A Amiga Genial

Infância, Adolescência

com) ©Relógio D'Água Editores.Infância.Infanzia.pt L'amica geniale © 2011 Edizioni e/o Publicado por acordo com The Elia Sher Literary Agency Título: A Amiga Genial .0 15 1000-282 Lisboa te!.: 218 474 450 fax: 218 470 775 relogiodagua@relogiodagua.relogiodagua. Adolescência Título original: L'amica geniale . Depósito Legal n. Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo. Novembro de 2014 Encomende os seus livros em: www.0: 384238/14 .relogiodagua.pt www. n.pt ISBN 978-989-641-479-5 Composição e paginação: Relógio D'Água Editores Impressão: Guide Artes Gráficas.cvasconcelos. adolescenza (2011) Autora: Elena Ferrante Tradução: Margarida Periquito Revisão de texto: Inês Dias Capa: Carlos César Vasconcelos (www. Lda.

Elena Ferrante A Amiga Genial Infância. Adolescência Tradução de Margarida Periquito Ficções .

De todos os espíritos negadores É o Maligno o que menos me agasta. É bom.O SENHOR: Fica à vontade. Fausto . por isso. Nunca odiei os seres da tua casta. Em pouco tempo já quer repouso inteiro. J. Goethe. A acção do Homem depressa se atenua. e vem quando quiseres. W. mandar-lhe um companheiro Que o espicaça e incita e como diabo actua.

seguem- -se-lhe Peppe. Rino Cerullo. Outros filhos. dirige a charcutaria da família. Gianni e Elisa. filho de dom Achille. pedreiro. sapateiro. o papão das histórias infantis. Raffaella Cerullo. A família Peluso (a família do carpinteiro): Alfredo Peluso. a quem chamam Lenuccia ou Lenu. a quem todos chamam Lina. É a mais velha. cai­ xeira de retrosaria. mãe deLila. irmão mais velho deLila. . Rino será também o nome do filho deLila. Nunzia Cerullo. que também responde por Carmen. A família Greco (a família do porteiro): Elena Greco. O pai é porteiro da Câmara. A família Carracci (a família de dom Achille): Dom Achille Carracci. Maria Carracci. Giuseppina Peluso. filho de Alfredo e Giuseppina. Pasquale Peluso. mulher de Alfredo. os outros dois filhos de dom Achille. Stefano Carracci. Pinuccia e Alfonso Carracci. A mãe é doméstica. irmã de Pasquale. Índice das Personagens A família Cerullo (a família do sapateiro): Fernando Cerullo. carpinteiro. Outros filhos. só Elena lhe chama Lila. também sapateiro. Carmela Peluso. mulher de dom Achille.

prima da mãe deLila. Enzo Scanno. Os professores: Ferraro. professora da escola primária. Antonio Cappuccio. Marisa Sarratore. Oliviero. professora do liceu. professor da escola secundária. Nella Incardo. mulher de Silvio. mulher de Donato. professor e bibliotecário. Galiani. Gerace. mulher de Nicola (Nino). A família Scanno (a família do vendedor de fruta e hortaliça): Nicola Scanno. seu irmão. o filho do farmacêutico. filhos de Silvio e Manuela. prima da professora Oliviero. mecânico. Lidia Sarratore. Manuela Solara. A família Spagnuolo (a família do pasteleiro): O senhor Spagnuolo. pasteleiro do bar-pastelaria Solara. filha do pasteleiro. Outros filhos. filha de Melina. . Marcello e Michele Solara. A fann1ia Sarratore (a família do ferroviário-poeta): Donato Sarratore. filha de Donato eLidia. Nino Sarratore.10 Índice das Personagens A fann1ia Cappuccio (a família da viúva maluca): Melina. filho de Nicola e Assunta. revisor. A família Solara (a farm1ia do proprietário do bar-pastelaria homónimo): Silvio Solara. de Ischia. Ada Cappuccio. Clelia e Ciro Sarratore. Rosa Spagnuolo. os filhos mais novos de Donato eLidia. Gigliola Spagnuolo. vendedor de fruta e hortaliça. também vendedor de fruta e hortaliça. que descarregava caixas no mercado da fruta e da hor- taliça. Assunta Scanno. dono do bar-pastelaria. O marido de Melina. mulher do pasteleiro. o mais velho dos quatro filhos de Donato eLidia. Pino. Outros filhos. Outros filhos. Gino. viúva maluca.

Prólogo Apagar o rasto .

só negociatas e esban­ jamento . Perguntara a toda a gente . «Mesmo de noite?» «Bem sabes como ela é. me­ tade em italiano .» «Pois sei . que eu acolheria com prazer. Tu não a vês há muito tempo . Rino telefonou-me esta manhã. «Não estará aí contigo?» . até tinha ido à polícia.» Mas acabara por ficar preocupado . Ele é que era viajante . Imaginei o cuidado com que fizera as buscas . entra. Nenhum . sem ser convidado . perguntou-me de súbito . nunca saíra de Nápoles em toda a sua vida. sai . como de costume . Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe . e só gostava de si próprio . «Há quanto tempo?» «Há duas semanas . Nada. Ao passo que a mãe . faz o que lhe dá na gana. mas achas normal duas semanas de ausência?» «Sim. atrapalhando-se . Tentou desculpar­ -se mas fê-lo confusamente . 1. embora eu não estivesse zangada nem indignada. tinha apenas uma ponta de sarcasmo . A mãe? Aqui em Turim? S abia perfeitamente o que se passava. pensei que quisesse outra vez dinhei­ ro e preparei-me para lhe dizer que não .» «E agora é que me ligas?» O tom deve ter-lhe parecido hostil . Disse que estava convencido de que a mãe andava a passear por Nápoles . dera uma volta pelos hospitais . Que filho tão bom ! Um homem corpulento . Nunca tem sono . ela piorou . Respondi-lhe: . que nunca trabalhara na vida. falava só por falar. dos seus quarenta anos . a mãe não esta­ va em parte nenhuma. metade em dialecto . já viera a minha casa pelo menos dez vezes . Não tinha miolos .

A mãe de Rino chama-se Raffaella Cerullo . ou pelo menos creio que conheço . uma mudança de identidade . Há pelo menos trinta anos que me diz que quer desaparecer sem dei­ xar rasto . Quando terminou . Preferia o telefone ou as longas noites de conversa quando eu ia a Nápoles . nunca fiz uso de nenhum desses nomes . Fui vendo o correio electrónico e o correio normal .14 Elena Ferrante «Claro que não está aqui comigo . E nunca pensou em suicídio . O hábito foi sempre esse . o sonho de refazer a vida noutro lado . A sua intenção foi sempre outra: queria volatilizar-se. soluços que começavam por ser fingidos e se tomavam verdadeiros . assim de repente . Sempre lhe escrevi com frequência. É inútil . mas toda a gente a tratou sempre por Lina.» E desliguei . 3. ao menos uma vez . que dela não fosse possível encontrar nada. disse-lhe: «Por favor. tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo . Passaram-se dias . Para mim. há quase sessenta anos que é Lila. Aprende a viver sozinho e não voltes a ligar-me também. 2. . e ela quase nunca me respondeu . para onde foi ela?» Começou a chorar e deixei-o fazer a fita de quem está desesperado .» «Mas o que estás tu a dizer?» «Aquilo que ouviste . já te disse que não está. e só eu sei bem o que ela quer dizer.» «Então . E como a conheço bem. pois repugnava-lhe a ideia de Rino ter alguma coisa a ver com o seu corpo . Eu não. de ser obrigado a ocupar-se dele .» «Tens a certeza?» «Por favor. queria que todas as suas células desaparecessem. Nunca lhe passou pela cabeça uma fuga. comporta-te como ela desejaria: não a procures. Rino . Se lhe chamasse Lina ou Raf­ faella. era sinal de que a nossa amizade chegara ao fim. mas sem esperança.

Poucas . principalmente o que se relacionava com ela.» . quando lhe dava jeito . Desta vez telefonei eu a Rino. nem uma prendinha. a coisa mais óbvia não lhe ocorrera.» Ligou-me no dia seguinte . «Não há cá nada. pedir perdão à mãe por tudo . a s caixas d e metal onde guardo todo o géne­ ro de coisas .» Disse-me coisas sem pés nem cabeça. E tu?» «Nada. «Vi que ligaste . tudo . Os poucos livros que possuía. nem uma imagem.» «Procuraste bem?» «Em todo o lado . fi-lo contrariada. muito agitado . Descobri que não tenho nada dela. todas desaparecidas . «Vai ver. Eu própria me surpreendi . fazer um apelo . mas depois telefona-me e diz se encon- traste nem que seja só um alfinete que lhe pertença. Escutei com paciência. Queria ir à televisão . Deitei tanta coisa fora.A Amiga Genial 15 Abri a s minhas gavetas . todas as coisas relacionadas com a sua expe­ riência de feiticeira electrónica. suplicar-lhe que volte . nem um vestido da mãe . nada?» «Não . É possível que em todos estes anos não me tenha deixado nada de si . depois perguntei-lhe: «Viste o guarda-fato dela?» «Para quê?» Naturalmente . Mandei-o procurar pela casa toda. Não atendia no fixo nem no móvel . bem como as velhas disquetes que dantes se usavam . desaparecidos . Tens notícias?» «Não . pior. que eu não tenha querido conservar qualquer coisa dela? É possível .» «Nada. desaparecidos . mesmo aquelas de quando eu era pequeno . e ela sabe-o . Recortou a imagem dela de todas as fotografias em que está­ vamos juntos . Desaparecidos os filmes . Desaparecido o computador. Rino estava estupefacto . Disse-lhe: «Leva o tempo que quiseres . ou . que começara a familiarizar-se com os computadores em finais da década de sessenta. Ligou-me ao serão . no tempo dos cartões perfurados . ao pro­ grama onde se fala das pessoas desaparecidas . Tinha o tom de voz com que tenta causar pena. de Verão ou de Inverno .» Foi e verificou que não havia lá nada. Os sapatos dela. As fotografias . nem um bilhete . só as cruzetas velhas .

Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto . Sei lá. Senti-me deveras irritada. Liguei o compu­ tador e comecei a escrever os pormenores da nossa história. quando ele voltou a ligar. aos ses­ senta e seis anos. disse-lhe que estivesse descansado .16 Elena Ferrante «Na cave . também?» «Em todo o lado . já te disse . Até a caixa com os documentos desapa­ receu . re­ cibos de contas .» «Amanha-te . não sei como lidar com isto. pensei . velhas certidões de nascimento . . não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás . como é costume. Lila está a exagerar. contratos telefónicos . sobretudo dele . não atendi . Sentei-me à secre­ tária. não consigo dormir. Rino .» «Por favor. O que significa isto? Que alguém roubou tudo? O que procuravam? O que querem da minha mãe e de mim?» Tranquilizei-o . Agora. disse para mim. desta vez . Vamos ver quem vence . Era improvável que alguém quisesse alguma coisa. «Posso ir passar uns dias a tua casa?» «Não . tudo aquilo que me ficara na memória.» Desliguei e .

Infância História de dom Achille .

de olhar para ele . eu observava a ponta de metal a abrir-lhe um túnel esbranquiçado na palma da mão . Lila enfiava a mão e o braço inteiro na escuridão de uma boca de esgoto . de olhos semicer­ rados . Havia algum tempo que não fazía­ mos outra coisa. com o coração aos saltos . Pela maneira como o meu pai falava dele eu imaginava-o corpulento . havia uma animosidade e um ódio para com ele que eu não sabia de onde vinham. fazia a mesma coisa. sem dizermos uma palavra. pendurava-se da barra de ferro a que estava preso o arame da roupa. Em minha casa. eram horas de ir para casa. mas nós deixámo-nos ficar. dando provas de coragem ao desafio . Dom Achille era o papão das histórias infantis . A nossa anúzade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir as escadas escuras que . 1. mas que guar­ dava na algibeira como se fosse o presente de uma fada. e dirigiu-se para o prédio onde morava dom Achille . estava terminan­ temente proibida de me aproximar dele . dentro e fora da escola. esperando que as baratas não me su­ bissem pela pele e que os ratos não me mordessem. cheio de borbulhas violá- . e eu fazia o mesmo logo a seguir. iam até à porta do apartamento de dom Achille . embora com medo de cair e de me magoar. Lembro-me da luz violácea do pátio . tinha de agir como se ele e a farm1ia não existissem. e não só na minha. de o espiar. balançava-se e depois deixava-se cair para o passeio . dos odores de um entardecer ameno de Primavera. A certa altura lançou-me um olhar dos dela. quando ela o retirava e mo estendia. As mães estavam a fazer o jantar. e depois . lanço após lanço . degrau após degrau . e eu em seguida fazia o mesmo . Lila espetava sob a pele o alfinete de segurança ferrugento que achara na rua sei lá quando . Gelei de medo . Lila trepava até à janela do rés-do-chão da senhora Spagnuolo . de lhe falar. firme .

E então . Acredi­ tava que mesmo que o visse só de longe me lançaria para os olhos qualquer coisa aguçada e ardente . urtigas . matar-me-ia. daquelas para abrir o peito às galinhas . a princípio não via nada. Avançámos encostadas à parede. meter-me-ia na frigidei­ ra com óleo a ferver. Quando finalmen­ te me decidi . Esperei um pouco. Sabia o que ela queria fazer. os filhos comer-me-iam e ele chuparia a minha cabeça. e eu segui-a. mas pálidas . Estava toda suada. No quarto lanço Lila comportou-se de forma inesperada. não . Sentia-se um chei­ ro a alho frito . só se via o tom cinzento das janelonas em cada patamar. deu-me a mão . empoeiradas . íamos expor-nos ao medo e questioná-lo . Das casas chegavam-nos vozes nervosas . dois degraus à frente . que me sugeria uma autoridade calma. . ela. se cometesse a loucura de me aproximar da porta de sua casa. Cada ruído de passos ou de vozes era dom Achille que subia atrás de nós ou que descia ao nosso encontro com uma grande faca. ela não sei . mas afinal . dirigindo-nos para o maior dos nossos terro­ res de então . quando a alcancei . violento apesar do «dom» . ferro . esperara em vão que se esquecesse. só estava ali porque ela também estava. Os candeeiros da rua ainda não se tinham acendido . nem passos . eu . sem dúvida. mais altos do que os do prédio onde eu morava. vivo e com um bafo escaldante que lhe saía do nariz e da boca. eu esque­ cera qualquer boa razão e . Era um ser feito não sei de que matéria. Subíamos devagar. cheias de pe­ rigos . Levantou-se e começámos a subir. para ver se Lila reconsiderava e desistia. vidro . mas vivo . mas nada ouvimos . nem porta nenhuma a abrir ou a fechar. Maria. a mulher de dom Achille . nem as luzes das escadas . De repente as luzes acenderam-se . Depois habituei-me ao escuro e vi Lila sentada no primei­ ro degrau do primeiro lanço de escadas . como o meu pai fazia com os salmonetes . deixando amplas zonas de sombra. Ficou-me a impressão do ombro a roçar pela parede esfolada e a ideia de que os degraus eram muito altos. Esperámos . sentia apenas um cheiro a coisas velhas e aDDT. Esse gesto mudou tudo entre nós para sempre . Parou à minha espera e . Depois Lila continuou . dois degraus atrás e indecisa entre encurtar a distância ou deixá-la aumentar.20 Elena Ferrante ceas . mas não percebi porquê . Ela achava que estava a fazer uma coisa certa e necessária. Para acompanhá-la tinha de sair da luz azulada do pátio e penetrar no negrume da porta. De vez em quando Lila olhava para o alto . e de cada vez esperei que Lila resolvesse vol­ tar para trás . Parámos muitas vezes . tentando perceber se fora dom Achille que girara o interruptor. Tremia.

Lila sentava-se no chão . Espiavam-se mutuamente . Agora íamos subindo em direcção ao medo . e era linda. nessa época . As crianças não sabem o significado do ontem . u m mês . No resto não querem pen­ sar. este é o papá. com ligeiras alte­ rações . se fizesse trovões . as coisas da minha boneca. A boneca de Lila. senão vais ter frio . Não havia muito tempo . a porta é esta. é difícil com­ preender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre . por entre as grades e contra a rede de protecção da fresta. e da boneca de Lila. tiravam as medidas uma à outra . era por nós e só por nós que esperava. tirara-me a bone­ ca à traição e lançara-a para dentro de uma cave . a minha boneca sabia mais do que eu . Quando se está há pouco tempo no mundo . nem do amanhã. talvez nem sintamos necessidade disso .dez dias . Gostávamos daquele sítio . para o desconhecido . Os adultos . Se Nu jogava à macaca nas mãos de Lila. Até aquele . A culpa fora dela. e eu no outro . Falava com ela. Se ela pegava numa tampa e a punha na cabeça da boneca como se fosse um chapéu . tinha um corpo de trapo amarelado cheio de serradura. e nessa altura tínhamo-nos sentido na obrigação de descer. para mim era feia e asquerosa. Eu era pequena e. pelo con­ trário . mas fazendo de conta que não brincávamos juntas . em dialecto: Tina. vendo bem .A Amiga Genial 21 2. cabelos de plástico e olhos de plástico . em primeiro lugar porque podía­ mos arrumar sobre o cimento do peitoril . Tinha cara de plástico . isto é a noite . Mas nunca acontecia combi­ narmos uma brincadeira e participarmos nela em conjunto . põe a coroa de rainha. tudo é isto e agora: a rua é esta. tampas de gasosa. pregos . à espera do amanhã . num dos lados da fresta de uma cave .. isto é o dia. florzinhas . Usava um vestidinho azul que a minha mãe lhe fi­ zera num raro momento feliz . que se chamava Tina. movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada. do anteontem. daí a pouco eu punha Tina a fazer o mesmo . não sabíamos nada sobre o tempo . Brincávamos no pátio . Eu captava o que Lila dizia a Nu e dizia o mesmo a Tina em voz baixa. lascas de vidro . ela falava comigo . as escadas são estas . sei lá. embora existisse havia mais tempo do que nós . e a correr. que se chamava Nu . eu dizia à minha. esta é a mamã . Ali púnhamos pedras . estavam prontas para saltar para os nossos braços se rebentasse um temporal . se alguém maior e mais forte e com os dentes afiados lhes quisesse pegar. parecia-nos sempre que íamos ao encontro de algo terrível que . Para cima ou para baixo .

e nele metia matéria viva e morta. 3. Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. tanto do meu lado como do de Lila. Imaginava-o de boca aberta por causa das compridas presas de animal . Nu e Tina não eram felizes . Por aquelas aberturas o escuro podia tirar-nos de repente as bonecas. ao resmalhar. Lila sabia que eu tinha aquele medo . como todas as coisas naquele tempo. como quem não quer a coisa. assim que lhe entreguei Tina. um rato entre os ratos . às raspadelas. Era bonito e assustador. uma forma que assumia todas as formas . Por isso . mas do lado oposto . E atribuíamos a essas bocas escuras . do escuro e da rede de malha fina. Pressentíamos-lhe os cantos negros . tudo aquilo que nos assustava à luz do dia. os sentimentos reprimi­ dos mas sempre quase a explodir.22 Elena Ferrante lugar não era escolhido por acordo . E depois gostávamos das grades com teias de aranha. sobre as pessoas fora e den­ tro de casa. fingindo que ia para outro sítio . não estava apenas em sua casa. Dom Achille . só com olhares e gestos . sempre pronto para recolher num grande saco negro tudo o que deixá­ vamos cair pelos cantos soltos da rede . no último andar. corpo de pedra vidrada e ervas venenosas . mas as mais das vezes postas de propósito junto da rede retorcida e portanto expostas ao bafo frio da cave. aos ruídos ameaçadores que de lá saíam. Não confiávamos na luz que incidia sobre as pedras . tinha-o sempre consigo . até em casa. Aquilo que mais nos atraía era o ar frio que vinha da cave. sobre os campos. Depois . punha-me também ao pé da fresta. aos estalidos . Esse saco era um aspecto funda­ mental de dom Achille . uma lufada que nos refrescava na Primavera e no Verão . formando duas fendas paralelas . uma aranha entre as aranhas . por vezes em segurança no nosso colo. ela. Lila ia para lá e eu andava às voltas . sobre os prédios . por exemplo . Os terrores que nós saboreávamos todos os dias eram os delas . enfiou-a pela rede e deixou-a cair para o escuro . mas também ali em baixo . a minha boneca falava disso em voz alta. avermelha­ da pela ferrugem e encaracolada nos cantos . através das quais podíamos dei­ xar cair pedras para o escuro e ouvir o ruído quando chegavam ao chão. Naquela turma éramos todas um bocadi- . às cavernas que por trás delas se abriam sob os prédios do bairro . logo no dia em que trocámos de bonecas pela primei­ ra vez sem combinar sequer.

uma trouxa escura. um dia morreu porque encontrou uma bomba e mexeu-lhe . esmagado . Tenho na lembrança muitos incidentes deste tipo . Ela. e mandou-a imediatamente para o castigo . porém. uma mulher pesadona que nos parecia muito velha. supuravam. Luigina. ou talvez não. atrás do quadro . o tomo .nunca o vi mas parecia-me que me lembrava dele . pior do que os rapazes . debaixo de um bombardeamento.fora para a guerra e morrera duas vezes: primeiro . Então a professora Oliviero . O filho mais novo da senhora Spagnuolo morrera de garrotilho . a vendedora de fruta e hortaliça. longa e pontiaguda. nem sequer pareceu ter-se assustado . as feridas san­ gravam. morrera de tuberculose aos vinte e dois anos . o entulho . Os da farru1ia Mel­ chiorre tinham morrido todos abraçados .A Amiga Genial 23 nho más . ferira-se com um prego e morrera de tétano . morrera de tifo . o tifo . Um primo meu que tinha vinte anos foi uma manhã remover entulho e à noite estava morto . O nosso mundo era assim. era ape­ nas um nome . O filho adulto de dom Achille . enfiou-os um a um no tinteiro e de­ pois pôs-se a pescá-los com o aparo e a atirá-los para cima de nós . que andava na quarta quando nós andávamos na primeira. a su- . A professo­ ra berrou como só ela sabia . cheio de pala­ vras que matavam: o garrotilho . desceu do estrado ameaçando-a. era má sempre . o tomo arrancara-lho à traição . com sangue a sair-lhe dos ouvidos e da boca. com quem tínhamos brincado no pátio. a guerra. e Lila a olhar para ela de cara séria. O pai do senhor Peluso não tinha um braço . A irmã de Giuseppina. Uma das filhas de dona Assunta. afogado no oceano Pacífico . a tuberculose . A velha dona Clorinda morrera por respirar gás em vez de ar. Lila não obedeceu . e depois comido pelos tubarões . a bomba. a gritar de medo. Giannino. pois continuou a atirar bocados de mata-borrão ensopados em tinta para todos os lados. embora devesse ter pouco mais de quarenta. e eles por vezes morriam. Ficou caída no chão como morta. lembro-me apenas do corpo imóvel da professora. Vivíamos num mun­ do em que crianças e adultos se feriam com frequência. caiu dele abaixo e morreu . o tétano . O que aconteceu logo a seguir não me recordo . não conseguiu equilibrar-se e foi bater com a cara na quina de uma carteira. o trabalho . mulher do senhor Peluso . Uma vez rasgou o papel mata-borrão em pedacinhos . O pai da minha mãe trabalhava na construção de um edifício . o gás . tropeçou não se sabe bem em quê . mas só quando a professora Oliviero não conseguia ver-nos . o bombardeamento . Eu fui atingida duas vezes no cabelo e uma vez na gola branca. com uma voz de agulha que nos aterroriza­ va.

uma total determi­ nação como característica. e as pedradas eram a regra. Depois . se levássemos uma pancada na têmpora. ou o corrimão das escadas escuras . Quer empunhasse o cabo tricolor da caneta. A têmpora era um ponto muito frágil . sobretudo . atirar bolinhas ensopadas em tinta. começou a atirar-nos pedras . parava e esperava por ela. um bando de rapazes do cam­ po chefiado por um que se chamava Enzo ou Enzuccio . Bastava uma pedrada. À saída da escola. Podíamos morrer se mastigássemos pastilhas elásticas america­ nas e por distracção as engolíssemos . mas mais novos do que eu e nunca aprendera nada com eles . A princípio ficava escondida em qualquer canto e espreitava para ver se Lila já aí vinha.agora não consigo precisar se aos seis ou se aos sete anos . deixaria com ela algo de meu que ela nunca mais me restituiria. Podíamos morrer se comêssemos cerejas pretas sem cuspir o caroço . Remeto para essas palavras e para aqueles anos os muitos me­ dos que me têm acompanhado toda a vida.espetar a caneta na madeira da carteira com um movimento preciso . Podíamos morrer. dávamos todas muita atenção a isso . na aula e fora dela. apesar de estarmos sempre a competir uma com a outra. Mas tinha a vaga sensação de que se fugisse . por exemplo. Sentiam-se ofendidos por sermos melhores alunas do que eles . Ao passo que Lila tinha. nunca tínhamos trocado uma palavra. desde pequena . que conti­ nuava a andar no seu passo normal e às vezes até parava.24 Elena Ferrante puração . fiz muitas coisas na vida mas sem convicção . sempre me senti um bocado desligada das minhas acções . tínhamos um ataque de tosse e não conseguíamos respirar. hoje diria elegante . quase nove . Tinha um irmão mais velho e talvez tivesse aprendido com ele .. menos Lila. se estivéssemos a transpirar e bebêssemos água fria da torneira sem ter molhado os pulsos primeiro . como as outras . a vendedora de fruta e hortaliça. ou se quando subimos juntas as escadas que iam ter a casa de dom Achille e tínhamos oito . Não a conhecia bem . Era muito es­ perta a calcular a trajectória das pedras e a evitá-las com um movimento calmo . Podíamos morrer. Quando as pedras vinham direito a nós fugíamos todas . Já nesse tempo havia qualquer coisa que me impedia de abandoná-la. atirava-as também . um dos filhos de Assunta. embora cheia de medo . não sei . Mas fazia-o sem convicção . Também se podia morrer de coisas que pareciam normais . transmitia a ideia de que aquilo que se seguia . como ela não se mexia. eu também tinha irmãos . acertar nos . ou uma pedra. passava-lhe as pedras . Ficávamos cobertos de pontinhos vermelhos . sentia-me na obri­ gação de ir ter com ela. Mas quando notava que ela ficara para trás .

fornecendo-se de pedras no meio dos carris . Pressenti que o bando se enfureceria mais e queria que nos afastássemos . arrancando-ma da mão. Lançava com precisão pedras pequenas com rebordos afiados . Enzo. Lila. um contacto brusco e assustado. como ele dizia. Enzo . O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro . não fosse dig­ no de andar à face da terra. Os rapazes que ele comandava também olharam incrédulos para o sangue . foi o nosso pri­ meiro contacto físico. 4. porém. recuperou do espanto e lançou a pedra que tinha na mão . deixando-lhe uma marca vermelha de onde saiu imediatamente san­ gue . Mas não houve tempo . tinha pelo menos mais três anos do que nós . O meu pai . Sangue . tinha cabelos loiros muito curtos e olhos claros . fazê-lo irritar-se ainda mais e responder de imediato com tiros igualmente perigosos . Sentia um rancor especial por dom Achille . No instante seguinte estava estendida no passeio com a cabeça partida. o braço já estava no ar para fazer o lançamento . mas deteve-se. proferia insultos e ameaças sem parar se alguém.seria feito sem hesitações . As raivas deles assustavam-me e tinha sobretudo medo de que . apesar de ter o artelho a sangrar.A Amiga Genial 25 rapazes do campo . parece que ainda estou a vê-lo. Quando falava dele com a minha mãe chamava-lhe «O teu primo» . A pedra roçou pela pele de Enzo como uma lâmi­ na. e Lila aguardava os tiros dele para lhe mostrar como os evitava. subir até à porta de dom Achille . Eu agarrei-a por um braço. Uma vez atingimo-lo no artelho direito. O menino olhou para a perna ferida. era um menino muito perigoso . e digo atingimo-lo porque eu é que entregara a Lila uma pedra achatada com os bordos todos lascados . era repetente. o cabecilha. Tinha sempre qualquer coisa para lhe atirar à cara e eu às vezes tapava os ouvidos com as mãos para não ficar tão incomodada com as suas palavras horríveis. Tinha entre o polegar e o indicador a pedra que se preparava para atirar. que até me parecia ser um bom homem. Era sempre essa a ordem das coisas . Geralmente só saía das feridas depois de se terem trocado maldições terríveis e obscenidades nojentas . mas a minha mãe negava imediatamente esse laço de sangue (havia um parentesco muito afastado) e reforçava a dose de in­ sultos. não mostrou a mínima satisfação pelo êxito da pedrada e baixou-se para apanhar outra. Ainda estava agarrada ao braço de Lila quando a pedrada a atingiu na fronte . estupefacto.

Mas parecia que não lhe importava tanto aquilo que acontecera antes de nós . pois perdia ao jogo tudo o que ganhava.acontecimentos de um modo geral obscuros . e por isso voltavam para casa cheias de nódoas roxas por causa das pancadas que lhes dávamos . também sob a forma de enxame . para o interior da matéria de que era composto dom Achille . Porém. Lila usava essa expressão muitas vezes . Não só perdia tudo ao jogo como andava à pancadaria em público . . como o facto de ter realmente havido um antes . Dom Achille devia ter-se ma­ nifestado em toda a sua monstruosa natureza antes de nós nascermos . como se o corpo tenebroso dele fosse um íman .parecia . salames. queijos provolone . na escola e fora dela. «Antes» . crianças mais miseráveis do que nós . o tempo em que dom Achille se mostrara a todos como aquilo que era: um ser malvado . Acusava-o de lhe ter tirado sub-repticiamente . de Pasquale . que era já grande.26 Elena Ferrante dom Achille tivesse o ouvido bem apurado e conseguisse ouvir os insul­ tos mesmo a grande distância. morta­ dela. o senhor Peluso parecia-nos a imagem do desespero . muito longo . que . Era isso que nessa época a deixava perplexa e por vezes até a enervava. Por razões obscuras atribuía a sua ruína a dom Achille . talvez nem fosse possível fazer-lhe um arranhão . Censurava-o mesmo por lhe ter tirado também a oficina e tê-la transformado numa charcutaria. a turquês . a serra. nossa companheira de escola. a marmelada. durante o qual não tínhamos existido. Durante anos imaginei o alicate . enquanto o dele nunca vertia. o que tomara a oficina inútil . como um enxame metálico . um carpinteiro muito habilidoso que andava sempre sem cheta. o martelo . Todas as vezes que o víamos . feito de matérias heterogéneas . a borracha.que acabou por me transmitir o seu nervosismo . Era um tempo lon­ go . com as quais eu e Lila às vezes brincávamos e que na escola e não só tentavam sempre roubar as nossas coisas . porque não sabia como matar a fome à farm1ia. o tomo e milhares de pregos a serem suga­ dos . a ca­ neta. banha e presunto . mas sim o senhor Peluso . o inimigo figadal de dom Achille não era o meu pai . to­ das as ferramentas próprias do ofício de carpinteiro . Quando nos tomá­ mos amigas falou-me tanto daquela coisa absurda . e de outros dois . sobre os quais os adultos guardavam silêncio ou se pronunciavam com muita reticência . Factos ocorridos em tempos obscuros . Durante anos vi-lhe sair do corpo tosco e pesa­ do .tirava o sangue aos outros . Receava que ele viesse matá-los . de fisionomia animal-mineral incerta. no armazém das traseiras do bar Solara.o «antes de nós» .. Peluso era o pai de Carmela.

todos os dias . agarravam-se pe­ los cabelos . Não tenho saudades da nossa infância. porque eles enfureciam-se a todo o passo mas acabavam por se acalmar. sem que o pobre homem pudesse ao menos dizer: socorro ! 5. saíam dos charcos . foi cheia de violência. das rãs . mas parecia-nos uma velha. O marido era da mesma idade . que era da nossa idade . talvez . de Pinuccia. magoavam-se . em casa e fora dela. mesmo para as raparigas . E eu também. descarregava caixas no mercado da fruta e . o filho mais velho . Em pequena imaginava animais pequeninos . e ainda não nos falávamos . à saída da missa. É claro que teria gostado das maneiras delicadas que a professora e o padre pregavam. Fazer mal era uma doença. mas sentia que esses modos não eram adequados para o nosso bairro . mas não me lembro de ter alguma vez pensado que a vida que nos calhara fosse particular­ mente desagradável . das carruagens de comboio abando­ nadas do lado de lá do aterro . ao passo que as mulheres . o levantara no ar e o lançara contra uma árvore do jardim. Eram mais contaminadas do que os homens. quando constou que mesmo e m frente da igreja da sagrada Fanu1ia. Lila ficou muito marcada por aquilo que aconteceu a Melina Cappuc­ cio . crescíamos com a obrigação de tomá-la difícil aos outros . nós no segundo andar e ela no terceiro . desmaiado . de Alfonso . Aconte­ cia-nos de tudo . As mulheres lutavam mais umas com as outras do que os homens . A vida era assim e mais nada. e ali o deixara. conciliadoras . do pó . antes que os outros a tomassem difícil a nós . das salamandras . das pedras . apresentando-se por u m instante n a sua forma mais horripilante . fazendo as nossas mães e avós ficarem raivosas como cadelas sedentas . e metiam-se na água e na comida e no ar. quando se zangavam enraiveciam-se de tal maneira que nunca mais lhes passava. Tinha pouco mais de trinta anos e seis filhos . das moscas . que apareciam de noite no bairro . quase invisíveis .A Amiga Genial 27 Andávamos na segunda classe . com o sangue a correr-lhe das inúmeras fe­ ridas na cabeça e por todo o lado . uma parente da mãe . que pareciam ser caladas . e da mulher e . o senhor Peluso se pusera a gritar furiosamente contra dom Achille . das ervas malcheirosas a que chamavam fedorentas . e que dom Achille se afastara de Stefano . Melina morava no mesmo pré­ dio que os meus pais. s e ati­ rara a Peluso .

casa.28 Elena Ferrante da hortaliça. Decorrido algum tempo . os cabelos já grisalhos . seu conhecido . Lidia. Donato era frequentador assíduo da igreja paroquial da Sagrada Fanu1ia e. com as sílabas alongadas por um desespero raivoso: Aaa-daaa. Melina ficou-lhe tão grata que a gratidão se transformou . com o meu pai à cabeça. Era um homem amistoso mas muito sério . por ele ter um feitio tão dócil . em que todo o bairro participou . A viúva preferia pensar que . Não se sabia se Sarratore se apercebera disso . para que ela o libertasse e permitisse assim que ele se juntasse com ela. fazia parte do pessoal de bordo da Companhia dos Caminhos de Ferro do Estado . A guerra que se seguiu a princípio pareceu-me divertida. e cinco filhos . le­ vava o filho mais novo a passear no carrinho . Não . Sarratore tentou por to- . roupas e sapatos usados . o mais velho dos quais se chamava Nino . Não passava pela cabeça de ninguém que Donato se esfor­ çasse daquele modo para aliviar os trabalhos da mulher. a mulher o dominava. Lidia estendia os len­ çóis acabados de lavar e Melina subia para o parapeito e sujava-lhos com uma cana cuja ponta queimara de propósito no lume. Miii-che . Todos os homens da vizinhança. Tudo coisas muito anóma­ las no bairro . dentro do seu peito de mulher desolada. ia fazer as compras . a andar pela casa juntamente com os filhos endiabrados . na oficina de Gorresio . Uma noite saiu de casa como era habitual e morreu . e ela insistia em bater no tecto toda a noite com o cabo da esfregona. em paixão . Lidia fazia barulho de dia por cima dela. com um rosto altivo . igreja e trabalho . tinha um ordenado fixo com que sustentava decentemente a mulher. uma mulher seca com o nariz grande . e por isso decidiu lutar ferozmente contra Lidia Sarratore . falava-se disso em minha casa e fora dela entre risotas maldosas . mas bonito . pelo nome. dedicava-se a arranjos disto e daquilo em casa. Teve um funeral muito triste . os meus pais também e os pais de Lila igualmente . esforçou-se muito por ela. a voz aguda com que à noite chamava os filhos da janela. um por um. Lembro-me dele baixo e largo . Antonio . Quando não andava em viagem no percurso Nápoles-Paola e regresso . recolhendo dinheiro . no quarto e último piso . sabe-se lá o que aconteceu a Melina. o consideravam um tipo efeminado . como bom cristão . e arranjando-lhe colocação para o filho mais velho . Lidia passava sob as janelas e ela cuspia-lhe para a cabeça ou despejava-lhe baldes de água suja para cima. tanto mais que até escrevia poesias e as lia com prazer a quem calhava. talvez assas­ sinado ou então de cansaço . A princípio foi muito ajudada por Donato Sarratore . em amor. que morava no apartamento por cima do dela. Por fora continuou a mesma. Tal coisa também não passou pela cabeça de Melina.

e ajudei-a a levantar-se . depois virei-me para ver o que Lila fazia. Con­ nosco encontrava-se Marisa Sarratore . bem penteados . mas sem desprezo . mas nunca nos explicou porquê . Vinha pelo outro lado da lon­ ga rua em passo lento . Um dia vínhamos da escola. das duas vizinhas a rebolar pela escada agarradas uma à outra. em determinada ocasião . Lila. a poucos centímetros dos meus sa­ patos. que habitualmente nos acompa­ nhava. mas era um homem demasiado sensível . sem uma palavra de pré-aviso . ainda hoje insuportável para mim . E assim . Só Lila pendia para o lado de Melina. Talvez porque ela tinha feições regulares e cabelo loiro . ao passo que os de Lidia andavam limpos.A Amiga Genial 29 dos os meios que houvesse paz . Ou porque os filhos de Melina andavam andrajosos e sujos . A partir daí comecei a ter medo delas . com palavras duras e raivosas . ou seja. Descera do passeio para atra­ vessar a estrada larga e ir ter com Melina. continuando a provocar-se mutuamente . Foi ela a primeira a avistar Melina. continua com a minha mãe a correr para a porta de casa. e termina com a imagem. com tanta força que a atirou ao chão . sem arregalar os olhos . crian­ ças. a abri-la e a aparecer no patamar seguida por nós . poder entrar em contacto com o irmão mais velho . como costumava fazer em todas as situações de violência. não porque simpatizássemos com ela mas porque esperávamos . era bonito . fria e decidida. repetindo simplesmente a ex­ pressão que ouvia à mãe em casa. estávamos do lado de Lidia Sarratore . através dela. apesar de ser mais baixa e muito magra. que se Lidia Sarratore acabasse por ser morta era bem feito . Uma das muitas cenas terríveis da minha infância come­ ça com os gritos de Melina e Lidia. Nino . sem prestar atenção aos ca- . crianças . as duas mulheres começaram a trocar insultos quando se cruzavam na rua ou na escada. Ou porque Donato era dela e tínhamos percebido que Me­ lina lho queria tirar. que estava a chorar. e fê-lo a sangue frio . Nino . Primeiro socorri Marisa. gostávamos dele . É difícil dizer porque é que naquele tempo nós . com os insultos que gritavam das janelas e depois na escada. e trazia na mão um cartucho do qual ia tirando qualquer coisa e comendo . e o mais velho . éramos quatro ou cinco meninas . Marisa chamou-nos a atenção para ela cha­ mando-lhe «a puta» . deu-lhe imediatamente uma bofetada. sem gritar antes e sem gritar depois . Disse apenas . como um melão branco que nos escapuliu da mão . e a cabeça de Melina a bater no chão do patamar. que tinha mais uns aninhos do que nós . e eu pensei que ela en­ carava as coisas dessa forma porque no íntimo era má e também porque ela e Melina eram parentes afastadas . demasiado delicado .

algo que me perturbou e que ainda me é difícil definir. julguei-a morta. a ela e a toda a turma. mais na atitude do que no rosto . ganhava os laços com as três cores da bandeira que a professora costurava. Uma manhã o contínuo bateu à porta e anunciou-a. uma pequena bolsa brilhante . Limitaram-se ambas a desaparecer. um com açúcar e outro com café. mas de a enaltecer. Ela. mãe de Lila. Mas afinal . Esta nova fase começou quando a senhora Cerullo. que como a maioria das mulheres do bairro . A professora Olivie­ ro voltou para a escola viva e começou a dar atenção a Lila. morta no local de trabalho como o meu avô e o marido de Melina. etc . Cola­ da. toda de escuro. que trazia na mão o sabão escuro e macio acabado de comprar na cave de dom Carla . embora o fizesse com a determinação habi­ tual . como disse. estava imóvel . sabia contar um dois três quatro . frases cujo sentido geral me desorientou . Era uma só com Melina. A professora aceitou a oferta de bom grado e disse . nervosa. crisma. imóvel de pasmo como as estátuas . vivia entrouxada em chinelos e velhos vestidos coçados . To­ davia. já conhecia as letras todas . nessa época. pequena. Mas tudo era muito surpreendente . de forma que por agora me limitarei a dizer assim: embora se movesse . professora e aluna. apareceu em traje de cerimónia (casamento . . era elogiada a toda a hora por causa da caligrafia. durante um período de tempo que não consigo definir . comunhão . por causa do terrível castigo que apanharia. surpreendentemente . sapatos com um bocado de salto que lhe martirizavam os pés inchados. irreconhecível . Vi-lhe .nada aconteceu . escura. Logo a seguir entrou Nunzia Cerullo . 6. apesar de Lila a ter feito cair e a ter manda- . Estávamos na primeira classe . e ofereceu à professora dois saquinhos de papel. No dia em que a professora Oliviero caiu do estrado e foi bater com a maçã do rosto na carteira. Andá­ vamos ainda a aprender o alfabeto e os números de um a dez . foi chamada à escola. imóvel pelo desgosto . funeral) . longo .30 Elena Ferrante miões que passavam. a atravessar a estrada. e pareceu-me que como consequência disso também Lila morreria. do qual tirava pedacinhos com a outra mão e comia.breve. Imóvel dentro daquilo que a parente da mãe estava a fazer. A melhor da aula era eu . eu . não com a intenção de a castigar. olhando para Lila que por sua vez olhava para a carteira. dos nossos dias e da nossa memória.

para cima da compa­ nheira de carteira. Verdade que fizera aquela coisa horrível de atirar peda­ ços de mata-borrão sujos de tinta para cima de nós . o que ali está escrito é "sol" . por isso vou inventar) a palavra «sol» . que deu vários sinais de irritação . Aqui calou-se. vendo a correc­ ção . A professora a princípio pareceu não compreender porque é que naqueles olhos de mãe não se via o seu próprio entusiasmo . disse desconsolada à filha: «Erraste . ainda não sabia ler. Verdade que era obrigada a castigá-la constantemente com a vara de madeira ou mandando-a ajoelhar-se em cima do trigo rijo. desenhando uma letra mais acima e outra mais abaixo . «Escreve aí» . escreveu: «gi» . «"giz". quase uma careta. em tom amuado: «Sol. disse que a melhor da aula era ela. em parte para esclarecer a situação à senhora Cerullo e em parte para encarecer a nossa companheira. Mas depois deve ter deduzido que Nunzia não sabia ler ou que não tinha a certeza de que a palavra escrita no quadro era mesmo «sol» . casualmente . um facto maravilhoso que descobrira havia poucos dias . Verdade que se aquela menina não se comportasse de maneira tão indisciplinada.» Lila foi ao quadro contrariada. Depois perguntou a Lila: «Cerullo . não teria caído do estrado .» Nunzia Cerullo olhou para a professora com olhos incertos . Mas existia um facto que a enchia de alegria enquanto profes­ sora e enquanto pessoa. e franziu o sobrolho . Verdade que ela era a mais má. disse-lhe . o que está aqui escrito?» Na aula fez-se um silêncio de expectativa. quase assustados . Lila fez um meio sorrizi­ nho . Pegou num bocado de giz e escreveu no quadro (agora não me lembro o que foi . com uma caligrafia trémula. Depois leu .» Depois ordenou-lhe: «Vem cá. A professora acrescentou o «Z» e a senhora Cerullo . e deitou-se toda de lado . ferindo-se na maçã do ros­ to .A Amiga Genial 31 do para o hospital . como se as palavras não lhe bastassem ou como se quisesse ensinar à mãe de Lila e a nós que os factos contam quase sem­ pre mais do que as palavras . vem ao quadro . de facto . atrás do quadro.» Mas a professora tranquilizou-a de imediato: . disse a Lila: «Muito bem. Cerullo . a nossa professora. Depois. muito concentrada. e a professora entregou-lhe o giz .» Lila. ela.

o irmão mais velho de Lila. Enquanto fazia os trabalhos de casa na cozi­ nha. mas já sabe ler e já sabe escrever. Portanto. quando o encontrávamos . a sensação de .» 7. A Lila tem de praticar. graças às folhas de jornal em que os clientes embrulhavam os sapatos velhos e que o pai às vezes levava para casa. Mas a verdade é que nunca tivera um silabário e nunca se sentara. Cerullo?» Cerullo . Talvez fosse por isso que ele se gabava de estar na origem da proeza da irmã. respondeu: «EU . o facto relevante era este: Lila sabia ler e escrever. Rino era quase seis anos mais velho do que Lila. não eram coisas para ele. começou a levá-lo todos os dias para a sua oficina de sapateiro numa ruela do outro lado da rua larga. a fazer os trabalhos de casa. E daquela manhã cinzenta em que a pro­ fessora no-lo revelou ficou-me na lembrança. Não importa. Nós . perguntou-lhe diante de todas nós : «Quem te ensinou a ler e a escrever. para ler à farm1ia as notícias locais mais interessantes . não . escrever. com evidente admiração . a menina tinha aprendido a ler por volta dos três anos . de olhos baixos: «Eu . fosse de uma maneira ou de outra. pequena. não . Quem a ensinou?» A senhora Cerullo disse . sentíamos-lhe o cheiro a pés sujos . Fernando . olhando para as letras e para as gravuras do seu silabário . pois tem. com um laço cor-de-rosa ao pescoço e apenas seis anos de vida. a massa de sapateiro . as meninas . não . era impossível que Lila tivesse aprendido devido à aplicação escolar dele . para lhe ensinar o ofício de remen­ dão. ela sentava-se a seu lado e conseguia aprender mais do que ele . era um rapaz deste­ mido que se destacava em todos os jogos do pátio e da rua. Era mais provável que ela tivesse compreendido precoce­ mente como funcionava o alfabeto . Ainda ele não tinha dez anos quando o pai . nem um minuto. Segundo dizia Rino . sobretudo no lançamento do pião. Mas ler. aprender poesias de cor. de cabelos e olhos escuros e de bata. Então a professora dirigiu-se a Lila e .» «Mas em vossa casa ou no prédio há alguém que o possa ter feito?» Nunzia fez energicamente que não com a cabeça. a gáspeas velhas . fazer contas . e gozávamos com ele . chamávamos-lhe chineleiro . sobretudo .32 Elena Ferrante «Não .

vem sentar-te ao pé de mim. e assim reforçava em mim o desejo de fazer tudo bem. ela chamava-lhe a perna ofendida. Mas se não fores boa aluna. como prémio . Era aloirada. gostava de agradar a toda a gente . se não fores a melhor. Era o .» Era um grande privilégio . Eu . Fora ele . Mas como o meu pai nun­ ca levantava a voz .A Amiga Genial 33 fraqueza que essa notícia causou em mim.» Aquelas palavras tinham-me assustado muito. e imaginava-a com os olhos furiosos . era o sítio onde me sentia mais em segurança. as tarefas da casa consumiam-na e o di­ nheiro nunca chegava. eu tomava sempre o partido dele . Já nessa altura. Mas gostava sobretudo de agradar à professora. ia para lá cheia de entusiasmo . embora ele às vezes lhe batesse e soubesse ser ameaçador para mim. nem eu com ela. Em todo o bairro . berrava-lhe que ele tinha de inventar qualquer coisa. Em casa era a preferida do meu pai e os meus irmãos também me esti­ mavam. nos primeiros tempos . cheia de raiva. Discutiam. voltava para trás . opulenta. A professora tinha sempre junto de si uma cadeira vazia e chamava as melhores alunas para ali se sentarem. gabava os meus caracóis loiros. e não a minha mãe . E as coisas tinham logo corrido tão bem que a professora me dizia muitas vezes: «Greco . as coisas com ela nunca corriam bem. O problema era a minha mãe. as baratas que se introduziam pela porta de entrada. que me dissera no primeiro dia de escola: «Lenuccia. Desde o primeiro dia que a escola me parecera um lugar muito mais bonito do que a minha casa. contra ela. coisa que ela provavelmente intuía. e o passo dela perturbava-me . embora pronunciadas por ele . o papá precisa de ajuda e tu vais trabalhar. de olhos azuis . todavia. Mas nunca se sabia para onde o seu olho direito estava a olhar. tinha a impressão de que ela fazia tudo para me dar a perceber que eu era supérflua na vida dela. E a perna direita também não funcionava bem. recomeçava. como quando se irritava comigo . Prometi aos dois que seria boa aluna. ia à cozinha. com pouco mais de seis anos . que nós deixamos-te estudar. aprendia. nem quando perdia a paciência. Coxeava. Repugnava-me o seu corpo . que assim não se podia continuar. porta-te bem com a professora. sen­ ti que fora a minha mãe que lhas sugerira. Ela incitava-me com palavras encorajadoras . Estava com atenção nas aulas . fazia com o má­ ximo cuidado tudo o que me diziam para fazer. que lhas impusera. que era porteiro na câmara. quando não conseguia dormir e caminhava pelo corredor. estava sempre sentada a seu lado . Não era feliz . sobretudo de noite . Não simpatizava comigo . Zangava-se muitas vezes com o meu pai . com certeza. Às vezes ouvia-a esmagar com o calca­ nhar.

dava ponta­ pés mesmo quando estava sentada ao lado da professora. É provável que tenha sido essa a minha maneira de reagir à inveja e ao ódio e de sufocá-los . claro está. o passo da minha mãe . O que essa despromoção causou dentro de mim não sei . deixaria de ser uma ameaça para mim . E mais ainda: passou a chamá-la mais vezes do que a mim para nos sentarmos a seu lado . a professora comportou-se de maneira muito perspicaz . para aceitar de bom grado a superioridade de Lila em tudo . um pouco de ciúmes . se eu andasse sempre atrás dela. a professora elogiava-me primeiro a mim com mo- . me cobria tan­ tas vezes de repreensões . principalmente . nunca a perder de vista. Com efeito . mais subtil . mais diligente . Ou talvez tenha disfarçado desse modo o senti­ mento de subalternidade . o sortilégio que estava a sofrer. mesmo que ela se aborrecesse e corresse comigo . Car­ mela Peluso e . A princípio talvez nada. continuou a elogiar Marisa Sarratore . que . Então . acompanhando a sua passada. hoje é-me difícil dizer com exactidão e clareza aquilo que sen­ ti . Mas foi sem dúvida nessa altura que nasceu em mim uma preocupação . quando eu estava em casa. para ver se as pernas ainda estavam em ordem. mas dava a impressão de que o fazia mais para ela se portar bem do que para premiá-la. Acordava com essa ideia na cabeça e levantava­ -me logo da cama. Deixou-me brilhar com uma luz viva. corria constantemen­ te o risco de ficar coxa. de tal forma que ela se irritava e depressa a mandava voltar para o lugar. encorajou-me a ser cada vez mais disciplinada.34 Elena Ferrante contrário da minha mãe . e às vezes de insultos . que me estava gravado na cabeça e dela não saía. Além disso . que só me apetecia esconder-me num canto escuro e esperar que ela nunca mais me encon­ trasse . 8. Pensei que . Quando Lila se deixava de turbulências e me passava à frente sem esforço . e também as suas prepotências . al­ guma coisa me convenceu de que . como todas . que tinha umas perninhas muito magras e ágeis e não parava de as mexer. Tal­ vez fosse por isso que fixei o pensamento em Lila. a mim. embora as minhas pernas funcionassem bem. Decidi que tinha de me regular por aquela menina. Preparei-me . É verdade que chamava Lila muitas vezes para se sentar a seu lado . Depois aconteceu que a senhora Cerullo veio à aula e a profes­ sora Oliviero nos revelou que Lila estava muito mais adiantada do que nós .

para sondar o nível de competência do inimigo . Se ficava em segundo lugar depois de Lila. O caso de Lila era diferente . feliz por me exibir mas não atrevida. . sem humilhar professores nem alunos . fazia uma expressão resignada de aceitação . Pelo menos duas vezes por ano o director obrigava as classes a com­ petirem umas com as outras . os outros professo­ res faziam-me uma festa. Era uma menina de caracóis loiros . que me eram estranhas . Por isso levava-nos muitas vezes às outras salas de aula. meninas e meninos . ou último lugar. Apeninos . Na primeira classe já estava além de qualquer competição possível . com os quais por vezes parecia perto de chegar a vias de facto . por culpa do director e também um pouco por culpa da professora Oliviero . Lila era simples­ mente terrível . Cácios. a cantar a tabuada. de que era a melhor professora da escola primária do nosso bairro . quais os professores mais competentes . bonitinha. a fazer divisões e multiplicações . foi a menina mais detestada da escola e do bairro . Geralmente ganhava eu . e transmitia uma impressão de delicadeza que enternecia. Se depois fosse a melhor a recitar as poesias . Se um dia ela dissesse que as melhores eram a Cerullo e a Sarratore. para competir com outras crianças .. não para me tomar a melhor da aula . e por isso não me odiavam. só para me manter a par daquela menina terrível e brilhante . de forma a apurar quais os alunos mais brilhantes e. os alunos sentiam que me esforçara muito para aprender aquilo tudo de cor. Por isso empreguei todas as minhas energias de menina. mas sem exagerar.assavam. a dizer que os Al­ pes eram Marítimos . Dediquei-me ao estudo e a muitas outras coisas difíceis .parecia-me impossível consegui-lo . Nesses anos. etc . nunca a ouvir dizer com orgulho que a Cerullo e a Greco eram as melhores . Em permanente conflito com os seus colegas . servia-se de Lila e de mim como prova evidente da sua competência. consequentemente . Habitualmente eu era enviada para apalpar o terreno . ou a Cerullo e a Peluso. A professora Oliviero gostava dessas competições .A Amiga Genial 35 deração e só depois exaltava a competência dela. Sentia mais o veneno da derrota quando era a Sarratore ou a Peluso que me ultrav. Graios . Para todos os outros alunos . eu caía morta. Brilhante para mim. creio que só receava uma coisa: nunca vir a estar a par de Lila nas hierarquias estabelecidas pela professora Olivie­ ro. A professora até dizia que com um pouco de esforço seria capaz de fazer a prova da segunda classe e passar para . Da primeira à quinta classe da primária. mas para não cair para terceiro . quarto . independentemente dos encontros organizados pelo director.

Aliás . O que é certo é que uma manhã nós duas . havia uma expressão que não só parecia pouco infantil . crianças . e Nino Sarratore . o irmão de Marisa que eu amava. que era inútil competir. no fundo das quais . extinguia-se qualquer hipótese de lhe mostrarem boa cara. naqueles nossos encontros . onde se encontra­ vam Enzo Scanno . por qualquer motivo secreto . Lila fazia de cabeça contas complicadas . que na altura andávamos na segunda classe . fomos levadas . mas quando era preciso pu­ xava de um italiano como mandam os livros . «com todo o gosto» . suja. sobretudo . Era repetente e pelo menos duas vezes tinham-no levado a percorrer as salas de aula com um cartaz ao pesco- . nos ditados não dava um erro . porque . falava sempre em dialecto como todos nós . Lila era de mais para qualquer pessoa. eu sentia-o . talvez até muito . E o director. nos joelhos e nos cotovelos tinha sempre crostas de feridas que não tinham tempo de sarar.36 Elena Ferrante a terceira com menos de sete anos . Além disso . ela arranjaria maneira de nos fazer ainda mais mal . quando a professora a mandava para o terreno para dizer os modos e os tempos dos verbos . E nada no seu aspecto poderia servir para suavizar essa impressão . Depois essa distância aumentou . Andava desgrenhada. «luxuriante» . mais do que alunas e professoras . um relâmpago . privilegiava sobretudo competições desse mesmo tipo . o malvado filho da vendedora de fruta e hortaliça. De modo que . portanto . reconhecer a sua competência era o mesmo que admitir que nunca se­ ríamos capazes de a alcançar. Mas foi exagero meu . mas os rapazes mais abertamente . podíamos humilhar alunos e professores . a professora Oliviero tinha prazer em levar­ -nos. fosse como fosse . Tanto as raparigas como os rapazes a detestavam. Todos os seus movi­ mentos avisavam que era inútil fazer-lhe mal . A sua rapidez mental fazia lembrar um sibilo . Provavelmen­ te era apenas uma forma de dar vazão a velhos rancores . os ânimos exaltavam-se . usando até palavras como «avezado» . não dava abertura para amabilidades . a do professor Ferrara . O ódio . ou de permitir que o director tivesse rédea curta sobre os professores menos capazes ou menos obedientes . e para os profes­ sores e professoras significava aceitar que tinham sido crianças medío­ cres . por motivos seus igualmente secretos . uma picada letal . Para nós . ou resolver problemas de aritmética. Toda a gente conhecia Enzo . era tangível . Os olhos gran­ des e vivos sabiam transformar-se em duas fendas . como talvez não humana. nem mais nem menos . a uma quarta classe . antes de qualquer resposta acertada. Cheguei a pensar que na escola se apostasse dinheiro . às salas de aula onde .

perguntaram-nos as quatro operações . rosto pequeno e enrugado . quando Lila não respondeu ou Alfonso errou . se o filho de dom Achille se ia abaixo . subtracções . A segun­ da é que Nino Sarratore . da se­ gunda classe como nós . Mas a certa altura deu-se um facto imprevisto . tinham-no debaixo de olho só porque era brigão . É claro que Enzo não valia nada. de ca­ belos grisalhos cortados à escovinha. um homem alto e muito magro . era calmo e preciso . quase dois anos mais velho . do que Nino Sarratore? Foi como se Lila tivesse acordado de repente . ficou embasbacado como se não percebesse o que os dois professores lhe perguntavam. A cena só se animou quando se passou aos cálculos de cabeça de adi­ ções . começou a falhar. e depois o desafio começou .descobrimos logo . que por vezes ficava calada como se não tivesse ouvido a per­ gunta. terceiro filho de dom Achille . Os nossos adversários . Passava por ser muito inteligente . havia escrito «burro» . preguiçoso .Alfonso Car­ racci . em ques­ tões de inteligência. dizer o resultado certo . A terceira é que Lila fez frente ao filho de dom Achille sem garra. Perguntaram-nos os verbos . Como era possível que um rapaz como Enzo . Pelo menos duas vezes . perguntaram-nos a s tabuadas . que era conhecido e querido principalmente por mim. ouviu-se a voz de Enzo Scanno cheia de desprezo . vinda das últimas carteiras . incapaz e delinquente . e percebeu-se que o professor o chamara ali à quarta classe por ter mais confiança nele do que em Nino . devido à convoca­ tória imprevista de Carracci . errava sobretudo as multiplicações e as divi­ sões . os professores . tão silencioso . um menino muito estimado . surpreendentemente . o director. era tão bom. e o que tinha de bom era que não gozava com uma pessoa quando a vencia. escolarmente falando . eram Nino e . apesar da apatia de Lila. Dessa particular ocasião fica­ ram-me na lembrança três coisas . como se não lhe importasse que ele a vencesse . Lila também não estava à altura. Houve uma certa tensão entre Oliviero e Ferrara . que aparentava menos do que os sete anos que tinha.A Amiga Genial 37 ço . olhos inquietos . Alfonso . soubesse fazer contas de cabeça complicadas melhor do que eu . A primeira é que o pequeno Alfonso Carracci me derrotou imediatamente . pelo contrário . multiplicações e divisões . Aquilo espantou os outros alunos . quase nunca respondeu às perguntas . perante as duas classes reunidas numa mesma sala. espan­ tou-me a mim e a Lila . em que o professor Ferrara . Por outro lado . do que Alfonso Carracci . por isso andavam mais ou menos a par. primeiro n o quadro e depois de cabeça. Alfonso fi­ cou fora de jogo num instante e . com o consentimento orgulhoso do . tão dócil . Nino .

Com toda a probabilidade . sério . Nessa altura ainda não éramos amigas e não podia perguntar-lhe porque tivera aquele comportamento . não só a dom Achille como a toda a farm1ia. Era assim. chamou ao estrado . o filho da vendedora de fruta e hortaliça. mas depois postou-se junto ao quadro . Aquela manhã do duelo entre ela e Enzo é importante na nossa longa história. Não sabíamos de onde vinha aquele medo-rancor-ódio­ -condescendência que os nossos pais mostravam sentir pelos Carracci e que nos transmitiam. Por exemplo . sem à-von­ tade . e o professor corrigia-lhe a dicção . mas o resultado estava sempre certo . Levou chibatadas nos dedos e foi arrastado pelas orelhas até ao canto do castigo . Tal como eu . passando por cima do professor. ele próprio admirado de ser tão inteligente . eu calculava qual era a razão . A verdade é que não era preciso fazer perguntas . O dia de escola acabou assim. porque Lila acordara definitivamente e agora tinha os olhos semicerrados . em frente de Lila. A certa altura o director. a poei­ ra das ruas . Depois começou a ir-se abaixo . Não só não quisera vencê-lo . mas ele recusou-se a ir.38 Elena Ferrante professor. que prontamente trocou de paladino . o cheiro miserável dos patamares . era um facto . como se estivesse na rua e não numa sala de aula. também Nino Sarratore ficara . as suas casas de um branco-sujo. iniciou-se um duelo entre Lila e Enzo . 9. para junto de Lila. O professor mandou-o pôr-se de joelhos atrás do quadro . Ali se iniciaram muitos comportamentos de difícil decifração . Enzo levantou-se da última carteira entre risadinhas nervosas . mas existia. como calibrara silêncios e respos­ tas de forma a não se deixar vencer. assim como o bairro . muito determinados . era capaz de do­ sear o uso das suas capacidades . a gritar obscenidades horríveis . também ela estava proibida de fazer desconside­ rações . Fizeram frente um ao outro durante muito tempo . Fora isso que fizera com o filho de dom Achille . e respondia com precisão . Perdeu mas não se conformou . Enzo parecia muito orgulhoso daquele momento de glória. Mas a partir daí o bando dos rapazes começou a atirar-nos pedras . se quisesse . O rapaz dava as respostas em dialecto . suas e dos seus acólitos . O duelo prosseguiu com contas de cabeça cada vez mais difíceis. viu-se claramente que Lila. Enzo por fim perdeu . Começou a pra­ guejar.

com aquelas pestanas compridas . exalava um cheiro a bravio . Subira-lhe um rubor às faces . Ela. quis pensar que tinha sido assim. como acontecera com Lila? Não tinha a certeza. como me desagradara a sua languidez . estreita nas têmporas . porém. que me entristeceu . uma cedência. no dia seguinte apareceu no exterior da escola e disse coisas muito feias a Lila. chegando a ameaçá-la. de incontrolável . Enzo não entrara de propósito na competição em curso . tinha uma cara comprida. mas antes . por conseguinte . diria eu hoje. Mas a coisa mais importante daquela manhã foi ter descoberto que uma expressão que usávamos muito para nos eximirmos aos castigos continha algo de verdadeiro e. nem o humilhara de propósito . Para continuar a amá-lo . De facto . Eu pusera-me de parte porque Alfonso realmente era melhor do que eu .. lânguido . Os factos que daí resultaram convenceram-nos de que era conveniente fazer tudo de propósito . bem penteado . A expressão era: «não o fiz de propósito» . tal­ vez: não foi incapacidade dele . premeditadamente . que era o sinal de uma chama libertada por cada recanto do corpo . mas não vencera tam­ bém Alfonso de propósito . nunca lá punha os pés . iluminara-se como uma santa guerreira. uma após outra. de catorze anos . Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso . Com efeito . aquilo que aconteceu depois atingiu-nos de modo inespera­ do . apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro . Mas cá no fundo tinha certas dúvidas . poucas coi­ sas gaguejara e por fim calara-se . Lila podia tê-lo batido imediatamente .A Amiga Genial 39 calado para permitir que Alfonso desse o seu melhor. O seu irmão Stefano . por ter sido derrotado . que era aprendiz na charcutaria (na antiga oficina do car­ pinteiro Peluso) que pertencia ao pai .o qual . E ele? Houve qualquer coisa que me confundiu . Lila vencera Enzo de propósito . a palidez . Alfonso voltou para casa lavado em lágrimas . pelo contrário . a bonita era eu . Portanto . o roxo que lhe engolira de repente os olhos: como era bonito assim. Também Lila a certa altura me parecera bonita. e todavia . nem desistência. fora só uma passagem necessária. de perigoso . eu era segunda em tudo . para sabermos o que se podia esperar. Geralmente . delicado e nervoso. era seca como uma anchova salgada. A certa altura ela gritou-lhe . Bonito . Como quase nada fora feito de propósito . Aquele gaguejar. e não derrotara Alfon­ so de propósito . caiu-nos em cima uma caterva de coisas imprevistas . Fora deci­ são dele . Mas quando decidira eliminar Alfonso e Enzo . de tal forma que pela primeira vez pensei: Lila é mais bonita do que eu . no entanto decidira apostar no empate .

com orgulho . sem dizer do quê . gritando que queria picar-lha com um alfinete . que o atacou à chapada. fazia um gesto agres­ sivo que significava: para onde estás a olhar? Mete-te na tua vida. mas constou que o pedido de desculpa foi feito em voz alta e de maneira que todos ouvissem. quanto mais ela falava. Rino de manhã foi à procura de Stefano e andaram à luta. um domingo depois da missa Fernando Cerullo . bateu à porta dos Cerullo e fez uma cena de gritos e insultos a Nunzia. nem à mãe . começou a chorar. nem sequer uma palavra de agradecimento pelas . embora dom Achille tivesse continuado a andar. nem aos irmãos . Lila andou uns tempos com a cabeça ligada. com o sangue a pingar de sob os cabelos. 1 0. nem ao pai . também a sangrar. a tia Maria. Por fim esqueceu-se do que lhe acontecera. abeirou-se timidamente de dom Achille e pediu-lhe desculpa. Rino era mais velho . Dias depois a mulher de dom Achille . quando regressava a casa à noite sem o bando dos campónios. que lhe vinha até à fronte por baixo do cabelo . maior. vendo Lila naquele estado . foi trava­ do por Stefano . de modo imprevisto . o sapateiro . que quase nem se defendeu . desceu do aterro e . Passaram-se uns dias e Rino . Pouco tempo depois eu e Lila ferimos Enzo no artelho com uma pedra e Enzo atirou uma pedra que feriu Lila na cabeça. ao murro e a pontapés . nem aos primos . Enquanto eu berrava de medo e Lila se levan­ tava. Nessa altura. e se alguém olhava fixamente para a marca esbranquiçada que lhe ficara na pele.40 Elena Ferrante um insulto muito obsceno . ou pelo menos não me lembro . aproximou-se da escola e deu umas valentes pauladas a Enzo . Entretanto Enzo . graças a ele . Lila voltou para casa e contou tudo ao irmão Rino . Enzo . e. acabaram-se as vinganças . mais vermelho ele se fazia e mais os olhos lhe luziam. Passado pouco tempo . como se o sapateiro não estivesse a falar com ele . e aos nossos olhos incompreensível . um homem baixo e muito magro . Eu não o vi . Depois tirou a ligadura e mostrava a quem lho pedisse a ferida negra e averme­ lhada nos bordos . batendo um no outro mais ou menos por igual . pai de Lila e de Rino . ele empurrou-a contra uma parede e tentou agarrar-lhe a língua. e estava mais motivado . E mais ainda: Enzo não falou dessas pauladas ao seu bando . que trabalhavam todos no campo e vendiam fruta e hortaliça numa carriola. A mim nunca disse nada. o irmão adorado de Lila.

«Agora vais-ma lá buscar. Foi o que nós fizemos . «Aquilo que tu fazes . muito assustada. no meio de tanta bicharada que lá vivia. a boneca que acabara de me entregar. de tal modo que Lila me perguntou em dialecto: «Não te importas?» Não respondi .. ela segurou um bocadinho na minha boneca e eu um bocadinho na dela. Todas as crianças eram tentadas . Sabia que Lila era uma menina muito má. a perda da boneca.uma das meias-portas estava segura por uma única dobradiça . A certa altura co­ meçámos a permitir que elas se encontrassem. havia uma porta já nossa conhecida por onde se ia para as caves . a perda de Lila.» Fomos juntas . embora natural não fosse e sabendo eu que estava a arriscar muito . Era como se estivesse a ser es­ trangulada por dois sofrimentos . o u por lhe ter enxugado o sangue com a ponta da bata. para experimentar. Sustive o desespero . como se fosse natural . Mas a partir dali começou a sujeitar-me a provas de coragem que nada tinham a ver com a escola. faço eu» . e saber que ela estava no fundo da cave . Era uma porta desconcha­ vada . Lila olhou para mim . papagueei imediatamente em voz alta. deixou-me em deses­ pero . mas pensava que a dor de discutir com ela seria ainda mais forte . Limitei-me a atirar para a cave a sua Nu . Mas nesse momento aprendi uma arte em que depois me tornei exímia. um já a ocorrer.» «Só se tu fores buscar a minha. fechada por um ferrolho que mantinha os dois batentes mal unidos . para ver se se davam bem. Gostava da minha boneca de plástico como se fosse o que eu tinha de mais precioso . incrédula. sustive-o na orla dos olhos brilhantes . Mostrávamos as nossas bonecas uma à outra. mas como quem não quer a coisa. Não disse nada. à esquerda. brincando num espaço próximo como se cada uma de nós estivesse sozinha. mas nunca esperaria que me fizesse uma coisa tão maldosa. Víamo-nos cada vez mais no pátio . e outro possível . Para mim a boneca tinha vida. e Lila de repente enfiou Tina pela abertura da rede e deixou-a cair. E assim chegou o dia em que estávamos ao pé da janela da cave que tinha a rede despregada e fizemos uma troca.A Amiga Genial 41 pedras que lhe passara. Sentia uma dor violenta. À entrada do prédio . Abrimos uma nesga . pela possibilidade de forçar a porta apenas o necessário para conseguir passar para o lado de lá. fiz apenas um gesto sem despeito . e ao mesmo tempo amedrontadas . Senti um desgosto insuportável .

mal iluminado pelas pequenas aberturas ao nível da rua. a convenceu a tirá-la do rosto e lançá-la para um canto . Apanhei um grande susto com algo que me pareceu uma cara flácida com uns grandes olhos de vidro . Foram instantes que me ficaram bem impressos na memória. mas devo ter soltado um grito de verdadeiro terror. arredondados . insectos. e inspeccionava o chão com as mãos . não estão aqui . perscrutámos na sombra. o que . com órbitas redondas sem pupilas . Pusera a cara dos olhos de vidro sobre a sua e agora tinha uma cara enorme . gonzos de ferro . pontiagudos . incapaz de ficar ali sozinha a procurar. Eu tinha medo . Aproximámo-nos da parede áspera. cascalho . que se adensou entre as línguas de luz das frestas . alongada por um queixo em forma de caixa. não estão aqui . tinha uma semelhante em casa. Acalmei-me . o pé de um candeeiro . na arrecadação . Uma única vez me pareceu ter visto Tina e . evidentemente . pois ela apressou-se a dizer em voz ribombante que era só uma máscara. com uma expressão desolada. repetiu Lila. localizou a abertura por onde tínha­ mos deixado cair Tina e Nu . Sentia sob as solas das sandálias objectos que rangiam. vidro . encaminhando­ -se para a saída. descemos cinco de­ graus de pedra e chegámos a um sítio húmido. aproximou-se devagar de costas para mim. sem boca. indicando-a a Lila. apenas aquele queixo escuro de rabeca a balançar-lhe sobre o peito . As bonecas não estavam lá. Lila olhou em volta. estendeu a mão com cuidado e arrancou-a da armação . inclinei-me para apanhá-la. que parecia zangada e concentrada em encontrar a boneca. caixas de fruta. Era isso que o pai lhe chamava. Não estão aqui . fundos e painéis de armários . Não tenho a certeza. A pouca luz que penetrava no escuro caía por vezes sobre objectos reconhecí­ veis: o esqueleto de uma cadeira. Ela virou-se bruscamente . primeiro Lila e depois eu . Continuei a tremer e a gemer de medo . Depois voltou-se . grumo­ sa. Senti-me perdida. Passaram-se minutos longos . e gritei .42 Elena Ferrante suficiente para os nossos corpos delgados e flexíveis se esgueirarem para o interior. mas era só uma folha de jornal amachucada. fazendo um grande barulho e levantando pó . uma máscara antigás . Uma vez lá dentro . No cimo dos degraus ela disse: . coisa que eu não tinha coragem de fazer. com um baque do coração. procurei manter-me atrás de Lila. Em redor havia coisas não identifi­ cáveis . Lila repetia em dialecto: não estão aqui . quadrados . vultos escuros . Vi-a pendurada numa armação de madeira. incapaz de me ir embora com ela sem ter encontrado a boneca. Avancei às apalpadelas .

As duas bolas estavam como que aparafu­ sadas às extremidades de uma barra de ferro . as ruas . reduzindo-me a um creme repugnante . fugi para não me perder de Lila. Do outro lado o globo lá no alto . Às vezes tinha a impressão de que . Sofri muito .A Amiga Genial 43 «Dom Achille apanhou-as . Adoeci com febres pueris. lobos das orelhas parecidos com sorvas . o que me entristecia. talvez . durou anos . Sentia-me apertada dentro daquele torno . que as roubara. Tinha ido . Foi antes de eu e Lila experimentarmos subir até à casa de dom Àchille . meteu-as no saco negro . no quarto andar do prédio onde morava dom Achille . já a torcer-se com agilidade e a esgueirar-se pela porta desengonçada. Mas quando estava ainda no começo . o desgosto pela perda de Tina era ainda insuportável . enquanto to­ dos os seres animados em meu redor aceleravam os ritmos da sua vida. Tinha a certeza de ter bochechas como balões . Quando regressei às ruas e à escola. os campos. adoeci de novo . se o apalpasse . e ti­ nha um mau gosto na boca. senti que o espaço também estava mudado. Ficou-me gravada na mente a massa informe de dom Achille a correr por passagens subterrâneas com os braços pendurados . O meu próprio corpo . ou incha­ vam. mãos re­ cheadas de serradura.» E nesse instante ouvi dom Achille a arrastar os pés . a roçar-se pelas formas indistintas das coisas . comprimindo-os . Parecia acorrentado entre dois pólos escuros . me moesse . a caverna assustadora para onde tinham caído as bonecas . juntamente com o aglomerado de coisas e de pessoas do dia-a-dia. que na minha imaginação atravessava obliquamente os apartamentos . o túnel . entrou pela adoles­ cência dentro . uma sensação permanente de náusea que me esgotava. recebi inesperada­ mente a minha primeira declaração de amor. parecia-me tumefacto . cada vez mais apertadas . De um lado a bola de ar subterrânea que pressionava as raízes das casas . Então abandonei Tina ao seu destino . deixando espaços vazios entre a massa interna e a folha da super­ fície . as superfícies sólidas se tornavam moles sob os meus dedos. os carris . melhorei . segurando com os grandes dedos de uma mão a cabeça de Nu e com os da outra a cabeça de Tina. Acreditava em tudo o que ela me dizia. como se o conjunto das coisas assim comprimidas . Foi um mal-estar resistente . pés do feitio de pães redondos. Fui atacada por uma espé­ cie de disfunção táctil. 11.

com a recomendação de nunca o largar. Enzo teve conhecimento e ficou zangado . a filha do pasteleiro . Estava pálido . com o irmãozinho pela mão . como uma barra para me impedir de fugir. testemunha silenciosa da sua proeza.44 Elena Ferrante comprar pão . No entanto . Perto de uma esquina.» Depois perguntou-me se entretanto queria ser namorada dele . Durante um certo tempo deve ter receado que eu contasse às outras meninas . que ela era mentirosa. disse qualquer coisa que não compreendi . e o pão ainda quente contra o peito . ao pé da escola. Após muitos olhares longos e assustados que me lançava de longe . eu própria me esqueci disso . se comportara dessa forma quando Enzo lhe pediu namoro . não posso . apeteceu-me responder: «Não . Tinha cabelo rebelde . Nino fez menção de me ultrapassar. Era um pouco mais alto do que eu . em vez de passar adiante . Não podia saber como eu me sentia desorientada. no italiano da escola: «Quando formos grandes quero casar contigo . . Quantas vezes me aproximara da sua irmã Marisa. quando me apercebi de que Nino Sar­ ratore se arrastava atrás de mim. a proposta que me fizera. Nos dias de Verão a mãe . das casas . olhos intensos com longas pestanas . pescoço alto . do bairro . como o esforço de acompanhar Lila me consumia. gritou-lhe . também ele começou a evitar-me . Claro está que me fez a declaração na hora errada. mas . cortou-me o caminho . que na altura não tinha mais de cinco anos. e com a outra puxou para si o irmão . Embora eu também quisesse casar com ele . quanta angústia me causava a separa­ ção de Tina. depois sorria de novo . me tirava a respiração . Por fim disse pausadamente . sobretudo à sua irmã. só para estar perto dele e fazermos juntos o caminho para casa. A minha mãe tinha-me mandado e estava de volta a casa com o troco bem apertado na mão para não o perder. O esforço que fazia para conter a timidez era impressionante . Lídia. pouco depois da charcutaria dos Carracci . Com o passar do tempo . primei­ ro sorria. Pino deu-lhe um puxão . Fugi . Dali para a frente comecei a meter-me por ruelas sempre que o via. contrariada. até ameaçara matá-la com uma faca. orelhas um pou­ co afastadas da cabeça. até que ponto o espaço comprimido do pátio . mas depois deixei-me disso . depois punha-se sério .» Ele ficou de boca aberta. Sabia-se que Gigliola Spagnuolo . não contei a ninguém . muito magro . nem sequer a Lila quando nos tornámos amigas . achava-o lindo . Também eu senti a tentação de contar tudo . empurrou-me contra a parede e apoiou nela a mão livre . Ofe­ gante . fazia-o sair de casa sempre na companhia de Pino .

perto de uma praça que se chamava Piazza Nazionale . Além de vender fruta e hortaliça. ou para assistirmos ao espectáculo da raiva daquela mulher feia. colchões . que ela tivera um filho de Sarratore e depois o matara? E seria possível que ela se pusesse a gritar coisas horríveis . Parecia que Donato recebera uma casa nova directamente dos Caminhos de Ferro do Estado . Nicola e Donato co­ meçaram a passar cordas . o próprio Nino e também Lídia começaram a trazer coisas para baixo . como eu ouvira murmurar. assoma­ ram-se às janelas .A Amiga Genial 45 Voltou-me à lembrança mais tarde . entre as quais também essa? Todas nós . Lídia Sarra­ tore apareceu vestida como se fosse para uma festa. tendo aos lados as duas filhas . Vi que Lila e Nunzia. e os mesmos olhos azuis e cabelos loiros que o filho Enzo . magra e viúva. talvez para acenarmos um adeus à farm1ia que se ia embora. sua mãe . e acondicionaram tudo na carroça. para prender tudo bem à carroça. a mesma carroça e o mesmo cavalo velho com que ele e ela vendiam fruta e hortaliça pelas ruas do bairro . mas ele parecia ter mais que fazer. bugigangas de todo o género . Assal­ tou-me então .disse a minha mãe . Ouviu-se de repente um barulho de coisas partidas . Empurrava o carrinho com o filho bebé . grandes e pe­ quenas . também fazia mudanças . atarefado a transportar caixas a abarrotar de coisas e senti a culpa. móveis . Como reagiria Melina? Seria verdade . assim que ouviram o ruído das rodas no pátio . Agora ia-se escapulir como um passarinho . para fugir à perseguição de Melina. estávamos à janela. oito ou nove . incluindo a minha mãe e eu . Por fim o desfile de móveis e de trastes acabou . que era da minha idade . Uma manhã apareceu no pátio a carroça e o cavalo que per­ tenciam ao marido de Assunta. como era costume . As mulheres . Donato Sarratore . A minha mãe via sempre o mal onde . de seis . e Clelia. de palha azul. também se debruçavam para ver. para minha grande contrariedade . que lhe quer tirar o marido . Nicola tinha um rosto largo e atraente . pusera até um cha­ peuzinho estivo . sem um motivo concreto . a pena de lhe ter dito que não . Marisa. Procurei o olhar de Nino . um que­ branto que tornava indistinto tudo o que me rodeava. Pensei que talvez ele me tivesse feito a declaração porque já sabia que se ia embora e queria dizer-me antes o que sentia por mim. Era provável . mais cedo ou mais tarde se descobria que o mal de facto existia. Havia uma grande curio­ sidade .foi a mulher que o obrigou à mudança. quando toda a farm1ia Sarratore se mudou . Ou então . Nicola. Olhei para ele . Daí a pouco . e o seu olho estrábico parecia feito de propósito para detectar os movimentos secretos do bairro .

