A Amiga Genial

Infância, Adolescência

pt ISBN 978-989-641-479-5 Composição e paginação: Relógio D'Água Editores Impressão: Guide Artes Gráficas. Lda. n.cvasconcelos.Infanzia.pt L'amica geniale © 2011 Edizioni e/o Publicado por acordo com The Elia Sher Literary Agency Título: A Amiga Genial .Infância. Relógio D'Água Editores Rua Sylvio Rebelo.pt www.com) ©Relógio D'Água Editores.0: 384238/14 .relogiodagua.: 218 474 450 fax: 218 470 775 relogiodagua@relogiodagua. Depósito Legal n.relogiodagua. Novembro de 2014 Encomende os seus livros em: www.0 15 1000-282 Lisboa te!. adolescenza (2011) Autora: Elena Ferrante Tradução: Margarida Periquito Revisão de texto: Inês Dias Capa: Carlos César Vasconcelos (www. Adolescência Título original: L'amica geniale .

Elena Ferrante A Amiga Genial Infância. Adolescência Tradução de Margarida Periquito Ficções .

W. De todos os espíritos negadores É o Maligno o que menos me agasta. Fausto . por isso. É bom. A acção do Homem depressa se atenua. mandar-lhe um companheiro Que o espicaça e incita e como diabo actua. e vem quando quiseres.O SENHOR: Fica à vontade. Nunca odiei os seres da tua casta. Em pouco tempo já quer repouso inteiro. Goethe. J.

mulher de Alfredo. carpinteiro. O pai é porteiro da Câmara. a quem todos chamam Lina. mulher de dom Achille. Nunzia Cerullo. Índice das Personagens A família Cerullo (a família do sapateiro): Fernando Cerullo. dirige a charcutaria da família. A família Peluso (a família do carpinteiro): Alfredo Peluso. A mãe é doméstica. Gianni e Elisa. pedreiro. Stefano Carracci. . Rino Cerullo. que também responde por Carmen. filho de dom Achille. A família Greco (a família do porteiro): Elena Greco. Giuseppina Peluso. o papão das histórias infantis. Pasquale Peluso. Outros filhos. Maria Carracci. filho de Alfredo e Giuseppina. seguem- -se-lhe Peppe. Outros filhos. A família Carracci (a família de dom Achille): Dom Achille Carracci. só Elena lhe chama Lila. Raffaella Cerullo. irmão mais velho deLila. É a mais velha. Pinuccia e Alfonso Carracci. os outros dois filhos de dom Achille. irmã de Pasquale. Rino será também o nome do filho deLila. Carmela Peluso. mãe deLila. a quem chamam Lenuccia ou Lenu. sapateiro. também sapateiro. cai­ xeira de retrosaria.

Nella Incardo. que descarregava caixas no mercado da fruta e da hor- taliça. Manuela Solara. o mais velho dos quatro filhos de Donato eLidia. prima da professora Oliviero. Gerace. dono do bar-pastelaria.10 Índice das Personagens A fann1ia Cappuccio (a família da viúva maluca): Melina. Galiani. professor da escola secundária. filha de Donato eLidia. pasteleiro do bar-pastelaria Solara. professor e bibliotecário. Outros filhos. Enzo Scanno. vendedor de fruta e hortaliça. Assunta Scanno. o filho do farmacêutico. Os professores: Ferraro. Nino Sarratore. professora do liceu. A fann1ia Sarratore (a família do ferroviário-poeta): Donato Sarratore. filhos de Silvio e Manuela. revisor. também vendedor de fruta e hortaliça. Gigliola Spagnuolo. prima da mãe deLila. A família Solara (a farm1ia do proprietário do bar-pastelaria homónimo): Silvio Solara. de Ischia. os filhos mais novos de Donato eLidia. Ada Cappuccio. filha do pasteleiro. A família Spagnuolo (a família do pasteleiro): O senhor Spagnuolo. filha de Melina. . Marcello e Michele Solara. professora da escola primária. mulher de Donato. Antonio Cappuccio. Pino. Outros filhos. mecânico. mulher de Nicola (Nino). filho de Nicola e Assunta. O marido de Melina. Clelia e Ciro Sarratore. seu irmão. Rosa Spagnuolo. Marisa Sarratore. mulher do pasteleiro. Outros filhos. Oliviero. Gino. viúva maluca. Lidia Sarratore. A família Scanno (a família do vendedor de fruta e hortaliça): Nicola Scanno. mulher de Silvio.

Prólogo Apagar o rasto .

sem ser convidado . embora eu não estivesse zangada nem indignada. pensei que quisesse outra vez dinhei­ ro e preparei-me para lhe dizer que não . A mãe? Aqui em Turim? S abia perfeitamente o que se passava. como de costume .» «E agora é que me ligas?» O tom deve ter-lhe parecido hostil . até tinha ido à polícia. 1. tinha apenas uma ponta de sarcasmo . a mãe não esta­ va em parte nenhuma. dera uma volta pelos hospitais . metade em dialecto .» Mas acabara por ficar preocupado . Mas o motivo do telefonema era outro: não sabia da mãe . perguntou-me de súbito . Que filho tão bom ! Um homem corpulento . Ao passo que a mãe . que eu acolheria com prazer. Ele é que era viajante . Nada. falava só por falar. atrapalhando-se . ela piorou . faz o que lhe dá na gana. me­ tade em italiano . Nenhum . Tentou desculpar­ -se mas fê-lo confusamente . Tu não a vês há muito tempo . «Não estará aí contigo?» . Não tinha miolos .» «Pois sei . Perguntara a toda a gente . Nunca tem sono . já viera a minha casa pelo menos dez vezes . «Mesmo de noite?» «Bem sabes como ela é. entra. Rino telefonou-me esta manhã. dos seus quarenta anos . e só gostava de si próprio . Respondi-lhe: . mas achas normal duas semanas de ausência?» «Sim. que nunca trabalhara na vida. «Há quanto tempo?» «Há duas semanas . Imaginei o cuidado com que fizera as buscas . nunca saíra de Nápoles em toda a sua vida. Disse que estava convencido de que a mãe andava a passear por Nápoles . sai . só negociatas e esban­ jamento .

E nunca pensou em suicídio . era sinal de que a nossa amizade chegara ao fim. assim de repente . Há pelo menos trinta anos que me diz que quer desaparecer sem dei­ xar rasto . o sonho de refazer a vida noutro lado . Sempre lhe escrevi com frequência. já te disse que não está. comporta-te como ela desejaria: não a procures. Se lhe chamasse Lina ou Raf­ faella.» E desliguei . e só eu sei bem o que ela quer dizer. Passaram-se dias . Aprende a viver sozinho e não voltes a ligar-me também. Eu não. 2. ao menos uma vez . mas toda a gente a tratou sempre por Lina. mas sem esperança. E como a conheço bem. . tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo . queria que todas as suas células desaparecessem.14 Elena Ferrante «Claro que não está aqui comigo . soluços que começavam por ser fingidos e se tomavam verdadeiros . É inútil . e ela quase nunca me respondeu . O hábito foi sempre esse . nunca fiz uso de nenhum desses nomes . ou pelo menos creio que conheço . disse-lhe: «Por favor.» «Tens a certeza?» «Por favor. para onde foi ela?» Começou a chorar e deixei-o fazer a fita de quem está desesperado . Fui vendo o correio electrónico e o correio normal . Nunca lhe passou pela cabeça uma fuga. Quando terminou . 3. há quase sessenta anos que é Lila. pois repugnava-lhe a ideia de Rino ter alguma coisa a ver com o seu corpo . Preferia o telefone ou as longas noites de conversa quando eu ia a Nápoles . que dela não fosse possível encontrar nada. uma mudança de identidade . de ser obrigado a ocupar-se dele . A sua intenção foi sempre outra: queria volatilizar-se.» «Então . Rino .» «Mas o que estás tu a dizer?» «Aquilo que ouviste . Para mim. A mãe de Rino chama-se Raffaella Cerullo .

«Vai ver. É possível que em todos estes anos não me tenha deixado nada de si . Tens notícias?» «Não . mesmo aquelas de quando eu era pequeno .» . As fotografias . muito agitado . «Não há cá nada.» Ligou-me no dia seguinte . Os sapatos dela. principalmente o que se relacionava com ela. ao pro­ grama onde se fala das pessoas desaparecidas . e ela sabe-o . Escutei com paciência. ou . Deitei tanta coisa fora. Os poucos livros que possuía. desaparecidos . todas desaparecidas . fi-lo contrariada. Desta vez telefonei eu a Rino. Poucas . tudo . nem uma imagem. no tempo dos cartões perfurados . nem um bilhete . Desaparecido o computador. Mandei-o procurar pela casa toda.» Foi e verificou que não havia lá nada. nada?» «Não . Queria ir à televisão . desaparecidos . bem como as velhas disquetes que dantes se usavam . que eu não tenha querido conservar qualquer coisa dela? É possível . E tu?» «Nada. todas as coisas relacionadas com a sua expe­ riência de feiticeira electrónica. nem uma prendinha. «Vi que ligaste . Eu própria me surpreendi .» «Nada. depois perguntei-lhe: «Viste o guarda-fato dela?» «Para quê?» Naturalmente . Rino estava estupefacto . Tinha o tom de voz com que tenta causar pena. de Verão ou de Inverno . a coisa mais óbvia não lhe ocorrera. pior.» «Procuraste bem?» «Em todo o lado . Disse-lhe: «Leva o tempo que quiseres . só as cruzetas velhas . que começara a familiarizar-se com os computadores em finais da década de sessenta. quando lhe dava jeito . Descobri que não tenho nada dela.» Disse-me coisas sem pés nem cabeça. fazer um apelo . mas depois telefona-me e diz se encon- traste nem que seja só um alfinete que lhe pertença. Não atendia no fixo nem no móvel . nem um vestido da mãe . a s caixas d e metal onde guardo todo o géne­ ro de coisas . Recortou a imagem dela de todas as fotografias em que está­ vamos juntos . Desaparecidos os filmes . pedir perdão à mãe por tudo . suplicar-lhe que volte .A Amiga Genial 15 Abri a s minhas gavetas . Ligou-me ao serão .

