querer mais? Nada.» 41 . Tinha tudo . Tudo aconteceu em pouco mais de um mês . estreitaram-se as relações com o irmão de Stefano . um rapaz são e fogoso de vinte e três anos . Vi Lila cada vez menos . mas não queria acreditar. e eu . Encontrara uma saída para o projecto dos sapatos . começo por ti . mas . para evitar que os professores me apanhas­ sem impreparada. passara . e tu sabes que o faço . uma espécie de soluço reprimido agitou-lhe o peito . Em compensação. Mas esclarece-os bem de que têm de me matar primeiro a mim . Ela gritou-lhe: «Manda alguém buscar o televisor. que era alto e corpulento.» «Quem é?» «Stefano . Gosto de outro . Porque se tocarem seja em quem for enquanto eu estou viva. Virou-lhe as costas e afastou-se . Alfonso. não sou capaz de o fazer. com uma espécie de estertor. Depois . «Gosto demasiado de ti . sou eu que vos mato . livrara-se de Marcello Solara e ficara noiva do rapaz abastado mais digno de estima do nosso bairro . Fui reabsorvida pelo estudo e. Quando recomeçou a escola senti o seu cinzentismo mais do que o habitual . ou qualquer amigo vosso .» Marcello continuou a morder o dedo com fúria. Apesar de ter trabalhado na charcutaria todo o Verão .

nenhum de nós pensou em mudar de lugar. o seu corpo estivesse a tomar formas idênticas .A Amiga Genial 20 1 nos exames de recuperação de modo brilhante. acabava por reduzir a sua cortesia a uma espécie de esconderijo do qual sairia inesperadamente . Durante o percurso poucas palavras trocávamos . Gino . esperando que ele partisse a cara a Gino . Amava-me sem qualquer tensão . ficou decepcionado . Grego e Inglês . ou esperava-me a uma certa distância. Depressa me chegou aos ouvidos que dizia coisas horríveis de nós . mesmo que tivesse outra coisa para fazer. embora. exasperou-se ainda mais e tomou-se mesquinho . íamos e voltávamos juntos da escola todos os dias . embora no olhar e nos gestos mostrasse a mesma suavidade . ou despedia-se e ia-se em­ bora. com o crescimento . aquele tipo de ser humano . Contei isto a Alfonso Carracci . como era obrigatório em tais casos . pois sentara-se ao lado dele durante um ano . e apesar de os outros rapazes fazerem troça dele por estar sem­ pre na minha companhia.» Alfonso foi uma descoberta agradável e providencial . Dava uma im­ pressão de limpeza e de boa educação . Quando viu que nós dois . ia a correr buscar. e de as raparigas me perguntarem constante­ mente se éramos namorados . e. em dialecto: «Toda a gente sabe que o paneleiro é ele . seu ex-companheiro de carteira. . ficava. só de rapazes . sua ex-namorada. agora no segundo ano . Era uma pessoa de confiança. sentia nele uma total ausência daquela determinação que se escondia em cada célula de Stefano . e que . raro no bairro . Se percebia que eu queria que ele ficasse a meu lado . Mas fez ainda pior. Alfonso era um rapaz que transmitia tranquilidade . que desejara que ele reprovasse . Embora nas feições fosse muito parecido com Stefano . um gesto audaz naquele tempo . pernas um bocado curtas em relação ao tron­ co. assim como nas ruas do bairro. Se via que eu precisava de tempo para mim . porque como sabia bem. de quem sabemos que não precisamos de espe­ rar nenhuma maldade . se não tinha. o mesmo nariz e a mesma boca. cabeça grande . embora a sala dele fosse ao lado da nossa e nos encontrássemos muitas vezes nos corredores . com sete em cada uma das disciplinas que teve de repetir: Latim. para poderem repetir o primeiro ano da secundária juntos. e eu afeiçoei-me a ele serenamente . em minha opinião . Tinha sempre aquilo de que eu precisava. Nunca mais dirigiu a palavra nem a mim. ele não gostava de raparigas . Que eu estava apaixonada por Alfonso e lhe tocava durante as aulas . mas não nos sentíamos embaraçados . embora Alfonso não me correspondesse . nem a Alfonso . mas ele limitou-se a dizer com des­ prezo . os mesmos olhos . No primeiro dia de escola acabámos por nos sentar na mesma carteira.

no início da rua larga. era mais urgente do que nunca eu arran­ jar também um noivo invejável . decidido e corajoso . ao passo que Stefano vivia encerrado na sua char­ cutaria. à distância. falava quase exclusivamente em dialecto . passear com ele .. e era sensível às grandes questões da condição humana. mas eu despachei-o com duas ou três frases frias . embora a paixão me devorasse . embora tivesse bom carácter. Mas era vinte centí­ metros mais alto do que eu . era so­ bretudo sensível à movimentação lucrativa do dinheiro . mas falávamos dos trabalhos de casa. E falava italiano como um livro aberto . Nino veio imediatamente ao meu encontro . Andava no segundo ano do liceu . Um episódio que me alarmou veio complicar ainda mais a situação . Mas não era capaz . muito amistoso . bastava avistar a sua figura alta e magra para me ruborizar e o coração me bater desenfreadamente . e uma onda de prazer e de nojo misturava pai e filho numa única pessoa. E o asco e a raiva que me suscitava a recor­ dação do que o pai dele me fizera sem que eu fosse capaz de o repelir. na caixa registadora da loja tinha a mãe . faz o mesmo que Stefano fez com os Peluso . embora visse claramente o prestígio que adqui­ riria aos olhos de Lila se me ligasse a ele . reequilibrando assim a nossa relação . sentia a boca de Donato . ao passo que Stefano era uns centímetros mais baixo do que Lila. virei-me e pareceu-me ver. Vê-lo trazia-me imediatamente à lembrança Donato Sarratore . o pai não é o filho e o filho não é o pai . e por vezes pensava. e não um rapazote .202 Elena Ferrante Servi-me dele para evitar Nino Sarratore. embora não fossem nada parecidos . dos nossos colegas . pela segunda vez desde que o vira e me apaixonara não fui capaz de estabelecer uma relação . pouco depois dos pauis . Porém. e era agradável . oficialmente noiva ­ e com que noivo . quando queria. Agora. portanto não tinha uma lira. não fizera mais do que a escola comercial . Alfonso e eu tínhamo-nos habituado a regressar a casa a pé . Desejava falar com ele . Mas uma vez . Seria fantástico sairmos os quatro . agora que Lila estava realmente noiva. Quando nos vimos pela primeira vez depois de Ischia. dos profes­ sores . que fazia contas melhor do que ele e. estendiam-se a ele . cheia de raiva: porque te compor­ tas assim. no aterro . E lia e conversava sobre tudo . um homem de vinte e dois anos. gentil . Era um passeio longo . Ía­ mos até à Piazza Nazionale e depois metíamos pelo Corso Meridionale . No entanto . O motivo pareceu-me muito mais forte do que o dos tempos da infância. Contudo . É claro que Nino não tinha um descapotável vermelho . gostava muito dele . Assim que imaginava que o beijava. Lila com o seu noivo e eu com o meu . É verdade que o amava.

voltou-me à lembrança a passagem da carta de Lila. Stefano . para ir buscar as bonecas que o pai nos tinha roubado . Aliás . 42 . ainda que de formas diferentes . Foi um período confuso . e tanto à entrada como à saída mantive-me perto dele . O mesmo barulho regressou no dia seguinte . desviei logo o olhar. o irmão mais novo do noivo dela. mudava de tom. ficou-me gravado o som que o coração me fez no peito . Gostava de fazer associações daquele género . teria de rejeitá-lo . como a felicidade dela aumentara. assim que me apercebia de poder estar a encorajar a inclinação que ele tinha por mim. apetecia-me aconchegar-me a Nino e . e . «E se ele me interpreta mal e me faz uma declaração de amor?» . linhas de liga­ ção entre momentos e factos distantes entre si . Mas . A mente . a função de protegerem. Naquela época tornou-se um exercício quotidiano: tinha estado tão bem em Ischia como Lila estivera mal na desolação do bairro. desse mal que experimentámos pela primeira vez quando subimos a escada até casa deles . como se tivesse coisas ur­ gentes para lhe dizer. Assim que avistava a figura esguia do rapaz que amava. voltava­ -me para o filho mais novo de dom Achille . como se fosse um tiro . preocupava-me . Estremeci de raiva e de horror. devaneava. sentindo-o a meu lado como um escudeiro que me escol­ tava por entre os mil perigos da cidade .A Amiga Genial 203 da linha férrea. Quando olhei de novo . sobre o barulho que a panela de cobre fizera ao rebentar. assim que avistei Nino . Lila. e seria no mínimo humilhante para mim andar com um rapazinho . estava noiva de um homem adulto . Stefano e ele . sobretudo se se relacio­ navam com Lila. às vezes até lhe falava com doçura. já lá não estava. não sei porquê . estabelecia convergências e divergências . receando que ele se aborrecesse e me trocasse por outras companhias . ao invés . desenhava arabescos incontro­ láveis . assustada. procurei protecção no afecto por Alfonso . tinha o cuidado de estar colada a Alfonso . Uma vez em que regressava com Alfonso pelo Corso Meridionale . Quer essa aparição tivesse sido real ou falsa. comportei-me sempre de modo muito gentil com ele . Então. tanto sofrera eu por ter de sair da ilha. Traçava. Lila e eu do mal do mundo . . Donato Sarratore . como se usasse um esquadro . da minha idade . entretanto . com a farda de revisor. e afastávamo-nos conversando . Seria embaraçoso . pareceu-me interessante que tocasse a dois Carracci .

um falcão. cega. A cor saudável estava a debotar e o acne a regressar. As fantasias atenuaram-se . houvera até momentos em que voltara a considerar-me mais bonita do que ela. Em Ischia sentira-me bonita. quando tivesse de copiar alguma coisa do quadro . no bem e no mal . no máximo . Mas um dia. Voltei para casa. boca grande . consumida pela paixão frustrada por Nino. arranjou o dinheiro . eu agarrada ao braço dela. cara larga. estava de novo a ficar feia. à saída da escola.204 Elena Ferrante Parecia que . por entre sombras . graças às suas negociatas na câmara . ou . estra­ gaste a vista. Senti-me definitivamente desfigurada e decidi pô-los só em casa. uma manhã surgiu também o espectro dos óculos . com a pupila opaca. Achei que o aspecto físico também participava dessa oscilação . estava cheia de sentimentos de culpa pela despesa que as lentes implicavam. escreveu-me isso no ca­ derno e quis ver a assinatura de um dos meus progenitores no dia se­ guinte . a satisfação redobra­ ra-lhe a beleza. esqueci-me deles na carteira. e ela conti­ nuando a semicerrar os olhos e a lançar olhares que viam ainda mais. devido a uma qualquer magia maldosa. e os olhos aprisionados na moldura da armação . a alegria ou a dor de uma pressupunha a dor ou a alegria da outra. Durante a ma­ quinação constante . ao lado de Lila. O meu pai ensombrou­ -se . a minha imagem demasiado nítida foi um duro golpe: impurezas na pele . eu . ligasse o meu destino ao da minha amiga: eu . ao passo que eu . nariz grosso . e essa impressão não se dissipara depois do regresso a Nápoles . Disse-me que devia ir de imediato a um oftalmologista. para ajudá-la a desembaraçar-se de Marcello . e os óculos concretizaram-se . que parecia desenhada com fúria por um desenhador raivoso . Fui ao oftalmologista. O professor Gerace interrogou-me sobre qualquer coisa que escreve­ ra no quadro e apercebeu-se de que eu não via quase nada. E de repente . .» Pareceu-me muito mal . mostrei o caderno . Mas Lila agora estava em vantagem. sob as sobrancelhas já de si de­ masiado espessas . desgastada pelos trabalhos da escola. Por fim o meu pai . Quer dizer que fora castigada pela soberba de querer estudar? Então e Lila? Não tinha lido muito mais do que eu? Então porque é que ela tinha uma vista perfeita e eu via cada vez menos? Porque é que eu tinha de usar óculos para o resto da vida e ela não? A necessidade de usar óculos aumentou a minha mania de encontrar um desígnio que . e ela a guiar-me com um olhar apurado . Quando me vi ao espelho . e em alguns olhares de Stefano captara a possibilidade de lhe agradar. ele diagnosticou-me uma forte miopia. e ela. a minha mãe ralhou-me: «Estás sempre em cima dos livros .

e ela replicou com ironia. orgulhosa: «Não é preciso . e a mim. Comecei a chorar. Corri lá abaixo . E eu . me desfiguram a cara? Assim que cheguei à porta. o que me impressionou não foi o facto de estarem como novos. agora faço o que me apetece com o dinheiro . Disse-me: «Fazem-me doer os olhos» . mas sim que lhe ficavam bem. e pôs-mos na cara. que não posso passar sem eles . talvez com uma pontinha de perfídia: «Pagar em que sentido?» «Dar-te o dinheiro .» 43 . É essa a minha riqueza. Na pressa que nos assaltava a todos depois do último toque da sineta. um privilégio que ela perdera para sem­ pre . à primeira vista. que não precisa de óculos. num jogo contínuo de trocas e inversões . Contei-lhe o que me acontecera. ela tinha. basta-lhe estalar os dedos e os meus óculos são arranjados num instante .A Amiga Genial 205 Voltei à sala a correr. examinou-os . uma lente quebrada. naque- .» Sorriu e depois disse . tinha os meus óculos postos e. ela tirou os óculos divertida. tentei convencer-me . Ela tem o Stefano . Murmurei envergonhada que nunca lhe poderia pagar. batendo as pálpebras . Expressou-se com uma de­ terminação diferente daquela que habitualmente tinha. deves usá-los sempre . A questão do dinheiro deu ainda mais força àquela impressão de que aquilo que me faltava. e voltei para casa esperando que os meus pais não reparassem que estava sem óculos .» Entregara os óculos a Stefano . que os mandara arranjar por um oculista da baixa. a pensar: porque é que lhe ficam bem a ela. Tinham uma haste partida. ora com sofrimento . ouvi que me chamavam do pátio . como se já não fosse preciso lutar até ao extremo pelas pequenas coisas . Não tive coragem de ir para casa. o que tenho? Respondi que tinha a escola. mostrou-se mais calma. disse para mim depois do episódio dos óculos . e vice-versa. com as ferra­ mentas de sapateiro . Disse-me para os deixar ficar. exclamando: «Que bem que te ficam. refugiei-me em casa de Lila em busca de auxílio . mas o pior já tinha acontecido . que . Uns dias depois . ao fim da tarde . tinham ido parar ao chão . E com efeito . Lá em baixo estava Lila. ora com alegria. pediu-me os óculos. Imaginei qualquer intervenção miraculosa de Rino . nos torna­ vam indispensáveis uma à outra.

era como se uma parte dela tivesse posto um freio firme na outra. Con­ cluí que ele tinha razão . Mas quando tentava reflectir com ele sobre os Promessi Sposi. ou sobre os romances maravilhosos que eu continuava a ir buscar à biblioteca do professor Ferraro . principalmente nas férias escolares . como se via bem durante o almoço em casa de dom Rodrigo . então? Sentia necessidade de me expressar. e tinha já mais do que suficiente em todas as matérias . E nunca acontecia virem­ -nas buscar à saída rapazes elegantemente vestidos . As pautas das notas eram cada vez melhores e até o curso de Teologia por correspondência me correu bem. ou mesmo sobre o Espírito Santo . Mas isso não aconteceu . o Espírito Santo e Jesus. Em vez disso . não dizia nada que estimulasse em mim outros pensamentos . por timidez ou ignorância. sobre as aulas e os professores . com automóveis mais luxuosos do que os de Marcello ou de Stefano . o que ela mostrou foi uma tendência para intervir . a meu ver. todos eles . Alfonso era um rapaz diligente .206 Elena Ferrante le ano os professores . Recorria a Lila. quem vinha primeiro e quem em último? Veio-me à ideia o que Pasquale me dissera uma vez: que embora a minha escola fosse um liceu clássico . ia imediatamente à procura dos livros que lhe permitiriam acompanhar-me . quando se divi­ diam em três . quando falava comigo nunca abandonava o dialecto . sobre as ideias que me ocorriam . a cabeça estava cheia. depois das fa­ lhas do ano anterior entrara nos eixos . não devia ser das melhores . ele limitava-se a ouvir e . deviam forçosamente ordenar-se de acordo com uma hierarquia. começaram a elogiar-me de novo . Ela ouvia-me com atenção . enquan­ to nos interrogatórios usava um bom italiano . O único rapaz que gozava de uma fama idêntica à minha era Nino . Na aula não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre as coisas que lia. Contava-lhe tudo em pormenor. recebi como prémio uma bíblia de capa preta. nem para mim olhava. e em dialecto era difícil conversar sobre a corrupção da justiça terrena. Exibi os meus êxitos como se fossem a pulseira de prata da minha mãe . como as raparigas da Via dei Mille . Raramente via as minhas colegas de escola bem vestidas . mas agora. e nesse caso . ou sobre as relações entre Deus . Encontrávamo-nos e faláva­ mos . ia-se embora de cabeça baixa. em face da frieza com que o tratara. que embora fossem uma só pessoa. Além disso . As qualidades in­ telectuais também escasseavam . O que fa­ zer. mas não sabia o que fazer a tanta competência. em segredo ou às claras . e eu esperava que ela sentisse curiosidade e regressasse à fase em que .

são parte da pessoa de quem emanam. Mas vi os olhos fazerem-se-lhe pequeninos . como um mensageiro? Ou uma emana­ ção das duas primeiras pessoas . o que fazes? Um curso de Teo­ logia em que te esforças para compreender o que é o Espírito Santo? Esquece isso . Nessa par­ te construímos os edifícios . portanto . no pri­ meiro caso . Olhava para ela enquanto vestia uma saia nova. A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo . A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. até que aquele tom estabi­ lizou e se tornou o seu modo de me fazer frente . ou então provoca um terremoto que destrói tudo . um casaco novo . Uma vez . com meia-dúzia de palavras apressadas . que sentido faz considerar o Espírito Santo separado de Deus e de Jesus? Ou o Espírito Santo é que é a pessoa mais importante e as outras duas são uma sua forma de ser. o suor. como quando tentava agarrar qualquer coisa que lhe escapava. pensei em voz alta. um chapeuzinho . para impres­ sioná-la com as questões que me andavam às voltas na cabeça. Se eu dizia alguma coisa sobre a Santíssima Trindade . juntamente com Deus e o seu filho? Não será o mesmo que dizer que o meu pai . que a sua função não era clara para mim . o Filho e o Espírito Santo . é um só juntamente com o presidente e com o comandante Lauro? E se olharmos para a segunda hipótese . que é porteiro da câmara. deixando-me confusa. quem inventou o mundo foi o Diabo . o colar. mas cada vez mais . que não há lágrimas que cheguem. que nos fazem adoecer e morrer. bem. mais ou menos. De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio . o anel de noivado . contei-lhe do meu curso de Teologia e disse. Queres ver o colar de pérolas que o Stefano me ofe­ receu?» Foi isto que ela disse .A Amiga Genial 207 de uma penada. acabava com qualquer possibili­ dade de conversarmos e começava a mostrar-me os presentes de Stefa­ no . ela. que não sabia o que pensar do Espírito Santo . recordo-me . só para dar um exemplo . Iam a um cinema na baixa juntamente com Pinuccia. Rino e Alfonso . as pontes e as estradas . Lenu? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo . ou não compreen­ do qual é a sua função . como é possível que uma entidade com funções de mensa­ geiro seja um só . Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis .» Lila. estava a preparar-se para sair com Stefano . um seu fluido milagroso? Mas . «uma entidade subordinada ao serviço de Deus e de Jesu s . mas quase sempre afáveis . E tu . um fluido . Disse em dialecto: «Tu ainda perdes tempo com essas coisas . Há guerras . e não o Pai . a voz . Há micróbios por todo o lado . «0 que é?» . E não só naquela ocasião . até os tornozelos já não eram dois palitos. en- . um vestido novo . geralmente de maneira irónica. e era de facto outra pessoa agora.