Por pouco . que gritava: mamã.46 Elena Ferrante no segundo andar. Lídia e os três filhos mais pequenos esgueiraram-se também direito ao portão . usava o da minha mãe . Eram gritos de um tal tormento que vi Lila tapar os ouvidos com as mãos. Quando ainda tinha Tina e brincava em casa. antes de mais porque era um palito . não gritava palavras . enquanto Nino parecia sem vontade de se ir embora. espalhando estilhaços por entre as patas nervosas do animal. para junto dos seus bens. e a curiosidade foi tanta que libertei os tímpanos .não o matou . Era um ferro de engomar. como que hipnotizado pela quantidade de ob­ jectos frágeis atirados contra o asfalto . em forma de proa. a segunda filha de Melina. dela não aparecia um braço nem uma mão ao atirar as coisas . copos . Gigliola Spagnuolo recebia constan­ temente propostas de namoro e eu também era muito requisitada. Melina. parecia que voavam da janela por vontade pró­ pria. como se estivesse ferida. não . uma cara de desnor­ teamento . O objecto despenhou-se em voo picado e com um baque seco fez um buraco no chão . Ao rés da parede . como se precisasse de sons nítidos para compreender. mas também por ter a língua afiada. e dom Nicola segurava o cavalo pelo freio enquanto as coisas tombavam no asfalto. porca e sempre com feridas . porém. Ecoou também a voz dolorosa de Ada. embora com a professora exibisse vocábulos da língua . garrafas . ressaltavam e se quebravam. pratos . e Donato subiu para a carroça. Por último vi voar da janela uma espécie de mancha negra. a poucos centímetros de Nino . Entretanto a carroça pôs-se em movimento . Quase ao mesmo tempo . e na rua Lídia Sarratore caminhava de cabeça baixa. Inventava alcunhas humilhantes e. Após um instante de hesitação também eu tapei os ouvidos . Procurei Lila com os olhos . Deve ter percebido que olhava para ela e desapareceu logo da janela. e ela nunca me disse se isso lhe dava desgosto. Mas entretanto começaram a voar objectos da jane­ la. idêntico. Panelas de cobre . ferro puro: manípulo de ferro e base de ferro . apenas «aaah . Melina começou a gritar. Nenhum menino alguma vez declarou o seu amor a Lila. Não a víamos . aaah» . curvada sobre o carrinho . sem um adeus para ninguém. E vi-lhe outra cara. 1 2. mamã. Mas Lila não agradava. fazendo de conta que era um navio numa tempestade .por muito pouco . com as filhas atrás .

Senti que se ela me desse a prenda que recebera de Enzo . estendeu a Lila uma coroa de sorvas . mas tínhamos sempre uma risada para tudo o que nos acontecia. Muito depois de lhe ter partido a cabeça com a pedra. Enzo nunca mais lhe deu presentes .» «Verdes?» «Deixa-as amadurecer. Ela própria espetou o prego na janela. era no entanto um sinal de admiração e de respeito. Mas não o fez . Vi-a pendurar nele a coroa. não sendo propriamente um pedido de namoro. em tom divertido: «Eu gosto de sorvas . e recordo ainda a sensação de traição quando as levou para casa. cheio de palavrões .» «Não as quero . nem lhes tocava. a sua dureza que resplandecia nos dias de sol . Eu e Lila come­ çámos a rir. Atraía-me a cor ver­ melho-amarelada de quando ainda estavam verdes . pondo à vista uma polpa granulosa que não sabia mal . era demasiado preguiçoso . parece-me. ele seguiu-nos pela rua larga e . por isso o professor não o propôs para o exame de admissão . mas que se desfazia de uma maneira que me fazia lembrar as carcaças dos ratos que encontrávamos na rua. e a pele se ti­ rava facilmente . Só Enzo fez uma coisa que. Disse-lhe apenas . que matava à nascença qualquer sentimento amoroso . connosco falava só um dialecto desprezí­ vel. «Ü que faço eu a isto?» «Come-as . Enzo virou costas e correu para o trabalho . . Pouco falávamos . que contara a toda a gente que ele se lhe declarara. Embora tivesse mostrado ser muito hábil com as contas de ca­ beça.» «Deita-as fora. perante os meus olhos incrédulos . fica tu com elas . até se alegrou . e antes . de ser rejeitado por Gigliola Spagnuolo. Mas quando amadureciam às janelas e se tornavam castanhas e moles como pequenas peras secas . aliás .A Amiga Genial 47 italiana que ninguém conhecia. era um fruto que não apreciava. e ele não ficou triste por isso . Depois da altercação com Giglio­ la. Disse aquela frase para fazer uma experiência. esperando que Lila mas oferecesse: toma. 13. eu ficaria mais contente do que se ela me oferecesse uma coi­ sa sua.» Foi tudo . vimo-lo· cada vez menos .» Estava a mentir.

os de Gigliola e os de Lila. A pro­ fessora chamou por turnos os meus pais. que era porteiro e sabia ter boas maneiras . e até desenhos muito coloridos que na aula. que fosse antes ele. apresentou­ -lhe composições maravilhosas . vestidos e sapatos nunca vistos em livro nenhum. mas sempre na condição de eu ser óp­ tima aluna. para ir com o pai ao mercado da fruta e da hortaliça ou para correr as ruas do bairro com a carroça. perguntou o meu pai . vendendo produtos do campo . também o exame de admissão à escola média. Nem era in­ tenção deles ir falar com a professora. com um olho dançarino e sempre cheia de raiva. surripiando lápis de cor Giotto .» Discutiram muito . para lhes dizer que nós devíamos fazer sem falta. Mas quando a recusa se confirmou . senão tiravam-me imediatamente da escola. mas ela fez com que o director os mandasse chamar. «Para ela poder estudar Latim. além do exame final da instrução primária. falou com a professora e regressou a casa carrancuda. «A professora quer dinheiro . depois .» «Mas porquê?» «Porque disseram que ela é inteligente . nem no cinema paroquial . quando Lila os fazia. porque é que a professora tem de lhe dar aulas pagas?» «Porque assim ela viverá melhor e nós pior. Não consegui . a professora Oliviero . Foi ela. jóias .48 Elena Ferrante Inscreveu-se na escola comercial . Nunzia Cerullo fez algumas tentativas com pouca convicção . Mas nós . coxa. problemas resolvidos com inteligência. Diz que tem de lhe dar aulas extraordi- nárias . Levantava-se muito cedo .» «Mas se é inteligente . pois ela. mas na verdade já trabalhava com os pais . Perante a sua tímida mas firme recusa. mas o pai nem quis discutir o assunto . severa mas calma. nos encantavam a todas . finalmente deci­ diram deixar-me fazer o exame . fomos informadas de que tínhamos capacidades para continuar a estudar. quando estávamos quase a terminar a quinta classe . Eu estudei todas as maneiras de convencer o meu pai a não mandar à escola a minha mãe . de modo que Nunzia teve de ir. a professora perdeu a calma e arrastou a mãe de Lila até . A princípio a minha mãe estava contra e o meu pai indeciso. e deu uma bofetada a Rino por ele lhe dizer que fazia mal . por isso depressa se desligou da escola. Mas os pais de Lila disseram que não . porque o exame é difícil» «Mas para que serve esse exame?» . desenhava com realismo princesas com penteados . o meu pai mostrou-se cautelosamente a favor e a mi­ nha mãe resignou-se a ser um pouco menos contrária.

Queríamos que dom Achille nos devolvesse as nossas bonecas . diante dela qual­ quer proibição perdia consistência. do que Stefano . trazia um roupão verde desbotado . eu do lado da parede e ela do lado do corrimão . mas eu a cada degrau tinha vontade de virar costas e voltar para o pátio.A Amiga Genial 49 ao director. a professora e o director se cansarem. Lila disse-me no tom habitual: mas eu faço o exame na mesma. Quando falou. Portanto foi repetindo que não até ela própria. e dá-me prazer pensar que ela o fez não só porque pressentiu que eu não teria coragem de ir até ao último andar. Sabia como passar dos limites sem nunca chegar a sofrer as consequências . Em frente da porta de dom Achille o meu coração batia com força. foi naquela ocasião que me convenci que nada podia detê-la. Acreditei . mas também porque ela própria. mais forte do que os nossos pais. Todos acabavam por se dar por vencidos e ainda por cima. procuramos dom Achille . Dentro do apartamento ouviam-se vozes . se sentiam na obri­ gação de elogiá-la. Apesar do seu aspecto frágil . depois ouviu-se chinelar. Aliás . 14. depois de uma longa espera muda em frente da porta. Também era proibido ir a casa de dom Achille . sentia-o nos ouvidos . de Stefano ou de Pinuc­ cia. pois todos sabiam que era inútil proibi-la de alguma coisa. mais forte do que o irmão Rino . procurava ter ânimo para continuar. do que Alfonso . não tinha autorização do marido . mais forte do que Enzo . as mãos suadas bem apertadas . como se fosse uma aluna indisciplinada. quando íamos para a escola. Lila disse-lhe em dialecto: «Não . girou o botão da campainha. Parecia ser a mais forte das meninas . mas ela decidiu fazê­ -lo na mesma e eu fui atrás dela. Lila. vi-lhe na boca um dente de ouro muito brilhante . No dia seguinte . Mas Nunzia não podia ceder. subimos os últimos lanços . de cortar a respiração . Ainda sinto a mão de Lila a agarrar a minha. e cada acto seu de desobediência tinha desfechos espantosos . ao lado uma da outra. com aquele gesto . Pensou que procuráva­ mos Alfonso . estava um tanto admirada. talvez de Alfonso.» . embora de má vontade . Dona Maria abriu-nos a porta. Por isso subimos as escadas . mas consolei-me pensando que era também o som do coração dela. Assim. incluindo a professora e os carabinieri. que nos podiam meter na cadeia. mais forte do que todos os adultos . Fez-se silêncio .

ao ouvir estas últimas palavras . disse Lila.» Houve um instante de silêncio . mas nor­ mal . mas não tanto como imaginara. Achei-o feio .» «Alfõ . «Então?» «As bonecas» . Eu nem podia crer que estávamos ali diante de dom Achille . pernas curtas . e meteu-as no seu saco negro . comprido . braços que lhe chegavam aos joelhos e um cigarro na boca. franziu a testa. apanhaste a boneca da filha do sapateiro?» «Eu não . «Vocês . o alto da cabeça brilhava. e só tinha algum cabelo desgrenhado por cima das orelhas .» Dom Achille virou-se e gritou para o interior do apartamento: «Piou . . a mim?» . «Sim.» «Não precisamos aqui das vossas bonecas . um pouco baixo . pela primeira vez . Não podia crer que ele era uma pessoa normal .» Mais chinelar. Tinha o tron­ co alto .» «É com ele que temos de falar. Tinha olhos luzidios . Lila disse com firmeza. apanhaste-a tu?» Risotas . com o branco coberto de riachos verme­ lhos . um pouco calvo . um pouco desproporcionado .50 Elena Ferrante «Diz-me a mim. via-se a brasa. e a tia Maria a pôr a mesa para o jantar. Stefano e Pinuccia. vimo-lo bem. «Que bonecas?» «As nossas . Por isso esperava que de um momento para o outro ele se transfor­ masse .» A mulher gritou: «Achl . O rosto era de carne . a boca era grande e delgada. nós vimo-lo . e que ao fundo entrevíamos Alfonso . não sei onde foi buscar tanta coragem: «0 senhor é que as apanhou . o queixo volumoso com uma cova ao centro . e que Lila falava com ele daquele modo e ele olhava para ela perplexo .» «0 senhor apanhou-as lá em baixo na cave . Uma figura opulenta surgiu da penumbra.» O homem.» Dom Achille chegou à luz e. aborrecido . Perguntou em voz rouca: «Quem é?» «A filha pequena do sapateiro com a filha do Greco . Nada de minerais nem cintilar de vidros . perguntou dom Achille .

à espera que ele tirasse de lá uma faca . como se estivesse a ter a confirmação de uma coisa que já sabia. Gigliola Spagnuolo e eu começámos a ir a casa da professora. Disse algo em dialecto que não percebi . Lila arrancou-lhe o dinheiro da mão e arrastou-me pela escada abai- xo .» Eu disse em italiano.» Mas entretanto . Gosta­ va daquelas aulas particulares . olhou lá para dentro e entregou algum dinheiro a Lila. atenta para não cair nas escadas : «Boa noite e bom apetite . os postes da linha férrea.» «Vou já.A Amiga Genial 51 Dom Achille repetiu . na mesma turma que eu . A professora morava mesmo ao lado da igreja paroquial da Sagrada Famí­ lia. os pais não tinham concordado em pagar à professora. Lila nunca foi . Ele debruçou-se do corrimão e resmoneou : «E lembrem-se de que fui eu que as ofereci . está pronto . as janelas davam para os jardins da igreja e dali avistava-se . Logo a seguir à Páscoa. disse . não me recordo quanto . Mas ela. saía a correr.» Dom Achille levou uma mão grande e larga ao bolso de trás das cal­ ças . e Maria gritou: «Achi . como agora éramos muito amigas . com o dinheiro de dom Achille comprou um roman­ ce : Mulherzinhas . abriu-o . «Vão comprar bonecas» . Eu já estava pronta. parece-me . para lá dos campos . continuava a dizer-me que ia fazer o exame e que iria para o primeiro ano da escola média. mas sim desgostoso de repente .» 15. no fim da aula. Decidiu comprá-lo porque já o conhecia e gostara . como se quisesse perceber bem o sentido das palavras: «Eu peguei nas vossas bonecas e meti-as no saco negro?» Senti que ele não ficara zangado . A professo­ ra. para nos prepararmos para o exame de admissão . oferecia-nos bolinhos secos em forma de coração e uma gasosa. duas por semana. Gigliola passava por baixo das minhas janelas e chamava-me . Nós apertámos as mãos com força. «E os livros?» «Emprestas-mos tu . Mas afinal tirou o porta-moedas .

protegia-a. Chegava. Mas era o nosso livro . . esfrangalhado . tinha onde comer. pegámos nele e fomos perguntar à Iolanda da papelaria. O seu raciocínio era: levanto-me às seis. e a mim calhara Coração . venho para a loja e trabalho até às oito da noite. ou umas meias-solas. com a seguinte frase a acompanhar: «Este é para as mais crescidas . Eu não conseguira lê-lo . se chegava. zangava-se se a apanhasse a ler. Rino tinha uma cama onde dormir. Tu daqui a pouco sabes apenas pôr uns saltos novos ou uma orla. Então . e não tarda muito serás capaz de fazer um sapato inteiro . começaram a cair fios e a soltar-se os cadernos . ao sítio onde tínhamos enterrado o dinheiro de dom Achille numa caixinha de metal . Começavam a falar de dinheiro e acabavam a litigar por causa de Lila. Eu era a guardiã. porque Lila não se sentia à vontade para tê-lo em casa dela. principalmente ao jantar. tinha-o em casa no meio dos livros da escola. Andámos a lê-lo durante meses . quero ter um salário. Fernan­ do Cerullo respondia-lhe com aparente paciência: «Eu já te pago. perdeu a lombada. A ela calhara-lhe Mulherzinhas . dentro do prazo estabelecido pela professora para devolução . que tinha na montra sei lá desde quando um exemplar de Mulherzinhas amarelecido pelo sol . pago-te generosamente ensinando-te o ofício completo . uma da outra. porém. sem uma só palavra que me explicasse do que se tratava. e não empobrecê-la. achava in­ justo trabalhar tanto como o pai e não receber um centavo . mas está bem para ti» . tantas e tantas vezes que o livro ficou sebento .» Mas esse pagamento com base no ensino não era bas­ tante para Rino . Nessa altura Rino teria uns dezasseis anos . era um rapaz muito nervoso e iniciara uma batalha pessoal para ser pago pelo trabalho que fazia. co­ meçámos a encontrar-nos no pátio para lê-lo . ao lado . Lila. gostávamos muito dele . terminara Cuo­ re a custo . para que queria dinheiro? A sua obrigação era ajudar a fannlia. ainda o sou . fomos ao paul . Mas essas palavras escandalizavam o pai e a mãe. por isso discutiam. nos últimos tempos . ele e o pai discutiam constantemente . Na quarta classe a professora Oliviero tinha dado às melho­ res alunas livros para lermos . Mas o rapaz insistia. Rino. Rino . Chamou-me da rua. Era uma leitora vagarosa. quando teve de restituir o livro à professora. Por isso uma manhã decidiu-se . ou em voz alta. na opinião dela Mulherzinhas era muito bonito .52 Elena Ferrante muito dele . ou em silêncio . e dizia que não havia comparação . Lila havia lido Mulherzinhas e Coração em pouco tempo . o teu pai está a ensinar-te tudo o que sabe. lamentou-se de não poder continuar a reler Mulh er­ zinhas e de não poder falar comigo sobre o livro . Quando houve a questão do exame de admis­ são . O pai . Assim que nos tomámos proprietárias do livro .

Depois . mostrava-se convencida de que Rino havia de ganhar. Ela nunca mo disse . sobre a questão do estudo era como falar com uma parede . as coisas alte­ raram-se e começámos a associar os estudos ao dinheiro . para o estojo. profundamente . por razões que eu não com­ preendia. Mas o que se havia de fazer. Dizia que ele era todo cheio de gentilezas . Adorava-o. e até para as canetas . viviam todos da pequena oficina de sapateiro . sem chorar. dizia Rino . não cabia na sua maneira de ver que ela continuasse a estudar. dir-se-ia que a riqueza estava escondida em qualquer sítio do bairro . e ainda duas irmãs solteiras de Fernando . dentro de arcas que quando se abriam soltavam clarões . para os lápis de cor. à espera de que a encontrássemos . Disse-me que quando acabasse de estudar queria ganhar muito dinheiro . não sei porquê . mas ficou-me a impressão de que enquanto eu odiava a minha mãe . e também os pais de Nunzia. há-de estudar?» O assunto encerrava-se quase sempre com uma bofetada na cara de Rino . Tinha a certeza de que o irmão também lhe daria dinheiro para os livros escolares . Dizíamos que quando fôssemos ricas faríamos isto e faríamos aquilo . que é rapariga. Lila ficava calada durante aquelas discussões . O rapaz . encarrego-me de a mandar estudar» . e a mãe ao fim e ao cabo era da mesma opinião . .» «E tu estudaste?» «Não . «Estudar? Porquê? Eu estudei?» «Não . A farru1ia era nume­ rosa. pedia desculpa com voz rancorosa. Só o irmão pensava de maneira diferente e lutava corajosamente contra o pai . Ouvindo-nos . quando precisava de fazer contas . «Se for preciso pagar propinas . mesmo sem querer. Conse­ guiria ter um salário e com o seu dinheiro lhe pagaria a escola. Por isso . para o mapa-múndi . ela apesar de tudo não tinha rancor ao pai . dizia-me .» «Então porque é que a tua irmã. faltara ao res­ peito ao pai . naquele último ano da primária. dizia que o ouvira dizer aos amigos que a filha dele era a pessoa mais inteligente do bairro . A riqueza. Falávamos dela como nas histórias se fala da busca de um tesouro . E Lila. dizia que ele . a bata e o laço . Pensámos que .A Amiga Genial 53 «Se me pagares . lhas mandava fazer a ela. com o único objecti­ vo de fazer do irmão a pessoa mais rica do bairro . que de uma forma ou de outra. e odiava-a mesmo . dizia que no dia do santo do seu nome era ele próprio que lhe levava chocolate quente à cama e quatro bolachas . ele paga-mas» . E tam­ bém não cabia nas suas possibilidades financeiras . tomou-se a nossa ideia fixa.

54 Elena Ferrante

se estudássemos muito , seríamos capazes de escrever livros e que os
livros nos tomariam ricas . A riqueza continuava a ser um resplendor de
moedas de ouro fechadas dentro de inúmeras arcas , mas para a alcançar
bastava estudar e escrever um livro .
«Escrevemos um juntas» , disse Lila uma vez , o que me encheu de
alegria.
Talvez a ideia tenha tomado forma quando ela descobriu que a autora
de Mulherzinhas ganhou tanto dinheiro dessa maneira que deu um pou­
co da sua riqueza à fanu1ia. Mas não garanto . Falámos sobre isso , disse­
-lhe que podíamos começar logo depois do exame de admissão . Concor­
dou , mas não conseguiu resistir. Enquanto eu tinha muito que estudar,
ainda mais por causa das aulas da tarde com a Spagnuolo e a professora,
ela tinha mais tempo livre; meteu mãos à obra e escreveu um romance
sem mim.
Fiquei magoada quando ela o trouxe para eu ler, mas não disse nada,
contive a desilusão e elogiei-a muito . Eram dez folhas de papel quadri­
culado, dobradas e presas com um alfinete de costureira. Tinha uma capa
desenhada a lápis de cor e lembro-me do título . Chamava-se A Fada
Azul, era apaixonante e cheio de palavras difíceis. Disse-lhe que o desse
a ler à professora. Não quis . Implorei-lhe , ofereci-me para ser eu a
entregar-lho . Com pouca convicção , fez sinal que sim.
Um dia, quando estava em casa da professora para a aula, aproveitei
a ida de Gigliola à casa de banho e tirei da pasta A Fada Azul. Disse que
era um romance muito bonito escrito pela Lila e que ela queria que a
professora o lesse . Mas a professora, que nos últimos cinco anos sempre
se entusiasmara com tudo o que Lila fazia, à parte as maldades , respon­
deu friamente:
«Diz à Cerullo que faria bem em estudar para o exame da primária,
em vez de perder tempo» . E embora ficasse com o romance de Lila,
deixou-o em cima da mesa sem sequer olhar para ele .
Aquela atitude desorientou-me . O que é que acontecera? Zangara-se
com a mãe de Lila? Tinha alargado a zanga a Lila também? Estava abor­
recida por causa do dinheiro que os pais da minha amiga não lhe tinham
querido dar? Não compreendi . Uns dias depois , cautelosamente , per­
guntei-lhe se já lera A Fada Azul. Respondeu-me num tom insólito , de
modo pouco claro , como se só eu e ela fôssemos capazes de perceber.
Tenho as frases bem gravadas na memória.
«Sabes o que é a plebe , Greco?»
«Sim. A plebe , os tribunos da plebe , os Gracchi.»

A Amiga Genial 55

«A plebe é uma coisa muito feia.»
«Sim.»
«E se uma pessoa quer continuar a ser da plebe , ela , os filhos, os fi­
lhos dos filhos, nada merecem. Esquece a Cerullo e pensa em ti .»
A professora Oliviero nunca mais disse nada a respeito de A Fada
Azul. Lila pediu-me notícias duas ou três vezes , depois não fez mais
caso . Disse , pesarosa:
«Assim que tiver tempo escrevo outro , aquele não era bom.»
«Era maravilhoso.»
«Metia nojo .»
Mas tomou-se menos vivaça, sobretudo nas aulas , provavelmente
porque percebeu que a professora já não a elogiava, por vezes até se
mostrava incomodada com o seu excesso de qualidades . Quando se
realizou a competição do final do ano ela foi a melhor, mas sem o atre­
vimento de outros tempos . Para terminar o dia, o director apresentou a
quem estava ainda em competição - Lila, Gigliola e eu - um proble­
ma dificílimo que ele mesmo inventara. Gigliola e eu esforçámo-nos
sem resultado . Lila reduziu os olhos a duas gretas como era costume e
concentrou-se . Foi a última a capitular. Disse em tom tímido , insólito
nela, que o problema não se podia resolver porque havia algo errado no
enunciado , mas não sabia dizer o quê . O que ela foi dizer ! A professora
deu-lhe uma grande ensaboadela. Vi Lila no quadro com o giz na mão ,
franzina, muito pálida, a ser atingida por rajadas de frases cruéis . Sentia
o sofrimento dela, não conseguia suportar o tremor do seu lábio inferior
e pouco faltou para eu desatar a chorar.
«Quando não sabemos resolver um problema» , concluiu a professora
com frieza, «não dizemos que o problema está errado , dizemos que não
somos capazes de o resolver.»
O director ficou em silêncio . Tanto quanto me lembro , o dia termi­
nou ali .

16.

Pouco antes do exame final da primária, Lila desafiou-me para fazer
outra das muitas coisas que eu nunca teria tido coragem de fazer sozi­
nha. Decidimos não ir à escola e atravessar as fronteiras do bairro .
Nunca acontecera. Tanto quanto conseguia lembrar-me , nunca fora
além dos prédios brancos de quarto andar, do pátio , da igreja paroquial ,

56 Elena Ferrante

dos jardins , nem alguma vez sentira o impulso de fazê-lo . Passavam
comboios constantemente do lado de lá dos campos , automóveis e ca­
miões circulavam de um lado para o outro na rua larga, mas não me
lembrava de uma só vez ter perguntado a mim mesma, ou ao meu pai ,
ou à professora, para onde iam os automóveis , os camiões , os comboios ,
para que cidade , para que mundo?
Lila também nunca se mostrara particularmente interessada, mas
daquela vez organizou tudo . Recomendou-me que dissesse à minha mãe
que depois das aulas iríamos todas a casa da professora a uma festa de
final de ano escolar, e apesar de eu tentar recordar-lhe que as professo­
ras nunca tinham convidado as alunas todas para ir a suas casas fazer
uma festa, ela disse que precisamente por isso é que devíamos dizer
aquilo . O acontecimento pareceria tão excepcional que nenhum dos
nossos progenitores teria o atrevimento de ir à escola perguntar se era
verdade ou não . Confiei , como sempre , e correu precisamente como ela
dissera. Em minha casa todos acreditaram, não só o meu pai e os meus
irmãos, como também a minha mãe .
Na noite anterior não consegui dormir. O que haveria para além do
bairro , para além do seu perímetro que tão bem conhecia? Atrás de nós
elevava-se uma colina densamente arborizada e uns escassos edifícios
junto dos carris cintilantes. Na nossa frente , para lá da rua larga, esten­
dia-se uma rua toda esburacada que bordejava os pauis . À direita, quan­
do se saía do portão , havia uma faixa de terras sem árvores por baixo de
um céu enorme . À esquerda havia um túnel com três bocas , mas se
trepássemos até aos carris da linha férrea, nos dias limpos via-se , depois
de algumas casas baixas e muros de tufo e uma vegetação cerrada, uma
montanha azul com um cume mais baixo e outro um pouco mais alto ,
que se chamava Vesúvio e era um vulcão .
Mas nada daquilo que tínhamos diante dos olhos todos os dias , ou que
podíamos avistar se subíssemos a colina, nos impressionava. Habituadas
pelos livros da escola a falar com muita competência daquilo que nunca
tínhamos visto , o que nos excitava era o invisível . Lila dizia que mesmo
na direcção do Vesúvio era o mar. Rino , que já lá fora, contara-lhe que
era feito de água azul e cintilante , uma beleza de espectáculo . Ao domin­
go , principalmente no Verão , mas também muitas vezes no Inverno , ele
corria para lá com os amigos para ir tomar banho , e prometera-lhe que a
levava. Não era ele o único que tinha visto o mar, evidentemente , outros
nossos conhecidos também o tinham visto. Uma vez Nino Sarratore e a
sua irmã Marisa falaram-nos do mar, num tom de quem achava normal

A Amiga Genial 57

ir lá de vez em quando comer biscoitos e marisco . Gigliola Spagnuolo
também já lá estivera. Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais
que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de
passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim,
faltava-lhes tempo , faltava-lhes dinheiro , faltava-lhes vontade . Na verda­
de parecia-me que tinha uma vaga lembrança azulada do mar, a minha
mãe dizia que me levara com ela em pequena, quando ia fazer banhos de
areia à perna ofendida. Mas eu pouco acreditava na minha mãe , e com
Lila, que nada sabia a tal respeito , eu admitia que também nada sabia. De
modo que ela planeou fazer como Rino , pôr-se a caminho e chegar lá
sozinha. Convenceu-me a ir com ela. No dia seguinte .
Levantei-me cedo , fiz tudo como se fosse para a escola, as sopas de
pão no leite quente, a pasta, a bata. Esperei por Lila em frente do portão
como sempre , só que , em vez de irmos para a direita, atravessámos a rua
larga e seguimos para a esquerda, na direcção do túnel .
Era de manhã cedo e já fazia calor. Havia no ar um odor forte a terra
e a erva que enxugavam ao sol . Subimos por entre arbustos altos , por
veredas incertas que se dirigiam para os carris . Chegámos a um poste de
electricidade , tirámos as batas e metemo-las nas pastas , que esconde­
mos no meio das moitas . Depois corremos pelos campos que conhecía­
mos bem e voámos excitadas por um declive que nos levou até ao túnel .
A boca da direita era muito escura, nunca tínhamos penetrado naquela
obscuridade. Demos as mãos e seguimos . Era uma passagem comprida,
o círculo luminoso da saída parecia distante . Quando nos habituámos à
penumbra vimos , aturdidas pelo ribombar dos passos , as linhas de água
prateada que deslizavam pelas paredes e as enormes poças . Prossegui­
mos , muito tensas . Lila soltou um grito e riu-se da explosão violenta dó
som. Depois gritei eu_ e ri-me também. A partir daí não fizemos senão
gritar, ao mesmo tempo e em separado . Risadas e gritos , gritos e risadas ,
só pelo prazer de os ouvir ampliados . A tensão afrouxou , começou a
viagem.
Tínhamos diante de nós muitas horas durante as quais nenhum dos
nossos familiares nos procuraria. Quando penso no prazer de ser livre,
penso no início daquela jornada, quando saímos do túnel e nos encontrá­
mos numa estrada sempre a direito a perder de vista, a estrada que , segun­
do o que Rino dissera a Lila, temos de percorrer toda para chegar ao mar.
Senti-me exposta ao desconhecido com alegria. Nada que fosse compará­
vel com a descida às caves ou a subida até casa de dom Achille. Estava
um sol nebuloso , um forte cheiro a queimado . Caminhámos muito tempo

58 Elena Ferrante

entre muros desmoronados invadidos pelas ervas , edifícios baixos de
onde vinham vozes em dialecto , por vezes um clangor. Vimos um cavalo
descer cautelosamente uma ladeira e atravessar a estrada a relinchar. Vi­
mos uma mulher jovem debruçada de uma varanda, a pentear-se com o
pente fino para os piolhos . Vimos um grupo de garotos ranhosos que pa­
raram de brincar e nos olharam com ar ameaçador. Também vimos um
homem gordo em camisola interior, que saiu de uma casa em ruínas , abriu
as calças e nos mostrou o pénis. Mas não tivemos medo de nada: Dom
Nicola, o pai de Enzo , às vezes deixava-nos fazer festas ao cavalo, os
garotos também no nosso pátio eram ameaçadores , e havia o velho dom
Mimi que nos mostrava o seu coiso asqueroso sempre que vínhamos da
escola. Durante pelo menos três horas de caminho a grande estrada que
percorríamos não nos pareceu diferente do segmento que víamos todos os
dias . E não senti a responsabilidade do caminho certo . Íamos de mão
dada, avançávamos lado a lado, mas para mim, de acordo com o que era
costume, era como se Lila fosse dez passos à minha frente e soubesse com
precisão o que fazer, por onde ir. Estava habituada a sentir-me segunda
em tudo , por isso estava certa de que para ela, que desde sempre era a
primeira, tudo era claro: o passo , a contagem do tempo de que dispúnha­
mos para ir e voltar, o percurso para chegar ao mar. Para mim era como
se ela tivesse tudo arrumado na cabeça, de tal modo que o mundo em
volta não conseguiria criar desordem. Abandonei-me com alegria. Lem­
bro-me de uma luz difusa que não parecia vir do céu e sim das profunde­
zas da terra, mas que vista à superfície era fraca, feia.
Depois começámos a ficar cansadas , a ter sede e fome . Nisso não tí­
nhamos pensado . Lila abrandou o passo , e eu abrandei também. Surpre­
endi-a duas ou três vezes a olhar para mim como se estivesse arrepen­
dida de me ter feito uma maldade . O que se passava? Reparei que se
virava muito para trás e comecei a virar-me também . A mão dela come­
çou a suar. Há muito tempo que se deixara de ver atrás de nós o túnel ,
que era a fronteira com o bairro . A estrada já percorrida era-nos pouco
familiar, tal como a que continuava a abrir-se diante de nós . As pessoas
pareciam totalmente indiferentes à nossa sorte . E entretanto ia surgindo
à nossa volta uma paisagem de abandono: bidões amolgados , madeira
queimada, esqueletos de automóveis , rodas de carroça com os raios
partidos , móveis semidestruídos , ferragens ferrujentas . Porque olhava
Lila para trás? Porque deixara de falar? O que é que não corria bem?
Olhei melhor. O céu , que a princípio estava muito alto , era como se
tivesse baixado . Atrás de nós estava a ficar tudo negro , viam-se nuvens

Tinha a boca aberta. os olhos assustados . atravessámos os cam- . Ouviram-se trovões ao longe . Será possível . Depois não conseguimos mais . que ela também tenha medo? O que se passa com ela? As primeiras grandes pingas chegaram. nova para mim. levantando ondas de lama. primeiro debaixo de grandes báte­ gas . Nenhuma de nós se lembrou de procurar abrigo . trovejou com mais força. pousadas por cima das árvores e dos postes da luz .qualquer coisa que ela tinha na ponta da língua mas não se resolvia a dizer-me . e quer voltássemos para casa. Estávamos ensopadas . mas o que mais me assustou foi a expressão de Lila. mas parecia ser pressionada dos lados por um cinzento violáceo prestes a sufocá-la. quer continuássemos em frente . disse Lila. «Voltemos» . os pés nus dentro das sandálias gastas . cegas pela chuva. «E o mar?» «É longe de mais. camiões ruidosos passa­ vam. Relâmpagos . Uma luz violácea fendeu o céu escuro . Por que razão não prosseguíamos? Tínhamos tempo . Passámos de novo pelo túnel . e por fim sob um céu cinzento .» «E a casa?» «Também. um rio de água corria de cada lado da estrada. olhava nervosamente para a frente .que de repente a impeliu a arrastar-me para casa à pressa.» «Não . foi com pouca convicção que corri na direcção do bairro . À nossa frente . abrandámos . Lila deu-me um puxão . perguntei-me . depois sob uma chuva miudinha.» «Porquê?» Vi-a agitada como nunca vira.A Amiga Genial 59 grossas . no espaço de poucos segundos transformaram-se numa cascata de água. pesadas . a luz ainda encandeava. Fizemos o caminho em passo rápido . Corremos . Havia qualquer coisa . o mar não devia estar longe . para o lado . Senti medo . pelo contrário. Era um esquema de raciocínio que aprendera com ela e admirava-me que não o pusesse em prática. com o coração em tumulto . se chovesse molhávamo-nos na mesma. os olhos arregalados . que não ade­ riam ao terreno enlameado . velozes. os vestidos de repente ensopados . Corremos até ficar sem fôlego .» «Então vamos até ao mar. e apertava-me a mão com força. trovões . as pingas engrossaram ainda mais . Não percebi . para trás . os cabelos colados à cabeça. os lábios roxos . Levan­ tou-se vento . bateram na poeira da estrada e formaram manchas castanhas .

Ele enervou-se . Lila não voltou a dar-me a mão . No bair­ ro . «Só te bateram?» «Que mais haviam de me fazer?» «Ainda te vão mandar estudar latim?» Olhei para ela. Devíamos ter ido ao mar e não fomos . No dia seguinte não a esperei ao portão . teria prosseguido caminho . Primeiro ele deu-lhe uma bofetada e depois . já não me mandassem para a escola média? Ou trouxera-me para trás a toda a pressa justamente para evitar esse casti­ go? Ou . perplexa. quis regressar aos confins do bairro . e começaram a discutir. ela descobriu as nódoas negras nos meus braços e perguntou-me o que acontecera. Quando avistei ao longe a sua figura a coxear. Eu . Durante toda a noite tentei perceber o que tinha de facto acontecido . renunciara ao mar. Encontrámos as pastas .ex­ tinguia em mim todos os vínculos e todas as preocupações. e a distância . pois não queria fazê-lo . A minha mãe fora até lá com o guarda-chuva. irritado consigo mesmo . o céu fizera-se negro à hora da saída da escola. Lila de re­ pente arrependera-se do plano que concebera. fazendo-nos es­ tremecer. Ao serão a minha mãe contou tudo ao meu pai e obrigou-o a bater­ -me . apesar d a chuva. sentia-me longe de tudo e de todos . Descobrira que eu não me encontrava na escola e que não havia festa nenhuma. Tensa.60 Elena Ferrante pos . Lila pirou-se .interrogo-me hoje . as coisas agora estavam assim. Encolhi os ombros. Não conseguia compreender. Nem me deixou falar. deu-mas pela medida grande . corri-lhe imediatamente ao encontro deixando Lila para trás . gritando que me mata­ va se eu voltasse a fazer algo daquele género . encaminhámo-nos para casa. e eu levara tareia por nada. Havia horas que me procurava.desejara uma coisa e outra em momen­ tos diferentes? . Os arbustos carregados de água roçavam por nós . Encontrámo-nos nos jardins . Em casa dela ninguém dera por nada. Ocorrera uma misteriosa inversão de atitudes .descobrira-o pela primeira vez . sempre de olhos baixos . para me acompanhar até à festa da professora. para que ela não se zangasse com Lila. fui sozinha para a escola. Depressa compreendemos que nada correra como previsto . Esbofeteou-me e bateu-me com o guarda-chuva. vestimos as batas secas por cima da roupa molhada. como castigo . Seria possível? Arrastara-me consigo na esperança de que os meus pais .

A Amiga Genial 61

17.

Fizemos juntas o exame final da primária. Quando percebeu que eu
faria também o de admissão , perdeu a energia. Aconteceu algo que sur­
preendeu toda a gente: eu passei nos dois exames com dez em todas as
disciplinas ; Lila passou no exame da primária com nove em todas e
oito em aritmética.
Não me disse uma única palavra de raiva ou de descontentamento .
Mas começou a fazer conluio com Carmela Peluso , a filha do carpin­
teiro-batoteiro , como se eu já não bastasse para ela. No espaço de pou­
cos dias formámos um trio , no qual eu , apesar de ter sido a número um
da escola, estava quase sempre em terceiro lugar. Falavam e diziam
piadas uma à outra constantemente , ou melhor, Lila falava e dizia pia­
das , Carmela ouvia e divertia-se . Quando dávamos os nossos passeios
entre a igreja e a rua larga, Lila ia sempre no meio , e nós , uma de cada
lado . Se notava que ela tendia para se aproximar mais de Carmela, eu
sofria com isso e tinha vontade de voltar para casa.
Nesse último período da primária parecia que andava atordoada, co­
mo se tivesse sofrido um golpe de sol . Já fazia muito calor e costumá­
vamos molhar a cabeça na fonte . Recordo-a com os cabelos e a cara a
pingar água e sempre a querer falar da nossa ida para a escola no ano
seguinte . Tornara-se o seu tema preferido e tratava-o como se fosse um
dos contos que tinha intenção de escrever para ficar rica. Agora, ao fa­
lar, dirigia-se de preferência a Carmela Peluso , que no exame da primá­
ria tivera sete em tudo e também não fizera o exame de admissão .
Lila tinha muito jeito para contar histórias , parecia ser tudo verdade ,
a escola para onde iríamos , os professores , fazia-me rir e preocupava­
-me . Mas uma manhã interrompi-a.
«Lila» , disse-lhe , «tu não podes ir para a escola média, não fizeste o
exame de admissão . Nem tu nem a Peluso podem ir.»
Zangou-se . Disse que iria na mesma, com exame ou sem exame .
«E a Carmela também?»
«Também .»
«Não é possível .»
«Então vais ver.»
Mas as minhas palavras devem ter-lhe dado um grande abanão . A
partir daí deixou de contar histórias sobre o nosso futuro escolar e tor­
nou-se silenciosa. Depois , com uma determinação repentina, começou
a atormentar a farm1ia, gritando que queria estudar latim como Gigliola

62 Elena Ferrante

Spagnuolo e eu íamos estudar. Zangou-se sobretudo com Rino , que
prometera ajudá-la e não o fizera. Era inútil explicar-lhe que já não
havia nada a fazer, pois mostrava-se ainda mais irracional e mais má.
No princípio do Verão assaltou-me um sentimento difícil de explicar
por palavras . Via-a nervosa e agressiva como sempre fora, e isso alegra­
va-me , reconhecia-a. Mas também sentia, por trás dos seus antigos
modos , um desgosto que me incomodava. Ela sofria, e a sua dor não me
agradava. Preferia-a quando ela era diferente de mim, muito distante
dos meus anseios. E o mal-estar que sentia por descobrir que ela era
frágil transformava-se por vias secretas numa necessidade minha de ser
superior. Sempre que podia, cautelosamente e de preferência quando
Carmela Peluso não estava presente , arranjava maneira de lhe recordar
que a minha caderneta escolar era melhor do que a dela. Sempre que
podia, cautelosamente , lembrava-lhe que ia para a escola média e ela
não . Deixar de ser a segunda, passar-lhe à frente , pela primeira vez pare­
ceu-me um sucesso . Teve de se compenetrar disso e tomou-se ainda
mais áspera, mas não para comigo, para a fanu1ia.
Muitas vezes , enquanto esperava que ela descesse para o pátio , ouvia
os seus berros que vinham das janelas . Lançava insultos no pior dialec­
to de rua, tão pesados que ao ouvi-los me ocorriam pensamentos de
ordem e de respeito , não me parecia certo ela tratar os adultos daquela
maneira, e até o irmão . É verdade que o pai , o sapateiro Fernando , quan­
do estava com os azeites tomava-se mau . Mas todos os pais se enfure­
ciam. Além disso o dela, se não fosse provocado , era um homem gentil ,
simpático , muito trabalhador. De cara parecia-se com um actor que se
chamava Randolph Scott, mas sem a sua finura. Era mais grosseiro ,
nada de tons claros , tinha uma barbaça preta que começava logo abaixo
dos olhos , e umas mãos largas e curtas sulcadas de porcaria em cada
prega e debaixo das unhas . Gostava de brincar. Quando eu ia a casa da
Lila ele prendia-me o nariz entre o indicador e o médio e fingia que mo
arrancava. Queria fazer-me acreditar que mo tinha roubado e que ele
agora se agitava, aprisionado entre os seus dedos , tentando escapulir-se
para voltar para a minha cara. Eu achava graça àquilo . Mas se Rino , ou
Lila, ou os outros filhos , o faziam zangar, até eu me assustava ao ouvi­
-lo da rua.
Uma tarde , não sei o que aconteceu . No tempo quente ficávamos na rua
até à hora do jantar. Dessa vez, Lila não se deixava ver, e fui chamá-la por
baixo das janelas , que eram no rés-do-chão. Chamei «Ll , Ll, Ll» , e a mi­
nha voz juntava-se à de Fernando , muito alta, à da mulher e à voz insis-

A Amiga Genial 63

tente da minha amiga. Ouvi claramente que se passava qualquer coisa que
me aterrorizava. Das janelas saía um napolitano grosseiro e o ruído de
objectos a partirem-se. Aparentemente não era nada diferente daquilo que
acontecia em minha casa quando a minha mãe se enfurecia porque o di­
nheiro não chegava, e o meu pai se zangava porque ela já tinha gastado a
parte do ordenado que lhe dera. Na realidade , havia uma diferença subs­
tancial. O meu pai continha-se , mesmo quando estava furioso, tornava-se
violento em surdina, impedindo a voz de explodir, embora as veias do
pescoço se lhe dilatassem e os olhos lançassem chamas . Fernando, pelo
contrário, gritava, partia coisas , e a raiva crescia, não conseguia parar; as
tentativas que a mulher fazia para o acalmar enfureciam-no ainda mais , e
mesmo que a zanga não fosse com ela acabava por lhe bater. Portanto
insistia em chamar Lila, para tirá-la daquela tempestade de gritos , de
obscenidades , de ruídos de destruição . Eu gritava «Ll , Ll , Ll» , mas ela
- bem a ouvia - não parava de insultar o pai .
Tínhamos dez anos , daí a pouco fazíamos onze. Eu estava a ficar mais
cheia, Lila continuava baixinha, magra, era leve e delicada. De repente os
gritos pararam e daí a instantes a minha amiga voou pela janela, passou
por cima da minha cabeça e aterrou no asfalto atrás de mim.
Fiquei estarrecida. Fernando apareceu à janela, continuando a gritar
ameaças horríveis à filha. Atirara-a como se fosse um objecto .
Olhei para ela aterrorizada, enquanto tentava levantar-se , dizendo-me
com uma careta quase divertida:
«Não me aconteceu nada.»
Mas estava a sangrar, tinha partido um braço .

18.

Os pais podiam fazer aquilo e mais , às meninas atrevidas . Depois ,
Fernando tornou-se mais sisudo , mais trabalhador do que o habitual .
Durante esse Verão , eu , Carmela e Lila passámos muitas vezes em fren­
te da sua oficinazita, mas enquanto Rino nos acenava sempre alegre­
mente , o sapateiro , enquanto a filha teve o braço engessado , nem sequer
olhava para ela. Via-se que estava arrependido . Os seus actos violentos
de pai pouca coisa eram, se comparados com a violência dispersa pelo
bairro . No bar Solara, com o calor, entre perdas ao jogo e bebedeiras
importunas , chegava-se com frequência ao desespero (palavra que em
dialecto significava ter perdido toda a esperança, mas , também , estar

64 Elena Ferrante

sem um tostão) , e depois às cenas de pancadaria. Silvio Solara, o dono ,
um homem corpulento com uma barriga imponente , olhos azuis e testa
muito alta, tinha um bordão escuro atrás do balcão , com o qual não
hesitava em bater em quem não pagasse o consumo , quem tivesse pedi­
do empréstimos e quando se vencesse o prazo não os liquidasse , quem
fizesse acordos de qualquer tipo e não os cumprisse , e muitas vezes era
ajudado pelos filhos, Marcello e Michele , rapazes da idade do irmão de
Lila, mas que batiam com mais força do que o pai . Ali , dava-se pancada
e levava-se . Depois os homens voltavam para casa exasperados pelas
perdas ao jogo , pelo álcool , pelas dívidas , pelos prazos , pelas pancadas ,
e à primeira palavra torta batiam na fanu1ia, um chorrilho de dislates
que davam origem a outros dislates .
A meio daquela longa estação ocorreu um facto que perturbou toda a
gente , mas que teve um efeito particular sobre Lila. Dom Achille , o
terrível dom Achille , foi assassinado em sua casa ao início da tarde de
um dia de Agosto surpreendentemente chuvoso .
Encontrava-se na cozinha, acabara de abrir a janela para deixar entrar
a frescura da chuva. Levantara-se da cama de propósito , interrompendo
a sesta. Vestia um pijama azul-claro muito gasto , calçava apenas meias
de cor amarelada, escurecidas nos calcanhares . Assim que abriu a jane­
la, bateu-lhe na cara uma rajada de chuva e, do lado direito do pescoço ,
a meio caminho entre o maxilar e a clavícula, foi trespassado por uma
faca.
O sangue esguichou-lhe do pescoço e atingiu uma panela de cobre
pendurada na parede . O cobre era tão brilhante que o sangue parecia
uma mancha de tinta da qual escorria - assim contava Lila - uma li­
nha negra irregular. O assassino - mas ela inclinava-se mais para uma
assassina - entrara sem arrombar a porta, a uma hora em que as crian­
ças e os jovens estavam na rua e os adultos, se não estavam a trabalhar,
estavam a repousar. Entrara de certeza com uma chave falsa. Certamen­
te tencionava apunhalá-lo no coração enquanto dormia, mas encontrara­
-o acordado e dera-lhe a facada no pescoço . Dom Achille virou-se , com
a lâmina espetada no pescoço , os olhos arregalados e o sangue a sair a
rodos e a ensopar-lhe o pijama. Depois caiu de joelhos e em seguida de
cara no chão .
O assassínio impressionou tanto Lila que quase todos os dias , muito
séria, nos obrigava a ouvir a descrição como se tivesse assistido , acres­
centando sempre novos pormenores . Eu e Carmela ficávamos assusta­
das de a ouvir, Carmela nem conseguia dormir de noite . Nos momentos

A Amiga Genial 65

mais horríveis , quando a linha negra de sangue escorria pela panela de
cobre , os olhos de Lila tornavam-se duas gretas ferozes . Com certeza
imaginava que o criminoso era mulher, só porque lhe era mais fácil
identificar-se com ela.
Nesse tempo íamos muito para casa dos Peluso , para jogar às damas
e ao jogo dos três , Lila tinha então essa paixão. A mãe de Carmela
mandava-nos entrar para a sala de jantar, cujos móveis haviam sido
feitos pelo marido , antes de dom Achille lhe ter tirado as ferramentas de
carpinteiro e a oficina. Sentávamo-nos à mesa, entre dois aparadores
com espelhos , e jogávamos . Antipatizava cada vez mais com Carmela,
mas fingia ser sua amiga, pelo menos tanto como era de Lila, e em cer­
tas ocasiões até lhe fazia crer que gostava mais dela. Por outro lado ,
simpatizava muito com a senhora Peluso . Trabalhara na Tabaqueira,
mas perdera o posto de trabalho meses antes e estava sempre em casa.
Mas tanto na boa sorte como na má era uma pessoa alegre , gorda, com
um grande peito , faces afogueadas por duas rosetas vermelhas , e embo­
ra o dinheiro escasseasse tinha sempre qualquer coisa boa para nos
oferecer. O marido também parecia um bocado mais tranquilo . Agora
servia à mesa numa pizzeria e tentava não ir ao bar Solara perder às
cartas o pouco que ganhava.
Uma manhã estávamos na sala de jantar a jogar às damas , eu e Car­
mela contra Lila. Nós duas sentadas de um lado e ela do outro . Atrás de
nós encontravam-se os dois móveis idênticos , com os espelhos . Eram de
madeira escura e tinham cornijas com volutas . Via a imagem das três
reflectida até ao infinito e não conseguia concentrar-me , não só por
causa das imagens que não me agradavam, como devido aos gritos de
Alfredo Peluso , que naquele dia estava muito nervoso e implicava com
a mulher, Giuseppina.
A certa altura bateram à porta e a senhora Peluso foi abrir. Exclama­
ções , gritos . Nós fomos as três espreitar ao corredor e vimos os cara­
binieri , figuras que muito temíamos . Os carabinieri agarraram Alfredo
e levaram-no . Ele esbracejou , gritou , chamou os filhos pelos nomes ,
Pasquale , Carmela, Ciro , Immacolata, agarrava-se aos móveis feitos
pelas próprias mãos, às cadeiras , a Giuseppina, jurava que não matara
dom Achille , que estava inocente . Carmela chorava desesperada, todos
choravam, também comecei a chorar. Lila não , Lila fez aquele olhar que
anos antes fizera a Melina, mas com algumas diferenças : agora, embora
imóvel , parecia estar em movimento juntamente com Alfredo Peluso ,
que lançava gritos roucos e assustadores: «Aaaah ! »

Lila preocupou-se com Carmela. Dizia-lhe que se de facto fora o pai . chegavam-se um bocado mais para lá. para evitar que eu ouvisse . se eu me aproximava.66 Elena Ferrante Foi a coisa mais terrível a que assistimos ao longo da nossa infância. e em breve fugiria da prisão . Estava inocente de certe­ za. consolou-a. Cochichavam uma com a outra sem parar e. mas que na sua opinião não fora ele . impressionou-me muito . fizera muito bem em matar dom Achille . .

Adolescência História dos sapatos .

. Quando . forçando o significado corrente da palavra.. 1. que estavam alegres . Mas de repente - disse-me . e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu . ritual a que Lila. pelo espumante . ainda incapaz de lhe dar nome . A 3 1 de Dezembro de 1 959 Lila teve o seu primeiro episódio de des­ marginação . mas imperceptível . Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente . como se aqueles . e pela primei­ ra vez recorreu a esse vocábulo .tínhamos ambas trinta e cinco anos. me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião . Olhávamos para os homens. apesar do frio começou a cobrir-se de suor. estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se . e que ainda lhe acontecia. dera a sua colaboração . no alto de um dos prédios do bairro . foi ela que sempre o usou . assustou-se e guardou o caso para si . figuras escuras excitadas pela festa. pela comida. naquela noite . Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa. Só anos depois . Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teve a impressão de que alguma coisa totalmente material . como depois contarei . usávamos vestidos leves e decotados para parecer­ mos bonitas . Começou a sentir aversão pe­ los gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos . O coração batia-lhe descontroladamente. presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre . Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o novo ano . no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1 960 . foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo . numa noite de Novembro de 1 980 . no meio dos rebentamentos . mães de filhos . Estávamos no exterior. Apesar de fazer muito frio . agressi­ vos . O termo não é meu . éramos casadas .

a pessoa que ela mais amava. pensou ela. os olhos . uma forma animal atarracada. Os ombros largos . dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me .70 Elena Ferrante sons obedecessem a leis novas e desconhecidas . membruda. a mais voraz . ou num número . uma espécie de última detonação . chegou a um . numa pessoa ou numa coisa. a mais mesquinha. a que mais gritava. os braços . O tumulto do coração dominava-a. enquanto voava em direcção ao asfalto. E o asco. Uma sensação de repugnância apoderara-se de todos os corpos em movi­ mento. que quebravam o contorno habitual do mundo . Alguém estava a disparar. as pernas. Na altura em que me fez essa descrição . Por exemplo . de que pequenos animais avermelhados . muito amigáveis . embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez. a mais feroz. Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de en­ tidades desconhecidas . Quando tiraram o gesso a Lila e reapareceu o seu bracinho muito branco mas perfeitamente funcional . Fumo a mais . Como somos mal feitos . ou numa sílaba. não era totalmente nova para ela. da sua estrutura óssea. Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era. o dia­ lecto deixou de lhe ser familiar. do frenesim com que se agitavam. concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino. transformando-a numa matéria lisa e macia. tivera a certeza absoluta. mas tiros de pistola. E no dia em que o pai a atirara pela janela. como somos insuficientes . a pessoa que afinal lhe era mais familiar. Mas nesse instante ouviu . já não foguetes e morteiros . sentia-se sufocar. pareciam-lhe atributos de seres monstruosos . demasiado relampejar de fo­ gos na geada. mau cheiro a mais . O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcção dos clarões amarelados . A náusea cresceu. entre os gritos de alegria. o pai . Lila tentara acalmar-se . caídos de qualquer recanto do céu negro. Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação. tomara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. deixando ver a sua natureza assustadora. 2. e passou-lhe qualquer coisa ao lado . tenho de atirá-lo para fora de mim. como que o sopro de um bater de asa. as orelhas . E isso tinha-a transtornado. estavam a dissolver a composi­ ção da estrada. Fernando . sabe-se lá porquê . já tivera muitas vezes a sensação de entrar. violando­ -lhe os contornos . durante fracções de segundos . os narizes .

o que me causou uma ansiedade insuportável . mas fazíamos de conta que não nos conhecíamos . estenografia. Mas foi cada vez menos à escola. Estava . e no final do ano reprovou . quase contra vontade . tal como Gigliola. Também eu não fui bem sucedida no primeiro ano da escola média. em que eu . No início tive grandes expectativas . se tinha de fazer exercícios fa­ zia-os em cinco minutos e depois incomodava as colegas . era como se ele carregasse parte da culpa pelo terror que dom Achille me causara durante anos . porque a filha faltava muitas vezes sem justificação . sem se pronunciar directamente . foram muitos os que mos­ traram ser melhores do que eu . ou contabi­ lidade . Nunzia foi chamada pelos professores . o fantasma de uma menina que tinha comido ba­ gas venenosas . seria a melhor aluna. nunca se ria . Mas comecei logo a claudicar. sempre metido consigo . Começou a despontar em surdina a ideia de que . Mas afinal recompôs-se . nunca mais saborearia o prazer de pertencer ao grupo restrito dos melhores . Acabei por me encontrar numa espécie de lamaçal . De vez em quando encontrava à entrada Alfonso . sem Lila. Custou-me muito . permitiu-lhe que frequentasse uma escola para aprender não sei bem o quê . se a interrogavam recusava-se a responder. com a desculpa de se sentir fraca. e não com Lila. e embora não o admitisse claramen­ te . Assim que experimentava sair. na sua ausência. contrariada. mas sim pela boca de Rino e da mulher. Ela foi . ou essas três disciplinas . A certa altura apanhou uma gripe má.A Amiga Genial 71 acordo consigo mesmo e . sentia-me contente por ter entrado juntamente com Gigliola Spag­ nuolo . Um dia vi-a na rua e pare­ ceu-me um fantasma. de tal modo que o vírus depressa lhe tirou todas as energias . e lutámos o ano inteiro para não ficarmos entre os piores . Passavam-se os dias e não conseguia recuperar. achava que Alfredo Peluso fizera bem em ma­ tar-lhe o pai e não me ocorriam palavras de conforto . que eu vira desenhado num livro da professora Oliviero . mais pálida do que o habitual . gabando-me . Eu não sabia o que lhe dizer. perturbava as aulas . Em alguma parte secreta do meu ser eu aspirava a uma escola a que ela nunca tivesse acesso . ou economia doméstica. voltava-lhe a febre . e da qual lhe falaria quando isso se concretizasse . Usava uma faixa preta cosida no casaco. éramos uns bichinhos assustados com a nossa própria mediocridade . Depois correu o boato que ela ia morrer em breve . Nunzia. o filho mais novo de dom Achille . muito pior do que aquela que tivemos quase todos . Nem a sua condi­ ção de órfão me comovia. Mas ela pareceu aceitá-la com uma espécie de resignação .

e esse pensa­ mento dava-me um cansaço como se tivesse sono . esperando não ser apanhada pela minha mãe . e a figura torta da minha mãe . que me falava muito do jovem estudante universitário que ia a casa dar-lhe explicações e que . a professora mandou chamar a minha mãe e disse-lhe. Ela também deve ter sentido o peso daquela humilhação . Aterrorizada não sei bem por que razão . talvez por recear uma repri­ menda da minha mãe por me ter magoado entre as pernas . estendia-me em cima da cama e passava pelo sono . a amava. mas que se não tivesse aulas particulares no ano seguinte não conseguiria passar. Encontrei Lila e Carmela. fui passear com elas até à igreja. Quando já não suportava o medo . com o seu italiano que se assemelha­ va um pouco ao da Ilíada . que ela precisava de ajuda em casa e eu devia deixar de estudar. na opinião dela. Voltou para casa carrancuda. Eu escutava-a mas aborrecia-me . disse ao meu pai que os professores não estavam satis­ feitos comigo . merecia continuar. que só me salvara em Latim graças à sua generosidade . Sentia que Lila já não queria ser minha amiga. De vez em quando via Lila a passear com Carmela Peluso . que também frequentara uma escola não sei de quê e também reprovara. Sofri uma dupla humilhação: envergonhei-me porque não fora capaz de alcançar o nível que tinha na primária. No fim do ano soube-se que passara com média de oito . o dialecto vergado a um italiano cheio de erros de gramática. e envergonhei-me também pela diferença entre a figura harmoniosa. sussur­ rei a Lila: . Senti que estava outra vez a ficar molhada. mas tentei sossegar. Quando saíram as notas . na minha presença. Gigliola tinha de repetir Latim e Matemática. litigaram e por fim o meu pai decidiu que . espremi-as e voltei a vesti-las molhadas . pensando que seria a humidade das cuecas . os seus sapatos velhos . Depois saí para o calor do pátio . de­ centemente vestida da professora. eu safei-me com seis em tudo . geralmente em companhia de Gigliola. O coração saltava-me de medo . Fui à retrete ver o que tinha e descobri que as cuecas estavam sujas de sangue . o cabelo sem brilho . Uma tarde adormeci deveras e ao acordar senti-me molhada. Às vezes . lavei-as bem . Passei um Verão entorpecido . uma vez que eu afinal fora aprovada. no pátio . o que me deprimiu muito . Discutiram muito .72 Elena Ferrante numa turma diferente da minha e constava que era muito bom aluno . ao passo que Gigliola reprovara em duas .

» «De certeza?» «De certeza. Nunca mais quero ir para escola nenhuma.A Amiga Genial 73 «Tenho uma coisa para te dizer. E nem sabia tão-pouco o que era o sangue .» «E o que vais fazer?» «Aquilo que me apetecer. embo­ ra dirigindo-me só a Lila. «Também te há-de aparecer» . De repente pareceu-me pequena. e vimo-la hesitar. Fiquei a saber que daquela ferida não se morria. Passei a tarde toda a falar com ela.» . E quem o tem também me dá nojo .» Peguei-lhe num braço . muito pálida apesar dos dias ao ar livre . com má vontade respondeu que não . «eu não o tenho porque não quero ter. «As mulheres têm isso por natureza. «É normal» . depois . mas ela seguiu­ -nos . Carmela sabia tudo. disse . todos os meses . sem nada ou quase nada dizer. Perguntámos­ -lhe se já tinha o sangue . Já havia um ano que tinha o sangue . tentando afastá-la de Carmela. «significa que já és adulta e já podes ter filhos. E ainda nenhum rapaz se lhe declarara. como nós . perguntei . Pelo contrário . mas depois parou e perguntou-me: «Como é o latim?» «Bonito .» «Ü quê?» «Quero dizer só a ti . A preocupação era tal que acabei por me confessar às duas . até à hora do jantar. dá-me nojo. se um homem te enfiar o coiso na barriga. Era seis ou sete centímetros mais baixa. mais pe­ quena do que sempre a achara.» Lila ficou a ouvir-nos . mas depois passa. dissemos-lhe ambas num falso tom de consolação .» «És boa?» «Muito . Sangra-se durante uns dias . E reprovara. tens dores na barriga e nas costas .» O silêncio de Lila impeliu-me para Carmela. só pele e osso . disse .» Fez menção de se ir embora. «Ü que poderá ser?» .» Pensou um bocado e murmurou: «Eu fiz de propósito para reprovar. «Estou-me nas tintas» . A naturalidade com que me dissera o pouco que sabia tranquilizou-me e fez-me simpatizar com ela.

Oscilava entre a irritação por ver uma recriação que me parecia uma caricatura. De um momento para o outro passou do sorriso às lágrimas . Aquela espécie de apropriação indevida desagradava­ -me por um lado e por outro atraía-me . sob a pele do peito despontaram-me dois rebentos duros . Foi uma confidência que me impressionou muito e que consolidou a nossa amizade . Bastava vê-lo atravessar o pátio ou caminhar pela rua para se sentir desmaiar. Engordei . Começou um período de indisposição . vendia saúde como eu . um pouco masculina mas sobretudo feminina. fazia as coisas terríveis que tinha a fazer e depois escapulia-se para debaixo do chão . Tomei-me muito amiga de Car­ mela Peluso . Mas que história ! Talvez nem Lila fosse capaz de construir uma his­ tória assim . Falou-me de quando ia a Poggiorea­ le com a mãe e os irmãos visitar o pai . porque . Não se deixou ver o resto do Verão . Foi com esses modos que Carmela acabou por me conquistar.74 Elena Ferrante Deixou-nos ali no meio do pátio e foi-se embora. gesticulava de modo seme­ lhante e ao andar tentava reproduzir os movimentos dela. Carmela jurou que nunca falara disso com ninguém . e dos prantos que faziam. sofrera a influência de Lila de maneira tão forte que às vezes era uma espécie de sucedâneo . embora adulterados . Era um amor que a atormentava e a consumia. nem sequer com Lila. que vivia com os ratos e saía das sarjetas do esgoto mesmo de dia. com um sorriso fátuo . e o fascínio . Anali­ sámos todas as possíveis consequências daquela paixão até as escolas reabrirem e eu deixar de ter tempo para escutá-la. Contou-me que o pai estava inocente . floriram-me pêlos nas axilas e na . S e decidira abrir-se comigo era porque j á não conseguia guardar tudo lá dentro . os modos de Lila encantavam-me na mesma. Ao falar imitava-lhe os tons . Contou-me inesperadamente . embora oscilasse desagradavelmente entre risadas a mais e lamúrias a mais . embora fisi­ camente fosse mais parecida comigo: bonita e rechonchuda. Gostei do seu tom dramático . a filha do assassino estava apaixonada pelo filho da vítima. usava certas expressões recorrentes . que quem matara dom Achille fora uma criatura escura. que . Contou-me que a nova escola fora muito desagradável: todos implicavam com ela e os professores não a podiam ver. 3. que estava apaixonada por Alfonso Carracci .

sou eu que tenho razão?» «Sim. Gino . o filho do farmacêutico . Dei um suspiro de alívio e fui ao bar Solara comprar um gelado .A Amiga Genial 75 púbis. Sentia-me à mercê de forças ocultas que actuavam no interior do meu corpo . a princípio tão duro . decepcionada. Chorava mui­ to. Mas pouco depois voltou . dez liras ficavam para ele e as outras dez eram para mim. Ficaram os dois parados a olhar. como se não acreditassem no que os seus olhos viam. Entretanto o peito . até que de mim ressurgisse minha mãe . seguiu­ -me na rua e disse-me que . com um olho torto . e ninguém mais gostaria de mim. nua. Gino disse: «Ele tem de estar presente. Ali . repentinamente . os meus seios não eram verdadeiros . Não sabendo como proceder. Assim que podia fechava-me na retrete e via-me ao espelho .» «E se tiveres algodão?» «Não tenho . um magrinho de cujo nome não me recordo . tomei-me triste e nervosa.» «Porquê . Aquele pedido assustou-me . Aquele episódio ficou-me gravado na memória. Por fim disse que . senão os outros não acreditam que ganhei . achava que eram verdadeiros . recorri conscientemente ao tom atrevido de Lila: «Dá-me as dez liras . mas tinha de lhe provar que não usava algodão .» Pôs-se a andar e eu prossegui . Já não sabia quem era. Uma manhã. na opinião dos seus companheiros . que tinha apostado vinte liras . Comecei a desconfiar que iria continuar a mudar. à saída da escola. os exercícios de matemática quase nunca davam o resultado previsto no caderno de exercícios . onde eu era perfeitamente delineada pelos delicados segmentos de luz . Depois viraram-se e fugiram pela escada abaixo . mas .» Deu-me dez liras e subimos os três em silêncio até ao último andar de um prédio que ficava a poucos metros do jardim. co­ xa. na companhia de um rapaz da sua turma. que eu lhes punha algodão . levantei a blusa e mostrei os seios . Senti pela primeira vez a força magnética que o meu corpo exercia sobre os homens . pelo contrário . ao pé da porta de ferro que dava para o terraço . com uma penugem por cima do lábio. tomou-se maior e mais macio . estava sempre ansiosa. Falava e ria-se .» Recorri novamente ao tom de Lila: «Primeiro o dinheiro . as frases de latim pareciam­ -me não ter pés nem cabeça. caso ganhasse a aposta. Disse ainda que ele . Na escola esforcei-me mais do que nos anos precedentes .

sentia com preci­ são que me passara a mim mesma para trás . em meias-solas . na preparação do fio . como um fantasma exigente . e ela. e o meu contentamento des­ vanecia-se . Se eu numa situação daquelas tivesse de tomar uma decisão com as emoções na mais pura desordem. e foi trabalhar para uma fábrica de calçado em Casaria. Soube que o pai quando era rapaz quis emancipar-se . começava a falar ininterruptamente e com admiração do trabalho que o pai e o irmão faziam. Naquele ano Rino obrigou-a a matricular-se de novo na escola. porque ela. E se estivesse na companhia de Lila? Puxava-lhe por um braço e sussurrava-lhe «vamos embora» . Mas às vezes interrogava-me . A mãe pedia-lhe que a ajudasse em casa.ao domingo depois da missa ou a passear entre os jardins e a rua larga . Ou melhor. Descobriu que Fernando sabia fazer um sapato à mão do princípio ao fim. As raras vezes em que nos encontrámos . o pai pedia-lhe para estar na oficina. em peleiros e em pelarias . como sempre . e era capaz de fazer uso de todas . não só sobre Carmela mas também sobre mim. Mas ela não me viu e eu segui caminho . pareceu até contente de trabalhar para ambos . Tinha sempre que fazer. após uma breve hesitação pusera-me no lugar dela. Quando passei com o gelado em frente da oficina de Fer­ nando e vi Lila absorta a arrumar sapatos sobre uma comprida pratelei­ ra. para ver o que ela pensava. mas também conhecia bem as máquinas . Porém.. 4. até para os que iam para a guerra. que também era sapateiro . parecia-me que era diferente . inesperadamente . que imitara o olhar e o tom e os gestos da Cerullo em situações de conflito descarado . Falou-me em couro . e ficava muito contente . onde fizera sapatos para toda a gente . Quando pensava de novo naquele instante em que Gino me fez o pedido . a esmeriladora. a cortadora. fui tentada a chamá-la e a contar-lhe tudo . em gáspeas . mas não era capaz de explicar em que sentido . não mostrou qualquer curiosidade pela minha escola. e depois . em . ficava. a pespontadora. na sua ausência. mas mais uma vez ela pouco compareceu e nova­ mente a reprovaram. fugiu da oficina do avô . abrira lugar para ela em mim.76 Elena Ferrante sobretudo dei-me conta de que Lila actuava. o que teria feito? Tinha fugido . em tacão inteiro e meio tacão . um pouco ansiosa: faço como Carmela? Parecia-me que não . como sempre . em vez de opor resistência. decidiria ficar.

passava sem interrupção dos comentários às histórias de amor ficcionais aos comen­ tários à história do seu verdadeiro amor. o pé de ferro . no jardim . por trás da porta de vidro . o cheiro bom da cola misturado com o dos sapa­ tos velhos. depois comecei a dar uma olhadela também e passámos a lê-las juntas . tão satisfeito que agora preferia a pequena oficina da fanu1ia. activa. graças à habilidade que tinham de encerrar os pés das pessoas em sapatos sólidos e cómodos . sentada a uma mesinha. Por vezes parava para ver na montra as caixas de cromatina. e co­ mentávamos as histórias e aquilo que cada personagem dizia. mais do que eu .A Amiga Genial 77 como se aplicava uma sola e se coloria e se dava brilho . sem trabalhos de casa. e ela voltava a concentrar-se no trabalho . Só me ia embora. passava pela oficina de Fernando só para ver Lila no seu posto de traba­ lho . Mas muitas vezes era Rino que dava por mim primeiro . escrito em letras brancas sobre fundo negro . do qual re­ gressara como um explorador plenamente satisfeito . E puxou-me para dentro daquele vocabulário com um entu­ siasmo tão enérgico que o pai e Rino . por não passar os meus dias na oficina de um sapateiro e tendo por pai um banalíssimo porteiro . toda a energia. disse-lhe que me amava. o pescoço delgado . ao fundo . Eu . para não lhe ficar atrás . por Alfonso . fugia sem esperar pelo olhar de Lila. uma vez falei-lhe no filho do farmacêutico . quando ela me via e me fazia adeus . tomando-os mais cómodos . en­ quadrada pela cabeça inclinada do pai e a cabeça inclinada do irmão . sem aulas . A princípio parecia-me tempo perdido . atordoada pela infelicidade . com o seu peito magro sem som­ bra de seios . Sobretudo . o martelo . Um domingo dei por mim a falar apaixonadamente de sapatos com Carmela Peluso . mas lá estava. estava excluída de um privilégio raro . os sapatos velhos com solas novas . Ela comprava a revista Sogno e devorava fotonovelas .Casoria. Durante meses e meses pareceu-me que tinham fugido dos manuais escolares todas as promessas . Usou todos aqueles termos do ofício como se fossem mágicos e o pai os tivesse aprendido num mundo encantado . Envergonhada. o rosto emaciado . o balcãozito sossegado . Carmela. sem livros . a fábrica . Gino . Nas aulas comecei a sentir-me inutilmente presente . e eu respondia à saudação . Não sei o que ela fazia exactamente . pareceram­ -me ser as melhores pessoas do bairro . À saída da escola. o filho do farmacêutico era uma espécie . como se fosse uma cliente interessada na mercadoria. Aos olhos dela. e os novos metidos numa forma que dilatava o cabedal e os alargava. e fazia­ -me caretas cómicas para eu me rir. e de má vontade . voltava sempre para casa com a impressão de que ..

Ao contrário de mim. que tentava fazer minha a nova pai­ xão de Lila. nem Gino nem Alfonso nos resistiriam. Carmela. Mas se ela se afastava. e depois disse que tinha de ir. um senhor que nun­ ca se casaria com a filha de um porteiro . embora imitasse os modos de Lila. ela. só aquilo em que Lila tocava é que era importante . as coisas ficavam sujas . Entrei pela única porta aberta no rés-do-chão . entrou no edifício da escola primária. que trouxe con­ sigo uma sensação de à-vontade . Mas vi que não se dirigia para casa. iluminada com lâmpadas de néon . até ao átrio . um sentimento de mim que eu já não tinha. mantinha-se fiel às únicas coisas que a cativavam: as fotonovelas e o amor. Sapatos e sapateiros pouco ou nada lhe interessavam. A escola média.78 Elena Ferrante de príncipe inacessível . Depressa tive de admitir que aquilo que eu fazia sozinha não me dava emoção . mas depois aborreci-me. à catequese . con­ tornei o edifício e voltei para trás . Mas um domingo tudo mudou outra vez . Mas quanto mais falava mais me apercebia. o Latim. Para minha grande surpresa. Tínhamos ido . Era uma sala ampla. e estive quase a contar-lhe da­ quela vez que me pedira para lhe mostrar o peito . e não pude conter-me . Segui com Carmela. despedi-me dela. futuro herdeiro da farmácia. Nunca mais entrara na minha antiga escola e senti uma grande emoção. mais do que a his­ tória das maminhas . comecei a gabá-los e a gabar quem os tinha feito tão bonitos . pareciam­ -me decisivamente menos sugestivos do que o acabamento de um sapa­ to . com embaraço . Todo aquele período teve este ritmo . 5. Lila e eu . e a fantasiar que se usássemos sapatos assim. e tinha as paredes cobertas de estantes repletas de velhos livros . andávamos a preparar-nos para a primeira comu­ nhão . Mas tínhamos a revista Sogno bem aberta sobre os joelhos e os meus olhos caíram sobre os lindos sapatos de salto de uma das actrizes . os professores . cheias de pó . reconheci o cheiro . como é que Lila entrara? Após muitas hesitações lá me aventurei a passar pela porta. a língua dos livros . À saída Lila disse que tinha que fazer e afastou-se . e isso deprimiu-me . os livros . Carmela ouviu-me distraída. As escolas ao domingo estavam fe­ chadas . Contei uma dezena de adultos e muitas crian- . Pareceu-me um assunto muito oportuno . e que eu mostrara e ganhara dez liras . se a sua voz se distanciava das coisas .