«Posso ir passar uns dias a tua casa?» «Não .16 Elena Ferrante «Na cave . não consigo dormir. aos ses­ senta e seis anos. não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás .» Desliguei e . sobretudo dele . tudo aquilo que me ficara na memória. Vamos ver quem vence . não sei como lidar com isto. como é costume. Lila está a exagerar. não atendi . Rino .» «Amanha-te . contratos telefónicos . O que significa isto? Que alguém roubou tudo? O que procuravam? O que querem da minha mãe e de mim?» Tranquilizei-o . Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto . disse-lhe que estivesse descansado . re­ cibos de contas . desta vez . Sentei-me à secre­ tária.» «Por favor. Era improvável que alguém quisesse alguma coisa. Sei lá. quando ele voltou a ligar. Agora. pensei . velhas certidões de nascimento . também?» «Em todo o lado . Senti-me deveras irritada. . Até a caixa com os documentos desapa­ receu . já te disse . Liguei o compu­ tador e comecei a escrever os pormenores da nossa história. disse para mim.

Infância História de dom Achille .

lanço após lanço . Dom Achille era o papão das histórias infantis . dentro e fora da escola. fazia a mesma coisa. e eu fazia o mesmo logo a seguir. mas nós deixámo-nos ficar. firme . Lembro-me da luz violácea do pátio . Havia algum tempo que não fazía­ mos outra coisa. pendurava-se da barra de ferro a que estava preso o arame da roupa. cheio de borbulhas violá- . dando provas de coragem ao desafio . A nossa anúzade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir as escadas escuras que . iam até à porta do apartamento de dom Achille . e eu em seguida fazia o mesmo . balançava-se e depois deixava-se cair para o passeio . degrau após degrau . sem dizermos uma palavra. eram horas de ir para casa. e dirigiu-se para o prédio onde morava dom Achille . com o coração aos saltos . e depois . e não só na minha. Lila enfiava a mão e o braço inteiro na escuridão de uma boca de esgoto . Pela maneira como o meu pai falava dele eu imaginava-o corpulento . estava terminan­ temente proibida de me aproximar dele . embora com medo de cair e de me magoar. As mães estavam a fazer o jantar. mas que guar­ dava na algibeira como se fosse o presente de uma fada. Em minha casa. Lila espetava sob a pele o alfinete de segurança ferrugento que achara na rua sei lá quando . tinha de agir como se ele e a farm1ia não existissem. A certa altura lançou-me um olhar dos dela. esperando que as baratas não me su­ bissem pela pele e que os ratos não me mordessem. de olhar para ele . de o espiar. 1. de lhe falar. eu observava a ponta de metal a abrir-lhe um túnel esbranquiçado na palma da mão . quando ela o retirava e mo estendia. dos odores de um entardecer ameno de Primavera. Gelei de medo . havia uma animosidade e um ódio para com ele que eu não sabia de onde vinham. Lila trepava até à janela do rés-do-chão da senhora Spagnuolo . de olhos semicer­ rados .

ferro . Ficou-me a impressão do ombro a roçar pela parede esfolada e a ideia de que os degraus eram muito altos. e eu segui-a. para ver se Lila reconsiderava e desistia. Esperei um pouco. dirigindo-nos para o maior dos nossos terro­ res de então . dois degraus atrás e indecisa entre encurtar a distância ou deixá-la aumentar. ela. empoeiradas . sentia apenas um cheiro a coisas velhas e aDDT. meter-me-ia na frigidei­ ra com óleo a ferver. Parou à minha espera e . a princípio não via nada. . E então . eu esque­ cera qualquer boa razão e . Levantou-se e começámos a subir. Sabia o que ela queria fazer. Esse gesto mudou tudo entre nós para sempre . Sentia-se um chei­ ro a alho frito . sem dúvida. mas nada ouvimos . mas vivo . matar-me-ia. não . violento apesar do «dom» .20 Elena Ferrante ceas . só estava ali porque ela também estava. nem passos . esperara em vão que se esquecesse. Os candeeiros da rua ainda não se tinham acendido . urtigas . Subíamos devagar. íamos expor-nos ao medo e questioná-lo . mas pálidas . vidro . Parámos muitas vezes . só se via o tom cinzento das janelonas em cada patamar. Ela achava que estava a fazer uma coisa certa e necessária. cheias de pe­ rigos . Esperámos . mas afinal . Quando finalmen­ te me decidi . se cometesse a loucura de me aproximar da porta de sua casa. deixando amplas zonas de sombra. Acredi­ tava que mesmo que o visse só de longe me lançaria para os olhos qualquer coisa aguçada e ardente . Cada ruído de passos ou de vozes era dom Achille que subia atrás de nós ou que descia ao nosso encontro com uma grande faca. nem porta nenhuma a abrir ou a fechar. vivo e com um bafo escaldante que lhe saía do nariz e da boca. Depois Lila continuou . os filhos comer-me-iam e ele chuparia a minha cabeça. No quarto lanço Lila comportou-se de forma inesperada. Avançámos encostadas à parede. quando a alcancei . dois degraus à frente . deu-me a mão . Depois habituei-me ao escuro e vi Lila sentada no primei­ ro degrau do primeiro lanço de escadas . Era um ser feito não sei de que matéria. Tremia. e de cada vez esperei que Lila resolvesse vol­ tar para trás . eu . Das casas chegavam-nos vozes nervosas . Maria. De repente as luzes acenderam-se . a mulher de dom Achille . nem as luzes das escadas . tentando perceber se fora dom Achille que girara o interruptor. mais altos do que os do prédio onde eu morava. que me sugeria uma autoridade calma. De vez em quando Lila olhava para o alto . mas não percebi porquê . como o meu pai fazia com os salmonetes . Estava toda suada. ela não sei . Para acompanhá-la tinha de sair da luz azulada do pátio e penetrar no negrume da porta. daquelas para abrir o peito às galinhas .

Se ela pegava numa tampa e a punha na cabeça da boneca como se fosse um chapéu . põe a coroa de rainha. Brincávamos no pátio . tiravam as medidas uma à outra . embora existisse havia mais tempo do que nós . Os adultos . Se Nu jogava à macaca nas mãos de Lila. tampas de gasosa. que se chamava Nu .dez dias . florzinhas . talvez nem sintamos necessidade disso . nessa época . ela falava comigo . estavam prontas para saltar para os nossos braços se rebentasse um temporal . Ali púnhamos pedras . em dialecto: Tina. Para cima ou para baixo . este é o papá. lascas de vidro . é difícil com­ preender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre . daí a pouco eu punha Tina a fazer o mesmo . era por nós e só por nós que esperava. e a correr. para o desconhecido . a minha boneca sabia mais do que eu . Espiavam-se mutuamente . e da boneca de Lila. Gostávamos daquele sítio . mas fazendo de conta que não brincávamos juntas . movem-se num presente para trás do qual há o ontem ou o anteontem ou no máximo a semana passada.. e eu no outro . do anteontem.A Amiga Genial 21 2. A culpa fora dela. e era linda. sei lá. se fizesse trovões . Eu era pequena e. vendo bem . u m mês . com ligeiras alte­ rações . cabelos de plástico e olhos de plástico . Mas nunca acontecia combi­ narmos uma brincadeira e participarmos nela em conjunto . parecia-nos sempre que íamos ao encontro de algo terrível que . para mim era feia e asquerosa. senão vais ter frio . Até aquele . tinha um corpo de trapo amarelado cheio de serradura. pelo con­ trário . pregos . se alguém maior e mais forte e com os dentes afiados lhes quisesse pegar. isto é a noite . No resto não querem pen­ sar. num dos lados da fresta de uma cave . esta é a mamã . não sabíamos nada sobre o tempo . Quando se está há pouco tempo no mundo . Lila sentava-se no chão . nem do amanhã. As crianças não sabem o significado do ontem . a porta é esta. Agora íamos subindo em direcção ao medo . tudo é isto e agora: a rua é esta. A boneca de Lila. Falava com ela. em primeiro lugar porque podía­ mos arrumar sobre o cimento do peitoril . Tinha cara de plástico . Não havia muito tempo . Usava um vestidinho azul que a minha mãe lhe fi­ zera num raro momento feliz . as coisas da minha boneca. Eu captava o que Lila dizia a Nu e dizia o mesmo a Tina em voz baixa. e nessa altura tínhamo-nos sentido na obrigação de descer. eu dizia à minha. que se chamava Tina. por entre as grades e contra a rede de protecção da fresta. as escadas são estas . tirara-me a bone­ ca à traição e lançara-a para dentro de uma cave . isto é o dia. à espera do amanhã .

