A Amiga Genial

Infância, Adolescência

pt ISBN 978-989-641-479-5 Composição e paginação: Relógio D'Água Editores Impressão: Guide Artes Gráficas.pt L'amica geniale © 2011 Edizioni e/o Publicado por acordo com The Elia Sher Literary Agency Título: A Amiga Genial .0: 384238/14 .relogiodagua.0 15 1000-282 Lisboa te!. adolescenza (2011) Autora: Elena Ferrante Tradução: Margarida Periquito Revisão de texto: Inês Dias Capa: Carlos César Vasconcelos (www.Infância.relogiodagua. Lda.com) ©Relógio D'Água Editores.pt www. Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo. Novembro de 2014 Encomende os seus livros em: www.Infanzia. Depósito Legal n. n.: 218 474 450 fax: 218 470 775 relogiodagua@relogiodagua.cvasconcelos. Adolescência Título original: L'amica geniale .

Adolescência Tradução de Margarida Periquito Ficções . Elena Ferrante A Amiga Genial Infância.

Fausto . por isso. De todos os espíritos negadores É o Maligno o que menos me agasta. e vem quando quiseres. Nunca odiei os seres da tua casta. J.O SENHOR: Fica à vontade. Goethe. mandar-lhe um companheiro Que o espicaça e incita e como diabo actua. É bom. A acção do Homem depressa se atenua. W. Em pouco tempo já quer repouso inteiro.

pedreiro. o papão das histórias infantis. os outros dois filhos de dom Achille. Stefano Carracci. Outros filhos. Nunzia Cerullo. dirige a charcutaria da família. que também responde por Carmen. Pasquale Peluso. . Carmela Peluso. Rino será também o nome do filho deLila. Maria Carracci. Gianni e Elisa. também sapateiro. irmão mais velho deLila. mulher de dom Achille. Giuseppina Peluso. É a mais velha. A mãe é doméstica. só Elena lhe chama Lila. cai­ xeira de retrosaria. A família Peluso (a família do carpinteiro): Alfredo Peluso. Outros filhos. Índice das Personagens A família Cerullo (a família do sapateiro): Fernando Cerullo. Pinuccia e Alfonso Carracci. a quem todos chamam Lina. carpinteiro. A família Carracci (a família de dom Achille): Dom Achille Carracci. Raffaella Cerullo. Rino Cerullo. A família Greco (a família do porteiro): Elena Greco. sapateiro. filho de dom Achille. mulher de Alfredo. seguem- -se-lhe Peppe. O pai é porteiro da Câmara. filho de Alfredo e Giuseppina. a quem chamam Lenuccia ou Lenu. irmã de Pasquale. mãe deLila.

mulher do pasteleiro. o mais velho dos quatro filhos de Donato eLidia. revisor. A família Solara (a farm1ia do proprietário do bar-pastelaria homónimo): Silvio Solara. seu irmão. Galiani. o filho do farmacêutico. Outros filhos. filha de Donato eLidia. dono do bar-pastelaria. Clelia e Ciro Sarratore. Lidia Sarratore. mulher de Donato. também vendedor de fruta e hortaliça.10 Índice das Personagens A fann1ia Cappuccio (a família da viúva maluca): Melina. viúva maluca. Outros filhos. A família Scanno (a família do vendedor de fruta e hortaliça): Nicola Scanno. Nino Sarratore. A família Spagnuolo (a família do pasteleiro): O senhor Spagnuolo. pasteleiro do bar-pastelaria Solara. filha de Melina. professora da escola primária. Gerace. prima da professora Oliviero. Marisa Sarratore. Assunta Scanno. Nella Incardo. filho de Nicola e Assunta. mulher de Nicola (Nino). Marcello e Michele Solara. Pino. professor da escola secundária. vendedor de fruta e hortaliça. de Ischia. Ada Cappuccio. que descarregava caixas no mercado da fruta e da hor- taliça. Gino. professora do liceu. Os professores: Ferraro. mecânico. Manuela Solara. O marido de Melina. filha do pasteleiro. mulher de Silvio. A fann1ia Sarratore (a família do ferroviário-poeta): Donato Sarratore. professor e bibliotecário. prima da mãe deLila. Rosa Spagnuolo. Oliviero. . Antonio Cappuccio. Outros filhos. Enzo Scanno. filhos de Silvio e Manuela. os filhos mais novos de Donato eLidia. Gigliola Spagnuolo.

Prólogo Apagar o rasto .

1. A mãe? Aqui em Turim? S abia perfeitamente o que se passava. Ele é que era viajante . Imaginei o cuidado com que fizera as buscas . Disse que estava convencido de que a mãe andava a passear por Nápoles . pensei que quisesse outra vez dinhei­ ro e preparei-me para lhe dizer que não . ela piorou . faz o que lhe dá na gana. Tentou desculpar­ -se mas fê-lo confusamente . Nada. tinha apenas uma ponta de sarcasmo . Nunca tem sono . Rino telefonou-me esta manhã. perguntou-me de súbito . mas achas normal duas semanas de ausência?» «Sim. me­ tade em italiano . «Não estará aí contigo?» . metade em dialecto . falava só por falar.» «E agora é que me ligas?» O tom deve ter-lhe parecido hostil . sai .» «Pois sei . Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe . Não tinha miolos . entra. sem ser convidado . que nunca trabalhara na vida. que eu acolheria com prazer. dera uma volta pelos hospitais . nunca saíra de Nápoles em toda a sua vida. até tinha ido à polícia. a mãe não esta­ va em parte nenhuma. Nenhum . Que filho tão bom ! Um homem corpulento . «Mesmo de noite?» «Bem sabes como ela é. Respondi-lhe: . só negociatas e esban­ jamento . Ao passo que a mãe . Perguntara a toda a gente . já viera a minha casa pelo menos dez vezes . embora eu não estivesse zangada nem indignada. dos seus quarenta anos . Tu não a vês há muito tempo .» Mas acabara por ficar preocupado . e só gostava de si próprio . atrapalhando-se . como de costume . «Há quanto tempo?» «Há duas semanas .

Eu não. comporta-te como ela desejaria: não a procures. Se lhe chamasse Lina ou Raf­ faella. era sinal de que a nossa amizade chegara ao fim. Rino . pois repugnava-lhe a ideia de Rino ter alguma coisa a ver com o seu corpo . Passaram-se dias . que dela não fosse possível encontrar nada. mas sem esperança. Fui vendo o correio electrónico e o correio normal . ou pelo menos creio que conheço . Quando terminou . uma mudança de identidade . Nunca lhe passou pela cabeça uma fuga.» «Então . Há pelo menos trinta anos que me diz que quer desaparecer sem dei­ xar rasto .14 Elena Ferrante «Claro que não está aqui comigo . E nunca pensou em suicídio . Preferia o telefone ou as longas noites de conversa quando eu ia a Nápoles . nunca fiz uso de nenhum desses nomes . já te disse que não está. mas toda a gente a tratou sempre por Lina. A sua intenção foi sempre outra: queria volatilizar-se. tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo . queria que todas as suas células desaparecessem. 2. A mãe de Rino chama-se Raffaella Cerullo .» «Mas o que estás tu a dizer?» «Aquilo que ouviste . e ela quase nunca me respondeu . É inútil . de ser obrigado a ocupar-se dele . Sempre lhe escrevi com frequência.» E desliguei . Para mim. soluços que começavam por ser fingidos e se tomavam verdadeiros . E como a conheço bem. há quase sessenta anos que é Lila.» «Tens a certeza?» «Por favor. disse-lhe: «Por favor. e só eu sei bem o que ela quer dizer. para onde foi ela?» Começou a chorar e deixei-o fazer a fita de quem está desesperado . Aprende a viver sozinho e não voltes a ligar-me também. o sonho de refazer a vida noutro lado . 3. ao menos uma vez . . O hábito foi sempre esse . assim de repente .

» «Nada. a coisa mais óbvia não lhe ocorrera. pior.A Amiga Genial 15 Abri a s minhas gavetas . «Vi que ligaste .» Ligou-me no dia seguinte . todas desaparecidas . Desta vez telefonei eu a Rino. ao pro­ grama onde se fala das pessoas desaparecidas . Tinha o tom de voz com que tenta causar pena. ou . «Vai ver. nem um bilhete . Queria ir à televisão . Desaparecidos os filmes . fazer um apelo .» «Procuraste bem?» «Em todo o lado . tudo . Rino estava estupefacto . Não atendia no fixo nem no móvel . Os poucos livros que possuía. nem uma imagem. Desaparecido o computador. desaparecidos . a s caixas d e metal onde guardo todo o géne­ ro de coisas . que começara a familiarizar-se com os computadores em finais da década de sessenta. muito agitado . É possível que em todos estes anos não me tenha deixado nada de si .» . no tempo dos cartões perfurados . Disse-lhe: «Leva o tempo que quiseres .» Disse-me coisas sem pés nem cabeça. desaparecidos . que eu não tenha querido conservar qualquer coisa dela? É possível . principalmente o que se relacionava com ela. Mandei-o procurar pela casa toda. Ligou-me ao serão . Os sapatos dela. de Verão ou de Inverno . nem um vestido da mãe . Recortou a imagem dela de todas as fotografias em que está­ vamos juntos . Poucas . Eu própria me surpreendi . fi-lo contrariada. nada?» «Não .» Foi e verificou que não havia lá nada. só as cruzetas velhas . Descobri que não tenho nada dela. mesmo aquelas de quando eu era pequeno . As fotografias . bem como as velhas disquetes que dantes se usavam . Deitei tanta coisa fora. pedir perdão à mãe por tudo . suplicar-lhe que volte . mas depois telefona-me e diz se encon- traste nem que seja só um alfinete que lhe pertença. Escutei com paciência. Tens notícias?» «Não . quando lhe dava jeito . e ela sabe-o . «Não há cá nada. nem uma prendinha. todas as coisas relacionadas com a sua expe­ riência de feiticeira electrónica. E tu?» «Nada. depois perguntei-lhe: «Viste o guarda-fato dela?» «Para quê?» Naturalmente .

O que significa isto? Que alguém roubou tudo? O que procuravam? O que querem da minha mãe e de mim?» Tranquilizei-o .» Desliguei e . disse para mim. . tudo aquilo que me ficara na memória. já te disse . quando ele voltou a ligar. Vamos ver quem vence . Liguei o compu­ tador e comecei a escrever os pormenores da nossa história.» «Por favor. como é costume. Era improvável que alguém quisesse alguma coisa. velhas certidões de nascimento .» «Amanha-te . Até a caixa com os documentos desapa­ receu .16 Elena Ferrante «Na cave . pensei . re­ cibos de contas . Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto . Sei lá. «Posso ir passar uns dias a tua casa?» «Não . disse-lhe que estivesse descansado . Lila está a exagerar. aos ses­ senta e seis anos. também?» «Em todo o lado . contratos telefónicos . sobretudo dele . não consigo dormir. Sentei-me à secre­ tária. Agora. não sei como lidar com isto. não atendi . Rino . não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás . desta vez . Senti-me deveras irritada.

Infância História de dom Achille .

cheio de borbulhas violá- . Lila espetava sob a pele o alfinete de segurança ferrugento que achara na rua sei lá quando . dos odores de um entardecer ameno de Primavera. eu observava a ponta de metal a abrir-lhe um túnel esbranquiçado na palma da mão . 1. Lembro-me da luz violácea do pátio . e eu fazia o mesmo logo a seguir. dentro e fora da escola. lanço após lanço . tinha de agir como se ele e a farm1ia não existissem. iam até à porta do apartamento de dom Achille . dando provas de coragem ao desafio . A certa altura lançou-me um olhar dos dela. Havia algum tempo que não fazía­ mos outra coisa. eram horas de ir para casa. de olhos semicer­ rados . e depois . pendurava-se da barra de ferro a que estava preso o arame da roupa. esperando que as baratas não me su­ bissem pela pele e que os ratos não me mordessem. mas que guar­ dava na algibeira como se fosse o presente de uma fada. Pela maneira como o meu pai falava dele eu imaginava-o corpulento . balançava-se e depois deixava-se cair para o passeio . Em minha casa. de lhe falar. estava terminan­ temente proibida de me aproximar dele . de o espiar. degrau após degrau . com o coração aos saltos . sem dizermos uma palavra. havia uma animosidade e um ódio para com ele que eu não sabia de onde vinham. embora com medo de cair e de me magoar. e não só na minha. mas nós deixámo-nos ficar. fazia a mesma coisa. e eu em seguida fazia o mesmo . Gelei de medo . firme . A nossa anúzade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir as escadas escuras que . Dom Achille era o papão das histórias infantis . As mães estavam a fazer o jantar. quando ela o retirava e mo estendia. Lila trepava até à janela do rés-do-chão da senhora Spagnuolo . de olhar para ele . e dirigiu-se para o prédio onde morava dom Achille . Lila enfiava a mão e o braço inteiro na escuridão de uma boca de esgoto .

daquelas para abrir o peito às galinhas . mas vivo . Esperei um pouco. E então . Depois Lila continuou .20 Elena Ferrante ceas . vidro . Parou à minha espera e . Para acompanhá-la tinha de sair da luz azulada do pátio e penetrar no negrume da porta. dois degraus à frente . Cada ruído de passos ou de vozes era dom Achille que subia atrás de nós ou que descia ao nosso encontro com uma grande faca. Ela achava que estava a fazer uma coisa certa e necessária. e eu segui-a. deixando amplas zonas de sombra. nem porta nenhuma a abrir ou a fechar. quando a alcancei . Subíamos devagar. só estava ali porque ela também estava. De vez em quando Lila olhava para o alto . Levantou-se e começámos a subir. só se via o tom cinzento das janelonas em cada patamar. Era um ser feito não sei de que matéria. Depois habituei-me ao escuro e vi Lila sentada no primei­ ro degrau do primeiro lanço de escadas . mas pálidas . dirigindo-nos para o maior dos nossos terro­ res de então . Sabia o que ela queria fazer. De repente as luzes acenderam-se . meter-me-ia na frigidei­ ra com óleo a ferver. eu . Estava toda suada. mas não percebi porquê . sentia apenas um cheiro a coisas velhas e aDDT. mas nada ouvimos . Acredi­ tava que mesmo que o visse só de longe me lançaria para os olhos qualquer coisa aguçada e ardente . se cometesse a loucura de me aproximar da porta de sua casa. Parámos muitas vezes . Das casas chegavam-nos vozes nervosas . a princípio não via nada. ela. ferro . mas afinal . ela não sei . para ver se Lila reconsiderava e desistia. e de cada vez esperei que Lila resolvesse vol­ tar para trás . Sentia-se um chei­ ro a alho frito . vivo e com um bafo escaldante que lhe saía do nariz e da boca. mais altos do que os do prédio onde eu morava. esperara em vão que se esquecesse. Maria. dois degraus atrás e indecisa entre encurtar a distância ou deixá-la aumentar. . Esse gesto mudou tudo entre nós para sempre . violento apesar do «dom» . os filhos comer-me-iam e ele chuparia a minha cabeça. não . Os candeeiros da rua ainda não se tinham acendido . como o meu pai fazia com os salmonetes . empoeiradas . urtigas . Tremia. que me sugeria uma autoridade calma. a mulher de dom Achille . Esperámos . Ficou-me a impressão do ombro a roçar pela parede esfolada e a ideia de que os degraus eram muito altos. íamos expor-nos ao medo e questioná-lo . nem passos . tentando perceber se fora dom Achille que girara o interruptor. deu-me a mão . eu esque­ cera qualquer boa razão e . sem dúvida. matar-me-ia. No quarto lanço Lila comportou-se de forma inesperada. Quando finalmen­ te me decidi . Avançámos encostadas à parede. cheias de pe­ rigos . nem as luzes das escadas .

em dialecto: Tina. Falava com ela. Agora íamos subindo em direcção ao medo . tudo é isto e agora: a rua é esta. daí a pouco eu punha Tina a fazer o mesmo . é difícil com­ preender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre . Eu era pequena e. Tinha cara de plástico .. em primeiro lugar porque podía­ mos arrumar sobre o cimento do peitoril . embora existisse havia mais tempo do que nós . as coisas da minha boneca. do anteontem. e eu no outro . se fizesse trovões . sei lá. por entre as grades e contra a rede de protecção da fresta. A culpa fora dela. Se Nu jogava à macaca nas mãos de Lila. u m mês . Lila sentava-se no chão .A Amiga Genial 21 2. para o desconhecido . esta é a mamã . tampas de gasosa. movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada. estavam prontas para saltar para os nossos braços se rebentasse um temporal . a porta é esta. Mas nunca acontecia combi­ narmos uma brincadeira e participarmos nela em conjunto . As crianças não sabem o significado do ontem . Os adultos . e a correr. não sabíamos nada sobre o tempo . era por nós e só por nós que esperava. isto é o dia. senão vais ter frio . este é o papá. para mim era feia e asquerosa. pregos . nem do amanhã. que se chamava Nu .dez dias . se alguém maior e mais forte e com os dentes afiados lhes quisesse pegar. põe a coroa de rainha. que se chamava Tina. num dos lados da fresta de uma cave . tiravam as medidas uma à outra . cabelos de plástico e olhos de plástico . Espiavam-se mutuamente . tinha um corpo de trapo amarelado cheio de serradura. Brincávamos no pátio . No resto não querem pen­ sar. tirara-me a bone­ ca à traição e lançara-a para dentro de uma cave . Quando se está há pouco tempo no mundo . isto é a noite . vendo bem . Usava um vestidinho azul que a minha mãe lhe fi­ zera num raro momento feliz . e nessa altura tínhamo-nos sentido na obrigação de descer. e da boneca de Lila. Gostávamos daquele sítio . pelo con­ trário . a minha boneca sabia mais do que eu . com ligeiras alte­ rações . Até aquele . parecia-nos sempre que íamos ao encontro de algo terrível que . talvez nem sintamos necessidade disso . Não havia muito tempo . Ali púnhamos pedras . à espera do amanhã . eu dizia à minha. as escadas são estas . florzinhas . Para cima ou para baixo . lascas de vidro . mas fazendo de conta que não brincávamos juntas . ela falava comigo . A boneca de Lila. nessa época . Se ela pegava numa tampa e a punha na cabeça da boneca como se fosse um chapéu . e era linda. Eu captava o que Lila dizia a Nu e dizia o mesmo a Tina em voz baixa.

sobre os campos. sobre os prédios . Depois . tanto do meu lado como do de Lila. através das quais podíamos dei­ xar cair pedras para o escuro e ouvir o ruído quando chegavam ao chão. assim que lhe entreguei Tina. uma forma que assumia todas as formas . mas do lado oposto . Lila ia para lá e eu andava às voltas . 3. no último andar. às raspadelas. por vezes em segurança no nosso colo. Nu e Tina não eram felizes . fingindo que ia para outro sítio . Aquilo que mais nos atraía era o ar frio que vinha da cave. tinha-o sempre consigo . até em casa. Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. Por aquelas aberturas o escuro podia tirar-nos de repente as bonecas. E depois gostávamos das grades com teias de aranha. Naquela turma éramos todas um bocadi- . Não confiávamos na luz que incidia sobre as pedras . Pressentíamos-lhe os cantos negros . corpo de pedra vidrada e ervas venenosas . E atribuíamos a essas bocas escuras . mas as mais das vezes postas de propósito junto da rede retorcida e portanto expostas ao bafo frio da cave. um rato entre os ratos . sempre pronto para recolher num grande saco negro tudo o que deixá­ vamos cair pelos cantos soltos da rede . ela. Esse saco era um aspecto funda­ mental de dom Achille .22 Elena Ferrante lugar não era escolhido por acordo . Lila sabia que eu tinha aquele medo . Imaginava-o de boca aberta por causa das compridas presas de animal . Os terrores que nós saboreávamos todos os dias eram os delas . logo no dia em que trocámos de bonecas pela primei­ ra vez sem combinar sequer. Por isso . punha-me também ao pé da fresta. tudo aquilo que nos assustava à luz do dia. Era bonito e assustador. ao resmalhar. não estava apenas em sua casa. formando duas fendas paralelas . a minha boneca falava disso em voz alta. do escuro e da rede de malha fina. aos estalidos . mas também ali em baixo . avermelha­ da pela ferrugem e encaracolada nos cantos . sobre as pessoas fora e den­ tro de casa. enfiou-a pela rede e deixou-a cair para o escuro . uma lufada que nos refrescava na Primavera e no Verão . Dom Achille . uma aranha entre as aranhas . os sentimentos reprimi­ dos mas sempre quase a explodir. por exemplo . como quem não quer a coisa. e nele metia matéria viva e morta. aos ruídos ameaçadores que de lá saíam. como todas as coisas naquele tempo. às cavernas que por trás delas se abriam sob os prédios do bairro . só com olhares e gestos .

mas só quando a professora Oliviero não conseguia ver-nos . Um primo meu que tinha vinte anos foi uma manhã remover entulho e à noite estava morto . um dia morreu porque encontrou uma bomba e mexeu-lhe . Uma das filhas de dona Assunta. Vivíamos num mun­ do em que crianças e adultos se feriam com frequência. Giannino. O nosso mundo era assim. morrera de tuberculose aos vinte e dois anos . o trabalho . Lila não obedeceu . e mandou-a imediatamente para o castigo . e eles por vezes morriam. a vendedora de fruta e hortaliça. com sangue a sair-lhe dos ouvidos e da boca.A Amiga Genial 23 nho más . a tuberculose . pior do que os rapazes . esmagado . a gritar de medo. era ape­ nas um nome . O pai do senhor Peluso não tinha um braço . Uma vez rasgou o papel mata-borrão em pedacinhos . desceu do estrado ameaçando-a. uma trouxa escura. debaixo de um bombardeamento. Eu fui atingida duas vezes no cabelo e uma vez na gola branca. o tifo . Os da farru1ia Mel­ chiorre tinham morrido todos abraçados . era má sempre . o bombardeamento . uma mulher pesadona que nos parecia muito velha. A velha dona Clorinda morrera por respirar gás em vez de ar. supuravam. Então a professora Oliviero . o tomo . e Lila a olhar para ela de cara séria. morrera de tifo . o entulho . que andava na quarta quando nós andávamos na primeira. a bomba. longa e pontiaguda. afogado no oceano Pacífico . O filho adulto de dom Achille . o gás . A professo­ ra berrou como só ela sabia . Tenho na lembrança muitos incidentes deste tipo . atrás do quadro . mulher do senhor Peluso . o tétano . com uma voz de agulha que nos aterroriza­ va. com quem tínhamos brincado no pátio.nunca o vi mas parecia-me que me lembrava dele . porém. pois continuou a atirar bocados de mata-borrão ensopados em tinta para todos os lados. ferira-se com um prego e morrera de tétano . embora devesse ter pouco mais de quarenta. as feridas san­ gravam.fora para a guerra e morrera duas vezes: primeiro . Ela. e depois comido pelos tubarões . enfiou-os um a um no tinteiro e de­ pois pôs-se a pescá-los com o aparo e a atirá-los para cima de nós . lembro-me apenas do corpo imóvel da professora. não conseguiu equilibrar-se e foi bater com a cara na quina de uma carteira. a guerra. ou talvez não. nem sequer pareceu ter-se assustado . O filho mais novo da senhora Spagnuolo morrera de garrotilho . a su- . caiu dele abaixo e morreu . O pai da minha mãe trabalhava na construção de um edifício . A irmã de Giuseppina. o tomo arrancara-lho à traição . O que aconteceu logo a seguir não me recordo . cheio de pala­ vras que matavam: o garrotilho . Ficou caída no chão como morta. Luigina. tropeçou não se sabe bem em quê .

nunca tínhamos trocado uma palavra. ou o corrimão das escadas escuras . Ficávamos cobertos de pontinhos vermelhos . que conti­ nuava a andar no seu passo normal e às vezes até parava. Podíamos morrer se comêssemos cerejas pretas sem cuspir o caroço . a vendedora de fruta e hortaliça. um bando de rapazes do cam­ po chefiado por um que se chamava Enzo ou Enzuccio . desde pequena . mas mais novos do que eu e nunca aprendera nada com eles . Ao passo que Lila tinha. Remeto para essas palavras e para aqueles anos os muitos me­ dos que me têm acompanhado toda a vida. e as pedradas eram a regra. acertar nos . por exemplo. Mas fazia-o sem convicção . tínhamos um ataque de tosse e não conseguíamos respirar. atirava-as também .agora não consigo precisar se aos seis ou se aos sete anos . Depois . Podíamos morrer se mastigássemos pastilhas elásticas america­ nas e por distracção as engolíssemos . se estivéssemos a transpirar e bebêssemos água fria da torneira sem ter molhado os pulsos primeiro . embora cheia de medo . transmitia a ideia de que aquilo que se seguia . Sentiam-se ofendidos por sermos melhores alunas do que eles . menos Lila. A princípio ficava escondida em qualquer canto e espreitava para ver se Lila já aí vinha.24 Elena Ferrante puração . Tinha um irmão mais velho e talvez tivesse aprendido com ele . sobretudo . deixaria com ela algo de meu que ela nunca mais me restituiria. uma total determi­ nação como característica. A têmpora era um ponto muito frágil . parava e esperava por ela. fiz muitas coisas na vida mas sem convicção . Não a conhecia bem . um dos filhos de Assunta. dávamos todas muita atenção a isso . Quando as pedras vinham direito a nós fugíamos todas . começou a atirar-nos pedras . Bastava uma pedrada. Era muito es­ perta a calcular a trajectória das pedras e a evitá-las com um movimento calmo . atirar bolinhas ensopadas em tinta. ou se quando subimos juntas as escadas que iam ter a casa de dom Achille e tínhamos oito . À saída da escola. Mas quando notava que ela ficara para trás . Já nesse tempo havia qualquer coisa que me impedia de abandoná-la. se levássemos uma pancada na têmpora. ou uma pedra.. como ela não se mexia. Também se podia morrer de coisas que pareciam normais . hoje diria elegante . Quer empunhasse o cabo tricolor da caneta. apesar de estarmos sempre a competir uma com a outra. sentia-me na obri­ gação de ir ter com ela. Podíamos morrer. Mas tinha a vaga sensação de que se fugisse . como as outras . eu também tinha irmãos . Podíamos morrer.espetar a caneta na madeira da carteira com um movimento preciso . quase nove . na aula e fora dela. passava-lhe as pedras . sempre me senti um bocado desligada das minhas acções . não sei .

deixando-lhe uma marca vermelha de onde saiu imediatamente san­ gue . o cabecilha.seria feito sem hesitações . fazê-lo irritar-se ainda mais e responder de imediato com tiros igualmente perigosos . recuperou do espanto e lançou a pedra que tinha na mão . arrancando-ma da mão. tinha cabelos loiros muito curtos e olhos claros . Enzo . Lila. As raivas deles assustavam-me e tinha sobretudo medo de que . A pedra roçou pela pele de Enzo como uma lâmi­ na. subir até à porta de dom Achille . O menino olhou para a perna ferida. Eu agarrei-a por um braço. No instante seguinte estava estendida no passeio com a cabeça partida. e Lila aguardava os tiros dele para lhe mostrar como os evitava. Sentia um rancor especial por dom Achille . Pressenti que o bando se enfureceria mais e queria que nos afastássemos . fornecendo-se de pedras no meio dos carris . porém. apesar de ter o artelho a sangrar. Quando falava dele com a minha mãe chamava-lhe «O teu primo» . proferia insultos e ameaças sem parar se alguém.A Amiga Genial 25 rapazes do campo . Tinha entre o polegar e o indicador a pedra que se preparava para atirar. tinha pelo menos mais três anos do que nós . O meu pai . Sangue . era um menino muito perigoso . e digo atingimo-lo porque eu é que entregara a Lila uma pedra achatada com os bordos todos lascados . não mostrou a mínima satisfação pelo êxito da pedrada e baixou-se para apanhar outra. Enzo. Tinha sempre qualquer coisa para lhe atirar à cara e eu às vezes tapava os ouvidos com as mãos para não ficar tão incomodada com as suas palavras horríveis. Lançava com precisão pedras pequenas com rebordos afiados . Os rapazes que ele comandava também olharam incrédulos para o sangue . mas a minha mãe negava imediatamente esse laço de sangue (havia um parentesco muito afastado) e reforçava a dose de in­ sultos. Ainda estava agarrada ao braço de Lila quando a pedrada a atingiu na fronte . parece que ainda estou a vê-lo. Mas não houve tempo . mas deteve-se. Era sempre essa a ordem das coisas . Geralmente só saía das feridas depois de se terem trocado maldições terríveis e obscenidades nojentas . um contacto brusco e assustado. como ele dizia. 4. o braço já estava no ar para fazer o lançamento . estupefacto. Uma vez atingimo-lo no artelho direito. não fosse dig­ no de andar à face da terra. foi o nosso pri­ meiro contacto físico. era repetente. que até me parecia ser um bom homem. O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro .

Factos ocorridos em tempos obscuros . a borracha. de fisionomia animal-mineral incerta. . como se o corpo tenebroso dele fosse um íman . mas sim o senhor Peluso . queijos provolone . a turquês . Receava que ele viesse matá-los . o que tomara a oficina inútil . que era já grande. porque não sabia como matar a fome à farm1ia. a marmelada. talvez nem fosse possível fazer-lhe um arranhão . Durante anos imaginei o alicate . o inimigo figadal de dom Achille não era o meu pai . morta­ dela.. Censurava-o mesmo por lhe ter tirado também a oficina e tê-la transformado numa charcutaria. Todas as vezes que o víamos . Era um tempo lon­ go .acontecimentos de um modo geral obscuros . pois perdia ao jogo tudo o que ganhava. que . to­ das as ferramentas próprias do ofício de carpinteiro . Por razões obscuras atribuía a sua ruína a dom Achille . «Antes» . nossa companheira de escola.o «antes de nós» . feito de matérias heterogéneas . durante o qual não tínhamos existido.26 Elena Ferrante dom Achille tivesse o ouvido bem apurado e conseguisse ouvir os insul­ tos mesmo a grande distância. a ca­ neta. crianças mais miseráveis do que nós . e por isso voltavam para casa cheias de nódoas roxas por causa das pancadas que lhes dávamos . como o facto de ter realmente havido um antes . muito longo . um carpinteiro muito habilidoso que andava sempre sem cheta. Era isso que nessa época a deixava perplexa e por vezes até a enervava. Dom Achille devia ter-se ma­ nifestado em toda a sua monstruosa natureza antes de nós nascermos . também sob a forma de enxame . no armazém das traseiras do bar Solara. Mas parecia que não lhe importava tanto aquilo que acontecera antes de nós .parecia . na escola e fora dela. de Pasquale . Peluso era o pai de Carmela. Não só perdia tudo ao jogo como andava à pancadaria em público . Quando nos tomá­ mos amigas falou-me tanto daquela coisa absurda . banha e presunto .tirava o sangue aos outros . Acusava-o de lhe ter tirado sub-repticiamente . a serra. com as quais eu e Lila às vezes brincávamos e que na escola e não só tentavam sempre roubar as nossas coisas . para o interior da matéria de que era composto dom Achille . e de outros dois . o tempo em que dom Achille se mostrara a todos como aquilo que era: um ser malvado . Porém. salames. o senhor Peluso parecia-nos a imagem do desespero .que acabou por me transmitir o seu nervosismo . Durante anos vi-lhe sair do corpo tosco e pesa­ do . Lila usava essa expressão muitas vezes . o tomo e milhares de pregos a serem suga­ dos . sobre os quais os adultos guardavam silêncio ou se pronunciavam com muita reticência . o martelo . enquanto o dele nunca vertia. como um enxame metálico .

que era da nossa idade . descarregava caixas no mercado da fruta e . porque eles enfureciam-se a todo o passo mas acabavam por se acalmar. Tinha pouco mais de trinta anos e seis filhos . todos os dias . nós no segundo andar e ela no terceiro . das moscas . e ainda não nos falávamos . O marido era da mesma idade . das salamandras . magoavam-se . Fazer mal era uma doença. Não tenho saudades da nossa infância. mas não me lembro de ter alguma vez pensado que a vida que nos calhara fosse particular­ mente desagradável . das rãs . das carruagens de comboio abando­ nadas do lado de lá do aterro . Melina morava no mesmo pré­ dio que os meus pais. mesmo para as raparigas . Aconte­ cia-nos de tudo . sem que o pobre homem pudesse ao menos dizer: socorro ! 5. s e ati­ rara a Peluso . com o sangue a correr-lhe das inúmeras fe­ ridas na cabeça e por todo o lado . quando constou que mesmo e m frente da igreja da sagrada Fanu1ia. o filho mais velho . As mulheres lutavam mais umas com as outras do que os homens . mas parecia-nos uma velha. saíam dos charcos . o senhor Peluso se pusera a gritar furiosamente contra dom Achille . que pareciam ser caladas . desmaiado . Em pequena imaginava animais pequeninos . em casa e fora dela. crescíamos com a obrigação de tomá-la difícil aos outros . E eu também. quase invisíveis . uma parente da mãe . foi cheia de violência. ao passo que as mulheres . Eram mais contaminadas do que os homens. fazendo as nossas mães e avós ficarem raivosas como cadelas sedentas . mas sentia que esses modos não eram adequados para o nosso bairro . talvez . e da mulher e . das pedras .A Amiga Genial 27 Andávamos na segunda classe . e metiam-se na água e na comida e no ar. e ali o deixara. do pó . das ervas malcheirosas a que chamavam fedorentas . que apareciam de noite no bairro . o levantara no ar e o lançara contra uma árvore do jardim. à saída da missa. conciliadoras . quando se zangavam enraiveciam-se de tal maneira que nunca mais lhes passava. de Pinuccia. de Alfonso . agarravam-se pe­ los cabelos . A vida era assim e mais nada. apresentando-se por u m instante n a sua forma mais horripilante . É claro que teria gostado das maneiras delicadas que a professora e o padre pregavam. Lila ficou muito marcada por aquilo que aconteceu a Melina Cappuc­ cio . e que dom Achille se afastara de Stefano . antes que os outros a tomassem difícil a nós .

le­ vava o filho mais novo a passear no carrinho . Tudo coisas muito anóma­ las no bairro . A viúva preferia pensar que . por ele ter um feitio tão dócil . pelo nome. em que todo o bairro participou . esforçou-se muito por ela. Donato era frequentador assíduo da igreja paroquial da Sagrada Fanu1ia e. Antonio . Teve um funeral muito triste . tinha um ordenado fixo com que sustentava decentemente a mulher. o consideravam um tipo efeminado . o mais velho dos quais se chamava Nino . dentro do seu peito de mulher desolada. para que ela o libertasse e permitisse assim que ele se juntasse com ela. Quando não andava em viagem no percurso Nápoles-Paola e regresso . Melina ficou-lhe tão grata que a gratidão se transformou . que morava no apartamento por cima do dela. Por fora continuou a mesma. Todos os homens da vizinhança. Sarratore tentou por to- . e por isso decidiu lutar ferozmente contra Lidia Sarratore . os meus pais também e os pais de Lila igualmente . roupas e sapatos usados . com um rosto altivo . Decorrido algum tempo . Uma noite saiu de casa como era habitual e morreu . tanto mais que até escrevia poesias e as lia com prazer a quem calhava. seu conhecido . com as sílabas alongadas por um desespero raivoso: Aaa-daaa. e cinco filhos . Lidia passava sob as janelas e ela cuspia-lhe para a cabeça ou despejava-lhe baldes de água suja para cima. a mulher o dominava. recolhendo dinheiro . como bom cristão . fazia parte do pessoal de bordo da Companhia dos Caminhos de Ferro do Estado . no quarto e último piso . Lidia estendia os len­ çóis acabados de lavar e Melina subia para o parapeito e sujava-lhos com uma cana cuja ponta queimara de propósito no lume. sabe-se lá o que aconteceu a Melina. igreja e trabalho . a voz aguda com que à noite chamava os filhos da janela. mas bonito . em paixão . Lembro-me dele baixo e largo . um por um. A guerra que se seguiu a princípio pareceu-me divertida. Era um homem amistoso mas muito sério . Não passava pela cabeça de ninguém que Donato se esfor­ çasse daquele modo para aliviar os trabalhos da mulher. Tal coisa também não passou pela cabeça de Melina. uma mulher seca com o nariz grande . a andar pela casa juntamente com os filhos endiabrados . em amor. falava-se disso em minha casa e fora dela entre risotas maldosas . os cabelos já grisalhos . e arranjando-lhe colocação para o filho mais velho .28 Elena Ferrante da hortaliça. Lidia fazia barulho de dia por cima dela. dedicava-se a arranjos disto e daquilo em casa. e ela insistia em bater no tecto toda a noite com o cabo da esfregona. A princípio foi muito ajudada por Donato Sarratore . com o meu pai à cabeça. Não . ia fazer as compras . na oficina de Gorresio . Miii-che . casa. talvez assas­ sinado ou então de cansaço . Lidia. Não se sabia se Sarratore se apercebera disso .

bem penteados . Uma das muitas cenas terríveis da minha infância come­ ça com os gritos de Melina e Lidia. mas sem desprezo . A partir daí comecei a ter medo delas . depois virei-me para ver o que Lila fazia. com palavras duras e raivosas . sem uma palavra de pré-aviso . apesar de ser mais baixa e muito magra. sem arregalar os olhos . Nino . Marisa chamou-nos a atenção para ela cha­ mando-lhe «a puta» . como um melão branco que nos escapuliu da mão . e trazia na mão um cartucho do qual ia tirando qualquer coisa e comendo . Primeiro socorri Marisa. Ou porque Donato era dela e tínhamos percebido que Me­ lina lho queria tirar. Lila. estávamos do lado de Lidia Sarratore . ainda hoje insuportável para mim . como costumava fazer em todas as situações de violência. através dela. demasiado delicado . e a cabeça de Melina a bater no chão do patamar. Con­ nosco encontrava-se Marisa Sarratore . poder entrar em contacto com o irmão mais velho . a abri-la e a aparecer no patamar seguida por nós . É difícil dizer porque é que naquele tempo nós . que tinha mais uns aninhos do que nós . Nino . das duas vizinhas a rebolar pela escada agarradas uma à outra. éramos quatro ou cinco meninas . e fê-lo a sangue frio . e eu pensei que ela en­ carava as coisas dessa forma porque no íntimo era má e também porque ela e Melina eram parentes afastadas . ou seja. e termina com a imagem. em determinada ocasião . Vinha pelo outro lado da lon­ ga rua em passo lento . Só Lila pendia para o lado de Melina. as duas mulheres começaram a trocar insultos quando se cruzavam na rua ou na escada. sem prestar atenção aos ca- . Descera do passeio para atra­ vessar a estrada larga e ir ter com Melina. crian­ ças. mas nunca nos explicou porquê . e ajudei-a a levantar-se . sem gritar antes e sem gritar depois . gostávamos dele . deu-lhe imediatamente uma bofetada. com tanta força que a atirou ao chão . era bonito . não porque simpatizássemos com ela mas porque esperávamos . Um dia vínhamos da escola. continuando a provocar-se mutuamente . mas era um homem demasiado sensível . que se Lidia Sarratore acabasse por ser morta era bem feito . crianças . continua com a minha mãe a correr para a porta de casa. ao passo que os de Lidia andavam limpos. com os insultos que gritavam das janelas e depois na escada. e o mais velho . Talvez porque ela tinha feições regulares e cabelo loiro . fria e decidida.A Amiga Genial 29 dos os meios que houvesse paz . que habitualmente nos acompa­ nhava. repetindo simplesmente a ex­ pressão que ouvia à mãe em casa. a poucos centímetros dos meus sa­ patos. Foi ela a primeira a avistar Melina. E assim . Disse apenas . que estava a chorar. Ou porque os filhos de Melina andavam andrajosos e sujos .

estava imóvel . mas de a enaltecer. frases cujo sentido geral me desorientou . professora e aluna.breve. escura. como disse. etc . apesar de Lila a ter feito cair e a ter manda- . imóvel pelo desgosto . Logo a seguir entrou Nunzia Cerullo . Mas afinal . mais na atitude do que no rosto . Imóvel dentro daquilo que a parente da mãe estava a fazer. e ofereceu à professora dois saquinhos de papel. de forma que por agora me limitarei a dizer assim: embora se movesse . dos nossos dias e da nossa memória. comunhão . sabia contar um dois três quatro . nessa época. Limitaram-se ambas a desaparecer. Estávamos na primeira classe . era elogiada a toda a hora por causa da caligrafia. Mas tudo era muito surpreendente . um com açúcar e outro com café. eu . surpreendentemente . 6. A professora aceitou a oferta de bom grado e disse . durante um período de tempo que não consigo definir . mãe de Lila. Andá­ vamos ainda a aprender o alfabeto e os números de um a dez . funeral) . Era uma só com Melina. sapatos com um bocado de salto que lhe martirizavam os pés inchados. por causa do terrível castigo que apanharia. não com a intenção de a castigar. vivia entrouxada em chinelos e velhos vestidos coçados . longo . Cola­ da. pequena. To­ davia. uma pequena bolsa brilhante . que como a maioria das mulheres do bairro . A melhor da aula era eu . Ela. a ela e a toda a turma. nervosa.nada aconteceu . . apareceu em traje de cerimónia (casamento . olhando para Lila que por sua vez olhava para a carteira. No dia em que a professora Oliviero caiu do estrado e foi bater com a maçã do rosto na carteira. ganhava os laços com as três cores da bandeira que a professora costurava. imóvel de pasmo como as estátuas . toda de escuro. Esta nova fase começou quando a senhora Cerullo. A professora Olivie­ ro voltou para a escola viva e começou a dar atenção a Lila. embora o fizesse com a determinação habi­ tual . irreconhecível . já conhecia as letras todas .30 Elena Ferrante miões que passavam. julguei-a morta. que trazia na mão o sabão escuro e macio acabado de comprar na cave de dom Carla . algo que me perturbou e que ainda me é difícil definir. do qual tirava pedacinhos com a outra mão e comia. e pareceu-me que como consequência disso também Lila morreria. Vi-lhe . a atravessar a estrada. Uma manhã o contínuo bateu à porta e anunciou-a. crisma. foi chamada à escola. morta no local de trabalho como o meu avô e o marido de Melina.

Verdade que se aquela menina não se comportasse de maneira tão indisciplinada. e a professora entregou-lhe o giz . Pegou num bocado de giz e escreveu no quadro (agora não me lembro o que foi . disse desconsolada à filha: «Erraste . casualmente . muito concentrada. quase assustados . o que está aqui escrito?» Na aula fez-se um silêncio de expectativa. por isso vou inventar) a palavra «sol» .» Lila foi ao quadro contrariada. não teria caído do estrado . Verdade que fizera aquela coisa horrível de atirar peda­ ços de mata-borrão sujos de tinta para cima de nós .» Mas a professora tranquilizou-a de imediato: . quase uma careta. vem ao quadro . para cima da compa­ nheira de carteira. vendo a correc­ ção . disse-lhe . Depois leu . a nossa professora. em tom amuado: «Sol. atrás do quadro. escreveu: «gi» . que deu vários sinais de irritação . Mas depois deve ter deduzido que Nunzia não sabia ler ou que não tinha a certeza de que a palavra escrita no quadro era mesmo «sol» . Mas existia um facto que a enchia de alegria enquanto profes­ sora e enquanto pessoa. como se as palavras não lhe bastassem ou como se quisesse ensinar à mãe de Lila e a nós que os factos contam quase sem­ pre mais do que as palavras . A professora a princípio pareceu não compreender porque é que naqueles olhos de mãe não se via o seu próprio entusiasmo . disse que a melhor da aula era ela. com uma caligrafia trémula.A Amiga Genial 31 do para o hospital . «"giz". Depois. e franziu o sobrolho . Aqui calou-se. um facto maravilhoso que descobrira havia poucos dias . A professora acrescentou o «Z» e a senhora Cerullo . de facto . ainda não sabia ler. em parte para esclarecer a situação à senhora Cerullo e em parte para encarecer a nossa companheira.» Lila. «Escreve aí» . ferindo-se na maçã do ros­ to . e deitou-se toda de lado . Verdade que era obrigada a castigá-la constantemente com a vara de madeira ou mandando-a ajoelhar-se em cima do trigo rijo. disse a Lila: «Muito bem. Cerullo . Depois perguntou a Lila: «Cerullo . desenhando uma letra mais acima e outra mais abaixo . ela. Verdade que ela era a mais má.» Depois ordenou-lhe: «Vem cá.» Nunzia Cerullo olhou para a professora com olhos incertos . o que ali está escrito é "sol" . Lila fez um meio sorrizi­ nho .

respondeu: «EU . Portanto. graças às folhas de jornal em que os clientes embrulhavam os sapatos velhos e que o pai às vezes levava para casa. para ler à farm1ia as notícias locais mais interessantes .32 Elena Ferrante «Não . quando o encontrávamos . começou a levá-lo todos os dias para a sua oficina de sapateiro numa ruela do outro lado da rua larga. de cabelos e olhos escuros e de bata. sobretudo no lançamento do pião. com um laço cor-de-rosa ao pescoço e apenas seis anos de vida. não . para lhe ensinar o ofício de remen­ dão.» «Mas em vossa casa ou no prédio há alguém que o possa ter feito?» Nunzia fez energicamente que não com a cabeça. pequena. sobretudo . com evidente admiração . perguntou-lhe diante de todas nós : «Quem te ensinou a ler e a escrever. a gáspeas velhas . chamávamos-lhe chineleiro . Enquanto fazia os trabalhos de casa na cozi­ nha. era impossível que Lila tivesse aprendido devido à aplicação escolar dele . pois tem. aprender poesias de cor. Então a professora dirigiu-se a Lila e . a sensação de . Mas ler. o facto relevante era este: Lila sabia ler e escrever. A Lila tem de praticar. nem um minuto. Cerullo?» Cerullo . Nós . olhando para as letras e para as gravuras do seu silabário . e gozávamos com ele . Não importa. Talvez fosse por isso que ele se gabava de estar na origem da proeza da irmã. não eram coisas para ele. Segundo dizia Rino . era um rapaz deste­ mido que se destacava em todos os jogos do pátio e da rua. escrever.» 7. Fernando . a menina tinha aprendido a ler por volta dos três anos . a massa de sapateiro . E daquela manhã cinzenta em que a pro­ fessora no-lo revelou ficou-me na lembrança. Mas a verdade é que nunca tivera um silabário e nunca se sentara. o irmão mais velho de Lila. de olhos baixos: «Eu . mas já sabe ler e já sabe escrever. Ainda ele não tinha dez anos quando o pai . Era mais provável que ela tivesse compreendido precoce­ mente como funcionava o alfabeto . Quem a ensinou?» A senhora Cerullo disse . sentíamos-lhe o cheiro a pés sujos . a fazer os trabalhos de casa. fosse de uma maneira ou de outra. não . não . Rino era quase seis anos mais velho do que Lila. as meninas . fazer contas . ela sentava-se a seu lado e conseguia aprender mais do que ele .

Era aloirada. Era o . Mas se não fores boa aluna. Mas gostava sobretudo de agradar à professora. recomeçava. e o passo dela perturbava-me . opulenta. que nós deixamos-te estudar. com certeza. as coisas com ela nunca corriam bem. todavia. porta-te bem com a professora. Coxeava. nem eu com ela. Em casa era a preferida do meu pai e os meus irmãos também me esti­ mavam. que lhas impusera. Discutiam. sen­ ti que fora a minha mãe que lhas sugerira. Desde o primeiro dia que a escola me parecera um lugar muito mais bonito do que a minha casa. nem quando perdia a paciência. que me dissera no primeiro dia de escola: «Lenuccia. Fora ele .» Aquelas palavras tinham-me assustado muito. Repugnava-me o seu corpo . voltava para trás . nos primeiros tempos . Já nessa altura. coisa que ela provavelmente intuía. quando não conseguia dormir e caminhava pelo corredor. Estava com atenção nas aulas . Eu . com pouco mais de seis anos . Prometi aos dois que seria boa aluna. ia para lá cheia de entusiasmo . A professora tinha sempre junto de si uma cadeira vazia e chamava as melhores alunas para ali se sentarem. gabava os meus caracóis loiros. estava sempre sentada a seu lado . as baratas que se introduziam pela porta de entrada. o papá precisa de ajuda e tu vais trabalhar. e assim reforçava em mim o desejo de fazer tudo bem. de olhos azuis . embora ele às vezes lhe batesse e soubesse ser ameaçador para mim. E as coisas tinham logo corrido tão bem que a professora me dizia muitas vezes: «Greco . Mas como o meu pai nun­ ca levantava a voz . sobretudo de noite . e imaginava-a com os olhos furiosos . que era porteiro na câmara. Zangava-se muitas vezes com o meu pai .» Era um grande privilégio . vem sentar-te ao pé de mim. e não a minha mãe . O problema era a minha mãe. Não era feliz . que assim não se podia continuar. contra ela. ela chamava-lhe a perna ofendida. E a perna direita também não funcionava bem. Ela incitava-me com palavras encorajadoras . as tarefas da casa consumiam-na e o di­ nheiro nunca chegava. gostava de agradar a toda a gente . Não simpatizava comigo . embora pronunciadas por ele . era o sítio onde me sentia mais em segurança. berrava-lhe que ele tinha de inventar qualquer coisa. Às vezes ouvia-a esmagar com o calca­ nhar. ia à cozinha. eu tomava sempre o partido dele . fazia com o má­ ximo cuidado tudo o que me diziam para fazer. como quando se irritava comigo . como prémio . se não fores a melhor. Em todo o bairro .A Amiga Genial 33 fraqueza que essa notícia causou em mim. Mas nunca se sabia para onde o seu olho direito estava a olhar. tinha a impressão de que ela fazia tudo para me dar a perceber que eu era supérflua na vida dela. cheia de raiva. aprendia.

Então . quando eu estava em casa. e às vezes de insultos . Pensei que . de tal forma que ela se irritava e depressa a mandava voltar para o lugar. Ou talvez tenha disfarçado desse modo o senti­ mento de subalternidade . mais diligente . dava ponta­ pés mesmo quando estava sentada ao lado da professora. corria constantemen­ te o risco de ficar coxa. a mim. para ver se as pernas ainda estavam em ordem. o passo da minha mãe . O que essa despromoção causou dentro de mim não sei . Além disso . continuou a elogiar Marisa Sarratore . mais subtil . mas dava a impressão de que o fazia mais para ela se portar bem do que para premiá-la. para aceitar de bom grado a superioridade de Lila em tudo . se eu andasse sempre atrás dela. encorajou-me a ser cada vez mais disciplinada. a professora elogiava-me primeiro a mim com mo- . o sortilégio que estava a sofrer. É provável que tenha sido essa a minha maneira de reagir à inveja e ao ódio e de sufocá-los . Preparei-me . claro está. a professora comportou-se de maneira muito perspicaz . me cobria tan­ tas vezes de repreensões . Mas foi sem dúvida nessa altura que nasceu em mim uma preocupação .34 Elena Ferrante contrário da minha mãe . que . acompanhando a sua passada. Acordava com essa ideia na cabeça e levantava­ -me logo da cama. Deixou-me brilhar com uma luz viva. É verdade que chamava Lila muitas vezes para se sentar a seu lado . deixaria de ser uma ameaça para mim . um pouco de ciúmes . Car­ mela Peluso e . nunca a perder de vista. mesmo que ela se aborrecesse e corresse comigo . Com efeito . que só me apetecia esconder-me num canto escuro e esperar que ela nunca mais me encon­ trasse . que tinha umas perninhas muito magras e ágeis e não parava de as mexer. 8. Tal­ vez fosse por isso que fixei o pensamento em Lila. Decidi que tinha de me regular por aquela menina. principalmente . embora as minhas pernas funcionassem bem. que me estava gravado na cabeça e dela não saía. Depois aconteceu que a senhora Cerullo veio à aula e a profes­ sora Oliviero nos revelou que Lila estava muito mais adiantada do que nós . A princípio talvez nada. e também as suas prepotências . hoje é-me difícil dizer com exactidão e clareza aquilo que sen­ ti . al­ guma coisa me convenceu de que . como todas . E mais ainda: passou a chamá-la mais vezes do que a mim para nos sentarmos a seu lado . Quando Lila se deixava de turbulências e me passava à frente sem esforço .

Cácios. etc . A professora até dizia que com um pouco de esforço seria capaz de fazer a prova da segunda classe e passar para . só para me manter a par daquela menina terrível e brilhante . os alunos sentiam que me esforçara muito para aprender aquilo tudo de cor. Por isso empreguei todas as minhas energias de menina. . Se ficava em segundo lugar depois de Lila. eu caía morta. O caso de Lila era diferente . Se depois fosse a melhor a recitar as poesias . para sondar o nível de competência do inimigo . os outros professo­ res faziam-me uma festa. Em permanente conflito com os seus colegas . de forma a apurar quais os alunos mais brilhantes e.assavam. quarto . Se um dia ela dissesse que as melhores eram a Cerullo e a Sarratore. sem humilhar professores nem alunos . A professora Oliviero gostava dessas competições . nunca a ouvir dizer com orgulho que a Cerullo e a Greco eram as melhores .parecia-me impossível consegui-lo . quais os professores mais competentes . ou a Cerullo e a Peluso. foi a menina mais detestada da escola e do bairro . Graios . a cantar a tabuada. feliz por me exibir mas não atrevida. mas para não cair para terceiro . Era uma menina de caracóis loiros . Pelo menos duas vezes por ano o director obrigava as classes a com­ petirem umas com as outras . Apeninos . Brilhante para mim. independentemente dos encontros organizados pelo director. ou último lugar. consequentemente . Geralmente ganhava eu . para competir com outras crianças . por culpa do director e também um pouco por culpa da professora Oliviero . Da primeira à quinta classe da primária. Sentia mais o veneno da derrota quando era a Sarratore ou a Peluso que me ultrav. de que era a melhor professora da escola primária do nosso bairro . mas sem exagerar. não para me tomar a melhor da aula . Habitualmente eu era enviada para apalpar o terreno . Para todos os outros alunos . a fazer divisões e multiplicações .A Amiga Genial 35 deração e só depois exaltava a competência dela. Lila era simples­ mente terrível . a dizer que os Al­ pes eram Marítimos . fazia uma expressão resignada de aceitação . que me eram estranhas . Por isso levava-nos muitas vezes às outras salas de aula. e por isso não me odiavam. Dediquei-me ao estudo e a muitas outras coisas difíceis . bonitinha. com os quais por vezes parecia perto de chegar a vias de facto . servia-se de Lila e de mim como prova evidente da sua competência. creio que só receava uma coisa: nunca vir a estar a par de Lila nas hierarquias estabelecidas pela professora Olivie­ ro. e transmitia uma impressão de delicadeza que enternecia. Nesses anos. Na primeira classe já estava além de qualquer competição possível . meninas e meninos ..

o malvado filho da vendedora de fruta e hortaliça. ou resolver problemas de aritmética. Tanto as raparigas como os rapazes a detestavam. portanto . e para os profes­ sores e professoras significava aceitar que tinham sido crianças medío­ cres . E nada no seu aspecto poderia servir para suavizar essa impressão . mais do que alunas e professoras . uma picada letal . a professora Oliviero tinha prazer em levar­ -nos. falava sempre em dialecto como todos nós .36 Elena Ferrante a terceira com menos de sete anos . crianças . Aliás . Para nós . usando até palavras como «avezado» . não dava abertura para amabilidades . A sua rapidez mental fazia lembrar um sibilo . mas os rapazes mais abertamente . nos ditados não dava um erro . Cheguei a pensar que na escola se apostasse dinheiro . «luxuriante» . às salas de aula onde . nem mais nem menos . Lila fazia de cabeça contas complicadas . os ânimos exaltavam-se . Toda a gente conhecia Enzo . era tangível . o irmão de Marisa que eu amava. havia uma expressão que não só parecia pouco infantil . Mas foi exagero meu . a uma quarta classe . O que é certo é que uma manhã nós duas . onde se encontra­ vam Enzo Scanno . sobretudo . porque . por motivos seus igualmente secretos . quando a professora a mandava para o terreno para dizer os modos e os tempos dos verbos . no fundo das quais . reconhecer a sua competência era o mesmo que admitir que nunca se­ ríamos capazes de a alcançar. Andava desgrenhada. Os olhos gran­ des e vivos sabiam transformar-se em duas fendas . privilegiava sobretudo competições desse mesmo tipo . que na altura andávamos na segunda classe . fosse como fosse . De modo que . «com todo o gosto» . por qualquer motivo secreto . que era inútil competir. antes de qualquer resposta acertada. ela arranjaria maneira de nos fazer ainda mais mal . como talvez não humana. podíamos humilhar alunos e professores . mas quando era preciso pu­ xava de um italiano como mandam os livros . um relâmpago . a do professor Ferrara . suja. E o director. Lila era de mais para qualquer pessoa. nos joelhos e nos cotovelos tinha sempre crostas de feridas que não tinham tempo de sarar. Depois essa distância aumentou . e Nino Sarratore . naqueles nossos encontros . extinguia-se qualquer hipótese de lhe mostrarem boa cara. Todos os seus movi­ mentos avisavam que era inútil fazer-lhe mal . Era repetente e pelo menos duas vezes tinham-no levado a percorrer as salas de aula com um cartaz ao pesco- . fomos levadas . talvez até muito . Além disso . eu sentia-o . O ódio . ou de permitir que o director tivesse rédea curta sobre os professores menos capazes ou menos obedientes . Provavelmen­ te era apenas uma forma de dar vazão a velhos rancores .

Lila também não estava à altura. perguntaram-nos as quatro operações .Alfonso Car­ racci . multiplicações e divisões . ficou embasbacado como se não percebesse o que os dois professores lhe perguntavam. Dessa particular ocasião fica­ ram-me na lembrança três coisas . e o que tinha de bom era que não gozava com uma pessoa quando a vencia. perguntaram-nos a s tabuadas . em que o professor Ferrara . Pelo menos duas vezes . errava sobretudo as multiplicações e as divi­ sões . ouviu-se a voz de Enzo Scanno cheia de desprezo . quando Lila não respondeu ou Alfonso errou . Alfonso . e depois o desafio começou . começou a falhar. tinham-no debaixo de olho só porque era brigão . Perguntaram-nos os verbos . vinda das últimas carteiras . Nino . que era conhecido e querido principalmente por mim. do que Alfonso Carracci . rosto pequeno e enrugado . como se não lhe importasse que ele a vencesse . perante as duas classes reunidas numa mesma sala. A terceira é que Lila fez frente ao filho de dom Achille sem garra. dizer o resultado certo . Aquilo espantou os outros alunos . incapaz e delinquente . A primeira é que o pequeno Alfonso Carracci me derrotou imediatamente . um menino muito estimado . que por vezes ficava calada como se não tivesse ouvido a per­ gunta. e percebeu-se que o professor o chamara ali à quarta classe por ter mais confiança nele do que em Nino . eram Nino e . tão dócil . de ca­ belos grisalhos cortados à escovinha. devido à convoca­ tória imprevista de Carracci . Mas a certa altura deu-se um facto imprevisto . Por outro lado . por isso andavam mais ou menos a par. do que Nino Sarratore? Foi como se Lila tivesse acordado de repente . era calmo e preciso . olhos inquietos . A segun­ da é que Nino Sarratore . preguiçoso . espan­ tou-me a mim e a Lila . o director. escolarmente falando . os professores . primeiro n o quadro e depois de cabeça. era tão bom. quase nunca respondeu às perguntas . da se­ gunda classe como nós . um homem alto e muito magro . surpreendentemente . Alfonso fi­ cou fora de jogo num instante e . havia escrito «burro» . A cena só se animou quando se passou aos cálculos de cabeça de adi­ ções . É claro que Enzo não valia nada. apesar da apatia de Lila. pelo contrário . Houve uma certa tensão entre Oliviero e Ferrara . terceiro filho de dom Achille . soubesse fazer contas de cabeça complicadas melhor do que eu . Passava por ser muito inteligente . em ques­ tões de inteligência. que aparentava menos do que os sete anos que tinha. quase dois anos mais velho .descobrimos logo . subtracções .A Amiga Genial 37 ço . tão silencioso . Como era possível que um rapaz como Enzo . Os nossos adversários . se o filho de dom Achille se ia abaixo . com o consentimento orgulhoso do .

passando por cima do professor. Tal como eu . se quisesse . Fizeram frente um ao outro durante muito tempo . Começou a pra­ guejar. Era assim. era capaz de do­ sear o uso das suas capacidades . em frente de Lila. a gritar obscenidades horríveis . Por exemplo . a poei­ ra das ruas . e o professor corrigia-lhe a dicção . chamou ao estrado . também ela estava proibida de fazer desconside­ rações . mas ele recusou-se a ir. O duelo prosseguiu com contas de cabeça cada vez mais difíceis. as suas casas de um branco-sujo. suas e dos seus acólitos . porque Lila acordara definitivamente e agora tinha os olhos semicerrados . O rapaz dava as respostas em dialecto . como se estivesse na rua e não numa sala de aula. Não só não quisera vencê-lo . mas o resultado estava sempre certo . Ali se iniciaram muitos comportamentos de difícil decifração . muito determinados . era um facto . Depois começou a ir-se abaixo . eu calculava qual era a razão . A verdade é que não era preciso fazer perguntas . 9. Fora isso que fizera com o filho de dom Achille . sem à-von­ tade . e respondia com precisão . para junto de Lila. mas existia. mas depois postou-se junto ao quadro . O professor mandou-o pôr-se de joelhos atrás do quadro . Enzo por fim perdeu . Com toda a probabilidade . A certa altura o director. não só a dom Achille como a toda a farm1ia. o filho da vendedora de fruta e hortaliça. O dia de escola acabou assim. Não sabíamos de onde vinha aquele medo-rancor-ódio­ -condescendência que os nossos pais mostravam sentir pelos Carracci e que nos transmitiam. viu-se claramente que Lila. Levou chibatadas nos dedos e foi arrastado pelas orelhas até ao canto do castigo . o cheiro miserável dos patamares . como calibrara silêncios e respos­ tas de forma a não se deixar vencer. assim como o bairro .38 Elena Ferrante professor. sério . Enzo parecia muito orgulhoso daquele momento de glória. Aquela manhã do duelo entre ela e Enzo é importante na nossa longa história. Nessa altura ainda não éramos amigas e não podia perguntar-lhe porque tivera aquele comportamento . também Nino Sarratore ficara . Enzo levantou-se da última carteira entre risadinhas nervosas . Mas a partir daí o bando dos rapazes começou a atirar-nos pedras . que prontamente trocou de paladino . Perdeu mas não se conformou . ele próprio admirado de ser tão inteligente . iniciou-se um duelo entre Lila e Enzo .

diria eu hoje. Lila vencera Enzo de propósito . Subira-lhe um rubor às faces . que me entristeceu . Para continuar a amá-lo . aquilo que aconteceu depois atingiu-nos de modo inespera­ do . fora só uma passagem necessária. bem penteado . A expressão era: «não o fiz de propósito» . porém. caiu-nos em cima uma caterva de coisas imprevistas . Fora deci­ são dele . Portanto . nem desistência. por ter sido derrotado .. estreita nas têmporas . De facto . com aquelas pestanas compridas . mas não vencera tam­ bém Alfonso de propósito . no dia seguinte apareceu no exterior da escola e disse coisas muito feias a Lila. exalava um cheiro a bravio . uma cedência. a bonita era eu .A Amiga Genial 39 calado para permitir que Alfonso desse o seu melhor. Eu pusera-me de parte porque Alfonso realmente era melhor do que eu . como acontecera com Lila? Não tinha a certeza. como me desagradara a sua languidez . apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro . para sabermos o que se podia esperar. delicado e nervoso. Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso . pelo contrário . Lila podia tê-lo batido imediatamente . e não derrotara Alfon­ so de propósito . Com efeito . mas antes . iluminara-se como uma santa guerreira. Geralmente . por conseguinte . Os factos que daí resultaram convenceram-nos de que era conveniente fazer tudo de propósito . Como quase nada fora feito de propósito . e todavia . Alfonso voltou para casa lavado em lágrimas . tal­ vez: não foi incapacidade dele . poucas coi­ sas gaguejara e por fim calara-se . Aquele gaguejar. E ele? Houve qualquer coisa que me confundiu .o qual . Mas quando decidira eliminar Alfonso e Enzo . de incontrolável . o roxo que lhe engolira de repente os olhos: como era bonito assim. de tal forma que pela primeira vez pensei: Lila é mais bonita do que eu . eu era segunda em tudo . Bonito . de perigoso . Também Lila a certa altura me parecera bonita. Mas cá no fundo tinha certas dúvidas . Enzo não entrara de propósito na competição em curso . de catorze anos . tinha uma cara comprida. no entanto decidira apostar no empate . nunca lá punha os pés . era seca como uma anchova salgada. premeditadamente . que era aprendiz na charcutaria (na antiga oficina do car­ pinteiro Peluso) que pertencia ao pai . quis pensar que tinha sido assim. nem o humilhara de propósito . A certa altura ela gritou-lhe . Ela. uma após outra. a palidez . lânguido . Mas a coisa mais importante daquela manhã foi ter descoberto que uma expressão que usávamos muito para nos eximirmos aos castigos continha algo de verdadeiro e. chegando a ameaçá-la. O seu irmão Stefano . que era o sinal de uma chama libertada por cada recanto do corpo .

abeirou-se timidamente de dom Achille e pediu-lhe desculpa. que lhe vinha até à fronte por baixo do cabelo . graças a ele . que quase nem se defendeu . Passado pouco tempo . quando regressava a casa à noite sem o bando dos campónios. acabaram-se as vinganças . nem à mãe . o irmão adorado de Lila. Nessa altura. Lila andou uns tempos com a cabeça ligada. desceu do aterro e . Depois tirou a ligadura e mostrava a quem lho pedisse a ferida negra e averme­ lhada nos bordos . nem aos primos . Entretanto Enzo . Enzo . e aos nossos olhos incompreensível . com orgulho . quanto mais ela falava. também a sangrar. Rino de manhã foi à procura de Stefano e andaram à luta. sem dizer do quê . o sapateiro . mais vermelho ele se fazia e mais os olhos lhe luziam. E mais ainda: Enzo não falou dessas pauladas ao seu bando . e se alguém olhava fixamente para a marca esbranquiçada que lhe ficara na pele. bateu à porta dos Cerullo e fez uma cena de gritos e insultos a Nunzia. que o atacou à chapada. nem ao pai . batendo um no outro mais ou menos por igual . foi trava­ do por Stefano . A mim nunca disse nada. com o sangue a pingar de sob os cabelos. ou pelo menos não me lembro . Passaram-se uns dias e Rino . e estava mais motivado . ele empurrou-a contra uma parede e tentou agarrar-lhe a língua. um homem baixo e muito magro . gritando que queria picar-lha com um alfinete . que trabalhavam todos no campo e vendiam fruta e hortaliça numa carriola. Pouco tempo depois eu e Lila ferimos Enzo no artelho com uma pedra e Enzo atirou uma pedra que feriu Lila na cabeça.40 Elena Ferrante um insulto muito obsceno . como se o sapateiro não estivesse a falar com ele . ao murro e a pontapés . maior. Eu não o vi . Enquanto eu berrava de medo e Lila se levan­ tava. um domingo depois da missa Fernando Cerullo . de modo imprevisto . vendo Lila naquele estado . 1 0. embora dom Achille tivesse continuado a andar. nem sequer uma palavra de agradecimento pelas . Rino era mais velho . a tia Maria. começou a chorar. Por fim esqueceu-se do que lhe acontecera. Dias depois a mulher de dom Achille . nem aos irmãos . e. mas constou que o pedido de desculpa foi feito em voz alta e de maneira que todos ouvissem. aproximou-se da escola e deu umas valentes pauladas a Enzo . fazia um gesto agres­ sivo que significava: para onde estás a olhar? Mete-te na tua vida. Lila voltou para casa e contou tudo ao irmão Rino . pai de Lila e de Rino .

Não disse nada. mas nunca esperaria que me fizesse uma coisa tão maldosa. «Aquilo que tu fazes . Todas as crianças eram tentadas . «Agora vais-ma lá buscar. fechada por um ferrolho que mantinha os dois batentes mal unidos . Limitei-me a atirar para a cave a sua Nu . Era uma porta desconcha­ vada . Sentia uma dor violenta. Lila olhou para mim . à esquerda. A certa altura co­ meçámos a permitir que elas se encontrassem. muito assustada. Para mim a boneca tinha vida. faço eu» . para experimentar. papagueei imediatamente em voz alta. Mostrávamos as nossas bonecas uma à outra. incrédula. mas como quem não quer a coisa. e saber que ela estava no fundo da cave . e outro possível . Mas nesse momento aprendi uma arte em que depois me tornei exímia. um já a ocorrer. À entrada do prédio . Abrimos uma nesga . Foi o que nós fizemos . Gostava da minha boneca de plástico como se fosse o que eu tinha de mais precioso . embora natural não fosse e sabendo eu que estava a arriscar muito . o u por lhe ter enxugado o sangue com a ponta da bata. havia uma porta já nossa conhecida por onde se ia para as caves . deixou-me em deses­ pero . Sabia que Lila era uma menina muito má. como se fosse natural . fiz apenas um gesto sem despeito .uma das meias-portas estava segura por uma única dobradiça . a perda da boneca.» «Só se tu fores buscar a minha. e ao mesmo tempo amedrontadas .A Amiga Genial 41 pedras que lhe passara. Senti um desgosto insuportável . Era como se estivesse a ser es­ trangulada por dois sofrimentos . E assim chegou o dia em que estávamos ao pé da janela da cave que tinha a rede despregada e fizemos uma troca. sustive-o na orla dos olhos brilhantes . mas pensava que a dor de discutir com ela seria ainda mais forte . brincando num espaço próximo como se cada uma de nós estivesse sozinha.. no meio de tanta bicharada que lá vivia. de tal modo que Lila me perguntou em dialecto: «Não te importas?» Não respondi . pela possibilidade de forçar a porta apenas o necessário para conseguir passar para o lado de lá. Mas a partir dali começou a sujeitar-me a provas de coragem que nada tinham a ver com a escola. Sustive o desespero .» Fomos juntas . e Lila de repente enfiou Tina pela abertura da rede e deixou-a cair. Víamo-nos cada vez mais no pátio . a boneca que acabara de me entregar. para ver se se davam bem. a perda de Lila. ela segurou um bocadinho na minha boneca e eu um bocadinho na dela.

Em redor havia coisas não identifi­ cáveis . Aproximámo-nos da parede áspera. pontiagudos . pois ela apressou-se a dizer em voz ribombante que era só uma máscara. Depois voltou-se . fundos e painéis de armários . Pusera a cara dos olhos de vidro sobre a sua e agora tinha uma cara enorme . Lila repetia em dialecto: não estão aqui . procurei manter-me atrás de Lila. insectos. alongada por um queixo em forma de caixa. mal iluminado pelas pequenas aberturas ao nível da rua. sem boca. com uma expressão desolada. localizou a abertura por onde tínha­ mos deixado cair Tina e Nu . repetiu Lila. com órbitas redondas sem pupilas . gonzos de ferro . Eu tinha medo . mas era só uma folha de jornal amachucada. Uma vez lá dentro . Sentia sob as solas das sandálias objectos que rangiam. Acalmei-me . não estão aqui . Passaram-se minutos longos . a convenceu a tirá-la do rosto e lançá-la para um canto . cascalho . A pouca luz que penetrava no escuro caía por vezes sobre objectos reconhecí­ veis: o esqueleto de uma cadeira. Senti-me perdida. quadrados . arredondados . perscrutámos na sombra. Continuei a tremer e a gemer de medo . com um baque do coração. inclinei-me para apanhá-la. Apanhei um grande susto com algo que me pareceu uma cara flácida com uns grandes olhos de vidro . o que . vidro . descemos cinco de­ graus de pedra e chegámos a um sítio húmido. indicando-a a Lila. encaminhando­ -se para a saída. evidentemente . grumo­ sa. Não tenho a certeza. incapaz de ficar ali sozinha a procurar. Era isso que o pai lhe chamava. Uma única vez me pareceu ter visto Tina e . caixas de fruta. uma máscara antigás . vultos escuros . o pé de um candeeiro . apenas aquele queixo escuro de rabeca a balançar-lhe sobre o peito . e inspeccionava o chão com as mãos . não estão aqui . coisa que eu não tinha coragem de fazer. fazendo um grande barulho e levantando pó . na arrecadação . Ela virou-se bruscamente . incapaz de me ir embora com ela sem ter encontrado a boneca. No cimo dos degraus ela disse: . tinha uma semelhante em casa. As bonecas não estavam lá. Foram instantes que me ficaram bem impressos na memória. que se adensou entre as línguas de luz das frestas . mas devo ter soltado um grito de verdadeiro terror. Não estão aqui .42 Elena Ferrante suficiente para os nossos corpos delgados e flexíveis se esgueirarem para o interior. e gritei . Avancei às apalpadelas . Vi-a pendurada numa armação de madeira. estendeu a mão com cuidado e arrancou-a da armação . que parecia zangada e concentrada em encontrar a boneca. Lila olhou em volta. aproximou-se devagar de costas para mim. primeiro Lila e depois eu .

meteu-as no saco negro . já a torcer-se com agilidade e a esgueirar-se pela porta desengonçada. que as roubara.A Amiga Genial 43 «Dom Achille apanhou-as . as ruas . o túnel . Sentia-me apertada dentro daquele torno . segurando com os grandes dedos de uma mão a cabeça de Nu e com os da outra a cabeça de Tina. Mas quando estava ainda no começo . ou incha­ vam. reduzindo-me a um creme repugnante . De um lado a bola de ar subterrânea que pressionava as raízes das casas . pés do feitio de pães redondos. deixando espaços vazios entre a massa interna e a folha da super­ fície . que na minha imaginação atravessava obliquamente os apartamentos . Ficou-me gravada na mente a massa informe de dom Achille a correr por passagens subterrâneas com os braços pendurados . juntamente com o aglomerado de coisas e de pessoas do dia-a-dia. se o apalpasse . Tinha a certeza de ter bochechas como balões . enquanto to­ dos os seres animados em meu redor aceleravam os ritmos da sua vida. 11. mãos re­ cheadas de serradura.» E nesse instante ouvi dom Achille a arrastar os pés . cada vez mais apertadas . a caverna assustadora para onde tinham caído as bonecas . fugi para não me perder de Lila. melhorei . O meu próprio corpo . uma sensação permanente de náusea que me esgotava. me moesse . adoeci de novo . durou anos . senti que o espaço também estava mudado. as superfícies sólidas se tornavam moles sob os meus dedos. a roçar-se pelas formas indistintas das coisas . os carris . Sofri muito . entrou pela adoles­ cência dentro . Quando regressei às ruas e à escola. parecia-me tumefacto . As duas bolas estavam como que aparafu­ sadas às extremidades de uma barra de ferro . Adoeci com febres pueris. o que me entristecia. Fui atacada por uma espé­ cie de disfunção táctil. comprimindo-os . Às vezes tinha a impressão de que . recebi inesperada­ mente a minha primeira declaração de amor. Do outro lado o globo lá no alto . Foi um mal-estar resistente . Parecia acorrentado entre dois pólos escuros . o desgosto pela perda de Tina era ainda insuportável . Acreditava em tudo o que ela me dizia. os campos. como se o conjunto das coisas assim comprimidas . no quarto andar do prédio onde morava dom Achille . Então abandonei Tina ao seu destino . lobos das orelhas parecidos com sorvas . talvez . e ti­ nha um mau gosto na boca. Tinha ido . Foi antes de eu e Lila experimentarmos subir até à casa de dom Àchille .

achava-o lindo . quanta angústia me causava a separa­ ção de Tina. Também eu senti a tentação de contar tudo . Após muitos olhares longos e assustados que me lançava de longe . e o pão ainda quente contra o peito . olhos intensos com longas pestanas . quando me apercebi de que Nino Sar­ ratore se arrastava atrás de mim. Fugi . com a recomendação de nunca o largar. Sabia-se que Gigliola Spagnuolo . eu própria me esqueci disso . com o irmãozinho pela mão . também ele começou a evitar-me . Embora eu também quisesse casar com ele . que na altura não tinha mais de cinco anos. mas depois deixei-me disso . me tirava a respiração . Lídia. orelhas um pou­ co afastadas da cabeça. primei­ ro sorria. e com a outra puxou para si o irmão . Pino deu-lhe um puxão . depois sorria de novo . pescoço alto . A minha mãe tinha-me mandado e estava de volta a casa com o troco bem apertado na mão para não o perder. Dali para a frente comecei a meter-me por ruelas sempre que o via. Quantas vezes me aproximara da sua irmã Marisa. muito magro . em vez de passar adiante . pouco depois da charcutaria dos Carracci . ao pé da escola.» Ele ficou de boca aberta.» Depois perguntou-me se entretanto queria ser namorada dele . só para estar perto dele e fazermos juntos o caminho para casa. Durante um certo tempo deve ter receado que eu contasse às outras meninas . Claro está que me fez a declaração na hora errada. como o esforço de acompanhar Lila me consumia. como uma barra para me impedir de fugir. Com o passar do tempo . . sobretudo à sua irmã. apeteceu-me responder: «Não . fazia-o sair de casa sempre na companhia de Pino . cortou-me o caminho . até que ponto o espaço comprimido do pátio . a proposta que me fizera. Não podia saber como eu me sentia desorientada. disse qualquer coisa que não compreendi . Perto de uma esquina. Era um pouco mais alto do que eu . No entanto . contrariada. Estava pálido . Ofe­ gante . até ameaçara matá-la com uma faca. não posso . mas . que ela era mentirosa. gritou-lhe . do bairro . se comportara dessa forma quando Enzo lhe pediu namoro . empurrou-me contra a parede e apoiou nela a mão livre . Por fim disse pausadamente . depois punha-se sério . Nos dias de Verão a mãe . não contei a ninguém . O esforço que fazia para conter a timidez era impressionante . Enzo teve conhecimento e ficou zangado . nem sequer a Lila quando nos tornámos amigas . testemunha silenciosa da sua proeza. a filha do pasteleiro . Tinha cabelo rebelde .44 Elena Ferrante comprar pão . Nino fez menção de me ultrapassar. no italiano da escola: «Quando formos grandes quero casar contigo . das casas .