num tom fingidamente afável . mas o efeito que qualquer peça de vestuário ou objecto fazia no corpo de uma e no da outra não tinha com­ paração . O que deu origem a um desafio entre as duas raparigas . que era uma mulher cheia de sorte . por exemplo . pouco mais velha do que nós . Aliás . com as quais fazia boa figura perante os professores . coerente com o seu feitio conciliador. 44 . arranjava sempre maneira de disfarçar. murchavam a um canto . e punha-me a andar. sobretudo . deixar a luz da cozinha acesa ou a torneira aberta. como as poucas vezes em que comprei qualquer coisa bo­ nita me criticaste . começou a oferecer também pre­ sentes à irmã. o sapateiro.208 Elena Ferrante quanto as coisas que me apaixonavam. desprovidas de sentido . de Pinuccia. que iam ao cabeleireiro juntas e compravam roupas idênticas . Em seguida voltava­ -se para o outro lado . Maria. Pinuccia não se continha. explodia. depois de ir beber um copo de água. Lila foi muito invejada e provocou não pouco desagrado . e a mim. dizendo que estava a fazer despesas inúteis?» Stefano mostrava o seu meio sorriso tranquilo e não respondia. Mas isso só serviu para azedar Pinuccia ainda mais . Ela própria me falou de uma hostilidade crescente da mãe de Stefano e. Entretinha-me a admirar todos aqueles presentes que contrasta­ vam com a casa pobre de Fernando . não só nunca me com­ praste nada. livros . com penteados semelhantes . e. quanto mais agora. Ela não era feia. que por isso me consideravam óptima aluna. por portas travessas . criticava a futura nora por qualquer coisa que fizera dias antes . ele abria a carteira? Quer vir armar-se em patroa na nossa casa? Se Maria se limitava a um amuo silencioso . Punha de lado ideias . notava quase de imediato que nunca me ficariam bem como ficavam a ela. Quem é que a filha do sa­ pateiro julgava ser? Que poção maléfica dera a beber a Stefano? Como é que assim que ela abria a boca. A primeira a reparar nisso foi a mãe. Mas . No papel de noiva. Ambas traziam claramente estampa­ dos no rosto os seus pensamentos maldosos . dirigindo-se ao irmão nestes termos: «Porque é que a ela compras tudo . e resmungava: . quando via Lila e Pinuccia prontas para sair. como se tivesse muito que fazer. a sua maneira de ser já causava irritação quando ela era uma garota macilenta. com vestidos parecidos . talvez mais bem feita. experimentava os vestidos e os objectos de valor.

toda a noite tentou atrair a atenção de Stefano . disse a Lila: «Vê se a Lenuccia e os filhos da Melina amanhã à noite vão comer qualquer coisa connosco . de propósito para as exibir quando andava pelas ruas ou de automóvel . pelo menos Antonio . que trabalhava na pastelaria e que . Ada. fomos dominados pela ansiedade: como nos vestimos . sem o admitirem a si próprias . com receio de fazer má figura. coisa de gente rica. porque Rino e Stefano falaram sobretudo de dinheiro e nunca se lembraram de envolver. concluímos que num lugar público. fazendo­ -lhe denguices excessivas que desagradaram ao irmão . Nos dias festivos . quanto custaria? En­ quanto eles . Por fim. Mas o facto mais sig­ nificativo foi que eu e Ada. mais Pinuccia e Rino . que insistia em ser tratada por Carmen . e Ada. uma figurinha fascinante em contraluz . Aceitá­ mos . Lila parecia inalcan­ çável . comprava e pedia para ele lhe comprar coisas bonitas . em conversas de outro género . Gigliola. que parecia a condizer com a Giardinetta . embora não oficialmen­ te . Ada. andava com Michele Solara. Antonio e Ada nunca tínhamos estado num restaurante . pediu um vestido emprestado a Gigliola. e sentira-se tratado como um pedinte . e ele pareceu satisfeito . não sabíamos o que dizer a Lila. impor-lhe os velhos hábitos . e se Rino não se incomodou nada com isso . com sentimentos diferentes . mas foi uma noite difícil . talvez impelido pela sua simpatia por Antonio e Ada.» O «connosco» referia-se a eles os dois . pois era da idade de Stefano e Rino . tão bem vestida. eles pediram com desenvoltura vários pratos e nós quase nada. descobrimos que Stefano já se encarregara do assunto . mimámo-lo . Passámos quase todo o tempo calados .» Nós . os quatro . tanto mais que um sábado . em competição com Lila. sem o admitirem. Antonio voltou para casa aborrecido . Mas não havia competição possível . prin­ cipalmente . Stefano e Rino não escolheram uma pizzeria . nem como tratá-la. mas sim um restaurante em Santa Lucia. e fizemos o resto do percurso a pé . as raparigas do bairro . Eu . De início tentámos impedi-la. nós apanhámos o autocar­ ro até à Piazza dei Plebiscito . foram na Giardinetta . quando chegou a altura de pagar. apaparicámo-lo . receando que a conta fosse pesada para as nossas possibili­ dades. com o descapo- . que agora gostava muito de passar o tempo livre com o futuro cunhado . não resignada à marginalidade . depressa começámos a ter problemas idênticos .A Amiga Genial 209 «Voltem cedo . e trabalhava como eles . Carmela. Uma vez no destino . e Gigliola. fora da nossa intimidade de amigas . Estava tão bem maquilhada. começaram a ataviar-se . Trouxe­ mos Stefano para o nosso velho grupo .

O corpo de rapariguinha. po­ dia sê-lo cada vez mais . E recordo-me de que uma noite .210 Elena Ferrante tável . Ao longo de dias . Eu nada sabia ainda acerca daquilo a que ela em segredo . reli de propó­ sito a carta que ela me enviara para Ischia. depois da desagradável experiência da passagem do ano . com os seus pre­ sentes . uma nova maneira de maqui­ lhar os olhos ou a boca. e como parecia já tão distante . Para quem a via. enquanto ela parecia ter descoberto a alegria de beber da fonte inesgotável da sua beleza. Mas conhecia a história da panela que explodiu . Naquela noite tomou-se evidente que Lila estava a mudar de catego­ ria. e sentir. para se proteger. com o restaurante de Santa Lucia. de tudo aquilo que confusamente enfrentara e desafiara desde pequena. a raparigui­ nha que aprendera latim e grego sozinha. de meses . Como era cativante o seu modo de falar de si própria. cha­ mava desmarginação . ir ao cinema paro­ quial ou ir dançar em casa de Gigliola. desprendia-se dela um brilho . para si mesma. pensava repe­ tidamente nela. estava sempre à coca em qualquer canto da minha mente . já não a ouvia. tomou-se uma senhorinha que imitava os manequins das revistas de moda. dava a impressão de estar a pôr em prática uma cláusula do acordo existente entre ambos como casal . as raparigas da televisão . o pai e os restantes familiares . e ela parecia fazer uso do sigilo que ele lhe impunha. depres­ sa foi escorraçado para territórios escuros. quando ao domingo saía de braço dado com o noivo . Mas na vida do dia-a-dia não a via. em casa. e dar a ver. Tive de re­ conhecer que a Lila que escrevera aquelas palavras tinha desaparecido . À luz do sol surgiu em seu lugar uma jovem mulher que . e também aquela que desenhara os sapa­ tos agora emoldurados na sapataria. parecia querer demonstrar ao bairro que . eram apenas contornos mais rebuscados que dissolviam os anteriores . pois um novo penteado . Na carta ainda existia a menina que escrevera A Fada Azul. Stefano . de que ainda havia vestígios quando tramámos juntas o enredo que a levara ao noivado com Stefano . mas fisicamente imprópria para entrar no metropolitano connosco . as jovens que vira a passear na Via Chiaia. que devorara metade da bi­ blioteca do professor Ferrara . deslo­ car-se a pé . ir buscar uma pizza ao Corso Garibaldi . A Cerullo nervosa e agressiva parecia ter-se imolado . Stefano parecia procurar nela o símbolo mais evidente do futuro de bem-estar e de poder que almejava. se Lila era bonita. um vestido novo . para viajar de autocarro . . e proteger o irmão . que era como uma violenta bofetada no rosto da miséria do bairro . que ne­ nhum perfil bem desenhado era capaz de a conter de modo definitivo .

as poucas vezes que abria a boca dizia ditos espirituosos . a morar no mesmo bairro . era o único que dava pela minha presença. a panela de cobre rebentada e retorcida. ia-me transformando numa ra­ pariga desleixada. as mãos grosseiras . não houve outras oportunidades idênticas . Enzo raramente aparecia. embora muito tímido . cheia de atenções . inclinada sobre livros esfrangalhados . parecia ter perdido o interesse pelas raparigas . ou arranjados pela professora Oliviero . que exalavam o mau-cheiro dos volumes comprados com grande sacrifício no mercado de coisas usadas . à sua maneira indiferente . Sim. 45 . que dava vontade de acariciar. e . a comer uma pizza com o nosso antigo grupo . mas quando estava presente dedicava­ -se .A Amiga Genial 211 Embora continuássemos . de repente encontrámo-nos em mundos diferentes . não porque os noivos não voltas­ sem a convidar-nos . sentia que a sua forma anterior se rompera e relem­ brava aquela passagem tão bonita da carta. e que mais cedo ou mais tarde tudo voltaria a despedaçar-se . depois de Lila o rejeitar. penteada como uma diva. mas porque nos esquivámos . Depois da desagradável noite no restaurante em Santa Lucia. a Carmela. Além disso . Era uma imagem que utilizava com frequência. com vestidos que a faziam parecer uma actriz ou uma princesa. ora com uma desculpa. caixa-de-óculos . Porém. Eu . a pele do rosto era brilhante e cheia de pontos negros .tal­ vez esperasse . tinha uma vida da qual pouco ou nada sabíamos . Mas tinha cabelo negro encaracola­ do . quando os trabalhos de casa não me tiravam todas as energias . fazia-me uma corte discreta. Mas preferia sair quando tinha a certeza de que Antonio também estaria presente. os dentes azulados aqui e ali . apesar de ela ser mui- . deixava-me levar a um baile caseiro . havia algum tempo que tinha uma certa dedicação por mim. ora com outra. despenteada. Ela. tanto eu como ela. cada vez que detectava uma fractura dentro dela ou dentro de mim . Fazia muito pouco caso de Ada. embora tivéssemos tido a mesma infância. Quanto a Pasquale . Sabia . passava de braço dado com Stefano. lenta. com o passar dos meses . embora vivêssemos ambas o nosso décimo sexto ano de vida. dedos robustos com os quais uma vez desaparafusara sem esforço os parafusos de um pneu furado de um carro velho que Pasquale arranjara. Via-a da janela. e não exageradamente .que nenhuma forma seria capaz de conter Lila.

em vez de te zangares com o teu amigo Rino . embora desse a impressão que ninguém queria men­ cionar o nome dela. mesmo só de relance . teria de se casar com ele . e solas e palmilhas . nunca encontraria um estabelecimento que lhe ficasse com eles . deitar fogo ao bar­ -pastelaria Solara. e . Dizia que ela devia ter partido a televisão com um martelo . era por natureza um rapaz de bons sentimentos e ajuizado . mais cedo ou mais tarde acabávamos por falar de Lila. em menos de nada tudo pegava fogo . Contestava-o . em vez de se sentar a vê-la juntamente com quem se sabia que a comprara só para a ter a ela.212 Elena Ferrante to delambida com ele . Dizia que ela devia ter fugido de casa. Pasquale tomara o partido de Rino sem hesitar. Mas a respeito de Lila era crítico . pois foi ele que a meteu na­ quela alhada com o Marcello . por fim . e ver Lila e Stefano juntos . iria. Quando se soube que Marcello e Michele . No entanto . dizendo coisas do género: não é fácil fugir de casa. não é fácil ir contra a vontade das pessoas que estimamos. e tinha o cuidado de controlar as suas reacções e de tomar o partido que lhe parecia justo . nada é fácil . tinham confrontado Rino . Os rapazes sentiam-se todos um bocado desiludi­ dos . com alguns companheiros seus de confiança. e pez . embora não lhe tocassem nem com um dedo . sem contar que . qualquer um deles gostaria de estar no lugar de Stefano . Pasquale pro­ metera a si mesmo que . uma noite . Nessas ocasiões eu era a única que não ficava calada. E dizia. como é natural . Se não sentisse um ódio antigo pelos Solara. e formas de madeira. Os seus males de amor roíam-no por dentro . e a prova é que tu a criticas . e se a Lila não tivesse arranjado maneira de se livrar do Marcello . e depois . Quando se soube que Silvio Solara. E concluía fazendo . Nesses serões . pai de Michele e de Marcello . provavelmente ter-se-ia posto publicamente ao lado de Marcello contra a fami1 ia Cerullo . tirava-lhe a alegria de viver. olhando em volta. caso houvesse um incêndio na sapataria Cerullo . por não ter sabido educar bem a filha. com tanta cola que ali havia. o haviam coberto de insultos. embora repetisse constantemente que já não podia olhar mais para as nossas caras feias . Mas o mais infeliz era Pasquale . com todo aquele fio . em vez de aceitar que Marcello fosse lá todas as noites cortejá-la. que ela era uma rapariga demasiado inteligente para se ter realmente apaixonado por um hipócri­ ta de um nabo como Stefano Carracci . desaprovava explicitamente as críticas de Pasquale . comentara que ele podia fazer todos os sapa­ tos que quisesse . mas onde os ia vender depois . sem se exceder. fora pessoalmente à sapataria renovada de Fernando e o tinha censurado .

e se a tua amiga agora aqui estivesse . que dom Achille tinha escondido dentro do colchão . queres trazer outra vez à baila dom Achille e o mercado negro . fora o único que tivera a coragem de apoiá-la e de ajudá-la. que de todos eles . o que significa "deixa que a sustente"?» Bastou-me ouvir aquela pergunta. embora espalhasse veneno para as baratas em frente da porta de casa. Enzo também . outros menos. quando Enzo se intrometeu com o seu destaque habitual : «Desculpa. e as negociatas e a usura e todas as porcarias de antes e depois da guerra?» . disse que achava Lila ridícula por andar pelo bairro sempre acabada de sair do cabeleireiro e vestida como a princesa Soraya. E deixa que ele a sustente . creio . os calara a todos.A Amiga Genial 213 o elogio de Stefano . Pasquale corou . Eu estava a dar início à habitual defesa oficial . e eu sentia-me orgulhosa de ter refutado todas as críticas feitas à minha amiga. num local onde uma pizza margherita e uma cerveja custavam cinquenta liras .» «E o dinheiro que investiu na sapataria dos Cerullo veio-lhe da char­ cutaria?» «Porquê . a comer uma pizza no Rettifilo . Mas uma noite a discussão tornou-se feia. num tom e numa linguagem que .» Eu ia responder-lhe . o que te parece?» «Veio do ouro das mães de família. dava-me razão . e . sem papas na língua. quando a Lina vai ao cabeleireiro . palavra puxa palavra. ficou atrapalhado: «Sustentar significa sustentar. todos nos rimos . Pascà. Dessa vez foram as raparigas que começaram. Ada. quan­ do Pasquale me interrompeu e disse: «A questão não é essa. observei eu . A questão é que a Lina sabe de onde veio aquele dinheiro . que achava que Lila aceitara Stefano por dinheiro . Depois . desculpa lá. para saber que as coisas iam acabar mal . ora.» «Ü Stefano é simplesmente um comerciante que sabe vender. uns mais . para dar estabilidade ao irmão e ao resto da família. que conheciam Lila desde peque­ na e gostavam dela. Carmela disse . A Lina arma-se em senhora à custa do sangue de toda a gente pobre deste bairro . «Sim. para além do mais . Quem é que paga. a ela e a toda a farm1ia. ainda antes de se casar. Fazia-se então um profundo silêncio . Estávamos todos . quando compra roupas e malas? Quem é que investiu dinheiro na sapataria para que o sapateiro possa brincar aos fabricantes de sapatos?» .» «Ora.

agarrou num braço de Pasquale . é uma crítica que todos nós temos von­ tade de fazer. quero saber o que é que o Pasquale chama a uma mulher que se vende . 46 . «Desculpa. tu estás a dizer que a Lina não se apaixonou . deixa o Pasquale responder. chamo-lhe prostituta. Pasquale teve um impulso de violência que todos lhe lemos nos olhos .» Enzo pôs-se em pé e disse .» Enzo fez-lhe sinal para se calar. Antonio gaguejou: «Claro que não .» Pasquale disse . Limitaram-se a ficar amuados uns dias . o Pasquale não quer dizer isso. depois tudo se normalizou .» E dirigiu-se para a saída. anunciando: «Espero pelos dois lá fora. que que­ ria levantar-se .214 Elena Ferrante «Üu seja. não está noiva. com ar sombrio: «Sim. mas Enzo tocou-me no braço . O Pasquale está apenas a dizer uma coisa que não é uma acusação .» Aqui . Quanto a mim. Enzo . quase num sussurro: «Anda lá para fora. vendeu-se . Lenii .» Enzo respondeu .» Antonio saltou da cadeira. Enzo . mas sim que se vendeu?» Ficámos todos calados .» Impedimos Pasquale e Antonio de o seguirem. não exageremos. nem está para casar com o Stefano . como todos nós queremos . desta vez em voz alta: «Eu . e disse aquilo que havia meses tinha vontade de dizer. não . de gritar a todo o bairro: «Prostituta. «Tu cala-te . Contei esta altercação para mostrar como se passou aquele ano e qual o clima que as opções de Lila originavam. tu sabes que ele quer bem à Lina. E esteve-se marimbando para o fedor do dinheiro que gasta todos os dias . Anta ' . e disse: «Então . a tinham deseja­ do . A Lina comportou-se e está a com- portar-se como uma prostituta. e com toda a probabilidade a amavam e a desejavam ainda. não aconteceu nada.» Nessa altura tentei de novo falar. é difícil dizer a embrulhada de sentimentos em que me encontra- . principalmente entre os rapa­ zes que em segredo ou explicitamente a tinham amado .

É uma felizarda. como era evidente . que nunca tivera nenhuma tabuleta. primeiro . em suma. e chegava Stefano e ponto final . . Sabia-se . Eu deitava uma olhadela e seguia em frente . Sabia-se que Fernando afirmava que os sapatos . Lila. e eu com ela. o dinheiro não tem nada a ver. sobretudo os de mulher. celebrada por Stefano só por amor. por ser tão amada e por amar. sorria de si para si e dizia serenamente que queria os sapatos exactamente como se viam nas folhas quadriculadas . até chegar àquele re­ sultado: ter estabilidade . que as ti­ nha pendurado ali justamente para esse fim. e dava-me gosto fazê-lo . e que Fernando se apercebia das alterações e voltava a alterar. Sabia-se que Rino afirmava o contrário e que ia ter com Lila e lhe pedia para intervir. não podiam ser feitos como Lila os inventara. Agora que deu ao irmão o que o irmão queria. que tudo andava ao rallenti e que os trabalhadores . É uma felizarda. dar estabilidade ao irmão . Passava em frente da velha oficina de Fernando e experimentava um sentimento de vitória por ela. Mas ficavam-me grava­ dos os pequenos quadros pendurados nas paredes . e que depois Rino as alterava. agora exibia por cima da velha porta uma espécie de placa com a palavra «Cerullo» . gostava de me ouvir falar com a autoridade de alguém que anda a estudar maté­ rias difíceis . conseguira o que queria. e também ter onde ir buscar dinheiro para mandar consertar os meus óculos se eles se partissem. ligando um passo a outro passo como se fosse um problema de matemática. Mas sabia que também seria capaz de contar com o mesmo prazer. até mesmo com algum exagero . debruçados sobre as mesas . tentar realizar o pro­ jecto da fabricação de sapatos . para Lila. Sabia-se que pai e filho discutiam muito . que Lila estivera por trás de todas as movimentações de Stefano . Defendia Lila e m todas a s ocasiões . vendê-los não tem nada a ver. A sapataria. foram uma fantasia. parágrafo . que não passavam de uma fantasia de criança. e tudo parava e recomeçava-se . Dizia para mim: «Aqueles desenhos . Fernando . acabavam aos gritos e a partir coisas . Sabia-se que Lila respondia que já não queria saber do assunto . Rino e os três aprendizes estavam ocupados a juntar. Esta trabalheira toda é o re­ sultado final de uma veia artística dela. Sabia-se que Stefa­ no ia com ele e olhava muito tempo para os desenhos de Lila emoldu­ rados na parede .A Amiga Genial 215 va. pespon­ tar. recebiam ins­ truções de Fernando . por ser adorada por aquilo que é e por aquilo que sabe inventar. e que por isso Rino ia ter com Stefano e o arrastava até à ofi­ cina para que fosse ele a dar ordens precisas ao pai . martelar e esmerilar desde manhã até alta noite . agora que o afastou dos perigos .