No dia seguinte perguntou-me . Estudava muito . talvez já tivesse saído . metia-me em casa. já não frequentava a escola. Além disso .A Amiga Genial 79 ças . magro . interessava-se por sapatos e chinelada. Os rapazes insistiam. o professor Ferraro . Depois fui assoberbada pela chusma de trabalhos e de dúvidas de final do ano . Ferraro exa­ minava o texto escolhido . folheavam-nos. Parecia envergonhada de eu ter seios e de me ter vindo o sangue . Olhei em volta: Lila não estava. até na rua. O soutien tornou-me o peito ainda mais visível . Com medo de me importunarem. por ressentimento . Depois punham-se em fila em frente de uma secretária a que estava sentado um velho inimigo da professora Oliviero . mas orgulhosa por o filho do farmacêutico me querer. Riam-se. comprimia o peito cruzando os braços sobre ele . sem nada me dizer. com o cabelo grisalho cortado à escovinha. Nos últimos meses de escola fui perseguida pelos rapazes e depressa percebi porquê . perturbado . gozavam comi­ go . já só saía para ir à escola e contrariada. sentia-me misteriosamente culpada e sozinha com a minha culpa. no entanto . Uma manhã de Maio . Gino seguiu-me e perguntou-me . e de vez em quando vinha um pedir-me que repetisse o espectáculo . escrevia qualquer coisa no livro de registo e as pessoas saíam com um ou mais livros. fui-me embora. até no pátio . estudava muito . Os toscos esclarecimentos que me dava eram breves e insufi­ cientes . Gino e o colega tinham espalhado o boato que eu não tinha problemas em mostrar o físico . Disse-lhe que não . se queria ser namorada dele . até esco­ lherem um. Pirava-me . Durante uns tempos as horas na escola pareceram-me mais insignifi­ cantes do que nunca. Não tinha tempo de lhe fazer perguntas antes que ela me virasse as costas e se afastasse no seu passo de esguelha. punham-nos no lugar. Pegavam em livros . embora sem interesse . ia ali buscar livros? Gostava daquele espaço? Porque não me convidava para ir com ela? Porque me deixara com Carmela? Porque falava comigo sobre a maneira de esme­ rilar as solas e não daquilo que lia? Irritei-me . Andava mais brusca do que o habitual . receava ter más notas . sem fanfar­ ronice . por vingança. outras preocupações me afligiam. A minha mãe disse-me que eu era indecente com todo aquele peito que me crescera e levou-me a comprar um soutien . Experimentei afastá-los uma vez ou duas imitando os modos de Lila. O que andava ela a fazer. aliás . por atrapalhação . mas não me saíram bem. e então não me aguentei e comecei a chorar. não passavam de resmungos .

atraiu para junto dela muitas outras meninas . e Lila pareceu-me impressionada. mas não sofri com isso .» Era uma frase que eu aprendera nas leituras da revista Sogno . que não tinha seios nem menstruação e nem sequer um pretendente . perguntou-me Lila em dialecto . Como se fosse um daqueles nossos desafios da primária. e contou a Lila.» Fiz como ela me disse e Gino desapareceu . falando de amor. Assim vestidas . voltando de súbito ao dialecto . quando fizemos a primeira comunhão . para a impressionar. Foi maravilhoso . Depois . para ela perceber que . para minha admiração . demorámo-nos no adro da igreja já a pecar. O desafio com Lila dera-me um prazer tão intenso que planeei dedicar-me totalmente a ela. «Se não aceitar. para ela e para Carmela durante todo o Verão . e o seu efeito . sobretudo no Ve­ rão . como se tivesse levado uma pancada na cabeça que me trouxera à memória imagens e palavras . Não era verdadeiro amor.80 Elena Ferrante outra vez e nunca mais desistiu de perguntar. Carmela não queria acreditar que eu rejeitasse o filho do far­ macêutico . interessou-se pelo caso . Sentira-me outra vez inteligente . portanto . quando eu tinha mais tempo livre . aconselhou-me a namo­ rar com Gino . Aqueles momentos iluminaram-me o coração e a cabe­ ça: eu e ela e aquelas palavras bem arquitectadas . nem com os colegas . demos início a uma conversa na linguagem das histórias aos quadradinhos e dos livros . em vez de se afastar com o ar de quem se está nas tintas . nem com os professo­ res . O resultado foi que a filha do sapatei­ ro . não devia ser tratada como Carmela: «Porque não estou certa dos meus sentimentos. Falámos as três no assunto . Em vez de reatar a minha relação com Lila e torná-la exclusiva. embora eu passasse o tempo a falar de namorados . A conversa e o conselho que ela me dera. Respondi inesperadamente em italiano . Porém . o que reduziu Carmela a uma ouvinte pura e simples . mas na condição de ele aceitar comprar gelados para mim. Esta. todas vestidas de branco como as noivas . De frase em frase . Lila convenceu-me de que no amor só se obtém alguma segurança submetendo o pretendente a duras provas . se tornou em poucos dias a mais acreditada conselheira sobre assuntos . até Junho . Entretanto queria que aquela conversa se tornasse o modelo de todos os nossos próximos encontros . haviam impressionado tanto Carmela Peluso que ela acabou por contar a toda a gente . Na escola média não acontecia nada do género . quer dizer que o amor não é verdadeiro . «Porque lhe disseste que não?» . aquele episódio não teve o seguimento que eu esperava.

e que em vez disso fizera de conta que não era importante: Alfonso Carracci passou com média de oito .» Foi tudo o que disse. Era Lila. Mas uma manhã ouvi que me chamavam da rua. apesar de comprado usado fora uma grande des­ pesa.» Olhei-a. tomara-se evidente que eu não era boa aluna: o filho mais novo de dom Achille passara a tudo e eu não. Mas eu sentia-me sozinha na mesma. Mas sobretudo . Era sempre a mesma: cabelo baço . e não conseguia tranquilizar-me . E ela. com um triste destino . que culminaram com uma humilhação que sofri e que já devia ter previsto . o Campanini e Carbone. nariz grande . Acres­ centou: «Não está escrito em parte nenhuma que não podes fazê-lo . depois de mim havia dois rapazes e outra rapariga. Chorava noite e dia. uma tarde . Não havia dinheiro para me mandarem ter explicações durante o Verão . impondo a mim própria não ir ao pátio nem aos jardins . Se não estava ocupada em casa ou na oficina. mas estava tão compenetrada que nem me ouvia. via-a a cochichar com esta e com aquela . No dia seguinte co­ mecei a estudar. surpreendendo-me uma vez mais. senti minha mãe aproxi­ mar-se por trás de mim. no tom áspero habitual: «Não te podemos pagar as lições .A Amiga Genial 81 do coração . Gigliola Spagnuolo passou com média de sete . Peppe e Gianni . olho dançarino . pelo menos é o que recordo. «Lenu» . Debrucei-me na janela. mas podes experimentar estudar sozinha e ver se passas no exame . Os manuais escolares tinham custado muito dinheiro . vinham consolar-me por turnos. «Tenho uma coisa para te dizer. Tinha de me conformar. Passava-lhe ao lado .» . Tinha de repetir em Setembro essa única disciplina. chamava ela. duvidosa. Disse em dialecto . 6. Captava sempre frases que achava lindas e sofria com isso . Depois . O dicionário de Latim. a pequena Elisa. tomei-me feia de propósito para me castigar. cumprimentava-a. e eu tive seis em tudo e quatro em Latim. aceitou esse papel . os dois rapazes . a filha do paste­ leiro Spagnuolo passara a tudo e eu não. Era a primogénita. que depois de terminarmos a primária perdera aquele hábito . ora trazendo-me fruta. Dessa vez foi mesmo o meu pai que disse que era inútil continuar. corpo pesado . Foram dias desconsoladores . ora convidando-me para brincar com eles .

ao sol . fazia-me lembrar as aves de rapina que vira em filmes no cinema paroquial . que nos romances e nos filmes a filha do assassino podia apaixonar-se pelo filho da vítima. e percebi que não o dizia com des­ prezo . mas só se quando falas há alguém que te responde . E estava a dizer-mo num tom que não lhe conhecia. e que no pátio eram todas assim. «Não quero falar mais . murmurei . de tal forma que a princípio não entendi .» Lila estreitou os olhos .» «Então é verdade» . «Não te disse nada a respeito do pai?» . não quero falar com ninguém» . «Que desenvolvimentos?» «Ela gosta dele .» «Sim. no lugar dela. sem um sorriso .» Senti no peito uma lufada de alegria. Perguntei-lhe com indolência que novidades havia a respeito de namoros . mostrando-se desgostosa de repente .» Fui de má vontade . «falar com os outros.82 Elena Ferrante «Ü que é?» «Vem cá abaixo . aborrecia-me confessar-lhe que tinha de repetir uma disciplina. Quando fazia aquilo . «É bonito» .» «E quem seria o assassino?» «Um ser. em­ bora brusco como era costume . pois para se tomar um facto verdadeiro seria preciso que nascesse um amor verdadeiro . séria. «Que está inocente . fiável . que está escondido no esgoto e sai pelas sarjetas como os ratos. Era uma possibilidade . como se reduzir os olhos a uma greta lhe permitisse ver de forma mais concentrada. Mas daquela vez pareceu-me que havia descoberto qualquer coisa que a irritava e assustava ao mesmo tempo . que não exprimia orgulho nem altivez por exercer influência sobre todas nós . só uma espécie de impaciência associada ao medo da responsabilidade . Eu . disse ela. sentiria muita soberba. Demos uns passos pelo pátio . contou-me ela. mas nela não havia soberba nenhuma. Recordo-me de ter perguntado explicitamente se havia desenvolvimentos entre Carmela e Alfonso . perguntou-me . balbuciou amuada. Disse a Carmela. metade masculino e metade feminino . Que pedido estava contido na­ quela bela frase? Estava a dizer-me que queria falar só comigo porque eu não tomava como certo tudo aquilo que lhe saía da boca e lhe res­ pondia? Estava a dizer-me que só eu era capaz de seguir aquilo que lhe passava pela cabeça? Sim. e acrescentando que Carmela tomava como certo tudo o que ela lhe dizia. Mas Carme- .

naquela manhã de reaproximação: fugir de casa. sabíamos que o peso que oprimia o bairro desde sempre . e num primeiro instante decepcionou-me . como duas velhotas a fazer o ponto das suas vidas cheias de desilusões . nunca mais voltar para casa. o ex-carpinteiro . para se exibir junto das outras . cederia pelo menos um pouco se não tivesse sido Peluso . desde que nos lembrávamos . Já sabia que eu tinha de repetir a cadeira e queria estudar comigo . eu e ela apenas . mesmo que fosse só durante uma hora. aparentemente sem nexo . uma mentira. nas ruas .nos compreen­ díamos . e eu e ela. . disse . mas que poderia ter sabe-se lá que consequências . «Não te darei chatices» . Nós duas . dormir em estábulos . Naqueles anos da escola média muitas coisas mudaram diante dos nossos olbos . se quem o fizera tivesse sido o habitante do esgoto . era saber jogar. mas como se todas aquelas conversas não pudessem deixar de chegar àquela pergunta: «Ainda somos amigas?» «Sim. isto é . alimentar-me de raí­ zes . descer aos esgotos através das sarjetas . porém. mesmo se fizesse frio. abandonar o bairro . mas caminhámos muito tempo pelas ruas escaldantes do bairro . nos prédios .A Amiga Genial 83 la não compreendera. por isso não nos pareceram verdadeiras mudanças . Havia qualquer coisa de insuportável nas coisas . como num jogo . O essencial . e logo no dia seguinte fora contar a toda a gente que estava apaixonada por Alfonso. 7. se tornava aceitável . nas pessoas . Falámos sobre isso . A certa altura perguntou-me . mas no dia a dia. Mas o que ela me pediu pa­ receu-me não ser nada. Tínhamos doze anos . que mer­ gulhara a faca no pescoço de dom Achille . e que eu levasse o livro de Latim. Ninguém se compreendia. e apenas nós . no meio do pó e das moscas que os velhos camiões levantavam ao passar. que só reinventando tudo . estreitamente chegadas uma à outra.» «Então fazes-me um favor?» Por ela faria qualquer coisa. nos jardins . Queria simplesmente que nos encontrássemos uma vez por dia. antes de jantar. mesmo se chovesse . sabíamos fazê-lo .pensava eu . só nós duas . e se a filha do assassino casasse com o filho da vítima.

de aspecto forte e saudável . só com os gestos . A morte de dom Achille afastara pouco a pouco a sua sombra ameaçadora daquele lugar e de toda a família. Agora. e Stefano . Até a minha mãe me mandava lá fazer compras . de Verão e de Inverno . que iam comprar bolos para as farm1 ias . um carácter honesto e tranquilizador ao servir os clientes . a dona Maria.cujo experiente pasteleiro era o pai de Gigliola Spagnuolo . que já não era o rapazinho furioso que tenta­ ra puxar a língua a Lila. que andava pelos vinte anos . a pão fresco . o ruído de ferro a correr contra ferro. e o meu pai não se opunha. Os dois filhos de Silvio Solara. Marcello . pouco mais novo . e depois . Quando por lá se passava sentia-se um aroma a especiarias .84 Elena Ferrante O bar Solara foi ampliado . a azeitonas . Tinha excelentes produtos e transmitia. Manejava a balança com grande habilidade . Na retrosaria. Assunta. onde Car­ mela Peluso era caixeira havia pouco tempo . era o filho mais velho . A clientela aumentara muito . tomara-se um rapaz encorpado . e passados alguns meses uma pneumonia quase lhe matara o cônjuge . debaixo de chuva e debaixo de sol . e ao domingo enchia-se de homens novos e velhos . que vendia fruta e hortaliças pelas ruas com Nicola. também porque . e Michele . que abria o apetite .. e uma voz potente com que gabava a mercadoria. olhos azuis . quem corria as ruas do bairro todas as manhãs com a carroça puxada pelo cavalo . juntamente com Pinuccia. A antiga carpintaria de Peluso. tivera de se reformar devido a fortes dores nas costas . Enzo . e corria a metê-las no saco da senhora Spagnuolo ou no de Melina. Gostava de ver a velocidade com que ele fazia correr o peso ao longo do braço da balança até encontrar o equilíbrio certo . a torresmos e a banha. Mas esses dois infortúnios revelaram-se um bem. de olhar sedu­ tor e sorriso doce . a filha de quinze anos . embalava as batatas ou a fruta no cartucho de papel . que uma vez na posse de dom Achille se transformara numa charcutaria. adoptara modos muito cor­ diais e era ela que geria agora a loja. ou da minha mãe. Despontavam iniciativas em todo o bairro . Tomara-se um rapaz ponderado . compraram um 1100 branco e azul e ao domingo pavoneavam-se pelas ruas do bairro . veloz . a enchidos . começara de um dia para o outro a trabalhar uma jovem costureira e a loja fora ampliada. encheu-se de coisas boas que ocupa­ ram o seu interior e também um pouco do passeio . Stefano apontava tudo num livrinho e pagá­ vamos no fim do mês . o mari­ do . que quase nada tinha do garoto que nos atirava pedras. A viúva. quando não havia dinheiro . preten- . tomou-se uma pastelaria bem abastecida . cabelos loiros desgre­ nhados .

exausto .. debaixo de sol . Voltara. que ela já sabia muito latim. o silvado . extirpavam raízes que exalavam um odor a subter­ râneo . ao romper do dia. Enquanto eu e Lila estudá­ vamos latim nos jardins . com aquele jeito maldoso de rapariga que não quer perder tempo . a fonte . tudo se agitava. trabalhadores em tronco nu ou em camisola interior asfaltavam as estradas e a rua larga. ou com um chapéu feito de jornal . a folhas massacradas e a mar. fazendo o rolo compressor avançar lentamente sobre a camada prepara­ da. por iniciativa do filho do velho proprietário . E agora estava no estaleiro de obras perto da linha férrea. e por vezes víamo-lo sobre os andaimes dos novos edifícios . uma cova ao lado da estrada. E cortou muitas . voltara a ser cha­ mado para trabalhos daquele tipo . foi . sabia-as todas . As declinações . foi contratado para ir cortar as árvores junto à linha férrea. com as narinas cheias do odor a madeira viva. por exemplo . Lila irritava-se se eu me punha a olhar para Pasquale e me distraía. As cores também se modificaram. como se não quisesse ser reconhecido pelos ódios acumulados . onde se erguiam pilares piso após piso . ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias : as árvores estremeciam. tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro . A mancha verde desapareceu e no seu lugar surgiu uma clareira amarelada. a máquina fumegante crepitava. a comer pão com salsichas e grelos du­ rante o intervalo do almoço . pelas tensões . Depressa percebi . Algum tempo antes um amigo dissera-lhe que tinha vindo gente ao bar Solara à procura de rapazes . Pasquale arranjara aquele serviço por um acaso da sorte . para irem cortar durante a noite as árvores de uma praça do centro de Nápoles . fendiam o ar.A Amiga Genial 85 dendo tomar-se uma ambiciosa alfaiataria de roupas de senhora. Ele . Sentía­ mos um cheiro permanente a alcatrão . O irmão mais velho de Carmela. também o puro e simples espaço que nos ro­ deava. A ofi­ cina onde trabalhava o filho de Melina. tudo se ar­ queava. emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura.embora não gostasse de Silvio Solara nem dos filhos. como tinha de sustentar a fami1 ia. mudou . enquanto ele e os outros serravam. uma coisa leva a outra. Antonio . tentava transformar-se numa pequena fabriqueta de motociclos . Pasquale . e os verbos também. Enfim. e ela. para meu espanto . como se pretendesse alterar os sinais exteriores . Depois . admitiu que logo que eu entrei para o primeiro ano da escola média requisitara uma gramática na bi- . Gentile Corresio . preferindo mostrar uma cara nova. rachavam. Perguntei­ -lhe com cautela como era possível . pela fealdade . pois fora naquele bar que o seu pai se desgraçara .

e estudara-a por curiosidade . Eu é que me regulava daquele modo . um bocado trombuda. «Quem te deu explicações?» . mas todas as que lhe viessem à cabeça. pro­ curas os complementos: o complemento directo se o verbo for transiti­ vo . Para ela. No fim do Verão . ou outros complementos se não for. como eu procurava no dicionário as palavras que não conhecia. Uma vez deu-me uma bofetada num braço . · vinte de latim para italiano e dez de italiano para latim. Com cada um deles levava um livro emprestado . com força. tínhamos de estudar. ou seja. aliás . A partir do verbo percebes qual é o sujeito . pela mesma ordem em que as encontrava na frase que tinha de traduzir. muito mais depressa do que eu . pareceu-me fácil traduzir. com ar duvidoso . de maneira que tinha sempre quatro ao mesmo tempo . Ela também as traduzia. quando o exame estava próximo . tão grosso . «Uma amiga minha. De repente . e só depois me esforçava para perceber o sentido . pesado . Marcava trabalhos de casa no tom que aprendera com a nossa professora Oliviero . não houve tempo . a biblioteca era um grande recurso . Palavra puxa palavra.» . Fazia-me perguntas e enfurecia-se quando eu não sabia. com tantas páginas .86 Elena Ferrante blioteca que emprestava livros . e não me pediu desculpa. e ia apontando os significados principais . Experimenta assim. Procurava palavras constan­ temente . um em nome de Rino . perguntou a professora. mostrou-me com orgulho todos os car­ tões que possuía . Mandava-me traduzir trinta frases por dia. Devorava-os e no domingo seguinte ia devolvê-los e levantava outros quatro . Estava encantada com o dicionário de latim. Em Setembro fui fazer o exame . com aquelas mãos compridas e magras . a que era dirigida pelo professor Ferra­ ro . limitava-se a marcar os exercícios . perguntou prudentemente: «Foi a professora que te disse para fazeres assim?» A professora nunca dizia nada. nunca vira nenhum. Nunca lhe perguntei que livros já lera e que livros andava a ler. depois de observar. disse que se eu voltasse a errar me batia outra vez e com mais força. não só as que apareciam nos exercícios . fiz a prova escrita sem um erro e na oral soube res­ ponder a todas as perguntas . depois vai ver onde está o verbo .» Experimentei . Calou-se por instantes e depois aconselhou-me: «Lê primeiro a frase em latim. que eram quatro: um dela. outro em nome do pai e outro em nome da mãe . Quando tiveres o sujeito .

Um domingo em que ia para os jardins . Quando saí abracei-a. o mais velho . Acompanharam­ -me todo o caminho . Marcello . de coxas . Eu agora tenho uma coisa para fazer com o meu irmão . Basta. Não via a hora de Lila me pedir que a ajudasse com o latim ou outra coisa.» «Em latim?» «Sim. Esquivou-se com um gesto quase de enfado . Mas dos dois . de cabelo muito escuro e brilhante e o sorriso branco . no 1100. parecia-se com Heitor. Recomeçou a escola e saí-me bem em todas as disciplinas desde o início . Vou buscar uns livros à biblioteca.» «Mas ainda há muito que estudar. onde marcara encontro com Gigliola Spagnuolo . nem na primária tinha sido tão boa aluna. eu no passeio e eles ao lado . e por isso creio que não estudava tanto para a escola como para ela. tal como estava representado na versão escolar da Ilíada .» 8. «E então?» «Já percebi . e Michele . Respondi que sim. de traseiro. Lila estava à minha espera lá fora. os irmãos Solara aproximaram-se de mim no 1100. Naquele ano pareceu-me ter dilatado como a massa de piv.» «Ü que é?» «Depois mostro-te .a . Disse que só que­ ria perceber que coisa era o latim que estudavam os inteligentes . disse-lhe que me correra lindamente e perguntei-lhe se podíamos estudar juntas no ano seguinte . pareceu-me que convidá-la para conti­ nuarmos era uma bela maneira de lhe mostrar a minha alegria e a minha gratidão . Tomei­ -me ainda mais cheia de peito . «Já andaste de automóvel?» . e se eu tiver dificuldades . o mais novo .» «Estuda tu por mim. o que mais me agradava era Marcello.A Amiga Genial 87 «Universitária?» Não sabia o que significava.» «Não gostas?» «Sim. à sombra. Eram os dois bonitos . ao volante . ajudas-me . Tomei-me a melhor da aula. Uma vez que fora ela a primeira a propor que nos encontrássemos só para estudar. sentado ao lado dele .

Gigliola Spagnuolo e Carmela Peluso tomaram o partido dos Solara. e nenhum dos passantes . Mas algum tempo depois não o foram com Ada. Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel. isto é . a filha mais velha de Melina Cappuccio . às escon­ didas da mãe . houve quem fosse contar a Antonio .» «E nós não lhe dizemos . Eu vacilei . levamos-te a dar uma volta. matava-me com pancada imediatamente . Ao domingo . Ada tinha catorze anos . Nós . e embora gostasse muito de mim. Na presença das minhas duas . tímido . Não havia regras escritas . foi esperar Marcello e Michele em frente do bar Solara. ne­ nhum dos clientes . Uma hora depois deixaram-na no mesmo sítio . e Ada estava um pouco zan­ gada. visivelmente afectado pela morte precoce do pai e também pelos desequilíbrios da mãe . o irmão mais velho que era mecânico na oficina de Gorresio . limitando-se apenas a con­ vidar-me a entrar. Quando é que tens ocasião de entrar num carro como este?» Nunca. abriu a porta do carro e puxou-a para dentro . e quando os dois irmãos apareceram recebeu-os a soco e pontapé. pensei . mas só porque eles eram bonitos e tinham o 1100. Michele chegou mesmo a agarrá­ -la por um braço . No entanto disse que não e continuei a dizer que não até aos jardins . e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos . Sem dizer uma palavra aos amigos ou à farm1ia. Antonio era um bom trabalhador. punha bâton . apesar de ainda serem pequenos . e com as pernas compridas e direitas e os seios maiores que os meus. agora e no futuro . Os Solara também sa­ biam. interveio em seu auxílio . a viúva maluca que dera escândalo quando os Sarratore se mudaram . Peppe e Gianni .» «0 meu pai não quer. dividimo-nos sobre este episódio . embora fosse um homem bom e amável . dis­ ciplinado . tanto mais que tinham sido simpáticos .» «Entra. sabia-se que era assim e pronto . de tentar matar os irmãos Solara. Os irmãos So­ lara disseram-lhe palavras grosseiras . raparigas . quando o automóvel acelerou e desapareceu como uma flecha para lá dos prédios em construção . Mas entre aqueles que a viram ser puxada à força para dentro do carro .88 Elena Ferrante «Não . mas depois o pai Solara e um dos barmen saíram para a rua. no entanto ria-se . Durante alguns minutos deu conta do recado . parecia já crescida e bonita. Os quatro espancaram Antonio até sangrar. sem uma só palavra de preâmbulo . sentir-se-iam na obri­ gação .

«Üra. Olhava­ -lhe para as mãos . Fazer sapatos à mão . Marcello e Michele nem sequer olham para ti» . Em pouco tempo tinham ficado como as de Rino . embora fosse verdade. tivera a coragem de os enfrentar. Mas em vez disso . se lhe acontecesse o que acontecera a Ada. dizia-lhe: «Ninguém sabe fazer sapatos como tu sabes .A Amiga Genial 89 amigas inclinava-me para os Solara. talvez porque não era tão desenvolvida como nós e não conhecia o prazer-temor de sentir o olhar dos Solara em cima dela. iam às lojas do Rettifilo . e discutíamos para ver quem os adorava mais .» Continuava delgada como sempre. na presença de Lila.é uma arte sem futuro . Mas Fernando não queria saber disso . respondeu . em série . e pensámos que Lila se ia enfurecer. uma coisa que nada tinha a ver com livros: andava a tentar convencer o pai a começar a fazer sapatos novos . descosia. cola­ va. era dinheiro deitado fora. ia à ruína. espantada. e já manejava as ferramentas de Fernando quase como o irmão . com a pele das pontas dos dedos amarelada e gros­ sa. sabia bem a porcaria que aparecia no mercado . e trabalho . por isso . embora não fosse uma beleza. e como tinha trabalha­ do em fábricas .» E ele respondia que.dizia-lhe . Por isso . embora não fosse musculoso como eles . também eu ex­ pressava algumas reservas . A dada altura contou-me o plano que tinha em mente . en­ chia-o de elogios sinceros. empalideceu mais do que o habitual e disse que . trataria da saúde àqueles dois pessoalmente. pois na verdade eram muito atraentes e era impossível não imaginarmos a figura que faríamos sentadas ao lado de um deles no automóvel .começara a fazer trabalhinhos . e o dinheiro ou está no banco ou na mão dos usurários . disse Gigliola Spagnuolo . mas tensa em cada fibra. e as máquinas custam dinheiro. e que Antonio . Uma vez a discussão tornou-se tão acesa que Lila. preparava o fio . Mas ela insistia. não o vendia. . até debruava.não era essa a sua tarefa na oficina . séria: «Melhor assim. Eis a razão por que naquele ano não me perguntou nada de latim. Embora ninguém a obrigasse a isso . que iam todos os dias ao ginásio levantar pesos. Mas também achava que se tinham comportado muito mal com Ada. que exprimia sem meias palavras essa minha posição . papá. Mas pouco havia a fazer. Hoje existem máquinas . a baixo custo. mesmo que alguém quisesse fazer o produto artesanal com todas as regras da arte . como as do pai . hoje em dia era tudo feito nas fábricas . quando as pessoas precisavam de sapatos novos não iam ao sapateiro do bairro . e não nos bolsos da farru1ia Cerullo . para evitar sarilhos ao pai e ao irmão Rino .

porque é preciso comer todos os dias . nos tempos que correm . libertando-me a mente .» «Já viste o automóvel que os Solara têm. O irmão a princípio alinhara com o pai . Uma vez estava a mostrar-me os desenhos dos sapatos que queria fazer com o irmão .» «Estou-me nas tintas para isso . e segundo .» «Papá.» «As pessoas gastam em comida. na oficina. feitos em folhas de papel quadriculado . portanto ninguém capaz de me encorajar e de me apoiar contra a minha mãe . conversan­ do com Lila.» «Não . e os ti­ vesse reproduzido no papel . Na realidade tinha-os inventado ela no seu todo e em cada detalhe . sentia que estava do lado dele . «Pelo menos tentemos . primeiro não se comem. para homens e para mulheres .» «Mete-te na tua vida e esquece os Solara. e agora discutia com o pai dia sim. puxara Rino para o seu lado . Ao passo que os sapatos. já viste como a charcutaria dos Carracci vai de vento em popa?» «0 que eu vi foi que a retrosaria que queria fazer uma alfaiataria fe­ chou .» Gostava de ver como aquele rapaz . Invejava Lila por ter aquele irmão tão sólido e às vezes pensava que a verdadeira diferença entre mim e ela era eu só ter irmãos pequenos . Mas pouco a pouco deixara-se seduzir. O nosso trabalho . e de qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. onde já não era uma questão de livros e em que o especialista era ele . as pessoas ganham e querem gastar. em todas as situações . e vi que o Gorresio . ricos em pormenores coloridos com precisão . que era capaz de defendê-la de quem quer que fosse . deu a passada maior que a perna. como se tivesse tido oportunidade de observar de perto sapatos daquele género em qualquer mundo paralelo ao nosso . eu achava que Fernando tinha razão . Dito isto . apoiava sempre . repetindo aquilo que ela lhe metera na cabeça. Eram desenhos lindos . como de costume . E.90 Elena Ferrante Lila não se deixara convencer e . ao passo que Lila podia contar com Rino . descobri que ela achava o mesmo . a irmã. quan­ do se estragam mandas arranjar e podem durar vinte anos .» «Junto ao caminho-de-ferro está a nascer um novo bairro .» «Mas os Solara continuam a crescer. devido à estupidez do filho . irritado pelo facto de ela meter o nariz nas coisas do trabalho . sempre gentil comigo mas capaz de brutalidades que até ao pai metiam medo . dia não . como fazia na primária quando desenhava prin- . é arranjar sapatos e mais nada.

só . Tinha reduzido Mulherzinhas às devidas proporções . como fizera a autora de Mulherzinhas . Eu tinha essa ideia firme . de não termos nada. era sempre a mesma coisa: de pobres .» «Fernando zanga-se . devíamos passar a ricas .A Amiga Genial 91 cesas .» Aquilo que devia mudar. Mas limitou-se a encolher os ombros à sua maneira despreocupada. mas que ele e Rino não podem perder tempo comigo . nem tão-pouco com os das actrizes das fotonovelas . Andava a aprender latim pensando nisso e cá no fundo estava convencida de que ela ia buscar tantos livros à bi­ blioteca do professor Ferraro só porque . «E então?» «Devemos experimentar na mesma. na opinião dela. para perceber quanto dinheiro era realmente necessário para fazê-los . às escon­ didas de Rino . «Gostas deles?» «São muito elegantes. Depois desistiu . de qualquer maneira queria escrever um romance juntamente comigo e ganhar muito dinhei­ ro . voltou a dobrar as folhas que agitava na mão e disse que era inútil perder tempo . porque o pai tinha razão .» «Rino diz que são difíceis .» E fez menção de me mostrar também as contas que fizera.» «Então façam-nos. nada muda.explicou­ -me . para ficarmos realmente ricas precisávamos de uma actividade económica. Por isso pensava começar com um único par de sapatos .» «Porquê?» «Disse que enquanto eu estiver a brincar. tudo bem.» «Ü papá não quer fazê-los . Tentei falar-lhe do velho projecto de escrever romances .. embora já não fosse à escola. queria concretizá-la. Agora . pois apesar de serem sapatos normais.» «Se uma pessoa não tentar. devíamos che­ gar ao ponto de ter tudo .» «Mas sabe fazê-los?» «Jura que sim. embora tivesse o pensamento fixo nos sapatos .» «E o teu pai?» «Esse é capaz de certeza. não s e pareciam com aqueles que se viam no bairro .» «Ü que significa isso?» «Significa que para fazer realmente as coisas é preciso tempo e ma­ teriais que custam dinheiro .

o irmão Antonio não conta para nada. com frases em italiano que pintavam diante dos meus olhos o anúncio luminoso da fábrica: Cerullo. para nos defendermos dos dois irmãos era preciso passar a fazer-lhes muito mal . e depois os sapatos Cerullo por inteiro . são tão bonitos e cómodos que à noite vais dormir sem os descalçar. como que numa urgência de solidez. Mostrou-me um trinchete muito afiado que obtivera na oficina do pai . Lila embatocou . uma vez que Fernando se tivesse convencido . com Tina e Nu ao pé da fres­ ta da cave . e disse-me . Depois . Pareceu dar-se conta de que estávamos a brincar como anos antes com as bonecas . acentuando o ar de menina-velha que me parecia estar a tomar-se o seu traço carac­ terístico: «Sabes porque é que os irmãos Solara se julgam os donos do bairro?» «Porque são prepotentes . mais do que os Solara. Depois . todos muito elegantes como nos seus desenhos . todos reluzentes . «A mim não me tocam. conseguissem montar uma fábrica de calçado com as respectivas máquinas e cinquenta operários . ou então .» . quatro amanhã. porque têm dinheiro . divertimo-nos . e ela ajuda Melina a limpar as escadas dos prédios .92 Elena Ferrante para mostrar ao pai como eram bonitos e confortáveis . Rimo-nos.» Falou-me da fábrica com grande convicção. disse . ou também nós ganhávamos dinheiro . sapatos daqueles que uma vez cal­ çados. diz-me . quatrocen­ tos num ano . «mas a ti pode ser que sim. era preciso iniciar a produção . Rino .» «Porque Ada não tem pai . Dois pares de sapatos hoje. pelo menos: a fábri­ ca de calçado Cerullo . trinta num mês .» «Achas?» «Claro . a marca gravada nas gáspeas: Cerullo.» Conclusão .» «Não . Já viste que eles nunca incomodaram Pinuccia Carracci?» «Sim. disse ela. Se isso acontecer. porque sou feia e ainda não tenho o sangue» . a mãe e os outros irmãozinhos .» «E sabes porque se comportaram da maneira que se comportaram corn Ada?» «Não . como ela sabia fazer. para que dentro de pouco tempo ela. «Uma fábrica de sapatos?» «Sim. o pai .

e fazíamo-lo com con­ vicção . ela disse a rir. Lila também não se mostrou particularmente contente . com o seu tom de maldosa: «Não te deram nenhum dez?» Fiquei aborrecida. Gigliola Spagnuolo entristeceu-se porque ti­ nha de repetir Latim e Matemática. A minha mãe . os professores não o tinham dado a ninguém nas cadeiras importantes . Fui a melhor da escola. mas ela não lhe dava confiança porque estava apaixonada por Marcello Solara. e de longe melhor do que Gino . se lho tivessem permitido . Concluí que com aquelas últi­ mas frases ela admitira que eu era importante para ela. Melhor do que Alfon­ so . que a partir dali começou a gabar-se a toda a gente de que a sua filha primogénita tivera nove em italiano e nove .» Menos sucesso tive no pátio . não sabíamos nada de instituições . e tentou recuperar o prestígio con­ tando-me que Gino andava atrás dela. Com quase treze anos . Quando disse a Carmela Peluso que era a melhor da escola. Fui para casa incubando o desgosto de ser a primeira sem ser verda­ deiramente a primeira. A justiça não era feita com pancadaria? Peluso não matara dom Achille? Voltei para casa. disse-me sem se virar: «Podes pôr a minha pulseira de prata no domingo . Ainda por cima. lei s . que teve média de oito . os meus pais começaram a falar . este ano teria tido dez a tudo . justiça. mas não a percas . disciplina por disciplina. em latim. nada menos . Ali só os amores e os namorados é que contavam. e talvez Marcello tam­ bém a amasse . Mas bastou aquela frase para que um pensamento latente se tomasse de chofre cla­ ro: se ela andasse na escola comigo . Fui muito elogiada pelo meu pai .A Amiga Genial 93 Olhei para ela desconcertada . nove em italiano e nove em latim. Quando lhe disse as minhas notas . Durante dias e dias gozei essa supremacia absoluta. para minha surpresa. ela começou de imediato a falar-me do modo como Alfonso olhava para ela quando passava. e ela também sabia. Dez só davam em comportamento . e isso já eu sabia desde sempre . na mesma classe . Repetíamos . Passei no exame final da escola média com oito em tudo . aquilo que sempre ouvimos e vimos à nossa volta desde a primeira infância. 9. e agora atirava-mo à cara. que estava na cozinha ao pé do lava-loiça a escolher horta­ liça. e senti-me feliz .

pus a pulseira de prata da minha mãe . tinha competência para vender canetas .94 Elena Ferrante entre eles de onde poderiam colocar-me . Já não estava satisfeita comigo mesma. Por vezes sentia uma grande necessidade de ir procurar Lila à oficina e falar­ -lhe de personagens de que tinha gostado muito . Co­ mecei por iniciativa própria a ajudar a minha mãe a limpar a casa. tudo me parecia sem brilho . Olhava-me ao espelho e não via aquilo que gostaria de ver. e fui . a mais pequena. A minha mãe queria pedir à senhora da papelaria que me aceitasse como ajudante . dinheiro. no queixo . Tchékhov. em que o professor Ferraro me chamava à biblioteca nessa ma­ nhã. O meu nariz era largo e esborracha­ do . começaria a falar dos planos que fazia com Rino . mas depois perdia o interesse. o que serviu para me inflamar ainda mais a cara. Os cabelos loiros tinham-se tomado castanhos . cadernos e manuais escolares. por forma a atribuírem-me um lugar de prestígio . sentava-me a um canto a ler romances que ia buscar à biblioteca: Grazia Deledda. soltei o cabelo . Até a pele se estava a estragar: na testa. até ao ponto de já nem ao domingo me apetecer sair. Levei tempo a espremer os furúnculos. Tentei pôr-me bonita. proliferavam arquipélagos de inchaços avermelhados . No tempo que me sobrava não saía. a ocupar-me de Elisa . Gogol. Pirandello . fábrica de calçado. em volta dos maxilares . tal como o meu futuro . cresceu . Mas continuei a não gostar do que via. que depois se faziam violáceos e por fim ganhavam pontas amareladas . Ela diria uma maldade qualquer. agora que tinha nem mais nem menos do que o diploma da escola média. mais cedo ou mais tarde estrábica e coxa. inteligente como eu era. Achava ela que . estimulada por um convite em meu nome vindo pelo correio . como queria acreditar que ainda era. a cuidar da desordem que os meus irmãos deixavam atrás de si . Um domingo . como desde peque­ na me parecia que era. uma funcionária da câmara solteirona. embora sem se definir. sapatos . e eu pouco a pouco acharia que os romances que lia eram inúteis e que a minha vida era uma lástima. cresceu . . percorri o caminho até à biblioteca. Todo o meu corpo continuava a dilatar-se . como uma mão inchada pela febre . lápis . a cozinhar. Tolstoi . O meu pai imaginava negociações futu­ ras com os seus conhecimentos na câmara municipal . aquilo em que me transformaria: uma vendedora gorda e furunculosa na papelaria em frente da igreja. de frases que aprendera de cor. debaixo do calor que naquela época do ano caía sobre o bairro desde manhã. Dostoievski . decidi finalmente reagir. Senti uma tristeza dentro de mim que . cresceu . mas sem crescer em altu­ ra. Deprimida.

fui chamada eu . Correios e Telégrafos . eu. Olhámos um para o outro. se juntava a Gigliola. que algo fora do nor­ mal se passava. Ao sairmos . Rino Cerullo. Nunzia Cerullo. enquanto Carmela.A Amiga Genial 95 Percebi logo . para receber o meu prémio. «Bruges-la-Morte . olá. de Jerome K. a quinta classificada. Compreendi que o professor tivera a ideia de oferecer um livro a todos os leitores que . enquanto Carmela sussurrava com insistência: «Porque se riem?» Não lhe respondemos . para lhos entre­ gar?» O professor entregou-me os livros dos Cerullo . de acordo com os seus regis­ tos . que a dona Nunzia lia de pé . sentei-me ao fundo da sala. cobrin­ do a boca com a mão. junto ao fogão . que o sa­ pateiro Fernando não dormia de noite para ler. eram os mais assíduos . o máximo que con­ seguiam ler era: Sal e Tabacos . Pasquale disse-me em dialecto coisas que me fize­ ram rir ainda mais: que Rino estragava a vista com os livros . Como a cerimónia ia começar e a requisição de livros estava suspensa naquele momento. Elena Greco . mas vi apenas Gigliola Spagnuolo na companhia de Gino e de Alfonso . ajudando-se um ao outro . e ambos . Fazendo­ -me elogios . pouco à vontade .. após seis ou sete anos de escola incluindo as repetições . ele e o amigo . pela pequena multidão de pais e crianças da primária e da escola média que entrava pela porta principal . com o cabelo . olhámo-nos de novo e rimo-nos . ou seja. também o director da escola primá­ ria e a professora Oliviero . Vi filas de cadeiras já totalmente ocupadas . numa mão um romance e na outra a colher de pau . e com uma inesperada sensação de bem-estar. e a Pasquale também. sentindo ainda os olhos cheios de riso . Deu-me vontade de rir. segundo. Fernando Cerullo. Foi assim que . que tagarelava com Alfonso e Gino muito feliz . quinto. terceiro . Entrei . Jerome .disse-me . Raf­ faella Cerullo. quar­ to . baixinho: «Posso levar também os prémios da farm1ia Cerullo . Instantes depois sentaram-se junto de mim Carmela Peluso e o irmão Pasquale .» . De­ pois perguntou-me qual era o prémio do seu ex-companheiro de escola. Ferrara entregou-me Três Homens num Barco. Procurei Lila. Agradeci e perguntei . depois de o professor perguntar várias vezes se estava alguém da frum1ia Cerullo na sala. Agitei-me na cadeira. Ele andara na primária com Rino . o pároco . Cobri melhor as faces irritadas . Os premiados foram: primeiro. A pequena cerill}ónia começou . festões coloridos . Olá. com lágrimas de riso nos olhos . ressentida. Charcutaria. sufocando o riso . enquanto cozia massa com batatas . companheiros de turma e de carteira . Ferraro .

» «Então eu vou falar com os teus pais. olhou-me com o seu olhar sempre avaliador e disse-me . pensei . com as minhas próprias mãos?» Desatámos outra vez a rir. se calhar sou eu que não sei apreciar-me . professora. Coisa de doidos . posso entregar- -lho eu . Preferia as coisas tal como estavam: ajudar a minha mãe .» Entristeceu-se .» Olhei-a surpreendida. não tinha uma ideia exacta sobre o que se seguia à escola média. Se a professora Oliviero fosse de facto falar com o meu pai e a minha mãe .» Fiz menção de me afastar.» As atenções de Pasquale Peluso consolaram-me muito . «Não posso . estás uma estrela. aquela rapariga é mesmo esperta.96 Elena Ferrante «Tem fantasmas?» «Não sei . «Nem pensar nisso . Fui ao encontro dela. e como cresceste ! » «Não é verdade . Soube que foste a melhor da escola. cheia de saúde . e devo dizer que um bocado assustada. «Sim.» «Sim. Talvez eu não seja assim tão feia. E também boa aluna.» «É verdade . ou universidade . iria desencadear de novo discussões que não me apetecia enfrentar. gostei que ele me fizesse rir.» «Posso ir contigo quando lho fores entregar? Aliás . resignar-me a ser .» «Quanto te deu em Latim o professor de Letras?» «Nove . como que a confirmar a legitimidade de um juízo mais gene­ roso sobre o meu aspecto: «Que bonita que estás . gordinha. o s meus pais não me deixam. como tantas palavras que encontrava nos romances .» «Deram o prémio ao Rinuccio . Deus do céu . Nesse instante ouvi chamar por mim. dizer-lhes que me mandassem estudar mais . O que mais havia para estudar? Eu nada sabia sobre a organização escolar. para mim eram abstractas .» «E o que vais fazer agora?» «Vou trabalhar. tu tens de continuar a estudar. É Lina quem lê tudo .» «Tens a certeza?» «Sim. era a professora Oliviero . trabalhar na papelaria. Palavras como liceu .

professora» . Antes de nos separarmos . «até à vista. para irmos à oficina do sapateiro en­ tregar os livros a Lila e a Rino . vou pensar. que estava à minha espera. Então ele estendeu-me a mão e eu . era escuro por natureza e por causa do sol . e recolhi a minha.» . Pasquale apanhou-me . que para mim não tinha sentido . Comunista e filho de assassino . ser saudável e gorda. «Sim.» «E vais visitar o teu pai a Poggioreale?» Ficou sério: «Quando posso . hesitei .A Amiga Genial 97 feia. que não estava habituada a tais ges­ tos . Mas mesmo assim disse: está bem. «Não percas tempo com aquele» . mas eu também já não o era.» «Adeus. que primeiro ficou espantado . Dei voltas e voltas na cabeça à palavra «comunista» . Não era um rapaz bonito . dura e áspera. marcá­ mos encontro para o dia seguinte . Fiquei de boca aberta. mal toquei na dele . ter furúnculos .» «Adeus. recomeçando a rir. «Ainda és pedreiro?» . embora soubesse que era. perguntei-lhe . o pai é comunista e matou dom Achille .» Fiz um gesto de assentimento e afastei-me sem me despedir de Pas­ quale .» Mas ela agarrou-me por um braço . Tinha os cabelos negros e muito encaraco­ lados . comunista. talvez até comunista. E vem de uma farm1ia horrível . tinha a boca grande e era filho de assassino . Perguntou-me se também queria ir. iam a casa de Gigliola aprender a dançar. «Sim. mas que a professora marcara imediatamente com um sinal negativo . já sabia que a minha mãe nunca me deixaria ir. à parte os seus sonhos loucos de filha e irmã de sapateiro? «Obrigada. a irmã e quem quisesse . talvez até com Lila. e labutar na miséria.» «E és comunista?» Olhou-me com ar perplexo . com certeza é comunista como o pai . a dez passos de distância. comunista. Pasquale disse-me que no domingo seguinte ele . Comunista. Lila não fazia isso havia já pelo menos três anos. referindo-se a Pasquale . Assim que virámos a esquina. Percorremos o caminho juntos até poucos metros de casa e . não irá mais além. «É pedreiro . Não quero de maneira nenhuma ver-te com ele. mas depois ouvi com prazer que vinha atrás de mim . disse . disse . como dizia a professora. Achei-a fascinante .

Disso se inteirou minha mãe. nunca mais te atrevas a falar com Pasquale Peluso .» Nessa noite . em quem se depositava tão grandes esperanças . a gritar por socorro . dizia que agora era pre­ ciso mandar-me para a escola dos ricos . Os meus pais não ousaram contradizê-la. Exigiu que ambos lhe jurassem que me iam ma­ tricular na escola secundária mais próxima. Ria. senão a Oliviero não deixaria de a atormentar e chumbaria sabe-se lá quantas vezes a pequena Elisa como represália. lançando o meu pai na mais total angústia e exas­ perando a minha mãe . furiosa.. estava a ter uma nova crise de loucura. «Esta rapariga» . Contou ao meu pai . Juraram-lhe solenemente que me iam inscrever na escola secundária. ameaçava partir-me as duas pernas se soubesse que eu trocara uma só palavra com Pasquale Peluso . Respondi-lhe que ajudava o pai e o irmão . Corremos para as janelas . a filha de Melina. companhia totalmente inadequada para mim. inter­ rogando as mulheres debruçadas das janelas . mas no essencial as excentricidades eram raras e inócuas . Era Ada. como se fosse aquele o proble­ ma principal . «Diz-lhe que agora também vais estudar grego . mas olhando-me com ar severo . ouviu-se um grito agudo que nos silenciou . exclamou . A professora Oliviero apresentou-se em minha casa nessa mesma tarde sem ter avisado . mostrando as coxas descama­ das e as cuecas aos filhos assustados . Per­ cebeu-se que Melina. austero: «Lenu . punha em ordem as contas e a loja. e tentei esgueirar-me . e enquanto o meu pai . «vai dar-nos grandes alegrias . e o meu pai disse .» Despediu-se dos meus pais toda empertigada. enquanto a minha mãe . Vi que Nunzia Cerullo e Lila se apressavam para ir ver o que se passava.» Antes de se despedir a professora perguntou-me por Lila.98 Elena Ferrante 10. Fez um trejeito de desprezo e perguntou-me: «Sabe que tiveste nove em Latim?» Fiz sinal que sim . Diz-lho . Ofereceu-se para arranjar ela própria os livros de que eu precisaria. uma espécie de demência da felicidade .um pouco melancólica. dava saltos em cima da cama e levantava a saia. é verdade. por exemplo cantar alto enquanto lavava as escadas dos prédios ou atirar baldes de água suja para a rua sem ver se ia alguém a passar . que me vira sozinha com Pasquale Peluso . vimos um grande alvoroço no pátio . ainda na presença dos meus pais. um pouco distraída. que depois da mudança dos Sarratore geralmente se portara bem .

e encontravam-se assinalados a tinta vermelha os poemas que ele escrevera para ela. enquanto Pasquale me dava razão . vinha indignada. foi ela mesma avaliar a situação. Aquele empregado dos Caminhos de Ferro do Estado era agora o autor de um livro que o . que o máximo que tinha era o segundo ano da primária e nunca na vida lera nenhum. ao ouvir aquele despropósito . ficaria rica primeiro do que Lila. sobretudo Antonio e Ada. É certo que ela já desistira disso . que Donato se apaixonara realmente por ela e ainda a amava. publicara um livro . A ela. insultou de forma muito obs­ cena o ferroviário-poeta. tentando acalmá-la mas em vão . no seu passo claudicante . se tudo corresse pelo melhor. publicado um livro . No mesmo dia atraíra a atenção de um jovem misterioso como Pasquale . Mas enquanto falava. dei-me conta de que . por outro lado . Um livro . manifestando sensibilidade pelas coisas do amor. Toda a noite ouvimos Melina cantar de felicidade e ouvimos as vozes dos filhos . Dentro . escrita a caneta. A minha mãe disse que alguém devia tomar a iniciativa de abrir àquele homem de merda a cabeça de merda que ele ti­ nha. mas a minha mãe impediu-me. Quem sabe . na primeira página. Ele chegou a arquejar. mas talvez eu .A Amiga Genial 99 pela porta para ir ter com elas . como fizera Sarratore . O meu pai . com os seus desenhos de sapatos e a sua fábrica de calçado . mais do que qualquer outra coisa. abrira-se uma nova escola no meu caminho . Alguém fora entregar um livro a Melina. Este último acontecimento provava que Lila tinha razão em pensar que nos podia acontecer o mesmo . todo suado . um livro . Pelo caminho contei-lhe a história de Donato e Melina. Ajeitou o cabelo e . e apoiada pelo amor de Pasquale . com manchas brancas de cal por todo o lado . Eu . sim. com a roupa do trabalho . o que naqueles últimos desenvolvimentos continuava a excitar-me era o facto de Donato Sarra­ tore ter. uma dedicatória para Melina. Disse-lhe que estes últimos acontecimentos eram a prova de que ela não era maluca. e descobrira que uma pessoa que até há pouco tempo morava no bairro . conseguisse es­ crever um sozinha. nem mais nem menos. Na capa do livro estava o nome de Donato Sarratore . Quando voltou . 11. mesmo no prédio em frente do nosso . estava dominada pelo espanto . No dia seguinte encontrei-me com Pasquale Peluso em segredo . por ir para aquela escola difícil que se chamava secundária.

mais atento a eles do que eu estava Rino . com ar apreen­ sivo . e assim que nos viram através da porta de vidro guardaram tudo . mas Lila e Rino estavam lado a lado . mas sim um poeta. enquanto . Também foi a primeira vez que senti que . daí a pouco começou a mudar de assunto . Portanto . Respondi com prazer. dizia que sim só para não me contra­ dizer. o que procurava. o que pensava eu dela. debruçados sobre qualquer coisa que olhavam com hostilidade . que fora inspirado por uma pessoa que conhecíamos muito bem .pareceu-me . esforçando-me para descobrir nela o que atraíra a atenção de Pasquale. se éramos muito amigas . Excitei-me muito . Pasquale lançava olhares furtivos a Lila. Era a primeira vez que alguém me interrogava sobre a nossa amizade e falei sobre isso todo o caminho . Pareceu-me sem­ pre a mesma rapariga delgada. certamente obscenas . mas na realidade aborrecido com o modo como o amigo lhe olhava para a irmã. pele e osso . que se apressou a arrastar Pasquale para a rua. excluindo talvez o formato maior dos olhos e uma pequena ondulação no peito . Porque a olhava assim.1 00 Elena Ferrante professor Ferrara poderia muito bem incluir na sua biblioteca e empres­ tar. pela maneira como deixava a mulher. Ela arrumou os livros junto de outros que tinha no meio dos sapatos velhos e de alguns cadernos com as capas em mau estado . enquanto Pasqua­ le fazia troça do amigo . a fazer-me perguntas sobre Lila: como era ela na escola.» Riram-se muito e de vez em quando segredavam ao ouvido um do outro frases sobre Bruges . Fui com Lila até à arrecadação nas traseiras da loja. com grande entusiasmo . não um tipo qualquer. Mas percebi que sobre esse assunto Pasquale não era capaz de me acompanhar. Mas a certa altura reparei que . Entre­ guei à minha amiga os presentes do professor Ferrara . Fernando fora a casa fazer a sesta. embora trocando piadas com Rino . Referi-me às maluqueiras de . como se quisesse evitar que ouvíssemos o que os divertia tanto a respeito de Bruges . o que via nela? Eram olhares longos e intensos que ela parecia nem notar. Quando chegámos à loja ainda íamos a falar nisso . o cora­ ção saltava-me no peito . fraco . abrindo-lhe o presente debaixo dos olhos e dizendo-lhe: «Depois de leres a história desta Bruges morta dizes-me se gostaste . Ou seja. eu também a leio . E de facto . todos nós havíamos conhecido . pálida. isto é. Melina. diante dos nossos olhos nascera um seu amor trágico . tendo de procurar as palavras para um assunto para o qual não tinha palavras prontas . Lidia. tive a tendência para reduzir a relação entre mim e Lila a afirmações empolgadas e peremptoriamente positivas . pôr-lhe os pés em cima. disse eu a Pasquale . e se for esse o caso .

Isto . senti um calafrio na nuca. com um desenho do Sol a brilhar no cimo de uma montanha. esses poe­ mas só causaram danos. porque final­ mente podíamos dizer que conhecíamos alguém que acabava de publicar um livro . mesmo por cima do título .» Emocionei-me . assim que ela começava a fazê-lo . injectava-lhe energia.» «Porquê?» «0 Sarratore não teve coragem de se encontrar pessoalmente com Melina. como também estava a desenvolver um dom que já lhe conhecia: melhor do que fazia em criança. Nápo­ les. Sussurrei-lhe em italiano: «Pensa. «Se assim for. provavelmente toda a fa­ nu1ia Sarratore vai ficar rica.pensei . contente . Pareceu-me .» Ela fez um meio sorriso duvidoso . Donato Sarratore . Olhei-lhe para os lábios . eu inflamo-me juntamente com Lila. disse-lhe . com naturalidade .que não só sabia dizer bem as coisas . talvez esteja a mudar. na raiz dos cabelos . Que mãos fortes e bonitas que ela tinha. no próprio momento em que ela fala comigo . logo saberemos» . Donato Sarratore . reforçava a realidade ao reduzi-la a palavras . examinei-o . pensei . Dera-lho Antonio . também na maneira de se exprimir. e se o Sarratore não vier ela sofrerá mais do que sofreu até aqui . Peguei-lhe .distingue-me de Carmela e de todas as outras. e no seu lugar mandou-lhe o livro . para tirá-lo para sempre da vista e do alcance da mãe . e não só fisicamente . logo sentia em mim a capacidade para fazer o mesmo . Sim. Intitulava­ -se Expressões de Bonança . «0 Nino terá um carro mais bonito do que o dos Solara» . . que olhares. mas contei-lhe sobretudo o entusiasmo que senti . Agora a Melina está à espera dele . aqui . resmoneou . e saía-me bem. pegava nos factos e .» «E não foi uma acção bonita?» «Sabe-se lá. que alentou o meu canto .» Que bela conversa. o seu filho Nino foi nosso companheiro de escola. E experimentava. sem uma fis­ sura. reproduzia-os carregados de tensão. o filho mais velho de Melina.A Amiga Genial 101 Melina. Mas também notei com prazer que . para a forma delicada das orelhas . Mas Lila fez um daqueles seus olhares intensos e vi que estava presa ao livro que eu tinha na mão . A capa era avermelhada. 12 de Junho de 1 958. Olhei-lhe para a pele branca e lisa.dito com palavras de hoje . pensa. Abri-o e li em voz alta a dedicató­ ria escrita a tinta: «À Melina. que cativantes gestos formulava. disse. Foi emocionante ler. Donato . Estendeu a mão e mostrou-me o livro de Sarratore . «Por agora. «Com isto?» .

Senti uma irritação que me pôs nervosa. à mistura com facas e sovelas e ferros de toda a espécie . a loucura de amor de Melina. Lila disse-me que ela e Rino andavam a tentar fazer um sapato de viagem para homem. dirigindo-se a Rino: «Domingo vamos todos dançar em casa da Gigliola. quisera acompanhar-me até ali não por mim . mas tinha de voltar já para o trabalho . vocês também irão?» «Domingo ainda está longe .1 02 Elena Ferrante Mas enquanto Lila falava de amor. depois logo se vê» . e o irmão . tentei continuar a falar de livros e de histórias de amor com Lila. quase contra vontade . o nome e o apelido terem vindo inflamar de novo o coração da­ quela mulher? Falámos com tanta paixão que Rino de repente perdeu a paciência e gritou: «Então não param com isso? Lila. Em­ polámos exageradamente Sarratore . E entretanto disse . Pasquale confessou a rir que se escapulira do estaleiro da obra sem dizer nada ao mestre-de-obras . talvez para lhe dar a ver: estou a correr o risco de ser despedido apenas por tua causa. Enquanto Rino tirava de debaixo do balcão as coisas em que estava a trabalhar antes de chegarmos. sem me perguntar se queria ir com ele . Pasquale deitou um último olhar a Lila. respondeu Rino . Percebi de repente que me enganara: Pasquale . e as observava perplexo . imediatamente me . uma forma de madeira cercada por uma confusão de solas . o comunista. bocados de couro espesso . tirinhas de pele . não a leitura dos versos . mas por ela. 12. vamos trabalhar. enquanto também eu falava dele . O que iria acontecer? Que reacções iria desenca­ dear. o filho do assassino . senão o papá volta e já não podemos fazer mais nada. o prazer embotou-se e veio-me um pensamento desagradável . o facto de a capa. que não lhe prestou atenção nenhuma. longamente . o pedreiro . ansioso .» Parámos . Aquele pensamento tolheu-me a respiração por u m instante . intensamente . Quando os dois rapazes reentraram. Deitei uma olhadela ao que eles estavam fazendo . Comecei a tocar com os dedos nas zonas mais inflamadas das faces . mas o objecto em si . mas tive consciência disso e contive-me . o papel daquele livro . o título . e pôs-se a andar. para ter oportunidade de a ver. interrompendo a nossa conversa. a Lenuccia tam­ bém vai . Notei que olha­ va de novo para Lila.

fazendo de mim sua confidente . e achasse muito mais interessante aquele clima de tensão em tomo de um sapato? Tínhamos falado tão bem sobre Sarratore e Melina. Ainda tinha presentes . Fernando mandava Lila para casa e gritava que não queria voltar a vê-la na oficina. porque tinha coisas só dela em que eu não podia partici­ par. a namorar com ele em segredo . e a tocar-lhe . Mas sobretudo . e de tentar convencê-la. porque sabia ser independente . cada vez que puxavam a conversa. Aliás . ou melhor. em suma. ali na arrecadação da loja e não no salão paroquial ao domin­ go . eu estava excluída. Dedicavam à criação do sapato cinco minutos agora. não conti­ nuasse a sentir lá dentro . Fingi estar interessada no seu projecto secreto . como se tivésse­ mos visto . mas na verdade fiquei triste . Por isso . por ela preferir a aventura dos sapatos às nossas conversas . e ameaçava Rino de morte . um tipo já crescido . Rino conseguira o couro e a pele através de um amigo que ganhava a vida numa fábrica de curtumes na Ponte de Casanova.A Amiga Genial 1 03 fez jurar pela minha irmã Elisa que nunca falaria daquilo a ninguém. certamen­ te procuraria outras oportunidades de olhar para ela e de lhe pedir. prome- . de canto que se transformara em livro . por ser obrigada a ir-me embora. Embora os dois irmãos me tivessem incluído . Não podia crer que . pele e ferramentas . diante dos meus olhos . por se lhe ter metido na cabeça. um filme muito dramático . aos dezanove anos e faltando-lhe ao respeito . embora apontando­ -me para aquele amontoado de couro . não um rapazinho . Senti-me desgostosa pelo desperdício . disse-lhe de chofre que ia para a escola secundária. como eu . Trabalhavam às escondidas de Fernando . Eu queria lá saber de sapatos . que poderia ser mais do que o pai . me sentiria cada vez menos necessária. de paixão . Lila por aquele caminho viria a fazer grandes coisas sozinha. quando já estava na rua. como diziam que se fazia quando se namorava. Contei-lhe que fora a professora Oliviero que impusera isso aos meus pais . Disse-lho à porta da loja. ao passo que eu precisava dela. porque Pasquale . como podia ser que . os movimentos mais secretos daquela história de fidelidade violada. uma ansiedade pela mulher que so­ fria por amor. como se para afugentar a sensação de asco que aqueles pen­ samentos me causavam. dez amanhã. como se para evidenciar o meu valor e o facto de ser indispensável . e a beijá-lo . era como se ela e eu tivéssemos lido um romance juntas . depois das nossas conversas intensas sobre amor e poesia. tratava-se de uma experiência em que eu só podia participar como testemunha. porque não fora possível convencer o pai a ajudá­ -los . porque . ela me acompanhas­ se à porta como estava fazendo .

Portanto agora também ela sangrava. ela? Comecei a arranjar-me melhor. sem qualquer nexo: «Na semana passada apareceu-me o sangue . um vestidinho liso e debotado . e pus a pulseira de prata que a minha mãe me dera. «0 que é a escola secundária?» . vesti a minha roupa melhor.» «Grego?» «Sim. ou Gigliola. voltou para dentro .» «0 quê?» «Latim.» Fez uma expressão de quem se perdeu e não sabe o que dizer. nunca poderia passar sem mim. Olhou-me . e que .» «E o que vais para lá fazer?» «Estudar. Pasquale . «Uma escola importante que vem depois da escola média.» «E mais nada?» «E também grego . Por fim murmurou . Tornar-se-ia bonita como Pinuccia Carracci . Quando me encontrei com Lila senti um prazer secreto ao vê-la como andava todos os dias . os cabelos muito escuros em desordem. à hora do habi­ tual passeio da rua larga até aos jardins . ou Carmela? Ficaria feia como eu? Cheguei a casa e observei-me ao espelho . Nada a diferenciava da . Fi-lo porque queria que ela percebesse que eu era mais única do que rara. perguntou . O facto de eu ir para a escola secundária num instante perdeu a aura. como eu não podia passar sem ela. livros usados . também a ela haviam che­ gado como a réplica de um terremoto . mais cedo ou mais tarde . Os movimentos secretos do corpo .1 04 Elena Ferrante tendo arranjar-me ela própria. Um domingo à tarde . perplexa. já estava a mudar. sem que Rino a tivesse chamado . 13. mesmo que ela enriquecesse a fabricar sapatos com Rino . Como era eu realmente? Como seria.» E . Durante alguns dias não consegui pensar noutra coisa senão na incógnita das mudanças que iriam afectar Lila. e iriam mudá-la. Ele e provavelmente outros rapazes .apercebeu-se primeiro do que eu . um vestido azul com o decote quadrado . que tinham chegado primeiro a mim . de graça.pensei .

Marcello ao lado . é a cidade mais bonita do mundo . embora ele fosse um rapaz alto e bem feito . não se cansam de andar para a frente e para trás . «Meu Deus . Vi que era larga e curta. A dizê-los a am­ bas . ainda não havia a agitação dos domin­ gos . Não devia tê-lo feito . tão pequenina que era e fizera-se quase tão alta como eu . já viste que bela pulseira tem a filha do porteiro?» O carro parou . mas fiz. e quase a ir para a escola dos ricos . formas de mulher. em vez de continuar a con­ versar com Lila. pensando na minha mãe . ignorando-o . co­ mo se quisesse criar uma familiaridade que me acalmasse . que desejasse ao menos um bocadinho participar naquela minha aventura pelo lado de fora. A pulseira partiu-se . Em vez de continuar a andar como se ele não existisse . como eu temia sempre perder muito dela. nem o irmão .» Então .» Mostrou-se alegre . Foi num . nem o carro . Fomos até ao jardim. Caminhava do lado da estrada. mas empolando-o o mais possível . entrem. «Vou repará-la. olhem que Nápoles é grande . Mas o que era essa mudança? Eu tinha o peito grande . Este começou a dizer-nos gracejos . puxei o braço com nojo. só um centímetro de diferença. ela pelo lado de dentro . enquanto a sua voz dizia: «Trava. bonita como vocês . uma menina nervosa e descamada. Era cedo . meia hora apenas e trazemo-las aqui outra vez . cordial . voltei-me e disse em italiano: «Obrigada. Depois o 1100 dos Solara pôs-se ao nosso lado . Os dedos de Marcello em volta do meu pulso arrepe­ laram-me a pele . talvez . Só me pareceu mais crescida. Michele ao volante . voltámos para trás . percorremos de novo o ca­ minho até ao jardim. Queria que ela se interessasse . Disse-lhe o pouco que sabia. e saiu do carro . Os cinco dedos saíram da janela e vie­ ram agarrar-me pelo pulso . disse ele abrindo a porta. não só a mim . por necessidade de me sentir atraente e afortunada. Miche . «Calma» . caiu entre o passeio e o carro . olha o que me fizeste» . exclamei . Lila fez-me de novo perguntas cautelosas sobre a escola secundária. Marcello estendeu a mão . que sentisse que estava a perder alguma parte de mim . tentou agarrar-me outra vez o pulso . Trauteava em dialecto frases do tipo: mas que lindas senhorinhas . mas não podemos. nem os vendedores de avelãs e amêndoas torradas e de tremoços . onde muito provavel­ mente encontraria rapazes com automóveis mais bonitos do que o dos Solara. e ela ouvia com muita atenção .A Amiga Genial 1 05 habitual Lila. Falava.

pede desculpa às meni­ nas e vamo-nos embora. apertando com as unhas a argolinha de prata que se abrira. Michele saiu imediatamente do carro . Estava um lindo dia claro e ventoso . Lila. Michele também percebeu isso . Entregou-ma.» «Vem cá» . observou-a e reparou-a. Tacteou por baixo do carro. «Muito bem. sua valente» . dizendo em tom tranquilizador: «Ela não te faz nada. meteu-se no carro . e eu comecei a chorar. sempre com a mesma calma. olhando não para mim. mas para Lila.» Depois entrou para o carro e partiram . disse . Tenho a cena gravada na memória com nitidez . Fiquei com a mesma absoluta certeza que tive na altura: ela não teria hesitado em cortar-lhe a garganta. ele quis que eu soubesse bem que transportes tinha de apanhar e quais as ruas por onde devia ir para me dirigir à nova es­ cola em Outubro . incrédulo . havia poucos transeuntes. tinha o olhar desorientado . não por ter medo» . empurrou-o contra o automóvel e encostou-lhe o trinchete à garganta.» Michele deu a volta ao carro .» Lila desencostou lentamente a ponta da lâmina da garganta de Mar­ cello . Marce . Disse com calma. A s fronteiras do bairro esbateram-se n o decurso daquele Verão . disse e . Ajoelhou-se no passeio . Senti-me amada. Lila estava encostada a Marcello como se lhe tivesse visto um insecto na cara e lho quisesse enxotar. De onde estava via bem que a ponta do trinchete já ferira a pele de Marcello . em dialecto: «Toca-lhe outra vez e vais ver o que te acontece . E foi a ela que disse: «Desculpa. «Entra. disse Lila. Marce . na minha frente . mimada.1 06 Elena Ferrante ápice . Ele fez-lhe um sorriso tímido . «Um momento» . . 14. Ainda fazia muito calor. Uma vez que me ia matricular na escola secundária.» Marcello imobilizou-se . essa puta não tem coragem. qua­ se divertido . «Comecei a chorar por causa da pulseira. que fazia metade dele . «vem cá e vais ver se não tenho coragem. como se quisesse pedir per­ dão da forma mais humilhante . disse . ao afecto que sentia por ele depressa se juntou uma admiração crescente . Uma manhã o meu pai levou-me com ele . encontrou a pulseira. um corte de onde saía um fiozinho de sangue .

Gabou a minha extraordinária caderneta escolar a um contínuo cujo padrinho de casamento conhecia bem. não me re­ cordo de mais nenhum. a Via Foria. nos transportes públicos . estava mais afeiçoado a ela. enquanto o resto da cidade era radioso e benevo­ lente? Levou-me a ver o sítio onde trabalhava. cumprimentou este e . era assim desde sempre: corta-se . à Port' Alba.A Amiga Genial 1 07 Conhecia muito bem a enorme extensão da cidade . o Museu . dom esse que no bairro e em casa escondia. o Jar­ dim Botânico . Tratava toda a gente com familiaridade . ou um eléctrico . e com o vendedor de fruta a quem me comprou um pêssego muito amarelo . Reparei que repetia muito «tudo em ordem?» . Seria possível que só o nosso bairro estivesse cheio de conflitos e violência. nos escritórios . que vinham japoneses do Japão de propósito para estudá-la e fazer uma idêntica no país deles. como se quisesse transmitir-me em poucas horas tudo o que de útil aprendera ao longo da sua existência. Mostrou-me a Piazza Cario III . dizia ele . se quisesse . Mostrou-me a Piazza Garibaldi e a estação que estava a ser construída. sabia onde se apa­ nhava o metropolitano . o rapagão . que em casa quase nunca tinha. o Asilo dos Pobres . à Via Toledo . o teu papá e aquele ali . Disse-me que também ali tudo fora renovado . e depois volta-se a fazer. e o dinheiro corre e gera trabalho . abrir portas . Fiquei assoberbada com os nomes . Dedicou-se muito a mim. com o barulho do trânsito . tinha o dom de se tomar simpático . que era na Piazza Municipio . Levou-me pelo Corso Garibaldi . com o esforço de guardar tudo na memória para depois contar a Lila. as árvores todas cortadas e rachadas . com o ar de festa por todo o lado . Passámos o dia inteiro juntos . sobretudo os pilares . em Nápoles há dois verdadeiros machos . a única coisa velha é o Maschio Angioino . Na rua mos­ trava-se muito sociável e de uma cortesia dócil. ou um autocarro . até ao edifício onde era a minha futura escola. Paciência. o único nas nossas vidas . e arranjava sempre maneira de dar a conhecer ao interlocutor que trabalhava na câmara municipal e que . com as vozes. parte-se . Vejam agora quanto espaço . Dizia que ela era tão modema. ou «faz-se o que se pode fazer» . podia acelerar processos . à Piazza Dante . como logo desco­ briu . Nápoles . mas é bonito . Fomos à câmara. com a habilidade com que ele falava com o vendedor de pizza a quem me comprou uma pizza bem quente com re­ queijão . Levou-me à Via Costantinopoli . Mas confessou-me que gostava mais da estação anterior. Tratou do necessário na secretaria com extrema simplici­ dade . com as cores .

e o mar. Que pena Lila não estar ali . o fragor. Ainda bem que a minha mãe nada soubera do episódio da pulseira. repetiu pela enésima vez que eu na escola tivera nove em italiano e nove em latim. Estava muito agitado . Foi um momento inesquecível. mesmo que não tivesse estado presente . os seus nomes. O Vesúvio era uma forma deli­ cada de tom pastel . o II 00 dos Solara estaciona­ do em frente do bar. e expressá-la por palavras e dar-lhe força. eu ter-me-ia imiscuído com um contracanto indis­ pensável . Depois quebravam-se em mil estilhaços cintilantes e chegavam até à estrada. Naquele momento tão tremendo . e o mar. imensas coisas . sim. atravessar a estrada. eis novamente a charcutaria de Stefano e da sua irmã Pinuccia. O meu pai apertou-me a mão como se receasse que eu me escapulis­ se . Dirigimo-nos para a Via Caracciolo. Tinha a impressão de que . com a vida inteira pela frente . apenas está bem. e. juntamente com uma pequena multidão que apre­ ciava o espectáculo . de certeza. cada vez mais vento . demasiadas . embora absorvesse muito daquele espectáculo . cada vez mais sol . Contei a Lila tudo sobre as ruas . com outros foi quase mudo . aos pés da qual se amontoavam as pedras esbranqui­ çadas da cidade . o perfil cor de terra do Castel dell ' Ovo . colava a roupa ao corpo e levantava os cabelos da fronte .apenas juntas - tínhamos de pegar na massa de cores . er­ guendo ao alto a clara de ovo da espuma. As ondas rolavam como tubos de metal azul . cheio de luz e de fragor. Ainda bem que ninguém fora contar a Rino aquilo que acontecera. era muito conhecido . de ruídos . Mas que mar. a luz ex­ traordinária. o senhor manda e eu faço . de coisas e pessoas . Se fosse ela a fazer o relato daquele dia. Enzo a vender fruta. apresentou-me . Regressei ao bairro como se tivesse ido a uma terra distante . Eis no­ vamente as ruas conhecidas . o vento cortava a respiração . fiz de conta que estava só no novo da cidade . correr. deixar-me atingir pelos estilhaços brilhantes do mar. exposta à fúria inconstante das coisas mas . e que agora eu pagaria sei lá o quê para que desa­ parecesse da face da terra. Na verdade apetecia-me largá-lo . Mas de repente senti-me desconsolada. ruidoso . Ficámos do outro lado da estrada. Por fim anunciou-me que me ia mostrar o Vesúvio de perto . Senti-me atordoada pelas fortes rajadas e pelo ruído . com um «oh ! » de espan­ to e temor de todos os que observávamos. nós duas com aquela capacidade que juntas .108 Elena Ferrante aquele . se espalhavam em volta sem se deixarem captar. vencedora: eu . Com alguns foi jovial . ter-me-ia sentido . eu e Lila. afastar-me . nova eu também.

A Amiga Genial 1 09 viva e activa. às escondidas do pai . eu . Quando o dia estava. não fazia distin­ ções de idades . depois de eu ter falado tanto . para tirar força ao meu entusiasmo . à espera dos amigos . os grandes e os mais pequenos . Com os ouvidos ouvia-me . e Antonio . naquele momento era apenas um conjunto de sinais inúteis de espaços inúteis . mas sobretudo ao seu trabalho secreto . e a princípio pensei que assim fizesse por maldade . mas com os olhos . Mas víamo-lo muitas vezes . eu a falar-lhe do centro de Nápoles e ela a pôr no centro a casa de Gigliola. que tinha o peso da mãe . e se Melina estivesse calma vinha também a sua irmã Ada . Michele fazendo de conta que não nos via. Melina . sem dúvida. levantado questões . e no banco de trás a irmã Pinuccia. porque iria enriquecer-lho . Lamentei . o bonito filho de dom Achille . que falava de Donato Sarratore em voz alta. como um livro ou uma fonte . com a mente . Tínhamos sempre aceitado os convi­ tes de Peluso . Era um rapaz generoso . a Gigliola. se não tivesse mais nada que fazer. a que se aplicava para ir para a frente com o projecto dos sapa­ tos . que os Solara tinham metido no carro e levado sabe-se lá para onde durante uma boa hora. que se alimentava de coisas concretas . que agora queria que lhe chamassem Carmen . e . a Pasquale . todo asseado . que andava a passear com Alfonso e Carmela. porque Rino era contra . Geralmente esperava j unto à bomba de gasolin a e pouco a pouco iam chegando Enzo . de longe . Mas tive de convencer-me de que não era assim. a Marcello e Michele Solara que iam a passar no seu 1100. Gigliola. onde Pasquale nos que­ ria levar para dançar. a Melina. às poucas plantas dos jardins. que nos fazia adeus dos andaimes da obra. e às vezes Rino . e Carmela. acompanhava com todos . no entanto nunca lá tínhamos ido . bom iam à praia. para ela.» Ora aí está. Só faria caso daqueles espaços se lhe surgisse a oportunidade de lá ir. para evitar discus­ sões com os meus pais . seria uma companhia muito melhor do que o pai dela. a Stefano . ela disse apenas: «Tenho de dizer ao Rino que temos de aceitar o convite do Pasquale Peluso para domingo . O meu relato . nos dias de festa. e ela. teria feito perguntas . enquanto Ada tentava arrastá-la para casa. E de facto . teria tentado demonstrar-lhe que devíamos fazer esse percurso juntas . estava solidamente ancorada à rua. num dos prédios do bairro . enquanto Marcello não se esquecia de nos deitar um olhar cordial . que acabava de comprar a Giardinetta e levava a seu lado a mãe . necessaria­ mente . ela simplesmente tinha uma linha de pensamento muito sua. Ao passo que ela se limitou a ouvir-me sem curiosidade .