Lídia Sarra­ tore apareceu vestida como se fosse para uma festa. que era da minha idade .disse a minha mãe . assim que ouviram o ruído das rodas no pátio . atarefado a transportar caixas a abarrotar de coisas e senti a culpa. colchões .A Amiga Genial 45 Voltou-me à lembrança mais tarde . Procurei o olhar de Nino . Nicola e Donato co­ meçaram a passar cordas . um que­ branto que tornava indistinto tudo o que me rodeava. e o seu olho estrábico parecia feito de propósito para detectar os movimentos secretos do bairro . Era provável . sem um motivo concreto . Por fim o desfile de móveis e de trastes acabou .foi a mulher que o obrigou à mudança. Vi que Lila e Nunzia. para prender tudo bem à carroça. que lhe quer tirar o marido . Donato Sarratore . Marisa. grandes e pe­ quenas . talvez para acenarmos um adeus à farm1ia que se ia embora. As mulheres . e Clelia. tendo aos lados as duas filhas . e os mesmos olhos azuis e cabelos loiros que o filho Enzo . como era costume . pusera até um cha­ peuzinho estivo . entre as quais também essa? Todas nós . Havia uma grande curio­ sidade . a mesma carroça e o mesmo cavalo velho com que ele e ela vendiam fruta e hortaliça pelas ruas do bairro . também se debruçavam para ver. Nicola. Empurrava o carrinho com o filho bebé . mas ele parecia ter mais que fazer. oito ou nove . magra e viúva. perto de uma praça que se chamava Piazza Nazionale . Como reagiria Melina? Seria verdade . Nicola tinha um rosto largo e atraente . Olhei para ele . quando toda a farm1ia Sarratore se mudou . como eu ouvira murmurar. que ela tivera um filho de Sarratore e depois o matara? E seria possível que ela se pusesse a gritar coisas horríveis . A minha mãe via sempre o mal onde . Pensei que talvez ele me tivesse feito a declaração porque já sabia que se ia embora e queria dizer-me antes o que sentia por mim. e acondicionaram tudo na carroça. estávamos à janela. incluindo a minha mãe e eu . Agora ia-se escapulir como um passarinho . Uma manhã apareceu no pátio a carroça e o cavalo que per­ tenciam ao marido de Assunta. sua mãe . para fugir à perseguição de Melina. também fazia mudanças . Ou então . Ouviu-se de repente um barulho de coisas partidas . o próprio Nino e também Lídia começaram a trazer coisas para baixo . Assal­ tou-me então . mais cedo ou mais tarde se descobria que o mal de facto existia. ou para assistirmos ao espectáculo da raiva daquela mulher feia. bugigangas de todo o género . assoma­ ram-se às janelas . a pena de lhe ter dito que não . Parecia que Donato recebera uma casa nova directamente dos Caminhos de Ferro do Estado . Além de vender fruta e hortaliça. móveis . de seis . Daí a pouco . de palha azul. para minha grande contrariedade .

Ecoou também a voz dolorosa de Ada. O objecto despenhou-se em voo picado e com um baque seco fez um buraco no chão .por muito pouco . Ao rés da parede . usava o da minha mãe . e a curiosidade foi tanta que libertei os tímpanos . Deve ter percebido que olhava para ela e desapareceu logo da janela. Panelas de cobre . 1 2.não o matou . e na rua Lídia Sarratore caminhava de cabeça baixa. idêntico. apenas «aaah . garrafas . uma cara de desnor­ teamento . e Donato subiu para a carroça. antes de mais porque era um palito . Por pouco . Nenhum menino alguma vez declarou o seu amor a Lila. ferro puro: manípulo de ferro e base de ferro . que gritava: mamã. a segunda filha de Melina. fazendo de conta que era um navio numa tempestade . curvada sobre o carrinho . Lídia e os três filhos mais pequenos esgueiraram-se também direito ao portão . em forma de proa. enquanto Nino parecia sem vontade de se ir embora. para junto dos seus bens. e ela nunca me disse se isso lhe dava desgosto. Gigliola Spagnuolo recebia constan­ temente propostas de namoro e eu também era muito requisitada. ressaltavam e se quebravam. Procurei Lila com os olhos . como que hipnotizado pela quantidade de ob­ jectos frágeis atirados contra o asfalto . Quase ao mesmo tempo . Melina. não gritava palavras . Mas Lila não agradava. e dom Nicola segurava o cavalo pelo freio enquanto as coisas tombavam no asfalto. Eram gritos de um tal tormento que vi Lila tapar os ouvidos com as mãos. copos . embora com a professora exibisse vocábulos da língua . Quando ainda tinha Tina e brincava em casa. Após um instante de hesitação também eu tapei os ouvidos . como se precisasse de sons nítidos para compreender. como se estivesse ferida. porém. Era um ferro de engomar. E vi-lhe outra cara. dela não aparecia um braço nem uma mão ao atirar as coisas . espalhando estilhaços por entre as patas nervosas do animal. Por último vi voar da janela uma espécie de mancha negra. mamã. não . parecia que voavam da janela por vontade pró­ pria. Melina começou a gritar.46 Elena Ferrante no segundo andar. mas também por ter a língua afiada. com as filhas atrás . a poucos centímetros de Nino . Entretanto a carroça pôs-se em movimento . pratos . porca e sempre com feridas . Mas entretanto começaram a voar objectos da jane­ la. Inventava alcunhas humilhantes e. sem um adeus para ninguém. Não a víamos . aaah» .

» «Deita-as fora. perante os meus olhos incrédulos . connosco falava só um dialecto desprezí­ vel. e ele não ficou triste por isso . por isso o professor não o propôs para o exame de admissão . 13. vimo-lo· cada vez menos . e a pele se ti­ rava facilmente . e recordo ainda a sensação de traição quando as levou para casa. Senti que se ela me desse a prenda que recebera de Enzo . Depois da altercação com Giglio­ la. Vi-a pendurar nele a coroa. que matava à nascença qualquer sentimento amoroso . em tom divertido: «Eu gosto de sorvas . Pouco falávamos . esperando que Lila mas oferecesse: toma. Atraía-me a cor ver­ melho-amarelada de quando ainda estavam verdes . era um fruto que não apreciava. Disse aquela frase para fazer uma experiência. fica tu com elas . estendeu a Lila uma coroa de sorvas .» Estava a mentir. mas tínhamos sempre uma risada para tudo o que nos acontecia. não sendo propriamente um pedido de namoro. Muito depois de lhe ter partido a cabeça com a pedra. eu ficaria mais contente do que se ela me oferecesse uma coi­ sa sua. Enzo virou costas e correu para o trabalho .» «Verdes?» «Deixa-as amadurecer. de ser rejeitado por Gigliola Spagnuolo. até se alegrou .» «Não as quero . . era no entanto um sinal de admiração e de respeito.» Foi tudo . Mas quando amadureciam às janelas e se tornavam castanhas e moles como pequenas peras secas . aliás . «Ü que faço eu a isto?» «Come-as .A Amiga Genial 47 italiana que ninguém conhecia. a sua dureza que resplandecia nos dias de sol . Disse-lhe apenas . nem lhes tocava. Embora tivesse mostrado ser muito hábil com as contas de ca­ beça. ele seguiu-nos pela rua larga e . Só Enzo fez uma coisa que. Mas não o fez . Eu e Lila come­ çámos a rir. parece-me. Ela própria espetou o prego na janela. pondo à vista uma polpa granulosa que não sabia mal . que contara a toda a gente que ele se lhe declarara. cheio de palavrões . mas que se desfazia de uma maneira que me fazia lembrar as carcaças dos ratos que encontrávamos na rua. e antes . Enzo nunca mais lhe deu presentes . era demasiado preguiçoso .

Mas os pais de Lila disseram que não . quando estávamos quase a terminar a quinta classe . porque o exame é difícil» «Mas para que serve esse exame?» . falou com a professora e regressou a casa carrancuda. A pro­ fessora chamou por turnos os meus pais. porque é que a professora tem de lhe dar aulas pagas?» «Porque assim ela viverá melhor e nós pior. desenhava com realismo princesas com penteados . vestidos e sapatos nunca vistos em livro nenhum. perguntou o meu pai . e deu uma bofetada a Rino por ele lhe dizer que fazia mal . para ir com o pai ao mercado da fruta e da hortaliça ou para correr as ruas do bairro com a carroça. Eu estudei todas as maneiras de convencer o meu pai a não mandar à escola a minha mãe .» «Mas porquê?» «Porque disseram que ela é inteligente . de modo que Nunzia teve de ir. nem no cinema paroquial . Nunzia Cerullo fez algumas tentativas com pouca convicção . pois ela. mas sempre na condição de eu ser óp­ tima aluna. mas ela fez com que o director os mandasse chamar. os de Gigliola e os de Lila. jóias . que era porteiro e sabia ter boas maneiras . A princípio a minha mãe estava contra e o meu pai indeciso. apresentou­ -lhe composições maravilhosas . surripiando lápis de cor Giotto . quando Lila os fazia. além do exame final da instrução primária. Diz que tem de lhe dar aulas extraordi- nárias . depois . Levantava-se muito cedo . «Para ela poder estudar Latim. mas na verdade já trabalhava com os pais .48 Elena Ferrante Inscreveu-se na escola comercial . vendendo produtos do campo . Foi ela. mas o pai nem quis discutir o assunto . Perante a sua tímida mas firme recusa. nos encantavam a todas . senão tiravam-me imediatamente da escola. Mas nós . «A professora quer dinheiro . e até desenhos muito coloridos que na aula. também o exame de admissão à escola média. coxa. severa mas calma. fomos informadas de que tínhamos capacidades para continuar a estudar. problemas resolvidos com inteligência. Nem era in­ tenção deles ir falar com a professora. por isso depressa se desligou da escola. finalmente deci­ diram deixar-me fazer o exame .» «Mas se é inteligente . o meu pai mostrou-se cautelosamente a favor e a mi­ nha mãe resignou-se a ser um pouco menos contrária. a professora Oliviero . Não consegui . para lhes dizer que nós devíamos fazer sem falta. a professora perdeu a calma e arrastou a mãe de Lila até . com um olho dançarino e sempre cheia de raiva.» Discutiram muito . Mas quando a recusa se confirmou . que fosse antes ele.

ao lado uma da outra. mas também porque ela própria. mais forte do que os nossos pais.A Amiga Genial 49 ao director. as mãos suadas bem apertadas . Também era proibido ir a casa de dom Achille . que nos podiam meter na cadeia. Pensou que procuráva­ mos Alfonso . Fez-se silêncio . com aquele gesto . Parecia ser a mais forte das meninas . procurava ter ânimo para continuar. Assim. talvez de Alfonso. Queríamos que dom Achille nos devolvesse as nossas bonecas . subimos os últimos lanços . eu do lado da parede e ela do lado do corrimão . mas ela decidiu fazê­ -lo na mesma e eu fui atrás dela. Dentro do apartamento ouviam-se vozes . Sabia como passar dos limites sem nunca chegar a sofrer as consequências . 14. mais forte do que o irmão Rino . Em frente da porta de dom Achille o meu coração batia com força. se sentiam na obri­ gação de elogiá-la. de cortar a respiração . vi-lhe na boca um dente de ouro muito brilhante . de Stefano ou de Pinuc­ cia. Lila disse-me no tom habitual: mas eu faço o exame na mesma. girou o botão da campainha. estava um tanto admirada. Mas Nunzia não podia ceder.» . incluindo a professora e os carabinieri. não tinha autorização do marido . do que Stefano . Todos acabavam por se dar por vencidos e ainda por cima. e dá-me prazer pensar que ela o fez não só porque pressentiu que eu não teria coragem de ir até ao último andar. do que Alfonso . Por isso subimos as escadas . foi naquela ocasião que me convenci que nada podia detê-la. embora de má vontade . depois de uma longa espera muda em frente da porta. pois todos sabiam que era inútil proibi-la de alguma coisa. Aliás . mas consolei-me pensando que era também o som do coração dela. Lila. Ainda sinto a mão de Lila a agarrar a minha. mais forte do que Enzo . Apesar do seu aspecto frágil . e cada acto seu de desobediência tinha desfechos espantosos . mas eu a cada degrau tinha vontade de virar costas e voltar para o pátio. No dia seguinte . Dona Maria abriu-nos a porta. procuramos dom Achille . Lila disse-lhe em dialecto: «Não . Acreditei . a professora e o director se cansarem. como se fosse uma aluna indisciplinada. trazia um roupão verde desbotado . depois ouviu-se chinelar. Quando falou. quando íamos para a escola. sentia-o nos ouvidos . Portanto foi repetindo que não até ela própria. mais forte do que todos os adultos . diante dela qual­ quer proibição perdia consistência.

» O homem.50 Elena Ferrante «Diz-me a mim. Perguntou em voz rouca: «Quem é?» «A filha pequena do sapateiro com a filha do Greco . Nada de minerais nem cintilar de vidros . disse Lila. mas nor­ mal . Achei-o feio . «Então?» «As bonecas» .» Houve um instante de silêncio . «Sim. o queixo volumoso com uma cova ao centro . um pouco baixo . Uma figura opulenta surgiu da penumbra. e meteu-as no seu saco negro . aborrecido . a boca era grande e delgada. mas não tanto como imaginara. e a tia Maria a pôr a mesa para o jantar. Eu nem podia crer que estávamos ali diante de dom Achille . e que ao fundo entrevíamos Alfonso . Lila disse com firmeza. a mim?» . não sei onde foi buscar tanta coragem: «0 senhor é que as apanhou . apanhaste a boneca da filha do sapateiro?» «Eu não . apanhaste-a tu?» Risotas .» «É com ele que temos de falar.» A mulher gritou: «Achl . pela primeira vez . via-se a brasa. nós vimo-lo . «Que bonecas?» «As nossas . o alto da cabeça brilhava.» Mais chinelar. braços que lhe chegavam aos joelhos e um cigarro na boca. e só tinha algum cabelo desgrenhado por cima das orelhas . Stefano e Pinuccia.» «0 senhor apanhou-as lá em baixo na cave .» Dom Achille virou-se e gritou para o interior do apartamento: «Piou . e que Lila falava com ele daquele modo e ele olhava para ela perplexo . perguntou dom Achille . franziu a testa. com o branco coberto de riachos verme­ lhos . um pouco desproporcionado . vimo-lo bem. comprido . ao ouvir estas últimas palavras . Tinha olhos luzidios . . «Vocês . O rosto era de carne .» Dom Achille chegou à luz e.» «Não precisamos aqui das vossas bonecas .» «Alfõ . pernas curtas . Não podia crer que ele era uma pessoa normal . um pouco calvo . Por isso esperava que de um momento para o outro ele se transfor­ masse . Tinha o tron­ co alto .

continuava a dizer-me que ia fazer o exame e que iria para o primeiro ano da escola média. as janelas davam para os jardins da igreja e dali avistava-se .» Eu disse em italiano. Lila arrancou-lhe o dinheiro da mão e arrastou-me pela escada abai- xo . Logo a seguir à Páscoa.» «Vou já. na mesma turma que eu . à espera que ele tirasse de lá uma faca . parece-me . disse . com o dinheiro de dom Achille comprou um roman­ ce : Mulherzinhas . abriu-o . Nós apertámos as mãos com força. como se quisesse perceber bem o sentido das palavras: «Eu peguei nas vossas bonecas e meti-as no saco negro?» Senti que ele não ficara zangado . atenta para não cair nas escadas : «Boa noite e bom apetite . Lila nunca foi .» Dom Achille levou uma mão grande e larga ao bolso de trás das cal­ ças . Mas ela. Ele debruçou-se do corrimão e resmoneou : «E lembrem-se de que fui eu que as ofereci . está pronto . Gosta­ va daquelas aulas particulares . não me recordo quanto . Eu já estava pronta. no fim da aula.» Mas entretanto . saía a correr. Disse algo em dialecto que não percebi . oferecia-nos bolinhos secos em forma de coração e uma gasosa. Decidiu comprá-lo porque já o conhecia e gostara . como se estivesse a ter a confirmação de uma coisa que já sabia. «Vão comprar bonecas» . os postes da linha férrea. mas sim desgostoso de repente . Gigliola Spagnuolo e eu começámos a ir a casa da professora. olhou lá para dentro e entregou algum dinheiro a Lila. A professo­ ra. A professora morava mesmo ao lado da igreja paroquial da Sagrada Famí­ lia. «E os livros?» «Emprestas-mos tu . Mas afinal tirou o porta-moedas . e Maria gritou: «Achi . para nos prepararmos para o exame de admissão .A Amiga Genial 51 Dom Achille repetiu . duas por semana.» 15. Gigliola passava por baixo das minhas janelas e chamava-me . como agora éramos muito amigas . para lá dos campos . os pais não tinham concordado em pagar à professora.

Mas essas palavras escandalizavam o pai e a mãe. ou umas meias-solas. Mas o rapaz insistia. Rino. Lila. Fernan­ do Cerullo respondia-lhe com aparente paciência: «Eu já te pago. pago-te generosamente ensinando-te o ofício completo . ao lado . era um rapaz muito nervoso e iniciara uma batalha pessoal para ser pago pelo trabalho que fazia. dentro do prazo estabelecido pela professora para devolução . e não tarda muito serás capaz de fazer um sapato inteiro . zangava-se se a apanhasse a ler. tinha-o em casa no meio dos livros da escola. ele e o pai discutiam constantemente . Assim que nos tomámos proprietárias do livro . Eu não conseguira lê-lo . venho para a loja e trabalho até às oito da noite. e a mim calhara Coração . uma da outra. ou em voz alta.» Mas esse pagamento com base no ensino não era bas­ tante para Rino . achava in­ justo trabalhar tanto como o pai e não receber um centavo . quero ter um salário. Chegava. que tinha na montra sei lá desde quando um exemplar de Mulherzinhas amarelecido pelo sol . sem uma só palavra que me explicasse do que se tratava. nos últimos tempos . mas está bem para ti» . Então . Andámos a lê-lo durante meses . Mas era o nosso livro . se chegava. Quando houve a questão do exame de admis­ são . começaram a cair fios e a soltar-se os cadernos . Rino . co­ meçámos a encontrar-nos no pátio para lê-lo . Chamou-me da rua. pegámos nele e fomos perguntar à Iolanda da papelaria. e não empobrecê-la. perdeu a lombada. tinha onde comer. O pai . quando teve de restituir o livro à professora. Na quarta classe a professora Oliviero tinha dado às melho­ res alunas livros para lermos . gostávamos muito dele . e dizia que não havia comparação . com a seguinte frase a acompanhar: «Este é para as mais crescidas . Lila havia lido Mulherzinhas e Coração em pouco tempo . ao sítio onde tínhamos enterrado o dinheiro de dom Achille numa caixinha de metal . Nessa altura Rino teria uns dezasseis anos . ou em silêncio . Por isso uma manhã decidiu-se . ainda o sou . fomos ao paul . Era uma leitora vagarosa. para que queria dinheiro? A sua obrigação era ajudar a fannlia. protegia-a. Tu daqui a pouco sabes apenas pôr uns saltos novos ou uma orla. Começavam a falar de dinheiro e acabavam a litigar por causa de Lila. Eu era a guardiã. por isso discutiam. porém. na opinião dela Mulherzinhas era muito bonito . porque Lila não se sentia à vontade para tê-lo em casa dela. tantas e tantas vezes que o livro ficou sebento . o teu pai está a ensinar-te tudo o que sabe. lamentou-se de não poder continuar a reler Mulh er­ zinhas e de não poder falar comigo sobre o livro . O seu raciocínio era: levanto-me às seis. A ela calhara-lhe Mulherzinhas . terminara Cuo­ re a custo . . principalmente ao jantar. esfrangalhado . Rino tinha uma cama onde dormir.52 Elena Ferrante muito dele .

Conse­ guiria ter um salário e com o seu dinheiro lhe pagaria a escola.A Amiga Genial 53 «Se me pagares . faltara ao res­ peito ao pai . que de uma forma ou de outra. tomou-se a nossa ideia fixa. para o mapa-múndi . Ela nunca mo disse . não cabia na sua maneira de ver que ela continuasse a estudar. dentro de arcas que quando se abriam soltavam clarões . mas ficou-me a impressão de que enquanto eu odiava a minha mãe . encarrego-me de a mandar estudar» . Adorava-o. as coisas alte­ raram-se e começámos a associar os estudos ao dinheiro . O rapaz . à espera de que a encontrássemos . E Lila. para o estojo. Tinha a certeza de que o irmão também lhe daria dinheiro para os livros escolares . que é rapariga. e a mãe ao fim e ao cabo era da mesma opinião . dir-se-ia que a riqueza estava escondida em qualquer sítio do bairro . dizia que no dia do santo do seu nome era ele próprio que lhe levava chocolate quente à cama e quatro bolachas . pedia desculpa com voz rancorosa. profundamente . há-de estudar?» O assunto encerrava-se quase sempre com uma bofetada na cara de Rino . naquele último ano da primária. e também os pais de Nunzia. A riqueza. e até para as canetas . dizia Rino . e ainda duas irmãs solteiras de Fernando . Mas o que se havia de fazer. mostrava-se convencida de que Rino havia de ganhar. Dizia que ele era todo cheio de gentilezas . Lila ficava calada durante aquelas discussões . para os lápis de cor. «Se for preciso pagar propinas . lhas mandava fazer a ela.» «E tu estudaste?» «Não . e odiava-a mesmo . Dizíamos que quando fôssemos ricas faríamos isto e faríamos aquilo . Só o irmão pensava de maneira diferente e lutava corajosamente contra o pai . Depois . E tam­ bém não cabia nas suas possibilidades financeiras . Por isso . com o único objecti­ vo de fazer do irmão a pessoa mais rica do bairro . dizia-me . quando precisava de fazer contas . ele paga-mas» . dizia que ele .» «Então porque é que a tua irmã. ela apesar de tudo não tinha rancor ao pai . mesmo sem querer. a bata e o laço . por razões que eu não com­ preendia. Falávamos dela como nas histórias se fala da busca de um tesouro . «Estudar? Porquê? Eu estudei?» «Não . sobre a questão do estudo era como falar com uma parede . sem chorar. viviam todos da pequena oficina de sapateiro . dizia que o ouvira dizer aos amigos que a filha dele era a pessoa mais inteligente do bairro . não sei porquê . Pensámos que . Disse-me que quando acabasse de estudar queria ganhar muito dinheiro . . A farru1ia era nume­ rosa. Ouvindo-nos .

54 Elena Ferrante

se estudássemos muito , seríamos capazes de escrever livros e que os
livros nos tomariam ricas . A riqueza continuava a ser um resplendor de
moedas de ouro fechadas dentro de inúmeras arcas , mas para a alcançar
bastava estudar e escrever um livro .
«Escrevemos um juntas» , disse Lila uma vez , o que me encheu de
alegria.
Talvez a ideia tenha tomado forma quando ela descobriu que a autora
de Mulherzinhas ganhou tanto dinheiro dessa maneira que deu um pou­
co da sua riqueza à fanu1ia. Mas não garanto . Falámos sobre isso , disse­
-lhe que podíamos começar logo depois do exame de admissão . Concor­
dou , mas não conseguiu resistir. Enquanto eu tinha muito que estudar,
ainda mais por causa das aulas da tarde com a Spagnuolo e a professora,
ela tinha mais tempo livre; meteu mãos à obra e escreveu um romance
sem mim.
Fiquei magoada quando ela o trouxe para eu ler, mas não disse nada,
contive a desilusão e elogiei-a muito . Eram dez folhas de papel quadri­
culado, dobradas e presas com um alfinete de costureira. Tinha uma capa
desenhada a lápis de cor e lembro-me do título . Chamava-se A Fada
Azul, era apaixonante e cheio de palavras difíceis. Disse-lhe que o desse
a ler à professora. Não quis . Implorei-lhe , ofereci-me para ser eu a
entregar-lho . Com pouca convicção , fez sinal que sim.
Um dia, quando estava em casa da professora para a aula, aproveitei
a ida de Gigliola à casa de banho e tirei da pasta A Fada Azul. Disse que
era um romance muito bonito escrito pela Lila e que ela queria que a
professora o lesse . Mas a professora, que nos últimos cinco anos sempre
se entusiasmara com tudo o que Lila fazia, à parte as maldades , respon­
deu friamente:
«Diz à Cerullo que faria bem em estudar para o exame da primária,
em vez de perder tempo» . E embora ficasse com o romance de Lila,
deixou-o em cima da mesa sem sequer olhar para ele .
Aquela atitude desorientou-me . O que é que acontecera? Zangara-se
com a mãe de Lila? Tinha alargado a zanga a Lila também? Estava abor­
recida por causa do dinheiro que os pais da minha amiga não lhe tinham
querido dar? Não compreendi . Uns dias depois , cautelosamente , per­
guntei-lhe se já lera A Fada Azul. Respondeu-me num tom insólito , de
modo pouco claro , como se só eu e ela fôssemos capazes de perceber.
Tenho as frases bem gravadas na memória.
«Sabes o que é a plebe , Greco?»
«Sim. A plebe , os tribunos da plebe , os Gracchi.»

A Amiga Genial 55

«A plebe é uma coisa muito feia.»
«Sim.»
«E se uma pessoa quer continuar a ser da plebe , ela , os filhos, os fi­
lhos dos filhos, nada merecem. Esquece a Cerullo e pensa em ti .»
A professora Oliviero nunca mais disse nada a respeito de A Fada
Azul. Lila pediu-me notícias duas ou três vezes , depois não fez mais
caso . Disse , pesarosa:
«Assim que tiver tempo escrevo outro , aquele não era bom.»
«Era maravilhoso.»
«Metia nojo .»
Mas tomou-se menos vivaça, sobretudo nas aulas , provavelmente
porque percebeu que a professora já não a elogiava, por vezes até se
mostrava incomodada com o seu excesso de qualidades . Quando se
realizou a competição do final do ano ela foi a melhor, mas sem o atre­
vimento de outros tempos . Para terminar o dia, o director apresentou a
quem estava ainda em competição - Lila, Gigliola e eu - um proble­
ma dificílimo que ele mesmo inventara. Gigliola e eu esforçámo-nos
sem resultado . Lila reduziu os olhos a duas gretas como era costume e
concentrou-se . Foi a última a capitular. Disse em tom tímido , insólito
nela, que o problema não se podia resolver porque havia algo errado no
enunciado , mas não sabia dizer o quê . O que ela foi dizer ! A professora
deu-lhe uma grande ensaboadela. Vi Lila no quadro com o giz na mão ,
franzina, muito pálida, a ser atingida por rajadas de frases cruéis . Sentia
o sofrimento dela, não conseguia suportar o tremor do seu lábio inferior
e pouco faltou para eu desatar a chorar.
«Quando não sabemos resolver um problema» , concluiu a professora
com frieza, «não dizemos que o problema está errado , dizemos que não
somos capazes de o resolver.»
O director ficou em silêncio . Tanto quanto me lembro , o dia termi­
nou ali .

16.

Pouco antes do exame final da primária, Lila desafiou-me para fazer
outra das muitas coisas que eu nunca teria tido coragem de fazer sozi­
nha. Decidimos não ir à escola e atravessar as fronteiras do bairro .
Nunca acontecera. Tanto quanto conseguia lembrar-me , nunca fora
além dos prédios brancos de quarto andar, do pátio , da igreja paroquial ,

56 Elena Ferrante

dos jardins , nem alguma vez sentira o impulso de fazê-lo . Passavam
comboios constantemente do lado de lá dos campos , automóveis e ca­
miões circulavam de um lado para o outro na rua larga, mas não me
lembrava de uma só vez ter perguntado a mim mesma, ou ao meu pai ,
ou à professora, para onde iam os automóveis , os camiões , os comboios ,
para que cidade , para que mundo?
Lila também nunca se mostrara particularmente interessada, mas
daquela vez organizou tudo . Recomendou-me que dissesse à minha mãe
que depois das aulas iríamos todas a casa da professora a uma festa de
final de ano escolar, e apesar de eu tentar recordar-lhe que as professo­
ras nunca tinham convidado as alunas todas para ir a suas casas fazer
uma festa, ela disse que precisamente por isso é que devíamos dizer
aquilo . O acontecimento pareceria tão excepcional que nenhum dos
nossos progenitores teria o atrevimento de ir à escola perguntar se era
verdade ou não . Confiei , como sempre , e correu precisamente como ela
dissera. Em minha casa todos acreditaram, não só o meu pai e os meus
irmãos, como também a minha mãe .
Na noite anterior não consegui dormir. O que haveria para além do
bairro , para além do seu perímetro que tão bem conhecia? Atrás de nós
elevava-se uma colina densamente arborizada e uns escassos edifícios
junto dos carris cintilantes. Na nossa frente , para lá da rua larga, esten­
dia-se uma rua toda esburacada que bordejava os pauis . À direita, quan­
do se saía do portão , havia uma faixa de terras sem árvores por baixo de
um céu enorme . À esquerda havia um túnel com três bocas , mas se
trepássemos até aos carris da linha férrea, nos dias limpos via-se , depois
de algumas casas baixas e muros de tufo e uma vegetação cerrada, uma
montanha azul com um cume mais baixo e outro um pouco mais alto ,
que se chamava Vesúvio e era um vulcão .
Mas nada daquilo que tínhamos diante dos olhos todos os dias , ou que
podíamos avistar se subíssemos a colina, nos impressionava. Habituadas
pelos livros da escola a falar com muita competência daquilo que nunca
tínhamos visto , o que nos excitava era o invisível . Lila dizia que mesmo
na direcção do Vesúvio era o mar. Rino , que já lá fora, contara-lhe que
era feito de água azul e cintilante , uma beleza de espectáculo . Ao domin­
go , principalmente no Verão , mas também muitas vezes no Inverno , ele
corria para lá com os amigos para ir tomar banho , e prometera-lhe que a
levava. Não era ele o único que tinha visto o mar, evidentemente , outros
nossos conhecidos também o tinham visto. Uma vez Nino Sarratore e a
sua irmã Marisa falaram-nos do mar, num tom de quem achava normal

A Amiga Genial 57

ir lá de vez em quando comer biscoitos e marisco . Gigliola Spagnuolo
também já lá estivera. Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais
que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de
passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim,
faltava-lhes tempo , faltava-lhes dinheiro , faltava-lhes vontade . Na verda­
de parecia-me que tinha uma vaga lembrança azulada do mar, a minha
mãe dizia que me levara com ela em pequena, quando ia fazer banhos de
areia à perna ofendida. Mas eu pouco acreditava na minha mãe , e com
Lila, que nada sabia a tal respeito , eu admitia que também nada sabia. De
modo que ela planeou fazer como Rino , pôr-se a caminho e chegar lá
sozinha. Convenceu-me a ir com ela. No dia seguinte .
Levantei-me cedo , fiz tudo como se fosse para a escola, as sopas de
pão no leite quente, a pasta, a bata. Esperei por Lila em frente do portão
como sempre , só que , em vez de irmos para a direita, atravessámos a rua
larga e seguimos para a esquerda, na direcção do túnel .
Era de manhã cedo e já fazia calor. Havia no ar um odor forte a terra
e a erva que enxugavam ao sol . Subimos por entre arbustos altos , por
veredas incertas que se dirigiam para os carris . Chegámos a um poste de
electricidade , tirámos as batas e metemo-las nas pastas , que esconde­
mos no meio das moitas . Depois corremos pelos campos que conhecía­
mos bem e voámos excitadas por um declive que nos levou até ao túnel .
A boca da direita era muito escura, nunca tínhamos penetrado naquela
obscuridade. Demos as mãos e seguimos . Era uma passagem comprida,
o círculo luminoso da saída parecia distante . Quando nos habituámos à
penumbra vimos , aturdidas pelo ribombar dos passos , as linhas de água
prateada que deslizavam pelas paredes e as enormes poças . Prossegui­
mos , muito tensas . Lila soltou um grito e riu-se da explosão violenta dó
som. Depois gritei eu_ e ri-me também. A partir daí não fizemos senão
gritar, ao mesmo tempo e em separado . Risadas e gritos , gritos e risadas ,
só pelo prazer de os ouvir ampliados . A tensão afrouxou , começou a
viagem.
Tínhamos diante de nós muitas horas durante as quais nenhum dos
nossos familiares nos procuraria. Quando penso no prazer de ser livre,
penso no início daquela jornada, quando saímos do túnel e nos encontrá­
mos numa estrada sempre a direito a perder de vista, a estrada que , segun­
do o que Rino dissera a Lila, temos de percorrer toda para chegar ao mar.
Senti-me exposta ao desconhecido com alegria. Nada que fosse compará­
vel com a descida às caves ou a subida até casa de dom Achille. Estava
um sol nebuloso , um forte cheiro a queimado . Caminhámos muito tempo

58 Elena Ferrante

entre muros desmoronados invadidos pelas ervas , edifícios baixos de
onde vinham vozes em dialecto , por vezes um clangor. Vimos um cavalo
descer cautelosamente uma ladeira e atravessar a estrada a relinchar. Vi­
mos uma mulher jovem debruçada de uma varanda, a pentear-se com o
pente fino para os piolhos . Vimos um grupo de garotos ranhosos que pa­
raram de brincar e nos olharam com ar ameaçador. Também vimos um
homem gordo em camisola interior, que saiu de uma casa em ruínas , abriu
as calças e nos mostrou o pénis. Mas não tivemos medo de nada: Dom
Nicola, o pai de Enzo , às vezes deixava-nos fazer festas ao cavalo, os
garotos também no nosso pátio eram ameaçadores , e havia o velho dom
Mimi que nos mostrava o seu coiso asqueroso sempre que vínhamos da
escola. Durante pelo menos três horas de caminho a grande estrada que
percorríamos não nos pareceu diferente do segmento que víamos todos os
dias . E não senti a responsabilidade do caminho certo . Íamos de mão
dada, avançávamos lado a lado, mas para mim, de acordo com o que era
costume, era como se Lila fosse dez passos à minha frente e soubesse com
precisão o que fazer, por onde ir. Estava habituada a sentir-me segunda
em tudo , por isso estava certa de que para ela, que desde sempre era a
primeira, tudo era claro: o passo , a contagem do tempo de que dispúnha­
mos para ir e voltar, o percurso para chegar ao mar. Para mim era como
se ela tivesse tudo arrumado na cabeça, de tal modo que o mundo em
volta não conseguiria criar desordem. Abandonei-me com alegria. Lem­
bro-me de uma luz difusa que não parecia vir do céu e sim das profunde­
zas da terra, mas que vista à superfície era fraca, feia.
Depois começámos a ficar cansadas , a ter sede e fome . Nisso não tí­
nhamos pensado . Lila abrandou o passo , e eu abrandei também. Surpre­
endi-a duas ou três vezes a olhar para mim como se estivesse arrepen­
dida de me ter feito uma maldade . O que se passava? Reparei que se
virava muito para trás e comecei a virar-me também . A mão dela come­
çou a suar. Há muito tempo que se deixara de ver atrás de nós o túnel ,
que era a fronteira com o bairro . A estrada já percorrida era-nos pouco
familiar, tal como a que continuava a abrir-se diante de nós . As pessoas
pareciam totalmente indiferentes à nossa sorte . E entretanto ia surgindo
à nossa volta uma paisagem de abandono: bidões amolgados , madeira
queimada, esqueletos de automóveis , rodas de carroça com os raios
partidos , móveis semidestruídos , ferragens ferrujentas . Porque olhava
Lila para trás? Porque deixara de falar? O que é que não corria bem?
Olhei melhor. O céu , que a princípio estava muito alto , era como se
tivesse baixado . Atrás de nós estava a ficar tudo negro , viam-se nuvens

Nenhuma de nós se lembrou de procurar abrigo . Estávamos ensopadas .» «Então vamos até ao mar.» «E a casa?» «Também. primeiro debaixo de grandes báte­ gas . depois sob uma chuva miudinha. os lábios roxos . levantando ondas de lama. Passámos de novo pelo túnel .que de repente a impeliu a arrastar-me para casa à pressa. trovões . no espaço de poucos segundos transformaram-se numa cascata de água.qualquer coisa que ela tinha na ponta da língua mas não se resolvia a dizer-me . as pingas engrossaram ainda mais . À nossa frente . abrandámos . Por que razão não prosseguíamos? Tínhamos tempo .A Amiga Genial 59 grossas . e apertava-me a mão com força. perguntei-me . Será possível . um rio de água corria de cada lado da estrada. foi com pouca convicção que corri na direcção do bairro . os cabelos colados à cabeça. pousadas por cima das árvores e dos postes da luz . o mar não devia estar longe . mas parecia ser pressionada dos lados por um cinzento violáceo prestes a sufocá-la. e quer voltássemos para casa. Ouviram-se trovões ao longe . os vestidos de repente ensopados .» «Porquê?» Vi-a agitada como nunca vira. Senti medo . a luz ainda encandeava. Uma luz violácea fendeu o céu escuro . Era um esquema de raciocínio que aprendera com ela e admirava-me que não o pusesse em prática. Levan­ tou-se vento . com o coração em tumulto . atravessámos os cam- .» «Não . nova para mim. pelo contrário. Corremos até ficar sem fôlego . e por fim sob um céu cinzento . pesadas . Fizemos o caminho em passo rápido . que não ade­ riam ao terreno enlameado . «Voltemos» . os olhos assustados . os pés nus dentro das sandálias gastas . Lila deu-me um puxão . para trás . que ela também tenha medo? O que se passa com ela? As primeiras grandes pingas chegaram. Não percebi . camiões ruidosos passa­ vam. Corremos . os olhos arregalados . disse Lila. mas o que mais me assustou foi a expressão de Lila. cegas pela chuva. «E o mar?» «É longe de mais. Depois não conseguimos mais . Relâmpagos . velozes. olhava nervosamente para a frente . para o lado . se chovesse molhávamo-nos na mesma. trovejou com mais força. Tinha a boca aberta. Havia qualquer coisa . quer continuássemos em frente . bateram na poeira da estrada e formaram manchas castanhas .

gritando que me mata­ va se eu voltasse a fazer algo daquele género . Encolhi os ombros. para que ela não se zangasse com Lila. pois não queria fazê-lo . já não me mandassem para a escola média? Ou trouxera-me para trás a toda a pressa justamente para evitar esse casti­ go? Ou . quis regressar aos confins do bairro .desejara uma coisa e outra em momen­ tos diferentes? . Devíamos ter ido ao mar e não fomos . A minha mãe fora até lá com o guarda-chuva. Os arbustos carregados de água roçavam por nós . o céu fizera-se negro à hora da saída da escola. Primeiro ele deu-lhe uma bofetada e depois . sempre de olhos baixos . Eu . fazendo-nos es­ tremecer. Descobrira que eu não me encontrava na escola e que não havia festa nenhuma. Lila de re­ pente arrependera-se do plano que concebera. No bair­ ro . Encontrámo-nos nos jardins . Havia horas que me procurava. perplexa. Durante toda a noite tentei perceber o que tinha de facto acontecido . Esbofeteou-me e bateu-me com o guarda-chuva. como castigo . Não conseguia compreender. sentia-me longe de tudo e de todos . deu-mas pela medida grande . No dia seguinte não a esperei ao portão . «Só te bateram?» «Que mais haviam de me fazer?» «Ainda te vão mandar estudar latim?» Olhei para ela. Ocorrera uma misteriosa inversão de atitudes . corri-lhe imediatamente ao encontro deixando Lila para trás . Ao serão a minha mãe contou tudo ao meu pai e obrigou-o a bater­ -me .ex­ tinguia em mim todos os vínculos e todas as preocupações. fui sozinha para a escola. Ele enervou-se .descobrira-o pela primeira vez . teria prosseguido caminho . Quando avistei ao longe a sua figura a coxear. irritado consigo mesmo . Seria possível? Arrastara-me consigo na esperança de que os meus pais . Tensa.60 Elena Ferrante pos . Nem me deixou falar. Em casa dela ninguém dera por nada.interrogo-me hoje . vestimos as batas secas por cima da roupa molhada. ela descobriu as nódoas negras nos meus braços e perguntou-me o que acontecera. renunciara ao mar. apesar d a chuva. e começaram a discutir. e a distância . Encontrámos as pastas . Depressa compreendemos que nada correra como previsto . Lila pirou-se . Lila não voltou a dar-me a mão . para me acompanhar até à festa da professora. as coisas agora estavam assim. e eu levara tareia por nada. encaminhámo-nos para casa.

A Amiga Genial 61

17.

Fizemos juntas o exame final da primária. Quando percebeu que eu
faria também o de admissão , perdeu a energia. Aconteceu algo que sur­
preendeu toda a gente: eu passei nos dois exames com dez em todas as
disciplinas ; Lila passou no exame da primária com nove em todas e
oito em aritmética.
Não me disse uma única palavra de raiva ou de descontentamento .
Mas começou a fazer conluio com Carmela Peluso , a filha do carpin­
teiro-batoteiro , como se eu já não bastasse para ela. No espaço de pou­
cos dias formámos um trio , no qual eu , apesar de ter sido a número um
da escola, estava quase sempre em terceiro lugar. Falavam e diziam
piadas uma à outra constantemente , ou melhor, Lila falava e dizia pia­
das , Carmela ouvia e divertia-se . Quando dávamos os nossos passeios
entre a igreja e a rua larga, Lila ia sempre no meio , e nós , uma de cada
lado . Se notava que ela tendia para se aproximar mais de Carmela, eu
sofria com isso e tinha vontade de voltar para casa.
Nesse último período da primária parecia que andava atordoada, co­
mo se tivesse sofrido um golpe de sol . Já fazia muito calor e costumá­
vamos molhar a cabeça na fonte . Recordo-a com os cabelos e a cara a
pingar água e sempre a querer falar da nossa ida para a escola no ano
seguinte . Tornara-se o seu tema preferido e tratava-o como se fosse um
dos contos que tinha intenção de escrever para ficar rica. Agora, ao fa­
lar, dirigia-se de preferência a Carmela Peluso , que no exame da primá­
ria tivera sete em tudo e também não fizera o exame de admissão .
Lila tinha muito jeito para contar histórias , parecia ser tudo verdade ,
a escola para onde iríamos , os professores , fazia-me rir e preocupava­
-me . Mas uma manhã interrompi-a.
«Lila» , disse-lhe , «tu não podes ir para a escola média, não fizeste o
exame de admissão . Nem tu nem a Peluso podem ir.»
Zangou-se . Disse que iria na mesma, com exame ou sem exame .
«E a Carmela também?»
«Também .»
«Não é possível .»
«Então vais ver.»
Mas as minhas palavras devem ter-lhe dado um grande abanão . A
partir daí deixou de contar histórias sobre o nosso futuro escolar e tor­
nou-se silenciosa. Depois , com uma determinação repentina, começou
a atormentar a farm1ia, gritando que queria estudar latim como Gigliola

62 Elena Ferrante

Spagnuolo e eu íamos estudar. Zangou-se sobretudo com Rino , que
prometera ajudá-la e não o fizera. Era inútil explicar-lhe que já não
havia nada a fazer, pois mostrava-se ainda mais irracional e mais má.
No princípio do Verão assaltou-me um sentimento difícil de explicar
por palavras . Via-a nervosa e agressiva como sempre fora, e isso alegra­
va-me , reconhecia-a. Mas também sentia, por trás dos seus antigos
modos , um desgosto que me incomodava. Ela sofria, e a sua dor não me
agradava. Preferia-a quando ela era diferente de mim, muito distante
dos meus anseios. E o mal-estar que sentia por descobrir que ela era
frágil transformava-se por vias secretas numa necessidade minha de ser
superior. Sempre que podia, cautelosamente e de preferência quando
Carmela Peluso não estava presente , arranjava maneira de lhe recordar
que a minha caderneta escolar era melhor do que a dela. Sempre que
podia, cautelosamente , lembrava-lhe que ia para a escola média e ela
não . Deixar de ser a segunda, passar-lhe à frente , pela primeira vez pare­
ceu-me um sucesso . Teve de se compenetrar disso e tomou-se ainda
mais áspera, mas não para comigo, para a fanu1ia.
Muitas vezes , enquanto esperava que ela descesse para o pátio , ouvia
os seus berros que vinham das janelas . Lançava insultos no pior dialec­
to de rua, tão pesados que ao ouvi-los me ocorriam pensamentos de
ordem e de respeito , não me parecia certo ela tratar os adultos daquela
maneira, e até o irmão . É verdade que o pai , o sapateiro Fernando , quan­
do estava com os azeites tomava-se mau . Mas todos os pais se enfure­
ciam. Além disso o dela, se não fosse provocado , era um homem gentil ,
simpático , muito trabalhador. De cara parecia-se com um actor que se
chamava Randolph Scott, mas sem a sua finura. Era mais grosseiro ,
nada de tons claros , tinha uma barbaça preta que começava logo abaixo
dos olhos , e umas mãos largas e curtas sulcadas de porcaria em cada
prega e debaixo das unhas . Gostava de brincar. Quando eu ia a casa da
Lila ele prendia-me o nariz entre o indicador e o médio e fingia que mo
arrancava. Queria fazer-me acreditar que mo tinha roubado e que ele
agora se agitava, aprisionado entre os seus dedos , tentando escapulir-se
para voltar para a minha cara. Eu achava graça àquilo . Mas se Rino , ou
Lila, ou os outros filhos , o faziam zangar, até eu me assustava ao ouvi­
-lo da rua.
Uma tarde , não sei o que aconteceu . No tempo quente ficávamos na rua
até à hora do jantar. Dessa vez, Lila não se deixava ver, e fui chamá-la por
baixo das janelas , que eram no rés-do-chão. Chamei «Ll , Ll, Ll» , e a mi­
nha voz juntava-se à de Fernando , muito alta, à da mulher e à voz insis-

A Amiga Genial 63

tente da minha amiga. Ouvi claramente que se passava qualquer coisa que
me aterrorizava. Das janelas saía um napolitano grosseiro e o ruído de
objectos a partirem-se. Aparentemente não era nada diferente daquilo que
acontecia em minha casa quando a minha mãe se enfurecia porque o di­
nheiro não chegava, e o meu pai se zangava porque ela já tinha gastado a
parte do ordenado que lhe dera. Na realidade , havia uma diferença subs­
tancial. O meu pai continha-se , mesmo quando estava furioso, tornava-se
violento em surdina, impedindo a voz de explodir, embora as veias do
pescoço se lhe dilatassem e os olhos lançassem chamas . Fernando, pelo
contrário, gritava, partia coisas , e a raiva crescia, não conseguia parar; as
tentativas que a mulher fazia para o acalmar enfureciam-no ainda mais , e
mesmo que a zanga não fosse com ela acabava por lhe bater. Portanto
insistia em chamar Lila, para tirá-la daquela tempestade de gritos , de
obscenidades , de ruídos de destruição . Eu gritava «Ll , Ll , Ll» , mas ela
- bem a ouvia - não parava de insultar o pai .
Tínhamos dez anos , daí a pouco fazíamos onze. Eu estava a ficar mais
cheia, Lila continuava baixinha, magra, era leve e delicada. De repente os
gritos pararam e daí a instantes a minha amiga voou pela janela, passou
por cima da minha cabeça e aterrou no asfalto atrás de mim.
Fiquei estarrecida. Fernando apareceu à janela, continuando a gritar
ameaças horríveis à filha. Atirara-a como se fosse um objecto .
Olhei para ela aterrorizada, enquanto tentava levantar-se , dizendo-me
com uma careta quase divertida:
«Não me aconteceu nada.»
Mas estava a sangrar, tinha partido um braço .

18.

Os pais podiam fazer aquilo e mais , às meninas atrevidas . Depois ,
Fernando tornou-se mais sisudo , mais trabalhador do que o habitual .
Durante esse Verão , eu , Carmela e Lila passámos muitas vezes em fren­
te da sua oficinazita, mas enquanto Rino nos acenava sempre alegre­
mente , o sapateiro , enquanto a filha teve o braço engessado , nem sequer
olhava para ela. Via-se que estava arrependido . Os seus actos violentos
de pai pouca coisa eram, se comparados com a violência dispersa pelo
bairro . No bar Solara, com o calor, entre perdas ao jogo e bebedeiras
importunas , chegava-se com frequência ao desespero (palavra que em
dialecto significava ter perdido toda a esperança, mas , também , estar

64 Elena Ferrante

sem um tostão) , e depois às cenas de pancadaria. Silvio Solara, o dono ,
um homem corpulento com uma barriga imponente , olhos azuis e testa
muito alta, tinha um bordão escuro atrás do balcão , com o qual não
hesitava em bater em quem não pagasse o consumo , quem tivesse pedi­
do empréstimos e quando se vencesse o prazo não os liquidasse , quem
fizesse acordos de qualquer tipo e não os cumprisse , e muitas vezes era
ajudado pelos filhos, Marcello e Michele , rapazes da idade do irmão de
Lila, mas que batiam com mais força do que o pai . Ali , dava-se pancada
e levava-se . Depois os homens voltavam para casa exasperados pelas
perdas ao jogo , pelo álcool , pelas dívidas , pelos prazos , pelas pancadas ,
e à primeira palavra torta batiam na fanu1ia, um chorrilho de dislates
que davam origem a outros dislates .
A meio daquela longa estação ocorreu um facto que perturbou toda a
gente , mas que teve um efeito particular sobre Lila. Dom Achille , o
terrível dom Achille , foi assassinado em sua casa ao início da tarde de
um dia de Agosto surpreendentemente chuvoso .
Encontrava-se na cozinha, acabara de abrir a janela para deixar entrar
a frescura da chuva. Levantara-se da cama de propósito , interrompendo
a sesta. Vestia um pijama azul-claro muito gasto , calçava apenas meias
de cor amarelada, escurecidas nos calcanhares . Assim que abriu a jane­
la, bateu-lhe na cara uma rajada de chuva e, do lado direito do pescoço ,
a meio caminho entre o maxilar e a clavícula, foi trespassado por uma
faca.
O sangue esguichou-lhe do pescoço e atingiu uma panela de cobre
pendurada na parede . O cobre era tão brilhante que o sangue parecia
uma mancha de tinta da qual escorria - assim contava Lila - uma li­
nha negra irregular. O assassino - mas ela inclinava-se mais para uma
assassina - entrara sem arrombar a porta, a uma hora em que as crian­
ças e os jovens estavam na rua e os adultos, se não estavam a trabalhar,
estavam a repousar. Entrara de certeza com uma chave falsa. Certamen­
te tencionava apunhalá-lo no coração enquanto dormia, mas encontrara­
-o acordado e dera-lhe a facada no pescoço . Dom Achille virou-se , com
a lâmina espetada no pescoço , os olhos arregalados e o sangue a sair a
rodos e a ensopar-lhe o pijama. Depois caiu de joelhos e em seguida de
cara no chão .
O assassínio impressionou tanto Lila que quase todos os dias , muito
séria, nos obrigava a ouvir a descrição como se tivesse assistido , acres­
centando sempre novos pormenores . Eu e Carmela ficávamos assusta­
das de a ouvir, Carmela nem conseguia dormir de noite . Nos momentos

A Amiga Genial 65

mais horríveis , quando a linha negra de sangue escorria pela panela de
cobre , os olhos de Lila tornavam-se duas gretas ferozes . Com certeza
imaginava que o criminoso era mulher, só porque lhe era mais fácil
identificar-se com ela.
Nesse tempo íamos muito para casa dos Peluso , para jogar às damas
e ao jogo dos três , Lila tinha então essa paixão. A mãe de Carmela
mandava-nos entrar para a sala de jantar, cujos móveis haviam sido
feitos pelo marido , antes de dom Achille lhe ter tirado as ferramentas de
carpinteiro e a oficina. Sentávamo-nos à mesa, entre dois aparadores
com espelhos , e jogávamos . Antipatizava cada vez mais com Carmela,
mas fingia ser sua amiga, pelo menos tanto como era de Lila, e em cer­
tas ocasiões até lhe fazia crer que gostava mais dela. Por outro lado ,
simpatizava muito com a senhora Peluso . Trabalhara na Tabaqueira,
mas perdera o posto de trabalho meses antes e estava sempre em casa.
Mas tanto na boa sorte como na má era uma pessoa alegre , gorda, com
um grande peito , faces afogueadas por duas rosetas vermelhas , e embo­
ra o dinheiro escasseasse tinha sempre qualquer coisa boa para nos
oferecer. O marido também parecia um bocado mais tranquilo . Agora
servia à mesa numa pizzeria e tentava não ir ao bar Solara perder às
cartas o pouco que ganhava.
Uma manhã estávamos na sala de jantar a jogar às damas , eu e Car­
mela contra Lila. Nós duas sentadas de um lado e ela do outro . Atrás de
nós encontravam-se os dois móveis idênticos , com os espelhos . Eram de
madeira escura e tinham cornijas com volutas . Via a imagem das três
reflectida até ao infinito e não conseguia concentrar-me , não só por
causa das imagens que não me agradavam, como devido aos gritos de
Alfredo Peluso , que naquele dia estava muito nervoso e implicava com
a mulher, Giuseppina.
A certa altura bateram à porta e a senhora Peluso foi abrir. Exclama­
ções , gritos . Nós fomos as três espreitar ao corredor e vimos os cara­
binieri , figuras que muito temíamos . Os carabinieri agarraram Alfredo
e levaram-no . Ele esbracejou , gritou , chamou os filhos pelos nomes ,
Pasquale , Carmela, Ciro , Immacolata, agarrava-se aos móveis feitos
pelas próprias mãos, às cadeiras , a Giuseppina, jurava que não matara
dom Achille , que estava inocente . Carmela chorava desesperada, todos
choravam, também comecei a chorar. Lila não , Lila fez aquele olhar que
anos antes fizera a Melina, mas com algumas diferenças : agora, embora
imóvel , parecia estar em movimento juntamente com Alfredo Peluso ,
que lançava gritos roucos e assustadores: «Aaaah ! »

Cochichavam uma com a outra sem parar e. Lila preocupou-se com Carmela.66 Elena Ferrante Foi a coisa mais terrível a que assistimos ao longo da nossa infância. mas que na sua opinião não fora ele . fizera muito bem em matar dom Achille . Dizia-lhe que se de facto fora o pai . impressionou-me muito . para evitar que eu ouvisse . Estava inocente de certe­ za. consolou-a. se eu me aproximava. . e em breve fugiria da prisão . chegavam-se um bocado mais para lá.

Adolescência História dos sapatos .

Estávamos no exterior. mães de filhos . Quando . como se aqueles . foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo . ritual a que Lila. que estavam alegres .tínhamos ambas trinta e cinco anos. ainda incapaz de lhe dar nome . pelo espumante . apesar do frio começou a cobrir-se de suor. Só anos depois . Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o novo ano . Apesar de fazer muito frio . A 3 1 de Dezembro de 1 959 Lila teve o seu primeiro episódio de des­ marginação . no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1 960 .. foi ela que sempre o usou .. agressi­ vos . e que ainda lhe acontecia. figuras escuras excitadas pela festa. pela comida. me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião . O coração batia-lhe descontroladamente. como depois contarei . no meio dos rebentamentos . Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente . Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teve a impressão de que alguma coisa totalmente material . assustou-se e guardou o caso para si . dera a sua colaboração . e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu . Começou a sentir aversão pe­ los gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos . naquela noite . éramos casadas . Olhávamos para os homens. Mas de repente - disse-me . estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se . forçando o significado corrente da palavra. e pela primei­ ra vez recorreu a esse vocábulo . 1. numa noite de Novembro de 1 980 . usávamos vestidos leves e decotados para parecer­ mos bonitas . O termo não é meu . Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa. mas imperceptível . presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre . no alto de um dos prédios do bairro .

a mais mesquinha. Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de en­ tidades desconhecidas . muito amigáveis . sabe-se lá porquê . ou numa sílaba. pensou ela. durante fracções de segundos . não era totalmente nova para ela. ou num número . pareciam-lhe atributos de seres monstruosos . Na altura em que me fez essa descrição . como somos insuficientes . os narizes . mau cheiro a mais . de que pequenos animais avermelhados . E no dia em que o pai a atirara pela janela. E o asco. tomara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me . a mais feroz. já não foguetes e morteiros . membruda. deixando ver a sua natureza assustadora. estavam a dissolver a composi­ ção da estrada. Por exemplo . O tumulto do coração dominava-a. do frenesim com que se agitavam. a pessoa que ela mais amava. o pai . enquanto voava em direcção ao asfalto.70 Elena Ferrante sons obedecessem a leis novas e desconhecidas . Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era. o dia­ lecto deixou de lhe ser familiar. sentia-se sufocar. como que o sopro de um bater de asa. a pessoa que afinal lhe era mais familiar. da sua estrutura óssea. Mas nesse instante ouviu . Fumo a mais . Uma sensação de repugnância apoderara-se de todos os corpos em movi­ mento. as orelhas . embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez. A náusea cresceu. e passou-lhe qualquer coisa ao lado . a que mais gritava. a mais voraz . mas tiros de pistola. as pernas. entre os gritos de alegria. Quando tiraram o gesso a Lila e reapareceu o seu bracinho muito branco mas perfeitamente funcional . E isso tinha-a transtornado. tivera a certeza absoluta. O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcção dos clarões amarelados . Os ombros largos . numa pessoa ou numa coisa. transformando-a numa matéria lisa e macia. Alguém estava a disparar. uma forma animal atarracada. 2. violando­ -lhe os contornos . Fernando . Como somos mal feitos . chegou a um . caídos de qualquer recanto do céu negro. Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação. Lila tentara acalmar-se . tenho de atirá-lo para fora de mim. que quebravam o contorno habitual do mundo . concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino. já tivera muitas vezes a sensação de entrar. os olhos . uma espécie de última detonação . demasiado relampejar de fo­ gos na geada. os braços .

que eu vira desenhado num livro da professora Oliviero . Passavam-se os dias e não conseguia recuperar. contrariada. mas fazíamos de conta que não nos conhecíamos . e embora não o admitisse claramen­ te . No início tive grandes expectativas . permitiu-lhe que frequentasse uma escola para aprender não sei bem o quê . nunca se ria . Assim que experimentava sair. e lutámos o ano inteiro para não ficarmos entre os piores . Começou a despontar em surdina a ideia de que . sem se pronunciar directamente . ou economia doméstica. e no final do ano reprovou . Um dia vi-a na rua e pare­ ceu-me um fantasma. e da qual lhe falaria quando isso se concretizasse . achava que Alfredo Peluso fizera bem em ma­ tar-lhe o pai e não me ocorriam palavras de conforto . voltava-lhe a febre . porque a filha faltava muitas vezes sem justificação . Mas foi cada vez menos à escola. mas sim pela boca de Rino e da mulher. quase contra vontade . estenografia. Depois correu o boato que ela ia morrer em breve . Nem a sua condi­ ção de órfão me comovia. tal como Gigliola. De vez em quando encontrava à entrada Alfonso . o filho mais novo de dom Achille . se a interrogavam recusava-se a responder. Eu não sabia o que lhe dizer. de tal modo que o vírus depressa lhe tirou todas as energias . e não com Lila. perturbava as aulas . Mas ela pareceu aceitá-la com uma espécie de resignação . seria a melhor aluna. ou contabi­ lidade . muito pior do que aquela que tivemos quase todos . Estava . gabando-me . Custou-me muito . Também eu não fui bem sucedida no primeiro ano da escola média. Mas comecei logo a claudicar. nunca mais saborearia o prazer de pertencer ao grupo restrito dos melhores . sempre metido consigo . em que eu . com a desculpa de se sentir fraca. ou essas três disciplinas . o fantasma de uma menina que tinha comido ba­ gas venenosas . mais pálida do que o habitual . se tinha de fazer exercícios fa­ zia-os em cinco minutos e depois incomodava as colegas . era como se ele carregasse parte da culpa pelo terror que dom Achille me causara durante anos . Usava uma faixa preta cosida no casaco. Em alguma parte secreta do meu ser eu aspirava a uma escola a que ela nunca tivesse acesso . Acabei por me encontrar numa espécie de lamaçal . o que me causou uma ansiedade insuportável . Nunzia foi chamada pelos professores . Ela foi . Nunzia.A Amiga Genial 71 acordo consigo mesmo e . sentia-me contente por ter entrado juntamente com Gigliola Spag­ nuolo . foram muitos os que mos­ traram ser melhores do que eu . A certa altura apanhou uma gripe má. sem Lila. éramos uns bichinhos assustados com a nossa própria mediocridade . Mas afinal recompôs-se . na sua ausência.

que ela precisava de ajuda em casa e eu devia deixar de estudar. mas que se não tivesse aulas particulares no ano seguinte não conseguiria passar. Depois saí para o calor do pátio . estendia-me em cima da cama e passava pelo sono . o dialecto vergado a um italiano cheio de erros de gramática. na opinião dela. Uma tarde adormeci deveras e ao acordar senti-me molhada. na minha presença. e envergonhei-me também pela diferença entre a figura harmoniosa. Encontrei Lila e Carmela. esperando não ser apanhada pela minha mãe . De vez em quando via Lila a passear com Carmela Peluso . Ela também deve ter sentido o peso daquela humilhação . o cabelo sem brilho . O coração saltava-me de medo . No fim do ano soube-se que passara com média de oito . de­ centemente vestida da professora. Eu escutava-a mas aborrecia-me . Quando já não suportava o medo . que me falava muito do jovem estudante universitário que ia a casa dar-lhe explicações e que . e esse pensa­ mento dava-me um cansaço como se tivesse sono . Sentia que Lila já não queria ser minha amiga. espremi-as e voltei a vesti-las molhadas . no pátio . Sofri uma dupla humilhação: envergonhei-me porque não fora capaz de alcançar o nível que tinha na primária. sussur­ rei a Lila: . merecia continuar. o que me deprimiu muito . Discutiram muito . Voltou para casa carrancuda. talvez por recear uma repri­ menda da minha mãe por me ter magoado entre as pernas . geralmente em companhia de Gigliola. que também frequentara uma escola não sei de quê e também reprovara. ao passo que Gigliola reprovara em duas . lavei-as bem . Senti que estava outra vez a ficar molhada. Fui à retrete ver o que tinha e descobri que as cuecas estavam sujas de sangue . a professora mandou chamar a minha mãe e disse-lhe. eu safei-me com seis em tudo . os seus sapatos velhos . pensando que seria a humidade das cuecas .72 Elena Ferrante numa turma diferente da minha e constava que era muito bom aluno . fui passear com elas até à igreja. disse ao meu pai que os professores não estavam satis­ feitos comigo . Passei um Verão entorpecido . que só me salvara em Latim graças à sua generosidade . mas tentei sossegar. com o seu italiano que se assemelha­ va um pouco ao da Ilíada . litigaram e por fim o meu pai decidiu que . a amava. Gigliola tinha de repetir Latim e Matemática. Quando saíram as notas . e a figura torta da minha mãe . uma vez que eu afinal fora aprovada. Aterrorizada não sei bem por que razão . Às vezes .

dissemos-lhe ambas num falso tom de consolação .» Pensou um bocado e murmurou: «Eu fiz de propósito para reprovar. Carmela sabia tudo. até à hora do jantar. Passei a tarde toda a falar com ela. «Também te há-de aparecer» . muito pálida apesar dos dias ao ar livre . Já havia um ano que tinha o sangue . só pele e osso . como nós . «Estou-me nas tintas» . «As mulheres têm isso por natureza. «Ü que poderá ser?» . disse . A naturalidade com que me dissera o pouco que sabia tranquilizou-me e fez-me simpatizar com ela. mas depois parou e perguntou-me: «Como é o latim?» «Bonito . mas depois passa. Sangra-se durante uns dias . «significa que já és adulta e já podes ter filhos. mas ela seguiu­ -nos . disse . depois . tentando afastá-la de Carmela. E nem sabia tão-pouco o que era o sangue .» «E o que vais fazer?» «Aquilo que me apetecer. embo­ ra dirigindo-me só a Lila. dá-me nojo.» Lila ficou a ouvir-nos .» Fez menção de se ir embora. tens dores na barriga e nas costas . E reprovara.A Amiga Genial 73 «Tenho uma coisa para te dizer. com má vontade respondeu que não . «É normal» . mais pe­ quena do que sempre a achara. E ainda nenhum rapaz se lhe declarara. Pelo contrário . Nunca mais quero ir para escola nenhuma.» «Ü quê?» «Quero dizer só a ti . E quem o tem também me dá nojo . Fiquei a saber que daquela ferida não se morria. sem nada ou quase nada dizer. De repente pareceu-me pequena.» «De certeza?» «De certeza.» . Perguntámos­ -lhe se já tinha o sangue . Era seis ou sete centímetros mais baixa. se um homem te enfiar o coiso na barriga. perguntei .» «És boa?» «Muito . e vimo-la hesitar. «eu não o tenho porque não quero ter. A preocupação era tal que acabei por me confessar às duas .» O silêncio de Lila impeliu-me para Carmela. todos os meses .» Peguei-lhe num braço .

Não se deixou ver o resto do Verão . Contou-me inesperadamente . Contou-me que o pai estava inocente . Mas que história ! Talvez nem Lila fosse capaz de construir uma his­ tória assim . S e decidira abrir-se comigo era porque j á não conseguia guardar tudo lá dentro . que quem matara dom Achille fora uma criatura escura. 3. que . Oscilava entre a irritação por ver uma recriação que me parecia uma caricatura. Anali­ sámos todas as possíveis consequências daquela paixão até as escolas reabrirem e eu deixar de ter tempo para escutá-la. Ao falar imitava-lhe os tons . Bastava vê-lo atravessar o pátio ou caminhar pela rua para se sentir desmaiar.74 Elena Ferrante Deixou-nos ali no meio do pátio e foi-se embora. Era um amor que a atormentava e a consumia. embora adulterados . Começou um período de indisposição . que estava apaixonada por Alfonso Carracci . Foi uma confidência que me impressionou muito e que consolidou a nossa amizade . embora oscilasse desagradavelmente entre risadas a mais e lamúrias a mais . porque . nem sequer com Lila. vendia saúde como eu . e o fascínio . Tomei-me muito amiga de Car­ mela Peluso . os modos de Lila encantavam-me na mesma. De um momento para o outro passou do sorriso às lágrimas . sofrera a influência de Lila de maneira tão forte que às vezes era uma espécie de sucedâneo . a filha do assassino estava apaixonada pelo filho da vítima. sob a pele do peito despontaram-me dois rebentos duros . fazia as coisas terríveis que tinha a fazer e depois escapulia-se para debaixo do chão . Aquela espécie de apropriação indevida desagradava­ -me por um lado e por outro atraía-me . Contou-me que a nova escola fora muito desagradável: todos implicavam com ela e os professores não a podiam ver. embora fisi­ camente fosse mais parecida comigo: bonita e rechonchuda. floriram-me pêlos nas axilas e na . gesticulava de modo seme­ lhante e ao andar tentava reproduzir os movimentos dela. Falou-me de quando ia a Poggiorea­ le com a mãe e os irmãos visitar o pai . Engordei . e dos prantos que faziam. com um sorriso fátuo . Gostei do seu tom dramático . que vivia com os ratos e saía das sarjetas do esgoto mesmo de dia. um pouco masculina mas sobretudo feminina. Carmela jurou que nunca falara disso com ninguém . Foi com esses modos que Carmela acabou por me conquistar. usava certas expressões recorrentes .

Depois viraram-se e fugiram pela escada abaixo . Assim que podia fechava-me na retrete e via-me ao espelho . tomei-me triste e nervosa. mas . que eu lhes punha algodão . levantei a blusa e mostrei os seios . recorri conscientemente ao tom atrevido de Lila: «Dá-me as dez liras .» «E se tiveres algodão?» «Não tenho .» Pôs-se a andar e eu prossegui . Aquele pedido assustou-me . Na escola esforcei-me mais do que nos anos precedentes . Entretanto o peito . seguiu­ -me na rua e disse-me que . Gino . mas tinha de lhe provar que não usava algodão . até que de mim ressurgisse minha mãe . estava sempre ansiosa. como se não acreditassem no que os seus olhos viam. achava que eram verdadeiros . Gino disse: «Ele tem de estar presente. repentinamente . caso ganhasse a aposta. nua.» Deu-me dez liras e subimos os três em silêncio até ao último andar de um prédio que ficava a poucos metros do jardim. Por fim disse que . sou eu que tenho razão?» «Sim. e ninguém mais gostaria de mim. Falava e ria-se . Não sabendo como proceder. onde eu era perfeitamente delineada pelos delicados segmentos de luz . com um olho torto . ao pé da porta de ferro que dava para o terraço . um magrinho de cujo nome não me recordo . a princípio tão duro . dez liras ficavam para ele e as outras dez eram para mim. decepcionada. Mas pouco depois voltou . Já não sabia quem era. Ali . Comecei a desconfiar que iria continuar a mudar. senão os outros não acreditam que ganhei . Disse ainda que ele . Sentia-me à mercê de forças ocultas que actuavam no interior do meu corpo .A Amiga Genial 75 púbis. os exercícios de matemática quase nunca davam o resultado previsto no caderno de exercícios . na companhia de um rapaz da sua turma. que tinha apostado vinte liras . as frases de latim pareciam­ -me não ter pés nem cabeça. o filho do farmacêutico .» Recorri novamente ao tom de Lila: «Primeiro o dinheiro . na opinião dos seus companheiros . Dei um suspiro de alívio e fui ao bar Solara comprar um gelado .» «Porquê . Aquele episódio ficou-me gravado na memória. Senti pela primeira vez a força magnética que o meu corpo exercia sobre os homens . co­ xa. pelo contrário . Chorava mui­ to. Uma manhã. Ficaram os dois parados a olhar. à saída da escola. os meus seios não eram verdadeiros . com uma penugem por cima do lábio. tomou-se maior e mais macio .

em gáspeas . 4. Naquele ano Rino obrigou-a a matricular-se de novo na escola.. na sua ausência. porque ela. em peleiros e em pelarias .76 Elena Ferrante sobretudo dei-me conta de que Lila actuava. em tacão inteiro e meio tacão . e o meu contentamento des­ vanecia-se . Mas às vezes interrogava-me . Quando pensava de novo naquele instante em que Gino me fez o pedido . inesperadamente . As raras vezes em que nos encontrámos . em . mas mais uma vez ela pouco compareceu e nova­ mente a reprovaram. pareceu até contente de trabalhar para ambos . a esmeriladora. mas também conhecia bem as máquinas . como sempre . Mas ela não me viu e eu segui caminho . e ficava muito contente . em vez de opor resistência. até para os que iam para a guerra. não só sobre Carmela mas também sobre mim. fugiu da oficina do avô . e depois . em meias-solas . Quando passei com o gelado em frente da oficina de Fer­ nando e vi Lila absorta a arrumar sapatos sobre uma comprida pratelei­ ra. Descobriu que Fernando sabia fazer um sapato à mão do princípio ao fim. Porém. como sempre . começava a falar ininterruptamente e com admiração do trabalho que o pai e o irmão faziam. que imitara o olhar e o tom e os gestos da Cerullo em situações de conflito descarado .ao domingo depois da missa ou a passear entre os jardins e a rua larga . na preparação do fio . após uma breve hesitação pusera-me no lugar dela. onde fizera sapatos para toda a gente . um pouco ansiosa: faço como Carmela? Parecia-me que não . abrira lugar para ela em mim. fui tentada a chamá-la e a contar-lhe tudo . E se estivesse na companhia de Lila? Puxava-lhe por um braço e sussurrava-lhe «vamos embora» . a cortadora. e ela. Soube que o pai quando era rapaz quis emancipar-se . sentia com preci­ são que me passara a mim mesma para trás . Tinha sempre que fazer. para ver o que ela pensava. que também era sapateiro . mas não era capaz de explicar em que sentido . e era capaz de fazer uso de todas . e foi trabalhar para uma fábrica de calçado em Casaria. parecia-me que era diferente . não mostrou qualquer curiosidade pela minha escola. decidiria ficar. como um fantasma exigente . A mãe pedia-lhe que a ajudasse em casa. Se eu numa situação daquelas tivesse de tomar uma decisão com as emoções na mais pura desordem. o pai pedia-lhe para estar na oficina. Ou melhor. a pespontadora. o que teria feito? Tinha fugido . Falou-me em couro . ficava.

quando ela me via e me fazia adeus . Envergonhada. À saída da escola. no jardim . e ela voltava a concentrar-se no trabalho . e eu respondia à saudação . o filho do farmacêutico era uma espécie . Ela comprava a revista Sogno e devorava fotonovelas . Eu . e os novos metidos numa forma que dilatava o cabedal e os alargava. mais do que eu . fugia sem esperar pelo olhar de Lila. Por vezes parava para ver na montra as caixas de cromatina. o pé de ferro . e co­ mentávamos as histórias e aquilo que cada personagem dizia.Casoria. o cheiro bom da cola misturado com o dos sapa­ tos velhos. atordoada pela infelicidade . A princípio parecia-me tempo perdido . o martelo . tão satisfeito que agora preferia a pequena oficina da fanu1ia. o balcãozito sossegado . e fazia­ -me caretas cómicas para eu me rir. tomando-os mais cómodos . sem trabalhos de casa. graças à habilidade que tinham de encerrar os pés das pessoas em sapatos sólidos e cómodos . Gino . mas lá estava.. por Alfonso . Mas muitas vezes era Rino que dava por mim primeiro . sem aulas . ao fundo . Usou todos aqueles termos do ofício como se fossem mágicos e o pai os tivesse aprendido num mundo encantado . Aos olhos dela. pareceram­ -me ser as melhores pessoas do bairro . depois comecei a dar uma olhadela também e passámos a lê-las juntas . Nas aulas comecei a sentir-me inutilmente presente . Sobretudo . Não sei o que ela fazia exactamente . sentada a uma mesinha. estava excluída de um privilégio raro . para não lhe ficar atrás . disse-lhe que me amava. os sapatos velhos com solas novas .A Amiga Genial 77 como se aplicava uma sola e se coloria e se dava brilho . toda a energia. por trás da porta de vidro . Um domingo dei por mim a falar apaixonadamente de sapatos com Carmela Peluso . escrito em letras brancas sobre fundo negro . Só me ia embora. Durante meses e meses pareceu-me que tinham fugido dos manuais escolares todas as promessas . como se fosse uma cliente interessada na mercadoria. com o seu peito magro sem som­ bra de seios . activa. por não passar os meus dias na oficina de um sapateiro e tendo por pai um banalíssimo porteiro . sem livros . passava sem interrupção dos comentários às histórias de amor ficcionais aos comen­ tários à história do seu verdadeiro amor. voltava sempre para casa com a impressão de que . passava pela oficina de Fernando só para ver Lila no seu posto de traba­ lho . uma vez falei-lhe no filho do farmacêutico . en­ quadrada pela cabeça inclinada do pai e a cabeça inclinada do irmão . do qual re­ gressara como um explorador plenamente satisfeito . E puxou-me para dentro daquele vocabulário com um entu­ siasmo tão enérgico que o pai e Rino . e de má vontade . o rosto emaciado . Carmela. a fábrica . o pescoço delgado .

reconheci o cheiro . À saída Lila disse que tinha que fazer e afastou-se . Todo aquele período teve este ritmo . só aquilo em que Lila tocava é que era importante . entrou no edifício da escola primária. que tentava fazer minha a nova pai­ xão de Lila. pareciam­ -me decisivamente menos sugestivos do que o acabamento de um sapa­ to . e estive quase a contar-lhe da­ quela vez que me pedira para lhe mostrar o peito . Carmela ouviu-me distraída. e não pude conter-me . que trouxe con­ sigo uma sensação de à-vontade . com embaraço . os livros . con­ tornei o edifício e voltei para trás . despedi-me dela. como é que Lila entrara? Após muitas hesitações lá me aventurei a passar pela porta. comecei a gabá-los e a gabar quem os tinha feito tão bonitos . e depois disse que tinha de ir. iluminada com lâmpadas de néon . Para minha grande surpresa. se a sua voz se distanciava das coisas . Mas se ela se afastava. Nunca mais entrara na minha antiga escola e senti uma grande emoção. o Latim. futuro herdeiro da farmácia. ela. andávamos a preparar-nos para a primeira comu­ nhão . Depressa tive de admitir que aquilo que eu fazia sozinha não me dava emoção . mais do que a his­ tória das maminhas . e tinha as paredes cobertas de estantes repletas de velhos livros . a língua dos livros . A escola média. até ao átrio . nem Gino nem Alfonso nos resistiriam. cheias de pó . As escolas ao domingo estavam fe­ chadas . e a fantasiar que se usássemos sapatos assim. Pareceu-me um assunto muito oportuno . as coisas ficavam sujas . Mas tínhamos a revista Sogno bem aberta sobre os joelhos e os meus olhos caíram sobre os lindos sapatos de salto de uma das actrizes .78 Elena Ferrante de príncipe inacessível . Lila e eu . Mas vi que não se dirigia para casa. Entrei pela única porta aberta no rés-do-chão . Segui com Carmela. embora imitasse os modos de Lila. um senhor que nun­ ca se casaria com a filha de um porteiro . Contei uma dezena de adultos e muitas crian- . Carmela. Mas quanto mais falava mais me apercebia. Ao contrário de mim. à catequese . os professores . e que eu mostrara e ganhara dez liras . mas depois aborreci-me. Sapatos e sapateiros pouco ou nada lhe interessavam. 5. mantinha-se fiel às únicas coisas que a cativavam: as fotonovelas e o amor. Mas um domingo tudo mudou outra vez . um sentimento de mim que eu já não tinha. Tínhamos ido . e isso deprimiu-me . Era uma sala ampla.

interessava-se por sapatos e chinelada. até na rua. com o cabelo grisalho cortado à escovinha. mas orgulhosa por o filho do farmacêutico me querer. embora sem interesse . até esco­ lherem um. Andava mais brusca do que o habitual . Os rapazes insistiam. já não frequentava a escola.A Amiga Genial 79 ças . por ressentimento . já só saía para ir à escola e contrariada. sem fanfar­ ronice . Além disso . por atrapalhação . aliás . Durante uns tempos as horas na escola pareceram-me mais insignifi­ cantes do que nunca. Parecia envergonhada de eu ter seios e de me ter vindo o sangue . Experimentei afastá-los uma vez ou duas imitando os modos de Lila. receava ter más notas . ia ali buscar livros? Gostava daquele espaço? Porque não me convidava para ir com ela? Porque me deixara com Carmela? Porque falava comigo sobre a maneira de esme­ rilar as solas e não daquilo que lia? Irritei-me . Uma manhã de Maio . Os toscos esclarecimentos que me dava eram breves e insufi­ cientes . Disse-lhe que não . no entanto . o professor Ferraro . Ferraro exa­ minava o texto escolhido . magro . O soutien tornou-me o peito ainda mais visível . sentia-me misteriosamente culpada e sozinha com a minha culpa. comprimia o peito cruzando os braços sobre ele . Gino seguiu-me e perguntou-me . Estudava muito . por vingança. perturbado . fui-me embora. Riam-se. até no pátio . talvez já tivesse saído . Gino e o colega tinham espalhado o boato que eu não tinha problemas em mostrar o físico . sem nada me dizer. gozavam comi­ go . Pirava-me . Nos últimos meses de escola fui perseguida pelos rapazes e depressa percebi porquê . Depois fui assoberbada pela chusma de trabalhos e de dúvidas de final do ano . e então não me aguentei e comecei a chorar. O que andava ela a fazer. No dia seguinte perguntou-me . Não tinha tempo de lhe fazer perguntas antes que ela me virasse as costas e se afastasse no seu passo de esguelha. Olhei em volta: Lila não estava. punham-nos no lugar. Pegavam em livros . escrevia qualquer coisa no livro de registo e as pessoas saíam com um ou mais livros. e de vez em quando vinha um pedir-me que repetisse o espectáculo . se queria ser namorada dele . mas não me saíram bem. outras preocupações me afligiam. não passavam de resmungos . Com medo de me importunarem. Depois punham-se em fila em frente de uma secretária a que estava sentado um velho inimigo da professora Oliviero . metia-me em casa. estudava muito . folheavam-nos. A minha mãe disse-me que eu era indecente com todo aquele peito que me crescera e levou-me a comprar um soutien .