filhos . Mas receava que ela se enfureces­ se e que . Alguma coisa há-de acontecer. Percebi isso pelo facto de ela ter usado uma expres­ são mais clara. em dialecto: «A tua amiga agora parece uma princesa . não quisesse ver mais nada. estaria preparada para enfrentar a situa­ ção . Dei-me conta disso algum tempo depois .» Esperei que aqueles boatos não chegassem aos ouvidos de Stefano . Cada vez que voltava da escola. e mais . quanto mais a Marcello Solara. me chegaram aos ouvidos boatos insultuosos a seu respeito . quando . Fiquei decepcionada. Por isso não quero perdê-la de vista. a não ser o casamen­ to . que nunca tivera dúvidas . pela boca de Gigliola Spagnuolo . para me dizer que nunca faria essa coisa a homem ne­ nhum. Mas por fim decidi-me.» Mas não aconteceu nada.216 Elena Ferrante inventará outra coisa de certeza. antes que aconteça alguma coisa má. E até nas conversas que tínhamos . Lila assentou no papel de noiva de Stefano . quando eu arranjava algum tempo .» «Ai sim? E também conta mentiras ao irmão?» «Foi o Michele que te disse?» «Sim. Descobri que ela estava mais bem informada do que eu acerca do que era um broche . algo de muito humilhante . e que ele lhe perguntara que tipo de relações houvera entre ela e Marcello durante o período em que ele frequentara a casa dos Cerullo . devido à maneira como crescera e devido ao feitio que tinha. pois metia-lhe nojo. uma casa. pelo menos ela ficava a saber de tudo. mas o seu som sugeria-me só uma espécie de afronta. sem as asperezas de sempre . Conhecia a palavra desde miúda. como se já não visse nada para além disso . ela lhe fazia um broche todas as noites?» Eu ignorava o que fosse um broche . Gigliola disse-me com rancor. se dirigisse directamente a Marcello Solara com o trinchete . me pareceu sempre satisfeita com aquilo que era.» «É um mentiroso . Mas o Stefano sabe que quando o Marcello ia a casa dela. era melhor contar-lhe o que me disseram. Parecia adocicada. Depois disse-me que o boato já chegara aos ouvidos de Stefano . estás doido?» Stefano apressara-se a res­ ponder que acreditava nela. pensava: talvez seja melhor avisar Lila. e que lhe fizera . Ela respondera-lhe com raiva: «De nenhum tipo . «Não é verdade .» «0 Marcello assim o diz .

de quem. todos . so­ zinhos mesmo à noite . Parecia-me mais claro o comportamento dos Solara. Lila reparara nisso e discutiram o assunto du­ rante muito tempo . O que se estava a passar? Não compreen­ dia. e pensava: vão sei lá para onde sem ninguém a acompanhá-los . Mas de que servia isso? Falaram e voltaram a falar e decidiram. nem àquela. realmente intolerável . e da lógica do bairro . Era Lila que andava a persuadir Stefano àqueles comportamentos que faziam deles o casal mais admirado e mais falado do bairro? Era aque­ la a última novidade que ela inventara? Queria sair do bairro continuan­ do no bairro? Queria arrastá-lo para fora de si mesmo . perguntei-lhe . fa­ zendo o que lhes apetece sem dar importância ao que as pessoas dizem . Confessara-lhe que também ela sentia uma necessi­ dade de vingança. adequada à que estava inventando para ela? . onde pensavam que viviam? Comportavam-se de uma maneira que não se encontrava sequer nos poemas que eu estu­ dava na escola. riam. o que tinham em mente . «Sim. Estava perplexa. Mostravam gentileza e cortesia com toda a gente . o avô . com a aprovação dos pai s . «Um degrau mais acima?» . Saí de lá estupefacta. mais coerente com o mundo que conhecíamos desde crianças . como se fos­ sem John e Jacqueline Kennedy em visita a um bairro de indigentes . Via-os às voltas no descapotável . Stefano continuara entregue ao seu trabalho sem defender a honra da noiva. de comum acordo . o pai . brincavam. subir um degrau mais acima do que os Solara. admirada. Não reagiam às ofensas . ignorá-los: o Marcello . Mas entretanto fizera uma expressão ausente. Lila continuara com a sua vida de noiva sem recorrer ao trinchete ou a outra coisa. com o braço dele em volta dos ombros dela. Fazer de conta que não existem. o irmão . mesmo sem querer. sempre vestidos como actores de cinema. e os Solara continuaram a divulgar obsce­ nidades . beijavam-se na boca. arrancar-lhe a velha pele e impor-lhe uma nova. é influenciado por cenas de chacina que se lhe formam na mente. parecia que nenhuma das velhas regras era válida para eles. que lhes estavam a fazer os Solara. e não às escondidas . Mas ela e Stefano .A Amiga Genial 217 aquela pergunta s ó para que ela soubesse que Marcello andava a dizer porcarias a respeito dela.» E assim . Quando saíam os dois a passear. nos romances que lia. com a aprovação de Rino .

durante algum tempo só se deslocavam a pé . Carmela. nem sequer prima. pescoço . e sempre acompanhados por quatro ou . no meio . que era o mais baixo .» Afastaram-se . um dia. Mas se o Stefano lho permite . como se já não tivesse braços . falaram um com o outro . por dez pessoas pelo menos . Mas eu e Carmela sabíamos muito bem que os agressores eram só três e ficámos muito preocupadas . Pasquale e Antonio andávamos a passear na rua larga. mais do que Stefano . Pasquale . e respondeu: «Tu percebeste . Antonio disse: «Constou-me que o Marcello Solara anda a dizer a toda a gente que a Lina esteve com ele . devido à minha presença e à de Carmela. Aconteceu num domingo . mas não sabiam dizer por quem. Já os Solara. Esperámos pelas inevitáveis represálias . muito mais do que Stefano . anda a fazê-la passar por prostituta. reuniram-se a nós . silêncio . Dali a pouco acompanharam-nos a casa. perguntei-me . quem não lho permite de certeza é o abai­ xo-assinado . como se fossem eles os noivos . pernas . a certa altura levantou a voz e ouvimo-lo bem. E não só: os dois irmãos haviam sido agredidos com selvajaria. Juravam que tinham sido espancados numa ruazinha escura. três . quando eu . Fora reduzido a pedaços . Pasquale continuou a vida de pedreiro . gente vinda de fora. Tudo reentrou bruscamente nos carris habituais quando os boatos a respeito de Lila chegaram aos ouvidos de Pasquale . Mas tomou­ -se evidente que as coisas tinham sido bem feitas . No dia seguinte e durante muitos dias houve um grande falatório acer­ ca do II 00 dos Solara. Enzo . porque se enfurecem tanto? Lila não é irmã deles . Vi e ouvi que Pasquale se enfurecia cada vez mais . Enzo nas suas voltas com a carroça. Enzo . principalmente . vagueámos indolen­ temente . Vi-os afastarem-se . mal­ tratados . que havia pouco tempo dissera o que dissera.» Enzo não pestanejou . Carmela entre o irmão e Enzo . Pasquale reagiu logo: «Esteve como?» Antonio ficou embaraçado .218 Elena Ferrante 47 . pare­ ceu-me ridículo . todos eles .» Depois . Antonio e Pasquale . Ele . Antonio a de mecânico . um de cada lado . eu a conversar com Antonio . No entanto sentem-se na obrigação de se indignarem . com os nossos ouvidos: «Eu parto a cara àquele cagalhão . e fosse um bloco de matéria dura. dois . que Enzo se tornava fisicamente mais compac­ to . um pouco perturbados . Porquê .

pareceu-me ter batido . só para pare­ cer invejável aos olhos de Lila. eram nove . Pensei na minha magra experiência amo­ rosa. e depois mais outro . Lila. e outro . Mas suce­ deu algo que me fez sentir melhor. mal roçara nos lábios de Nino . Senti vergonha de mim. não dormi nessa noite . mais prepotentes do que antes . Sãos e sal­ vos . Desisti de me preparar para o exame . Era tudo . mas não conseguia encontrar um desígnio coerente no afastamento dos nossos destinos . por terem feito de conta que nada acontecera. e dentro de um ano . Contei os meses . Senti-me uma sombra. claro . Senti orgulho nos meus amigos . Juntamente com Carmen e Ada critiquei Ste­ fano e também Rino . e suportara os contactos fugazes e imundos do pai dele . Confesso que me deu prazer vê-los naquele estado . Já era previsível . anos antes . O facto de já haver uma data concreta deu também um carácter concreto à encruzilhada que iria afastar as nossas vidas uma da outra. O professor Gerace e a professora . como a Fama na Eneida . mas agora que fora fixada uma data. e outro . Marcello e Michele compraram uma Giulietta verde e recomeçaram a comportar-se como donos do bairro . Quando Lila me anunciou o casamento estávamos em Junho . que continuavam a voar de boca em boca por todo o bairro . teria um marido . um filho . De­ pois o tempo passou . se casaria. um estilo que eles nem eram capazes de imaginar. a hostilidade de Maria.A Amiga Genial 219 cinco amigos . Beijara Gino uma vez . consumissem Ste­ fano e o levassem a romper o noivado . No dia seguinte fui fazer o exame sem vontade nenhuma. os boatos espalhados por Marcello Solara. Aquela notícia abalou-me . a poucas horas das provas orais. 48 . ainda com dezasseis anos. Gente daquela laia tinha de ser combatida através de um estilo de vida superior. permitindo que a raiva pérfida de Pinuccia. chorei de desespero . com dezasseis anos . aos dezassete . em Março . E o pior foi não me restarem dúvidas de que a sorte dela seria melhor do que a minha. vi claramente que o iniciara. Tive pensamenfos mesquinhos . ela anun­ ciou-me que na Primavera. 1 2 de Março . contra uma porta. Senti mais forte do que nunca a insignificância do meu percurso escolar. Quando estavam a decorrer os exames do segundo ano do secundário . Sinal de que Lila talvez tivesse ra­ zão . Nove meses talvez fosse muito tempo . por distracção . E no fim de contas . por sua vez . ela agora já não atribuía qualquer importância aos livros.

» Nunca a ouvira dizer um palavrão . Greco . o . Não fez qualquer referência à minha necessidade de descanso . e o meu pai disse-me que fosse imediatamente a casa da professora Oliviero . isso sim . enquanto a professora Galiani ouvia e aprovava em silêncio com a ca­ beça.» A professora elogiou-me . Passei para o primeiro ano do liceu com dez em tudo . Fez questão de ler uma passagem ao resto do júri . Quando ia a sair. Senti-me a sua aluna mais bem conseguida e fui-me embora aliviada. era a minha. ao peito . e é como se nunca a ti­ vesse tido . e depois gaguejou: «Desculpa. como se a professora se tivesse apercebido de que alguma coisa em Lila se desperdiçara porque ela. mas em minha casa ninguém se admirou nem me felicitou . Em vez disso . O único que me felicitou sem meios termos foi Alfonso . diz-lhe que eu não estou bem e que tens de me ajudar em casa. para ela se lembrar de me arranjar a tempo os livros para o próximo ano . o problema que tinha na boca inco­ modava-a muito . Senti que a admiração dele era genuína. E só ao ouvi­ -lo me apercebi daquilo que procurara fazer nos últimos meses . Naquele dia disse «CU» . mas também porque não estava bem de saúde . com sete em tudo . Estava com o noivo . E aos meus professores parecia algo realmente fora do normal .» Mas não foi isso que me impressionou .220 Elena Ferrante Galiani . Não era a forma de escrever de Lila. lugares onde depressa desaparece . desde que a conhecia. compreendi que tinha conseguido . não a protegera e não a desenvolvera bem. mas sem entusiasmo . tentar uma escrita fluente e sedutora como a de Lila na carta de Ischia. naturalmente . Vira-a na rua. das frases muito rígidas . e fiquei contente . disse . elogiaram muito o meu trabalho de Italiano . A minha mãe achou o meu sucesso escolar perfeitamen­ te natural . de longe . mas não deram importância nenhuma ao acontecimento . que também passou . em especial . às co­ xas e ao cu . o charcuteiro . nem à prima Nella. que fazia parte do júri . disse que a minha exposição melhorara muito . a minha mãe gritou: «E se ela te quiser mandar outra vez para Ischia. nem a Ischia. Quando ouvi as minhas palavras na voz do professor. começou a falar de Lila. não só porque tam­ bém ela já tinha como certo o meu bom aproveitamento . Foi a mágoa. para minha surpresa. e foi-lhe toda parar à cara. Depois pronunciou uma frase que recor­ darei sempre: «A beleza que a Cerullo possuía na mente desde pequena não encontrou saída. como profes­ sora. cada vez que tinha de escrever: livrar-me do meu tom artificial . Vi que estavam satisfeitos . Gerace .

quando reabriam as escolas .» «0 que queres tu dizer?» «Quero dizer que tu és melhor. ela começou a rir. per­ guntei-lhe pela primeira vez o que pensava da futura cunhada. durante algum tempo tentou não te vencer. Como me sentia muito à vontade com ele . Também não precisava de mim.» No regresso a casa falámos muito do casamen­ to do irmão e de Lila.» «Em que sentido?» «No sentido que o meu irmão tem mesmo muita coragem para casar com ela. Ele estava condenado a passar o Verão na charcutaria. se preci­ sava de uma caixeira. mais por decisão da minha mãe do que do meu pai .» «Perder custa muito .» Também isso me deu prazer. Levou tempo a responder-me . Nos dias seguintes andei às voltas pelo bairro . Desatámos a rir. Voltei para casa a chorar. um beijo ruidoso . levado pelo entusiasmo . devia procurar um trabalho para o Verão . Depois ficou atrapalhado . o dono da mercearia da rua larga.» «Estavas apaixonado por ela?» «Estás a brincar? Sempre me fez sentir acanhado . todos vocês tinham medo do meu pai . e aquela miúda não . Fiz menção de me ir embora e ela chamou­ -me e disse: . largou-me de imediato . casaria contigo . irmos à praia juntos pelo menos uma vez . Apertou-me com força contra ele e deu-me um beijo na face . fez uma coisa inconveniente . mas não agora. Fui falar com a dona da papelaria. e eu . sim . Aliás .» «A Lina também. Prometemos encontrar-nos . quando nos despedimos ainda ríamos . Precisava. Perguntei a dom Paolo . mas não se conteve e gritou: «Dez a tudo. Diante das pautas afixadas .» «Sim. dez a tudo . Perguntei ao vendedor de jornais. e que se tivesse sido eu a escolher. impossível . eu em primeiro lugar. Depois disse: «Lembras-te daquele desafio que nos obrigaram a fazer na escola?» «Quem é que se conseguiria esquecer?» «Eu tinha a certeza de ganhar. Achei intolerável que todos tivessem terror do meu pai . mas depois decidiu vencer e humilhou-me .» «Não foi por isso . na presença dos nossos colegas e dos respectivos pais .A Amiga Genial 22 1 que me deu prazer. como se se tivesse esquecido de que eu era rapariga e que não devia tocar-me . sem qualquer interes­ se . Não fomos . Nada. disse-me que voltasse no Outono . pediu desculpa.

Eras capaz de levar as minhas miúdas a banhos?» Saí da loja muito feliz . quando o dia está bom e todas as coisas boas parecem estar só à nossa espera. e de receber uma remuneração pela tarefa de levar as filhas da senhora da papelaria ao Se a Garden . guarda-sóis . Teria de ir todos os dias a um sítio entre Mergellina e Posillipo . nunca mais poderia acompanhá-la. como se a minha vida ti­ vesse dado uma volta decisiva. disse-lhe logo que sim. Fiquei contente . Ia ganhar dinheiro para os meus pais . Quando Antonio . Lila ia dar um salto definitivo para fora da minha vida. e essa impressão de horas felizes consolidou-se . e também o meu namoro . Mar. um adulto .se eu levasse à praia as suas três meninas . tenho confiança em ti . qualquer pessoa que tivesse encontrado naquele momento de alegria seria bem acolhida. Teve início o meu trabalho . evitara-o sempre e nem fora ver se ele passara no exame e com que notas . tomar banhos de mar. da idade de Stefano . intuindo que a minha disposição era favorável . mulhe- . Contei-lhe logo a respeito da senhora da papelaria. em fato-macaco.222 Elena Ferrante «Tu és uma rapariga muito séria. e ele deve ter-me lido no rosto que aquele era um momento feliz . plataformas de cimento . um trabalhador. Lenu . A senhora da papelaria arranjou-me uma espécie de passe . pareceu-me uma coisa nada diferente da aprovação com dez em tudo . Duran­ te meses estudara afincadamente . cheio de nódoas de gordura. pensei . sentindo-me só e feia. 49 . estudantes . sol e di­ nheiro . A senhora estava disposta a pagar-me . durante todo o mês de Julho e os primeiros dez dias de Agosto . Encontrei Antonio . chamava-se Sea Garden . embora não sentisse por ele mais do que um pouco de simpatia. e levava­ -as para aquele sítio cheio de cor. do qual nada sabia. Mas agora sen­ tia-me bem e queria sentir-me ainda melhor. e eu todas as manhãs atra­ vessava a cidade com as três meninas .e a pagar-me bem . Embora tivesse a certeza de amar Nino Sarratore . Poucos passos dera. Tê-lo a ele como namorado . ficar bonita por apanhar sol como no Verão pas­ sado . embora amasse outro . Como tudo é agradável . Ele vira-me passar e correra para me apanhar. e que tinha um nome estrangeiro . me perguntou se eu queria namo­ rar com ele . mulheres abastadas com muito tempo livre . mar azul. Dirigi-me para casa muito excitada. nos autocarros à cunha.

exibindo o fato de banho que Nella me fizera no ano anterior. Foi com ele que troquei os primeiros beijos verdadeiros . sem qualquer recompensa imediata. talvez ainda mais . A primeira era: Lila faz estas coisas com Stefano? A segunda era: o prazer que sinto com este rapaz é o mesmo que senti na noite em que Donato Sarratore me tocou? Em ambos os casos . só para estar comigo . eu própria lhe apertei o pénis . Ele era­ -me tão grato . que o prazer que eu lhe proporcio­ nava era de longe superior àquele que ele me dava. Mas fazia-o por mim. Devolvia as meninas à mãe e corria ao meu encontro secreto com Antonio . Numa dessa ocasiões . nem sequer o jovem banheiro que a precedia. Aceitei aquelas práticas com duas perguntas claras no pen­ samento . escondido dentro das calças . grosso . levantei os olhos um instante e vi uma rapariga alta. com um lindo biquíni vermelho . Não me viu e eu não soube se devia chamá-la. tomava longos banhos com elas . os amores entre Lila e Stefano . elegante . embora ganhasse muito pouco . que o pai de Nino me provocara. e também detestava queimar-se ao sol . duro . a emoção forte . Trazia óculos de sol e uma . difícil de classificar. sempre atenta para que não escorregassem e partissem os dentes na pia. Uma tarde . Enquanto ele brincava com elas . brincava com elas . pois ao longo do dia não era possível beijarmo-nos ou tocarmo-nos . Por vezes . Íamos até aos pauis por ruas secundárias . tinha medo de ser vista pela minha mãe e . manifestava uma tal dependência absoluta de mim por aqueles escassos contactos nos pauis . Alimentava-as . deixava-as beber tempo sem fim do repuxo de uma fonte de pedra. ao domingo . e por outro .A Amiga Genial 223 res vistosas com rostos vorazes . para acompanhá-la ao guarda-sol . movia-se como se naquele lugar apinhado de gente não estivesse ninguém . Também entretinha as meninas com palhaçadas e mergulhos de atleta. Era Lila. enquanto nos beijávamos . Gastava muito dinheiro com falsa desenvoltura. Regressávamos ao bairro no final da tarde . eu estendia-me ao sol a ler e dissolvia-me no interior das páginas como uma medusa. queimada do sol . De­ pressa o deixei tocar-me nos seios e entre as pernas . Antonio acabava por ser apenas um fantasma útil para evocar. e quando ele o tirou para fora segurei-o na mão com prazer. ia comigo e com as meninas para o Sea Gar­ den . Olhava pela meninas . pela professora Oliviero . que depressa me convenci que ele é que estava em dívida para comigo . Mas nunca me senti culpada. por um lado . esguia. Já ha­ bituada a ter os olhares dos homens pousados nela. Tratava com bons modos os banheiros que tentavam meter conversa. salgada da água do mar.

pen­ sei . como os príncipes fazem com as belas adormecidas e. enquanto Antonio olhava pelas filhas da senhora da papelaria. gelados . Stefano continuava sentado a olhar para o mar. sanduíches . Disse-lhe quanto .» «Dar-te-ei baús cheios de moedas de ouro . Não estava. por sua vez . o isquei­ ro . Quando ergui de novo os olhos . Ainda não lhe contara a respeito do meu traba­ lho . Quando os dois rapazes começaram a falar de não sei que problemas do descapotável . É provável que receasse a opinião dela. e desta vez consegui realmente . durante alguns minutos . captar o sentido das palavras . Estava havia muito tempo habituada a auto­ disciplinar-me .» «A minha mãe acha que ela me paga de mais. «Quanto te paga a dona da papelaria?» .224 Elena Ferrante bolsa de tecido colorido . quando se referiu a Antonio: «Ele conhece o teu valor?» «Somos namorados há vinte dias . bebidas . sei quanto vale passar o tempo contigo . Lila já lá não estava. e as crianças abandonaram imediatamente Antonio e viraram todas as atenções para ele . Esperemos que ela me chame .» «Gostas dele?» . O banheiro abrira-lhe a ca­ deira de repouso e ela estava sentada ao sol . «É pouco . Todavia. recordo-me de que o romance era Oblo­ mov .» Olhei para ela. levei dali as garotas para que não os incomo­ dassem. não demorei a olhar de novo naquela direcção . tentei ler. mas já sem conseguir ler. Lenu . muito branco . conversa em que Antonio fez um brilharete . sentou-se também numa cadeira de repouso . mas logo a seguir brincou . e Antonio apontava para mim. para ver se estava a brincar. voltando­ -se de imediato para chamar Stefano . Beijou Lila nos lábios . os cigarros. perguntou-me . na mão a carteira. Lila foi comigo . Procurei-a com o olhar e vi que estava a falar com Antonio . Fiz-lhe um adeus animado . Foi um dia de aparente alegria. Tomámos banho os três juntos . A certa altura Stefano levou-nos todos ao bar e pediu tudo o que era bom. fato de banho azul.» «Darei mais valor a mim quanto tiver de levar os teus filhos à praia. Entretanto Stefano estava a chegar.» «Deves dar mais valor a ti . Mais uma vez . a que ela respondeu com idêntica animação . e voltei a olhar para o livro . nem de Antonio . tanto so­ bre uma coisa como sobre a outra.