Pressentíamos-lhe os cantos negros .22 Elena Ferrante lugar não era escolhido por acordo . Naquela turma éramos todas um bocadi- . Lila entrou na minha vida na primeira classe e impressionou-me de imediato porque era muito má. às raspadelas. através das quais podíamos dei­ xar cair pedras para o escuro e ouvir o ruído quando chegavam ao chão. um rato entre os ratos . tudo aquilo que nos assustava à luz do dia. E depois gostávamos das grades com teias de aranha. Lila sabia que eu tinha aquele medo . Esse saco era um aspecto funda­ mental de dom Achille . Imaginava-o de boca aberta por causa das compridas presas de animal . Não confiávamos na luz que incidia sobre as pedras . aos estalidos . formando duas fendas paralelas . sobre os prédios . Depois . até em casa. do escuro e da rede de malha fina. sempre pronto para recolher num grande saco negro tudo o que deixá­ vamos cair pelos cantos soltos da rede . tanto do meu lado como do de Lila. mas também ali em baixo . enfiou-a pela rede e deixou-a cair para o escuro . ao resmalhar. fingindo que ia para outro sítio . no último andar. os sentimentos reprimi­ dos mas sempre quase a explodir. às cavernas que por trás delas se abriam sob os prédios do bairro . Os terrores que nós saboreávamos todos os dias eram os delas . tinha-o sempre consigo . corpo de pedra vidrada e ervas venenosas . aos ruídos ameaçadores que de lá saíam. sobre as pessoas fora e den­ tro de casa. 3. e nele metia matéria viva e morta. a minha boneca falava disso em voz alta. sobre os campos. avermelha­ da pela ferrugem e encaracolada nos cantos . uma forma que assumia todas as formas . mas as mais das vezes postas de propósito junto da rede retorcida e portanto expostas ao bafo frio da cave. Nu e Tina não eram felizes . punha-me também ao pé da fresta. só com olhares e gestos . assim que lhe entreguei Tina. como todas as coisas naquele tempo. uma aranha entre as aranhas . Dom Achille . Era bonito e assustador. por vezes em segurança no nosso colo. mas do lado oposto . não estava apenas em sua casa. logo no dia em que trocámos de bonecas pela primei­ ra vez sem combinar sequer. Por aquelas aberturas o escuro podia tirar-nos de repente as bonecas. Lila ia para lá e eu andava às voltas . Por isso . uma lufada que nos refrescava na Primavera e no Verão . como quem não quer a coisa. E atribuíamos a essas bocas escuras . por exemplo . ela. Aquilo que mais nos atraía era o ar frio que vinha da cave.

e mandou-a imediatamente para o castigo . O filho adulto de dom Achille . Vivíamos num mun­ do em que crianças e adultos se feriam com frequência. o gás . e Lila a olhar para ela de cara séria. O pai do senhor Peluso não tinha um braço . supuravam. A professo­ ra berrou como só ela sabia . a vendedora de fruta e hortaliça. morrera de tifo . ou talvez não. a bomba.fora para a guerra e morrera duas vezes: primeiro . longa e pontiaguda. era má sempre . O pai da minha mãe trabalhava na construção de um edifício . Os da farru1ia Mel­ chiorre tinham morrido todos abraçados . não conseguiu equilibrar-se e foi bater com a cara na quina de uma carteira. esmagado . um dia morreu porque encontrou uma bomba e mexeu-lhe . a tuberculose . Lila não obedeceu . a su- . com sangue a sair-lhe dos ouvidos e da boca. a gritar de medo. nem sequer pareceu ter-se assustado . Ficou caída no chão como morta. o entulho . morrera de tuberculose aos vinte e dois anos . a guerra. Então a professora Oliviero . Tenho na lembrança muitos incidentes deste tipo . desceu do estrado ameaçando-a. A velha dona Clorinda morrera por respirar gás em vez de ar. pois continuou a atirar bocados de mata-borrão ensopados em tinta para todos os lados. o tomo . Eu fui atingida duas vezes no cabelo e uma vez na gola branca. embora devesse ter pouco mais de quarenta. que andava na quarta quando nós andávamos na primeira. o tomo arrancara-lho à traição . o bombardeamento . o tifo . atrás do quadro . enfiou-os um a um no tinteiro e de­ pois pôs-se a pescá-los com o aparo e a atirá-los para cima de nós . o trabalho .nunca o vi mas parecia-me que me lembrava dele . Ela.A Amiga Genial 23 nho más . O nosso mundo era assim. cheio de pala­ vras que matavam: o garrotilho . e depois comido pelos tubarões . e eles por vezes morriam. debaixo de um bombardeamento. pior do que os rapazes . ferira-se com um prego e morrera de tétano . Uma das filhas de dona Assunta. A irmã de Giuseppina. Luigina. afogado no oceano Pacífico . uma mulher pesadona que nos parecia muito velha. uma trouxa escura. porém. era ape­ nas um nome . com quem tínhamos brincado no pátio. Um primo meu que tinha vinte anos foi uma manhã remover entulho e à noite estava morto . tropeçou não se sabe bem em quê . Uma vez rasgou o papel mata-borrão em pedacinhos . O que aconteceu logo a seguir não me recordo . lembro-me apenas do corpo imóvel da professora. O filho mais novo da senhora Spagnuolo morrera de garrotilho . as feridas san­ gravam. mulher do senhor Peluso . com uma voz de agulha que nos aterroriza­ va. caiu dele abaixo e morreu . mas só quando a professora Oliviero não conseguia ver-nos . Giannino. o tétano .

Mas tinha a vaga sensação de que se fugisse . passava-lhe as pedras . transmitia a ideia de que aquilo que se seguia . À saída da escola. Ficávamos cobertos de pontinhos vermelhos . Sentiam-se ofendidos por sermos melhores alunas do que eles . Quando as pedras vinham direito a nós fugíamos todas . Mas fazia-o sem convicção . como as outras . sentia-me na obri­ gação de ir ter com ela. eu também tinha irmãos . se estivéssemos a transpirar e bebêssemos água fria da torneira sem ter molhado os pulsos primeiro . se levássemos uma pancada na têmpora. Mas quando notava que ela ficara para trás . A têmpora era um ponto muito frágil .agora não consigo precisar se aos seis ou se aos sete anos . fiz muitas coisas na vida mas sem convicção . Não a conhecia bem . ou uma pedra. nunca tínhamos trocado uma palavra. Tinha um irmão mais velho e talvez tivesse aprendido com ele . ou o corrimão das escadas escuras . mas mais novos do que eu e nunca aprendera nada com eles . parava e esperava por ela.. ou se quando subimos juntas as escadas que iam ter a casa de dom Achille e tínhamos oito . Ao passo que Lila tinha. quase nove . Remeto para essas palavras e para aqueles anos os muitos me­ dos que me têm acompanhado toda a vida. tínhamos um ataque de tosse e não conseguíamos respirar.espetar a caneta na madeira da carteira com um movimento preciso . na aula e fora dela. Podíamos morrer. Também se podia morrer de coisas que pareciam normais . atirar bolinhas ensopadas em tinta. Era muito es­ perta a calcular a trajectória das pedras e a evitá-las com um movimento calmo . Bastava uma pedrada. e as pedradas eram a regra. embora cheia de medo . atirava-as também . sempre me senti um bocado desligada das minhas acções . um bando de rapazes do cam­ po chefiado por um que se chamava Enzo ou Enzuccio . menos Lila. uma total determi­ nação como característica. apesar de estarmos sempre a competir uma com a outra. que conti­ nuava a andar no seu passo normal e às vezes até parava.24 Elena Ferrante puração . como ela não se mexia. sobretudo . hoje diria elegante . Podíamos morrer se comêssemos cerejas pretas sem cuspir o caroço . Podíamos morrer. A princípio ficava escondida em qualquer canto e espreitava para ver se Lila já aí vinha. acertar nos . desde pequena . Depois . começou a atirar-nos pedras . a vendedora de fruta e hortaliça. Já nesse tempo havia qualquer coisa que me impedia de abandoná-la. não sei . Podíamos morrer se mastigássemos pastilhas elásticas america­ nas e por distracção as engolíssemos . por exemplo. deixaria com ela algo de meu que ela nunca mais me restituiria. um dos filhos de Assunta. dávamos todas muita atenção a isso . Quer empunhasse o cabo tricolor da caneta.

estupefacto. fazê-lo irritar-se ainda mais e responder de imediato com tiros igualmente perigosos . Tinha entre o polegar e o indicador a pedra que se preparava para atirar. era repetente. porém. arrancando-ma da mão. parece que ainda estou a vê-lo. Pressenti que o bando se enfureceria mais e queria que nos afastássemos . Ainda estava agarrada ao braço de Lila quando a pedrada a atingiu na fronte . foi o nosso pri­ meiro contacto físico. Os rapazes que ele comandava também olharam incrédulos para o sangue . Geralmente só saía das feridas depois de se terem trocado maldições terríveis e obscenidades nojentas . O meu pai . Enzo . O bando vinha do aterro do caminho-de-ferro . tinha cabelos loiros muito curtos e olhos claros . e Lila aguardava os tiros dele para lhe mostrar como os evitava. A pedra roçou pela pele de Enzo como uma lâmi­ na. Mas não houve tempo . mas a minha mãe negava imediatamente esse laço de sangue (havia um parentesco muito afastado) e reforçava a dose de in­ sultos. Lançava com precisão pedras pequenas com rebordos afiados . fornecendo-se de pedras no meio dos carris . um contacto brusco e assustado. O menino olhou para a perna ferida. proferia insultos e ameaças sem parar se alguém. As raivas deles assustavam-me e tinha sobretudo medo de que . Quando falava dele com a minha mãe chamava-lhe «O teu primo» . e digo atingimo-lo porque eu é que entregara a Lila uma pedra achatada com os bordos todos lascados . o braço já estava no ar para fazer o lançamento . era um menino muito perigoso . deixando-lhe uma marca vermelha de onde saiu imediatamente san­ gue . o cabecilha. No instante seguinte estava estendida no passeio com a cabeça partida. não fosse dig­ no de andar à face da terra. Lila. Era sempre essa a ordem das coisas . Eu agarrei-a por um braço. Uma vez atingimo-lo no artelho direito. Tinha sempre qualquer coisa para lhe atirar à cara e eu às vezes tapava os ouvidos com as mãos para não ficar tão incomodada com as suas palavras horríveis. Sangue .A Amiga Genial 25 rapazes do campo . apesar de ter o artelho a sangrar. Enzo. recuperou do espanto e lançou a pedra que tinha na mão . mas deteve-se. Sentia um rancor especial por dom Achille . subir até à porta de dom Achille . 4. como ele dizia. não mostrou a mínima satisfação pelo êxito da pedrada e baixou-se para apanhar outra.seria feito sem hesitações . que até me parecia ser um bom homem. tinha pelo menos mais três anos do que nós .