A conversa e o conselho que ela me dera. para ela perceber que . De frase em frase . Em vez de reatar a minha relação com Lila e torná-la exclusiva. e contou a Lila. e o seu efeito . mas não sofri com isso . «Se não aceitar. quer dizer que o amor não é verdadeiro . O desafio com Lila dera-me um prazer tão intenso que planeei dedicar-me totalmente a ela. como se tivesse levado uma pancada na cabeça que me trouxera à memória imagens e palavras . Sentira-me outra vez inteligente . aquele episódio não teve o seguimento que eu esperava. Não era verdadeiro amor. até Junho . Carmela não queria acreditar que eu rejeitasse o filho do far­ macêutico . todas vestidas de branco como as noivas . demos início a uma conversa na linguagem das histórias aos quadradinhos e dos livros . o que reduziu Carmela a uma ouvinte pura e simples .» Era uma frase que eu aprendera nas leituras da revista Sogno . demorámo-nos no adro da igreja já a pecar. Assim vestidas . voltando de súbito ao dialecto .» Fiz como ela me disse e Gino desapareceu . não devia ser tratada como Carmela: «Porque não estou certa dos meus sentimentos. embora eu passasse o tempo a falar de namorados . portanto . atraiu para junto dela muitas outras meninas . se tornou em poucos dias a mais acreditada conselheira sobre assuntos . nem com os professo­ res . Lila convenceu-me de que no amor só se obtém alguma segurança submetendo o pretendente a duras provas . mas na condição de ele aceitar comprar gelados para mim. haviam impressionado tanto Carmela Peluso que ela acabou por contar a toda a gente . e Lila pareceu-me impressionada. interessou-se pelo caso . Falámos as três no assunto . quando eu tinha mais tempo livre . Na escola média não acontecia nada do género .80 Elena Ferrante outra vez e nunca mais desistiu de perguntar. quando fizemos a primeira comunhão . para minha admiração . aconselhou-me a namo­ rar com Gino . O resultado foi que a filha do sapatei­ ro . sobretudo no Ve­ rão . que não tinha seios nem menstruação e nem sequer um pretendente . Respondi inesperadamente em italiano . Aqueles momentos iluminaram-me o coração e a cabe­ ça: eu e ela e aquelas palavras bem arquitectadas . para ela e para Carmela durante todo o Verão . nem com os colegas . Porém . Esta. perguntou-me Lila em dialecto . Como se fosse um daqueles nossos desafios da primária. «Porque lhe disseste que não?» . falando de amor. Foi maravilhoso . Depois . em vez de se afastar com o ar de quem se está nas tintas . Entretanto queria que aquela conversa se tornasse o modelo de todos os nossos próximos encontros . para a impressionar.

tomara-se evidente que eu não era boa aluna: o filho mais novo de dom Achille passara a tudo e eu não. «Lenu» . Captava sempre frases que achava lindas e sofria com isso . surpreendendo-me uma vez mais. ora convidando-me para brincar com eles .» Olhei-a. Era a primogénita. no tom áspero habitual: «Não te podemos pagar as lições . aceitou esse papel . Mas sobretudo . a filha do paste­ leiro Spagnuolo passara a tudo e eu não. ora trazendo-me fruta. Era sempre a mesma: cabelo baço .A Amiga Genial 81 do coração . que depois de terminarmos a primária perdera aquele hábito . Foram dias desconsoladores . No dia seguinte co­ mecei a estudar. Era Lila. e que em vez disso fizera de conta que não era importante: Alfonso Carracci passou com média de oito . Passava-lhe ao lado . e eu tive seis em tudo e quatro em Latim. Os manuais escolares tinham custado muito dinheiro . os dois rapazes . o Campanini e Carbone. mas estava tão compenetrada que nem me ouvia. impondo a mim própria não ir ao pátio nem aos jardins . Gigliola Spagnuolo passou com média de sete . Depois . 6. Acres­ centou: «Não está escrito em parte nenhuma que não podes fazê-lo . mas podes experimentar estudar sozinha e ver se passas no exame . apesar de comprado usado fora uma grande des­ pesa. O dicionário de Latim. uma tarde . Tinha de repetir em Setembro essa única disciplina. «Tenho uma coisa para te dizer. corpo pesado . via-a a cochichar com esta e com aquela . duvidosa. Disse em dialecto .» . olho dançarino . que culminaram com uma humilhação que sofri e que já devia ter previsto . e não conseguia tranquilizar-me . chamava ela. a pequena Elisa. Não havia dinheiro para me mandarem ter explicações durante o Verão .» Foi tudo o que disse. nariz grande . pelo menos é o que recordo. Peppe e Gianni . E ela. senti minha mãe aproxi­ mar-se por trás de mim. Se não estava ocupada em casa ou na oficina. Debrucei-me na janela. tomei-me feia de propósito para me castigar. Tinha de me conformar. Chorava noite e dia. Dessa vez foi mesmo o meu pai que disse que era inútil continuar. com um triste destino . vinham consolar-me por turnos. cumprimentava-a. Mas uma manhã ouvi que me chamavam da rua. depois de mim havia dois rapazes e outra rapariga. Mas eu sentia-me sozinha na mesma.

disse ela. ao sol . no lugar dela. que está escondido no esgoto e sai pelas sarjetas como os ratos. «Que está inocente .» «E quem seria o assassino?» «Um ser. Quando fazia aquilo . Era uma possibilidade . só uma espécie de impaciência associada ao medo da responsabilidade . Demos uns passos pelo pátio . mostrando-se desgostosa de repente . e acrescentando que Carmela tomava como certo tudo o que ela lhe dizia. aborrecia-me confessar-lhe que tinha de repetir uma disciplina. balbuciou amuada. sem um sorriso .» Lila estreitou os olhos . séria.» «Sim. murmurei . «falar com os outros.» Fui de má vontade . perguntou-me .» «Então é verdade» . e percebi que não o dizia com des­ prezo . sentiria muita soberba. Mas Carme- . «Que desenvolvimentos?» «Ela gosta dele . contou-me ela. Recordo-me de ter perguntado explicitamente se havia desenvolvimentos entre Carmela e Alfonso . Eu .» Senti no peito uma lufada de alegria. que não exprimia orgulho nem altivez por exercer influência sobre todas nós . E estava a dizer-mo num tom que não lhe conhecia. «Não quero falar mais . pois para se tomar um facto verdadeiro seria preciso que nascesse um amor verdadeiro . e que no pátio eram todas assim. em­ bora brusco como era costume . metade masculino e metade feminino . Disse a Carmela. mas nela não havia soberba nenhuma. não quero falar com ninguém» . mas só se quando falas há alguém que te responde . de tal forma que a princípio não entendi . que nos romances e nos filmes a filha do assassino podia apaixonar-se pelo filho da vítima. fazia-me lembrar as aves de rapina que vira em filmes no cinema paroquial . como se reduzir os olhos a uma greta lhe permitisse ver de forma mais concentrada.82 Elena Ferrante «Ü que é?» «Vem cá abaixo . «Não te disse nada a respeito do pai?» . Que pedido estava contido na­ quela bela frase? Estava a dizer-me que queria falar só comigo porque eu não tomava como certo tudo aquilo que lhe saía da boca e lhe res­ pondia? Estava a dizer-me que só eu era capaz de seguir aquilo que lhe passava pela cabeça? Sim. fiável . Mas daquela vez pareceu-me que havia descoberto qualquer coisa que a irritava e assustava ao mesmo tempo . Perguntei-lhe com indolência que novidades havia a respeito de namoros . «É bonito» .

por isso não nos pareceram verdadeiras mudanças . Naqueles anos da escola média muitas coisas mudaram diante dos nossos olbos . mesmo se fizesse frio. porém. nos prédios . dormir em estábulos . nas pessoas . e apenas nós . como duas velhotas a fazer o ponto das suas vidas cheias de desilusões . mesmo que fosse só durante uma hora. Queria simplesmente que nos encontrássemos uma vez por dia. abandonar o bairro . alimentar-me de raí­ zes . disse . Mas o que ela me pediu pa­ receu-me não ser nada. era saber jogar. se tornava aceitável . nas ruas . mas que poderia ter sabe-se lá que consequências . mas caminhámos muito tempo pelas ruas escaldantes do bairro . sabíamos que o peso que oprimia o bairro desde sempre . O essencial . no meio do pó e das moscas que os velhos camiões levantavam ao passar.A Amiga Genial 83 la não compreendera. que mer­ gulhara a faca no pescoço de dom Achille . e logo no dia seguinte fora contar a toda a gente que estava apaixonada por Alfonso. antes de jantar. só nós duas . naquela manhã de reaproximação: fugir de casa. . o ex-carpinteiro . se quem o fizera tivesse sido o habitante do esgoto . desde que nos lembrávamos . estreitamente chegadas uma à outra. uma mentira. para se exibir junto das outras . como num jogo . e eu e ela. e se a filha do assassino casasse com o filho da vítima. Nós duas . e num primeiro instante decepcionou-me . «Não te darei chatices» . que só reinventando tudo .» «Então fazes-me um favor?» Por ela faria qualquer coisa. Havia qualquer coisa de insuportável nas coisas .nos compreen­ díamos . nos jardins . Falámos sobre isso . aparentemente sem nexo . Tínhamos doze anos . descer aos esgotos através das sarjetas . cederia pelo menos um pouco se não tivesse sido Peluso .pensava eu . Já sabia que eu tinha de repetir a cadeira e queria estudar comigo . mas no dia a dia. isto é . mas como se todas aquelas conversas não pudessem deixar de chegar àquela pergunta: «Ainda somos amigas?» «Sim. eu e ela apenas . Ninguém se compreendia. nunca mais voltar para casa. 7. sabíamos fazê-lo . mesmo se chovesse . A certa altura perguntou-me . e que eu levasse o livro de Latim.

que andava pelos vinte anos . preten- . a enchidos . que já não era o rapazinho furioso que tenta­ ra puxar a língua a Lila. quando não havia dinheiro . Enzo . começara de um dia para o outro a trabalhar uma jovem costureira e a loja fora ampliada. de olhar sedu­ tor e sorriso doce . e Stefano . um carácter honesto e tranquilizador ao servir os clientes . onde Car­ mela Peluso era caixeira havia pouco tempo . a dona Maria. Tomara-se um rapaz ponderado . quem corria as ruas do bairro todas as manhãs com a carroça puxada pelo cavalo . Manejava a balança com grande habilidade . adoptara modos muito cor­ diais e era ela que geria agora a loja. que iam comprar bolos para as farm1 ias .. Despontavam iniciativas em todo o bairro . veloz . e o meu pai não se opunha. encheu-se de coisas boas que ocupa­ ram o seu interior e também um pouco do passeio . A viúva. debaixo de chuva e debaixo de sol . juntamente com Pinuccia.cujo experiente pasteleiro era o pai de Gigliola Spagnuolo . pouco mais novo .84 Elena Ferrante O bar Solara foi ampliado . Tinha excelentes produtos e transmitia. A antiga carpintaria de Peluso. o mari­ do . Até a minha mãe me mandava lá fazer compras . tomara-se um rapaz encorpado . de Verão e de Inverno . que abria o apetite . a filha de quinze anos . e uma voz potente com que gabava a mercadoria. e passados alguns meses uma pneumonia quase lhe matara o cônjuge . a pão fresco . que uma vez na posse de dom Achille se transformara numa charcutaria. Stefano apontava tudo num livrinho e pagá­ vamos no fim do mês . tivera de se reformar devido a fortes dores nas costas . e corria a metê-las no saco da senhora Spagnuolo ou no de Melina. tomou-se uma pastelaria bem abastecida . e depois . que quase nada tinha do garoto que nos atirava pedras. a torresmos e a banha. olhos azuis . Na retrosaria. Mas esses dois infortúnios revelaram-se um bem. ou da minha mãe. e ao domingo enchia-se de homens novos e velhos . Os dois filhos de Silvio Solara. Quando por lá se passava sentia-se um aroma a especiarias . também porque . de aspecto forte e saudável . Gostava de ver a velocidade com que ele fazia correr o peso ao longo do braço da balança até encontrar o equilíbrio certo . só com os gestos . a azeitonas . Agora. e Michele . Marcello . compraram um 1100 branco e azul e ao domingo pavoneavam-se pelas ruas do bairro . embalava as batatas ou a fruta no cartucho de papel . A morte de dom Achille afastara pouco a pouco a sua sombra ameaçadora daquele lugar e de toda a família. cabelos loiros desgre­ nhados . que vendia fruta e hortaliças pelas ruas com Nicola. o ruído de ferro a correr contra ferro. Assunta. A clientela aumentara muito . era o filho mais velho .

pela fealdade . como se não quisesse ser reconhecido pelos ódios acumulados . Algum tempo antes um amigo dissera-lhe que tinha vindo gente ao bar Solara à procura de rapazes . enquanto ele e os outros serravam. onde se erguiam pilares piso após piso . como tinha de sustentar a fami1 ia. extirpavam raízes que exalavam um odor a subter­ râneo .A Amiga Genial 85 dendo tomar-se uma ambiciosa alfaiataria de roupas de senhora. uma coisa leva a outra. Perguntei­ -lhe com cautela como era possível .. a máquina fumegante crepitava. sabia-as todas . tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro . a comer pão com salsichas e grelos du­ rante o intervalo do almoço . Gentile Corresio . e os verbos também.embora não gostasse de Silvio Solara nem dos filhos. e por vezes víamo-lo sobre os andaimes dos novos edifícios . Voltara. a fonte . voltara a ser cha­ mado para trabalhos daquele tipo . debaixo de sol . ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias : as árvores estremeciam. Antonio . preferindo mostrar uma cara nova. As declinações . por iniciativa do filho do velho proprietário . tudo se agitava. Enfim. E cortou muitas . foi . por exemplo . o silvado . com aquele jeito maldoso de rapariga que não quer perder tempo . exausto . E agora estava no estaleiro de obras perto da linha férrea. O irmão mais velho de Carmela. admitiu que logo que eu entrei para o primeiro ano da escola média requisitara uma gramática na bi- . que ela já sabia muito latim. trabalhadores em tronco nu ou em camisola interior asfaltavam as estradas e a rua larga. A mancha verde desapareceu e no seu lugar surgiu uma clareira amarelada. Pasquale arranjara aquele serviço por um acaso da sorte . com as narinas cheias do odor a madeira viva. Pasquale . foi contratado para ir cortar as árvores junto à linha férrea. A ofi­ cina onde trabalhava o filho de Melina. rachavam. pois fora naquele bar que o seu pai se desgraçara . tentava transformar-se numa pequena fabriqueta de motociclos . Depois . uma cova ao lado da estrada. mudou . emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura. fendiam o ar. também o puro e simples espaço que nos ro­ deava. pelas tensões . a folhas massacradas e a mar. ou com um chapéu feito de jornal . Enquanto eu e Lila estudá­ vamos latim nos jardins . para meu espanto . como se pretendesse alterar os sinais exteriores . Ele . Depressa percebi . para irem cortar durante a noite as árvores de uma praça do centro de Nápoles . tudo se ar­ queava. e ela. As cores também se modificaram. Lila irritava-se se eu me punha a olhar para Pasquale e me distraía. Sentía­ mos um cheiro permanente a alcatrão . ao romper do dia. fazendo o rolo compressor avançar lentamente sobre a camada prepara­ da.

A partir do verbo percebes qual é o sujeito . Mandava-me traduzir trinta frases por dia. disse que se eu voltasse a errar me batia outra vez e com mais força. Fazia-me perguntas e enfurecia-se quando eu não sabia. Palavra puxa palavra. mas todas as que lhe viessem à cabeça. Ela também as traduzia. e estudara-a por curiosidade . outro em nome do pai e outro em nome da mãe . Uma vez deu-me uma bofetada num braço . a que era dirigida pelo professor Ferra­ ro . quando o exame estava próximo . Devorava-os e no domingo seguinte ia devolvê-los e levantava outros quatro . Em Setembro fui fazer o exame . Nunca lhe perguntei que livros já lera e que livros andava a ler. No fim do Verão . com força. muito mais depressa do que eu . nunca vira nenhum. com tantas páginas . pesado . pro­ curas os complementos: o complemento directo se o verbo for transiti­ vo . mostrou-me com orgulho todos os car­ tões que possuía . ou seja. depois vai ver onde está o verbo . Quando tiveres o sujeito . · vinte de latim para italiano e dez de italiano para latim. Calou-se por instantes e depois aconselhou-me: «Lê primeiro a frase em latim. e só depois me esforçava para perceber o sentido . tínhamos de estudar. com ar duvidoso .» Experimentei . Estava encantada com o dicionário de latim. limitava-se a marcar os exercícios . perguntou prudentemente: «Foi a professora que te disse para fazeres assim?» A professora nunca dizia nada. «Quem te deu explicações?» . fiz a prova escrita sem um erro e na oral soube res­ ponder a todas as perguntas . depois de observar. perguntou a professora. com aquelas mãos compridas e magras . ou outros complementos se não for. não houve tempo . «Uma amiga minha. a biblioteca era um grande recurso . de maneira que tinha sempre quatro ao mesmo tempo . Marcava trabalhos de casa no tom que aprendera com a nossa professora Oliviero . Com cada um deles levava um livro emprestado . tão grosso . pareceu-me fácil traduzir. um em nome de Rino . De repente . e não me pediu desculpa.» . Experimenta assim. um bocado trombuda. Para ela. que eram quatro: um dela. não só as que apareciam nos exercícios .86 Elena Ferrante blioteca que emprestava livros . pela mesma ordem em que as encontrava na frase que tinha de traduzir. Eu é que me regulava daquele modo . e ia apontando os significados principais . Procurava palavras constan­ temente . aliás . como eu procurava no dicionário as palavras que não conhecia.

parecia-se com Heitor. e por isso creio que não estudava tanto para a escola como para ela.» «Mas ainda há muito que estudar.» «Estuda tu por mim. de coxas . Eram os dois bonitos .a .» «Não gostas?» «Sim.» «Ü que é?» «Depois mostro-te . «Já andaste de automóvel?» . Basta. de traseiro. Recomeçou a escola e saí-me bem em todas as disciplinas desde o início . Mas dos dois . onde marcara encontro com Gigliola Spagnuolo . eu no passeio e eles ao lado . Esquivou-se com um gesto quase de enfado . Lila estava à minha espera lá fora. Tomei-me a melhor da aula. Tomei­ -me ainda mais cheia de peito . ao volante . Disse que só que­ ria perceber que coisa era o latim que estudavam os inteligentes . e Michele .» 8. Respondi que sim. e se eu tiver dificuldades . Acompanharam­ -me todo o caminho . «E então?» «Já percebi . pareceu-me que convidá-la para conti­ nuarmos era uma bela maneira de lhe mostrar a minha alegria e a minha gratidão . o mais velho . Marcello . o mais novo .» «Em latim?» «Sim. disse-lhe que me correra lindamente e perguntei-lhe se podíamos estudar juntas no ano seguinte . Não via a hora de Lila me pedir que a ajudasse com o latim ou outra coisa. nem na primária tinha sido tão boa aluna. sentado ao lado dele . Vou buscar uns livros à biblioteca. à sombra. o que mais me agradava era Marcello. ajudas-me . Naquele ano pareceu-me ter dilatado como a massa de piv. no 1100. Uma vez que fora ela a primeira a propor que nos encontrássemos só para estudar. Eu agora tenho uma coisa para fazer com o meu irmão . tal como estava representado na versão escolar da Ilíada . de cabelo muito escuro e brilhante e o sorriso branco . os irmãos Solara aproximaram-se de mim no 1100.A Amiga Genial 87 «Universitária?» Não sabia o que significava. Um domingo em que ia para os jardins . Quando saí abracei-a.

ne­ nhum dos clientes . de tentar matar os irmãos Solara. Sem dizer uma palavra aos amigos ou à farm1ia. às escon­ didas da mãe . Durante alguns minutos deu conta do recado . e quando os dois irmãos apareceram recebeu-os a soco e pontapé.» «Entra. punha bâton .» «0 meu pai não quer. sem uma só palavra de preâmbulo . Nós . no entanto ria-se . Eu vacilei . a viúva maluca que dera escândalo quando os Sarratore se mudaram . Na presença das minhas duas . Os Solara também sa­ biam. limitando-se apenas a con­ vidar-me a entrar.88 Elena Ferrante «Não . Ada tinha catorze anos . houve quem fosse contar a Antonio . Os quatro espancaram Antonio até sangrar. parecia já crescida e bonita. Não havia regras escritas .» «E nós não lhe dizemos . Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel. foi esperar Marcello e Michele em frente do bar Solara. sentir-se-iam na obri­ gação . Gigliola Spagnuolo e Carmela Peluso tomaram o partido dos Solara. visivelmente afectado pela morte precoce do pai e também pelos desequilíbrios da mãe . tímido . Uma hora depois deixaram-na no mesmo sítio . dividimo-nos sobre este episódio . Michele chegou mesmo a agarrá­ -la por um braço . abriu a porta do carro e puxou-a para dentro . Peppe e Gianni . levamos-te a dar uma volta. Quando é que tens ocasião de entrar num carro como este?» Nunca. matava-me com pancada imediatamente . tanto mais que tinham sido simpáticos . apesar de ainda serem pequenos . mas depois o pai Solara e um dos barmen saíram para a rua. No entanto disse que não e continuei a dizer que não até aos jardins . e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos . Os irmãos So­ lara disseram-lhe palavras grosseiras . Ao domingo . embora fosse um homem bom e amável . a filha mais velha de Melina Cappuccio . e embora gostasse muito de mim. Mas algum tempo depois não o foram com Ada. interveio em seu auxílio . sabia-se que era assim e pronto . e com as pernas compridas e direitas e os seios maiores que os meus. quando o automóvel acelerou e desapareceu como uma flecha para lá dos prédios em construção . e nenhum dos passantes . dis­ ciplinado . Antonio era um bom trabalhador. isto é . raparigas . mas só porque eles eram bonitos e tinham o 1100. o irmão mais velho que era mecânico na oficina de Gorresio . agora e no futuro . pensei . e Ada estava um pouco zan­ gada. Mas entre aqueles que a viram ser puxada à força para dentro do carro .

com a pele das pontas dos dedos amarelada e gros­ sa. Eis a razão por que naquele ano não me perguntou nada de latim. embora não fosse musculoso como eles . Mas pouco havia a fazer. embora não fosse uma beleza. trataria da saúde àqueles dois pessoalmente. Olhava­ -lhe para as mãos . . preparava o fio . en­ chia-o de elogios sinceros. empalideceu mais do que o habitual e disse que . Em pouco tempo tinham ficado como as de Rino . Mas ela insistia. Uma vez a discussão tornou-se tão acesa que Lila.dizia-lhe . para evitar sarilhos ao pai e ao irmão Rino . respondeu . Fazer sapatos à mão . Hoje existem máquinas . como as do pai . Marcello e Michele nem sequer olham para ti» . espantada. e como tinha trabalha­ do em fábricas . disse Gigliola Spagnuolo . A dada altura contou-me o plano que tinha em mente . Mas em vez disso . e discutíamos para ver quem os adorava mais . sabia bem a porcaria que aparecia no mercado . mas tensa em cada fibra. hoje em dia era tudo feito nas fábricas .começara a fazer trabalhinhos . a baixo custo. Mas também achava que se tinham comportado muito mal com Ada. até debruava. e pensámos que Lila se ia enfurecer. que exprimia sem meias palavras essa minha posição . séria: «Melhor assim.não era essa a sua tarefa na oficina . e não nos bolsos da farru1ia Cerullo . era dinheiro deitado fora.A Amiga Genial 89 amigas inclinava-me para os Solara. Embora ninguém a obrigasse a isso . cola­ va. que iam todos os dias ao ginásio levantar pesos. iam às lojas do Rettifilo . descosia. pois na verdade eram muito atraentes e era impossível não imaginarmos a figura que faríamos sentadas ao lado de um deles no automóvel . e trabalho . embora fosse verdade. ia à ruína.» E ele respondia que. em série . não o vendia. também eu ex­ pressava algumas reservas . quando as pessoas precisavam de sapatos novos não iam ao sapateiro do bairro .» Continuava delgada como sempre. papá. mesmo que alguém quisesse fazer o produto artesanal com todas as regras da arte . talvez porque não era tão desenvolvida como nós e não conhecia o prazer-temor de sentir o olhar dos Solara em cima dela. e que Antonio . por isso .é uma arte sem futuro . «Üra. se lhe acontecesse o que acontecera a Ada. tivera a coragem de os enfrentar. e já manejava as ferramentas de Fernando quase como o irmão . dizia-lhe: «Ninguém sabe fazer sapatos como tu sabes . e o dinheiro ou está no banco ou na mão dos usurários . Mas Fernando não queria saber disso . uma coisa que nada tinha a ver com livros: andava a tentar convencer o pai a começar a fazer sapatos novos . Por isso . na presença de Lila. e as máquinas custam dinheiro.

Dito isto . repetindo aquilo que ela lhe metera na cabeça. E. O irmão a princípio alinhara com o pai . dia não . sempre gentil comigo mas capaz de brutalidades que até ao pai metiam medo . puxara Rino para o seu lado . onde já não era uma questão de livros e em que o especialista era ele . já viste como a charcutaria dos Carracci vai de vento em popa?» «0 que eu vi foi que a retrosaria que queria fazer uma alfaiataria fe­ chou . e os ti­ vesse reproduzido no papel .» Gostava de ver como aquele rapaz . Mas pouco a pouco deixara-se seduzir. Na realidade tinha-os inventado ela no seu todo e em cada detalhe .» «Junto ao caminho-de-ferro está a nascer um novo bairro . conversan­ do com Lila. irritado pelo facto de ela meter o nariz nas coisas do trabalho . como de costume . quan­ do se estragam mandas arranjar e podem durar vinte anos . que era capaz de defendê-la de quem quer que fosse .» «Estou-me nas tintas para isso . para homens e para mulheres . e vi que o Gorresio . feitos em folhas de papel quadriculado . devido à estupidez do filho . as pessoas ganham e querem gastar. primeiro não se comem. Invejava Lila por ter aquele irmão tão sólido e às vezes pensava que a verdadeira diferença entre mim e ela era eu só ter irmãos pequenos .» «Mete-te na tua vida e esquece os Solara. como se tivesse tido oportunidade de observar de perto sapatos daquele género em qualquer mundo paralelo ao nosso . Uma vez estava a mostrar-me os desenhos dos sapatos que queria fazer com o irmão . e agora discutia com o pai dia sim. na oficina. nos tempos que correm . O nosso trabalho .» «As pessoas gastam em comida. eu achava que Fernando tinha razão . e segundo .» «Papá. apoiava sempre .» «Já viste o automóvel que os Solara têm. ricos em pormenores coloridos com precisão . em todas as situações . e de qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Eram desenhos lindos . libertando-me a mente . sentia que estava do lado dele .90 Elena Ferrante Lila não se deixara convencer e . Ao passo que os sapatos. «Pelo menos tentemos . como fazia na primária quando desenhava prin- . porque é preciso comer todos os dias .» «Mas os Solara continuam a crescer. ao passo que Lila podia contar com Rino . portanto ninguém capaz de me encorajar e de me apoiar contra a minha mãe . a irmã. deu a passada maior que a perna. é arranjar sapatos e mais nada.» «Não . descobri que ela achava o mesmo .

Tinha reduzido Mulherzinhas às devidas proporções .» «Ü papá não quer fazê-los . às escon­ didas de Rino .» «Fernando zanga-se . de não termos nada.A Amiga Genial 91 cesas . só . Andava a aprender latim pensando nisso e cá no fundo estava convencida de que ela ia buscar tantos livros à bi­ blioteca do professor Ferraro só porque . nem tão-pouco com os das actrizes das fotonovelas . «Gostas deles?» «São muito elegantes. era sempre a mesma coisa: de pobres . Por isso pensava começar com um único par de sapatos .» «Ü que significa isso?» «Significa que para fazer realmente as coisas é preciso tempo e ma­ teriais que custam dinheiro .» «Rino diz que são difíceis . não s e pareciam com aqueles que se viam no bairro .. Tentei falar-lhe do velho projecto de escrever romances . devíamos che­ gar ao ponto de ter tudo .» «Mas sabe fazê-los?» «Jura que sim. na opinião dela.» «Porquê?» «Disse que enquanto eu estiver a brincar. nada muda.» Aquilo que devia mudar. de qualquer maneira queria escrever um romance juntamente comigo e ganhar muito dinhei­ ro . Eu tinha essa ideia firme .» «Então façam-nos. voltou a dobrar as folhas que agitava na mão e disse que era inútil perder tempo . para perceber quanto dinheiro era realmente necessário para fazê-los .» «E o teu pai?» «Esse é capaz de certeza. embora tivesse o pensamento fixo nos sapatos . como fizera a autora de Mulherzinhas . devíamos passar a ricas . Mas limitou-se a encolher os ombros à sua maneira despreocupada. pois apesar de serem sapatos normais. Agora .» E fez menção de me mostrar também as contas que fizera. mas que ele e Rino não podem perder tempo comigo . tudo bem. porque o pai tinha razão . «E então?» «Devemos experimentar na mesma.explicou­ -me .» «Se uma pessoa não tentar. Depois desistiu . embora já não fosse à escola. queria concretizá-la. para ficarmos realmente ricas precisávamos de uma actividade económica.

ou então .» «Porque Ada não tem pai . a marca gravada nas gáspeas: Cerullo. conseguissem montar uma fábrica de calçado com as respectivas máquinas e cinquenta operários . trinta num mês . como que numa urgência de solidez. diz-me .» Conclusão . quatro amanhã. Depois . e disse-me . disse . todos reluzentes . com Tina e Nu ao pé da fres­ ta da cave . para que dentro de pouco tempo ela. «mas a ti pode ser que sim. para nos defendermos dos dois irmãos era preciso passar a fazer-lhes muito mal .» Falou-me da fábrica com grande convicção. porque têm dinheiro . Lila embatocou . Rino . são tão bonitos e cómodos que à noite vais dormir sem os descalçar. disse ela. a mãe e os outros irmãozinhos . mais do que os Solara.» «E sabes porque se comportaram da maneira que se comportaram corn Ada?» «Não .92 Elena Ferrante para mostrar ao pai como eram bonitos e confortáveis . divertimo-nos . Depois . sapatos daqueles que uma vez cal­ çados. uma vez que Fernando se tivesse convencido . porque sou feia e ainda não tenho o sangue» . «A mim não me tocam. Se isso acontecer. quatrocen­ tos num ano . o irmão Antonio não conta para nada. todos muito elegantes como nos seus desenhos . Rimo-nos. era preciso iniciar a produção . «Uma fábrica de sapatos?» «Sim. e depois os sapatos Cerullo por inteiro .» .» «Achas?» «Claro . o pai . Pareceu dar-se conta de que estávamos a brincar como anos antes com as bonecas . acentuando o ar de menina-velha que me parecia estar a tomar-se o seu traço carac­ terístico: «Sabes porque é que os irmãos Solara se julgam os donos do bairro?» «Porque são prepotentes .» «Não . pelo menos: a fábri­ ca de calçado Cerullo . e ela ajuda Melina a limpar as escadas dos prédios . como ela sabia fazer. Dois pares de sapatos hoje. Já viste que eles nunca incomodaram Pinuccia Carracci?» «Sim. com frases em italiano que pintavam diante dos meus olhos o anúncio luminoso da fábrica: Cerullo. Mostrou-me um trinchete muito afiado que obtivera na oficina do pai . ou também nós ganhávamos dinheiro .

e agora atirava-mo à cara. Fui para casa incubando o desgosto de ser a primeira sem ser verda­ deiramente a primeira. e talvez Marcello tam­ bém a amasse . os meus pais começaram a falar . Repetíamos . Concluí que com aquelas últi­ mas frases ela admitira que eu era importante para ela. A justiça não era feita com pancadaria? Peluso não matara dom Achille? Voltei para casa. lei s . que estava na cozinha ao pé do lava-loiça a escolher horta­ liça. Durante dias e dias gozei essa supremacia absoluta. Lila também não se mostrou particularmente contente . e isso já eu sabia desde sempre .» Menos sucesso tive no pátio . Ainda por cima. justiça. Quando disse a Carmela Peluso que era a melhor da escola.A Amiga Genial 93 Olhei para ela desconcertada . que a partir dali começou a gabar-se a toda a gente de que a sua filha primogénita tivera nove em italiano e nove . Fui a melhor da escola. A minha mãe . para minha surpresa. Quando lhe disse as minhas notas . e ela também sabia. Gigliola Spagnuolo entristeceu-se porque ti­ nha de repetir Latim e Matemática. 9. e fazíamo-lo com con­ vicção . em latim. este ano teria tido dez a tudo . mas ela não lhe dava confiança porque estava apaixonada por Marcello Solara. Mas bastou aquela frase para que um pensamento latente se tomasse de chofre cla­ ro: se ela andasse na escola comigo . disciplina por disciplina. Fui muito elogiada pelo meu pai . ela começou de imediato a falar-me do modo como Alfonso olhava para ela quando passava. e senti-me feliz . disse-me sem se virar: «Podes pôr a minha pulseira de prata no domingo . Melhor do que Alfon­ so . que teve média de oito . os professores não o tinham dado a ninguém nas cadeiras importantes . Ali só os amores e os namorados é que contavam. Passei no exame final da escola média com oito em tudo . mas não a percas . na mesma classe . ela disse a rir. com o seu tom de maldosa: «Não te deram nenhum dez?» Fiquei aborrecida. se lho tivessem permitido . Com quase treze anos . e tentou recuperar o prestígio con­ tando-me que Gino andava atrás dela. aquilo que sempre ouvimos e vimos à nossa volta desde a primeira infância. nada menos . Dez só davam em comportamento . e de longe melhor do que Gino . não sabíamos nada de instituições . nove em italiano e nove em latim.

que depois se faziam violáceos e por fim ganhavam pontas amareladas . dinheiro. sentava-me a um canto a ler romances que ia buscar à biblioteca: Grazia Deledda. Tchékhov. a cozinhar. Tentei pôr-me bonita. a ocupar-me de Elisa . Pirandello . proliferavam arquipélagos de inchaços avermelhados . agora que tinha nem mais nem menos do que o diploma da escola média. e eu pouco a pouco acharia que os romances que lia eram inúteis e que a minha vida era uma lástima. Os cabelos loiros tinham-se tomado castanhos . cresceu . Todo o meu corpo continuava a dilatar-se . Senti uma tristeza dentro de mim que . tudo me parecia sem brilho . Deprimida. Dostoievski . fábrica de calçado. embora sem se definir. O meu nariz era largo e esborracha­ do . por forma a atribuírem-me um lugar de prestígio . Mas continuei a não gostar do que via. tal como o meu futuro . O meu pai imaginava negociações futu­ ras com os seus conhecimentos na câmara municipal . lápis . Ela diria uma maldade qualquer. o que serviu para me inflamar ainda mais a cara.94 Elena Ferrante entre eles de onde poderiam colocar-me . sapatos . inteligente como eu era. Um domingo . de frases que aprendera de cor. pus a pulseira de prata da minha mãe . Até a pele se estava a estragar: na testa. no queixo . No tempo que me sobrava não saía. como uma mão inchada pela febre . mais cedo ou mais tarde estrábica e coxa. Por vezes sentia uma grande necessidade de ir procurar Lila à oficina e falar­ -lhe de personagens de que tinha gostado muito . até ao ponto de já nem ao domingo me apetecer sair. Olhava-me ao espelho e não via aquilo que gostaria de ver. debaixo do calor que naquela época do ano caía sobre o bairro desde manhã. Tolstoi . e fui . decidi finalmente reagir. percorri o caminho até à biblioteca. Já não estava satisfeita comigo mesma. mas depois perdia o interesse. Co­ mecei por iniciativa própria a ajudar a minha mãe a limpar a casa. Levei tempo a espremer os furúnculos. A minha mãe queria pedir à senhora da papelaria que me aceitasse como ajudante . uma funcionária da câmara solteirona. a mais pequena. cresceu . cadernos e manuais escolares. tinha competência para vender canetas . a cuidar da desordem que os meus irmãos deixavam atrás de si . soltei o cabelo . em que o professor Ferraro me chamava à biblioteca nessa ma­ nhã. Achava ela que . em volta dos maxilares . como desde peque­ na me parecia que era. . como queria acreditar que ainda era. cresceu . mas sem crescer em altu­ ra. Gogol. aquilo em que me transformaria: uma vendedora gorda e furunculosa na papelaria em frente da igreja. começaria a falar dos planos que fazia com Rino . estimulada por um convite em meu nome vindo pelo correio .

. e a Pasquale também. mas vi apenas Gigliola Spagnuolo na companhia de Gino e de Alfonso . o pároco . quinto. Rino Cerullo. ou seja. De­ pois perguntou-me qual era o prémio do seu ex-companheiro de escola. Ele andara na primária com Rino . pouco à vontade . Correios e Telégrafos . baixinho: «Posso levar também os prémios da farm1ia Cerullo . Foi assim que .A Amiga Genial 95 Percebi logo . Como a cerimónia ia começar e a requisição de livros estava suspensa naquele momento. para receber o meu prémio. de acordo com os seus regis­ tos . A pequena cerill}ónia começou . sufocando o riso . ele e o amigo . o máximo que con­ seguiam ler era: Sal e Tabacos . após seis ou sete anos de escola incluindo as repetições . Entrei . Ao sairmos . cobrin­ do a boca com a mão. depois de o professor perguntar várias vezes se estava alguém da frum1ia Cerullo na sala. Agradeci e perguntei . com o cabelo . se juntava a Gigliola. Olhámos um para o outro. que o sa­ pateiro Fernando não dormia de noite para ler. enquanto cozia massa com batatas . também o director da escola primá­ ria e a professora Oliviero . para lhos entre­ gar?» O professor entregou-me os livros dos Cerullo . Vi filas de cadeiras já totalmente ocupadas . Charcutaria. enquanto Carmela sussurrava com insistência: «Porque se riem?» Não lhe respondemos . Pasquale disse-me em dialecto coisas que me fize­ ram rir ainda mais: que Rino estragava a vista com os livros . Fazendo­ -me elogios . Compreendi que o professor tivera a ideia de oferecer um livro a todos os leitores que . Nunzia Cerullo. segundo. Jerome . de Jerome K. Instantes depois sentaram-se junto de mim Carmela Peluso e o irmão Pasquale . Agitei-me na cadeira. Raf­ faella Cerullo. enquanto Carmela. eram os mais assíduos . sentei-me ao fundo da sala. festões coloridos . olá. a quinta classificada. numa mão um romance e na outra a colher de pau . terceiro . Olá. pela pequena multidão de pais e crianças da primária e da escola média que entrava pela porta principal . Ferraro . e ambos . ressentida. olhámo-nos de novo e rimo-nos .disse-me . Ferrara entregou-me Três Homens num Barco. que a dona Nunzia lia de pé . Cobri melhor as faces irritadas . que tagarelava com Alfonso e Gino muito feliz . quar­ to . «Bruges-la-Morte . ajudando-se um ao outro . Fernando Cerullo. Os premiados foram: primeiro. Elena Greco . com lágrimas de riso nos olhos . eu. Procurei Lila. junto ao fogão . que algo fora do nor­ mal se passava. sentindo ainda os olhos cheios de riso .» . Deu-me vontade de rir. e com uma inesperada sensação de bem-estar. fui chamada eu . companheiros de turma e de carteira .

como tantas palavras que encontrava nos romances .» Olhei-a surpreendida. com as minhas próprias mãos?» Desatámos outra vez a rir. trabalhar na papelaria. E também boa aluna. Talvez eu não seja assim tão feia. professora.» «Deram o prémio ao Rinuccio .» «Então eu vou falar com os teus pais. o s meus pais não me deixam. É Lina quem lê tudo . olhou-me com o seu olhar sempre avaliador e disse-me . Preferia as coisas tal como estavam: ajudar a minha mãe . iria desencadear de novo discussões que não me apetecia enfrentar. ou universidade .» «Posso ir contigo quando lho fores entregar? Aliás . se calhar sou eu que não sei apreciar-me . gostei que ele me fizesse rir. aquela rapariga é mesmo esperta.» «Tens a certeza?» «Sim. Fui ao encontro dela. «Não posso . resignar-me a ser . Soube que foste a melhor da escola. posso entregar- -lho eu .» Entristeceu-se . pensei . não tinha uma ideia exacta sobre o que se seguia à escola média. «Nem pensar nisso .» As atenções de Pasquale Peluso consolaram-me muito .» «Sim. Deus do céu . tu tens de continuar a estudar. Nesse instante ouvi chamar por mim.» Fiz menção de me afastar. dizer-lhes que me mandassem estudar mais . O que mais havia para estudar? Eu nada sabia sobre a organização escolar. Palavras como liceu . «Sim. e como cresceste ! » «Não é verdade . para mim eram abstractas . Coisa de doidos . gordinha. e devo dizer que um bocado assustada. era a professora Oliviero .» «E o que vais fazer agora?» «Vou trabalhar. Se a professora Oliviero fosse de facto falar com o meu pai e a minha mãe .» «Quanto te deu em Latim o professor de Letras?» «Nove .» «É verdade . como que a confirmar a legitimidade de um juízo mais gene­ roso sobre o meu aspecto: «Que bonita que estás . cheia de saúde . estás uma estrela.96 Elena Ferrante «Tem fantasmas?» «Não sei .

«Sim. Perguntou-me se também queria ir. que primeiro ficou espantado . e labutar na miséria. vou pensar. comunista. Comunista e filho de assassino . recomeçando a rir. não irá mais além. comunista. «Sim. Comunista. com certeza é comunista como o pai . Antes de nos separarmos . o pai é comunista e matou dom Achille . mas que a professora marcara imediatamente com um sinal negativo .» «E és comunista?» Olhou-me com ar perplexo . Assim que virámos a esquina. «até à vista. mas depois ouvi com prazer que vinha atrás de mim . iam a casa de Gigliola aprender a dançar. dura e áspera. que para mim não tinha sentido . Não quero de maneira nenhuma ver-te com ele. a dez passos de distância.» Mas ela agarrou-me por um braço . a irmã e quem quisesse . ser saudável e gorda. que estava à minha espera. Pasquale disse-me que no domingo seguinte ele . era escuro por natureza e por causa do sol . disse . mas eu também já não o era. marcá­ mos encontro para o dia seguinte .A Amiga Genial 97 feia. hesitei . perguntei-lhe . tinha a boca grande e era filho de assassino . para irmos à oficina do sapateiro en­ tregar os livros a Lila e a Rino .» Fiz um gesto de assentimento e afastei-me sem me despedir de Pas­ quale . embora soubesse que era. talvez até com Lila. mal toquei na dele .» «Adeus. Não era um rapaz bonito . à parte os seus sonhos loucos de filha e irmã de sapateiro? «Obrigada. Dei voltas e voltas na cabeça à palavra «comunista» . e recolhi a minha. Então ele estendeu-me a mão e eu . Lila não fazia isso havia já pelo menos três anos. Mas mesmo assim disse: está bem. como dizia a professora. «Ainda és pedreiro?» .» «Adeus. «É pedreiro . já sabia que a minha mãe nunca me deixaria ir. talvez até comunista. professora» . Achei-a fascinante . Pasquale apanhou-me . Percorremos o caminho juntos até poucos metros de casa e . Fiquei de boca aberta. ter furúnculos .» «E vais visitar o teu pai a Poggioreale?» Ficou sério: «Quando posso .» . «Não percas tempo com aquele» . Tinha os cabelos negros e muito encaraco­ lados . E vem de uma farm1ia horrível . disse . que não estava habituada a tais ges­ tos . referindo-se a Pasquale .

» Nessa noite . Corremos para as janelas . companhia totalmente inadequada para mim. e enquanto o meu pai . a filha de Melina.um pouco melancólica. Ria. Ofereceu-se para arranjar ela própria os livros de que eu precisaria. Respondi-lhe que ajudava o pai e o irmão . Fez um trejeito de desprezo e perguntou-me: «Sabe que tiveste nove em Latim?» Fiz sinal que sim . enquanto a minha mãe .» Despediu-se dos meus pais toda empertigada. senão a Oliviero não deixaria de a atormentar e chumbaria sabe-se lá quantas vezes a pequena Elisa como represália. dava saltos em cima da cama e levantava a saia. Juraram-lhe solenemente que me iam inscrever na escola secundária. lançando o meu pai na mais total angústia e exas­ perando a minha mãe . a gritar por socorro . Contou ao meu pai . A professora Oliviero apresentou-se em minha casa nessa mesma tarde sem ter avisado . dizia que agora era pre­ ciso mandar-me para a escola dos ricos . uma espécie de demência da felicidade . e o meu pai disse . vimos um grande alvoroço no pátio . Vi que Nunzia Cerullo e Lila se apressavam para ir ver o que se passava. «Esta rapariga» . austero: «Lenu . um pouco distraída. Diz-lho .. ouviu-se um grito agudo que nos silenciou . «vai dar-nos grandes alegrias . exclamou . Os meus pais não ousaram contradizê-la. mas olhando-me com ar severo . furiosa. Disso se inteirou minha mãe. inter­ rogando as mulheres debruçadas das janelas . estava a ter uma nova crise de loucura. Per­ cebeu-se que Melina. mas no essencial as excentricidades eram raras e inócuas . «Diz-lhe que agora também vais estudar grego . nunca mais te atrevas a falar com Pasquale Peluso . que depois da mudança dos Sarratore geralmente se portara bem .» Antes de se despedir a professora perguntou-me por Lila. em quem se depositava tão grandes esperanças . que me vira sozinha com Pasquale Peluso . mostrando as coxas descama­ das e as cuecas aos filhos assustados . punha em ordem as contas e a loja. Exigiu que ambos lhe jurassem que me iam ma­ tricular na escola secundária mais próxima. Era Ada. por exemplo cantar alto enquanto lavava as escadas dos prédios ou atirar baldes de água suja para a rua sem ver se ia alguém a passar . como se fosse aquele o proble­ ma principal . ameaçava partir-me as duas pernas se soubesse que eu trocara uma só palavra com Pasquale Peluso . ainda na presença dos meus pais. é verdade. e tentei esgueirar-me .98 Elena Ferrante 10.

com os seus desenhos de sapatos e a sua fábrica de calçado . Ajeitou o cabelo e . com a roupa do trabalho . tentando acalmá-la mas em vão . Alguém fora entregar um livro a Melina. por ir para aquela escola difícil que se chamava secundária. conseguisse es­ crever um sozinha. e apoiada pelo amor de Pasquale . com manchas brancas de cal por todo o lado . Este último acontecimento provava que Lila tinha razão em pensar que nos podia acontecer o mesmo . nem mais nem menos. dei-me conta de que . como fizera Sarratore . uma dedicatória para Melina. insultou de forma muito obs­ cena o ferroviário-poeta. ficaria rica primeiro do que Lila. publicara um livro . A ela. por outro lado . um livro . O meu pai . A minha mãe disse que alguém devia tomar a iniciativa de abrir àquele homem de merda a cabeça de merda que ele ti­ nha. todo suado . ao ouvir aquele despropósito . Quando voltou . Aquele empregado dos Caminhos de Ferro do Estado era agora o autor de um livro que o . enquanto Pasquale me dava razão . no seu passo claudicante . sim. mas a minha mãe impediu-me. foi ela mesma avaliar a situação. manifestando sensibilidade pelas coisas do amor. estava dominada pelo espanto . mas talvez eu . 11. vinha indignada. Toda a noite ouvimos Melina cantar de felicidade e ouvimos as vozes dos filhos . abrira-se uma nova escola no meu caminho . que Donato se apaixonara realmente por ela e ainda a amava. No dia seguinte encontrei-me com Pasquale Peluso em segredo . e descobrira que uma pessoa que até há pouco tempo morava no bairro . e encontravam-se assinalados a tinta vermelha os poemas que ele escrevera para ela. que o máximo que tinha era o segundo ano da primária e nunca na vida lera nenhum. publicado um livro . mesmo no prédio em frente do nosso . na primeira página. mais do que qualquer outra coisa. se tudo corresse pelo melhor. É certo que ela já desistira disso . No mesmo dia atraíra a atenção de um jovem misterioso como Pasquale . Ele chegou a arquejar. o que naqueles últimos desenvolvimentos continuava a excitar-me era o facto de Donato Sarra­ tore ter. Um livro . Quem sabe . Eu .A Amiga Genial 99 pela porta para ir ter com elas . Disse-lhe que estes últimos acontecimentos eram a prova de que ela não era maluca. escrita a caneta. Pelo caminho contei-lhe a história de Donato e Melina. sobretudo Antonio e Ada. Dentro . Mas enquanto falava. Na capa do livro estava o nome de Donato Sarratore .

Mas percebi que sobre esse assunto Pasquale não era capaz de me acompanhar. fraco . Fernando fora a casa fazer a sesta.1 00 Elena Ferrante professor Ferrara poderia muito bem incluir na sua biblioteca e empres­ tar.mais atento a eles do que eu estava Rino . certamente obscenas . abrindo-lhe o presente debaixo dos olhos e dizendo-lhe: «Depois de leres a história desta Bruges morta dizes-me se gostaste . enquanto Pasqua­ le fazia troça do amigo . mas Lila e Rino estavam lado a lado . mas na realidade aborrecido com o modo como o amigo lhe olhava para a irmã. eu também a leio . dizia que sim só para não me contra­ dizer. debruçados sobre qualquer coisa que olhavam com hostilidade . Entre­ guei à minha amiga os presentes do professor Ferrara . com ar apreen­ sivo . Portanto . o cora­ ção saltava-me no peito . Referi-me às maluqueiras de . o que procurava. Também foi a primeira vez que senti que . o que pensava eu dela. E de facto . tive a tendência para reduzir a relação entre mim e Lila a afirmações empolgadas e peremptoriamente positivas . Fui com Lila até à arrecadação nas traseiras da loja. pele e osso .pareceu-me . Excitei-me muito .» Riram-se muito e de vez em quando segredavam ao ouvido um do outro frases sobre Bruges . Era a primeira vez que alguém me interrogava sobre a nossa amizade e falei sobre isso todo o caminho . a fazer-me perguntas sobre Lila: como era ela na escola. Ou seja. excluindo talvez o formato maior dos olhos e uma pequena ondulação no peito . com grande entusiasmo . pela maneira como deixava a mulher. diante dos nossos olhos nascera um seu amor trágico . esforçando-me para descobrir nela o que atraíra a atenção de Pasquale. que fora inspirado por uma pessoa que conhecíamos muito bem . Pasquale lançava olhares furtivos a Lila. e assim que nos viram através da porta de vidro guardaram tudo . e se for esse o caso . Respondi com prazer. Mas a certa altura reparei que . Pareceu-me sem­ pre a mesma rapariga delgada. Porque a olhava assim. como se quisesse evitar que ouvíssemos o que os divertia tanto a respeito de Bruges . não um tipo qualquer. tendo de procurar as palavras para um assunto para o qual não tinha palavras prontas . Ela arrumou os livros junto de outros que tinha no meio dos sapatos velhos e de alguns cadernos com as capas em mau estado . Quando chegámos à loja ainda íamos a falar nisso . daí a pouco começou a mudar de assunto . Lidia. Melina. o que via nela? Eram olhares longos e intensos que ela parecia nem notar. embora trocando piadas com Rino . pálida. mas sim um poeta. pôr-lhe os pés em cima. que se apressou a arrastar Pasquale para a rua. se éramos muito amigas . isto é. enquanto . disse eu a Pasquale . todos nós havíamos conhecido .

no próprio momento em que ela fala comigo . para tirá-lo para sempre da vista e do alcance da mãe . Olhei-lhe para os lábios .» Emocionei-me . para a forma delicada das orelhas . logo sentia em mim a capacidade para fazer o mesmo . provavelmente toda a fa­ nu1ia Sarratore vai ficar rica. injectava-lhe energia. Agora a Melina está à espera dele . e se o Sarratore não vier ela sofrerá mais do que sofreu até aqui . disse. Pareceu-me . Sim. com um desenho do Sol a brilhar no cimo de uma montanha. reproduzia-os carregados de tensão. Donato Sarratore . resmoneou .dito com palavras de hoje . também na maneira de se exprimir. e saía-me bem. reforçava a realidade ao reduzi-la a palavras . o seu filho Nino foi nosso companheiro de escola. mas contei-lhe sobretudo o entusiasmo que senti .» Que bela conversa.» «Porquê?» «0 Sarratore não teve coragem de se encontrar pessoalmente com Melina.A Amiga Genial 101 Melina. e não só fisicamente . que cativantes gestos formulava.que não só sabia dizer bem as coisas . mesmo por cima do título . «Se assim for. examinei-o . pensei .distingue-me de Carmela e de todas as outras. Dera-lho Antonio . Abri-o e li em voz alta a dedicató­ ria escrita a tinta: «À Melina. esses poe­ mas só causaram danos. Sussurrei-lhe em italiano: «Pensa. Nápo­ les. Donato . e no seu lugar mandou-lhe o livro .» «E não foi uma acção bonita?» «Sabe-se lá. Peguei-lhe . o filho mais velho de Melina. E experimentava. Que mãos fortes e bonitas que ela tinha. senti um calafrio na nuca. Intitulava­ -se Expressões de Bonança . Mas também notei com prazer que . 12 de Junho de 1 958. . Donato Sarratore . eu inflamo-me juntamente com Lila. que alentou o meu canto . como também estava a desenvolver um dom que já lhe conhecia: melhor do que fazia em criança. talvez esteja a mudar. pegava nos factos e . pensa. Olhei-lhe para a pele branca e lisa. disse-lhe .» Ela fez um meio sorriso duvidoso . «Por agora. «Com isto?» . na raiz dos cabelos . contente . Estendeu a mão e mostrou-me o livro de Sarratore . Mas Lila fez um daqueles seus olhares intensos e vi que estava presa ao livro que eu tinha na mão . sem uma fis­ sura. assim que ela começava a fazê-lo . com naturalidade . «0 Nino terá um carro mais bonito do que o dos Solara» . aqui . Isto .pensei . Foi emocionante ler. logo saberemos» . que olhares. porque final­ mente podíamos dizer que conhecíamos alguém que acabava de publicar um livro . A capa era avermelhada.

a Lenuccia tam­ bém vai . Lila disse-me que ela e Rino andavam a tentar fazer um sapato de viagem para homem.1 02 Elena Ferrante Mas enquanto Lila falava de amor. mas tinha de voltar já para o trabalho . e pôs-se a andar. e as observava perplexo . interrompendo a nossa conversa. o comunista. longamente . depois logo se vê» . e o irmão . o pedreiro . quase contra vontade . o título . vocês também irão?» «Domingo ainda está longe . à mistura com facas e sovelas e ferros de toda a espécie . enquanto também eu falava dele . Percebi de repente que me enganara: Pasquale .» Parámos . o filho do assassino . respondeu Rino . senão o papá volta e já não podemos fazer mais nada. Pasquale confessou a rir que se escapulira do estaleiro da obra sem dizer nada ao mestre-de-obras . não a leitura dos versos . mas o objecto em si . tentei continuar a falar de livros e de histórias de amor com Lila. Senti uma irritação que me pôs nervosa. o nome e o apelido terem vindo inflamar de novo o coração da­ quela mulher? Falámos com tanta paixão que Rino de repente perdeu a paciência e gritou: «Então não param com isso? Lila. uma forma de madeira cercada por uma confusão de solas . ansioso . que não lhe prestou atenção nenhuma. Comecei a tocar com os dedos nas zonas mais inflamadas das faces . Deitei uma olhadela ao que eles estavam fazendo . o papel daquele livro . bocados de couro espesso . tirinhas de pele . mas por ela. sem me perguntar se queria ir com ele . quisera acompanhar-me até ali não por mim . 12. talvez para lhe dar a ver: estou a correr o risco de ser despedido apenas por tua causa. Em­ polámos exageradamente Sarratore . Pasquale deitou um último olhar a Lila. para ter oportunidade de a ver. o facto de a capa. dirigindo-se a Rino: «Domingo vamos todos dançar em casa da Gigliola. vamos trabalhar. Enquanto Rino tirava de debaixo do balcão as coisas em que estava a trabalhar antes de chegarmos. Notei que olha­ va de novo para Lila. o prazer embotou-se e veio-me um pensamento desagradável . O que iria acontecer? Que reacções iria desenca­ dear. Aquele pensamento tolheu-me a respiração por u m instante . intensamente . a loucura de amor de Melina. Quando os dois rapazes reentraram. E entretanto disse . imediatamente me . mas tive consciência disso e contive-me .

Por isso . porque não fora possível convencer o pai a ajudá­ -los . Senti-me desgostosa pelo desperdício . Fingi estar interessada no seu projecto secreto . em suma. fazendo de mim sua confidente . certamen­ te procuraria outras oportunidades de olhar para ela e de lhe pedir. um tipo já crescido . não conti­ nuasse a sentir lá dentro . Ainda tinha presentes . Aliás . Trabalhavam às escondidas de Fernando . Mas sobretudo . como eu . Embora os dois irmãos me tivessem incluído . por ela preferir a aventura dos sapatos às nossas conversas . pele e ferramentas . os movimentos mais secretos daquela história de fidelidade violada. Lila por aquele caminho viria a fazer grandes coisas sozinha. Contei-lhe que fora a professora Oliviero que impusera isso aos meus pais . tratava-se de uma experiência em que eu só podia participar como testemunha. que poderia ser mais do que o pai . como se para afugentar a sensação de asco que aqueles pen­ samentos me causavam. por se lhe ter metido na cabeça. Não podia crer que . uma ansiedade pela mulher que so­ fria por amor. e a beijá-lo . Disse-lho à porta da loja. de paixão . ali na arrecadação da loja e não no salão paroquial ao domin­ go . quando já estava na rua. ao passo que eu precisava dela. era como se ela e eu tivéssemos lido um romance juntas . porque . como podia ser que . Dedicavam à criação do sapato cinco minutos agora. diante dos meus olhos . porque tinha coisas só dela em que eu não podia partici­ par. embora apontando­ -me para aquele amontoado de couro . e achasse muito mais interessante aquele clima de tensão em tomo de um sapato? Tínhamos falado tão bem sobre Sarratore e Melina. e ameaçava Rino de morte .A Amiga Genial 1 03 fez jurar pela minha irmã Elisa que nunca falaria daquilo a ninguém. de canto que se transformara em livro . ou melhor. como diziam que se fazia quando se namorava. depois das nossas conversas intensas sobre amor e poesia. cada vez que puxavam a conversa. Eu queria lá saber de sapatos . prome- . e a tocar-lhe . mas na verdade fiquei triste . um filme muito dramático . e de tentar convencê-la. aos dezanove anos e faltando-lhe ao respeito . porque sabia ser independente . não um rapazinho . a namorar com ele em segredo . como se tivésse­ mos visto . como se para evidenciar o meu valor e o facto de ser indispensável . porque Pasquale . me sentiria cada vez menos necessária. disse-lhe de chofre que ia para a escola secundária. eu estava excluída. Rino conseguira o couro e a pele através de um amigo que ganhava a vida numa fábrica de curtumes na Ponte de Casanova. Fernando mandava Lila para casa e gritava que não queria voltar a vê-la na oficina. dez amanhã. ela me acompanhas­ se à porta como estava fazendo . por ser obrigada a ir-me embora.

um vestido azul com o decote quadrado . Por fim murmurou . Um domingo à tarde . como eu não podia passar sem ela. que tinham chegado primeiro a mim . Durante alguns dias não consegui pensar noutra coisa senão na incógnita das mudanças que iriam afectar Lila.» Fez uma expressão de quem se perdeu e não sabe o que dizer. 13. Olhou-me . perplexa. Como era eu realmente? Como seria. um vestidinho liso e debotado . também a ela haviam che­ gado como a réplica de um terremoto .» «E mais nada?» «E também grego . livros usados . e que . perguntou . e iriam mudá-la. Pasquale . sem qualquer nexo: «Na semana passada apareceu-me o sangue . os cabelos muito escuros em desordem. nunca poderia passar sem mim. Portanto agora também ela sangrava. Nada a diferenciava da . «0 que é a escola secundária?» .pensei .» «0 quê?» «Latim. de graça. ou Carmela? Ficaria feia como eu? Cheguei a casa e observei-me ao espelho . voltou para dentro . vesti a minha roupa melhor. Quando me encontrei com Lila senti um prazer secreto ao vê-la como andava todos os dias . O facto de eu ir para a escola secundária num instante perdeu a aura. e pus a pulseira de prata que a minha mãe me dera. ela? Comecei a arranjar-me melhor. à hora do habi­ tual passeio da rua larga até aos jardins . sem que Rino a tivesse chamado .» «Grego?» «Sim.1 04 Elena Ferrante tendo arranjar-me ela própria. «Uma escola importante que vem depois da escola média. ou Gigliola. mesmo que ela enriquecesse a fabricar sapatos com Rino . Os movimentos secretos do corpo . Ele e provavelmente outros rapazes . Tornar-se-ia bonita como Pinuccia Carracci .» «E o que vais para lá fazer?» «Estudar. mais cedo ou mais tarde . Fi-lo porque queria que ela percebesse que eu era mais única do que rara.» E . já estava a mudar.apercebeu-se primeiro do que eu .

Só me pareceu mais crescida. Caminhava do lado da estrada. como eu temia sempre perder muito dela. Lila fez-me de novo perguntas cautelosas sobre a escola secundária.A Amiga Genial 1 05 habitual Lila. olhem que Nápoles é grande . pensando na minha mãe .» Mostrou-se alegre . Mas o que era essa mudança? Eu tinha o peito grande . Marcello estendeu a mão . olha o que me fizeste» . ignorando-o . disse ele abrindo a porta. tentou agarrar-me outra vez o pulso .» Então . Este começou a dizer-nos gracejos . não se cansam de andar para a frente e para trás . co­ mo se quisesse criar uma familiaridade que me acalmasse . Falava. Queria que ela se interessasse . A dizê-los a am­ bas . nem o irmão . Os cinco dedos saíram da janela e vie­ ram agarrar-me pelo pulso . em vez de continuar a con­ versar com Lila. «Vou repará-la. meia hora apenas e trazemo-las aqui outra vez . onde muito provavel­ mente encontraria rapazes com automóveis mais bonitos do que o dos Solara. formas de mulher. cordial . Miche . que desejasse ao menos um bocadinho participar naquela minha aventura pelo lado de fora. caiu entre o passeio e o carro . exclamei . tão pequenina que era e fizera-se quase tão alta como eu . mas fiz. voltámos para trás . Depois o 1100 dos Solara pôs-se ao nosso lado . A pulseira partiu-se . ainda não havia a agitação dos domin­ gos . Era cedo . e saiu do carro . «Meu Deus . Michele ao volante . Em vez de continuar a andar como se ele não existisse . puxei o braço com nojo. que sentisse que estava a perder alguma parte de mim . nem os vendedores de avelãs e amêndoas torradas e de tremoços . Fomos até ao jardim. ela pelo lado de dentro . mas não podemos. Os dedos de Marcello em volta do meu pulso arrepe­ laram-me a pele . por necessidade de me sentir atraente e afortunada. uma menina nervosa e descamada. e ela ouvia com muita atenção . Não devia tê-lo feito . Trauteava em dialecto frases do tipo: mas que lindas senhorinhas . voltei-me e disse em italiano: «Obrigada. enquanto a sua voz dizia: «Trava. já viste que bela pulseira tem a filha do porteiro?» O carro parou . é a cidade mais bonita do mundo . Marcello ao lado . «Calma» . não só a mim . talvez . embora ele fosse um rapaz alto e bem feito . nem o carro . e quase a ir para a escola dos ricos . Disse-lhe o pouco que sabia. percorremos de novo o ca­ minho até ao jardim. entrem. Foi num . mas empolando-o o mais possível . só um centímetro de diferença. Vi que era larga e curta. bonita como vocês .

» «Vem cá» . mas para Lila. ele quis que eu soubesse bem que transportes tinha de apanhar e quais as ruas por onde devia ir para me dirigir à nova es­ cola em Outubro . sua valente» . Disse com calma. que fazia metade dele . Ajoelhou-se no passeio . Ele fez-lhe um sorriso tímido . «Comecei a chorar por causa da pulseira.» Michele deu a volta ao carro . Lila estava encostada a Marcello como se lhe tivesse visto um insecto na cara e lho quisesse enxotar.» Depois entrou para o carro e partiram . havia poucos transeuntes. meteu-se no carro . Marce . disse . Senti-me amada. disse . «Entra. Tacteou por baixo do carro. 14. um corte de onde saía um fiozinho de sangue . disse e . Tenho a cena gravada na memória com nitidez . «Um momento» . Uma manhã o meu pai levou-me com ele . Uma vez que me ia matricular na escola secundária. na minha frente . «vem cá e vais ver se não tenho coragem.» Lila desencostou lentamente a ponta da lâmina da garganta de Mar­ cello . A s fronteiras do bairro esbateram-se n o decurso daquele Verão . empurrou-o contra o automóvel e encostou-lhe o trinchete à garganta. De onde estava via bem que a ponta do trinchete já ferira a pele de Marcello .1 06 Elena Ferrante ápice . pede desculpa às meni­ nas e vamo-nos embora.» Marcello imobilizou-se . encontrou a pulseira. como se quisesse pedir per­ dão da forma mais humilhante . sempre com a mesma calma. . mimada. «Muito bem. Michele também percebeu isso . qua­ se divertido . e eu comecei a chorar. olhando não para mim. observou-a e reparou-a. disse Lila. Entregou-ma. apertando com as unhas a argolinha de prata que se abrira. ao afecto que sentia por ele depressa se juntou uma admiração crescente . Marce . não por ter medo» . em dialecto: «Toca-lhe outra vez e vais ver o que te acontece . Fiquei com a mesma absoluta certeza que tive na altura: ela não teria hesitado em cortar-lhe a garganta. Ainda fazia muito calor. Estava um lindo dia claro e ventoso . E foi a ela que disse: «Desculpa. Lila. dizendo em tom tranquilizador: «Ela não te faz nada. essa puta não tem coragem. tinha o olhar desorientado . incrédulo . Michele saiu imediatamente do carro .

A Amiga Genial 1 07 Conhecia muito bem a enorme extensão da cidade . Reparei que repetia muito «tudo em ordem?» . com as cores . dom esse que no bairro e em casa escondia. o teu papá e aquele ali . Paciência. sabia onde se apa­ nhava o metropolitano . Dizia que ela era tão modema. que vinham japoneses do Japão de propósito para estudá-la e fazer uma idêntica no país deles. Vejam agora quanto espaço . o rapagão . a Via Foria. Passámos o dia inteiro juntos . nos escritórios . e depois volta-se a fazer. o Museu . Levou-me pelo Corso Garibaldi . ou «faz-se o que se pode fazer» . à Via Toledo . como se quisesse transmitir-me em poucas horas tudo o que de útil aprendera ao longo da sua existência. Nápoles . nos transportes públicos . Mostrou-me a Piazza Garibaldi e a estação que estava a ser construída. dizia ele . com as vozes. o único nas nossas vidas . à Port' Alba. Tratava toda a gente com familiaridade . Tratou do necessário na secretaria com extrema simplici­ dade . a única coisa velha é o Maschio Angioino . era assim desde sempre: corta-se . e arranjava sempre maneira de dar a conhecer ao interlocutor que trabalhava na câmara municipal e que . as árvores todas cortadas e rachadas . Fiquei assoberbada com os nomes . não me re­ cordo de mais nenhum. se quisesse . em Nápoles há dois verdadeiros machos . com a habilidade com que ele falava com o vendedor de pizza a quem me comprou uma pizza bem quente com re­ queijão . tinha o dom de se tomar simpático . Dedicou-se muito a mim. abrir portas . com o ar de festa por todo o lado . parte-se . Mas confessou-me que gostava mais da estação anterior. Gabou a minha extraordinária caderneta escolar a um contínuo cujo padrinho de casamento conhecia bem. Levou-me à Via Costantinopoli . e com o vendedor de fruta a quem me comprou um pêssego muito amarelo . e o dinheiro corre e gera trabalho . o Jar­ dim Botânico . enquanto o resto da cidade era radioso e benevo­ lente? Levou-me a ver o sítio onde trabalhava. ou um autocarro . Na rua mos­ trava-se muito sociável e de uma cortesia dócil. podia acelerar processos . estava mais afeiçoado a ela. Seria possível que só o nosso bairro estivesse cheio de conflitos e violência. mas é bonito . Mostrou-me a Piazza Cario III . com o esforço de guardar tudo na memória para depois contar a Lila. cumprimentou este e . à Piazza Dante . Fomos à câmara. como logo desco­ briu . sobretudo os pilares . até ao edifício onde era a minha futura escola. o Asilo dos Pobres . com o barulho do trânsito . que era na Piazza Municipio . ou um eléctrico . que em casa quase nunca tinha. Disse-me que também ali tudo fora renovado .

de ruídos . mesmo que não tivesse estado presente . exposta à fúria inconstante das coisas mas . Estava muito agitado . nova eu também. e que agora eu pagaria sei lá o quê para que desa­ parecesse da face da terra. o vento cortava a respiração . ruidoso . Ficámos do outro lado da estrada. atravessar a estrada. era muito conhecido . demasiadas . Senti-me atordoada pelas fortes rajadas e pelo ruído . cada vez mais sol . As ondas rolavam como tubos de metal azul . ter-me-ia sentido . Ainda bem que a minha mãe nada soubera do episódio da pulseira. Regressei ao bairro como se tivesse ido a uma terra distante . correr. o senhor manda e eu faço . Por fim anunciou-me que me ia mostrar o Vesúvio de perto . embora absorvesse muito daquele espectáculo . Enzo a vender fruta. O meu pai apertou-me a mão como se receasse que eu me escapulis­ se . cheio de luz e de fragor. Mas que mar. Eis no­ vamente as ruas conhecidas . e expressá-la por palavras e dar-lhe força. o II 00 dos Solara estaciona­ do em frente do bar. e. Ainda bem que ninguém fora contar a Rino aquilo que acontecera. Com alguns foi jovial . aos pés da qual se amontoavam as pedras esbranqui­ çadas da cidade . Contei a Lila tudo sobre as ruas . Naquele momento tão tremendo . nós duas com aquela capacidade que juntas . com outros foi quase mudo . Depois quebravam-se em mil estilhaços cintilantes e chegavam até à estrada. Mas de repente senti-me desconsolada. deixar-me atingir pelos estilhaços brilhantes do mar.108 Elena Ferrante aquele . imensas coisas . Na verdade apetecia-me largá-lo . Dirigimo-nos para a Via Caracciolo. colava a roupa ao corpo e levantava os cabelos da fronte . de certeza. vencedora: eu . se espalhavam em volta sem se deixarem captar. eu e Lila. o perfil cor de terra do Castel dell ' Ovo . cada vez mais vento . sim. Foi um momento inesquecível. er­ guendo ao alto a clara de ovo da espuma. O Vesúvio era uma forma deli­ cada de tom pastel . fiz de conta que estava só no novo da cidade . afastar-me . apenas está bem. Tinha a impressão de que . eu ter-me-ia imiscuído com um contracanto indis­ pensável . Se fosse ela a fazer o relato daquele dia. juntamente com uma pequena multidão que apre­ ciava o espectáculo . eis novamente a charcutaria de Stefano e da sua irmã Pinuccia.apenas juntas - tínhamos de pegar na massa de cores . o fragor. repetiu pela enésima vez que eu na escola tivera nove em italiano e nove em latim. e o mar. com um «oh ! » de espan­ to e temor de todos os que observávamos. e o mar. a luz ex­ traordinária. apresentou-me . com a vida inteira pela frente . de coisas e pessoas . Que pena Lila não estar ali . os seus nomes.

para ela. bom iam à praia. mas sobretudo ao seu trabalho secreto . Era um rapaz generoso . que agora queria que lhe chamassem Carmen . que tinha o peso da mãe . nos dias de festa. que falava de Donato Sarratore em voz alta. e no banco de trás a irmã Pinuccia. porque Rino era contra . no entanto nunca lá tínhamos ido . E de facto . naquele momento era apenas um conjunto de sinais inúteis de espaços inúteis .A Amiga Genial 1 09 viva e activa. porque iria enriquecer-lho . Michele fazendo de conta que não nos via. seria uma companhia muito melhor do que o pai dela. Mas víamo-lo muitas vezes . num dos prédios do bairro . sem dúvida. para evitar discus­ sões com os meus pais . Ao passo que ela se limitou a ouvir-me sem curiosidade . ela disse apenas: «Tenho de dizer ao Rino que temos de aceitar o convite do Pasquale Peluso para domingo . estava solidamente ancorada à rua. e se Melina estivesse calma vinha também a sua irmã Ada . enquanto Marcello não se esquecia de nos deitar um olhar cordial . Geralmente esperava j unto à bomba de gasolin a e pouco a pouco iam chegando Enzo . depois de eu ter falado tanto . Com os ouvidos ouvia-me . ela simplesmente tinha uma linha de pensamento muito sua. Gigliola. enquanto Ada tentava arrastá-la para casa. Melina . a Stefano .» Ora aí está. acompanhava com todos . os grandes e os mais pequenos . Tínhamos sempre aceitado os convi­ tes de Peluso . com a mente . Lamentei . e ela. levantado questões . onde Pasquale nos que­ ria levar para dançar. todo asseado . necessaria­ mente . teria tentado demonstrar-lhe que devíamos fazer esse percurso juntas . Só faria caso daqueles espaços se lhe surgisse a oportunidade de lá ir. e Carmela. eu a falar-lhe do centro de Nápoles e ela a pôr no centro a casa de Gigliola. para tirar força ao meu entusiasmo . Quando o dia estava. que os Solara tinham metido no carro e levado sabe-se lá para onde durante uma boa hora. que se alimentava de coisas concretas . eu . Mas tive de convencer-me de que não era assim. de longe . O meu relato . e às vezes Rino . que acabava de comprar a Giardinetta e levava a seu lado a mãe . mas com os olhos . às escondidas do pai . à espera dos amigos . não fazia distin­ ções de idades . como um livro ou uma fonte . o bonito filho de dom Achille . que nos fazia adeus dos andaimes da obra. a Gigliola. teria feito perguntas . a Pasquale . às poucas plantas dos jardins. a Melina. a que se aplicava para ir para a frente com o projecto dos sapa­ tos . a Marcello e Michele Solara que iam a passar no seu 1100. e a princípio pensei que assim fizesse por maldade . se não tivesse mais nada que fazer. e . e Antonio . que andava a passear com Alfonso e Carmela.

gramofone . que deu um grito suave . e quem não sabia dançar aprendia. Ouvi que ela me prometia. Rino . A princípio fez-nos dançar com os pés sobre os dele . O que dissera ela? Gramofone era italiano . Uma vez que fui a casa dela mostrou-me um livrinho que trouxera da biblioteca. Tanto Pasquale como Rino . apetecia-me dançar sempre . espreitava um livro esfrangalhado intitulado Gramática Grega . principalmente com a irmã. estudando-nos . e cada movimento era explicado com desenhos de homens e mulheres a dançar. Gramática. Andava muito alegre nesse tempo . com uma etiqueta da biblioteca do professor Ferrara . a mazurca. e nós aprendemos com eles o tango . Sem mais nem menos agarrou-me pela cintura e. me entregou o manual de dança e voou pela sala com ele . porém. ao passo que Pasquale era muito paciente . é bom que se diga. primeiro comigo e depois com a irmã. rodopiávamos pela casa. quem sabia dançar dançava. estreitando os olhos: «Sabes o que essa palavra é?» «Não . Lila começou a puxar-me para aquelas festarolas . revelaram-se óptimos dançarinos . para aprendermos bem os passos . a polca. e depois . obrigou-me a dançar o tango .» Olhei-a. contou-me que Lila apanhara uma tal mania do perfeccionismo que o obrigava constantemente a exercitar-se. cujos pais eram mais toleran­ tes do que os nossos . quase sem fôlego: . para minha sur­ presa. Lila.1 10 Elena Ferrante voltavam com a cara vermelha do sol . com aquele seu ar de quem quer perceber bem como se faz . e ali .gra­ mofone . Apareceu Rino . gramofone . que desatou a rir ao ver-nos . Também quis dançar. embora sem música. Mas entretanto vi que debaixo de Guerra e paz. e aplaudia os pares mais acertados . duvidosa. dera-lhe o interesse pela dança não sei como . Grega. Pousei o manual ao pé dos outros livros . e não grego . dava a impressão de que o seu divertimento consistia só em aprender. reuniam-se em casa de Gigliola. Enquanto dançávamos . Mas assim que ele disse aquela palavra . a valsa. Descobri que gostava muito de dançar. Rino entretanto largou-me e começou a dançar com a irmã. uma exuberância surpreendente nela. quando já estávamos mais experientes . mesmo sem terem gramofone . trauteando a música. como pro­ fessor depressa se enervava. onde estava escrito tudo sobre os passos de dança. o que era mais fre­ quente . Ou então .Lila gritou-me de um canto da sala. tanto que muitas vezes ficava sentada a olhar.» «Grego . fazendo de homem.