» «Estás a gozar comigo. 50 . paciência. Já na rua. em que todos . milagrosamente . e ficou a saber que Antonio já pagara tudo . nos sentimos à vontade . ela nunca mais foi ao Sea Garden . quase lhe gritei em dialecto . Porque não vens também?» Entusiasmou-se com a ideia. Disse-lhe: «Venho para aqui todos os dias . davam-nos mais prazer. não . é bom conver­ sarmos assim. Afeiçoei-me a Antonio quase sem dar por isso . Foi um dia maravilhoso . Mas não houve oportunidade de lhe fazer essas pergun­ tas . . «Porque eu e tu somos mais bonitos e mais finos» . sentadas no cimento quente . falou com Stefano . alguma coisa perdurará en­ tre nós .» No entanto . repreendi-o . séria: «Imenso . ou mais ainda. assim que Stefano e Lila se afastaram no descapotável . pensei: mesmo que esteja a gozar comigo . respondeu . «Porque é que tu pagaste?» . Pensei que se Lila voltasse a aparecer no Sea Garden lhe perguntaria o que se passava entre ela e Stefano quando se afastavam sozinhos no carro . mas mais do que de ti . Faziam as mesmas coisas que eu e Antonio fazíamos . Os nossos jogos se­ xuais tomaram-se um pouco mais audazes . e ele ganhava quatro liras na oficina. Stefano dirigiu-se à caixa. por exemplo as coisas que lhe atribuíam os boatos lançados pelos dois Solara? Não tinha mais ninguém com quem fazer comparações senão com ela. que concordou . talvez nem tudo esteja terminado. com os pés na água. mais do que do Rino?» «Mais do que de todos . se não quis saber como me correram os exames da secundária.» «Mais do que dos teus pais . «Tu gostas do Stefano?» Respondeu . mesmo depois de casada. eram horas de levar as meni­ nas à mãe . zangada. Melina e Ada lavavam as escadas dos prédios .» «E então?» Desafiei-a com o olhar. ao sol . Lamentou muito e agradeceu calorosamente . paciência. se não me perguntou que livro estou a ler.A Amiga Genial 225 «Não . Depois o sol começou a declinar.

desde pequenas . abraçou-me e disse: «Ainda bem . e que não andasse à procura de Melina mas de mim. Depois se­ renei . Dizia para comigo: não se pode beijar. Todos julgam que ela é má e eu boa. tenho de estudar muito. em vez de me censurar. e os filhos não sabiam como acalmá-la . vai ser um ano difícil . eu amava Nino . disse a Antonio: «Foi sempre assim. custa-me . De noite acordava sobressaltada. Lila gosta imenso de Ste­ fano . mas agora a escola vai reco­ meçar e este ano vou para o primeiro ano do liceu . afecto não era amor. Até ao fim do mês . descontrai-te um pouco por favor. ajudaste-me muito num momento em que estava triste . Mas ele era tão afectuoso . as moscas . dizia que ele viera buscá-la. então não é verdade?» Aquela resposta enterneceu-me e impediu-me de lhe dizer que tínha­ mos de nos deixar. sabia que iria amá-lo sempre .226 Elena Ferrante Em meados de Agosto o meu trabalho acabou . Pensava falar com ele calmamente . ao contrário do que eu lhes recomendara. Com o calor. e sentir só um pouco de afeição por ela. tão apaixonado . irónico: «Porquê . e embora elas . ela . nos Maronti . e todas as tardes ia para o nosso encontro nos pauis com o discurso preparado . a quem ela chamava Donato . que me faltava a coragem e ia adiando .» E acrescentou com malícia: «Pensa na Lina Cerullo . Voltara-lhe à lembrança Sarratore . mas temos de acabar. Dizia que o tinha visto . nos pauis . tenho matérias no­ vas .» À tardinha. . a poeira. com este calor. decerto . Melina geralmen­ te piorava. contassem à mãe que às vezes um rapaz meu amigo ia connosco à praia e davam belos mergulhos com ele . as coisas que ela faz . acariciar uma pessoa. aqui não . O tempo foi passando e nunca mais encontrava o momento certo para falar com ele . Era uma decisão que me parecia urgente . com a impressão de ele ter entrado pela janela e se encontrar no meu quarto . és demasiado ajuizada para a tua idade . Andava preocupado . deixar que nos acari­ cie . Será no feriado de Agosto . A dona da papelaria ficou muito satisfeita com o modo como eu tomara conta das meninas . pensei : deve estar de férias em Barano . Sentia que era necessário . Fiquei ansiosa. e acabou-se também a alegria do sol e do mar. queria dizer-lhe: foi um tempo bom. mas na segunda metade de Agosto piorou declaradamente .» Ele beijou-me e murmurou . eu não gosto de Antonio . Depois do feriado de Agosto . com medo de que Sarratore tivesse realmente aparecido nas ruas do bairro .

senti que ti­ nha um peso em cima dele que lhe afrouxava o passo . Antonio ficou melancólico . para ele . apenas porque Donato Sarratore . e a outra. tentou desaparecer à pressa no escuro do túnel. Murmurou: «Tu és inteligente .» Voltou-se com relutância. Disse que para dar uma forma ao nosso amor escrevera muitos poe­ mas .A Amiga Genial 227 Mas uma manhã. à entrada do túnel . mas és muito melhor do que aquele homem . Que me pedi­ ra para dizer a Melina que estaria sempre à espera dela. Uma parte dele estava furiosa. Antonio estava taciturno . Chamei-o: «Senhor Sarratore . Não dormi toda a noite com a preocupação . mas agora está intimidado . Disse que sofrera por não me encontrar em casa de Nella. Então parei e sussurrei-lhe que me deixasse em paz . não sabia o que fazer. Segui em frente . Donato Sarratore andava pelo bairro . Disse que queria encontrar-se comigo . nas feições agradáveis douradas pelo sol . de prestígio . Limitei-me a dar-lhe o braço . . na rua larga. que tinha um namorado e que nunca mais queria vê-lo . cheia de acanhamento . Quando Sarratore nos viu ao longe . no outro Verão . e ele fez um sorriso de contrariedade . em Barano . disse-lhe que a mãe tinha razão . e que . Decidi recorrer a Antonio . Voltei-me . Senti-lo naquele estado tornou-me mais determinada. és sensível . e a princípio não o reconheci . Que fora ter comigo na rua. Depois centrei o olhar no bigode preto . ele veio atrás de mim. falar comigo à vontade . que gostaria de mos ler. e que falaríamos os dois claramente com ele sobre o estado de saúde da mãe . quando ia fazer as compras . todos os dias ao meio-dia. e afastou-se . se eu me recusasse . caminhava sem pressa. No dia seguinte fomos ao túnel . que sem mim não podia viver. se suicidava. é uma pessoa importante . tive vontade de o sacudir e de lhe gritar: tu não es­ creveste livro nenhum. nos pauis . Murmurou que esperaria por mim para sempre . eu saltei para trás com um gesto de nojo . Ficou desesperado . ouvi chamar por mim. Nessa mesma tarde . que todos os dias ao meio-dia estaria à entrada do túnel . Abanei a cabeça energicamente . Disse que não pensava senão em mim . na boca de lábios finos . Pensei com raiva: foi capaz de enfrentar os Solara por causa da irmã Ada. Inclinou-se para me beijar. murmurou: «0 que devo fazer?» Disse-lhe que eu própria o acompanharia ao local de encontro . disse que nunca lá iria. e por causa de Lila. Fiquei aterrorizada. eu levo-te os poemas de que mais gos­ to» .

a voz que ele imaginava que um homem de categoria. acariciante . vai parar ao manicómio . Ele irritou-se . na praia dos Maronti . não podes impedir-me de rever sítios que me são tão queridos» . Prosseguiu: «Mas o senhor já não vive aqui no bairro e a situação para si não é clara. senhor Sarratore .» «Falámos muito . mas Antonio . está bem. fez-me sinal para me calar. se quiser continuar a ajudá-la. e ele agora vai dizer-lhe tudo . e esforçando-se para falar em italiano: «Estou muito contente de o ver. empurrando-o com os dedos fortes . E se o vir. Era uma voz pastosa. eu não me esqueço .» Sarratore atrapalhou-se: «Antonio . se aprendi um ofício . encolheu a cabeça.» Sarratore produziu uma voz aguda e muito afectuosa: «Claro que me lembro . se ouve pronunciar o seu nome . meu filho . pressionei-o . e disse-lhe .228 Elena Ferrante Disse-lhe .» Antonio compreendeu que o seu momento chegara. é o filho mais velho da dona Me- lina. não a procure . perde a cabeça. Estive quase a intervir. a si lho devo . antecipou-se . nervosa.» «Ah . artificial­ mente comovida.» «Eu e ele somos namorados .» «Isso não me podes pedir. Ser-lhe-ei sempre grato por aquilo que fez por nós depois da morte do meu pai . e estendeu uma mão até ao tronco de Donato Sarratore . Disse-lhe em dialecto: «Eu não o impeço . olá Antonio . que escrevia poemas e artigos no Roma . devia ter. eu nunca tive qualquer intenção de fazer mal à tua mãe .» «Então . A única coisa que sempre quis foi ajudá-la a ela e a vocês todos .» . não lhe mande livros. Mas prometo-lhe que se o senhor tirar à minha mãe o pouco tino que lhe resta. A minha mãe . mui­ to pálido e tenso . Curvou os ombros . passa-lhe para sempre a vontade de re­ ver estes sítios de merda. disse Sarratore com uma voz cálida.» «Diz-lhe da tua mãe» . não apareça aqui no bairro . coisa que nesse tempo era fora do normal no nosso ambiente: «Não sei se se lembra do Antonio . Aquela tonalidade indignou-me . tratando-o por «senhor» . para meu espanto . se o vir nem que seja só uma vez . Tu lembras-te bem de como me esforcei por vocês . Agradeço-lhe sobretudo por me ter arranjado emprego na ofi­ cina do senhor Gorresio . ele usara-a muito em Barano . Conhecia-a.

Dei o braço a Antonio . cosia e martelava tranquilo . mas notei que tremia. e dava para o Vesúvio . no que teria sido para ele . O bairro recordou-se daquele casamento durante muito tempo . a menos de duzentos metros passa­ vam. não só nos sapatos no­ vos . bem nítidos . no seu boteco em que era o rei . para não fazerem figura de pedintes . por um motivo ou por outro . Nunzia bordava lençóis noite e dia. os carris da linha férrea. O apartamento no bairro novo era mais pequeno . ao passo que Lila preferia um apartamento nos prédios velhos. Os preparativos interligaram-se com o lento . O primeiro relacionou-se com a futura casa. que por enquanto não rendiam nada. e alarguei o meu prazo: deixo-o depois do casamento de Lila. chorando a época feliz em que . Stefano estava seduzido . «Sim» . a morte do pai . disse à pressa. para garantir a Lila algum enxoval e fazer frente à despesa do copo-de-água. Precisavam de juntar bastante dinheiro . Stefano queria comprar um pequeno apartamento no bairro novo . que queriam a todo o custo assumir. como todas as casas daquela zona. Foi inútil fazer notar que . elaborado e conflituoso nasci­ mento dos sapatos Cerullo . A casa no bairro velho era maior mas era escura e não tinha vista nenhuma. O resultado disso foi que durante meses a tensão esteve muito alta na casa dos Cerullo . a responsabilidade que lhe caíra em cima. e um bidet. O casamento . talvez pela primeira vez. Levei-o dali . mas tinha uma banheira enorme . para além de outras coisas .A Amiga Genial 229 Sarratore empalideceu . receita essa que para eles era urgente . em miúdo . Fernando e Rino trabalhavam muito . Houve apenas dois pequenos instantes de atrito entre eles . obrigado . disse para mim . colava. Os únicos que pareciam serenos eram os noivos . «já percebi . reflectia-se e não pouco na sapataria. Discutiram. e depois o trabalho . o revés da mãe . cheia de afecto . Pareciam dois empreendimentos que .» Girou sobre os calcanhares e pirou-se na direcção da estação . com os preguinhos entre os lábios. enquanto o Vesúvio era um contorno instável e distante. Pensei . e Fernando fazia cenas constantemente . que se dissolvia no céu nebuloso . 51. mas também em mil outros servicinhos que davam lucro imediato . nunca conheceriam fim. como a do anúncio da Palmolive . orgulhosa daquela saída dele .

muito alegre . pelos apartamentos com o chão a brilhar. Stefano propôs como destino Veneza. reflexos de problemas internos das respectivas farm1ias . o que importava era que com menos de dezassete anos seria dona de uma casa. via neles . Disse que até ao fim de No­ vembro queria ver os primeiros resultados . s e Stefano i a à sapataria Cerullo . Encontravam-se no terraço da velha casa. tudo sítios onde nunca estivera. sempre vira neles . O futuro marido disse quase de imediato que concordava. Que esplendor: pavi­ mentos feitos de grandes ladrilhos reluzentes. e Lila depressa se rendeu . e Lila. e apalpou-os . cheirou-os . que Rino era sempre mais despachado a pedir dinheiro do que a trabalhar. impôs um limite exacto ao faz e desfaz do pai . os móveis entalhados da sala de jantar e do quarto . ele replicou . a seguir. teriam de estar prontos a serem expostos na montra antes do Natal . e no final do Verão . aquele onde haviam disparado o fogo-de-artifício ao desafio com os Solara. O segundo motivo de atrito foi a viagem de núpcias . revelando uma linha de tendência que viria a marcar toda a sua vida. Tínha- . e comoveu-se ao dizer que sentia neles . as tensões foram mínimas . Quanto ao resto . Por exemplo . fugiu-lhe da boca. Foi a própria Lila que me contou este acto de amor. Fê-lo no dia em que me foi mostrar a casa nova. começava a ver na história dos sapatos um investi­ mento excessivo de dinheiro . acabava sempre por deixar escapar palavras pesadas acerca de Fernando e de Rino . falando com Lila. Pelo menos os modelos de Inverno . Capri . pelas pare­ des brancas . guardados como testemunho precioso da história de am­ bos . dizendo que nunca mais permitiria que voltassem a estragar-se . Ela defendeu o irmão . Depois . e que não era alugada. as suas mãozinhas quase de criança. saltava em defesa deles . mais do que outra coisa. insistiu em não se afastar muito de Nápoles .230 Elena Ferrante pelo que era novo . Ele abanava a cabeça pouco convencido . cheio de nervos . quando . que tinham trabalhado ao lado das mãozonas do irmão . com água quente a sair das torneiras . e talvez n a costa e m volta de Amalfi . Pegou-lhe nos dedos e beijou-lhos um a um. quando se registaram fortes tensões entre ele e os dois Cerullo . emocionada. via Lila. ela exaltou-se e ele fez imediatamente marcha-atrás . sapatos que adquirira e nunca usara. o frigorífico . do filho e dos ajudantes . para homem e para mulher. mas sim propriedade sua. Foi buscar o par de sapatos do qual nascera todo aquele projecto . Tomei nota do número . e até telefone . e ela não gostava. Mais do que outra coisa. Sugeriu uma estadia em Ischia . a banheira para tomar banho de espuma.

nem de foulards . e perguntei-lhe com cuidado: «Tu e o Stefano vêm aqui sozinhos?» «Sim. . se eu dava a Antonio aquilo que ele me pedia. Seria possível? Tanta liberdade e nada? Tanto falató­ rio por todo o bairro . Reduzi o s encontros nos pauis . o Antonio pede-te?» «Sim. precisamente por causa das aulas . as obscenidades dos Solara. Concorda que primeiro devemos casar-nos . embora já tivessem casa própria e mobilada.» «E depois?» «Depois mais nada.» Mas pareceu-me tocada pelas minhas perguntas . dos trabalhos de casa. Os conflitos com Pinuccia cresceram muito durante o Verão . que dava para a linha férrea e para o Vesúvio . Mas não f�i assim. às vezes . que certamente não me casaria. Quando me perguntou . me deixaria de fora dos preparativos para o casa­ mento . «Beijam-se?» «Às vezes. sem um sítio para estudar. a cama com os colchões ainda embalados .» Fiquei confusa. e eles nada mais que uns beijos?» «Mas ele não te pede?» «Porquê . eu . nem de chapéus . ainda não somos casados.A Amiga Genial 23 1 mos nascido e sido criadas em casas pequenas . como se não percebesse . tive vergo­ nha de lhe dizer a verdade . Estava convencida de que Lila. 52. a mim. Saímos para a varanda. «Em que aspecto?» Senti-me embaraçada. habituara-se ao meu desaparecimento durante o ano escolar. com genuína curiosidade . Já não se tratava de roupas . Respondi que não e ela pareceu satisfeita.» «Ele . Eu ainda assim vivia. embora estivessem para casar.» «E o que é que acontece?» Olhou-me. há muito tempo que fora para além do beijo. não . embora saíssem sozinhos de automóvel . assim como as res­ postas dela me tocaram. E ao invés . Ela nunca concedia nada a Stefano . em breve . não . ela. sem um quarto para nós . até porque a escola i a começar em breve .

pelo menos depois da lua-de-mel . porque eu estou can­ sada e não quero trabalhar mais. Ao balcão ponho a Ada. tinha qualquer coisa de temerário.» «Foi ela que te sugeriu isso?» . Tomou-se evi­ dente que a filha do sapateiro era agora considerada pelas duas mulheres uma feiticeira que viera fazer o papel de patroa. «Isso não é da tua conta. embora tentando ser conciliadora. Disse devagar: «Acalmemo-nos . a filha da Melina. Pinuccia a certa altura disse ao irmão . se não já. Stefano . «Não . Senão . não respondeu imediatamente . gritou a irmã. depois penso .» Nessa altura Stefano teve uma pequena hesitação . em vez de trabalhar na charcutaria. como todas as respostas de Lila desde sempre . Esperou que a irmã desabafasse . e depois Maria levantou-se da cadei­ ra junto da caixa registadora e disse ao filho: «Arranja também alguém para este lugar aqui . mã' ? Ouviste o que ele disse? Julga-se o patrão absoluto . amanhã mesmo. contra a irmã carnal e até contra a própria mãe .232 Elena Ferrante nem de jóias . Então .trabalhar como toda a famí­ lia fazia desde sempre . como se o problema de Lila e da sua colocação na pequena empresa familiar nunca tivesse sido levantado . E desta vez a mãe apoiou-a de forma explícita. em qualquer função que a fann1ia Carracci lhe quisesse atribuir. disparou ela. «Já não precisas de mim?» . fa­ ria melhor em ajudar a noiva nos preparativos para o casamento . que ou a sua noiva ia trabalhar para a charcutaria. mas a todos nós .» «Ouviste . apontando para Lila. tu precisas de trabalhar? Não . aqui dentro . disse que podia começar imediatamente. ou então ela também deixaria de trabalhar. de desde­ nhoso . como era seu hábito . e dominar o homem da casa com as suas artes . isto é. Essa resposta. a senhora precisa de estar todo o dia sentada aí atrás? Não . demos trabalho a quem precisa. quem é que trata do casamento?» . os assuntos da charcu­ taria não dizem respeito só a mim. na presença de Lila e de forma clara. A partir de amanhã mando vir para o teu lugar a Ada. Lila não pestanejou . disse calmamente que Pinuccia. eu não sou o patrão de nada. como fazia também Alfonso sempre que a escola lho permitia . levando-o a fazer coisas muito injustas contra os do seu próprio sangue . Mamã. Há que tomar uma decisão . e depois ..» Fez-se um silêncio insuportável . que fez com que Pinuccia se exaltasse ainda mais . e na caixa. atirar dinheiro pela jane­ la fora sem mexer um dedo para o ganhar. Pinu .

tudo lhe ficava bem. Mas às vezes . Fui . as lembranças de casamento . Estava no início do primeiro ano do liceu . a sala para a recepção . muito contrariada. encontrei a minha amiga. uma vez que Pinuccia e Maria consideravam coisa reles ir a Sorren­ to. havia conflitos por qualquer ninharia: as participações . que começou a falar da nossa amiga como se fosse uma fada boa) . a coroazinha de pedras artificiais. Mas um dia. e da admissão de Ada (decerto Ada ficou convencida disso . aparentemente para dar uma opinião a Lila sobre isto ou aquilo . porque se não vieres . O que sei ao certo é que não lhe agradou que a cunhada e a sogra tivessem tanto tempo livre para se dedicarem ao seu casamento . o menu. tal como a de pérolas e a de flor de laranjeira. Positano . A rígida organza. Fosse o que fosse que ela vestisse . Não me digas que não .A Amiga Genial 233 Não sei ao certo se Lila estaria de facto por trás da expu lsão de Pinuc­ cia e da mãe do dia-a-dia da charcutaria. até a viagem de núp­ cias . a sua beleza valorizava o vestido . Lenu . e sobretudo Antonio . que me olhava fixamente e dizia. Quase sempre via. irónica. ou experimentava os vestidos que eram bonitos nos manequins . os figurinos. surgia a Lila de outros tempos . esperando arranjar maneira de estudar. a decoração da igreja. A loja era no Rettifilo . Saí com ela . alarmando a sogra e a cunha­ da: «E que tal se escolhêssemos um lindo cetim verde . ainda mato a minha cunhada e a minha sogra. que me disse à queima-roupa: «Por favor. o véu esvoaçante ou o véu preso . quando já não aguentava as esquisitices das suas futuras parentes . o grupo musical . O corpete de renda. Foi impossível . «Um conselho sobre o quê?» «Um conselho sobre o vestido de noiva. apalpámos tecidos . e recordo-me de ter metido uns livros num saco . quando vinha da escola. O meu habitual e obstinado esforço já me estava a exaurir. a cauda mais comprida ou a mais curta. ficavam-lhe bem. e Lila experimentou vestidos de noiva expostos nos manequins da loja. o cetim mole . ou uma organza . Pinuccia e Maria. o que me fazia sofrer. o bolo . obediente . fica­ vam-lhe bem. e o vestido valoriza­ va-lhe a beleza. amanhã vens dar-me um conselho?» Não sabia sequer do que ela falava. As duas mulheres complicaram-lhe a vida. o fotógrafo. De modo que inesperadamente fui chama­ da. Das quatro da tarde até às sete da noite vimos figurinos . as mangas tufadas . A saia larga ou a saia justa. as alianças . o tule nebuloso . peço­ -te . tinha muitas matérias no­ vas e difíceis. estudava com demasiado afinco . e na realidade para apoiá-la numa luta difícil . Ischia ou Capri . Tinha sido interrogada a química e não fizera boa figura.