Durante anos imaginei o alicate . «Antes» . a serra. a turquês . o que tomara a oficina inútil . que . Lila usava essa expressão muitas vezes . a marmelada. queijos provolone . sobre os quais os adultos guardavam silêncio ou se pronunciavam com muita reticência . que era já grande. Receava que ele viesse matá-los . o tempo em que dom Achille se mostrara a todos como aquilo que era: um ser malvado . Era um tempo lon­ go . e por isso voltavam para casa cheias de nódoas roxas por causa das pancadas que lhes dávamos . banha e presunto .acontecimentos de um modo geral obscuros . o martelo . Censurava-o mesmo por lhe ter tirado também a oficina e tê-la transformado numa charcutaria. muito longo .tirava o sangue aos outros . feito de matérias heterogéneas . nossa companheira de escola. to­ das as ferramentas próprias do ofício de carpinteiro . durante o qual não tínhamos existido. Dom Achille devia ter-se ma­ nifestado em toda a sua monstruosa natureza antes de nós nascermos . . a ca­ neta. Acusava-o de lhe ter tirado sub-repticiamente . na escola e fora dela.26 Elena Ferrante dom Achille tivesse o ouvido bem apurado e conseguisse ouvir os insul­ tos mesmo a grande distância. Era isso que nessa época a deixava perplexa e por vezes até a enervava. para o interior da matéria de que era composto dom Achille . crianças mais miseráveis do que nós . salames. um carpinteiro muito habilidoso que andava sempre sem cheta. no armazém das traseiras do bar Solara. Por razões obscuras atribuía a sua ruína a dom Achille . como um enxame metálico . de fisionomia animal-mineral incerta. Durante anos vi-lhe sair do corpo tosco e pesa­ do .que acabou por me transmitir o seu nervosismo . enquanto o dele nunca vertia. e de outros dois . Factos ocorridos em tempos obscuros . Peluso era o pai de Carmela. Não só perdia tudo ao jogo como andava à pancadaria em público . o tomo e milhares de pregos a serem suga­ dos . o senhor Peluso parecia-nos a imagem do desespero .. mas sim o senhor Peluso . Mas parecia que não lhe importava tanto aquilo que acontecera antes de nós . a borracha. de Pasquale . talvez nem fosse possível fazer-lhe um arranhão . com as quais eu e Lila às vezes brincávamos e que na escola e não só tentavam sempre roubar as nossas coisas . como o facto de ter realmente havido um antes . Porém. Todas as vezes que o víamos . porque não sabia como matar a fome à farm1ia. Quando nos tomá­ mos amigas falou-me tanto daquela coisa absurda . o inimigo figadal de dom Achille não era o meu pai . morta­ dela. também sob a forma de enxame . pois perdia ao jogo tudo o que ganhava.o «antes de nós» . como se o corpo tenebroso dele fosse um íman .parecia .

e que dom Achille se afastara de Stefano . conciliadoras . uma parente da mãe . Não tenho saudades da nossa infância. quase invisíveis . É claro que teria gostado das maneiras delicadas que a professora e o padre pregavam. agarravam-se pe­ los cabelos . de Pinuccia. das ervas malcheirosas a que chamavam fedorentas . fazendo as nossas mães e avós ficarem raivosas como cadelas sedentas . de Alfonso . Fazer mal era uma doença. Eram mais contaminadas do que os homens. A vida era assim e mais nada. Lila ficou muito marcada por aquilo que aconteceu a Melina Cappuc­ cio . e da mulher e . com o sangue a correr-lhe das inúmeras fe­ ridas na cabeça e por todo o lado . saíam dos charcos . das salamandras . e metiam-se na água e na comida e no ar. quando se zangavam enraiveciam-se de tal maneira que nunca mais lhes passava. das carruagens de comboio abando­ nadas do lado de lá do aterro . descarregava caixas no mercado da fruta e . Tinha pouco mais de trinta anos e seis filhos . o senhor Peluso se pusera a gritar furiosamente contra dom Achille . todos os dias . s e ati­ rara a Peluso . apresentando-se por u m instante n a sua forma mais horripilante . desmaiado . à saída da missa. mas parecia-nos uma velha. ao passo que as mulheres . em casa e fora dela. e ainda não nos falávamos . que apareciam de noite no bairro . quando constou que mesmo e m frente da igreja da sagrada Fanu1ia. magoavam-se . sem que o pobre homem pudesse ao menos dizer: socorro ! 5. E eu também. e ali o deixara. Aconte­ cia-nos de tudo . mas sentia que esses modos não eram adequados para o nosso bairro . mas não me lembro de ter alguma vez pensado que a vida que nos calhara fosse particular­ mente desagradável . mesmo para as raparigas . Melina morava no mesmo pré­ dio que os meus pais. As mulheres lutavam mais umas com as outras do que os homens . antes que os outros a tomassem difícil a nós . foi cheia de violência. crescíamos com a obrigação de tomá-la difícil aos outros . do pó . Em pequena imaginava animais pequeninos . das pedras . das rãs . o filho mais velho . o levantara no ar e o lançara contra uma árvore do jardim.A Amiga Genial 27 Andávamos na segunda classe . que era da nossa idade . O marido era da mesma idade . nós no segundo andar e ela no terceiro . talvez . que pareciam ser caladas . porque eles enfureciam-se a todo o passo mas acabavam por se acalmar. das moscas .

casa. com um rosto altivo . A guerra que se seguiu a princípio pareceu-me divertida. sabe-se lá o que aconteceu a Melina. Lidia. em que todo o bairro participou . a andar pela casa juntamente com os filhos endiabrados . na oficina de Gorresio . Lidia fazia barulho de dia por cima dela. Era um homem amistoso mas muito sério . Todos os homens da vizinhança. roupas e sapatos usados . com o meu pai à cabeça. Antonio . Miii-che . A princípio foi muito ajudada por Donato Sarratore . tinha um ordenado fixo com que sustentava decentemente a mulher. um por um. A viúva preferia pensar que . Por fora continuou a mesma. o consideravam um tipo efeminado . e cinco filhos . recolhendo dinheiro . seu conhecido . Teve um funeral muito triste . fazia parte do pessoal de bordo da Companhia dos Caminhos de Ferro do Estado . Tudo coisas muito anóma­ las no bairro . e por isso decidiu lutar ferozmente contra Lidia Sarratore . os cabelos já grisalhos . para que ela o libertasse e permitisse assim que ele se juntasse com ela. e arranjando-lhe colocação para o filho mais velho . ia fazer as compras . a voz aguda com que à noite chamava os filhos da janela. Lidia estendia os len­ çóis acabados de lavar e Melina subia para o parapeito e sujava-lhos com uma cana cuja ponta queimara de propósito no lume. por ele ter um feitio tão dócil . Donato era frequentador assíduo da igreja paroquial da Sagrada Fanu1ia e. Quando não andava em viagem no percurso Nápoles-Paola e regresso . Não passava pela cabeça de ninguém que Donato se esfor­ çasse daquele modo para aliviar os trabalhos da mulher. Sarratore tentou por to- . os meus pais também e os pais de Lila igualmente . Decorrido algum tempo . igreja e trabalho . Tal coisa também não passou pela cabeça de Melina. no quarto e último piso . em amor. talvez assas­ sinado ou então de cansaço . Não . que morava no apartamento por cima do dela.28 Elena Ferrante da hortaliça. dentro do seu peito de mulher desolada. com as sílabas alongadas por um desespero raivoso: Aaa-daaa. Uma noite saiu de casa como era habitual e morreu . em paixão . Lidia passava sob as janelas e ela cuspia-lhe para a cabeça ou despejava-lhe baldes de água suja para cima. uma mulher seca com o nariz grande . dedicava-se a arranjos disto e daquilo em casa. a mulher o dominava. esforçou-se muito por ela. le­ vava o filho mais novo a passear no carrinho . e ela insistia em bater no tecto toda a noite com o cabo da esfregona. o mais velho dos quais se chamava Nino . Melina ficou-lhe tão grata que a gratidão se transformou . falava-se disso em minha casa e fora dela entre risotas maldosas . Lembro-me dele baixo e largo . pelo nome. tanto mais que até escrevia poesias e as lia com prazer a quem calhava. mas bonito . como bom cristão . Não se sabia se Sarratore se apercebera disso .

crian­ ças. que habitualmente nos acompa­ nhava. repetindo simplesmente a ex­ pressão que ouvia à mãe em casa. das duas vizinhas a rebolar pela escada agarradas uma à outra. mas era um homem demasiado sensível . gostávamos dele . É difícil dizer porque é que naquele tempo nós . através dela. estávamos do lado de Lidia Sarratore . e termina com a imagem. e ajudei-a a levantar-se . e fê-lo a sangue frio . Uma das muitas cenas terríveis da minha infância come­ ça com os gritos de Melina e Lidia. com palavras duras e raivosas . que tinha mais uns aninhos do que nós . e trazia na mão um cartucho do qual ia tirando qualquer coisa e comendo . Descera do passeio para atra­ vessar a estrada larga e ir ter com Melina. ou seja. a abri-la e a aparecer no patamar seguida por nós . Foi ela a primeira a avistar Melina. poder entrar em contacto com o irmão mais velho . A partir daí comecei a ter medo delas . Marisa chamou-nos a atenção para ela cha­ mando-lhe «a puta» . crianças . ao passo que os de Lidia andavam limpos. Talvez porque ela tinha feições regulares e cabelo loiro . Ou porque os filhos de Melina andavam andrajosos e sujos . depois virei-me para ver o que Lila fazia. como um melão branco que nos escapuliu da mão . sem gritar antes e sem gritar depois . Disse apenas . Ou porque Donato era dela e tínhamos percebido que Me­ lina lho queria tirar. continuando a provocar-se mutuamente . com tanta força que a atirou ao chão . e o mais velho . que se Lidia Sarratore acabasse por ser morta era bem feito . Nino . bem penteados . ainda hoje insuportável para mim . E assim . sem prestar atenção aos ca- . mas sem desprezo . fria e decidida. Um dia vínhamos da escola. mas nunca nos explicou porquê . demasiado delicado . as duas mulheres começaram a trocar insultos quando se cruzavam na rua ou na escada. apesar de ser mais baixa e muito magra. Con­ nosco encontrava-se Marisa Sarratore . Nino . sem uma palavra de pré-aviso . a poucos centímetros dos meus sa­ patos. era bonito . não porque simpatizássemos com ela mas porque esperávamos . e a cabeça de Melina a bater no chão do patamar. Primeiro socorri Marisa. que estava a chorar. continua com a minha mãe a correr para a porta de casa. deu-lhe imediatamente uma bofetada.A Amiga Genial 29 dos os meios que houvesse paz . Só Lila pendia para o lado de Melina. em determinada ocasião . como costumava fazer em todas as situações de violência. com os insultos que gritavam das janelas e depois na escada. e eu pensei que ela en­ carava as coisas dessa forma porque no íntimo era má e também porque ela e Melina eram parentes afastadas . sem arregalar os olhos . Lila. éramos quatro ou cinco meninas . Vinha pelo outro lado da lon­ ga rua em passo lento .