15. O peito tinha uns pequenos pomos graciosos . fui logo procurá-la. a primeira vez . as orelhas . exposta a tudo . e no Verão . primeiro e melhor do que eu? Fugia de mim quando eu a seguia. Quando se penteava com o rabo-de-cavalo . Tomara-se sinuosa. As costas faziam uma curva profunda antes de chegarem ao arco cada vez mais firme do traseiro . mas só existia uma e fora emprestada por turnos a toda a farm1ia Cerullo . os grandes olhos que se estreitavam de repente . Eram bonitos . mas quanto faltaria para se adapta- . e foi . não podia passar o meu tempo a segui-la ou a descobrir que ela me seguia. que era tempo de férias? Fazia sempre as coisas que eu havia de fazer. Fiquei encantada. Sentia-me frágil . mas entretanto ia na minha peugada para me passar à frente? Tentei não me encontrar com ela por uns tempos . pensei . e obrigou-me a escrevê-lo e a lê-lo . mas a inferioridade e a vergonha intensificaram­ -se . creio . de dia para dia mais visíveis . do mesmo modo que se perde um tema musical muito conhecido quando é adapta­ do com demasiada imaginação . Apareceram-me mais furúnculos . Uma vez Lila exibiu-se numa valsa com o irmão . tornozelos de menina. acertavam bem. Dançavam tão bem juntos que deixámos o espaço todo para eles . Fui à biblioteca buscar uma gramática grega. o nariz pequeno . e de uma maneira ou de outra sentir-me diminuída.A Amiga Genial 111 «Depois escrevo-te gramofone em letras gregas .» Disse que tinha que fazer e fui-me embora. Quis que eu aprendesse também aquele alfabeto antes de ir para a escola. Talvez eu devesse apa­ gar Lila de mim como se fosse um desenho no quadro . Olhando para eles compreendi perfeita­ mente que ela em breve perderia o seu ar de menina-velha. andavam à procura de uma nova orques­ tração e pareciam prestes a encontrá-la. Esperei que passasse . Mas não consegui . Começara a estudar grego ainda antes de eu ir para a escola secundá­ ria? Fizera-o sozinha. as maçãs do rosto . la aos bailes em casa de Gigliola com uma sensação permanente de inferioridade e de vergonha. Os tornozelos ainda eram ma­ gros de mais . Deixei que me mostrasse que sabia escrever todas as palavras italianas com o alfabeto grego . os lábios . A fronte alta. quando eu ainda nem pensava em tal coisa. fiquei zangada. o longo pescoço mostrava-se com uma nitidez enterne­ cedora. Deixei que me ensinasse como se fazia a quadrilha.

em qualquer lugar secreto de mim. com sor­ risos incertos e aplausos exagerados . Tomara-se mais fanfarrão . contemplando-a enquanto dançava com Rino . para quem o via. Mas . mas depois continha-se . o efeito não era dos melhores . O corpo em mutação de Lila começara a emanar qualquer coisa que os machos sentiam. movimentos provocantes . Primeiro que todos Pasquale . como o som já próximo da beleza que se avizinha. Mas se era o meu lado infantil que desencadeava aqueles pensamentos . Já me mostrara que sabia ferir com palavras e também que seria capaz de matar sem hesitação . um bocadi­ nho de sorte . Era o que eu continuava a pensar. Lila despertara nele a fantasia e as esperanças . repetia amiúde uma frase que lhe dava prazer: basta pouco . feições regulares . Na presença dela atrapalhava-se . esboçava algumas frases . Dizia para comigo: há-de libertar alguma coisa ainda mais malvada. Também ele me parecia estar a mudar. nas saídas em grupo fora do bairro . para eu mijar na cara dos Solara. E de facto . mas também Antonio e tam­ bém Enzo . Foi preciso que a música se interrompesse para eles voltarem a si . para uma pizza . Mas não havia nada a fazer. Mas para dizer essas gabarolices era indispensável que a irmã não estivesse presente . sobretudo . não perdia uma oportuni­ dade de aludir a como era hábil no seu trabalho e que iria ficar rico. Rino . No final do Verão começaram a aumentar as pressões sobre Rino para que . No entanto Carmela tinha uns olhos lindos e . essas suas capacida­ des pareciam-me agora de pouca importância. Tinham os olhos postos nela. mas para todos . gradualmen­ te tomou-se claro não só para mim. viam ainda mais coisas do que eu . e recorria à palavra malefí­ cio . uma energia que os atordoava. o certo é que havia neles um fundo de verdade .1 12 Elena Ferrante rem à sua actual figura de rapariga? Tive consciência de que os rapazes . porém. queria ter o seu espaço . Lila era má. para um passeio . como se as outras tivessem desaparecido . contudo . pernas perfeitas . No entanto Gigliola tinha uns cabelos loiros deslumbrantes . um vocábulo exagerado que me vinha das histórias da infância. trouxesse consigo a irmã. que emanava de Lila um fluido que não era apenas sedutor mas também perigoso . que a observava desde que andáva­ mos na primeira classe . 16. Apercebia-se de que Lila o olhava de mau modo . para quem o ouvia. No entanto eu tinha mais peito . como ele .

Estava ocupado com o seu trabalho e mais nada.A Amiga Genial 113 estivesse a trair u m pacto secreto de compostura. tinha aliança no dedo . para os rapazes . «Pára com isso» . Mas as coisas agravaram-se . de modo que alguns riam-se . com o irmão ou com outros . para os homens escuros . «Não estou a fazer nada» . Pasquale . das tascas de fritos . Do que me recordo bem é que daquela vez se manteve totalmente muda. Fixava as pes­ soas com muita atenção . mas ela fica­ va para trás . Virámo-nos todos para olhar para ele . comemos com alegria. vencendo a sua timidez . respondeu: . sempre a rir: «É verdade . Atravessámos a Piazza Garibaldi . começou a fazer voltear a pizza no ar enquanto a amassava. Mas Pasquale perguntou a Lila. soprando-o na ponta dos dedos. Nessa noite fomos a uma pizzeria do Rettifilo . para uma mulhera­ ça toda pintada. Mas a certa altura o tipo que fazia a pizza . Não me recordo se Lila já tivera alguma oportunidade de ir ao centro . a rir.atirara às escondidas um beijo a Lila. Um domingo. Carmela e Ada. tenho a certeza de que não me contara. outros faziam-lhe um gesto que significava: o que queres? De vez em quando puxava por ela. sentimos o fedor a peixe estragado por causa do calor. à noite. parecia velho . que olhava para ele admirada. de distanciamento . arrastava-a atrás de mim com medo de nos perdermos de Rino. imagine-se. era pai de filhos com certeza . esforçando-se para olhar para outro lado . e trocando sorrisos com Lila. fomos sair (Rino veio generosamente assumir perante os meus pais a responsabilida­ de pela minha pessoa) . Antonio . e por isso preferia não a ter por perto . disse-lhe Rino . Esgueirava-se para se ir exibir como um pavão junto dos amigos . disse-nos que o homem que fazia a pizza . Mas por vezes tinha de se sujeitar. respondeu ela. Quis-me parecer que Antonio me cortejava um pouco . isso equilibrava as atenções de Pasquale com Lila. mas também o perfume dos restaurantes . com uma risadinha nervosa a contrastar com o sorriso generoso de Pasquale . após muitas discussões com os nossos pais. um homem dos seus trinta anos. com uma habilidade excessiva. e fiquei contente . rapariguinhas . ou estou enganado?» Lila.que para nós . demorava-se a olhar para um engraxador. Pasquale. dos bares-pastelarias muito mais bem abastecidos do que o dos Solara. já bastava estarem todo o dia a trabalhar juntos na sapataria. olhava-lhes directamente para a cara. Mas se tinha ido . as ruas apinhadas . Vimos a cidade iluminada pelos anúncios luminosos .

intrigada. quase nunca lhe dirigiam as obscenidades que habitualmente nos reservavam. Pasquale e Antonio cres­ cia. bonitinhas . Se alguém olhava para ela. acorreu imediatamente . um homem na casa dos sessenta. Ir passear com ela ao domingo tomou-se um motivo de permanente tensão . mãe e três filhos . e que agora não haveria mais problemas . O pai . onde nos sentámos à mesa de um bar porque Pasquale . À nossa frente estava uma farru1ia a comer gelado à mesa. como se estivesse envenenada. Acontecia assim no bairro e fora dele .desta vez todos nós reparámos . Até porque . Mas aquele senhor . Mais vistosas estávamos nós . coisa fora do normal . O que é que se passava? Na rua. ela retribuía o olhar. com dentadas lentas . olhou em volta e . e Lila. não .tínhamos aprendido instintivamente a manter os olhos baixos . e por vezes respondia. Por fim. evidentemente sem se dar conta do risco que corria. Pascà» . Carmela. dos seus cinquenta. que a mãe lhe fazia. feias .1 14 Elena Ferrante «Eu não vi nada. os homens com quem nos cruzáva­ mos olhavam para todas nós .» «Deixa estar. Lila. tinha ar de profes­ sor. Mas Peluso levantou-se . e não tanto os jovens como os homens feitos . Uma tarde de fim de Agosto fomos até à Villa Comunale . que se limitara a fazer compreender ao seu empregado uma coisa que era pouco clara para ele . um homem forte . disse Rino . como se não acreditasse que estavam a falar com ela. com idades entre os doze e os sete . bonitas . . a fingir que não ouvíamos as porcarias que eles nos diziam e seguir em frente .principalmente depois do incidente com os Solara . e Pasquale explicou-lhe com calma que não era preciso preocupar-se . correspondia ao olhar como se não se capacitasse de que estava a ser admirada. de olhos baixos. Acabámos de comer a pizza em silêncio . e Ada. foi ao balcão do fomo . E quando saímos Rino deu um grande raspanete a Lila. como nós : pai . ela parava. com o seu sorriso cândido nos lábios . O dono do estabelecimento . terminando com uma ameaça: continua assim e nunca mais te trago . sobretudo Carmela. e eu própria . E posso jurar que Lila não trazia nada que desse nas vistas: não pusera bâton e as roupas que vestia eram as mesmas de sempre. enquanto à nossa mesa o nervosismo de Rino . fulminando a irmã com o olhar. Se alguém lhe dizia qualquer coisa. Parecia gente res­ peitável . peque­ no e pálido . que naquele tempo se comportava como um nababo . embora tentando controlar-se . quis oferecer um spumone a todos . deu uma bofetada na cara do ho­ mem . atirando-o contra a boca do fomo . perplexa.não conseguia tirar os olhos dela. o homem.

O que me espan­ tou não foi o facto em si . Alfonso era um rapaz simpático (também ia para a secundária. no dia do santo do seu nome (chamava-se Rosa. Veio gente que às nossas festarolas de jovens nunca teria vindo . virava a . considerando todos os habitan­ tes do bairro potenciais clientes que iriam gastar dinheiro na sua loja. o seu olhar com o de Pasquale . a viúva de dom Achille . A mãe de Gigliola. fez-lhe uma vénia discreta e ia regressar à sua mesa quando Rino o agarrou pelo colarinho . Mas o pior aconteceu uma vez que Rino não estava. e senti necessidade de o dizer também a VÓS . muito colorida. por isso limitou-se a evitar cruzar. os filhos do assassino de dom Achille . na mesma escola que eu) e até trocou algumas palavras com Carmela. pãezinhos de cassata . parou na frente de Lila e .» Lila desatou a rir devido à tensão nervosa. o farmacêutico com a mulher e o filho mais velho . quase a entrar para a secundária como eu . Também lá estavam Pasquale e Carmela Peluso. deu uma festa com pessoas de todas as idades . Têm aqui uma rapariga que virá a ser mais bela do que uma Vénus de Botticelli . por regra. Mais um domingo estragado . se bem me lembro) . o professor Ferraro e a sua numerosa farm1ia. Geralmente abria o seu bonito e simpático sorriso para toda a gente . O homem por sua vez sorriu . Estas últimas presenças de início causaram grandes tensões . Mas depois tudo se compôs da melhor maneira. com o filho Alfonso e a filha Pinuccia. Como o marido era o pasteleiro da pastelaria Solara. Por exemplo Maria. um só instante que fosse . e tam­ bém Stefano . licores . e Antonio puxou Rino dali para fora. Por exemplo . se via a senhora Peluso . Pinuccia estava sobretudo contente por ter ido a uma festa. O homem zangou-se . dos mais corriqueiros aos da última moda. bebidas para crian­ ças e discos de música de dança. mas já disse isto à minha mulher e aos meus filhos . foi tudo feito em grande: havia profiteroles em abundância. pastéis folhados . Por exemplo .A Amiga Genial 115 levantou-se . bolos de amêndoa. Peço desculpa. Stefano percebera precocemente que o comércio se baseia na ausência de discriminações . que . a mulher gritou metendo-se no meio . dirigindo-se educadamente aos rapazes . diante da mulher e dos filhos . o fez percorrer a distância a correr. pois sacrificava-se a trabalhar diaria­ mente na charcutaria. Gino . disse: «Vocês são afortunados. como os dizíamos no bairro . o sentou à força e . descarregou sobre ele uma série de insultos . mas a adesão em tomo de Lila de tensões de proveniência diversa. Maria.

embora de má vontade . Mas a certa altura Enzo aproximou-se dela. Enzo era de poucas palavras mas tranquilas . Via-se bem nas suas feições que se levantava antes de alvorecer. De aspecto parecia mais velho do que Rino . No resto . ti­ nham grande curiosidade . que de surpresa competira com Lila em aritmética. ao longo dos anos era como se tives­ se sido absorvido por um organismo de baixa estatura mas forte . que tinha de lidar com a camorra do mercado de fruta e hortaliças . a vontade que tinha de dançar. manter uma conversa. É claro que já sabia dançar o rock and roll. com o meu irmão Peppe . decidi ficar a olhar. e que andava em todas as estações . O garoto que nos atirara pedras . dos velhos às crianças . e . . não teria passado pela cabeça de nenhuma de nós trocar piadas com ele . naquela noite decidiu tam­ bém. Mexia-se de modo um pouco ridícu­ lo . Ele ficou calado . ficar de fora. tanta era. calcor­ reando as ruas do bairro . Olhou­ -o com gratidão e entregou-se à música. habi­ tuado ao trabalho duro . mas sentia-me muito desajeitada para aqueles movimentos rápidos e ágeis . não reagiu . o rock and rol!. Ela respondeu: porque ainda não sei dançar bem esta mú­ sica. todas em dialecto . Foi ele que tomou a iniciativa. que de todos nós era o que tinha mais idade . ignorou por completo os dois jovens e tagarelou muito tempo com a mãe de Gigliola. Perguntou a Lila porque não dançava. Primeiro foram as danças tradicionais e depois passámos para uma nova dança. Lila também não me parecera muito em forma. Mas no seu rosto de loiro em que tudo era claro . pela qual todos . debaixo de chuva.1 16 Elena Ferrante cara para o outro lado . e em casa de Lila. sobrancelhas e pestanas loiras . com ela. pegou-lhe num braço com naturalida­ de e levou-a para o meio da sala. Mas . a algazarra aumentou e ninguém fez caso de mais nada. já o dançara muitas vezes em casa. Mas quando pu­ seram a tocar outro rock and rol!. e ela tomara a crítica como um desafio e insisti­ ra em treinar-se sozinha. para minha satisfação . ao domingo . evidentemente . com frio . Aliás . Lila. olhos azuis . havia ainda um res­ quício do menino rebelde de quem tivéramos de nos defender. que se alguém lhe tocava sem ela permitir saltava para o lado como se lhe tivesse picado uma vespa. Aquilo que mais contribuiu para diluir as tensões foi o facto de termos começado a dançar sem demora. chegara a dizer-lho . que uma vez lhe oferecera uma coroa de sorvas . encalorada. Eu . perfeccionista como era em todas as coisas . a meu lado . retirei-me para um canto . e depois disse: eu também não . a ver como Pas­ quale e Carmela Peluso dançavam bem. a vender fruta e hortaliça com a carroça. uma vez que Rino se recusava a dançá-lo .

so­ bretudo Marcello . que desviou o olhar. Nunca mais tirou os olhos dela. o dono da charcutaria. Quatro homens de idades variadas moveram-se ao mesmo tempo na direcção daquela figurinha de rapariga de catorze anos . dada a excelência do dançarino . indicaram um ao outro Anto­ nio . do seu poder abso­ luto . E ela. Foram cumprimentar o pastelei­ ro e a mulher. Mas . Lila deu um saltinho gracioso de consentimento e bateu as palmas . Até Enzo gosta dela. que era o que se sentiam.. Primeiro . mas estava muito atento a Lila. depois segredaram. de modo diferente . Olhou para ela o tempo todo como se olha para uma diva no cinema. Deu uma cotovelada a Stefano e disse-lhe em voz alta: . decidiu complicar a situação à sua maneira. Aconteceu tudo num ápice . pensei desolada. chegaram os irmãos Solara. ou por amor ao irmão . deitaram um olhar carregado a Ada. de modo sério e compassado . Stefano e Marcello avançaram ao mesmo tempo para convidá-la para dançar. fixaram-na durante muito tempo . parecia não estar zangado por causa da cena do trinchete . Marcello e Enzo recuaram. Nessa altura Michele Solara. Bastou-me vê-los para ficar agitada. ela imediatamente se desenfreou . como se ti­ vesse perdido o pouco tino que tinha.A Amiga Genial 1 17 Viu-se imediatamente que Enzo não sabia dançar grande coisa. E .Marcello . e fizeram-lhe um gesto de saudação exagerado que ele fingiu não ver. Continuou a olhar para ela mesmo quando a música terminou . feliz .até Stefano . ou pelo simples gosto de armar desordem. por fim repararam em Lila. Me­ xia-se pouco . pelo seu rosto fora do comum para o bairro e talvez para toda a cidade de Nápoles . justamente quando Lila estava a dançar com ele . pretendia claramente dar-lhe prazer. Foi mesmo isto que se passou . duvidosos . cada um deles convencido . conseguiu como sem­ pre captar a atenção de todos . Em poucos segundos foi completamente cativado pelo corpo flexível e ele­ gante de Lila. à maneira de donos do bairro .reparei imediatamente . deram uma palmada amigável a Stefano e depois puse­ ram-se também a observar os dançarinos . mas Pasquale antecipou-se-lhes . disse­ ram qualquer coisa ao ouvido um do outro e Michele fez um visível sinal de concordância. a música começou . Enzo tentou impelir Lila para o canto onde eu estava. que agradava a todas . Stefano . permitir que ela se exibisse . Muito pelo contrário . A agulha raspou o disco . Pasquale começou a dançar com Lila e . embora não fosse tão exímia como Carmen . Não os perdi de vista e não foi preciso muito para perceber que .

e ficas aqui parado a vê-lo dançar com a miúda com quem tu querias dançar?» Pasquale de certeza não ouviu . ele planeava comprar um espaço ao lado para ampliá-la. O que queria ele fazer agora? Vi-o a falar com os donos da casa de modo agitado . Stefano era um rapaz atilado . Tinha a certeza de que ela lhe diria que não . Eu disse-lhe: . e para Marcello . ele dança bem» . e ouviu Enzo . Disse a Mi­ chele . A música recomeçou e ela. aproximou-se de Carmela e disse-lhe qualquer coisa com modos bruscos . que estava ao pé de mim. A música terminou . Mas não foi assim que aconteceu . que dançava com Lila. falou com Pasquale . depois . Assim que a música acabou . Pasquale . e ouviu Stefano . Olharam os dois de través para Michele Solara. sabia como o detestava. e continuou a olhar para Lila. mas não aconteceu nada. apontava para o canto onde estava Maria. sisudo . «Vai» . Enquan­ to o coração me batia de ansiedade . ou mesmo certo de que a vida lhe daria tudo o que desejava. elevando-a. a rir. a mãe de Gigliola deu o braço a Pasquale cordialmente . e . Alfonso e Pinuccia. levou-o para um canto e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido . recomeçou a fazer o que naquele momento mais contava para ela: dançar. Antonio apro­ ximou-se deles . ou não? Aquele é o filho do homem que matou o teu pai . agarrou a mão de Marcello como se fosse apenas uma mão . Carmela pro­ testou em voz baixa. que conversava de novo com Stefano . A charcutaria ia de vento em popa. apontava para Carmela que se exibia com Antonio . e ele em voz baixa mandou-a calar. Michele fez um trejeito de desagrado e foi à procura do pasteleiro e da mulher. baixando-a. Lila voltou para o pé de mim.118 Elena Ferrante «Mas tu tens sangue na guelra. com a vontade de dançar em cada músculo . Depois An­ tonio foi buscar Ada à zona de dança. como se a seguir não existisse um braço e todo o cor­ po dele . apontava para Stefano . Esperámos que acontecesse qualquer coisa. com o seu sorriso encantador: «Deixemo-lo dançar. sentia-se afortunado . puxando-a. a transpirar. Mas eu ouvi . «O caminho está livre» . ou seja. primeiro procurou Pasquale com o olhar. Estava tudo sob tensão . E Mar­ cello Solara voltou à carga com Lila. é um comunista de merda. olhei para Enzo . como se a única coisa que lhe importasse naquele momento fosse ela. porque a música estava alta e ele es­ tava ocupado a fazer acrobacias com Lila. não o vendo . naturalmente . Olhei para Stefano . apontava para Pasquale que estava a dan­ çar. disse Michele ao irmão .

Lila dirigiu-se para mim seguida por Marcello . . indelicado . vamos» .A Amiga Genial 1 19 «Passa-se qualquer coisa. que soltou Lila com um esgar de dor e agarrou imediatamente o pulso com a outra mão . Marcello convidou-a mais uma vez e ela deixou-se arrastar de novo pela dança.» Enzo desencostou-se da parede e agarrou o pulso de Marcello sem dizer uma palavra. viste? A mim . Devo ter revelado tanta angústia na voz que ela finalmente olhou em volta. Enquanto nos dirigíamos para a saída. parecia-lhe impossível ele estar a tocar-lhe com tanta confiança. que tí­ nhamos de nos ir embora. olhou-o incrédula. em dialecto puro: «Tocou-me . e por Antonio que puxava por Ada. disse . O outro riu-se e disse-lhe qualquer obscenida­ de entre dentes .» Lila. Ainda bem que o Rino ali não estava. enervada. relutante . com ar sombrio . como se só então o reconhecesse .» «Não . Tentou libertar o braço . A força do aperto só se revelou no rosto de Marcello Solara. «Esperemos que a Lila termine esta dança. dizendo: «Só mais uma dança. é melhor irmo-nos embora. Pasquale dirigiu-se para a porta da casa. Marcello Solara agarrou Lila por um braço . cujos olhos brilhavam de satisfação . e olhou para Enzo. Depois foi de encontro a Michele Solara. Pasquale veio até junto de mim e disse-me . Encaminhei-me para a porta sem esperar mais .» Ela riu-se e exclamou: «Vou dançar mais uma música. é um homem morto . Mas entretanto . «Está bem. Voltei-me para ver o que Enzo fazia. eu levo-te a casa. A música terminou . a música recomeçou . disse ele num tom que não admitia respostas . como se tivesse acordado . quase gritei .» Seria possível que não se tivesse apercebido de ter dançado com Marcello duas vezes? É possível . e apesar de ser mais novo e mais baixo . Se o fizer mais alguma vez . duro . Estava calmo . que estava encostado a uma parede . seguido por Carmela. mas Marcello agarrou-a com força. nem que venha um terremoto» . e bateu-lhe com força com o ombro . ela era assim mesmo . ouvi Lila dizer indignada a Enzo . «Temos de nos ir embora» . perplexa. Ainda estou a vê-lo . imediatamente» . dizendo-lhe . entre o riso e a súplica: «Fica. parecia não estar a fazer o menor esforço . aquele merdoso . mas ele continuou encostado à parede a ver Lila dançar.

porque queria privá-lo de uma ale­ gria: a alegria de ser ele a matar os Solara.» E por fim gritou . eu e Lila demos-lhe logo o braço e arrastámo-lo dali . como se a fúria de Pasquale lhe tivesse bombeado fôlego para o peito . segundos depois . Dissemos-lhe muito mal dos Solara para o consolar. vemo-nos ama­ nhã. e não havia maneira de o acal­ mar. Pasquale estava fora de si . disse . «Vamos dormir» . com olhos de louco . e lágrimas desespe­ radas . repeti­ ram várias vezes a Enzo . pai e filhos . resolvo o assunto dos Solara noutra altura. gritava a plenos pulmões . sim. que era a base para o contrabando e para recolher os votos da Estrela e Coroa. e quase parecia que estava zangado com Pasquale . em tom resignado: «Pronto .» E gritava: «Os Solara.» Nesse momento fui eu que desatei a chorar e .» Nesse instante . Depois Lila perguntou . esta noite não . Dizia que o bar Solara sempre havia sido um lugar de camorristas usurários . voltando-se para Lila. enxugando as lágrimas com as costas da mão: «Quem são os nazi-fascistas . e depois apago também da face da terra Stefano e o resto da farm1ia. Éramos já quatro raparigas lavadas em lágrimas . como se fosse a coisa mais grave: «E tu . Disse . vai . E Ada começou a chorar e Carmela não conseguiu conter-se mais. encarrego-me eu de lhes cortar as goelas . Enfurecidos . nunca o tínhamos visto assim. Enzo tentou convencer-nos a todos a sair da rua. vamos . mas sobretudo a Marcello e Stefano . Mas Pasquale só amansou quando viu Lila a chorar. queriam ficar para enfrentar os Solara.. fingindo calma: «Vai tu . mas também frisámos que o melhor era fazer de conta que não existiam. foi Lila. Tinha raiva a Michele .1 20 Elena Ferrante Lá fora encontrámos Pasquale . Gritava insultos .» Então Enzo disse baixinho: «Se vocês ficam. também Antonio começou a gritar. Carmela e Ada. Gritava: «Ü meu pai fez bem em matá-lo. que eu ainda nunca tinha visto chorar. Pascà? Quem são os monárquicos? O que é o mercado negro?» . Dizia que dom Achille fora espião dos nazi­ -fascistas . também fico. dizia que o dinheiro com que Stefano desenvolvera a charcu­ taria fora ganho pelo pai no mercado negro . dos monárquicos . Mas Pasquale e Antonio calaram-no . por aquilo que haviam feito a Ada. debulhou-se em lágrimas também.o que me perturbou ainda mais . Dizia coisas que nós não tínhamos elementos para compreender.» Por entre soluços . tu até foste dançar com aquele pulha. Antonio .

dom Achille e o mercado negro . de tal forma que até ao final do Verão me massacrou com uma única ideia. as coisas . corro o risco de errar ao contá-lo . Mas o que importa é que foi tomada pelo frenesim da revelação total . aquele denunciou uma quantidade de pessoas . aquele talho nasceu do roubo de cobre e de assaltos a comboios de mercadorias . aquele até a mãe fez passar fome . Ela. a usura. para mim insuportável . Ela e Pasquale encerraram-me num mundo terrível que não dava escapatória. todos comprados com farelos . casas .» Depressa se sentiu insatisfeita com Pasquale . um fas­ cista ainda pior do que os filhos Marcello e Michele . nesta esquina açoitaram. ela transformou-os em ruas . naquela casa torturaram e mataram. todos . sus­ piros . O fascismo . os aliados . o con­ trabando . ficou transtornada e alterada por causa disso . Peluso o comunista. aquele espancou e deu a beber óleo de rícino . o nazismo . Quando saíamos indicava-me as pessoas . Cada vez mais tensa e mais obcecada. . na altura. à sua maneira habitual . todos aos seus olhos manchados até ao tutano por culpas tenebrosas . na origem daquele bar está a camorra. todos. sobre esta pedra marcharam e fizeram a saudação romana. todos eles criminosos empedernidos ou cúmplices condescendentes . sem fissuras . Mas ela. completou as insu­ ficientes informações dele com alguns livros que encontrou na bibliote­ ca. o dinheiro destes vem-lhes da fome daqueles . Em linguagem de hoje. Fer­ nando . e o meu pai . este automóvel foi compra­ do com a venda de carne estragada e pão contendo pó de mármore no mercado negro . até porque sobre mim. a república. e o seu pai . o avô camorrista dos Solara. as ruas . Era como se ele tivesse accionado um mecanismo na cabeça dela e agora a sua tarefa fosse pôr em ordem uma remessa caótica de sugestões . É difícil dizer o que as respostas de Pasquale fizeram a Lila.A Amiga Genial 121 17. elas não ti­ veram qualquer efeito concreto . a monarquia. rostos . palavras . que não contenham a soma de todos os crimes que os seres huma­ nos cometeram e cometem. o sapateiro . E assim deu motivações concretas e rostos comuns ao clima de tensão abstracta que desde pequenas havíamos respirado no bairro . tentarei resumir assim: não há gestos. o pai Silvio . e dizia: «Aquele foi à guerra e matou . a guerra. evidentemente . dizia-o de outra maneira. provavelmente ela própria dominada pela urgência de se sentir encerrada numa visão compacta.

e depois . e se a princípio era ela que ficava suspensa dos lábios dele . que trazíamos . a pés sujos . Os dois anos de escola secundária foram muito mais trabalhosos do que a escola média. pôr tudo em ordem antes que chegassem o pai e o irmão . Durante os primeiros meses vivi a minha nova vida escolar em silên­ cio .no sangue . depois de muitas gaba­ rolices («Sim. Gigliola. ela. conhecia Alfonso e Gino . Ela interrogava-me acerca das discipli- . a medo . À saída de casa. por um lado sofri muito porque sabia que já não disporia de tempo para Lila. ficamos na mesma carteira») . sujos e muito usados. que ia a correr para ir abrir a loja. e quase fizeram de conta que não me conheciam. pensava eu . lavá-la. 18. que amávamos . sim. com ar assustado . todos nós . até à hora de jantar. também ele derrotado pela capacidade de Lila de ligar uma coisa à outra. Quando recomeçou a escola. mas sentaram-se juntos numa das primeiras carteiras . um pivete ácido a suor. não só os professores como o que escreviam no quadro . carregada de livros . de certeza. agora era ele que ficava suspenso dos lábios dela.1 22 Elena Ferrante Depois Pasquale começou a ficar calado . Graças à professora Oliviero depressa obtive o s livros de que precisava. Sentada numa das filas de trás de onde mal via. Via-os passear juntos com frequên­ cia. Impus a mim própria uma disciplina que aprende­ ra na escola média: estudava toda a tarde . Está apaixonado . Pasquale . acabou por ir ajudar o pai na pastelaria dos Solara. continuarão a falar destas questões políticas . assim como ela era uma desconhecida para mim . das cinco da manhã até às sete .eu . mas por outro esperei desligar-me daquela sua avalia­ ção dos delitos e das cumplicidades e das cobardias das pessoas que conhecíamos . cotovelo com cotovelo . formando uma corrente que nos apertava por todos os lados . As raparigas eram pouquíssimas . Dos rapazes . sempre com os dedos na testa ou nas faces cheias de acne . e terão filhos que por sua vez falarão das mesmas questões . depois namoram. também vou para a escola secundária. Fui parar a uma turma de quarenta e dois alunos . Rino . A sala tresandava. depois casam-se . uma das raríssimas turmas mistas daquela escola. varrê-la. quando eram horas de ir para a escola. era uma desconhecida para a minha compa­ nheira de carteira. encontrava muitas vezes Lila. E depois pensava: também Lila se apaixonará. não conhecia nenhuma.

tinha a impressão de estar. ia-me virando para trás para lhe deitar um último olhar. Eu não fumava. quando me levantava ainda de madrugada e revia as lições na cozinha. e queria respostas preci­ sas . a sacrificar o sono quente e profundo da manhã para fazer boa figu­ ra com a filha do sapateiro . e de não ser capaz de responder aos professores. Até o pequeno-almoço era a correr por culpa dela. Nos poucos minutos do percurso revia as lições aterrorizada. no regresso da escola. E se não fosse ele . O metropolitano ia apinhado de rapazes e raparigas . sei lá.ela ia para a sapataria e eu para a estação do metropolitano . da sua própria boca. Contudo . Uma vez ou duas vi Pasquale chegar junto dela ofegante e acom­ panhá-la. Ou até . Se por acaso a avistava de longe . imediatamente . o dono da charcuta­ ria. e começávamos logo a falar. como de costu­ me . as leituras sobre o mundo horrível em que caíramos ao nascer. para não perder nem um metro do trajecto que fazíamos juntas . Por vezes . Stefano Carracci . Via-a vir do prédio onde morava e constatava que ela continuava a mudar. era Antonio .. dava uma grande volta para não passar em frente da sapataria. antes que Lila me anunciasse que andava com Pasquale . também o passo se tivesse tomado mais suave . com o espectro vesgo da minha mãe insatisfeita. E se não fosse Enzo . cheios de exigências . Se não lhas desse . metia por outra . Por isso . mais do que com os professores da escola dos ricos . era Enzo . como se . De dia para dia era mais forte a angústia de não ir a tempo . Olá. Receava. e os namorados . ou mesmo Marcello Solara. tinha agora uma única ideia firme: arranjar um namorado . olá. ao voltar da escola. ao tornear-se-lhe o corpo . Esperava à porta. Lila era imprevisível . Quando parávamos no cruzamen­ to e nos despedíamos . deixaria de ter tempo para mim. da carranca da professora Oliviero . Os tipos que an­ davam atrás dela eram quase homens.A Amiga Genial 1 23 nas que tinha nesse dia e o que tinha estudado . encontrá-la e ficar a saber. Em certas manhãs frias . imundos de sono e do fumo dos primeiros cigarros . Vivia apavorada com o possível insucesso na escola. atormentava-me com perguntas que me punham ansiosa com medo de não ter estudado o suficiente . Já era mais alta do que eu . Engolia à pressa o leite e o café e corria para a rua. como não era capaz de lhe responder a ela. não falava com nin­ guém. O seu andar já não era o da menina magricela que fora até alguns meses antes . que já fazia amor com Peluso . metia freneticamente na cabeça linguagens estranhas . entre o projecto dos sapatos . tons diferentes dos que se usavam no bairro .

os do liceu . com um andar bamboleante . um rosto que achei boni­ to e com qualquer coisa de familiar. Uma manhã fui interrogada sobre a Eneida . E já sabia o que aconteceria. Mas depois não resistia e ia ao encontro dela. fosse a verdadeira razão para lá ir. os sapatos cambados . mas depois mudei de ideias . que não tinham frio: cabelo à escovinha. Não apresentava qualquer sinal de abastança. Preferia esses . embora conhecesse o significado da palavra. o ferroviário-poeta. cabelos castanhos desalinhados . olhei mais uma vez e o meu coração parou . dezassete? Observei-o bem. angustiada. Decidi dedicar-me à imagem de Nino Sarratore em silêncio . ou apenas entrevê-lo . como se via em Stefano e. de certeza que me pedia para ir comigo à escola. um enorme edifício cinzento e escuro . embora tivesse escri­ to um livro de poemas . sempre a bocejar ruidosa­ mente . quase todos de casaco e gravata. Quantos anos podia ter? Dezasseis . alguns ainda de calções . gorda e furunculosa. nos Solara. sobre­ tudo a si próprios . O casaco estava deformado nos cotovelos . vivia num mundo onde nunca ninguém tivera motivo para . Olhava com insistência. nucas bran­ cas por causa do pescoço bem rapado .1 24 Elena Ferrante rua. e seguia pelo Corso Garibaldi . Fiquei muito perturbada por causa daquela aparição inesperada. Um dia reparei num aluno por causa do seu andar desengonçado . desatou a rir assim que eu pronunciei «oraculo» em vez de «orá­ culo» . era óbvio que ainda não ficara rico . para vê-lo . Não lhe ocorreu que eu . sobretudo . Nino não re­ parara em mim. para eles sentirem o meu olhar e olharem para mim. Olhava para os meus colegas da secundária. muito magro . À saída pensei em ir a correr contar à Lila. o essencial era que usasse calças compridas . olhava para os rapazes . Se lhe contasse . em péssimas condições . estreito de costas . O professor. mas distraído . homem dos seus sessenta anos . foi a primeira vez que fui chamada ao estrado . como de uma fatalidade . indolente . À entrada e à saída do liceu . outros de calças à zuava ou compridas . O pai . o filho de Donato Sarratore . Também olhou para mim. não me reconheceu . tinham de provar. A partir daquele dia fui para a escola como se vê-lo . quando ele saía da escola de cabeça em baixo . mas também me contentava com um do ano acima do meu . nunca de sobretudo . as calças puídas . um tal Gerace . Era Nino Sarratore . O Outono voou . mas reconheceria imediatamente Lila e ficaria fascinado . o impulso foi muito forte . não reconhecera a menina loira e esbelta da primária na adolescente de catorze anos . Olhava para os mais velhos . em que me transfor­ mara.

» Fez-me uma série de perguntas sobre as declinações . dei um suspiro de alívio . riquezas do subsolo . naturalmente . A partir daí foi um crescendo . Até o professor de Religião me chamou à parte . como se pronuncia aquilo . Lia-me o lado em . Disse que sim. populações . tive mais tempo . uma destreza na leitura. sapato!shoe .A Amiga Genial 1 25 pronunciá-la. perguntou: «Quem é a Greco ?» Levantei a mão . Mas ela atormen­ tava-me . ali na primeira fila ao lado de Alfonso . Toda aquela exaltante tensão teve uma pausa durante as férias do Natal . uma óptima maneira de aprender vocabulário . No trabalho de Italiano deu-me oito . Fui reabsorvida pelo bairro . e me perguntou se eu me queria inscrever num curso gratuito de Teologia por correspondência. a esperar por mim . Graças àquilo que aprendera com Lila. Passaram-se uns dias e fize­ mos o primeiro trabalho de Latim. uma desenvoltura na fonética. Aceitei . Tive nove . As minhas qualidades atingiram os outros professores como um dogma. agricultura. mostrei uma familiaridade com o alfabeto . Respondi aterrorizada. Um dia perguntou-me outra vez se podíamos ser namorados e eu . embora ele fosse um palerma. Todos se riram. sobre os verbos. Em cada um deles escrevera de um lado a palavra em italiano . principalmente Gino . Quando Gerace trouxe os trabalhos corrigidos . Descobrira que eu estudava inglês e . que finalmente arranquei um louvor público ao professor. Mas sobretudo em Grego . Sempre era melhor que nada. vi Lila mais vezes . uma manhã. Fora o professor Ferraro que a aconselhara a fazer assim . «Vem cá. Já conhecia imensas palavras . que pronunciava de modo impre­ ciso . para voltarmos juntos para o bairro . Depois entregou-me a folha sem qualquer comentá­ rio . perceber/to unders­ tand. Senti-me humilhada. arranjara uma gra­ mática. dizia-me : quando recomeçar a escola pergunta ao professor como se pronuncia isto . em Geografia soube na perfeição super­ fícies . Um dia levou-me à loja e mostrou-me uma caixa de metal cheia de pedacinhos de papel . e é claro que a minha pronúncia não era melhor. deixei-o de boca aberta. Por alturas do Natal já todos me chamavam Greco e alguns Elena. Gino começou a demorar-se à saída. sobre a sintaxe . e do outro a palavra inglesa equivalente: lápis!pencil. sobretudo porque ele olhava para mim com uma atenção que até àquele momento nunca dispensara a nenhum de nós . em História não errei uma data.

E uma tarde puxou de um comentário que me impressionou muito . como se an­ dasse numa escola secreta. que namorava com Gino . Falou-me pormenori­ zadamente de Dido . Dobrada em duas . comunismo . temi que fosse dizer-me: também eu namoro . por lhe terem estragado o trabalho com pegadas . Contou-me coisas sobre a sua parente . mas a ideia era essa. Vi que parecia estar mais adiantada do que eu em tudo . agora trabalhava que nem uma máquina. começava a gritar insultos. por isso continuava a lavar as es­ cadas dos prédios . como se nunca a perdesse de vista. lanço após lanço . rendeste-te . não é só a vida das pessoas que se toma árida. nazismo . Mas ela interrogou-me sobre as declinações gregas . e eu associei-a às nossas ruas sujas . e disse-lhe tudo de um fôlego. apaixonaste-te como a amada de Eneias» . e segundo . figura sobre quem eu nada sabia. e não na escola. começava do último andar e ia passando com as mãos o trapo molhado . ainda mais bonito agora do que era na primária. Mas . ia a meio do segundo livro . começou a gozar comigo . disse . que na minha escola andava Nino Sar­ ratore . apaixonara-se por ela. Em poucos dias a lera toda. eu preferia falar de outras coisas . à violência em cada casa. Disse: «Se não houver amor. Semicerrou os olhos. Se alguém descia ou subia. Depois passou bruscamente de Dido para Melina e falou-me muito sobre ela. «esperta.» Não me recordo como ela se expressou exactamente . para dizer a verdade .1 26 Elena Ferrante italiano e queria que eu lhe dissesse o equivalente em inglês . Mas eu sabia pouco ou nada. Descreveu-ma em por­ menor. beber a água . Mas não . passara-lhe a eu­ foria. en­ quanto eu . Também me fez perguntas sobre a Eneida . juntamente com Ada (o dinheiro que Antonio levava para casa não chegava) . quis dar-lhe a saber que estavam a acontecer-me coisas boas . e depressa deduziu que eu ia ainda na pri­ meira. em cada farm1ia. uma vez que eu pouco ou nada sabia do que acontecia nos prédios . Vivia na miséria com os filhos . aos jardins cheios de poeira. Contara-lhe Ada que uma vez vira a mãe no auge de uma crise . Notei também nela uma certa tensão . primeiro . aos campos destruídos pelos novos prédios . na escola. «Fazes amor com o filho do farma­ cêutico» . E não resisti . ao passo que ela já sabia a terceira. Mas já não se a ouvia cantar. com uma energia e uma agitação capazes de arrasar pessoas mais robustas do que ela. degrau após degrau . pois de manhã tinha escola e à noite estudava até tarde . mas também a das cidades. ouvi esse nome pela primeira vez da boca dela. Receei que ela recomeçasse a falar-me de fascis­ mo . atirava­ -lhe o trapo . queren­ do mostrar-me que estava à altura daquilo que eu estudava.

» «Porque ele explica-me as coisas que aconteceram antes de nós .» Mostrei-me pouco convencida.» «Sofrerão . Uma vez perguntei-lhe . mas de maneira diferente da primária.» Assim regressou o tema do «antes» . e a Eneias que a abandonou . Disse que nós não sabíamos nada.» «Não . nunca hei-de escrever um poema» . pensam todos em mim?» «Sim.» «É verdade . Estão a perceber? Pas­ so a passo . nunca. como fez Eneias .» «E o Pasquale .A Amiga Genial 1 27 suja do balde . depois voltei . . «Não acredito . incitou-me .» «Ü Stefano atende-me sempre em primeiro lugar. agora que tinha um namorado . aquelas conversas agradavam-me . e nunca. de Gino foi parar a Dido . com maldade: «Pois é muito fácil escrever poemas» .» «Vês?» «Não há nada para ver. e tivera de lho arrancar das mãos . como essa tal Dido . Fui-me embora. irão enamorar-se de outra. «E o Enzo ?» «Somos amigos .» «Mas haverá quem se apaixone por ti .» «E tu?» Fez um meio sorriso de desprezo . com cautela: «Ü Marcello Solara. «Conta-lhe a respeito de Melina» . que faz ele . declarou-se-te?» «Estás louca?» «Vi-o acompanhar-te à loja de manhã. nem em pequenas nem agora.» «Pior para eles . Depois acrescentou . «e diz-lhe que deve contar ao pai» . e por isso não estávamos em condições de compreender nada. Por fim começou a rir e prometeu com uma certa solenidade: «Eu nunca me apaixonarei por ninguém. sinal de que me es­ cutara com atenção . que significava: Marcello Solara mete-me nojo. que no fim se juntou à filha de um rei . E só naquela altura é que trouxe à baila Nino Sarratore . mesmo se a loja estiver cheia.» «E o Stefano?» «Na tua opinião . anda atrás de ti?» «Sim.

e para viverem tranquilos punham-lhe uma pedra em cima. E não só nós . sem saberem. sem nunca pensarmos nelas sequer. Nem do fascismo . E o mesmo fazia a mãe . nem de opressões . como ela. Passara as fronteiras do bairro . o dinheiro de dom Achille fora ganho antes . Encontrava-me com Gino. nos monárquicos . a charcutaria de Stefano antes era a carpintaria de Peluso . e ela elogiou-me . mecânicos . e também lá nos mandavam a nós . frequentava a escola secun­ dária. Naquele período senti-me forte. davam-lhes continuação . Ele comprava-me um bolo. comíamo-lo a meias . dávamos todos os dias um passeio até ao bar Solara. ou daquilo em que matutava nas conversas com Pasquale . apercebia-me cada vez mais de que o fazia com um certo acanhamento. mesmo pequenas coisas . e também lá nos metiam a nós . como se finalmente fosse ela que sentia necessidade de me demonstrar que era capaz de conversar comigo . todas as coisas . a mesma coisa. nas coisas de antes. As férias passaram-se a falar continuamente . 19. Nem de injustiças . o pai de Pasquale . no pátio . vendedores de fruta. E o dinheiro dos Solara. Não sabiam de nada. Às vezes até tinha a impressão de que Lila é que dependia de mim. nem do rei . E no entanto . contei à professora Oliviero os meus sucessos. e Rino também. ou da terceira declinação. O pai dela fazia de conta que não existira nada antes . na sapataria. não queriam falar de nada. e assim. e também a minha mãe . nem de exploração . no entanto estavam metidos nelas . Na escola comportara-me de forma perfeita. o meu pai . remendões . estava com rapazes que estudavam Latim e Grego e não com pe­ dreiros . Ela fizera a experiência com o pai e a mãe . cada pedra ou pedaço de madeira. E pensavam que o que acontecera antes era passado . conforme os Solara queriam que eles fizessem. mas nós tínhamos crescido sem nos apercebermos delas . E vo­ tavam nos fascistas . charcuteiros e sapa­ teiros. e não eu dela.1 28 Elena Ferrante que todas as coisas do bairro . Con­ támos tudo uma à outra. Quando me falava de Dido ou do seu método para aprender vocabulário inglês . na rua. e foi reconfortante . passavam por cima disso e iam gastar o seu dinheiro na loja do filho de dom Achille e na dos Solara. já ali estavam antes de nós . Odiavam dom Achille e tinham medo dos Solara. Todavia. E no entanto . Aquela conversa do «antes» impressionou-me mais do que as conver­ sas tenebrosas para as quais me arrastara durante o Verão . voltávamos para trás .

» «Só tu é que sentes a humidade .» O irmão mostrou­ -se contrariado . do­ brava-os . Lila fez uma careta de desagrado . e fê-la andar um bocado dentro de água. fui-lhes elogiando o trabalho com entusiasmo . Quando foram remexer numa arrecadação e apareceram com um embrulho .» Depois tirava-me os sapatos da mão .» .» «Não» . mostrava-me a resistência que tinham . Enquanto me deixaram tocar-lhes e me apontavam as suas qualidades .» Apalpei . «Apalpa aqui» . Temos de descolar e de descoser tudo outra vez . Eu aprova­ va. «Ela tem de brincar» . «Viste? Basta um minuto na água para ficar húmido .A Amiga Genial 1 29 de igual para igual . Apalpa. castanhos . com alguma indecisão. meteu a mão num dos sapa­ tos como se fosse um pé . como fazia a professora Oliviero quando nos queria encorajar. respondia eu . com um aspecto leve e robusto ao mesmo tempo . A medida era 43 . não pode ser. disse-me Rino . fez uma expressão preocupada e perguntou: «Então?» Lila retirou a mão . esfregou os dedos e estendeu-lhe o sapato: «Apalpa. em que ponto estava o sapato secreto que andava a fazer com Rino . Mas Lila não parecia satisfeita. Pareceu-me antes que tanto ela como o irmão hesitavam em falar-me de coisas de tão pouco valor. séria: «Experimentemos outra vez com água. como um irmão mais velho que se aborrece com as criancices da irmã mais pequena. Nunca vira nada daquele género nos pés de ninguém. «não se sente . o número de Rino e de Fernando . já não senti que ela habitava uma terra maravilhosa de onde eu estava ausente.» Rino enfiou uma mão e disse: «Está seco . disse . encorajei-os com fingimento. dizia «formidável» . exactamente como os recor­ dava de um desenho de Lila. Quanto mais qualida­ des o irmão apontava. Mas quando viu Lila tirar o sapato da água. mais defeitos ela me mostrava. Mas o par de sapatos de homem que me mostraram pareceu-me realmente fora do comum.» «Está húmido . dizia Ri no . esti­ mulada pelos meus elogios . Até mesmo uma tarde em que resolveu mostrar-me . «Está um pouco húmido» . Mas ela encheu uma bacia. e dizia a Rino: «Quanto tempo leva o papá a descobrir estes erros?» A certa altura disse . Lenu . largava-os. Ou então era eu que começava a sentir-me superior a eles . «e diz-me se a costura se sente .

e sobretudo mais do que os Solara. que aos seus olhos se haviam toma­ do o modelo de homem jovem a imitar. matava-a. Porém agora. por um lado desorientada por aquela fúria de um jovem habitualmente gentil . não se conseguiu conter e explodiu numa série de impropérios e insultos dirigidos à irmã. e o irmão era uma pedra importante dessa realiza- . Um patrãozi­ nho . já se via como proprietário da fábrica de calçado Cerullo e não queria voltar a ser sapateiro-remendão . muito mais do que os irmãos Solara. E não só: sofreu uma espécie de transformação diante dos meus olhos . lançando fogo-de-artifício em quantidade. mas às vezes era bastante dura com ele. Agarrou no pé de ferro . para conseguir representar o papel deles . queria dar-se ares daquilo que não era. agora apostava demasiado nisso . Nos dias que se seguiram descobri que o acne estava a secar. Fez-se-lhe a cara vermelha. disse-me Lila. julgava-a realizável. «Estás muito bem. às vezes agressivo . e mesmo a superar. Lamentou-se que assim nunca mais se acabava. e se o tivesse feito a sé­ rio . é a satisfação que a escola te dá. fingiu que lho atirava. 20 . Ela própria acreditava nessa fantasia. e é o amor» . Aproximava-se a festa da passagem do ano e a Rino deu-lhe a mania de lançar mais fogo-de-artifício do que todos. e por outro orgulhosa. Lila troçava do irmão . Alguém que já podia dar ao bairro um primeiro sinal da sorte que o novo ano lhe traria. a ser escravo do pai e a ver os outros enriquecerem. Sempre lhe parecera apenas generosamen­ te impetuoso . era uma faceta de Rino que ela não conhecia. Sentia-se perto da riqueza. Eu fui-me embora. que a princípio duvidava da possibili­ dade de ganhar muito dinheiro com os sapatos . mas não fanfarrão . inchou em volta dos olhos e nas maçãs do rosto . como acontecera com Carmela e as outras raparigas do pátio: talvez eu lhe tenha metido na cabeça uma fantasia que ele não é capaz de controlar. por o meu parecer se ter revelado credível e decisivo . Disse-me que achava que o irmão . Lila nunca disse . Gritou que não queria ficar para sempre naque­ le sítio asqueroso . o que é um bocadinho de humidade?» Rino enfureceu-se . e achei-a um pouco triste . Isto preocupava-a.1 30 Elena Ferrante «Mas que porra. mais . Repreendeu Lila por tê-lo encorajado primeiro e desencorajado depois . Pessoas que ele invejava e que via como inimigos a abater.

e Rino depressa se rebelou . À meia-noite punha na minha mão . mas ela própria me contara. Onde é que vai buscar dinheiro para o fogo-de-artifício?» Era verdade . No final atirava também a garrafa para a rua. e como era costume . não tínhamos dinheiro . o assobio dos foguetes . Juntava-os todos na zona . tinha tendência para se exce­ der. quem tinha mais dinheiro é que dis­ parava mais . Como naquela competição com os Solara. o ferrinho das estrelinhas ou de uma girândola. em minha casa o contributo para os fogos do fim do ano era pobre . provocava tosse . que não sabia enfrentar as difi­ culdades com os pés bem assentes na terra. indo à caça deles assim que terminava o caos dos festejos . O fumo denso da pólvora tornava tudo nebuloso . como não podia partir a cara aos Solara por fazerem a corte à irmã. os Greco . talvez lhes quisesse mostrar a sua força com o fogo-de-artifício . Mas afirmou muitas vezes que faltava firmeza a Rino. Marcello So­ lara passava e voltava a passar todos os dias em frente da sapataria. acendia-a e eu ficava imóvel . as canhonadas dos petardos contra as paredes . entusiasmado . excitada e temerosa. fazendo-se parva. por exemplo . Em casa de Lila também soltavam pouco ou nenhum fogo . Luzes ofuscantes . «Se calhar tem ciúmes do Marcello» . A noite de fim de ano era uma noite de batalha. tanto que dis­ sera muitas vezes à irmã: «Não te atrevas a dar confiança àquele pedaço de merda. Nós . «Que dizes?» Riu-se . estás a ver como tenho razão?» «Razão em quê?» «Que ele se tornou um fanfarrão . O meu pai comprava uma caixa de fitfit.A Amiga Genial 131 ção . tudo isso tinha custos. não queria tratá-lo como um garoto que não sabe gerir os seus sonhos . disse eu uma vez . outra de rocas e outra de mini-foguetes . fazia arder os olhos. era seis anos mais velho do que ela. por ser a mais velha. fazia subir para o céu o sibilo luminoso . no bair­ ro e em toda a cidade de Nápoles. E queria-lhe bem. «Se assim for. a olhar para as faíscas . Mas o estralejar das bombinhas . tanto a pé como no 1100.» Quem sabe . sobre o mármore da janela. entrava nas casas . breves remoinhos de fogo a pouca distância dos meus dedos . e Rino devia ter dado por isso . Desde os doze anos que tinha por hábito ir passar a meia-noite com pessoas mais audazes do que o pai . Ele entretanto enfiava a haste dos foguetes numa garrafa de vidro . acendia a mecha com a brasa do cigarro e . explosões . e tinham fama as suas tentativas de recuperar petardos que não tivessem explodido .

não Al­ fonso . Mas era sabido . mas Stefano . Só o desfeava um pouco a bata branca manchada de gordura. As coisas tiveram uma pequena e inesperada alteração . para juntar um arsenal que fizesse pelo menos boa figura.que com os Solara ninguém podia concorrer. charcutaria. Preparámo-nos para uma longa espera. um gesto de saudação . Por isso se atarefou a recolher dinheiro aqui e além para comprar fogo-de-artifício .» Alcançou-nos . Rino observava­ -os da loja com rancor e entretanto negociava com Pasquale . no máximo qualquer festarola a que não se podia dizer que não . Respondi .ele tam­ bém sabia. Tinha uma expressão tranquila. que tinha mais um bocadinho de dinheiro . inequivocamente a mim . com o porta-bagagem cheio de explosivos . deitava-lhes fogo e divertia-se a ver as chamas altas . que nos fez um sorriso embaraçado . mancha grande . faziam uma vida muito recatada: igreja. há que admitir também que Rino talvez quisesse vin­ gar-se da sua infância pobre . mesmo depois do assassinato do pai . um sorriso cordial . assustariam cães . a mandado das nossas mães . apesar da mania da grandeza que o atacara . uma . pagámos o que era devido a dona Maria e fomo-nos embora. o próprio Stefano . e trac ­ -trac trac a explosão final . havia dias que os dois irmãos andavam para cá e para lá no seu 1100. olhando para Lila: . Mas poucos passos tínhamos dado quando. para aquele desafio no final do ano de 1 95 9 . e disse qualquer coisa ao ouvido do irmão . Demos-lha e ele retirou-se . Metemos tudo nos sacos .1 32 Elena Ferrante dos pauis . A loja estava cheia de gente . Entre as muitas razões . Falou com as duas . com Anto­ nio e sobretudo com Enzo . claras e secretas . Daí a cinco minutos as nos­ sas compras estavam prontas . Como acontecia todos os anos. mas a olhar para mim: «Querem vir festejar o ano novo a minha casa? Alfonso gostaria muito. Mas Stefano dirigiu-me . além de Stefano e Pinuccia estava também Alfonso .» A mulher e os filhos de dom Achille . e fariam tremer os prédios desde as caves até aos terraços que os cobriam. gatos e ratos . de uma vez em que não se chegou para trás a tempo. . quando Lila e eu fomos . em dialecto . O meu colega de escola veio até fora do balcão e perguntou-me se tínhamos a lista das coisas que íamos comprar. Aquele convite era uma novidade . A atender ao balcão . Tinha ainda uma cicatriz escura na mão . fazer as compras para a ceia à charcutaria de Stefano Carracci . que na noite da passagem do ano matariam pássaros . casa. me chamou com a sua bonita voz de homem feito: «Lenu .

» «0 que estás tu a dizer? Ele nem sequer olhou para mim. também vêm festejar a nossa casa. e para os foguetes vamos para o terraço. No entanto . também ela es- tava desorientada. dizendo coisas do género: «Ele faz isto por ti . Olhei para Lila. vida nova. A casa é grande . com um olhar muito intenso .» Aquela frase deveria eliminar qualquer outro argumento .A Amiga Genial 133 «Já estamos comprometidas .» «Está apaixonado .» O rapaz dirigiu-se de novo a mim: «Venham todos para minha casa e prometo-vos que quando romper o dia ainda estamos a lançar foguetes. e para te ter em casa convida até os comunistas e os assassinos do pai . venham todos: bebemos espumante . dançamos . e o filho de dom Achille não podia convidar os filhos de Alfredo para brindarem ao novo ano em sua casa.» 21 .» «E o fogo-de-artifício?» «0 que queres dizer?» «Nós trazemos o nosso .» «Não . e retorquiu no tom que se usa para as coisas óbvias: «Está bem.» Lila interveio .» .» «Depois dêem-me a resposta. Ano novo . Alfredo Pe­ luso estava em Poggioreale por ter matado dom Achille . e digam aos vossos pais . e tu?» Stefano sorriu: «Que quantidade queres?» «Muitíssimo . em tom decisivo: «0 Pasquale e a Carmen Peluso . por ti . e a mãe . Durante todo o caminho não fizemos senão rir a bandeiras desprega- das .» «Digam também ao Rino . Stefano olhou para ela como se até àquele momento não a tivesse visto . Murmurou: «Temos de falar com o meu irmão . vamos juntar-nos com o irmão dela e outros amigos .» Aquelas palavras sensibilizaram-me .

» «Casar-se ele com a Carmela?» «Mais do que isso . o meu pai foi aquilo que foi . misturando factos reais e suposições . e falou disso a Pasquale . pareceu-lhe ter encontrado a solução . Não queria fazer de conta que nada acontecera. Mas a vontade de vencer os Solara fê-lo hesitar. E pouco a pouco . Lila achava que ele tinha outra coisa em mente . mas também Stefano . murmurou: «Está bem. «Não sei . Queria tentar sair do antes . pois para eles dom Achille já não existia e os filhos e a mulher eram pessoas de bem e respeitáveis . intrometendo-se assim na vida dos Carracci e fazendo com que Stefano parecesse não saber defender a memória do pai . Lembrámo-nos de quando Michele fizera com que mandassem Pasquale embora da festa em casa da mãe de Gigliola. o bairro .» Conversámos sobre o assunto à nossa maneira. Depois apareceu em minha casa uma tarde . E portanto agora ele agravava a acusação .» «Perdoar?» Lila abanou a cabeça. «Lembras-te de quando eu disse à Carmela que podia namorar com o Alfonso?» «Sim. Estava a tentar perceber. Stefano não parecia um tipo capaz de perdoar. como se tivesse esquecido onde estava. O Stefano não me quer a mim nem a ti . Quer fazer um gesto que aqui no bairro ninguém faria. com ar de quem percebeu tudo . e tê-las como amigas era uma honra. convidando-os mesmo para sua casa na passagem do ano . e perceber era uma coisa de que muito gostávamos . nessa ocasião os dois irmãos não tinham humilhado ape­ nas Pasquale . e disse-me: «Enganámo-nos. vou . como faziam os nossos pais . ficaram muito felizes com aquele convite . está­ vamos as duas a tentar perceber. e mais . não convencida. na opinião de Lila. partindo de uma das suas ideias fixas dos últimos tempos . Pensando bem. Lila a princípio parecia baralhada. perguntei a Lila. estamos cá nós . queria apagar tudo . as ruas . Se puder. que ficou furioso .» Stefano .» Quanto aos nossos pais .1 34 Elena Ferrante Rino ouviu a proposta de Stefano e disse imediatamente que não . por sua vez. a sapataria. para os arreliar: fazia definitivamente as pazes com os Peluso . Enzo . mas agora estou cá eu . isto é . o que queria? Pensámos que Ste- fano também pretendesse dar uma lição aos Solara. «E o que ganha com isso?» . mas sim pôr em prática uma frase do tipo: bem sei .» «Ü Stefano tem em mente algo desse género . Se não nos queria a nós . desde que começara a discutir assuntos com Pasquale .

disse eu . Essa hipótese agradou-nos . queria que todo o bairro compreendesse que ele não era dom Achille . como se estivesse na escola. em parte por convicção e em parte por estar claramente com ciúmes do inesperado protagonismo de Stefano nas palavras de Lila: «Eu estou do meu lado e mais nada. Pasquale e Antonio gaguejaram qualquer coisa. e que os Peluso também não eram o ex-carpinteiro que o matara. às 23 : 3 0 . Mas preferem estar do lado de quem quer mudar ou do lado dos Solara?» Pasquale disse com altivez . a Pasquale .» Falei muito emocionada. a família de . no dia 3 1 de Dezembro . Disse . uns de uma maneira. que era como se ele estivesse a dizer: antes de nós aconteceram coisas horríveis. e dirigiu-se ao pároco . Giuseppina. «Melhores» . Pasquale tentou até responder­ -me em italiano . de­ pois da ceia de ano novo . os nossos pais . e sentimos um impulso de grande simpatia pelo jovem Carracci . E assim. de reduzir os conflitos. Resumindo . triste: «0 dinheiro com que o Stefano está a ganhar mais dinheiro é o que o pai dele ganhou no mercado negro .» Lila fez os olhos pequeninos . quase não se viam . desenvolta. que fazem pior do que o avô e o pai . falou muito tempo com Maria.A Amiga Genial 1 35 nada. a Antonio . a partir de agora. Foi falar com a mãe . tomemos nota disso e mostremos que nós . exuberante . «ao contrário dos Solara. embaraçados . não se comportaram bem. a do vendedor de fruta e hortaliça. tomámo-la logo por uma certeza. O pároco passou pela loja de Ste­ fano . «Melhores?» . Deci­ dimos tomar o partido dele . pensou e voltou a pensar. diversas farru1ias .a família do porteiro . interessado . outros de outra. «Isso é verdade . triste com a sua má sorte . mas logo desistiu . depois da prisão do marido transformara-se numa mulher deprimida. e foi falar com Giuseppina Peluso novamente .» Mas era bom rapaz . que por trás dele existiam sig­ nificados importantes . e se fossem capazes . A própria Lila me deitou um olhar admirado . por ocasião do ano novo . a do sapateiro . Por fim convenceram-se todos de que a vida já era bastante difícil . dantes uma incansá­ vel trabalhadora de bom carácter. somos melhores do que eles . perguntou Rino . discutiu o assunto com toda a farru1ia. que o convite de Stefano era mais do que um convite . era melhor para todos . O estabelecimento onde está a char­ cutaria é aquele onde era antigamente a carpintaria do meu pai . Em seguida explicámos a Rino . em italiano . os filhos . e Rino .

Quando lhe pedira para ir ter comigo a casa dos Carracci respondera que não podia. Mas pareciam todos absorvidos pela festa do fogo-de-artifício à meia-noite . tinha o rosto um pouco vermelho da agita­ ção . que não dizia uma palavra. o nariz com­ prido . Aguardavam a sua guerra entre homens e nem sequer a Lila davam atenção . 22 . até à velha casa tão odiada de dom Achille . era coisa pouca. e tremíamos de frio e de excitação . Enzo . Antonio . mas estava bem penteada e. e não um miúdo . mas não me ouviu ou fingiu que não ouviu . tinha os olhos irrequietos . parecia uma grande dama. com maneiras de príncipe . cheio de estrelas e de trevas . o copo da mãe . e depois subimos em bando para o terraço . À meia-noite o dono da casa encheu de espumante . Apalpava com nervosismo os brincos . Pasquale .1 36 Elena Ferrante Melina. Ada e Carmela tínhamos os vestidinhos finos que usávamos para os bailes. para festejarem o novo ano juntas . andei de roda deles toda a noite . que se arranjou muito bem para a festa . Stefano recebeu-nos com muita cordialidade . Já se ou­ viam os primeiros sibilas dos foguetes . Apercebi-me de que o único que se demorava indolentemente lá em baixo era Alfonso . Corri para cima. Achei-o muito bonito . Lembro-me de que se tinha penteado com esmero . que sulcavam o céu e explodiam em flores coloridas . porque fazia muito frio . Encontrei um céu tremendo por cima de mim. Eu queria um namorado crescido . Rino . Pasquale e Enzo mesmo em mangas de camisa. eu . e queria que os olhos deles me dessem prova disso . porque os pais não o deixavam sair depois da meia-noite . queria um como aqueles rapa­ zes . Stefano foi particularmente gentil com a senhora Peluso e com Meli­ na. o da mãe de Pasquale . Brindámos às coisas maravilhosas que aconteceriam no novo ano . gravata e um colete de malha azul . Stefano . Lila. era perigoso . a pulsei­ ra de prata da minha mãe . Chamei-o por boa educação .subiram aos grupi­ nhos até ao quarto andar. em primeiro lugar. vestia uma camisa branca. Os rapazes estavam em pulôver. Começara a sentir-me bonita de novo . sem mangas . Olhei para eles . que era da minha idade . Calculei que teria mais sete anos do que eu e Lila. e logo a se­ guir. Já se ouvia o baque das coisas velhas que voavam . os velhos e as crianças com sobretudos e éc harpes . gelado . com os brincos e o seu velho vestido preto de viúva. e pensei que ser namorada de Gino .

Todo o bairro estrepitava. as risadas . os gritos . os fa­ miliares . Pasquale . Se houvesse uma guerra civil . Entretanto os fósforos luzi­ ram. estavam. e também Lila. como as que houve entre Rómulo e Remo . que se mostrava muito animado . Alfonso também ajudou . A varanda dos Solara tornou-se . e por Rino que tirava bombinhas aos meus irmãos e as usava. com excepção de Alfonso . mas tam­ bém o meu pai . e que o empurrava com maus modos . mais visível. os adultos acendiam cigarros uns aos outros com as mãos em concha. Alfonso retraiu-se . cada vez mais agitado e a gritar alto . A fúria cintilante da cidade atenuou-se lentamente . lhe tirava as coisas . tratando-o co­ mo um miúdo . reagindo às incitações do irmão com gestos de contrariedade . mas com enfa­ do . aquelas mesmas poses .digamos . que estrondo . Depois . Eu acendi os fitfit e as rocas às crianças .começa­ ram a movimentar-se no escuro e ao frio . caramba. embora por entre os clarões . de reabastecer todos de munições constantemente . Por fim. num clima festivo de excitação crescente . porque as lançavam sem esperar que a mecha pegasse realmente fogo . sérios e cordiais . a golfada de fogo jorrou com um frufrulhar colorido . e também o sapateiro . gritando que eles as desperdiçavam. tal como nós . pensei . conversando . Lila con­ venceu Melina a acenderem juntas um fogo-de-bengala. orgulhosos de todas aquelas munições que tinham conseguido reunir. entre Mário e Sila. acendendo mechas e lançando fogos-de-artifício do parapeito para baixo ou para o céu . arrumaram séries de foguetes dentro de gar­ rafas vazias enfileiradas . encarregou-me a mim. das buzinas . entre César e Pompeu . apenas perturbado pelos gemidos lânguidos mas assustados de Melina. Encontravam-se a pouca distância. Rino . os filhos . os novos e os menos novos . gostava de ver nos olhos delas o espanto assustado que eu sentira em pequena. embora através do fumo . O pai . Todos os rapazes . Ada e Carmela. Gritaram ambas de alegria e no fim abraçaram-se . dei­ xando emergir o ruído dos automóveis . Pareceu-me até intimidado por Rino . Reapareceram am­ plas zonas de céu escuro . vá. que era o mais velho . lançando petardos . os amigos . Rino . vá. de gritos tipo viste estas cores . os meus irmãos Peppe e Gianni . mis­ turando-se cada vez menos com os outros. dominados pelo desejo de . os mais novos . encheram as camisas de bombinhas e de petardos . antes da batalha eles teriam feito aqueles mes­ mos olhares . extinguiu-se .A Amiga Genial 1 37 pelas janelas . mais do que zangar-se . Enzo e Antonio transportaram caixotes e caixas e cartuchos de explosivos. víamo-los . Stefano .

a tremer de frio . e faziam gestos obscenos na direcção da varanda dos Solara. da varanda chegavam obscenidades entusiásticas . gritando insultos e lançando petardos às paredes . Rino. Mas . tens disto . A cada lançamento . enquanto a mãe berrava de terror e lhe ralhava: «Desce daí. só no momento em que ficassem a ser eles os senhores absolutos da festa. As explosões provocadas pelos Solara eram cada vez mais fortes .138 Elena Ferrante caos . o fogo intensificou-se bruscamente . absorta pelo espectáculo como por um enigma. Stefano . aqui . tremia. de surpresa. gritou Rino a Stefano . a rir. Ada bufou de raiva. Estávamos sozinhas . fora de si . raparigas . Estava a acontecer-lhe aquela coisa a que já fiz referência e a que ela depois chamou desmarginação. Correu para um canto onde depositara um caixote em que nós . em vez de subir para o céu . Da varanda. e as outras começaram também a retirar dali as crianças . Foi . A um foguete dos Solara eles respondiam com outro foguete . tens disto . E assim foi . Nós olhávamos para os seus frenéticos vultos escu­ ros . pedaço de bosta. fez-lhe sinal para se acal­ mar. com um clarão vermelho estrondoso e um fumo sufocante . Um foguete deles. cabia-lhe a ela levá-la para casa. aqui . «Pascà. a coxear. que eles só se soltariam deveras quando os pobretanas tives­ sem dado por terminadas as suas festarolas e os seus rebentamentos in­ significantes e os seus chuviscos de prata e ouro . sobretudo se o petar­ do fazia um barulho de destruição .como se numa . não sei . «Fizeram de propósito» . A minha mãe seguiu-os imediatamente . «Enzo» .» Nesse momento o pânico apoderou-se de Melina. rebentou contra o parapeito do nosso terraço . aproximou-se e levou a mulher para baixo . senão cais lá em baixo . uma silhueta escura no ar gelado . havíamos sido proibidas de tocar. dêmos-lhes a ouvir. A certa altura Rino pôs-se em pé sobre o para­ peito . e dali se abasteceu . que começou a gemer. convi­ dando os outros a fazerem o mesmo . estava em silên­ cio . e lá em baixo a rua flamejava. gritou . Até o meu pai fora para baixo . e no céu abriam-se corolas maravilhosas .» Todos acorreram . com o sapateiro . Repetiam: sim . depressa.disse-me ela . sem uma sombra sequer dos tons de voz subtis do co­ merciante. Anto . Stefano . dêmos-lhes a ouvir aquilo que nós temos . o céu e a rua recomeçaram a explodir. Pasquale . No bairro todos sabiam que o que acontecera até àquele momento era pouco. Lila. a bombinhas com bombinhas . Antonio e Rino come­ çaram a responder com novos lançamentos e idênticas obscenidades . mas Alfon­ so fez-lhe um sinal . sem nada para fazer.

Nós . Ali . honesto. desde que ela tinha memória. mostrando-lhe aquilo de que ele era realmente feito . a ajudara. teve a impressão de que. Fez um grande esforço para se controlar. naquele tumulto de explosões e cores .o mais activo . corroesse a circunferência do círculo lunar e desfigurasse o disco brilhante . admirados com a sua generosidade . Ela. a sua expressão de medo crescente . ou Rino . uma massa escuríssima de tempestade avançasse pelo céu . A verdade é que . Mas não . Rino perdeu a fisionomia que sempre tivera desde que ela se lembrava.. Naquele momento sentia-me mais próxima de Carmela. reduzindo-o à sua ver­ dadeira natureza de tosca matéria insensata. por entre os fumos que queimavam as nari­ nas e o cheiro agressivo do enxofre . creio . e . e a matéria expandiu-se como um magma. Mas foram impressões em que só voltei a pensar depois . que se espalhava a si próprio em redor. Lila imaginou . sobre o mar. sentiu . Competiram com os Solara durante não sei quanto tempo . faíscas . explosões de um lado e do outro como se terraço e varanda fossem trincheiras . enquanto eles corriam a apanhar cilindros com grandes rastilhos . que geralmente nada temia. todas as mar­ gens caíam. ali ao frio . nos pusessem o braço em volta dos ombros . nos pressionassem o flanco contra o flanco e nos dis­ sessem palavras lisonjeiras . espantados com a reserva infin­ dável de Stefano . fumo . à medida que Rino se movia. no ar gelado . Diante dos seus olhos . por isso estávamos bem aconche­ gadas umas às outras para nos aquecermos . a divertira. o mais gabarola. Teríamos preferido que Stefano . Como sempre . sem essas atenções nada significávamos . no meio de explo­ sões violentas . as feições agradáveis da pessoa em quem confiava. exerceu sobre ele uma pressão tão intensa que lhe despedaçou os contornos . de Ada.A Amiga Genial 1 39 noite de Lua cheia. qualquer coisa violou a estrutura orgânica do seu irmão . pouco ou nada da sua angústia se manifestou exteriormente . explosões .o irmão desfazer-se. ou Enzo . parecia estar assustada com isso. o que gritava com mais exagero insultos ferozes na direcção do terraço dos Solara . no meio do caos . as suas margens . viu . lhe dei pouca atenção . a protegera. e ela própria. com repulsa. acabassem com a guerra. Impres­ sionou-me . pela simples satisfação de ganhar o desafio . Cada segundo da­ quela noite de festa lhe causou horror. do que dela. a fisionomia do rapaz generoso . se iam tornando moles e maleáveis . engolisse toda a claridade . o perfil amado de quem desde sempre . perturbados pela quantidade de dinheiro que era possível transformar em rastos luminosos .como se fosse verdade . Também reparei que olhava fixamente o vulto do irmão . parecia não ter necessidade nenhuma das atenções masculinas . pelo contrário . mas conseguiu .

» Mas Enzo . os nossos continuaram. chegámos lá abaixo a gritar. foi o primeiro a empurrar-nos para dentro . sobre­ tudo . céu arrombado . continuou . fez-se silêncio . por gritos e insultos. como eu já disse . saltando ou abraçando­ -se . e passeá­ mos pelo bairro . raparigas . Já não se percebia nada. não têm mais nada» . descurei Lila. de cujos corpos emanava uma chama mais ardente do que a dos fogos no céu . Mas durou pouco . vibrou . e pelo torveli­ nho dos rapazes . que percebeu de imediato o que se estava a passar. por carros que avançavam pelas ruas pejadas de detritos . evitando a sapataria. Daquela noite . Tomou-se mais preguiçosa. Mas sobretudo . estavam a disparar sobre nós . chegaram-nos uns ruídos secos . até não haver nem mais um rastilho sequer para quei­ mar. também Stefano . embora ainda não tivesse escola. mas ela não apareceu .» «Mas porquê?» «Já não me apetece . Mesmo quando Enzo gritou: «Eles terminaram. Rino . Nós . Dois dias depois levantei-me cedo . Contudo . foi interrompido por um choro distante de criança.1 40 Elena Ferrante todo o bairro estremeceu . Então ergueram todos um coro vitorioso .» «E os sapatos novos?» «Estão em banho-maria. 23 . debruçando-se do parapeito do terraço . foi então que ocorreu a sua primeira mudança interior. berrando-lhe insultos por sua vez . Não me apercebi daquilo que lhe aconteceu . estrondos . Só Rino continuou a lançar insultos ferozes . para ganha­ rem a competição . Rino gritou .» «E então?» . Os Solara. para ir com ela abrir a loja e ajudá-la a fazer as limpezàs . amuada. e depois dele também Pas­ quale . vidros esmagados . pah . E depois vimos clarões na varanda dos Solara. pah . Chegou atrasada. Mas das consequências dei-me conta quase de imediato . a alteração era difícil de perceber. decepcionado: «Estão a reco­ meçar. e então Lila afastou Pasquale e correu para puxar o irmão para dentro . muitas coisas me escaparam. transtornada pelo clima de festa e de perigo . «Não vais trabalhar?» «Não . Por fim acalmaram-se .