Eu estive sempre calada. seja o que for que escolham. de outro tecido . Em primeiro lugar disse . para poder dizer: esta rapariga foi vestida por mim. e a mãe . Lila arranjou manei­ ra de ficarmos um pouco para trás . era pródiga na apresentação de premissas . não em elogios . A modista. e comecei a demonstrar que ele sintetizava as qualidades dos modelos que as duas mulheres apoiavam e as qualidades dos modelos que a minha amiga privilegiava. com um certo espanto . Perguntou-me: «Aprendes isso na escola?)) «Ü quê?)) «A usar as palavras para levar as pessoas à certa. tragam-me as fotografias do casamento . Lenu?» Fez-se silêncio . que eu quero expô-las na montra. melhor ainda. ou um bonito tule preto . Lancei-me . No momento em que . amarelo?» Eu ti­ nha de dar uma risadinha. escolhi um dos figurinos ao acaso.234 Elena Ferrante vermelha. ou para um tecido . ao fazerem comentários à com­ pra. Cada vez que Lila se inclinava para um modelo . irritada: «Ü que é que tu achas . com frases do tipo: como disse a Lenuccia. senti que tinha a admiração e a simpatia de mãe e filha. ou . tanto Pinuccia como a mãe estavam de muito bom humor. chamavam-me à baila constantemente . para indicar que a noiva estava a brincar. para que recomeçasse a apreciar tecidos e modelos com uma seriedade rancorosa. ou . Dirigiam-se a Lila quase com afecto e. com a voz segura de alguém que sabe perfeitamente onde quer chegar. entusiasmada: «Por favor.em italiano . A modista não fazia senão repetir. um pouco entontecida por todas aquelas discussões e pelo cheiro dos tecidos novos . Percebi de imediato . que as duas mulheres aguardavam aquele momento e o temiam. a Lenuccia disse justamente . mas em argumentações que demonstravam como eles eram adequados às formas de Lila. Pus em acção uma técnica que aprendera na escola e que consistia no seguinte: sempre que não sabia responder a uma pergunta.que gostava imenso dos modelos preferidos por Pinuccia e a mãe . Depois Lila perguntou-me . realmente ao acaso . Pinuccia. À saída . tendo o cuidado de não pegar em nenhum dos favoritos de Lila. Pinuccia e Maria alinhavam a favor de outro modelo .» Mas o problema era escolher. Depois regressou ao olhar habitual e disse que também estava de acordo . no movimento de final de dia do Rettifilo . como na aula com os professores . concordaram imediatamente comigo .)) . Lila limitou-se a olhar para mim com os olhos semicerrados .

ainda mais chateada. Fui eu que escolhi o restaurante na Via Orazio . Então. Dei-me conta.» «Talvez porque tu és má» . tal como ela me ma­ goara. Fui eu que escolhi o fotógrafo . e como manipulava Stefano . uma maneira de ser muito sua. Aquilo que real­ mente a motivava era estabelecer de uma vez por todas que . e na sua casa. Mas não se tratava do habitual conflito entre sogra. apertou-me a mão com força: «Não era minha intenção ser indelicada contigo . é que de mim as pessoas têm medo e de ti não . Tive a impressão . respondeu . em todas as situações . Lila dava muito pouca atenção às diversas fases do seu casamento .» Fiquei chateada. desde sempre . A diferença entre mim e ti . pelo modo como me usava.» «E então?» «Então . perguntei-lhe: «Queres usar-me para levá-las à certa?» Percebeu que me tinha ofendido . na sua fu­ tura vida de esposa e de mãe . para remediar: «Ü Antonio era capaz de morrer por ti . mas de Pinuccia e da mãe . disse-lhe . Com efeito . Fiquei surpreendida. respondeu ela. . Queria apenas dizer que sabes fazer com que te apreciem. acrescentei imediatamente. convencendo-as a acrescentar ao serviço fotográfico um filme em super-8 . nora e cunhada. e por vezes . ainda obscura para ela.não a pedido de Lila. murmurei: «Não gostas do modelo que escolhemos?�� «Gosto imenso . fui eu que escolhi as lem­ branças de casamento . de que Lila se debatia para encontrar.» «Foi o Stefano que deu trabalho à Ada» . «Pode ser» . Disse para te agradecer por teres dado trabalho à irmã. de que enquanto e u me apaixonava por todas a s coisas . faz-me o favor de vires connosco todas as vezes que eu te pedir.vim a descobrir . a partir do interior da gaiola em que se encerrara. «Eu sou má. A partir dali fui constantemente chamada para tomar parte nas deci­ sões mais disputadas . como s e cada uma daquelas questões fosse um treino para quando eu me casasse . mas foi mesmo assim que aconteceu .» 53 . e percebi que a magoara. arrependida. a cunhada e a sogra não meteriam o nariz .A Amiga Genial 235 Senti-me ferida.

a excelentíssima Galiani . da sua influência? Chorei lágrimas silenciosas em frente da porta da sala de aula. para o lugar da mãe de Stefano . estudava pouco e até faltei à escola duas ou três vezes . Alfonso viu imediatamente que eu me estava a exceder e puxou­ -me timidamente pela bata. a pauta do primeiro trimestre não foi particularmente brilhante . senti­ -me impelida a reagir.uma entidade . que fizera com bom aproveitamento um curso de Teologia por correspondência. este . e eu? Eu fora buscar a ela a energia para inventar uma imagem que definia a religião como uma colecção de cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno? Quer dizer que não era verdade que a escola fosse a minha riqueza pessoal . e depois lembrei-me de que tivera conver­ sas daquelas com Lila. ou simplesmente porque senti que todo o mal que o padre dizia dos comunistas me dizia respeito directamente . já. tardes inteiras a resolver as questões delas . distante . A minha nova professora de Latim e Grego . até àquela comparação conclusiva. continuava a atribuir-lhe autoridade sufi­ ciente para me dar força para desafiar o meu professor de Religião .236 Elena Ferrante Perdia. andava comigo nas palmas das mãos . contra o seu ateísmo . levantei a mão e disse que a condição humana estava de modo tão evidente exposta à fúria cega do acaso que confiar em Deus. que sempre se dissera comunista. evidentemente . Lila já não abria um livro. Como resultado . Pela primeira vez fui expulsa da sala e tive uma nota de censura no livro de ponto da aula. Mas as coisas alteraram-se inesperadamente . em Jesus e no Espírito Santo . uma manhã meti-me numa grande alhada. não sei se por causa do meu afecto por Pasquale .. a professora Galiani . totalmente supérflua. já não estudava. no­ tavelmente mais nobre do que o simples binómio pai-filho . pouco faltava para ser mulher de um charcuteiro e decerto iria parar à caixa registadora. O que é facto é que eu .era a mesma coisa que coleccionar cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno . mas em Filosofia. de onde me viera a convicção absoluta de que as coisas que estava a dizer estavam certas e deviam ser ditas? . Quando me encontrei no corredor. porque me comportara tão levianamente . mas eu não lhe dei ouvidos e prossegui até ao fim. em Química e em Ma­ temática. e compreendi que me metera naquele sarilho apenas porque . Ao fundo do corredor surgiu Nino Sarratore . por ser a queridinha da comunista por excelência. Como o professor de Religião pronunciava cons­ tantemente diatribes contra os comunistas . Para mais . que apenas existia para compor uma trindade . tinha . só consegui ter suficiente . primeiro senti-me desorientada - o que acontecera. Depois do novo encontro com o pai dele . apesar de tudo .

muito orgulhoso . prestável . transmitir a Pasquale o que acontece­ ra. e regressou minutos depois com a professora Galiani . . e não sabendo o que dizer-lhe . Pedi descul­ pa. expor com firmeza as minhas opiniões . enxuguei as lágrimas à pressa. Entretanto . conquistando a estima de todos com comporta­ mentos irrepreensíveis . mas . mas contei tudo a Antonio . «depois do ataque a fundo. naquela situação . ao topo da lista dos alunos mais promissores do nosso esfarrapado liceu . contei-lhe tudo. e depressa voltaram a considerar-me uma pessoa a quem se podiam perdoar certas afmnações extravagantes. o olhar mais firme . Tive o cuidado de não revelar nada aos meus pais . «Mas agora» . tinha a maçã-de-adão muito saliente . fechou-a atrás de si . Tornei-me muito respeitadora. Era impossível evitá-lo. Eu podia entrar de novo . o que se passara.» Bateu à porta da sala. Estava mais alto . Deixei-me ficar. E foi assim que . e também daquele grupo pequeno mas aguerrido de professores e alunos que contestavam os sermões do professor de religião . que andava no terceiro ano do liceu e naquele ano faria o exame de acesso à universidade . Ela cobriu-me de elogios . Ele também se deve ter apercebido de que algo não estava bem e dirigiu­ -se para mim. que foi . isto é. e quando ele pa­ rou na minha frente e me perguntou porque estava cá fora. como se estivesse a dar uma aula a mim e a Nino . o qual por sua vez encontrou Lila uma manhã e. num abrir e fechar de olhos. desde que pedisse desculpa ao professor pelo tom agressivo que usara. me tornei a heroína dos meus amigos de sempre. reanimei-me ao vê-lo . Separei as minhas palavras da minha pessoa. oscilando entre a ansiedade por causa das prováveis represálias e o orgulho pelo apoio que recebera de Nino e da professora Galiani . dominado pela emo­ ção . como verifiquei que o pedido de desculpa ao padre não bastara. sem esforço. Franziu o sobrolho e disse: «Volto já. pois ainda a amava. pois ambas as coisas complicariam mais a minha situação se o professor de religião viesse à porta. esforcei­ -me para recuperar a credibilidade junto dele e dos outros professores que pensavam como ele . Descobri que podia fazer como a profes­ sora Galiani . Não podia voltar para a aula nem podia afastar-me para as casas de banho. chegou a hora da mediação .» Desapa­ receu . disse . as feições escavadas pela barba azulada. se agarrou à mi­ nha história como a uma tábua de salvação e lha contou . Numa questão de poucos dias pareceu-me ter re­ gressado . e cinco minutos depois reapareceu com ar alegre . diligente e colaborante com todos os professores que se haviam mostrado hostis para mim. juntamente com Nino Sarratore.A Amiga Genial 237 ainda mais razão para me comportar como se ele não existisse . e ao mesmo tempo fazer a mediação .

e puxa para o lado dele a de química e o de matemática.» Voltei para casa muito agitada. a Lila. Tentei dar à minha posição o máximo de dignidade teórica. Umas semanas depois Nino pediu-me sem preâm­ bulos . tentariam inseri-lo no próximo número . nos Ma­ ronti . logo remediava as coisas . levou a melhor. se fizesse um resumo disso a tempo . à professora Oliviero . que necessidade tem ele de se difundir através do Espírito Santo?» Mas a meia página num instante se gastava. nome e sobrenome . da vaidade com que me lera. re­ correndo a palavras difíceis . Encontrei frases sintéticas e densas . «Também escreves poesia?» . Mostrou-me a revista. Escrevi: «Se Deus está em toda a parte . Depois . E o resto? . alinhando contra quem me pare­ cia pior (o padre . Ficou ansioso por minha causa. que escrevesse à pressa meia página de caderno . o professor de matemática) . o padre vai ficar zangado outra vez e chumba-te. «Para que fim?» Disse-me que colaborava com uma pequena revista que se chamava Nápoles. o meu nome impresso . com um artigo intitulado Os Números da Miséria . o meu artigo . só com a premissa. Ele estava presente no índice . Ele disse que não com uma energia tão desgostosa que prometi-lhe de imediato: «Está bem. com aquele seu ar sisudo . Mas assim que nos separámos . Contara o episódio na redacção e disseram­ -lhe que . perguntei-lhe .» «Lenu .» Transmitiu-me a sua ansiedade e perdi confiança.238 Elena Ferrante Não ficou por ali . aos meus pais . «Será assinado em teu nome?» «Sim. a professora de química. e pelo caminho falei disso com Alfonso . em por­ menor. de cor cinzento-sujo. ao professor Ferrara . o artigo publicado no Roma . a ideia de poder mostrar em breve a revista. aconselhou-me a não escrever nada. Esforçar-me-ia para que isto se repetisse quando saísse o artigo . Lembrei­ -me do pai dele . Era um fascículo com cinquen­ ta páginas . Tinha sido muito estimulante receber o aplauso de quem me parecia melhor (a professora Galiani e Nino) . vou tentar. Passei a tarde a escrever e reescrever. contando o duelo com o padre. Asilo dos Pobres . Sentia a cabeça a abarrotar com as frases que ia escrever. mas comportando-me entretanto com os adversários de modo a não perder a sua simpatia e estima. e da satisfação .

como se lhe tivesse atirado um peso para cima. exactamente como Alfonso: «Escreverão o teu nome?» Fiz sinal que sim. desde a primária. comprometendo-lhe o equilíbrio . aquela que lia. «Posso apagar?» «Podes. Mas em menos de meia hora voltaram-me as dúvidas . mesmo?» «Sim. Contei-lhe da proposta de Nino e dei-lhe o caderno . projectava. Olhou para a página contra a vontade . a única era Lila. não sou capaz . Quando conseguiu .» . tudo pareceu agradavelmente leve . para obter um parecer? À minha mãe? Aos meus irmãos? A Antonio? É evidente que não .» Tive de insistir. E tive a impressão de ela estar a fazer um esforço doloroso para libertar de qualquer recanto de si própria a velha Lila.» Estendeu-me o caderno: «Não sou capaz de te dizer se é bom ou não .» Apagou muitas palavras e uma frase inteira.» «Peço-te . Disse-lhe . senti necessi­ dade de confirmações . não o daria a Nino para imprimir. sus­ citando-me pensamentos excessivos . Perguntou-me . escrevia. Por fim leu . que se ela não gostasse . como se a escrita lhe ferisse os olhos . Estava em casa dos pais . Pareceu-me que ela se encolhia toda. «Elena Greco . Recea­ va ainda mais que esse comentário me ficasse a bailar na cabeça . que acabaria por transcrever para a minha meia página. a princípio resisti . Por isso .» «Não . embora soubesse que não era verdade .A Amiga Genial 239 Recomeçava. ou se se recusasse mesmo a lê-lo . Mas pedir-lhe isso significava continuar a reconhecer nela uma autoridade. Como fora treinada. A quem podia dar a ler o meu texto . com a espontanei­ dade e a naturalidade de uma reacção instintiva. desenhava. quando na verdade agora era eu que sabia mais do que ela. Mas por fim não resisti e fui procurá-la. Receava que ela li­ quidasse a minha meia página com um comentário depreciativo . por fim obtive um resultado satisfatório e come­ cei a estudar as lições para o dia seguinte . a tentar e voltar a tentar com obstinação . esperando encontrá-la. «Posso deslocar uma coisa?» «Podes.

» «Em quê?» «Escreves melhor do que eu . Ele leu-o . Decidi deixar o texto na letra de Lila. para o cimo da folha. Nem sequer . os pequenos acrésci­ mos e. a caligrafia dela. que se tomara mais pequena e mais simplificada. desatando a rir. envergonhada. repetiu aquela frase outra vez . O que apagara. Mas primeiro li-o . uma caligrafia que se mantinha inalterada desde a escola primária. com uma energia e também uma harmonia que a pessoa que ficara para trás desconhecia que tinha. e bateu no centro da cabeça com os dedos. Voltei para casa feliz .» «Não . 54 . Fechei-me na retrete para não incomodar o resto da família e estudei até quase às três da manhã. «Porque me faz doer» . de certa maneira. na bonita caligrafia redonda de Lila. quando finalmen­ te fui dormir. Quando me devolveu o caderno . A página dizia exactamente o mesmo que eu escrevera. com uma linha ondulada.» Embora eu protestasse .» «Porquê?» Pensou um pouco . para conservar um sinal visível da sua presença nas minhas palavras . Levantei-me às seis e meia para voltar a copiar o texto . o que deslocara. Levei-o a Nino assim mesmo . mas de modo mais límpi­ do . «Posso copiar tudo para outra folha?» «Eu faço isso . já muito diferente da minha.240 Elena Ferrante Fez um traço em volta de um período e deslocou-o . com uma dureza repentina: «Não quero voltar a ler nada do que tu escreves. mais directo . com uma tristeza repentina e inesperada: «A professora Galiani tem razão . era de facto um elogio . é claro que têm de te dar sempre dez . No fim disse . deixa-me fazer eu . Depois acres- centou . batendo muitas vezes as longas pestanas . fizeram-me sentir que eu fu­ gira de mim própria e agora ia a correr cem passos mais à frente . depois virou-me as costas sem se despedir e foi-se embora. disse: «És tão inteligente .» Percebi que não havia ironia.» Sentou-se a transcrever.