Enquanto dançávamos . ao passo que Pasquale era muito paciente . que desatou a rir ao ver-nos . trauteando a música. Ouvi que ela me prometia. para minha sur­ presa. me entregou o manual de dança e voou pela sala com ele . dava a impressão de que o seu divertimento consistia só em aprender. e depois . e não grego . Grega. fazendo de homem. gramofone . Andava muito alegre nesse tempo . Gramática. uma exuberância surpreendente nela. que deu um grito suave . Também quis dançar. embora sem música. e quem não sabia dançar aprendia. a mazurca. primeiro comigo e depois com a irmã. espreitava um livro esfrangalhado intitulado Gramática Grega . e aplaudia os pares mais acertados . como pro­ fessor depressa se enervava. Sem mais nem menos agarrou-me pela cintura e. cujos pais eram mais toleran­ tes do que os nossos . Apareceu Rino . Pousei o manual ao pé dos outros livros .gra­ mofone . quem sabia dançar dançava. Uma vez que fui a casa dela mostrou-me um livrinho que trouxera da biblioteca. gramofone .» Olhei-a. a valsa. e nós aprendemos com eles o tango . e ali . com uma etiqueta da biblioteca do professor Ferrara . rodopiávamos pela casa. o que era mais fre­ quente . Mas assim que ele disse aquela palavra .Lila gritou-me de um canto da sala. onde estava escrito tudo sobre os passos de dança. apetecia-me dançar sempre . é bom que se diga. quase sem fôlego: . reuniam-se em casa de Gigliola. a polca. principalmente com a irmã. estudando-nos . contou-me que Lila apanhara uma tal mania do perfeccionismo que o obrigava constantemente a exercitar-se. revelaram-se óptimos dançarinos . dera-lhe o interesse pela dança não sei como . Lila. mesmo sem terem gramofone . Ou então . Descobri que gostava muito de dançar. Lila começou a puxar-me para aquelas festarolas .» «Grego . Rino . Rino entretanto largou-me e começou a dançar com a irmã. e cada movimento era explicado com desenhos de homens e mulheres a dançar. para aprendermos bem os passos . estreitando os olhos: «Sabes o que essa palavra é?» «Não . A princípio fez-nos dançar com os pés sobre os dele . Tanto Pasquale como Rino . duvidosa.1 10 Elena Ferrante voltavam com a cara vermelha do sol . com aquele seu ar de quem quer perceber bem como se faz . porém. quando já estávamos mais experientes . O que dissera ela? Gramofone era italiano . obrigou-me a dançar o tango . Mas entretanto vi que debaixo de Guerra e paz. tanto que muitas vezes ficava sentada a olhar.

e de uma maneira ou de outra sentir-me diminuída. tornozelos de menina. Deixei que me mostrasse que sabia escrever todas as palavras italianas com o alfabeto grego . Eram bonitos . exposta a tudo . que era tempo de férias? Fazia sempre as coisas que eu havia de fazer. e obrigou-me a escrevê-lo e a lê-lo . acertavam bem. mas a inferioridade e a vergonha intensificaram­ -se . pensei . la aos bailes em casa de Gigliola com uma sensação permanente de inferioridade e de vergonha. Tomara-se sinuosa. As costas faziam uma curva profunda antes de chegarem ao arco cada vez mais firme do traseiro . andavam à procura de uma nova orques­ tração e pareciam prestes a encontrá-la. Apareceram-me mais furúnculos . a primeira vez . quando eu ainda nem pensava em tal coisa. os lábios . não podia passar o meu tempo a segui-la ou a descobrir que ela me seguia. Quando se penteava com o rabo-de-cavalo . A fronte alta. mas entretanto ia na minha peugada para me passar à frente? Tentei não me encontrar com ela por uns tempos . fui logo procurá-la. e no Verão . Fiquei encantada. Mas não consegui . Esperei que passasse . o nariz pequeno . Dançavam tão bem juntos que deixámos o espaço todo para eles . mas quanto faltaria para se adapta- . 15. do mesmo modo que se perde um tema musical muito conhecido quando é adapta­ do com demasiada imaginação . Fui à biblioteca buscar uma gramática grega. Deixei que me ensinasse como se fazia a quadrilha. mas só existia uma e fora emprestada por turnos a toda a farm1ia Cerullo . as orelhas . e foi . as maçãs do rosto . os grandes olhos que se estreitavam de repente .A Amiga Genial 111 «Depois escrevo-te gramofone em letras gregas . Talvez eu devesse apa­ gar Lila de mim como se fosse um desenho no quadro . creio . o longo pescoço mostrava-se com uma nitidez enterne­ cedora. Sentia-me frágil .» Disse que tinha que fazer e fui-me embora. Os tornozelos ainda eram ma­ gros de mais . Uma vez Lila exibiu-se numa valsa com o irmão . primeiro e melhor do que eu? Fugia de mim quando eu a seguia. Olhando para eles compreendi perfeita­ mente que ela em breve perderia o seu ar de menina-velha. de dia para dia mais visíveis . fiquei zangada. Quis que eu aprendesse também aquele alfabeto antes de ir para a escola. Começara a estudar grego ainda antes de eu ir para a escola secundá­ ria? Fizera-o sozinha. O peito tinha uns pequenos pomos graciosos .

Mas para dizer essas gabarolices era indispensável que a irmã não estivesse presente . E de facto . para uma pizza . como se as outras tivessem desaparecido . mas para todos . O corpo em mutação de Lila começara a emanar qualquer coisa que os machos sentiam. como o som já próximo da beleza que se avizinha. um vocábulo exagerado que me vinha das histórias da infância. 16. Tinham os olhos postos nela. sobretudo . que a observava desde que andáva­ mos na primeira classe . não perdia uma oportuni­ dade de aludir a como era hábil no seu trabalho e que iria ficar rico. Tomara-se mais fanfarrão . Mas não havia nada a fazer. Era o que eu continuava a pensar. Primeiro que todos Pasquale . o efeito não era dos melhores . Rino . esboçava algumas frases . Lila era má. Lila despertara nele a fantasia e as esperanças . uma energia que os atordoava. mas depois continha-se . Mas se era o meu lado infantil que desencadeava aqueles pensamentos . Dizia para comigo: há-de libertar alguma coisa ainda mais malvada. Foi preciso que a música se interrompesse para eles voltarem a si . em qualquer lugar secreto de mim. No entanto Gigliola tinha uns cabelos loiros deslumbrantes .1 12 Elena Ferrante rem à sua actual figura de rapariga? Tive consciência de que os rapazes . No entanto eu tinha mais peito . com sor­ risos incertos e aplausos exagerados . viam ainda mais coisas do que eu . essas suas capacida­ des pareciam-me agora de pouca importância. para um passeio . pernas perfeitas . repetia amiúde uma frase que lhe dava prazer: basta pouco . feições regulares . No final do Verão começaram a aumentar as pressões sobre Rino para que . que emanava de Lila um fluido que não era apenas sedutor mas também perigoso . movimentos provocantes . Apercebia-se de que Lila o olhava de mau modo . Na presença dela atrapalhava-se . Mas . gradualmen­ te tomou-se claro não só para mim. Também ele me parecia estar a mudar. nas saídas em grupo fora do bairro . Já me mostrara que sabia ferir com palavras e também que seria capaz de matar sem hesitação . mas também Antonio e tam­ bém Enzo . contemplando-a enquanto dançava com Rino . o certo é que havia neles um fundo de verdade . para quem o via. para eu mijar na cara dos Solara. e recorria à palavra malefí­ cio . porém. como ele . contudo . um bocadi­ nho de sorte . queria ter o seu espaço . trouxesse consigo a irmã. No entanto Carmela tinha uns olhos lindos e . para quem o ouvia.

de distanciamento . disse-nos que o homem que fazia a pizza . Mas por vezes tinha de se sujeitar. sentimos o fedor a peixe estragado por causa do calor. dos bares-pastelarias muito mais bem abastecidos do que o dos Solara. Atravessámos a Piazza Garibaldi . Quis-me parecer que Antonio me cortejava um pouco . sempre a rir: «É verdade . «Pára com isso» . olhava-lhes directamente para a cara. demorava-se a olhar para um engraxador. Do que me recordo bem é que daquela vez se manteve totalmente muda. arrastava-a atrás de mim com medo de nos perdermos de Rino. Antonio . Esgueirava-se para se ir exibir como um pavão junto dos amigos . Vimos a cidade iluminada pelos anúncios luminosos . Fixava as pes­ soas com muita atenção . que olhava para ele admirada. mas também o perfume dos restaurantes . era pai de filhos com certeza . Mas a certa altura o tipo que fazia a pizza . mas ela fica­ va para trás . tenho a certeza de que não me contara. esforçando-se para olhar para outro lado . tinha aliança no dedo . e por isso preferia não a ter por perto . começou a fazer voltear a pizza no ar enquanto a amassava. e fiquei contente . «Não estou a fazer nada» . para os rapazes . imagine-se. fomos sair (Rino veio generosamente assumir perante os meus pais a responsabilida­ de pela minha pessoa) . Mas Pasquale perguntou a Lila. Mas as coisas agravaram-se . Pasquale. após muitas discussões com os nossos pais. com o irmão ou com outros . de modo que alguns riam-se . Estava ocupado com o seu trabalho e mais nada.atirara às escondidas um beijo a Lila.que para nós . um homem dos seus trinta anos. das tascas de fritos . Não me recordo se Lila já tivera alguma oportunidade de ir ao centro . à noite. respondeu ela. as ruas apinhadas . Pasquale . comemos com alegria. Um domingo. e trocando sorrisos com Lila. Virámo-nos todos para olhar para ele . rapariguinhas . ou estou enganado?» Lila. já bastava estarem todo o dia a trabalhar juntos na sapataria. para uma mulhera­ ça toda pintada. disse-lhe Rino . para os homens escuros . com uma habilidade excessiva. a rir. isso equilibrava as atenções de Pasquale com Lila. respondeu: . Carmela e Ada. parecia velho .A Amiga Genial 113 estivesse a trair u m pacto secreto de compostura. Nessa noite fomos a uma pizzeria do Rettifilo . Mas se tinha ido . outros faziam-lhe um gesto que significava: o que queres? De vez em quando puxava por ela. soprando-o na ponta dos dedos. com uma risadinha nervosa a contrastar com o sorriso generoso de Pasquale . vencendo a sua timidez .

desta vez todos nós reparámos . dos seus cinquenta. bonitas . . com dentadas lentas . Parecia gente res­ peitável . que se limitara a fazer compreender ao seu empregado uma coisa que era pouco clara para ele . O que é que se passava? Na rua. perplexa. quase nunca lhe dirigiam as obscenidades que habitualmente nos reservavam. como se estivesse envenenada. acorreu imediatamente . que a mãe lhe fazia. peque­ no e pálido . onde nos sentámos à mesa de um bar porque Pasquale . e não tanto os jovens como os homens feitos . um homem forte . Se alguém olhava para ela. correspondia ao olhar como se não se capacitasse de que estava a ser admirada. Mais vistosas estávamos nós . e por vezes respondia. enquanto à nossa mesa o nervosismo de Rino . evidentemente sem se dar conta do risco que corria. e Lila. fulminando a irmã com o olhar. os homens com quem nos cruzáva­ mos olhavam para todas nós . O dono do estabelecimento . Uma tarde de fim de Agosto fomos até à Villa Comunale . E quando saímos Rino deu um grande raspanete a Lila. Se alguém lhe dizia qualquer coisa.» «Deixa estar. e Pasquale explicou-lhe com calma que não era preciso preocupar-se . sobretudo Carmela. como nós : pai . como se não acreditasse que estavam a falar com ela. Ir passear com ela ao domingo tomou-se um motivo de permanente tensão . Por fim. de olhos baixos. embora tentando controlar-se . que naquele tempo se comportava como um nababo . Acabámos de comer a pizza em silêncio . deu uma bofetada na cara do ho­ mem . Acontecia assim no bairro e fora dele . e que agora não haveria mais problemas .1 14 Elena Ferrante «Eu não vi nada. Mas aquele senhor . intrigada. e eu própria . Até porque . a fingir que não ouvíamos as porcarias que eles nos diziam e seguir em frente . Lila. E posso jurar que Lila não trazia nada que desse nas vistas: não pusera bâton e as roupas que vestia eram as mesmas de sempre. foi ao balcão do fomo . Pasquale e Antonio cres­ cia. tinha ar de profes­ sor. coisa fora do normal . com idades entre os doze e os sete . Mas Peluso levantou-se .tínhamos aprendido instintivamente a manter os olhos baixos . mãe e três filhos . O pai . feias . terminando com uma ameaça: continua assim e nunca mais te trago . disse Rino . À nossa frente estava uma farru1ia a comer gelado à mesa. Carmela.principalmente depois do incidente com os Solara . ela retribuía o olhar. quis oferecer um spumone a todos . com o seu sorriso cândido nos lábios . olhou em volta e . um homem na casa dos sessenta. o homem. e Ada.não conseguia tirar os olhos dela. bonitinhas . não . ela parava. Pascà» . atirando-o contra a boca do fomo .

licores . Pinuccia estava sobretudo contente por ter ido a uma festa. Por exemplo Maria. pãezinhos de cassata . e senti necessidade de o dizer também a VÓS . Mas depois tudo se compôs da melhor maneira. Alfonso era um rapaz simpático (também ia para a secundária. Gino . Stefano percebera precocemente que o comércio se baseia na ausência de discriminações . os filhos do assassino de dom Achille . pois sacrificava-se a trabalhar diaria­ mente na charcutaria. Por exemplo . dirigindo-se educadamente aos rapazes . foi tudo feito em grande: havia profiteroles em abundância. bolos de amêndoa. na mesma escola que eu) e até trocou algumas palavras com Carmela. a mulher gritou metendo-se no meio . por isso limitou-se a evitar cruzar. Mais um domingo estragado . a viúva de dom Achille . por regra. Peço desculpa.» Lila desatou a rir devido à tensão nervosa. O que me espan­ tou não foi o facto em si . o fez percorrer a distância a correr. virava a . muito colorida. Têm aqui uma rapariga que virá a ser mais bela do que uma Vénus de Botticelli . mas a adesão em tomo de Lila de tensões de proveniência diversa.A Amiga Genial 115 levantou-se . A mãe de Gigliola. Mas o pior aconteceu uma vez que Rino não estava. Estas últimas presenças de início causaram grandes tensões . pastéis folhados . Maria. Também lá estavam Pasquale e Carmela Peluso. o professor Ferraro e a sua numerosa farm1ia. Como o marido era o pasteleiro da pastelaria Solara. O homem por sua vez sorriu . que . o farmacêutico com a mulher e o filho mais velho . quase a entrar para a secundária como eu . como os dizíamos no bairro . se via a senhora Peluso . e tam­ bém Stefano . deu uma festa com pessoas de todas as idades . considerando todos os habitan­ tes do bairro potenciais clientes que iriam gastar dinheiro na sua loja. diante da mulher e dos filhos . mas já disse isto à minha mulher e aos meus filhos . bebidas para crian­ ças e discos de música de dança. descarregou sobre ele uma série de insultos . no dia do santo do seu nome (chamava-se Rosa. dos mais corriqueiros aos da última moda. com o filho Alfonso e a filha Pinuccia. Veio gente que às nossas festarolas de jovens nunca teria vindo . um só instante que fosse . se bem me lembro) . fez-lhe uma vénia discreta e ia regressar à sua mesa quando Rino o agarrou pelo colarinho . O homem zangou-se . Por exemplo . parou na frente de Lila e . Geralmente abria o seu bonito e simpático sorriso para toda a gente . o sentou à força e . e Antonio puxou Rino dali para fora. disse: «Vocês são afortunados. o seu olhar com o de Pasquale .

a meu lado . Lila também não me parecera muito em forma. dos velhos às crianças . Mexia-se de modo um pouco ridícu­ lo . O garoto que nos atirara pedras . e . o rock and rol!. ficar de fora. decidi ficar a olhar. Mas quando pu­ seram a tocar outro rock and rol!. Via-se bem nas suas feições que se levantava antes de alvorecer. calcor­ reando as ruas do bairro . Mas no seu rosto de loiro em que tudo era claro . que uma vez lhe oferecera uma coroa de sorvas . não reagiu . que de surpresa competira com Lila em aritmética. Ele ficou calado . ao longo dos anos era como se tives­ se sido absorvido por um organismo de baixa estatura mas forte . havia ainda um res­ quício do menino rebelde de quem tivéramos de nos defender. e que andava em todas as estações . pela qual todos . Aliás . É claro que já sabia dançar o rock and roll. Lila. . No resto . ignorou por completo os dois jovens e tagarelou muito tempo com a mãe de Gigliola. não teria passado pela cabeça de nenhuma de nós trocar piadas com ele . Olhou­ -o com gratidão e entregou-se à música. que se alguém lhe tocava sem ela permitir saltava para o lado como se lhe tivesse picado uma vespa. que tinha de lidar com a camorra do mercado de fruta e hortaliças . com frio . que de todos nós era o que tinha mais idade . ti­ nham grande curiosidade . Perguntou a Lila porque não dançava. embora de má vontade . a vontade que tinha de dançar. a ver como Pas­ quale e Carmela Peluso dançavam bem. Foi ele que tomou a iniciativa. Primeiro foram as danças tradicionais e depois passámos para uma nova dança. com o meu irmão Peppe . todas em dialecto . a vender fruta e hortaliça com a carroça. Ela respondeu: porque ainda não sei dançar bem esta mú­ sica. sobrancelhas e pestanas loiras . habi­ tuado ao trabalho duro . e ela tomara a crítica como um desafio e insisti­ ra em treinar-se sozinha. para minha satisfação . Eu . encalorada. com ela. Mas a certa altura Enzo aproximou-se dela. retirei-me para um canto . Enzo era de poucas palavras mas tranquilas . De aspecto parecia mais velho do que Rino . manter uma conversa. e em casa de Lila. ao domingo . e depois disse: eu também não .1 16 Elena Ferrante cara para o outro lado . olhos azuis . uma vez que Rino se recusava a dançá-lo . chegara a dizer-lho . debaixo de chuva. pegou-lhe num braço com naturalida­ de e levou-a para o meio da sala. já o dançara muitas vezes em casa. evidentemente . mas sentia-me muito desajeitada para aqueles movimentos rápidos e ágeis . a algazarra aumentou e ninguém fez caso de mais nada. tanta era. naquela noite decidiu tam­ bém. Mas . perfeccionista como era em todas as coisas . Aquilo que mais contribuiu para diluir as tensões foi o facto de termos começado a dançar sem demora.

so­ bretudo Marcello . por fim repararam em Lila. o dono da charcutaria. ou pelo simples gosto de armar desordem. Olhou para ela o tempo todo como se olha para uma diva no cinema. decidiu complicar a situação à sua maneira. Foram cumprimentar o pastelei­ ro e a mulher. fixaram-na durante muito tempo . de modo sério e compassado . à maneira de donos do bairro . Pasquale começou a dançar com Lila e . Deu uma cotovelada a Stefano e disse-lhe em voz alta: . Stefano e Marcello avançaram ao mesmo tempo para convidá-la para dançar.até Stefano . Aconteceu tudo num ápice . Foi mesmo isto que se passou . permitir que ela se exibisse . mas estava muito atento a Lila. Não os perdi de vista e não foi preciso muito para perceber que . cada um deles convencido . Bastou-me vê-los para ficar agitada. ou por amor ao irmão . Marcello e Enzo recuaram. Até Enzo gosta dela. Me­ xia-se pouco . que era o que se sentiam. Mas .reparei imediatamente . Nunca mais tirou os olhos dela. como se ti­ vesse perdido o pouco tino que tinha. parecia não estar zangado por causa da cena do trinchete . do seu poder abso­ luto . E ela. dada a excelência do dançarino . Stefano . A agulha raspou o disco . que agradava a todas .A Amiga Genial 1 17 Viu-se imediatamente que Enzo não sabia dançar grande coisa. a música começou . Lila deu um saltinho gracioso de consentimento e bateu as palmas . feliz . pretendia claramente dar-lhe prazer. mas Pasquale antecipou-se-lhes . justamente quando Lila estava a dançar com ele . ela imediatamente se desenfreou . Nessa altura Michele Solara. de modo diferente . Continuou a olhar para ela mesmo quando a música terminou . Em poucos segundos foi completamente cativado pelo corpo flexível e ele­ gante de Lila.Marcello .. duvidosos . Muito pelo contrário . E . indicaram um ao outro Anto­ nio . pensei desolada. embora não fosse tão exímia como Carmen . Quatro homens de idades variadas moveram-se ao mesmo tempo na direcção daquela figurinha de rapariga de catorze anos . disse­ ram qualquer coisa ao ouvido um do outro e Michele fez um visível sinal de concordância. que desviou o olhar. pelo seu rosto fora do comum para o bairro e talvez para toda a cidade de Nápoles . depois segredaram. deitaram um olhar carregado a Ada. Enzo tentou impelir Lila para o canto onde eu estava. e fizeram-lhe um gesto de saudação exagerado que ele fingiu não ver. chegaram os irmãos Solara. conseguiu como sem­ pre captar a atenção de todos . Primeiro . deram uma palmada amigável a Stefano e depois puse­ ram-se também a observar os dançarinos .

Michele fez um trejeito de desagrado e foi à procura do pasteleiro e da mulher. não o vendo . puxando-a. a rir. Alfonso e Pinuccia. a transpirar. e ele em voz baixa mandou-a calar. apontava para Carmela que se exibia com Antonio . baixando-a. depois . Antonio apro­ ximou-se deles . com o seu sorriso encantador: «Deixemo-lo dançar. e ouviu Enzo . olhei para Enzo . e ficas aqui parado a vê-lo dançar com a miúda com quem tu querias dançar?» Pasquale de certeza não ouviu . Pasquale . Enquan­ to o coração me batia de ansiedade . apontava para o canto onde estava Maria. aproximou-se de Carmela e disse-lhe qualquer coisa com modos bruscos . «Vai» . Mas eu ouvi . Olhei para Stefano . ele dança bem» . e para Marcello . Mas não foi assim que aconteceu . Olharam os dois de través para Michele Solara. e . Disse a Mi­ chele . ou não? Aquele é o filho do homem que matou o teu pai . primeiro procurou Pasquale com o olhar. ou mesmo certo de que a vida lhe daria tudo o que desejava. E Mar­ cello Solara voltou à carga com Lila.118 Elena Ferrante «Mas tu tens sangue na guelra. elevando-a. naturalmente . e ouviu Stefano . ou seja. sabia como o detestava. agarrou a mão de Marcello como se fosse apenas uma mão . Tinha a certeza de que ela lhe diria que não . porque a música estava alta e ele es­ tava ocupado a fazer acrobacias com Lila. falou com Pasquale . levou-o para um canto e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido . Lila voltou para o pé de mim. ele planeava comprar um espaço ao lado para ampliá-la. sisudo . A música recomeçou e ela. «O caminho está livre» . apontava para Pasquale que estava a dan­ çar. com a vontade de dançar em cada músculo . Assim que a música acabou . que estava ao pé de mim. como se a seguir não existisse um braço e todo o cor­ po dele . mas não aconteceu nada. apontava para Stefano . disse Michele ao irmão . Estava tudo sob tensão . que dançava com Lila. sentia-se afortunado . é um comunista de merda. Stefano era um rapaz atilado . que conversava de novo com Stefano . O que queria ele fazer agora? Vi-o a falar com os donos da casa de modo agitado . como se a única coisa que lhe importasse naquele momento fosse ela. Carmela pro­ testou em voz baixa. A charcutaria ia de vento em popa. e continuou a olhar para Lila. Esperámos que acontecesse qualquer coisa. Eu disse-lhe: . Depois An­ tonio foi buscar Ada à zona de dança. a mãe de Gigliola deu o braço a Pasquale cordialmente . A música terminou . recomeçou a fazer o que naquele momento mais contava para ela: dançar.

é melhor irmo-nos embora. e bateu-lhe com força com o ombro . parecia-lhe impossível ele estar a tocar-lhe com tanta confiança. e apesar de ser mais novo e mais baixo . «Esperemos que a Lila termine esta dança. entre o riso e a súplica: «Fica. vamos» . Mas entretanto . Pasquale veio até junto de mim e disse-me . e por Antonio que puxava por Ada. disse ele num tom que não admitia respostas .» Lila. Tentou libertar o braço . Marcello Solara agarrou Lila por um braço . . eu levo-te a casa. seguido por Carmela. Enquanto nos dirigíamos para a saída.» «Não . que estava encostado a uma parede . mas ele continuou encostado à parede a ver Lila dançar.» Ela riu-se e exclamou: «Vou dançar mais uma música. que soltou Lila com um esgar de dor e agarrou imediatamente o pulso com a outra mão . dizendo: «Só mais uma dança. a música recomeçou . A música terminou . que tí­ nhamos de nos ir embora. relutante .» Seria possível que não se tivesse apercebido de ter dançado com Marcello duas vezes? É possível . quase gritei . duro . aquele merdoso . Ainda bem que o Rino ali não estava. enervada. «Está bem. viste? A mim . Marcello convidou-a mais uma vez e ela deixou-se arrastar de novo pela dança. ouvi Lila dizer indignada a Enzo . com ar sombrio . Lila dirigiu-se para mim seguida por Marcello . disse . dizendo-lhe . Estava calmo . A força do aperto só se revelou no rosto de Marcello Solara.» Enzo desencostou-se da parede e agarrou o pulso de Marcello sem dizer uma palavra. imediatamente» . O outro riu-se e disse-lhe qualquer obscenida­ de entre dentes . e olhou para Enzo. Depois foi de encontro a Michele Solara. nem que venha um terremoto» . Voltei-me para ver o que Enzo fazia. como se tivesse acordado . em dialecto puro: «Tocou-me . parecia não estar a fazer o menor esforço . é um homem morto . Encaminhei-me para a porta sem esperar mais . cujos olhos brilhavam de satisfação . olhou-o incrédula. Devo ter revelado tanta angústia na voz que ela finalmente olhou em volta. Pasquale dirigiu-se para a porta da casa. indelicado . Ainda estou a vê-lo . como se só então o reconhecesse . mas Marcello agarrou-a com força. Se o fizer mais alguma vez . perplexa. ela era assim mesmo . «Temos de nos ir embora» .A Amiga Genial 1 19 «Passa-se qualquer coisa.

» Então Enzo disse baixinho: «Se vocês ficam. fingindo calma: «Vai tu . vemo-nos ama­ nhã. Enfurecidos . que eu ainda nunca tinha visto chorar.» Por entre soluços . por aquilo que haviam feito a Ada. queriam ficar para enfrentar os Solara. em tom resignado: «Pronto . esta noite não . Disse . Dizia que dom Achille fora espião dos nazi­ -fascistas . enxugando as lágrimas com as costas da mão: «Quem são os nazi-fascistas . que era a base para o contrabando e para recolher os votos da Estrela e Coroa.» E por fim gritou . Gritava insultos . sim.o que me perturbou ainda mais . Mas Pasquale só amansou quando viu Lila a chorar. mas também frisámos que o melhor era fazer de conta que não existiam. e não havia maneira de o acal­ mar. Antonio . porque queria privá-lo de uma ale­ gria: a alegria de ser ele a matar os Solara. e lágrimas desespe­ radas . Dizia coisas que nós não tínhamos elementos para compreender. repeti­ ram várias vezes a Enzo . como se fosse a coisa mais grave: «E tu . Gritava: «Ü meu pai fez bem em matá-lo. também Antonio começou a gritar. debulhou-se em lágrimas também. como se a fúria de Pasquale lhe tivesse bombeado fôlego para o peito .» Nesse instante . encarrego-me eu de lhes cortar as goelas . tu até foste dançar com aquele pulha. foi Lila.1 20 Elena Ferrante Lá fora encontrámos Pasquale . Pascà? Quem são os monárquicos? O que é o mercado negro?» . pai e filhos . e depois apago também da face da terra Stefano e o resto da farm1ia. Enzo tentou convencer-nos a todos a sair da rua. voltando-se para Lila. Dissemos-lhe muito mal dos Solara para o consolar. eu e Lila demos-lhe logo o braço e arrastámo-lo dali . resolvo o assunto dos Solara noutra altura. vai . mas sobretudo a Marcello e Stefano . também fico. Pasquale estava fora de si . com olhos de louco . «Vamos dormir» . E Ada começou a chorar e Carmela não conseguiu conter-se mais. dos monárquicos .» Nesse momento fui eu que desatei a chorar e . disse . Tinha raiva a Michele . Éramos já quatro raparigas lavadas em lágrimas . segundos depois .. Dizia que o bar Solara sempre havia sido um lugar de camorristas usurários . Carmela e Ada. gritava a plenos pulmões . Depois Lila perguntou .» E gritava: «Os Solara. nunca o tínhamos visto assim. dizia que o dinheiro com que Stefano desenvolvera a charcu­ taria fora ganho pelo pai no mercado negro . Mas Pasquale e Antonio calaram-no . e quase parecia que estava zangado com Pasquale . vamos .

este automóvel foi compra­ do com a venda de carne estragada e pão contendo pó de mármore no mercado negro . um fas­ cista ainda pior do que os filhos Marcello e Michele . sobre esta pedra marcharam e fizeram a saudação romana.A Amiga Genial 121 17. na origem daquele bar está a camorra. sem fissuras . . para mim insuportável .» Depressa se sentiu insatisfeita com Pasquale . o dinheiro destes vem-lhes da fome daqueles . a monarquia. a usura. Mas ela. a república. dom Achille e o mercado negro . Em linguagem de hoje. e o meu pai . E assim deu motivações concretas e rostos comuns ao clima de tensão abstracta que desde pequenas havíamos respirado no bairro . e dizia: «Aquele foi à guerra e matou . todos comprados com farelos . aquele espancou e deu a beber óleo de rícino . Era como se ele tivesse accionado um mecanismo na cabeça dela e agora a sua tarefa fosse pôr em ordem uma remessa caótica de sugestões . todos eles criminosos empedernidos ou cúmplices condescendentes . Fer­ nando . ela transformou-os em ruas . de tal forma que até ao final do Verão me massacrou com uma única ideia. casas . as coisas . É difícil dizer o que as respostas de Pasquale fizeram a Lila. provavelmente ela própria dominada pela urgência de se sentir encerrada numa visão compacta. completou as insu­ ficientes informações dele com alguns livros que encontrou na bibliote­ ca. Mas o que importa é que foi tomada pelo frenesim da revelação total . corro o risco de errar ao contá-lo . aquele talho nasceu do roubo de cobre e de assaltos a comboios de mercadorias . evidentemente . Ela. o con­ trabando . até porque sobre mim. o pai Silvio . os aliados . o nazismo . todos aos seus olhos manchados até ao tutano por culpas tenebrosas . rostos . Cada vez mais tensa e mais obcecada. Ela e Pasquale encerraram-me num mundo terrível que não dava escapatória. O fascismo . elas não ti­ veram qualquer efeito concreto . ficou transtornada e alterada por causa disso . o sapateiro . que não contenham a soma de todos os crimes que os seres huma­ nos cometeram e cometem. na altura. Peluso o comunista. o avô camorrista dos Solara. todos . todos. dizia-o de outra maneira. naquela casa torturaram e mataram. aquele até a mãe fez passar fome . nesta esquina açoitaram. Quando saíamos indicava-me as pessoas . tentarei resumir assim: não há gestos. aquele denunciou uma quantidade de pessoas . as ruas . palavras . e o seu pai . a guerra. à sua maneira habitual . sus­ piros .

até à hora de jantar.no sangue . Fui parar a uma turma de quarenta e dois alunos . lavá-la. não só os professores como o que escreviam no quadro . formando uma corrente que nos apertava por todos os lados . acabou por ir ajudar o pai na pastelaria dos Solara. sujos e muito usados. Durante os primeiros meses vivi a minha nova vida escolar em silên­ cio . As raparigas eram pouquíssimas . Dos rapazes . conhecia Alfonso e Gino . também ele derrotado pela capacidade de Lila de ligar uma coisa à outra. Gigliola. pensava eu . Rino . também vou para a escola secundária. A sala tresandava. das cinco da manhã até às sete . Quando recomeçou a escola. varrê-la. depois namoram. carregada de livros . continuarão a falar destas questões políticas . que ia a correr para ir abrir a loja. ela. sempre com os dedos na testa ou nas faces cheias de acne . e depois . Está apaixonado . todos nós . e se a princípio era ela que ficava suspensa dos lábios dele . mas sentaram-se juntos numa das primeiras carteiras . por um lado sofri muito porque sabia que já não disporia de tempo para Lila. que trazíamos .eu . uma das raríssimas turmas mistas daquela escola. Os dois anos de escola secundária foram muito mais trabalhosos do que a escola média. depois de muitas gaba­ rolices («Sim. Sentada numa das filas de trás de onde mal via. de certeza. a pés sujos . cotovelo com cotovelo . E depois pensava: também Lila se apaixonará. 18.1 22 Elena Ferrante Depois Pasquale começou a ficar calado . Pasquale . e terão filhos que por sua vez falarão das mesmas questões . que amávamos . ficamos na mesma carteira») . não conhecia nenhuma. agora era ele que ficava suspenso dos lábios dela. um pivete ácido a suor. mas por outro esperei desligar-me daquela sua avalia­ ção dos delitos e das cumplicidades e das cobardias das pessoas que conhecíamos . Ela interrogava-me acerca das discipli- . Impus a mim própria uma disciplina que aprende­ ra na escola média: estudava toda a tarde . À saída de casa. assim como ela era uma desconhecida para mim . Via-os passear juntos com frequên­ cia. quando eram horas de ir para a escola. a medo . encontrava muitas vezes Lila. era uma desconhecida para a minha compa­ nheira de carteira. depois casam-se . Graças à professora Oliviero depressa obtive o s livros de que precisava. com ar assustado . sim. pôr tudo em ordem antes que chegassem o pai e o irmão . e quase fizeram de conta que não me conheciam.

como de costu­ me . Quando parávamos no cruzamen­ to e nos despedíamos . E se não fosse Enzo . Se não lhas desse . também o passo se tivesse tomado mais suave .ela ia para a sapataria e eu para a estação do metropolitano . Nos poucos minutos do percurso revia as lições aterrorizada. da carranca da professora Oliviero . Por vezes . Via-a vir do prédio onde morava e constatava que ela continuava a mudar. imediatamente . ia-me virando para trás para lhe deitar um último olhar. era Antonio . tinha agora uma única ideia firme: arranjar um namorado . Lila era imprevisível . deixaria de ter tempo para mim. da sua própria boca. metia por outra . Contudo . mais do que com os professores da escola dos ricos . a sacrificar o sono quente e profundo da manhã para fazer boa figu­ ra com a filha do sapateiro . O metropolitano ia apinhado de rapazes e raparigas . cheios de exigências . no regresso da escola. Engolia à pressa o leite e o café e corria para a rua. O seu andar já não era o da menina magricela que fora até alguns meses antes . Receava. Se por acaso a avistava de longe .A Amiga Genial 1 23 nas que tinha nesse dia e o que tinha estudado . o dono da charcuta­ ria. Eu não fumava. ao voltar da escola. Stefano Carracci . tinha a impressão de estar. De dia para dia era mais forte a angústia de não ir a tempo . sei lá. não falava com nin­ guém.. tons diferentes dos que se usavam no bairro . as leituras sobre o mundo horrível em que caíramos ao nascer. Em certas manhãs frias . Os tipos que an­ davam atrás dela eram quase homens. e de não ser capaz de responder aos professores. quando me levantava ainda de madrugada e revia as lições na cozinha. entre o projecto dos sapatos . Olá. ao tornear-se-lhe o corpo . Esperava à porta. Por isso . com o espectro vesgo da minha mãe insatisfeita. como não era capaz de lhe responder a ela. metia freneticamente na cabeça linguagens estranhas . atormentava-me com perguntas que me punham ansiosa com medo de não ter estudado o suficiente . que já fazia amor com Peluso . Até o pequeno-almoço era a correr por culpa dela. antes que Lila me anunciasse que andava com Pasquale . e começávamos logo a falar. E se não fosse ele . olá. Ou até . dava uma grande volta para não passar em frente da sapataria. Uma vez ou duas vi Pasquale chegar junto dela ofegante e acom­ panhá-la. para não perder nem um metro do trajecto que fazíamos juntas . e queria respostas preci­ sas . era Enzo . encontrá-la e ficar a saber. e os namorados . ou mesmo Marcello Solara. como se . Vivia apavorada com o possível insucesso na escola. imundos de sono e do fumo dos primeiros cigarros . Já era mais alta do que eu .

alguns ainda de calções . Nino não re­ parara em mim. olhei mais uma vez e o meu coração parou . Preferia esses . olhava para os rapazes . como de uma fatalidade . o filho de Donato Sarratore . A partir daquele dia fui para a escola como se vê-lo . Olhava para os meus colegas da secundária. ou apenas entrevê-lo . muito magro . o impulso foi muito forte . Decidi dedicar-me à imagem de Nino Sarratore em silêncio . mas depois mudei de ideias . Olhava com insistência. Mas depois não resistia e ia ao encontro dela. como se via em Stefano e. um enorme edifício cinzento e escuro . outros de calças à zuava ou compridas . nunca de sobretudo . O pai . o essencial era que usasse calças compridas . cabelos castanhos desalinhados . para eles sentirem o meu olhar e olharem para mim. Também olhou para mim. O professor. sobre­ tudo a si próprios . embora conhecesse o significado da palavra. O Outono voou . quase todos de casaco e gravata. com um andar bamboleante . era óbvio que ainda não ficara rico . fosse a verdadeira razão para lá ir. Olhava para os mais velhos . mas reconheceria imediatamente Lila e ficaria fascinado . o ferroviário-poeta. homem dos seus sessenta anos . mas também me contentava com um do ano acima do meu . dezassete? Observei-o bem. que não tinham frio: cabelo à escovinha. não reconhecera a menina loira e esbelta da primária na adolescente de catorze anos . para vê-lo . de certeza que me pedia para ir comigo à escola. os sapatos cambados . indolente . E já sabia o que aconteceria. não me reconheceu . tinham de provar. Não apresentava qualquer sinal de abastança. Não lhe ocorreu que eu . sempre a bocejar ruidosa­ mente . Se lhe contasse . nos Solara. vivia num mundo onde nunca ninguém tivera motivo para . sobretudo . nucas bran­ cas por causa do pescoço bem rapado . foi a primeira vez que fui chamada ao estrado . um tal Gerace . gorda e furunculosa. Um dia reparei num aluno por causa do seu andar desengonçado . angustiada. um rosto que achei boni­ to e com qualquer coisa de familiar. quando ele saía da escola de cabeça em baixo . em que me transfor­ mara. os do liceu . em péssimas condições . Quantos anos podia ter? Dezasseis . estreito de costas . O casaco estava deformado nos cotovelos . e seguia pelo Corso Garibaldi . mas distraído . desatou a rir assim que eu pronunciei «oraculo» em vez de «orá­ culo» . À saída pensei em ir a correr contar à Lila. embora tivesse escri­ to um livro de poemas .1 24 Elena Ferrante rua. Era Nino Sarratore . as calças puídas . Fiquei muito perturbada por causa daquela aparição inesperada. Uma manhã fui interrogada sobre a Eneida . À entrada e à saída do liceu .

«Vem cá. uma manhã. Todos se riram. e é claro que a minha pronúncia não era melhor. Aceitei . sobre os verbos. em Geografia soube na perfeição super­ fícies . Senti-me humilhada. e do outro a palavra inglesa equivalente: lápis!pencil. No trabalho de Italiano deu-me oito . tive mais tempo . Mas sobretudo em Grego . riquezas do subsolo . mostrei uma familiaridade com o alfabeto . principalmente Gino . A partir daí foi um crescendo . Disse que sim. Toda aquela exaltante tensão teve uma pausa durante as férias do Natal . Mas ela atormen­ tava-me . deixei-o de boca aberta. Fui reabsorvida pelo bairro . em História não errei uma data. uma destreza na leitura. Graças àquilo que aprendera com Lila. dizia-me : quando recomeçar a escola pergunta ao professor como se pronuncia isto . populações . ali na primeira fila ao lado de Alfonso . Lia-me o lado em . Um dia perguntou-me outra vez se podíamos ser namorados e eu . embora ele fosse um palerma. Depois entregou-me a folha sem qualquer comentá­ rio . Um dia levou-me à loja e mostrou-me uma caixa de metal cheia de pedacinhos de papel . Por alturas do Natal já todos me chamavam Greco e alguns Elena. arranjara uma gra­ mática.A Amiga Genial 1 25 pronunciá-la. sobretudo porque ele olhava para mim com uma atenção que até àquele momento nunca dispensara a nenhum de nós . vi Lila mais vezes . As minhas qualidades atingiram os outros professores como um dogma. que pronunciava de modo impre­ ciso . uma óptima maneira de aprender vocabulário . dei um suspiro de alívio . perceber/to unders­ tand.» Fez-me uma série de perguntas sobre as declinações . Fora o professor Ferraro que a aconselhara a fazer assim . Respondi aterrorizada. Tive nove . para voltarmos juntos para o bairro . Gino começou a demorar-se à saída. Em cada um deles escrevera de um lado a palavra em italiano . Quando Gerace trouxe os trabalhos corrigidos . agricultura. sobre a sintaxe . Sempre era melhor que nada. a esperar por mim . Já conhecia imensas palavras . como se pronuncia aquilo . Descobrira que eu estudava inglês e . Até o professor de Religião me chamou à parte . uma desenvoltura na fonética. e me perguntou se eu me queria inscrever num curso gratuito de Teologia por correspondência. Passaram-se uns dias e fize­ mos o primeiro trabalho de Latim. sapato!shoe . perguntou: «Quem é a Greco ?» Levantei a mão . que finalmente arranquei um louvor público ao professor. naturalmente .

eu preferia falar de outras coisas . pois de manhã tinha escola e à noite estudava até tarde . agora trabalhava que nem uma máquina. Também me fez perguntas sobre a Eneida . disse . Semicerrou os olhos. em cada farm1ia. Descreveu-ma em por­ menor. Mas . como se an­ dasse numa escola secreta. Vi que parecia estar mais adiantada do que eu em tudo . juntamente com Ada (o dinheiro que Antonio levava para casa não chegava) . en­ quanto eu . por lhe terem estragado o trabalho com pegadas . e disse-lhe tudo de um fôlego. Dobrada em duas . não é só a vida das pessoas que se toma árida. Contara-lhe Ada que uma vez vira a mãe no auge de uma crise . com uma energia e uma agitação capazes de arrasar pessoas mais robustas do que ela. apaixonara-se por ela. comunismo . apaixonaste-te como a amada de Eneias» . Mas ela interrogou-me sobre as declinações gregas . começava do último andar e ia passando com as mãos o trapo molhado .» Não me recordo como ela se expressou exactamente . «esperta. nazismo . quis dar-lhe a saber que estavam a acontecer-me coisas boas . Mas eu sabia pouco ou nada. Em poucos dias a lera toda. lanço após lanço . beber a água . passara-lhe a eu­ foria. ia a meio do segundo livro . rendeste-te . aos campos destruídos pelos novos prédios . começava a gritar insultos. degrau após degrau . primeiro . e não na escola. e depressa deduziu que eu ia ainda na pri­ meira. uma vez que eu pouco ou nada sabia do que acontecia nos prédios . figura sobre quem eu nada sabia. Disse: «Se não houver amor. Mas já não se a ouvia cantar. Mas não . E uma tarde puxou de um comentário que me impressionou muito . atirava­ -lhe o trapo . e eu associei-a às nossas ruas sujas . ainda mais bonito agora do que era na primária. na escola. aos jardins cheios de poeira. e segundo . mas a ideia era essa.1 26 Elena Ferrante italiano e queria que eu lhe dissesse o equivalente em inglês . ouvi esse nome pela primeira vez da boca dela. Se alguém descia ou subia. queren­ do mostrar-me que estava à altura daquilo que eu estudava. para dizer a verdade . E não resisti . Falou-me pormenori­ zadamente de Dido . por isso continuava a lavar as es­ cadas dos prédios . que na minha escola andava Nino Sar­ ratore . Receei que ela recomeçasse a falar-me de fascis­ mo . começou a gozar comigo . que namorava com Gino . Vivia na miséria com os filhos . «Fazes amor com o filho do farma­ cêutico» . como se nunca a perdesse de vista. Depois passou bruscamente de Dido para Melina e falou-me muito sobre ela. temi que fosse dizer-me: também eu namoro . mas também a das cidades. à violência em cada casa. Notei também nela uma certa tensão . ao passo que ela já sabia a terceira. Contou-me coisas sobre a sua parente .

» «Vês?» «Não há nada para ver. nem em pequenas nem agora.» «E o Stefano?» «Na tua opinião .» «Não . declarou-se-te?» «Estás louca?» «Vi-o acompanhar-te à loja de manhã.» «Ü Stefano atende-me sempre em primeiro lugar. agora que tinha um namorado .» «Pior para eles . Estão a perceber? Pas­ so a passo . e por isso não estávamos em condições de compreender nada. incitou-me . que no fim se juntou à filha de um rei . nunca hei-de escrever um poema» .A Amiga Genial 1 27 suja do balde . E só naquela altura é que trouxe à baila Nino Sarratore . como essa tal Dido . . Uma vez perguntei-lhe . com cautela: «Ü Marcello Solara. que significava: Marcello Solara mete-me nojo. mas de maneira diferente da primária. e nunca. aquelas conversas agradavam-me . irão enamorar-se de outra. «Não acredito . Fui-me embora.» Mostrei-me pouco convencida. Depois acrescentou .» «É verdade . «Conta-lhe a respeito de Melina» . sinal de que me es­ cutara com atenção . «E o Enzo ?» «Somos amigos . Por fim começou a rir e prometeu com uma certa solenidade: «Eu nunca me apaixonarei por ninguém. mesmo se a loja estiver cheia. e a Eneias que a abandonou .» «Mas haverá quem se apaixone por ti . como fez Eneias .» Assim regressou o tema do «antes» . que faz ele . com maldade: «Pois é muito fácil escrever poemas» .» «Porque ele explica-me as coisas que aconteceram antes de nós . pensam todos em mim?» «Sim. nunca. depois voltei . e tivera de lho arrancar das mãos .» «Sofrerão . de Gino foi parar a Dido . «e diz-lhe que deve contar ao pai» .» «E tu?» Fez um meio sorriso de desprezo . anda atrás de ti?» «Sim.» «E o Pasquale . Disse que nós não sabíamos nada.

a charcutaria de Stefano antes era a carpintaria de Peluso . e assim. E não só nós . vendedores de fruta. E o dinheiro dos Solara. cada pedra ou pedaço de madeira. Todavia. remendões . e para viverem tranquilos punham-lhe uma pedra em cima. a mesma coisa. As férias passaram-se a falar continuamente . 19. nem do rei . Nem de injustiças . apercebia-me cada vez mais de que o fazia com um certo acanhamento. Odiavam dom Achille e tinham medo dos Solara. Con­ támos tudo uma à outra. Na escola comportara-me de forma perfeita. frequentava a escola secun­ dária. comíamo-lo a meias . nem de opressões . e não eu dela. nem de exploração . O pai dela fazia de conta que não existira nada antes . e Rino também. sem nunca pensarmos nelas sequer. Aquela conversa do «antes» impressionou-me mais do que as conver­ sas tenebrosas para as quais me arrastara durante o Verão . não queriam falar de nada. na rua. Às vezes até tinha a impressão de que Lila é que dependia de mim. e foi reconfortante . já ali estavam antes de nós . mecânicos . ou daquilo em que matutava nas conversas com Pasquale . o dinheiro de dom Achille fora ganho antes . no pátio .1 28 Elena Ferrante que todas as coisas do bairro . Nem do fascismo . nas coisas de antes. e ela elogiou-me . contei à professora Oliviero os meus sucessos. dávamos todos os dias um passeio até ao bar Solara. mas nós tínhamos crescido sem nos apercebermos delas . o meu pai . no entanto estavam metidos nelas . nos monárquicos . e também lá nos mandavam a nós . E vo­ tavam nos fascistas . davam-lhes continuação . voltávamos para trás . e também a minha mãe . o pai de Pasquale . passavam por cima disso e iam gastar o seu dinheiro na loja do filho de dom Achille e na dos Solara. todas as coisas . E no entanto . Passara as fronteiras do bairro . estava com rapazes que estudavam Latim e Grego e não com pe­ dreiros . charcuteiros e sapa­ teiros. Não sabiam de nada. Naquele período senti-me forte. mesmo pequenas coisas . E pensavam que o que acontecera antes era passado . E no entanto . Ela fizera a experiência com o pai e a mãe . ou da terceira declinação. Encontrava-me com Gino. Quando me falava de Dido ou do seu método para aprender vocabulário inglês . E o mesmo fazia a mãe . conforme os Solara queriam que eles fizessem. sem saberem. e também lá nos metiam a nós . como se finalmente fosse ela que sentia necessidade de me demonstrar que era capaz de conversar comigo . na sapataria. como ela. Ele comprava-me um bolo.

encorajei-os com fingimento. Mas quando viu Lila tirar o sapato da água. Quando foram remexer numa arrecadação e apareceram com um embrulho . Pareceu-me antes que tanto ela como o irmão hesitavam em falar-me de coisas de tão pouco valor. Enquanto me deixaram tocar-lhes e me apontavam as suas qualidades . Mas Lila não parecia satisfeita. Lenu . exactamente como os recor­ dava de um desenho de Lila. «e diz-me se a costura se sente . e dizia a Rino: «Quanto tempo leva o papá a descobrir estes erros?» A certa altura disse .» Apalpei . largava-os. com alguma indecisão. «Ela tem de brincar» . Nunca vira nada daquele género nos pés de ninguém. dizia «formidável» .» «Não» . Quanto mais qualida­ des o irmão apontava. com um aspecto leve e robusto ao mesmo tempo . do­ brava-os .» «Só tu é que sentes a humidade .» «Está húmido . Temos de descolar e de descoser tudo outra vez . «Viste? Basta um minuto na água para ficar húmido .» O irmão mostrou­ -se contrariado . não pode ser. Eu aprova­ va. disse . respondia eu . «Apalpa aqui» . e fê-la andar um bocado dentro de água.A Amiga Genial 1 29 de igual para igual . já não senti que ela habitava uma terra maravilhosa de onde eu estava ausente. Mas ela encheu uma bacia. Até mesmo uma tarde em que resolveu mostrar-me . dizia Ri no . mostrava-me a resistência que tinham . Ou então era eu que começava a sentir-me superior a eles . fui-lhes elogiando o trabalho com entusiasmo . «Está um pouco húmido» . esti­ mulada pelos meus elogios . meteu a mão num dos sapa­ tos como se fosse um pé .» Depois tirava-me os sapatos da mão . séria: «Experimentemos outra vez com água.» Rino enfiou uma mão e disse: «Está seco . como fazia a professora Oliviero quando nos queria encorajar. o número de Rino e de Fernando . Apalpa. «não se sente . mais defeitos ela me mostrava. esfregou os dedos e estendeu-lhe o sapato: «Apalpa. disse-me Rino . em que ponto estava o sapato secreto que andava a fazer com Rino . A medida era 43 . como um irmão mais velho que se aborrece com as criancices da irmã mais pequena. Mas o par de sapatos de homem que me mostraram pareceu-me realmente fora do comum.» . fez uma expressão preocupada e perguntou: «Então?» Lila retirou a mão . castanhos . Lila fez uma careta de desagrado .

mais . julgava-a realizável. e mesmo a superar. e o irmão era uma pedra importante dessa realiza- . fingiu que lho atirava. Ela própria acreditava nessa fantasia. por um lado desorientada por aquela fúria de um jovem habitualmente gentil . como acontecera com Carmela e as outras raparigas do pátio: talvez eu lhe tenha metido na cabeça uma fantasia que ele não é capaz de controlar. que aos seus olhos se haviam toma­ do o modelo de homem jovem a imitar. disse-me Lila. queria dar-se ares daquilo que não era. Um patrãozi­ nho . Repreendeu Lila por tê-lo encorajado primeiro e desencorajado depois . Disse-me que achava que o irmão . não se conseguiu conter e explodiu numa série de impropérios e insultos dirigidos à irmã. Eu fui-me embora. a ser escravo do pai e a ver os outros enriquecerem. e por outro orgulhosa. Fez-se-lhe a cara vermelha. Agarrou no pé de ferro . Pessoas que ele invejava e que via como inimigos a abater. muito mais do que os irmãos Solara. «Estás muito bem. o que é um bocadinho de humidade?» Rino enfureceu-se . Lila nunca disse . era uma faceta de Rino que ela não conhecia. mas não fanfarrão . é a satisfação que a escola te dá. Porém agora. para conseguir representar o papel deles . agora apostava demasiado nisso . lançando fogo-de-artifício em quantidade. por o meu parecer se ter revelado credível e decisivo . que a princípio duvidava da possibili­ dade de ganhar muito dinheiro com os sapatos . Sentia-se perto da riqueza. Nos dias que se seguiram descobri que o acne estava a secar. mas às vezes era bastante dura com ele. e se o tivesse feito a sé­ rio . Aproximava-se a festa da passagem do ano e a Rino deu-lhe a mania de lançar mais fogo-de-artifício do que todos. E não só: sofreu uma espécie de transformação diante dos meus olhos . e sobretudo mais do que os Solara. Isto preocupava-a. inchou em volta dos olhos e nas maçãs do rosto . Gritou que não queria ficar para sempre naque­ le sítio asqueroso . e é o amor» . já se via como proprietário da fábrica de calçado Cerullo e não queria voltar a ser sapateiro-remendão . Sempre lhe parecera apenas generosamen­ te impetuoso . Lila troçava do irmão . e achei-a um pouco triste . Lamentou-se que assim nunca mais se acabava. 20 .1 30 Elena Ferrante «Mas que porra. às vezes agressivo . matava-a. Alguém que já podia dar ao bairro um primeiro sinal da sorte que o novo ano lhe traria.

entusiasmado . O fumo denso da pólvora tornava tudo nebuloso . tinha tendência para se exce­ der. Em casa de Lila também soltavam pouco ou nenhum fogo . Luzes ofuscantes . Desde os doze anos que tinha por hábito ir passar a meia-noite com pessoas mais audazes do que o pai . estás a ver como tenho razão?» «Razão em quê?» «Que ele se tornou um fanfarrão . era seis anos mais velho do que ela. talvez lhes quisesse mostrar a sua força com o fogo-de-artifício . sobre o mármore da janela. breves remoinhos de fogo a pouca distância dos meus dedos . excitada e temerosa. tanto que dis­ sera muitas vezes à irmã: «Não te atrevas a dar confiança àquele pedaço de merda. «Se calhar tem ciúmes do Marcello» . Como naquela competição com os Solara. por exemplo . que não sabia enfrentar as difi­ culdades com os pés bem assentes na terra. em minha casa o contributo para os fogos do fim do ano era pobre . as canhonadas dos petardos contra as paredes . os Greco . tanto a pé como no 1100.» Quem sabe . não tínhamos dinheiro . e como era costume . indo à caça deles assim que terminava o caos dos festejos . fazia arder os olhos. Onde é que vai buscar dinheiro para o fogo-de-artifício?» Era verdade . explosões . No final atirava também a garrafa para a rua. Juntava-os todos na zona . entrava nas casas . o assobio dos foguetes . acendia a mecha com a brasa do cigarro e . e tinham fama as suas tentativas de recuperar petardos que não tivessem explodido . fazia subir para o céu o sibilo luminoso . como não podia partir a cara aos Solara por fazerem a corte à irmã. Mas afirmou muitas vezes que faltava firmeza a Rino. «Que dizes?» Riu-se . outra de rocas e outra de mini-foguetes . A noite de fim de ano era uma noite de batalha. mas ela própria me contara. tudo isso tinha custos. Marcello So­ lara passava e voltava a passar todos os dias em frente da sapataria. disse eu uma vez . Mas o estralejar das bombinhas . E queria-lhe bem. «Se assim for.A Amiga Genial 131 ção . o ferrinho das estrelinhas ou de uma girândola. À meia-noite punha na minha mão . por ser a mais velha. quem tinha mais dinheiro é que dis­ parava mais . Nós . fazendo-se parva. O meu pai comprava uma caixa de fitfit. Ele entretanto enfiava a haste dos foguetes numa garrafa de vidro . e Rino devia ter dado por isso . acendia-a e eu ficava imóvel . no bair­ ro e em toda a cidade de Nápoles. não queria tratá-lo como um garoto que não sabe gerir os seus sonhos . provocava tosse . a olhar para as faíscas . e Rino depressa se rebelou .

para juntar um arsenal que fizesse pelo menos boa figura.» A mulher e os filhos de dom Achille . com o porta-bagagem cheio de explosivos . mancha grande . gatos e ratos . mas a olhar para mim: «Querem vir festejar o ano novo a minha casa? Alfonso gostaria muito. Falou com as duas . que tinha mais um bocadinho de dinheiro . e fariam tremer os prédios desde as caves até aos terraços que os cobriam. de uma vez em que não se chegou para trás a tempo. pagámos o que era devido a dona Maria e fomo-nos embora.» Alcançou-nos . em dialecto . Por isso se atarefou a recolher dinheiro aqui e além para comprar fogo-de-artifício . há que admitir também que Rino talvez quisesse vin­ gar-se da sua infância pobre . inequivocamente a mim . Preparámo-nos para uma longa espera. o próprio Stefano . e trac ­ -trac trac a explosão final . apesar da mania da grandeza que o atacara . A atender ao balcão . charcutaria. claras e secretas . mesmo depois do assassinato do pai . . faziam uma vida muito recatada: igreja. não Al­ fonso . Metemos tudo nos sacos . que na noite da passagem do ano matariam pássaros . Como acontecia todos os anos. Mas Stefano dirigiu-me . quando Lila e eu fomos . com Anto­ nio e sobretudo com Enzo . no máximo qualquer festarola a que não se podia dizer que não . Rino observava­ -os da loja com rancor e entretanto negociava com Pasquale . além de Stefano e Pinuccia estava também Alfonso . fazer as compras para a ceia à charcutaria de Stefano Carracci . que nos fez um sorriso embaraçado . um sorriso cordial . Mas era sabido . Demos-lha e ele retirou-se . Respondi .1 32 Elena Ferrante dos pauis . deitava-lhes fogo e divertia-se a ver as chamas altas . Tinha ainda uma cicatriz escura na mão . e disse qualquer coisa ao ouvido do irmão . mas Stefano . A loja estava cheia de gente . a mandado das nossas mães .que com os Solara ninguém podia concorrer. para aquele desafio no final do ano de 1 95 9 .ele tam­ bém sabia. havia dias que os dois irmãos andavam para cá e para lá no seu 1100. Daí a cinco minutos as nos­ sas compras estavam prontas . olhando para Lila: . O meu colega de escola veio até fora do balcão e perguntou-me se tínhamos a lista das coisas que íamos comprar. Só o desfeava um pouco a bata branca manchada de gordura. uma . As coisas tiveram uma pequena e inesperada alteração . me chamou com a sua bonita voz de homem feito: «Lenu . assustariam cães . um gesto de saudação . Entre as muitas razões . Mas poucos passos tínhamos dado quando. casa. Aquele convite era uma novidade . Tinha uma expressão tranquila.

e a mãe . Durante todo o caminho não fizemos senão rir a bandeiras desprega- das . venham todos: bebemos espumante .A Amiga Genial 133 «Já estamos comprometidas .» Aquelas palavras sensibilizaram-me .» «0 que estás tu a dizer? Ele nem sequer olhou para mim. A casa é grande . vida nova. Olhei para Lila.» «E o fogo-de-artifício?» «0 que queres dizer?» «Nós trazemos o nosso . e para os foguetes vamos para o terraço. e o filho de dom Achille não podia convidar os filhos de Alfredo para brindarem ao novo ano em sua casa. No entanto . e para te ter em casa convida até os comunistas e os assassinos do pai . também ela es- tava desorientada.» . dizendo coisas do género: «Ele faz isto por ti .» «Não . com um olhar muito intenso .» Lila interveio .» 21 .» «Depois dêem-me a resposta. Murmurou: «Temos de falar com o meu irmão . em tom decisivo: «0 Pasquale e a Carmen Peluso .» O rapaz dirigiu-se de novo a mim: «Venham todos para minha casa e prometo-vos que quando romper o dia ainda estamos a lançar foguetes.» «Está apaixonado . e tu?» Stefano sorriu: «Que quantidade queres?» «Muitíssimo . vamos juntar-nos com o irmão dela e outros amigos . Ano novo . também vêm festejar a nossa casa. e digam aos vossos pais .» «Digam também ao Rino . Stefano olhou para ela como se até àquele momento não a tivesse visto . e retorquiu no tom que se usa para as coisas óbvias: «Está bem.» Aquela frase deveria eliminar qualquer outro argumento . dançamos . Alfredo Pe­ luso estava em Poggioreale por ter matado dom Achille . por ti .

o que queria? Pensámos que Ste- fano também pretendesse dar uma lição aos Solara. nessa ocasião os dois irmãos não tinham humilhado ape­ nas Pasquale .» Conversámos sobre o assunto à nossa maneira. mas agora estou cá eu . e falou disso a Pasquale . que ficou furioso . o meu pai foi aquilo que foi . Lila a princípio parecia baralhada. E pouco a pouco . E portanto agora ele agravava a acusação . «E o que ganha com isso?» . estamos cá nós . não convencida. com ar de quem percebeu tudo . está­ vamos as duas a tentar perceber. Mas a vontade de vencer os Solara fê-lo hesitar. e mais . Se puder. Se não nos queria a nós . «Lembras-te de quando eu disse à Carmela que podia namorar com o Alfonso?» «Sim. pois para eles dom Achille já não existia e os filhos e a mulher eram pessoas de bem e respeitáveis . Lembrámo-nos de quando Michele fizera com que mandassem Pasquale embora da festa em casa da mãe de Gigliola.» «Perdoar?» Lila abanou a cabeça. perguntei a Lila. «Não sei . por sua vez. desde que começara a discutir assuntos com Pasquale . e disse-me: «Enganámo-nos. O Stefano não me quer a mim nem a ti .» «Casar-se ele com a Carmela?» «Mais do que isso . vou . o bairro . e perceber era uma coisa de que muito gostávamos . misturando factos reais e suposições . Stefano não parecia um tipo capaz de perdoar.» Quanto aos nossos pais . convidando-os mesmo para sua casa na passagem do ano .» Stefano . mas sim pôr em prática uma frase do tipo: bem sei . Queria tentar sair do antes . murmurou: «Está bem. a sapataria. queria apagar tudo . mas também Stefano . Não queria fazer de conta que nada acontecera. Enzo . ficaram muito felizes com aquele convite . Depois apareceu em minha casa uma tarde . as ruas . isto é . Quer fazer um gesto que aqui no bairro ninguém faria. e tê-las como amigas era uma honra. na opinião de Lila.1 34 Elena Ferrante Rino ouviu a proposta de Stefano e disse imediatamente que não . Estava a tentar perceber. pareceu-lhe ter encontrado a solução . como se tivesse esquecido onde estava. para os arreliar: fazia definitivamente as pazes com os Peluso . intrometendo-se assim na vida dos Carracci e fazendo com que Stefano parecesse não saber defender a memória do pai .» «Ü Stefano tem em mente algo desse género . Lila achava que ele tinha outra coisa em mente . Pensando bem. partindo de uma das suas ideias fixas dos últimos tempos . como faziam os nossos pais .

e foi falar com Giuseppina Peluso novamente . e se fossem capazes . Giuseppina. «Melhores» . triste com a sua má sorte . não se comportaram bem. «Isso é verdade . embaraçados . que por trás dele existiam sig­ nificados importantes . tomemos nota disso e mostremos que nós . e dirigiu-se ao pároco . no dia 3 1 de Dezembro .» Lila fez os olhos pequeninos . por ocasião do ano novo . mas logo desistiu . era melhor para todos . quase não se viam . Disse . que o convite de Stefano era mais do que um convite . uns de uma maneira. A própria Lila me deitou um olhar admirado . depois da prisão do marido transformara-se numa mulher deprimida. a do vendedor de fruta e hortaliça. como se estivesse na escola. às 23 : 3 0 . Pasquale tentou até responder­ -me em italiano . interessado . em italiano . «ao contrário dos Solara. Resumindo . O pároco passou pela loja de Ste­ fano . Pasquale e Antonio gaguejaram qualquer coisa. outros de outra. somos melhores do que eles . triste: «0 dinheiro com que o Stefano está a ganhar mais dinheiro é o que o pai dele ganhou no mercado negro . Mas preferem estar do lado de quem quer mudar ou do lado dos Solara?» Pasquale disse com altivez . e Rino . Essa hipótese agradou-nos . desenvolta. discutiu o assunto com toda a farru1ia. a partir de agora. tomámo-la logo por uma certeza. queria que todo o bairro compreendesse que ele não era dom Achille .a família do porteiro . e sentimos um impulso de grande simpatia pelo jovem Carracci . exuberante . disse eu . a Antonio . e que os Peluso também não eram o ex-carpinteiro que o matara.» Mas era bom rapaz . que fazem pior do que o avô e o pai . os filhos . que era como se ele estivesse a dizer: antes de nós aconteceram coisas horríveis. perguntou Rino . O estabelecimento onde está a char­ cutaria é aquele onde era antigamente a carpintaria do meu pai . a Pasquale . falou muito tempo com Maria. Por fim convenceram-se todos de que a vida já era bastante difícil . diversas farru1ias . a família de . E assim. de­ pois da ceia de ano novo . em parte por convicção e em parte por estar claramente com ciúmes do inesperado protagonismo de Stefano nas palavras de Lila: «Eu estou do meu lado e mais nada. Deci­ dimos tomar o partido dele .A Amiga Genial 1 35 nada. de reduzir os conflitos. «Melhores?» . Em seguida explicámos a Rino . a do sapateiro . Foi falar com a mãe . dantes uma incansá­ vel trabalhadora de bom carácter. pensou e voltou a pensar. os nossos pais .» Falei muito emocionada.

1 36 Elena Ferrante Melina. Apercebi-me de que o único que se demorava indolentemente lá em baixo era Alfonso . andei de roda deles toda a noite . Os rapazes estavam em pulôver. Quando lhe pedira para ir ter comigo a casa dos Carracci respondera que não podia. À meia-noite o dono da casa encheu de espumante . tinha os olhos irrequietos . Stefano recebeu-nos com muita cordialidade . e queria que os olhos deles me dessem prova disso . sem mangas . tinha o rosto um pouco vermelho da agita­ ção . Já se ou­ viam os primeiros sibilas dos foguetes . gelado . eu . porque fazia muito frio . Pasquale e Enzo mesmo em mangas de camisa. Chamei-o por boa educação . Stefano foi particularmente gentil com a senhora Peluso e com Meli­ na. para festejarem o novo ano juntas . Lembro-me de que se tinha penteado com esmero . Rino . Enzo . mas não me ouviu ou fingiu que não ouviu . Achei-o muito bonito . Aguardavam a sua guerra entre homens e nem sequer a Lila davam atenção . era coisa pouca. e tremíamos de frio e de excitação . Encontrei um céu tremendo por cima de mim. que se arranjou muito bem para a festa . Olhei para eles .subiram aos grupi­ nhos até ao quarto andar. e pensei que ser namorada de Gino . queria um como aqueles rapa­ zes . Mas pareciam todos absorvidos pela festa do fogo-de-artifício à meia-noite . gravata e um colete de malha azul . 22 . Eu queria um namorado crescido . cheio de estrelas e de trevas . o nariz com­ prido . e depois subimos em bando para o terraço . Antonio . era perigoso . Corri para cima. e logo a se­ guir. em primeiro lugar. até à velha casa tão odiada de dom Achille . Já se ouvia o baque das coisas velhas que voavam . Pasquale . Stefano . Lila. e não um miúdo . com os brincos e o seu velho vestido preto de viúva. Começara a sentir-me bonita de novo . que não dizia uma palavra. o da mãe de Pasquale . com maneiras de príncipe . a pulsei­ ra de prata da minha mãe . Ada e Carmela tínhamos os vestidinhos finos que usávamos para os bailes. vestia uma camisa branca. os velhos e as crianças com sobretudos e éc harpes . mas estava bem penteada e. o copo da mãe . Apalpava com nervosismo os brincos . Brindámos às coisas maravilhosas que aconteceriam no novo ano . porque os pais não o deixavam sair depois da meia-noite . parecia uma grande dama. Calculei que teria mais sete anos do que eu e Lila. que era da minha idade . que sulcavam o céu e explodiam em flores coloridas .

entre Mário e Sila. os mais novos . caramba. cada vez mais agitado e a gritar alto . que estrondo . apenas perturbado pelos gemidos lânguidos mas assustados de Melina. mas com enfa­ do . lançando petardos . Encontravam-se a pouca distância. extinguiu-se . de gritos tipo viste estas cores .digamos . Pareceu-me até intimidado por Rino .começa­ ram a movimentar-se no escuro e ao frio . vá. das buzinas . dei­ xando emergir o ruído dos automóveis . arrumaram séries de foguetes dentro de gar­ rafas vazias enfileiradas . pensei . e também o sapateiro . víamo-los . as risadas . que era o mais velho . os meus irmãos Peppe e Gianni . sérios e cordiais . e que o empurrava com maus modos . embora por entre os clarões . a golfada de fogo jorrou com um frufrulhar colorido . mas tam­ bém o meu pai .A Amiga Genial 1 37 pelas janelas . os novos e os menos novos . reagindo às incitações do irmão com gestos de contrariedade . estavam. Alfonso retraiu-se . Eu acendi os fitfit e as rocas às crianças . mis­ turando-se cada vez menos com os outros. os gritos . encheram as camisas de bombinhas e de petardos . Rino . tal como nós . orgulhosos de todas aquelas munições que tinham conseguido reunir. porque as lançavam sem esperar que a mecha pegasse realmente fogo . mais do que zangar-se . A fúria cintilante da cidade atenuou-se lentamente . Stefano . como as que houve entre Rómulo e Remo . Enzo e Antonio transportaram caixotes e caixas e cartuchos de explosivos. embora através do fumo . os adultos acendiam cigarros uns aos outros com as mãos em concha. Ada e Carmela. encarregou-me a mim. Gritaram ambas de alegria e no fim abraçaram-se . mais visível. A varanda dos Solara tornou-se . aquelas mesmas poses . de reabastecer todos de munições constantemente . conversando . com excepção de Alfonso . os filhos . Alfonso também ajudou . que se mostrava muito animado . Por fim. Todos os rapazes . lhe tirava as coisas . entre César e Pompeu . Reapareceram am­ plas zonas de céu escuro . antes da batalha eles teriam feito aqueles mes­ mos olhares . Se houvesse uma guerra civil . gostava de ver nos olhos delas o espanto assustado que eu sentira em pequena. Lila con­ venceu Melina a acenderem juntas um fogo-de-bengala. Pasquale . O pai . tratando-o co­ mo um miúdo . e também Lila. Rino . num clima festivo de excitação crescente . Entretanto os fósforos luzi­ ram. e por Rino que tirava bombinhas aos meus irmãos e as usava. os amigos . acendendo mechas e lançando fogos-de-artifício do parapeito para baixo ou para o céu . Depois . gritando que eles as desperdiçavam. os fa­ miliares . vá. dominados pelo desejo de . Todo o bairro estrepitava.

dêmos-lhes a ouvir. «Fizeram de propósito» . a coxear. E assim foi . fora de si . Anto . uma silhueta escura no ar gelado . mas Alfon­ so fez-lhe um sinal . gritando insultos e lançando petardos às paredes . que começou a gemer. Stefano . havíamos sido proibidas de tocar. o fogo intensificou-se bruscamente . o céu e a rua recomeçaram a explodir. tremia. Rino.disse-me ela . A um foguete dos Solara eles respondiam com outro foguete . sem nada para fazer. enquanto a mãe berrava de terror e lhe ralhava: «Desce daí. aqui . sobretudo se o petar­ do fazia um barulho de destruição . que eles só se soltariam deveras quando os pobretanas tives­ sem dado por terminadas as suas festarolas e os seus rebentamentos in­ significantes e os seus chuviscos de prata e ouro . Da varanda. convi­ dando os outros a fazerem o mesmo . aqui . senão cais lá em baixo . em vez de subir para o céu . Mas . A minha mãe seguiu-os imediatamente . Ada bufou de raiva. com o sapateiro . e dali se abasteceu . gritou . com um clarão vermelho estrondoso e um fumo sufocante . sem uma sombra sequer dos tons de voz subtis do co­ merciante. e no céu abriam-se corolas maravilhosas . «Pascà. «Enzo» . A certa altura Rino pôs-se em pé sobre o para­ peito . Pasquale . a bombinhas com bombinhas . Lila. Antonio e Rino come­ çaram a responder com novos lançamentos e idênticas obscenidades .» Todos acorreram . Foi . só no momento em que ficassem a ser eles os senhores absolutos da festa. não sei . A cada lançamento . e lá em baixo a rua flamejava. Estávamos sozinhas .» Nesse momento o pânico apoderou-se de Melina. Correu para um canto onde depositara um caixote em que nós . Nós olhávamos para os seus frenéticos vultos escu­ ros . fez-lhe sinal para se acal­ mar. tens disto . absorta pelo espectáculo como por um enigma. Até o meu pai fora para baixo . e faziam gestos obscenos na direcção da varanda dos Solara. Um foguete deles. depressa. dêmos-lhes a ouvir aquilo que nós temos . rebentou contra o parapeito do nosso terraço . aproximou-se e levou a mulher para baixo .138 Elena Ferrante caos . estava em silên­ cio . a rir. No bairro todos sabiam que o que acontecera até àquele momento era pouco. Estava a acontecer-lhe aquela coisa a que já fiz referência e a que ela depois chamou desmarginação.como se numa . pedaço de bosta. Repetiam: sim . raparigas . e as outras começaram também a retirar dali as crianças . tens disto . a tremer de frio . da varanda chegavam obscenidades entusiásticas . As explosões provocadas pelos Solara eram cada vez mais fortes . cabia-lhe a ela levá-la para casa. Stefano . de surpresa. gritou Rino a Stefano .

ou Enzo . acabassem com a guerra. admirados com a sua generosidade . sentiu . Nós . pela simples satisfação de ganhar o desafio . no ar gelado . mostrando-lhe aquilo de que ele era realmente feito . desde que ela tinha memória. nos pressionassem o flanco contra o flanco e nos dis­ sessem palavras lisonjeiras . no meio de explo­ sões violentas . corroesse a circunferência do círculo lunar e desfigurasse o disco brilhante . pelo contrário .o mais activo . Mas foram impressões em que só voltei a pensar depois . as suas margens . por entre os fumos que queimavam as nari­ nas e o cheiro agressivo do enxofre . perturbados pela quantidade de dinheiro que era possível transformar em rastos luminosos . pouco ou nada da sua angústia se manifestou exteriormente . lhe dei pouca atenção . Teríamos preferido que Stefano . espantados com a reserva infin­ dável de Stefano . qualquer coisa violou a estrutura orgânica do seu irmão . viu . que geralmente nada temia. reduzindo-o à sua ver­ dadeira natureza de tosca matéria insensata. exerceu sobre ele uma pressão tão intensa que lhe despedaçou os contornos . Mas não . a fisionomia do rapaz generoso . sem essas atenções nada significávamos . a divertira. do que dela. faíscas . o que gritava com mais exagero insultos ferozes na direcção do terraço dos Solara . que se espalhava a si próprio em redor. as feições agradáveis da pessoa em quem confiava. e . A verdade é que . a ajudara.. enquanto eles corriam a apanhar cilindros com grandes rastilhos . ou Rino . Ela. fumo . Também reparei que olhava fixamente o vulto do irmão . com repulsa. naquele tumulto de explosões e cores . parecia estar assustada com isso. Fez um grande esforço para se controlar. Cada segundo da­ quela noite de festa lhe causou horror. e a matéria expandiu-se como um magma. teve a impressão de que. uma massa escuríssima de tempestade avançasse pelo céu . explosões . no meio do caos . o perfil amado de quem desde sempre . o mais gabarola. a protegera. Impres­ sionou-me . Como sempre . Diante dos seus olhos . sobre o mar. nos pusessem o braço em volta dos ombros . a sua expressão de medo crescente . parecia não ter necessidade nenhuma das atenções masculinas .A Amiga Genial 1 39 noite de Lua cheia. engolisse toda a claridade . Rino perdeu a fisionomia que sempre tivera desde que ela se lembrava. Ali . por isso estávamos bem aconche­ gadas umas às outras para nos aquecermos .o irmão desfazer-se. mas conseguiu . Lila imaginou . se iam tornando moles e maleáveis . todas as mar­ gens caíam. de Ada. honesto. explosões de um lado e do outro como se terraço e varanda fossem trincheiras . Naquele momento sentia-me mais próxima de Carmela. ali ao frio .como se fosse verdade . Competiram com os Solara durante não sei quanto tempo . à medida que Rino se movia. creio . e ela própria.

que percebeu de imediato o que se estava a passar. continuou . e pelo torveli­ nho dos rapazes . pah . Por fim acalmaram-se . transtornada pelo clima de festa e de perigo . Os Solara. berrando-lhe insultos por sua vez . decepcionado: «Estão a reco­ meçar. Tomou-se mais preguiçosa. Mesmo quando Enzo gritou: «Eles terminaram. Daquela noite . Nós . por gritos e insultos. vibrou . saltando ou abraçando­ -se . Contudo . para ir com ela abrir a loja e ajudá-la a fazer as limpezàs . Já não se percebia nada. mas ela não apareceu . céu arrombado . debruçando-se do parapeito do terraço .1 40 Elena Ferrante todo o bairro estremeceu . «Não vais trabalhar?» «Não . muitas coisas me escaparam. Rino . a alteração era difícil de perceber. E depois vimos clarões na varanda dos Solara. estavam a disparar sobre nós . foi interrompido por um choro distante de criança.» «Mas porquê?» «Já não me apetece . Então ergueram todos um coro vitorioso . Não me apercebi daquilo que lhe aconteceu . foi então que ocorreu a sua primeira mudança interior. pah . amuada. evitando a sapataria. e depois dele também Pas­ quale . e então Lila afastou Pasquale e correu para puxar o irmão para dentro . Dois dias depois levantei-me cedo . Mas durou pouco . sobre­ tudo . 23 . raparigas .» «E os sapatos novos?» «Estão em banho-maria. por carros que avançavam pelas ruas pejadas de detritos . também Stefano . vidros esmagados . Mas das consequências dei-me conta quase de imediato .» Mas Enzo . de cujos corpos emanava uma chama mais ardente do que a dos fogos no céu . chegaram-nos uns ruídos secos . os nossos continuaram. Só Rino continuou a lançar insultos ferozes . para ganha­ rem a competição . chegámos lá abaixo a gritar. até não haver nem mais um rastilho sequer para quei­ mar. embora ainda não tivesse escola. como eu já disse . e passeá­ mos pelo bairro . fez-se silêncio . descurei Lila. Rino gritou . estrondos . Mas sobretudo . não têm mais nada» . Chegou atrasada.» «E então?» . foi o primeiro a empurrar-nos para dentro .

na ideia dela. pendurada numa cadeira. O par de sapatos que tinham feito em conjunto . uma meia com rebuçados e chocolates . «Tudo por minha culpa» . Mas Lila sabia bem (e dizia que Rino também sabia) que o trabalho estava cheio de defeito s .» Lila respondeu-lhe que isso nem lhe passava pela cabeça. consertava isto e aquilo . Nem se despediu de mim e foi para casa.» Mas como ao virar da esquina não estava. como Stefano . Agora parecia que o dinheiro . Mas o irmão zangou-se . Por isso . mas ele não queria esperar mais . barrou-nos o caminho e disse-lhe: «Vem já trabalhar.A Amiga Genial 141 Tive a impressão de que ela nem sabia o que queria. segundo parece . que o caminho para chegar à fábri­ ca de calçado era um percurso difícil. tinha urgência em ser como os Solara . excepto para ele . reforçava. deu-lhe a entender que se sentia satisfeito por ela ficar em casa a ajudar a mãe . Rino deu-lhe uma bofetada e gritou: «Então vai para casa. Continuávamos a ter pressa de ficar ricas . Ela. ele achava que já estava pronto . De repente pareceu-me até que a riqueza em si mesma já não lhe interessava. o que a comovera. se transformara em cimento: consolidava. Consertava sobretudo a cabeça de Rino . Apareceu a mãe: o filho deixara-lhe . e queria mostrá-lo a Fernando . Rino na verdade enervava-se . que o pai examinaria os sapatos e os deitaria fora. começou a admitir. pelo menos comigo . O auge do conflito deu-se no dia da Befana. magicava com olhos de má no que havia de inventar para acalmá-lo .» Ela obedeceu . A única certe­ za é que parecia muito preocupada com o irmão . acordou e encontrou ao lado da cama uma meia cheia de carvão . mas o ob­ jectivo já não era o mesmo da infância: nem arcas do tesouro . Pelo contrário . Fernando . sobre isso não havia discussões . Rino aproximou-se de cabeça baixa. «fi-lo acreditar que a sorte está ao virar da esquina . Por isso lhe dizia que era preciso tentar e voltar a tentar. muito mais do que a vira ultimamente . Então ele puxou-a por um braço . nunca repreen­ deu Lila por ter deixado de ir para a sapataria. por exemplo . vai ajudar a mãe . quando viu que a mesa não . Agora falava de dinheiro sem qual­ quer brilho . e Lila não con­ seguia fazê-lo raciocinar. ela rea­ giu com um insulto feio . E foi justamente a partir dessa preocupação que começou a alterar as suas conversas sobre a riqueza . e logo nos primeiros dias de Janeiro assisti a mais uma briga feia. era apenas um remédio para evitar que o irmão se metes­ se em sarilhos . Com­ preendeu que fora Rino e pôs a mesa do pequeno-almoço para todos . aquele filho era o seu ai-jesus . nem brilhos de moedas e pedras preciosas .