Rino deu-lhe uma bofetada e gritou: «Então vai para casa. que o pai examinaria os sapatos e os deitaria fora. e Lila não con­ seguia fazê-lo raciocinar. A única certe­ za é que parecia muito preocupada com o irmão . «fi-lo acreditar que a sorte está ao virar da esquina . uma meia com rebuçados e chocolates . ele achava que já estava pronto . mas ele não queria esperar mais . O par de sapatos que tinham feito em conjunto . começou a admitir. era apenas um remédio para evitar que o irmão se metes­ se em sarilhos . E foi justamente a partir dessa preocupação que começou a alterar as suas conversas sobre a riqueza . o que a comovera. reforçava.A Amiga Genial 141 Tive a impressão de que ela nem sabia o que queria. como Stefano . excepto para ele . Rino na verdade enervava-se . sobre isso não havia discussões . e queria mostrá-lo a Fernando . e logo nos primeiros dias de Janeiro assisti a mais uma briga feia. por exemplo . Nem se despediu de mim e foi para casa. Agora falava de dinheiro sem qual­ quer brilho . Consertava sobretudo a cabeça de Rino . ela rea­ giu com um insulto feio . Mas o irmão zangou-se . O auge do conflito deu-se no dia da Befana. se transformara em cimento: consolidava. Continuávamos a ter pressa de ficar ricas . Então ele puxou-a por um braço . Mas Lila sabia bem (e dizia que Rino também sabia) que o trabalho estava cheio de defeito s . na ideia dela. Ela. nunca repreen­ deu Lila por ter deixado de ir para a sapataria. Pelo contrário . Agora parecia que o dinheiro .» Mas como ao virar da esquina não estava.» Lila respondeu-lhe que isso nem lhe passava pela cabeça. pelo menos comigo . Por isso . quando viu que a mesa não . aquele filho era o seu ai-jesus . Com­ preendeu que fora Rino e pôs a mesa do pequeno-almoço para todos . magicava com olhos de má no que havia de inventar para acalmá-lo . tinha urgência em ser como os Solara . «Tudo por minha culpa» . De repente pareceu-me até que a riqueza em si mesma já não lhe interessava. mas o ob­ jectivo já não era o mesmo da infância: nem arcas do tesouro . muito mais do que a vira ultimamente . Rino aproximou-se de cabeça baixa. deu-lhe a entender que se sentia satisfeito por ela ficar em casa a ajudar a mãe . Por isso lhe dizia que era preciso tentar e voltar a tentar. que o caminho para chegar à fábri­ ca de calçado era um percurso difícil. consertava isto e aquilo . segundo parece .» Ela obedeceu . Apareceu a mãe: o filho deixara-lhe . vai ajudar a mãe . pendurada numa cadeira. nem brilhos de moedas e pedras preciosas . barrou-nos o caminho e disse-lhe: «Vem já trabalhar. acordou e encontrou ao lado da cama uma meia cheia de carvão . Fernando .

que ela tives­ se apreciado a partida. apareceu o irmão . ela agora tinha um irmão desmarginado . no meio do fumo e dos estalos: Rino perdera o seu perfil habitual . por dentro e por fora. Tirou-os . Rino riu-se . disse . por seu lado . evitar o aces- . Rino decidira sozinho mostrar ao pai os sapatos novos . «São realmente cómodos» . disse .1 42 Elena Ferrante estava posta para ele . disse a mulher. «Quem fez estes sapatos é um mestre» . queria sair da cozinha. Lila. Fernando . Naquele sorriso. e depois o do esquerdo . andou para a frente e para trás na cozinha. acrescentei isto . como se fossem uma prenda da Befana. que nada sabia sobre a história dos sapatos . feitos em segredo pelos dois filhos. examinou-os por cima. «Que bonitos que são» . «São sapatos de gente fina» . com uma caixa de cartão na mão . Mas Rino parecia não perceber isso . «A Befana» . pensando que era a brincar. com a expressão de u m Randolph Scott encolerizado . disse Nunzia. mas Lila não deixou . «fê-los mesmo para os meus pés . e ela atirou-lhe um pedaço de carvão . Nesse instante apareceu Fernando em cuecas e camisola interior. e via-se que estava furioso . papá. Quando viu na cara do irmão um sorrisinho divertido e angustiado ao mesmo tempo . por baixo . Enquanto mãe e filha discutiam . tentou agarrá-la para lhe bater.» Em cada palavra sentia-se como sofria. Tirou da caixa os sapatos novos . pronunciava frases incompletas: fiz assim. experimentou-os. sem dizer uma palavra. mas quando percebeu que a irmã o fizera a sério . a sentir necessidade de estar ao lado dele para o ajudar e ser ajudada. sorria. mas sem que o rosto se lhe desanuviasse . do qual podia sair o irremediável . sentou-se e calçou . mais insuportável ainda porque continuava a amar o irmão . primeiro o sapato do pé direito . deitando olhares apaixo­ nados ao filho . comentou . pareceu-lhe ter a confirmação daquilo que a assustara no terraço . preparou-se para o fazer.» Levantou-se . quando lhe apanhou o olhar alarmado a observar o rosto do pai . pensei que. «Vejam o que a Befana me trouxe» . A cada palavra sarcástica do pai ficava mais orgulhoso . e como esse sofrimento o enchia de vontade de partir tudo . disse . a Befana. Fernando sentou-se de novo . todo vermelho . naquele olhar. da surpresa. sob o olhar da farm1ia. «Habilidosa. Não sabia nada sobre aquela iniciativa. viu algo insuportavelmente mesquinho . Lila ficou de boca aberta.

não protestava. e atirou-lhe tudo aquilo a que pôde jogar a mão . «não têm nada atabalhoado . com este bico largo são bastante originais. falava-lhe em tom gentil: «Estás zangada comigo porque fiquei com todo o mérito dos sapatos? Mas fi-lo» dizia-lhe.» Sentou-se . aterro­ rizando a mãe . arrependia-se. continuou Fernando . mas não conseguia decidir-se . durante algum tempo não se voltou a falar. partindo pratos . andava de roda dela com brincadeiras . Lila só se meteu no meio quando viu que o irmão .» E depois pedia-lhe: «Ajuda-me. até esgotarem as forças . Cozinhava. «São leves e ao mesmo tempo robustos» . jurando que preferia matar-se a continuar a trabalhar de graça para o pai . e nunca mais foi à sapataria. Lila decidiu que o seu papel era ajudar a mãe . passava a ferro . cozinhar. inicialmente ape­ nas preocupado em proteger-se de murros e pontapés . fechados na lojeca com os seus deses­ peros. Depois volta­ ram a trabalhar juntos . começava tam­ bém a gritar. não queria deixar o irmão sozinho . ir às compras . que o ser­ visse e o respeitasse quando voltava do trabalho . interpretou o facto como uma desconsideração incompreensível . e co­ meçou a exigir que a irmã fizesse as coisas de maneira que ele encon­ trasse sempre meias . Nos dias bons . Ela encolhia os ombros . lavar a roupa. às vezes dava-lhe um beijo na . o pai deu-lhe um violento pontapé no traseiro . protestava. os outros irmãos e a vizinhança. Se alguma coisa não lhe agradava. não se sentia contente por se comportar as­ sim. chamou-lhe besta e néscio . o que havemos de fazer agora? Não podemos ficar parados . tentava acalmar-se . esforçava-se bastante para voltar a ser o mesmo de antigamente . mal fez o gesto de virar as costas . estafermo . derrubando cadeiras . Dos sapatos. naturalmente. passou a executar as suas tarefas com atenção e cuidado . voltou a calçá-los . «para evitar que o papá se zangasse tam­ bém contigo. eu tenho de sair desta situação. por fim também os sapatos . Disse ao filho: «Vira-te . nunca os vi nos pés de ninguém.» Lila ficava calada. calados . Mas em vão . Pai e filho tiveram de desabafar primeiro . estendê-la ao sol . cuecas e camisas em ordem na gaveta. Rino . e a chorar. amuado .» Rino pensou que era uma brincadeira que encerraria definitivamente toda a controvérsia entre eles e virou-se . Ele próprio . feliz e embaraçado . tenho de agradecer à Befana. dizia coisas desagradáveis do tipo: nem uma camisa sabes passar. E sobretudo . tristonho . atou-os . Mas . domingo de manhã. Rinu . mentindo . por exemplo.A Amiga Genial 1 43 so de cólera iminente do pai .

ou pela satisfação de ver que também ao seu companheiro de carteira as coisas corriam mal . deixando­ -o a viver na miséria para sempre . Disse-lhe . Mas ele entretanto já se zangara de novo e acabava sempre por partir qualquer coisa. simplesmente . Tanto trabalho deitado fora. À saída da escola disse-lhe que por causa daquela gargalhada já não éramos namorados . Mesmo quando copiava não prestava atenção . pare ele perceber que já não estava zangada. embora muito disciplinado . mas eu zanguei-me e repeli-o . e por terem nascido graças a um desenho numa folha de caderno . entre nós não acontecera grande coisa. não se esforçava para compreen­ der. rebentou a rir. o que para um rapaz era considerado muito humilhante . Uma manhã. tentara apalpar-me o peito . Poucos dias depois do meu rompimento com Gino . fui absorvida pelos ritmos torturantes que os pro­ fessores nos impunham. Regressei à escola. Gaguejou que mal havíamos começado . mas era preguiçoso . Lila confidenciou­ -me que recebera duas declarações quase ao mesmo tempo . existiam. talvez devido à tensão . Muitos dos meus colegas começaram a desistir. Lila por vezes . Gino teve insuficientes em tudo e pediu-me ajuda. ia ao quarto de arrumos onde escondera os sapatos e apalpava-os . Gritava­ -lhe que ela é que o traíra. bem ou mal . quando andava a fazer as compras . preocupado: «Gostas do Alfonso?» Respondi-lhe que . mas não se aguentou . Já sabia que não me custava nada deixar de ter a companhia dele na ida para a escola e no regresso . já não gostava dele . mas na verdade ele só queria que o deixasse co­ piar os trabalhos de casa. Como namorados . excepto Gino que . Pasquale fora ao seu encontro . Um dia desatou a chorar durante o interrogatório de Grego . quando não estava ninguém em casa. e a turma a reduzir-se . mas mantive-me firme na minha decisão . Tínhamos dado um beijo. Viu-se claramente que preferia morrer em vez de deitar uma só lágrima diante da turma. muito perturbados . ela própria maravilhada porque. mas sem língua. e havia de o trair ainda mais . Tentei ajudá-lo . Ficámos todos em silêncio . Vinha sujo do trabalho e muito agitado . as primeiras da sua vida. pois mais tarde ou mais cedo casaria com um imbecil qualquer e ia-se embora. também estava em dificulda­ des . Deixei-o copiar. Pediu-me para continuarmos mais um pouco .1 44 Elena Ferrante face. A reacção dele foi perguntar-me . não estava certo . Alfonso . 24 . olhava para eles .

A Amiga Genial 1 45

que andava preocupado porque nunca mais a vira na sapataria, e pensou
que estivesse doente . Mas agora que a encontrava de boa saúde , estava
feliz. Porém , enquanto falava, não mostrava felicidade nenhuma no ros­
to . Interrompeu-se como se estivesse a sufocar e, para libertar a gargan­
ta, quase gritou que gostava dela. Amava-a tanto que , se ela estivesse de
acordo , ia falar imediatamente com o irmão , com os pais, com quem
fosse preciso , para um compromisso sério . Ela ficara sem palavras , du­
rante alguns minutos pensou que ele estivesse a brincar. Tantas vezes eu
lhe dissera que Pasquale andava de olho nela, e nunca acreditara. Mas
afinal ali estava ele , num lindo dia de Primavera, quase com as lágrimas
nos olhos, a suplicar-lhe , a dizer que a vida para ele perderia todo o valor
se ela dissesse que não . Como eram difíceis de deslindar os sentimentos
de amor. Lila, com muita cautela, sem nunca dizer que não , encontrara
as palavras para o rejeitar. Disse-lhe que também ela gostava dele , mas
não como se gosta de um namorado . Disse-lhe também que lhe seria
grata para sempre por todas as coisas que ele lhe explicara: o fascismo ,
a resistência, a monarquia, a república, o mercado negro , o comandante
Lauro , os neofascistas , a democracia cristã, o comunismo . Mas compro­
meter-se com ele , não , nunca se comprometeria com ninguém. E con­
cluíra: «Gosto de todos vós , do Antonio , de ti , do Enzo , como gosto do
Rino .» Pasquale , então , murmurara: «Mas eu não gosto de ti como
gosto da Carmela.» Escapulira-se e voltara para o trabalho .
«E a outra declaração?» , perguntei-lhe com curiosidade , mas também
um pouco ansiosa.
«Nunca terias imaginado .»
A outra declaração viera de Marcello Solara.
Ao ouvir aquele nome senti uma pontada no estômago . Se o amor de
Pasquale era um sinal de como Lila era capaz de agradar, o amor de
Marcello , um rapaz bonito , rico , com automóvel , duro , violento , camor­
rista, habituado , portanto , a ter as mulheres que queria, era, aos meus
olhos , aos olhos de todas as raparigas da minha idade , apesar da má
fama que tinha, ou talvez também por causa disso , uma promoção , a
passagem da rapariguinha magricela a mulher, capaz de vergar a si
qualquer um.
«E como aconteceu?»
Marcello ia ao volante do 1100, sozinho , sem o irmão , e viu-a quando
regressava a casa pela rua larga. Não encostara o carro , não falara com
ela através da janela. Deixou o carro no meio da rua , de porta aberta, e
aproximou-se dela. Lila continuou a andar, e ele atrás . Suplicou-lhe que

1 46 Elena Ferrante

lhe perdoasse a maneira como se comportara tempos atrás , admitindo
que ela teria feito bem em matá-lo com o trinchete . Recordou-lhe , emo­
cionado , como tinham dançado bem o rock na festa da mãe de Gigliola,
sinal de que podiam acertar bem o passo um com o outro . Fizera-lhe
muitos elogios: «Como tu cresceste , que lindos olhos que tens, que bo­
nita que és.» Depois contou-lhe o sonho que tivera nessa noite: ele
pedia-a em casamento , ela dizia que sim, e ele oferecia-lhe um anel de
noivado idêntico ao da avó , que tinha um engaste com três diamantes .
Lila finalmente falara, continuando a andar. Perguntou-lhe: «Nesse so­
nho eu disse-te que sim?» . Marcello confirmou e ela respondeu: «Então
foi mesmo um sonho , porque tu és um animal , tu e a tua fallll1 ia, o teu
avô , o teu pai , o teu irmão , e eu nunca te diria que sim, mesmo que digas
que me matas .»
«Disseste-lhe mesmo assim?»
«Disse-lhe ainda mais.»
«Ü quê?»
Quando Marcello , ofendido , lhe respondera que os seus sentimentos
eram muito delicados , que dia e noite só nela pensava com amor, e por
isso não era um animal , mas alguém que a amava, ela retorquira que se
uma pessoa se comportava como ele se comportara com Ada, e se essa
mesma pessoa na noite da passagem do ano se punha a disparar contra
outras pessoas com uma pistola, chamar-lhe animal era ofender os ani­
mais . Marcello percebera finalmente que ela não estava a brincar, que na
verdade o considerava muito menos do que uma rã, do que uma salaman­
dra, e ficou imediatamente deprimido . Murmurara baixinho: «Foi o meu
irmão que disparou .» Mas ao pronunciar esta frase compreendeu logo
que depois disso ela o desprezaria ainda mais . Verdade pura. Lila apres­
sou o passo , e quando ele ainda tentou segui-la, gritou-lhe: «Vai-te em­
bora» , e começou a correr. Ele parou , como se não soubesse onde estava
e o que havia de fazer, e depois voltou para o 1100 de cabeça baixa.
«Tu fizeste isso ao Marcello Solara?»
«Sim.»
«És doida. Não contes a ninguém que o trataste assim.»
Naquele momento pareceu-me uma recomendação supérflua, disse
aquilo só para mostrar que a história dela era importante para mim. Lila,
por natureza, gostava de falar e de fantasiar acerca dos factos , mas não
era de mexericos , ao contrário de nós , que estávamos sempre a mexeri­
car. E de facto , do amor de Pasquale falou só a mim , nunca me constou
que tivesse contado a mais alguém. Mas a respeito de Marcello Solara

A Amiga Genial 1 47

contou a toda a gente . Encontrei Carrne la, que me disse: «Soubeste que
a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» . Depois foi Ada que me
disse: «Nada menos , a tua amiga deu uma nega ao Marcello Solara.»
Pinuccia Carracci , na charcutaria, segredou-me ao ouvido: «É verdade
que a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» Até Alfonso me
disse um dia na escola, estupefacto: «A tua amiga disse que não ao
Marcello Solara?»
Quando vi Lila, disse-lhe:
«Fizeste mal em dizer a toda a gente , o Marcello vai ficar furioso .»
Ela encolheu os ombros . Tinha muito que fazer, com os irmãos , a
casa, a mãe , o pai , e não se deteve muito tempo a falar. Desde a noite
da passagem do ano , dedicava-se só às tarefas domésticas .

25 .

E era mesmo assim. Durante o resto do ano escolar, Lila desinteressou­
-se completamente daquilo que eu fazia na escola. Quando lhe perguntei
que livros ia buscar à biblioteca, o que andava a ler, respondeu com des­
peito: «Já não vou lá buscar nada, os livros fazem-me doer a cabeça.»
Eu , porém, estudava, e ler tomara-se um hábito agradável . Mas tive
de reconhecer que , desde que Lila deixara de me pressionar, de se ante­
cipar a mim no estudo e nas leituras , tanto a escola como a biblioteca
do professor Ferrara tinham deixado de ser uma espécie de aventura,
tomando-se simplesmente uma coisa que eu sabia fazer bem e pela qual
era muito elogiada.
Apercebi-me claramente disso em duas ocasiões.
Uma vez fui buscar livros à biblioteca, com o meu cartão todo preen­
chido com empréstimos e devoluções , e o professor, primeiro congratu­
lou-se com a minha assiduidade , depois perguntou-me por Lila, lamen­
tando muito que ela e toda a família tivessem deixado de ir buscar
livros. É difícil explicar porquê , mas aquela lamentação fez-me sofrer.
Pareceu-me a prova de um verdadeiro interesse por Lila, algo muito
mais profundo do que os louvores pela minha regularidade de leitora
assídua. Veio-me à ideia que , mesmo que Lila só tivesse ido buscar um
livro por ano , teria deixado nesse livro a sua marca, e o professor senti­
-la-ia no momento da devolução , ao passo que eu não deixava marcas ,
eu representava apenas a persistência com que ia somando um livro a
outro livro , desordenadamente .

148 Elena Ferrante

A outra ocasião teve a ver com a rotina escolar. O professor de Letras
trouxe as composições de Italiano corrigidas (ainda me recordo do te­
ma: «As várias fases do drama de Dido» ) , e enquanto geralmente se li­
mitava a dizer duas palavras para justificar o meu oito ou nove habitual ,
naquele dia elogiou-me com eloquência diante da turma, e só no fim
revelou que me dera nada menos do que um dez . No final da aula cha­
mou-me ao corredor, verdadeiramente admirado com a maneira como
eu desenvolvera o tema, e quando o professor de Religião apareceu ,
deteve-o e resumiu-lhe , cheio de entusiasmo , a minha composição . Dias
depois constatei que Gerace não se limitara ao padre , fizera circular
esse meu trabalho pelos outros professores também , e não só os da mi­
nha secção . Alguns professores do liceu agora sorriam-me nos corredo­
res , faziam-me até comentários . Uma professora do primeiro A, por
exemplo , a professora Galiani , muito considerada, e que todos evitavam
por ter fama de ser comunista, e porque em duas penadas era capaz de
deitar por terra qualquer argumentação mal fundamentada, dirigiu-se a
mim no átrio e entusiasmou-se sobretudo com a ideia, central no meu
trabalho , de que , se o amor for desterrado das cidades , a natureza bené­
fica das cidades transforma-se em natureza maléfica. Perguntou-me:
«Ü que significa para ti "uma cidade sem amor"?»
«Um povo privado da felicidade .»
«Dá-me um exemplo .»
Pensei nas discussões que tivera com Lila e Pasquale durante o Ve­
rão , e de repente senti-as como uma verdadeira escola, mais verdadeira
do que aquela que eu tinha todos os dias .
«A Itália sob o fascismo , a Alemanha sob o nazismo , todos nós , seres
humanos , no mundo de hoje.»
Sondou-me com acrescido interesse . Disse que eu escrevia muito
bem, aconselhou-me algumas leituras , ofereceu-se para me emprestar
livros seus. Por fim perguntou o que fazia o meu pai , e eu respondi: «É
porteiro na câmara municipal .» Afastou-se de cabeça baixa.
Aquele interesse da professora Galiani , como é natural , encheu-me de
orgulho , mas não teve grandes consequências , e a rotina escolar voltou
ao normal . Por isso , o facto de eu , ainda no primeiro ano da secundária,
já ser uma aluna com uma certa fama de excepcional , acabou por não me
parecer importante . Afinal o que é que isso provava? Provava acima de
tudo que fora proveitoso estudar e conversar com Lila, tê-la como estí­
mulo e apoio da minha aventura naquele mundo exterior ao bairro, entre
as coisas , as pessoas , as paisagens e as ideias dos livros. Sim, dizia para

A Amiga Genial 1 49

comigo , claro que a composição sobre Dido é minha, a capacidade de
formular frases bonitas é um dom meu; claro que aquilo que escrevi
sobre Dido me pertence; mas não foi elaborado juntamente com ela, não
nos estimulámos mutuamente , a minha paixão não cresceu com o calor
da dela? E aquela ideia da cidade sem amor, que tanto agradara aos pro­
fessores , não me viera de Lila, embora eu depois a tenha desenvolvido
com as minhas capacidades? O que devia eu concluir disto?
Fiquei à espera de novos elogios , que provassem as minhas capaci­
dades autónomas . Mas Gerace , quando marcou outro trabalho sobre a
rainha de Cartago («Eneias e Di do: o encontro de dois fugitivos») , não
se entusiasmou , limitou-se a dar-me um oito . Mas da professora Galiani
recebia cordiais gestos de saudação e fiz a agradável descoberta de que
ela era professora de Latim e Grego de Nino Sarratore , aluno do primei­
ro A. Sentia uma necessidade urgente de atenção e apreço renovados ,
tive esperança que me viessem dele , pelo menos . Tive esperança de que
a sua professora de Letras me elogiasse publicamente , digamos , na tur­
ma dele , fazendo com que se recordasse de mim e finalmente me diri­
gisse a palavra. Mas não aconteceu nada, continuei a entrevê-lo à saída,
à entrada, sempre com o mesmo ar absorto , nunca um olhar. Uma vez
cheguei mesmo a segui-lo pelo Corso Garibaldi e pela Via Casanova, na
esperança de que reparasse em mim e me dissesse: olá, estou a ver que
fazemos o mesmo caminho , ouvi falar muito de ti . Mas seguia apressa­
do , de cabeça baixa, e nunca se virou . Cansei-me , senti desprezo por
mim. Deprimida, meti pelo Corso Novara e fui para casa.
Fui avançando dia após dia, sempre preocupada em confirmar aos
professores , aos colegas , a mim própria, a minha assiduidade e diligên­
cia. Mas entretanto crescia-me cá dentro um sentimento de solidão ,
sentia que aprendia sem energia. Experimentei contar a Lila as queixas
do professor Ferrara , disse-lhe para voltar a ir à biblioteca. Também lhe
disse que o meu trabalho sobre Dido fora muito apreciado , sem lhe
contar o que tinha escrito , mas dando-lhe a entender que o sucesso em
parte também era dela. Ouviu-me apaticamente , talvez já nem se recor­
dasse da nossa conversa sobre aquela personagem, tinha outros proble­
mas . Assim que lhe dei oportunidade , disse-me que Marcello Solara não
se resignara como Pasquale , continuava a andar atrás dela. Se saía para
ir às compras , ele seguia-a, sem a incomodar, até à loja de Stefano , ou
até à carroça de Enzo , só para olhar para ela. Se se assomava à janela,
via-o parado à esquina, à espera de que ela se debruçasse na janela.
Andava enervada com aquela persistência. Receava que o pai desse por

a quem chamavam «janotas» . mas não sabiam ou não queriam explicar-se . afirmava.1 50 Elena Ferrante isso . Descemos a Via Toledo a pé . que ia muito cheio . Desfeito o projecto da fábrica de calçado Cerullo . saímos os cinco: Lila. era assim que ele estava. no bairro havia muitas . todas deforma­ das . que acabavam em cenas de pancadaria dia sim. Nós . ao pé de nós . zonas onde se sabia que havia gente rica e elegante. mas não . eu . como Stefano . não têm olhar?» Na opinião dela. em meados de Abril .» Queria comprar um automóvel . «Basta olhar para ele» . até à Piazza Amedeo . juntos . Rino e Pasquale foram todo o caminho alerta. 26 . um televisor. os nossos acompanhan­ tes tinham caras muito perigosas . Uma vez disse-me: «Já viste como as pessoas quando acordam são feias . dia não . Nesse momento ouvimos buzinar. vestimo­ -nos o melhor que pudemos . Mas quando Lila mostrava que já não queria apoiá-lo . Apanhámos o metropolitano . Porque é que Marcello se fixara nela? «Tenho alguma coisa de doentio?» . e respondiam só com resmungos em dialecto e insultos a pessoas indeterminadas . Pasquale e Rino . raparigas . Via-se magra.» Repetia muito essa ideia. tratava-a pior do que a uma serva. A convicção de ter feito mais mal ao irmão do que bem consolidara-se . e não conseguia resignar-se ao trabalho quotidiano na oficina. e sobretudo que Rino se apercebesse . dizia. Rino e Pasquale não concorda­ vam. Nós três unimo-nos e insistimos . à Via Filangieri . «0 que tenho eu?» . Rino continuava agarrado à mania de ficar rico como os Solara. Talvez nem se apercebesse de como o seu feitio se deteriorara. e depois Via dei Mille . ninguém nos leva a melhor. «Levo as pessoas a fazerem coisas erradas . feia. e detestava Fernando por não compreender a importância daquelas coisas . Lina. mas ela. Lila insistia em ir à Via Chiaia. que o via diariamente . mais ainda. tentanto reacender nela o velho entusiasmo: «Nós somos inteligentes . Voltámo-nos e vimos o 1 1 00 dos Solara. andava alarmada. Assustava-a a possibilidade de principiar ali uma daquelas histórias de homens . Dos dois ir- . Dizia à irmã. Recordo-me de que um domingo à noite . e assim que saímos de casa pusemos bâton e pintámos um pouco os olhos . Carmela. diz-m� o que havemos de fa­ zer. perguntava. Receavam que alguém nos apalpasse .

belos penteados . lindos brincos cin­ tilantes . Passara num relâmpago a imagem do poder. o tipo de óculos que usavam . para as senhoras . Ficámos um bocado em silêncio . Deu-me vontade de voltar imediatamente para casa. exasperadas pela ideia de que Gigliola e Ada andavam a divertir-se num 1 1 00 . de tão espantadas que ficámos com as duas raparigas que nos faziam adeus das janelas: Gigliola e Ada. suspira­ ram e se deram por vencidos. tesos . Rino e Pasquale viraram a cara. na companhia de Rino . com lindos vestidos . Pareceram­ -nos bonitas . Nenhum deles falou em Ada. deve ter che­ gado por vias secretas aos dois rapazes . Nós hesitámos um pouco e de­ pois resolvemos secundá-la. quando usavam óculos . enquanto o carro desaparecia na direcção da Piazza del Plebiscito . nem responde­ mos . Antonio era amigo de ambos e não queriam ofendê-lo . Ou éramos desinteressantes . fez aquilo que para ela era pa­ rodiar uma pessoa fina. Recordo um passeio entre multidões e uma espécie de diversidade humilhante . sapatos . Pareciam ter respirado outro ar. Eu senti sobretudo amargura. quatro jovens de automóvel . gritou . e Pas­ quale concordou . Não viam nenhum de nós . depois Rino disse em voz baixa a Pasquale que desde sempre se sabia que Gigliola era uma puta. E se por vezes o olhar lhes caía sobre nós . mal arran­ jados. Aquela nossa insatisfação .A Amiga Genial 151 mãos nem nos apercebemos . Carmela e eu . e desfez-se em grandes sorrisos e gestos lânguidos. que é como quem diz . terem-se vestido em qualquer outro planeta. Lila foi a única que gritou qualquer coisa com entusiasmo e lhes fez adeus com gestos largos . Não éramos perceptíveis. voltou a insistir que queria ir passear onde se encontravam as pessoas elegantes . enquanto nós íamos a pé . que remendava sapa­ tos . calámos . Estava pasmada. e entrámos na Via Chiaia. . com os lindos irmãos Solara. Eram completamente diferentes de nós . Agar­ rou-se ao braço de Pasquale . mas sim para as raparigas . Está bem. agitando as mãos e gritando-nos saudações alegres . Mas Carmela disse muito mal de Ada. que . saracoteou-se . terem aprendido a andar sobre fios de vento . a maneira certa de saírem do bairro para se irem divertir. sério . disseram . ter comido outros alimentos. Enquanto eu teria parado para olhar à vontade para vestidos . com a surpresa. Eu não olha­ va para os rapazes . riu . elas passavam e parecia que não me viam. Foi como se atravessássemos uma fronteira. que era pedreiro . como se aquele encontro não tivesse acontecido . e de Pasquale . que olharam para nós . A nossa maneira era errada: a pé . Mas Lila. naturalmente .

Não é verdade .1 52 Elena Ferrante voltavam-se imediatamente para outro lado . mas percebemos que Rino e Pasquale .e era principalmente isso que fazia rir Lila . a tua escola mete nojo. ao passo que nós . ironizando . acompanhada por um jovem moreno . caminhando a meu lado.» «Quer dizer que não é uma boa escola. disse ela.» «Valente . insistiu ele . «Tu alguma vez usavas aquele vestido?» «Nem que me pagassem. raparigas . feias . mas também estimula­ das a imaginar como nos transformaríamos .» «Eu usava. perguntou-me com sarcasmo: «Na escola as tuas companheiras são assim?» «Não . que não é bom?» «Bom?» . ficavas parecida com uma bola-de-berlim. talvez até fosse capaz de fazê-lo chorar) . em olhar para ela. . A rapariga estava toda de verde: sapatos verdes . sentia um prazer evidente em ouvir-lhe a voz. alto . disse eu . saia verde . indispostos pela certeza de estarem num lugar que não era o deles . de pulôver branco com decote em V: «Se não houver lá uma como aquela. Lila. não presta. Todos nós reparámos nisso. «Não presta» . só naquele momento fazíamos essa descoberta e com sentimentos ambíguos . Ninguém se pronunciou . por aquelas ruas encontravam ape­ nas a confirmação de coisas que já sabiam. de nos vestirmos e de nos maquilharmos e de nos ataviarmos como deve ser. Sentíamo-nos acanhadas e ao mesmo tempo encantadas. se tivéssemos a possibilidade de nos reeducarmos . picada. Pasquale. e quando ela lhe dera o braço se libertara de imediato . «podes ter a certeza. também verde .» «É um liceu clássico» .» «E viste os sapatos?» «Ü quê . como se incomodadas . com bons modos (falava com ela. casaco verde . e apontou para uma rapariga loira que vinha na nossa direcção . que evitava de todas as formas estar ao pé de Lila. mas via­ -se que o mais pequeno contacto o perturbava. rea­ gíamos com risotas . Olhavam apenas umas para as outras . os tornava carrancudos . e na cabeça . o que os punha de mau humor. Entretanto . para não estragarmos a noite . a rir e a dizer piadas . como aquela que ali vai . mais crescidos.» E desatou a rir. se não há lá gente assim. claro . aquilo são sapatos?» Fomos até ao Palazzo Cellamare .um chapéu de coco como o de Charlot.

e Pasquale parou . veste a pele de quem sabe sempre tudo . passámos bruscamente do riso ao pavor. Pasquale . Enquanto afastava o irmão . virando-se para Carmela. a mim? Labrego?» E ainda. desde a infância até aos nossos catorze anos de então . de tanta vontade de rir. antes que ele pontapeasse o jovem caído no chão . Quando o par passou por nós . quando eu digo que é melhor não irmos para um sítio qualquer. disse-lhe em dialec­ to .A Amiga Genial 153 A hilaridade dela contagiou-nos a todos . a incre­ dulidade de Lila dava lugar à fúria desesperada. como se mil fragmentos da nossa vida. mas baixou o tom de voz .» «Nós . sem fôlego: «A minha irmã trouxe-me aqui e vai ver se deixo que me chamem labrego . Entretanto . Rino continha-a com uma mão . como é hábito . respondeu-lhe Pasquale alarmado . lançava-lhe insultos ordinários . raparigas . o que ele me chamou?» Nós . Foi num abrir e fechar de olhos. com um riso nervoso na cara e dirigindo-se a Pasquale: «A minha irmã pensa que aqui se brinca. vai ver o que faço a quem me chama labrego .» «Calma. sozinhas?» . Ouviste . e tem de ir por força. Rino» . A rapariga e o acompanhan­ te deram alguns passos e pararam. e acrescen­ tou: «Ouviste que aquele pedaço de esterco me chamou labrego? Labre­ go . puxando-o com uma expressão incrédula. Parámos na Piazza dei Martiri . Pascà» . «a minha irmã pensa que . O rapaz de pulôver branco voltou-se . mas um braço da rapariga reteve-o de imediato . puxando-o por um braço e ameaçando-o . gritando: «0 que foi que me chamaste? Não percebi . Ele soltou-se . dis­ se em tom frio: «Vocês agora vão para casa. Rino fez um comentário grosseiro sobre o que a senhora de verde devia fazer com o chapéu de coco. Pascà. mas que naquele momento lhe parecia inverosímil . repete lá o que me cha­ maste . Empurrámos Rino e Pasquale para longe . olhando para trás de vez em quando . Rino continuou agitado . com olhos de louco . Lila foi a primeira a lançar-se sobre o irmão . estivessem a compor uma imagem finalmente nítida. de quem percebe sempre tudo .» Uma pequena pausa para controlar a respiração . Rino derrubou-o com um soco na cara. voltou para trás e dirigiu directamente a Rino uma série de frases insultuosas . Lila acalmou-se . e apoiou-se à parede com um braço . enquanto a rapariga de chapéu de coco ajudava o namorado a levantar-se .

Marcello saiu do carro . deu-lhe um encontrão: «Queres parar com isso? O irmão mais velho sou eu . puxei Lila por um braço . outros não . nos passeios de domingo . Vão-se embora. com- prem gelados pelo caminho . Mas pouco depois . pira-te . disse que voltava para junto do irmão. tens de fazer o que eu te digo . Ten­ támos convencê-la a ficar connosco . pareciam os canoeiros que às vezes admirávamos . anda. come­ çámos a chorar. Só então Michele saiu do carro . começámos a subir por Santa Caterina.» Incertas .» «Saímos de casa juntos e regressamos juntos. atacado a pontapé . Alguns leva­ vam um bastão . vá. Lila soltou-se da minha mão e foi a correr. vi Rino a proteger-se das bastonadas com o braço . Gritámos por socorro . nem o gelado mereces . «toma lá dinheiro .» Vi que estava pronto para fazê-lo a sério .» «Não . Passaram ao lado da igreja em passo apressa­ do e dirigiram-se para a praça. eu e Carmela seguimo-la. incitado por ela. bem constituídos .» «Carme .1 54 Elena Ferrante «Sim. as pessoas não ajudavam. lado a lado . junto do Castel dell 'Ovo . não quero discutir. Depois parou um carro .» «Vai» . vá. a interceptar transeuntes . Chegámos mesmo a tempo de ver Rino e Pasquale a recuar. com o pulôver de decote em V sujo de sangue . Com eles encontrava-se o rapaz a quem Rino esmurrara a cara. Vi Pasquale de joelhos. bem vestidos . que gritava de raiva e chamava o irmão . tirou qualquer coisa que parecia um pedaço de ferro reluzente e entrou na luta. Rino e Pasquale ergueram-se . não tarda nada parto-te a cara. primeiro levantou Lila e depois . era o 1100 dos Solara.» Rino perdeu de novo a paciência. parou.» «E eu ralado ! Põe-te a andar.» «Não mintas . mas deitaram-na ao chão . batendo com uma violência fria que espero não voltar a ver na minha vida. disse Rino a Lila. e o grupo dos bem vestidos a persegui-los e a dar-lhes com os bastões . cinco ou seis . Eram todos altos . Enquanto discu­ tíamos vimos um grupo de rapazes . atirou-se para a refrega. abriu o porta­ -bagagem sem pressa.» «Não sabemos o caminho . dando murros e levando . tentando conter-se . Lila agarrou um dos agressores por um braço . Ela também percebeu que corria o risco: «Vou contar ao papá. Mexe-te . mas os bastões metiam medo . mas não fez caso . Lila mudou de ideias . na direcção do monumento central da praça.

batendo . e partimos. de tal modo estavam alterados pelo ódio . Exceptuando Lila. rasgando . que agradeceu de má vontade . mas num tom trocista: «Lá na escola. que pare­ cia consumida pela raiva e pela preocupação . divertido . Os rapazes bem vestidos puseram-se em fuga. no tom agra­ decido de quem faz um pedido que não pode evitar. Eu olhava para ela. procurando-a com o olhar através do espelho retrovi­ sor. Voltei-me para olhar para Pasquale e Rino . «Não é possível» . disse Lila. Lila não voltou a falar até chegarmos ao bairro . sabia bem que os Solara eram gente impecável . olhava para mim. por trabalhar na pastelaria. enquanto dava beijos apaixonados . Michele aproximou-se de Pasquale . Marcello fez-nos entrar para o carro . e ela. com Gigliola e Michele a beijarem-se constantemente. Dentro do carro houve imediatamente conflitos. Valentes . «Então apeiem-se e vão a pé» . estávamos todas muito admiradas com o comportamento dos dois irmãos . Eu desviava logo os olhos . Fizemos o resto do caminho a pé . dissemos . Gigliola e Ada estavam muito irritadas . apertando . e estavam quase a agredir-se . diante dos nossos olhos . como é?» «Óptimo .» «É outro tipo de divertimento . «Levem daqui as raparigas» . mas ela não lhe deu resposta. que opu­ nha maior resistência. no colo de Michele . em primeiro lugar Lila. «Mas sem dúvida» . sentadas no colo umas das outras . Marcello pronunciou algumas palavras . Eu estava paralisada de medo . Pasquale a coxear. que se dirigiam para a Riviera. aproximavam­ -se agora. Gi­ gliola desceu e . foi sentar-se à frente . vendo-a depois molhada de vermelho . protestaram pela forma incómo­ da de viajar. Fizemos assim a viagem. «Mas o que é que julgavam» . em passo lento de princesa. para evitarmos ser vistas no carro dos Solara. incluindo as ruas da gente rica. Marce­ llo apanhou do chão um molho de chaves e deu-o a Rino . As pessoas que antes se tinham afastado . portaram-se bem .» «Mas não te divertes como eu me divirto . Marcello travou . com ar de quem . Amontoámo-nos todas no banco de trás . disse Rino aos dois Solara. as cinco raparigas juntas . Pareceram-me dois desconheci­ dos .» . Quisemos que nos deixassem longe de casa. Senti-me como se o bairro se tivesse ampliado e abrangesse Nápoles inteira.A Amiga Genial 1 55 furiosos . A certa altura perguntou-me . mas Pasquale repeliu-o com maus modos e passou pela cara a manga da camisa branca. Gigliola repetia sem parar: «Mas é claro» . curiosas . diziam. que sangrava do nariz .

na praia. não gostava que ela metesse o nariz na sua fann1 ia e se per­ mitisse tomar decisões a respeito dos seus filhos . Eu . A sua vida.1 56 Elena Ferrante Quando ela. regozijou-se com o meu bom aproveita­ mento . disse que me achava bastante pálida e que tencionava telefonar a uma prima sua que morava em Ischia. 27 . apresentara-se na oficina para se informar sobre o estado de Rino. um de açúcar e outro de café . Ela não s e sentia muito bem. Já sabia que ela nunca me deixaria ir. Agradeci . mas não me disse porquê . pois Marcello Solara dei­ xara de andar atrás dela. fui a casa da professora Oliviero . fazendo uma viagem por mar? Eu . de barco . Alfonso tinha que repetir três disciplinas em Setembro . Aqueles da Via dei Mille podiam matá-los . Dos quarenta que éramos . tinha qualquer coisa n a garganta que lhe doía. que tivera o cuidado de não contar ao pai o que acontecera (para justificar as nódoas roxas da cara e do corpo . comprados no bar Solara. e não tinha coragem de me gabar da aprovação . pondo em alvoroço sobretudo Fernando .» Ela abanou a cabeça energicamente . Passei com nove a tudo . mas elogiou-me muito . Mas . circunspecta: «ÜS Solara podem ser gente de merda.» Ela não respondeu . O rapaz. para ver se ela me recebia em sua casa durante algum tempo . Incitada pelo meu pai . sem dúvida. Aparentemente .com os dois pacotes do costume . de umas possíveis férias em Ischia. mas não disse nada à minha mãe sobre aquela possibilidade . em Ischia? Eu sozinha. inventara que tinha caído . dera-se um facto totalmente inesperado que a deixara perplexa. perdera até a aura aventureira da fábrica de sapatos . da bolsa de estudo .minha mãe era contra. ao Rino e ao Pasquale . depois da violência da Piazza dei Martiri. eu disse a Lila: «Üs ricos são piores do que nós . ficaram trinta e dois . até ia receber uma coisa que se chamava bolsa de estudo . pela honra que lhe era feita. para lhe agradecer o seu interesse por mim . em poucos meses . Gino foi reprovado . mas ainda bem que lá estavam. Não estava de acordo . a tomar banho em maiô? Nem a Lila falei nisso . as coisas haviam melhorado . Acrescentei . Carmela e Ada se separaram de nós para entrar em casa. Estava mais pálida do que o habitual e tinha sulcos roxos profundos sob os olhos . passando por cima dela . Mas Rino . imagine-se .

tudo é perigoso . depois oferecera-se para o ensinar a conduzir. Lila. ao contrário do pai . Dois mi­ nutos . para tirar a carta. ou no estô­ mago . mas a barra estava bem afiada na ponta . chamasse ele o que quisesse àquela coisa com os Solara. mas isso não evitava que se enfure­ cesse com a maneira como os Solara lhe estavam entrando na cabeça.» «Ü quê?» «A amizade com o Marcello Solara. não só a sua intervenção. A princípio . depois convidara Rino para dar uma volta de automóvel. Tinha razão .» «Viste o Michele. não é possível que se deixe enrolar. sem dúvida. Daí a poucos dias Marcello voltara. fazendo dele uma espécie de macaquinho feliz . recordando-se da batalha do fogo-de-artifício . objectei uma vez . Provavelmente não se tratava de amizade . pensara: Rino odeia demasiado os Solara. Rino agradeceu contrariado a Solara.» «Uma barra de ferro .» «Não existe amizade nenhuma. Co­ nhecia bem a fragilidade de Rino . levara-o imediatamente para a rua. «Que mal há nisso?» . quando ouvia falar nisso sentia. alheia àquele convívio . tinham ganho estima por Rino . Quando reentrou na oficina. assumindo a responsabilidade de o deixar exercitar-se ao volante do seu 1100. Depois verificara que as atenções de Mar­ cello seduziam ainda mais o seu irmão mais velho do que os pais . mas também a gentileza de passar por ali para ver como ele estava.» . «São perigosos .» «Então quer dizer que tolo eras e tolo continuas a ser. aquilo que ele tirou do carro na Piazza dei Martiri?» «Não . trazendo os sapatos do avô para pôr meias-solas. uma grande preocupação . o pai disse-lhe: «Finalmente estás a fazer uma coisa boa. receando que Marcello dissesse alguma palavra a mais. tu ameaçaste o Marcello com o trinchete . e que o filho . Deram um curto pas­ seio.» «Aqui . depois encorajara-o a tratar da licença de aprendizagem. papá. Se ele quisesse . mas os Solara.» «Ora.» «Tu não estás a ver. que se passava em torno da sapataria. onde ela não punha os pés .A Amiga Genial 1 57 da Lambretta de um amigo) .» Fernando queria dizer que alguma coisa estava a mudar.» «Üs outros tinham bastões . podia espetá-la no peito de um daqueles . Lenu . e despediram-se . faria bem em encorajá-la.

queria afastar Rino daquela relação .. e ríamos . enquanto Nunzia nos mandava calar.» «Porquê?» . agradeceu as três garrafas de bom vinho que Marcello trouxera. ameaçava­ -a. com Lila. confirmei eu . e eu gostava de argumentar. de início aborreceu-se . «Veio cá para se casar contigo» . em parte por causa do vinho . «Se ele te quiser. ao passo que ela tinha outras necessidades .» «De verdade?» «Sim. disse que eu não percebia. «Que o teu pai nunca saiba disso . e avançaram tanto que numa noite de fim de Junho . ou então ria sem motivo . já lhe disse que não . Eu própria participei . à mesa esteve sempre calado . «Vou deitar aqui veneno das baratas» . Solara dirigia a conversa sobretudo a Fernando . seguido por Marcello . e Rino . Ficou agitada. Rino mandava-a calar. dizia Lila furiosa. a fim de não incomodarem.» «Está muito enganado . Mas mal fazia qualquer alusão crítica. nos preparativos do jantar. dizes-lhe que não?» «Ora. não me recordo . que não fora capaz de lhe dizer que não . avançaram . e chegou mesmo a dizer que . comoveu-se . Era evidente que se fize­ ra convidado . perguntou Nunzia. mas sem se esquecer nunca de servir água ou vinho a Nunzia . levou os outros filhos para a cozinha. mata-te .estava eu em casa de Lila. E provavelmente era verda­ de . às vezes batia-lhe . mas depois sentiu-se honrado e mostrou cordialidade . só Marcello é que falou . a ajudá-la a dobrar os lençóis já secos . ou outra coisa. Ele era irmão dela. que regressara havia pouco da oficina. a Lila. não meu. senão . Fernando . junto do fogão . ansiosa. Gaguejou qual­ quer coisa em louvor de Silvio Solara. a mim . de bom ou de mau grado . Disse-lhe que Rino sentia uma admiração sem limites pela sua competência como sapateiro . provoquei-a eu . e Fernando .» Durante o jantar. Nunzia.158 Elena Ferrante Ela irritou-se . abriu-se a porta de casa e entrou Rino . «vai pedir a tua mão ao teu pai . O rapaz convidara Solara para jantar. Disse­ -lhe que seu pai gabava muito a sua grande habilidade . nem se fala.» «Que estás tu a dizer?» «É verdade» . Disse ao dono da casa que era muito estimado no bairro pelas suas qualidades de sapateiro . E o facto é que as coisas . cansado .

exclamou Lila. «Sei» . que gostaria de a beijar. talvez tenha exagerado um pouco . Tu sabes . dirigindo-se ao pai: . sedutor. Rino fixou os olhos no prato e não ousava olhar para o pai . depois o pai ampliara o negócio . Marcello começou a elogiar a necessidade de progredir. Fernando disse devagar: «Sim.» Lila explodiu . sim. disse Rino . Lila olhou directamente para o rosto de Solara. e hoje. vai já buscar os sapatos .» Fez-se um longo silêncio . se for capaz de criar coisas com qualidade .» Depois . «Que exagero» . é exactamente o número 43 . Mas anteontem a mãe disse-me para fazer limpeza e deitei-os fora. apontando para a irmã. Começa-se por uma cave .» «Gostaria muito de os ver. começou a enaltecer a ideia de fazer sapatos novos . Já que ninguém gos­ tava deles . vinha gente de toda a parte de Nápoles tomar um café . precisamente o meu número . Dizia: se uma pessoa sentir vontade . o bar-pastelaria Solara era aquilo que se sabia. Nunzia?» «Ela é que os tem» . estivesse a elogiá-la sobretudo a ela. concluiu Marcello .» Fernando também disse . En­ tão . Só se ouvia o rebuliço do pintassilgo junto à janela. e enquanto falou não tirou os olhos da minha amiga. e disse: «Tinha-os . que ela poderia fazer dele tudo o que quisesse .» Rino irritou-se e disse: «És uma mentirosa. Mas Marcello sorriu-lhe com humildade e admitiu: «Sim. de respirar o hálito dela. comer um bolo . mas é só para dizer que o dinheiro deve circular. que agradem . se tiver habilidade . Disse que o avô começara numa cave . enervado: «Vai buscar os sapatos . estavam guardados na arrecadação . se não se importarem. todos o conheciam . número 43 . com visível incómodo de Rino .» Fernando gaguejou: «Não sei onde estão . e de geração para ge­ ração pode-se chegar longe . que aos olhos dele encarnava todas as qualidades femininas possíveis . porque é que não há-de tentar? Falou num dialecto bonito . anda. Eu sentia e via que ele estava apai­ xonado por ela como nas canções . elogiando a energia das gerações . E a partir desse momento começou a olhar para Lila como se .A Amiga Genial 1 59 Rino era muito trabalhador e estava a tomar-se muito competente . e o pai fulminou-a com o olhar. «que o s vossos filhos fizeram u m lindo par de sapatos .

que o trabalho fora todo dele . Fernando gritou-lhe que . não me tinha apercebido de que existem problemas . é desta vez que mato a tua filha. Mas assim que fechei a porta e me encontrei no patamar. vi-os pela primeira vez acabados . Não voltou a aparecer.» Fernando bateu na mesa com a mão aberta. Marcello . Tinha os sapatos no colo . algumas bofetadas . desorientada. Quando voltou vinha muito atarantada. Abanou energicamente a cabeça. repetiu baixinho e saiu da sala. mas melhor seria que não o tivesse feito . Convenci-a pouco a pouco a voltar para casa. Eu fui­ -me embora quase em bicos de pés .» Lila afastou a cadeira. «Deitei-os fora» . Ela começou a chorar. Estava no último andar. o vinho estremeceu nos copos: «Levanta-te e vai buscar os sapatos imediatamente . tomaste-te uma besta enlouquecida. Acompanhei-a a casa. in­ sultos . o obrigara a fazer má figura perante um convidado importan­ te . assustada. desolado . e segredou à mulher: «Vai ver o que a tua filha está a tramar. O tempo foi passando em silêncio . não podia ficar escon­ dida lá em cima eternamente . Rino arrancou-lhe os sapatos da mão . contando que a minha presença a protegesse . Fez- . Mas houve da mesma maneira gritos .» Mas estava arrasada devido à sua reacção extrema. Nunzia começou a chorar. Lila chamou-me . Disse . preocupado: «Se calhar errei . na penumbra. levantou-se . não en­ contrava Lila. murmurando: «Eu também trabalhei .» Foi Nunzia quem pôs fim àquela tortura.» «Não existem problemas» . nada. Brilhavam à luz fraca de uma lâmpada pendurada de um fio eléctrico . disse Fernando . por causa de um capricho . perguntei . «Não quero que ele lhes toque sequer. Procurámo-la por toda a casa. despediu-se . subi em bicos de pés . Fer­ nando berrou para a mulher: «Tão verdade como Deus ser Deus.1 60 Elena Ferrante «Então agora já os queres? Deitei-os fora porque disseste que não gostavas deles .» Rino uniu-se ao pai nas ameaças . «0 que te custava deixá-lo vê-los?» . O primeiro a alarmar-se foi preci­ samente Marcello .» Nunzia saiu da sala. disse que lhe pertenciam. algo que nunca lhe acontecia. Encontrei-a aninhada junto da porta do terraço . Assim que ele saiu . Chamámos da janela. não estava. Tremia-lhe o lá­ bio inferior.

em quatro dias . e daquela vez as coisas ficaram por ali . e tam­ bém ao marido . o papá muda de ideias . que o acompanhasse até à sapataria.» «A quem os vendemos? Ao Marcello Solara.» «Não acredito . E eu . fazemo-los . que podem dar frutos . Pelo caminho ten­ taram ambos . se não queriam que ela se atirasse da janela. e o que é querer bem para a nossa família? Estou à espera que me digas .» Palavra puxa palavra. com todos os acabamentos . que lhe entregassem os sapatos . e deixa-nos começar a trabalhar. O papá é capaz de fazer um par de sapatos. 28 .A Amiga Genial 161 -se lívida e . também. Rino disse-lhe que lhe queria bem. o papá percebe que os teus modelos são bons . vende­ mo-los e autofinanciamo-nos. Passado algum tempo senti que ela estava resignada.» «E porque haviam de se contentar com uma percentagem pequena?» «Simpatizaram comigo . Fazemo-los . no máximo cinco . damos-lha. ele . mas que ela não queria bem a ninguém. ele revelou-lhe o que tinha em mente . Rino deu-lhe logo os sapatos . Mas Rino não se deu por vencido .ela. Cada vez que me encontrava com Lila via-lhe uma nova nódoa roxa. nem aos irmãos . que acabassem imediatamente com aquilo . que não retorquissem uma única palavra.» «E fá-lo-ão de graça?» «Se quiserem uma pequena percentagem. com palavras cautelosas . «Se o Marcello gostar dos sapatos .» «De certeza. Lila murmu­ rou : «Ü que é querer bem. conhecem gente importante . com uma voz fora do habitual . encontrar uma maneira de aca­ bar com aquela guerra. vais ver que não lhe fico atrás . Farão re- clame aos nossos sapatos. nem aos pais .» «Nós três?» «Eu . nos dias que se seguiram conti­ nuou a agredir a irmã com palavras e com as mãos . Eu escapuli-me dali para fora. e talvez tu . para ti . Uma manhã ele impôs-lhe que saíssem juntos . vendemo-los e autofinancia­ mo-nos . se me aplicar. sempre?» «Os Solara são comerciantes .» . ordenou aos filhos . E então se o Marcello os comprar.. que era sempre submissa .

1 62 Elena Ferrante «Üs Solara?» «Sim. De qualquer modo . ao jantar. Só porque foi instado por Rino . mas disse que lhe ficavam um pouco aperta­ dos . Isto é.» Pai e filho esperavam que a boa sorte chegasse . pomposamente: «Aqui . faria publicidade ao produto nos círculos que frequen­ tava. e mais. os dois curvados . esperava coisas más . «Amanhã» .» Lila suspirou: «Vamos fazer uma coisa: eu digo ao papá. disse . dois minutos depois . nem sequer Marcello .» Fernando olhou para a mulher. radiante . Rino pôs-se em pé de um salto . decerto escrito por Rino . naturalmente . Lila disse a Fernando que Marcello não só tinha mostrado muita curio­ sidade pela iniciativa dos sapatos . sou eu que decido . que tinha o rosto afogueado . vi os bonitos e harmoniosos sapatos da mar­ ca Cerullo . Rino estava a trabalhar. Lila percebeu que haviam falado so­ bre o assunto e chegado a uma conclusão secreta. ou outra porra qualquer. que sabes falar melhor. «ponho os vossos sapatos na montra da loja. Passou uma semana. Um anúncio colado no vidro . em troca. Decepção para o pai e para o filho . amuada. se os quiser experimentar. «e não o Marcello . Se alguém os quiser ver. diante do irmão . dizia mesmo assim. muito nervoso . Não dava crédito às hipóteses ingé­ nuas do irmão e receava o indecifrável acordo entre o pai e a mãe . é que Solara olhou para eles . se os quiser comprar.» Nessa noite . tem de falar comigo .» «Ou é assim. precisou Rino . de cabeça baixa. Mas . Na montra. falas tu . Marcello reapareceu . «Isso fui eu que disse» . Descalçou-os de imediato e desapareceu sem uma palavra sequer de apreço . como se estivesse com dor de barriga e precisasse de ir a correr para casa. Mas Lila estava céptica. . sim.» «Não te atrevas . de uma pequena percentagem sobre as vendas . mas como se tivesse outras coisas em men­ te . de olhos baixos . se se entusiasmasse com a questão do ponto de vista comercial . Experimentou-os . Fernando estava a trabalhar. como até podia estar interessado em comprá-los . sapatos da marca Cerullo . entre caixas de cromatina e atacadores .» Rino ficou calado . na verdade quase arrastado à força para a loja. e ninguém mostrou o me­ nor interesse pelos sapatos na montra. e vejamos o que ele pensa. «Está bem.» Dias depois passei pela loja. ou nada feito .

teve manifestações inquietantes: levantava-se da cama no meio da noite . ficasse já estipulado . Quando a febre bruscamente desapareceu . mas que afinal me apanhou despreve­ nida e me perturbou . e nem tinha ainda quinze anos . Lila recebera-a. Fernando . não só para o seu futuro como para o futuro de toda a farm1ia. Sabia muito bem que Marce­ llo queria por força ser namorado de Lila. e em silêncio e muito agitado ia até à porta. mas a dormir. nunca trocara um beijo com ninguém. de olhos arregalados . Mas não pude ficar ao lado dela. apesar de ele já ter perdido a calma e andar a ameaçá-la. com idêntica calma. arrastavam­ -no de novo para a cama. que o afastou do trabalho alguns dias . No entanto . em casa. Mas Marcello ignorou-o e dirigiu-se directamente a Fernando . que se esforçava para abrir. Lila respondeu-lhe . dizendo que . que em vez de ficar noiva e depois casar-se com Marcello Solara. a aconselhava a aceitar. como se qualquer acordo . Pus-me imediatamente do lado dela. com aquela simples reaparição . lhe partiria os ossos se não aceitasse um partido daquela importância. dom Fernà: queria pedir-lhe a mão da sua filha Lina. para o bem dela. falou com a filha calmamente . Rino reagiu àquela viragem com uma febre violenta. que juntamente com a mulher intuíra de imediato as reais intenções de Marcello . absolutamente não . Nunzia e Lila. assustadas . antes iria afogar-se nos pauis . Disse-lhe que ela ainda era uma criança e não tinha de dizer que sim imediatamente . Em meados de Julho aconteceu uma coisa com que devia ter contado . Eu fiquei pasmada com aquela notícia. mas não me passaria pela cabeça que na nossa idade se pudesse receber uma proposta de casa­ mento . Disse-lhe de um só fôlego: «As minhas intenções são muito sérias . Explicou-lhe que a proposta de Marcello Solara era importante . mas que não a fez mudar de opinião .A Amiga Genial 1 63 e estendeu-lhe a mão . depois da habitual volta pelo bairro a conversar com Lila sobre aquilo que lhe estava a acontecer. nunca namorara às escondidas . Casar-se? Com Marcello Solara? Talvez até ter filhos? Não . e como sair . como pai . Um longo noivado . Uma tarde . Seguiu-se uma grande altercação .» 29 . habituá-la-ia pouco a pouco ao casamento . Encorajei-a a combater aquela nova guerra contra o pai e jurei que a apoiaria. mas acrescentou que .

voltei para casa e a minha irmã Elisa veio abrir-me a porta. «Esperemos que o mar não esteja agitado» . isto é. Ela é que parecia precisar de repouso . estava pálida e tinha a cara inchada. depois de me ter tirado as medidas e me ter feito à pressa um fato de banho que copiou não sei de onde . Disse . a que era coxa e tinha um olho torto . Anunciou-me: «A minha prima respondeu ontem mesmo . demorou-se ainda uma hora bem contada. em Ischia. Entrei timidamente na sala. e jurou-me que em pequena. fez-me prometer que antes de os ler os forraria . Recebe-te com muito prazer. mostrando-me os livros que trouxera para me emprestar. Vai já fazer o jantar. Podes ir para casa dela. bombardeou-me com recomendações .1 64 Elena Ferrante daquela situação . e como se a minha verdadeira mãe . A minha mãe aguentou com paciência. como tal . Ao longo do caminho até ao porto . Depois recomen- . se despediu . Mas eu não me lembrava de Coroglio . O que mais a assus­ tava era a travessia. foi ela mesma que me acompanhou ao barco . nem de saber nadar. só tens de ajudá-la um pouco em casa. senão dou-te uma bofetada. e a minha mãe disse-me . que estava à espe­ ra disso e teria ficado orgulhosa. Ficou sen­ tada. Explicou-me quais os que devia ler primeiro e quais depois . que na sala de jantar se encontrava a sua profes­ sora. e ordenou-me que lhos devolvesse todos n o final d o Verão . e. e disse-lho . e ficar até ao fim de Agosto .» Mas passados dois dias . enquanto me comprava o bilhete e depois .» Falou comigo como se fosse ela a minha mãe . Estava a conversar com a nossa mãe . sem u m único canto dobrado . enquanto aguardámos o embarque .» Olhei para a professora sem compreender. como que a dizer que a culpa do meu eventual afogamento não devia ser atribuída a ela. atenta. Além disso . que fizera o que devia fazer para evitá-lo . anda. Só explodiu quando a professora. E ela ficou com um ar ressentido . e que o mar era lindo e eu aprendera a nadar. nem do mar. fosse apenas um ser vivo descartável . não se foi embora depois de me transmitir aquele re­ cado . me levava a Coroglio todos os dias para me curar do catarro . a menina anda muito can­ sada. mas simplesmente ao meu esquecimento . finalmente . aborrecida: «A professora Oliviero diz que tu precisas de repousar. não devesse ser tomada em considera­ ção . com um gesto de desdém para ela e nem uma carícia à minha irmã. embora o olho dançarino lhe desse um ar alucinado . excitada. tinha eu três ou qua­ tro anos . dizia quase para si mesma. a senhora Oliviero . Dirigiu-se a mim: «A menina tem de ir para Ischia repousar. que andas muito cansada.

entre mil receios e mil curiosidades . larga e de areia escura.» Quando o vesti ela desatou a rir. ex­ tinguiu-se . Desabrochei . preparar o pequeno-almoço para ela e para os hóspedes . toda vestida. O corpo volumoso da minha mãe . Descobri que tinha obrigações inevitáveis: levantar-me às seis e meia. suportes .assim como o bairro e as atribulações de Lila . achou que era de velha. Cheguei à povoação de autocarro .A Amiga Genial 1 65 dou-me que não me afastasse da beira da água. uma viagem por mar.foi ficando cada vez mais longe . com tantos medos que a minha mãe me inculcara e os problemas que tinha com o meu corpo . Podia estar no terraço a ler com o mar em frente . disse ainda. muito alegre . O resto do tempo era meu . pôr a mesa para o jantar e lavar a loiça antes de ir para a cama. não deves sequer molhar os pés . falado­ ra. A prima da professora chamava-se Nella Incardo e mo­ rava em Barano . O percurso pareceu-me longo . nem mesmo com o mar calmo . senti-me aterrorizada e feliz ao mes­ mo tempo . muito decotado no peito . ou descer a pé por uma estrada branca e íngreme até uma praia comprida. num bonito tom de azul . solteira. Experimentei-o e ela entusiasmou-se . Alugava os quartos a veraneantes e ficava com um quartinho para si e a cozinha. mais justo no traseiro . dizendo: «0 que fazes tu assim? Veste o fato de banho. passava o tempo no terraço . Fez-me outro que na opinião dela era mais moderno . . pediu a um velho marinheiro que olhasse por mim.. levantar a mesa e lavar chávenas e tigelas . chegava de terraço . Quando o barco se afastou do cais . ou se te aparecer o sangue . e que ficasse em casa se ele estivesse agitado ou com a bandeira vermelha. Tinha de fazer a cama à noite e desmontar tudo (tábuas .» Antes de nos separarmos . No dia seguinte . ditos espirituosos e descrições empolgantes da ilha. escrevendo uma carta por dia a Lila. «quando tiveres o estômago cheio . Saía de casa pela primeira vez . 30 . peguei numa toalha e num livro e fui até aos Maronti . todas elas cheias de perguntas . Mas Nella uma manhã fez troça de mim . ia fazer uma viagem. encontrei facilmente a casa. colchão) de manhã. que se chamava praia dos Maronti . disse que já eram horas de eu ir à praia. Nella revelou-se uma mulherona simpática. No início . Eu ia dormir na cozinha.quando cheguei estava lá um casal inglês com duas crianças . «Sobretudo» .

Só sentia falta de Lila. passear por Barano. Fiquei muito tempo em pé a olhar para aquela massa de água. preparar o pequeno-almoço . a perna saudável tapada até ao joelho pelo vestido . Pratiquei um pouco de inglês com a família que estava hospedada em casa de Nella. ao longo da vida. fiz um grande avanço . Levantei-me e fui mo­ lhar os pés . dos meus irmãos . mergulhar. Queimei-me . Depois perdi o pé e afundei-me . às coxas . Dizia que eu era um palito quando cheguei e agora. sem eu estar presente . deixando que a água me subisse dos pés até aos tornozelos . Não tinha saudades do meu pai . um receio que nunca me passara: o medo de que . encorajava-me . a areia granulosa roçagava a cada passo . que estava sempre alegre . Do mar chega­ va-me um odor intenso . com um vestido branco às florinhas . Era um receio antigo . e a perna doente toda enterrada na areia escaldante . dos jardins . A praia não tinha fim e estava deserta. nem uma vez só . eu aprendera. mais nova. enquanto ela fazia os banhos de areia. A água do mar e o sol depressa me apagaram do rosto a inflamação do acne . os últimos dez dias de Julho deram-me uma sensação de bem­ -estar até então desconhecida. a minha perdesse intensidade e impor­ tância. menos es­ tragada. boas ou más . ler mais . . para me manter à tona de água . e que . Depois sentei-me na toalha. em ir tomar um banho de mar? Mas era verdade . voltei à superfície e ao ar. Receava que lhe acontecessem coisas . perdendo bocados da vida dela. sem saber bem o que fazer. arrumar a cozi­ nha. sentada na areia preta ao sol do meio-dia. tínhamos pro­ metido escrever-nos à despedida. Esperava cartas de Lila. Avancei com cautela. escureci . Era verdade que a minha mãe me levara à praia em pequena. Esbra­ cejei aterrorizada. descer e subir a estrada para os Maronti . ler estendida ao sol . sabia nadar. não per­ dia a oportunidade de me fazer elogios . Como era possível viver numa cidade como Nápoles e nunca ter pensado . Lila que não respondia às minhas cartas . cozi­ nhava muito bem. Enfim. graças ao tratamento que me dava. se repetiu muito: a alegria do que é novo . Entretanto . O facto de ela não me responder aumentava essa preocupação .1 66 Elena Ferrante não encontrei ninguém a subir nem a descer. Nella. Fazia-me grandes pratos . um som seco e monótono . da minha mãe . Apercebi-me de que movia instintivamente os pés e os braços de uma certa maneira. Gostava de tudo: de me levantar cedo . das ruas do bairro . Perceberam que eu queria aprender e falavam cada vez mais comigo com simpatia. estava muito bonita. Vi-a num relance . engoli água. Portanto . mas não chegaram. Experimentei um sentimento que depois . comecei a servir-lhe de intérprete .

alto . mas pobre de acontecimentos . Nella quis que a ajudasse a encerar os quartos . para poder visitá-los se resolvesse ir a Inglaterra. olharíamos para a Lua e para as estrelas . Quando voltei para a cozinha. Pessoas muito finas . Não fazia senão pensar nos momentos inten- . que fora escrito por ele . o meu rio de palavras e o seu silêncio pareciam demonstrar que a minha vida era maravilhosa. Fi-lo com gosto. todas as noites lia um poema. Escrevi imediatamente a Lila. fiquei ansiosa pela chegada desse rapaz . a fazer as camas de lavado . em que desceria a estrada para os Maronti com ele . antecipação apaixonada do momento em que veria Nino Sarratore . Era Expressões de Bonança . Já os sabia todos de cor. muito educadas . Assim que os ingleses partiram. dando-me até tempo de lhe escrever todos os dias . Nella tinha-o sempre na mesa-de-cabeceira. Era o segundo ano que vinham. e eu envergonhei-me . deixando-me dois romances para praticar a leitura. que é um doce. magro mas robusto . amá­ veis . e o seu endereço . até sabes ler em inglês . ale­ gria. E depois o filho mais velho . «Vê o que ele me escreveu» . Sobretudo o marido . em que tomaríamos banho . receei que não conseguíssemos dizer duas palavras um ao outro . no primeiro dia de Agosto . uma farm1ia napolitana. d e Donato Sarratore . disse . Só no final de Julho é que Nella me disse que para o lugar dos ingle­ ses chegaria. dormi­ ríamos sob o mesmo tecto .A Amiga Genial 1 67 Embora me esforçasse para lhe transmitir nas cartas o privilégio que eram os meus dias em Ischia. por ser ajuizada. Não te chegam os livros que trouxeste?» Fartou-se de me elogiar à distância. e às suas compotas.» 31. que ele não gostasse de mim. a mudar as roupas . Páginas e páginas de apreensão . A dedicatória di­ zia: «À Nella. pri­ meiro em silêncio e depois em voz alta. encontrei-a com um livro na mão . por ser disciplinada. fazia este ano dezassete anos. um bonito rapaz . ao passo que a dela era negra mas cheia. Disse que lhe fora oferecido pelo senhor que chegava no dia seguinte. e enquanto lavava os pavimentos ela gritou-me da cozinha: «Que inteligente que és . estendendo-me o livro . por ler todo o dia e também à noite. em voz alta. disse-me . desejo de fuga. «Vais deixar de estar sozinha» . um verdadeiro cavalheiro que lhe dizia sem­ pre belas palavras .

1 68 Elena Ferrante

sos em que ele , segurando o irmão pela mão , havia um século - ah ,
quanto tempo passara - , me declarara o seu amor. Éramos duas crian­
ças , então . Agora sentia-me adulta, quase uma velha.
No dia seguinte fui à paragem da camioneta, para ajudar os hóspedes a
trazer as bagagens . Sentia uma grande agitação, não dormira em toda a
noite . A camioneta chegou , parou , e os passageiros saíram. Reconheci
Donato Sarratore , reconheci Lidia, a mulher, reconheci Marisa, apesar de
estar muito mudada, reconheci Clelia sempre à parte, reconheci o peque­
no Pino , que era agora um rapazinho de rosto sério, e calculei que o me­
nino cheio de birras que estava a atormentar a mãe fosse aquele que , a
última vez que eu vira a farm1ia Sarratore completa, ainda ia no carrinho,
sob a chuva de projécteis atirados por Melina. Mas não vi Nino .
Marisa lançou-me os braços ao pescoço , com um entusiasmo que eu
não esperava. Ao longo de todos aqueles anos nunca, mas nunca mais ,
me recordara dela, ao passo que ela disse que pensara muito em mim ,
com saudades . Quando falou nos velhos tempos d o bairro , e disse aos
pais que eu era a filha do Greco , o porteiro , Lidia, a mãe , fez um trejei­
to de desagrado e correu a agarrar o filho pequeno , e a repreendê-lo não
sei porquê , enquanto Donato Sarratore se ocupou das bagagens , sem
uma frase sequer, tipo: como está o teu pai .
Fiquei deprimida. Os Sarratore instalaram-se nos quartos, eu fui à
praia com Marisa, que conhecia muito bem os Maronti e Ischia inteira,
e estava impaciente , queria ir ao Porto , onde havia mais animação , e a
Forio , e a Casamicciola, a toda a parte menos a Barano , que na opinião
dela era uma pasmaceira. Contou-me que estudava para secretária em­
presarial e que tinha um namorado , que eu em breve conheceria porque
ele vinha visitá-la, mas às escondidas . Por fim disse-me uma coisa que
me deu um baque no coração . Sabia tudo a meu respeito , sabia que eu
andava na secundária, que era uma óptima aluna e que namorava com
Gino , o filho do farmacêutico .
«Quem te contou?»
«Ü meu irmão .»
Portanto , Nino reconhecera-me , portanto sabia quem eu era, portanto
não era desatenção , mas talvez timidez , talvez falta de à-vontade , talvez
vergonha por causa da declaração que me fizera em criança.
«Já há tanto tempo que acabei tudo com o Gino» , disse , «O teu irmão
não está bem informado .»
«Só pensa em estudar, aquele , já há muito tempo que me falou em ti;
anda quase sempre com a cabeça nas nuvens.»

A Amiga Genial 1 69

«Ele não vem?»
«Vem quando o pai se for embora.»
Falou-me de Nino de forma muito crítica. Não tinha sentimentos .
Não se entusiasmava com coisa nenhuma, não se irritava mas também
não era simpático . Era metido consigo , a única coisa que o interessava
era o estudo . Nada lhe dava prazer, era de sangue frio . A única pessoa
que mexia um bocado com ele era o pai . Não quer dizer que discutis­
sem, era um filho respeitador e obediente . Mas Marisa sabia bem que
ele não suportava o pai . Ela, por sua vez , adorava-o . Era o homem me­
lhor e mais inteligente do mundo .
«E fica cá muito tempo , o teu pai? Quando se vai embora?» , pergun-
tei-lhe com um interesse talvez excessivo .
«Só três dias . Tem de ir trabalhar.»
«E o Nino chega daqui a três dias?»
«Sim. Inventou que tinha de ajudar a fami1 ia de um amigo a fazer a
mudança.»
«E não é verdade?»
«Ele não tem amigos . E aliás , não deslocaria aquela pedra dali para
aqui , nem pela mãe , a única pessoa a quem quer bem, quanto mais aju­
dar um amigo .»
Tomámos banho e enxugámo-nos passeando à beira da água. A rir,
indicou-me algo em que eu não reparara. Ao fundo do areal escuro
viam-se formas brancas , imóveis . Arrastou-me , a rir, pela areia escal­
dante , e a certo ponto viu-se claramente que eram pessoas . Pessoas vi­
vas cobertas de lama. Era um tratamento que faziam, não se sabia a quê .
Estendemo-nos na areia e rebolámo-nos, empurrando-nos uma à outra,
fingindo que éramos múmias , como aquelas pessoas . Divertimo-nos
muito e depois fomos tomar outro banho .
À noite a fami1ia Sarratore jantou na cozinha, tendo convidado Nella
e eu para lhes fazermos companhia. Foi um serão agradável . Lidia não
fez qualquer referência ao bairro , mas , passada a fase inicial de hostili­
dade , fez perguntas a meu respeito . Quando Marisa lhe disse que eu era
muito estudiosa e andava na mesma escola que Nino , tomou-se mais
amável . Mas o mais simpático de todos foi Donato Sarratore . Cobriu
Nella de elogios, deu-me os parabéns pelos resultados escolares que ti­
ve , dispensou muitas atenções a Lídia, brincou com Ciro , o mais peque­
no , quis ser ele a arrumar tudo , nem me deixou lavar a loiça.
Observei-o com muita atenção e pareceu-me uma pessoa diferente
daquela de que me lembrava. Sim, estava mais magro , deixara crescer

1 70 Elena Ferrante

bigode , mas à parte o aspecto físico havia algo mais que não entendi
bem e que resultava do comportamento . Talvez me tivesse parecido
mais paternal do que o meu pai e de uma cortesia fora do comum.
Essa sensação acentuou-se nos dois dias seguintes . Quando íamos
para a praia, Sarratore não permitia que Lidia nem nós duas , raparigas ,
levássemos nada. Ele é que ia carregado com o guarda-sol , os sacos com
as toalhas e a comida para o almoço , à ida, e a mesma coisa no regresso ,
quando o caminho era todo a subir. Só nos entregava a carga quando
Gianni choramingava e queria que o levassem ao colo . Tinha um corpo
seco , com poucos pêlos . Usava um fato de banho de cor incerta, não de
tecido , parecia de lã fina. Nadava muito mas sem se afastar, queria mos­
trar a mim e a Marisa como era o estilo livre . A filha nadava como ele ,
com as mesmas braçadas cuidadosas , lentas , e eu comecei a imitá-los .
Exprimia-se mais em italiano do que em dialecto e tendia, com uma
certa insistência, principalmente comigo , para compor frases complica­
das e perífrases fora do comum. Convidava-nos animadamente , a mim ,
Lidia e Marisa, para corrermos para c á e para lá com ele , junto à reben­
tação , para tonificar os músculos , e entretanto fazia-nos rir, com caretas ,
vozes desafinadas , passadas cómicas . Quando tomava banho com a
mulher, boiavam abraçados , falavam em voz baixa, riam muito . No dia
em que se foi embora fiquei triste , como Marisa ficou triste , como Lidia
ficou triste e como Nella ficou triste . A casa, apesar de ecoar as nossas
vozes , parecia tão silenciosa como um túmulo . A única consolação foi
que finalmente chegaria Nino .

32 .