toda de escuro. Ela. e pareceu-me que como consequência disso também Lila morreria. olhando para Lila que por sua vez olhava para a carteira. ganhava os laços com as três cores da bandeira que a professora costurava. como disse. pequena. A professora Olivie­ ro voltou para a escola viva e começou a dar atenção a Lila. longo . apesar de Lila a ter feito cair e a ter manda- . sabia contar um dois três quatro . . era elogiada a toda a hora por causa da caligrafia.breve. um com açúcar e outro com café. foi chamada à escola. morta no local de trabalho como o meu avô e o marido de Melina. por causa do terrível castigo que apanharia.30 Elena Ferrante miões que passavam. Uma manhã o contínuo bateu à porta e anunciou-a. sapatos com um bocado de salto que lhe martirizavam os pés inchados. Esta nova fase começou quando a senhora Cerullo. To­ davia. Mas tudo era muito surpreendente . comunhão . irreconhecível . do qual tirava pedacinhos com a outra mão e comia. etc . que como a maioria das mulheres do bairro . professora e aluna. surpreendentemente . A melhor da aula era eu . Vi-lhe . frases cujo sentido geral me desorientou . nessa época. estava imóvel . Imóvel dentro daquilo que a parente da mãe estava a fazer. No dia em que a professora Oliviero caiu do estrado e foi bater com a maçã do rosto na carteira. Era uma só com Melina. a atravessar a estrada. 6.nada aconteceu . que trazia na mão o sabão escuro e macio acabado de comprar na cave de dom Carla . mãe de Lila. de forma que por agora me limitarei a dizer assim: embora se movesse . Estávamos na primeira classe . julguei-a morta. já conhecia as letras todas . Mas afinal . Logo a seguir entrou Nunzia Cerullo . crisma. imóvel pelo desgosto . Cola­ da. embora o fizesse com a determinação habi­ tual . imóvel de pasmo como as estátuas . eu . apareceu em traje de cerimónia (casamento . algo que me perturbou e que ainda me é difícil definir. vivia entrouxada em chinelos e velhos vestidos coçados . mais na atitude do que no rosto . Limitaram-se ambas a desaparecer. mas de a enaltecer. Andá­ vamos ainda a aprender o alfabeto e os números de um a dez . não com a intenção de a castigar. nervosa. uma pequena bolsa brilhante . dos nossos dias e da nossa memória. escura. A professora aceitou a oferta de bom grado e disse . funeral) . a ela e a toda a turma. durante um período de tempo que não consigo definir . e ofereceu à professora dois saquinhos de papel.

desenhando uma letra mais acima e outra mais abaixo . Verdade que ela era a mais má.» Nunzia Cerullo olhou para a professora com olhos incertos . de facto . «"giz". vendo a correc­ ção . disse-lhe . quase uma careta. ferindo-se na maçã do ros­ to .» Lila foi ao quadro contrariada. atrás do quadro. disse a Lila: «Muito bem. Mas depois deve ter deduzido que Nunzia não sabia ler ou que não tinha a certeza de que a palavra escrita no quadro era mesmo «sol» . casualmente . e deitou-se toda de lado . Depois leu . Pegou num bocado de giz e escreveu no quadro (agora não me lembro o que foi .» Mas a professora tranquilizou-a de imediato: .» Lila. o que está aqui escrito?» Na aula fez-se um silêncio de expectativa. ainda não sabia ler. o que ali está escrito é "sol" . em parte para esclarecer a situação à senhora Cerullo e em parte para encarecer a nossa companheira. por isso vou inventar) a palavra «sol» . e a professora entregou-lhe o giz . a nossa professora. Mas existia um facto que a enchia de alegria enquanto profes­ sora e enquanto pessoa. disse que a melhor da aula era ela. muito concentrada. Depois perguntou a Lila: «Cerullo . que deu vários sinais de irritação . Aqui calou-se. um facto maravilhoso que descobrira havia poucos dias . e franziu o sobrolho . Cerullo . não teria caído do estrado . Depois. ela. vem ao quadro . «Escreve aí» . escreveu: «gi» . A professora a princípio pareceu não compreender porque é que naqueles olhos de mãe não se via o seu próprio entusiasmo . Verdade que era obrigada a castigá-la constantemente com a vara de madeira ou mandando-a ajoelhar-se em cima do trigo rijo. para cima da compa­ nheira de carteira. disse desconsolada à filha: «Erraste .» Depois ordenou-lhe: «Vem cá. quase assustados . Verdade que fizera aquela coisa horrível de atirar peda­ ços de mata-borrão sujos de tinta para cima de nós . A professora acrescentou o «Z» e a senhora Cerullo . como se as palavras não lhe bastassem ou como se quisesse ensinar à mãe de Lila e a nós que os factos contam quase sem­ pre mais do que as palavras .A Amiga Genial 31 do para o hospital . em tom amuado: «Sol. com uma caligrafia trémula. Lila fez um meio sorrizi­ nho . Verdade que se aquela menina não se comportasse de maneira tão indisciplinada.

perguntou-lhe diante de todas nós : «Quem te ensinou a ler e a escrever. a sensação de . para ler à farm1ia as notícias locais mais interessantes . a gáspeas velhas . era um rapaz deste­ mido que se destacava em todos os jogos do pátio e da rua. Segundo dizia Rino . e gozávamos com ele . Enquanto fazia os trabalhos de casa na cozi­ nha. ela sentava-se a seu lado e conseguia aprender mais do que ele .» «Mas em vossa casa ou no prédio há alguém que o possa ter feito?» Nunzia fez energicamente que não com a cabeça. o facto relevante era este: Lila sabia ler e escrever. Era mais provável que ela tivesse compreendido precoce­ mente como funcionava o alfabeto . com um laço cor-de-rosa ao pescoço e apenas seis anos de vida. pois tem. graças às folhas de jornal em que os clientes embrulhavam os sapatos velhos e que o pai às vezes levava para casa. o irmão mais velho de Lila. olhando para as letras e para as gravuras do seu silabário . a menina tinha aprendido a ler por volta dos três anos . quando o encontrávamos . de cabelos e olhos escuros e de bata. sobretudo . A Lila tem de praticar. de olhos baixos: «Eu . nem um minuto. as meninas .» 7. Rino era quase seis anos mais velho do que Lila. Nós . começou a levá-lo todos os dias para a sua oficina de sapateiro numa ruela do outro lado da rua larga. Mas ler. chamávamos-lhe chineleiro . respondeu: «EU . não eram coisas para ele. sobretudo no lançamento do pião.32 Elena Ferrante «Não . Ainda ele não tinha dez anos quando o pai . Cerullo?» Cerullo . fosse de uma maneira ou de outra. com evidente admiração . Talvez fosse por isso que ele se gabava de estar na origem da proeza da irmã. a fazer os trabalhos de casa. escrever. para lhe ensinar o ofício de remen­ dão. pequena. não . Quem a ensinou?» A senhora Cerullo disse . Então a professora dirigiu-se a Lila e . Mas a verdade é que nunca tivera um silabário e nunca se sentara. a massa de sapateiro . não . aprender poesias de cor. Fernando . E daquela manhã cinzenta em que a pro­ fessora no-lo revelou ficou-me na lembrança. sentíamos-lhe o cheiro a pés sujos . não . fazer contas . Portanto. Não importa. mas já sabe ler e já sabe escrever. era impossível que Lila tivesse aprendido devido à aplicação escolar dele .

vem sentar-te ao pé de mim. aprendia. berrava-lhe que ele tinha de inventar qualquer coisa. quando não conseguia dormir e caminhava pelo corredor. que assim não se podia continuar. nem quando perdia a paciência. Era aloirada. Prometi aos dois que seria boa aluna. que nós deixamos-te estudar. Discutiam. era o sítio onde me sentia mais em segurança. porta-te bem com a professora. ela chamava-lhe a perna ofendida. tinha a impressão de que ela fazia tudo para me dar a perceber que eu era supérflua na vida dela. fazia com o má­ ximo cuidado tudo o que me diziam para fazer. gabava os meus caracóis loiros. e o passo dela perturbava-me . Fora ele . Em casa era a preferida do meu pai e os meus irmãos também me esti­ mavam. ia à cozinha. e imaginava-a com os olhos furiosos . que me dissera no primeiro dia de escola: «Lenuccia.» Aquelas palavras tinham-me assustado muito. coisa que ela provavelmente intuía. A professora tinha sempre junto de si uma cadeira vazia e chamava as melhores alunas para ali se sentarem. nem eu com ela. que lhas impusera. O problema era a minha mãe. Já nessa altura. todavia. de olhos azuis . Repugnava-me o seu corpo . E as coisas tinham logo corrido tão bem que a professora me dizia muitas vezes: «Greco . recomeçava. Desde o primeiro dia que a escola me parecera um lugar muito mais bonito do que a minha casa. voltava para trás . opulenta. Era o . gostava de agradar a toda a gente . e não a minha mãe . Mas gostava sobretudo de agradar à professora. como prémio . Mas nunca se sabia para onde o seu olho direito estava a olhar. Eu . Mas como o meu pai nun­ ca levantava a voz . Às vezes ouvia-a esmagar com o calca­ nhar. Não era feliz . sen­ ti que fora a minha mãe que lhas sugerira. embora pronunciadas por ele . o papá precisa de ajuda e tu vais trabalhar. Não simpatizava comigo . sobretudo de noite . Em todo o bairro . contra ela. cheia de raiva. as coisas com ela nunca corriam bem. com certeza. E a perna direita também não funcionava bem. Coxeava. as baratas que se introduziam pela porta de entrada. como quando se irritava comigo . eu tomava sempre o partido dele . se não fores a melhor.A Amiga Genial 33 fraqueza que essa notícia causou em mim. nos primeiros tempos . com pouco mais de seis anos . Mas se não fores boa aluna. as tarefas da casa consumiam-na e o di­ nheiro nunca chegava. estava sempre sentada a seu lado . Zangava-se muitas vezes com o meu pai . que era porteiro na câmara. embora ele às vezes lhe batesse e soubesse ser ameaçador para mim. ia para lá cheia de entusiasmo . Ela incitava-me com palavras encorajadoras . Estava com atenção nas aulas .» Era um grande privilégio . e assim reforçava em mim o desejo de fazer tudo bem.