o andar do pai . Mas agora. . Sabia que Nino estava a olhar para nós e queria que ele percebesse quem eu era. Primeiro contou-nos . presen­ ça. Quando de repente voltou a ceder-me corpo . Aquele comportamento aborreceu­ -me. que precisava de lhe dizer não sei o quê . Correu ao meu encontro . Sempre me re­ cusara a passear daquela forma. sem o amar? Era tão senhor de si que não tolerava outras virtudes senão as suas? Pedi a Antonio que me fosse buscar à escola. fez-me uma grande festa. no dia seguinte . de certeza que contou ao irmão que entre mim e Alfonso nada havia . aqui está ele . O que mais o deve ter surpreendido foi eu ali em público . Era frívolo como o pai . à saída. Obedeceu-me logo . à sua maneira animada. diante de todos . lhe ter dado a mão . disse que tinha ficado aborrecida por eu não ter voltado para Ba­ rano naquele Verão . e também não tive coragem de lhe perguntar. de­ sorientado e ao mesmo tempo recompensado por aquele pedido . Como Alfonso estava comigo . Por isso não andaria de novo atrás dele como um animal fiel . Escrevia melhor do que ele . ter entrelaçado os meus dedos nos dele. apresentei-lho . em andar parte do caminho connosco . ele voltou a andar de roda de mim. mas essas dúvidas desfizeram-se quando um dia. vida. pois prontamente . Tanto mais que enquanto ele se afastava reconheci . uma vez que o irmão já se tinha ido embora. todos os desgostos de amor. respondi­ -lhe com frieza que já tinha um compromisso . por breves se­ gundos . bastava vê-lo para me enervar. nem onde podia encontrá-la. era tão boa aluna como ele e mais do que ele. Durante algum tempo deve ter pensado que o namorado era Alfonso . fi-lo . ia publicar na revista em que ele publicava. quando concluiu que eu e Alfonso não éramos namorados . porque me dava a impressão de ser ainda pequena e de andar a passear com o meu pai . embora o detestasse? Pensava que as outras pessoas não podiam passar sem gostar dele . Ela insistiu . Daquela vez . Durante uns dias Nino continuou a comportar-se como se escrever melhor do que ele fosse uma culpa que devia ser expiada. e me pediu que fizéssemos um bocado do caminho juntos. deixou de se dirigir a mim e começou a falar com ele de forma cativante . Terminou deste modo aquele nosso novo encontro . Eu irritei-me . Quando chegou a casa. que o meu namorado me vinha buscar.A Amiga Genial 24 1 me disse quando saía a revista. e tinha um homem. Depois . tanto no bairro como fora. Estragámos tudo uma vez mais. apareceu a sua irmã Marisa. Não nos víamos desde os tempos de Ischia.

e no entanto pensar: tenho tudo o que uma rapariga de dezasseis anos deve ter. Lila enviara convites para toda a gente . Na verdade . Por isso .tínhamos o cuidado de manter a nossa relação em segredo absoluto . Mas Antonio não levou as coisas dessa forma. por que diabo é que eu o escolhera a ele . as mães. considera­ va-me a maior sorte que alguma vez tivera. sentir-me composta . sei lá. deve ter pensado que finalmente me decidia a deixá-lo sair da clandestinidade . Queria. os sapatos velhos . que falasse e . o meu vestido po­ bre feito pela minha mãe . Perguntava-se muitas vezes em voz alta . naquela ocasião . e a agradável ansiedade pelo artigo que podia ver publ icado de u m momento para o outro . Eu não dei por nada . tranquila. Fiz a minha vida entre a escola. Mas sobretudo porque um casamento era um acontecimen­ to em que ninguém podia fazer má figura . Também pedi a Antonio que me acompanhasse ao casamento de Lila. Não era tanto por Lila que faziam esse esforço. roupas para Ada e para os outros irmãos. Por esta última razão é que quis que Antonio me acompanhasse . de talheres. não preciso de nada nem de ninguém . um serviço de copos . a dar voltas para comprar a prenda de casamento . as avós . Esse pedido deve ter-lhe complicado a vida . a fim de oficializar a nossa relação . que não me deixasse sozinha. principalmente as raparigas sem namorado . a procurar chapéus e bolsas . dançasse sempre comigo . Receava muito aquele dia . casando-se por sua vez dentro de alguns anos .242 Elena Ferrante 55 . trabalhavam havia algum tempo a fazer as roupas . com os meus óculos .. sentia-o como um rompimento de­ finitivo . sem contar com o que lhe custara a prenda de casamento . Não tinha qualquer intenção de oficializar a coisa . Nas casas do bairro . os pareceres urgentes sempre que as coisas se ensari lhavam entre Lila. e queria ter ao lado alguém que me apoiasse . permitia que pagassem no fim do mês . que era estúpido e não sabia juntar duas palavras . a cunhada e a sogra . Amava-me . de pratos . uma presença apresentável para Melina. que era muito boa pessoa. não via a hora de se apre­ sentar em casa dos meus pais . que naquela altura tinham a possibilidade de arranjar um e de se arrumarem. Estava intimamente convencida de que só . era por Stefano . com uma sombra de angústia escondida sob uma aparência divertida . quiçá . e endividou-se para mandar fazer um fato no alfaiate . quando lhe fiz aquele pedido . mas desejava ter sob controlo a minha ansiedade de ser atraente .

Lila disse-me que ao ver os sapatos que desenhara anos antes tomados realidade . pareciam os três saídos do écran da televisão . apresentou-se propositadamente com a noiva e com Pinuccia.» Era verdade . Interrompeu os parabéns que Lila dava ao irmão . Stefano . que os seus desenhos eram fantasias de criança e que as alterações . De vez em quando perguntava-me: «Sabes em que ponto eles estão?» Eu res­ pondia: «Pergunta ao Rino . Mas Rino apoiou Stefano . E por mais que Fernando justificasse todas as alterações com questões de solidez . aceita-os assim. e o mesmo sapato com os acabamentos introduzidos por pai e filho.A Amiga Genial 243 existiria realmente a partir do momento em que o meu nome aparecesse impresso . e ia vivendo na expectativa desse dia sem dar muita atenção a Antonio . disse ao noivo que não se exaltasse . sentira uma emoção fortíssima. tal como fora feito por Rino e Lila às escondidas de Fernando . que a Lina não sabe de nada. Lila interveio discretamente em defesa do pai . erguendo um tornozelo para lhe mostrar o pé calçado de forma extraordinária. pelo contrário . Só se interrompeu quando Fernando . calou a voz melosa de Pinuccia. para que é esta fivela doura­ da?» . como se tivesse aparecido uma fada e realizado um nosso desejo. criticou as alterações feitas aos desenhos originais . arranja outro que os faça. olhando para os quadros pendurados nas paredes: «Se queres os sapatos para o Natal . de harmonia dissonante. de­ certo eram necessárias . dando a entender que o considerava o verdadeiro artífice daquelas obras-primas de leveza robusta. perguntou . aliás de pouca relevância. Disse que investira ali demasiado dinheiro para obter uns sapatos vulgares . Até Pinuccia ficou de boca aberta. Stefano foi inabalável. e a discussão prolon­ gou-se por muito tempo . Os Cerullo em Novembro convocaram Stefano . que pespontas são estes . Elena Greco . Houve muitas altercações. em vez de outros precisamente idênticos aos sapatos de Lila. Os sapatos eram tal e qual como ela os imaginara a seu tempo . modelo após modelo . e. aborrecido . ou com a finalidade de disfarçar qualquer defeito de ideação . O único que se mostrou descontente foi Stefano . sem se preocuparem minimamente em mostrar primeiro os sapatos a Lila. que felicitava Rino .» . Quis experimentar um modelo de que gostava e fez muitos elogios a Rino . «0 que é esta franja. Se os quiseres exactamente como a minha filha os desenhou . que no entanto ainda vivia em casa deles . se sentou num canto e disse . comple­ tamente esgotado . Insistiu sobretudo na comparação entre o sapato de homem. ao pai e aos empregados . que metera na cabeça que havia de completar a sua toilette para o casamento com um par de sapatos Cerullo .

E quando Rino lhe dis­ se: «Vendo-tos em prestações mensais» . a sua execução não seguira plano nenhum. Só Antonio lá apareceu . respondeu-lhe a rir: «Assim compro uma Lambretta . e caixas de sapatos empilhadas até ao tecto . não notou que o irmão . imaginando-se comigo no casamento . As caixas brancas empilhadas no interior da sapataria Cerullo continham um sortido razoável . Mesmo com as alterações introduzidas por Fernando . por sua ini­ ciativa própria foi falar com o dono da empoeirada sapataria ao fundo da rua larga e . experimentou-o . E isso era uma vantagem . ocupada com o casamento . «É como uma criança» . Depois contou­ -me o prazer que sentira ao sentir-se tão bem calçado . bastava olhar para eles para se ter uma impressão de riqueza. Fui até lá vê-los . Nascidos do desejo de Stefano de ver concretizada a pura veia artística de Lila. da paisagem desolada no exterior. até ali alegre e brincalhão . e Rino também se deu por vencido . disse ela a Pinuccia. Depois do Natal . propôs-lhe que expusesse alguns sapatos Cerullo . e no Inverno . à espera de clientes . com um acabamento refinado. Quando perguntou o preço e Rino lho disse . N a altura Lila. Era uma questão de esperar. embora exausto pelo trabalho . Mas Rino ficou cada vez mais agitado . embora soubesse que ele era unha com carne com os Solara. Mas não concretizou a compra. Pelo Natal os sapatos apareceram na montra.244 Elena Ferrante Stefano deu-se por vencido . a irritar-se por uma ninharia. não sentiu a falta de vendas dos sapatos pelo Natal como um fiasco .» Ela. bancos e sovelas e formas de madeira. que destoava da montra pobre . tal como Fernando . a dormir mal . «muda de humor se não lhe satisfizerem os caprichos imedia­ tamente . não pensados para a realidade do bairro . com o fato novo vestido e aqueles sapatos nos pés . ficou de boca aberta: «Estás doido?» . uma amálgama de peda­ ços de pele e de couro . uma montra com a es­ trela de Belém feita de algodão . Ao fim e ao cabo . na Primavera ou no Outono . havia uns mais pesados e outros mais leves . sem compro- . cobriam quase todas as estações do ano . os sapatos seriam vendidos . não sabe esperar. O facto é que pelo N atai não se vendeu um único par. como que a justificá-lo por certos impulsos . andava novamen­ te melancólico .» 56. pediu a Rino o número 44. do interior da sapataria. Eram objectos elegan­ tes . eram os sapatos dos nossos so­ nhos infantis .

Lila ia a correr provar o vestido de noiva. só por amor à tua irmã? Estão feitos . Porque é que tantas boas iniciativas tinham falhado? Porque é que a oficina Gorresio tivera de desistir dos motociclos? Porque é que a boutique da retroseira durara só seis meses? Porque eram empreendi­ mentos de pouco fôlego .A Amiga Genial 245 misso . na tua opinião eu investi tanto dinheiro na sapataria assim . Mas deixou pas­ sar. temos de os vender. nenhum afecto . O homem disse-lhe educadamen­ te que não . e talvez a acolhes­ se bem . a conversar com Stefano . Nunca mais manifestara qualquer interesse por ela.» Aquele «SÓ por amor à tua irmã» não lhe caiu bem. o charcuteiro ouvia-o sem dar si­ nais de irritação . Uma tarde gelada de Fevereiro perguntou-me sem mais nem menos se podia acompanhá-la a casa da professora Oliviero . tanto mais que em tempos recentes ela me parecera menos agressiva. Geralmente . que sossegou e começou a armar-se em estratega de vendas . não toleravam as intru­ sões de Nunzia. Como nunca antes lhe contara os tons hostis que a professora usara tantas vezes a respeito dela. As tensões cresceram ainda mais nas proximidades do dia 1 2 de Março . uma manifestação das forças destrutivas que a haviam atemorizado . Uma única vez Lila o ouviu dizer: «Desculpa. porque aquelas palavras acabaram por ter um efeito positivo em Rino . só para ver a saída que tinham. Quando saíam os quatro . Mas agora sentia a necessidade de lhe levar o convite pessoal­ mente . Os sapatos Cerullo . a fundo perdido . dava os últimos retoques à sua futura casa. nenhuma gra­ tidão . Dizia que era preciso fazer uma análise abran­ gente . Foram dois acontecimentos em particular. mais tendente para a melancolia. e Lila voltou a sentir que o irmão era um elemento de desordem. Ele levou a mal . Fernando enfureceu-se com o filho . . O problema é que é preciso encontrar o merca­ do adequado . são boni­ tos . em breve sairiam do mercado do bairro e se afirmariam em zonas mais ricas . Rino censurou-o . um atrás do outro . entre tantas coisas . Lila notava com apreensão que o irmão maquinava para ela e Pinuccia irem à frente e ele ficar cinco passos para trás . não achei oportuno falar-lhe nisso naquela ocasião . lutava com Pinuccia e Maria que . Rino . Entretanto a data do casamento aproximava-se . Mas não foi daí que vieram os choques capazes de abrir brechas . pelo contrário . que aquele produto não era adequado para a sua clientela. e dali resultou uma troca de palavrões de que se soube em todo o bairro . so­ bretudo com Pinuccia. que magoaram Lila profundamente .

gozava de um certo prestígio na família. que emigrara para Florença depois da guerra e montara um pequeno negócio de velharias de proveniência vária. o noivo mudou de ideias . falando com dificuldade . àquelas escadas .» Abriu a porta. depois toquei-lhe na mão . ouvi os passos arrastados da professora. Ela retraiu-se . O outro desgosto . a menos de uma semana do casamento . Depois . Esse familiar casara com uma florentina e adquirira o sotaque local . Vim trazer-lhe o convite . Fomos a pé até ao prédio onde morava a professora. como se tivesse comida na boca: «Quem é? Não a conheço . não se conseguia compreender quem ia substituir o casal florentino . a verdade veio à luz . Tinha sobre os ombros uma romeira roxa. Na rua falou sem parar de todas as maçadas burocrá­ ticas na câmara e na igreja. mas esta não sei quem é . que o padrinho fosse este ou aquele era-lhe completamente indiferente . e metade do rosto coberto por uma écharpe . Mas durante uns dias Stefano só lhe deu respostas vagas e confusas . motivo pelo qual já fora padrinho do crisma de Stefano . Por causa da sua pro­ núncia. Eu estava habituada àquele percurso . enfiou o convite por baixo da porta e desceu as escadas . sobretudo objectos de metal . Lila a princípio falou-me nisso como se fosse um sinal de nervosismo de última hora.» Lila ficou confusa e disse muito depressa. a dois passos da igreja paroquial . Porém .» Fechou-nos a porta na cara. veio surpreendentemente de Stefano e da história dos sapatos . Rodei o botão da campainha. Stefano comunicou- . vou casar. Ficámos uns instantes paradas no patamar. E ficaria muito feliz se viesse ao meu casamento . notei que ela estava muito ansiosa. Enquanto subimos a escada. o essencial era decidir-se . Para ela. e depois dirigiu-se a mim . talvez mais profundo .246 Elena Ferrante Lila vestiu-se com um cuidado extremo. não disse uma palavra. de um momento para o outro . mas ela não . e de como o meu pai fora prestável .» A professora disse . Lila sorriu e disse-lhe: «Professora. lembra-se de mim?» A professora Oliviero olhou para ela como fazia na escola quando Lila se portava mal . Havia algum tempo que decidira que o padrinho de casamento seria um familiar de Maria. dirigindo-se a mim: «A Cerullo conheço . para a confortar. «Quem é?» «Greco. em italiano: «Sou a Cerullo .

olhos semicerrados de rapace . pois para qualquer pessoa que quisesse ter um futuro no bairro era obrigatório ter como padrinho Silvio Solara. Passou-se um dia e uma noite . . Deixar de ter aqueles ares . ainda que muito distante . que agora era capaz de entrar em conflito com o Espírito Santo em público . que em tom agressivo e com o ar do homem de negócios que só pensa no lucro . de rabo-de-cavalo . para eu ir falar com ela e chamá-la à razão . era isso que eu real­ mente queria: trazer de volta a Lila pálida. Primeiro foi a mãe . sem dormir. que lhe disse que se deixasse de criancices . austero . o pai de Marcello e Stefano . num tom um tanto fingido . roupas coçadas . ela seria capaz disso . Lá no fundo . e todo o trabalho que fi­ zemos até agora?» Até Pinuccia apareceu . Estava em causa um casamento . Começou a procissão dos familiares . complexa. Nunzia permaneceu muda a um canto sem se mexer. que até àquele momento não admitira sequer a hipótese de al­ gum parente de Marcello Solara. Nunzia. palco de muitos afectos e interesses . se estivesse no lugar de Lila nunca teria coragem de mandar o casamento às urtigas . não mexeu uma palha que tivesse a ver com o casamento iminente . e que me daria muito prazer fazê-lo . Eu . lhe explicou como as coisas eram: O Solara pai era como um banco . estar presen­ te no seu casamento . mas era preciso raciocinar. voltou a ser. como coisa firme . O que fazer? Sentia que não seria preciso muito para reencaminhá-la naquela direcção . Depois veio cha­ mar-me às escondidas da filha. uma coisa prática. «0 que queres tu fazer?» . que lhe falou do bem da fanu1ia com consternação . sem justificação nenhuma. Lila. com os olhos esbugalhados e raiados de sangue . e. Depois foi Fernando . deixou de tratar fos­ se do que fosse. gritou-lhe . durante alguns dias . Mas ela sim. Senti-me lisonjeada. que o padrinho seria Silvio Solara. «queres arruinar-me a mim e a toda a família. a miúda que eu conhecia bem. e disse-lhe .A Amiga Genial 247 -lhe . que também lhe daria muito prazer que o padrinho fosse o comerciante de metais de Florença. não foi à última prova do vestido de noiva. Fechou-se na casa dos pais . Por fim foi Rino . de se comportar como uma Jacqueline Kennedy dos subúrbios . desafiando a auto­ ridade do professor de religião . sobretudo . era o canal para colocar nas sapatarias os modelos Cerullo . apesar de se estar a um passo da celebração . não se podia cancelar um casamento e extinguir um amor por uma questão de tão pouca importância. sem fazer nada em casa. Cobriu Stefano dos mais grosseiros insultos . pensei muito qual seria a minha posição . Assustei-me . disse que não o queria ver mais .

olhando-o nos olhos : «No meu casamento o Marcello Solara não pode . é errado confundir as coisas . não fez nada para tentar reconciliar-se . não é o Marcello e também não é o Michele. De qualquer maneira.» «Só quando não lhe ponho em risco o dinheiro verdadeiro» . não foi ele que disparou sobre nós na noite da passagem do ano . tu própria mo disseste noutras ocasiões . e pouco a pouco serenou . Falei do antes e do depois . o Silvio será o padrinho e dará uma ajuda ao Rino e ao Stefano para venderem os sapatos. Este último argumento fez mossa. de como ela e Stefano eram diferentes . não foi à casa nova. de maneira nenhu- ma. eu juro . voltei a ele com muita paixão . não terá qualquer peso na tua vida futura. que a aju­ dassem a serenar.» Só então deixou que ele se aproximasse pelas costas e lhe beijasse o pescoço . Não foi ele que puxou a Ada para dentro do carro . Voltei a embaralhar as cartas que já conhecíamos bem. gosto muito de ti . Esperou que fosse Stefano a dizer-lhe: «Obrigado . não foi ele que disse aquelas coisas horríveis a teu respeito. de modo que se me meteu na cabeça uma só ideia. não quis devolvê-la ao cinzen­ tismo da casa dos Cerullo . sabes que há coisas que somos forçados a fazer. para desgraça dela e de mim. pôr os pés . num tom de desprezo que nunca usara com Stefano Carracci . voltou à circulação . queria. sabe-lo melhor do que eu .» «Como é que não gosta de ti? Faz tudo aquilo que tu dizes. Não se deixou ver na char­ cutaria. de como nós éramos diferentes . e mais não fiz do que dizer-lha e voltar a dizer-lha com uma deli­ cadeza persuasora: o Silvio Solara.» Ele soprou e disse a rir: «Está bem . pareceu-me uma acção mesqui­ nha. e é tudo.248 Elena Ferrante Mas . mas tens de me jurar. Lila. seduziu-a. Lila. disse . e que por isso mesmo a assustava ainda mais do que as fúrias de Rino . Julgando contribuir para o seu bem. Mas li-lhe nos olhos que aquela atitude de Stefano lhe mostrara uma faceta dele que não conse­ guia ainda ver com clareza. evidentemente . não foi ele que se plantou à força em tua casa. Mas depois virou-se de chofre e disse-lhe . Ouviu-me em silêncio . Disse-me: «Se calhar não é verdade que gosta de mim .» .» «Como é que eu faço isso?» «Não sei . da velha geração e da nossa.