Experimentei sugerir a Marisa que o fôssemos esperar ao porto , mas
ela recusou , disse que o irmão não merecia essas atenções . Nino chegou
à noite . Alto , muito magro , camisa azul, calças escuras , sandálias , um
saco ao ombro , não mostrou a mínima emoção por me encontrar em
Ischia, naquela casa, cheguei a pensar que tivessem telefone em Nápo­
les , que Marisa o tivesse de algum modo informado . À mesa expressou­
-se por monossílabos , ao pequeno-almoço não apareceu . Acordou tarde ,
fomos tarde para a praia, pouco ou nada levou . Mergulhou imediata­
mente , com decisão , sem o virtuosismo exibicionista do pai , com natu­
ralidade . Desapareceu , receei que se tivesse afogado , mas nem Marisa
nem Lidia se preocuparam. Reapareceu quase duas horas depois , pôs-se

A Amiga Genial 171

a ler e a fumar cigarro atrás de cigarro . Leu todo o dia, sem nunca nos
dirigir a palavra, e dispondo as beatas apagadas na areia, em filas de
duas . Também eu me pus a ler, recusando o convite de Marisa para
passear ao longo da rebentação . Ao jantar comeu à pressa e saiu . Levan­
tei a mesa e lavei a loiça, pensando nele . Fiz a cama na cozinha e pus­
-me de novo a ler, à espera que ele voltasse . Li até quase à uma e depois
deixei-me dormir com a luz acesa e o livro aberto sobre o peito . De
manhã acordei com a luz apagada e o livro fechado . Pensei que teria
sido ele e senti uma onda de amor nas veias , que nunca sentira.
Passados alguns dias as coisas melhoraram. Reparei que de vez em
quando olhava para mim , e depois desviava os olhos . Perguntei-lhe o
que estava a ler e disse-lhe o que eu estava a ler. Falámos das nossas
leituras , enfastiando Marisa. A princípio pareceu ouvir-me com atenção ,
mas depois , tal como Lila, começou a tomar as rédeas da conversa e
prosseguiu , cada vez mais preso aos seus raciocínios . Como queria que
ele se apercebesse da minha inteligência, tentava interrompê-lo , argu­
mentar, mas era difícil . Só parecia satisfeito com a minha presença se
eu ficasse em silêncio a ouvi-lo , o que depressa me resignei a fazer. Até
porque ele dizia coisas que eu me sentia incapaz de pensar, ou pelo
menos de dizer com a mesma segurança, e dizia-as num italiano forte ,
cativante .
Marisa às vezes atirava-nos bolas de areia, outras vezes começava a
gritar: «Acabem com isso , estou-me lixando para esse Dostoievski ,
estou-me nas tintas para os Irmãos Karamazov.» Então Nino interrompia­
-se bruscamente e afastava-se pela beira da água de cabeça baixa, até se
transformar num pontinho . Eu passava um bocado com Marisa a falar
do seu namorado , que afinal não podia vir vê-la em segredo , o que a
fazia chorar. Entretanto , sentia-me cada vez melhor, nem podia crer que
a minha vida pudesse ser assim. Talvez , pensava, as raparigas da Via dei
Mille - aquela toda vestida de verde , por exemplo - tivessem uma
vida como aquela.
De três em três ou de quatro em quatro dias , Donato Sarratore volta­
va, mas ficava no máximo vinte e quatro horas , e partia . Dizia que não
pensava em mais nada senão no dia 1 3 de Agosto , quando se instalaria
em Barano durante duas semanas seguidas . Assim que o pai aparecia,
Nino tornava-se uma sombra. Comia, desaparecia, reaparecia alta noite
e não pronunciava uma palavra. Ouvia o pai com uma espécie de sorri­
zinho tolerante , e nunca mostrava concordar nem opor-se a qualquer
coisa que ele dissesse . Só dava alguma opinião decisiva e explícita

1 72 Elena Ferrante

quando Donato mencionava o almejado 1 3 de Agosto . Então , passados
dois minutos , recordava à mãe - à mãe , não a Donato - que a seguir
ao feriado de 15 de Agosto tinha de regressar a Nápoles porque combi­
nara encontrar-se com alguns colegas de escola (planeavam reunir-se
numa casa de campo em Avellino) , e também para começar a fazer os
trabalhos de casa das férias . «É mentira» , sussurrava-me Marisa, «não
tem trabalhos de casa nenhuns .» Mas a mãe elogiava-o , e o pai também.
Aliás , Donato começava logo com um dos seus argumentos preferidos:
Nino tinha muita sorte em estudar; ele só pudera frequentar até ao se­
gundo ano da escola industrial , depois teve de ir trabalhar; mas se tives­
se podido fazer os mesmos estudos que o filho , sabe-se lá até onde teria
chegado . E concluía: «Estuda, Ninu , anda, ouve o que o pai diz , e faz o
que eu não consegui fazer.»
Aquele tom incomodava-o mais do que qualquer outra coisa. Por
vezes , só para o evitar, chegava a convidar as duas , eu e Marisa, para
sairmos com ele . Dizia em voz baixa aos pais, como se nós não fizésse­
mos senão atormentá-lo: «Querem ir comer um gelado , querem dar uma
voltinha, eu acompanho-as .»
Nessas ocasiões Marisa ia a correr preparar-se , toda contente , e eu
lamentava-me porque tinha sempre os mesmos trapos para vestir. Mas
parecia-me que pouco lhe importava que eu estivesse bonita ou feia.
Assim que saíamos de casa ele começava a falar, Marisa sentia-se con­
trariada, dizia que melhor seria ter ficado em casa. Eu , pelo contrário ,
estava suspensa das palavras de Nino . Admirava-me muito que , na
agitação do Porto , entre jovens e menos jovens que olhavam intencio­
nalmente para mim e para Marisa, e se riam, e tentavam meter conversa,
ele não mostrasse nem um traço daquela disposição para a violência que
existia em Pasquale , Rino , Antonio e Enzo , quando saíam connosco e
alguém nos deitava um olhar a mais. Como nosso guarda-costas , de
pouco valia. Talvez por estar absorvido pelas coisas que lhe passavam
pela cabeça, pela mania de me falar delas , deixava que à nossa volta
acontecesse de tudo .
Foi assim que Marisa fez amizade com uns rapazes de Forio , que a
vieram visitar a Barano , e ela levou-os connosco para a praia dos Ma­
ronti , e por isso passámos a sair todas as noites . Íamos os três até ao
Porto , mas , uma vez lá chegados , ela ia-se embora com os novos amigos
(quando é que Pasquale seria tão liberal com Carmela, ou Antonio com
Ada?) , e nós passeávamos ao longo do mar. Depois encontrávamo-nos
por volta das dez e voltávamos para casa.

senti realmente uma dor no peito . eu . amava-o e sabia que o amava e sentia-me contente por amá-lo . e deixei de lhe escrever. mas faltara-lhe sempre a coragem. .» Depois perguntou-me por Lila. Depois sorriu e disse: «Lembras-te da declaração que eu te fiz?» «Sim. desta vez sofri de forma evidente .» «E faz o quê?» «Ajuda os pais. Nino disse-me sem mais nem me­ nos que invejara desde miúdo a relação que havia entre mim e Lila. Sabia que ele acordava tarde e inventava todo o género de desculpas para não tomar o pequeno­ -almoço com os outros . toldava-me a cabeça.» «Gostava imenso de ti .» «Era óptima. quando ficámos sós . Mas quando ele se afastava para o largo não me sentia capaz de o acompa­ nhar. «já não é assim . Dediquei a minha atenção a Nino .» Fiquei toda afogueada. o pontinho escuro da cabeça. Voltava para a zona de rebentação e observava com apreensão o rasto que ele deixava. Ficava ansiosa quando o perdia de vista. preparava-lhe as coisas e levava-lhas . sempre a conversar.A Amiga Genial 173 Uma noite . Porém .» «Pensava eu que seríamos noivos e ficaríamos os três juntos para sempre . e gostaria de ter feito amizade connosco . ia com ele para a praia. e feliz quando o via regressar.» E senti o impulso de acrescentar: «Ouviste o que os professores di­ zem de mim. «Não percebia nada de noivados . «Ela mudou» . e se antes ficara decep- cionada por ele ter dito que a declaração de amor fora só uma tentativa para se introduzir na minha relação com Lila. na escola?» Felizmente consegui conter-me . ela não me respondia. disse . De qualquer maneira.» Disse mesmo assim (toldava-me a cabeça) . «Continuou a estudar?» «Não . Resumindo . tu e a tua amiga.» «Juntos?» Riu-se de como era em criança. de­ pois daquela conversa. tomávamos banho juntos . Esperava por ele . ninguém conseguia apanhá-la. Via-nos de longe . sempre juntas . tornou-se difícil contar a Lila o que me estava a acontecer. sussurrei estupidamente: «Obrigada.

de repente come­ çou a falar do pai . Notei que estava nervoso . a Lua estava cheia. Mas a questão não era . desci a estrada pedregosa que ia para a praia. Mas ele foi com Marisa. Eu . que destino? Pensei no bairro como uma voragem da qual era uma ilusão tentar sair. disse . mas caçou-a na mesma. pais e filhos chegavam muitas vezes a vias de facto . naqueles dias de conversas cerradas . renunciando a acompanhar a irmã.» «É um homem simpático . É um hipócrita. Trata os filhos com dedicação . Não se via vivalma e pus-me a chorar de solidão . Sentou-se a meu lado .» «Toda a gente diz isso . contava-me ela. mete-me nojo. Faria mal a qualquer pessoa por vaidade . Mas trai-a constantemente . negro-acinzentada à luz do luar. A areia estava fria. Tinha de ir buscar a irmã dali a uma hora. O que era eu . já não tinha furúnculos. como Rino e Fernando . Eu tivera o cuidado de nunca falar em Melina. Vai à missa todos os domingos.» «Ele foi amante dela. «Mais ou menos. que durante uns segundos o desfeou . quem era? Sentia-me de novo bonita. Sabia muito bem que ela era uma mulher frágil . eis porque falava tanto dos Karamazov. Esperava que ele viesse comigo . traindo o outro namorado de Nápoles . onde tinha agora uma espécie de namorado com o qual . Desfaz-se em atenções com a minha mãe . o mar mal se mexia. julga que tudo lhe é perdoado . Mas a violência daquelas poucas frases cons­ truídas com cuidado fez-me mal . por uma questão de princípio . Não falou de livros . batia na areia com o calcanhar esquerdo . no entanto . e sem se sentir responsável . o sol e o mar tinham-me tornado mais esbelta.» Não soube o que dizer-lhe . No bairro podiam acontecer coisas terrí­ veis . e agora ele perguntava por ela. por pura vaidade . Que signos eram os meus. a pessoa de quem eu gostava e que queria que gostasse de mim não mostrava interesse ne­ nhum pela minha pessoa. trocava beijos e abra­ ços . Depois senti a areia ranger e vi a sombra de Nino .» «E então?» Fez uma careta sarcástica.1 74 Elena Ferrante Mas entretanto o feriado de Agosto ia-se aproximando . por exemplo . «Como está a Melina ?» Olhei-o estupefacta. que insistia em ir ao Porto . Uma noite disse-lhe que não queria ir ao Porto . «Dedicarei a minha vida» . Como está convencido de que faz toda a gente feliz . como se se tratasse de uma missão . «a tentar não me parecer com ele . preferia ir passear até aos Maronti . Nino odiava o pai com todas as suas forças .

E pensa em Ascânio . se o seu peca­ do era a capacidade de amar. exclamou em tom brusco . era o pai que qualquer rapariga ou rapaz gostaria de ter. não tinha nada de tão repelente . Pensei que nem da minha mãe eu falaria assim. por aquilo que vira com os meus olhos e ouvira com os meus ouvidos . Passei dias difíceis. a mãe morrera havia pouco . Nunca nos tínhamos tocado . com os lindos olhos a luzir. aquele tom acu­ sador. o contacto queimou-me os dedos . cheirava-o . até do meu pai .A Amiga Genial 1 75 essa. Além disso . ela notou que eu estava a sofrer. À noite . na cozinha. A minha paixão desesperada comovia-me . Regressámos a Barano falando de livros . O que me perturbou profundamente foi que Donato Sarratore . Alcancei-o . mas ele já ia ao largo . pareceram-me terríveis . lambia-o com a ponta da língua e chorava. Quando arrumei os quartos encontrei um marca­ dor de livros de cartolina azul que pertencia a Nino e escondi-o entre as minhas coisas . Adormeci ao alvorecer. e afas­ tou-se em passos largos . «Vou-me embora amanhã» . para não me incomodar. «Vai lá» . 33 . disse .» E deu um salto . suavemente . lar- guei-o logo . Já se fora embora.» «Jurou fidelidade perante Deus» . «talvez ainda vás a tempo . São coisas que nos caem mal . muito agitado . e de facto Marisa adorava-o . . na cozinha silenciosa. «Nem sequer tu me compreendes» . aquelas frases implacáveis . Murmurei: «Ele e Melina foram levados pela paixão . Por isso . com o coração aos saltos. «Não tem respeito por ela nem por Deus. permitiu­ -me finalmente . Ele inclinou-se e beijou-me os lábios. a minha mãe dizia com raiva que sabia-se lá o que ele por aí pintava. murmurei e dei-lhe o braço . o pai devia estar de luto . um beijo muito leve . «Mas o dia 1 3 é depois de amanhã. Chorei toda a noite. mas são também muito comoventes .» Não respondeu . beijava-o . disse . como Dido e Eneias . Vesti-me à pressa. disse que Nino quisera tomar o pequeno-almoço no terraço . Nella veio acordar-me e repreendeu-me . «Eu compreendo-te» . na es­ perança de chegar antes de o barco partir. e o meu pranto alimentava-se a si próprio . depois fo­ mos buscar Marisa ao Porto . Sentia a boca dele na minha. já na cama. eu não via nisso nada de particularmente mau.» Corri até ao Porto .

proporcionava­ -nos alegria e tranquilidade naquela noite nos Maronti .para a escuri­ dão em que Lila me mergulhara. por não responder às minhas cartas . disse-me . Lamentou que o filho já se tivesse ido embora. Ele próprio se encarregou de juntar toda a lenha que conseguiu encontrar. não . «É um rapaz realmente sério» . que adora o aspecto das coisas e das pessoas e está sem­ pre a sorrir-lhes . convidou-os uma noite para faze­ rem uma grande fogueira na praia. e ficou lá connosco até tarde . Nino é alto . mas agora pa­ recem-me muito semelhantes: não precisam de nada nem de ninguém. os traços do rosto são vincados . mas ficou conten­ te por ele ir encontrar-se com os colegas em Avellino para estudar. como Lila. nunca se relacionaram. De repente senti- -me contente por nenhum dos dois estar presente na ilha. parece apreciar todas as manifestações da vida. Ela e Nino mal se conhecem. nunca estão contentes .1 76 Elena Ferrante Depois chegou Donato Sarratore e começaram os seus quinze dias de férias . a boca sempre entreaberta. e tocava bem. tem grandes entradas no cabelo e a boca apertada. com lábios convidativos. o que é um dom e um sofrimento . Nino olha tudo com olhos pensativos . e sabem sempre o que está certo e o que está errado . O rapaz com quem Marisa namoriscava arranhava a guitarra e Donato cantou . o que tem de tão ter­ rível Donato Sarratore? Eu não percebia. como se cada segundo vivido fosse de uma limpidez total . este homem. . «como tu . Quando a noite já ia alta pôs-se também a tocar. por sua vez. quase sem lábios . Marisa foi a primeira. Nino tem qualquer coisa a roê-lo por dentro . mas também . tinha uma bonita voz . como calculo que o teu pai tenha orgulho em ti . e agora sentia falta deles de maneiras diferentes . Tenho orgulho nele . não apenas contra o escuro para onde me atirara o filho ao ir-se embora.» A presença daquele homem transmitia segurança e acalmou-me . A partir daquela noite o pai de Nino pareceu-me um remédio sólido . Olhava para aquele homem e pensava: ele e o filho não têm absoluta­ mente nada em comum.apercebi-me disso com espanto . Alguns começaram a dançar. pensei . Donato tem um olhar receptivo . depois de um beijo quase impercep­ tível . Quis conhecer os novos amigos de Marisa. E se estiverem enga­ nados? O que tem de tão terrível Marcello Solara. Donato . mas estava grata àquele pai odiado que dava importância a mim e aos outros jovens . é de estatura média. a fronte enterrada sob os cabelos negros . que vêem para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. não se entregam. tem um rosto · delicado . receiam aquilo que se passa em volta deles. Gostava de ambos . improvisou algumas músicas de dança.

e eu fiz sinal que sim com grande convicção . respondi . escrevi uma última carta a Lila em que lhe dizia que . palavras e frases que teriam enfurecido Pasquale e certamente tam­ bém a professora Galiani . Mas eu ficava calada. senti-me irmã de Marisa. cuja hostilidade inicial para comigo se transformara em simpatia e afecto . Quando acabou . do princípio ao fim . «Vê quem o escreveu. que até os publicara. Deixaram-me na areia a tomar conta de Ciro . não estuda. ler e estudar. íamos os dois apanhar conchas . ao passo que tu fazes tudo com muito juízo . Não trouxera nenhum e nunca se interessara pelos meus. em contras­ te com a da viagem de outros tempos . «É uma jóia de rapaz» . por caminhos campestres . Donato estendia-se a meu lado a secar ao sol e a ler o jornal . e Lidia res­ pondia-lhe com um sorriso cúmplice . Depois dos seus demorados banhos . e ele também . Por vezes lia-me em voz alta uma passagem de algum arti­ go . Eu achava estranho que uma pessoa que escrevia poemas . e estragar a enorme esti­ ma que tinha por mim. Uma manhã fez-me experimentar um vestido de praia que lhe ficava aperta­ do .» «Tal e qual como o Nino» . não voltaria a escrever-lhe . elogiava muito a precisão com que eu fazia tudo: pôr a mesa. e como Nella e Sarratore . entreter o menino . enquanto eles tomavam banho da forma habitual . vaidosa.» Mas . Donato reagiu e começou a gabar o filho mais velho . Li . não me parecia bem pôr-me a discutir com uma pessoa tão amável . uma vez que nunca me tinha respondido . «Sim. o que lês aqui?» Chegou-se para mim e pôs-me o jornal diante dos olhos . Estava escrito com frases pomposas que ele lia com ênfase . muito» . e a cada duas linhas voltava-se para Lidia a sorrir. eduquei-a mal . de Pinuc­ cio e do pequeno Ciro . Li­ dia.» Lídia desatou a rir. emocio­ nada: «Donato Sarratore . acrescentou uma vez . abraça- . ofereceu-mo . lavar a loiça.A Amiga Genial 1 77 Recomecei a ler. Dizia: «É man­ driona. brincava calmamente . «SÓ que tu és bem-disposta e ele está sempre nervoso . Uma vez leu-me um artigo inteiro . e pediu a minha concordância com o olhar. o Roma . perguntou-me: «Gostaste?» Era um artigo sobre a velocidade da viagem de comboio . Liguei-me mais à farm1ia Sarratore . de caleche ou a pé . a única coisa que lia. ao ouvir aque­ las críticas . nunca abrisse um livro. disse .chamado de urgência para dar uma opinião . arrumar os quartos. Em certos momentos até parecia apreciar-me mais do que à filha.acharam que me ficava muito bem . que gostava muito de mim e que só comigo não fazia birras .

no mesmo dia. com o coração aos saltos. lembro-me perfeitamente porque era o dia do meu aniversário. reflectir em solidão . Assomei-me à janela e o carteiro disse que havia uma carta endere­ çada a Greco .os aniversários nesse tempo eram considerados irrelevantes . agora que o conhecia tão bem não conseguia considerá­ -lo culpado . Olhei para eles e pensei . mas sem guardar rancor a Sarratore . Lá dentro vinham cinco folhas bem cheias . Comprazia-me com estes pensamentos . pensar. Ainda antes de ficar transtornada pelo conteúdo . Mesmo admitindo que Nino tivesse razão e que de facto tivesse havido alguma coisa entre eles. os Sarrato­ re e Nella insistiram que se fizesse uma pequena festa ao serão . que Sarratore traía Lidia. mesmo admitindo . e jornalista. Rasguei o sobrescrito . Conhecera a alegria do amor por aquele homem acima do vulgar: era revisor nos comboios . e quando pronun­ ciei essas palavras veio-me à lembrança que Lila os fizera no dia 1 1 . Fiquei contente . eu comecei a arru­ mar a cozinha. aconteceram duas coisas importantes . rodeada de tantas emoções . mas não percebi quase nada do que li . de cho­ fre .. Quanto a Melina. mais ainda do que no passado . Era uma carta de Lila? De Nino? Era de Lila. embora naquela altura o tivesse forçado a abandonar o bairro . quando aquele período extraordinário estava prestes a terminar. na­ queles dias . e à mesa disse: «Hoje faço quinze anos» . em finais de Agosto . veio-me à . Desde as primeiras linhas . mas passou-se mesmo assim. mas . A mente frágil de Melina nunca mais conseguira adaptar-se à normalidade grosseira da sua vida sem ele . que eu devorei . tanto mais que a própria mulher não parecia considerá-lo culpado . impressionou-me o facto de a escrita conter a voz de Lila. mas também era poeta. com a minha capacidade de ler. Eles foram preparar-se para ir para a praia. Fui lá abaixo a correr.178 Elena Ferrante dos um ao outro e falando-se ao ouvido . Estava contente com tudo . vamos lá. Embora segundo os nossos costumes se festejasse sobretudo o santo do nosso nome . Excluía a hipótese de os meus pais me terem escrito . 34 . também a compreendia. E não só . não me recordara. pobre Melina. chegou o carteiro . Estávamos a 25 . Levantei-me . Depois . preparei o pequeno-almoço para todos. Ho­ je pode parecer estranho . com a minha tristeza. com o meu amor por Nino . e nisto . com o afecto de que me sentia rodeada.

dos tons excessivos . comigo . por gostar tanto de Ischia e da praia dos Maronti . açúcar. Lila mandava-me os parabéns pelo meu aniversário .não deixava qualquer sinal de falta de natu­ ralidade . no en­ tanto estava perfeitamente depurada das escórias da linguagem colo­ quial . começara a apresentar-se para jantar todas as noites . não lhe dava confiança nenhuma. ela exprimia-se através de fra­ ses tão bem construídas . por amar Nino . Logo depois da minha partida. e ele olhava para ela em silên­ cio . uma vez que Lila fazia de conta que ele não estava lá. café . da confusão do discurso oral. Eu lia. tinha feito passar gato por lebre . no dia do meu aniversário . Lila sabia falar através da escrita. e sem um erro . Mas agora sentira necessidade de quebrar o silêncio . com o consentimento de Fernando . Senti desprezo e rancor pelo professor Gerace . e não queria estragar-me as férias com as suas histórias desagradáveis . mas que no bairro muito poucos . Sabe-se lá o que Lila pensara de mim. das frivolidades . Da caixa saiu um objecto de que todos tínhamos conhecimento . por me dar bem com os Sarratore . mas . que depositou na sala de jantar uma caixa de cartão enorme . sem contar com os trabalhinhos da escola primária. decidira surpreendê-la. Che­ gava às oito e meia e ia-se embora às dez e meia em ponto . na carta de Lila. foram chegando também os conteúdos .A Amiga Genial 1 79 lembrança A Fada Azul. que me iludira ao dar-me nove em Italiano . da alegria fingida. ao contrário de mim quando escrevia. Envergonhei-me das páginas infantis que lhe escrevera. pouco a pouco . apesar de ela não ter estudado mais. se tivesse tido a felicidade de nascer da cabeça de Zeus e não dos Greco ou dos Cerullo . Ainda não me escrevera porque sentia-se contente por eu passar o tempo ao sol . ao contrário até de muitos escritores que eu lera e ainda lia. Depois . A sua voz era como um fluxo que me arrebatava e me fascinava como quando conversávamos uma com a outra. A qualidade que existia em A Fada Azul era a mesma que me estava a impressionar agora. Marcello Solara. A esco­ la. o único texto dela que eu lera antes daquele. bombons . Ela não tocava em nada. Passada a primeira semana daquele suplício .além disso . Trazia sempre qualquer coisa: bolos. Aquela carta teve como primeiro efeito fazer-me sen­ tir. ao contrário de Sarratore nos seus artigos e nos poemas . Apresentara-se de manhã na companhia de um tipo corpulento . e ao mesmo tempo via-a e ouvia-a. e compreendi o que é que naquela época distante me agradara tanto . aos quinze anos. todo suado . e a prova estava ali . possuía a viva ordem que eu imagi­ nava que o discurso apresentaria. uma impostora. não se sentia o artifício da palavra escrita. da dor falsa.

e sentia-se cansada. se eu sei que gostas de outro . Aliás . muito concentrada. Como ela não lhe respondia. não . então .» De modo que ela não sabia como sair daquela situação . as raivas de Fernando e de Nunzia. Lila. e que no interior tinha um tubo misterioso que se chamava cátodo . e agora meio bairro . lembra-te bem disto . a sério: «Tu gozas comigo . ele começava a dizer mal da televisão . ou . Estava melhor. e pouco depois . para dizer a verdade . se tivera outros namorados . Al­ gumas noites antes acontecera-lhe uma coisa que lhe metera realmente medo . mas deixara de falar com Marcello . ou ia para a cama sem jantar. que comparecia todas as noites e se sentava em silêncio . quem encontrava. a televisão estava apagada. e continuava a trazer a arma consigo para qualquer emergência. ao passo que ela se preparava para um casamento que faria dela uma senhora. se sentia cada vez mais noivo. Rino andava por fora e os pais estavam-se a deitar. mas que não vi­ nham de um projector e sim pelo ar. Era o único momento de paz. iam a casa dos Cerullo ver aquele milagre . Quanto ao resto . incluindo a minha mãe . mas o bom sa­ bia a mau e o mau sabia a bom. no qual se viam imagens . Marcello tinha-se ido embora. um aparelho com um écran . ou então andava a vadiar até alta noite com Pasquale e Antonio . dizia que adorava a televisão . uma amálgama que lhe tirava o ar. apesar de ela não o ter aceitado . tratava-o com sete pedras na mão. a casa vazia. o aparelho não funcio­ nara durante dias . Mas andava aterrorizada. isto é . Por causa desse tubo . que . Rino . se algum lhe tocara nem que fosse só com um dedo . porque não era simpática para Solara.1 80 Elena Ferrante tinham em casa: um televisor. todas as raivas se descarregavam em cima dela: as raivas do irmão . a perguntas desconfiadas sobre os lugares onde ela ia durante o dia. Quando este aparecia. e ainda as raivas de Marcello . por tê-lo abandonado ao seu destino de escravo do pai . e tendia a passar da devoção silenciosa a tentativas de a beijar. Após várias tentativas . era realmente um bom arranjinho . sem forças . ficara em condições . Marcello . não me limito a ameaçar-te . falando de beijos e abraços de namorados inexistentes . seu dono . dizia de modo obscuro: o mal e o bem estão misturados e fortalecem-se mutuamente . mencionado constantemente pelo homem corpulento e suado . Ela encontra­ va-se sozinha na cozinha. Nas últimas páginas dizia que sentia à sua volta todo o mal do bairro . ele uma noite dissera-lhe ao ouvido . a lavar a loiça. ou melhor. Gostava sobretudo de vê-la com Melina. exactamente como no cinema. o arreliava. mato-te e pronto . mas lembras-te de quando me ameaçaste com o trinchete? Pois bem. pior ainda. o meu pai e os meus irmãos . a febre passara-lhe por completo .

E sinto que tenho de encontrar uma solução . sozinha. Feliz- . sem nunca as corrigir . concluía Lila. que tivesse o tom essencial . quando de repente s e ouviu u m estoiro . embora precisasse urgentemente da minha ajuda. senti um frenesim de me redimir. depressa se sobrepôs ao meu . que na realidade era um homem notável . Mas o ódio de Nino pelo pai . Felizmente que Nella. com os bordos levantados e retorcidos . com Lidia. A carta perturbou-me muito . veio fazer-me companhia no terraço e trouxe-me uma orchata. Resumindo . Estava pendura­ da no prego onde normalmente se encontrava. com Sarratore . esperava que eu pudesse ficar em Ischia com a simpá­ tica dona Nella e nunca mais voltar para o bairro . parte-se tudo . e. a certa altura. A descrição da relação com a fanu1ia Sarratore pareceu-me desprovida de interesse: Donato . com Pino . Sem mais nem menos. mesmo que caia. embora desejasse o contrário . apesar de me ter privado do mar. «que me assusta. Não fui à praia.A Amiga Genial 181 mesmo . senão . e culpara-a de a ter deixado cair e de a ter destruído . Mas se as outras cartas me tinham saído com facilidade . com Clelia. Mas uma panela de cobre . da dela. tudo . como era costume . 35 . em camisa de noite .. e a própria pane­ la estava toda deformada. aquela escrevi-a. e escrevi-a de novo mais uma vez . Tudo aquilo que eu lhe dissera por carta em Julho e Agosto pareceu-me banal . «É este tipo de coisas» . Mais do que o Marcello . como se já não pudesse conservar o seu as­ pecto de panela. Lila virou-se de chofre e viu que a panela grande de cobre tinha explodido . uma coisa após outra.» Despedia-se . A única coisa que parecia de facto verdadeira era a minha decepção . porque ela tinha televisão em casa e eu não . na carta parecia um pai de fanu1ia banal . não me saíram bem. voltei a escrevê-la. não se parte e não se deforma daquela maneira. tentei responder-lhe imediatamente com uma carta sé­ ria. do sol . com Marisa. vindo do lado dos ta­ chos de cobre .enchia páginas e páginas em poucos minutos. E no respeitante a Marcello só consegui dar-lhe conselhos superficiais. não consegui responder-lhe . do prazer de estar com Ciro . A mãe aparecera a correr. mais do que seja quem for. e o peso que o caso com Melina tivera para que aquele horrível sentimento nascesse . em­ bora não visse a hora de eu regressar. tudo . O mundo de Lila. claro e ao mesmo tempo coloquial . repetia os parabéns . mas ao centro tinha um grande rasgão .

situara o esguicho de sangue que espirrou do pescoço de dom Achille há cinco anos . Um a um. Marisa ofereceu-me um cavalo-marinho de estopa que comprara para si no Porto . fazendo explodir uma delas como se fosse um sinal . quando as lavava areava-as com muito cuidado . Nelas . de repente . se havia melgas . que recebera uma carta de uma amiga. A escrita de q1a era muito sugestiva. Tu­ do coisas que me comoveram e tomaram a minha festa de anos ainda mais feliz . na noite anterior.1 82 Elena Ferrante mente que . Marisa ajudou-me a lavar a loiça. O meu olhar en­ controu as panelas de cobre . mas com pouca convicção . Na verdade . deixar que eles se contorcessem em uníssono com a minha vida? Apaguei a luz . disse-o só para ouvir Nella dizer que tinha muita pena. Depois Pino e Ciro começaram a dormitar. mas não conseguia esquecer Lila. quando foi apunhalado . isso era tarefa minha. os Sarratore se queixaram de eu ter ficado em casa e recomeçaram a festejar o meu aniversário . e por isso pensava ir-me embora antes do previsto . Pela janela chovia a luz branca da Lua. «Depois de amanhã. Fiz a minha caminha no canto habitual e analisei a situação . para ver se havia baratas . se eu quisesse descansar mais um pouco . ela levantava-se para preparar o pequeno almoço . as coisas mais preciosas que tinha naque­ le momento . no máximo» . a mesa dava estalidos . e Lidia dizer que Ciro ia sofrer com isso . que essa amiga precisava de mim. As pa­ nelas brilhavam. Beijei o marcador como fazia todas as noites . metida em sarilhos . não por acaso . Donato começou a cantar canções napolitanas . e Lidia e Donato foram deitá-los . Nella abriu uma garrafa de vermute. Lidia quis fazer um bolo coberto de creme pasteleiro . tentei reler à luz ténue a carta da minha amiga. Acalmei-me . Disse . o tecto exercia um peso opres- . como se a sua forma. Protestei . olhei para as panelas com cres­ cente inquietação . Lembrei-me do gosto que ela tinha em vê-las brilhar. quando voltaram da praia. tivesse resolvido ceder. e ver Marisa contrariada. todos se retiraram. e fiquei só . Despi-me e meti-me na cama com a carta de Lila e o marcador de livros em tom pastel de Nino . de modo um pouco dramático . e ouvir Sarratore exclamar. desolado: «E como vamos nós passar sem ti?» . enquanto eu estava tão bem e era tão felicitada. a angústia causada pela decisão difícil que tinha de tomar. anunciei . Nella disse-me que . Nelas centrara agora aquela sen­ sação de ameaça. Sabia eu imaginar aque­ las coisas sem ela? Seria capaz de dar uma vida a cada objecto .

Cobri-me com o lençol . Depois . desfiz a cama. des­ calço . Acocorou­ -se ao meu lado . até àquela noite nunca dera prazer a mim própria. forçando-me os lábios com a língua. precisa de mim. pressionou dois dedos com força sobre as cuecas . Vi a sombra de Sarratore entrar na cozinha. Fiquei imóvel . encheu um copo de água.A Amiga Genial 1 83 sivo . Ficou uns segundos parado em frente do lava-loiça. estava aterrorizada por aquele comportamento . levantou-se e saiu da cozinha. disse . procurou-me o peito com a mão e acariciou-mo sob a camisa. fica. pousou o copo . Senti-me de novo humilhada pela capacidade de escrever de Lila. por ela ser tão competente mesmo sem escola. à primeira claridade . afastou a mão . um pouco rouco . sem os livros da biblioteca. Eu não disse nada. e. murmurou boa noite . sabia que iria acontecer? Senti um ódio irreprimível por Donato Sarratore e asco por mim. não con­ seguia. largou-me a boca. mas essa felicidade tomava-me culposamente infeliz . não o conhecia. pelo prazer que todavia sentia.» «Não penses na tua amiga. Por mais que tentasse afastar a sen­ sação da sua língua. O bigode picava-me o lábio superior. Por muito estranho que hoje possa parecer. Sentia-me fe­ liz. «Sei que estás acordada» . das suas carícias . senti passos . Eu continuei imó­ vel . pelo prazer que me ficara no corpo . por aquilo a que ela sabia dar forma e eu não . Depois largou-o .» «Eu é que preciso de ti» . com o seu pijama azul . escrevi duas linhas de agradecimen­ to a Nella e fui-me embora. . senti-lo em mim surpreendeu-me . «Amanhã à noite vamos dar um belo passeio pela praia. Ele afastou o lençol continuando a beijar-me com cuidado . sim. com pai­ xão . beijou-me na boca sem a suavidade do filho . com os cotovelos apoiados na dobra do lençol . Ele roçou-me de novo os lábios com os lábios . Não é verdade?» Eu não disse nada. desceu a mão por entre as minhas pernas . Nisto . Fiquei naquela posição não sei quantas horas . a língua era áspera. Devagar. «quero-te muito e sei que tu também me queres . enevoaram-se-me os olhos . pela aversão que me causava.» «Ela tem problemas . Nino tentara avisar-me . tanto quan­ to me lembrava. Ele foi à torneira. dirigiu-se para a minha cama. guar­ dei as minhas coisas . da pressão da sua mão . eu e tu» . não sei durante quanto tempo . disse . saí do torpor. bebeu. dos lados vinha a pressão do ar nocturno e do mar. não fiz nada. disse . «Sim. debruçando-se .

cheia de trânsito e de poeira. idade que então me parecia avançada. como as dos jornais. sempre entre caras queimadas . As pessoas .repreendeu-me por ter voltado antes do previsto . mas sim uma mulher. Com o dinheiro à conta que a minha mãe me entregara havia mais de um mês . preta do sol . quase uma anomalia. que com os olhos a luzir me cobriu de elogios . uma vez reintegrada no contexto do bairro . pareciam pintados de ouro escuro .» Olhei-me ao espelho e até eu me admirei : o sol dera-me um loiro esplendoroso . Encontrei Nápoles imersa numa canícula podre e malcheirosa. a minha transformação parecia-me própria do ambien­ te. o mar parado . «0 que fizeste?» . deram-me a impressão de uma fotografia mal impressa. encheu-me de elogios como nunca fizera. disseram com um certo desprezo: «Pareces uma negra.sem acne . e a ilha. Abraçou-me . Na verdade . mas em pouco mais de um mês transformara­ -se . «portaste-te mal e a amiga da professo­ ra pôs-te na rua?» Correu de modo diferente com o meu pai . até fiquei atrapalhada com todo aquele afecto tão explícito. Era a mesma. fui procurar Lila. apanhei o primeiro barco a sair da ilha. os braços . onde todos os rostos e todas as ruas continuavam de uma palidez doentia. entre os quais se destacou . Mas soube imediatamente que a repugnância que sentia por Sar­ ratore e o asco que tinha por mim me impediriam de abrir a boca. saiu do prédio a correr. só os odores eram in­ tensos . Já não parecia uma rapariga. uma mulher de . Chamei-a do pátio. perguntou . pelo menos . pensei que finalmente tinha alguma coisa para contar. a que Lila não poderia contrapor nada de tão memo­ rável . beijou-me . assomou-se à janela. Enquanto estava rodeada das cores de Ischia.1 84 Elena Ferrante A ilha estava quase silenciosa. repetido centenas de vezes: «Senhores . agora. mas o rosto . Quando ele se pôs em movimento . os prédios . ficou para trás . Assim que pude. as pernas . a rua larga. dezoito anos . pareceu-me excessiva. com as suas cores ténues das primeiras horas da manhã. sem dizer uma palavra sobre o meu aspecto . que linda filha que eu tenho ! » Quanto aos meus ir­ mãos. 36. A mi­ nha mãe . é esta a primeira vez que procuro as palavras para aquele fim inesperado das minhas férias . Os velhos .

Lila tranquilizou a mãe . dando-me o braço: «É uma coisa que só posso fazer contigo . ao contrário de quando estava acordado . ainda bem que regressaste. graças ao parentesco com os Solara. à sapataria. Rino atirou-se para cima da cama muito agitado . Percebi que estava nervosa. para evitar problemas na presença dos pais . com as costas direitas . Ela aceitara-o e pusera-o no dedo . assim que Marcelo se foi embora. fora do normal . à casa. e depois desatou a chorar. Ela levara-o para o quarto e deitara-o . e que .A Amiga Genial 1 85 vestidos ficavam-lhe curtos e apertados . estava no seu santo direito de o recusar. e a dormir. Nunzia. e cingiam-lhe o corpo mais do que o tolerável . se eles insistissem em dar-lho . Marcello protestou . Resultado: pela primeira vez desde há muito tempo . De modo que . queria certificar-se de que não havia fugas de gás . devolvera-lho com maus modos. a si próprio e à família inteira. adormeceu imediatamente . como fazia cada vez mais . e quis que a acompanhasse à charcutaria de Stefano . e tinha orgulho em ser proprietária de um tele­ visor. gritando que se a irmã não queria um trambolho como Marcello . tão felizes por nos reencontrarmos . Pai e filho chegaram a vias de facto . para saberem o que se estava a passar. e uma hora depois teve outro dos seus episódios de sonambulismo . ele . e toda a vizinhança acordou . Nunzia meteu-se no meio . como se quisesse ver se havia fugas . mas pouco antes de ele se ir embora. e Fernando sentia-se como se as suas atribulações tivessem termi­ nado .» Nunca havíamos feito aquele percurso até aos jardins tão chegadas uma à outra. com o passo tão certo . pensava que tinha de esperar até Setembro . aterrorizada. Estava mais alta ainda. Disse-me que a s coisas pioravam de dia para dia. ator­ mentaram-na mais do que o habitual . como se tivesse crescido dentro deles em poucos minutos . Ainda n a noite ante­ rior Marcello chegara com doces e espumante e oferecera-lhe um anel cravejado de diamantes . pois . Rino defen­ dera-a. . E não só . deitaria fogo a tudo . sinuosa. gostava das coisas boas que ele lhe levava para casa todas a noites . à porta. Disse apenas: «Vem comi­ go» . a acender fósforo atrás de fósforo e a passá­ -los perto da torneira do gás . na rua olhou em volta e olhou para trás várias vezes . acordou Lila e disse-lhe: «Ü Rino quer realmente queimar-nos vivos . A mãe de Lila afeiçoara-se a Marcello . explicando-lhe que Rino estava a dormir. ele pessoalmente . ameaçou-a. podia encarar o futuro sem cuidados. Fo­ ram encontrá-lo na cozinha.» Depois de ir ver o que se passava. mas não me deu explicações . E o rosto pálido sobre o pescoço fino pareceu-me de uma beleza delicada. Fernando e Nunzia aperceberam-se imediatamente de que algo não corria bem. E acrescentou .

» «Bem sei . cumprimentou-me cordialmente e disse: «Estás com muito bom aspecto .1 86 Elena Ferrante «Não aguento mais» . concluiu .» Agarrou-se a mim.» Respondi-lhe que podia contar comigo para tudo e ela pareceu alivia- da. Stefano apareceu à porta da loj a . «tudo te está a correr bem.» «Onde?» «Em Ischia.» Olhei para Lila. que fora ampliada. a cabeça grande e a testa alta . No bairro nunca se vira uma viatura daque­ le género . disse .» Vi ao longe uma espécie de mancha vermelha que irradiava luz .» O rosto de Stefano mostrou uma expressão moderada de concordân­ cia. Dei umas voltas em torno do carro . «0 que é?» «Então não vês?» Não estava a ver bem.» Fiz sinal para o carro . lançavam olhares admirados àquele símbolo de bem-estar e de prestígio . com olhos divertidos : «Comprei-o para a tua amiga. tinha agora duas entradas e estava à cunha. «É o carro novo que o Stefano comprou . a Lina disse-me . à es­ pera de serem atendidas . mas não te vi. à sombra. pareces uma actriz. «É bonito . apertou-me o braço e sussurrou: «Olha. Andara ao sol como eu . como se eu pudesse carregá-la de energia. Fazendo um gesto para Lila. Um carro de gente rica. com uma expressão tensa. disse-me . As clientes. Ste- .» Ele também estava bem. te­ nho de sair desta situação . com o tejadilho descapotável . se calhar éramos os únicos em todo o bairro com um aspecto tão saudável .» O automóvel estava estacionado em frente da charcutaria. como se esperasse uma manifestação de vio­ lência de um momento para o outro .» «Passei uma semana de férias . mas não desagradável . mas ela não quer crer. com a bata suja d e gordura. que davam a ideia de desproporção . enquanto Lila se conservava à sombra vigiando a rua. Atravessou a rua . não tinha nada a ver com o II 00 dos Solara. que estava muito séria. «Tu estás bem» . toda de vidro e metal .» «Eu também estive em Ischia. Tens de me ajudar. Procurei-te . Disse-lhe: «Como tu estás preto . «tu não imaginas o que eu passo .

» «E então?» «E então . comprado com a única finalidade de levá-la a dar uma volta. vagamente irónico: «Agora a Lenuccia já veio . Lila. Eu ape- nas vos acompanhei. E desde que lho entregaram. «Foi feito de propósito para ti» . havia aquele carro desportivo novo e flamejante . mas depois cada vez mais a sério . e logo se via o que ia acontecer. Stefano .A Amiga Genial 1 87 fano disse-lhe. pelo prazer de ao menos uma vez lhe abrir a porta para ela entrar. Por fim. prometera-lhe: «Quando a Lenuccia regressar de Ischia. e não a mim. mas Lila impediu-me . Pareceu-me que Lila me explicara tudo sem me explicar nada. O calor dispersou-se com o vento . como se a conversa não lhe agradasse: «Vamos lá. como se estivesse a fazer uma experiência de resultado incerto . venho cá. Acomodei-me pou­ co à vontade ao lado de Stefano e ele arrancou imediatamente . Mas lembra-te . com ele e a mãe . camisa branca e calças escuras . querendo dizer que não sabia com exactidão aquilo em que se estava a meter. que fosse dar uma volta com ele e Alfonso. abriu a capota. com gentileza. até . preto de cabelo . disse-me . insiste . com ele e Pinuccia. es­ tava visivelmente preocupada. sentou-se ao volante .» Stefano voltou sem bata. respondeu-me. instalou-se ela atrás . desorientada. Eu fiz menção de me enfiar no exíguo espaço traseiro . . mas sem a expressão atrevida de sempre. preto de cara.» «Lembras-te de quantas coisas fizemos que nos metiam medo? Espe­ rei por ti de propósito . o que vais fazer?» Lila disse . pedi­ ra-lhe assiduamente . Tinha aquele ar de quando precisava de fazer uma conta de cabeça. «Não sei» . inebriada pela ve­ locidade e também pelas tranquilas certezas libertadas pelo corpo de Carracci . Sim. dirigin­ do-se para os novos prédios . dissera-lhe. mas não de forma opressiva. no final de Julho . «Mas ele sabe do Marcello?» «Claro que sabe . convidaste-a a ela. olhos pretos a brilhar. Senti-me bem.» «Tenho medo . «Tudo começou com a chegada deste automóvel» .» E agora ali estávamos . perguntei-lhe . depois . primeiro em tom de brincadeira. «Ü que se passa?» . jurara-lhe que comprara o carro para ela.» Ele sorriu e entrou na loja. que começara agora mesmo . Abriu o carro . primei­ ro . e depois . Mas ela respondera sempre que não .

«mas se te importa a ti . cabelos ao vento . destruía equilíbrios só para ver de que outro modo podia recompô-los . talvez mesmo uma amiza­ de . a pobreza maltrapilha ao longo da estrada. ela sorriu . embora soubesse de Marcello Solara. assim está bem. E no entanto . «A mim não me importa se o Marcello nos vê» . quando me disse que eu parecia uma actriz . disse Stefano sem ênfase . Stefano quis que contássemos . Lila não fez qualquer comentário . «0 que acham. Ela era assim. porém. como se nela visse a confirmação de qualquer coisa que eu devia perceber de imediato . «De quem?» «Tu sabes. entusiasmada. A sua bonita pessoa de gestos seguros perderia consistência. não?» «Muito veloz» . Por isso ali íamos nós numa corrida. Mas que espécie de amizade? Com aquele passeio de automóvel . O que tinha ela em mente? Era impossível que não soubesse que estava a preparar um terremoto pior do que quando atirava pedacinhos de papel ensopados em tinta.» . estava de certeza a acontecer algo de relevante . séria. Lila não soube­ ra. es­ tava a violar as regras viris sem qualquer ansiedade visível . Lembrei-me da maneira como olhara para mim . divertimo-nos e entretanto chegámos aos Granili . havia aquele rapaz que . corre bem. Olhava em volta. Contámos tudo . eu sen­ tada a seu lado com se fosse a namorada dele . A volta pelos novos prédios serviu para evitar passar em frente do bar Solara. quando a chuva nos apanhou . arrastada a toda a pressa para aquela história. sem preâmbulos : «Tu és realmente diferente?» Ele procurou-a no retrovisor. dirigimo-nos para a Marina. Era o caminho que eu e Lila tínhamos percorrido havia muitos anos . ou não quisera. Pensei na possibilidade de ele vir a gostar mais de mim do que gostava da minha amiga agora. Stefano a guiar com satisfeita perícia. Pensei com horror na eventualidade de Marcello Solara disparar sobre ele . Depois perguntou a Stefano . disse eu .1 88 Elena Ferrante Sim. Sim. como o cobre da panela de que Lila me falara na carta. dar-me os elementos necessários para eu compreen­ der. era provável que não tivesse em vista nada de preciso . às vezes tocava­ -me no ombro para me indicar as casas em ruínas . Mencionei esse episódio . havia eu . para esconder com a minha presença palavras secretas entre eles .» Atravessámos o túnel .

«Ü que estás a fazer?» . por ser vaga. disse . estreitou-os até quase os fechar.» Ele esboçou um sorrisinho embaraçado e. cobarde amanhã. «A miséria aqui é pior do que para os nossos lados» . Depois disse em dialecto: «Queres que te diga a verdade?» «Sim.A Amiga Genial 1 89 Não respondeu logo . de que tinham falado um com o outro mais ve­ zes e não a brincar. com seriedade . «Eram outros tempos» . disse . «Ü teu irmão não está bem» . agora alarmada. demorava a replicar. sem qualquer nexo . a rir: «Não penses que eu me esqueci de quando me quiseste picar a língua.» «A intenção é essa. Vi-a banhada de sol . voltámos pelo Rettifilo . O que tinha eu perdido enquanto estivera em Ischia? Virei-me para olhar para ela. metemos pela rua da sapataria. mas não sei como irá acabar. pela Piazza Garibaldi .» «E depois?» «São muito bonitos. disse Stefano quando já estávamos per­ to do bairro .» Nesse instante tive a confirmação de que Lila devia ter-me ocultado não poucos pormenores .» Stefano abanou a cabeça. Aquele tom alusivo era a prova de que havia intimidade entre eles . «Compra-os» . sem responder. A volta durou pouco menos de meia hora.» Ela fez os olhos pequeninos . Procurou-a de novo no retrovisor e perguntou: «Üs sapatos que estão na montra são os que vocês fizeram?» «Ü que sabes tu dos sapatos?» «Ü Rino não fala de outra coisa. tinhas o dobro do meu tamanho . a blusa cheia de seio e de vento . E depois . «Disseste-me para os comprar e vou comprá-los . «Por quanto os vendem?» «Fala com o meu pai . «Cobarde hoje. acelerou na direcção do porto . pensei que a resposta de Stefano a tivesse irritado .» . disse no seu tom provocatório . com os olhos semicerrados . perguntou Lila.» Stefano deu uma decisiva volta em U que me atirou contra a porta.

«Sim» . Foi às trasei­ ras da loja e voltou .» «Sim» . que nos observavam do interior da loja com uma curiosidade carrancuda. Não se preocupou com Lila. ajudou-o a enfiar o p é n o sapato novo .1 90 Elena Ferrante 37 . qualquer coisa para perceber melhor?» Rino disse à irmã. «mas não é para já. olhando maravilhado para a irmã. têm umas linhas muito bonitas mesmo . Stefano abriu a porta da loja. . estendendo as folhas de papel ao irmão . que as passou a Stefano . não opôs resistência. «Qual é o número?» «43 . Eu e ele parámos em frente da montra. «Comprava-los para ti?» «Sim. Quando Lila nos alcançou . mas para mulher. Stefano mostrou-me o desenho de um par de sapatos para mulher com o salto muito alto . estendeu­ -me a mão para me ajudar a sair. disse Fernando perplexo . um desenho . perante o olhar de Rino e Fernando . porque esperava uma recusa dela: «Vai-lhe buscar os desenhos .» Perguntou-me : «0 que achas . e a seguir entrou ele sem dar prioridade a Lila. Depois sentou-se num banco e des- calçou o sapato do pé direito .» Ele voltou-se para Fernando: «A vossa filha disse que trabalharam bastante neles . ele examinou-os e elogiou-os: «São leves mas resistentes .» Lila. perguntou se podia ver os sapatos . continuando a espantar-nos . Parou o carro em frente da sapataria. De­ pois . Lenu?» Eu disse . tirou-lhe o outro sapato e repetiu a operação . Estavam ali todos os modelos que ela imaginara havia quase dois anos. disse Rino . veio abrir-me a porta. ligeiramente agitado . atrapalhada: «São muito bonitos . ajoelhou-se em frente de Stefano e . Lila. deixou-me entrar primeiro . mentiu Rino . e que têm em projecto fazer mais . continuando a surpreendê-lo . Rino foi a correr buscá-los .» «E não há. Foi muito amável com pai e filho . com a ajuda da calçadeira. sei lá. os três. que se desembaraçou sozinha e ficou para trás . mas que até podia ser um 44» .» Examinou de novo os desenhos .

se não fossem um modelo exclusivo Cerullo? Quando estão prontos?» Rino olhou para o pai . mas era evidente que podia ter dito dez .A Amiga Genial 191 Stefano . Esperou que Lila se erguesse e continuou sen­ tado mais alguns segundos. O senhor pensa num preço amigável e eu daqui a três dias venho buscá-los. como que a retomar o fôlego . um mês . que até ali fizera o papel de homem prático e expedito . interveio Fernando . Ste' . Rino ensombrou-se . falou num tom afectuoso: «E achas que eu os comprava. disse Lila com frieza. Stefano olhou para mim e perguntou-me: «Que tal me ficam?» «Bem» . Depois pôs-se em pé e deu uns passos . «Estão apertados» . disse Fernan­ do . disse . Depois apertou a mão a Fernando e a Rino e dirigiu-se para a porta. «Está muito bem. vinte .» «Estás a ofender-me . «Deixamo-los estar na máquina pelo menos três dias» . abriu a porta. Estava zangada: «Pensas que o meu pai é estúpido . ficou visivelmente perturbado . «Podemos meter-tos na máquina e alargá-los» .» Stefano sorriu . «Ouve. Deu-me passagem e saiu atrás de mim. «Üs desenhos» . Eu não sou o Marcello Solara. perguntou Stefano em tom cordial e . desapontado . diante dos nossos olhos perplexos . estes sapatos são um modelo exclusivo Cerullo.» «Então o que és?» . sem esperar pela resposta. que o meu irmão é estúpido?» «Ü que queres dizer?» «Se pensas armar-te em palhaço com a minha farm1ia e comigo .» Dobrou as folhas com os desenhos e meteu-as no bolso . Já eu me acomodara no carro ao lado dele quando Lila nos alcançou . «Então compro-os . Rino reanimou-se . perante aquela inesperada novidade . respondi . «Posso trazer-tos dentro de três dias?» . são ca­ ros .» Fernando ficou impassível . mas num tom de incerteza. radiante . o que queria era ganhar tempo . estás enganado .

Debatíamos os factos . E não me refiro só aos que comprei . embora nos considerássemos perfida­ mente desinibidas . depois de mui­ tos encontros e de muito falarem. não se afastava do carro . Stefano . nem fiz qualquer tentativa de dar forma às minhas emoções . ela. mas a mim ninguém me compra. A ilha esbateu-se . Disse baixinho . Fi-lo com o coração aos saltos. marcada pelos lábios e pelas mãos do pai dele . tudo se redimensionou em poucas horas . foi várias vezes à charcutaria de Stefa­ no . deixas-me à esquina? Se a minha mãe me vê de carro contigo . Por fim disse uma frase que eu nunca teria tido a cora­ gem de pronunciar: «Olha que o Marcello já tentou comprar-me de todas as maneiras . Pus de lado a voz de Nino e a repugnância pelo bigode do pai . «Digo-lhe assim» . A vida de Lila mudou de forma decisiva durante aquele mês de Se­ tembro .» 38 . parte-me a cara. e daqui a três dias encontramo-nos . Mas afinal . refiro-me a todos . certa de que ia chorar noite e dia por causa da mistura de felicidade e asco que sentia dentro de mim. Nos três dias que se seguiram ao espantoso passeio no descapotável .» Ligou o motor e arrancámos .1 92 Elena Ferrante «Sou comerciante . regressara de Ischia apaixonada por Nino . Éramos apenas rapariguinhas .» Stefano olhou-a directamente nos olhos durante um longo instante .com a nossa paixão habitual . Quanto a mim . os sapatos . . receando uma possível aparição de Marcello .Marcello . e parecia-nos sempre que éramos capazes de fazer com que tudo batesse certo. nunca se viu coisa igual . Stefano . Abri espaço para aquilo que se estava a passar com Lila. Os sapatos que desenhaste . mas também satisfeita com o meu papel de confidente pródiga em conselhos . de cúm­ plice na maquinação de tramas .» «E então?» «Então deixa-me pensar. como se quisesse ler-lhe a mente . mas mudou . se não achar que ela me pode render cem. desapareceu em qualquer canto secreto da minha mente . com a desculpa das compras . mas pedindo-me sempre que a acompanhasse . de aparente objecto das atenções de Ste­ fano .» Lila olhava-o fixamente . Agora tinha a certeza: o passeio de au- tomóvel fora uma espécie de consenso a que chegaram. conjecturava ela. «Eu não gasto uma lira. Não foi fácil . em italiano: «Por favor.

ela foi decisiva quando lhe perguntei : «De qual dos dois gostas mais?» Encolheu os ombros . Neste aspecto . e anunciou ao pai e ao filho que alugara o espaço ao lado . que nos últimos tempos pouco se interessava pelo traba­ lho .» Depois . vendendo a Stefano por um preço elevado o único par de sa­ patos produzido pelos Cerullo . dos quais . improvisávamos . «Emoldurar?» . ele foi à loja e comprou os sapatos . perguntou Rino .» Stefano não se ficou por ali . e por vezes uma verdadeira orquestração . «Sim. mas na disposição de descerem até às dez mil . Ele nem pestanejou . Ou pelo menos assim pensámos . e deu-lhes mais vinte mil em troca dos desenhos de Lila. embora lhe ficassem apertados . mas depressa me pareceu que a intenção dela era. A princípio tive a impressão de que ela pretendia simplesmente dar algum dinheiro a ganhar ao pai e ao irmão .gostava muito e pretendia man­ dá-los emoldurar. na caixa registadora. sobretudo . toda a acção partiu sempre e apenas de Stefano . Enquanto durou aquele vaivém tentei perceber o que se passava realmente na cabeça de Lila. e Maria.A Amiga Genial 1 93 e eu sugeria uma pequena variação: «Não. observava apreensiva o filho mais velho . enquanto Alfonso trocava meia dúzia de palavras comigo. Entre muitas hesitações . «Nunca gostei do Marcello . A partir desse momento . Pinuccia atendia os clientes irritada. Na rea­ lidade .» «Ficavas noiva do Stefano . tenho-lhe asco . aproveitando-se do jovem charcuteiro . Três dias depois .disse . pontualmente . Como é natural . para correr com o Marcello de tua casa?» Pensou um pouco e respondeu que sim. ela e Stefano falavam demoradamente a um canto atrás do balcão . Nos dias seguintes apareceu novamente na sapataria.» «E disseste à minha irmã que também ias comprar os desenhos dela?» «Sim. o objectivo final de todas as nossas tramas pareceu-nos ser esse: lutar por todos os meios contra a intrusão de Mar­ cello na sua vida.» «Como um quadro de um pintor?» «Sim. e dava ouvidos aos mexericos das bisbilhoteiras . para poder estar em sintonia com os objectivos dela. e nós limitámo-nos a dar-lhe um ritmo . O resto veio aglomerar-se em tomo desse objectivo quase por acaso . os dois Cerullo pediram-lhe vinte e cinco mil liras . livrar-se de Marcello . diz-lhe assim.

«Fazem este . assim começou a tomar-se amigo íntimo de Stefano . «mas esperemos que não levem dois anos.1 94 Elena Ferrante da loja deles . disse . sobre o que significaria aquela frase .» «E quem é que lhes paga?» . Têm de arranjar trabalhadores . Quando . lembrem-se de que estou à vossa disposição . . tanto do modelo que Lila e Rino já haviam executado. disse Lila. enquanto os Cerullo confabulavam noutra divisão . indicando o pai e o irmão . todas as reservas de Fernando se diluíram. finalmente . deixem-na estar sossegada. incrédulo . «Disse-o a vocês dois» . alegria. o mais entusiasta era Rino. de Pi­ nuccia. chegou-se a um acordo verbal . embaraçado .» Toda a família viveu dias agitados . este .» Stefano abanou cordialmente a cabeça. da mesma forma que se tomara amigo íntimo dos Solara. este» . de Alfonso . disse . «Por agora está ali » .» Em casa dos Cerullo conversou-se muito .» «E o dinheiro?» . pressionado por Nun- zia. perguntou Fernando . e até da dona Maria. alarmou-se Fernando . uma vez que eles não chegavam lá sozinhos . «Expandir-nos?» Por fim Lila. «Entra ele com ele . Tirou as folhas de papel do bolso e mostrou-lhos . um após outro . «e o Rino ainda não aprendeu bem o ofício .» «A minha filha é rapariga» . com base no qual ele enfrenta­ ria todas as despesas e os dois Cerullo dariam início à produção . após uma curta discussão . Stefano compareceu na loja e. co­ res . Naturalmente . perguntou Rino cautelosamente . «Mas ele sabe que os sapatos feitos à mão são caros?» «Vocês já lhe mostraram isso . que recuperou energias . disse: «Está a propor-vos transformar a sapataria numa oficina para fabricar os sapatos Cerullo . «mas se um dia vocês decidi­ rem expandir-se .» «Disse-o a ti?» . Chegava à noite . como sei que aconteceu com os outros . como de todos os outros modelos . ficando assente que os eventuais lucros seriam divididos a meias . em voz baixa.» «E é só isso?» «É só isso . e. «A Lina. e o jantar ainda não estava pron­ to . Marcello passou para segundo plano . às oito e meia. justificou-se Fernando . Muitas vezes viu-se sozinho com Melina e Ada em frente do televi­ sor.» «E se não se venderem?» «Vocês perdem o trabalho que tiveram e ele perde o dinheiro .

Stefano sorriu : «E quem é que se atreve a fazer alguma coisa. melhor do que as marcas Campanile e Isaia. ao passo que se se tivesse casado com Ines . livremente . coisa perfeita. Contou como fora difícil o trabalho nas máquinas . apertou vigorosamente a mão a Fernando e dirigiu-se para a porta.A Amiga Genial 1 95 «Sou também eu . uma paixão da sua juventude que era muito trabalhadora. os desenhos de Lila. perguntou . que tinha na ideia sapatos lindos . antes de ir passear com Pasquale e Antonio . que estava outra vez sério e não disse nada.» Stefano acenou-lhe com a mão . por fim . executados com perfeição . Stefano ouviu pacientemente . quantos não se venderiam. agora podiam ser produzidos e então . se a tua irmã não esti­ ver de acordo?» Levantou-se . subitamente vencido por uma preo­ cupação sua. de acordo com o vosso critério . mas depois insistiu que por agora só lhe interessava ver. gritou-lhe da porta. Rino disse: «Marce .» Fernando . então .» 39 . Escolham dois ou três . há muito que teria uma activida­ de só sua. e com uma gama de modelos digna de ser exposta no recinto da Mostra d'Oltremare . em Casoria. Rino acompanhou-o e. se Stefano não tivesse fixado o pensamento naquelas maluquices de Lina. sem se virar: «Uma Cerullo os inventou e Cerullo se chamarão . Disse . Disse que o seu erro tinha sido casar-se com Nunzia. entusiasmou-se e soltou-se-lhe a língua. que tinha mãos fracas e vontade nenhuma de tra­ balhar. Falou de quando aprendera o ofício com o falecido pai . examinou-os minuciosamente e perguntou-lhe com um ligeiro tom de troça: «Quando os tiveres emoldurados . com evidente contrariedade do filho . Rino . perante a ideia de até ter empregados . pegou nos desenhos da irmã. onde é que os penduras?» «Aqui mesmo . Nessa mesma noite . enquanto Stefano se dirigia para o descapotável vermelho: «A marca dos sapatos continua a ser Cerullo . que . já viste o carro que o Stefano comprou?» . «A minha irmã está de acordo com tudo?» .» Rino olhou para o pai . sim.

Diga-lhe que nunca mais se encontre com ela. «Foi vista no carro com o charcuteiro . com o moral muito em baixo . de olhos baixos.» Mas ao dizer aquela frase apercebi-me de como continuava a alterar-se a riqueza com que havíamos sonhado em crianças . não se sabe se por causa daquela boca ou do que estavam a transmitir na televisão . Uma noite Marcello . alegre: «Sabes que ele comprou os nossos sapatos por quarenta e cinco mil liras?» «Vê-se que tem dinheiro para deitar fora» . o que venho eu cá fa­ zer?» Esperava. falou com Nunzia. que uma procissão de criados de libré depositariam no nosso castelo quando publicássemos um livro como Mulherzinhas - riqueza e fama . meu filho . assim que Solara chegava.» Eu não era boa companhia? Lila não devia voltar a encontrar-se comi­ go? Quando a minha amiga me contou este pedido de Marcello . e ele en­ tão gaguejou: «Ela gosta de outro?» «Claro que não . Rino tirou o pente do bolso. deu uma penteadela e disse. entontecido pela televisão acesa e pela tristeza. respondeu Marcello . O Stefano anda atrás da filha do porteiro . Rino arranjou maneira de enervar Marcello todas as noites . Para mais . dizia que estava cansada e ia dormir.» «A Lenuccia também ia. Então . Talvez existisse ainda a ideia do dinheiro como cimento para consolidar a nossa existên­ cia.tinham-se evaporado para sempre. e Melina rebentou a rir. Os baús cheios de moedas de ouro. Mas Nunzia não soube o que lhe responder. bem recebido por Nunzia. «Se a sua filha vai dormir assim que eu chego . Lila desaparecia. fazer as compras?» Marcello ficou calado . dizendo-lhe qual­ quer coisa que o encorajasse a perseverar na tentativa de conquistar o amor da rapariga. evidentemente . e impedir que ela se desmarginasse juntamente com as pessoas de . a determinação calma. nem res­ pondeu .» «A Lenuccia não me parece boa companhia para a sua filha. que ela o confortasse .» «E onde há-de ela ir. E por último disse-lhe: «É rico . passei definitivamente para o lado de Stefano e comecei a enaltecer-lhe os mo­ dos discretos . e o clima tomou-se cada vez mais tenso .» «Eu sei que ela vai fazer as compras à charcutaria do Stefano . A partir dali .1 96 Elena Ferrante Marcello .

Aderi ao pacto que eles tinham feito . e começámos a rir. A sapataria foi reorganizada. e eu senti-me imediatamen­ te de acordo . exprimia simpatia e bondade . eram de Melito . Esta riqueza da adolescên­ cia partia de uma iluminação fantasiosa ainda infantil . ouvi que Lila repetia. Mas depois acres­ centou: «Também é simpático e bondoso» . investia em pelaria e numa equipa de trabalho . não só queria nego­ ciar em queijo provolone como também em sapatos . Surgiram três aprendizes . Vi como falava com Stefano . estava a tomar o aspecto de um rapaz de bata suja de gordura. que vendia enchi­ dos .. a disposição das coisas .nós duas . senti que davam o golpe final nas fantasias infantis . e por fim. e no resto do espaço . e no televisor. No entanto . o filho mais velho de dom Achille . «É rico» . também naquele rapaz amável . estava a criar feições . tinha um carro vermelho descapotável . Fiquei agitada. mas materializara-se na insatisfação briguenta de Rino. de modo que só naquele momento compreendi que ela fora muito mais além do que aquilo que me dissera por palavras . Num canto continuaram a fazer-se arranjos .pareceu-me entender . Nos dias que se seguiram tudo se foi tomando mais claro .para arranjarmos maneira de mudar depressa as pessoas . queria picar-te a língua» . «Era um miúdo» . passo a passo . emoldurava desenhos . A riqueza. e como ele parecia embevecido com a voz dela. Chegou um operário ao espaço que ficava ao lado da sapataria e deitou abaixo a parede divisória. Mas o aspecto fundamental que agora prevalecia era o concreto . nós três . melosa como nunca a ouvi­ ra. gastava quarenta e cinco mil liras como se não fosse nada. E conspi­ rámos durante horas . era riqueza que se encontrava nos factos do dia-a-dia. ao ganhar forma em Stefano . nos bolos e no anel de Marcello . «No entanto . eram qualidades que Marcello não possuía. que queria gastar como um ricaço .A Amiga Genial 1 97 quem gostávamos . Nenhum castelo . Stefano . quase não se ouviam falar. era um tipo que nós conhecíamos desde sempre . os sentimentos . que tencionávamos escrever uma história como Mulherzinhas . Em suma. aqueles dois adjectivos confundiram-me . a negociação .os desenhos de sapatos nunca vistos . que pretendia comprar um sentimento. mais uma ra­ zão para estar do lado de Stefano .voltariam a dizer respeito apenas a Lila e a mim . replicou ela comovida. voz . não queria ficar de fora. o gesto quotidiano . odor. e por isso sem esplendor e sem glória. e parecia convencido de que era capaz de inaugurar uma nova época de paz e de bem-estar para o bairro . rapazes da província. nenhum baú . disse-lhe .

Só lhe peço uma coisa. as suas formas de madeira para os vários números. «Não . protegidas por vidro como se fossem relíquias preciosas .» «Sim. por fim.inesperada num homem tão magro e devorado desde sempre por uma insatisfação rancorosa . todos do mesmo tamanho . e dentro havia um considerável número de pequenos quadros . Fernando também.» «Eu é que sei qual é o bem dela. mas ela sabe melhor do que o senhor. Tu e a mãe deixam aquele merdoso vir a casa. Ele abriu a embalagem. disse debilmente: «Stefano . num tom de re- signada constatação . não nos zanguemos .» Fernando deitou um olhar maldoso ao filho . Stefa­ no apareceu . mas a Lina nunca o quis nem o quer. estantes . e começou .» . Fernando resmoneou qualquer coisa e Stefano pediu ajuda a Rino e aos aprendizes para pre­ garem os pregos .1 98 Elena Ferrante Fernando dispôs bancos . com molduras estreitas de cor castanha.» «Que dizes tu?» Rino intrometeu-se .. Trazia uma embalagem feita com papel de embrulho . Precisamente no dia em que os novos trabalhos iam principiar. Gosto tanto dela que se ela for feliz com outro eu retiro-me . Pediu licença a Fernando para pendurá-los nas paredes . anun­ ciou em voz baixa que queria casar com Lila. disse Fernando . Rino limitou-se a um sorrisinho sa- bichão . com uma energia repen­ tina e inesperada . cheio de alegria: «Ele diz a verdade . tem de ma dar. Assim que ficou sozinho com o sapateiro e o filho . olhando em volta: «Temos um trabalho principiado . e deu-lhes algumas liras . a Lina está noiva do Marcello Solara.a reflectir naquilo que ia fazer. Se ela quiser o Marcello Solara. Puseram-se todos em pé de um salto . como se ele viesse fazer uma inspecção . Só depois de os quadros estarem pendurados é que Stefano pediu aos três ajudantes que fossem tomar um café . e entre mim e o senhor fica tudo como está agora.» «A sua filha não sabe disso . Eram as folhas de caderno de Lila. Mas se ela me quiser a mim .se me quiser a mim .» «Estás a ameaçar-me» . ninguém o poderá impedir. e Fernando . as suas ferramentas . eu resigno-me. estou a pedir-lhe que olhe pelo bem da sua filha. O charcuteiro disse com gentileza. dom Fernà: deixe que seja a sua filha a decidir. mas sereno . Fez-se um silêncio insuportável .

a mim que estava lá fora à espera.» Entrámos . Com efeito . antes de liga­ rem a televisão . Lila perguntou a Marcello: «Levas-me a comer um gelado?» Marcello não quis crer nos seus ouvidos . Que prazer nos dava sentirmos que estávamos no centro daqueles acontecimentos . feliz . diante de toda a fallll1ia. que andava a passear.» Repetiu obrigado pelo menos quatro vezes . Mas agora já me queres?» .A Amiga Genial 1 99 E aqui Stefano pôs-se em pé . as duas juntas .» Fernando atrapalhou-se um pouco e depois murmurou . Dez minutos . ela encarou-o e disse pausadamen­ te. mas a todos os Solara. juntamente com Lila. Lila ia dizer-lhe que sim. prometeu ele .» 40 . «Um gelado? Sem termos comido primeiro? Eu e tu?» E perguntou imediatamente a Nunzia: «A senhora também quer vir?» Nunzia ligou o televisor e disse: «Não . Marce . assim que saíram do prédio . abriu a porta. mais do que à minha pró- pria vida. chamou-me . só . Mas não se demorem muito . não só ao Marcello .» «Sim» .» «Bem sei . séria: «Sim. «Lenu . Queres casar comigo?» Lila respondeu . excep­ to Rino . Lembro-me da enorme tensão daquele momento . Agora quem é que diz isto àquele pobre rapaz?» Lila disse: «Eu . vão e voltem. com a mesma subserviência que em tempos passados manifestara em relação a dom Achille: «Estamos a fazer uma grande ofensa. antes de irem para a mesa. e que íamos encaminhá-los para uma solução . obrigada. dois dias depois . à noite . Mas . com a fria crueldade que facilmente lhe ocorria desde os primeiros anos de vida: «Nunca te disse que te queria. Stefano dirigiu-se a Lila: «Digo-to diante do teu pai: amo-te muito . «obrigado . Parecia-lhe que era che­ gado o momento tão esperado .

» «Comigo podes tentar já. comecei de novo a estudar até às onze da noite e a pôr o despertador para as cinco e meia.» «Quem é?» «Stefano .» 41 . Depois . que era alto e corpulento. Alfonso. e tu sabes que o faço . sou eu que vos mato .» «Vou matar-te a ti e a ele . não precisamos dele . livrara-se de Marcello Solara e ficara noiva do rapaz abastado mais digno de estima do nosso bairro . é assim mesmo . Quando recomeçou a escola senti o seu cinzentismo mais do que o habitual . Ela gritou-lhe: «Manda alguém buscar o televisor. dera uma oportunidade ao irmão e a toda a fami1 ia. passara . nada.» Marcello . estreitaram-se as relações com o irmão de Stefano . Tudo aconteceu em pouco mais de um mês . mas não queria acreditar. para evitar que os professores me apanhas­ sem impreparada. «É mesmo não?» «Não. Gosto de outro . Fui reabsorvida pelo estudo e. O que podia ela querer mais? Nada. uma espécie de soluço reprimido agitou-lhe o peito .» «Então manda o teu irmão fazê-lo . Porque se tocarem seja em quem for enquanto eu estou viva. Mas esclarece-os bem de que têm de me matar primeiro a mim . ou qualquer amigo vosso . Tinha tudo . mordeu a mão direita fechada em punho até ela sangrar. e Lila finalmente parec­ eu-me feliz .» Marcello continuou a morder o dedo com fúria. apoiou-se ao poste de um candeeiro com o coração destroçado .» Marcello desencostou-se do candeeiro bruscamente . Encontrara uma saída para o projecto dos sapatos .» «Eu já sabia. não sou capaz de o fazer.200 Elena Ferrante «Não . ou o teu pai . pode ser que eles sejam capazes .» «Podes acreditar. e eu . Vi Lila cada vez menos . mas . Em compensação. «Gosto demasiado de ti . um rapaz são e fogoso de vinte e três anos . com uma espécie de estertor. começo por ti . Virou-lhe as costas e afastou-se . Apesar de ter trabalhado na charcutaria todo o Verão .

embora a sala dele fosse ao lado da nossa e nos encontrássemos muitas vezes nos corredores . e que . embora no olhar e nos gestos mostrasse a mesma suavidade . Embora nas feições fosse muito parecido com Stefano . o mesmo nariz e a mesma boca. ou despedia-se e ia-se em­ bora. Nunca mais dirigiu a palavra nem a mim. mesmo que tivesse outra coisa para fazer. em minha opinião . nem a Alfonso . e apesar de os outros rapazes fazerem troça dele por estar sem­ pre na minha companhia. pernas um bocado curtas em relação ao tron­ co. Contei isto a Alfonso Carracci . se não tinha. com sete em cada uma das disciplinas que teve de repetir: Latim. aquele tipo de ser humano . embora. Tinha sempre aquilo de que eu precisava. Grego e Inglês . e de as raparigas me perguntarem constante­ mente se éramos namorados . Que eu estava apaixonada por Alfonso e lhe tocava durante as aulas . Gino . um gesto audaz naquele tempo . mas não nos sentíamos embaraçados . cabeça grande . de quem sabemos que não precisamos de espe­ rar nenhuma maldade . Quando viu que nós dois . nenhum de nós pensou em mudar de lugar. e eu afeiçoei-me a ele serenamente . ia a correr buscar. . pois sentara-se ao lado dele durante um ano . assim como nas ruas do bairro. Se percebia que eu queria que ele ficasse a meu lado . seu ex-companheiro de carteira.» Alfonso foi uma descoberta agradável e providencial . sua ex-namorada. raro no bairro . mas ele limitou-se a dizer com des­ prezo . ficava. esperando que ele partisse a cara a Gino . ele não gostava de raparigas . Se via que eu precisava de tempo para mim . Dava uma im­ pressão de limpeza e de boa educação . Era uma pessoa de confiança. para poderem repetir o primeiro ano da secundária juntos. os mesmos olhos . íamos e voltávamos juntos da escola todos os dias . sentia nele uma total ausência daquela determinação que se escondia em cada célula de Stefano . ficou decepcionado . Amava-me sem qualquer tensão . No primeiro dia de escola acabámos por nos sentar na mesma carteira. embora Alfonso não me correspondesse .A Amiga Genial 20 1 nos exames de recuperação de modo brilhante. com o crescimento . o seu corpo estivesse a tomar formas idênticas . acabava por reduzir a sua cortesia a uma espécie de esconderijo do qual sairia inesperadamente . e. como era obrigatório em tais casos . agora no segundo ano . que desejara que ele reprovasse . exasperou-se ainda mais e tomou-se mesquinho . Alfonso era um rapaz que transmitia tranquilidade . em dialecto: «Toda a gente sabe que o paneleiro é ele . ou esperava-me a uma certa distância. Mas fez ainda pior. só de rapazes . porque como sabia bem. Depressa me chegou aos ouvidos que dizia coisas horríveis de nós . Durante o percurso poucas palavras trocávamos .

Contudo . bastava avistar a sua figura alta e magra para me ruborizar e o coração me bater desenfreadamente . era so­ bretudo sensível à movimentação lucrativa do dinheiro . Mas era vinte centí­ metros mais alto do que eu . dos profes­ sores . Nino veio imediatamente ao meu encontro . Assim que imaginava que o beijava. mas falávamos dos trabalhos de casa. Porém. pela segunda vez desde que o vira e me apaixonara não fui capaz de estabelecer uma relação .202 Elena Ferrante Servi-me dele para evitar Nino Sarratore. Seria fantástico sairmos os quatro . Era um passeio longo . pouco depois dos pauis . embora visse claramente o prestígio que adqui­ riria aos olhos de Lila se me ligasse a ele . Quando nos vimos pela primeira vez depois de Ischia. e era sensível às grandes questões da condição humana. e era agradável . Um episódio que me alarmou veio complicar ainda mais a situação . estendiam-se a ele . ao passo que Stefano era uns centímetros mais baixo do que Lila. não fizera mais do que a escola comercial . à distância. Andava no segundo ano do liceu . no início da rua larga. Agora. gentil . virei-me e pareceu-me ver. portanto não tinha uma lira. embora não fossem nada parecidos . gostava muito dele . E lia e conversava sobre tudo . E falava italiano como um livro aberto . faz o mesmo que Stefano fez com os Peluso . Mas não era capaz . e uma onda de prazer e de nojo misturava pai e filho numa única pessoa. O motivo pareceu-me muito mais forte do que o dos tempos da infância. Ía­ mos até à Piazza Nazionale e depois metíamos pelo Corso Meridionale . Alfonso e eu tínhamo-nos habituado a regressar a casa a pé . e por vezes pensava. Vê-lo trazia-me imediatamente à lembrança Donato Sarratore . É verdade que o amava. dos nossos colegas . mas eu despachei-o com duas ou três frases frias . sentia a boca de Donato . um homem de vinte e dois anos.. No entanto . passear com ele . Lila com o seu noivo e eu com o meu . agora que Lila estava realmente noiva. no aterro . cheia de raiva: porque te compor­ tas assim. que fazia contas melhor do que ele e. reequilibrando assim a nossa relação . embora tivesse bom carácter. muito amistoso . o pai não é o filho e o filho não é o pai . ao passo que Stefano vivia encerrado na sua char­ cutaria. É claro que Nino não tinha um descapotável vermelho . E o asco e a raiva que me suscitava a recor­ dação do que o pai dele me fizera sem que eu fosse capaz de o repelir. Mas uma vez . na caixa registadora da loja tinha a mãe . decidido e corajoso . oficialmente noiva ­ e com que noivo . falava quase exclusivamente em dialecto . era mais urgente do que nunca eu arran­ jar também um noivo invejável . embora a paixão me devorasse . quando queria. Desejava falar com ele . e não um rapazote .

e tanto à entrada como à saída mantive-me perto dele . Seria embaraçoso . A mente . ficou-me gravado o som que o coração me fez no peito . voltava­ -me para o filho mais novo de dom Achille . procurei protecção no afecto por Alfonso . Quer essa aparição tivesse sido real ou falsa. estava noiva de um homem adulto . Donato Sarratore . o irmão mais novo do noivo dela. e afastávamo-nos conversando . Então. sobre o barulho que a panela de cobre fizera ao rebentar. às vezes até lhe falava com doçura. estabelecia convergências e divergências . assim que avistei Nino .A Amiga Genial 203 da linha férrea. Stefano e ele . desviei logo o olhar. linhas de liga­ ção entre momentos e factos distantes entre si . para ir buscar as bonecas que o pai nos tinha roubado . O mesmo barulho regressou no dia seguinte . não sei porquê . Traçava. pareceu-me interessante que tocasse a dois Carracci . sobretudo se se relacio­ navam com Lila. Foi um período confuso . mudava de tom. Estremeci de raiva e de horror. com a farda de revisor. 42 . assim que me apercebia de poder estar a encorajar a inclinação que ele tinha por mim. apetecia-me aconchegar-me a Nino e . devaneava. Aliás . como se fosse um tiro . Uma vez em que regressava com Alfonso pelo Corso Meridionale . como se tivesse coisas ur­ gentes para lhe dizer. voltou-me à lembrança a passagem da carta de Lila. preocupava-me . Quando olhei de novo . a função de protegerem. desenhava arabescos incontro­ láveis . receando que ele se aborrecesse e me trocasse por outras companhias . tinha o cuidado de estar colada a Alfonso . . ao invés . Assim que avistava a figura esguia do rapaz que amava. entretanto . sentindo-o a meu lado como um escudeiro que me escol­ tava por entre os mil perigos da cidade . tanto sofrera eu por ter de sair da ilha. ainda que de formas diferentes . «E se ele me interpreta mal e me faz uma declaração de amor?» . como a felicidade dela aumentara. e . como se usasse um esquadro . da minha idade . Naquela época tornou-se um exercício quotidiano: tinha estado tão bem em Ischia como Lila estivera mal na desolação do bairro. Gostava de fazer associações daquele género . assustada. Mas . Lila e eu do mal do mundo . já lá não estava. desse mal que experimentámos pela primeira vez quando subimos a escada até casa deles . e seria no mínimo humilhante para mim andar com um rapazinho . teria de rejeitá-lo . Lila. comportei-me sempre de modo muito gentil com ele . Stefano .