«São sapatos de gente fina» . Mas Rino parecia não perceber isso . evitar o aces- . no meio do fumo e dos estalos: Rino perdera o seu perfil habitual . e como esse sofrimento o enchia de vontade de partir tudo . acrescentei isto . mas Lila não deixou . pensei que. naquele olhar. «Vejam o que a Befana me trouxe» . disse . Enquanto mãe e filha discutiam . examinou-os por cima. mais insuportável ainda porque continuava a amar o irmão . Fernando sentou-se de novo . que ela tives­ se apreciado a partida. Não sabia nada sobre aquela iniciativa. experimentou-os. «Quem fez estes sapatos é um mestre» . comentou . disse . todo vermelho . da surpresa. Naquele sorriso. «São realmente cómodos» .1 42 Elena Ferrante estava posta para ele . andou para a frente e para trás na cozinha. pareceu-lhe ter a confirmação daquilo que a assustara no terraço . apareceu o irmão . pronunciava frases incompletas: fiz assim. A cada palavra sarcástica do pai ficava mais orgulhoso . Quando viu na cara do irmão um sorrisinho divertido e angustiado ao mesmo tempo . mas quando percebeu que a irmã o fizera a sério . «A Befana» . Rino decidira sozinho mostrar ao pai os sapatos novos . como se fossem uma prenda da Befana.» Levantou-se . viu algo insuportavelmente mesquinho . por seu lado . «fê-los mesmo para os meus pés . a Befana. ela agora tinha um irmão desmarginado . queria sair da cozinha. que nada sabia sobre a história dos sapatos . com uma caixa de cartão na mão .» Em cada palavra sentia-se como sofria. a sentir necessidade de estar ao lado dele para o ajudar e ser ajudada. e depois o do esquerdo . do qual podia sair o irremediável . Nesse instante apareceu Fernando em cuecas e camisola interior. «Que bonitos que são» . Lila ficou de boca aberta. pensando que era a brincar. Tirou da caixa os sapatos novos . primeiro o sapato do pé direito . sob o olhar da farm1ia. quando lhe apanhou o olhar alarmado a observar o rosto do pai . deitando olhares apaixo­ nados ao filho . mas sem que o rosto se lhe desanuviasse . disse a mulher. feitos em segredo pelos dois filhos. Rino riu-se . preparou-se para o fazer. tentou agarrá-la para lhe bater. Fernando . com a expressão de u m Randolph Scott encolerizado . Tirou-os . sentou-se e calçou . sorria. e via-se que estava furioso . «Habilidosa. por baixo . disse Nunzia. sem dizer uma palavra. Lila. por dentro e por fora. e ela atirou-lhe um pedaço de carvão . disse . papá.

derrubando cadeiras . mas não conseguia decidir-se . estendê-la ao sol . estafermo .» Lila ficava calada. tenho de agradecer à Befana. dizia coisas desagradáveis do tipo: nem uma camisa sabes passar. inicialmente ape­ nas preocupado em proteger-se de murros e pontapés . Mas . por exemplo. tentava acalmar-se . protestava. «não têm nada atabalhoado . nunca os vi nos pés de ninguém. Lila só se meteu no meio quando viu que o irmão .» Sentou-se . Cozinhava. amuado . cuecas e camisas em ordem na gaveta. arrependia-se. calados . continuou Fernando . não se sentia contente por se comportar as­ sim. Disse ao filho: «Vira-te . esforçava-se bastante para voltar a ser o mesmo de antigamente . com este bico largo são bastante originais. interpretou o facto como uma desconsideração incompreensível . «para evitar que o papá se zangasse tam­ bém contigo. falava-lhe em tom gentil: «Estás zangada comigo porque fiquei com todo o mérito dos sapatos? Mas fi-lo» dizia-lhe. e a chorar. durante algum tempo não se voltou a falar. às vezes dava-lhe um beijo na . Ela encolhia os ombros . Mas em vão .» E depois pedia-lhe: «Ajuda-me. aterro­ rizando a mãe . ir às compras . Depois volta­ ram a trabalhar juntos . fechados na lojeca com os seus deses­ peros. o pai deu-lhe um violento pontapé no traseiro . que o ser­ visse e o respeitasse quando voltava do trabalho . e co­ meçou a exigir que a irmã fizesse as coisas de maneira que ele encon­ trasse sempre meias . chamou-lhe besta e néscio .A Amiga Genial 1 43 so de cólera iminente do pai . não queria deixar o irmão sozinho . andava de roda dela com brincadeiras .» Rino pensou que era uma brincadeira que encerraria definitivamente toda a controvérsia entre eles e virou-se . e atirou-lhe tudo aquilo a que pôde jogar a mão . lavar a roupa. Rino . jurando que preferia matar-se a continuar a trabalhar de graça para o pai . Nos dias bons . Se alguma coisa não lhe agradava. feliz e embaraçado . mal fez o gesto de virar as costas . Rinu . naturalmente. Lila decidiu que o seu papel era ajudar a mãe . atou-os . passou a executar as suas tarefas com atenção e cuidado . até esgotarem as forças . Ele próprio . o que havemos de fazer agora? Não podemos ficar parados . começava tam­ bém a gritar. tristonho . Pai e filho tiveram de desabafar primeiro . passava a ferro . mentindo . partindo pratos . E sobretudo . Dos sapatos. cozinhar. «São leves e ao mesmo tempo robustos» . e nunca mais foi à sapataria. domingo de manhã. por fim também os sapatos . eu tenho de sair desta situação. os outros irmãos e a vizinhança. não protestava. voltou a calçá-los .

Alfonso . entre nós não acontecera grande coisa. Lila por vezes . Um dia desatou a chorar durante o interrogatório de Grego . e por terem nascido graças a um desenho numa folha de caderno . existiam. pare ele perceber que já não estava zangada. Disse-lhe . Gino teve insuficientes em tudo e pediu-me ajuda. Pediu-me para continuarmos mais um pouco . ela própria maravilhada porque. Mas ele entretanto já se zangara de novo e acabava sempre por partir qualquer coisa.1 44 Elena Ferrante face. bem ou mal . muito perturbados . Poucos dias depois do meu rompimento com Gino . Gaguejou que mal havíamos começado . Gritava­ -lhe que ela é que o traíra. já não gostava dele . Como namorados . as primeiras da sua vida. mas mantive-me firme na minha decisão . Mesmo quando copiava não prestava atenção . mas na verdade ele só queria que o deixasse co­ piar os trabalhos de casa. simplesmente . e havia de o trair ainda mais . pois mais tarde ou mais cedo casaria com um imbecil qualquer e ia-se embora. Deixei-o copiar. olhava para eles . excepto Gino que . ia ao quarto de arrumos onde escondera os sapatos e apalpava-os . mas eu zanguei-me e repeli-o . não se esforçava para compreen­ der. mas sem língua. rebentou a rir. Muitos dos meus colegas começaram a desistir. fui absorvida pelos ritmos torturantes que os pro­ fessores nos impunham. Lila confidenciou­ -me que recebera duas declarações quase ao mesmo tempo . e a turma a reduzir-se . tentara apalpar-me o peito . mas era preguiçoso . Regressei à escola. preocupado: «Gostas do Alfonso?» Respondi-lhe que . Ficámos todos em silêncio . Viu-se claramente que preferia morrer em vez de deitar uma só lágrima diante da turma. também estava em dificulda­ des . não estava certo . Já sabia que não me custava nada deixar de ter a companhia dele na ida para a escola e no regresso . embora muito disciplinado . deixando­ -o a viver na miséria para sempre . quando não estava ninguém em casa. Pasquale fora ao seu encontro . Vinha sujo do trabalho e muito agitado . 24 . Uma manhã. o que para um rapaz era considerado muito humilhante . Tentei ajudá-lo . À saída da escola disse-lhe que por causa daquela gargalhada já não éramos namorados . ou pela satisfação de ver que também ao seu companheiro de carteira as coisas corriam mal . talvez devido à tensão . Tínhamos dado um beijo. Tanto trabalho deitado fora. A reacção dele foi perguntar-me . quando andava a fazer as compras . mas não se aguentou .

A Amiga Genial 1 45

que andava preocupado porque nunca mais a vira na sapataria, e pensou
que estivesse doente . Mas agora que a encontrava de boa saúde , estava
feliz. Porém , enquanto falava, não mostrava felicidade nenhuma no ros­
to . Interrompeu-se como se estivesse a sufocar e, para libertar a gargan­
ta, quase gritou que gostava dela. Amava-a tanto que , se ela estivesse de
acordo , ia falar imediatamente com o irmão , com os pais, com quem
fosse preciso , para um compromisso sério . Ela ficara sem palavras , du­
rante alguns minutos pensou que ele estivesse a brincar. Tantas vezes eu
lhe dissera que Pasquale andava de olho nela, e nunca acreditara. Mas
afinal ali estava ele , num lindo dia de Primavera, quase com as lágrimas
nos olhos, a suplicar-lhe , a dizer que a vida para ele perderia todo o valor
se ela dissesse que não . Como eram difíceis de deslindar os sentimentos
de amor. Lila, com muita cautela, sem nunca dizer que não , encontrara
as palavras para o rejeitar. Disse-lhe que também ela gostava dele , mas
não como se gosta de um namorado . Disse-lhe também que lhe seria
grata para sempre por todas as coisas que ele lhe explicara: o fascismo ,
a resistência, a monarquia, a república, o mercado negro , o comandante
Lauro , os neofascistas , a democracia cristã, o comunismo . Mas compro­
meter-se com ele , não , nunca se comprometeria com ninguém. E con­
cluíra: «Gosto de todos vós , do Antonio , de ti , do Enzo , como gosto do
Rino .» Pasquale , então , murmurara: «Mas eu não gosto de ti como
gosto da Carmela.» Escapulira-se e voltara para o trabalho .
«E a outra declaração?» , perguntei-lhe com curiosidade , mas também
um pouco ansiosa.
«Nunca terias imaginado .»
A outra declaração viera de Marcello Solara.
Ao ouvir aquele nome senti uma pontada no estômago . Se o amor de
Pasquale era um sinal de como Lila era capaz de agradar, o amor de
Marcello , um rapaz bonito , rico , com automóvel , duro , violento , camor­
rista, habituado , portanto , a ter as mulheres que queria, era, aos meus
olhos , aos olhos de todas as raparigas da minha idade , apesar da má
fama que tinha, ou talvez também por causa disso , uma promoção , a
passagem da rapariguinha magricela a mulher, capaz de vergar a si
qualquer um.
«E como aconteceu?»
Marcello ia ao volante do 1100, sozinho , sem o irmão , e viu-a quando
regressava a casa pela rua larga. Não encostara o carro , não falara com
ela através da janela. Deixou o carro no meio da rua , de porta aberta, e
aproximou-se dela. Lila continuou a andar, e ele atrás . Suplicou-lhe que

1 46 Elena Ferrante

lhe perdoasse a maneira como se comportara tempos atrás , admitindo
que ela teria feito bem em matá-lo com o trinchete . Recordou-lhe , emo­
cionado , como tinham dançado bem o rock na festa da mãe de Gigliola,
sinal de que podiam acertar bem o passo um com o outro . Fizera-lhe
muitos elogios: «Como tu cresceste , que lindos olhos que tens, que bo­
nita que és.» Depois contou-lhe o sonho que tivera nessa noite: ele
pedia-a em casamento , ela dizia que sim, e ele oferecia-lhe um anel de
noivado idêntico ao da avó , que tinha um engaste com três diamantes .
Lila finalmente falara, continuando a andar. Perguntou-lhe: «Nesse so­
nho eu disse-te que sim?» . Marcello confirmou e ela respondeu: «Então
foi mesmo um sonho , porque tu és um animal , tu e a tua fallll1 ia, o teu
avô , o teu pai , o teu irmão , e eu nunca te diria que sim, mesmo que digas
que me matas .»
«Disseste-lhe mesmo assim?»
«Disse-lhe ainda mais.»
«Ü quê?»
Quando Marcello , ofendido , lhe respondera que os seus sentimentos
eram muito delicados , que dia e noite só nela pensava com amor, e por
isso não era um animal , mas alguém que a amava, ela retorquira que se
uma pessoa se comportava como ele se comportara com Ada, e se essa
mesma pessoa na noite da passagem do ano se punha a disparar contra
outras pessoas com uma pistola, chamar-lhe animal era ofender os ani­
mais . Marcello percebera finalmente que ela não estava a brincar, que na
verdade o considerava muito menos do que uma rã, do que uma salaman­
dra, e ficou imediatamente deprimido . Murmurara baixinho: «Foi o meu
irmão que disparou .» Mas ao pronunciar esta frase compreendeu logo
que depois disso ela o desprezaria ainda mais . Verdade pura. Lila apres­
sou o passo , e quando ele ainda tentou segui-la, gritou-lhe: «Vai-te em­
bora» , e começou a correr. Ele parou , como se não soubesse onde estava
e o que havia de fazer, e depois voltou para o 1100 de cabeça baixa.
«Tu fizeste isso ao Marcello Solara?»
«Sim.»
«És doida. Não contes a ninguém que o trataste assim.»
Naquele momento pareceu-me uma recomendação supérflua, disse
aquilo só para mostrar que a história dela era importante para mim. Lila,
por natureza, gostava de falar e de fantasiar acerca dos factos , mas não
era de mexericos , ao contrário de nós , que estávamos sempre a mexeri­
car. E de facto , do amor de Pasquale falou só a mim , nunca me constou
que tivesse contado a mais alguém. Mas a respeito de Marcello Solara

A Amiga Genial 1 47

contou a toda a gente . Encontrei Carrne la, que me disse: «Soubeste que
a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» . Depois foi Ada que me
disse: «Nada menos , a tua amiga deu uma nega ao Marcello Solara.»
Pinuccia Carracci , na charcutaria, segredou-me ao ouvido: «É verdade
que a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» Até Alfonso me
disse um dia na escola, estupefacto: «A tua amiga disse que não ao
Marcello Solara?»
Quando vi Lila, disse-lhe:
«Fizeste mal em dizer a toda a gente , o Marcello vai ficar furioso .»
Ela encolheu os ombros . Tinha muito que fazer, com os irmãos , a
casa, a mãe , o pai , e não se deteve muito tempo a falar. Desde a noite
da passagem do ano , dedicava-se só às tarefas domésticas .

25 .

E era mesmo assim. Durante o resto do ano escolar, Lila desinteressou­
-se completamente daquilo que eu fazia na escola. Quando lhe perguntei
que livros ia buscar à biblioteca, o que andava a ler, respondeu com des­
peito: «Já não vou lá buscar nada, os livros fazem-me doer a cabeça.»
Eu , porém, estudava, e ler tomara-se um hábito agradável . Mas tive
de reconhecer que , desde que Lila deixara de me pressionar, de se ante­
cipar a mim no estudo e nas leituras , tanto a escola como a biblioteca
do professor Ferrara tinham deixado de ser uma espécie de aventura,
tomando-se simplesmente uma coisa que eu sabia fazer bem e pela qual
era muito elogiada.
Apercebi-me claramente disso em duas ocasiões.
Uma vez fui buscar livros à biblioteca, com o meu cartão todo preen­
chido com empréstimos e devoluções , e o professor, primeiro congratu­
lou-se com a minha assiduidade , depois perguntou-me por Lila, lamen­
tando muito que ela e toda a família tivessem deixado de ir buscar
livros. É difícil explicar porquê , mas aquela lamentação fez-me sofrer.
Pareceu-me a prova de um verdadeiro interesse por Lila, algo muito
mais profundo do que os louvores pela minha regularidade de leitora
assídua. Veio-me à ideia que , mesmo que Lila só tivesse ido buscar um
livro por ano , teria deixado nesse livro a sua marca, e o professor senti­
-la-ia no momento da devolução , ao passo que eu não deixava marcas ,
eu representava apenas a persistência com que ia somando um livro a
outro livro , desordenadamente .

148 Elena Ferrante

A outra ocasião teve a ver com a rotina escolar. O professor de Letras
trouxe as composições de Italiano corrigidas (ainda me recordo do te­
ma: «As várias fases do drama de Dido» ) , e enquanto geralmente se li­
mitava a dizer duas palavras para justificar o meu oito ou nove habitual ,
naquele dia elogiou-me com eloquência diante da turma, e só no fim
revelou que me dera nada menos do que um dez . No final da aula cha­
mou-me ao corredor, verdadeiramente admirado com a maneira como
eu desenvolvera o tema, e quando o professor de Religião apareceu ,
deteve-o e resumiu-lhe , cheio de entusiasmo , a minha composição . Dias
depois constatei que Gerace não se limitara ao padre , fizera circular
esse meu trabalho pelos outros professores também , e não só os da mi­
nha secção . Alguns professores do liceu agora sorriam-me nos corredo­
res , faziam-me até comentários . Uma professora do primeiro A, por
exemplo , a professora Galiani , muito considerada, e que todos evitavam
por ter fama de ser comunista, e porque em duas penadas era capaz de
deitar por terra qualquer argumentação mal fundamentada, dirigiu-se a
mim no átrio e entusiasmou-se sobretudo com a ideia, central no meu
trabalho , de que , se o amor for desterrado das cidades , a natureza bené­
fica das cidades transforma-se em natureza maléfica. Perguntou-me:
«Ü que significa para ti "uma cidade sem amor"?»
«Um povo privado da felicidade .»
«Dá-me um exemplo .»
Pensei nas discussões que tivera com Lila e Pasquale durante o Ve­
rão , e de repente senti-as como uma verdadeira escola, mais verdadeira
do que aquela que eu tinha todos os dias .
«A Itália sob o fascismo , a Alemanha sob o nazismo , todos nós , seres
humanos , no mundo de hoje.»
Sondou-me com acrescido interesse . Disse que eu escrevia muito
bem, aconselhou-me algumas leituras , ofereceu-se para me emprestar
livros seus. Por fim perguntou o que fazia o meu pai , e eu respondi: «É
porteiro na câmara municipal .» Afastou-se de cabeça baixa.
Aquele interesse da professora Galiani , como é natural , encheu-me de
orgulho , mas não teve grandes consequências , e a rotina escolar voltou
ao normal . Por isso , o facto de eu , ainda no primeiro ano da secundária,
já ser uma aluna com uma certa fama de excepcional , acabou por não me
parecer importante . Afinal o que é que isso provava? Provava acima de
tudo que fora proveitoso estudar e conversar com Lila, tê-la como estí­
mulo e apoio da minha aventura naquele mundo exterior ao bairro, entre
as coisas , as pessoas , as paisagens e as ideias dos livros. Sim, dizia para

A Amiga Genial 1 49

comigo , claro que a composição sobre Dido é minha, a capacidade de
formular frases bonitas é um dom meu; claro que aquilo que escrevi
sobre Dido me pertence; mas não foi elaborado juntamente com ela, não
nos estimulámos mutuamente , a minha paixão não cresceu com o calor
da dela? E aquela ideia da cidade sem amor, que tanto agradara aos pro­
fessores , não me viera de Lila, embora eu depois a tenha desenvolvido
com as minhas capacidades? O que devia eu concluir disto?
Fiquei à espera de novos elogios , que provassem as minhas capaci­
dades autónomas . Mas Gerace , quando marcou outro trabalho sobre a
rainha de Cartago («Eneias e Di do: o encontro de dois fugitivos») , não
se entusiasmou , limitou-se a dar-me um oito . Mas da professora Galiani
recebia cordiais gestos de saudação e fiz a agradável descoberta de que
ela era professora de Latim e Grego de Nino Sarratore , aluno do primei­
ro A. Sentia uma necessidade urgente de atenção e apreço renovados ,
tive esperança que me viessem dele , pelo menos . Tive esperança de que
a sua professora de Letras me elogiasse publicamente , digamos , na tur­
ma dele , fazendo com que se recordasse de mim e finalmente me diri­
gisse a palavra. Mas não aconteceu nada, continuei a entrevê-lo à saída,
à entrada, sempre com o mesmo ar absorto , nunca um olhar. Uma vez
cheguei mesmo a segui-lo pelo Corso Garibaldi e pela Via Casanova, na
esperança de que reparasse em mim e me dissesse: olá, estou a ver que
fazemos o mesmo caminho , ouvi falar muito de ti . Mas seguia apressa­
do , de cabeça baixa, e nunca se virou . Cansei-me , senti desprezo por
mim. Deprimida, meti pelo Corso Novara e fui para casa.
Fui avançando dia após dia, sempre preocupada em confirmar aos
professores , aos colegas , a mim própria, a minha assiduidade e diligên­
cia. Mas entretanto crescia-me cá dentro um sentimento de solidão ,
sentia que aprendia sem energia. Experimentei contar a Lila as queixas
do professor Ferrara , disse-lhe para voltar a ir à biblioteca. Também lhe
disse que o meu trabalho sobre Dido fora muito apreciado , sem lhe
contar o que tinha escrito , mas dando-lhe a entender que o sucesso em
parte também era dela. Ouviu-me apaticamente , talvez já nem se recor­
dasse da nossa conversa sobre aquela personagem, tinha outros proble­
mas . Assim que lhe dei oportunidade , disse-me que Marcello Solara não
se resignara como Pasquale , continuava a andar atrás dela. Se saía para
ir às compras , ele seguia-a, sem a incomodar, até à loja de Stefano , ou
até à carroça de Enzo , só para olhar para ela. Se se assomava à janela,
via-o parado à esquina, à espera de que ela se debruçasse na janela.
Andava enervada com aquela persistência. Receava que o pai desse por

A convicção de ter feito mais mal ao irmão do que bem consolidara-se . diz-m� o que havemos de fa­ zer. Carmela. vestimo­ -nos o melhor que pudemos . e depois Via dei Mille . que acabavam em cenas de pancadaria dia sim. afirmava. Dizia à irmã. dia não . zonas onde se sabia que havia gente rica e elegante. à Via Filangieri .1 50 Elena Ferrante isso . feia. e não conseguia resignar-se ao trabalho quotidiano na oficina. Dos dois ir- .» Repetia muito essa ideia. Mas quando Lila mostrava que já não queria apoiá-lo . todas deforma­ das . Receavam que alguém nos apalpasse . ninguém nos leva a melhor. que ia muito cheio . «0 que tenho eu?» . Assustava-a a possibilidade de principiar ali uma daquelas histórias de homens . «Levo as pessoas a fazerem coisas erradas . Voltámo-nos e vimos o 1 1 00 dos Solara. Lina. «Basta olhar para ele» . eu .» Queria comprar um automóvel . Porque é que Marcello se fixara nela? «Tenho alguma coisa de doentio?» . perguntava. que o via diariamente . Nesse momento ouvimos buzinar. os nossos acompanhan­ tes tinham caras muito perigosas . dizia. era assim que ele estava. e assim que saímos de casa pusemos bâton e pintámos um pouco os olhos . como Stefano . Lila insistia em ir à Via Chiaia. Nós três unimo-nos e insistimos . Pasquale e Rino . um televisor. e sobretudo que Rino se apercebesse . Nós . tratava-a pior do que a uma serva. Rino continuava agarrado à mania de ficar rico como os Solara. no bairro havia muitas . Apanhámos o metropolitano . mais ainda. saímos os cinco: Lila. Desfeito o projecto da fábrica de calçado Cerullo . Descemos a Via Toledo a pé . Rino e Pasquale não concorda­ vam. a quem chamavam «janotas» . ao pé de nós . e detestava Fernando por não compreender a importância daquelas coisas . andava alarmada. Uma vez disse-me: «Já viste como as pessoas quando acordam são feias . em meados de Abril . 26 . Rino e Pasquale foram todo o caminho alerta. Talvez nem se apercebesse de como o seu feitio se deteriorara. mas ela. até à Piazza Amedeo . Recordo-me de que um domingo à noite . Via-se magra. não têm olhar?» Na opinião dela. juntos . mas não sabiam ou não queriam explicar-se . tentanto reacender nela o velho entusiasmo: «Nós somos inteligentes . e respondiam só com resmungos em dialecto e insultos a pessoas indeterminadas . mas não . raparigas .

e desfez-se em grandes sorrisos e gestos lânguidos. Passara num relâmpago a imagem do poder. Pareciam ter respirado outro ar. Recordo um passeio entre multidões e uma espécie de diversidade humilhante . Eram completamente diferentes de nós . que olharam para nós . E se por vezes o olhar lhes caía sobre nós . e entrámos na Via Chiaia. Nós hesitámos um pouco e de­ pois resolvemos secundá-la. saracoteou-se . disseram . suspira­ ram e se deram por vencidos. Lila foi a única que gritou qualquer coisa com entusiasmo e lhes fez adeus com gestos largos . gritou . Pareceram­ -nos bonitas . Foi como se atravessássemos uma fronteira. o tipo de óculos que usavam . enquanto o carro desaparecia na direcção da Piazza del Plebiscito . deve ter che­ gado por vias secretas aos dois rapazes . Antonio era amigo de ambos e não queriam ofendê-lo . quando usavam óculos . Enquanto eu teria parado para olhar à vontade para vestidos . Está bem. Rino e Pasquale viraram a cara. Ou éramos desinteressantes . voltou a insistir que queria ir passear onde se encontravam as pessoas elegantes . na companhia de Rino . Mas Lila. sapatos . que era pedreiro . como se aquele encontro não tivesse acontecido . enquanto nós íamos a pé .A Amiga Genial 151 mãos nem nos apercebemos . Nenhum deles falou em Ada. exasperadas pela ideia de que Gigliola e Ada andavam a divertir-se num 1 1 00 . lindos brincos cin­ tilantes . com a surpresa. ter comido outros alimentos. sério . riu . e de Pasquale . Eu senti sobretudo amargura. Eu não olha­ va para os rapazes . que remendava sapa­ tos . elas passavam e parecia que não me viam. tesos . Agar­ rou-se ao braço de Pasquale . com os lindos irmãos Solara. terem-se vestido em qualquer outro planeta. naturalmente . Não éramos perceptíveis. mal arran­ jados. A nossa maneira era errada: a pé . para as senhoras . e Pas­ quale concordou . depois Rino disse em voz baixa a Pasquale que desde sempre se sabia que Gigliola era uma puta. Aquela nossa insatisfação . agitando as mãos e gritando-nos saudações alegres . nem responde­ mos . belos penteados . a maneira certa de saírem do bairro para se irem divertir. terem aprendido a andar sobre fios de vento . Deu-me vontade de voltar imediatamente para casa. fez aquilo que para ela era pa­ rodiar uma pessoa fina. que é como quem diz . quatro jovens de automóvel . . Ficámos um bocado em silêncio . de tão espantadas que ficámos com as duas raparigas que nos faziam adeus das janelas: Gigliola e Ada. Não viam nenhum de nós . calámos . mas sim para as raparigas . Carmela e eu . Estava pasmada. Mas Carmela disse muito mal de Ada. que . com lindos vestidos .

«podes ter a certeza. sentia um prazer evidente em ouvir-lhe a voz. ironizando . se não há lá gente assim. os tornava carrancudos . não presta. e quando ela lhe dera o braço se libertara de imediato . também verde . alto . Olhavam apenas umas para as outras .» «É um liceu clássico» . Todos nós reparámos nisso. em olhar para ela. talvez até fosse capaz de fazê-lo chorar) .e era principalmente isso que fazia rir Lila . disse ela. e na cabeça . rea­ gíamos com risotas . de nos vestirmos e de nos maquilharmos e de nos ataviarmos como deve ser. por aquelas ruas encontravam ape­ nas a confirmação de coisas que já sabiam. casaco verde . Lila. . picada. Sentíamo-nos acanhadas e ao mesmo tempo encantadas. «Não presta» . se tivéssemos a possibilidade de nos reeducarmos . a tua escola mete nojo. mais crescidos. mas também estimula­ das a imaginar como nos transformaríamos . claro . só naquele momento fazíamos essa descoberta e com sentimentos ambíguos . aquilo são sapatos?» Fomos até ao Palazzo Cellamare . ao passo que nós . disse eu . indispostos pela certeza de estarem num lugar que não era o deles . raparigas .» «E viste os sapatos?» «Ü quê .» «Eu usava.» «Quer dizer que não é uma boa escola. Pasquale. e apontou para uma rapariga loira que vinha na nossa direcção . Ninguém se pronunciou . a rir e a dizer piadas . acompanhada por um jovem moreno . A rapariga estava toda de verde: sapatos verdes .» E desatou a rir. feias . de pulôver branco com decote em V: «Se não houver lá uma como aquela.1 52 Elena Ferrante voltavam-se imediatamente para outro lado .um chapéu de coco como o de Charlot. perguntou-me com sarcasmo: «Na escola as tuas companheiras são assim?» «Não . para não estragarmos a noite . «Tu alguma vez usavas aquele vestido?» «Nem que me pagassem. que não é bom?» «Bom?» . Entretanto . como se incomodadas . mas percebemos que Rino e Pasquale . saia verde . caminhando a meu lado. insistiu ele . ficavas parecida com uma bola-de-berlim. como aquela que ali vai .» «Valente . mas via­ -se que o mais pequeno contacto o perturbava. Não é verdade . o que os punha de mau humor. com bons modos (falava com ela. que evitava de todas as formas estar ao pé de Lila.

Rino continuou agitado . mas baixou o tom de voz . virando-se para Carmela. a incre­ dulidade de Lila dava lugar à fúria desesperada. Rino continha-a com uma mão . estivessem a compor uma imagem finalmente nítida. Entretanto . A rapariga e o acompanhan­ te deram alguns passos e pararam. repete lá o que me cha­ maste . dis­ se em tom frio: «Vocês agora vão para casa. como se mil fragmentos da nossa vida. Quando o par passou por nós . Empurrámos Rino e Pasquale para longe . Rino» . com olhos de louco . O rapaz de pulôver branco voltou-se . Pasquale . mas um braço da rapariga reteve-o de imediato . Parámos na Piazza dei Martiri .» «Calma. raparigas . quando eu digo que é melhor não irmos para um sítio qualquer. Pascà» . gritando: «0 que foi que me chamaste? Não percebi . passámos bruscamente do riso ao pavor. e tem de ir por força.A Amiga Genial 153 A hilaridade dela contagiou-nos a todos . puxando-o com uma expressão incrédula. Lila acalmou-se . veste a pele de quem sabe sempre tudo . desde a infância até aos nossos catorze anos de então . Enquanto afastava o irmão . Pascà. sem fôlego: «A minha irmã trouxe-me aqui e vai ver se deixo que me chamem labrego . olhando para trás de vez em quando . enquanto a rapariga de chapéu de coco ajudava o namorado a levantar-se . «a minha irmã pensa que . e Pasquale parou . disse-lhe em dialec­ to . puxando-o por um braço e ameaçando-o . como é hábito . de quem percebe sempre tudo . e apoiou-se à parede com um braço . e acrescen­ tou: «Ouviste que aquele pedaço de esterco me chamou labrego? Labre­ go . sozinhas?» .» Uma pequena pausa para controlar a respiração . de tanta vontade de rir. Rino fez um comentário grosseiro sobre o que a senhora de verde devia fazer com o chapéu de coco.» «Nós . mas que naquele momento lhe parecia inverosímil . com um riso nervoso na cara e dirigindo-se a Pasquale: «A minha irmã pensa que aqui se brinca. Rino derrubou-o com um soco na cara. Ouviste . antes que ele pontapeasse o jovem caído no chão . respondeu-lhe Pasquale alarmado . Ele soltou-se . Lila foi a primeira a lançar-se sobre o irmão . o que ele me chamou?» Nós . a mim? Labrego?» E ainda. Foi num abrir e fechar de olhos. voltou para trás e dirigiu directamente a Rino uma série de frases insultuosas . vai ver o que faço a quem me chama labrego . lançava-lhe insultos ordinários .

» «E eu ralado ! Põe-te a andar. mas deitaram-na ao chão . primeiro levantou Lila e depois .» Incertas . disse que voltava para junto do irmão.» «Não mintas . cinco ou seis . e o grupo dos bem vestidos a persegui-los e a dar-lhes com os bastões . vi Rino a proteger-se das bastonadas com o braço .» Rino perdeu de novo a paciência. Lila mudou de ideias .» «Saímos de casa juntos e regressamos juntos. mas os bastões metiam medo . atirou-se para a refrega. com- prem gelados pelo caminho . parou.» «Carme . pareciam os canoeiros que às vezes admirávamos . Vi Pasquale de joelhos. outros não .» «Não sabemos o caminho . Lila soltou-se da minha mão e foi a correr. atacado a pontapé . dando murros e levando . abriu o porta­ -bagagem sem pressa. bem constituídos . «toma lá dinheiro . tentando conter-se . vá. Mas pouco depois . nem o gelado mereces . Ela também percebeu que corria o risco: «Vou contar ao papá. anda. Marcello saiu do carro . bem vestidos . vá. junto do Castel dell 'Ovo . Rino e Pasquale ergueram-se . começámos a subir por Santa Caterina. Com eles encontrava-se o rapaz a quem Rino esmurrara a cara. Depois parou um carro . Ten­ támos convencê-la a ficar connosco . as pessoas não ajudavam. Gritámos por socorro . Mexe-te .» Vi que estava pronto para fazê-lo a sério . Lila agarrou um dos agressores por um braço . Só então Michele saiu do carro . que gritava de raiva e chamava o irmão . Vão-se embora. Eram todos altos . lado a lado . tens de fazer o que eu te digo . incitado por ela. não tarda nada parto-te a cara. Passaram ao lado da igreja em passo apressa­ do e dirigiram-se para a praça. era o 1100 dos Solara. mas não fez caso . deu-lhe um encontrão: «Queres parar com isso? O irmão mais velho sou eu . a interceptar transeuntes . nos passeios de domingo . com o pulôver de decote em V sujo de sangue . Chegámos mesmo a tempo de ver Rino e Pasquale a recuar. tirou qualquer coisa que parecia um pedaço de ferro reluzente e entrou na luta. come­ çámos a chorar. Enquanto discu­ tíamos vimos um grupo de rapazes . não quero discutir.» «Não . puxei Lila por um braço . disse Rino a Lila. pira-te . eu e Carmela seguimo-la.1 54 Elena Ferrante «Sim. na direcção do monumento central da praça.» «Vai» . Alguns leva­ vam um bastão . batendo com uma violência fria que espero não voltar a ver na minha vida.

As pessoas que antes se tinham afastado . A certa altura perguntou-me . Fizemos assim a viagem. com Gigliola e Michele a beijarem-se constantemente. Marcello travou . disse Lila. Gigliola repetia sem parar: «Mas é claro» . vendo-a depois molhada de vermelho . no tom agra­ decido de quem faz um pedido que não pode evitar. Voltei-me para olhar para Pasquale e Rino . diziam. e estavam quase a agredir-se . que sangrava do nariz . «Mas sem dúvida» .» . Pasquale a coxear. por trabalhar na pastelaria. divertido . Quisemos que nos deixassem longe de casa. «Então apeiem-se e vão a pé» . sabia bem que os Solara eram gente impecável .» «É outro tipo de divertimento . enquanto dava beijos apaixonados . Os rapazes bem vestidos puseram-se em fuga. apertando . portaram-se bem . mas ela não lhe deu resposta. Eu olhava para ela. Gigliola e Ada estavam muito irritadas . com ar de quem . e ela. curiosas . que opu­ nha maior resistência. mas Pasquale repeliu-o com maus modos e passou pela cara a manga da camisa branca. estávamos todas muito admiradas com o comportamento dos dois irmãos . «Levem daqui as raparigas» . Marce­ llo apanhou do chão um molho de chaves e deu-o a Rino . protestaram pela forma incómo­ da de viajar. Lila não voltou a falar até chegarmos ao bairro . Valentes . Marcello fez-nos entrar para o carro . Marcello pronunciou algumas palavras . que se dirigiam para a Riviera. Gi­ gliola desceu e . «Mas o que é que julgavam» . para evitarmos ser vistas no carro dos Solara. incluindo as ruas da gente rica. no colo de Michele . Eu estava paralisada de medo . dissemos . em passo lento de princesa. as cinco raparigas juntas . Pareceram-me dois desconheci­ dos .» «Mas não te divertes como eu me divirto . aproximavam­ -se agora. como é?» «Óptimo . olhava para mim. Amontoámo-nos todas no banco de trás . sentadas no colo umas das outras . foi sentar-se à frente . Michele aproximou-se de Pasquale . rasgando . que agradeceu de má vontade . «Não é possível» . em primeiro lugar Lila. disse Rino aos dois Solara. Fizemos o resto do caminho a pé . Eu desviava logo os olhos . Dentro do carro houve imediatamente conflitos. que pare­ cia consumida pela raiva e pela preocupação . e partimos. de tal modo estavam alterados pelo ódio . Exceptuando Lila. batendo . procurando-a com o olhar através do espelho retrovi­ sor. diante dos nossos olhos . mas num tom trocista: «Lá na escola.A Amiga Genial 1 55 furiosos . Senti-me como se o bairro se tivesse ampliado e abrangesse Nápoles inteira.

imagine-se . Aparentemente . Não estava de acordo .com os dois pacotes do costume . mas não disse nada à minha mãe sobre aquela possibilidade . da bolsa de estudo . Estava mais pálida do que o habitual e tinha sulcos roxos profundos sob os olhos . Eu . ao Rino e ao Pasquale . Gino foi reprovado . 27 . A sua vida. pela honra que lhe era feita. Incitada pelo meu pai . um de açúcar e outro de café . na praia. para lhe agradecer o seu interesse por mim . eu disse a Lila: «Üs ricos são piores do que nós . fazendo uma viagem por mar? Eu . O rapaz.minha mãe era contra. disse que me achava bastante pálida e que tencionava telefonar a uma prima sua que morava em Ischia. Agradeci . mas não me disse porquê . Já sabia que ela nunca me deixaria ir. Carmela e Ada se separaram de nós para entrar em casa. passando por cima dela . dera-se um facto totalmente inesperado que a deixara perplexa. de barco . as coisas haviam melhorado . Mas Rino . em Ischia? Eu sozinha. perdera até a aura aventureira da fábrica de sapatos . depois da violência da Piazza dei Martiri. para ver se ela me recebia em sua casa durante algum tempo . e não tinha coragem de me gabar da aprovação . Mas . sem dúvida. pondo em alvoroço sobretudo Fernando .» Ela abanou a cabeça energicamente . tinha qualquer coisa n a garganta que lhe doía. mas ainda bem que lá estavam. comprados no bar Solara. Passei com nove a tudo .» Ela não respondeu . mas elogiou-me muito . fui a casa da professora Oliviero . até ia receber uma coisa que se chamava bolsa de estudo . de umas possíveis férias em Ischia. regozijou-se com o meu bom aproveita­ mento . Acrescentei . circunspecta: «ÜS Solara podem ser gente de merda. que tivera o cuidado de não contar ao pai o que acontecera (para justificar as nódoas roxas da cara e do corpo . ficaram trinta e dois . Ela não s e sentia muito bem. Alfonso tinha que repetir três disciplinas em Setembro . Aqueles da Via dei Mille podiam matá-los . a tomar banho em maiô? Nem a Lila falei nisso . pois Marcello Solara dei­ xara de andar atrás dela. inventara que tinha caído . não gostava que ela metesse o nariz na sua fann1 ia e se per­ mitisse tomar decisões a respeito dos seus filhos .1 56 Elena Ferrante Quando ela. apresentara-se na oficina para se informar sobre o estado de Rino. em poucos meses . Dos quarenta que éramos .

depois oferecera-se para o ensinar a conduzir. Quando reentrou na oficina. recordando-se da batalha do fogo-de-artifício . e despediram-se . mas a barra estava bem afiada na ponta . papá. Se ele quisesse .» «Não existe amizade nenhuma. o pai disse-lhe: «Finalmente estás a fazer uma coisa boa. assumindo a responsabilidade de o deixar exercitar-se ao volante do seu 1100. uma grande preocupação . «Que mal há nisso?» . Tinha razão . podia espetá-la no peito de um daqueles . não só a sua intervenção. Lila.» «Ora. objectei uma vez . chamasse ele o que quisesse àquela coisa com os Solara. A princípio . mas também a gentileza de passar por ali para ver como ele estava. não é possível que se deixe enrolar. levara-o imediatamente para a rua. quando ouvia falar nisso sentia. mas isso não evitava que se enfure­ cesse com a maneira como os Solara lhe estavam entrando na cabeça. aquilo que ele tirou do carro na Piazza dei Martiri?» «Não .A Amiga Genial 1 57 da Lambretta de um amigo) . depois convidara Rino para dar uma volta de automóvel. depois encorajara-o a tratar da licença de aprendizagem. Rino agradeceu contrariado a Solara. fazendo dele uma espécie de macaquinho feliz . faria bem em encorajá-la. Depois verificara que as atenções de Mar­ cello seduziam ainda mais o seu irmão mais velho do que os pais .» Fernando queria dizer que alguma coisa estava a mudar.» «Aqui . trazendo os sapatos do avô para pôr meias-solas. para tirar a carta. tu ameaçaste o Marcello com o trinchete . onde ela não punha os pés . Co­ nhecia bem a fragilidade de Rino . e que o filho . «São perigosos .» . Dois mi­ nutos . Daí a poucos dias Marcello voltara. sem dúvida. Deram um curto pas­ seio.» «Viste o Michele. mas os Solara. Lenu . pensara: Rino odeia demasiado os Solara. tinham ganho estima por Rino . Provavelmente não se tratava de amizade .» «Ü quê?» «A amizade com o Marcello Solara. ao contrário do pai . que se passava em torno da sapataria. tudo é perigoso .» «Uma barra de ferro .» «Então quer dizer que tolo eras e tolo continuas a ser. receando que Marcello dissesse alguma palavra a mais. alheia àquele convívio .» «Üs outros tinham bastões .» «Tu não estás a ver. ou no estô­ mago .

com Lila. só Marcello é que falou .» «De verdade?» «Sim. a fim de não incomodarem. Gaguejou qual­ quer coisa em louvor de Silvio Solara. perguntou Nunzia. dizes-lhe que não?» «Ora. Rino mandava-a calar. comoveu-se . E provavelmente era verda­ de . e Fernando . de bom ou de mau grado . enquanto Nunzia nos mandava calar. «Que o teu pai nunca saiba disso . mas sem se esquecer nunca de servir água ou vinho a Nunzia . não meu. avançaram . Fernando . Disse ao dono da casa que era muito estimado no bairro pelas suas qualidades de sapateiro . disse que eu não percebia. a Lila. à mesa esteve sempre calado . que não fora capaz de lhe dizer que não . e avançaram tanto que numa noite de fim de Junho . nem se fala. «Vou deitar aqui veneno das baratas» . seguido por Marcello . Ficou agitada. provoquei-a eu . O rapaz convidara Solara para jantar. nos preparativos do jantar. ou outra coisa. Disse­ -lhe que seu pai gabava muito a sua grande habilidade . não me recordo . senão . dizia Lila furiosa. levou os outros filhos para a cozinha. mata-te . e chegou mesmo a dizer que . ou então ria sem motivo . ansiosa. e ríamos . em parte por causa do vinho . Eu própria participei . «vai pedir a tua mão ao teu pai . abriu-se a porta de casa e entrou Rino . E o facto é que as coisas . mas depois sentiu-se honrado e mostrou cordialidade . e eu gostava de argumentar. Era evidente que se fize­ ra convidado . «Se ele te quiser.» «Está muito enganado . ao passo que ela tinha outras necessidades .158 Elena Ferrante Ela irritou-se . a mim . às vezes batia-lhe . já lhe disse que não .» «Que estás tu a dizer?» «É verdade» . Nunzia. Disse-lhe que Rino sentia uma admiração sem limites pela sua competência como sapateiro . que regressara havia pouco da oficina. agradeceu as três garrafas de bom vinho que Marcello trouxera. Mas mal fazia qualquer alusão crítica. e Rino . queria afastar Rino daquela relação . Ele era irmão dela. junto do fogão .. ameaçava­ -a. de início aborreceu-se . cansado . «Veio cá para se casar contigo» .» Durante o jantar. confirmei eu . Solara dirigia a conversa sobretudo a Fernando .» «Porquê?» . a ajudá-la a dobrar os lençóis já secos .estava eu em casa de Lila.

vinha gente de toda a parte de Nápoles tomar um café . Rino fixou os olhos no prato e não ousava olhar para o pai . mas é só para dizer que o dinheiro deve circular. «Que exagero» . estavam guardados na arrecadação . todos o conheciam .» Lila explodiu . Já que ninguém gos­ tava deles . exclamou Lila. se tiver habilidade . «que o s vossos filhos fizeram u m lindo par de sapatos . vai já buscar os sapatos . o bar-pastelaria Solara era aquilo que se sabia. porque é que não há-de tentar? Falou num dialecto bonito . anda. concluiu Marcello . Fernando disse devagar: «Sim. é exactamente o número 43 . talvez tenha exagerado um pouco . estivesse a elogiá-la sobretudo a ela. se for capaz de criar coisas com qualidade . apontando para a irmã. E a partir desse momento começou a olhar para Lila como se . elogiando a energia das gerações .» Fernando gaguejou: «Não sei onde estão .» Fez-se um longo silêncio . Disse que o avô começara numa cave . sim. e o pai fulminou-a com o olhar. Começa-se por uma cave . sedutor. e disse: «Tinha-os . Mas Marcello sorriu-lhe com humildade e admitiu: «Sim. começou a enaltecer a ideia de fazer sapatos novos . Nunzia?» «Ela é que os tem» . disse Rino . dirigindo-se ao pai: . que gostaria de a beijar. que aos olhos dele encarnava todas as qualidades femininas possíveis .» «Gostaria muito de os ver. de respirar o hálito dela. Lila olhou directamente para o rosto de Solara.» Depois . e enquanto falou não tirou os olhos da minha amiga. e de geração para ge­ ração pode-se chegar longe . se não se importarem. Mas anteontem a mãe disse-me para fazer limpeza e deitei-os fora. enervado: «Vai buscar os sapatos . que agradem . comer um bolo . «Sei» . número 43 . En­ tão .» Rino irritou-se e disse: «És uma mentirosa. que ela poderia fazer dele tudo o que quisesse . e hoje.A Amiga Genial 1 59 Rino era muito trabalhador e estava a tomar-se muito competente . depois o pai ampliara o negócio . Tu sabes . com visível incómodo de Rino . Dizia: se uma pessoa sentir vontade . Marcello começou a elogiar a necessidade de progredir. Só se ouvia o rebuliço do pintassilgo junto à janela.» Fernando também disse . precisamente o meu número . Eu sentia e via que ele estava apai­ xonado por ela como nas canções .

o obrigara a fazer má figura perante um convidado importan­ te . Rino arrancou-lhe os sapatos da mão . Acompanhei-a a casa. Tinha os sapatos no colo . O tempo foi passando em silêncio . «Não quero que ele lhes toque sequer. nada. Quando voltou vinha muito atarantada. por causa de um capricho . que o trabalho fora todo dele . levantou-se . «Deitei-os fora» . in­ sultos . Nunzia começou a chorar. disse Fernando . não en­ contrava Lila. Mas houve da mesma maneira gritos . Marcello . «0 que te custava deixá-lo vê-los?» . Estava no último andar. Fer­ nando berrou para a mulher: «Tão verdade como Deus ser Deus. e segredou à mulher: «Vai ver o que a tua filha está a tramar. o vinho estremeceu nos copos: «Levanta-te e vai buscar os sapatos imediatamente . não estava. Fez- .» Fernando bateu na mesa com a mão aberta.1 60 Elena Ferrante «Então agora já os queres? Deitei-os fora porque disseste que não gostavas deles . Ela começou a chorar. Assim que ele saiu . Eu fui­ -me embora quase em bicos de pés . assustada. tomaste-te uma besta enlouquecida. disse que lhe pertenciam. despediu-se . Encontrei-a aninhada junto da porta do terraço . contando que a minha presença a protegesse . algo que nunca lhe acontecia. Procurámo-la por toda a casa. Disse . subi em bicos de pés . vi-os pela primeira vez acabados .» Nunzia saiu da sala. Chamámos da janela. é desta vez que mato a tua filha. Não voltou a aparecer. Lila chamou-me .» Lila afastou a cadeira. Tremia-lhe o lá­ bio inferior. perguntei . murmurando: «Eu também trabalhei . Fernando gritou-lhe que .» Rino uniu-se ao pai nas ameaças . Brilhavam à luz fraca de uma lâmpada pendurada de um fio eléctrico . não podia ficar escon­ dida lá em cima eternamente . Abanou energicamente a cabeça. Convenci-a pouco a pouco a voltar para casa. mas melhor seria que não o tivesse feito . algumas bofetadas .» Foi Nunzia quem pôs fim àquela tortura. repetiu baixinho e saiu da sala.» «Não existem problemas» .» Mas estava arrasada devido à sua reacção extrema. na penumbra. desorientada. desolado . Mas assim que fechei a porta e me encontrei no patamar. O primeiro a alarmar-se foi preci­ samente Marcello . preocupado: «Se calhar errei . não me tinha apercebido de que existem problemas .

«Se o Marcello gostar dos sapatos . fazemo-los . vais ver que não lhe fico atrás . que o acompanhasse até à sapataria. e deixa-nos começar a trabalhar. ordenou aos filhos . ele revelou-lhe o que tinha em mente . que não retorquissem uma única palavra. Pelo caminho ten­ taram ambos . Farão re- clame aos nossos sapatos. o papá muda de ideias . no máximo cinco . e tam­ bém ao marido .. que lhe entregassem os sapatos . Rino deu-lhe logo os sapatos . que podem dar frutos . Fazemo-los . também. e daquela vez as coisas ficaram por ali . nos dias que se seguiram conti­ nuou a agredir a irmã com palavras e com as mãos . conhecem gente importante . com todos os acabamentos . O papá é capaz de fazer um par de sapatos. o papá percebe que os teus modelos são bons .» «E fá-lo-ão de graça?» «Se quiserem uma pequena percentagem. Rino disse-lhe que lhe queria bem.» «E porque haviam de se contentar com uma percentagem pequena?» «Simpatizaram comigo . encontrar uma maneira de aca­ bar com aquela guerra.» «A quem os vendemos? Ao Marcello Solara.» «De certeza. e talvez tu . Mas Rino não se deu por vencido . se me aplicar.ela.» «Não acredito .» Palavra puxa palavra. E então se o Marcello os comprar. sempre?» «Os Solara são comerciantes . damos-lha. Uma manhã ele impôs-lhe que saíssem juntos . que era sempre submissa .» .A Amiga Genial 161 -se lívida e . ele . que acabassem imediatamente com aquilo . vendemo-los e autofinancia­ mo-nos . Cada vez que me encontrava com Lila via-lhe uma nova nódoa roxa. Lila murmu­ rou : «Ü que é querer bem. mas que ela não queria bem a ninguém. Eu escapuli-me dali para fora. E eu . nem aos pais . nem aos irmãos . em quatro dias .» «Nós três?» «Eu . se não queriam que ela se atirasse da janela. 28 . e o que é querer bem para a nossa família? Estou à espera que me digas . Passado algum tempo senti que ela estava resignada. com uma voz fora do habitual . para ti . vende­ mo-los e autofinanciamo-nos. com palavras cautelosas .

Na montra. decerto escrito por Rino . entre caixas de cromatina e atacadores . na verdade quase arrastado à força para a loja. os dois curvados . nem sequer Marcello . precisou Rino . e ninguém mostrou o me­ nor interesse pelos sapatos na montra. de olhos baixos .» «Não te atrevas . esperava coisas más . Lila percebeu que haviam falado so­ bre o assunto e chegado a uma conclusão secreta. .» Rino ficou calado . Mas .» Dias depois passei pela loja. mas disse que lhe ficavam um pouco aperta­ dos . Lila disse a Fernando que Marcello não só tinha mostrado muita curio­ sidade pela iniciativa dos sapatos . mas como se tivesse outras coisas em men­ te . dizia mesmo assim. e vejamos o que ele pensa. naturalmente . sou eu que decido . de cabeça baixa. Decepção para o pai e para o filho . pomposamente: «Aqui .» Fernando olhou para a mulher. Rino pôs-se em pé de um salto . disse . amuada.» Lila suspirou: «Vamos fazer uma coisa: eu digo ao papá. Passou uma semana.1 62 Elena Ferrante «Üs Solara?» «Sim. Só porque foi instado por Rino . ou nada feito .» Nessa noite . em troca. Se alguém os quiser ver. Experimentou-os . de uma pequena percentagem sobre as vendas .» «Ou é assim. dois minutos depois . Marcello reapareceu . «Isso fui eu que disse» . e mais. «ponho os vossos sapatos na montra da loja. Não dava crédito às hipóteses ingé­ nuas do irmão e receava o indecifrável acordo entre o pai e a mãe . vi os bonitos e harmoniosos sapatos da mar­ ca Cerullo . «Está bem. radiante . sapatos da marca Cerullo . Mas Lila estava céptica. sim. Isto é. ou outra porra qualquer. se os quiser comprar. tem de falar comigo . falas tu . como até podia estar interessado em comprá-los . que tinha o rosto afogueado . muito nervoso . diante do irmão . «e não o Marcello . Um anúncio colado no vidro . é que Solara olhou para eles .» Pai e filho esperavam que a boa sorte chegasse . se se entusiasmasse com a questão do ponto de vista comercial . faria publicidade ao produto nos círculos que frequen­ tava. como se estivesse com dor de barriga e precisasse de ir a correr para casa. se os quiser experimentar. que sabes falar melhor. Descalçou-os de imediato e desapareceu sem uma palavra sequer de apreço . ao jantar. Fernando estava a trabalhar. «Amanhã» . De qualquer modo . Rino estava a trabalhar.

como se qualquer acordo . mas que afinal me apanhou despreve­ nida e me perturbou . falou com a filha calmamente . Seguiu-se uma grande altercação . que juntamente com a mulher intuíra de imediato as reais intenções de Marcello . Disse-lhe que ela ainda era uma criança e não tinha de dizer que sim imediatamente . Lila recebera-a.A Amiga Genial 1 63 e estendeu-lhe a mão . antes iria afogar-se nos pauis . de olhos arregalados . Casar-se? Com Marcello Solara? Talvez até ter filhos? Não . Em meados de Julho aconteceu uma coisa com que devia ter contado . e em silêncio e muito agitado ia até à porta. para o bem dela. com idêntica calma. a aconselhava a aceitar. ficasse já estipulado . apesar de ele já ter perdido a calma e andar a ameaçá-la. habituá-la-ia pouco a pouco ao casamento . Mas não pude ficar ao lado dela. Nunzia e Lila. Eu fiquei pasmada com aquela notícia. Fernando . depois da habitual volta pelo bairro a conversar com Lila sobre aquilo que lhe estava a acontecer. Rino reagiu àquela viragem com uma febre violenta. Mas Marcello ignorou-o e dirigiu-se directamente a Fernando . Sabia muito bem que Marce­ llo queria por força ser namorado de Lila. Quando a febre bruscamente desapareceu . Encorajei-a a combater aquela nova guerra contra o pai e jurei que a apoiaria. mas acrescentou que . que se esforçava para abrir. em casa. e como sair . mas não me passaria pela cabeça que na nossa idade se pudesse receber uma proposta de casa­ mento . absolutamente não . mas que não a fez mudar de opinião . lhe partiria os ossos se não aceitasse um partido daquela importância. Disse-lhe de um só fôlego: «As minhas intenções são muito sérias . teve manifestações inquietantes: levantava-se da cama no meio da noite . assustadas . arrastavam­ -no de novo para a cama. Lila respondeu-lhe . como pai . No entanto . Um longo noivado . Explicou-lhe que a proposta de Marcello Solara era importante . mas a dormir. não só para o seu futuro como para o futuro de toda a farm1ia. nunca trocara um beijo com ninguém. com aquela simples reaparição . e nem tinha ainda quinze anos . Pus-me imediatamente do lado dela. que o afastou do trabalho alguns dias . dom Fernà: queria pedir-lhe a mão da sua filha Lina. Uma tarde . dizendo que . que em vez de ficar noiva e depois casar-se com Marcello Solara.» 29 . nunca namorara às escondidas .

anda. que estava à espe­ ra disso e teria ficado orgulhosa. como que a dizer que a culpa do meu eventual afogamento não devia ser atribuída a ela.» Falou comigo como se fosse ela a minha mãe . Ela é que parecia precisar de repouso . como tal .» Mas passados dois dias . dizia quase para si mesma. se despediu . fosse apenas um ser vivo descartável . Mas eu não me lembrava de Coroglio . e a minha mãe disse-me . que na sala de jantar se encontrava a sua profes­ sora. e que o mar era lindo e eu aprendera a nadar. Anunciou-me: «A minha prima respondeu ontem mesmo . enquanto me comprava o bilhete e depois . aborrecida: «A professora Oliviero diz que tu precisas de repousar. e. não devesse ser tomada em considera­ ção . a que era coxa e tinha um olho torto . atenta. com um gesto de desdém para ela e nem uma carícia à minha irmã. tinha eu três ou qua­ tro anos . depois de me ter tirado as medidas e me ter feito à pressa um fato de banho que copiou não sei de onde . estava pálida e tinha a cara inchada. que andas muito cansada. Estava a conversar com a nossa mãe . demorou-se ainda uma hora bem contada. nem de saber nadar. Entrei timidamente na sala. Explicou-me quais os que devia ler primeiro e quais depois . que fizera o que devia fazer para evitá-lo . embora o olho dançarino lhe desse um ar alucinado . e disse-lho . não se foi embora depois de me transmitir aquele re­ cado . fez-me prometer que antes de os ler os forraria . O que mais a assus­ tava era a travessia. bombardeou-me com recomendações . Só explodiu quando a professora. nem do mar. sem u m único canto dobrado . e ordenou-me que lhos devolvesse todos n o final d o Verão . e como se a minha verdadeira mãe . Ficou sen­ tada. voltei para casa e a minha irmã Elisa veio abrir-me a porta. enquanto aguardámos o embarque . Depois recomen- . Dirigiu-se a mim: «A menina tem de ir para Ischia repousar. mas simplesmente ao meu esquecimento . mostrando-me os livros que trouxera para me emprestar. Ao longo do caminho até ao porto . E ela ficou com um ar ressentido . isto é. me levava a Coroglio todos os dias para me curar do catarro .1 64 Elena Ferrante daquela situação .» Olhei para a professora sem compreender. A minha mãe aguentou com paciência. finalmente . excitada. e ficar até ao fim de Agosto . em Ischia. Disse . e jurou-me que em pequena. só tens de ajudá-la um pouco em casa. foi ela mesma que me acompanhou ao barco . senão dou-te uma bofetada. a senhora Oliviero . «Esperemos que o mar não esteja agitado» . a menina anda muito can­ sada. Vai já fazer o jantar. Recebe-te com muito prazer. Podes ir para casa dela. Além disso .

«quando tiveres o estômago cheio . 30 . mais justo no traseiro . que se chamava praia dos Maronti . senti-me aterrorizada e feliz ao mes­ mo tempo .. Podia estar no terraço a ler com o mar em frente . pediu a um velho marinheiro que olhasse por mim.» Antes de nos separarmos . Alugava os quartos a veraneantes e ficava com um quartinho para si e a cozinha. disse ainda. muito alegre .assim como o bairro e as atribulações de Lila . larga e de areia escura. todas elas cheias de perguntas .quando cheguei estava lá um casal inglês com duas crianças . disse que já eram horas de eu ir à praia. com tantos medos que a minha mãe me inculcara e os problemas que tinha com o meu corpo . escrevendo uma carta por dia a Lila. ou descer a pé por uma estrada branca e íngreme até uma praia comprida. Experimentei-o e ela entusiasmou-se . . suportes . ia fazer uma viagem. «Sobretudo» .» Quando o vesti ela desatou a rir. Quando o barco se afastou do cais . passava o tempo no terraço . num bonito tom de azul . Tinha de fazer a cama à noite e desmontar tudo (tábuas . entre mil receios e mil curiosidades . O resto do tempo era meu . preparar o pequeno-almoço para ela e para os hóspedes . levantar a mesa e lavar chávenas e tigelas . O corpo volumoso da minha mãe . toda vestida. Desabrochei . Eu ia dormir na cozinha. e que ficasse em casa se ele estivesse agitado ou com a bandeira vermelha. dizendo: «0 que fazes tu assim? Veste o fato de banho. chegava de terraço . No início . peguei numa toalha e num livro e fui até aos Maronti .foi ficando cada vez mais longe . A prima da professora chamava-se Nella Incardo e mo­ rava em Barano . Cheguei à povoação de autocarro . ditos espirituosos e descrições empolgantes da ilha. Nella revelou-se uma mulherona simpática. solteira. colchão) de manhã. encontrei facilmente a casa. não deves sequer molhar os pés . Saía de casa pela primeira vez . ou se te aparecer o sangue . No dia seguinte . Descobri que tinha obrigações inevitáveis: levantar-me às seis e meia. ex­ tinguiu-se . O percurso pareceu-me longo .A Amiga Genial 1 65 dou-me que não me afastasse da beira da água. achou que era de velha. uma viagem por mar. muito decotado no peito . pôr a mesa para o jantar e lavar a loiça antes de ir para a cama. nem mesmo com o mar calmo . Fez-me outro que na opinião dela era mais moderno . falado­ ra. Mas Nella uma manhã fez troça de mim .

mas não chegaram. a minha perdesse intensidade e impor­ tância. sem eu estar presente . Gostava de tudo: de me levantar cedo . cozi­ nhava muito bem. mais nova. graças ao tratamento que me dava. comecei a servir-lhe de intérprete . Depois perdi o pé e afundei-me . os últimos dez dias de Julho deram-me uma sensação de bem­ -estar até então desconhecida. arrumar a cozi­ nha. em ir tomar um banho de mar? Mas era verdade . Esbra­ cejei aterrorizada. preparar o pequeno-almoço . ler mais . sentada na areia preta ao sol do meio-dia. Experimentei um sentimento que depois . e a perna doente toda enterrada na areia escaldante . voltei à superfície e ao ar. Levantei-me e fui mo­ lhar os pés . um som seco e monótono . engoli água. a areia granulosa roçagava a cada passo . que estava sempre alegre . perdendo bocados da vida dela. para me manter à tona de água . Só sentia falta de Lila. Entretanto . Não tinha saudades do meu pai . às coxas . um receio que nunca me passara: o medo de que . ler estendida ao sol . . Avancei com cautela. Esperava cartas de Lila. com um vestido branco às florinhas . da minha mãe . Receava que lhe acontecessem coisas . estava muito bonita. Vi-a num relance . nem uma vez só . O facto de ela não me responder aumentava essa preocupação . escureci . tínhamos pro­ metido escrever-nos à despedida. passear por Barano. Queimei-me . Era verdade que a minha mãe me levara à praia em pequena. enquanto ela fazia os banhos de areia. Era um receio antigo . Fazia-me grandes pratos . se repetiu muito: a alegria do que é novo . descer e subir a estrada para os Maronti . a perna saudável tapada até ao joelho pelo vestido . Dizia que eu era um palito quando cheguei e agora. Fiquei muito tempo em pé a olhar para aquela massa de água. mergulhar. dos jardins . eu aprendera. Do mar chega­ va-me um odor intenso . Pratiquei um pouco de inglês com a família que estava hospedada em casa de Nella. Portanto . sem saber bem o que fazer. Apercebi-me de que movia instintivamente os pés e os braços de uma certa maneira. menos es­ tragada. A água do mar e o sol depressa me apagaram do rosto a inflamação do acne . Lila que não respondia às minhas cartas . fiz um grande avanço . das ruas do bairro .1 66 Elena Ferrante não encontrei ninguém a subir nem a descer. Nella. sabia nadar. não per­ dia a oportunidade de me fazer elogios . Perceberam que eu queria aprender e falavam cada vez mais comigo com simpatia. dos meus irmãos . deixando que a água me subisse dos pés até aos tornozelos . e que . Enfim. boas ou más . Como era possível viver numa cidade como Nápoles e nunca ter pensado . ao longo da vida. A praia não tinha fim e estava deserta. encorajava-me . Depois sentei-me na toalha.

disse . a mudar as roupas . um bonito rapaz . Não fazia senão pensar nos momentos inten- . Pessoas muito finas . Disse que lhe fora oferecido pelo senhor que chegava no dia seguinte. estendendo-me o livro . Páginas e páginas de apreensão . em que tomaríamos banho . que é um doce. a fazer as camas de lavado . dormi­ ríamos sob o mesmo tecto . fazia este ano dezassete anos. «Vê o que ele me escreveu» . disse-me . no primeiro dia de Agosto . d e Donato Sarratore . olharíamos para a Lua e para as estrelas . por ler todo o dia e também à noite. Assim que os ingleses partiram. pri­ meiro em silêncio e depois em voz alta. Era o segundo ano que vinham. Nella quis que a ajudasse a encerar os quartos . deixando-me dois romances para praticar a leitura. A dedicatória di­ zia: «À Nella. Não te chegam os livros que trouxeste?» Fartou-se de me elogiar à distância. Só no final de Julho é que Nella me disse que para o lugar dos ingle­ ses chegaria. Já os sabia todos de cor. Nella tinha-o sempre na mesa-de-cabeceira. Sobretudo o marido .» 31. encontrei-a com um livro na mão . que fora escrito por ele . para poder visitá-los se resolvesse ir a Inglaterra. até sabes ler em inglês . por ser ajuizada. amá­ veis . muito educadas . e o seu endereço . mas pobre de acontecimentos . dando-me até tempo de lhe escrever todos os dias . por ser disciplinada.A Amiga Genial 1 67 Embora me esforçasse para lhe transmitir nas cartas o privilégio que eram os meus dias em Ischia. E depois o filho mais velho . «Vais deixar de estar sozinha» . todas as noites lia um poema. desejo de fuga. o meu rio de palavras e o seu silêncio pareciam demonstrar que a minha vida era maravilhosa. e às suas compotas. fiquei ansiosa pela chegada desse rapaz . e enquanto lavava os pavimentos ela gritou-me da cozinha: «Que inteligente que és . uma farm1ia napolitana. alto . Escrevi imediatamente a Lila. ale­ gria. magro mas robusto . Quando voltei para a cozinha. antecipação apaixonada do momento em que veria Nino Sarratore . um verdadeiro cavalheiro que lhe dizia sem­ pre belas palavras . que ele não gostasse de mim. em que desceria a estrada para os Maronti com ele . ao passo que a dela era negra mas cheia. e eu envergonhei-me . em voz alta. receei que não conseguíssemos dizer duas palavras um ao outro . Fi-lo com gosto. Era Expressões de Bonança .

1 68 Elena Ferrante

sos em que ele , segurando o irmão pela mão , havia um século - ah ,
quanto tempo passara - , me declarara o seu amor. Éramos duas crian­
ças , então . Agora sentia-me adulta, quase uma velha.
No dia seguinte fui à paragem da camioneta, para ajudar os hóspedes a
trazer as bagagens . Sentia uma grande agitação, não dormira em toda a
noite . A camioneta chegou , parou , e os passageiros saíram. Reconheci
Donato Sarratore , reconheci Lidia, a mulher, reconheci Marisa, apesar de
estar muito mudada, reconheci Clelia sempre à parte, reconheci o peque­
no Pino , que era agora um rapazinho de rosto sério, e calculei que o me­
nino cheio de birras que estava a atormentar a mãe fosse aquele que , a
última vez que eu vira a farm1ia Sarratore completa, ainda ia no carrinho,
sob a chuva de projécteis atirados por Melina. Mas não vi Nino .
Marisa lançou-me os braços ao pescoço , com um entusiasmo que eu
não esperava. Ao longo de todos aqueles anos nunca, mas nunca mais ,
me recordara dela, ao passo que ela disse que pensara muito em mim ,
com saudades . Quando falou nos velhos tempos d o bairro , e disse aos
pais que eu era a filha do Greco , o porteiro , Lidia, a mãe , fez um trejei­
to de desagrado e correu a agarrar o filho pequeno , e a repreendê-lo não
sei porquê , enquanto Donato Sarratore se ocupou das bagagens , sem
uma frase sequer, tipo: como está o teu pai .
Fiquei deprimida. Os Sarratore instalaram-se nos quartos, eu fui à
praia com Marisa, que conhecia muito bem os Maronti e Ischia inteira,
e estava impaciente , queria ir ao Porto , onde havia mais animação , e a
Forio , e a Casamicciola, a toda a parte menos a Barano , que na opinião
dela era uma pasmaceira. Contou-me que estudava para secretária em­
presarial e que tinha um namorado , que eu em breve conheceria porque
ele vinha visitá-la, mas às escondidas . Por fim disse-me uma coisa que
me deu um baque no coração . Sabia tudo a meu respeito , sabia que eu
andava na secundária, que era uma óptima aluna e que namorava com
Gino , o filho do farmacêutico .
«Quem te contou?»
«Ü meu irmão .»
Portanto , Nino reconhecera-me , portanto sabia quem eu era, portanto
não era desatenção , mas talvez timidez , talvez falta de à-vontade , talvez
vergonha por causa da declaração que me fizera em criança.
«Já há tanto tempo que acabei tudo com o Gino» , disse , «O teu irmão
não está bem informado .»
«Só pensa em estudar, aquele , já há muito tempo que me falou em ti;
anda quase sempre com a cabeça nas nuvens.»

A Amiga Genial 1 69

«Ele não vem?»
«Vem quando o pai se for embora.»
Falou-me de Nino de forma muito crítica. Não tinha sentimentos .
Não se entusiasmava com coisa nenhuma, não se irritava mas também
não era simpático . Era metido consigo , a única coisa que o interessava
era o estudo . Nada lhe dava prazer, era de sangue frio . A única pessoa
que mexia um bocado com ele era o pai . Não quer dizer que discutis­
sem, era um filho respeitador e obediente . Mas Marisa sabia bem que
ele não suportava o pai . Ela, por sua vez , adorava-o . Era o homem me­
lhor e mais inteligente do mundo .
«E fica cá muito tempo , o teu pai? Quando se vai embora?» , pergun-
tei-lhe com um interesse talvez excessivo .
«Só três dias . Tem de ir trabalhar.»
«E o Nino chega daqui a três dias?»
«Sim. Inventou que tinha de ajudar a fami1 ia de um amigo a fazer a
mudança.»
«E não é verdade?»
«Ele não tem amigos . E aliás , não deslocaria aquela pedra dali para
aqui , nem pela mãe , a única pessoa a quem quer bem, quanto mais aju­
dar um amigo .»
Tomámos banho e enxugámo-nos passeando à beira da água. A rir,
indicou-me algo em que eu não reparara. Ao fundo do areal escuro
viam-se formas brancas , imóveis . Arrastou-me , a rir, pela areia escal­
dante , e a certo ponto viu-se claramente que eram pessoas . Pessoas vi­
vas cobertas de lama. Era um tratamento que faziam, não se sabia a quê .
Estendemo-nos na areia e rebolámo-nos, empurrando-nos uma à outra,
fingindo que éramos múmias , como aquelas pessoas . Divertimo-nos
muito e depois fomos tomar outro banho .
À noite a fami1ia Sarratore jantou na cozinha, tendo convidado Nella
e eu para lhes fazermos companhia. Foi um serão agradável . Lidia não
fez qualquer referência ao bairro , mas , passada a fase inicial de hostili­
dade , fez perguntas a meu respeito . Quando Marisa lhe disse que eu era
muito estudiosa e andava na mesma escola que Nino , tomou-se mais
amável . Mas o mais simpático de todos foi Donato Sarratore . Cobriu
Nella de elogios, deu-me os parabéns pelos resultados escolares que ti­
ve , dispensou muitas atenções a Lídia, brincou com Ciro , o mais peque­
no , quis ser ele a arrumar tudo , nem me deixou lavar a loiça.
Observei-o com muita atenção e pareceu-me uma pessoa diferente
daquela de que me lembrava. Sim, estava mais magro , deixara crescer

1 70 Elena Ferrante

bigode , mas à parte o aspecto físico havia algo mais que não entendi
bem e que resultava do comportamento . Talvez me tivesse parecido
mais paternal do que o meu pai e de uma cortesia fora do comum.
Essa sensação acentuou-se nos dois dias seguintes . Quando íamos
para a praia, Sarratore não permitia que Lidia nem nós duas , raparigas ,
levássemos nada. Ele é que ia carregado com o guarda-sol , os sacos com
as toalhas e a comida para o almoço , à ida, e a mesma coisa no regresso ,
quando o caminho era todo a subir. Só nos entregava a carga quando
Gianni choramingava e queria que o levassem ao colo . Tinha um corpo
seco , com poucos pêlos . Usava um fato de banho de cor incerta, não de
tecido , parecia de lã fina. Nadava muito mas sem se afastar, queria mos­
trar a mim e a Marisa como era o estilo livre . A filha nadava como ele ,
com as mesmas braçadas cuidadosas , lentas , e eu comecei a imitá-los .
Exprimia-se mais em italiano do que em dialecto e tendia, com uma
certa insistência, principalmente comigo , para compor frases complica­
das e perífrases fora do comum. Convidava-nos animadamente , a mim ,
Lidia e Marisa, para corrermos para c á e para lá com ele , junto à reben­
tação , para tonificar os músculos , e entretanto fazia-nos rir, com caretas ,
vozes desafinadas , passadas cómicas . Quando tomava banho com a
mulher, boiavam abraçados , falavam em voz baixa, riam muito . No dia
em que se foi embora fiquei triste , como Marisa ficou triste , como Lidia
ficou triste e como Nella ficou triste . A casa, apesar de ecoar as nossas
vozes , parecia tão silenciosa como um túmulo . A única consolação foi
que finalmente chegaria Nino .

32 .