A Amiga Genial 249 57 . estou a pensar na professora. a penetrasse . continua a estudar. estava a tina de cobre cheia de água fumegante . e depois disse: «Aconteça o que acontecer. Depois . a pentear-se . sem a declarar precisamente com esse retraimento . Tu és a minha amiga genial . sem exprimir. ajuda-me . pego no diploma e acabou-se . tens de ser a melhor de todos. um dia ameno . que a ajudasse a lavar-se . tu . Porque é que ela não quis que eu entrasse?» «Porque ela é uma velha rabugenta.» Nunca a tinha visto nua.» Fiz um risinho nervoso . não pares . e por isso te obrigas a ficar. Mandou a mãe embora. O dia 1 2 de Março chegou . talvez. sem entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem te está per­ turbando . não se pode desviar a mão sem reconhecer a nos­ sa perturbação . já primaveril .» «Não . não . Sentou-se à beira da cama em cuecas e soutien . envergonhei-me . a violenta emoção que te domina. a pousar o olhar nas costas de ra- . no chão de ladrilhos he­ xagonais. senão atraso-me . ficámos sós . tirou as cuecas e o soutien .» «Para ti .» «Mais dois anos. Lila quis que eu fosse cedo para a sua velha casa. a vestir-se. de ser a testemu­ nha participante da sua beleza de rapariga de dezasseis anos . a deformasse .» Ficou calada um instante . engravidando-a. a olhar para a água que brilhava na tina. mas a certa altura acabou-se o estudo .» Pôs-se em pé . tens de continuar sempre a estudar. com essa rejeição . uma situação em que não se pode voltar os olhos para outro lado . e disse: «Vá lá. rapazes e raparigas . que parecia o corpo de uma morta. depois disse: «Obrigada. A seu lado tinha o vestido de noiva. poucas horas antes que Stefano lhe tocasse . Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária. em frente . Hoje posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar no seu corpo .» «Ainda estás a pensar na história do padrinho?» «Não . Perguntou-me à queima-roupa: «Achas que estou a cometer um erro?» «Em quê?» «Em casar-me . Eu dou-te o dinheiro .

rir. o vermelho da boca.eu . beijá-la. e ficou-me a impressão de que o cobre da tina era de uma consistência não diferente da carne de Lila. no quarto pobre e escuro . Lavei-a com gestos lentos e cuidadosos . levantando um pouco o vestido . que se ela os não calçasse sentiria uma espécie de traição . olha: os sonhos da mente acabaram debaixo dos pés . sobre um pavimento irregular manchado de água. «Mas sim.escolhera para ela. os olhos escuros e duros . «Não é verdade . como a rolha de cortiça empurrada pela palma da mão para dentro do gargalo de uma garrafa de vinho . cingida ao marido . pensei com um misto de orgulho e sofrimento . calma. enquanto o comboio estrepitava por baixo das jane­ las . Por último calçou os sapa­ tos que ela própria desenhara. fingir competên­ cias sexuais e instruí-la com voz douta. no sexo negro . que sentiria.250 Elena Ferrante paz . disse .» Riu-se com nervosismo . distanciá-la com as palavras . Pressionada por Rino . quando afinal tudo está a acontecer. exactamente a mesma coisa. Imaginei-a. Ajudei-a a enxugar-se . Lenu?» . inflamam-se-te as veias . em redor a mobília miserável . ali . a enfiar o vestido de noiva que eu . que era lisa. de manhã cedo . O tecido ganhou vida. «São feios» . sobre a sua candura correu o calor de Lila. a vestir-se . primeiro com ela acocorada no recipiente . e depois pedindo-lhe que se pusesse em pé . era encontrar um recanto bastante retirado para que Antonio me fizesse a mim. Olhou-se ao espelho . nos pés elegantes. e a carne violenta dele entrava nela com um golpe seco . só para que Stefano a sujasse durante a noite . nos joelhos macios . e fazes de conta que nada se passa. nas longas pernas . puxar-lhe os cabelos . Mas por fim ficou-me apenas o pensamento hostil de que a estava a lavar da cabeça às solas dos pés . E de repente pareceu-me que o único remédio para a dor que estava sentindo .» Voltou-se com uma expressão repentina de pavor: «0 que é que me está para acontecer. nas ancas estreitas e nas nádegas rijas . escolhera um par com o salto baixo . rija. e ainda tenho nos ouvidos o ruído da água a gotejar. nos seios com os mamilos inteiriçados . no leito da casa nova. e agita-se-te o coração . às mesmas horas . Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraçá­ -la. nos tornozelos sinuosos . justamente no momento de maior proximidade . chorar com ela. para evitar parecer muito mais alta do que Stefano . presente . nua como estava naquele momento .

À entra­ da da igreja. uma existên­ cia sem nada em comum com a minha. O mesmo se aplica aos meus pais. uma casa que ainda por cima lhe pertencia. todas . já prontos havia um bocado . televisão e telefone . Não fazia grande distinção entre eles e os avós matemos e paternos . en­ quanto escrevo . na qualidade de caixeira da charcutaria do noivo . delegando em Ada. sobre cujas idades posso ser mais pre­ cisa: o meu pai tinha trinta e nove anos e a minha mãe trinta e cinco . os meus . esplendorosa na nuvem de ofuscante alvura do vestido e do véu vaporoso . Antonio sentou-se devotadamente a meu lado durante o tempo todo . sobre­ tudo à minha mãe . Nunzia era uns anos mais nova. os familiares e amigos do noivo encontravam-se todos de um lado .. Na cozinha esperavam-nos impacientes . que as fornecera com abundância . Fernando e Nunzia. com um chapeuzinho azul e véu azul. Nunca os vira tão bem arranjados . do outro . com o fato novo feito pelo alfaiate . Só agora. ao passo que a minha amiga má conquistara um marido abastado . e até provavam. é que me apercebo pela primeira vez de que Fernando naquela época não devia ter mais do que quarenta e cinco anos . criaturas que aos meus olhos levavam . para fazer-me sentir que ali estava eu .bendito florista. a tarefa de se instalar ao fundo da igreja. enquanto o jovem ajudante filmava as fases mais importantes da cerimónia. embora o seu olho dançarino parecesse voltado para outro lado . faziam um bonito par. que não passavam de uma inútil perda de tempo . com flash e reflectores . na igreja. e ela toda de azul. Quando Lila. e foi juntar-se a Stefano . aspirava a um lugar melhor. com banhei­ ra. pelo ímpeto dos pensamentos . com a de Lila. frigorífico . no altar coberto de flores . e os dois. olhou para mim . ele de camisa branca e fato escuro . uma espécie de vida fria. Olhei muito para eles . todos os pais me pareciam velhos . de certeza. com o rosto de Randolph Scott. uma actividade económica para a fatn1lia. de Stefano . a caixa-de-óculos . Naquele tempo os pais dela. aborrecida por­ que . avançou pela igreja do Sagrado Coração pelo braço do sapateiro . A cerimónia foi longa.A Amiga Genial 25 1 58 . de Antonio . que estava muito bonito . O fotógrafo tirou fotografias durante o tempo todo . As pessoas realmente consumidas pelo calor dos sentimentos . éramos nós . a minha mãe . de Pasquale . longe do centro das atenções . e os familiares e amigos da noiva. naquela manhã . Senti com enfado que naquele dia os meus êxitos escolares não os consolavam nada. o pároco fê-la durar uma eternidade . ao lado de Me- .

um odor a roupas novas . Que pompa ! Era evidente que todos os que receberam convite não quiseram faltar. também ele impecável com o seu fato novo . para evitar os mexericos . sentado a meu lado . Quanto a Rino . fora instalar-se ao pé de Pinuccia. pelo contrário . no altar.a começar talvez por Antonio . Lila mostrava-se extremamente concentrada. grandes entradas . Morto dom Achille . Sentia­ -se um perfume intenso de flores . de costas . e Carmela Peluso também. Lila espalhava em redor uma energia que ninguém podia ignorar. E os rapazes não lhes ficavam atrás . o casamento de Lila era um negócio . como sentinelas do bom êxito da ce­ rimónia. vestida de cor-de-rosa. sem mostrar nenhuma intimidade espe­ cial . em que ela anotava quantias e prazos) . Olhei para a mulher. Corri os olhos pela igreja apinhada. fornecera também o bolo e as lembranças do casamento . ele parecia um homenzinho apagado . pareciam querer demonstrar que ali . as pessoas estavam aborrecidas e. ao lado de Lila. Lila era mais alta. teriam feito melhor figura do que Stefano . quebrando a ordem dos alinhamentos familiares .tiveram de pedir dinheiro emprestado . olhos azuis . enquanto o pedreiro e o vendedor de fruta e hortaliça se encontravam ao fundo da igreja. Devia limitar-se a estar ao meu lado . entre outras coisas . aliás . ele . Famoso e temido era o livro de registo de capa vermelha. mas não lhe respondi . facto que . de nariz comprido e lábios finos . que . vestidos com todo o luxo . em pé ao lado do noivo . aquele homem de tez arro­ xeada. com muito oiro a cintilar nos pulsos . o irmão da noiva. por aquilo que eu sabia. corpu­ lento . Uma vez ou duas sussurrou-me qualquer coisa ao ouvido . comparecendo . Gigliola estava bonita. Com efeito . co­ berta de jóias . Nem se virou sequer para Stefano . que luziam tanto como o cabelo cheio de brilhantina. como se fizesse questão de compreender perfeitamente o que significava aquele ritual . Achei que vistos as­ sim. Reparei que Lila nunca olhou para eles . e sobretudo Pasquale . melhor dizendo . significava que não poucos . de fato escuro . e aquela mulher magra. Enzo . não só para o fotógrafo . não só para o florista. Manuela. o seu olhar esteve sempre fixo no padre . Nessa altura olhei para Silvio Solara. tal como eu .252 Elena Ferrante lina. sapatos Cerullo nos pés . olhavam em volta. ele mais baixo . assim como os outros irmãos . não eram um casal bonito . ele . Era dali que vinha o dinhei­ ro para aquela pompa. estacionada ao lado da noiva. por aquilo que todos sabiam. é que emprestavam dinheiro a todo o bairro (ou . de vez em quando vira- . e de a vigiar. mas sobre­ tudo para aquele casal . era Manuela que geria os lados práticos dessa ac­ tividade . na zona dos familiares do noivo .

veio na minha direcção . ou coçava le­ vemente a cabeça. nem sequer do mesmo sangue . o caos dos automóveis e os nervosismo dos familiares que tinham de ficar à espera.A Amiga Genial 253 va-se para a mãe . e eu tive de me convencer de que Lila já estava casada. Lila e Stefano pararam no adro . A certa altura senti-me ansiosa. Marisa Sar­ ratore . e trocaram alianças . a relação crescera. E depois aconteceu que . atrelara-se a ele . procurei-o com os olhos entre os parentes do noivo e da noiva. de mãos nos bolsos . Alfonso estava muito bem vestido . quase escondido por uma coluna. as senhoras com chapéus extravagantes? . Pensei: e se Stefano realmente não fosse aquilo que parece? Mas abandonei esse pensamen­ to por dois motivos . beijaram-se . deviam andar a encontrar-se sem eu ter dado por nada. pois até a convidara para o casamento do irmão . Em primeiro lugar. sem a bata da charcutaria. achei-o parecido com um bailarino es­ panhol que vira na televisão . E ela. Localizei-o ao fundo da igreja. ou trocava risinhos com Silvio Solara.mas mais importantes . lábios carnudos . Acenei-lhe . excepto Alfonso . para obter a autorização dos pais . Lem­ brei-me de ter visto toda a gente . . mais ricamente vestidos . como . despenteado .. sem sinal de barba por enquanto . pelos vistos . Marisa. ambos os noivos disseram o sim de modo límpido e claro . que saíram da igreja acompanhados pelos sons vibrantes do órgão e pelo flash do fotógrafo . também fisicamente diferente do irmão Stefano . a ele que era tão tímido . entre beijos e abraços . 59 . desviei a atenção dos noivos . de repente . Alfon­ so . Mas as coisas estavam clara­ mente a correr bem. Nino . mais amados . esplendorosa. Nunca o vira de fato escuro . deixara-se levar pela cabeleira enca­ racolada de Marisa e pela sua tagarelice incessante . ele ter-me-ia dito . Estava mais alto . não só me pareceu alto para os seus dezasseis anos. com o casaco e as calças coçados que levava para a escola. gravata. Sem as modestas roupas da escola. E logo a seguir. ele respondeu . apesar de me ser tão dedicado . de repente . mais esguio e bonito . que o dispensava. olhos grandes . entre a comoção geral . enquanto outros . ca­ misa branca. Seguiu-se um confuso aglomerado em tomo dos noivos. magro . de preencher os vazios das conversas? Eram namorados? Duvidava. entravam de imediato nos carros e eram levados à Via Orazio . Mas atrás dele apareceu . ao restaurante . arrastara Nino consigo .

De momento . Nino depois foi atrás da irmã e de Alfonso . Mas foi uma preocupação infundada. para um automóvel que logo se afastou . nem Enzo . e já nos íamos embora e eu não sabia dizer senão: «Onde estão os meus pais? Esperemos que alguém lhes dê atenção .254 Elena Ferrante Portanto ali estava ele . Essa presença inesperada contribuiu muito para a desordem emotiva daquele dia. comple­ tamente deslocado . Fiquei nervosa. acabei por me en­ contrar na companhia de Ada. e . receando que a mãe de Antonio reconhecesse Nino . Na verdade ninguém reconheceu Nino . que lhe lesse no rosto algum traço de Donato . um sussurro apenas . de olhos nos noivos como toda a gente . as mãos demasiado mer­ gulhadas nos bolsos das calças . fiquei ansiosa. a mãe de Lila. embora me libertasse imediatamente . no meio do burburinho . e ela queria casar-se também. casava-me já amanhã. alto de mais . e mal tive tempo de lançar um olhar a Nino . embora ela conservasse traços da menina que fora. se dependesse de mim. Cumprimentámo­ -nos na igreja. levou-a consigo . Pasquale . eu fui agarrada firmemente por um braço .» Enzo respondeu que os vira num carro qualquer. enquanto os noivos se metiam num grande au­ tomóvel branco juntamente com o fotógrafo e o ajudante. olá. Antonio. arrancámos . olá. para irem tirar fotografias ao Parco della Rimembranza. mas sem interesse nenhum. e juntaram-se-nos Carmela e Enzo . nem Carmela. sus- surrou-me ao ouvido: «Ü que foi?» «Nada. nem repararam em Marisa.» «Então e tu . com as suas roupas coçadas . ainda parado no adro com uma expressão desorientada. não querias casar também?» . junto de Alfonso e Marisa que falavam um com o outro . sensível às minhas mudanças de humor. o jovem Sarratore . Enzo . juntamente com Ada e os filhos mais pequenos. perguntou Enzo . nem sequer Gigliola. cabelo comprido de mais e despenteado . pela mão de Antonio . Agora. portanto não havia mais nada a fazer. Melina. E entretanto Antonio empurrava-me na direcção do automóvel velho de Pasquale . magro de mais . com o ar de quem não sabe onde se há-de meter. só para pousá-los em qualquer coisa. no adro da igreja. muito esmorecida. Nunzia. os dois Sarratore passaram completamente despercebidos.» «Alguma coisa te aborreceu?» «Não . e perdi-o de vista. Carmela.» Carmela riu-se: «Aborreceu-a a Lina ter-se casado .» . «Eu .

Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel . de certo modo autodegradar-me . já não pertencia àquele mundo .» «Caluda>> . Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente . guinava bruscamente e ultrapas­ sava-os . estava o meu namora­ do . que o faziam rir e o estimulavam a fazer ainda pior. pelo contrário . a sua linguagem violenta era a minha. porque não me detivera para dizer a Nino: fica. para os intimidar. «que a ti ninguém te quer. disse Pasquale . e que eu . Pasquale conduzia com garra. dos tons de voz violentos de Carrne la e de Enzo . fazendo um grande estrépito e ignorando os sola­ vancos devidos às estradas em mau estado . travava poucos centímetros antes de lhes bater. vamos falar os dois . diz-me quando sai a revista com o meu artigo . gritavam insultos . Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias . tinha de conter-me . Lançava-se . como se quisesse abalroá-los . da sua vulgaridade . Mas essa festa. An­ tonio afinara-lhe o carro tão bem. qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se . que a minha própria estranheza tomava infe­ liz . também . com quem partilha­ va a origem e a fuga? E.A Amiga Genial 255 «E com quem?» «Eu bem sei com quem. confirmava que Lila. a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes . Nós .» Descemos em direcção à Marina. achava os seus comportamentos nor­ mais . vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale . Antonio e Enzo nem pestanejavam. baixavam o vidro e . sobretudo . Aqui­ lo que eu era na escola. que ele tratava-o como um carro de corrida. Estavam ali os meus amigos . ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis . íamos para a festa do casamento de Lila. Então porque não estava na companhia de Alfonso . precisamen­ te . e . Crescera com aqueles rapazes . ou fazíamos re­ comendações indignadas . soltávamos gritos de terror.de Antonio? . no máximo faziam co­ mentários pesados acerca dos automobilistas vagarosos . e também . Aproximava-se a grande velocidade dos carros dianteiros . enquanto Pasquale os ultrapassava. é certo . as raparigas . vem ao copo-d' água. ou a usá-lo à traição . enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente . Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha. faltando ela.sim.

Silvio e Manuela Solara estavam já instala­ dos a uma mesa.» «Vem. os meus pais. veio dizer-me ao ouvido: «Vem. Enzo e Anto­ nio finalmente sentaram-se com o grupo de Gigliola. Pasquale . A banda ocupava o seu lugar. na casa dos quarenta. mã' . Ela sibilou: «Porque é que o filho da Melina anda sempre de roda de ti?» «Ninguém anda de roda de mim. Os pais de Lila encontravam-se também sentados a uma mesa comprida com outros familiares . Tentei de novo levantar-me e a minha mãe sibilou: «Tens de estar ao pé de mim.» «Não . de feições delicadas . levantando os olhos para o tecto . que estava impaciente e acolheu Antonio com ges­ tos de raiva. a sala encheu-se . e eu fazia-lhe sinal . Ada. embaraçados . todos amigos de Stefano . Não sabíamos onde sentar-nos. os músicos iam experimen­ tando os instrumentos e o vocalista o microfone . era preciso esperar pelos noivos . e Ada. que me chamou para junto dela.» Tentei levantar-me . Não te mandamos estudar para tu te deixares estra­ gar por um operário que é filho de uma maluca. de que estava prisioneira. mas . A minha mãe chamou-me . que de vez em quando olhava para mim. juntamente com o comerciante de metais .256 Elena Ferrante 60 . evidentemente . Voltou a chamar­ -me . Recusei-me . que conse­ guira livrar-se da mãe . esforçan­ do-se para me distrair. Ada fez uma cara de contrariada e foi sentar-se ao lado do irmão . O vocalista. Carmela. Ninguém escondia a fome . ela estava furiosa. Então levantou-se e veio ter comigo com o seu passo claudicante .» . fiz de conta que não ouvi . Andámos às voltas . A minha mãe impediu-me .» «Vem sentar-te ao pé de mim. Com eles vi Gigliola. Queria que me fosse sentar ao lado dela. Começaram a chegar outros jovens . mas a minha mãe agarrou-me um braço com raiva. a sua con­ sorte florentina e a mãe de Stefano . Melina. nada. Antonio estava colado a mim. já te disse . A banda começou a tocar. confiando-a a Nunzia. quase calvo .» «Julgas que eu sou estúpida?» «Não . O meu mau humor cresceu . Chegaram mais convidados . e eu .» Obedeci-lhe . Fomos os primeiros jovens a entrar na sala da festa de casamento . cantarolou qualquer coisa para experimen­ tar. nenhum de nós se atrevia a perguntar aos criados de mesa.

tudo perigos que naquele mo­ mento . A banda começou imediatamente a tocar a marcha nupcial . felicitada por todo o bairro . aos olhos dela. quando se apresentava em nossa casa para lhe impor o que era para meu bem . Lila permanecera ali . Mas eu . nem sequer Lila. mas eu ti­ nha de ignorá-la. Ali estava Lila. deitou-me um olhar convidativo . quem é que seria indicado para mim senão Antonio? Entretanto chegaram os noivos . não posso continuar a ser condescendente . que iam ocupar . o jogo dos sa­ patos para Rino e para o pai . vi-o e pus-me em pé de um salto . recordar­ -me de que ia sair um artigo com a minha assinatura. recordar-me de que enfrentara o professor de religião . como sabia fazer a profes­ sora Oliviero . cortês . conseguiu fugir. tornar-me completamente idêntica a ela. eram representados por Antonio . Enganei-me . pensei : do mundo da minha mãe . animou-se . entre aplausos entusiásticos . parecia feliz . precisos nos movimentos . que o meu lugar não era junto deles . Tenho de con­ cluir.A Amiga Genial 257 Ao pé dela . Nesse momento entrou Nino Sarratore . obrigava-me a estar ao pé dela para me proteger sabe-se lá de que mar tempestuoso . Vi-o antes de ver Alfonso e Marisa. a estranheza que continuava a cres­ cer-me cá dentro . Tenho de apagá-la. aquela festa. para esca­ par à minha mãe. recordar-me de que era a melhor em italiano . E se me tornasse idêntica a ela. Os noivos foram obrigados a dançar no meio dos flashes do fotó­ grafo . Mas eu tenho de ser capaz . Desde pequena que tinha os olhos nela. sabe-se lá de que abismo ou precipício . considerava-me melhor do que os jovens com quem eu crescera. Não queria que eu estudasse . elegante . E o melhor era aquele rapaz . claramente vincu­ lada àquele mundo . Estava lin­ da. Estava a prender-me por um braço . Pensei em como era contraditória sem se aperceber disso . Porém. num movimento contrário ao de Lila e Stefano . Nada que tivesse a ver com o meu percur­ so de rapariga estudiosa. Mas estar ao pé dela significava estar no seu mundo . na sua evolução . como aliás eu própria acaba­ ra de concluir. apesar de tudo . Antonio . Sorria. na mesma revis­ ta em que escrevia um rapaz bonito e inteligente do terceiro ano do liceu . e concluía. Senti-me completamente só . de mãos dadas com o marido . com as suas raivas . Voltearam pela sala . mas eu puxei pelo vestido . Liguei indissoluvel­ mente à minha mãe . latim e grego . ao seu corpo . aquele casamento . do qual ela imaginava ter colhido o melhor. mas como agora estudava. que não tirava os olhos de mim. A minha mãe tentou segurar­ -me pela orla do vestido . com aqueles gestos autoritários .

pedi-lhe que me falasse do seu artigo acer­ ca da miséria em Nápoles . mas apresentando factos concretos . enquanto a outros ainda não fora servido o ante­ pasto . de forma distanciada. Senti como detes­ tava aquelas querelas . Alguns já iam no primeiro prato . Os convidados mais rancorosos tinham começado a notar as coisas que não estavam correc­ tas .258 Elena Ferrante os seus lugares ao centro da mesa. só lia ro­ mances . O vinho não era da mesma qualidade em todas as mesas . Marisa e Nino . como fazia Pasquale . os livros que tratam desses problemas . Falei de modo genérico com Alfonso e Marisa. para Alfonso . nunca lera mais do que os velhos romances esfrangalhados da biblioteca. muito intimidado . com natu­ ralidade . Em Ischia ainda tinha as feições do rapazinho atormentado . Como era possível que um rapaz de dezoito anos falasse da miséria. a minha mãe percebeu tudo . no tempo em que lia. E regressou à sua mesa. esperava que Nino se decidisse a dirigir-me a palavra. o seu crescente tom conflituoso . inclinou-se e disse-me ao ouvido: «Guardei um lugar para ti . A própria Lila. Impressionou-me a sua se­ gurança. notícias sobre o próximo número da revista e sobre a minha meia página.» «0 quê?» «Os jornais .» Olhou em volta hesitante .» Sussurrei: «Vai-te embora. Ele deu início a uma conversa muito interessante e muito informativa a respeito do estado da cidade . Ouviu-se um ruído de descontentamento na sala. entre o casal Solara e o casal de Flo­ rença. Ganhei ânimo e puxei Nino para a conversa. Entretanto Anto­ nio aproximou-se por trás de mim . Eu estava atrasada em tudo . 61 .» Eu nunca tinha sequer folheado um jornal ou uma revista. dirigi-me para a entrada. agora achei-o muito mais maduro . Arranjámos lugar. contando pedir-lhe logo a seguir. não no aspecto genérico e num tom consternado . citando dados precisos? «Onde aprendeste essas coisas?» «Basta ler. Nino podia ajudar-me a recuperar terreno . . as revistas . Havia quem dissesse em voz alta que onde estavam sentados os familiares e amigos do noivo o serviço era melhor do que nas mesas em que se encontravam os familiares e amigos da noiva.