Em Ischia sentira-me bonita. com a pupila opaca. Durante a ma­ quinação constante . Achei que o aspecto físico também participava dessa oscilação . As fantasias atenuaram-se .204 Elena Ferrante Parecia que . uma manhã surgiu também o espectro dos óculos . e em alguns olhares de Stefano captara a possibilidade de lhe agradar. quando tivesse de copiar alguma coisa do quadro . Voltei para casa. e os olhos aprisionados na moldura da armação . E de repente . à saída da escola. O professor Gerace interrogou-me sobre qualquer coisa que escreve­ ra no quadro e apercebeu-se de que eu não via quase nada. cega. a satisfação redobra­ ra-lhe a beleza. Senti-me definitivamente desfigurada e decidi pô-los só em casa. . esqueci-me deles na carteira. no máximo . um falcão. A cor saudável estava a debotar e o acne a regressar. arranjou o dinheiro . Fui ao oftalmologista.» Pareceu-me muito mal . Disse-me que devia ir de imediato a um oftalmologista. e ela conti­ nuando a semicerrar os olhos e a lançar olhares que viam ainda mais. ele diagnosticou-me uma forte miopia. nariz grosso . mostrei o caderno . ligasse o meu destino ao da minha amiga: eu . e ela. Quer dizer que fora castigada pela soberba de querer estudar? Então e Lila? Não tinha lido muito mais do que eu? Então porque é que ela tinha uma vista perfeita e eu via cada vez menos? Porque é que eu tinha de usar óculos para o resto da vida e ela não? A necessidade de usar óculos aumentou a minha mania de encontrar um desígnio que . Mas um dia. Quando me vi ao espelho . consumida pela paixão frustrada por Nino. cara larga. estra­ gaste a vista. estava de novo a ficar feia. Mas Lila agora estava em vantagem. a minha imagem demasiado nítida foi um duro golpe: impurezas na pele . boca grande . ou . e ela a guiar-me com um olhar apurado . escreveu-me isso no ca­ derno e quis ver a assinatura de um dos meus progenitores no dia se­ guinte . Por fim o meu pai . houvera até momentos em que voltara a considerar-me mais bonita do que ela. devido a uma qualquer magia maldosa. por entre sombras . a alegria ou a dor de uma pressupunha a dor ou a alegria da outra. desgastada pelos trabalhos da escola. a minha mãe ralhou-me: «Estás sempre em cima dos livros . eu agarrada ao braço dela. que parecia desenhada com fúria por um desenhador raivoso . O meu pai ensombrou­ -se . e os óculos concretizaram-se . eu . ao lado de Lila. sob as sobrancelhas já de si de­ masiado espessas . graças às suas negociatas na câmara . ao passo que eu . no bem e no mal . para ajudá-la a desembaraçar-se de Marcello . estava cheia de sentimentos de culpa pela despesa que as lentes implicavam. e essa impressão não se dissipara depois do regresso a Nápoles .

Disse-me: «Fazem-me doer os olhos» . batendo as pálpebras . Na pressa que nos assaltava a todos depois do último toque da sineta. Expressou-se com uma de­ terminação diferente daquela que habitualmente tinha. uma lente quebrada. e pôs-mos na cara. o que me impressionou não foi o facto de estarem como novos. tinha os meus óculos postos e. naque- .A Amiga Genial 205 Voltei à sala a correr.» 43 . Contei-lhe o que me acontecera. nos torna­ vam indispensáveis uma à outra. Uns dias depois . e ela replicou com ironia. basta-lhe estalar os dedos e os meus óculos são arranjados num instante . à primeira vista. E eu . orgulhosa: «Não é preciso . ela tinha. ao fim da tarde . que . com as ferra­ mentas de sapateiro .» Sorriu e depois disse . A questão do dinheiro deu ainda mais força àquela impressão de que aquilo que me faltava. que não precisa de óculos. talvez com uma pontinha de perfídia: «Pagar em que sentido?» «Dar-te o dinheiro . examinou-os . É essa a minha riqueza. ora com alegria. me desfiguram a cara? Assim que cheguei à porta. refugiei-me em casa de Lila em busca de auxílio .» Entregara os óculos a Stefano . agora faço o que me apetece com o dinheiro . ora com sofrimento . ela tirou os óculos divertida. o que tenho? Respondi que tinha a escola. ouvi que me chamavam do pátio . e a mim. Disse-me para os deixar ficar. Não tive coragem de ir para casa. tinham ido parar ao chão . que não posso passar sem eles . E com efeito . Ela tem o Stefano . mostrou-se mais calma. Murmurei envergonhada que nunca lhe poderia pagar. Lá em baixo estava Lila. mas o pior já tinha acontecido . Corri lá abaixo . como se já não fosse preciso lutar até ao extremo pelas pequenas coisas . um privilégio que ela perdera para sem­ pre . disse para mim depois do episódio dos óculos . Comecei a chorar. Tinham uma haste partida. pediu-me os óculos. Imaginei qualquer intervenção miraculosa de Rino . mas sim que lhe ficavam bem. e voltei para casa esperando que os meus pais não reparassem que estava sem óculos . tentei convencer-me . e vice-versa. num jogo contínuo de trocas e inversões . a pensar: porque é que lhe ficam bem a ela. exclamando: «Que bem que te ficam. deves usá-los sempre . que os mandara arranjar por um oculista da baixa.

mas não sabia o que fazer a tanta competência. quando falava comigo nunca abandonava o dialecto . não dizia nada que estimulasse em mim outros pensamentos . Ela ouvia-me com atenção . E nunca acontecia virem­ -nas buscar à saída rapazes elegantemente vestidos . ou sobre as relações entre Deus . sobre as aulas e os professores . recebi como prémio uma bíblia de capa preta. O que fa­ zer. não devia ser das melhores . As pautas das notas eram cada vez melhores e até o curso de Teologia por correspondência me correu bem. por timidez ou ignorância. Em vez disso . Na aula não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre as coisas que lia. Exibi os meus êxitos como se fossem a pulseira de prata da minha mãe . todos eles . que embora fossem uma só pessoa. como as raparigas da Via dei Mille . depois das fa­ lhas do ano anterior entrara nos eixos . Mas isso não aconteceu . deviam forçosamente ordenar-se de acordo com uma hierarquia. ou sobre os romances maravilhosos que eu continuava a ir buscar à biblioteca do professor Ferraro . Raramente via as minhas colegas de escola bem vestidas . mas agora. com automóveis mais luxuosos do que os de Marcello ou de Stefano . O único rapaz que gozava de uma fama idêntica à minha era Nino . Além disso . e eu esperava que ela sentisse curiosidade e regressasse à fase em que . principalmente nas férias escolares . enquan­ to nos interrogatórios usava um bom italiano . o que ela mostrou foi uma tendência para intervir . em face da frieza com que o tratara. a cabeça estava cheia.206 Elena Ferrante le ano os professores . o Espírito Santo e Jesus. As qualidades in­ telectuais também escasseavam . ia imediatamente à procura dos livros que lhe permitiriam acompanhar-me . ele limitava-se a ouvir e . em segredo ou às claras . ou mesmo sobre o Espírito Santo . sobre as ideias que me ocorriam . Con­ cluí que ele tinha razão . então? Sentia necessidade de me expressar. como se via bem durante o almoço em casa de dom Rodrigo . quem vinha primeiro e quem em último? Veio-me à ideia o que Pasquale me dissera uma vez: que embora a minha escola fosse um liceu clássico . nem para mim olhava. ia-se embora de cabeça baixa. era como se uma parte dela tivesse posto um freio firme na outra. e nesse caso . Alfonso era um rapaz diligente . Recorria a Lila. e tinha já mais do que suficiente em todas as matérias . Encontrávamo-nos e faláva­ mos . a meu ver. Contava-lhe tudo em pormenor. Mas quando tentava reflectir com ele sobre os Promessi Sposi. começaram a elogiar-me de novo . quando se divi­ diam em três . e em dialecto era difícil conversar sobre a corrupção da justiça terrena.

o colar. o suor. mas quase sempre afáveis . que não há lágrimas que cheguem. um casaco novo . acabava com qualquer possibili­ dade de conversarmos e começava a mostrar-me os presentes de Stefa­ no . estava a preparar-se para sair com Stefano . De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio . e era de facto outra pessoa agora. pensei em voz alta. como um mensageiro? Ou uma emana­ ção das duas primeiras pessoas . e não o Pai . um fluido . com meia-dúzia de palavras apressadas . as pontes e as estradas . A parte que arrefeceu flutua sobre a lava. o anel de noivado . A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo . que não sabia o que pensar do Espírito Santo . até que aquele tom estabi­ lizou e se tornou o seu modo de me fazer frente . recordo-me . Se eu dizia alguma coisa sobre a Santíssima Trindade . até os tornozelos já não eram dois palitos.A Amiga Genial 207 de uma penada. bem. ela. Nessa par­ te construímos os edifícios . juntamente com Deus e o seu filho? Não será o mesmo que dizer que o meu pai . geralmente de maneira irónica. ou não compreen­ do qual é a sua função . E não só naquela ocasião . um seu fluido milagroso? Mas . Rino e Alfonso . para impres­ sioná-la com as questões que me andavam às voltas na cabeça. um chapeuzinho . Disse em dialecto: «Tu ainda perdes tempo com essas coisas . quem inventou o mundo foi o Diabo . é um só juntamente com o presidente e com o comandante Lauro? E se olharmos para a segunda hipótese . Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis . que a sua função não era clara para mim . portanto . que sentido faz considerar o Espírito Santo separado de Deus e de Jesus? Ou o Espírito Santo é que é a pessoa mais importante e as outras duas são uma sua forma de ser. «uma entidade subordinada ao serviço de Deus e de Jesu s . o Filho e o Espírito Santo . só para dar um exemplo . deixando-me confusa. um vestido novo . Lenu? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo .» Lila. contei-lhe do meu curso de Teologia e disse. mas cada vez mais . o que fazes? Um curso de Teo­ logia em que te esforças para compreender o que é o Espírito Santo? Esquece isso . Iam a um cinema na baixa juntamente com Pinuccia. que é porteiro da câmara. Uma vez . como é possível que uma entidade com funções de mensa­ geiro seja um só . Há micróbios por todo o lado . Queres ver o colar de pérolas que o Stefano me ofe­ receu?» Foi isto que ela disse . «0 que é?» . Mas vi os olhos fazerem-se-lhe pequeninos . en- . Olhava para ela enquanto vestia uma saia nova. ou então provoca um terremoto que destrói tudo . E tu . a voz . como quando tentava agarrar qualquer coisa que lhe escapava. que nos fazem adoecer e morrer. mais ou menos. no pri­ meiro caso . Há guerras . são parte da pessoa de quem emanam.

Ambas traziam claramente estampa­ dos no rosto os seus pensamentos maldosos . 44 . que iam ao cabeleireiro juntas e compravam roupas idênticas . Quem é que a filha do sa­ pateiro julgava ser? Que poção maléfica dera a beber a Stefano? Como é que assim que ela abria a boca. de Pinuccia. No papel de noiva. ele abria a carteira? Quer vir armar-se em patroa na nossa casa? Se Maria se limitava a um amuo silencioso . Em seguida voltava­ -se para o outro lado . talvez mais bem feita. explodia. mas o efeito que qualquer peça de vestuário ou objecto fazia no corpo de uma e no da outra não tinha com­ paração . Aliás . coerente com o seu feitio conciliador. e a mim. e punha-me a andar. como as poucas vezes em que comprei qualquer coisa bo­ nita me criticaste . deixar a luz da cozinha acesa ou a torneira aberta. e resmungava: . Entretinha-me a admirar todos aqueles presentes que contrasta­ vam com a casa pobre de Fernando .208 Elena Ferrante quanto as coisas que me apaixonavam. como se tivesse muito que fazer. o sapateiro. notava quase de imediato que nunca me ficariam bem como ficavam a ela. Mas isso só serviu para azedar Pinuccia ainda mais . quando via Lila e Pinuccia prontas para sair. a sua maneira de ser já causava irritação quando ela era uma garota macilenta. Lila foi muito invejada e provocou não pouco desagrado . arranjava sempre maneira de disfarçar. depois de ir beber um copo de água. Ela não era feia. livros . Ela própria me falou de uma hostilidade crescente da mãe de Stefano e. num tom fingidamente afável . sobretudo . criticava a futura nora por qualquer coisa que fizera dias antes . com penteados semelhantes . Mas . dirigindo-se ao irmão nestes termos: «Porque é que a ela compras tudo . não só nunca me com­ praste nada. por portas travessas . com vestidos parecidos . Punha de lado ideias . quanto mais agora. e. começou a oferecer também pre­ sentes à irmã. O que deu origem a um desafio entre as duas raparigas . experimentava os vestidos e os objectos de valor. A primeira a reparar nisso foi a mãe. pouco mais velha do que nós . Pinuccia não se continha. com as quais fazia boa figura perante os professores . que por isso me consideravam óptima aluna. por exemplo . que era uma mulher cheia de sorte . murchavam a um canto . Maria. dizendo que estava a fazer despesas inúteis?» Stefano mostrava o seu meio sorriso tranquilo e não respondia. desprovidas de sentido .

nós apanhámos o autocar­ ro até à Piazza dei Plebiscito . quanto custaria? En­ quanto eles . pelo menos Antonio . Antonio e Ada nunca tínhamos estado num restaurante . tanto mais que um sábado . Lila parecia inalcan­ çável . e sentira-se tratado como um pedinte . andava com Michele Solara. de propósito para as exibir quando andava pelas ruas ou de automóvel . porque Rino e Stefano falaram sobretudo de dinheiro e nunca se lembraram de envolver. Aceitá­ mos . as raparigas do bairro . que agora gostava muito de passar o tempo livre com o futuro cunhado . mas foi uma noite difícil . embora não oficialmen­ te . em competição com Lila. tão bem vestida. Antonio voltou para casa aborrecido . Ada. toda a noite tentou atrair a atenção de Stefano . receando que a conta fosse pesada para as nossas possibili­ dades. Carmela. Stefano e Rino não escolheram uma pizzeria . sem o admitirem. mimámo-lo . e fizemos o resto do percurso a pé . uma figurinha fascinante em contraluz . Ada. e Gigliola. apaparicámo-lo . e Ada. Eu . prin­ cipalmente . eles pediram com desenvoltura vários pratos e nós quase nada. e se Rino não se incomodou nada com isso . os quatro . com sentimentos diferentes . Passámos quase todo o tempo calados . pois era da idade de Stefano e Rino . De início tentámos impedi-la. quando chegou a altura de pagar. disse a Lila: «Vê se a Lenuccia e os filhos da Melina amanhã à noite vão comer qualquer coisa connosco . Trouxe­ mos Stefano para o nosso velho grupo . Gigliola. Nos dias festivos . nem como tratá-la.A Amiga Genial 209 «Voltem cedo . que parecia a condizer com a Giardinetta . fomos dominados pela ansiedade: como nos vestimos . concluímos que num lugar público. com receio de fazer má figura. em conversas de outro género . não sabíamos o que dizer a Lila. depressa começámos a ter problemas idênticos . Por fim. sem o admitirem a si próprias . foram na Giardinetta . Uma vez no destino . comprava e pedia para ele lhe comprar coisas bonitas . não resignada à marginalidade . Mas o facto mais sig­ nificativo foi que eu e Ada. com o descapo- . pediu um vestido emprestado a Gigliola.» O «connosco» referia-se a eles os dois . que insistia em ser tratada por Carmen . que trabalhava na pastelaria e que . talvez impelido pela sua simpatia por Antonio e Ada. impor-lhe os velhos hábitos . mais Pinuccia e Rino . e ele pareceu satisfeito . mas sim um restaurante em Santa Lucia. fazendo­ -lhe denguices excessivas que desagradaram ao irmão . fora da nossa intimidade de amigas . começaram a ataviar-se . Estava tão bem maquilhada. Mas não havia competição possível . coisa de gente rica. e trabalhava como eles . descobrimos que Stefano já se encarregara do assunto .» Nós .

de que ainda havia vestígios quando tramámos juntas o enredo que a levara ao noivado com Stefano . e também aquela que desenhara os sapa­ tos agora emoldurados na sapataria. Tive de re­ conhecer que a Lila que escrevera aquelas palavras tinha desaparecido . desprendia-se dela um brilho . cha­ mava desmarginação . depois da desagradável experiência da passagem do ano . que devorara metade da bi­ blioteca do professor Ferrara . enquanto ela parecia ter descoberto a alegria de beber da fonte inesgotável da sua beleza. dava a impressão de estar a pôr em prática uma cláusula do acordo existente entre ambos como casal . reli de propó­ sito a carta que ela me enviara para Ischia. uma nova maneira de maqui­ lhar os olhos ou a boca. E recordo-me de que uma noite . as raparigas da televisão . Para quem a via. Eu nada sabia ainda acerca daquilo a que ela em segredo . pois um novo penteado . Na carta ainda existia a menina que escrevera A Fada Azul. ir buscar uma pizza ao Corso Garibaldi . e dar a ver. e como parecia já tão distante . Como era cativante o seu modo de falar de si própria. parecia querer demonstrar ao bairro que . para se proteger. Stefano . . que ne­ nhum perfil bem desenhado era capaz de a conter de modo definitivo . que era como uma violenta bofetada no rosto da miséria do bairro . em casa. pensava repe­ tidamente nela. e ela parecia fazer uso do sigilo que ele lhe impunha. Naquela noite tomou-se evidente que Lila estava a mudar de catego­ ria. já não a ouvia. Mas conhecia a história da panela que explodiu . ir ao cinema paro­ quial ou ir dançar em casa de Gigliola. quando ao domingo saía de braço dado com o noivo . deslo­ car-se a pé . para viajar de autocarro . eram apenas contornos mais rebuscados que dissolviam os anteriores . o pai e os restantes familiares . se Lila era bonita. A Cerullo nervosa e agressiva parecia ter-se imolado . para si mesma. po­ dia sê-lo cada vez mais . as jovens que vira a passear na Via Chiaia. a raparigui­ nha que aprendera latim e grego sozinha. depres­ sa foi escorraçado para territórios escuros. tomou-se uma senhorinha que imitava os manequins das revistas de moda. O corpo de rapariguinha. Ao longo de dias . Mas na vida do dia-a-dia não a via. com os seus pre­ sentes . À luz do sol surgiu em seu lugar uma jovem mulher que . mas fisicamente imprópria para entrar no metropolitano connosco . de tudo aquilo que confusamente enfrentara e desafiara desde pequena. e sentir. e proteger o irmão .210 Elena Ferrante tável . estava sempre à coca em qualquer canto da minha mente . Stefano parecia procurar nela o símbolo mais evidente do futuro de bem-estar e de poder que almejava. um vestido novo . de meses . com o restaurante de Santa Lucia.

e . Sabia . depois de Lila o rejeitar. Eu . as mãos grosseiras . que dava vontade de acariciar. inclinada sobre livros esfrangalhados . havia algum tempo que tinha uma certa dedicação por mim. parecia ter perdido o interesse pelas raparigas .que nenhuma forma seria capaz de conter Lila. que exalavam o mau-cheiro dos volumes comprados com grande sacrifício no mercado de coisas usadas . com o passar dos meses . Era uma imagem que utilizava com frequência. caixa-de-óculos . era o único que dava pela minha presença. ia-me transformando numa ra­ pariga desleixada.A Amiga Genial 211 Embora continuássemos . Sim. de repente encontrámo-nos em mundos diferentes . Além disso . tinha uma vida da qual pouco ou nada sabíamos . embora muito tímido . não porque os noivos não voltas­ sem a convidar-nos . Fazia muito pouco caso de Ada. mas porque nos esquivámos . sentia que a sua forma anterior se rompera e relem­ brava aquela passagem tão bonita da carta. Mas tinha cabelo negro encaracola­ do . Depois da desagradável noite no restaurante em Santa Lucia. Porém. a comer uma pizza com o nosso antigo grupo . despenteada. dedos robustos com os quais uma vez desaparafusara sem esforço os parafusos de um pneu furado de um carro velho que Pasquale arranjara. à sua maneira indiferente . quando os trabalhos de casa não me tiravam todas as energias . embora vivêssemos ambas o nosso décimo sexto ano de vida. a pele do rosto era brilhante e cheia de pontos negros . mas quando estava presente dedicava­ -se . ora com outra. e que mais cedo ou mais tarde tudo voltaria a despedaçar-se . Ela. penteada como uma diva. as poucas vezes que abria a boca dizia ditos espirituosos . Quanto a Pasquale . Mas preferia sair quando tinha a certeza de que Antonio também estaria presente. cada vez que detectava uma fractura dentro dela ou dentro de mim . lenta. apesar de ela ser mui- . a panela de cobre rebentada e retorcida. e não exageradamente . ou arranjados pela professora Oliviero . a morar no mesmo bairro . fazia-me uma corte discreta. com vestidos que a faziam parecer uma actriz ou uma princesa. deixava-me levar a um baile caseiro . a Carmela. cheia de atenções . os dentes azulados aqui e ali . Enzo raramente aparecia.tal­ vez esperasse . embora tivéssemos tido a mesma infância. ora com uma desculpa. não houve outras oportunidades idênticas . tanto eu como ela. passava de braço dado com Stefano. Via-a da janela. 45 .

com alguns companheiros seus de confiança. sem se exceder. Nesses serões . e pez . em vez de se sentar a vê-la juntamente com quem se sabia que a comprara só para a ter a ela. pai de Michele e de Marcello . comentara que ele podia fazer todos os sapa­ tos que quisesse . Dizia que ela devia ter partido a televisão com um martelo . em menos de nada tudo pegava fogo . caso houvesse um incêndio na sapataria Cerullo . dizendo coisas do género: não é fácil fugir de casa. e a prova é que tu a criticas . uma noite . mas onde os ia vender depois . desaprovava explicitamente as críticas de Pasquale . em vez de aceitar que Marcello fosse lá todas as noites cortejá-la. por não ter sabido educar bem a filha. teria de se casar com ele . que ela era uma rapariga demasiado inteligente para se ter realmente apaixonado por um hipócri­ ta de um nabo como Stefano Carracci . por fim . e ver Lila e Stefano juntos . Os seus males de amor roíam-no por dentro . Mas a respeito de Lila era crítico . Mas o mais infeliz era Pasquale . fora pessoalmente à sapataria renovada de Fernando e o tinha censurado . pois foi ele que a meteu na­ quela alhada com o Marcello . com tanta cola que ali havia. Contestava-o . era por natureza um rapaz de bons sentimentos e ajuizado . sem contar que . o haviam coberto de insultos. tinham confrontado Rino . Quando se soube que Silvio Solara. e . embora desse a impressão que ninguém queria men­ cionar o nome dela.212 Elena Ferrante to delambida com ele . E dizia. No entanto . e se a Lila não tivesse arranjado maneira de se livrar do Marcello . Pasquale pro­ metera a si mesmo que . nada é fácil . Os rapazes sentiam-se todos um bocado desiludi­ dos . tirava-lhe a alegria de viver. e tinha o cuidado de controlar as suas reacções e de tomar o partido que lhe parecia justo . olhando em volta. e depois . provavelmente ter-se-ia posto publicamente ao lado de Marcello contra a fami1 ia Cerullo . em vez de te zangares com o teu amigo Rino . mesmo só de relance . deitar fogo ao bar­ -pastelaria Solara. como é natural . Pasquale tomara o partido de Rino sem hesitar. E concluía fazendo . Nessas ocasiões eu era a única que não ficava calada. Quando se soube que Marcello e Michele . iria. qualquer um deles gostaria de estar no lugar de Stefano . com todo aquele fio . e solas e palmilhas . não é fácil ir contra a vontade das pessoas que estimamos. mais cedo ou mais tarde acabávamos por falar de Lila. embora repetisse constantemente que já não podia olhar mais para as nossas caras feias . embora não lhe tocassem nem com um dedo . nunca encontraria um estabelecimento que lhe ficasse com eles . e formas de madeira. Dizia que ela devia ter fugido de casa. Se não sentisse um ódio antigo pelos Solara.

a ela e a toda a farm1ia. para dar estabilidade ao irmão e ao resto da família. fora o único que tivera a coragem de apoiá-la e de ajudá-la. quando a Lina vai ao cabeleireiro . Pascà.» «Ü Stefano é simplesmente um comerciante que sabe vender. Ada. Carmela disse .» «Ora. palavra puxa palavra. os calara a todos. Dessa vez foram as raparigas que começaram. que achava que Lila aceitara Stefano por dinheiro . para além do mais . quando compra roupas e malas? Quem é que investiu dinheiro na sapataria para que o sapateiro possa brincar aos fabricantes de sapatos?» . uns mais . ainda antes de se casar. dava-me razão . Depois . «Sim. Enzo também . para saber que as coisas iam acabar mal . outros menos. A questão é que a Lina sabe de onde veio aquele dinheiro . Mas uma noite a discussão tornou-se feia. quan­ do Pasquale me interrompeu e disse: «A questão não é essa. num local onde uma pizza margherita e uma cerveja custavam cinquenta liras . ora. observei eu . e as negociatas e a usura e todas as porcarias de antes e depois da guerra?» . Fazia-se então um profundo silêncio . e se a tua amiga agora aqui estivesse . a comer uma pizza no Rettifilo . disse que achava Lila ridícula por andar pelo bairro sempre acabada de sair do cabeleireiro e vestida como a princesa Soraya. o que significa "deixa que a sustente"?» Bastou-me ouvir aquela pergunta. sem papas na língua. Pasquale corou . e . que dom Achille tinha escondido dentro do colchão . num tom e numa linguagem que . E deixa que ele a sustente . A Lina arma-se em senhora à custa do sangue de toda a gente pobre deste bairro . queres trazer outra vez à baila dom Achille e o mercado negro .» Eu ia responder-lhe . ficou atrapalhado: «Sustentar significa sustentar. Estávamos todos . quando Enzo se intrometeu com o seu destaque habitual : «Desculpa. Eu estava a dar início à habitual defesa oficial . que conheciam Lila desde peque­ na e gostavam dela. embora espalhasse veneno para as baratas em frente da porta de casa. que de todos eles . desculpa lá. o que te parece?» «Veio do ouro das mães de família. Quem é que paga. todos nos rimos . e eu sentia-me orgulhosa de ter refutado todas as críticas feitas à minha amiga.» «E o dinheiro que investiu na sapataria dos Cerullo veio-lhe da char­ cutaria?» «Porquê .A Amiga Genial 213 o elogio de Stefano . creio .

Limitaram-se a ficar amuados uns dias .» Pasquale disse .» Enzo respondeu . o Pasquale não quer dizer isso. Lenii . Contei esta altercação para mostrar como se passou aquele ano e qual o clima que as opções de Lila originavam. principalmente entre os rapa­ zes que em segredo ou explicitamente a tinham amado . e com toda a probabilidade a amavam e a desejavam ainda. quase num sussurro: «Anda lá para fora. Antonio gaguejou: «Claro que não . mas Enzo tocou-me no braço . vendeu-se . «Tu cala-te . depois tudo se normalizou . 46 . não . não está noiva. Enzo . é difícil dizer a embrulhada de sentimentos em que me encontra- .» Aqui . de gritar a todo o bairro: «Prostituta. A Lina comportou-se e está a com- portar-se como uma prostituta. deixa o Pasquale responder. quero saber o que é que o Pasquale chama a uma mulher que se vende . Anta ' . O Pasquale está apenas a dizer uma coisa que não é uma acusação .» Antonio saltou da cadeira. não aconteceu nada. mas sim que se vendeu?» Ficámos todos calados . que que­ ria levantar-se . tu estás a dizer que a Lina não se apaixonou .» Enzo fez-lhe sinal para se calar.» Nessa altura tentei de novo falar.» E dirigiu-se para a saída. «Desculpa. desta vez em voz alta: «Eu . com ar sombrio: «Sim. e disse aquilo que havia meses tinha vontade de dizer.214 Elena Ferrante «Üu seja. nem está para casar com o Stefano . não exageremos. Pasquale teve um impulso de violência que todos lhe lemos nos olhos . tu sabes que ele quer bem à Lina. anunciando: «Espero pelos dois lá fora. chamo-lhe prostituta. como todos nós queremos . E esteve-se marimbando para o fedor do dinheiro que gasta todos os dias .» Enzo pôs-se em pé e disse . Enzo . é uma crítica que todos nós temos von­ tade de fazer. e disse: «Então . a tinham deseja­ do . agarrou num braço de Pasquale .» Impedimos Pasquale e Antonio de o seguirem. Quanto a mim.

Eu deitava uma olhadela e seguia em frente . e chegava Stefano e ponto final . Fernando . dar estabilidade ao irmão . até mesmo com algum exagero . vendê-los não tem nada a ver. É uma felizarda. Mas ficavam-me grava­ dos os pequenos quadros pendurados nas paredes . e dava-me gosto fazê-lo . Mas sabia que também seria capaz de contar com o mesmo prazer. e que depois Rino as alterava. que nunca tivera nenhuma tabuleta. pespon­ tar. que Lila estivera por trás de todas as movimentações de Stefano . que não passavam de uma fantasia de criança. Sabia-se que Fernando afirmava que os sapatos . recebiam ins­ truções de Fernando . por ser tão amada e por amar. gostava de me ouvir falar com a autoridade de alguém que anda a estudar maté­ rias difíceis . que as ti­ nha pendurado ali justamente para esse fim. sobretudo os de mulher. Dizia para mim: «Aqueles desenhos . foram uma fantasia. Sabia-se que Stefa­ no ia com ele e olhava muito tempo para os desenhos de Lila emoldu­ rados na parede . . Rino e os três aprendizes estavam ocupados a juntar. Agora que deu ao irmão o que o irmão queria. primeiro . martelar e esmerilar desde manhã até alta noite . sorria de si para si e dizia serenamente que queria os sapatos exactamente como se viam nas folhas quadriculadas . e também ter onde ir buscar dinheiro para mandar consertar os meus óculos se eles se partissem. em suma. debruçados sobre as mesas . Sabia-se que pai e filho discutiam muito . Sabia-se . que tudo andava ao rallenti e que os trabalhadores . ligando um passo a outro passo como se fosse um problema de matemática. como era evidente . Passava em frente da velha oficina de Fernando e experimentava um sentimento de vitória por ela.A Amiga Genial 215 va. conseguira o que queria. parágrafo . celebrada por Stefano só por amor. para Lila. por ser adorada por aquilo que é e por aquilo que sabe inventar. agora que o afastou dos perigos . Sabia-se que Lila respondia que já não queria saber do assunto . o dinheiro não tem nada a ver. até chegar àquele re­ sultado: ter estabilidade . A sapataria. e eu com ela. e que por isso Rino ia ter com Stefano e o arrastava até à ofi­ cina para que fosse ele a dar ordens precisas ao pai . e que Fernando se apercebia das alterações e voltava a alterar. É uma felizarda. Esta trabalheira toda é o re­ sultado final de uma veia artística dela. não podiam ser feitos como Lila os inventara. Lila. Sabia-se que Rino afirmava o contrário e que ia ter com Lila e lhe pedia para intervir. e tudo parava e recomeçava-se . tentar realizar o pro­ jecto da fabricação de sapatos . acabavam aos gritos e a partir coisas . agora exibia por cima da velha porta uma espécie de placa com a palavra «Cerullo» . Defendia Lila e m todas a s ocasiões .

se dirigisse directamente a Marcello Solara com o trinchete . não quisesse ver mais nada. quando eu arranjava algum tempo . Fiquei decepcionada. Mas receava que ela se enfureces­ se e que . Lila assentou no papel de noiva de Stefano .» Esperei que aqueles boatos não chegassem aos ouvidos de Stefano . pensava: talvez seja melhor avisar Lila. quanto mais a Marcello Solara.» «É um mentiroso . Ela respondera-lhe com raiva: «De nenhum tipo . e que lhe fizera . Descobri que ela estava mais bem informada do que eu acerca do que era um broche . a não ser o casamen­ to . como se já não visse nada para além disso . ela lhe fazia um broche todas as noites?» Eu ignorava o que fosse um broche . e que ele lhe perguntara que tipo de relações houvera entre ela e Marcello durante o período em que ele frequentara a casa dos Cerullo . Dei-me conta disso algum tempo depois . Por isso não quero perdê-la de vista.» Mas não aconteceu nada. era melhor contar-lhe o que me disseram. Percebi isso pelo facto de ela ter usado uma expres­ são mais clara. Gigliola disse-me com rancor. Mas por fim decidi-me.» «0 Marcello assim o diz . pelo menos ela ficava a saber de tudo. E até nas conversas que tínhamos . estaria preparada para enfrentar a situa­ ção . mas o seu som sugeria-me só uma espécie de afronta. algo de muito humilhante . sem as asperezas de sempre . filhos . Conhecia a palavra desde miúda. estás doido?» Stefano apressara-se a res­ ponder que acreditava nela. em dialecto: «A tua amiga agora parece uma princesa . me chegaram aos ouvidos boatos insultuosos a seu respeito . Mas o Stefano sabe que quando o Marcello ia a casa dela. que nunca tivera dúvidas .» «Ai sim? E também conta mentiras ao irmão?» «Foi o Michele que te disse?» «Sim. antes que aconteça alguma coisa má. Depois disse-me que o boato já chegara aos ouvidos de Stefano . Alguma coisa há-de acontecer. Parecia adocicada. e mais .216 Elena Ferrante inventará outra coisa de certeza. pela boca de Gigliola Spagnuolo . para me dizer que nunca faria essa coisa a homem ne­ nhum. «Não é verdade . quando . devido à maneira como crescera e devido ao feitio que tinha. Cada vez que voltava da escola. pois metia-lhe nojo. me pareceu sempre satisfeita com aquilo que era. uma casa.

nem àquela. Mostravam gentileza e cortesia com toda a gente . todos . sempre vestidos como actores de cinema.» E assim .A Amiga Genial 217 aquela pergunta s ó para que ela soubesse que Marcello andava a dizer porcarias a respeito dela. nos romances que lia. onde pensavam que viviam? Comportavam-se de uma maneira que não se encontrava sequer nos poemas que eu estu­ dava na escola. Não reagiam às ofensas . ignorá-los: o Marcello . com o braço dele em volta dos ombros dela. com a aprovação dos pai s . Mas ela e Stefano . como se fos­ sem John e Jacqueline Kennedy em visita a um bairro de indigentes . «Sim. com a aprovação de Rino . Lila continuara com a sua vida de noiva sem recorrer ao trinchete ou a outra coisa. fa­ zendo o que lhes apetece sem dar importância ao que as pessoas dizem . Stefano continuara entregue ao seu trabalho sem defender a honra da noiva. mais coerente com o mundo que conhecíamos desde crianças . brincavam. que lhes estavam a fazer os Solara. é influenciado por cenas de chacina que se lhe formam na mente. beijavam-se na boca. e não às escondidas . Via-os às voltas no descapotável . arrancar-lhe a velha pele e impor-lhe uma nova. admirada. so­ zinhos mesmo à noite . Lila reparara nisso e discutiram o assunto du­ rante muito tempo . Mas entretanto fizera uma expressão ausente. perguntei-lhe . o pai . o avô . subir um degrau mais acima do que os Solara. riam. e os Solara continuaram a divulgar obsce­ nidades . e pensava: vão sei lá para onde sem ninguém a acompanhá-los . o que tinham em mente . Mas de que servia isso? Falaram e voltaram a falar e decidiram. Era Lila que andava a persuadir Stefano àqueles comportamentos que faziam deles o casal mais admirado e mais falado do bairro? Era aque­ la a última novidade que ela inventara? Queria sair do bairro continuan­ do no bairro? Queria arrastá-lo para fora de si mesmo . Quando saíam os dois a passear. O que se estava a passar? Não compreen­ dia. de comum acordo . Parecia-me mais claro o comportamento dos Solara. parecia que nenhuma das velhas regras era válida para eles. realmente intolerável . o irmão . adequada à que estava inventando para ela? . de quem. e da lógica do bairro . «Um degrau mais acima?» . Confessara-lhe que também ela sentia uma necessi­ dade de vingança. Fazer de conta que não existem. Saí de lá estupefacta. Estava perplexa. mesmo sem querer.

nem sequer prima. Antonio e Pasquale . e sempre acompanhados por quatro ou . mal­ tratados . que havia pouco tempo dissera o que dissera. silêncio . devido à minha presença e à de Carmela. Pasquale . no meio . mas não sabiam dizer por quem. com os nossos ouvidos: «Eu parto a cara àquele cagalhão . pare­ ceu-me ridículo . Enzo nas suas voltas com a carroça. gente vinda de fora. todos eles . Pasquale reagiu logo: «Esteve como?» Antonio ficou embaraçado . que Enzo se tornava fisicamente mais compac­ to . Pasquale continuou a vida de pedreiro . principalmente . perguntei-me .» Enzo não pestanejou . Enzo . vagueámos indolen­ temente . quando eu . Juravam que tinham sido espancados numa ruazinha escura. como se fossem eles os noivos . reuniram-se a nós . um dia. Vi-os afastarem-se . Aconteceu num domingo . a certa altura levantou a voz e ouvimo-lo bem. dois . Vi e ouvi que Pasquale se enfurecia cada vez mais . Esperámos pelas inevitáveis represálias . mais do que Stefano . Fora reduzido a pedaços . Ele . Mas se o Stefano lho permite . Porquê . Tudo reentrou bruscamente nos carris habituais quando os boatos a respeito de Lila chegaram aos ouvidos de Pasquale . por dez pessoas pelo menos . Carmela. anda a fazê-la passar por prostituta. Já os Solara. porque se enfurecem tanto? Lila não é irmã deles . pernas . No entanto sentem-se na obrigação de se indignarem . Antonio a de mecânico . Pasquale e Antonio andávamos a passear na rua larga. três .218 Elena Ferrante 47 . Enzo . falaram um com o outro . quem não lho permite de certeza é o abai­ xo-assinado . Mas tomou­ -se evidente que as coisas tinham sido bem feitas . Dali a pouco acompanharam-nos a casa. eu a conversar com Antonio . pescoço . Mas eu e Carmela sabíamos muito bem que os agressores eram só três e ficámos muito preocupadas . Carmela entre o irmão e Enzo .» Depois . Antonio disse: «Constou-me que o Marcello Solara anda a dizer a toda a gente que a Lina esteve com ele . que era o mais baixo . E não só: os dois irmãos haviam sido agredidos com selvajaria. durante algum tempo só se deslocavam a pé .» Afastaram-se . um de cada lado . muito mais do que Stefano . No dia seguinte e durante muitos dias houve um grande falatório acer­ ca do II 00 dos Solara. um pouco perturbados . como se já não tivesse braços . e respondeu: «Tu percebeste . e fosse um bloco de matéria dura.

Lila. mas não conseguia encontrar um desígnio coerente no afastamento dos nossos destinos . E no fim de contas . O professor Gerace e a professora . Tive pensamenfos mesquinhos . e outro . Confesso que me deu prazer vê-los naquele estado . só para pare­ cer invejável aos olhos de Lila. um filho . com dezasseis anos . Gente daquela laia tinha de ser combatida através de um estilo de vida superior. Senti orgulho nos meus amigos .A Amiga Genial 219 cinco amigos . não dormi nessa noite . e dentro de um ano . por sua vez . por distracção . teria um marido . Quando Lila me anunciou o casamento estávamos em Junho . como a Fama na Eneida . e suportara os contactos fugazes e imundos do pai dele . Nove meses talvez fosse muito tempo . No dia seguinte fui fazer o exame sem vontade nenhuma. os boatos espalhados por Marcello Solara. Beijara Gino uma vez . Aquela notícia abalou-me . em Março . um estilo que eles nem eram capazes de imaginar. eram nove . e depois mais outro . pareceu-me ter batido . 1 2 de Março . vi claramente que o iniciara. e outro . por terem feito de conta que nada acontecera. se casaria. chorei de desespero . mal roçara nos lábios de Nino . permitindo que a raiva pérfida de Pinuccia. ela agora já não atribuía qualquer importância aos livros. claro . Já era previsível . que continuavam a voar de boca em boca por todo o bairro . consumissem Ste­ fano e o levassem a romper o noivado . Sinal de que Lila talvez tivesse ra­ zão . mais prepotentes do que antes . Era tudo . Sãos e sal­ vos . anos antes . contra uma porta. mas agora que fora fixada uma data. Senti vergonha de mim. aos dezassete . ela anun­ ciou-me que na Primavera. Senti-me uma sombra. Senti mais forte do que nunca a insignificância do meu percurso escolar. Pensei na minha magra experiência amo­ rosa. a hostilidade de Maria. O facto de já haver uma data concreta deu também um carácter concreto à encruzilhada que iria afastar as nossas vidas uma da outra. Desisti de me preparar para o exame . Quando estavam a decorrer os exames do segundo ano do secundário . 48 . ainda com dezasseis anos. Marcello e Michele compraram uma Giulietta verde e recomeçaram a comportar-se como donos do bairro . De­ pois o tempo passou . a poucas horas das provas orais. Juntamente com Carmen e Ada critiquei Ste­ fano e também Rino . Mas suce­ deu algo que me fez sentir melhor. E o pior foi não me restarem dúvidas de que a sorte dela seria melhor do que a minha. Contei os meses .

com sete em tudo . Vira-a na rua. isso sim . Naquele dia disse «CU» . Fez questão de ler uma passagem ao resto do júri . das frases muito rígidas . e o meu pai disse-me que fosse imediatamente a casa da professora Oliviero . mas sem entusiasmo . Passei para o primeiro ano do liceu com dez em tudo . Senti-me a sua aluna mais bem conseguida e fui-me embora aliviada. O único que me felicitou sem meios termos foi Alfonso . A minha mãe achou o meu sucesso escolar perfeitamen­ te natural . a minha mãe gritou: «E se ela te quiser mandar outra vez para Ischia. Não era a forma de escrever de Lila. não só porque tam­ bém ela já tinha como certo o meu bom aproveitamento . ao peito . o . nem a Ischia. mas também porque não estava bem de saúde .» Mas não foi isso que me impressionou . Greco . às co­ xas e ao cu . Senti que a admiração dele era genuína. E aos meus professores parecia algo realmente fora do normal . naturalmente . de longe . não a protegera e não a desenvolvera bem. Não fez qualquer referência à minha necessidade de descanso . que fazia parte do júri . tentar uma escrita fluente e sedutora como a de Lila na carta de Ischia. disse que a minha exposição melhorara muito . que também passou . Quando ouvi as minhas palavras na voz do professor. e depois gaguejou: «Desculpa. elogiaram muito o meu trabalho de Italiano . Vi que estavam satisfeitos . mas em minha casa ninguém se admirou nem me felicitou . diz-lhe que eu não estou bem e que tens de me ajudar em casa.220 Elena Ferrante Galiani . enquanto a professora Galiani ouvia e aprovava em silêncio com a ca­ beça. desde que a conhecia. o charcuteiro . em especial . o problema que tinha na boca inco­ modava-a muito .» Nunca a ouvira dizer um palavrão . disse . mas não deram importância nenhuma ao acontecimento . e foi-lhe toda parar à cara. para ela se lembrar de me arranjar a tempo os livros para o próximo ano . e é como se nunca a ti­ vesse tido . começou a falar de Lila. lugares onde depressa desaparece . Estava com o noivo . Gerace . e fiquei contente . compreendi que tinha conseguido . era a minha. como profes­ sora. Depois pronunciou uma frase que recor­ darei sempre: «A beleza que a Cerullo possuía na mente desde pequena não encontrou saída. cada vez que tinha de escrever: livrar-me do meu tom artificial . E só ao ouvi­ -lo me apercebi daquilo que procurara fazer nos últimos meses . para minha surpresa. Em vez disso . Quando ia a sair. Foi a mágoa. nem à prima Nella. como se a professora se tivesse apercebido de que alguma coisa em Lila se desperdiçara porque ela.» A professora elogiou-me .

Desatámos a rir. Perguntei a dom Paolo .» «Não foi por isso . Voltei para casa a chorar. Fiz menção de me ir embora e ela chamou­ -me e disse: . Perguntei ao vendedor de jornais. quando nos despedimos ainda ríamos . levado pelo entusiasmo . ela começou a rir. sim . Prometemos encontrar-nos . Diante das pautas afixadas .» Também isso me deu prazer. Também não precisava de mim. impossível . o dono da mercearia da rua larga.» No regresso a casa falámos muito do casamen­ to do irmão e de Lila. Levou tempo a responder-me . Depois ficou atrapalhado . e aquela miúda não . um beijo ruidoso . quando reabriam as escolas .» «Em que sentido?» «No sentido que o meu irmão tem mesmo muita coragem para casar com ela.A Amiga Genial 22 1 que me deu prazer. largou-me de imediato .» «Perder custa muito . na presença dos nossos colegas e dos respectivos pais . Apertou-me com força contra ele e deu-me um beijo na face . Como me sentia muito à vontade com ele . mas não se conteve e gritou: «Dez a tudo. Ele estava condenado a passar o Verão na charcutaria. Precisava. Aliás . Não fomos . se preci­ sava de uma caixeira.» «Estavas apaixonado por ela?» «Estás a brincar? Sempre me fez sentir acanhado . e que se tivesse sido eu a escolher. devia procurar um trabalho para o Verão . irmos à praia juntos pelo menos uma vez . como se se tivesse esquecido de que eu era rapariga e que não devia tocar-me . disse-me que voltasse no Outono . Achei intolerável que todos tivessem terror do meu pai . mais por decisão da minha mãe do que do meu pai . e eu . mas depois decidiu vencer e humilhou-me .» «A Lina também. eu em primeiro lugar. casaria contigo . sem qualquer interes­ se . mas não agora. Depois disse: «Lembras-te daquele desafio que nos obrigaram a fazer na escola?» «Quem é que se conseguiria esquecer?» «Eu tinha a certeza de ganhar.» «Sim. per­ guntei-lhe pela primeira vez o que pensava da futura cunhada. Fui falar com a dona da papelaria. durante algum tempo tentou não te vencer.» «0 que queres tu dizer?» «Quero dizer que tu és melhor. Nada. todos vocês tinham medo do meu pai . Nos dias seguintes andei às voltas pelo bairro . pediu desculpa. dez a tudo . fez uma coisa inconveniente .

Poucos passos dera. nos autocarros à cunha. Mar. quando o dia está bom e todas as coisas boas parecem estar só à nossa espera. cheio de nódoas de gordura. sol e di­ nheiro . chamava-se Sea Garden . Embora tivesse a certeza de amar Nino Sarratore . do qual nada sabia. 49 . Lila ia dar um salto definitivo para fora da minha vida. e eu todas as manhãs atra­ vessava a cidade com as três meninas . Dirigi-me para casa muito excitada. e também o meu namoro . estudantes . me perguntou se eu queria namo­ rar com ele . ficar bonita por apanhar sol como no Verão pas­ sado . Encontrei Antonio . intuindo que a minha disposição era favorável . pareceu-me uma coisa nada diferente da aprovação com dez em tudo . Contei-lhe logo a respeito da senhora da papelaria. Teria de ir todos os dias a um sítio entre Mergellina e Posillipo . e de receber uma remuneração pela tarefa de levar as filhas da senhora da papelaria ao Se a Garden . um adulto . plataformas de cimento . tenho confiança em ti . Lenu . um trabalhador. mar azul. guarda-sóis . embora não sentisse por ele mais do que um pouco de simpatia. mulheres abastadas com muito tempo livre . e ele deve ter-me lido no rosto que aquele era um momento feliz . durante todo o mês de Julho e os primeiros dez dias de Agosto . embora amasse outro . A senhora da papelaria arranjou-me uma espécie de passe .222 Elena Ferrante «Tu és uma rapariga muito séria. Como tudo é agradável . disse-lhe logo que sim. e que tinha um nome estrangeiro . Eras capaz de levar as minhas miúdas a banhos?» Saí da loja muito feliz . Duran­ te meses estudara afincadamente . qualquer pessoa que tivesse encontrado naquele momento de alegria seria bem acolhida. pensei .se eu levasse à praia as suas três meninas . evitara-o sempre e nem fora ver se ele passara no exame e com que notas . Mas agora sen­ tia-me bem e queria sentir-me ainda melhor. Fiquei contente . e levava­ -as para aquele sítio cheio de cor. Ia ganhar dinheiro para os meus pais . nunca mais poderia acompanhá-la.e a pagar-me bem . da idade de Stefano . Teve início o meu trabalho . tomar banhos de mar. e essa impressão de horas felizes consolidou-se . como se a minha vida ti­ vesse dado uma volta decisiva. Tê-lo a ele como namorado . A senhora estava disposta a pagar-me . Quando Antonio . Ele vira-me passar e correra para me apanhar. sentindo-me só e feia. mulhe- . em fato-macaco.

pela professora Oliviero . com um lindo biquíni vermelho . A primeira era: Lila faz estas coisas com Stefano? A segunda era: o prazer que sinto com este rapaz é o mesmo que senti na noite em que Donato Sarratore me tocou? Em ambos os casos . Tratava com bons modos os banheiros que tentavam meter conversa. Devolvia as meninas à mãe e corria ao meu encontro secreto com Antonio . Uma tarde . pois ao longo do dia não era possível beijarmo-nos ou tocarmo-nos . e quando ele o tirou para fora segurei-o na mão com prazer. Olhava pela meninas . Era Lila. eu própria lhe apertei o pénis . Enquanto ele brincava com elas . e por outro . queimada do sol . Foi com ele que troquei os primeiros beijos verdadeiros . De­ pressa o deixei tocar-me nos seios e entre as pernas . a emoção forte . Também entretinha as meninas com palhaçadas e mergulhos de atleta. levantei os olhos um instante e vi uma rapariga alta. Mas fazia-o por mim. por um lado . os amores entre Lila e Stefano . só para estar comigo . Não me viu e eu não soube se devia chamá-la. escondido dentro das calças . Mas nunca me senti culpada. sempre atenta para que não escorregassem e partissem os dentes na pia. manifestava uma tal dependência absoluta de mim por aqueles escassos contactos nos pauis . embora ganhasse muito pouco . Trazia óculos de sol e uma . salgada da água do mar. sem qualquer recompensa imediata. Gastava muito dinheiro com falsa desenvoltura. tinha medo de ser vista pela minha mãe e . Antonio acabava por ser apenas um fantasma útil para evocar. ia comigo e com as meninas para o Sea Gar­ den . ao domingo . eu estendia-me ao sol a ler e dissolvia-me no interior das páginas como uma medusa. que o prazer que eu lhe proporcio­ nava era de longe superior àquele que ele me dava. que o pai de Nino me provocara. elegante . Por vezes . Ele era­ -me tão grato . Alimentava-as . difícil de classificar. que depressa me convenci que ele é que estava em dívida para comigo . Regressávamos ao bairro no final da tarde . tomava longos banhos com elas . nem sequer o jovem banheiro que a precedia. movia-se como se naquele lugar apinhado de gente não estivesse ninguém .A Amiga Genial 223 res vistosas com rostos vorazes . deixava-as beber tempo sem fim do repuxo de uma fonte de pedra. Íamos até aos pauis por ruas secundárias . duro . enquanto nos beijávamos . talvez ainda mais . brincava com elas . e também detestava queimar-se ao sol . grosso . exibindo o fato de banho que Nella me fizera no ano anterior. Aceitei aquelas práticas com duas perguntas claras no pen­ samento . Já ha­ bituada a ter os olhares dos homens pousados nela. Numa dessa ocasiões . para acompanhá-la ao guarda-sol . esguia.

Estava havia muito tempo habituada a auto­ disciplinar-me . e as crianças abandonaram imediatamente Antonio e viraram todas as atenções para ele . o isquei­ ro . Não estava. Lila já lá não estava. não demorei a olhar de novo naquela direcção . «É pouco . levei dali as garotas para que não os incomo­ dassem.224 Elena Ferrante bolsa de tecido colorido . Quando ergui de novo os olhos . e desta vez consegui realmente . Fiz-lhe um adeus animado . Procurei-a com o olhar e vi que estava a falar com Antonio . Quando os dois rapazes começaram a falar de não sei que problemas do descapotável . perguntou-me . a que ela respondeu com idêntica animação . É provável que receasse a opinião dela. Foi um dia de aparente alegria. sanduíches . enquanto Antonio olhava pelas filhas da senhora da papelaria.» Olhei para ela. Beijou Lila nos lábios . A certa altura Stefano levou-nos todos ao bar e pediu tudo o que era bom. gelados . captar o sentido das palavras . sentou-se também numa cadeira de repouso . e Antonio apontava para mim. Lila foi comigo . por sua vez . Tomámos banho os três juntos . tanto so­ bre uma coisa como sobre a outra. Stefano continuava sentado a olhar para o mar.» «Deves dar mais valor a ti .» «Dar-te-ei baús cheios de moedas de ouro . e voltei a olhar para o livro . Mais uma vez . para ver se estava a brincar. Ainda não lhe contara a respeito do meu traba­ lho . tentei ler. Esperemos que ela me chame . nem de Antonio . Todavia. bebidas . Entretanto Stefano estava a chegar. os cigarros.» «A minha mãe acha que ela me paga de mais. «Quanto te paga a dona da papelaria?» . mas logo a seguir brincou . voltando­ -se de imediato para chamar Stefano . muito branco . O banheiro abrira-lhe a ca­ deira de repouso e ela estava sentada ao sol . fato de banho azul. recordo-me de que o romance era Oblo­ mov . durante alguns minutos . sei quanto vale passar o tempo contigo . conversa em que Antonio fez um brilharete .» «Gostas dele?» . Disse-lhe quanto .» «Darei mais valor a mim quanto tiver de levar os teus filhos à praia. pen­ sei . na mão a carteira. Lenu . como os príncipes fazem com as belas adormecidas e. mas já sem conseguir ler. quando se referiu a Antonio: «Ele conhece o teu valor?» «Somos namorados há vinte dias .

mas mais do que de ti . mesmo depois de casada. se não me perguntou que livro estou a ler. por exemplo as coisas que lhe atribuíam os boatos lançados pelos dois Solara? Não tinha mais ninguém com quem fazer comparações senão com ela.» «Mais do que dos teus pais . paciência. Foi um dia maravilhoso .» No entanto . respondeu . mais do que do Rino?» «Mais do que de todos .A Amiga Genial 225 «Não . ela nunca mais foi ao Sea Garden . Disse-lhe: «Venho para aqui todos os dias . que concordou . em que todos . «Porque eu e tu somos mais bonitos e mais finos» . quase lhe gritei em dialecto . com os pés na água. Depois o sol começou a declinar. talvez nem tudo esteja terminado. sentadas no cimento quente .» «Estás a gozar comigo. Pensei que se Lila voltasse a aparecer no Sea Garden lhe perguntaria o que se passava entre ela e Stefano quando se afastavam sozinhos no carro . paciência. ou mais ainda. e ficou a saber que Antonio já pagara tudo . milagrosamente . Já na rua. séria: «Imenso . nos sentimos à vontade . Stefano dirigiu-se à caixa. Lamentou muito e agradeceu calorosamente . Melina e Ada lavavam as escadas dos prédios . Faziam as mesmas coisas que eu e Antonio fazíamos . assim que Stefano e Lila se afastaram no descapotável . é bom conver­ sarmos assim. davam-nos mais prazer. zangada.» «E então?» Desafiei-a com o olhar. Os nossos jogos se­ xuais tomaram-se um pouco mais audazes . Porque não vens também?» Entusiasmou-se com a ideia. eram horas de levar as meni­ nas à mãe . pensei: mesmo que esteja a gozar comigo . falou com Stefano . ao sol . «Porque é que tu pagaste?» . Afeiçoei-me a Antonio quase sem dar por isso . . 50 . «Tu gostas do Stefano?» Respondeu . não . se não quis saber como me correram os exames da secundária. repreendi-o . alguma coisa perdurará en­ tre nós . Mas não houve oportunidade de lhe fazer essas pergun­ tas . e ele ganhava quatro liras na oficina.

mas na segunda metade de Agosto piorou declaradamente . tenho matérias no­ vas . Pensava falar com ele calmamente . dizia que ele viera buscá-la. nos Maronti . e todas as tardes ia para o nosso encontro nos pauis com o discurso preparado . a poeira. Melina geralmen­ te piorava.226 Elena Ferrante Em meados de Agosto o meu trabalho acabou . Andava preocupado . que me faltava a coragem e ia adiando .» Ele beijou-me e murmurou . e sentir só um pouco de afeição por ela. descontrai-te um pouco por favor. as moscas . ela . Até ao fim do mês . e acabou-se também a alegria do sol e do mar. Era uma decisão que me parecia urgente . pensei : deve estar de férias em Barano . afecto não era amor. . Depois do feriado de Agosto . A dona da papelaria ficou muito satisfeita com o modo como eu tomara conta das meninas . Todos julgam que ela é má e eu boa. eu não gosto de Antonio . Com o calor. com este calor. Será no feriado de Agosto .» E acrescentou com malícia: «Pensa na Lina Cerullo . queria dizer-lhe: foi um tempo bom. Lila gosta imenso de Ste­ fano . nos pauis . contassem à mãe que às vezes um rapaz meu amigo ia connosco à praia e davam belos mergulhos com ele .» À tardinha. então não é verdade?» Aquela resposta enterneceu-me e impediu-me de lhe dizer que tínha­ mos de nos deixar. desde pequenas . e os filhos não sabiam como acalmá-la . ao contrário do que eu lhes recomendara. em vez de me censurar. Dizia para comigo: não se pode beijar. a quem ela chamava Donato . e que não andasse à procura de Melina mas de mim. abraçou-me e disse: «Ainda bem . vai ser um ano difícil . acariciar uma pessoa. O tempo foi passando e nunca mais encontrava o momento certo para falar com ele . tenho de estudar muito. irónico: «Porquê . Voltara-lhe à lembrança Sarratore . Fiquei ansiosa. ajudaste-me muito num momento em que estava triste . com a impressão de ele ter entrado pela janela e se encontrar no meu quarto . sabia que iria amá-lo sempre . e embora elas . Depois se­ renei . De noite acordava sobressaltada. com medo de que Sarratore tivesse realmente aparecido nas ruas do bairro . mas temos de acabar. custa-me . és demasiado ajuizada para a tua idade . eu amava Nino . decerto . tão apaixonado . disse a Antonio: «Foi sempre assim. Sentia que era necessário . as coisas que ela faz . Dizia que o tinha visto . deixar que nos acari­ cie . aqui não . mas agora a escola vai reco­ meçar e este ano vou para o primeiro ano do liceu . Mas ele era tão afectuoso .

A Amiga Genial 227 Mas uma manhã. se suicidava. Antonio ficou melancólico . que todos os dias ao meio-dia estaria à entrada do túnel . Então parei e sussurrei-lhe que me deixasse em paz . Voltei-me . Donato Sarratore andava pelo bairro . ele veio atrás de mim. tentou desaparecer à pressa no escuro do túnel. Que me pedi­ ra para dizer a Melina que estaria sempre à espera dela. no outro Verão . disse que nunca lá iria. Murmurou que esperaria por mim para sempre . Antonio estava taciturno . à entrada do túnel . Uma parte dele estava furiosa. Nessa mesma tarde . que tinha um namorado e que nunca mais queria vê-lo . Inclinou-se para me beijar. Murmurou: «Tu és inteligente .» Voltou-se com relutância. de prestígio . Que fora ter comigo na rua. Ficou desesperado . e que falaríamos os dois claramente com ele sobre o estado de saúde da mãe . falar comigo à vontade . Limitei-me a dar-lhe o braço . és sensível . senti que ti­ nha um peso em cima dele que lhe afrouxava o passo . nos pauis . . eu levo-te os poemas de que mais gos­ to» . e ele fez um sorriso de contrariedade . caminhava sem pressa. No dia seguinte fomos ao túnel . Senti-lo naquele estado tornou-me mais determinada. Abanei a cabeça energicamente . Segui em frente . mas agora está intimidado . Fiquei aterrorizada. Disse que sofrera por não me encontrar em casa de Nella. Depois centrei o olhar no bigode preto . quando ia fazer as compras . murmurou: «0 que devo fazer?» Disse-lhe que eu própria o acompanharia ao local de encontro . disse-lhe que a mãe tinha razão . Chamei-o: «Senhor Sarratore . Disse que para dar uma forma ao nosso amor escrevera muitos poe­ mas . e a outra. Decidi recorrer a Antonio . Disse que queria encontrar-se comigo . não sabia o que fazer. e que . e a princípio não o reconheci . todos os dias ao meio-dia. na rua larga. ouvi chamar por mim. eu saltei para trás com um gesto de nojo . na boca de lábios finos . para ele . apenas porque Donato Sarratore . mas és muito melhor do que aquele homem . é uma pessoa importante . que sem mim não podia viver. cheia de acanhamento . tive vontade de o sacudir e de lhe gritar: tu não es­ creveste livro nenhum. Não dormi toda a noite com a preocupação . Quando Sarratore nos viu ao longe . nas feições agradáveis douradas pelo sol . Pensei com raiva: foi capaz de enfrentar os Solara por causa da irmã Ada. se eu me recusasse . em Barano . que gostaria de mos ler. Disse que não pensava senão em mim . e por causa de Lila. e afastou-se .

Estive quase a intervir. Prosseguiu: «Mas o senhor já não vive aqui no bairro e a situação para si não é clara. tratando-o por «senhor» .» «Então . eu nunca tive qualquer intenção de fazer mal à tua mãe . Curvou os ombros .» «Isso não me podes pedir.» . na praia dos Maronti . encolheu a cabeça. disse Sarratore com uma voz cálida. Tu lembras-te bem de como me esforcei por vocês . não lhe mande livros. a voz que ele imaginava que um homem de categoria. empurrando-o com os dedos fortes . antecipou-se . olá Antonio . E se o vir.» «Falámos muito . e disse-lhe . para meu espanto . Conhecia-a. Ser-lhe-ei sempre grato por aquilo que fez por nós depois da morte do meu pai . fez-me sinal para me calar. que escrevia poemas e artigos no Roma . e estendeu uma mão até ao tronco de Donato Sarratore . passa-lhe para sempre a vontade de re­ ver estes sítios de merda.» «Ah . devia ter. acariciante .» Sarratore atrapalhou-se: «Antonio . Ele irritou-se . Agradeço-lhe sobretudo por me ter arranjado emprego na ofi­ cina do senhor Gorresio . A única coisa que sempre quis foi ajudá-la a ela e a vocês todos . nervosa. se o vir nem que seja só uma vez . é o filho mais velho da dona Me- lina. e esforçando-se para falar em italiano: «Estou muito contente de o ver. se quiser continuar a ajudá-la.» «Diz-lhe da tua mãe» .» Antonio compreendeu que o seu momento chegara. mui­ to pálido e tenso . a si lho devo .» «Eu e ele somos namorados . se ouve pronunciar o seu nome . e ele agora vai dizer-lhe tudo . mas Antonio . pressionei-o . não a procure . Mas prometo-lhe que se o senhor tirar à minha mãe o pouco tino que lhe resta. ele usara-a muito em Barano . Aquela tonalidade indignou-me . A minha mãe . senhor Sarratore . está bem. eu não me esqueço . Disse-lhe em dialecto: «Eu não o impeço .228 Elena Ferrante Disse-lhe . meu filho . se aprendi um ofício . não apareça aqui no bairro . Era uma voz pastosa. vai parar ao manicómio . artificial­ mente comovida. não podes impedir-me de rever sítios que me são tão queridos» . perde a cabeça.» Sarratore produziu uma voz aguda e muito afectuosa: «Claro que me lembro . coisa que nesse tempo era fora do normal no nosso ambiente: «Não sei se se lembra do Antonio .

para garantir a Lila algum enxoval e fazer frente à despesa do copo-de-água. «já percebi . com os preguinhos entre os lábios. O resultado disso foi que durante meses a tensão esteve muito alta na casa dos Cerullo . Os preparativos interligaram-se com o lento . no seu boteco em que era o rei . orgulhosa daquela saída dele . a menos de duzentos metros passa­ vam. receita essa que para eles era urgente . A casa no bairro velho era maior mas era escura e não tinha vista nenhuma. elaborado e conflituoso nasci­ mento dos sapatos Cerullo . Stefano estava seduzido . Stefano queria comprar um pequeno apartamento no bairro novo . 51. para além de outras coisas . Houve apenas dois pequenos instantes de atrito entre eles . os carris da linha férrea. chorando a época feliz em que . O apartamento no bairro novo era mais pequeno . por um motivo ou por outro . bem nítidos . Pensei . Discutiram. «Sim» . mas também em mil outros servicinhos que davam lucro imediato . reflectia-se e não pouco na sapataria. Levei-o dali . Pareciam dois empreendimentos que . O primeiro relacionou-se com a futura casa. para não fazerem figura de pedintes . ao passo que Lila preferia um apartamento nos prédios velhos. cheia de afecto . nunca conheceriam fim. O casamento . colava. talvez pela primeira vez. e dava para o Vesúvio . a responsabilidade que lhe caíra em cima.» Girou sobre os calcanhares e pirou-se na direcção da estação . e um bidet. e alarguei o meu prazo: deixo-o depois do casamento de Lila. como a do anúncio da Palmolive .A Amiga Genial 229 Sarratore empalideceu . mas tinha uma banheira enorme . que por enquanto não rendiam nada. e Fernando fazia cenas constantemente . e depois o trabalho . como todas as casas daquela zona. no que teria sido para ele . disse à pressa. Precisavam de juntar bastante dinheiro . cosia e martelava tranquilo . O bairro recordou-se daquele casamento durante muito tempo . que queriam a todo o custo assumir. Nunzia bordava lençóis noite e dia. enquanto o Vesúvio era um contorno instável e distante. Dei o braço a Antonio . não só nos sapatos no­ vos . mas notei que tremia. Foi inútil fazer notar que . em miúdo . Os únicos que pareciam serenos eram os noivos . Fernando e Rino trabalhavam muito . obrigado . o revés da mãe . a morte do pai . que se dissolvia no céu nebuloso . disse para mim .

pelos apartamentos com o chão a brilhar. dizendo que nunca mais permitiria que voltassem a estragar-se . aquele onde haviam disparado o fogo-de-artifício ao desafio com os Solara. as suas mãozinhas quase de criança. mais do que outra coisa. O segundo motivo de atrito foi a viagem de núpcias . s e Stefano i a à sapataria Cerullo . acabava sempre por deixar escapar palavras pesadas acerca de Fernando e de Rino . a banheira para tomar banho de espuma. sempre vira neles . que tinham trabalhado ao lado das mãozonas do irmão . guardados como testemunho precioso da história de am­ bos . o que importava era que com menos de dezassete anos seria dona de uma casa. e até telefone .230 Elena Ferrante pelo que era novo . via Lila. e no final do Verão . sapatos que adquirira e nunca usara. Pegou-lhe nos dedos e beijou-lhos um a um. e ela não gostava. começava a ver na história dos sapatos um investi­ mento excessivo de dinheiro . ele replicou . Quanto ao resto . Tomei nota do número . Ela defendeu o irmão . Disse que até ao fim de No­ vembro queria ver os primeiros resultados . e que não era alugada. e Lila depressa se rendeu . Depois . o frigorífico . Mais do que outra coisa. quando se registaram fortes tensões entre ele e os dois Cerullo . cheirou-os . muito alegre . que Rino era sempre mais despachado a pedir dinheiro do que a trabalhar. emocionada. Stefano propôs como destino Veneza. quando . via neles . impôs um limite exacto ao faz e desfaz do pai . Ele abanava a cabeça pouco convencido . revelando uma linha de tendência que viria a marcar toda a sua vida. e comoveu-se ao dizer que sentia neles . a seguir. O futuro marido disse quase de imediato que concordava. com água quente a sair das torneiras . Encontravam-se no terraço da velha casa. as tensões foram mínimas . teriam de estar prontos a serem expostos na montra antes do Natal . Tínha- . Foi a própria Lila que me contou este acto de amor. para homem e para mulher. tudo sítios onde nunca estivera. e talvez n a costa e m volta de Amalfi . Por exemplo . Foi buscar o par de sapatos do qual nascera todo aquele projecto . Fê-lo no dia em que me foi mostrar a casa nova. insistiu em não se afastar muito de Nápoles . ela exaltou-se e ele fez imediatamente marcha-atrás . saltava em defesa deles . fugiu-lhe da boca. e apalpou-os . Capri . os móveis entalhados da sala de jantar e do quarto . pelas pare­ des brancas . reflexos de problemas internos das respectivas farm1ias . cheio de nervos . Pelo menos os modelos de Inverno . mas sim propriedade sua. falando com Lila. do filho e dos ajudantes . Sugeriu uma estadia em Ischia . Que esplendor: pavi­ mentos feitos de grandes ladrilhos reluzentes. e Lila.

Ela nunca concedia nada a Stefano .» «E o que é que acontece?» Olhou-me. Estava convencida de que Lila. ela. eu . tive vergo­ nha de lhe dizer a verdade . não . embora estivessem para casar. precisamente por causa das aulas . há muito tempo que fora para além do beijo. Os conflitos com Pinuccia cresceram muito durante o Verão . . e perguntei-lhe com cuidado: «Tu e o Stefano vêm aqui sozinhos?» «Sim. não . se eu dava a Antonio aquilo que ele me pedia.» «Ele . nem de foulards . em breve . embora já tivessem casa própria e mobilada. sem um quarto para nós . 52. como se não percebesse . que certamente não me casaria. Já não se tratava de roupas . assim como as res­ postas dela me tocaram. e eles nada mais que uns beijos?» «Mas ele não te pede?» «Porquê . Mas não f�i assim. sem um sítio para estudar. habituara-se ao meu desaparecimento durante o ano escolar. Seria possível? Tanta liberdade e nada? Tanto falató­ rio por todo o bairro . Quando me perguntou . me deixaria de fora dos preparativos para o casa­ mento . a cama com os colchões ainda embalados . que dava para a linha férrea e para o Vesúvio . embora saíssem sozinhos de automóvel . ainda não somos casados. nem de chapéus . as obscenidades dos Solara.» Mas pareceu-me tocada pelas minhas perguntas . «Beijam-se?» «Às vezes. a mim. Concorda que primeiro devemos casar-nos . Saímos para a varanda.» «E depois?» «Depois mais nada. Respondi que não e ela pareceu satisfeita.A Amiga Genial 23 1 mos nascido e sido criadas em casas pequenas . Reduzi o s encontros nos pauis . Eu ainda assim vivia. o Antonio pede-te?» «Sim. dos trabalhos de casa. até porque a escola i a começar em breve . «Em que aspecto?» Senti-me embaraçada. às vezes .» Fiquei confusa. com genuína curiosidade . E ao invés .

gritou a irmã.232 Elena Ferrante nem de jóias . Pinu . A partir de amanhã mando vir para o teu lugar a Ada. a filha da Melina. mã' ? Ouviste o que ele disse? Julga-se o patrão absoluto . que ou a sua noiva ia trabalhar para a charcutaria. Lila não pestanejou . de desde­ nhoso . demos trabalho a quem precisa. em vez de trabalhar na charcutaria. apontando para Lila. como todas as respostas de Lila desde sempre . pelo menos depois da lua-de-mel .» «Ouviste . Esperou que a irmã desabafasse . Mamã. eu não sou o patrão de nada. e depois Maria levantou-se da cadei­ ra junto da caixa registadora e disse ao filho: «Arranja também alguém para este lugar aqui . atirar dinheiro pela jane­ la fora sem mexer um dedo para o ganhar. isto é. fa­ ria melhor em ajudar a noiva nos preparativos para o casamento . e dominar o homem da casa com as suas artes . Disse devagar: «Acalmemo-nos . «Isso não é da tua conta. Então . quem é que trata do casamento?» .» Nessa altura Stefano teve uma pequena hesitação . porque eu estou can­ sada e não quero trabalhar mais.trabalhar como toda a famí­ lia fazia desde sempre . E desta vez a mãe apoiou-a de forma explícita. Tomou-se evi­ dente que a filha do sapateiro era agora considerada pelas duas mulheres uma feiticeira que viera fazer o papel de patroa. na presença de Lila e de forma clara.. tu precisas de trabalhar? Não . levando-o a fazer coisas muito injustas contra os do seu próprio sangue . «Não . que fez com que Pinuccia se exaltasse ainda mais . e depois . como se o problema de Lila e da sua colocação na pequena empresa familiar nunca tivesse sido levantado . Senão . «Já não precisas de mim?» . contra a irmã carnal e até contra a própria mãe . disse calmamente que Pinuccia. os assuntos da charcu­ taria não dizem respeito só a mim.» «Foi ela que te sugeriu isso?» . ou então ela também deixaria de trabalhar. depois penso . e na caixa. disse que podia começar imediatamente. Stefano . a senhora precisa de estar todo o dia sentada aí atrás? Não . aqui dentro .» Fez-se um silêncio insuportável . em qualquer função que a fann1ia Carracci lhe quisesse atribuir. Ao balcão ponho a Ada. amanhã mesmo. embora tentando ser conciliadora. Há que tomar uma decisão . como era seu hábito . Essa resposta. tinha qualquer coisa de temerário. como fazia também Alfonso sempre que a escola lho permitia . mas a todos nós . se não já. disparou ela. não respondeu imediatamente . Pinuccia a certa altura disse ao irmão .

a decoração da igreja. o cetim mole . e recordo-me de ter metido uns livros num saco . muito contrariada. Saí com ela . o tule nebuloso . ficavam-lhe bem. porque se não vieres . ou experimentava os vestidos que eram bonitos nos manequins . encontrei a minha amiga. as mangas tufadas . as lembranças de casamento . e na realidade para apoiá-la numa luta difícil . o fotógrafo. irónica. O meu habitual e obstinado esforço já me estava a exaurir. O que sei ao certo é que não lhe agradou que a cunhada e a sogra tivessem tanto tempo livre para se dedicarem ao seu casamento . a sala para a recepção . havia conflitos por qualquer ninharia: as participações . Não me digas que não . O corpete de renda. A saia larga ou a saia justa. quando vinha da escola. os figurinos. e o vestido valoriza­ va-lhe a beleza. e sobretudo Antonio . A loja era no Rettifilo . Mas às vezes . ainda mato a minha cunhada e a minha sogra. o bolo . uma vez que Pinuccia e Maria consideravam coisa reles ir a Sorren­ to. apalpámos tecidos . e Lila experimentou vestidos de noiva expostos nos manequins da loja. tal como a de pérolas e a de flor de laranjeira. A rígida organza. Foi impossível . quando já não aguentava as esquisitices das suas futuras parentes . tudo lhe ficava bem. Tinha sido interrogada a química e não fizera boa figura. Ischia ou Capri .A Amiga Genial 233 Não sei ao certo se Lila estaria de facto por trás da expu lsão de Pinuc­ cia e da mãe do dia-a-dia da charcutaria. tinha muitas matérias no­ vas e difíceis. Fui . o que me fazia sofrer. alarmando a sogra e a cunha­ da: «E que tal se escolhêssemos um lindo cetim verde . que me disse à queima-roupa: «Por favor. De modo que inesperadamente fui chama­ da. Pinuccia e Maria. Positano . obediente . Mas um dia. Estava no início do primeiro ano do liceu . a sua beleza valorizava o vestido . até a viagem de núp­ cias . esperando arranjar maneira de estudar. peço­ -te . Lenu . que me olhava fixamente e dizia. a cauda mais comprida ou a mais curta. e da admissão de Ada (decerto Ada ficou convencida disso . o véu esvoaçante ou o véu preso . as alianças . Das quatro da tarde até às sete da noite vimos figurinos . estudava com demasiado afinco . a coroazinha de pedras artificiais. ou uma organza . aparentemente para dar uma opinião a Lila sobre isto ou aquilo . o menu. surgia a Lila de outros tempos . Fosse o que fosse que ela vestisse . amanhã vens dar-me um conselho?» Não sabia sequer do que ela falava. Quase sempre via. «Um conselho sobre o quê?» «Um conselho sobre o vestido de noiva. As duas mulheres complicaram-lhe a vida. que começou a falar da nossa amiga como se fosse uma fada boa) . fica­ vam-lhe bem. o grupo musical .

com um certo espanto . Lila limitou-se a olhar para mim com os olhos semicerrados . ou . com a voz segura de alguém que sabe perfeitamente onde quer chegar. e comecei a demonstrar que ele sintetizava as qualidades dos modelos que as duas mulheres apoiavam e as qualidades dos modelos que a minha amiga privilegiava. escolhi um dos figurinos ao acaso.em italiano . senti que tinha a admiração e a simpatia de mãe e filha. Cada vez que Lila se inclinava para um modelo . a Lenuccia disse justamente .)) . Lancei-me . ou um bonito tule preto . mas em argumentações que demonstravam como eles eram adequados às formas de Lila. para que recomeçasse a apreciar tecidos e modelos com uma seriedade rancorosa. ou para um tecido . tragam-me as fotografias do casamento . que eu quero expô-las na montra. Pus em acção uma técnica que aprendera na escola e que consistia no seguinte: sempre que não sabia responder a uma pergunta. Dirigiam-se a Lila quase com afecto e. um pouco entontecida por todas aquelas discussões e pelo cheiro dos tecidos novos . seja o que for que escolham. Pinuccia. ao fazerem comentários à com­ pra. Perguntou-me: «Aprendes isso na escola?)) «Ü quê?)) «A usar as palavras para levar as pessoas à certa. como na aula com os professores . era pródiga na apresentação de premissas . Em primeiro lugar disse . entusiasmada: «Por favor. A modista não fazia senão repetir. melhor ainda. À saída . tendo o cuidado de não pegar em nenhum dos favoritos de Lila. ou . Eu estive sempre calada. No momento em que .234 Elena Ferrante vermelha. não em elogios . para indicar que a noiva estava a brincar. para poder dizer: esta rapariga foi vestida por mim. irritada: «Ü que é que tu achas . Depois regressou ao olhar habitual e disse que também estava de acordo .» Mas o problema era escolher. Lenu?» Fez-se silêncio . que as duas mulheres aguardavam aquele momento e o temiam. Pinuccia e Maria alinhavam a favor de outro modelo . A modista. tanto Pinuccia como a mãe estavam de muito bom humor. Percebi de imediato . Lila arranjou manei­ ra de ficarmos um pouco para trás . com frases do tipo: como disse a Lenuccia.que gostava imenso dos modelos preferidos por Pinuccia e a mãe . concordaram imediatamente comigo . de outro tecido . chamavam-me à baila constantemente . realmente ao acaso . e a mãe . no movimento de final de dia do Rettifilo . amarelo?» Eu ti­ nha de dar uma risadinha. Depois Lila perguntou-me .

acrescentei imediatamente. e por vezes . disse-lhe . mas foi mesmo assim que aconteceu . nora e cunhada. para remediar: «Ü Antonio era capaz de morrer por ti . .» «Talvez porque tu és má» . e na sua casa. a partir do interior da gaiola em que se encerrara. fui eu que escolhi as lem­ branças de casamento . respondeu ela. arrependida.» 53 . Queria apenas dizer que sabes fazer com que te apreciem. Fui eu que escolhi o restaurante na Via Orazio . apertou-me a mão com força: «Não era minha intenção ser indelicada contigo . e percebi que a magoara. pelo modo como me usava. ainda obscura para ela. respondeu . Aquilo que real­ mente a motivava era estabelecer de uma vez por todas que . Disse para te agradecer por teres dado trabalho à irmã. desde sempre . murmurei: «Não gostas do modelo que escolhemos?�� «Gosto imenso . Dei-me conta. como s e cada uma daquelas questões fosse um treino para quando eu me casasse .vim a descobrir . convencendo-as a acrescentar ao serviço fotográfico um filme em super-8 . uma maneira de ser muito sua.» Fiquei chateada. A partir dali fui constantemente chamada para tomar parte nas deci­ sões mais disputadas . Então. em todas as situações . de que enquanto e u me apaixonava por todas a s coisas . é que de mim as pessoas têm medo e de ti não . A diferença entre mim e ti .não a pedido de Lila. perguntei-lhe: «Queres usar-me para levá-las à certa?» Percebeu que me tinha ofendido . Mas não se tratava do habitual conflito entre sogra.A Amiga Genial 235 Senti-me ferida. Com efeito . Tive a impressão . ainda mais chateada. Fui eu que escolhi o fotógrafo . mas de Pinuccia e da mãe . Lila dava muito pouca atenção às diversas fases do seu casamento . e como manipulava Stefano .» «E então?» «Então . faz-me o favor de vires connosco todas as vezes que eu te pedir. «Pode ser» . tal como ela me ma­ goara. na sua fu­ tura vida de esposa e de mãe .» «Foi o Stefano que deu trabalho à Ada» . «Eu sou má. a cunhada e a sogra não meteriam o nariz . Fiquei surpreendida. de que Lila se debatia para encontrar.

este . da sua influência? Chorei lágrimas silenciosas em frente da porta da sala de aula.236 Elena Ferrante Perdia.uma entidade . Lila já não abria um livro. Como o professor de Religião pronunciava cons­ tantemente diatribes contra os comunistas . primeiro senti-me desorientada - o que acontecera. senti­ -me impelida a reagir. uma manhã meti-me numa grande alhada. que sempre se dissera comunista. Mas as coisas alteraram-se inesperadamente .. Como resultado . em Química e em Ma­ temática. Quando me encontrei no corredor. só consegui ter suficiente . Ao fundo do corredor surgiu Nino Sarratore . pouco faltava para ser mulher de um charcuteiro e decerto iria parar à caixa registadora. andava comigo nas palmas das mãos . de onde me viera a convicção absoluta de que as coisas que estava a dizer estavam certas e deviam ser ditas? . até àquela comparação conclusiva. totalmente supérflua. e compreendi que me metera naquele sarilho apenas porque . para o lugar da mãe de Stefano . tardes inteiras a resolver as questões delas . em Jesus e no Espírito Santo . mas em Filosofia. mas eu não lhe dei ouvidos e prossegui até ao fim. Alfonso viu imediatamente que eu me estava a exceder e puxou­ -me timidamente pela bata. levantei a mão e disse que a condição humana estava de modo tão evidente exposta à fúria cega do acaso que confiar em Deus. evidentemente . a excelentíssima Galiani . estudava pouco e até faltei à escola duas ou três vezes . distante . Para mais . a professora Galiani . que apenas existia para compor uma trindade . O que é facto é que eu . a pauta do primeiro trimestre não foi particularmente brilhante . não sei se por causa do meu afecto por Pasquale . e eu? Eu fora buscar a ela a energia para inventar uma imagem que definia a religião como uma colecção de cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno? Quer dizer que não era verdade que a escola fosse a minha riqueza pessoal . que fizera com bom aproveitamento um curso de Teologia por correspondência. ou simplesmente porque senti que todo o mal que o padre dizia dos comunistas me dizia respeito directamente . por ser a queridinha da comunista por excelência. tinha .era a mesma coisa que coleccionar cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno . Pela primeira vez fui expulsa da sala e tive uma nota de censura no livro de ponto da aula. e depois lembrei-me de que tivera conver­ sas daquelas com Lila. continuava a atribuir-lhe autoridade sufi­ ciente para me dar força para desafiar o meu professor de Religião . já. no­ tavelmente mais nobre do que o simples binómio pai-filho . A minha nova professora de Latim e Grego . já não estudava. porque me comportara tão levianamente . contra o seu ateísmo . apesar de tudo . Depois do novo encontro com o pai dele .