8. Com efeito .34 Elena Ferrante contrário da minha mãe . me cobria tan­ tas vezes de repreensões . continuou a elogiar Marisa Sarratore . nunca a perder de vista. como todas . claro está. E mais ainda: passou a chamá-la mais vezes do que a mim para nos sentarmos a seu lado . Tal­ vez fosse por isso que fixei o pensamento em Lila. que só me apetecia esconder-me num canto escuro e esperar que ela nunca mais me encon­ trasse . A princípio talvez nada. principalmente . acompanhando a sua passada. que . Decidi que tinha de me regular por aquela menina. mais subtil . dava ponta­ pés mesmo quando estava sentada ao lado da professora. e também as suas prepotências . mas dava a impressão de que o fazia mais para ela se portar bem do que para premiá-la. O que essa despromoção causou dentro de mim não sei . e às vezes de insultos . Car­ mela Peluso e . al­ guma coisa me convenceu de que . Acordava com essa ideia na cabeça e levantava­ -me logo da cama. Pensei que . de tal forma que ela se irritava e depressa a mandava voltar para o lugar. deixaria de ser uma ameaça para mim . mesmo que ela se aborrecesse e corresse comigo . que tinha umas perninhas muito magras e ágeis e não parava de as mexer. Ou talvez tenha disfarçado desse modo o senti­ mento de subalternidade . que me estava gravado na cabeça e dela não saía. Além disso . É provável que tenha sido essa a minha maneira de reagir à inveja e ao ódio e de sufocá-los . a mim. hoje é-me difícil dizer com exactidão e clareza aquilo que sen­ ti . Deixou-me brilhar com uma luz viva. mais diligente . para ver se as pernas ainda estavam em ordem. para aceitar de bom grado a superioridade de Lila em tudo . embora as minhas pernas funcionassem bem. Quando Lila se deixava de turbulências e me passava à frente sem esforço . encorajou-me a ser cada vez mais disciplinada. a professora comportou-se de maneira muito perspicaz . se eu andasse sempre atrás dela. Mas foi sem dúvida nessa altura que nasceu em mim uma preocupação . Preparei-me . Então . um pouco de ciúmes . Depois aconteceu que a senhora Cerullo veio à aula e a profes­ sora Oliviero nos revelou que Lila estava muito mais adiantada do que nós . o passo da minha mãe . corria constantemen­ te o risco de ficar coxa. a professora elogiava-me primeiro a mim com mo- . o sortilégio que estava a sofrer. É verdade que chamava Lila muitas vezes para se sentar a seu lado . quando eu estava em casa.

a cantar a tabuada. Dediquei-me ao estudo e a muitas outras coisas difíceis . fazia uma expressão resignada de aceitação . Por isso levava-nos muitas vezes às outras salas de aula. Cácios. ou a Cerullo e a Peluso. que me eram estranhas . a fazer divisões e multiplicações . Apeninos . servia-se de Lila e de mim como prova evidente da sua competência. com os quais por vezes parecia perto de chegar a vias de facto . mas para não cair para terceiro . Graios . bonitinha. Se ficava em segundo lugar depois de Lila. para sondar o nível de competência do inimigo . creio que só receava uma coisa: nunca vir a estar a par de Lila nas hierarquias estabelecidas pela professora Olivie­ ro. quarto . Era uma menina de caracóis loiros . Nesses anos. Se depois fosse a melhor a recitar as poesias . etc . foi a menina mais detestada da escola e do bairro . mas sem exagerar. A professora até dizia que com um pouco de esforço seria capaz de fazer a prova da segunda classe e passar para . Brilhante para mim.parecia-me impossível consegui-lo . Por isso empreguei todas as minhas energias de menina. ou último lugar. quais os professores mais competentes . para competir com outras crianças . não para me tomar a melhor da aula .. só para me manter a par daquela menina terrível e brilhante . sem humilhar professores nem alunos . Habitualmente eu era enviada para apalpar o terreno . .assavam. meninas e meninos . Em permanente conflito com os seus colegas . por culpa do director e também um pouco por culpa da professora Oliviero . a dizer que os Al­ pes eram Marítimos . nunca a ouvir dizer com orgulho que a Cerullo e a Greco eram as melhores . Lila era simples­ mente terrível . Geralmente ganhava eu . Se um dia ela dissesse que as melhores eram a Cerullo e a Sarratore. Pelo menos duas vezes por ano o director obrigava as classes a com­ petirem umas com as outras . Para todos os outros alunos . os outros professo­ res faziam-me uma festa. eu caía morta. os alunos sentiam que me esforçara muito para aprender aquilo tudo de cor.A Amiga Genial 35 deração e só depois exaltava a competência dela. e transmitia uma impressão de delicadeza que enternecia. independentemente dos encontros organizados pelo director. consequentemente . de que era a melhor professora da escola primária do nosso bairro . O caso de Lila era diferente . feliz por me exibir mas não atrevida. de forma a apurar quais os alunos mais brilhantes e. e por isso não me odiavam. Da primeira à quinta classe da primária. Na primeira classe já estava além de qualquer competição possível . A professora Oliviero gostava dessas competições . Sentia mais o veneno da derrota quando era a Sarratore ou a Peluso que me ultrav.

o malvado filho da vendedora de fruta e hortaliça. quando a professora a mandava para o terreno para dizer os modos e os tempos dos verbos . como talvez não humana. porque . um relâmpago . os ânimos exaltavam-se . ou resolver problemas de aritmética. uma picada letal . «com todo o gosto» . no fundo das quais . reconhecer a sua competência era o mesmo que admitir que nunca se­ ríamos capazes de a alcançar. sobretudo . Cheguei a pensar que na escola se apostasse dinheiro .36 Elena Ferrante a terceira com menos de sete anos . Aliás . a do professor Ferrara . «luxuriante» . A sua rapidez mental fazia lembrar um sibilo . havia uma expressão que não só parecia pouco infantil . E o director. Andava desgrenhada. que era inútil competir. a uma quarta classe . e Nino Sarratore . Para nós . mas quando era preciso pu­ xava de um italiano como mandam os livros . nos joelhos e nos cotovelos tinha sempre crostas de feridas que não tinham tempo de sarar. Todos os seus movi­ mentos avisavam que era inútil fazer-lhe mal . Lila fazia de cabeça contas complicadas . Tanto as raparigas como os rapazes a detestavam. fosse como fosse . por qualquer motivo secreto . extinguia-se qualquer hipótese de lhe mostrarem boa cara. ela arranjaria maneira de nos fazer ainda mais mal . Os olhos gran­ des e vivos sabiam transformar-se em duas fendas . e para os profes­ sores e professoras significava aceitar que tinham sido crianças medío­ cres . era tangível . que na altura andávamos na segunda classe . às salas de aula onde . nos ditados não dava um erro . ou de permitir que o director tivesse rédea curta sobre os professores menos capazes ou menos obedientes . Lila era de mais para qualquer pessoa. O ódio . naqueles nossos encontros . crianças . eu sentia-o . privilegiava sobretudo competições desse mesmo tipo . antes de qualquer resposta acertada. Mas foi exagero meu . onde se encontra­ vam Enzo Scanno . por motivos seus igualmente secretos . Além disso . usando até palavras como «avezado» . a professora Oliviero tinha prazer em levar­ -nos. Toda a gente conhecia Enzo . falava sempre em dialecto como todos nós . suja. talvez até muito . Provavelmen­ te era apenas uma forma de dar vazão a velhos rancores . E nada no seu aspecto poderia servir para suavizar essa impressão . podíamos humilhar alunos e professores . De modo que . fomos levadas . não dava abertura para amabilidades . o irmão de Marisa que eu amava. nem mais nem menos . mais do que alunas e professoras . Depois essa distância aumentou . Era repetente e pelo menos duas vezes tinham-no levado a percorrer as salas de aula com um cartaz ao pesco- . O que é certo é que uma manhã nós duas . mas os rapazes mais abertamente . portanto .