Experimentei sugerir a Marisa que o fôssemos esperar ao porto , mas
ela recusou , disse que o irmão não merecia essas atenções . Nino chegou
à noite . Alto , muito magro , camisa azul, calças escuras , sandálias , um
saco ao ombro , não mostrou a mínima emoção por me encontrar em
Ischia, naquela casa, cheguei a pensar que tivessem telefone em Nápo­
les , que Marisa o tivesse de algum modo informado . À mesa expressou­
-se por monossílabos , ao pequeno-almoço não apareceu . Acordou tarde ,
fomos tarde para a praia, pouco ou nada levou . Mergulhou imediata­
mente , com decisão , sem o virtuosismo exibicionista do pai , com natu­
ralidade . Desapareceu , receei que se tivesse afogado , mas nem Marisa
nem Lidia se preocuparam. Reapareceu quase duas horas depois , pôs-se

A Amiga Genial 171

a ler e a fumar cigarro atrás de cigarro . Leu todo o dia, sem nunca nos
dirigir a palavra, e dispondo as beatas apagadas na areia, em filas de
duas . Também eu me pus a ler, recusando o convite de Marisa para
passear ao longo da rebentação . Ao jantar comeu à pressa e saiu . Levan­
tei a mesa e lavei a loiça, pensando nele . Fiz a cama na cozinha e pus­
-me de novo a ler, à espera que ele voltasse . Li até quase à uma e depois
deixei-me dormir com a luz acesa e o livro aberto sobre o peito . De
manhã acordei com a luz apagada e o livro fechado . Pensei que teria
sido ele e senti uma onda de amor nas veias , que nunca sentira.
Passados alguns dias as coisas melhoraram. Reparei que de vez em
quando olhava para mim , e depois desviava os olhos . Perguntei-lhe o
que estava a ler e disse-lhe o que eu estava a ler. Falámos das nossas
leituras , enfastiando Marisa. A princípio pareceu ouvir-me com atenção ,
mas depois , tal como Lila, começou a tomar as rédeas da conversa e
prosseguiu , cada vez mais preso aos seus raciocínios . Como queria que
ele se apercebesse da minha inteligência, tentava interrompê-lo , argu­
mentar, mas era difícil . Só parecia satisfeito com a minha presença se
eu ficasse em silêncio a ouvi-lo , o que depressa me resignei a fazer. Até
porque ele dizia coisas que eu me sentia incapaz de pensar, ou pelo
menos de dizer com a mesma segurança, e dizia-as num italiano forte ,
cativante .
Marisa às vezes atirava-nos bolas de areia, outras vezes começava a
gritar: «Acabem com isso , estou-me lixando para esse Dostoievski ,
estou-me nas tintas para os Irmãos Karamazov.» Então Nino interrompia­
-se bruscamente e afastava-se pela beira da água de cabeça baixa, até se
transformar num pontinho . Eu passava um bocado com Marisa a falar
do seu namorado , que afinal não podia vir vê-la em segredo , o que a
fazia chorar. Entretanto , sentia-me cada vez melhor, nem podia crer que
a minha vida pudesse ser assim. Talvez , pensava, as raparigas da Via dei
Mille - aquela toda vestida de verde , por exemplo - tivessem uma
vida como aquela.
De três em três ou de quatro em quatro dias , Donato Sarratore volta­
va, mas ficava no máximo vinte e quatro horas , e partia . Dizia que não
pensava em mais nada senão no dia 1 3 de Agosto , quando se instalaria
em Barano durante duas semanas seguidas . Assim que o pai aparecia,
Nino tornava-se uma sombra. Comia, desaparecia, reaparecia alta noite
e não pronunciava uma palavra. Ouvia o pai com uma espécie de sorri­
zinho tolerante , e nunca mostrava concordar nem opor-se a qualquer
coisa que ele dissesse . Só dava alguma opinião decisiva e explícita

1 72 Elena Ferrante

quando Donato mencionava o almejado 1 3 de Agosto . Então , passados
dois minutos , recordava à mãe - à mãe , não a Donato - que a seguir
ao feriado de 15 de Agosto tinha de regressar a Nápoles porque combi­
nara encontrar-se com alguns colegas de escola (planeavam reunir-se
numa casa de campo em Avellino) , e também para começar a fazer os
trabalhos de casa das férias . «É mentira» , sussurrava-me Marisa, «não
tem trabalhos de casa nenhuns .» Mas a mãe elogiava-o , e o pai também.
Aliás , Donato começava logo com um dos seus argumentos preferidos:
Nino tinha muita sorte em estudar; ele só pudera frequentar até ao se­
gundo ano da escola industrial , depois teve de ir trabalhar; mas se tives­
se podido fazer os mesmos estudos que o filho , sabe-se lá até onde teria
chegado . E concluía: «Estuda, Ninu , anda, ouve o que o pai diz , e faz o
que eu não consegui fazer.»
Aquele tom incomodava-o mais do que qualquer outra coisa. Por
vezes , só para o evitar, chegava a convidar as duas , eu e Marisa, para
sairmos com ele . Dizia em voz baixa aos pais, como se nós não fizésse­
mos senão atormentá-lo: «Querem ir comer um gelado , querem dar uma
voltinha, eu acompanho-as .»
Nessas ocasiões Marisa ia a correr preparar-se , toda contente , e eu
lamentava-me porque tinha sempre os mesmos trapos para vestir. Mas
parecia-me que pouco lhe importava que eu estivesse bonita ou feia.
Assim que saíamos de casa ele começava a falar, Marisa sentia-se con­
trariada, dizia que melhor seria ter ficado em casa. Eu , pelo contrário ,
estava suspensa das palavras de Nino . Admirava-me muito que , na
agitação do Porto , entre jovens e menos jovens que olhavam intencio­
nalmente para mim e para Marisa, e se riam, e tentavam meter conversa,
ele não mostrasse nem um traço daquela disposição para a violência que
existia em Pasquale , Rino , Antonio e Enzo , quando saíam connosco e
alguém nos deitava um olhar a mais. Como nosso guarda-costas , de
pouco valia. Talvez por estar absorvido pelas coisas que lhe passavam
pela cabeça, pela mania de me falar delas , deixava que à nossa volta
acontecesse de tudo .
Foi assim que Marisa fez amizade com uns rapazes de Forio , que a
vieram visitar a Barano , e ela levou-os connosco para a praia dos Ma­
ronti , e por isso passámos a sair todas as noites . Íamos os três até ao
Porto , mas , uma vez lá chegados , ela ia-se embora com os novos amigos
(quando é que Pasquale seria tão liberal com Carmela, ou Antonio com
Ada?) , e nós passeávamos ao longo do mar. Depois encontrávamo-nos
por volta das dez e voltávamos para casa.

Ficava ansiosa quando o perdia de vista. De qualquer maneira. Dediquei a minha atenção a Nino . sussurrei estupidamente: «Obrigada. desta vez sofri de forma evidente . e se antes ficara decep- cionada por ele ter dito que a declaração de amor fora só uma tentativa para se introduzir na minha relação com Lila. Sabia que ele acordava tarde e inventava todo o género de desculpas para não tomar o pequeno­ -almoço com os outros . Mas quando ele se afastava para o largo não me sentia capaz de o acompa­ nhar. tornou-se difícil contar a Lila o que me estava a acontecer.» E senti o impulso de acrescentar: «Ouviste o que os professores di­ zem de mim. tu e a tua amiga. tomávamos banho juntos .» Disse mesmo assim (toldava-me a cabeça) . sempre a conversar. e gostaria de ter feito amizade connosco . Depois sorriu e disse: «Lembras-te da declaração que eu te fiz?» «Sim. ninguém conseguia apanhá-la. ela não me respondia. na escola?» Felizmente consegui conter-me . toldava-me a cabeça. Via-nos de longe . preparava-lhe as coisas e levava-lhas .» «Pensava eu que seríamos noivos e ficaríamos os três juntos para sempre .» «E faz o quê?» «Ajuda os pais. Esperava por ele .» «Era óptima. e deixei de lhe escrever. de­ pois daquela conversa. Resumindo . . amava-o e sabia que o amava e sentia-me contente por amá-lo . Voltava para a zona de rebentação e observava com apreensão o rasto que ele deixava. «Continuou a estudar?» «Não . e feliz quando o via regressar. sempre juntas . senti realmente uma dor no peito . Nino disse-me sem mais nem me­ nos que invejara desde miúdo a relação que havia entre mim e Lila. «Ela mudou» . eu .» Fiquei toda afogueada.A Amiga Genial 173 Uma noite .» «Juntos?» Riu-se de como era em criança. o pontinho escuro da cabeça. disse .» Depois perguntou-me por Lila. mas faltara-lhe sempre a coragem. «já não é assim . ia com ele para a praia. «Não percebia nada de noivados . quando ficámos sós . Porém .» «Gostava imenso de ti .

Mas a violência daquelas poucas frases cons­ truídas com cuidado fez-me mal . Uma noite disse-lhe que não queria ir ao Porto . mas caçou-a na mesma. desci a estrada pedregosa que ia para a praia. No bairro podiam acontecer coisas terrí­ veis . pais e filhos chegavam muitas vezes a vias de facto . Esperava que ele viesse comigo . «Como está a Melina ?» Olhei-o estupefacta. Não se via vivalma e pus-me a chorar de solidão . Mas trai-a constantemente . já não tinha furúnculos. o sol e o mar tinham-me tornado mais esbelta. Que signos eram os meus. Trata os filhos com dedicação .1 74 Elena Ferrante Mas entretanto o feriado de Agosto ia-se aproximando . Como está convencido de que faz toda a gente feliz . renunciando a acompanhar a irmã. julga que tudo lhe é perdoado . mete-me nojo. «Dedicarei a minha vida» . a pessoa de quem eu gostava e que queria que gostasse de mim não mostrava interesse ne­ nhum pela minha pessoa. Notei que estava nervoso . batia na areia com o calcanhar esquerdo . negro-acinzentada à luz do luar. Eu tivera o cuidado de nunca falar em Melina. Desfaz-se em atenções com a minha mãe . Tinha de ir buscar a irmã dali a uma hora. Sentou-se a meu lado . Depois senti a areia ranger e vi a sombra de Nino . traindo o outro namorado de Nápoles .» «É um homem simpático . naqueles dias de conversas cerradas . Nino odiava o pai com todas as suas forças . como se se tratasse de uma missão . que durante uns segundos o desfeou . É um hipócrita. a Lua estava cheia. eis porque falava tanto dos Karamazov. por uma questão de princípio . disse . A areia estava fria. e agora ele perguntava por ela. Sabia muito bem que ela era uma mulher frágil . onde tinha agora uma espécie de namorado com o qual . de repente come­ çou a falar do pai .» «Toda a gente diz isso . «a tentar não me parecer com ele .» «Ele foi amante dela. «Mais ou menos. Mas a questão não era . e sem se sentir responsável . por exemplo . Vai à missa todos os domingos. Eu .» Não soube o que dizer-lhe . contava-me ela. Faria mal a qualquer pessoa por vaidade . trocava beijos e abra­ ços . Não falou de livros . O que era eu . quem era? Sentia-me de novo bonita. como Rino e Fernando . preferia ir passear até aos Maronti . que insistia em ir ao Porto . que destino? Pensei no bairro como uma voragem da qual era uma ilusão tentar sair. o mar mal se mexia.» «E então?» Fez uma careta sarcástica. Mas ele foi com Marisa. por pura vaidade . no entanto .

A minha paixão desesperada comovia-me . Ele inclinou-se e beijou-me os lábios. exclamou em tom brusco . ela notou que eu estava a sofrer. a minha mãe dizia com raiva que sabia-se lá o que ele por aí pintava. até do meu pai . E pensa em Ascânio . «Eu compreendo-te» . Regressámos a Barano falando de livros . o pai devia estar de luto . Sentia a boca dele na minha.A Amiga Genial 1 75 essa. lar- guei-o logo . Já se fora embora. e afas­ tou-se em passos largos . com o coração aos saltos. «Não tem respeito por ela nem por Deus. e de facto Marisa adorava-o . O que me perturbou profundamente foi que Donato Sarratore .» E deu um salto . suavemente . Chorei toda a noite. com os lindos olhos a luzir. disse .» «Jurou fidelidade perante Deus» . Nella veio acordar-me e repreendeu-me . À noite . por aquilo que vira com os meus olhos e ouvira com os meus ouvidos .» Não respondeu . São coisas que nos caem mal .» Corri até ao Porto . Além disso . . Por isso . mas ele já ia ao largo . aquelas frases implacáveis . disse que Nino quisera tomar o pequeno-almoço no terraço . Nunca nos tínhamos tocado . na cozinha. se o seu peca­ do era a capacidade de amar. Murmurei: «Ele e Melina foram levados pela paixão . Quando arrumei os quartos encontrei um marca­ dor de livros de cartolina azul que pertencia a Nino e escondi-o entre as minhas coisas . Passei dias difíceis. na cozinha silenciosa. e o meu pranto alimentava-se a si próprio . um beijo muito leve . Alcancei-o . o contacto queimou-me os dedos . lambia-o com a ponta da língua e chorava. aquele tom acu­ sador. era o pai que qualquer rapariga ou rapaz gostaria de ter. a mãe morrera havia pouco . Vesti-me à pressa. «Mas o dia 1 3 é depois de amanhã. eu não via nisso nada de particularmente mau. Pensei que nem da minha mãe eu falaria assim. «Nem sequer tu me compreendes» . permitiu­ -me finalmente . muito agitado . mas são também muito comoventes . murmurei e dei-lhe o braço . Adormeci ao alvorecer. «Vai lá» . beijava-o . disse . não tinha nada de tão repelente . «talvez ainda vás a tempo . para não me incomodar. cheirava-o . na es­ perança de chegar antes de o barco partir. «Vou-me embora amanhã» . já na cama. depois fo­ mos buscar Marisa ao Porto . pareceram-me terríveis . como Dido e Eneias . 33 .

receiam aquilo que se passa em volta deles. depois de um beijo quase impercep­ tível . os traços do rosto são vincados . mas ficou conten­ te por ele ir encontrar-se com os colegas em Avellino para estudar. Nino é alto . tem grandes entradas no cabelo e a boca apertada. nunca estão contentes . disse-me . Quis conhecer os novos amigos de Marisa. mas também . como calculo que o teu pai tenha orgulho em ti . e tocava bem. Quando a noite já ia alta pôs-se também a tocar. mas agora pa­ recem-me muito semelhantes: não precisam de nada nem de ninguém. o que tem de tão ter­ rível Donato Sarratore? Eu não percebia. que vêem para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. como se cada segundo vivido fosse de uma limpidez total . proporcionava­ -nos alegria e tranquilidade naquela noite nos Maronti . o que é um dom e um sofrimento . tinha uma bonita voz . Nino tem qualquer coisa a roê-lo por dentro . parece apreciar todas as manifestações da vida. que adora o aspecto das coisas e das pessoas e está sem­ pre a sorrir-lhes . Donato . convidou-os uma noite para faze­ rem uma grande fogueira na praia. «É um rapaz realmente sério» . Ela e Nino mal se conhecem. este homem. improvisou algumas músicas de dança.para a escuri­ dão em que Lila me mergulhara. não se entregam. A partir daquela noite o pai de Nino pareceu-me um remédio sólido . tem um rosto · delicado .» A presença daquele homem transmitia segurança e acalmou-me . não apenas contra o escuro para onde me atirara o filho ao ir-se embora. é de estatura média. nunca se relacionaram. quase sem lábios .apercebi-me disso com espanto . Ele próprio se encarregou de juntar toda a lenha que conseguiu encontrar. Tenho orgulho nele . Nino olha tudo com olhos pensativos . por não responder às minhas cartas . . Marisa foi a primeira. a fronte enterrada sob os cabelos negros . por sua vez. e agora sentia falta deles de maneiras diferentes . E se estiverem enga­ nados? O que tem de tão terrível Marcello Solara. Lamentou que o filho já se tivesse ido embora. De repente senti- -me contente por nenhum dos dois estar presente na ilha. Donato tem um olhar receptivo . «como tu . pensei . Olhava para aquele homem e pensava: ele e o filho não têm absoluta­ mente nada em comum. a boca sempre entreaberta. Gostava de ambos . como Lila. e ficou lá connosco até tarde . e sabem sempre o que está certo e o que está errado . não .1 76 Elena Ferrante Depois chegou Donato Sarratore e começaram os seus quinze dias de férias . mas estava grata àquele pai odiado que dava importância a mim e aos outros jovens . com lábios convidativos. Alguns começaram a dançar. O rapaz com quem Marisa namoriscava arranhava a guitarra e Donato cantou .

o Roma . e estragar a enorme esti­ ma que tinha por mim. senti-me irmã de Marisa. palavras e frases que teriam enfurecido Pasquale e certamente tam­ bém a professora Galiani . Uma vez leu-me um artigo inteiro . Não trouxera nenhum e nunca se interessara pelos meus. muito» . «Vê quem o escreveu. abraça- . ler e estudar. Quando acabou . do princípio ao fim . não me parecia bem pôr-me a discutir com uma pessoa tão amável .» Lídia desatou a rir. e a cada duas linhas voltava-se para Lidia a sorrir. arrumar os quartos. o que lês aqui?» Chegou-se para mim e pôs-me o jornal diante dos olhos . que gostava muito de mim e que só comigo não fazia birras .acharam que me ficava muito bem . e pediu a minha concordância com o olhar. Donato estendia-se a meu lado a secar ao sol e a ler o jornal .» Mas . acrescentou uma vez . não voltaria a escrever-lhe . Eu achava estranho que uma pessoa que escrevia poemas .A Amiga Genial 1 77 Recomecei a ler. lavar a loiça. «Sim. Li . de Pinuc­ cio e do pequeno Ciro . «É uma jóia de rapaz» . Donato reagiu e começou a gabar o filho mais velho . em contras­ te com a da viagem de outros tempos . nunca abrisse um livro. de caleche ou a pé . Deixaram-me na areia a tomar conta de Ciro . e ele também . a única coisa que lia. escrevi uma última carta a Lila em que lhe dizia que . Em certos momentos até parecia apreciar-me mais do que à filha. vaidosa. Depois dos seus demorados banhos . e Lidia res­ pondia-lhe com um sorriso cúmplice . não estuda. disse . ofereceu-mo . que até os publicara. e como Nella e Sarratore . respondi . Por vezes lia-me em voz alta uma passagem de algum arti­ go . «SÓ que tu és bem-disposta e ele está sempre nervoso . eduquei-a mal . Dizia: «É man­ driona. brincava calmamente . elogiava muito a precisão com que eu fazia tudo: pôr a mesa. Liguei-me mais à farm1ia Sarratore .chamado de urgência para dar uma opinião . Li­ dia. uma vez que nunca me tinha respondido . Mas eu ficava calada. e eu fiz sinal que sim com grande convicção . Estava escrito com frases pomposas que ele lia com ênfase . por caminhos campestres . enquanto eles tomavam banho da forma habitual .» «Tal e qual como o Nino» . ao ouvir aque­ las críticas . cuja hostilidade inicial para comigo se transformara em simpatia e afecto . emocio­ nada: «Donato Sarratore . Uma manhã fez-me experimentar um vestido de praia que lhe ficava aperta­ do . íamos os dois apanhar conchas . perguntou-me: «Gostaste?» Era um artigo sobre a velocidade da viagem de comboio . entreter o menino . ao passo que tu fazes tudo com muito juízo .

mais ainda do que no passado . e quando pronun­ ciei essas palavras veio-me à lembrança que Lila os fizera no dia 1 1 . Quanto a Melina. que Sarratore traía Lidia. embora naquela altura o tivesse forçado a abandonar o bairro . agora que o conhecia tão bem não conseguia considerá­ -lo culpado . reflectir em solidão . que eu devorei . Desde as primeiras linhas . e à mesa disse: «Hoje faço quinze anos» . E não só . quando aquele período extraordinário estava prestes a terminar. Era uma carta de Lila? De Nino? Era de Lila. com o coração aos saltos. chegou o carteiro . Excluía a hipótese de os meus pais me terem escrito . com a minha capacidade de ler. lembro-me perfeitamente porque era o dia do meu aniversário. pensar. Olhei para eles e pensei . os Sarrato­ re e Nella insistiram que se fizesse uma pequena festa ao serão . e nisto . Comprazia-me com estes pensamentos . Fiquei contente . pobre Melina. preparei o pequeno-almoço para todos. e jornalista. mas não percebi quase nada do que li . Rasguei o sobrescrito . Assomei-me à janela e o carteiro disse que havia uma carta endere­ çada a Greco . Ainda antes de ficar transtornada pelo conteúdo . vamos lá. eu comecei a arru­ mar a cozinha. Depois . mas passou-se mesmo assim. em finais de Agosto . com o meu amor por Nino . Eles foram preparar-se para ir para a praia. tanto mais que a própria mulher não parecia considerá-lo culpado .os aniversários nesse tempo eram considerados irrelevantes . Embora segundo os nossos costumes se festejasse sobretudo o santo do nosso nome . impressionou-me o facto de a escrita conter a voz de Lila. mesmo admitindo . Estava contente com tudo . também a compreendia. Conhecera a alegria do amor por aquele homem acima do vulgar: era revisor nos comboios . veio-me à . na­ queles dias .178 Elena Ferrante dos um ao outro e falando-se ao ouvido . de cho­ fre . Levantei-me . com o afecto de que me sentia rodeada. no mesmo dia. aconteceram duas coisas importantes . com a minha tristeza. não me recordara. Ho­ je pode parecer estranho . Mesmo admitindo que Nino tivesse razão e que de facto tivesse havido alguma coisa entre eles. Fui lá abaixo a correr. mas também era poeta. Lá dentro vinham cinco folhas bem cheias . A mente frágil de Melina nunca mais conseguira adaptar-se à normalidade grosseira da sua vida sem ele . rodeada de tantas emoções . Estávamos a 25 . mas sem guardar rancor a Sarratore . mas . 34 ..

ela exprimia-se através de fra­ ses tão bem construídas . Ela não tocava em nada. e ele olhava para ela em silên­ cio . tinha feito passar gato por lebre . Da caixa saiu um objecto de que todos tínhamos conhecimento . na carta de Lila. no dia do meu aniversário . Apresentara-se de manhã na companhia de um tipo corpulento . e ao mesmo tempo via-a e ouvia-a. Senti desprezo e rancor pelo professor Gerace . com o consentimento de Fernando . Mas agora sentira necessidade de quebrar o silêncio . que depositou na sala de jantar uma caixa de cartão enorme . das frivolidades . Eu lia. e não queria estragar-me as férias com as suas histórias desagradáveis . foram chegando também os conteúdos . apesar de ela não ter estudado mais. ao contrário até de muitos escritores que eu lera e ainda lia. uma vez que Lila fazia de conta que ele não estava lá. não lhe dava confiança nenhuma. Depois . começara a apresentar-se para jantar todas as noites . café . possuía a viva ordem que eu imagi­ nava que o discurso apresentaria. A qualidade que existia em A Fada Azul era a mesma que me estava a impressionar agora. por amar Nino . sem contar com os trabalhinhos da escola primária. Logo depois da minha partida.A Amiga Genial 1 79 lembrança A Fada Azul. uma impostora. bombons . o único texto dela que eu lera antes daquele. Ainda não me escrevera porque sentia-se contente por eu passar o tempo ao sol . da confusão do discurso oral. comigo .não deixava qualquer sinal de falta de natu­ ralidade . Sabe-se lá o que Lila pensara de mim. dos tons excessivos . no en­ tanto estava perfeitamente depurada das escórias da linguagem colo­ quial . da dor falsa. A esco­ la. que me iludira ao dar-me nove em Italiano . Passada a primeira semana daquele suplício . decidira surpreendê-la. ao contrário de mim quando escrevia. se tivesse tido a felicidade de nascer da cabeça de Zeus e não dos Greco ou dos Cerullo . ao contrário de Sarratore nos seus artigos e nos poemas . aos quinze anos. todo suado . Lila sabia falar através da escrita. e sem um erro . mas que no bairro muito poucos . Lila mandava-me os parabéns pelo meu aniversário . Marcello Solara. Aquela carta teve como primeiro efeito fazer-me sen­ tir.além disso . e a prova estava ali . por gostar tanto de Ischia e da praia dos Maronti . mas . Trazia sempre qualquer coisa: bolos. por me dar bem com os Sarratore . da alegria fingida. e compreendi o que é que naquela época distante me agradara tanto . pouco a pouco . açúcar. A sua voz era como um fluxo que me arrebatava e me fascinava como quando conversávamos uma com a outra. não se sentia o artifício da palavra escrita. Che­ gava às oito e meia e ia-se embora às dez e meia em ponto . Envergonhei-me das páginas infantis que lhe escrevera.

ele começava a dizer mal da televisão . Aliás . dizia de modo obscuro: o mal e o bem estão misturados e fortalecem-se mutuamente . e que no interior tinha um tubo misterioso que se chamava cátodo . Marcello tinha-se ido embora. Quando este aparecia. e ainda as raivas de Marcello . apesar de ela não o ter aceitado . se eu sei que gostas de outro . mas deixara de falar com Marcello . iam a casa dos Cerullo ver aquele milagre . Era o único momento de paz. Marcello . no qual se viam imagens . então . ele uma noite dissera-lhe ao ouvido . ao passo que ela se preparava para um casamento que faria dela uma senhora. falando de beijos e abraços de namorados inexistentes . Rino andava por fora e os pais estavam-se a deitar. Ela encontra­ va-se sozinha na cozinha. e agora meio bairro . quem encontrava. e pouco depois . e continuava a trazer a arma consigo para qualquer emergência. ou . lembra-te bem disto . um aparelho com um écran . se sentia cada vez mais noivo. que . dizia que adorava a televisão . a lavar a loiça. não me limito a ameaçar-te . isto é . ou melhor. seu dono . e tendia a passar da devoção silenciosa a tentativas de a beijar. Após várias tentativas . ficara em condições . incluindo a minha mãe . não . por tê-lo abandonado ao seu destino de escravo do pai . para dizer a verdade . Estava melhor. era realmente um bom arranjinho . uma amálgama que lhe tirava o ar. a febre passara-lhe por completo .1 80 Elena Ferrante tinham em casa: um televisor. Quanto ao resto . mas lembras-te de quando me ameaçaste com o trinchete? Pois bem. a televisão estava apagada. ou ia para a cama sem jantar. pior ainda. se algum lhe tocara nem que fosse só com um dedo . mas que não vi­ nham de um projector e sim pelo ar. exactamente como no cinema. muito concentrada. mato-te e pronto . Por causa desse tubo . a perguntas desconfiadas sobre os lugares onde ela ia durante o dia. Lila. o aparelho não funcio­ nara durante dias . Gostava sobretudo de vê-la com Melina. Como ela não lhe respondia. o arreliava. Nas últimas páginas dizia que sentia à sua volta todo o mal do bairro .» De modo que ela não sabia como sair daquela situação . se tivera outros namorados . mencionado constantemente pelo homem corpulento e suado . sem forças . tratava-o com sete pedras na mão. o meu pai e os meus irmãos . que comparecia todas as noites e se sentava em silêncio . e sentia-se cansada. Rino . mas o bom sa­ bia a mau e o mau sabia a bom. todas as raivas se descarregavam em cima dela: as raivas do irmão . a sério: «Tu gozas comigo . Mas andava aterrorizada. a casa vazia. porque não era simpática para Solara. ou então andava a vadiar até alta noite com Pasquale e Antonio . Al­ gumas noites antes acontecera-lhe uma coisa que lhe metera realmente medo . as raivas de Fernando e de Nunzia.

voltei a escrevê-la. mais do que seja quem for. da dela. uma coisa após outra. não me saíram bem. 35 . e escrevi-a de novo mais uma vez . Lila virou-se de chofre e viu que a panela grande de cobre tinha explodido . do sol . Tudo aquilo que eu lhe dissera por carta em Julho e Agosto pareceu-me banal . com os bordos levantados e retorcidos . Feliz- . repetia os parabéns . que na realidade era um homem notável . sem nunca as corrigir . e culpara-a de a ter deixado cair e de a ter destruído .A Amiga Genial 181 mesmo . embora precisasse urgentemente da minha ajuda. tentei responder-lhe imediatamente com uma carta sé­ ria. esperava que eu pudesse ficar em Ischia com a simpá­ tica dona Nella e nunca mais voltar para o bairro . apesar de me ter privado do mar. Felizmente que Nella. «É este tipo de coisas» . porque ela tinha televisão em casa e eu não . Não fui à praia. senti um frenesim de me redimir. em­ bora não visse a hora de eu regressar. com Marisa. A descrição da relação com a fanu1ia Sarratore pareceu-me desprovida de interesse: Donato . Mas o ódio de Nino pelo pai . senão . claro e ao mesmo tempo coloquial . «que me assusta.. com Pino . em camisa de noite . e o peso que o caso com Melina tivera para que aquele horrível sentimento nascesse . aquela escrevi-a. não consegui responder-lhe . A mãe aparecera a correr.enchia páginas e páginas em poucos minutos. como era costume . parte-se tudo . do prazer de estar com Ciro . E no respeitante a Marcello só consegui dar-lhe conselhos superficiais. a certa altura. concluía Lila. O mundo de Lila. Mais do que o Marcello . mas ao centro tinha um grande rasgão . Mas uma panela de cobre . quando de repente s e ouviu u m estoiro . A única coisa que parecia de facto verdadeira era a minha decepção . tudo . como se já não pudesse conservar o seu as­ pecto de panela. embora desejasse o contrário . E sinto que tenho de encontrar uma solução . mesmo que caia. com Clelia. que tivesse o tom essencial . Sem mais nem menos. e. com Sarratore . Mas se as outras cartas me tinham saído com facilidade . na carta parecia um pai de fanu1ia banal . e a própria pane­ la estava toda deformada. com Lidia. não se parte e não se deforma daquela maneira. veio fazer-me companhia no terraço e trouxe-me uma orchata. vindo do lado dos ta­ chos de cobre . A carta perturbou-me muito . Estava pendura­ da no prego onde normalmente se encontrava. Resumindo . sozinha. depressa se sobrepôs ao meu .» Despedia-se . tudo .

e ouvir Sarratore exclamar. o tecto exercia um peso opres- . no máximo» . desolado: «E como vamos nós passar sem ti?» . Marisa ajudou-me a lavar a loiça. Nelas . Donato começou a cantar canções napolitanas . Nelas centrara agora aquela sen­ sação de ameaça. Nella disse-me que . quando as lavava areava-as com muito cuidado . na noite anterior. Sabia eu imaginar aque­ las coisas sem ela? Seria capaz de dar uma vida a cada objecto . fazendo explodir uma delas como se fosse um sinal . Lidia quis fazer um bolo coberto de creme pasteleiro . mas com pouca convicção . As pa­ nelas brilhavam. de modo um pouco dramático . ela levantava-se para preparar o pequeno almoço . se havia melgas . disse-o só para ouvir Nella dizer que tinha muita pena. de repente . enquanto eu estava tão bem e era tão felicitada. e por isso pensava ir-me embora antes do previsto . quando voltaram da praia. como se a sua forma. se eu quisesse descansar mais um pouco . Disse . olhei para as panelas com cres­ cente inquietação . O meu olhar en­ controu as panelas de cobre . mas não conseguia esquecer Lila. Tu­ do coisas que me comoveram e tomaram a minha festa de anos ainda mais feliz . Um a um. e Lidia dizer que Ciro ia sofrer com isso . Protestei . Fiz a minha caminha no canto habitual e analisei a situação . Na verdade . não por acaso . deixar que eles se contorcessem em uníssono com a minha vida? Apaguei a luz . Lembrei-me do gosto que ela tinha em vê-las brilhar. «Depois de amanhã. situara o esguicho de sangue que espirrou do pescoço de dom Achille há cinco anos . todos se retiraram. para ver se havia baratas . tentei reler à luz ténue a carta da minha amiga. Nella abriu uma garrafa de vermute. que essa amiga precisava de mim. anunciei . as coisas mais preciosas que tinha naque­ le momento . Depois Pino e Ciro começaram a dormitar. e ver Marisa contrariada. Beijei o marcador como fazia todas as noites . tivesse resolvido ceder. a angústia causada pela decisão difícil que tinha de tomar. Pela janela chovia a luz branca da Lua. a mesa dava estalidos . Acalmei-me . A escrita de q1a era muito sugestiva. metida em sarilhos . isso era tarefa minha. quando foi apunhalado . Despi-me e meti-me na cama com a carta de Lila e o marcador de livros em tom pastel de Nino .1 82 Elena Ferrante mente que . e fiquei só . os Sarratore se queixaram de eu ter ficado em casa e recomeçaram a festejar o meu aniversário . e Lidia e Donato foram deitá-los . Marisa ofereceu-me um cavalo-marinho de estopa que comprara para si no Porto . que recebera uma carta de uma amiga.

saí do torpor. com pai­ xão . desfiz a cama. estava aterrorizada por aquele comportamento . Eu não disse nada. largou-me a boca.» «Não penses na tua amiga. sim. pousou o copo . mas essa felicidade tomava-me culposamente infeliz . por ela ser tão competente mesmo sem escola. dos lados vinha a pressão do ar nocturno e do mar. escrevi duas linhas de agradecimen­ to a Nella e fui-me embora. Senti-me de novo humilhada pela capacidade de escrever de Lila. Sentia-me fe­ liz. Depois largou-o . O bigode picava-me o lábio superior. à primeira claridade . precisa de mim. um pouco rouco .» «Ela tem problemas . Vi a sombra de Sarratore entrar na cozinha. Depois . Ele foi à torneira. fica. da pressão da sua mão . des­ calço . Nino tentara avisar-me . disse . disse . Não é verdade?» Eu não disse nada. tanto quan­ to me lembrava. senti-lo em mim surpreendeu-me . enevoaram-se-me os olhos . «Sei que estás acordada» . não o conhecia. não sei durante quanto tempo . Devagar. pela aversão que me causava. a língua era áspera. com o seu pijama azul . pelo prazer que todavia sentia.A Amiga Genial 1 83 sivo . Fiquei naquela posição não sei quantas horas . senti passos . Por mais que tentasse afastar a sen­ sação da sua língua. debruçando-se . procurou-me o peito com a mão e acariciou-mo sob a camisa. não fiz nada. beijou-me na boca sem a suavidade do filho . forçando-me os lábios com a língua. pelo prazer que me ficara no corpo . Ele afastou o lençol continuando a beijar-me com cuidado . sem os livros da biblioteca. «quero-te muito e sei que tu também me queres . dirigiu-se para a minha cama. e. com os cotovelos apoiados na dobra do lençol . Ficou uns segundos parado em frente do lava-loiça. até àquela noite nunca dera prazer a mim própria. Nisto . levantou-se e saiu da cozinha. Acocorou­ -se ao meu lado . Fiquei imóvel . desceu a mão por entre as minhas pernas .» «Eu é que preciso de ti» . guar­ dei as minhas coisas . «Amanhã à noite vamos dar um belo passeio pela praia. Cobri-me com o lençol . não con­ seguia. afastou a mão . disse . encheu um copo de água. sabia que iria acontecer? Senti um ódio irreprimível por Donato Sarratore e asco por mim. das suas carícias . bebeu. Eu continuei imó­ vel . murmurou boa noite . Por muito estranho que hoje possa parecer. pressionou dois dedos com força sobre as cuecas . Ele roçou-me de novo os lábios com os lábios . por aquilo a que ela sabia dar forma e eu não . eu e tu» . . «Sim.

é esta a primeira vez que procuro as palavras para aquele fim inesperado das minhas férias .» Olhei-me ao espelho e até eu me admirei : o sol dera-me um loiro esplendoroso . mas em pouco mais de um mês transformara­ -se . os braços . deram-me a impressão de uma fotografia mal impressa. onde todos os rostos e todas as ruas continuavam de uma palidez doentia. idade que então me parecia avançada. a minha transformação parecia-me própria do ambien­ te. as pernas . mas sim uma mulher. Já não parecia uma rapariga. quase uma anomalia. sempre entre caras queimadas . Era a mesma. pensei que finalmente tinha alguma coisa para contar. Mas soube imediatamente que a repugnância que sentia por Sar­ ratore e o asco que tinha por mim me impediriam de abrir a boca. Assim que pude.repreendeu-me por ter voltado antes do previsto . fui procurar Lila. a que Lila não poderia contrapor nada de tão memo­ rável . que com os olhos a luzir me cobriu de elogios . uma mulher de . a rua larga. As pessoas . repetido centenas de vezes: «Senhores . beijou-me . sem dizer uma palavra sobre o meu aspecto .sem acne . pareciam pintados de ouro escuro . pareceu-me excessiva. perguntou . ficou para trás . dezoito anos . Enquanto estava rodeada das cores de Ischia. «portaste-te mal e a amiga da professo­ ra pôs-te na rua?» Correu de modo diferente com o meu pai .1 84 Elena Ferrante A ilha estava quase silenciosa. 36. «0 que fizeste?» . mas o rosto . como as dos jornais. agora. Quando ele se pôs em movimento . uma vez reintegrada no contexto do bairro . Abraçou-me . só os odores eram in­ tensos . assomou-se à janela. saiu do prédio a correr. cheia de trânsito e de poeira. Os velhos . entre os quais se destacou . disseram com um certo desprezo: «Pareces uma negra. Com o dinheiro à conta que a minha mãe me entregara havia mais de um mês . apanhei o primeiro barco a sair da ilha. o mar parado . pelo menos . os prédios . A mi­ nha mãe . e a ilha. encheu-me de elogios como nunca fizera. Encontrei Nápoles imersa numa canícula podre e malcheirosa. Na verdade . até fiquei atrapalhada com todo aquele afecto tão explícito. que linda filha que eu tenho ! » Quanto aos meus ir­ mãos. preta do sol . Chamei-a do pátio. com as suas cores ténues das primeiras horas da manhã.

aterrorizada. à sapataria. queria certificar-se de que não havia fugas de gás . Percebi que estava nervosa. Ainda n a noite ante­ rior Marcello chegara com doces e espumante e oferecera-lhe um anel cravejado de diamantes . podia encarar o futuro sem cuidados. dando-me o braço: «É uma coisa que só posso fazer contigo . à porta. para evitar problemas na presença dos pais . e cingiam-lhe o corpo mais do que o tolerável . gritando que se a irmã não queria um trambolho como Marcello . ele . E acrescentou . ao contrário de quando estava acordado . pois . Fernando e Nunzia aperceberam-se imediatamente de que algo não corria bem. deitaria fogo a tudo . como se tivesse crescido dentro deles em poucos minutos . e uma hora depois teve outro dos seus episódios de sonambulismo . graças ao parentesco com os Solara. se eles insistissem em dar-lho . com o passo tão certo . como se quisesse ver se havia fugas . devolvera-lho com maus modos. gostava das coisas boas que ele lhe levava para casa todas a noites . De modo que . à casa. e que . E não só . sinuosa. ainda bem que regressaste. para saberem o que se estava a passar. com as costas direitas . estava no seu santo direito de o recusar. Rino defen­ dera-a. e a dormir. Fo­ ram encontrá-lo na cozinha. como fazia cada vez mais . Marcello protestou . Lila tranquilizou a mãe . na rua olhou em volta e olhou para trás várias vezes . mas pouco antes de ele se ir embora. adormeceu imediatamente . ele pessoalmente . Nunzia meteu-se no meio . Ela aceitara-o e pusera-o no dedo . ator­ mentaram-na mais do que o habitual . e tinha orgulho em ser proprietária de um tele­ visor.» Depois de ir ver o que se passava. Estava mais alta ainda. pensava que tinha de esperar até Setembro . e toda a vizinhança acordou . e depois desatou a chorar. A mãe de Lila afeiçoara-se a Marcello . mas não me deu explicações . Pai e filho chegaram a vias de facto . a acender fósforo atrás de fósforo e a passá­ -los perto da torneira do gás . e quis que a acompanhasse à charcutaria de Stefano . Resultado: pela primeira vez desde há muito tempo . Nunzia. tão felizes por nos reencontrarmos . Rino atirou-se para cima da cama muito agitado .» Nunca havíamos feito aquele percurso até aos jardins tão chegadas uma à outra. e Fernando sentia-se como se as suas atribulações tivessem termi­ nado . . Disse apenas: «Vem comi­ go» . Disse-me que a s coisas pioravam de dia para dia. a si próprio e à família inteira.A Amiga Genial 1 85 vestidos ficavam-lhe curtos e apertados . Ela levara-o para o quarto e deitara-o . fora do normal . E o rosto pálido sobre o pescoço fino pareceu-me de uma beleza delicada. explicando-lhe que Rino estava a dormir. assim que Marcelo se foi embora. acordou Lila e disse-lhe: «Ü Rino quer realmente queimar-nos vivos . ameaçou-a.

«Tu estás bem» . mas não te vi.» Ele também estava bem.» Fiz sinal para o carro . «É o carro novo que o Stefano comprou . que estava muito séria.» «Onde?» «Em Ischia. tinha agora duas entradas e estava à cunha. lançavam olhares admirados àquele símbolo de bem-estar e de prestígio . pareces uma actriz. mas ela não quer crer.» Olhei para Lila. disse-me . «0 que é?» «Então não vês?» Não estava a ver bem. a cabeça grande e a testa alta . à es­ pera de serem atendidas . concluiu . com uma expressão tensa. No bairro nunca se vira uma viatura daque­ le género . cumprimentou-me cordialmente e disse: «Estás com muito bom aspecto . à sombra.» Respondi-lhe que podia contar comigo para tudo e ela pareceu alivia- da. Andara ao sol como eu . Stefano apareceu à porta da loj a . mas não desagradável . Ste- . apertou-me o braço e sussurrou: «Olha.1 86 Elena Ferrante «Não aguento mais» . Um carro de gente rica. não tinha nada a ver com o II 00 dos Solara. Procurei-te . com a bata suja d e gordura. que fora ampliada.» O rosto de Stefano mostrou uma expressão moderada de concordân­ cia. se calhar éramos os únicos em todo o bairro com um aspecto tão saudável . Dei umas voltas em torno do carro . te­ nho de sair desta situação .» «Passei uma semana de férias .» Vi ao longe uma espécie de mancha vermelha que irradiava luz . com o tejadilho descapotável . «tu não imaginas o que eu passo . «É bonito . Disse-lhe: «Como tu estás preto . como se eu pudesse carregá-la de energia.» «Eu também estive em Ischia. com olhos divertidos : «Comprei-o para a tua amiga.» Agarrou-se a mim. a Lina disse-me . enquanto Lila se conservava à sombra vigiando a rua.» «Bem sei . Fazendo um gesto para Lila. As clientes. «tudo te está a correr bem. toda de vidro e metal .» O automóvel estava estacionado em frente da charcutaria. Atravessou a rua . que davam a ideia de desproporção . Tens de me ajudar. disse . como se esperasse uma manifestação de vio­ lência de um momento para o outro .

Tinha aquele ar de quando precisava de fazer uma conta de cabeça. Stefano . o que vais fazer?» Lila disse .» «Lembras-te de quantas coisas fizemos que nos metiam medo? Espe­ rei por ti de propósito . Abriu o carro . es­ tava visivelmente preocupada. Acomodei-me pou­ co à vontade ao lado de Stefano e ele arrancou imediatamente . com ele e Pinuccia. que começara agora mesmo . desorientada. vagamente irónico: «Agora a Lenuccia já veio . sentou-se ao volante . Lila. instalou-se ela atrás .A Amiga Genial 1 87 fano disse-lhe. preto de cabelo . inebriada pela ve­ locidade e também pelas tranquilas certezas libertadas pelo corpo de Carracci . primeiro em tom de brincadeira. dirigin­ do-se para os novos prédios . olhos pretos a brilhar. «Foi feito de propósito para ti» . preto de cara. mas Lila impediu-me . que fosse dar uma volta com ele e Alfonso. como se estivesse a fazer uma experiência de resultado incerto . Eu fiz menção de me enfiar no exíguo espaço traseiro . com gentileza. O calor dispersou-se com o vento . até . insiste . prometera-lhe: «Quando a Lenuccia regressar de Ischia. pedi­ ra-lhe assiduamente . mas depois cada vez mais a sério . primei­ ro . mas não de forma opressiva. Sim. Pareceu-me que Lila me explicara tudo sem me explicar nada. mas sem a expressão atrevida de sempre. Por fim. «Mas ele sabe do Marcello?» «Claro que sabe . pelo prazer de ao menos uma vez lhe abrir a porta para ela entrar. disse-me . «Tudo começou com a chegada deste automóvel» . Senti-me bem. com ele e a mãe . dissera-lhe. jurara-lhe que comprara o carro para ela. querendo dizer que não sabia com exactidão aquilo em que se estava a meter. depois . venho cá. respondeu-me.» Stefano voltou sem bata. Mas lembra-te . e depois . havia aquele carro desportivo novo e flamejante .» Ele sorriu e entrou na loja. E desde que lho entregaram. comprado com a única finalidade de levá-la a dar uma volta. no final de Julho .» «Tenho medo . como se a conversa não lhe agradasse: «Vamos lá. Eu ape- nas vos acompanhei. . perguntei-lhe . abriu a capota. «Não sei» . convidaste-a a ela.» «E então?» «E então . Mas ela respondera sempre que não . «Ü que se passa?» .» E agora ali estávamos . e não a mim. camisa branca e calças escuras . e logo se via o que ia acontecer.

assim está bem. E no entanto . quando a chuva nos apanhou . Stefano quis que contássemos . Mas que espécie de amizade? Com aquele passeio de automóvel . havia aquele rapaz que . como se nela visse a confirmação de qualquer coisa que eu devia perceber de imediato . «De quem?» «Tu sabes. A volta pelos novos prédios serviu para evitar passar em frente do bar Solara. dirigimo-nos para a Marina.1 88 Elena Ferrante Sim. quando me disse que eu parecia uma actriz . embora soubesse de Marcello Solara. talvez mesmo uma amiza­ de . Stefano a guiar com satisfeita perícia. a pobreza maltrapilha ao longo da estrada. Depois perguntou a Stefano . às vezes tocava­ -me no ombro para me indicar as casas em ruínas . O que tinha ela em mente? Era impossível que não soubesse que estava a preparar um terremoto pior do que quando atirava pedacinhos de papel ensopados em tinta.» . eu sen­ tada a seu lado com se fosse a namorada dele . era provável que não tivesse em vista nada de preciso . corre bem. Pensei com horror na eventualidade de Marcello Solara disparar sobre ele . séria. Olhava em volta. «0 que acham. ela sorriu . Lembrei-me da maneira como olhara para mim . como o cobre da panela de que Lila me falara na carta. Lila não fez qualquer comentário . ou não quisera. não?» «Muito veloz» . Contámos tudo . es­ tava a violar as regras viris sem qualquer ansiedade visível . divertimo-nos e entretanto chegámos aos Granili . disse Stefano sem ênfase . Mencionei esse episódio . Era o caminho que eu e Lila tínhamos percorrido havia muitos anos . estava de certeza a acontecer algo de relevante . A sua bonita pessoa de gestos seguros perderia consistência. sem preâmbulos : «Tu és realmente diferente?» Ele procurou-a no retrovisor. Pensei na possibilidade de ele vir a gostar mais de mim do que gostava da minha amiga agora. para esconder com a minha presença palavras secretas entre eles . disse eu . dar-me os elementos necessários para eu compreen­ der. porém. cabelos ao vento . entusiasmada. havia eu . Lila não soube­ ra. Ela era assim. destruía equilíbrios só para ver de que outro modo podia recompô-los . «mas se te importa a ti . Por isso ali íamos nós numa corrida. arrastada a toda a pressa para aquela história.» Atravessámos o túnel . Sim. «A mim não me importa se o Marcello nos vê» .

disse . «Ü que estás a fazer?» . tinhas o dobro do meu tamanho . pensei que a resposta de Stefano a tivesse irritado . perguntou Lila. agora alarmada. Procurou-a de novo no retrovisor e perguntou: «Üs sapatos que estão na montra são os que vocês fizeram?» «Ü que sabes tu dos sapatos?» «Ü Rino não fala de outra coisa. com seriedade .A Amiga Genial 1 89 Não respondeu logo . com os olhos semicerrados . O que tinha eu perdido enquanto estivera em Ischia? Virei-me para olhar para ela. «Disseste-me para os comprar e vou comprá-los . «Cobarde hoje.» Ele esboçou um sorrisinho embaraçado e. «Compra-os» . «Ü teu irmão não está bem» . voltámos pelo Rettifilo . A volta durou pouco menos de meia hora. pela Piazza Garibaldi . Vi-a banhada de sol . a blusa cheia de seio e de vento .» Ela fez os olhos pequeninos .» Stefano deu uma decisiva volta em U que me atirou contra a porta. demorava a replicar. disse no seu tom provocatório . sem responder. de que tinham falado um com o outro mais ve­ zes e não a brincar.» Stefano abanou a cabeça. sem qualquer nexo . Aquele tom alusivo era a prova de que havia intimidade entre eles .» «A intenção é essa. «Eram outros tempos» . E depois . «Por quanto os vendem?» «Fala com o meu pai .» Nesse instante tive a confirmação de que Lila devia ter-me ocultado não poucos pormenores . estreitou-os até quase os fechar. acelerou na direcção do porto . por ser vaga.» . metemos pela rua da sapataria. disse . Depois disse em dialecto: «Queres que te diga a verdade?» «Sim. «A miséria aqui é pior do que para os nossos lados» . cobarde amanhã. disse Stefano quando já estávamos per­ to do bairro .» «E depois?» «São muito bonitos. mas não sei como irá acabar. a rir: «Não penses que eu me esqueci de quando me quiseste picar a língua.

olhando maravilhado para a irmã. Eu e ele parámos em frente da montra.» Lila. Estavam ali todos os modelos que ela imaginara havia quase dois anos. não opôs resistência. ajudou-o a enfiar o p é n o sapato novo . Foi às trasei­ ras da loja e voltou . «Sim» . perguntou se podia ver os sapatos . e a seguir entrou ele sem dar prioridade a Lila.» «E não há. sei lá. Quando Lila nos alcançou . ajoelhou-se em frente de Stefano e . que se desembaraçou sozinha e ficou para trás . ligeiramente agitado . Parou o carro em frente da sapataria. atrapalhada: «São muito bonitos . um desenho . «mas não é para já. «Qual é o número?» «43 . veio abrir-me a porta. tirou-lhe o outro sapato e repetiu a operação . têm umas linhas muito bonitas mesmo . Depois sentou-se num banco e des- calçou o sapato do pé direito . qualquer coisa para perceber melhor?» Rino disse à irmã. que nos observavam do interior da loja com uma curiosidade carrancuda. continuando a surpreendê-lo . Rino foi a correr buscá-los . disse Rino . com a ajuda da calçadeira.» Examinou de novo os desenhos . De­ pois .» Ele voltou-se para Fernando: «A vossa filha disse que trabalharam bastante neles . e que têm em projecto fazer mais . porque esperava uma recusa dela: «Vai-lhe buscar os desenhos . Não se preocupou com Lila.» Perguntou-me : «0 que achas . ele examinou-os e elogiou-os: «São leves mas resistentes .» «Sim» . estendendo as folhas de papel ao irmão . Stefano mostrou-me o desenho de um par de sapatos para mulher com o salto muito alto . que as passou a Stefano . mentiu Rino . continuando a espantar-nos . mas que até podia ser um 44» . Lenu?» Eu disse . . perante o olhar de Rino e Fernando . Foi muito amável com pai e filho .1 90 Elena Ferrante 37 . Stefano abriu a porta da loja. disse Fernando perplexo . estendeu­ -me a mão para me ajudar a sair. os três. mas para mulher. Lila. «Comprava-los para ti?» «Sim. deixou-me entrar primeiro .

Rino reanimou-se . desapontado . estes sapatos são um modelo exclusivo Cerullo.» Fernando ficou impassível . o que queria era ganhar tempo . «Estão apertados» . falou num tom afectuoso: «E achas que eu os comprava.» Dobrou as folhas com os desenhos e meteu-as no bolso . Deu-me passagem e saiu atrás de mim. disse . Stefano olhou para mim e perguntou-me: «Que tal me ficam?» «Bem» .» «Estás a ofender-me . «Ouve. O senhor pensa num preço amigável e eu daqui a três dias venho buscá-los. «Podemos meter-tos na máquina e alargá-los» . diante dos nossos olhos perplexos . Esperou que Lila se erguesse e continuou sen­ tado mais alguns segundos. Estava zangada: «Pensas que o meu pai é estúpido . interveio Fernando . ficou visivelmente perturbado .A Amiga Genial 191 Stefano . que até ali fizera o papel de homem prático e expedito . disse Fernan­ do . Ste' . Depois apertou a mão a Fernando e a Rino e dirigiu-se para a porta. disse Lila com frieza. «Está muito bem. respondi . «Então compro-os . sem esperar pela resposta.» Stefano sorriu . como que a retomar o fôlego . perante aquela inesperada novidade . Depois pôs-se em pé e deu uns passos . se não fossem um modelo exclusivo Cerullo? Quando estão prontos?» Rino olhou para o pai . um mês . «Deixamo-los estar na máquina pelo menos três dias» . mas era evidente que podia ter dito dez . Já eu me acomodara no carro ao lado dele quando Lila nos alcançou . estás enganado . Rino ensombrou-se . abriu a porta. que o meu irmão é estúpido?» «Ü que queres dizer?» «Se pensas armar-te em palhaço com a minha farm1ia e comigo . perguntou Stefano em tom cordial e . radiante . mas num tom de incerteza.» «Então o que és?» . Eu não sou o Marcello Solara. «Posso trazer-tos dentro de três dias?» . vinte . são ca­ ros . «Üs desenhos» .

Nos três dias que se seguiram ao espantoso passeio no descapotável . se não achar que ela me pode render cem. Disse baixinho .Marcello . marcada pelos lábios e pelas mãos do pai dele .» Stefano olhou-a directamente nos olhos durante um longo instante . em italiano: «Por favor. «Digo-lhe assim» . certa de que ia chorar noite e dia por causa da mistura de felicidade e asco que sentia dentro de mim. os sapatos . Éramos apenas rapariguinhas . e daqui a três dias encontramo-nos . Fi-lo com o coração aos saltos. como se quisesse ler-lhe a mente . Pus de lado a voz de Nino e a repugnância pelo bigode do pai . A vida de Lila mudou de forma decisiva durante aquele mês de Se­ tembro . de cúm­ plice na maquinação de tramas . Debatíamos os factos . depois de mui­ tos encontros e de muito falarem. «Eu não gasto uma lira. refiro-me a todos . nunca se viu coisa igual . Os sapatos que desenhaste . parte-me a cara. mas mudou . A ilha esbateu-se . Stefano . Agora tinha a certeza: o passeio de au- tomóvel fora uma espécie de consenso a que chegaram. receando uma possível aparição de Marcello . regressara de Ischia apaixonada por Nino . Quanto a mim . Stefano .» Ligou o motor e arrancámos . com a desculpa das compras . Abri espaço para aquilo que se estava a passar com Lila. desapareceu em qualquer canto secreto da minha mente . ela.1 92 Elena Ferrante «Sou comerciante . de aparente objecto das atenções de Ste­ fano . embora nos considerássemos perfida­ mente desinibidas . foi várias vezes à charcutaria de Stefa­ no . Por fim disse uma frase que eu nunca teria tido a cora­ gem de pronunciar: «Olha que o Marcello já tentou comprar-me de todas as maneiras .» Lila olhava-o fixamente . não se afastava do carro .» «E então?» «Então deixa-me pensar. conjecturava ela. deixas-me à esquina? Se a minha mãe me vê de carro contigo . tudo se redimensionou em poucas horas . Não foi fácil . nem fiz qualquer tentativa de dar forma às minhas emoções . mas pedindo-me sempre que a acompanhasse . e parecia-nos sempre que éramos capazes de fazer com que tudo batesse certo.» 38 . mas a mim ninguém me compra.com a nossa paixão habitual . . E não me refiro só aos que comprei . mas também satisfeita com o meu papel de confidente pródiga em conselhos . Mas afinal .

o objectivo final de todas as nossas tramas pareceu-nos ser esse: lutar por todos os meios contra a intrusão de Mar­ cello na sua vida. toda a acção partiu sempre e apenas de Stefano . Entre muitas hesitações . Ele nem pestanejou .A Amiga Genial 1 93 e eu sugeria uma pequena variação: «Não. e nós limitámo-nos a dar-lhe um ritmo . A partir desse momento . os dois Cerullo pediram-lhe vinte e cinco mil liras . Três dias depois . ela foi decisiva quando lhe perguntei : «De qual dos dois gostas mais?» Encolheu os ombros . observava apreensiva o filho mais velho . tenho-lhe asco .» «Ficavas noiva do Stefano . Pinuccia atendia os clientes irritada. e dava ouvidos aos mexericos das bisbilhoteiras . improvisávamos . e Maria. Ou pelo menos assim pensámos . para correr com o Marcello de tua casa?» Pensou um pouco e respondeu que sim. para poder estar em sintonia com os objectivos dela. mas na disposição de descerem até às dez mil . dos quais .» Depois . ela e Stefano falavam demoradamente a um canto atrás do balcão .disse . sobretudo . Enquanto durou aquele vaivém tentei perceber o que se passava realmente na cabeça de Lila. aproveitando-se do jovem charcuteiro . Na rea­ lidade . «Emoldurar?» . e por vezes uma verdadeira orquestração . «Sim. livrar-se de Marcello . diz-lhe assim. na caixa registadora. e deu-lhes mais vinte mil em troca dos desenhos de Lila. e anunciou ao pai e ao filho que alugara o espaço ao lado . Nos dias seguintes apareceu novamente na sapataria. perguntou Rino . Neste aspecto . O resto veio aglomerar-se em tomo desse objectivo quase por acaso . ele foi à loja e comprou os sapatos . embora lhe ficassem apertados . A princípio tive a impressão de que ela pretendia simplesmente dar algum dinheiro a ganhar ao pai e ao irmão . vendendo a Stefano por um preço elevado o único par de sa­ patos produzido pelos Cerullo . enquanto Alfonso trocava meia dúzia de palavras comigo.» Stefano não se ficou por ali .gostava muito e pretendia man­ dá-los emoldurar. que nos últimos tempos pouco se interessava pelo traba­ lho .» «Como um quadro de um pintor?» «Sim. pontualmente . Como é natural .» «E disseste à minha irmã que também ias comprar os desenhos dela?» «Sim. «Nunca gostei do Marcello . mas depressa me pareceu que a intenção dela era.

de Pi­ nuccia. ficando assente que os eventuais lucros seriam divididos a meias . como de todos os outros modelos . e o jantar ainda não estava pron­ to . disse Lila. «Fazem este . . incrédulo . indicando o pai e o irmão . «e o Rino ainda não aprendeu bem o ofício . «mas se um dia vocês decidi­ rem expandir-se . chegou-se a um acordo verbal . este . «Mas ele sabe que os sapatos feitos à mão são caros?» «Vocês já lhe mostraram isso . em voz baixa.1 94 Elena Ferrante da loja deles . «Entra ele com ele . embaraçado . «Expandir-nos?» Por fim Lila. um após outro . que recuperou energias .» Stefano abanou cordialmente a cabeça. perguntou Fernando . pressionado por Nun- zia. co­ res . Têm de arranjar trabalhadores . «Disse-o a vocês dois» . uma vez que eles não chegavam lá sozinhos . Quando . e. Muitas vezes viu-se sozinho com Melina e Ada em frente do televi­ sor.» «E quem é que lhes paga?» .» Em casa dos Cerullo conversou-se muito . como sei que aconteceu com os outros . às oito e meia. assim começou a tomar-se amigo íntimo de Stefano . este» . «mas esperemos que não levem dois anos. lembrem-se de que estou à vossa disposição . Chegava à noite . alarmou-se Fernando .» «E se não se venderem?» «Vocês perdem o trabalho que tiveram e ele perde o dinheiro . Tirou as folhas de papel do bolso e mostrou-lhos . de Alfonso . da mesma forma que se tomara amigo íntimo dos Solara. Naturalmente .» «A minha filha é rapariga» .» «E é só isso?» «É só isso . disse . perguntou Rino cautelosamente . após uma curta discussão . e até da dona Maria. o mais entusiasta era Rino. deixem-na estar sossegada. sobre o que significaria aquela frase . finalmente . todas as reservas de Fernando se diluíram. justificou-se Fernando . com base no qual ele enfrenta­ ria todas as despesas e os dois Cerullo dariam início à produção . enquanto os Cerullo confabulavam noutra divisão . disse .» «Disse-o a ti?» . «A Lina. tanto do modelo que Lila e Rino já haviam executado. alegria. Stefano compareceu na loja e.» Toda a família viveu dias agitados .» «E o dinheiro?» . «Por agora está ali » . Marcello passou para segundo plano . disse: «Está a propor-vos transformar a sapataria numa oficina para fabricar os sapatos Cerullo .

Rino acompanhou-o e. se Stefano não tivesse fixado o pensamento naquelas maluquices de Lina. melhor do que as marcas Campanile e Isaia. entusiasmou-se e soltou-se-lhe a língua. que tinha mãos fracas e vontade nenhuma de tra­ balhar. subitamente vencido por uma preo­ cupação sua. Escolham dois ou três . Stefano sorriu : «E quem é que se atreve a fazer alguma coisa. já viste o carro que o Stefano comprou?» . que tinha na ideia sapatos lindos . que estava outra vez sério e não disse nada. Stefano ouviu pacientemente . e com uma gama de modelos digna de ser exposta no recinto da Mostra d'Oltremare . Nessa mesma noite .» Stefano acenou-lhe com a mão . por fim . Disse . onde é que os penduras?» «Aqui mesmo . sem se virar: «Uma Cerullo os inventou e Cerullo se chamarão . ao passo que se se tivesse casado com Ines .» Rino olhou para o pai . executados com perfeição . «A minha irmã está de acordo com tudo?» . em Casoria.» 39 . antes de ir passear com Pasquale e Antonio . agora podiam ser produzidos e então . enquanto Stefano se dirigia para o descapotável vermelho: «A marca dos sapatos continua a ser Cerullo . livremente . Falou de quando aprendera o ofício com o falecido pai . que . uma paixão da sua juventude que era muito trabalhadora. mas depois insistiu que por agora só lhe interessava ver. coisa perfeita. gritou-lhe da porta. se a tua irmã não esti­ ver de acordo?» Levantou-se . os desenhos de Lila. há muito que teria uma activida­ de só sua. pegou nos desenhos da irmã.» Fernando . Contou como fora difícil o trabalho nas máquinas .A Amiga Genial 1 95 «Sou também eu . quantos não se venderiam. Rino . de acordo com o vosso critério . examinou-os minuciosamente e perguntou-lhe com um ligeiro tom de troça: «Quando os tiveres emoldurados . sim. Disse que o seu erro tinha sido casar-se com Nunzia. apertou vigorosamente a mão a Fernando e dirigiu-se para a porta. perguntou . então . perante a ideia de até ter empregados . Rino disse: «Marce . com evidente contrariedade do filho .

e ele en­ tão gaguejou: «Ela gosta de outro?» «Claro que não . com o moral muito em baixo . dizendo-lhe qual­ quer coisa que o encorajasse a perseverar na tentativa de conquistar o amor da rapariga.» Mas ao dizer aquela frase apercebi-me de como continuava a alterar-se a riqueza com que havíamos sonhado em crianças .tinham-se evaporado para sempre.» «A Lenuccia também ia. bem recebido por Nunzia. não se sabe se por causa daquela boca ou do que estavam a transmitir na televisão .1 96 Elena Ferrante Marcello . de olhos baixos. Diga-lhe que nunca mais se encontre com ela. falou com Nunzia. Lila desaparecia. e Melina rebentou a rir. respondeu Marcello . Rino arranjou maneira de enervar Marcello todas as noites . passei definitivamente para o lado de Stefano e comecei a enaltecer-lhe os mo­ dos discretos . Mas Nunzia não soube o que lhe responder. O Stefano anda atrás da filha do porteiro . Para mais . e impedir que ela se desmarginasse juntamente com as pessoas de . dizia que estava cansada e ia dormir. evidentemente . alegre: «Sabes que ele comprou os nossos sapatos por quarenta e cinco mil liras?» «Vê-se que tem dinheiro para deitar fora» . e o clima tomou-se cada vez mais tenso . «Foi vista no carro com o charcuteiro . entontecido pela televisão acesa e pela tristeza. Rino tirou o pente do bolso. «Se a sua filha vai dormir assim que eu chego . nem res­ pondeu . que ela o confortasse . Uma noite Marcello . o que venho eu cá fa­ zer?» Esperava. A partir dali . meu filho .» «A Lenuccia não me parece boa companhia para a sua filha. a determinação calma. que uma procissão de criados de libré depositariam no nosso castelo quando publicássemos um livro como Mulherzinhas - riqueza e fama .» Eu não era boa companhia? Lila não devia voltar a encontrar-se comi­ go? Quando a minha amiga me contou este pedido de Marcello . assim que Solara chegava. Os baús cheios de moedas de ouro.» «E onde há-de ela ir. deu uma penteadela e disse. Talvez existisse ainda a ideia do dinheiro como cimento para consolidar a nossa existên­ cia. fazer as compras?» Marcello ficou calado . E por último disse-lhe: «É rico . Então .» «Eu sei que ela vai fazer as compras à charcutaria do Stefano .

investia em pelaria e numa equipa de trabalho . Stefano . não só queria nego­ ciar em queijo provolone como também em sapatos .voltariam a dizer respeito apenas a Lila e a mim . Mas o aspecto fundamental que agora prevalecia era o concreto . aqueles dois adjectivos confundiram-me . eram qualidades que Marcello não possuía. Esta riqueza da adolescên­ cia partia de uma iluminação fantasiosa ainda infantil . exprimia simpatia e bondade . Aderi ao pacto que eles tinham feito . senti que davam o golpe final nas fantasias infantis . e eu senti-me imediatamen­ te de acordo . e parecia convencido de que era capaz de inaugurar uma nova época de paz e de bem-estar para o bairro . voz . a negociação . «Era um miúdo» . e por isso sem esplendor e sem glória.para arranjarmos maneira de mudar depressa as pessoas . o filho mais velho de dom Achille . melosa como nunca a ouvi­ ra. queria picar-te a língua» . nós três . ouvi que Lila repetia. Em suma. A sapataria foi reorganizada. Fiquei agitada. nenhum baú . disse-lhe . que tencionávamos escrever uma história como Mulherzinhas . e começámos a rir. estava a criar feições . «No entanto . E conspi­ rámos durante horas . e por fim. os sentimentos . e no televisor.os desenhos de sapatos nunca vistos . que queria gastar como um ricaço . mas materializara-se na insatisfação briguenta de Rino. No entanto .pareceu-me entender . ao ganhar forma em Stefano . tinha um carro vermelho descapotável . Vi como falava com Stefano . o gesto quotidiano .nós duas . rapazes da província. Mas depois acres­ centou: «Também é simpático e bondoso» . emoldurava desenhos .. que vendia enchi­ dos . era riqueza que se encontrava nos factos do dia-a-dia. Nenhum castelo . eram de Melito . odor. Nos dias que se seguiram tudo se foi tomando mais claro . de modo que só naquele momento compreendi que ela fora muito mais além do que aquilo que me dissera por palavras . também naquele rapaz amável . quase não se ouviam falar. «É rico» . A riqueza. não queria ficar de fora. gastava quarenta e cinco mil liras como se não fosse nada. passo a passo . Surgiram três aprendizes . nos bolos e no anel de Marcello . replicou ela comovida. e como ele parecia embevecido com a voz dela. a disposição das coisas .A Amiga Genial 1 97 quem gostávamos . mais uma ra­ zão para estar do lado de Stefano . era um tipo que nós conhecíamos desde sempre . e no resto do espaço . estava a tomar o aspecto de um rapaz de bata suja de gordura. Chegou um operário ao espaço que ficava ao lado da sapataria e deitou abaixo a parede divisória. Num canto continuaram a fazer-se arranjos . que pretendia comprar um sentimento.

e entre mim e o senhor fica tudo como está agora. «Não .» «Que dizes tu?» Rino intrometeu-se . cheio de alegria: «Ele diz a verdade . disse debilmente: «Stefano . anun­ ciou em voz baixa que queria casar com Lila.a reflectir naquilo que ia fazer. Rino limitou-se a um sorrisinho sa- bichão . protegidas por vidro como se fossem relíquias preciosas . Só depois de os quadros estarem pendurados é que Stefano pediu aos três ajudantes que fossem tomar um café . e deu-lhes algumas liras . a Lina está noiva do Marcello Solara. com uma energia repen­ tina e inesperada . num tom de re- signada constatação . Precisamente no dia em que os novos trabalhos iam principiar. Tu e a mãe deixam aquele merdoso vir a casa. todos do mesmo tamanho .» «Eu é que sei qual é o bem dela. as suas ferramentas .se me quiser a mim . dom Fernà: deixe que seja a sua filha a decidir. Gosto tanto dela que se ela for feliz com outro eu retiro-me . eu resigno-me. O charcuteiro disse com gentileza. Stefa­ no apareceu . as suas formas de madeira para os vários números. não nos zanguemos .» «Estás a ameaçar-me» . e começou . estantes .» .. Só lhe peço uma coisa. Fez-se um silêncio insuportável .inesperada num homem tão magro e devorado desde sempre por uma insatisfação rancorosa . Fernando também. Fernando resmoneou qualquer coisa e Stefano pediu ajuda a Rino e aos aprendizes para pre­ garem os pregos . tem de ma dar. estou a pedir-lhe que olhe pelo bem da sua filha. Ele abriu a embalagem. mas ela sabe melhor do que o senhor. mas a Lina nunca o quis nem o quer.1 98 Elena Ferrante Fernando dispôs bancos . e dentro havia um considerável número de pequenos quadros .» «A sua filha não sabe disso . Se ela quiser o Marcello Solara. disse Fernando . com molduras estreitas de cor castanha.» «Sim. por fim. olhando em volta: «Temos um trabalho principiado . Assim que ficou sozinho com o sapateiro e o filho . Trazia uma embalagem feita com papel de embrulho . Pediu licença a Fernando para pendurá-los nas paredes . Eram as folhas de caderno de Lila. como se ele viesse fazer uma inspecção . Mas se ela me quiser a mim . e Fernando . mas sereno . ninguém o poderá impedir.» Fernando deitou um olhar maldoso ao filho . Puseram-se todos em pé de um salto .

Marce .» Entrámos . dois dias depois . antes de liga­ rem a televisão . Que prazer nos dava sentirmos que estávamos no centro daqueles acontecimentos . «Um gelado? Sem termos comido primeiro? Eu e tu?» E perguntou imediatamente a Nunzia: «A senhora também quer vir?» Nunzia ligou o televisor e disse: «Não . Dez minutos . ela encarou-o e disse pausadamen­ te. Lila ia dizer-lhe que sim. com a mesma subserviência que em tempos passados manifestara em relação a dom Achille: «Estamos a fazer uma grande ofensa. as duas juntas .» Fernando atrapalhou-se um pouco e depois murmurou . com a fria crueldade que facilmente lhe ocorria desde os primeiros anos de vida: «Nunca te disse que te queria. Mas agora já me queres?» . «obrigado . a mim que estava lá fora à espera. excep­ to Rino . juntamente com Lila. diante de toda a fallll1ia. Parecia-lhe que era che­ gado o momento tão esperado . assim que saíram do prédio . Com efeito . mas a todos os Solara. que andava a passear. prometeu ele . obrigada. Queres casar comigo?» Lila respondeu . vão e voltem. abriu a porta. chamou-me . só . feliz . séria: «Sim. Stefano dirigiu-se a Lila: «Digo-to diante do teu pai: amo-te muito . Mas .A Amiga Genial 1 99 E aqui Stefano pôs-se em pé . antes de irem para a mesa. «Lenu . não só ao Marcello .» «Bem sei . Lembro-me da enorme tensão daquele momento . e que íamos encaminhá-los para uma solução . Lila perguntou a Marcello: «Levas-me a comer um gelado?» Marcello não quis crer nos seus ouvidos .» «Sim» .» Repetiu obrigado pelo menos quatro vezes . Mas não se demorem muito .» 40 . mais do que à minha pró- pria vida. Agora quem é que diz isto àquele pobre rapaz?» Lila disse: «Eu . à noite .

dera uma oportunidade ao irmão e a toda a fami1 ia. pode ser que eles sejam capazes . Encontrara uma saída para o projecto dos sapatos . Fui reabsorvida pelo estudo e. «É mesmo não?» «Não. Gosto de outro . nada. Quando recomeçou a escola senti o seu cinzentismo mais do que o habitual . Apesar de ter trabalhado na charcutaria todo o Verão . Tinha tudo . passara . mordeu a mão direita fechada em punho até ela sangrar. Alfonso. começo por ti . Depois .200 Elena Ferrante «Não .» Marcello . não sou capaz de o fazer. apoiou-se ao poste de um candeeiro com o coração destroçado . e tu sabes que o faço .» «Comigo podes tentar já. Ela gritou-lhe: «Manda alguém buscar o televisor. Virou-lhe as costas e afastou-se . é assim mesmo . e Lila finalmente parec­ eu-me feliz .» «Então manda o teu irmão fazê-lo . e eu .» «Vou matar-te a ti e a ele . para evitar que os professores me apanhas­ sem impreparada. estreitaram-se as relações com o irmão de Stefano . O que podia ela querer mais? Nada.» Marcello desencostou-se do candeeiro bruscamente .» «Eu já sabia. não precisamos dele . Porque se tocarem seja em quem for enquanto eu estou viva. «Gosto demasiado de ti . Vi Lila cada vez menos .» «Quem é?» «Stefano . ou o teu pai . mas não queria acreditar. um rapaz são e fogoso de vinte e três anos . com uma espécie de estertor. sou eu que vos mato . comecei de novo a estudar até às onze da noite e a pôr o despertador para as cinco e meia. Em compensação.» «Podes acreditar. uma espécie de soluço reprimido agitou-lhe o peito .» 41 .» Marcello continuou a morder o dedo com fúria. Tudo aconteceu em pouco mais de um mês . livrara-se de Marcello Solara e ficara noiva do rapaz abastado mais digno de estima do nosso bairro . mas . Mas esclarece-os bem de que têm de me matar primeiro a mim . que era alto e corpulento. ou qualquer amigo vosso .

só de rapazes . que desejara que ele reprovasse . cabeça grande . assim como nas ruas do bairro. e de as raparigas me perguntarem constante­ mente se éramos namorados . Depressa me chegou aos ouvidos que dizia coisas horríveis de nós . pernas um bocado curtas em relação ao tron­ co. ou esperava-me a uma certa distância. embora Alfonso não me correspondesse . com sete em cada uma das disciplinas que teve de repetir: Latim. como era obrigatório em tais casos . agora no segundo ano . de quem sabemos que não precisamos de espe­ rar nenhuma maldade . com o crescimento . nenhum de nós pensou em mudar de lugar. Amava-me sem qualquer tensão . Que eu estava apaixonada por Alfonso e lhe tocava durante as aulas . e. seu ex-companheiro de carteira. Era uma pessoa de confiança.A Amiga Genial 20 1 nos exames de recuperação de modo brilhante. Se percebia que eu queria que ele ficasse a meu lado . . Tinha sempre aquilo de que eu precisava. embora a sala dele fosse ao lado da nossa e nos encontrássemos muitas vezes nos corredores . íamos e voltávamos juntos da escola todos os dias .» Alfonso foi uma descoberta agradável e providencial . Durante o percurso poucas palavras trocávamos . Mas fez ainda pior. ele não gostava de raparigas . Quando viu que nós dois . em dialecto: «Toda a gente sabe que o paneleiro é ele . mesmo que tivesse outra coisa para fazer. em minha opinião . Contei isto a Alfonso Carracci . acabava por reduzir a sua cortesia a uma espécie de esconderijo do qual sairia inesperadamente . Nunca mais dirigiu a palavra nem a mim. ia a correr buscar. pois sentara-se ao lado dele durante um ano . se não tinha. ficava. e eu afeiçoei-me a ele serenamente . Dava uma im­ pressão de limpeza e de boa educação . porque como sabia bem. aquele tipo de ser humano . o seu corpo estivesse a tomar formas idênticas . esperando que ele partisse a cara a Gino . exasperou-se ainda mais e tomou-se mesquinho . Embora nas feições fosse muito parecido com Stefano . embora no olhar e nos gestos mostrasse a mesma suavidade . para poderem repetir o primeiro ano da secundária juntos. Grego e Inglês . um gesto audaz naquele tempo . ou despedia-se e ia-se em­ bora. raro no bairro . mas não nos sentíamos embaraçados . nem a Alfonso . os mesmos olhos . e apesar de os outros rapazes fazerem troça dele por estar sem­ pre na minha companhia. e que . Se via que eu precisava de tempo para mim . sentia nele uma total ausência daquela determinação que se escondia em cada célula de Stefano . mas ele limitou-se a dizer com des­ prezo . o mesmo nariz e a mesma boca. sua ex-namorada. No primeiro dia de escola acabámos por nos sentar na mesma carteira. ficou decepcionado . Gino . embora. Alfonso era um rapaz que transmitia tranquilidade .

. Mas uma vez . pouco depois dos pauis . no início da rua larga. gentil . Quando nos vimos pela primeira vez depois de Ischia. não fizera mais do que a escola comercial . muito amistoso . mas falávamos dos trabalhos de casa. falava quase exclusivamente em dialecto . E lia e conversava sobre tudo .202 Elena Ferrante Servi-me dele para evitar Nino Sarratore. um homem de vinte e dois anos. dos profes­ sores . embora a paixão me devorasse . Mas era vinte centí­ metros mais alto do que eu . E o asco e a raiva que me suscitava a recor­ dação do que o pai dele me fizera sem que eu fosse capaz de o repelir. pela segunda vez desde que o vira e me apaixonara não fui capaz de estabelecer uma relação . O motivo pareceu-me muito mais forte do que o dos tempos da infância. oficialmente noiva ­ e com que noivo . portanto não tinha uma lira. reequilibrando assim a nossa relação . Um episódio que me alarmou veio complicar ainda mais a situação . e por vezes pensava. que fazia contas melhor do que ele e. no aterro . faz o mesmo que Stefano fez com os Peluso . Desejava falar com ele . No entanto . mas eu despachei-o com duas ou três frases frias . gostava muito dele . cheia de raiva: porque te compor­ tas assim. passear com ele . Era um passeio longo . E falava italiano como um livro aberto . ao passo que Stefano vivia encerrado na sua char­ cutaria. Alfonso e eu tínhamo-nos habituado a regressar a casa a pé . Porém. Assim que imaginava que o beijava. bastava avistar a sua figura alta e magra para me ruborizar e o coração me bater desenfreadamente . estendiam-se a ele . à distância. Seria fantástico sairmos os quatro . embora tivesse bom carácter. Lila com o seu noivo e eu com o meu . Nino veio imediatamente ao meu encontro . embora não fossem nada parecidos . decidido e corajoso . Agora. quando queria. Vê-lo trazia-me imediatamente à lembrança Donato Sarratore . Contudo . Ía­ mos até à Piazza Nazionale e depois metíamos pelo Corso Meridionale . e era agradável . É claro que Nino não tinha um descapotável vermelho . era so­ bretudo sensível à movimentação lucrativa do dinheiro . era mais urgente do que nunca eu arran­ jar também um noivo invejável . agora que Lila estava realmente noiva. virei-me e pareceu-me ver. sentia a boca de Donato . Andava no segundo ano do liceu . e era sensível às grandes questões da condição humana. ao passo que Stefano era uns centímetros mais baixo do que Lila. e não um rapazote . Mas não era capaz . o pai não é o filho e o filho não é o pai . embora visse claramente o prestígio que adqui­ riria aos olhos de Lila se me ligasse a ele . dos nossos colegas . e uma onda de prazer e de nojo misturava pai e filho numa única pessoa. na caixa registadora da loja tinha a mãe . É verdade que o amava.

Mas . já lá não estava. a função de protegerem. comportei-me sempre de modo muito gentil com ele . pareceu-me interessante que tocasse a dois Carracci . e tanto à entrada como à saída mantive-me perto dele . linhas de liga­ ção entre momentos e factos distantes entre si . Uma vez em que regressava com Alfonso pelo Corso Meridionale . mudava de tom. assim que avistei Nino . desse mal que experimentámos pela primeira vez quando subimos a escada até casa deles . Então. não sei porquê . desviei logo o olhar. da minha idade . Estremeci de raiva e de horror. Stefano e ele . «E se ele me interpreta mal e me faz uma declaração de amor?» . estabelecia convergências e divergências . Donato Sarratore . para ir buscar as bonecas que o pai nos tinha roubado . o irmão mais novo do noivo dela. procurei protecção no afecto por Alfonso . receando que ele se aborrecesse e me trocasse por outras companhias . entretanto . Seria embaraçoso . e seria no mínimo humilhante para mim andar com um rapazinho . e . Assim que avistava a figura esguia do rapaz que amava. estava noiva de um homem adulto . teria de rejeitá-lo . A mente . Quando olhei de novo . apetecia-me aconchegar-me a Nino e . como se fosse um tiro . Gostava de fazer associações daquele género . sobre o barulho que a panela de cobre fizera ao rebentar. Quer essa aparição tivesse sido real ou falsa. ficou-me gravado o som que o coração me fez no peito . ainda que de formas diferentes . Aliás . voltou-me à lembrança a passagem da carta de Lila. desenhava arabescos incontro­ láveis . devaneava. tinha o cuidado de estar colada a Alfonso . Stefano . preocupava-me . Lila e eu do mal do mundo . Foi um período confuso . .A Amiga Genial 203 da linha férrea. voltava­ -me para o filho mais novo de dom Achille . assustada. às vezes até lhe falava com doçura. Traçava. assim que me apercebia de poder estar a encorajar a inclinação que ele tinha por mim. tanto sofrera eu por ter de sair da ilha. ao invés . sobretudo se se relacio­ navam com Lila. Lila. e afastávamo-nos conversando . O mesmo barulho regressou no dia seguinte . com a farda de revisor. 42 . como se usasse um esquadro . como se tivesse coisas ur­ gentes para lhe dizer. como a felicidade dela aumentara. sentindo-o a meu lado como um escudeiro que me escol­ tava por entre os mil perigos da cidade . Naquela época tornou-se um exercício quotidiano: tinha estado tão bem em Ischia como Lila estivera mal na desolação do bairro.