«depois do ataque a fundo. expor com firmeza as minhas opiniões . oscilando entre a ansiedade por causa das prováveis represálias e o orgulho pelo apoio que recebera de Nino e da professora Galiani . mas . reanimei-me ao vê-lo . como se estivesse a dar uma aula a mim e a Nino . me tornei a heroína dos meus amigos de sempre. e quando ele pa­ rou na minha frente e me perguntou porque estava cá fora. Tornei-me muito respeitadora. o que se passara. e regressou minutos depois com a professora Galiani .» Desapa­ receu . Pedi descul­ pa. diligente e colaborante com todos os professores que se haviam mostrado hostis para mim. como verifiquei que o pedido de desculpa ao padre não bastara. Tive o cuidado de não revelar nada aos meus pais . Ela cobriu-me de elogios . esforcei­ -me para recuperar a credibilidade junto dele e dos outros professores que pensavam como ele . e ao mesmo tempo fazer a mediação . juntamente com Nino Sarratore. fechou-a atrás de si . Ele também se deve ter apercebido de que algo não estava bem e dirigiu­ -se para mim. chegou a hora da mediação . . Entretanto . prestável . transmitir a Pasquale o que acontece­ ra. ao topo da lista dos alunos mais promissores do nosso esfarrapado liceu . enxuguei as lágrimas à pressa. Estava mais alto . Franziu o sobrolho e disse: «Volto já. Era impossível evitá-lo. mas contei tudo a Antonio . «Mas agora» . o olhar mais firme . Não podia voltar para a aula nem podia afastar-me para as casas de banho. tinha a maçã-de-adão muito saliente . desde que pedisse desculpa ao professor pelo tom agressivo que usara. o qual por sua vez encontrou Lila uma manhã e. Deixei-me ficar. as feições escavadas pela barba azulada. Separei as minhas palavras da minha pessoa. pois ainda a amava. disse . sem esforço. isto é. num abrir e fechar de olhos. que andava no terceiro ano do liceu e naquele ano faria o exame de acesso à universidade . e também daquele grupo pequeno mas aguerrido de professores e alunos que contestavam os sermões do professor de religião . pois ambas as coisas complicariam mais a minha situação se o professor de religião viesse à porta. naquela situação . muito orgulhoso . E foi assim que . contei-lhe tudo. Numa questão de poucos dias pareceu-me ter re­ gressado . e depressa voltaram a considerar-me uma pessoa a quem se podiam perdoar certas afmnações extravagantes. se agarrou à mi­ nha história como a uma tábua de salvação e lha contou .A Amiga Genial 237 ainda mais razão para me comportar como se ele não existisse . e cinco minutos depois reapareceu com ar alegre . Descobri que podia fazer como a profes­ sora Galiani . conquistando a estima de todos com comporta­ mentos irrepreensíveis .» Bateu à porta da sala. Eu podia entrar de novo . e não sabendo o que dizer-lhe . que foi . dominado pela emo­ ção .

contando o duelo com o padre. Lembrei­ -me do pai dele . e puxa para o lado dele a de química e o de matemática. e pelo caminho falei disso com Alfonso . Tinha sido muito estimulante receber o aplauso de quem me parecia melhor (a professora Galiani e Nino) . com um artigo intitulado Os Números da Miséria . de cor cinzento-sujo. em por­ menor. «Para que fim?» Disse-me que colaborava com uma pequena revista que se chamava Nápoles. Escrevi: «Se Deus está em toda a parte . aconselhou-me a não escrever nada. com aquele seu ar sisudo . Mostrou-me a revista. que escrevesse à pressa meia página de caderno . Era um fascículo com cinquen­ ta páginas . Ele estava presente no índice . da vaidade com que me lera. o meu artigo . só com a premissa. Ele disse que não com uma energia tão desgostosa que prometi-lhe de imediato: «Está bem.» «Lenu . Passei a tarde a escrever e reescrever. vou tentar. que necessidade tem ele de se difundir através do Espírito Santo?» Mas a meia página num instante se gastava. Ficou ansioso por minha causa. Esforçar-me-ia para que isto se repetisse quando saísse o artigo . o meu nome impresso . aos meus pais . E o resto? . Sentia a cabeça a abarrotar com as frases que ia escrever. o artigo publicado no Roma . a Lila. perguntei-lhe . se fizesse um resumo disso a tempo . o professor de matemática) . o padre vai ficar zangado outra vez e chumba-te. nos Ma­ ronti . levou a melhor. Asilo dos Pobres . tentariam inseri-lo no próximo número .» Transmitiu-me a sua ansiedade e perdi confiança. mas comportando-me entretanto com os adversários de modo a não perder a sua simpatia e estima. Umas semanas depois Nino pediu-me sem preâm­ bulos . Contara o episódio na redacção e disseram­ -lhe que . nome e sobrenome . Mas assim que nos separámos . «Também escreves poesia?» . Depois . à professora Oliviero . alinhando contra quem me pare­ cia pior (o padre . e da satisfação . re­ correndo a palavras difíceis . Tentei dar à minha posição o máximo de dignidade teórica. logo remediava as coisas .» Voltei para casa muito agitada. Encontrei frases sintéticas e densas .238 Elena Ferrante Não ficou por ali . a professora de química. ao professor Ferrara . «Será assinado em teu nome?» «Sim. a ideia de poder mostrar em breve a revista.

» «Peço-te . como se lhe tivesse atirado um peso para cima.» . Como fora treinada. projectava. Pareceu-me que ela se encolhia toda. Contei-lhe da proposta de Nino e dei-lhe o caderno . quando na verdade agora era eu que sabia mais do que ela. «Elena Greco . aquela que lia. E tive a impressão de ela estar a fazer um esforço doloroso para libertar de qualquer recanto de si própria a velha Lila. não sou capaz . embora soubesse que não era verdade . a tentar e voltar a tentar com obstinação . Mas pedir-lhe isso significava continuar a reconhecer nela uma autoridade.» Estendeu-me o caderno: «Não sou capaz de te dizer se é bom ou não .» «Não . desenhava. que se ela não gostasse .» Tive de insistir. Por fim leu . A quem podia dar a ler o meu texto . a única era Lila. «Posso apagar?» «Podes. senti necessi­ dade de confirmações . esperando encontrá-la. Por isso . desde a primária. Disse-lhe . com a espontanei­ dade e a naturalidade de uma reacção instintiva. escrevia. que acabaria por transcrever para a minha meia página. como se a escrita lhe ferisse os olhos . exactamente como Alfonso: «Escreverão o teu nome?» Fiz sinal que sim. mesmo?» «Sim. para obter um parecer? À minha mãe? Aos meus irmãos? A Antonio? É evidente que não . a princípio resisti . por fim obtive um resultado satisfatório e come­ cei a estudar as lições para o dia seguinte . sus­ citando-me pensamentos excessivos . comprometendo-lhe o equilíbrio . Estava em casa dos pais . ou se se recusasse mesmo a lê-lo . Recea­ va ainda mais que esse comentário me ficasse a bailar na cabeça . Olhou para a página contra a vontade .A Amiga Genial 239 Recomeçava. Perguntou-me . Quando conseguiu . Receava que ela li­ quidasse a minha meia página com um comentário depreciativo . tudo pareceu agradavelmente leve . não o daria a Nino para imprimir. Mas por fim não resisti e fui procurá-la. «Posso deslocar uma coisa?» «Podes. Mas em menos de meia hora voltaram-me as dúvidas .» Apagou muitas palavras e uma frase inteira.

Mas primeiro li-o . Levantei-me às seis e meia para voltar a copiar o texto . disse: «És tão inteligente . os pequenos acrésci­ mos e.240 Elena Ferrante Fez um traço em volta de um período e deslocou-o . «Porque me faz doer» . Levei-o a Nino assim mesmo . a caligrafia dela.» «Porquê?» Pensou um pouco . repetiu aquela frase outra vez . e bateu no centro da cabeça com os dedos. para o cimo da folha. mas de modo mais límpi­ do . já muito diferente da minha. Decidi deixar o texto na letra de Lila. uma caligrafia que se mantinha inalterada desde a escola primária. o que deslocara. que se tomara mais pequena e mais simplificada. Nem sequer .» Sentou-se a transcrever. desatando a rir. envergonhada. para conservar um sinal visível da sua presença nas minhas palavras . Fechei-me na retrete para não incomodar o resto da família e estudei até quase às três da manhã. No fim disse . Quando me devolveu o caderno . quando finalmen­ te fui dormir. com uma energia e também uma harmonia que a pessoa que ficara para trás desconhecia que tinha. «Posso copiar tudo para outra folha?» «Eu faço isso . era de facto um elogio .» «Em quê?» «Escreves melhor do que eu . Voltei para casa feliz . fizeram-me sentir que eu fu­ gira de mim própria e agora ia a correr cem passos mais à frente . na bonita caligrafia redonda de Lila. A página dizia exactamente o mesmo que eu escrevera. de certa maneira. Depois acres- centou . com uma linha ondulada. 54 .» Percebi que não havia ironia. deixa-me fazer eu . batendo muitas vezes as longas pestanas . é claro que têm de te dar sempre dez . com uma dureza repentina: «Não quero voltar a ler nada do que tu escreves.» Embora eu protestasse .» «Não . Ele leu-o . mais directo . O que apagara. com uma tristeza repentina e inesperada: «A professora Galiani tem razão . depois virou-me as costas sem se despedir e foi-se embora.

Quando chegou a casa. Correu ao meu encontro . pois prontamente . O que mais o deve ter surpreendido foi eu ali em público . disse que tinha ficado aborrecida por eu não ter voltado para Ba­ rano naquele Verão . nem onde podia encontrá-la. Durante uns dias Nino continuou a comportar-se como se escrever melhor do que ele fosse uma culpa que devia ser expiada. apresentei-lho . Sabia que Nino estava a olhar para nós e queria que ele percebesse quem eu era. por breves se­ gundos . Escrevia melhor do que ele . deixou de se dirigir a mim e começou a falar com ele de forma cativante . mas essas dúvidas desfizeram-se quando um dia. Mas agora. fez-me uma grande festa. Depois . quando concluiu que eu e Alfonso não éramos namorados . Sempre me re­ cusara a passear daquela forma. Obedeceu-me logo . Terminou deste modo aquele nosso novo encontro . fi-lo . todos os desgostos de amor. uma vez que o irmão já se tinha ido embora. Eu irritei-me . o andar do pai . tanto no bairro como fora. porque me dava a impressão de ser ainda pequena e de andar a passear com o meu pai . Tanto mais que enquanto ele se afastava reconheci . de­ sorientado e ao mesmo tempo recompensado por aquele pedido . e também não tive coragem de lhe perguntar. Não nos víamos desde os tempos de Ischia. era tão boa aluna como ele e mais do que ele. Quando de repente voltou a ceder-me corpo . apareceu a sua irmã Marisa. vida. em andar parte do caminho connosco . Estragámos tudo uma vez mais. respondi­ -lhe com frieza que já tinha um compromisso . embora o detestasse? Pensava que as outras pessoas não podiam passar sem gostar dele . que o meu namorado me vinha buscar. lhe ter dado a mão . e me pediu que fizéssemos um bocado do caminho juntos.A Amiga Genial 24 1 me disse quando saía a revista. sem o amar? Era tão senhor de si que não tolerava outras virtudes senão as suas? Pedi a Antonio que me fosse buscar à escola. no dia seguinte . ter entrelaçado os meus dedos nos dele. Durante algum tempo deve ter pensado que o namorado era Alfonso . presen­ ça. e tinha um homem. ele voltou a andar de roda de mim. Por isso não andaria de novo atrás dele como um animal fiel . de certeza que contou ao irmão que entre mim e Alfonso nada havia . à saída. à sua maneira animada. Aquele comportamento aborreceu­ -me. Era frívolo como o pai . diante de todos . Ela insistiu . Daquela vez . . bastava vê-lo para me enervar. Primeiro contou-nos . que precisava de lhe dizer não sei o quê . ia publicar na revista em que ele publicava. Como Alfonso estava comigo . aqui está ele .

e endividou-se para mandar fazer um fato no alfaiate . Na verdade . Mas Antonio não levou as coisas dessa forma. roupas para Ada e para os outros irmãos. o meu vestido po­ bre feito pela minha mãe . que falasse e . mas desejava ter sob controlo a minha ansiedade de ser atraente . considera­ va-me a maior sorte que alguma vez tivera.242 Elena Ferrante 55 . Mas sobretudo porque um casamento era um acontecimen­ to em que ninguém podia fazer má figura . sentia-o como um rompimento de­ finitivo . sentir-me composta . a procurar chapéus e bolsas . não via a hora de se apre­ sentar em casa dos meus pais . Eu não dei por nada . Amava-me . Fiz a minha vida entre a escola. Perguntava-se muitas vezes em voz alta . Estava intimamente convencida de que só . principalmente as raparigas sem namorado .tínhamos o cuidado de manter a nossa relação em segredo absoluto . que era estúpido e não sabia juntar duas palavras . dançasse sempre comigo . as avós . a cunhada e a sogra .. Também pedi a Antonio que me acompanhasse ao casamento de Lila. e a agradável ansiedade pelo artigo que podia ver publ icado de u m momento para o outro . Não era tanto por Lila que faziam esse esforço. era por Stefano . e no entanto pensar: tenho tudo o que uma rapariga de dezasseis anos deve ter. sem contar com o que lhe custara a prenda de casamento . tranquila. Nas casas do bairro . de pratos . as mães. os sapatos velhos . Por isso . Lila enviara convites para toda a gente . Receava muito aquele dia . Por esta última razão é que quis que Antonio me acompanhasse . por que diabo é que eu o escolhera a ele . que não me deixasse sozinha. e queria ter ao lado alguém que me apoiasse . um serviço de copos . com uma sombra de angústia escondida sob uma aparência divertida . de talheres. sei lá. com os meus óculos . Esse pedido deve ter-lhe complicado a vida . deve ter pensado que finalmente me decidia a deixá-lo sair da clandestinidade . a fim de oficializar a nossa relação . permitia que pagassem no fim do mês . quiçá . uma presença apresentável para Melina. que naquela altura tinham a possibilidade de arranjar um e de se arrumarem. Não tinha qualquer intenção de oficializar a coisa . Queria. casando-se por sua vez dentro de alguns anos . naquela ocasião . não preciso de nada nem de ninguém . a dar voltas para comprar a prenda de casamento . que era muito boa pessoa. trabalhavam havia algum tempo a fazer as roupas . quando lhe fiz aquele pedido . os pareceres urgentes sempre que as coisas se ensari lhavam entre Lila.

Quis experimentar um modelo de que gostava e fez muitos elogios a Rino . Houve muitas altercações. que felicitava Rino . Lila disse-me que ao ver os sapatos que desenhara anos antes tomados realidade . de harmonia dissonante. Os sapatos eram tal e qual como ela os imaginara a seu tempo . sentira uma emoção fortíssima. Só se interrompeu quando Fernando .» Era verdade . E por mais que Fernando justificasse todas as alterações com questões de solidez . aborrecido . que pespontas são estes . Insistiu sobretudo na comparação entre o sapato de homem. arranja outro que os faça. modelo após modelo . Até Pinuccia ficou de boca aberta. de­ certo eram necessárias . Se os quiseres exactamente como a minha filha os desenhou . «0 que é esta franja. que metera na cabeça que havia de completar a sua toilette para o casamento com um par de sapatos Cerullo . que a Lina não sabe de nada. erguendo um tornozelo para lhe mostrar o pé calçado de forma extraordinária. De vez em quando perguntava-me: «Sabes em que ponto eles estão?» Eu res­ pondia: «Pergunta ao Rino . que os seus desenhos eram fantasias de criança e que as alterações . Interrompeu os parabéns que Lila dava ao irmão . pareciam os três saídos do écran da televisão . e ia vivendo na expectativa desse dia sem dar muita atenção a Antonio . Elena Greco . olhando para os quadros pendurados nas paredes: «Se queres os sapatos para o Natal . disse ao noivo que não se exaltasse . Os Cerullo em Novembro convocaram Stefano . ou com a finalidade de disfarçar qualquer defeito de ideação . sem se preocuparem minimamente em mostrar primeiro os sapatos a Lila. Disse que investira ali demasiado dinheiro para obter uns sapatos vulgares . e. se sentou num canto e disse . como se tivesse aparecido uma fada e realizado um nosso desejo. perguntou . Stefano foi inabalável.» . calou a voz melosa de Pinuccia. aceita-os assim. criticou as alterações feitas aos desenhos originais . O único que se mostrou descontente foi Stefano .A Amiga Genial 243 existiria realmente a partir do momento em que o meu nome aparecesse impresso . Lila interveio discretamente em defesa do pai . em vez de outros precisamente idênticos aos sapatos de Lila. aliás de pouca relevância. que no entanto ainda vivia em casa deles . comple­ tamente esgotado . ao pai e aos empregados . dando a entender que o considerava o verdadeiro artífice daquelas obras-primas de leveza robusta. pelo contrário . para que é esta fivela doura­ da?» . e a discussão prolon­ gou-se por muito tempo . e o mesmo sapato com os acabamentos introduzidos por pai e filho. apresentou-se propositadamente com a noiva e com Pinuccia. tal como fora feito por Rino e Lila às escondidas de Fernando . Mas Rino apoiou Stefano . Stefano .

e caixas de sapatos empilhadas até ao tecto . Só Antonio lá apareceu . até ali alegre e brincalhão . à espera de clientes .» Ela. Depois do Natal . na Primavera ou no Outono . «É como uma criança» . Eram objectos elegan­ tes . não sabe esperar. ficou de boca aberta: «Estás doido?» . E isso era uma vantagem . Quando perguntou o preço e Rino lho disse . com um acabamento refinado. a irritar-se por uma ninharia. tal como Fernando . E quando Rino lhe dis­ se: «Vendo-tos em prestações mensais» . Fui até lá vê-los . não pensados para a realidade do bairro . Era uma questão de esperar. cobriam quase todas as estações do ano . havia uns mais pesados e outros mais leves .» 56. bancos e sovelas e formas de madeira. uma montra com a es­ trela de Belém feita de algodão . andava novamen­ te melancólico . com o fato novo vestido e aqueles sapatos nos pés . e no Inverno . respondeu-lhe a rir: «Assim compro uma Lambretta . imaginando-se comigo no casamento . sem compro- . a sua execução não seguira plano nenhum. Depois contou­ -me o prazer que sentira ao sentir-se tão bem calçado . não sentiu a falta de vendas dos sapatos pelo Natal como um fiasco . ocupada com o casamento . Pelo Natal os sapatos apareceram na montra. os sapatos seriam vendidos . que destoava da montra pobre . Ao fim e ao cabo . disse ela a Pinuccia. Mesmo com as alterações introduzidas por Fernando . experimentou-o . Mas Rino ficou cada vez mais agitado . da paisagem desolada no exterior. do interior da sapataria. e Rino também se deu por vencido . bastava olhar para eles para se ter uma impressão de riqueza. como que a justificá-lo por certos impulsos . propôs-lhe que expusesse alguns sapatos Cerullo . pediu a Rino o número 44. Nascidos do desejo de Stefano de ver concretizada a pura veia artística de Lila. As caixas brancas empilhadas no interior da sapataria Cerullo continham um sortido razoável . embora exausto pelo trabalho . «muda de humor se não lhe satisfizerem os caprichos imedia­ tamente . a dormir mal . Mas não concretizou a compra. não notou que o irmão . embora soubesse que ele era unha com carne com os Solara. por sua ini­ ciativa própria foi falar com o dono da empoeirada sapataria ao fundo da rua larga e . O facto é que pelo N atai não se vendeu um único par. N a altura Lila. eram os sapatos dos nossos so­ nhos infantis .244 Elena Ferrante Stefano deu-se por vencido . uma amálgama de peda­ ços de pele e de couro .

As tensões cresceram ainda mais nas proximidades do dia 1 2 de Março . nenhum afecto . entre tantas coisas . que aquele produto não era adequado para a sua clientela. Uma única vez Lila o ouviu dizer: «Desculpa. Quando saíam os quatro . a conversar com Stefano . Mas agora sentia a necessidade de lhe levar o convite pessoal­ mente . Fernando enfureceu-se com o filho . na tua opinião eu investi tanto dinheiro na sapataria assim . Uma tarde gelada de Fevereiro perguntou-me sem mais nem menos se podia acompanhá-la a casa da professora Oliviero . O homem disse-lhe educadamen­ te que não . dava os últimos retoques à sua futura casa. mais tendente para a melancolia. em breve sairiam do mercado do bairro e se afirmariam em zonas mais ricas . pelo contrário . Geralmente . temos de os vender. Lila ia a correr provar o vestido de noiva. que magoaram Lila profundamente . Porque é que tantas boas iniciativas tinham falhado? Porque é que a oficina Gorresio tivera de desistir dos motociclos? Porque é que a boutique da retroseira durara só seis meses? Porque eram empreendi­ mentos de pouco fôlego . Foram dois acontecimentos em particular. so­ bretudo com Pinuccia. Rino censurou-o . não toleravam as intru­ sões de Nunzia. só por amor à tua irmã? Estão feitos . Nunca mais manifestara qualquer interesse por ela. Ele levou a mal . Entretanto a data do casamento aproximava-se . Como nunca antes lhe contara os tons hostis que a professora usara tantas vezes a respeito dela. o charcuteiro ouvia-o sem dar si­ nais de irritação . Rino . que sossegou e começou a armar-se em estratega de vendas . e talvez a acolhes­ se bem . uma manifestação das forças destrutivas que a haviam atemorizado .» Aquele «SÓ por amor à tua irmã» não lhe caiu bem. Os sapatos Cerullo . O problema é que é preciso encontrar o merca­ do adequado . nenhuma gra­ tidão . . só para ver a saída que tinham. Mas deixou pas­ sar. um atrás do outro . lutava com Pinuccia e Maria que . Mas não foi daí que vieram os choques capazes de abrir brechas . e dali resultou uma troca de palavrões de que se soube em todo o bairro . não achei oportuno falar-lhe nisso naquela ocasião . tanto mais que em tempos recentes ela me parecera menos agressiva. porque aquelas palavras acabaram por ter um efeito positivo em Rino . são boni­ tos . Dizia que era preciso fazer uma análise abran­ gente .A Amiga Genial 245 misso . e Lila voltou a sentir que o irmão era um elemento de desordem. a fundo perdido . Lila notava com apreensão que o irmão maquinava para ela e Pinuccia irem à frente e ele ficar cinco passos para trás .

enfiou o convite por baixo da porta e desceu as escadas . Depois . motivo pelo qual já fora padrinho do crisma de Stefano .» Lila ficou confusa e disse muito depressa. de um momento para o outro . Enquanto subimos a escada. que o padrinho fosse este ou aquele era-lhe completamente indiferente .» A professora disse . falando com dificuldade .246 Elena Ferrante Lila vestiu-se com um cuidado extremo. não disse uma palavra. Lila a princípio falou-me nisso como se fosse um sinal de nervosismo de última hora. sobretudo objectos de metal . que emigrara para Florença depois da guerra e montara um pequeno negócio de velharias de proveniência vária. não se conseguia compreender quem ia substituir o casal florentino . a verdade veio à luz . Rodei o botão da campainha. o essencial era decidir-se . E ficaria muito feliz se viesse ao meu casamento . notei que ela estava muito ansiosa. Porém . O outro desgosto . gozava de um certo prestígio na família. em italiano: «Sou a Cerullo . Na rua falou sem parar de todas as maçadas burocrá­ ticas na câmara e na igreja. mas ela não . Esse familiar casara com uma florentina e adquirira o sotaque local . talvez mais profundo . veio surpreendentemente de Stefano e da história dos sapatos . àquelas escadas . Vim trazer-lhe o convite . ouvi os passos arrastados da professora. vou casar. Stefano comunicou- . Eu estava habituada àquele percurso . mas esta não sei quem é .» Fechou-nos a porta na cara. e metade do rosto coberto por uma écharpe . o noivo mudou de ideias . Mas durante uns dias Stefano só lhe deu respostas vagas e confusas . lembra-se de mim?» A professora Oliviero olhou para ela como fazia na escola quando Lila se portava mal . depois toquei-lhe na mão .» Abriu a porta. Havia algum tempo que decidira que o padrinho de casamento seria um familiar de Maria. Lila sorriu e disse-lhe: «Professora. dirigindo-se a mim: «A Cerullo conheço . Por causa da sua pro­ núncia. para a confortar. a dois passos da igreja paroquial . e de como o meu pai fora prestável . a menos de uma semana do casamento . como se tivesse comida na boca: «Quem é? Não a conheço . Tinha sobre os ombros uma romeira roxa. «Quem é?» «Greco. Fomos a pé até ao prédio onde morava a professora. Ela retraiu-se . Ficámos uns instantes paradas no patamar. Para ela. e depois dirigiu-se a mim .

apesar de se estar a um passo da celebração . complexa. que em tom agressivo e com o ar do homem de negócios que só pensa no lucro . Nunzia permaneceu muda a um canto sem se mexer. Estava em causa um casamento . e que me daria muito prazer fazê-lo . que o padrinho seria Silvio Solara. não mexeu uma palha que tivesse a ver com o casamento iminente . que lhe falou do bem da fanu1ia com consternação . e disse-lhe . e. ela seria capaz disso .A Amiga Genial 247 -lhe . Por fim foi Rino . de rabo-de-cavalo . e todo o trabalho que fi­ zemos até agora?» Até Pinuccia apareceu . Deixar de ter aqueles ares . sem dormir. como coisa firme . estar presen­ te no seu casamento . durante alguns dias . desafiando a auto­ ridade do professor de religião . Senti-me lisonjeada. sem justificação nenhuma. Depois veio cha­ mar-me às escondidas da filha. Fechou-se na casa dos pais . voltou a ser. . «0 que queres tu fazer?» . Eu . não se podia cancelar um casamento e extinguir um amor por uma questão de tão pouca importância. «queres arruinar-me a mim e a toda a família. a miúda que eu conhecia bem. Mas ela sim. palco de muitos afectos e interesses . Lila. de se comportar como uma Jacqueline Kennedy dos subúrbios . olhos semicerrados de rapace . era isso que eu real­ mente queria: trazer de volta a Lila pálida. pensei muito qual seria a minha posição . mas era preciso raciocinar. com os olhos esbugalhados e raiados de sangue . Lá no fundo . disse que não o queria ver mais . Nunzia. sem fazer nada em casa. austero . para eu ir falar com ela e chamá-la à razão . que agora era capaz de entrar em conflito com o Espírito Santo em público . uma coisa prática. Depois foi Fernando . lhe explicou como as coisas eram: O Solara pai era como um banco . ainda que muito distante . era o canal para colocar nas sapatarias os modelos Cerullo . O que fazer? Sentia que não seria preciso muito para reencaminhá-la naquela direcção . Começou a procissão dos familiares . pois para qualquer pessoa que quisesse ter um futuro no bairro era obrigatório ter como padrinho Silvio Solara. que lhe disse que se deixasse de criancices . deixou de tratar fos­ se do que fosse. Assustei-me . gritou-lhe . sobretudo . o pai de Marcello e Stefano . não foi à última prova do vestido de noiva. Cobriu Stefano dos mais grosseiros insultos . num tom um tanto fingido . se estivesse no lugar de Lila nunca teria coragem de mandar o casamento às urtigas . Passou-se um dia e uma noite . roupas coçadas . que também lhe daria muito prazer que o padrinho fosse o comerciante de metais de Florença. que até àquele momento não admitira sequer a hipótese de al­ gum parente de Marcello Solara. Primeiro foi a mãe .

seduziu-a. Disse-me: «Se calhar não é verdade que gosta de mim . não fez nada para tentar reconciliar-se .» . Esperou que fosse Stefano a dizer-lhe: «Obrigado . Mas depois virou-se de chofre e disse-lhe . e mais não fiz do que dizer-lha e voltar a dizer-lha com uma deli­ cadeza persuasora: o Silvio Solara. tu própria mo disseste noutras ocasiões . e é tudo.» Ele soprou e disse a rir: «Está bem . Mas li-lhe nos olhos que aquela atitude de Stefano lhe mostrara uma faceta dele que não conse­ guia ainda ver com clareza. de modo que se me meteu na cabeça uma só ideia. Falei do antes e do depois . voltei a ele com muita paixão . olhando-o nos olhos : «No meu casamento o Marcello Solara não pode . não foi ele que disse aquelas coisas horríveis a teu respeito. Não foi ele que puxou a Ada para dentro do carro . sabe-lo melhor do que eu . disse . pôr os pés . Voltei a embaralhar as cartas que já conhecíamos bem. num tom de desprezo que nunca usara com Stefano Carracci . Lila. e pouco a pouco serenou . não foi ele que se plantou à força em tua casa. mas tens de me jurar.» «Como é que eu faço isso?» «Não sei . queria. é errado confundir as coisas . da velha geração e da nossa. evidentemente .248 Elena Ferrante Mas . pareceu-me uma acção mesqui­ nha. para desgraça dela e de mim.» «Como é que não gosta de ti? Faz tudo aquilo que tu dizes. Julgando contribuir para o seu bem.» Só então deixou que ele se aproximasse pelas costas e lhe beijasse o pescoço .» «Só quando não lhe ponho em risco o dinheiro verdadeiro» . eu juro . o Silvio será o padrinho e dará uma ajuda ao Rino e ao Stefano para venderem os sapatos. não quis devolvê-la ao cinzen­ tismo da casa dos Cerullo . voltou à circulação . Ouviu-me em silêncio . De qualquer maneira. não foi à casa nova. Este último argumento fez mossa. de como nós éramos diferentes . não terá qualquer peso na tua vida futura. que a aju­ dassem a serenar. não é o Marcello e também não é o Michele. Não se deixou ver na char­ cutaria. e que por isso mesmo a assustava ainda mais do que as fúrias de Rino . de como ela e Stefano eram diferentes . Lila. de maneira nenhu- ma. não foi ele que disparou sobre nós na noite da passagem do ano . sabes que há coisas que somos forçados a fazer. gosto muito de ti .

tu . não se pode desviar a mão sem reconhecer a nos­ sa perturbação . tens de continuar sempre a estudar. poucas horas antes que Stefano lhe tocasse .» «Não . ajuda-me . engravidando-a. que parecia o corpo de uma morta. um dia ameno . Eu dou-te o dinheiro .A Amiga Genial 249 57 .» Fiz um risinho nervoso . não pares . uma situação em que não se pode voltar os olhos para outro lado . já primaveril . a pentear-se . a pousar o olhar nas costas de ra- . Perguntou-me à queima-roupa: «Achas que estou a cometer um erro?» «Em quê?» «Em casar-me . tens de ser a melhor de todos. Sentou-se à beira da cama em cuecas e soutien . Porque é que ela não quis que eu entrasse?» «Porque ela é uma velha rabugenta.» «Ainda estás a pensar na história do padrinho?» «Não . depois disse: «Obrigada. mas a certa altura acabou-se o estudo . Mandou a mãe embora. estou a pensar na professora.» «Mais dois anos. envergonhei-me . pego no diploma e acabou-se . que a ajudasse a lavar-se .» Ficou calada um instante . não .» Pôs-se em pé . a violenta emoção que te domina. talvez. e disse: «Vá lá. Depois . Lila quis que eu fosse cedo para a sua velha casa. sem exprimir. em frente . a penetrasse . no chão de ladrilhos he­ xagonais. a deformasse . sem entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem te está per­ turbando . e por isso te obrigas a ficar. a vestir-se. rapazes e raparigas . Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária. com essa rejeição . tirou as cuecas e o soutien . O dia 1 2 de Março chegou . Hoje posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar no seu corpo . a olhar para a água que brilhava na tina. e depois disse: «Aconteça o que acontecer. ficámos sós . sem a declarar precisamente com esse retraimento . estava a tina de cobre cheia de água fumegante .» «Para ti . A seu lado tinha o vestido de noiva. Tu és a minha amiga genial . de ser a testemu­ nha participante da sua beleza de rapariga de dezasseis anos .» Nunca a tinha visto nua. senão atraso-me . continua a estudar.

exactamente a mesma coisa. inflamam-se-te as veias . que era lisa. escolhera um par com o salto baixo . rir. os olhos escuros e duros . a enfiar o vestido de noiva que eu . e ainda tenho nos ouvidos o ruído da água a gotejar. Ajudei-a a enxugar-se . Por último calçou os sapa­ tos que ela própria desenhara. em redor a mobília miserável . sobre um pavimento irregular manchado de água. primeiro com ela acocorada no recipiente . e a carne violenta dele entrava nela com um golpe seco . calma. cingida ao marido . nua como estava naquele momento . só para que Stefano a sujasse durante a noite . ali . justamente no momento de maior proximidade . no quarto pobre e escuro . quando afinal tudo está a acontecer. beijá-la. Mas por fim ficou-me apenas o pensamento hostil de que a estava a lavar da cabeça às solas dos pés . nos pés elegantes. no sexo negro . nos seios com os mamilos inteiriçados . às mesmas horas . o vermelho da boca. O tecido ganhou vida. puxar-lhe os cabelos . Imaginei-a. «Não é verdade .» Voltou-se com uma expressão repentina de pavor: «0 que é que me está para acontecer.eu . «São feios» .» Riu-se com nervosismo . Lavei-a com gestos lentos e cuidadosos . rija. disse . nos joelhos macios . E de repente pareceu-me que o único remédio para a dor que estava sentindo . e agita-se-te o coração . era encontrar um recanto bastante retirado para que Antonio me fizesse a mim. enquanto o comboio estrepitava por baixo das jane­ las . que sentiria. e depois pedindo-lhe que se pusesse em pé . fingir competên­ cias sexuais e instruí-la com voz douta. e ficou-me a impressão de que o cobre da tina era de uma consistência não diferente da carne de Lila. que se ela os não calçasse sentiria uma espécie de traição . chorar com ela. como a rolha de cortiça empurrada pela palma da mão para dentro do gargalo de uma garrafa de vinho . e fazes de conta que nada se passa.250 Elena Ferrante paz .escolhera para ela. distanciá-la com as palavras . a vestir-se . nas ancas estreitas e nas nádegas rijas . pensei com um misto de orgulho e sofrimento . sobre a sua candura correu o calor de Lila. para evitar parecer muito mais alta do que Stefano . olha: os sonhos da mente acabaram debaixo dos pés . Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraçá­ -la. no leito da casa nova. levantando um pouco o vestido . nas longas pernas . Lenu?» . nos tornozelos sinuosos . Pressionada por Rino . Olhou-se ao espelho . presente . de manhã cedo . «Mas sim.

e foi juntar-se a Stefano . é que me apercebo pela primeira vez de que Fernando naquela época não devia ter mais do que quarenta e cinco anos . uma existên­ cia sem nada em comum com a minha. A cerimónia foi longa. a tarefa de se instalar ao fundo da igreja. Nunca os vira tão bem arranjados . aspirava a um lugar melhor. Antonio sentou-se devotadamente a meu lado durante o tempo todo . todas . ele de camisa branca e fato escuro . en­ quanto escrevo . que não passavam de uma inútil perda de tempo .A Amiga Genial 25 1 58 . já prontos havia um bocado . O mesmo se aplica aos meus pais. pelo ímpeto dos pensamentos . e até provavam.bendito florista. os familiares e amigos do noivo encontravam-se todos de um lado . no altar coberto de flores . com banhei­ ra. Só agora. Na cozinha esperavam-nos impacientes . Não fazia grande distinção entre eles e os avós matemos e paternos . frigorífico . e ela toda de azul. ao passo que a minha amiga má conquistara um marido abastado . de certeza. ao lado de Me- . Nunzia era uns anos mais nova.. televisão e telefone . O fotógrafo tirou fotografias durante o tempo todo . do outro . a minha mãe . embora o seu olho dançarino parecesse voltado para outro lado . Fernando e Nunzia. Senti com enfado que naquele dia os meus êxitos escolares não os consolavam nada. esplendorosa na nuvem de ofuscante alvura do vestido e do véu vaporoso . de Stefano . olhou para mim . a caixa-de-óculos . que estava muito bonito . de Pasquale . As pessoas realmente consumidas pelo calor dos sentimentos . os meus . e os dois. que as fornecera com abundância . éramos nós . sobre cujas idades posso ser mais pre­ cisa: o meu pai tinha trinta e nove anos e a minha mãe trinta e cinco . avançou pela igreja do Sagrado Coração pelo braço do sapateiro . o pároco fê-la durar uma eternidade . aborrecida por­ que . criaturas que aos meus olhos levavam . todos os pais me pareciam velhos . na igreja. com flash e reflectores . sobre­ tudo à minha mãe . uma espécie de vida fria. com a de Lila. uma actividade económica para a fatn1lia. com um chapeuzinho azul e véu azul. de Antonio . Naquele tempo os pais dela. com o fato novo feito pelo alfaiate . longe do centro das atenções . delegando em Ada. naquela manhã . e os familiares e amigos da noiva. com o rosto de Randolph Scott. Quando Lila. na qualidade de caixeira da charcutaria do noivo . faziam um bonito par. para fazer-me sentir que ali estava eu . enquanto o jovem ajudante filmava as fases mais importantes da cerimónia. À entra­ da da igreja. uma casa que ainda por cima lhe pertencia. Olhei muito para eles .

Que pompa ! Era evidente que todos os que receberam convite não quiseram faltar. Morto dom Achille .a começar talvez por Antonio . Famoso e temido era o livro de registo de capa vermelha. não só para o florista. fora instalar-se ao pé de Pinuccia. Gigliola estava bonita. Olhei para a mulher. Com efeito . e aquela mulher magra. e Carmela Peluso também. Lila espalhava em redor uma energia que ninguém podia ignorar. olhavam em volta. pelo contrário . Lila era mais alta. na zona dos familiares do noivo . as pessoas estavam aborrecidas e. Achei que vistos as­ sim. ele . aliás . para evitar os mexericos . assim como os outros irmãos . E os rapazes não lhes ficavam atrás . estacionada ao lado da noiva. tal como eu . Era dali que vinha o dinhei­ ro para aquela pompa. ao lado de Lila. em que ela anotava quantias e prazos) . entre outras coisas . co­ berta de jóias . ele parecia um homenzinho apagado . Manuela. Devia limitar-se a estar ao meu lado . o seu olhar esteve sempre fixo no padre . ele mais baixo . quebrando a ordem dos alinhamentos familiares . também ele impecável com o seu fato novo . Reparei que Lila nunca olhou para eles . grandes entradas . corpu­ lento . que luziam tanto como o cabelo cheio de brilhantina. é que emprestavam dinheiro a todo o bairro (ou . Lila mostrava-se extremamente concentrada. o irmão da noiva. melhor dizendo . vestida de cor-de-rosa. enquanto o pedreiro e o vendedor de fruta e hortaliça se encontravam ao fundo da igreja. teriam feito melhor figura do que Stefano . como se fizesse questão de compreender perfeitamente o que significava aquele ritual . Nessa altura olhei para Silvio Solara. Sentia­ -se um perfume intenso de flores . e de a vigiar. não só para o fotógrafo . sentado a meu lado . por aquilo que todos sabiam. significava que não poucos . por aquilo que eu sabia. Uma vez ou duas sussurrou-me qualquer coisa ao ouvido . de vez em quando vira- . e sobretudo Pasquale . era Manuela que geria os lados práticos dessa ac­ tividade . Nem se virou sequer para Stefano . como sentinelas do bom êxito da ce­ rimónia. de fato escuro . que . olhos azuis . não eram um casal bonito . ele . aquele homem de tez arro­ xeada.tiveram de pedir dinheiro emprestado . Enzo . sapatos Cerullo nos pés . em pé ao lado do noivo .252 Elena Ferrante lina. com muito oiro a cintilar nos pulsos . no altar. facto que . comparecendo . Quanto a Rino . o casamento de Lila era um negócio . de costas . Corri os olhos pela igreja apinhada. fornecera também o bolo e as lembranças do casamento . mas sobre­ tudo para aquele casal . vestidos com todo o luxo . sem mostrar nenhuma intimidade espe­ cial . pareciam querer demonstrar que ali . mas não lhe respondi . de nariz comprido e lábios finos . um odor a roupas novas .

ele respondeu . atrelara-se a ele . a ele que era tão tímido . ambos os noivos disseram o sim de modo límpido e claro . mais amados . magro . E ela.mas mais importantes . a relação crescera. achei-o parecido com um bailarino es­ panhol que vira na televisão . deviam andar a encontrar-se sem eu ter dado por nada. Mas as coisas estavam clara­ mente a correr bem. ao restaurante . Alfon­ so . de repente . Pensei: e se Stefano realmente não fosse aquilo que parece? Mas abandonei esse pensamen­ to por dois motivos . Lem­ brei-me de ter visto toda a gente . o caos dos automóveis e os nervosismo dos familiares que tinham de ficar à espera. quase escondido por uma coluna. entre a comoção geral . Nino . mais esguio e bonito . despenteado . procurei-o com os olhos entre os parentes do noivo e da noiva. . sem a bata da charcutaria. também fisicamente diferente do irmão Stefano . ou trocava risinhos com Silvio Solara. mais ricamente vestidos . sem sinal de barba por enquanto . enquanto outros . deixara-se levar pela cabeleira enca­ racolada de Marisa e pela sua tagarelice incessante . A certa altura senti-me ansiosa. e trocaram alianças . Em primeiro lugar. esplendorosa. para obter a autorização dos pais . Nunca o vira de fato escuro .. olhos grandes . Alfonso estava muito bem vestido . Lila e Stefano pararam no adro . Marisa Sar­ ratore . com o casaco e as calças coçados que levava para a escola. Localizei-o ao fundo da igreja. não só me pareceu alto para os seus dezasseis anos. Sem as modestas roupas da escola. excepto Alfonso . apesar de me ser tão dedicado . de preencher os vazios das conversas? Eram namorados? Duvidava. Seguiu-se um confuso aglomerado em tomo dos noivos. arrastara Nino consigo . Mas atrás dele apareceu . desviei a atenção dos noivos . ca­ misa branca. entravam de imediato nos carros e eram levados à Via Orazio . pois até a convidara para o casamento do irmão . nem sequer do mesmo sangue . ele ter-me-ia dito . 59 . gravata. que saíram da igreja acompanhados pelos sons vibrantes do órgão e pelo flash do fotógrafo . como . lábios carnudos .A Amiga Genial 253 va-se para a mãe . de repente . ou coçava le­ vemente a cabeça. Acenei-lhe . e eu tive de me convencer de que Lila já estava casada. que o dispensava. de mãos nos bolsos . entre beijos e abraços . E logo a seguir. Estava mais alto . Marisa. beijaram-se . veio na minha direcção . E depois aconteceu que . pelos vistos . as senhoras com chapéus extravagantes? .

no meio do burburinho . perguntou Enzo . enquanto os noivos se metiam num grande au­ tomóvel branco juntamente com o fotógrafo e o ajudante. Nino depois foi atrás da irmã e de Alfonso . e juntaram-se-nos Carmela e Enzo . para irem tirar fotografias ao Parco della Rimembranza. juntamente com Ada e os filhos mais pequenos. de olhos nos noivos como toda a gente . Agora. junto de Alfonso e Marisa que falavam um com o outro . Cumprimentámo­ -nos na igreja. sensível às minhas mudanças de humor. embora me libertasse imediatamente . Antonio. ainda parado no adro com uma expressão desorientada.» Carmela riu-se: «Aborreceu-a a Lina ter-se casado . nem repararam em Marisa.» Enzo respondeu que os vira num carro qualquer. Mas foi uma preocupação infundada. e mal tive tempo de lançar um olhar a Nino .254 Elena Ferrante Portanto ali estava ele . Nunzia. e perdi-o de vista. E entretanto Antonio empurrava-me na direcção do automóvel velho de Pasquale . De momento . a mãe de Lila. os dois Sarratore passaram completamente despercebidos. com o ar de quem não sabe onde se há-de meter. o jovem Sarratore . e já nos íamos embora e eu não sabia dizer senão: «Onde estão os meus pais? Esperemos que alguém lhes dê atenção . levou-a consigo . muito esmorecida.» «Então e tu . receando que a mãe de Antonio reconhecesse Nino . fiquei ansiosa.» «Alguma coisa te aborreceu?» «Não . Enzo . arrancámos . comple­ tamente deslocado .» . e ela queria casar-se também. Carmela. Melina. com as suas roupas coçadas . olá. portanto não havia mais nada a fazer. só para pousá-los em qualquer coisa. se dependesse de mim. Essa presença inesperada contribuiu muito para a desordem emotiva daquele dia. que lhe lesse no rosto algum traço de Donato . nem sequer Gigliola. para um automóvel que logo se afastou . não querias casar também?» . alto de mais . no adro da igreja. Fiquei nervosa. Na verdade ninguém reconheceu Nino . mas sem interesse nenhum. as mãos demasiado mer­ gulhadas nos bolsos das calças . pela mão de Antonio . embora ela conservasse traços da menina que fora. Pasquale . «Eu . casava-me já amanhã. magro de mais . acabei por me en­ contrar na companhia de Ada. olá. cabelo comprido de mais e despenteado . eu fui agarrada firmemente por um braço . e . sus- surrou-me ao ouvido: «Ü que foi?» «Nada. nem Carmela. nem Enzo . um sussurro apenas .

Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente . vamos falar os dois . ou fazíamos re­ comendações indignadas . achava os seus comportamentos nor­ mais .» «Caluda>> . dos tons de voz violentos de Carrne la e de Enzo . diz-me quando sai a revista com o meu artigo . soltávamos gritos de terror. íamos para a festa do casamento de Lila. Então porque não estava na companhia de Alfonso . para os intimidar. que o faziam rir e o estimulavam a fazer ainda pior. confirmava que Lila. Aproximava-se a grande velocidade dos carros dianteiros . «que a ti ninguém te quer. como se quisesse abalroá-los . Crescera com aqueles rapazes . no máximo faziam co­ mentários pesados acerca dos automobilistas vagarosos . An­ tonio afinara-lhe o carro tão bem. vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale . qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se .sim. enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente . já não pertencia àquele mundo . vem ao copo-d' água. Pasquale conduzia com garra. que a minha própria estranheza tomava infe­ liz . porque não me detivera para dizer a Nino: fica. é certo . precisamen­ te . Mas essa festa. travava poucos centímetros antes de lhes bater. de certo modo autodegradar-me .» Descemos em direcção à Marina. sobretudo . ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis . Estavam ali os meus amigos . e que eu . e .de Antonio? . guinava bruscamente e ultrapas­ sava-os . e também . tinha de conter-me . disse Pasquale . Lançava-se . Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha. estava o meu namora­ do . ou a usá-lo à traição . enquanto Pasquale os ultrapassava. Nós . da sua vulgaridade . pelo contrário . faltando ela. também . fazendo um grande estrépito e ignorando os sola­ vancos devidos às estradas em mau estado . a sua linguagem violenta era a minha. a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes . Antonio e Enzo nem pestanejavam. gritavam insultos . que ele tratava-o como um carro de corrida. as raparigas . Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias . baixavam o vidro e . Aqui­ lo que eu era na escola. com quem partilha­ va a origem e a fuga? E. Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel .A Amiga Genial 255 «E com quem?» «Eu bem sei com quem.

nada. evidentemente . a sua con­ sorte florentina e a mãe de Stefano . que estava impaciente e acolheu Antonio com ges­ tos de raiva. que de vez em quando olhava para mim. os meus pais. já te disse . Ada. Queria que me fosse sentar ao lado dela. a sala encheu-se . Silvio e Manuela Solara estavam já instala­ dos a uma mesa.» Tentei levantar-me . era preciso esperar pelos noivos . Voltou a chamar­ -me . Ada fez uma cara de contrariada e foi sentar-se ao lado do irmão . Carmela.» Obedeci-lhe . Enzo e Anto­ nio finalmente sentaram-se com o grupo de Gigliola. que me chamou para junto dela.» . Andámos às voltas . Chegaram mais convidados . Tentei de novo levantar-me e a minha mãe sibilou: «Tens de estar ao pé de mim.» «Vem sentar-te ao pé de mim. A minha mãe impediu-me . de que estava prisioneira. levantando os olhos para o tecto . O meu mau humor cresceu .» «Vem. confiando-a a Nunzia. embaraçados . Começaram a chegar outros jovens . A banda ocupava o seu lugar. fiz de conta que não ouvi . de feições delicadas . esforçan­ do-se para me distrair. O vocalista. Com eles vi Gigliola. veio dizer-me ao ouvido: «Vem. nenhum de nós se atrevia a perguntar aos criados de mesa.» «Não . mas a minha mãe agarrou-me um braço com raiva. Não sabíamos onde sentar-nos. ela estava furiosa. Fomos os primeiros jovens a entrar na sala da festa de casamento . quase calvo . todos amigos de Stefano . e eu .» «Julgas que eu sou estúpida?» «Não . Então levantou-se e veio ter comigo com o seu passo claudicante . A banda começou a tocar. e eu fazia-lhe sinal . os músicos iam experimen­ tando os instrumentos e o vocalista o microfone . Os pais de Lila encontravam-se também sentados a uma mesa comprida com outros familiares . juntamente com o comerciante de metais . Ninguém escondia a fome . Recusei-me . Ela sibilou: «Porque é que o filho da Melina anda sempre de roda de ti?» «Ninguém anda de roda de mim. na casa dos quarenta. cantarolou qualquer coisa para experimen­ tar.256 Elena Ferrante 60 . mã' . A minha mãe chamou-me . que conse­ guira livrar-se da mãe . Melina. mas . Antonio estava colado a mim. Não te mandamos estudar para tu te deixares estra­ gar por um operário que é filho de uma maluca. e Ada. Pasquale .

com aqueles gestos autoritários . claramente vincu­ lada àquele mundo . de mãos dadas com o marido . Tenho de apagá-la. felicitada por todo o bairro . ao seu corpo . não posso continuar a ser condescendente . num movimento contrário ao de Lila e Stefano . Nada que tivesse a ver com o meu percur­ so de rapariga estudiosa. para esca­ par à minha mãe. recordar-me de que enfrentara o professor de religião . a estranheza que continuava a cres­ cer-me cá dentro . elegante . quem é que seria indicado para mim senão Antonio? Entretanto chegaram os noivos . com as suas raivas . na sua evolução . tudo perigos que naquele mo­ mento . Não queria que eu estudasse . parecia feliz . Ali estava Lila. Os noivos foram obrigados a dançar no meio dos flashes do fotó­ grafo . Mas eu . Vi-o antes de ver Alfonso e Marisa. Desde pequena que tinha os olhos nela. aquela festa. Pensei em como era contraditória sem se aperceber disso . Senti-me completamente só . entre aplausos entusiásticos . como sabia fazer a profes­ sora Oliviero . Nesse momento entrou Nino Sarratore . E o melhor era aquele rapaz . na mesma revis­ ta em que escrevia um rapaz bonito e inteligente do terceiro ano do liceu . Porém. que iam ocupar . o jogo dos sa­ patos para Rino e para o pai . Sorria. aos olhos dela. eram representados por Antonio . Enganei-me . nem sequer Lila. vi-o e pus-me em pé de um salto . Tenho de con­ cluir. aquele casamento . e concluía. que o meu lugar não era junto deles . quando se apresentava em nossa casa para lhe impor o que era para meu bem . pensei : do mundo da minha mãe . mas eu ti­ nha de ignorá-la. Lila permanecera ali . recordar-me de que era a melhor em italiano . E se me tornasse idêntica a ela. tornar-me completamente idêntica a ela. que não tirava os olhos de mim. recordar­ -me de que ia sair um artigo com a minha assinatura. Antonio . A minha mãe tentou segurar­ -me pela orla do vestido . cortês . mas como agora estudava. conseguiu fugir. como aliás eu própria acaba­ ra de concluir. A banda começou imediatamente a tocar a marcha nupcial . animou-se . sabe-se lá de que abismo ou precipício . apesar de tudo . deitou-me um olhar convidativo . do qual ela imaginava ter colhido o melhor. Liguei indissoluvel­ mente à minha mãe .A Amiga Genial 257 Ao pé dela . Estava a prender-me por um braço . precisos nos movimentos . Estava lin­ da. mas eu puxei pelo vestido . Mas eu tenho de ser capaz . latim e grego . obrigava-me a estar ao pé dela para me proteger sabe-se lá de que mar tempestuoso . Voltearam pela sala . Mas estar ao pé dela significava estar no seu mundo . considerava-me melhor do que os jovens com quem eu crescera.

Ele deu início a uma conversa muito interessante e muito informativa a respeito do estado da cidade . com natu­ ralidade . Falei de modo genérico com Alfonso e Marisa. Como era possível que um rapaz de dezoito anos falasse da miséria. o seu crescente tom conflituoso . Os convidados mais rancorosos tinham começado a notar as coisas que não estavam correc­ tas . para Alfonso . Ouviu-se um ruído de descontentamento na sala. Entretanto Anto­ nio aproximou-se por trás de mim . Senti como detes­ tava aquelas querelas . não no aspecto genérico e num tom consternado . Havia quem dissesse em voz alta que onde estavam sentados os familiares e amigos do noivo o serviço era melhor do que nas mesas em que se encontravam os familiares e amigos da noiva. de forma distanciada. notícias sobre o próximo número da revista e sobre a minha meia página. Alguns já iam no primeiro prato . como fazia Pasquale . só lia ro­ mances . . enquanto a outros ainda não fora servido o ante­ pasto . entre o casal Solara e o casal de Flo­ rença. E regressou à sua mesa. contando pedir-lhe logo a seguir. O vinho não era da mesma qualidade em todas as mesas .» Eu nunca tinha sequer folheado um jornal ou uma revista. Ganhei ânimo e puxei Nino para a conversa. citando dados precisos? «Onde aprendeste essas coisas?» «Basta ler. Arranjámos lugar. A própria Lila. Impressionou-me a sua se­ gurança. as revistas . pedi-lhe que me falasse do seu artigo acer­ ca da miséria em Nápoles . Em Ischia ainda tinha as feições do rapazinho atormentado . agora achei-o muito mais maduro . Nino podia ajudar-me a recuperar terreno . muito intimidado . dirigi-me para a entrada. mas apresentando factos concretos . Eu estava atrasada em tudo .» «0 quê?» «Os jornais .» Olhou em volta hesitante .258 Elena Ferrante os seus lugares ao centro da mesa. 61 . nunca lera mais do que os velhos romances esfrangalhados da biblioteca. Marisa e Nino . esperava que Nino se decidisse a dirigir-me a palavra. os livros que tratam desses problemas .» Sussurrei: «Vai-te embora. a minha mãe percebeu tudo . no tempo em que lia. inclinou-se e disse-me ao ouvido: «Guardei um lugar para ti .

Alfonso e Marisa depressa se sentiram isolados . para superar o clamor da sala. com o romance em que me sentia imersa. a necessidade de detectar problemas com clareza. terei muito gosto em lê-los. amá-lo .servia-se da palavra «literatura» para criticar quem ar­ ruinava a cabeça das pessoas com aquilo a que ele chamava conversa inútil . e cada pergunta minha era um pequeno impulso que provocava uma avalanche . Mas depressa me apercebi de que o fio dos seus discursos era constituído por uma única ideia fixa. ou seja. comia. muito irri­ tado com os seus inimigos . raramente . Por outro lado .per­ mitira que o pai lançasse a sua abjecta sombra sobre o filho? Arrependi­ -me . e no entanto evitá-lo sempre .eu .foi o que me pare­ ceu perceber . «Se querem ser vendedores de fumo» . cortante . sem ironia. Quantos erros cometera com ele. da pessoa com quem estava a falar. que tanta raiva tinha à minha mãe . respondeu assim: «Demasiados maus romances de cavalaria. que estupidez tinha sido querê-lo . com todo o respeito por Dom Quixote . de sugerir soluções praticáveis e de intervir. a música. e começaram a conversar os dois . duro . Às vezes olhava para a mesa de Lila: ria. deleitei-me com o meu arrependimento . então aí a conversa é outra. Só as­ sumi um ar de perplexidade quando ele disse mal da literatura. Mas tam­ bém culpa minha: eu . Marisa disse: «Chiça. «escre­ vam romances .» Na realidade . que animava cada frase: a rejeição de palavras pouco claras .A Amiga Genial 259 Comecei a fazer-lhe mais e mais perguntas . Lenu . Eu ia sempre acenando que sim. repetiu duas ou três vezes. é só coragem desperdiçada. nós aqui em Nápoles não temos necessidade de lutar contra moinhos de vento . e ouvia muito aten­ ta as suas respostas caudalosas . A um meu protesto passageiro . por exemplo . Compunha discursos com a expressão do estudioso . ele respondia.» Daí a pouco já desejava poder conversar todos os dias com um rapaz daquele nível . não sabíamos o que nos serviam nos pratos . aqueles que vendem fumo . Não ouvimos mais nada do que se passava à nossa volta. Culpa do pai . falava. Do que precisamos é de pessoas que saibam como funcio­ nam os moinhos e que os ponham a funcionar. nem o que comíamos e bebíamos . nem se apercebera de onde me encon­ trava. De vez em quando levantava a voz . não tinha a mesma capacidade de tomar tudo sedutor. res­ pondia. Falava sem parar. sem floreados . que chato que o meu irmão é» . mas . fazem um Dom Qui­ xote. Eu esforçava-me para arranjar perguntas para lhe fazer. Nino e eu também ficámos isolados . Sim. mas não dava respostas brilhantes como Lila. mas se é preciso alterar as coisas . cheios de exemplos concretos. declarava-me de acordo com tudo . e ele fazia o mesmo .

sussurrei . As caras torcidas dos familiares da noiva. ou se lhes dirigiam com expressões alusivas . a ficar furioso . todos eles com a obrigação de mostrar às mães e às irmãs e às avós que sa­ biam ser homens . Disse . sim. revelavam um descontentamento belico­ so . voltou-se para Alfonso . receava que me fizesse sinal para ir para junto dele . Via os olhares ferozes que os rapazes dirigiam ao vocalista e aos músicos . que se dedicava totalmente a mim .» «Não te estou a apertar. Mas sentia que tinha os olhos em cima de mim e que estava nervoso . quando já se tivesse ido embora. quando regressasse vestida com o traje de viagem. e a despiques e ofensas que envolveriam maridos . porque é que não protestava com Stefano? Eu co­ nhecia-os . Senti tocarem-me no ombro . Continham a raiva por amor de Lila. em voz alta: «Estão todos a dançar.260 Elena Ferrante olhava para a mesa de Antonio . endividaram-se . Dançavam os jovens . qual é o problema?» Fiz um sorriso embaraçado a Nino . A sua dedicação por mim fazia-me crescer. ele sabia que Antonio era o meu namorado . Haviam-se sacrificado para comprar a prenda e a roupa que traziam vestida. Via como Enzo e Carmela falavam enquanto dançavam e via também . Retorquiu nervoso . filhos . Eu conhecia-os . quando ela fosse mudar de roupa. quase como Lila em tempos o fazia. quando já tivesse distribuído as lembranças . Fui dançar. mas como u m cachorrinho . amanhã deixo-o. Paciência. era de novo Antonio . que olhavam de maneira incorrecta para as suas namoradas . Estava encantada com a maneira como Nino falava comigo .» «A minha mãe não quer» . libertar-me-ia da minha mãe . Olhou para mim sério . sem qualquer subserviência. É certo que me adorava. as ideias com base nas quais o construiria. não posso continuar com ele . os adultos e as crianças . Ele . mas no fim da festa. então rebenta­ ria uma rixa monumental . principalmente das mulheres . triste: «Vamos dançar. com vi­ nho de má qualidade e atrasos intoleráveis no serviço? Porque é que Lila não intervinha. somos demasiado diferentes . Mas eu sentia o que havia realmente por trás da aparência festiva. ele que tudo o que queria era libertar-se do pai . pensei . de qualquer modo já decidi . Expunha-me o seu futuro . «Não me apertes. Ouvi-lo estimulava-me a mente .» Reinava uma grande algazarra e uma alegria embriagada. que daria origem a ódios que durariam meses e anos . toda elegante . e agora eram tratados como pedintes . ao lado do marido .

Via Rino e Pinuccia. Estava a defendê-la perante Alfonso . Se a fábrica de sapatos Cerullo se concretizasse a sério . mas como professora era extraordinária. Tinha os olhos da minha mãe em cima de mim. Nino pareceu não ter feito o mínimo caso daquilo que se passou . E aquela é a Marisa. olhavam-se nos olhos. da sua forma torrencial . e aquele olhar era feio . não queria que ele começasse a discutir com o meu companheiro de turma como até instantes antes discutira comigo . o filho mais velho do Sarratore . e depois pões ­ -te a conversar durante horas com o filho? Mandei fazer o fato novo para estar a ver como tu te divertes com aquele . Amor e interesse .para . e depois ficavam noivos . e para mim é melhor assim.era demasiado rígida . transmitira-lhe a capacidade de estudar. da professora Galiani .» «É o Nino . Tentei inserir-me na conversa. dentro de dez anos . Fiquei sem saber o que fazer durante alguns segundos .. embora o seu olho estrábico parecesse olhar noutra direc­ ção . Sentia urgência em deixar-me agarrar de novo por Nino . e com toda a probabilidade dentro de um ano . estreitavam-se com força. mas com Nino . Atravessei a sala enquanto a orquestra continuava a tocar e os pares continuavam a dançar. Prédios velhos mais prédios novos . Voltar para junto de Nino . Era evidente que antes da festa termi­ nar começariam a andar juntos . dentro de um ano no máxi­ mo teriam uma festa de casamento não menos faustosa do que aquela. sempre o encorajara. No caso deles tudo aconteceria mais depressa . Dançavam. Pensei : se voltar para junto de Nino . que eu bem sabia como a detesta­ va. e não for ter com Antonio ao ter­ raço . para o ameaçar. Dizia ele que também acabava por discordar dela muitas vezes . Sentei-me no meu lugar. Tinha necessidade . Agora estava a falar. «Quem achas que é? Não o reconheces?» «Não . Ir ter com Antonio . Tinha os olhos do meu pai em cima de mim. que nem sequer cortou o cabelo e nem pôs uma gravata?» Largou-me no meio da sala e dirigiu-se em passo rápido para a porta de vidros que dava para o terraço . casariam. será ele a deixar-me . Eu era como eles? Ainda era? «Quem é aquele?» . Disse . perguntou Antonio . lem ­ bras-te dela?» Não se importou nada com Marisa. sim. Charcutaria mais sapatos. ner­ voso: «E tu primeiro levas-me ao Sarratore .A Amiga Genial 26 1 Pasquale e Ada sentados à mesa.

de costas . não sei o que sou nem o que realmente quero. há-de haver outra oportunidade». comprimia no peito a dor que eu lhe causara e olhava para o mar. Tínhamos dezasseis anos .. sem nexo nenhum: «Quando sai a revista?» Olhou-me com um ar duvidoso . Antonio . que falava com ele olhando-o nos olhos . Por isso quase lhe tirei as pala­ vras da boca e. tens razão . e murmurou: «Ainda bem. Pasquale .» 62 .» Alfonso fez imediatamente um sorriso de alívio . uso-te e depois deito-te fora. e esforçava-me para sorrir.era a noiva. e recordou-se de que a professora. a rainha da festa . lhe emprestara também um desses textos . Lila encontrava-se na outra extremidade da sala . o vocalista cantava. para dentro das suas capacidades . Mas eu tinha uma necessidade crescente de recompensas que me distraíssem de Antonio . posso arranjar- -ta eu . e Stefano falava-lhe ao ouvido e ela sorria. perdoa-me . muito pro- .262 Elena Ferrante não ir a correr fazer as pazes com Antonio e dizer-lhe entre lágrimas: sim. enumerei os livros que a professora me emprestara desde o início do ano e os conselhos que me dera. O longo e cansativo almoço de casamento estava a terminar. e começou a falar sobre ele . um pouco amuado . Alfon­ so e Marisa. Rino de certeza que já assim fizera com Pinuccia.» Hesitou e depois disse: «Mas o teu texto não saiu . concluíram que não havia espaço . Enzo talvez estivesse murmuran­ do a Carmela que gostava dela.» «Obrigada.de que Nino me puxasse de modo exclusivo para dentro das coisas que ele sabia. que me reconhecesse como sua semelhante . sinto-me metade e meta­ de .» Tive um sobressalto de alegria e perguntei-lhe: «Onde a encontro?» «Vendem-na na livraria Guida. tempos antes . e perguntei-lhe . dizia com fingida indiferença: «Está bem. Eu estava diante de Nino Sarratore . A banda tocava. De qualquer maneira. Fez que sim com a cabeça. ligeiramente apreensivo: «Saiu há duas semanas . mas a culpa não é minha. enquanto ele se esforçava para retomar o discurso inter­ rompido.

hesitante: «Não queres cumprimentar a noiva?» Fez um gesto largo . ela mo perguntara. que a canseira de estudar me elevava. com muito mais precisão do que quando . das alusões sexuais do comerciante de metais . disse Alfonso . mas Ada arranjaria maneira. vagueava pela sala assustado .A Amiga Genial 263 vavelmente . e nessa arte destacava-se o negociante de metais . O chão estava salpicado de molho que esguichara de um prato que uma criança deixou cair. Lutava para me libertar de uma espé­ cie de turvação na cabeça. que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai . «Sabes o que é a plebe?» «Sim. Sabia entrar e sair do bairro como queria. continuei a sorrir. e ria-se . à hora combinada.» «Exactamente» . de boca es­ cancarada. Mas não disse nada. até Lila. era . que a professora Oliviero tivera razão em impulsionar-me para a frente e em abandonar Lila. A plebe era a minha mãe . Riam-se to­ dos . já discuti uma vez com o padre . sem dúvida. e a minha assinatura impressa. talvez Nino não tenha insis­ tido o suficiente . anos antes . até ao lu­ gar estabelecido . aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor. aqueles brindes cada vez mais ordinários . aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás . balbuciou qualquer coisa a respeito do vestuário e . Havia algum tempo que se repetiam os brindes com alusões obscenas . sem se deixar contaminar. A plebe éramos nós . sem um aperto de mão sequer. Nino levantou-se e disse que se ia embora. antes da festa terminar. um aceno qualquer a mim ou a Alfon­ so . Podia fazê-lo . talvez seja melhor eu mesma tratar disso . uma queda de tensão dolorosa. Combinou com Marisa regressarem a casa juntos e Alfonso prometeu acompanhá-la. A plebe era aquela luta por comida e vinho . Perguntei a Nino . o sinal de que eu tinha realmente um desti­ no . discutir segunda vez seria inútil . Pensei: talvez publiquem o meu texto no próximo número. a algum lugar. professora. dirigiu-se para a porta com o seu andar bamboleante . Mas nada atenuava a desilusão . Ela pareceu muito orgulhosa de ter um cavaliere tão educado . Concluí que considerara a publicação daquelas poucas linhas . Provavelmente nauseado pelo espectáculo em cena. e não conse­ guia.» Na­ quele momento eu soube o que era a plebe . que estava sério . de vinho derramado pelo avô de Stefano . de lhe arrancar da boca as palavras necessárias . Engoli as lágrimas . com o ar de quem tem um papel a desempenhar e o leva até ao extremo . até arranjei forças para dizer: «Aliás .

Silvio fez um ligeiro gesto de cabeça aos filhos . Lila. Manuela olhou-os com orgulho de mãe . na altura da tu­ multuosa mudança que quase lhe custara a vida. Apareceram. Quando ele desapareceu . não era aquele com a fivela dourada. os bonitos e elegantes irmãos Solara. os gestos . o andar de alguém que faria sempre melhor. mas aquilo era apenas escola. Eram sapatos Cerullo para homem. cumprimentando este e aquele com o seu ar de patrões . Circularam pela sala. mais branca do que o vestido de noiva. Era o par que ela executara juntamente com Rino . Na verdade . Não o modelo que estava à ven­ da. Nino sim. fazendo e desfazendo durante me­ ses . por sua vez . Depois tive a impressão de a porta do restaurante se ter fechado com uma rajada de vento . imitando sofrivelmente Aurelio Fierro . a revista. Podia ter dez nos trabalhos . com um sorriso amigável . olhava para os sapatos de Mar­ cello Solara. O vocalista começou a cantar Lazzarella . desapertou a gravata. Vi Lila perder a cor. puxou o marido energicamente pelo braço e disse-lhe qualquer coisa ao ouvi­ do . e os olhos tiveram aquela repentina contracção que os transformava em duas fendas . Rino convidou Marcello a sentar-se . tomar­ -se pálida como era em miúda. talvez tivesse aprendido anos antes . Tinha uma garrafa de vinho na frente .264 Elena Ferrante capaz de fazê-lo . e não o impri­ mira. com um rubor repentino na garganta e em tomo dos olhos . Mas ela não estava a olhar para a garrafa. apenas para o bolo de noiva e para as lembranças do casamento . Olhava para mais longe . com o vinho a esguichar por todo o lado . cheirara o meu texto . nem tão-pouco bater de portas . Estudar não chegava. e temi que o seu olhar a trespassasse com uma violência tal que a fizesse em mil estilha­ ços . . Duvidei que eu fosse capaz de fazê-lo . pareceu-me ter desa­ parecido a única pessoa em toda a sala que tinha a energia para me levar dali para fora. Simplesmente aconteceu aquilo que era previsível que acon­ tecesse . O imprevisível só nessa altura se revelou . arruinando as mãos . Marcello tinha calçados os sapatos comprados tempos antes por Stefano . podia tudo . o texto que era meu e de Lila. Tinha o rosto . Gigliola lançou os braços ao pescoço de Michele e levou-o a sentar-se a seu lado . Marcello sentou-se . seu marido . cruzou as pernas . não houve vento .

Índice .

Índice das Personagens 9 Prólogo . História de dom Achille 17 Adolescência . Apagar o rasto 11 Infância . História dos sapatos 67 .

ÜBRAS DA AUTORA NESTA EDITORA Crónicas do Mal de Amor .

Cormac McCarthy: A Travessia 1 9 1 . Saul Bellow : O Planeta do Sr. Michel Houellebecq: As Partículas Elementares 208 . Alice Munro : Vidas de Raparigas e Mulheres 2 1 4 . Alice Munro : Falsos Segredos 222 . Saul Bellow : Agarra o Dia 225 . Vladimir Nabokov: Ada ou Ardor 1 90 . Sammler 230 . Kate Atkinson : Vida Após Vida 2 1 1 . Dalton Trevisan : Novelas nada Exemplares 1 9 3 . Nathan Filer: O Choque da Queda 22 1 . Margaret Atwood: Ressurgir 2 1 9 . o Rei da Chuva 227 . Irene Némirovsky : O Vinho da Solidão 1 98 . Elena Ferrante: Crónicas do Mal de Amor 2 1 8 . Namoro. Dalton Trevisan : Guerra Conjugal 202 . Amor. Cormac McCarthy: Filho de Deus . Katherine Anne Porter: A Torre Inclinada e Outros Contos 220 . Cormac McCarthy : O Conselheiro 2 1 0 . Homes: Assim para Nós Haja Perdão 2 1 2 . Alice Munro : Ódio. Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba 1 92 . Dalton Trevisan : A Trombeta do Anjo Vingador 203 . A . Flannery O ' Connor: O Céu É dos Violentos 229 . Isaac B ábel : Contos e Diários 2 1 6 . Alice Munro : Amada Vida 205 . Jhumpa Lahiri: A Planície 2 1 3 . Luigi Pirandello: O Falecido Mattia Pascal 200 .ÚLTIMOS LIVROS NESTA COLECÇÃO 1 89 . M . Vladimir Nabokov: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight 204 . Clarice Lispector: Um Sopro de Vida (Pulsações) 1 95 . Junot Díaz: É assim Que A Perdes 1 96 . Hjalmar Sõderberg: O Jogo Sério 206 . Rachel Kushner: Os Lança. Michel Houellebecq: Plataforma 226 . Marguerite Duras : Moderato Cantabile 223 . Denis Johnson : Anjos 1 99 . Vladimir Nabokov: Pnin 209 .Chamas 2 1 5 . Vladimir Nabokov: Lolita 207 . Marguerite Duras : Olhos Azuis Cabelo Preto 224 . Dalton Trevisan : A Polaquinha 1 94 . Amizade. Vladimir Nabokov : Riso na Escuridão 20 1 . Saul Bellow : Henderson . Hermann Broch: A Morte de Virgílio 2 1 7 . Casamento 228 . Clarice Lispector: Laços de Família 1 97 .

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