se o filho de dom Achille se ia abaixo . eram Nino e . espan­ tou-me a mim e a Lila . vinda das últimas carteiras . Dessa particular ocasião fica­ ram-me na lembrança três coisas . perguntaram-nos a s tabuadas . era tão bom. Alfonso . Por outro lado . Pelo menos duas vezes . escolarmente falando . e percebeu-se que o professor o chamara ali à quarta classe por ter mais confiança nele do que em Nino . da se­ gunda classe como nós .Alfonso Car­ racci . incapaz e delinquente . Como era possível que um rapaz como Enzo .descobrimos logo . A segun­ da é que Nino Sarratore . ficou embasbacado como se não percebesse o que os dois professores lhe perguntavam. primeiro n o quadro e depois de cabeça. dizer o resultado certo . terceiro filho de dom Achille . tão silencioso . os professores . quase nunca respondeu às perguntas . surpreendentemente . quase dois anos mais velho . com o consentimento orgulhoso do . Aquilo espantou os outros alunos . soubesse fazer contas de cabeça complicadas melhor do que eu . preguiçoso . do que Nino Sarratore? Foi como se Lila tivesse acordado de repente . e o que tinha de bom era que não gozava com uma pessoa quando a vencia. em ques­ tões de inteligência. Passava por ser muito inteligente . ouviu-se a voz de Enzo Scanno cheia de desprezo .A Amiga Genial 37 ço . que aparentava menos do que os sete anos que tinha. Lila também não estava à altura. começou a falhar. multiplicações e divisões . quando Lila não respondeu ou Alfonso errou . A cena só se animou quando se passou aos cálculos de cabeça de adi­ ções . apesar da apatia de Lila. devido à convoca­ tória imprevista de Carracci . perguntaram-nos as quatro operações . olhos inquietos . A primeira é que o pequeno Alfonso Carracci me derrotou imediatamente . É claro que Enzo não valia nada. que era conhecido e querido principalmente por mim. Houve uma certa tensão entre Oliviero e Ferrara . Nino . Alfonso fi­ cou fora de jogo num instante e . subtracções . como se não lhe importasse que ele a vencesse . havia escrito «burro» . por isso andavam mais ou menos a par. Os nossos adversários . um menino muito estimado . pelo contrário . tinham-no debaixo de olho só porque era brigão . perante as duas classes reunidas numa mesma sala. do que Alfonso Carracci . de ca­ belos grisalhos cortados à escovinha. Mas a certa altura deu-se um facto imprevisto . tão dócil . em que o professor Ferrara . A terceira é que Lila fez frente ao filho de dom Achille sem garra. que por vezes ficava calada como se não tivesse ouvido a per­ gunta. era calmo e preciso . rosto pequeno e enrugado . Perguntaram-nos os verbos . errava sobretudo as multiplicações e as divi­ sões . um homem alto e muito magro . o director. e depois o desafio começou .

também Nino Sarratore ficara . assim como o bairro . O duelo prosseguiu com contas de cabeça cada vez mais difíceis. Levou chibatadas nos dedos e foi arrastado pelas orelhas até ao canto do castigo . o filho da vendedora de fruta e hortaliça. como se estivesse na rua e não numa sala de aula. muito determinados . em frente de Lila. Ali se iniciaram muitos comportamentos de difícil decifração . Com toda a probabilidade . como calibrara silêncios e respos­ tas de forma a não se deixar vencer. Fora isso que fizera com o filho de dom Achille .38 Elena Ferrante professor. O dia de escola acabou assim. a poei­ ra das ruas . e o professor corrigia-lhe a dicção . Perdeu mas não se conformou . o cheiro miserável dos patamares . Aquela manhã do duelo entre ela e Enzo é importante na nossa longa história. Não sabíamos de onde vinha aquele medo-rancor-ódio­ -condescendência que os nossos pais mostravam sentir pelos Carracci e que nos transmitiam. O professor mandou-o pôr-se de joelhos atrás do quadro . Enzo levantou-se da última carteira entre risadinhas nervosas . mas depois postou-se junto ao quadro . ele próprio admirado de ser tão inteligente . A certa altura o director. Tal como eu . Fizeram frente um ao outro durante muito tempo . iniciou-se um duelo entre Lila e Enzo . passando por cima do professor. O rapaz dava as respostas em dialecto . era capaz de do­ sear o uso das suas capacidades . Depois começou a ir-se abaixo . Não só não quisera vencê-lo . para junto de Lila. sem à-von­ tade . também ela estava proibida de fazer desconside­ rações . A verdade é que não era preciso fazer perguntas . Mas a partir daí o bando dos rapazes começou a atirar-nos pedras . Enzo por fim perdeu . Era assim. não só a dom Achille como a toda a farm1ia. Enzo parecia muito orgulhoso daquele momento de glória. que prontamente trocou de paladino . suas e dos seus acólitos . mas existia. mas ele recusou-se a ir. era um facto . as suas casas de um branco-sujo. e respondia com precisão . sério . porque Lila acordara definitivamente e agora tinha os olhos semicerrados . Nessa altura ainda não éramos amigas e não podia perguntar-lhe porque tivera aquele comportamento . eu calculava qual era a razão . mas o resultado estava sempre certo . 9. chamou ao estrado . Por exemplo . viu-se claramente que Lila. Começou a pra­ guejar. a gritar obscenidades horríveis . se quisesse .

Aquele gaguejar. Como quase nada fora feito de propósito . diria eu hoje. uma após outra. Também Lila a certa altura me parecera bonita. caiu-nos em cima uma caterva de coisas imprevistas . e todavia . tinha uma cara comprida. Mas cá no fundo tinha certas dúvidas . a palidez . estreita nas têmporas . Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso .o qual . Com efeito . Lila podia tê-lo batido imediatamente . de catorze anos . com aquelas pestanas compridas . o roxo que lhe engolira de repente os olhos: como era bonito assim. para sabermos o que se podia esperar. chegando a ameaçá-la. iluminara-se como uma santa guerreira. como me desagradara a sua languidez . apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro . delicado e nervoso. lânguido . E ele? Houve qualquer coisa que me confundiu . A expressão era: «não o fiz de propósito» . A certa altura ela gritou-lhe . Alfonso voltou para casa lavado em lágrimas . Ela. uma cedência. a bonita era eu . Os factos que daí resultaram convenceram-nos de que era conveniente fazer tudo de propósito . que era aprendiz na charcutaria (na antiga oficina do car­ pinteiro Peluso) que pertencia ao pai . que era o sinal de uma chama libertada por cada recanto do corpo . Enzo não entrara de propósito na competição em curso . Lila vencera Enzo de propósito . fora só uma passagem necessária. Para continuar a amá-lo .A Amiga Genial 39 calado para permitir que Alfonso desse o seu melhor. nunca lá punha os pés . poucas coi­ sas gaguejara e por fim calara-se . bem penteado . de incontrolável . de perigoso . Subira-lhe um rubor às faces . que me entristeceu . Eu pusera-me de parte porque Alfonso realmente era melhor do que eu . Geralmente .. Mas quando decidira eliminar Alfonso e Enzo . nem desistência. eu era segunda em tudo . e não derrotara Alfon­ so de propósito . tal­ vez: não foi incapacidade dele . nem o humilhara de propósito . era seca como uma anchova salgada. pelo contrário . mas antes . no entanto decidira apostar no empate . de tal forma que pela primeira vez pensei: Lila é mais bonita do que eu . mas não vencera tam­ bém Alfonso de propósito . Bonito . como acontecera com Lila? Não tinha a certeza. Fora deci­ são dele . Portanto . O seu irmão Stefano . aquilo que aconteceu depois atingiu-nos de modo inespera­ do . Mas a coisa mais importante daquela manhã foi ter descoberto que uma expressão que usávamos muito para nos eximirmos aos castigos continha algo de verdadeiro e. De facto . no dia seguinte apareceu no exterior da escola e disse coisas muito feias a Lila. por ter sido derrotado . por conseguinte . premeditadamente . porém. exalava um cheiro a bravio . quis pensar que tinha sido assim.

desceu do aterro e . Eu não o vi . ao murro e a pontapés . Enzo . nem aos irmãos . quanto mais ela falava. bateu à porta dos Cerullo e fez uma cena de gritos e insultos a Nunzia. nem ao pai . foi trava­ do por Stefano . abeirou-se timidamente de dom Achille e pediu-lhe desculpa. começou a chorar. graças a ele . com o sangue a pingar de sob os cabelos. Rino de manhã foi à procura de Stefano e andaram à luta. Por fim esqueceu-se do que lhe acontecera. que trabalhavam todos no campo e vendiam fruta e hortaliça numa carriola. embora dom Achille tivesse continuado a andar. maior. como se o sapateiro não estivesse a falar com ele . acabaram-se as vinganças . Passado pouco tempo .40 Elena Ferrante um insulto muito obsceno . e se alguém olhava fixamente para a marca esbranquiçada que lhe ficara na pele. Rino era mais velho . o sapateiro . aproximou-se da escola e deu umas valentes pauladas a Enzo . ou pelo menos não me lembro . Dias depois a mulher de dom Achille . mais vermelho ele se fazia e mais os olhos lhe luziam. e aos nossos olhos incompreensível . nem à mãe . quando regressava a casa à noite sem o bando dos campónios. gritando que queria picar-lha com um alfinete . ele empurrou-a contra uma parede e tentou agarrar-lhe a língua. que o atacou à chapada. de modo imprevisto . e. a tia Maria. pai de Lila e de Rino . mas constou que o pedido de desculpa foi feito em voz alta e de maneira que todos ouvissem. um domingo depois da missa Fernando Cerullo . que lhe vinha até à fronte por baixo do cabelo . A mim nunca disse nada. nem sequer uma palavra de agradecimento pelas . Entretanto Enzo . 1 0. e estava mais motivado . E mais ainda: Enzo não falou dessas pauladas ao seu bando . o irmão adorado de Lila. vendo Lila naquele estado . Lila voltou para casa e contou tudo ao irmão Rino . batendo um no outro mais ou menos por igual . fazia um gesto agres­ sivo que significava: para onde estás a olhar? Mete-te na tua vida. Nessa altura. também a sangrar. Enquanto eu berrava de medo e Lila se levan­ tava. Depois tirou a ligadura e mostrava a quem lho pedisse a ferida negra e averme­ lhada nos bordos . um homem baixo e muito magro . que quase nem se defendeu . Pouco tempo depois eu e Lila ferimos Enzo no artelho com uma pedra e Enzo atirou uma pedra que feriu Lila na cabeça. com orgulho . sem dizer do quê . Passaram-se uns dias e Rino . Lila andou uns tempos com a cabeça ligada. nem aos primos .