. com a pupila opaca. desgastada pelos trabalhos da escola. a alegria ou a dor de uma pressupunha a dor ou a alegria da outra. e ela a guiar-me com um olhar apurado . arranjou o dinheiro . mostrei o caderno . Achei que o aspecto físico também participava dessa oscilação . Mas Lila agora estava em vantagem. Disse-me que devia ir de imediato a um oftalmologista. e essa impressão não se dissipara depois do regresso a Nápoles . cega. Senti-me definitivamente desfigurada e decidi pô-los só em casa. um falcão. ao passo que eu . estra­ gaste a vista. por entre sombras . consumida pela paixão frustrada por Nino. e ela conti­ nuando a semicerrar os olhos e a lançar olhares que viam ainda mais. escreveu-me isso no ca­ derno e quis ver a assinatura de um dos meus progenitores no dia se­ guinte . Por fim o meu pai . devido a uma qualquer magia maldosa. ou . O professor Gerace interrogou-me sobre qualquer coisa que escreve­ ra no quadro e apercebeu-se de que eu não via quase nada. ao lado de Lila. Durante a ma­ quinação constante . a minha imagem demasiado nítida foi um duro golpe: impurezas na pele . a minha mãe ralhou-me: «Estás sempre em cima dos livros . E de repente . Quando me vi ao espelho . e ela. Quer dizer que fora castigada pela soberba de querer estudar? Então e Lila? Não tinha lido muito mais do que eu? Então porque é que ela tinha uma vista perfeita e eu via cada vez menos? Porque é que eu tinha de usar óculos para o resto da vida e ela não? A necessidade de usar óculos aumentou a minha mania de encontrar um desígnio que . esqueci-me deles na carteira. O meu pai ensombrou­ -se . Mas um dia. nariz grosso . ele diagnosticou-me uma forte miopia. que parecia desenhada com fúria por um desenhador raivoso . e em alguns olhares de Stefano captara a possibilidade de lhe agradar. no bem e no mal . A cor saudável estava a debotar e o acne a regressar. eu agarrada ao braço dela. no máximo . à saída da escola. graças às suas negociatas na câmara . Em Ischia sentira-me bonita. e os óculos concretizaram-se . estava cheia de sentimentos de culpa pela despesa que as lentes implicavam. sob as sobrancelhas já de si de­ masiado espessas . Voltei para casa. quando tivesse de copiar alguma coisa do quadro . eu . boca grande . ligasse o meu destino ao da minha amiga: eu . houvera até momentos em que voltara a considerar-me mais bonita do que ela. cara larga. a satisfação redobra­ ra-lhe a beleza. Fui ao oftalmologista. e os olhos aprisionados na moldura da armação .» Pareceu-me muito mal . estava de novo a ficar feia. para ajudá-la a desembaraçar-se de Marcello . As fantasias atenuaram-se . uma manhã surgiu também o espectro dos óculos .204 Elena Ferrante Parecia que .

um privilégio que ela perdera para sem­ pre . Comecei a chorar. É essa a minha riqueza. pediu-me os óculos. Ela tem o Stefano . ao fim da tarde . que não posso passar sem eles . e voltei para casa esperando que os meus pais não reparassem que estava sem óculos . a pensar: porque é que lhe ficam bem a ela. que . exclamando: «Que bem que te ficam. batendo as pálpebras . que não precisa de óculos. examinou-os . que os mandara arranjar por um oculista da baixa. nos torna­ vam indispensáveis uma à outra. tentei convencer-me . com as ferra­ mentas de sapateiro .» Sorriu e depois disse . me desfiguram a cara? Assim que cheguei à porta. Murmurei envergonhada que nunca lhe poderia pagar. o que tenho? Respondi que tinha a escola.» 43 . basta-lhe estalar os dedos e os meus óculos são arranjados num instante . mostrou-se mais calma. tinham ido parar ao chão . Tinham uma haste partida. e a mim. refugiei-me em casa de Lila em busca de auxílio .A Amiga Genial 205 Voltei à sala a correr. ora com alegria. ora com sofrimento . Corri lá abaixo . Não tive coragem de ir para casa. E eu . e vice-versa. A questão do dinheiro deu ainda mais força àquela impressão de que aquilo que me faltava. mas sim que lhe ficavam bem. Lá em baixo estava Lila. Contei-lhe o que me acontecera. num jogo contínuo de trocas e inversões . ela tinha. o que me impressionou não foi o facto de estarem como novos. e ela replicou com ironia. ela tirou os óculos divertida. tinha os meus óculos postos e. Disse-me: «Fazem-me doer os olhos» . deves usá-los sempre . como se já não fosse preciso lutar até ao extremo pelas pequenas coisas . mas o pior já tinha acontecido . uma lente quebrada. naque- . agora faço o que me apetece com o dinheiro . orgulhosa: «Não é preciso . Expressou-se com uma de­ terminação diferente daquela que habitualmente tinha. ouvi que me chamavam do pátio . Uns dias depois . Disse-me para os deixar ficar. E com efeito . à primeira vista.» Entregara os óculos a Stefano . disse para mim depois do episódio dos óculos . Na pressa que nos assaltava a todos depois do último toque da sineta. talvez com uma pontinha de perfídia: «Pagar em que sentido?» «Dar-te o dinheiro . Imaginei qualquer intervenção miraculosa de Rino . e pôs-mos na cara.

deviam forçosamente ordenar-se de acordo com uma hierarquia. o Espírito Santo e Jesus. nem para mim olhava. As qualidades in­ telectuais também escasseavam . Na aula não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre as coisas que lia. Con­ cluí que ele tinha razão . como as raparigas da Via dei Mille . Exibi os meus êxitos como se fossem a pulseira de prata da minha mãe . como se via bem durante o almoço em casa de dom Rodrigo . Raramente via as minhas colegas de escola bem vestidas . Contava-lhe tudo em pormenor. sobre as aulas e os professores . Mas isso não aconteceu . E nunca acontecia virem­ -nas buscar à saída rapazes elegantemente vestidos . por timidez ou ignorância. a cabeça estava cheia. recebi como prémio uma bíblia de capa preta. e eu esperava que ela sentisse curiosidade e regressasse à fase em que . Em vez disso . O que fa­ zer. Ela ouvia-me com atenção . sobre as ideias que me ocorriam . Além disso . quando falava comigo nunca abandonava o dialecto . em face da frieza com que o tratara. O único rapaz que gozava de uma fama idêntica à minha era Nino . e nesse caso . ou sobre as relações entre Deus . quando se divi­ diam em três . principalmente nas férias escolares . quem vinha primeiro e quem em último? Veio-me à ideia o que Pasquale me dissera uma vez: que embora a minha escola fosse um liceu clássico . ele limitava-se a ouvir e . Recorria a Lila. Mas quando tentava reflectir com ele sobre os Promessi Sposi. Alfonso era um rapaz diligente . que embora fossem uma só pessoa. depois das fa­ lhas do ano anterior entrara nos eixos . o que ela mostrou foi uma tendência para intervir . ia-se embora de cabeça baixa. não devia ser das melhores . em segredo ou às claras . ou sobre os romances maravilhosos que eu continuava a ir buscar à biblioteca do professor Ferraro . então? Sentia necessidade de me expressar. ou mesmo sobre o Espírito Santo .206 Elena Ferrante le ano os professores . a meu ver. todos eles . mas não sabia o que fazer a tanta competência. e tinha já mais do que suficiente em todas as matérias . mas agora. e em dialecto era difícil conversar sobre a corrupção da justiça terrena. enquan­ to nos interrogatórios usava um bom italiano . ia imediatamente à procura dos livros que lhe permitiriam acompanhar-me . As pautas das notas eram cada vez melhores e até o curso de Teologia por correspondência me correu bem. era como se uma parte dela tivesse posto um freio firme na outra. não dizia nada que estimulasse em mim outros pensamentos . com automóveis mais luxuosos do que os de Marcello ou de Stefano . começaram a elogiar-me de novo . Encontrávamo-nos e faláva­ mos .

mais ou menos. ela. Lenu? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo . que é porteiro da câmara. contei-lhe do meu curso de Teologia e disse. um fluido . De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio . pensei em voz alta. Há guerras . o colar. como quando tentava agarrar qualquer coisa que lhe escapava. estava a preparar-se para sair com Stefano . um casaco novo . no pri­ meiro caso . E tu . até os tornozelos já não eram dois palitos. Mas vi os olhos fazerem-se-lhe pequeninos . bem. E não só naquela ocasião . Uma vez . recordo-me . as pontes e as estradas . Queres ver o colar de pérolas que o Stefano me ofe­ receu?» Foi isto que ela disse . que não há lágrimas que cheguem. e não o Pai . que sentido faz considerar o Espírito Santo separado de Deus e de Jesus? Ou o Espírito Santo é que é a pessoa mais importante e as outras duas são uma sua forma de ser. Há micróbios por todo o lado . que não sabia o que pensar do Espírito Santo . é um só juntamente com o presidente e com o comandante Lauro? E se olharmos para a segunda hipótese . um vestido novo . geralmente de maneira irónica. para impres­ sioná-la com as questões que me andavam às voltas na cabeça. um chapeuzinho . Se eu dizia alguma coisa sobre a Santíssima Trindade . acabava com qualquer possibili­ dade de conversarmos e começava a mostrar-me os presentes de Stefa­ no . Iam a um cinema na baixa juntamente com Pinuccia. Olhava para ela enquanto vestia uma saia nova. são parte da pessoa de quem emanam.» Lila. como um mensageiro? Ou uma emana­ ção das duas primeiras pessoas . A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo . Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis . o que fazes? Um curso de Teo­ logia em que te esforças para compreender o que é o Espírito Santo? Esquece isso . Disse em dialecto: «Tu ainda perdes tempo com essas coisas . e era de facto outra pessoa agora. a voz . «uma entidade subordinada ao serviço de Deus e de Jesu s . mas quase sempre afáveis . o suor. que a sua função não era clara para mim . o Filho e o Espírito Santo . ou não compreen­ do qual é a sua função . só para dar um exemplo . um seu fluido milagroso? Mas . que nos fazem adoecer e morrer. o anel de noivado . juntamente com Deus e o seu filho? Não será o mesmo que dizer que o meu pai .A Amiga Genial 207 de uma penada. en- . deixando-me confusa. A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. até que aquele tom estabi­ lizou e se tornou o seu modo de me fazer frente . «0 que é?» . portanto . Nessa par­ te construímos os edifícios . com meia-dúzia de palavras apressadas . como é possível que uma entidade com funções de mensa­ geiro seja um só . ou então provoca um terremoto que destrói tudo . Rino e Alfonso . mas cada vez mais . quem inventou o mundo foi o Diabo .

Maria. desprovidas de sentido . por portas travessas . que por isso me consideravam óptima aluna. Mas isso só serviu para azedar Pinuccia ainda mais . mas o efeito que qualquer peça de vestuário ou objecto fazia no corpo de uma e no da outra não tinha com­ paração . livros . de Pinuccia. e a mim. Pinuccia não se continha. quando via Lila e Pinuccia prontas para sair. explodia. Entretinha-me a admirar todos aqueles presentes que contrasta­ vam com a casa pobre de Fernando . No papel de noiva. sobretudo . dirigindo-se ao irmão nestes termos: «Porque é que a ela compras tudo . como se tivesse muito que fazer. dizendo que estava a fazer despesas inúteis?» Stefano mostrava o seu meio sorriso tranquilo e não respondia. A primeira a reparar nisso foi a mãe. Aliás .208 Elena Ferrante quanto as coisas que me apaixonavam. a sua maneira de ser já causava irritação quando ela era uma garota macilenta. pouco mais velha do que nós . coerente com o seu feitio conciliador. o sapateiro. Em seguida voltava­ -se para o outro lado . depois de ir beber um copo de água. deixar a luz da cozinha acesa ou a torneira aberta. por exemplo . Lila foi muito invejada e provocou não pouco desagrado . 44 . que iam ao cabeleireiro juntas e compravam roupas idênticas . Ambas traziam claramente estampa­ dos no rosto os seus pensamentos maldosos . ele abria a carteira? Quer vir armar-se em patroa na nossa casa? Se Maria se limitava a um amuo silencioso . experimentava os vestidos e os objectos de valor. arranjava sempre maneira de disfarçar. num tom fingidamente afável . Ela não era feia. com penteados semelhantes . e punha-me a andar. Punha de lado ideias . talvez mais bem feita. murchavam a um canto . Ela própria me falou de uma hostilidade crescente da mãe de Stefano e. como as poucas vezes em que comprei qualquer coisa bo­ nita me criticaste . Quem é que a filha do sa­ pateiro julgava ser? Que poção maléfica dera a beber a Stefano? Como é que assim que ela abria a boca. começou a oferecer também pre­ sentes à irmã. e resmungava: . O que deu origem a um desafio entre as duas raparigas . quanto mais agora. notava quase de imediato que nunca me ficariam bem como ficavam a ela. com vestidos parecidos . Mas . criticava a futura nora por qualquer coisa que fizera dias antes . e. com as quais fazia boa figura perante os professores . que era uma mulher cheia de sorte . não só nunca me com­ praste nada.

Aceitá­ mos . e se Rino não se incomodou nada com isso . Por fim. Ada.» O «connosco» referia-se a eles os dois . mas foi uma noite difícil . não resignada à marginalidade . que agora gostava muito de passar o tempo livre com o futuro cunhado . e sentira-se tratado como um pedinte . Ada. fora da nossa intimidade de amigas . que insistia em ser tratada por Carmen . de propósito para as exibir quando andava pelas ruas ou de automóvel . andava com Michele Solara. tanto mais que um sábado . começaram a ataviar-se . Uma vez no destino . com o descapo- . apaparicámo-lo . com sentimentos diferentes . prin­ cipalmente . sem o admitirem a si próprias . e trabalhava como eles . e ele pareceu satisfeito . em conversas de outro género . Carmela. foram na Giardinetta . em competição com Lila. e Ada. sem o admitirem. Estava tão bem maquilhada. pelo menos Antonio . pois era da idade de Stefano e Rino . depressa começámos a ter problemas idênticos . Stefano e Rino não escolheram uma pizzeria . eles pediram com desenvoltura vários pratos e nós quase nada. Antonio voltou para casa aborrecido . os quatro . que trabalhava na pastelaria e que . fazendo­ -lhe denguices excessivas que desagradaram ao irmão . descobrimos que Stefano já se encarregara do assunto . porque Rino e Stefano falaram sobretudo de dinheiro e nunca se lembraram de envolver. talvez impelido pela sua simpatia por Antonio e Ada. e fizemos o resto do percurso a pé . impor-lhe os velhos hábitos . Nos dias festivos . coisa de gente rica. quanto custaria? En­ quanto eles . mais Pinuccia e Rino . receando que a conta fosse pesada para as nossas possibili­ dades. quando chegou a altura de pagar. Mas o facto mais sig­ nificativo foi que eu e Ada. concluímos que num lugar público. mimámo-lo . Lila parecia inalcan­ çável . Trouxe­ mos Stefano para o nosso velho grupo . tão bem vestida. De início tentámos impedi-la. Passámos quase todo o tempo calados . embora não oficialmen­ te . as raparigas do bairro . com receio de fazer má figura. Antonio e Ada nunca tínhamos estado num restaurante . comprava e pedia para ele lhe comprar coisas bonitas . pediu um vestido emprestado a Gigliola. uma figurinha fascinante em contraluz . Mas não havia competição possível . disse a Lila: «Vê se a Lenuccia e os filhos da Melina amanhã à noite vão comer qualquer coisa connosco . Gigliola. mas sim um restaurante em Santa Lucia. nem como tratá-la. Eu . toda a noite tentou atrair a atenção de Stefano .A Amiga Genial 209 «Voltem cedo . fomos dominados pela ansiedade: como nos vestimos . não sabíamos o que dizer a Lila.» Nós . que parecia a condizer com a Giardinetta . e Gigliola. nós apanhámos o autocar­ ro até à Piazza dei Plebiscito .

com o restaurante de Santa Lucia. desprendia-se dela um brilho . Mas na vida do dia-a-dia não a via. dava a impressão de estar a pôr em prática uma cláusula do acordo existente entre ambos como casal . as jovens que vira a passear na Via Chiaia. estava sempre à coca em qualquer canto da minha mente . e sentir. tomou-se uma senhorinha que imitava os manequins das revistas de moda. deslo­ car-se a pé . Para quem a via. ir buscar uma pizza ao Corso Garibaldi . . já não a ouvia. a raparigui­ nha que aprendera latim e grego sozinha. Mas conhecia a história da panela que explodiu . que era como uma violenta bofetada no rosto da miséria do bairro . pois um novo penteado . o pai e os restantes familiares . para viajar de autocarro . ir ao cinema paro­ quial ou ir dançar em casa de Gigliola. Tive de re­ conhecer que a Lila que escrevera aquelas palavras tinha desaparecido . e como parecia já tão distante . uma nova maneira de maqui­ lhar os olhos ou a boca. pensava repe­ tidamente nela. que ne­ nhum perfil bem desenhado era capaz de a conter de modo definitivo . Ao longo de dias . reli de propó­ sito a carta que ela me enviara para Ischia.210 Elena Ferrante tável . O corpo de rapariguinha. eram apenas contornos mais rebuscados que dissolviam os anteriores . parecia querer demonstrar ao bairro que . se Lila era bonita. com os seus pre­ sentes . para si mesma. e também aquela que desenhara os sapa­ tos agora emoldurados na sapataria. e ela parecia fazer uso do sigilo que ele lhe impunha. Na carta ainda existia a menina que escrevera A Fada Azul. depois da desagradável experiência da passagem do ano . mas fisicamente imprópria para entrar no metropolitano connosco . cha­ mava desmarginação . um vestido novo . À luz do sol surgiu em seu lugar uma jovem mulher que . enquanto ela parecia ter descoberto a alegria de beber da fonte inesgotável da sua beleza. e proteger o irmão . quando ao domingo saía de braço dado com o noivo . Stefano parecia procurar nela o símbolo mais evidente do futuro de bem-estar e de poder que almejava. E recordo-me de que uma noite . em casa. po­ dia sê-lo cada vez mais . de tudo aquilo que confusamente enfrentara e desafiara desde pequena. que devorara metade da bi­ blioteca do professor Ferrara . para se proteger. Eu nada sabia ainda acerca daquilo a que ela em segredo . de que ainda havia vestígios quando tramámos juntas o enredo que a levara ao noivado com Stefano . Naquela noite tomou-se evidente que Lila estava a mudar de catego­ ria. Como era cativante o seu modo de falar de si própria. de meses . A Cerullo nervosa e agressiva parecia ter-se imolado . Stefano . as raparigas da televisão . depres­ sa foi escorraçado para territórios escuros. e dar a ver.

e não exageradamente . Era uma imagem que utilizava com frequência. a Carmela. Sim. inclinada sobre livros esfrangalhados . parecia ter perdido o interesse pelas raparigas . não porque os noivos não voltas­ sem a convidar-nos . apesar de ela ser mui- . Mas preferia sair quando tinha a certeza de que Antonio também estaria presente. Eu . quando os trabalhos de casa não me tiravam todas as energias . Fazia muito pouco caso de Ada. ia-me transformando numa ra­ pariga desleixada. a comer uma pizza com o nosso antigo grupo . ora com uma desculpa. que dava vontade de acariciar. Sabia . tanto eu como ela. embora tivéssemos tido a mesma infância.tal­ vez esperasse . havia algum tempo que tinha uma certa dedicação por mim. Mas tinha cabelo negro encaracola­ do . e . com o passar dos meses . Ela. sentia que a sua forma anterior se rompera e relem­ brava aquela passagem tão bonita da carta. Porém.que nenhuma forma seria capaz de conter Lila. depois de Lila o rejeitar. dedos robustos com os quais uma vez desaparafusara sem esforço os parafusos de um pneu furado de um carro velho que Pasquale arranjara. Via-a da janela. mas porque nos esquivámos . Quanto a Pasquale . à sua maneira indiferente . Além disso . penteada como uma diva. não houve outras oportunidades idênticas . era o único que dava pela minha presença. ora com outra. embora vivêssemos ambas o nosso décimo sexto ano de vida. as poucas vezes que abria a boca dizia ditos espirituosos . lenta. Depois da desagradável noite no restaurante em Santa Lucia. mas quando estava presente dedicava­ -se . de repente encontrámo-nos em mundos diferentes . que exalavam o mau-cheiro dos volumes comprados com grande sacrifício no mercado de coisas usadas . os dentes azulados aqui e ali . passava de braço dado com Stefano. tinha uma vida da qual pouco ou nada sabíamos . deixava-me levar a um baile caseiro .A Amiga Genial 211 Embora continuássemos . cheia de atenções . caixa-de-óculos . despenteada. as mãos grosseiras . ou arranjados pela professora Oliviero . a morar no mesmo bairro . cada vez que detectava uma fractura dentro dela ou dentro de mim . fazia-me uma corte discreta. com vestidos que a faziam parecer uma actriz ou uma princesa. Enzo raramente aparecia. a panela de cobre rebentada e retorcida. embora muito tímido . a pele do rosto era brilhante e cheia de pontos negros . 45 . e que mais cedo ou mais tarde tudo voltaria a despedaçar-se .

por não ter sabido educar bem a filha. olhando em volta. em vez de te zangares com o teu amigo Rino . e depois . mais cedo ou mais tarde acabávamos por falar de Lila. embora desse a impressão que ninguém queria men­ cionar o nome dela. tirava-lhe a alegria de viver. era por natureza um rapaz de bons sentimentos e ajuizado . uma noite . Os seus males de amor roíam-no por dentro . em vez de aceitar que Marcello fosse lá todas as noites cortejá-la. E dizia. sem se exceder. qualquer um deles gostaria de estar no lugar de Stefano . e a prova é que tu a criticas . e se a Lila não tivesse arranjado maneira de se livrar do Marcello . Pasquale tomara o partido de Rino sem hesitar. em menos de nada tudo pegava fogo . nunca encontraria um estabelecimento que lhe ficasse com eles . embora não lhe tocassem nem com um dedo . fora pessoalmente à sapataria renovada de Fernando e o tinha censurado . como é natural . No entanto . por fim . que ela era uma rapariga demasiado inteligente para se ter realmente apaixonado por um hipócri­ ta de um nabo como Stefano Carracci . e solas e palmilhas . Dizia que ela devia ter fugido de casa. Pasquale pro­ metera a si mesmo que . desaprovava explicitamente as críticas de Pasquale . e . e ver Lila e Stefano juntos . E concluía fazendo . Dizia que ela devia ter partido a televisão com um martelo . iria. com alguns companheiros seus de confiança. Quando se soube que Silvio Solara. sem contar que . tinham confrontado Rino . Os rapazes sentiam-se todos um bocado desiludi­ dos .212 Elena Ferrante to delambida com ele . o haviam coberto de insultos. comentara que ele podia fazer todos os sapa­ tos que quisesse . Se não sentisse um ódio antigo pelos Solara. e formas de madeira. mas onde os ia vender depois . Mas o mais infeliz era Pasquale . Contestava-o . não é fácil ir contra a vontade das pessoas que estimamos. e pez . teria de se casar com ele . em vez de se sentar a vê-la juntamente com quem se sabia que a comprara só para a ter a ela. mesmo só de relance . e tinha o cuidado de controlar as suas reacções e de tomar o partido que lhe parecia justo . deitar fogo ao bar­ -pastelaria Solara. Mas a respeito de Lila era crítico . Nessas ocasiões eu era a única que não ficava calada. com tanta cola que ali havia. Nesses serões . com todo aquele fio . dizendo coisas do género: não é fácil fugir de casa. pai de Michele e de Marcello . nada é fácil . embora repetisse constantemente que já não podia olhar mais para as nossas caras feias . pois foi ele que a meteu na­ quela alhada com o Marcello . provavelmente ter-se-ia posto publicamente ao lado de Marcello contra a fami1 ia Cerullo . Quando se soube que Marcello e Michele . caso houvesse um incêndio na sapataria Cerullo .

sem papas na língua.» «E o dinheiro que investiu na sapataria dos Cerullo veio-lhe da char­ cutaria?» «Porquê . para dar estabilidade ao irmão e ao resto da família. e as negociatas e a usura e todas as porcarias de antes e depois da guerra?» . para além do mais . dava-me razão .A Amiga Genial 213 o elogio de Stefano . num tom e numa linguagem que . a ela e a toda a farm1ia. ainda antes de se casar. que de todos eles . palavra puxa palavra. Carmela disse . creio . Eu estava a dar início à habitual defesa oficial . e . A Lina arma-se em senhora à custa do sangue de toda a gente pobre deste bairro . observei eu . o que te parece?» «Veio do ouro das mães de família. e eu sentia-me orgulhosa de ter refutado todas as críticas feitas à minha amiga. todos nos rimos . uns mais . «Sim. desculpa lá. outros menos. quan­ do Pasquale me interrompeu e disse: «A questão não é essa. o que significa "deixa que a sustente"?» Bastou-me ouvir aquela pergunta. Depois . Pasquale corou . Estávamos todos . ora. e se a tua amiga agora aqui estivesse . Ada. quando Enzo se intrometeu com o seu destaque habitual : «Desculpa. Pascà.» «Ü Stefano é simplesmente um comerciante que sabe vender. que conheciam Lila desde peque­ na e gostavam dela. E deixa que ele a sustente . disse que achava Lila ridícula por andar pelo bairro sempre acabada de sair do cabeleireiro e vestida como a princesa Soraya. A questão é que a Lina sabe de onde veio aquele dinheiro . os calara a todos. que achava que Lila aceitara Stefano por dinheiro . Fazia-se então um profundo silêncio . queres trazer outra vez à baila dom Achille e o mercado negro . Enzo também . num local onde uma pizza margherita e uma cerveja custavam cinquenta liras . a comer uma pizza no Rettifilo .» «Ora. fora o único que tivera a coragem de apoiá-la e de ajudá-la. embora espalhasse veneno para as baratas em frente da porta de casa. que dom Achille tinha escondido dentro do colchão . Mas uma noite a discussão tornou-se feia. para saber que as coisas iam acabar mal . Quem é que paga. ficou atrapalhado: «Sustentar significa sustentar. quando a Lina vai ao cabeleireiro . quando compra roupas e malas? Quem é que investiu dinheiro na sapataria para que o sapateiro possa brincar aos fabricantes de sapatos?» .» Eu ia responder-lhe . Dessa vez foram as raparigas que começaram.

«Desculpa. e com toda a probabilidade a amavam e a desejavam ainda. principalmente entre os rapa­ zes que em segredo ou explicitamente a tinham amado . que que­ ria levantar-se . quero saber o que é que o Pasquale chama a uma mulher que se vende .» Antonio saltou da cadeira. e disse aquilo que havia meses tinha vontade de dizer. A Lina comportou-se e está a com- portar-se como uma prostituta. a tinham deseja­ do . depois tudo se normalizou .» Nessa altura tentei de novo falar.» Aqui . Enzo . Anta ' . tu sabes que ele quer bem à Lina.» Pasquale disse .» Enzo fez-lhe sinal para se calar. é uma crítica que todos nós temos von­ tade de fazer. mas sim que se vendeu?» Ficámos todos calados . Contei esta altercação para mostrar como se passou aquele ano e qual o clima que as opções de Lila originavam. nem está para casar com o Stefano . Limitaram-se a ficar amuados uns dias . Antonio gaguejou: «Claro que não .» Impedimos Pasquale e Antonio de o seguirem. deixa o Pasquale responder. E esteve-se marimbando para o fedor do dinheiro que gasta todos os dias .» Enzo respondeu . chamo-lhe prostituta. de gritar a todo o bairro: «Prostituta. tu estás a dizer que a Lina não se apaixonou . não .» E dirigiu-se para a saída. 46 . vendeu-se . Enzo . o Pasquale não quer dizer isso. Lenii . desta vez em voz alta: «Eu . anunciando: «Espero pelos dois lá fora. não está noiva. «Tu cala-te . agarrou num braço de Pasquale . O Pasquale está apenas a dizer uma coisa que não é uma acusação . com ar sombrio: «Sim. não exageremos. é difícil dizer a embrulhada de sentimentos em que me encontra- . quase num sussurro: «Anda lá para fora.» Enzo pôs-se em pé e disse . Quanto a mim. e disse: «Então . não aconteceu nada. mas Enzo tocou-me no braço . como todos nós queremos . Pasquale teve um impulso de violência que todos lhe lemos nos olhos .214 Elena Ferrante «Üu seja.

que as ti­ nha pendurado ali justamente para esse fim. Sabia-se que Stefa­ no ia com ele e olhava muito tempo para os desenhos de Lila emoldu­ rados na parede . que nunca tivera nenhuma tabuleta. em suma. para Lila. . Passava em frente da velha oficina de Fernando e experimentava um sentimento de vitória por ela. gostava de me ouvir falar com a autoridade de alguém que anda a estudar maté­ rias difíceis . ligando um passo a outro passo como se fosse um problema de matemática. Lila. sorria de si para si e dizia serenamente que queria os sapatos exactamente como se viam nas folhas quadriculadas . como era evidente . até mesmo com algum exagero . celebrada por Stefano só por amor. e que por isso Rino ia ter com Stefano e o arrastava até à ofi­ cina para que fosse ele a dar ordens precisas ao pai . É uma felizarda. Sabia-se que Lila respondia que já não queria saber do assunto . que Lila estivera por trás de todas as movimentações de Stefano . até chegar àquele re­ sultado: ter estabilidade . Sabia-se que pai e filho discutiam muito . por ser adorada por aquilo que é e por aquilo que sabe inventar. por ser tão amada e por amar. pespon­ tar. Sabia-se que Fernando afirmava que os sapatos . primeiro . Mas sabia que também seria capaz de contar com o mesmo prazer. sobretudo os de mulher. dar estabilidade ao irmão . Eu deitava uma olhadela e seguia em frente . foram uma fantasia. e tudo parava e recomeçava-se . Esta trabalheira toda é o re­ sultado final de uma veia artística dela. e que Fernando se apercebia das alterações e voltava a alterar. vendê-los não tem nada a ver. Fernando . A sapataria. e eu com ela. conseguira o que queria. agora exibia por cima da velha porta uma espécie de placa com a palavra «Cerullo» . Sabia-se . o dinheiro não tem nada a ver. e que depois Rino as alterava. não podiam ser feitos como Lila os inventara. Mas ficavam-me grava­ dos os pequenos quadros pendurados nas paredes . e dava-me gosto fazê-lo . parágrafo . martelar e esmerilar desde manhã até alta noite . tentar realizar o pro­ jecto da fabricação de sapatos . debruçados sobre as mesas . Sabia-se que Rino afirmava o contrário e que ia ter com Lila e lhe pedia para intervir. e chegava Stefano e ponto final . que tudo andava ao rallenti e que os trabalhadores . agora que o afastou dos perigos . Defendia Lila e m todas a s ocasiões . É uma felizarda. acabavam aos gritos e a partir coisas .A Amiga Genial 215 va. e também ter onde ir buscar dinheiro para mandar consertar os meus óculos se eles se partissem. recebiam ins­ truções de Fernando . Agora que deu ao irmão o que o irmão queria. Rino e os três aprendizes estavam ocupados a juntar. Dizia para mim: «Aqueles desenhos . que não passavam de uma fantasia de criança.

Ela respondera-lhe com raiva: «De nenhum tipo . pois metia-lhe nojo. Fiquei decepcionada. estás doido?» Stefano apressara-se a res­ ponder que acreditava nela. algo de muito humilhante .» Mas não aconteceu nada. sem as asperezas de sempre . me chegaram aos ouvidos boatos insultuosos a seu respeito . Mas o Stefano sabe que quando o Marcello ia a casa dela. Descobri que ela estava mais bem informada do que eu acerca do que era um broche . não quisesse ver mais nada. devido à maneira como crescera e devido ao feitio que tinha. que nunca tivera dúvidas . Parecia adocicada. para me dizer que nunca faria essa coisa a homem ne­ nhum. era melhor contar-lhe o que me disseram. pela boca de Gigliola Spagnuolo . Cada vez que voltava da escola.216 Elena Ferrante inventará outra coisa de certeza. ela lhe fazia um broche todas as noites?» Eu ignorava o que fosse um broche . filhos . Percebi isso pelo facto de ela ter usado uma expres­ são mais clara. quanto mais a Marcello Solara. Lila assentou no papel de noiva de Stefano . quando eu arranjava algum tempo . pensava: talvez seja melhor avisar Lila. quando . Mas por fim decidi-me. me pareceu sempre satisfeita com aquilo que era. mas o seu som sugeria-me só uma espécie de afronta. Depois disse-me que o boato já chegara aos ouvidos de Stefano . Alguma coisa há-de acontecer. pelo menos ela ficava a saber de tudo.» Esperei que aqueles boatos não chegassem aos ouvidos de Stefano . como se já não visse nada para além disso . Por isso não quero perdê-la de vista. e mais . a não ser o casamen­ to . uma casa. e que ele lhe perguntara que tipo de relações houvera entre ela e Marcello durante o período em que ele frequentara a casa dos Cerullo . em dialecto: «A tua amiga agora parece uma princesa . «Não é verdade .» «Ai sim? E também conta mentiras ao irmão?» «Foi o Michele que te disse?» «Sim. antes que aconteça alguma coisa má. estaria preparada para enfrentar a situa­ ção . Mas receava que ela se enfureces­ se e que .» «É um mentiroso . Gigliola disse-me com rancor. Dei-me conta disso algum tempo depois . se dirigisse directamente a Marcello Solara com o trinchete .» «0 Marcello assim o diz . E até nas conversas que tínhamos . Conhecia a palavra desde miúda. e que lhe fizera .

que lhes estavam a fazer os Solara. «Sim. com a aprovação de Rino . O que se estava a passar? Não compreen­ dia.A Amiga Genial 217 aquela pergunta s ó para que ela soubesse que Marcello andava a dizer porcarias a respeito dela. admirada. Mostravam gentileza e cortesia com toda a gente . mesmo sem querer. de comum acordo . so­ zinhos mesmo à noite . realmente intolerável . Não reagiam às ofensas . arrancar-lhe a velha pele e impor-lhe uma nova. nos romances que lia. adequada à que estava inventando para ela? . Mas de que servia isso? Falaram e voltaram a falar e decidiram. Mas ela e Stefano . e os Solara continuaram a divulgar obsce­ nidades . e pensava: vão sei lá para onde sem ninguém a acompanhá-los . fa­ zendo o que lhes apetece sem dar importância ao que as pessoas dizem . parecia que nenhuma das velhas regras era válida para eles. riam. «Um degrau mais acima?» . Fazer de conta que não existem. todos . o pai . Saí de lá estupefacta. beijavam-se na boca. Quando saíam os dois a passear. de quem. sempre vestidos como actores de cinema.» E assim . subir um degrau mais acima do que os Solara. Era Lila que andava a persuadir Stefano àqueles comportamentos que faziam deles o casal mais admirado e mais falado do bairro? Era aque­ la a última novidade que ela inventara? Queria sair do bairro continuan­ do no bairro? Queria arrastá-lo para fora de si mesmo . Stefano continuara entregue ao seu trabalho sem defender a honra da noiva. Lila reparara nisso e discutiram o assunto du­ rante muito tempo . com a aprovação dos pai s . com o braço dele em volta dos ombros dela. Estava perplexa. Via-os às voltas no descapotável . o avô . perguntei-lhe . onde pensavam que viviam? Comportavam-se de uma maneira que não se encontrava sequer nos poemas que eu estu­ dava na escola. como se fos­ sem John e Jacqueline Kennedy em visita a um bairro de indigentes . e da lógica do bairro . brincavam. Mas entretanto fizera uma expressão ausente. Lila continuara com a sua vida de noiva sem recorrer ao trinchete ou a outra coisa. Confessara-lhe que também ela sentia uma necessi­ dade de vingança. é influenciado por cenas de chacina que se lhe formam na mente. mais coerente com o mundo que conhecíamos desde crianças . nem àquela. Parecia-me mais claro o comportamento dos Solara. o irmão . e não às escondidas . o que tinham em mente . ignorá-los: o Marcello .

Ele . porque se enfurecem tanto? Lila não é irmã deles . todos eles . Enzo . Enzo .» Afastaram-se .218 Elena Ferrante 47 . como se fossem eles os noivos . Pasquale continuou a vida de pedreiro . muito mais do que Stefano . um dia. um pouco perturbados . pare­ ceu-me ridículo . e sempre acompanhados por quatro ou . pernas . mal­ tratados . que Enzo se tornava fisicamente mais compac­ to . e fosse um bloco de matéria dura. gente vinda de fora. que havia pouco tempo dissera o que dissera. silêncio . Já os Solara. Carmela. Mas eu e Carmela sabíamos muito bem que os agressores eram só três e ficámos muito preocupadas . no meio .» Enzo não pestanejou . eu a conversar com Antonio . perguntei-me . Enzo nas suas voltas com a carroça. mais do que Stefano . com os nossos ouvidos: «Eu parto a cara àquele cagalhão . por dez pessoas pelo menos . Aconteceu num domingo . Fora reduzido a pedaços . principalmente . Antonio a de mecânico . Esperámos pelas inevitáveis represálias . Mas tomou­ -se evidente que as coisas tinham sido bem feitas . três . vagueámos indolen­ temente . Porquê . pescoço . reuniram-se a nós . Dali a pouco acompanharam-nos a casa. Juravam que tinham sido espancados numa ruazinha escura. um de cada lado . a certa altura levantou a voz e ouvimo-lo bem. mas não sabiam dizer por quem.» Depois . E não só: os dois irmãos haviam sido agredidos com selvajaria. quem não lho permite de certeza é o abai­ xo-assinado . Antonio disse: «Constou-me que o Marcello Solara anda a dizer a toda a gente que a Lina esteve com ele . Pasquale . durante algum tempo só se deslocavam a pé . nem sequer prima. Mas se o Stefano lho permite . Vi-os afastarem-se . Pasquale reagiu logo: «Esteve como?» Antonio ficou embaraçado . No dia seguinte e durante muitos dias houve um grande falatório acer­ ca do II 00 dos Solara. e respondeu: «Tu percebeste . Pasquale e Antonio andávamos a passear na rua larga. Vi e ouvi que Pasquale se enfurecia cada vez mais . dois . como se já não tivesse braços . que era o mais baixo . devido à minha presença e à de Carmela. Antonio e Pasquale . anda a fazê-la passar por prostituta. falaram um com o outro . Carmela entre o irmão e Enzo . Tudo reentrou bruscamente nos carris habituais quando os boatos a respeito de Lila chegaram aos ouvidos de Pasquale . quando eu . No entanto sentem-se na obrigação de se indignarem .

mais prepotentes do que antes . Sinal de que Lila talvez tivesse ra­ zão . e suportara os contactos fugazes e imundos do pai dele . Juntamente com Carmen e Ada critiquei Ste­ fano e também Rino . O facto de já haver uma data concreta deu também um carácter concreto à encruzilhada que iria afastar as nossas vidas uma da outra. Senti vergonha de mim. claro . O professor Gerace e a professora . contra uma porta. consumissem Ste­ fano e o levassem a romper o noivado . e outro . permitindo que a raiva pérfida de Pinuccia. um estilo que eles nem eram capazes de imaginar. anos antes . Era tudo . Pensei na minha magra experiência amo­ rosa. Senti-me uma sombra. Beijara Gino uma vez . De­ pois o tempo passou . Desisti de me preparar para o exame . em Março . mas agora que fora fixada uma data. se casaria. e depois mais outro . Mas suce­ deu algo que me fez sentir melhor. que continuavam a voar de boca em boca por todo o bairro . Contei os meses . aos dezassete . Aquela notícia abalou-me . e dentro de um ano . Nove meses talvez fosse muito tempo . Já era previsível . eram nove . Senti mais forte do que nunca a insignificância do meu percurso escolar. pareceu-me ter batido . Lila. Gente daquela laia tinha de ser combatida através de um estilo de vida superior. 48 . teria um marido . com dezasseis anos . ela anun­ ciou-me que na Primavera.A Amiga Genial 219 cinco amigos . os boatos espalhados por Marcello Solara. E o pior foi não me restarem dúvidas de que a sorte dela seria melhor do que a minha. como a Fama na Eneida . Quando Lila me anunciou o casamento estávamos em Junho . por terem feito de conta que nada acontecera. a hostilidade de Maria. ainda com dezasseis anos. chorei de desespero . a poucas horas das provas orais. só para pare­ cer invejável aos olhos de Lila. Tive pensamenfos mesquinhos . Marcello e Michele compraram uma Giulietta verde e recomeçaram a comportar-se como donos do bairro . mas não conseguia encontrar um desígnio coerente no afastamento dos nossos destinos . Senti orgulho nos meus amigos . ela agora já não atribuía qualquer importância aos livros. por sua vez . 1 2 de Março . não dormi nessa noite . Confesso que me deu prazer vê-los naquele estado . Quando estavam a decorrer os exames do segundo ano do secundário . Sãos e sal­ vos . vi claramente que o iniciara. por distracção . E no fim de contas . e outro . mal roçara nos lábios de Nino . No dia seguinte fui fazer o exame sem vontade nenhuma. um filho .

Gerace . mas não deram importância nenhuma ao acontecimento . naturalmente . para ela se lembrar de me arranjar a tempo os livros para o próximo ano . diz-lhe que eu não estou bem e que tens de me ajudar em casa. Senti-me a sua aluna mais bem conseguida e fui-me embora aliviada. das frases muito rígidas . como profes­ sora. Em vez disso . Quando ouvi as minhas palavras na voz do professor. mas em minha casa ninguém se admirou nem me felicitou .» A professora elogiou-me . Greco . lugares onde depressa desaparece . e fiquei contente . Foi a mágoa. em especial . E só ao ouvi­ -lo me apercebi daquilo que procurara fazer nos últimos meses . Não fez qualquer referência à minha necessidade de descanso . Senti que a admiração dele era genuína. tentar uma escrita fluente e sedutora como a de Lila na carta de Ischia. O único que me felicitou sem meios termos foi Alfonso . Depois pronunciou uma frase que recor­ darei sempre: «A beleza que a Cerullo possuía na mente desde pequena não encontrou saída. E aos meus professores parecia algo realmente fora do normal . Estava com o noivo . enquanto a professora Galiani ouvia e aprovava em silêncio com a ca­ beça. não só porque tam­ bém ela já tinha como certo o meu bom aproveitamento . como se a professora se tivesse apercebido de que alguma coisa em Lila se desperdiçara porque ela. e é como se nunca a ti­ vesse tido . não a protegera e não a desenvolvera bem. para minha surpresa. Passei para o primeiro ano do liceu com dez em tudo . começou a falar de Lila. mas também porque não estava bem de saúde . às co­ xas e ao cu . com sete em tudo . que fazia parte do júri . A minha mãe achou o meu sucesso escolar perfeitamen­ te natural . o problema que tinha na boca inco­ modava-a muito . a minha mãe gritou: «E se ela te quiser mandar outra vez para Ischia. cada vez que tinha de escrever: livrar-me do meu tom artificial . ao peito . elogiaram muito o meu trabalho de Italiano . Vi que estavam satisfeitos . nem à prima Nella. e foi-lhe toda parar à cara. isso sim . disse que a minha exposição melhorara muito . Fez questão de ler uma passagem ao resto do júri . o charcuteiro .» Mas não foi isso que me impressionou . nem a Ischia. que também passou . desde que a conhecia. Não era a forma de escrever de Lila. Quando ia a sair. Vira-a na rua. de longe . o .» Nunca a ouvira dizer um palavrão . era a minha.220 Elena Ferrante Galiani . mas sem entusiasmo . e depois gaguejou: «Desculpa. compreendi que tinha conseguido . Naquele dia disse «CU» . e o meu pai disse-me que fosse imediatamente a casa da professora Oliviero . disse .

Fui falar com a dona da papelaria.» No regresso a casa falámos muito do casamen­ to do irmão e de Lila. casaria contigo . Como me sentia muito à vontade com ele .» «Perder custa muito . como se se tivesse esquecido de que eu era rapariga e que não devia tocar-me . ela começou a rir. mas não agora. Levou tempo a responder-me . pediu desculpa. levado pelo entusiasmo . disse-me que voltasse no Outono . largou-me de imediato . Desatámos a rir. se preci­ sava de uma caixeira.» «Sim. todos vocês tinham medo do meu pai .» Também isso me deu prazer. devia procurar um trabalho para o Verão . Também não precisava de mim. fez uma coisa inconveniente . impossível . sim . Aliás . um beijo ruidoso .» «Em que sentido?» «No sentido que o meu irmão tem mesmo muita coragem para casar com ela. e que se tivesse sido eu a escolher. Achei intolerável que todos tivessem terror do meu pai . Não fomos .» «A Lina também. Apertou-me com força contra ele e deu-me um beijo na face . dez a tudo . sem qualquer interes­ se .» «0 que queres tu dizer?» «Quero dizer que tu és melhor. Perguntei ao vendedor de jornais. Diante das pautas afixadas . Depois disse: «Lembras-te daquele desafio que nos obrigaram a fazer na escola?» «Quem é que se conseguiria esquecer?» «Eu tinha a certeza de ganhar. mas não se conteve e gritou: «Dez a tudo. Voltei para casa a chorar.» «Estavas apaixonado por ela?» «Estás a brincar? Sempre me fez sentir acanhado . Perguntei a dom Paolo . e aquela miúda não . irmos à praia juntos pelo menos uma vez .A Amiga Genial 22 1 que me deu prazer. eu em primeiro lugar. o dono da mercearia da rua larga. durante algum tempo tentou não te vencer. Depois ficou atrapalhado .» «Não foi por isso . mas depois decidiu vencer e humilhou-me . mais por decisão da minha mãe do que do meu pai . na presença dos nossos colegas e dos respectivos pais . Precisava. e eu . quando nos despedimos ainda ríamos . quando reabriam as escolas . Nada. Nos dias seguintes andei às voltas pelo bairro . Prometemos encontrar-nos . Fiz menção de me ir embora e ela chamou­ -me e disse: . Ele estava condenado a passar o Verão na charcutaria. per­ guntei-lhe pela primeira vez o que pensava da futura cunhada.

mar azul. ficar bonita por apanhar sol como no Verão pas­ sado . nos autocarros à cunha. em fato-macaco. Ia ganhar dinheiro para os meus pais . um trabalhador. e ele deve ter-me lido no rosto que aquele era um momento feliz . pareceu-me uma coisa nada diferente da aprovação com dez em tudo . Poucos passos dera. e de receber uma remuneração pela tarefa de levar as filhas da senhora da papelaria ao Se a Garden . um adulto . sol e di­ nheiro . intuindo que a minha disposição era favorável . como se a minha vida ti­ vesse dado uma volta decisiva. Tê-lo a ele como namorado . Ele vira-me passar e correra para me apanhar. Teve início o meu trabalho . Eras capaz de levar as minhas miúdas a banhos?» Saí da loja muito feliz . A senhora estava disposta a pagar-me . sentindo-me só e feia. e levava­ -as para aquele sítio cheio de cor. Lila ia dar um salto definitivo para fora da minha vida. mulhe- . e também o meu namoro . me perguntou se eu queria namo­ rar com ele . Fiquei contente . Como tudo é agradável . pensei . embora não sentisse por ele mais do que um pouco de simpatia. Contei-lhe logo a respeito da senhora da papelaria. nunca mais poderia acompanhá-la. Mar. do qual nada sabia. 49 . chamava-se Sea Garden . da idade de Stefano . estudantes . embora amasse outro .e a pagar-me bem . evitara-o sempre e nem fora ver se ele passara no exame e com que notas . plataformas de cimento . e que tinha um nome estrangeiro . Dirigi-me para casa muito excitada. e essa impressão de horas felizes consolidou-se . cheio de nódoas de gordura. qualquer pessoa que tivesse encontrado naquele momento de alegria seria bem acolhida. durante todo o mês de Julho e os primeiros dez dias de Agosto . e eu todas as manhãs atra­ vessava a cidade com as três meninas . Teria de ir todos os dias a um sítio entre Mergellina e Posillipo . disse-lhe logo que sim. tomar banhos de mar. Duran­ te meses estudara afincadamente . Mas agora sen­ tia-me bem e queria sentir-me ainda melhor. guarda-sóis . mulheres abastadas com muito tempo livre . Embora tivesse a certeza de amar Nino Sarratore . tenho confiança em ti .222 Elena Ferrante «Tu és uma rapariga muito séria. Lenu . quando o dia está bom e todas as coisas boas parecem estar só à nossa espera.se eu levasse à praia as suas três meninas . A senhora da papelaria arranjou-me uma espécie de passe . Quando Antonio . Encontrei Antonio .

com um lindo biquíni vermelho . Também entretinha as meninas com palhaçadas e mergulhos de atleta. eu estendia-me ao sol a ler e dissolvia-me no interior das páginas como uma medusa. Mas nunca me senti culpada. sempre atenta para que não escorregassem e partissem os dentes na pia. Numa dessa ocasiões . Aceitei aquelas práticas com duas perguntas claras no pen­ samento . grosso . Uma tarde . eu própria lhe apertei o pénis . e também detestava queimar-se ao sol . ia comigo e com as meninas para o Sea Gar­ den . enquanto nos beijávamos . Mas fazia-o por mim. Olhava pela meninas . Não me viu e eu não soube se devia chamá-la. Trazia óculos de sol e uma . por um lado . Enquanto ele brincava com elas . pois ao longo do dia não era possível beijarmo-nos ou tocarmo-nos . duro . e quando ele o tirou para fora segurei-o na mão com prazer. os amores entre Lila e Stefano . Tratava com bons modos os banheiros que tentavam meter conversa. salgada da água do mar. tinha medo de ser vista pela minha mãe e . Gastava muito dinheiro com falsa desenvoltura. que o prazer que eu lhe proporcio­ nava era de longe superior àquele que ele me dava. De­ pressa o deixei tocar-me nos seios e entre as pernas . Era Lila. embora ganhasse muito pouco . deixava-as beber tempo sem fim do repuxo de uma fonte de pedra. difícil de classificar. Já ha­ bituada a ter os olhares dos homens pousados nela. tomava longos banhos com elas . levantei os olhos um instante e vi uma rapariga alta.A Amiga Genial 223 res vistosas com rostos vorazes . para acompanhá-la ao guarda-sol . exibindo o fato de banho que Nella me fizera no ano anterior. Antonio acabava por ser apenas um fantasma útil para evocar. que o pai de Nino me provocara. manifestava uma tal dependência absoluta de mim por aqueles escassos contactos nos pauis . ao domingo . Por vezes . e por outro . Íamos até aos pauis por ruas secundárias . a emoção forte . elegante . talvez ainda mais . Alimentava-as . Ele era­ -me tão grato . nem sequer o jovem banheiro que a precedia. Devolvia as meninas à mãe e corria ao meu encontro secreto com Antonio . queimada do sol . esguia. A primeira era: Lila faz estas coisas com Stefano? A segunda era: o prazer que sinto com este rapaz é o mesmo que senti na noite em que Donato Sarratore me tocou? Em ambos os casos . que depressa me convenci que ele é que estava em dívida para comigo . sem qualquer recompensa imediata. Foi com ele que troquei os primeiros beijos verdadeiros . só para estar comigo . brincava com elas . Regressávamos ao bairro no final da tarde . escondido dentro das calças . movia-se como se naquele lugar apinhado de gente não estivesse ninguém . pela professora Oliviero .

a que ela respondeu com idêntica animação . Beijou Lila nos lábios . gelados .224 Elena Ferrante bolsa de tecido colorido . Stefano continuava sentado a olhar para o mar. recordo-me de que o romance era Oblo­ mov . Mais uma vez . Lila já lá não estava. Lila foi comigo . conversa em que Antonio fez um brilharete . voltando­ -se de imediato para chamar Stefano . Quando ergui de novo os olhos . Disse-lhe quanto . quando se referiu a Antonio: «Ele conhece o teu valor?» «Somos namorados há vinte dias . captar o sentido das palavras . na mão a carteira. tanto so­ bre uma coisa como sobre a outra. Não estava. «É pouco . para ver se estava a brincar.» «Deves dar mais valor a ti . sanduíches . enquanto Antonio olhava pelas filhas da senhora da papelaria. não demorei a olhar de novo naquela direcção . como os príncipes fazem com as belas adormecidas e. Ainda não lhe contara a respeito do meu traba­ lho . durante alguns minutos . perguntou-me .» «Darei mais valor a mim quanto tiver de levar os teus filhos à praia. tentei ler. mas já sem conseguir ler. Entretanto Stefano estava a chegar. Todavia.» «A minha mãe acha que ela me paga de mais. Tomámos banho os três juntos . bebidas . por sua vez . nem de Antonio . e voltei a olhar para o livro . mas logo a seguir brincou . e as crianças abandonaram imediatamente Antonio e viraram todas as atenções para ele . Esperemos que ela me chame .» «Dar-te-ei baús cheios de moedas de ouro . Lenu . A certa altura Stefano levou-nos todos ao bar e pediu tudo o que era bom. «Quanto te paga a dona da papelaria?» . fato de banho azul. sentou-se também numa cadeira de repouso . e Antonio apontava para mim. Foi um dia de aparente alegria. os cigarros. muito branco .» Olhei para ela. pen­ sei . sei quanto vale passar o tempo contigo . Estava havia muito tempo habituada a auto­ disciplinar-me . levei dali as garotas para que não os incomo­ dassem. o isquei­ ro . O banheiro abrira-lhe a ca­ deira de repouso e ela estava sentada ao sol . e desta vez consegui realmente . Quando os dois rapazes começaram a falar de não sei que problemas do descapotável . Procurei-a com o olhar e vi que estava a falar com Antonio . Fiz-lhe um adeus animado .» «Gostas dele?» . É provável que receasse a opinião dela.

paciência. não . Pensei que se Lila voltasse a aparecer no Sea Garden lhe perguntaria o que se passava entre ela e Stefano quando se afastavam sozinhos no carro . eram horas de levar as meni­ nas à mãe . talvez nem tudo esteja terminado. mesmo depois de casada. Afeiçoei-me a Antonio quase sem dar por isso .A Amiga Genial 225 «Não . Depois o sol começou a declinar. . com os pés na água. pensei: mesmo que esteja a gozar comigo . por exemplo as coisas que lhe atribuíam os boatos lançados pelos dois Solara? Não tinha mais ninguém com quem fazer comparações senão com ela. Mas não houve oportunidade de lhe fazer essas pergun­ tas . mas mais do que de ti . paciência. se não me perguntou que livro estou a ler. Melina e Ada lavavam as escadas dos prédios . respondeu . séria: «Imenso .» No entanto . repreendi-o . nos sentimos à vontade . milagrosamente . ao sol . Foi um dia maravilhoso . sentadas no cimento quente .» «E então?» Desafiei-a com o olhar. é bom conver­ sarmos assim. alguma coisa perdurará en­ tre nós . mais do que do Rino?» «Mais do que de todos . Disse-lhe: «Venho para aqui todos os dias . «Porque é que tu pagaste?» . e ele ganhava quatro liras na oficina. ela nunca mais foi ao Sea Garden . zangada. Os nossos jogos se­ xuais tomaram-se um pouco mais audazes . davam-nos mais prazer. «Porque eu e tu somos mais bonitos e mais finos» . Stefano dirigiu-se à caixa. Lamentou muito e agradeceu calorosamente . que concordou . e ficou a saber que Antonio já pagara tudo . 50 . «Tu gostas do Stefano?» Respondeu . Porque não vens também?» Entusiasmou-se com a ideia.» «Estás a gozar comigo. Faziam as mesmas coisas que eu e Antonio fazíamos . assim que Stefano e Lila se afastaram no descapotável . ou mais ainda.» «Mais do que dos teus pais . falou com Stefano . Já na rua. em que todos . se não quis saber como me correram os exames da secundária. quase lhe gritei em dialecto .

com a impressão de ele ter entrado pela janela e se encontrar no meu quarto . Pensava falar com ele calmamente . mas na segunda metade de Agosto piorou declaradamente . Com o calor. A dona da papelaria ficou muito satisfeita com o modo como eu tomara conta das meninas . mas agora a escola vai reco­ meçar e este ano vou para o primeiro ano do liceu . . eu não gosto de Antonio . vai ser um ano difícil . deixar que nos acari­ cie . as coisas que ela faz . Depois do feriado de Agosto . ajudaste-me muito num momento em que estava triste . Mas ele era tão afectuoso . acariciar uma pessoa. Voltara-lhe à lembrança Sarratore . és demasiado ajuizada para a tua idade . tenho matérias no­ vas . a poeira. decerto . queria dizer-lhe: foi um tempo bom. sabia que iria amá-lo sempre . e os filhos não sabiam como acalmá-la . O tempo foi passando e nunca mais encontrava o momento certo para falar com ele . Lila gosta imenso de Ste­ fano . Dizia que o tinha visto .» Ele beijou-me e murmurou . nos pauis . e embora elas . em vez de me censurar. irónico: «Porquê . eu amava Nino . Será no feriado de Agosto . aqui não . ao contrário do que eu lhes recomendara.226 Elena Ferrante Em meados de Agosto o meu trabalho acabou . com medo de que Sarratore tivesse realmente aparecido nas ruas do bairro . tenho de estudar muito. que me faltava a coragem e ia adiando . Sentia que era necessário . então não é verdade?» Aquela resposta enterneceu-me e impediu-me de lhe dizer que tínha­ mos de nos deixar. ela . a quem ela chamava Donato . e acabou-se também a alegria do sol e do mar. pensei : deve estar de férias em Barano . contassem à mãe que às vezes um rapaz meu amigo ia connosco à praia e davam belos mergulhos com ele . De noite acordava sobressaltada. tão apaixonado . descontrai-te um pouco por favor.» À tardinha. abraçou-me e disse: «Ainda bem . custa-me . Andava preocupado .» E acrescentou com malícia: «Pensa na Lina Cerullo . dizia que ele viera buscá-la. Era uma decisão que me parecia urgente . as moscas . Todos julgam que ela é má e eu boa. nos Maronti . desde pequenas . disse a Antonio: «Foi sempre assim. Dizia para comigo: não se pode beijar. mas temos de acabar. e sentir só um pouco de afeição por ela. Fiquei ansiosa. afecto não era amor. e todas as tardes ia para o nosso encontro nos pauis com o discurso preparado . Depois se­ renei . e que não andasse à procura de Melina mas de mim. Melina geralmen­ te piorava. Até ao fim do mês . com este calor.

A Amiga Genial 227 Mas uma manhã. . Limitei-me a dar-lhe o braço . Uma parte dele estava furiosa. Abanei a cabeça energicamente . todos os dias ao meio-dia. se eu me recusasse . Disse que queria encontrar-se comigo . não sabia o que fazer. nas feições agradáveis douradas pelo sol . que tinha um namorado e que nunca mais queria vê-lo . e a princípio não o reconheci . que gostaria de mos ler. Fiquei aterrorizada. quando ia fazer as compras . Senti-lo naquele estado tornou-me mais determinada. caminhava sem pressa. e que falaríamos os dois claramente com ele sobre o estado de saúde da mãe . Chamei-o: «Senhor Sarratore . na boca de lábios finos . cheia de acanhamento . Antonio ficou melancólico . na rua larga. que sem mim não podia viver. eu saltei para trás com um gesto de nojo . Depois centrei o olhar no bigode preto . é uma pessoa importante . e afastou-se . e ele fez um sorriso de contrariedade . e por causa de Lila. ele veio atrás de mim. eu levo-te os poemas de que mais gos­ to» . murmurou: «0 que devo fazer?» Disse-lhe que eu própria o acompanharia ao local de encontro . Pensei com raiva: foi capaz de enfrentar os Solara por causa da irmã Ada. mas és muito melhor do que aquele homem . Murmurou: «Tu és inteligente . falar comigo à vontade . Ficou desesperado . Que me pedi­ ra para dizer a Melina que estaria sempre à espera dela. Disse que não pensava senão em mim . à entrada do túnel . Então parei e sussurrei-lhe que me deixasse em paz . Que fora ter comigo na rua. Voltei-me . Murmurou que esperaria por mim para sempre . Não dormi toda a noite com a preocupação . tive vontade de o sacudir e de lhe gritar: tu não es­ creveste livro nenhum. disse que nunca lá iria. Antonio estava taciturno . ouvi chamar por mim. Donato Sarratore andava pelo bairro . para ele . No dia seguinte fomos ao túnel . Disse que para dar uma forma ao nosso amor escrevera muitos poe­ mas . apenas porque Donato Sarratore . mas agora está intimidado . senti que ti­ nha um peso em cima dele que lhe afrouxava o passo . tentou desaparecer à pressa no escuro do túnel. se suicidava. disse-lhe que a mãe tinha razão . nos pauis . Decidi recorrer a Antonio .» Voltou-se com relutância. Inclinou-se para me beijar. de prestígio . Disse que sofrera por não me encontrar em casa de Nella. e que . e a outra. que todos os dias ao meio-dia estaria à entrada do túnel . Quando Sarratore nos viu ao longe . és sensível . Segui em frente . em Barano . no outro Verão . Nessa mesma tarde .

mui­ to pálido e tenso .» «Então . olá Antonio .» «Diz-lhe da tua mãe» . passa-lhe para sempre a vontade de re­ ver estes sítios de merda. perde a cabeça. que escrevia poemas e artigos no Roma .» «Isso não me podes pedir. se o vir nem que seja só uma vez . e disse-lhe . vai parar ao manicómio .» . encolheu a cabeça. antecipou-se . e ele agora vai dizer-lhe tudo . Ser-lhe-ei sempre grato por aquilo que fez por nós depois da morte do meu pai . Mas prometo-lhe que se o senhor tirar à minha mãe o pouco tino que lhe resta. e esforçando-se para falar em italiano: «Estou muito contente de o ver.» Sarratore atrapalhou-se: «Antonio . pressionei-o . E se o vir. se quiser continuar a ajudá-la.» «Eu e ele somos namorados .» Antonio compreendeu que o seu momento chegara. artificial­ mente comovida. na praia dos Maronti . disse Sarratore com uma voz cálida. A minha mãe . A única coisa que sempre quis foi ajudá-la a ela e a vocês todos . tratando-o por «senhor» .228 Elena Ferrante Disse-lhe . coisa que nesse tempo era fora do normal no nosso ambiente: «Não sei se se lembra do Antonio . fez-me sinal para me calar. eu nunca tive qualquer intenção de fazer mal à tua mãe . não podes impedir-me de rever sítios que me são tão queridos» .» Sarratore produziu uma voz aguda e muito afectuosa: «Claro que me lembro . nervosa. se aprendi um ofício . está bem. a voz que ele imaginava que um homem de categoria. Aquela tonalidade indignou-me . eu não me esqueço . e estendeu uma mão até ao tronco de Donato Sarratore . Estive quase a intervir. Curvou os ombros . a si lho devo . devia ter. Prosseguiu: «Mas o senhor já não vive aqui no bairro e a situação para si não é clara.» «Ah .» «Falámos muito . ele usara-a muito em Barano . acariciante . Conhecia-a. Era uma voz pastosa. senhor Sarratore . é o filho mais velho da dona Me- lina. Disse-lhe em dialecto: «Eu não o impeço . Ele irritou-se . Agradeço-lhe sobretudo por me ter arranjado emprego na ofi­ cina do senhor Gorresio . empurrando-o com os dedos fortes . para meu espanto . mas Antonio . não lhe mande livros. Tu lembras-te bem de como me esforcei por vocês . não a procure . não apareça aqui no bairro . se ouve pronunciar o seu nome . meu filho .

a responsabilidade que lhe caíra em cima. ao passo que Lila preferia um apartamento nos prédios velhos. para não fazerem figura de pedintes . Foi inútil fazer notar que . «Sim» . Os preparativos interligaram-se com o lento . e alarguei o meu prazo: deixo-o depois do casamento de Lila. Discutiram. «já percebi . com os preguinhos entre os lábios. O primeiro relacionou-se com a futura casa. como todas as casas daquela zona. chorando a época feliz em que . por um motivo ou por outro . nunca conheceriam fim. Os únicos que pareciam serenos eram os noivos . Dei o braço a Antonio . no seu boteco em que era o rei . mas tinha uma banheira enorme . e depois o trabalho . no que teria sido para ele . receita essa que para eles era urgente . que por enquanto não rendiam nada.A Amiga Genial 229 Sarratore empalideceu . os carris da linha férrea. Pensei . para além de outras coisas . Stefano estava seduzido . a menos de duzentos metros passa­ vam. O casamento . obrigado . Pareciam dois empreendimentos que . reflectia-se e não pouco na sapataria. que se dissolvia no céu nebuloso . Fernando e Rino trabalhavam muito . Houve apenas dois pequenos instantes de atrito entre eles .» Girou sobre os calcanhares e pirou-se na direcção da estação . colava. O bairro recordou-se daquele casamento durante muito tempo . cosia e martelava tranquilo . Levei-o dali . talvez pela primeira vez. que queriam a todo o custo assumir. e Fernando fazia cenas constantemente . disse à pressa. Precisavam de juntar bastante dinheiro . A casa no bairro velho era maior mas era escura e não tinha vista nenhuma. O apartamento no bairro novo era mais pequeno . como a do anúncio da Palmolive . disse para mim . mas notei que tremia. Stefano queria comprar um pequeno apartamento no bairro novo . enquanto o Vesúvio era um contorno instável e distante. Nunzia bordava lençóis noite e dia. O resultado disso foi que durante meses a tensão esteve muito alta na casa dos Cerullo . cheia de afecto . não só nos sapatos no­ vos . a morte do pai . mas também em mil outros servicinhos que davam lucro imediato . 51. o revés da mãe . elaborado e conflituoso nasci­ mento dos sapatos Cerullo . e um bidet. para garantir a Lila algum enxoval e fazer frente à despesa do copo-de-água. em miúdo . orgulhosa daquela saída dele . e dava para o Vesúvio . bem nítidos .

e talvez n a costa e m volta de Amalfi . e apalpou-os . começava a ver na história dos sapatos um investi­ mento excessivo de dinheiro . que Rino era sempre mais despachado a pedir dinheiro do que a trabalhar. via neles . os móveis entalhados da sala de jantar e do quarto . Foi a própria Lila que me contou este acto de amor. cheio de nervos . o que importava era que com menos de dezassete anos seria dona de uma casa. e Lila. ele replicou . o frigorífico . e ela não gostava. com água quente a sair das torneiras . Fê-lo no dia em que me foi mostrar a casa nova. reflexos de problemas internos das respectivas farm1ias . s e Stefano i a à sapataria Cerullo . impôs um limite exacto ao faz e desfaz do pai . sempre vira neles . revelando uma linha de tendência que viria a marcar toda a sua vida. O futuro marido disse quase de imediato que concordava. Tínha- . O segundo motivo de atrito foi a viagem de núpcias . dizendo que nunca mais permitiria que voltassem a estragar-se . falando com Lila. Pelo menos os modelos de Inverno . Depois . teriam de estar prontos a serem expostos na montra antes do Natal . e Lila depressa se rendeu . a banheira para tomar banho de espuma. quando se registaram fortes tensões entre ele e os dois Cerullo . Capri . e até telefone . Quanto ao resto . e comoveu-se ao dizer que sentia neles . Mais do que outra coisa. fugiu-lhe da boca. as suas mãozinhas quase de criança. Tomei nota do número . Stefano propôs como destino Veneza. muito alegre . Sugeriu uma estadia em Ischia . aquele onde haviam disparado o fogo-de-artifício ao desafio com os Solara. Ela defendeu o irmão . e que não era alugada. as tensões foram mínimas .230 Elena Ferrante pelo que era novo . guardados como testemunho precioso da história de am­ bos . acabava sempre por deixar escapar palavras pesadas acerca de Fernando e de Rino . pelos apartamentos com o chão a brilhar. insistiu em não se afastar muito de Nápoles . Foi buscar o par de sapatos do qual nascera todo aquele projecto . do filho e dos ajudantes . tudo sítios onde nunca estivera. a seguir. pelas pare­ des brancas . quando . sapatos que adquirira e nunca usara. Ele abanava a cabeça pouco convencido . mas sim propriedade sua. Disse que até ao fim de No­ vembro queria ver os primeiros resultados . e no final do Verão . saltava em defesa deles . mais do que outra coisa. que tinham trabalhado ao lado das mãozonas do irmão . cheirou-os . via Lila. Encontravam-se no terraço da velha casa. Por exemplo . ela exaltou-se e ele fez imediatamente marcha-atrás . para homem e para mulher. emocionada. Que esplendor: pavi­ mentos feitos de grandes ladrilhos reluzentes. Pegou-lhe nos dedos e beijou-lhos um a um.

a cama com os colchões ainda embalados . não . embora já tivessem casa própria e mobilada. . dos trabalhos de casa. Respondi que não e ela pareceu satisfeita. há muito tempo que fora para além do beijo. habituara-se ao meu desaparecimento durante o ano escolar. com genuína curiosidade . Saímos para a varanda. como se não percebesse . eu . «Beijam-se?» «Às vezes. sem um quarto para nós . Já não se tratava de roupas . assim como as res­ postas dela me tocaram. a mim. e perguntei-lhe com cuidado: «Tu e o Stefano vêm aqui sozinhos?» «Sim. Estava convencida de que Lila. que certamente não me casaria. o Antonio pede-te?» «Sim. Eu ainda assim vivia. Concorda que primeiro devemos casar-nos . embora estivessem para casar. e eles nada mais que uns beijos?» «Mas ele não te pede?» «Porquê . tive vergo­ nha de lhe dizer a verdade . Seria possível? Tanta liberdade e nada? Tanto falató­ rio por todo o bairro . Reduzi o s encontros nos pauis . em breve . ela.» Fiquei confusa. nem de chapéus . Ela nunca concedia nada a Stefano . Quando me perguntou . embora saíssem sozinhos de automóvel . «Em que aspecto?» Senti-me embaraçada. ainda não somos casados. E ao invés . 52. precisamente por causa das aulas .A Amiga Genial 23 1 mos nascido e sido criadas em casas pequenas .» «E depois?» «Depois mais nada. se eu dava a Antonio aquilo que ele me pedia. sem um sítio para estudar. não . as obscenidades dos Solara. me deixaria de fora dos preparativos para o casa­ mento . às vezes . nem de foulards . até porque a escola i a começar em breve . Os conflitos com Pinuccia cresceram muito durante o Verão .» «Ele . Mas não f�i assim. que dava para a linha férrea e para o Vesúvio .» «E o que é que acontece?» Olhou-me.» Mas pareceu-me tocada pelas minhas perguntas .

como era seu hábito . contra a irmã carnal e até contra a própria mãe .» «Foi ela que te sugeriu isso?» .» Fez-se um silêncio insuportável . que fez com que Pinuccia se exaltasse ainda mais . Tomou-se evi­ dente que a filha do sapateiro era agora considerada pelas duas mulheres uma feiticeira que viera fazer o papel de patroa. Esperou que a irmã desabafasse . demos trabalho a quem precisa. em qualquer função que a fann1ia Carracci lhe quisesse atribuir. mas a todos nós . E desta vez a mãe apoiou-a de forma explícita. e dominar o homem da casa com as suas artes . tinha qualquer coisa de temerário.. quem é que trata do casamento?» . gritou a irmã. como fazia também Alfonso sempre que a escola lho permitia . e depois . A partir de amanhã mando vir para o teu lugar a Ada. Mamã. amanhã mesmo. eu não sou o patrão de nada. atirar dinheiro pela jane­ la fora sem mexer um dedo para o ganhar. «Isso não é da tua conta. fa­ ria melhor em ajudar a noiva nos preparativos para o casamento . de desde­ nhoso . como todas as respostas de Lila desde sempre . Pinuccia a certa altura disse ao irmão . levando-o a fazer coisas muito injustas contra os do seu próprio sangue . «Não . a filha da Melina. mã' ? Ouviste o que ele disse? Julga-se o patrão absoluto . tu precisas de trabalhar? Não . isto é. disparou ela. se não já.» «Ouviste . na presença de Lila e de forma clara. ou então ela também deixaria de trabalhar. em vez de trabalhar na charcutaria. Senão . Disse devagar: «Acalmemo-nos . Então . «Já não precisas de mim?» . porque eu estou can­ sada e não quero trabalhar mais. como se o problema de Lila e da sua colocação na pequena empresa familiar nunca tivesse sido levantado .trabalhar como toda a famí­ lia fazia desde sempre . disse calmamente que Pinuccia. a senhora precisa de estar todo o dia sentada aí atrás? Não . depois penso . Pinu . Essa resposta. Stefano . apontando para Lila. Há que tomar uma decisão . os assuntos da charcu­ taria não dizem respeito só a mim. que ou a sua noiva ia trabalhar para a charcutaria. e depois Maria levantou-se da cadei­ ra junto da caixa registadora e disse ao filho: «Arranja também alguém para este lugar aqui . disse que podia começar imediatamente. e na caixa. não respondeu imediatamente .» Nessa altura Stefano teve uma pequena hesitação . pelo menos depois da lua-de-mel .232 Elena Ferrante nem de jóias . Ao balcão ponho a Ada. Lila não pestanejou . aqui dentro . embora tentando ser conciliadora.

que começou a falar da nossa amiga como se fosse uma fada boa) . alarmando a sogra e a cunha­ da: «E que tal se escolhêssemos um lindo cetim verde . O corpete de renda. A rígida organza. o menu. irónica. que me disse à queima-roupa: «Por favor. quando vinha da escola. havia conflitos por qualquer ninharia: as participações . O meu habitual e obstinado esforço já me estava a exaurir. porque se não vieres . e da admissão de Ada (decerto Ada ficou convencida disso . ou uma organza . Mas um dia. Tinha sido interrogada a química e não fizera boa figura. surgia a Lila de outros tempos . Mas às vezes . esperando arranjar maneira de estudar. o bolo . Fosse o que fosse que ela vestisse . ou experimentava os vestidos que eram bonitos nos manequins . apalpámos tecidos . as lembranças de casamento . a sala para a recepção . a coroazinha de pedras artificiais. tudo lhe ficava bem. até a viagem de núp­ cias . ainda mato a minha cunhada e a minha sogra. tal como a de pérolas e a de flor de laranjeira. e Lila experimentou vestidos de noiva expostos nos manequins da loja. obediente . Pinuccia e Maria. Estava no início do primeiro ano do liceu . a sua beleza valorizava o vestido . e na realidade para apoiá-la numa luta difícil . Das quatro da tarde até às sete da noite vimos figurinos . o tule nebuloso . Lenu . a cauda mais comprida ou a mais curta. muito contrariada. o fotógrafo. De modo que inesperadamente fui chama­ da. o cetim mole . Positano . Quase sempre via. o que me fazia sofrer. amanhã vens dar-me um conselho?» Não sabia sequer do que ela falava. encontrei a minha amiga. Ischia ou Capri . peço­ -te . Não me digas que não . quando já não aguentava as esquisitices das suas futuras parentes . e recordo-me de ter metido uns livros num saco . as alianças . A loja era no Rettifilo . o grupo musical . o véu esvoaçante ou o véu preso . aparentemente para dar uma opinião a Lila sobre isto ou aquilo . A saia larga ou a saia justa. e o vestido valoriza­ va-lhe a beleza. Fui . ficavam-lhe bem. uma vez que Pinuccia e Maria consideravam coisa reles ir a Sorren­ to. fica­ vam-lhe bem. «Um conselho sobre o quê?» «Um conselho sobre o vestido de noiva. estudava com demasiado afinco . Foi impossível . os figurinos. As duas mulheres complicaram-lhe a vida. a decoração da igreja. Saí com ela . as mangas tufadas . O que sei ao certo é que não lhe agradou que a cunhada e a sogra tivessem tanto tempo livre para se dedicarem ao seu casamento . tinha muitas matérias no­ vas e difíceis. que me olhava fixamente e dizia. e sobretudo Antonio .A Amiga Genial 233 Não sei ao certo se Lila estaria de facto por trás da expu lsão de Pinuc­ cia e da mãe do dia-a-dia da charcutaria.

Pinuccia e Maria alinhavam a favor de outro modelo . um pouco entontecida por todas aquelas discussões e pelo cheiro dos tecidos novos . como na aula com os professores . realmente ao acaso . com frases do tipo: como disse a Lenuccia. era pródiga na apresentação de premissas . que eu quero expô-las na montra. e a mãe . com a voz segura de alguém que sabe perfeitamente onde quer chegar. tanto Pinuccia como a mãe estavam de muito bom humor. Cada vez que Lila se inclinava para um modelo .)) . e comecei a demonstrar que ele sintetizava as qualidades dos modelos que as duas mulheres apoiavam e as qualidades dos modelos que a minha amiga privilegiava.» Mas o problema era escolher. A modista. À saída . Lila limitou-se a olhar para mim com os olhos semicerrados . amarelo?» Eu ti­ nha de dar uma risadinha. concordaram imediatamente comigo . Pinuccia. entusiasmada: «Por favor. para que recomeçasse a apreciar tecidos e modelos com uma seriedade rancorosa. melhor ainda. para poder dizer: esta rapariga foi vestida por mim. chamavam-me à baila constantemente . Perguntou-me: «Aprendes isso na escola?)) «Ü quê?)) «A usar as palavras para levar as pessoas à certa. irritada: «Ü que é que tu achas . Pus em acção uma técnica que aprendera na escola e que consistia no seguinte: sempre que não sabia responder a uma pergunta. A modista não fazia senão repetir. senti que tinha a admiração e a simpatia de mãe e filha. tendo o cuidado de não pegar em nenhum dos favoritos de Lila. Lancei-me . ou um bonito tule preto . no movimento de final de dia do Rettifilo . Eu estive sempre calada. tragam-me as fotografias do casamento . ou . ao fazerem comentários à com­ pra. de outro tecido . seja o que for que escolham.em italiano . a Lenuccia disse justamente .que gostava imenso dos modelos preferidos por Pinuccia e a mãe . ou . Em primeiro lugar disse . Lila arranjou manei­ ra de ficarmos um pouco para trás . Dirigiam-se a Lila quase com afecto e. não em elogios . ou para um tecido . escolhi um dos figurinos ao acaso. para indicar que a noiva estava a brincar. mas em argumentações que demonstravam como eles eram adequados às formas de Lila. Lenu?» Fez-se silêncio . Depois Lila perguntou-me . Depois regressou ao olhar habitual e disse que também estava de acordo . com um certo espanto .234 Elena Ferrante vermelha. No momento em que . que as duas mulheres aguardavam aquele momento e o temiam. Percebi de imediato .