Eu ia sempre acenando que sim. Às vezes olhava para a mesa de Lila: ria. Do que precisamos é de pessoas que saibam como funcio­ nam os moinhos e que os ponham a funcionar.servia-se da palavra «literatura» para criticar quem ar­ ruinava a cabeça das pessoas com aquilo a que ele chamava conversa inútil . Compunha discursos com a expressão do estudioso . cheios de exemplos concretos.» Daí a pouco já desejava poder conversar todos os dias com um rapaz daquele nível . para superar o clamor da sala. declarava-me de acordo com tudo . nem o que comíamos e bebíamos . a música. aqueles que vendem fumo . então aí a conversa é outra. com o romance em que me sentia imersa. que estupidez tinha sido querê-lo . repetiu duas ou três vezes. é só coragem desperdiçada. com todo o respeito por Dom Quixote . ele respondia. De vez em quando levantava a voz . Por outro lado . Mas tam­ bém culpa minha: eu . e ele fazia o mesmo .» Na realidade . res­ pondia. Lenu . e ouvia muito aten­ ta as suas respostas caudalosas . Quantos erros cometera com ele. Culpa do pai . sem ironia. muito irri­ tado com os seus inimigos . Marisa disse: «Chiça. raramente . terei muito gosto em lê-los. Falava sem parar. amá-lo . Eu esforçava-me para arranjar perguntas para lhe fazer. «Se querem ser vendedores de fumo» . não sabíamos o que nos serviam nos pratos . Mas depressa me apercebi de que o fio dos seus discursos era constituído por uma única ideia fixa.foi o que me pare­ ceu perceber . duro . Alfonso e Marisa depressa se sentiram isolados . ou seja. A um meu protesto passageiro .eu . Não ouvimos mais nada do que se passava à nossa volta. sem floreados . não tinha a mesma capacidade de tomar tudo sedutor. de sugerir soluções praticáveis e de intervir. fazem um Dom Qui­ xote.per­ mitira que o pai lançasse a sua abjecta sombra sobre o filho? Arrependi­ -me . que animava cada frase: a rejeição de palavras pouco claras .A Amiga Genial 259 Comecei a fazer-lhe mais e mais perguntas . da pessoa com quem estava a falar. Só as­ sumi um ar de perplexidade quando ele disse mal da literatura. e no entanto evitá-lo sempre . que tanta raiva tinha à minha mãe . que chato que o meu irmão é» . e cada pergunta minha era um pequeno impulso que provocava uma avalanche . comia. e começaram a conversar os dois . «escre­ vam romances . cortante . Sim. respondeu assim: «Demasiados maus romances de cavalaria. mas não dava respostas brilhantes como Lila. falava. deleitei-me com o meu arrependimento . mas se é preciso alterar as coisas . Nino e eu também ficámos isolados . por exemplo . nós aqui em Nápoles não temos necessidade de lutar contra moinhos de vento . a necessidade de detectar problemas com clareza. mas . nem se apercebera de onde me encon­ trava.

quase como Lila em tempos o fazia.» Reinava uma grande algazarra e uma alegria embriagada. sussurrei . Ouvi-lo estimulava-me a mente . quando regressasse vestida com o traje de viagem. quando já se tivesse ido embora. Continham a raiva por amor de Lila. mas no fim da festa. com vi­ nho de má qualidade e atrasos intoleráveis no serviço? Porque é que Lila não intervinha. «Não me apertes. quando já tivesse distribuído as lembranças . somos demasiado diferentes . Senti tocarem-me no ombro . Mas eu sentia o que havia realmente por trás da aparência festiva. que olhavam de maneira incorrecta para as suas namoradas . filhos . receava que me fizesse sinal para ir para junto dele . então rebenta­ ria uma rixa monumental . as ideias com base nas quais o construiria. Via como Enzo e Carmela falavam enquanto dançavam e via também . todos eles com a obrigação de mostrar às mães e às irmãs e às avós que sa­ biam ser homens . toda elegante . endividaram-se . Eu conhecia-os . libertar-me-ia da minha mãe .» «Não te estou a apertar. ou se lhes dirigiam com expressões alusivas . Disse .260 Elena Ferrante olhava para a mesa de Antonio . quando ela fosse mudar de roupa. que daria origem a ódios que durariam meses e anos . em voz alta: «Estão todos a dançar. voltou-se para Alfonso . Estava encantada com a maneira como Nino falava comigo . Dançavam os jovens . Fui dançar. É certo que me adorava. Paciência. principalmente das mulheres . As caras torcidas dos familiares da noiva. ele sabia que Antonio era o meu namorado . que se dedicava totalmente a mim . ao lado do marido . de qualquer modo já decidi . amanhã deixo-o. os adultos e as crianças . e agora eram tratados como pedintes . Olhou para mim sério .» «A minha mãe não quer» . ele que tudo o que queria era libertar-se do pai . e a despiques e ofensas que envolveriam maridos . era de novo Antonio . não posso continuar com ele . a ficar furioso . Mas sentia que tinha os olhos em cima de mim e que estava nervoso . sim. Retorquiu nervoso . sem qualquer subserviência. A sua dedicação por mim fazia-me crescer. Ele . triste: «Vamos dançar. pensei . Haviam-se sacrificado para comprar a prenda e a roupa que traziam vestida. qual é o problema?» Fiz um sorriso embaraçado a Nino . mas como u m cachorrinho . Via os olhares ferozes que os rapazes dirigiam ao vocalista e aos músicos . porque é que não protestava com Stefano? Eu co­ nhecia-os . Expunha-me o seu futuro . revelavam um descontentamento belico­ so .

Estava a defendê-la perante Alfonso . e depois pões ­ -te a conversar durante horas com o filho? Mandei fazer o fato novo para estar a ver como tu te divertes com aquele . estreitavam-se com força. Eu era como eles? Ainda era? «Quem é aquele?» . Era evidente que antes da festa termi­ nar começariam a andar juntos . Atravessei a sala enquanto a orquestra continuava a tocar e os pares continuavam a dançar. mas como professora era extraordinária. Fiquei sem saber o que fazer durante alguns segundos . da professora Galiani . para o ameaçar. e aquele olhar era feio . Tentei inserir-me na conversa. perguntou Antonio . dentro de um ano no máxi­ mo teriam uma festa de casamento não menos faustosa do que aquela. embora o seu olho estrábico parecesse olhar noutra direc­ ção . casariam. Disse .. sempre o encorajara. Se a fábrica de sapatos Cerullo se concretizasse a sério . e não for ter com Antonio ao ter­ raço . dentro de dez anos .era demasiado rígida . e depois ficavam noivos . Ir ter com Antonio . E aquela é a Marisa. sim. não queria que ele começasse a discutir com o meu companheiro de turma como até instantes antes discutira comigo .» «É o Nino . Tinha necessidade . mas com Nino . Amor e interesse . ner­ voso: «E tu primeiro levas-me ao Sarratore . e para mim é melhor assim. Agora estava a falar. Via Rino e Pinuccia. da sua forma torrencial . que nem sequer cortou o cabelo e nem pôs uma gravata?» Largou-me no meio da sala e dirigiu-se em passo rápido para a porta de vidros que dava para o terraço . olhavam-se nos olhos. Tinha os olhos do meu pai em cima de mim. Tinha os olhos da minha mãe em cima de mim. transmitira-lhe a capacidade de estudar. Nino pareceu não ter feito o mínimo caso daquilo que se passou . Dançavam. e com toda a probabilidade dentro de um ano . Dizia ele que também acabava por discordar dela muitas vezes . Voltar para junto de Nino . o filho mais velho do Sarratore . Sentia urgência em deixar-me agarrar de novo por Nino .A Amiga Genial 26 1 Pasquale e Ada sentados à mesa.para . lem ­ bras-te dela?» Não se importou nada com Marisa. Pensei : se voltar para junto de Nino . Charcutaria mais sapatos. que eu bem sabia como a detesta­ va. Sentei-me no meu lugar. «Quem achas que é? Não o reconheces?» «Não . Prédios velhos mais prédios novos . será ele a deixar-me . No caso deles tudo aconteceria mais depressa .

ligeiramente apreensivo: «Saiu há duas semanas . Eu estava diante de Nino Sarratore .» Tive um sobressalto de alegria e perguntei-lhe: «Onde a encontro?» «Vendem-na na livraria Guida. de costas . posso arranjar- -ta eu . sem nexo nenhum: «Quando sai a revista?» Olhou-me com um ar duvidoso .262 Elena Ferrante não ir a correr fazer as pazes com Antonio e dizer-lhe entre lágrimas: sim. comprimia no peito a dor que eu lhe causara e olhava para o mar. para dentro das suas capacidades . que me reconhecesse como sua semelhante . há-de haver outra oportunidade». a rainha da festa . enumerei os livros que a professora me emprestara desde o início do ano e os conselhos que me dera. e esforçava-me para sorrir. Mas eu tinha uma necessidade crescente de recompensas que me distraíssem de Antonio . e Stefano falava-lhe ao ouvido e ela sorria. perdoa-me . mas a culpa não é minha. o vocalista cantava. sinto-me metade e meta­ de . que falava com ele olhando-o nos olhos .. De qualquer maneira. Antonio . concluíram que não havia espaço . Pasquale .de que Nino me puxasse de modo exclusivo para dentro das coisas que ele sabia. Alfon­ so e Marisa. Enzo talvez estivesse murmuran­ do a Carmela que gostava dela.» 62 . e começou a falar sobre ele .» Alfonso fez imediatamente um sorriso de alívio . e murmurou: «Ainda bem.era a noiva.» «Obrigada. Rino de certeza que já assim fizera com Pinuccia. uso-te e depois deito-te fora. tempos antes . não sei o que sou nem o que realmente quero. Tínhamos dezasseis anos . e recordou-se de que a professora. muito pro- . lhe emprestara também um desses textos .» Hesitou e depois disse: «Mas o teu texto não saiu . dizia com fingida indiferença: «Está bem. tens razão . Por isso quase lhe tirei as pala­ vras da boca e. Fez que sim com a cabeça. A banda tocava. Lila encontrava-se na outra extremidade da sala . um pouco amuado . enquanto ele se esforçava para retomar o discurso inter­ rompido. O longo e cansativo almoço de casamento estava a terminar. e perguntei-lhe .

que a canseira de estudar me elevava. de lhe arrancar da boca as palavras necessárias . que a professora Oliviero tivera razão em impulsionar-me para a frente e em abandonar Lila. aqueles brindes cada vez mais ordinários . mas Ada arranjaria maneira. de boca es­ cancarada. Combinou com Marisa regressarem a casa juntos e Alfonso prometeu acompanhá-la. o sinal de que eu tinha realmente um desti­ no . anos antes . que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai . até arranjei forças para dizer: «Aliás .» «Exactamente» . discutir segunda vez seria inútil . Concluí que considerara a publicação daquelas poucas linhas . a algum lugar. Podia fazê-lo .A Amiga Genial 263 vavelmente . continuei a sorrir. que estava sério . «Sabes o que é a plebe?» «Sim. uma queda de tensão dolorosa. hesitante: «Não queres cumprimentar a noiva?» Fez um gesto largo . A plebe era a minha mãe . vagueava pela sala assustado . Provavelmente nauseado pelo espectáculo em cena. era . ela mo perguntara. Mas nada atenuava a desilusão . até Lila. até ao lu­ gar estabelecido . balbuciou qualquer coisa a respeito do vestuário e . e ria-se . das alusões sexuais do comerciante de metais . Mas não disse nada. aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor. aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás . e não conse­ guia. sem se deixar contaminar. disse Alfonso . Engoli as lágrimas . e a minha assinatura impressa. O chão estava salpicado de molho que esguichara de um prato que uma criança deixou cair. Pensei: talvez publiquem o meu texto no próximo número. e nessa arte destacava-se o negociante de metais . com o ar de quem tem um papel a desempenhar e o leva até ao extremo . A plebe era aquela luta por comida e vinho . A plebe éramos nós . sem um aperto de mão sequer. antes da festa terminar. Nino levantou-se e disse que se ia embora. Havia algum tempo que se repetiam os brindes com alusões obscenas . talvez Nino não tenha insis­ tido o suficiente . professora. dirigiu-se para a porta com o seu andar bamboleante .» Na­ quele momento eu soube o que era a plebe . talvez seja melhor eu mesma tratar disso . Ela pareceu muito orgulhosa de ter um cavaliere tão educado . um aceno qualquer a mim ou a Alfon­ so . já discuti uma vez com o padre . Perguntei a Nino . sem dúvida. à hora combinada. de vinho derramado pelo avô de Stefano . Riam-se to­ dos . Sabia entrar e sair do bairro como queria. Lutava para me libertar de uma espé­ cie de turvação na cabeça. com muito mais precisão do que quando .

pareceu-me ter desa­ parecido a única pessoa em toda a sala que tinha a energia para me levar dali para fora. o texto que era meu e de Lila. O vocalista começou a cantar Lazzarella . cheirara o meu texto . Tinha o rosto . mas aquilo era apenas escola. Manuela olhou-os com orgulho de mãe . e não o impri­ mira. não era aquele com a fivela dourada. O imprevisível só nessa altura se revelou . Duvidei que eu fosse capaz de fazê-lo .264 Elena Ferrante capaz de fazê-lo . apenas para o bolo de noiva e para as lembranças do casamento . Silvio fez um ligeiro gesto de cabeça aos filhos . nem tão-pouco bater de portas . Quando ele desapareceu . imitando sofrivelmente Aurelio Fierro . na altura da tu­ multuosa mudança que quase lhe custara a vida. Lila. Simplesmente aconteceu aquilo que era previsível que acon­ tecesse . a revista. o andar de alguém que faria sempre melhor. os gestos . mais branca do que o vestido de noiva. e os olhos tiveram aquela repentina contracção que os transformava em duas fendas . arruinando as mãos . com o vinho a esguichar por todo o lado . fazendo e desfazendo durante me­ ses . os bonitos e elegantes irmãos Solara. Gigliola lançou os braços ao pescoço de Michele e levou-o a sentar-se a seu lado . cruzou as pernas . Circularam pela sala. Rino convidou Marcello a sentar-se . Tinha uma garrafa de vinho na frente . Marcello tinha calçados os sapatos comprados tempos antes por Stefano . seu marido . Eram sapatos Cerullo para homem. não houve vento . e temi que o seu olhar a trespassasse com uma violência tal que a fizesse em mil estilha­ ços . podia tudo . com um sorriso amigável . talvez tivesse aprendido anos antes . desapertou a gravata. Depois tive a impressão de a porta do restaurante se ter fechado com uma rajada de vento . Não o modelo que estava à ven­ da. por sua vez . Vi Lila perder a cor. tomar­ -se pálida como era em miúda. puxou o marido energicamente pelo braço e disse-lhe qualquer coisa ao ouvi­ do . . Marcello sentou-se . Apareceram. Estudar não chegava. Era o par que ela executara juntamente com Rino . Nino sim. olhava para os sapatos de Mar­ cello Solara. com um rubor repentino na garganta e em tomo dos olhos . Olhava para mais longe . cumprimentando este e aquele com o seu ar de patrões . Podia ter dez nos trabalhos . Mas ela não estava a olhar para a garrafa. Na verdade .

Índice .

Apagar o rasto 11 Infância .Índice das Personagens 9 Prólogo . História dos sapatos 67 . História de dom Achille 17 Adolescência .

ÜBRAS DA AUTORA NESTA EDITORA Crónicas do Mal de Amor .

Cormac McCarthy: A Travessia 1 9 1 . Namoro. Junot Díaz: É assim Que A Perdes 1 96 . Vladimir Nabokov: Pnin 209 . M . Amizade. Saul Bellow : Henderson . Margaret Atwood: Ressurgir 2 1 9 . o Rei da Chuva 227 .Chamas 2 1 5 . A . Alice Munro : Amada Vida 205 . Clarice Lispector: Laços de Família 1 97 . Kate Atkinson : Vida Após Vida 2 1 1 . Isaac B ábel : Contos e Diários 2 1 6 . Katherine Anne Porter: A Torre Inclinada e Outros Contos 220 . Luigi Pirandello: O Falecido Mattia Pascal 200 . Cormac McCarthy: Filho de Deus . Dalton Trevisan : A Polaquinha 1 94 . Alice Munro : Vidas de Raparigas e Mulheres 2 1 4 . Jhumpa Lahiri: A Planície 2 1 3 . Elena Ferrante: Crónicas do Mal de Amor 2 1 8 . Irene Némirovsky : O Vinho da Solidão 1 98 . Alice Munro : Falsos Segredos 222 . Homes: Assim para Nós Haja Perdão 2 1 2 . Denis Johnson : Anjos 1 99 . Vladimir Nabokov: Lolita 207 . Dalton Trevisan : A Trombeta do Anjo Vingador 203 . Dalton Trevisan : Novelas nada Exemplares 1 9 3 . Michel Houellebecq: Plataforma 226 . Marguerite Duras : Olhos Azuis Cabelo Preto 224 . Saul Bellow : O Planeta do Sr. Dalton Trevisan : Guerra Conjugal 202 . Sammler 230 . Alice Munro : Ódio. Rachel Kushner: Os Lança.ÚLTIMOS LIVROS NESTA COLECÇÃO 1 89 . Vladimir Nabokov : Riso na Escuridão 20 1 . Vladimir Nabokov: Ada ou Ardor 1 90 . Hjalmar Sõderberg: O Jogo Sério 206 . Michel Houellebecq: As Partículas Elementares 208 . Saul Bellow : Agarra o Dia 225 . Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba 1 92 . Amor. Casamento 228 . Hermann Broch: A Morte de Virgílio 2 1 7 . Nathan Filer: O Choque da Queda 22 1 . Cormac McCarthy : O Conselheiro 2 1 0 . Clarice Lispector: Um Sopro de Vida (Pulsações) 1 95 . Vladimir Nabokov: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight 204 . Flannery O ' Connor: O Céu É dos Violentos 229 . Marguerite Duras : Moderato Cantabile 223 .

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