Tive a impressão . Fui eu que escolhi o fotógrafo . nora e cunhada. a partir do interior da gaiola em que se encerrara. Mas não se tratava do habitual conflito entre sogra. para remediar: «Ü Antonio era capaz de morrer por ti . a cunhada e a sogra não meteriam o nariz . A partir dali fui constantemente chamada para tomar parte nas deci­ sões mais disputadas . . disse-lhe . perguntei-lhe: «Queres usar-me para levá-las à certa?» Percebeu que me tinha ofendido . Com efeito . pelo modo como me usava.» «E então?» «Então . Então. fui eu que escolhi as lem­ branças de casamento . A diferença entre mim e ti . convencendo-as a acrescentar ao serviço fotográfico um filme em super-8 .» «Foi o Stefano que deu trabalho à Ada» .» «Talvez porque tu és má» . Fui eu que escolhi o restaurante na Via Orazio . Fiquei surpreendida. desde sempre . Queria apenas dizer que sabes fazer com que te apreciem. «Pode ser» . respondeu .vim a descobrir . e na sua casa. ainda obscura para ela. ainda mais chateada.A Amiga Genial 235 Senti-me ferida. mas foi mesmo assim que aconteceu .» Fiquei chateada.não a pedido de Lila. como s e cada uma daquelas questões fosse um treino para quando eu me casasse . em todas as situações . de que enquanto e u me apaixonava por todas a s coisas . uma maneira de ser muito sua. e percebi que a magoara. respondeu ela. mas de Pinuccia e da mãe . faz-me o favor de vires connosco todas as vezes que eu te pedir.» 53 . murmurei: «Não gostas do modelo que escolhemos?�� «Gosto imenso . Lila dava muito pouca atenção às diversas fases do seu casamento . Dei-me conta. Aquilo que real­ mente a motivava era estabelecer de uma vez por todas que . de que Lila se debatia para encontrar. tal como ela me ma­ goara. é que de mim as pessoas têm medo e de ti não . na sua fu­ tura vida de esposa e de mãe . e como manipulava Stefano . Disse para te agradecer por teres dado trabalho à irmã. acrescentei imediatamente. e por vezes . arrependida. «Eu sou má. apertou-me a mão com força: «Não era minha intenção ser indelicada contigo .

Depois do novo encontro com o pai dele .236 Elena Ferrante Perdia. A minha nova professora de Latim e Grego . no­ tavelmente mais nobre do que o simples binómio pai-filho . mas eu não lhe dei ouvidos e prossegui até ao fim. pouco faltava para ser mulher de um charcuteiro e decerto iria parar à caixa registadora. apesar de tudo . continuava a atribuir-lhe autoridade sufi­ ciente para me dar força para desafiar o meu professor de Religião . a professora Galiani . mas em Filosofia. Quando me encontrei no corredor. Alfonso viu imediatamente que eu me estava a exceder e puxou­ -me timidamente pela bata. distante . que apenas existia para compor uma trindade . por ser a queridinha da comunista por excelência. andava comigo nas palmas das mãos . contra o seu ateísmo . e compreendi que me metera naquele sarilho apenas porque . Mas as coisas alteraram-se inesperadamente . tardes inteiras a resolver as questões delas . tinha . uma manhã meti-me numa grande alhada. primeiro senti-me desorientada - o que acontecera.. e depois lembrei-me de que tivera conver­ sas daquelas com Lila. em Química e em Ma­ temática. já. Como resultado . da sua influência? Chorei lágrimas silenciosas em frente da porta da sala de aula. evidentemente . e eu? Eu fora buscar a ela a energia para inventar uma imagem que definia a religião como uma colecção de cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno? Quer dizer que não era verdade que a escola fosse a minha riqueza pessoal . de onde me viera a convicção absoluta de que as coisas que estava a dizer estavam certas e deviam ser ditas? . para o lugar da mãe de Stefano . Para mais . totalmente supérflua. estudava pouco e até faltei à escola duas ou três vezes . ou simplesmente porque senti que todo o mal que o padre dizia dos comunistas me dizia respeito directamente . senti­ -me impelida a reagir. levantei a mão e disse que a condição humana estava de modo tão evidente exposta à fúria cega do acaso que confiar em Deus. Pela primeira vez fui expulsa da sala e tive uma nota de censura no livro de ponto da aula. a excelentíssima Galiani . até àquela comparação conclusiva. não sei se por causa do meu afecto por Pasquale . em Jesus e no Espírito Santo . porque me comportara tão levianamente . já não estudava. que fizera com bom aproveitamento um curso de Teologia por correspondência.uma entidade . que sempre se dissera comunista. Lila já não abria um livro. Como o professor de Religião pronunciava cons­ tantemente diatribes contra os comunistas . este . a pauta do primeiro trimestre não foi particularmente brilhante . O que é facto é que eu . Ao fundo do corredor surgiu Nino Sarratore . só consegui ter suficiente .era a mesma coisa que coleccionar cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno .

as feições escavadas pela barba azulada. E foi assim que . Não podia voltar para a aula nem podia afastar-me para as casas de banho. fechou-a atrás de si . naquela situação . expor com firmeza as minhas opiniões . Entretanto . . me tornei a heroína dos meus amigos de sempre. contei-lhe tudo. Separei as minhas palavras da minha pessoa. que andava no terceiro ano do liceu e naquele ano faria o exame de acesso à universidade . o olhar mais firme . pois ainda a amava. Deixei-me ficar. juntamente com Nino Sarratore. ao topo da lista dos alunos mais promissores do nosso esfarrapado liceu . «Mas agora» . o qual por sua vez encontrou Lila uma manhã e. «depois do ataque a fundo. o que se passara. tinha a maçã-de-adão muito saliente . Descobri que podia fazer como a profes­ sora Galiani . diligente e colaborante com todos os professores que se haviam mostrado hostis para mim. dominado pela emo­ ção . isto é. sem esforço. pois ambas as coisas complicariam mais a minha situação se o professor de religião viesse à porta. Numa questão de poucos dias pareceu-me ter re­ gressado . mas contei tudo a Antonio . chegou a hora da mediação . Tive o cuidado de não revelar nada aos meus pais . Estava mais alto . Ela cobriu-me de elogios . prestável . disse . Ele também se deve ter apercebido de que algo não estava bem e dirigiu­ -se para mim. como se estivesse a dar uma aula a mim e a Nino . Era impossível evitá-lo. esforcei­ -me para recuperar a credibilidade junto dele e dos outros professores que pensavam como ele . num abrir e fechar de olhos. que foi . mas . Tornei-me muito respeitadora. conquistando a estima de todos com comporta­ mentos irrepreensíveis . e quando ele pa­ rou na minha frente e me perguntou porque estava cá fora. e regressou minutos depois com a professora Galiani . transmitir a Pasquale o que acontece­ ra.A Amiga Genial 237 ainda mais razão para me comportar como se ele não existisse . e cinco minutos depois reapareceu com ar alegre . muito orgulhoso . e não sabendo o que dizer-lhe .» Bateu à porta da sala. Pedi descul­ pa. se agarrou à mi­ nha história como a uma tábua de salvação e lha contou . e também daquele grupo pequeno mas aguerrido de professores e alunos que contestavam os sermões do professor de religião . Eu podia entrar de novo . desde que pedisse desculpa ao professor pelo tom agressivo que usara.» Desapa­ receu . reanimei-me ao vê-lo . como verifiquei que o pedido de desculpa ao padre não bastara. e ao mesmo tempo fazer a mediação . Franziu o sobrolho e disse: «Volto já. enxuguei as lágrimas à pressa. e depressa voltaram a considerar-me uma pessoa a quem se podiam perdoar certas afmnações extravagantes. oscilando entre a ansiedade por causa das prováveis represálias e o orgulho pelo apoio que recebera de Nino e da professora Galiani .

238 Elena Ferrante Não ficou por ali . de cor cinzento-sujo. «Para que fim?» Disse-me que colaborava com uma pequena revista que se chamava Nápoles. Ele estava presente no índice . alinhando contra quem me pare­ cia pior (o padre .» Transmitiu-me a sua ansiedade e perdi confiança. o meu nome impresso . Tentei dar à minha posição o máximo de dignidade teórica. com aquele seu ar sisudo . Era um fascículo com cinquen­ ta páginas . logo remediava as coisas . da vaidade com que me lera. Encontrei frases sintéticas e densas . «Também escreves poesia?» . aconselhou-me a não escrever nada. com um artigo intitulado Os Números da Miséria . contando o duelo com o padre. Sentia a cabeça a abarrotar com as frases que ia escrever. mas comportando-me entretanto com os adversários de modo a não perder a sua simpatia e estima. vou tentar. re­ correndo a palavras difíceis . Tinha sido muito estimulante receber o aplauso de quem me parecia melhor (a professora Galiani e Nino) . Passei a tarde a escrever e reescrever. o meu artigo . tentariam inseri-lo no próximo número . Umas semanas depois Nino pediu-me sem preâm­ bulos . que escrevesse à pressa meia página de caderno .» Voltei para casa muito agitada. Contara o episódio na redacção e disseram­ -lhe que . a Lila. a professora de química. «Será assinado em teu nome?» «Sim. só com a premissa. e da satisfação . e pelo caminho falei disso com Alfonso . nos Ma­ ronti . Ele disse que não com uma energia tão desgostosa que prometi-lhe de imediato: «Está bem. Escrevi: «Se Deus está em toda a parte . aos meus pais . à professora Oliviero . que necessidade tem ele de se difundir através do Espírito Santo?» Mas a meia página num instante se gastava. a ideia de poder mostrar em breve a revista. o padre vai ficar zangado outra vez e chumba-te. o professor de matemática) . em por­ menor. se fizesse um resumo disso a tempo . Ficou ansioso por minha causa. Asilo dos Pobres . E o resto? . Mas assim que nos separámos . Esforçar-me-ia para que isto se repetisse quando saísse o artigo . perguntei-lhe . ao professor Ferrara . levou a melhor. e puxa para o lado dele a de química e o de matemática. Depois . Mostrou-me a revista. Lembrei­ -me do pai dele . nome e sobrenome .» «Lenu . o artigo publicado no Roma .

como se a escrita lhe ferisse os olhos . Por fim leu . «Posso apagar?» «Podes. não sou capaz . Mas em menos de meia hora voltaram-me as dúvidas . Receava que ela li­ quidasse a minha meia página com um comentário depreciativo . Mas pedir-lhe isso significava continuar a reconhecer nela uma autoridade. mesmo?» «Sim. Mas por fim não resisti e fui procurá-la. a princípio resisti .» Apagou muitas palavras e uma frase inteira. não o daria a Nino para imprimir. «Elena Greco .» Tive de insistir.» «Não . Quando conseguiu . aquela que lia.» Estendeu-me o caderno: «Não sou capaz de te dizer se é bom ou não .» «Peço-te . Recea­ va ainda mais que esse comentário me ficasse a bailar na cabeça .» . sus­ citando-me pensamentos excessivos . que se ela não gostasse . A quem podia dar a ler o meu texto . desenhava. Pareceu-me que ela se encolhia toda. escrevia. Estava em casa dos pais . Disse-lhe . projectava. como se lhe tivesse atirado um peso para cima. Por isso .A Amiga Genial 239 Recomeçava. para obter um parecer? À minha mãe? Aos meus irmãos? A Antonio? É evidente que não . Perguntou-me . «Posso deslocar uma coisa?» «Podes. a tentar e voltar a tentar com obstinação . Como fora treinada. exactamente como Alfonso: «Escreverão o teu nome?» Fiz sinal que sim. esperando encontrá-la. desde a primária. embora soubesse que não era verdade . Olhou para a página contra a vontade . senti necessi­ dade de confirmações . por fim obtive um resultado satisfatório e come­ cei a estudar as lições para o dia seguinte . que acabaria por transcrever para a minha meia página. comprometendo-lhe o equilíbrio . a única era Lila. com a espontanei­ dade e a naturalidade de uma reacção instintiva. Contei-lhe da proposta de Nino e dei-lhe o caderno . tudo pareceu agradavelmente leve . E tive a impressão de ela estar a fazer um esforço doloroso para libertar de qualquer recanto de si própria a velha Lila. ou se se recusasse mesmo a lê-lo . quando na verdade agora era eu que sabia mais do que ela.

Ele leu-o . Fechei-me na retrete para não incomodar o resto da família e estudei até quase às três da manhã. com uma linha ondulada. 54 . No fim disse . disse: «És tão inteligente . uma caligrafia que se mantinha inalterada desde a escola primária. «Posso copiar tudo para outra folha?» «Eu faço isso . mais directo . é claro que têm de te dar sempre dez . fizeram-me sentir que eu fu­ gira de mim própria e agora ia a correr cem passos mais à frente . de certa maneira. mas de modo mais límpi­ do . para o cimo da folha.» «Porquê?» Pensou um pouco . O que apagara. que se tomara mais pequena e mais simplificada. com uma dureza repentina: «Não quero voltar a ler nada do que tu escreves. Levantei-me às seis e meia para voltar a copiar o texto . para conservar um sinal visível da sua presença nas minhas palavras . batendo muitas vezes as longas pestanas .» «Não . Nem sequer . Depois acres- centou . já muito diferente da minha. quando finalmen­ te fui dormir. deixa-me fazer eu . Levei-o a Nino assim mesmo . Mas primeiro li-o . na bonita caligrafia redonda de Lila.» Percebi que não havia ironia. repetiu aquela frase outra vez .» Sentou-se a transcrever. com uma tristeza repentina e inesperada: «A professora Galiani tem razão . com uma energia e também uma harmonia que a pessoa que ficara para trás desconhecia que tinha. o que deslocara. Quando me devolveu o caderno .» «Em quê?» «Escreves melhor do que eu . «Porque me faz doer» . desatando a rir.240 Elena Ferrante Fez um traço em volta de um período e deslocou-o . os pequenos acrésci­ mos e. e bateu no centro da cabeça com os dedos. depois virou-me as costas sem se despedir e foi-se embora. era de facto um elogio . Decidi deixar o texto na letra de Lila. A página dizia exactamente o mesmo que eu escrevera.» Embora eu protestasse . Voltei para casa feliz . envergonhada. a caligrafia dela.

O que mais o deve ter surpreendido foi eu ali em público . Tanto mais que enquanto ele se afastava reconheci . Como Alfonso estava comigo . Quando de repente voltou a ceder-me corpo . o andar do pai . Depois . Não nos víamos desde os tempos de Ischia. Eu irritei-me . Mas agora. Estragámos tudo uma vez mais. lhe ter dado a mão . e me pediu que fizéssemos um bocado do caminho juntos. no dia seguinte . ia publicar na revista em que ele publicava. Ela insistiu . porque me dava a impressão de ser ainda pequena e de andar a passear com o meu pai . pois prontamente . . Obedeceu-me logo . que o meu namorado me vinha buscar. Por isso não andaria de novo atrás dele como um animal fiel . Primeiro contou-nos . Era frívolo como o pai . Daquela vez . tanto no bairro como fora. nem onde podia encontrá-la. Quando chegou a casa. bastava vê-lo para me enervar. apareceu a sua irmã Marisa. por breves se­ gundos . Sabia que Nino estava a olhar para nós e queria que ele percebesse quem eu era. Terminou deste modo aquele nosso novo encontro . fez-me uma grande festa. em andar parte do caminho connosco . ele voltou a andar de roda de mim. de certeza que contou ao irmão que entre mim e Alfonso nada havia . disse que tinha ficado aborrecida por eu não ter voltado para Ba­ rano naquele Verão . sem o amar? Era tão senhor de si que não tolerava outras virtudes senão as suas? Pedi a Antonio que me fosse buscar à escola. e tinha um homem. Durante uns dias Nino continuou a comportar-se como se escrever melhor do que ele fosse uma culpa que devia ser expiada. Durante algum tempo deve ter pensado que o namorado era Alfonso . ter entrelaçado os meus dedos nos dele. respondi­ -lhe com frieza que já tinha um compromisso . era tão boa aluna como ele e mais do que ele. e também não tive coragem de lhe perguntar. à sua maneira animada. Correu ao meu encontro . mas essas dúvidas desfizeram-se quando um dia. diante de todos . uma vez que o irmão já se tinha ido embora. Aquele comportamento aborreceu­ -me. apresentei-lho . vida. embora o detestasse? Pensava que as outras pessoas não podiam passar sem gostar dele .A Amiga Genial 24 1 me disse quando saía a revista. presen­ ça. fi-lo . deixou de se dirigir a mim e começou a falar com ele de forma cativante . à saída. Sempre me re­ cusara a passear daquela forma. todos os desgostos de amor. aqui está ele . Escrevia melhor do que ele . de­ sorientado e ao mesmo tempo recompensado por aquele pedido . que precisava de lhe dizer não sei o quê . quando concluiu que eu e Alfonso não éramos namorados .

dançasse sempre comigo . a fim de oficializar a nossa relação . de pratos . casando-se por sua vez dentro de alguns anos . com os meus óculos . não preciso de nada nem de ninguém . quando lhe fiz aquele pedido . Lila enviara convites para toda a gente . de talheres. uma presença apresentável para Melina.. Por isso . Mas sobretudo porque um casamento era um acontecimen­ to em que ninguém podia fazer má figura . sentir-me composta . por que diabo é que eu o escolhera a ele . roupas para Ada e para os outros irmãos. sem contar com o que lhe custara a prenda de casamento . que não me deixasse sozinha. Esse pedido deve ter-lhe complicado a vida . as avós . com uma sombra de angústia escondida sob uma aparência divertida . Na verdade . e endividou-se para mandar fazer um fato no alfaiate . sentia-o como um rompimento de­ finitivo . Eu não dei por nada . Mas Antonio não levou as coisas dessa forma. Nas casas do bairro . que era estúpido e não sabia juntar duas palavras . Estava intimamente convencida de que só . e a agradável ansiedade pelo artigo que podia ver publ icado de u m momento para o outro . a procurar chapéus e bolsas . Por esta última razão é que quis que Antonio me acompanhasse . Também pedi a Antonio que me acompanhasse ao casamento de Lila. que falasse e . que naquela altura tinham a possibilidade de arranjar um e de se arrumarem. Queria. Amava-me .tínhamos o cuidado de manter a nossa relação em segredo absoluto . Não era tanto por Lila que faziam esse esforço. as mães. um serviço de copos .242 Elena Ferrante 55 . quiçá . Perguntava-se muitas vezes em voz alta . e no entanto pensar: tenho tudo o que uma rapariga de dezasseis anos deve ter. e queria ter ao lado alguém que me apoiasse . considera­ va-me a maior sorte que alguma vez tivera. Fiz a minha vida entre a escola. não via a hora de se apre­ sentar em casa dos meus pais . Não tinha qualquer intenção de oficializar a coisa . principalmente as raparigas sem namorado . os sapatos velhos . tranquila. permitia que pagassem no fim do mês . os pareceres urgentes sempre que as coisas se ensari lhavam entre Lila. era por Stefano . o meu vestido po­ bre feito pela minha mãe . naquela ocasião . Receava muito aquele dia . que era muito boa pessoa. a cunhada e a sogra . trabalhavam havia algum tempo a fazer as roupas . a dar voltas para comprar a prenda de casamento . sei lá. deve ter pensado que finalmente me decidia a deixá-lo sair da clandestinidade . mas desejava ter sob controlo a minha ansiedade de ser atraente .

De vez em quando perguntava-me: «Sabes em que ponto eles estão?» Eu res­ pondia: «Pergunta ao Rino . apresentou-se propositadamente com a noiva e com Pinuccia. calou a voz melosa de Pinuccia. arranja outro que os faça. Interrompeu os parabéns que Lila dava ao irmão .A Amiga Genial 243 existiria realmente a partir do momento em que o meu nome aparecesse impresso . Disse que investira ali demasiado dinheiro para obter uns sapatos vulgares . Lila disse-me que ao ver os sapatos que desenhara anos antes tomados realidade . e a discussão prolon­ gou-se por muito tempo . Quis experimentar um modelo de que gostava e fez muitos elogios a Rino . perguntou . Se os quiseres exactamente como a minha filha os desenhou . Lila interveio discretamente em defesa do pai . Mas Rino apoiou Stefano . olhando para os quadros pendurados nas paredes: «Se queres os sapatos para o Natal . que a Lina não sabe de nada. pelo contrário . «0 que é esta franja. Elena Greco . pareciam os três saídos do écran da televisão . Só se interrompeu quando Fernando . sentira uma emoção fortíssima. de­ certo eram necessárias . Os sapatos eram tal e qual como ela os imaginara a seu tempo . disse ao noivo que não se exaltasse . E por mais que Fernando justificasse todas as alterações com questões de solidez . tal como fora feito por Rino e Lila às escondidas de Fernando . que no entanto ainda vivia em casa deles . erguendo um tornozelo para lhe mostrar o pé calçado de forma extraordinária. que pespontas são estes . aborrecido . que metera na cabeça que havia de completar a sua toilette para o casamento com um par de sapatos Cerullo . Até Pinuccia ficou de boca aberta. Stefano . em vez de outros precisamente idênticos aos sapatos de Lila.» Era verdade . modelo após modelo . Houve muitas altercações.» . e. e ia vivendo na expectativa desse dia sem dar muita atenção a Antonio . sem se preocuparem minimamente em mostrar primeiro os sapatos a Lila. Stefano foi inabalável. que os seus desenhos eram fantasias de criança e que as alterações . para que é esta fivela doura­ da?» . que felicitava Rino . aliás de pouca relevância. ao pai e aos empregados . como se tivesse aparecido uma fada e realizado um nosso desejo. ou com a finalidade de disfarçar qualquer defeito de ideação . O único que se mostrou descontente foi Stefano . comple­ tamente esgotado . criticou as alterações feitas aos desenhos originais . Os Cerullo em Novembro convocaram Stefano . aceita-os assim. e o mesmo sapato com os acabamentos introduzidos por pai e filho. de harmonia dissonante. dando a entender que o considerava o verdadeiro artífice daquelas obras-primas de leveza robusta. Insistiu sobretudo na comparação entre o sapato de homem. se sentou num canto e disse .

Eram objectos elegan­ tes . propôs-lhe que expusesse alguns sapatos Cerullo . respondeu-lhe a rir: «Assim compro uma Lambretta . «muda de humor se não lhe satisfizerem os caprichos imedia­ tamente . bastava olhar para eles para se ter uma impressão de riqueza. disse ela a Pinuccia. não notou que o irmão . à espera de clientes . «É como uma criança» . Depois do Natal . experimentou-o . N a altura Lila. Era uma questão de esperar. cobriam quase todas as estações do ano . até ali alegre e brincalhão . Fui até lá vê-los . Mas não concretizou a compra. a irritar-se por uma ninharia. sem compro- . e no Inverno . na Primavera ou no Outono . Mesmo com as alterações introduzidas por Fernando . uma amálgama de peda­ ços de pele e de couro . ficou de boca aberta: «Estás doido?» . uma montra com a es­ trela de Belém feita de algodão . E isso era uma vantagem . Ao fim e ao cabo . ocupada com o casamento . e caixas de sapatos empilhadas até ao tecto . que destoava da montra pobre . Mas Rino ficou cada vez mais agitado . imaginando-se comigo no casamento . bancos e sovelas e formas de madeira. da paisagem desolada no exterior. embora soubesse que ele era unha com carne com os Solara. e Rino também se deu por vencido . não sentiu a falta de vendas dos sapatos pelo Natal como um fiasco . havia uns mais pesados e outros mais leves . eram os sapatos dos nossos so­ nhos infantis . não sabe esperar. como que a justificá-lo por certos impulsos .» Ela. O facto é que pelo N atai não se vendeu um único par. a dormir mal . tal como Fernando . com um acabamento refinado. Depois contou­ -me o prazer que sentira ao sentir-se tão bem calçado .244 Elena Ferrante Stefano deu-se por vencido . E quando Rino lhe dis­ se: «Vendo-tos em prestações mensais» . não pensados para a realidade do bairro . os sapatos seriam vendidos . andava novamen­ te melancólico . com o fato novo vestido e aqueles sapatos nos pés . Só Antonio lá apareceu . Nascidos do desejo de Stefano de ver concretizada a pura veia artística de Lila. Quando perguntou o preço e Rino lho disse . embora exausto pelo trabalho .» 56. do interior da sapataria. por sua ini­ ciativa própria foi falar com o dono da empoeirada sapataria ao fundo da rua larga e . pediu a Rino o número 44. a sua execução não seguira plano nenhum. As caixas brancas empilhadas no interior da sapataria Cerullo continham um sortido razoável . Pelo Natal os sapatos apareceram na montra.

Mas não foi daí que vieram os choques capazes de abrir brechas . mais tendente para a melancolia. só para ver a saída que tinham. uma manifestação das forças destrutivas que a haviam atemorizado . Uma tarde gelada de Fevereiro perguntou-me sem mais nem menos se podia acompanhá-la a casa da professora Oliviero . temos de os vender. Dizia que era preciso fazer uma análise abran­ gente . pelo contrário . Os sapatos Cerullo . Como nunca antes lhe contara os tons hostis que a professora usara tantas vezes a respeito dela. são boni­ tos .» Aquele «SÓ por amor à tua irmã» não lhe caiu bem. que sossegou e começou a armar-se em estratega de vendas . tanto mais que em tempos recentes ela me parecera menos agressiva. Lila ia a correr provar o vestido de noiva. O homem disse-lhe educadamen­ te que não . nenhum afecto . a fundo perdido . não achei oportuno falar-lhe nisso naquela ocasião . dava os últimos retoques à sua futura casa. e dali resultou uma troca de palavrões de que se soube em todo o bairro . o charcuteiro ouvia-o sem dar si­ nais de irritação . não toleravam as intru­ sões de Nunzia. um atrás do outro . so­ bretudo com Pinuccia. só por amor à tua irmã? Estão feitos . O problema é que é preciso encontrar o merca­ do adequado . Geralmente . As tensões cresceram ainda mais nas proximidades do dia 1 2 de Março . Mas deixou pas­ sar. Lila notava com apreensão que o irmão maquinava para ela e Pinuccia irem à frente e ele ficar cinco passos para trás . Porque é que tantas boas iniciativas tinham falhado? Porque é que a oficina Gorresio tivera de desistir dos motociclos? Porque é que a boutique da retroseira durara só seis meses? Porque eram empreendi­ mentos de pouco fôlego . Quando saíam os quatro . Ele levou a mal . e talvez a acolhes­ se bem . em breve sairiam do mercado do bairro e se afirmariam em zonas mais ricas . Uma única vez Lila o ouviu dizer: «Desculpa. e Lila voltou a sentir que o irmão era um elemento de desordem. Entretanto a data do casamento aproximava-se . lutava com Pinuccia e Maria que . nenhuma gra­ tidão . porque aquelas palavras acabaram por ter um efeito positivo em Rino . que aquele produto não era adequado para a sua clientela. que magoaram Lila profundamente . Nunca mais manifestara qualquer interesse por ela. na tua opinião eu investi tanto dinheiro na sapataria assim . entre tantas coisas . Rino censurou-o .A Amiga Genial 245 misso . Mas agora sentia a necessidade de lhe levar o convite pessoal­ mente . a conversar com Stefano . Foram dois acontecimentos em particular. Fernando enfureceu-se com o filho . . Rino .

a dois passos da igreja paroquial .246 Elena Ferrante Lila vestiu-se com um cuidado extremo. notei que ela estava muito ansiosa. sobretudo objectos de metal . falando com dificuldade . a verdade veio à luz . depois toquei-lhe na mão . que emigrara para Florença depois da guerra e montara um pequeno negócio de velharias de proveniência vária. Na rua falou sem parar de todas as maçadas burocrá­ ticas na câmara e na igreja. não se conseguia compreender quem ia substituir o casal florentino . a menos de uma semana do casamento . mas ela não .» Abriu a porta.» Fechou-nos a porta na cara. O outro desgosto . Por causa da sua pro­ núncia. lembra-se de mim?» A professora Oliviero olhou para ela como fazia na escola quando Lila se portava mal . Fomos a pé até ao prédio onde morava a professora. Depois . Lila sorriu e disse-lhe: «Professora. dirigindo-se a mim: «A Cerullo conheço .» A professora disse . Enquanto subimos a escada. de um momento para o outro . veio surpreendentemente de Stefano e da história dos sapatos . «Quem é?» «Greco. Lila a princípio falou-me nisso como se fosse um sinal de nervosismo de última hora. que o padrinho fosse este ou aquele era-lhe completamente indiferente . Vim trazer-lhe o convite . talvez mais profundo . enfiou o convite por baixo da porta e desceu as escadas . E ficaria muito feliz se viesse ao meu casamento . Rodei o botão da campainha. o essencial era decidir-se . motivo pelo qual já fora padrinho do crisma de Stefano . o noivo mudou de ideias . gozava de um certo prestígio na família. vou casar. para a confortar. Esse familiar casara com uma florentina e adquirira o sotaque local . Ela retraiu-se . ouvi os passos arrastados da professora. Ficámos uns instantes paradas no patamar. em italiano: «Sou a Cerullo . Havia algum tempo que decidira que o padrinho de casamento seria um familiar de Maria. e metade do rosto coberto por uma écharpe . Porém . não disse uma palavra. Eu estava habituada àquele percurso . e depois dirigiu-se a mim . Mas durante uns dias Stefano só lhe deu respostas vagas e confusas .» Lila ficou confusa e disse muito depressa. Para ela. Tinha sobre os ombros uma romeira roxa. àquelas escadas . Stefano comunicou- . e de como o meu pai fora prestável . como se tivesse comida na boca: «Quem é? Não a conheço . mas esta não sei quem é .

era o canal para colocar nas sapatarias os modelos Cerullo . Deixar de ter aqueles ares . sem justificação nenhuma. e. o pai de Marcello e Stefano . Assustei-me . de rabo-de-cavalo . «queres arruinar-me a mim e a toda a família. que lhe disse que se deixasse de criancices . sobretudo . Por fim foi Rino .A Amiga Genial 247 -lhe . lhe explicou como as coisas eram: O Solara pai era como um banco . a miúda que eu conhecia bem. Nunzia permaneceu muda a um canto sem se mexer. Senti-me lisonjeada. palco de muitos afectos e interesses . . disse que não o queria ver mais . uma coisa prática. era isso que eu real­ mente queria: trazer de volta a Lila pálida. e todo o trabalho que fi­ zemos até agora?» Até Pinuccia apareceu . Mas ela sim. ainda que muito distante . para eu ir falar com ela e chamá-la à razão . apesar de se estar a um passo da celebração . que até àquele momento não admitira sequer a hipótese de al­ gum parente de Marcello Solara. com os olhos esbugalhados e raiados de sangue . não foi à última prova do vestido de noiva. desafiando a auto­ ridade do professor de religião . Estava em causa um casamento . se estivesse no lugar de Lila nunca teria coragem de mandar o casamento às urtigas . pensei muito qual seria a minha posição . olhos semicerrados de rapace . e que me daria muito prazer fazê-lo . «0 que queres tu fazer?» . que agora era capaz de entrar em conflito com o Espírito Santo em público . mas era preciso raciocinar. não mexeu uma palha que tivesse a ver com o casamento iminente . e disse-lhe . ela seria capaz disso . O que fazer? Sentia que não seria preciso muito para reencaminhá-la naquela direcção . Passou-se um dia e uma noite . que lhe falou do bem da fanu1ia com consternação . Lá no fundo . que o padrinho seria Silvio Solara. sem fazer nada em casa. pois para qualquer pessoa que quisesse ter um futuro no bairro era obrigatório ter como padrinho Silvio Solara. Depois veio cha­ mar-me às escondidas da filha. Primeiro foi a mãe . estar presen­ te no seu casamento . não se podia cancelar um casamento e extinguir um amor por uma questão de tão pouca importância. deixou de tratar fos­ se do que fosse. Nunzia. de se comportar como uma Jacqueline Kennedy dos subúrbios . sem dormir. gritou-lhe . complexa. Lila. Depois foi Fernando . que também lhe daria muito prazer que o padrinho fosse o comerciante de metais de Florença. como coisa firme . durante alguns dias . Eu . austero . que em tom agressivo e com o ar do homem de negócios que só pensa no lucro . roupas coçadas . num tom um tanto fingido . voltou a ser. Fechou-se na casa dos pais . Cobriu Stefano dos mais grosseiros insultos . Começou a procissão dos familiares .

mas tens de me jurar. e mais não fiz do que dizer-lha e voltar a dizer-lha com uma deli­ cadeza persuasora: o Silvio Solara. Falei do antes e do depois . sabes que há coisas que somos forçados a fazer. de como nós éramos diferentes . não terá qualquer peso na tua vida futura. pôr os pés . não é o Marcello e também não é o Michele. de como ela e Stefano eram diferentes . e é tudo.» . olhando-o nos olhos : «No meu casamento o Marcello Solara não pode . não foi ele que se plantou à força em tua casa. num tom de desprezo que nunca usara com Stefano Carracci . Não se deixou ver na char­ cutaria. não foi ele que disparou sobre nós na noite da passagem do ano . eu juro . não foi ele que disse aquelas coisas horríveis a teu respeito. pareceu-me uma acção mesqui­ nha. voltou à circulação . Mas li-lhe nos olhos que aquela atitude de Stefano lhe mostrara uma faceta dele que não conse­ guia ainda ver com clareza.» Só então deixou que ele se aproximasse pelas costas e lhe beijasse o pescoço . e que por isso mesmo a assustava ainda mais do que as fúrias de Rino . voltei a ele com muita paixão .» «Como é que eu faço isso?» «Não sei . da velha geração e da nossa. o Silvio será o padrinho e dará uma ajuda ao Rino e ao Stefano para venderem os sapatos.248 Elena Ferrante Mas . queria. seduziu-a. Lila. não fez nada para tentar reconciliar-se . Voltei a embaralhar as cartas que já conhecíamos bem. evidentemente .» Ele soprou e disse a rir: «Está bem . que a aju­ dassem a serenar. e pouco a pouco serenou . Este último argumento fez mossa. Julgando contribuir para o seu bem. De qualquer maneira. Lila. Não foi ele que puxou a Ada para dentro do carro . é errado confundir as coisas . de maneira nenhu- ma. Mas depois virou-se de chofre e disse-lhe . gosto muito de ti . de modo que se me meteu na cabeça uma só ideia. disse . para desgraça dela e de mim. Disse-me: «Se calhar não é verdade que gosta de mim .» «Só quando não lhe ponho em risco o dinheiro verdadeiro» . sabe-lo melhor do que eu . Ouviu-me em silêncio . não foi à casa nova. tu própria mo disseste noutras ocasiões .» «Como é que não gosta de ti? Faz tudo aquilo que tu dizes. não quis devolvê-la ao cinzen­ tismo da casa dos Cerullo . Esperou que fosse Stefano a dizer-lhe: «Obrigado .

que parecia o corpo de uma morta.» «Mais dois anos. envergonhei-me . pego no diploma e acabou-se . a penetrasse . O dia 1 2 de Março chegou . não . mas a certa altura acabou-se o estudo . senão atraso-me . sem a declarar precisamente com esse retraimento . uma situação em que não se pode voltar os olhos para outro lado . a vestir-se. e disse: «Vá lá. Eu dou-te o dinheiro . engravidando-a. continua a estudar. de ser a testemu­ nha participante da sua beleza de rapariga de dezasseis anos . estava a tina de cobre cheia de água fumegante . com essa rejeição . Hoje posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar no seu corpo . Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária. e por isso te obrigas a ficar. Tu és a minha amiga genial . a olhar para a água que brilhava na tina. no chão de ladrilhos he­ xagonais. poucas horas antes que Stefano lhe tocasse . tirou as cuecas e o soutien . Porque é que ela não quis que eu entrasse?» «Porque ela é uma velha rabugenta. não pares .» «Para ti . a violenta emoção que te domina.» «Não . ajuda-me . já primaveril . e depois disse: «Aconteça o que acontecer. estou a pensar na professora. tens de ser a melhor de todos. tens de continuar sempre a estudar. Lila quis que eu fosse cedo para a sua velha casa. tu . rapazes e raparigas . não se pode desviar a mão sem reconhecer a nos­ sa perturbação . que a ajudasse a lavar-se . Mandou a mãe embora. sem exprimir. em frente . depois disse: «Obrigada.» Ficou calada um instante . a pousar o olhar nas costas de ra- .» Nunca a tinha visto nua.» Pôs-se em pé . talvez. a pentear-se . sem entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem te está per­ turbando . Depois . Sentou-se à beira da cama em cuecas e soutien .» Fiz um risinho nervoso . ficámos sós . Perguntou-me à queima-roupa: «Achas que estou a cometer um erro?» «Em quê?» «Em casar-me . um dia ameno .A Amiga Genial 249 57 . A seu lado tinha o vestido de noiva.» «Ainda estás a pensar na história do padrinho?» «Não . a deformasse .

fingir competên­ cias sexuais e instruí-la com voz douta. o vermelho da boca. E de repente pareceu-me que o único remédio para a dor que estava sentindo . e ficou-me a impressão de que o cobre da tina era de uma consistência não diferente da carne de Lila. puxar-lhe os cabelos . a vestir-se . «Não é verdade . nos joelhos macios . nas ancas estreitas e nas nádegas rijas . e fazes de conta que nada se passa. nas longas pernas . e a carne violenta dele entrava nela com um golpe seco . disse . como a rolha de cortiça empurrada pela palma da mão para dentro do gargalo de uma garrafa de vinho . e agita-se-te o coração .» Voltou-se com uma expressão repentina de pavor: «0 que é que me está para acontecer. «Mas sim. em redor a mobília miserável .escolhera para ela. que se ela os não calçasse sentiria uma espécie de traição . a enfiar o vestido de noiva que eu . levantando um pouco o vestido . que sentiria.» Riu-se com nervosismo . Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraçá­ -la. Pressionada por Rino . exactamente a mesma coisa. era encontrar um recanto bastante retirado para que Antonio me fizesse a mim. pensei com um misto de orgulho e sofrimento . distanciá-la com as palavras . só para que Stefano a sujasse durante a noite . de manhã cedo . Lenu?» . chorar com ela. justamente no momento de maior proximidade . rir. Lavei-a com gestos lentos e cuidadosos .250 Elena Ferrante paz . às mesmas horas . no sexo negro . Ajudei-a a enxugar-se . nua como estava naquele momento . no leito da casa nova. calma. e depois pedindo-lhe que se pusesse em pé . Por último calçou os sapa­ tos que ela própria desenhara. nos seios com os mamilos inteiriçados . os olhos escuros e duros . escolhera um par com o salto baixo . sobre um pavimento irregular manchado de água.eu . enquanto o comboio estrepitava por baixo das jane­ las . quando afinal tudo está a acontecer. Imaginei-a. que era lisa. nos tornozelos sinuosos . presente . inflamam-se-te as veias . Mas por fim ficou-me apenas o pensamento hostil de que a estava a lavar da cabeça às solas dos pés . no quarto pobre e escuro . cingida ao marido . e ainda tenho nos ouvidos o ruído da água a gotejar. primeiro com ela acocorada no recipiente . nos pés elegantes. O tecido ganhou vida. ali . olha: os sonhos da mente acabaram debaixo dos pés . para evitar parecer muito mais alta do que Stefano . sobre a sua candura correu o calor de Lila. Olhou-se ao espelho . rija. «São feios» . beijá-la.

ele de camisa branca e fato escuro . olhou para mim . e os dois. avançou pela igreja do Sagrado Coração pelo braço do sapateiro . a caixa-de-óculos . Na cozinha esperavam-nos impacientes . Quando Lila. criaturas que aos meus olhos levavam .A Amiga Genial 25 1 58 . éramos nós . uma existên­ cia sem nada em comum com a minha. longe do centro das atenções . e foi juntar-se a Stefano . pelo ímpeto dos pensamentos . As pessoas realmente consumidas pelo calor dos sentimentos . en­ quanto escrevo . Nunzia era uns anos mais nova. de Antonio . a tarefa de se instalar ao fundo da igreja. embora o seu olho dançarino parecesse voltado para outro lado . com o rosto de Randolph Scott. naquela manhã . no altar coberto de flores . sobre cujas idades posso ser mais pre­ cisa: o meu pai tinha trinta e nove anos e a minha mãe trinta e cinco . Senti com enfado que naquele dia os meus êxitos escolares não os consolavam nada. e até provavam. sobre­ tudo à minha mãe . a minha mãe . os meus . de certeza. de Stefano . frigorífico . uma casa que ainda por cima lhe pertencia. uma espécie de vida fria. aborrecida por­ que . Naquele tempo os pais dela. na igreja. os familiares e amigos do noivo encontravam-se todos de um lado . aspirava a um lugar melhor. todas . todos os pais me pareciam velhos . Nunca os vira tão bem arranjados . o pároco fê-la durar uma eternidade .bendito florista. com o fato novo feito pelo alfaiate . Antonio sentou-se devotadamente a meu lado durante o tempo todo . O fotógrafo tirou fotografias durante o tempo todo . com banhei­ ra. que estava muito bonito . uma actividade económica para a fatn1lia. na qualidade de caixeira da charcutaria do noivo . Fernando e Nunzia. Só agora. A cerimónia foi longa. enquanto o jovem ajudante filmava as fases mais importantes da cerimónia. televisão e telefone . já prontos havia um bocado . e os familiares e amigos da noiva. é que me apercebo pela primeira vez de que Fernando naquela época não devia ter mais do que quarenta e cinco anos . Não fazia grande distinção entre eles e os avós matemos e paternos . do outro .. de Pasquale . com um chapeuzinho azul e véu azul. Olhei muito para eles . esplendorosa na nuvem de ofuscante alvura do vestido e do véu vaporoso . com flash e reflectores . delegando em Ada. ao passo que a minha amiga má conquistara um marido abastado . e ela toda de azul. faziam um bonito par. À entra­ da da igreja. ao lado de Me- . para fazer-me sentir que ali estava eu . com a de Lila. que as fornecera com abundância . O mesmo se aplica aos meus pais. que não passavam de uma inútil perda de tempo .

Nem se virou sequer para Stefano . aquele homem de tez arro­ xeada. mas sobre­ tudo para aquele casal . não só para o florista. também ele impecável com o seu fato novo . facto que . entre outras coisas . que . Quanto a Rino . na zona dos familiares do noivo . assim como os outros irmãos . e sobretudo Pasquale . fora instalar-se ao pé de Pinuccia. Morto dom Achille . um odor a roupas novas . Lila espalhava em redor uma energia que ninguém podia ignorar. para evitar os mexericos . Reparei que Lila nunca olhou para eles . é que emprestavam dinheiro a todo o bairro (ou . teriam feito melhor figura do que Stefano . não eram um casal bonito . aliás . Devia limitar-se a estar ao meu lado . Achei que vistos as­ sim. as pessoas estavam aborrecidas e. no altar. e de a vigiar. que luziam tanto como o cabelo cheio de brilhantina. não só para o fotógrafo . ao lado de Lila. Lila era mais alta. grandes entradas .tiveram de pedir dinheiro emprestado . vestida de cor-de-rosa. ele mais baixo . ele parecia um homenzinho apagado . mas não lhe respondi . olhos azuis . de fato escuro . pelo contrário . Uma vez ou duas sussurrou-me qualquer coisa ao ouvido . Com efeito . E os rapazes não lhes ficavam atrás . enquanto o pedreiro e o vendedor de fruta e hortaliça se encontravam ao fundo da igreja. por aquilo que eu sabia. sem mostrar nenhuma intimidade espe­ cial . com muito oiro a cintilar nos pulsos . Nessa altura olhei para Silvio Solara. ele . ele . era Manuela que geria os lados práticos dessa ac­ tividade . quebrando a ordem dos alinhamentos familiares . e Carmela Peluso também. de nariz comprido e lábios finos . fornecera também o bolo e as lembranças do casamento . por aquilo que todos sabiam. Sentia­ -se um perfume intenso de flores .252 Elena Ferrante lina. como sentinelas do bom êxito da ce­ rimónia. sapatos Cerullo nos pés . comparecendo . Lila mostrava-se extremamente concentrada. em pé ao lado do noivo .a começar talvez por Antonio . melhor dizendo . em que ela anotava quantias e prazos) . estacionada ao lado da noiva. o casamento de Lila era um negócio . co­ berta de jóias . pareciam querer demonstrar que ali . como se fizesse questão de compreender perfeitamente o que significava aquele ritual . vestidos com todo o luxo . Era dali que vinha o dinhei­ ro para aquela pompa. Manuela. Gigliola estava bonita. tal como eu . sentado a meu lado . corpu­ lento . Enzo . Famoso e temido era o livro de registo de capa vermelha. de vez em quando vira- . Que pompa ! Era evidente que todos os que receberam convite não quiseram faltar. Corri os olhos pela igreja apinhada. e aquela mulher magra. de costas . o seu olhar esteve sempre fixo no padre . significava que não poucos . o irmão da noiva. Olhei para a mulher. olhavam em volta.

arrastara Nino consigo .A Amiga Genial 253 va-se para a mãe . E logo a seguir. deixara-se levar pela cabeleira enca­ racolada de Marisa e pela sua tagarelice incessante . com o casaco e as calças coçados que levava para a escola. Estava mais alto . para obter a autorização dos pais . como . Marisa. também fisicamente diferente do irmão Stefano . Alfon­ so . Lila e Stefano pararam no adro . olhos grandes . gravata.mas mais importantes . ou coçava le­ vemente a cabeça. procurei-o com os olhos entre os parentes do noivo e da noiva. lábios carnudos . nem sequer do mesmo sangue . a relação crescera. achei-o parecido com um bailarino es­ panhol que vira na televisão . Marisa Sar­ ratore . Seguiu-se um confuso aglomerado em tomo dos noivos. pois até a convidara para o casamento do irmão . de repente . E ela. e eu tive de me convencer de que Lila já estava casada. ambos os noivos disseram o sim de modo límpido e claro . que saíram da igreja acompanhados pelos sons vibrantes do órgão e pelo flash do fotógrafo . magro . beijaram-se . Mas as coisas estavam clara­ mente a correr bem. o caos dos automóveis e os nervosismo dos familiares que tinham de ficar à espera. não só me pareceu alto para os seus dezasseis anos. esplendorosa. A certa altura senti-me ansiosa. de preencher os vazios das conversas? Eram namorados? Duvidava. mais amados . a ele que era tão tímido . entre beijos e abraços . desviei a atenção dos noivos . ele ter-me-ia dito . Acenei-lhe . Em primeiro lugar.. Sem as modestas roupas da escola. . veio na minha direcção . de mãos nos bolsos . que o dispensava. ou trocava risinhos com Silvio Solara. excepto Alfonso . ele respondeu . e trocaram alianças . deviam andar a encontrar-se sem eu ter dado por nada. despenteado . entre a comoção geral . entravam de imediato nos carros e eram levados à Via Orazio . quase escondido por uma coluna. as senhoras com chapéus extravagantes? . ca­ misa branca. sem sinal de barba por enquanto . Alfonso estava muito bem vestido . enquanto outros . Lem­ brei-me de ter visto toda a gente . atrelara-se a ele . 59 . E depois aconteceu que . Nino . ao restaurante . de repente . sem a bata da charcutaria. Localizei-o ao fundo da igreja. Nunca o vira de fato escuro . mais esguio e bonito . pelos vistos . Mas atrás dele apareceu . mais ricamente vestidos . Pensei: e se Stefano realmente não fosse aquilo que parece? Mas abandonei esse pensamen­ to por dois motivos . apesar de me ser tão dedicado .

e já nos íamos embora e eu não sabia dizer senão: «Onde estão os meus pais? Esperemos que alguém lhes dê atenção . ainda parado no adro com uma expressão desorientada. olá. nem Carmela. sensível às minhas mudanças de humor. Fiquei nervosa. cabelo comprido de mais e despenteado . e .» Enzo respondeu que os vira num carro qualquer. comple­ tamente deslocado . se dependesse de mim. Nino depois foi atrás da irmã e de Alfonso .» .» Carmela riu-se: «Aborreceu-a a Lina ter-se casado . Essa presença inesperada contribuiu muito para a desordem emotiva daquele dia. os dois Sarratore passaram completamente despercebidos.» «Alguma coisa te aborreceu?» «Não . portanto não havia mais nada a fazer. eu fui agarrada firmemente por um braço . e juntaram-se-nos Carmela e Enzo . as mãos demasiado mer­ gulhadas nos bolsos das calças . receando que a mãe de Antonio reconhecesse Nino . Mas foi uma preocupação infundada. muito esmorecida. pela mão de Antonio . Melina. no adro da igreja. e perdi-o de vista. fiquei ansiosa.» «Então e tu . alto de mais . arrancámos . Cumprimentámo­ -nos na igreja. nem sequer Gigliola. que lhe lesse no rosto algum traço de Donato . com o ar de quem não sabe onde se há-de meter. enquanto os noivos se metiam num grande au­ tomóvel branco juntamente com o fotógrafo e o ajudante. o jovem Sarratore . embora me libertasse imediatamente . casava-me já amanhã. E entretanto Antonio empurrava-me na direcção do automóvel velho de Pasquale . olá. acabei por me en­ contrar na companhia de Ada. Na verdade ninguém reconheceu Nino . com as suas roupas coçadas . mas sem interesse nenhum. De momento . Agora. não querias casar também?» . para um automóvel que logo se afastou . e ela queria casar-se também. no meio do burburinho . juntamente com Ada e os filhos mais pequenos. embora ela conservasse traços da menina que fora. nem repararam em Marisa. de olhos nos noivos como toda a gente . sus- surrou-me ao ouvido: «Ü que foi?» «Nada. «Eu . perguntou Enzo . e mal tive tempo de lançar um olhar a Nino . Enzo . nem Enzo . Antonio. Carmela. magro de mais . um sussurro apenas . levou-a consigo . Nunzia. a mãe de Lila. para irem tirar fotografias ao Parco della Rimembranza. Pasquale . só para pousá-los em qualquer coisa. junto de Alfonso e Marisa que falavam um com o outro .254 Elena Ferrante Portanto ali estava ele .

confirmava que Lila. faltando ela. que ele tratava-o como um carro de corrida. também . Então porque não estava na companhia de Alfonso .» Descemos em direcção à Marina.sim. ou fazíamos re­ comendações indignadas . a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes . a sua linguagem violenta era a minha. com quem partilha­ va a origem e a fuga? E. que o faziam rir e o estimulavam a fazer ainda pior. é certo . Estavam ali os meus amigos . ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis . Nós . Antonio e Enzo nem pestanejavam. enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente . pelo contrário . porque não me detivera para dizer a Nino: fica. vem ao copo-d' água. precisamen­ te . soltávamos gritos de terror. achava os seus comportamentos nor­ mais . Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel . de certo modo autodegradar-me . Lançava-se . ou a usá-lo à traição . da sua vulgaridade . diz-me quando sai a revista com o meu artigo .A Amiga Genial 255 «E com quem?» «Eu bem sei com quem. dos tons de voz violentos de Carrne la e de Enzo . tinha de conter-me . baixavam o vidro e . travava poucos centímetros antes de lhes bater. no máximo faziam co­ mentários pesados acerca dos automobilistas vagarosos . qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se . vamos falar os dois . como se quisesse abalroá-los .» «Caluda>> . Aqui­ lo que eu era na escola. e também . Mas essa festa. já não pertencia àquele mundo . e que eu . Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias . íamos para a festa do casamento de Lila. Aproximava-se a grande velocidade dos carros dianteiros .de Antonio? . e . que a minha própria estranheza tomava infe­ liz . «que a ti ninguém te quer. guinava bruscamente e ultrapas­ sava-os . Crescera com aqueles rapazes . disse Pasquale . sobretudo . An­ tonio afinara-lhe o carro tão bem. para os intimidar. enquanto Pasquale os ultrapassava. as raparigas . fazendo um grande estrépito e ignorando os sola­ vancos devidos às estradas em mau estado . estava o meu namora­ do . gritavam insultos . Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente . Pasquale conduzia com garra. Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha. vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale .

Recusei-me . na casa dos quarenta. e Ada. nenhum de nós se atrevia a perguntar aos criados de mesa. esforçan­ do-se para me distrair. Com eles vi Gigliola. mã' . O vocalista. os meus pais. já te disse .» «Vem sentar-te ao pé de mim. Os pais de Lila encontravam-se também sentados a uma mesa comprida com outros familiares . Começaram a chegar outros jovens .» . juntamente com o comerciante de metais . Voltou a chamar­ -me . fiz de conta que não ouvi . Ada fez uma cara de contrariada e foi sentar-se ao lado do irmão . mas a minha mãe agarrou-me um braço com raiva. quase calvo .» Obedeci-lhe .256 Elena Ferrante 60 . Enzo e Anto­ nio finalmente sentaram-se com o grupo de Gigliola. Silvio e Manuela Solara estavam já instala­ dos a uma mesa.» «Vem. a sala encheu-se . a sua con­ sorte florentina e a mãe de Stefano . Andámos às voltas . e eu fazia-lhe sinal . Ninguém escondia a fome . Não te mandamos estudar para tu te deixares estra­ gar por um operário que é filho de uma maluca. nada. A banda ocupava o seu lugar. que de vez em quando olhava para mim. e eu . veio dizer-me ao ouvido: «Vem. evidentemente . Antonio estava colado a mim. Então levantou-se e veio ter comigo com o seu passo claudicante . os músicos iam experimen­ tando os instrumentos e o vocalista o microfone . de feições delicadas . embaraçados . Fomos os primeiros jovens a entrar na sala da festa de casamento . ela estava furiosa. A minha mãe impediu-me . confiando-a a Nunzia.» «Não . todos amigos de Stefano . Ada. Pasquale . que conse­ guira livrar-se da mãe . mas .» Tentei levantar-me . que estava impaciente e acolheu Antonio com ges­ tos de raiva. que me chamou para junto dela. Ela sibilou: «Porque é que o filho da Melina anda sempre de roda de ti?» «Ninguém anda de roda de mim. A minha mãe chamou-me . Chegaram mais convidados . Carmela. levantando os olhos para o tecto . era preciso esperar pelos noivos .» «Julgas que eu sou estúpida?» «Não . Tentei de novo levantar-me e a minha mãe sibilou: «Tens de estar ao pé de mim. Não sabíamos onde sentar-nos. Queria que me fosse sentar ao lado dela. cantarolou qualquer coisa para experimen­ tar. Melina. A banda começou a tocar. O meu mau humor cresceu . de que estava prisioneira.

com aqueles gestos autoritários . A minha mãe tentou segurar­ -me pela orla do vestido . Lila permanecera ali . Mas eu tenho de ser capaz . na sua evolução . aquela festa. parecia feliz . tudo perigos que naquele mo­ mento . Mas estar ao pé dela significava estar no seu mundo . Nada que tivesse a ver com o meu percur­ so de rapariga estudiosa. precisos nos movimentos . que o meu lugar não era junto deles . Tenho de con­ cluir. E o melhor era aquele rapaz . recordar­ -me de que ia sair um artigo com a minha assinatura. mas eu puxei pelo vestido . pensei : do mundo da minha mãe . aos olhos dela. a estranheza que continuava a cres­ cer-me cá dentro . o jogo dos sa­ patos para Rino e para o pai . cortês .A Amiga Genial 257 Ao pé dela . latim e grego . eram representados por Antonio . Voltearam pela sala . felicitada por todo o bairro . nem sequer Lila. que iam ocupar . E se me tornasse idêntica a ela. como sabia fazer a profes­ sora Oliviero . Porém. Ali estava Lila. conseguiu fugir. com as suas raivas . Estava a prender-me por um braço . vi-o e pus-me em pé de um salto . Nesse momento entrou Nino Sarratore . Não queria que eu estudasse . quem é que seria indicado para mim senão Antonio? Entretanto chegaram os noivos . animou-se . mas eu ti­ nha de ignorá-la. sabe-se lá de que abismo ou precipício . que não tirava os olhos de mim. entre aplausos entusiásticos . quando se apresentava em nossa casa para lhe impor o que era para meu bem . na mesma revis­ ta em que escrevia um rapaz bonito e inteligente do terceiro ano do liceu . aquele casamento . obrigava-me a estar ao pé dela para me proteger sabe-se lá de que mar tempestuoso . Vi-o antes de ver Alfonso e Marisa. Antonio . Enganei-me . para esca­ par à minha mãe. e concluía. Liguei indissoluvel­ mente à minha mãe . num movimento contrário ao de Lila e Stefano . Senti-me completamente só . Tenho de apagá-la. Pensei em como era contraditória sem se aperceber disso . Mas eu . deitou-me um olhar convidativo . elegante . de mãos dadas com o marido . mas como agora estudava. Os noivos foram obrigados a dançar no meio dos flashes do fotó­ grafo . recordar-me de que enfrentara o professor de religião . tornar-me completamente idêntica a ela. recordar-me de que era a melhor em italiano . Sorria. Desde pequena que tinha os olhos nela. ao seu corpo . do qual ela imaginava ter colhido o melhor. como aliás eu própria acaba­ ra de concluir. apesar de tudo . Estava lin­ da. claramente vincu­ lada àquele mundo . considerava-me melhor do que os jovens com quem eu crescera. não posso continuar a ser condescendente . A banda começou imediatamente a tocar a marcha nupcial .

o seu crescente tom conflituoso .» «0 quê?» «Os jornais . Em Ischia ainda tinha as feições do rapazinho atormentado . esperava que Nino se decidisse a dirigir-me a palavra. mas apresentando factos concretos . citando dados precisos? «Onde aprendeste essas coisas?» «Basta ler. E regressou à sua mesa. as revistas . só lia ro­ mances . Eu estava atrasada em tudo . enquanto a outros ainda não fora servido o ante­ pasto . como fazia Pasquale . com natu­ ralidade . inclinou-se e disse-me ao ouvido: «Guardei um lugar para ti . não no aspecto genérico e num tom consternado . Ganhei ânimo e puxei Nino para a conversa. Os convidados mais rancorosos tinham começado a notar as coisas que não estavam correc­ tas . notícias sobre o próximo número da revista e sobre a minha meia página. a minha mãe percebeu tudo .» Eu nunca tinha sequer folheado um jornal ou uma revista. . Nino podia ajudar-me a recuperar terreno . Ele deu início a uma conversa muito interessante e muito informativa a respeito do estado da cidade . muito intimidado . de forma distanciada. Ouviu-se um ruído de descontentamento na sala. Entretanto Anto­ nio aproximou-se por trás de mim . nunca lera mais do que os velhos romances esfrangalhados da biblioteca. Marisa e Nino . os livros que tratam desses problemas . Impressionou-me a sua se­ gurança. contando pedir-lhe logo a seguir. pedi-lhe que me falasse do seu artigo acer­ ca da miséria em Nápoles . Senti como detes­ tava aquelas querelas . 61 .258 Elena Ferrante os seus lugares ao centro da mesa. para Alfonso . A própria Lila.» Olhou em volta hesitante . Como era possível que um rapaz de dezoito anos falasse da miséria. Alguns já iam no primeiro prato . dirigi-me para a entrada. no tempo em que lia. Falei de modo genérico com Alfonso e Marisa.» Sussurrei: «Vai-te embora. Havia quem dissesse em voz alta que onde estavam sentados os familiares e amigos do noivo o serviço era melhor do que nas mesas em que se encontravam os familiares e amigos da noiva. entre o casal Solara e o casal de Flo­ rença. Arranjámos lugar. O vinho não era da mesma qualidade em todas as mesas . agora achei-o muito mais maduro .

não sabíamos o que nos serviam nos pratos .» Daí a pouco já desejava poder conversar todos os dias com um rapaz daquele nível . raramente . Mas tam­ bém culpa minha: eu . por exemplo . é só coragem desperdiçada. respondeu assim: «Demasiados maus romances de cavalaria. com o romance em que me sentia imersa. sem ironia. comia. aqueles que vendem fumo . Compunha discursos com a expressão do estudioso . que tanta raiva tinha à minha mãe . Quantos erros cometera com ele. cortante . a necessidade de detectar problemas com clareza. e no entanto evitá-lo sempre . Só as­ sumi um ar de perplexidade quando ele disse mal da literatura. que animava cada frase: a rejeição de palavras pouco claras . nem o que comíamos e bebíamos . «Se querem ser vendedores de fumo» . ele respondia. Não ouvimos mais nada do que se passava à nossa volta. Sim.A Amiga Genial 259 Comecei a fazer-lhe mais e mais perguntas . declarava-me de acordo com tudo . falava.eu . que chato que o meu irmão é» . Eu esforçava-me para arranjar perguntas para lhe fazer. mas se é preciso alterar as coisas . repetiu duas ou três vezes. ou seja. Às vezes olhava para a mesa de Lila: ria. amá-lo . Culpa do pai . res­ pondia. fazem um Dom Qui­ xote. mas não dava respostas brilhantes como Lila. e cada pergunta minha era um pequeno impulso que provocava uma avalanche . «escre­ vam romances . Marisa disse: «Chiça. e começaram a conversar os dois . Nino e eu também ficámos isolados . e ouvia muito aten­ ta as suas respostas caudalosas . cheios de exemplos concretos. Mas depressa me apercebi de que o fio dos seus discursos era constituído por uma única ideia fixa. Do que precisamos é de pessoas que saibam como funcio­ nam os moinhos e que os ponham a funcionar.foi o que me pare­ ceu perceber . muito irri­ tado com os seus inimigos . então aí a conversa é outra. Alfonso e Marisa depressa se sentiram isolados . e ele fazia o mesmo . duro . Lenu . a música. Eu ia sempre acenando que sim. Falava sem parar. não tinha a mesma capacidade de tomar tudo sedutor. nós aqui em Nápoles não temos necessidade de lutar contra moinhos de vento . de sugerir soluções praticáveis e de intervir. que estupidez tinha sido querê-lo .servia-se da palavra «literatura» para criticar quem ar­ ruinava a cabeça das pessoas com aquilo a que ele chamava conversa inútil . Por outro lado .» Na realidade . terei muito gosto em lê-los. sem floreados . para superar o clamor da sala. deleitei-me com o meu arrependimento . com todo o respeito por Dom Quixote . nem se apercebera de onde me encon­ trava. A um meu protesto passageiro . mas . De vez em quando levantava a voz . da pessoa com quem estava a falar.per­ mitira que o pai lançasse a sua abjecta sombra sobre o filho? Arrependi­ -me .

» «Não te estou a apertar. ele que tudo o que queria era libertar-se do pai . principalmente das mulheres . então rebenta­ ria uma rixa monumental . amanhã deixo-o. não posso continuar com ele . com vi­ nho de má qualidade e atrasos intoleráveis no serviço? Porque é que Lila não intervinha. todos eles com a obrigação de mostrar às mães e às irmãs e às avós que sa­ biam ser homens . Mas sentia que tinha os olhos em cima de mim e que estava nervoso . a ficar furioso . Disse . Haviam-se sacrificado para comprar a prenda e a roupa que traziam vestida. e agora eram tratados como pedintes . libertar-me-ia da minha mãe . que se dedicava totalmente a mim . que daria origem a ódios que durariam meses e anos . A sua dedicação por mim fazia-me crescer. porque é que não protestava com Stefano? Eu co­ nhecia-os . quando já se tivesse ido embora. de qualquer modo já decidi . voltou-se para Alfonso . qual é o problema?» Fiz um sorriso embaraçado a Nino . triste: «Vamos dançar. pensei . era de novo Antonio . as ideias com base nas quais o construiria. Fui dançar. toda elegante . Ouvi-lo estimulava-me a mente .» «A minha mãe não quer» . Olhou para mim sério . quase como Lila em tempos o fazia. e a despiques e ofensas que envolveriam maridos . endividaram-se . sim. Ele . Senti tocarem-me no ombro . em voz alta: «Estão todos a dançar. mas como u m cachorrinho . É certo que me adorava. ele sabia que Antonio era o meu namorado .» Reinava uma grande algazarra e uma alegria embriagada. «Não me apertes. As caras torcidas dos familiares da noiva. somos demasiado diferentes . que olhavam de maneira incorrecta para as suas namoradas . Paciência. sussurrei . quando ela fosse mudar de roupa. os adultos e as crianças . Via os olhares ferozes que os rapazes dirigiam ao vocalista e aos músicos . Continham a raiva por amor de Lila. quando regressasse vestida com o traje de viagem.260 Elena Ferrante olhava para a mesa de Antonio . revelavam um descontentamento belico­ so . Retorquiu nervoso . mas no fim da festa. Dançavam os jovens . Eu conhecia-os . Via como Enzo e Carmela falavam enquanto dançavam e via também . ao lado do marido . ou se lhes dirigiam com expressões alusivas . Expunha-me o seu futuro . filhos . Mas eu sentia o que havia realmente por trás da aparência festiva. quando já tivesse distribuído as lembranças . sem qualquer subserviência. Estava encantada com a maneira como Nino falava comigo . receava que me fizesse sinal para ir para junto dele .

Charcutaria mais sapatos. Agora estava a falar. Fiquei sem saber o que fazer durante alguns segundos . Via Rino e Pinuccia. Tinha necessidade . Sentia urgência em deixar-me agarrar de novo por Nino . sim. No caso deles tudo aconteceria mais depressa . Prédios velhos mais prédios novos .» «É o Nino . Dançavam. Voltar para junto de Nino . Se a fábrica de sapatos Cerullo se concretizasse a sério . Era evidente que antes da festa termi­ nar começariam a andar juntos . mas com Nino . dentro de um ano no máxi­ mo teriam uma festa de casamento não menos faustosa do que aquela.. Tinha os olhos da minha mãe em cima de mim. e depois pões ­ -te a conversar durante horas com o filho? Mandei fazer o fato novo para estar a ver como tu te divertes com aquele . Estava a defendê-la perante Alfonso . olhavam-se nos olhos. e depois ficavam noivos . não queria que ele começasse a discutir com o meu companheiro de turma como até instantes antes discutira comigo . transmitira-lhe a capacidade de estudar. Disse . e não for ter com Antonio ao ter­ raço . da professora Galiani . sempre o encorajara. mas como professora era extraordinária. Amor e interesse . para o ameaçar.A Amiga Genial 26 1 Pasquale e Ada sentados à mesa. será ele a deixar-me . Tentei inserir-me na conversa. perguntou Antonio . «Quem achas que é? Não o reconheces?» «Não . e com toda a probabilidade dentro de um ano . lem ­ bras-te dela?» Não se importou nada com Marisa. o filho mais velho do Sarratore . Atravessei a sala enquanto a orquestra continuava a tocar e os pares continuavam a dançar. ner­ voso: «E tu primeiro levas-me ao Sarratore . Tinha os olhos do meu pai em cima de mim. Pensei : se voltar para junto de Nino . casariam. Dizia ele que também acabava por discordar dela muitas vezes . dentro de dez anos . estreitavam-se com força. da sua forma torrencial . Eu era como eles? Ainda era? «Quem é aquele?» . e para mim é melhor assim. Ir ter com Antonio . E aquela é a Marisa.era demasiado rígida . que nem sequer cortou o cabelo e nem pôs uma gravata?» Largou-me no meio da sala e dirigiu-se em passo rápido para a porta de vidros que dava para o terraço . Nino pareceu não ter feito o mínimo caso daquilo que se passou . e aquele olhar era feio . embora o seu olho estrábico parecesse olhar noutra direc­ ção . Sentei-me no meu lugar. que eu bem sabia como a detesta­ va.para .

e esforçava-me para sorrir.» «Obrigada. Lila encontrava-se na outra extremidade da sala . De qualquer maneira. Mas eu tinha uma necessidade crescente de recompensas que me distraíssem de Antonio . o vocalista cantava. posso arranjar- -ta eu . para dentro das suas capacidades .» Hesitou e depois disse: «Mas o teu texto não saiu . O longo e cansativo almoço de casamento estava a terminar. enumerei os livros que a professora me emprestara desde o início do ano e os conselhos que me dera. um pouco amuado . Tínhamos dezasseis anos . sinto-me metade e meta­ de . tens razão . Enzo talvez estivesse murmuran­ do a Carmela que gostava dela. enquanto ele se esforçava para retomar o discurso inter­ rompido. há-de haver outra oportunidade». Rino de certeza que já assim fizera com Pinuccia.. a rainha da festa .era a noiva. perdoa-me . Eu estava diante de Nino Sarratore . que me reconhecesse como sua semelhante . Por isso quase lhe tirei as pala­ vras da boca e. não sei o que sou nem o que realmente quero.» Tive um sobressalto de alegria e perguntei-lhe: «Onde a encontro?» «Vendem-na na livraria Guida. e murmurou: «Ainda bem.» Alfonso fez imediatamente um sorriso de alívio . sem nexo nenhum: «Quando sai a revista?» Olhou-me com um ar duvidoso . Alfon­ so e Marisa.» 62 . tempos antes . de costas . e começou a falar sobre ele .262 Elena Ferrante não ir a correr fazer as pazes com Antonio e dizer-lhe entre lágrimas: sim. que falava com ele olhando-o nos olhos . e perguntei-lhe .de que Nino me puxasse de modo exclusivo para dentro das coisas que ele sabia. Fez que sim com a cabeça. e recordou-se de que a professora. lhe emprestara também um desses textos . Pasquale . mas a culpa não é minha. ligeiramente apreensivo: «Saiu há duas semanas . muito pro- . dizia com fingida indiferença: «Está bem. comprimia no peito a dor que eu lhe causara e olhava para o mar. concluíram que não havia espaço . Antonio . A banda tocava. uso-te e depois deito-te fora. e Stefano falava-lhe ao ouvido e ela sorria.

Podia fazê-lo . Engoli as lágrimas . sem se deixar contaminar. a algum lugar. Pensei: talvez publiquem o meu texto no próximo número. sem um aperto de mão sequer. aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor. O chão estava salpicado de molho que esguichara de um prato que uma criança deixou cair. e nessa arte destacava-se o negociante de metais . Lutava para me libertar de uma espé­ cie de turvação na cabeça. Combinou com Marisa regressarem a casa juntos e Alfonso prometeu acompanhá-la. um aceno qualquer a mim ou a Alfon­ so . sem dúvida. dirigiu-se para a porta com o seu andar bamboleante . A plebe era a minha mãe . de lhe arrancar da boca as palavras necessárias . com o ar de quem tem um papel a desempenhar e o leva até ao extremo . até Lila. à hora combinada. Riam-se to­ dos . até arranjei forças para dizer: «Aliás .» Na­ quele momento eu soube o que era a plebe . Concluí que considerara a publicação daquelas poucas linhas . Mas não disse nada. aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás .A Amiga Genial 263 vavelmente . vagueava pela sala assustado . até ao lu­ gar estabelecido . «Sabes o que é a plebe?» «Sim. mas Ada arranjaria maneira. A plebe éramos nós . discutir segunda vez seria inútil . com muito mais precisão do que quando . de boca es­ cancarada. Nino levantou-se e disse que se ia embora. continuei a sorrir. já discuti uma vez com o padre .» «Exactamente» . Mas nada atenuava a desilusão . uma queda de tensão dolorosa. que a professora Oliviero tivera razão em impulsionar-me para a frente e em abandonar Lila. de vinho derramado pelo avô de Stefano . e ria-se . anos antes . Ela pareceu muito orgulhosa de ter um cavaliere tão educado . que a canseira de estudar me elevava. era . disse Alfonso . e não conse­ guia. Provavelmente nauseado pelo espectáculo em cena. Sabia entrar e sair do bairro como queria. o sinal de que eu tinha realmente um desti­ no . talvez Nino não tenha insis­ tido o suficiente . Havia algum tempo que se repetiam os brindes com alusões obscenas . Perguntei a Nino . professora. ela mo perguntara. antes da festa terminar. balbuciou qualquer coisa a respeito do vestuário e . das alusões sexuais do comerciante de metais . que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai . A plebe era aquela luta por comida e vinho . aqueles brindes cada vez mais ordinários . hesitante: «Não queres cumprimentar a noiva?» Fez um gesto largo . e a minha assinatura impressa. talvez seja melhor eu mesma tratar disso . que estava sério .

imitando sofrivelmente Aurelio Fierro . Não o modelo que estava à ven­ da. arruinando as mãos . puxou o marido energicamente pelo braço e disse-lhe qualquer coisa ao ouvi­ do . Lila. o andar de alguém que faria sempre melhor. e não o impri­ mira. Silvio fez um ligeiro gesto de cabeça aos filhos . Simplesmente aconteceu aquilo que era previsível que acon­ tecesse . e os olhos tiveram aquela repentina contracção que os transformava em duas fendas . cumprimentando este e aquele com o seu ar de patrões . na altura da tu­ multuosa mudança que quase lhe custara a vida. Manuela olhou-os com orgulho de mãe . cheirara o meu texto . O imprevisível só nessa altura se revelou . os gestos . Eram sapatos Cerullo para homem. Marcello sentou-se . Mas ela não estava a olhar para a garrafa. não houve vento . Duvidei que eu fosse capaz de fazê-lo . Tinha o rosto . Marcello tinha calçados os sapatos comprados tempos antes por Stefano . pareceu-me ter desa­ parecido a única pessoa em toda a sala que tinha a energia para me levar dali para fora. Tinha uma garrafa de vinho na frente . Rino convidou Marcello a sentar-se . com um sorriso amigável . Era o par que ela executara juntamente com Rino . o texto que era meu e de Lila. O vocalista começou a cantar Lazzarella . talvez tivesse aprendido anos antes . Olhava para mais longe . nem tão-pouco bater de portas . Na verdade . mas aquilo era apenas escola. fazendo e desfazendo durante me­ ses . os bonitos e elegantes irmãos Solara. a revista. Gigliola lançou os braços ao pescoço de Michele e levou-o a sentar-se a seu lado . mais branca do que o vestido de noiva. Circularam pela sala. cruzou as pernas . Apareceram. podia tudo . com um rubor repentino na garganta e em tomo dos olhos .264 Elena Ferrante capaz de fazê-lo . desapertou a gravata. . tomar­ -se pálida como era em miúda. Depois tive a impressão de a porta do restaurante se ter fechado com uma rajada de vento . apenas para o bolo de noiva e para as lembranças do casamento . por sua vez . e temi que o seu olhar a trespassasse com uma violência tal que a fizesse em mil estilha­ ços . Vi Lila perder a cor. Estudar não chegava. com o vinho a esguichar por todo o lado . seu marido . Podia ter dez nos trabalhos . Quando ele desapareceu . olhava para os sapatos de Mar­ cello Solara. Nino sim. não era aquele com a fivela dourada.

Índice .

História de dom Achille 17 Adolescência . Apagar o rasto 11 Infância .Índice das Personagens 9 Prólogo . História dos sapatos 67 .

ÜBRAS DA AUTORA NESTA EDITORA Crónicas do Mal de Amor .

Marguerite Duras : Moderato Cantabile 223 . Amor. Elena Ferrante: Crónicas do Mal de Amor 2 1 8 . Michel Houellebecq: Plataforma 226 . Jhumpa Lahiri: A Planície 2 1 3 . Cormac McCarthy: Filho de Deus . Amizade. Vladimir Nabokov: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight 204 .Chamas 2 1 5 . Rachel Kushner: Os Lança. Michel Houellebecq: As Partículas Elementares 208 . Sammler 230 . Dalton Trevisan : Novelas nada Exemplares 1 9 3 . Hermann Broch: A Morte de Virgílio 2 1 7 . Alice Munro : Falsos Segredos 222 . Homes: Assim para Nós Haja Perdão 2 1 2 . Vladimir Nabokov: Lolita 207 . Dalton Trevisan : Guerra Conjugal 202 . Alice Munro : Amada Vida 205 . Cormac McCarthy: A Travessia 1 9 1 . A . Vladimir Nabokov: Ada ou Ardor 1 90 . Vladimir Nabokov: Pnin 209 . Clarice Lispector: Laços de Família 1 97 . Denis Johnson : Anjos 1 99 . o Rei da Chuva 227 . Saul Bellow : O Planeta do Sr. Casamento 228 . Nathan Filer: O Choque da Queda 22 1 . Saul Bellow : Henderson . M . Kate Atkinson : Vida Após Vida 2 1 1 . Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba 1 92 . Junot Díaz: É assim Que A Perdes 1 96 . Isaac B ábel : Contos e Diários 2 1 6 . Luigi Pirandello: O Falecido Mattia Pascal 200 . Alice Munro : Vidas de Raparigas e Mulheres 2 1 4 . Saul Bellow : Agarra o Dia 225 . Namoro. Cormac McCarthy : O Conselheiro 2 1 0 . Irene Némirovsky : O Vinho da Solidão 1 98 .ÚLTIMOS LIVROS NESTA COLECÇÃO 1 89 . Katherine Anne Porter: A Torre Inclinada e Outros Contos 220 . Margaret Atwood: Ressurgir 2 1 9 . Dalton Trevisan : A Polaquinha 1 94 . Clarice Lispector: Um Sopro de Vida (Pulsações) 1 95 . Hjalmar Sõderberg: O Jogo Sério 206 . Marguerite Duras : Olhos Azuis Cabelo Preto 224 . Alice Munro : Ódio. Vladimir Nabokov : Riso na Escuridão 20 1 . Flannery O ' Connor: O Céu É dos Violentos 229 . Dalton Trevisan : A Trombeta do Anjo Vingador 203 .

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