sustive-o na orla dos olhos brilhantes .» «Só se tu fores buscar a minha. Foi o que nós fizemos . Limitei-me a atirar para a cave a sua Nu . muito assustada. embora natural não fosse e sabendo eu que estava a arriscar muito . e saber que ela estava no fundo da cave . Todas as crianças eram tentadas . brincando num espaço próximo como se cada uma de nós estivesse sozinha. Sentia uma dor violenta.uma das meias-portas estava segura por uma única dobradiça . papagueei imediatamente em voz alta. e Lila de repente enfiou Tina pela abertura da rede e deixou-a cair. o u por lhe ter enxugado o sangue com a ponta da bata. Para mim a boneca tinha vida. pela possibilidade de forçar a porta apenas o necessário para conseguir passar para o lado de lá. fechada por um ferrolho que mantinha os dois batentes mal unidos . «Agora vais-ma lá buscar. no meio de tanta bicharada que lá vivia.» Fomos juntas . um já a ocorrer. A certa altura co­ meçámos a permitir que elas se encontrassem. Mostrávamos as nossas bonecas uma à outra. Mas nesse momento aprendi uma arte em que depois me tornei exímia. como se fosse natural . havia uma porta já nossa conhecida por onde se ia para as caves . a perda de Lila. e ao mesmo tempo amedrontadas . Era uma porta desconcha­ vada . Lila olhou para mim . para experimentar. faço eu» . À entrada do prédio . de tal modo que Lila me perguntou em dialecto: «Não te importas?» Não respondi .. a perda da boneca. incrédula. E assim chegou o dia em que estávamos ao pé da janela da cave que tinha a rede despregada e fizemos uma troca. Era como se estivesse a ser es­ trangulada por dois sofrimentos . à esquerda. «Aquilo que tu fazes . Abrimos uma nesga . Mas a partir dali começou a sujeitar-me a provas de coragem que nada tinham a ver com a escola. fiz apenas um gesto sem despeito . mas nunca esperaria que me fizesse uma coisa tão maldosa. para ver se se davam bem. mas como quem não quer a coisa. Não disse nada.A Amiga Genial 41 pedras que lhe passara. Víamo-nos cada vez mais no pátio . a boneca que acabara de me entregar. Gostava da minha boneca de plástico como se fosse o que eu tinha de mais precioso . mas pensava que a dor de discutir com ela seria ainda mais forte . Senti um desgosto insuportável . e outro possível . ela segurou um bocadinho na minha boneca e eu um bocadinho na dela. Sustive o desespero . deixou-me em deses­ pero . Sabia que Lila era uma menina muito má.

Uma vez lá dentro . que se adensou entre as línguas de luz das frestas . incapaz de me ir embora com ela sem ter encontrado a boneca. a convenceu a tirá-la do rosto e lançá-la para um canto . e gritei . evidentemente . No cimo dos degraus ela disse: . As bonecas não estavam lá. encaminhando­ -se para a saída. Depois voltou-se . Lila repetia em dialecto: não estão aqui . coisa que eu não tinha coragem de fazer. estendeu a mão com cuidado e arrancou-a da armação . com um baque do coração. com órbitas redondas sem pupilas . pois ela apressou-se a dizer em voz ribombante que era só uma máscara. Eu tinha medo . pontiagudos . não estão aqui . Não estão aqui . fazendo um grande barulho e levantando pó . na arrecadação . localizou a abertura por onde tínha­ mos deixado cair Tina e Nu . A pouca luz que penetrava no escuro caía por vezes sobre objectos reconhecí­ veis: o esqueleto de uma cadeira. repetiu Lila. Sentia sob as solas das sandálias objectos que rangiam. mas era só uma folha de jornal amachucada. Foram instantes que me ficaram bem impressos na memória. Passaram-se minutos longos . Aproximámo-nos da parede áspera. não estão aqui . aproximou-se devagar de costas para mim. uma máscara antigás . mas devo ter soltado um grito de verdadeiro terror. incapaz de ficar ali sozinha a procurar. arredondados .42 Elena Ferrante suficiente para os nossos corpos delgados e flexíveis se esgueirarem para o interior. Era isso que o pai lhe chamava. Em redor havia coisas não identifi­ cáveis . quadrados . que parecia zangada e concentrada em encontrar a boneca. caixas de fruta. sem boca. Pusera a cara dos olhos de vidro sobre a sua e agora tinha uma cara enorme . fundos e painéis de armários . insectos. alongada por um queixo em forma de caixa. indicando-a a Lila. Avancei às apalpadelas . tinha uma semelhante em casa. Ela virou-se bruscamente . cascalho . procurei manter-me atrás de Lila. e inspeccionava o chão com as mãos . Uma única vez me pareceu ter visto Tina e . descemos cinco de­ graus de pedra e chegámos a um sítio húmido. Acalmei-me . Lila olhou em volta. vultos escuros . o pé de um candeeiro . apenas aquele queixo escuro de rabeca a balançar-lhe sobre o peito . primeiro Lila e depois eu . Senti-me perdida. o que . inclinei-me para apanhá-la. gonzos de ferro . mal iluminado pelas pequenas aberturas ao nível da rua. Continuei a tremer e a gemer de medo . grumo­ sa. Não tenho a certeza. Vi-a pendurada numa armação de madeira. com uma expressão desolada. Apanhei um grande susto com algo que me pareceu uma cara flácida com uns grandes olhos de vidro . vidro . perscrutámos na sombra.

o desgosto pela perda de Tina era ainda insuportável . a roçar-se pelas formas indistintas das coisas . Acreditava em tudo o que ela me dizia. e ti­ nha um mau gosto na boca. reduzindo-me a um creme repugnante . De um lado a bola de ar subterrânea que pressionava as raízes das casas . melhorei . Parecia acorrentado entre dois pólos escuros . que as roubara. Adoeci com febres pueris. O meu próprio corpo .A Amiga Genial 43 «Dom Achille apanhou-as . As duas bolas estavam como que aparafu­ sadas às extremidades de uma barra de ferro . meteu-as no saco negro . Então abandonei Tina ao seu destino . Ficou-me gravada na mente a massa informe de dom Achille a correr por passagens subterrâneas com os braços pendurados . ou incha­ vam.» E nesse instante ouvi dom Achille a arrastar os pés . as superfícies sólidas se tornavam moles sob os meus dedos. se o apalpasse . o túnel . Tinha ido . os campos. talvez . Fui atacada por uma espé­ cie de disfunção táctil. juntamente com o aglomerado de coisas e de pessoas do dia-a-dia. que na minha imaginação atravessava obliquamente os apartamentos . me moesse . no quarto andar do prédio onde morava dom Achille . pés do feitio de pães redondos. Tinha a certeza de ter bochechas como balões . Do outro lado o globo lá no alto . entrou pela adoles­ cência dentro . a caverna assustadora para onde tinham caído as bonecas . Sentia-me apertada dentro daquele torno . Às vezes tinha a impressão de que . enquanto to­ dos os seres animados em meu redor aceleravam os ritmos da sua vida. segurando com os grandes dedos de uma mão a cabeça de Nu e com os da outra a cabeça de Tina. o que me entristecia. as ruas . uma sensação permanente de náusea que me esgotava. mãos re­ cheadas de serradura. adoeci de novo . senti que o espaço também estava mudado. Foi antes de eu e Lila experimentarmos subir até à casa de dom Àchille . comprimindo-os . lobos das orelhas parecidos com sorvas . cada vez mais apertadas . parecia-me tumefacto . Quando regressei às ruas e à escola. recebi inesperada­ mente a minha primeira declaração de amor. durou anos . Foi um mal-estar resistente . Mas quando estava ainda no começo . deixando espaços vazios entre a massa interna e a folha da super­ fície . os carris . fugi para não me perder de Lila. Sofri muito . como se o conjunto das coisas assim comprimidas . 11. já a torcer-se com agilidade e a esgueirar-se pela porta desengonçada.

disse qualquer coisa que não compreendi . testemunha silenciosa da sua proeza. não contei a ninguém . Não podia saber como eu me sentia desorientada. empurrou-me contra a parede e apoiou nela a mão livre . a filha do pasteleiro . Nos dias de Verão a mãe . Ofe­ gante . Perto de uma esquina. Enzo teve conhecimento e ficou zangado . com o irmãozinho pela mão . como o esforço de acompanhar Lila me consumia. fazia-o sair de casa sempre na companhia de Pino . Dali para a frente comecei a meter-me por ruelas sempre que o via. mas depois deixei-me disso . a proposta que me fizera. se comportara dessa forma quando Enzo lhe pediu namoro . Era um pouco mais alto do que eu . que ela era mentirosa. cortou-me o caminho . quando me apercebi de que Nino Sar­ ratore se arrastava atrás de mim. no italiano da escola: «Quando formos grandes quero casar contigo . olhos intensos com longas pestanas . Embora eu também quisesse casar com ele .» Depois perguntou-me se entretanto queria ser namorada dele . sobretudo à sua irmã. do bairro . também ele começou a evitar-me . A minha mãe tinha-me mandado e estava de volta a casa com o troco bem apertado na mão para não o perder.» Ele ficou de boca aberta. Com o passar do tempo . muito magro . . gritou-lhe . Pino deu-lhe um puxão . não posso . até ameaçara matá-la com uma faca.44 Elena Ferrante comprar pão . Lídia. Por fim disse pausadamente . como uma barra para me impedir de fugir. pescoço alto . quanta angústia me causava a separa­ ção de Tina. das casas . e com a outra puxou para si o irmão . Também eu senti a tentação de contar tudo . Estava pálido . e o pão ainda quente contra o peito . depois punha-se sério . Tinha cabelo rebelde . No entanto . Nino fez menção de me ultrapassar. apeteceu-me responder: «Não . achava-o lindo . em vez de passar adiante . mas . só para estar perto dele e fazermos juntos o caminho para casa. Claro está que me fez a declaração na hora errada. Fugi . nem sequer a Lila quando nos tornámos amigas . que na altura não tinha mais de cinco anos. pouco depois da charcutaria dos Carracci . com a recomendação de nunca o largar. me tirava a respiração . primei­ ro sorria. contrariada. Quantas vezes me aproximara da sua irmã Marisa. até que ponto o espaço comprimido do pátio . Durante um certo tempo deve ter receado que eu contasse às outras meninas . depois sorria de novo . ao pé da escola. Sabia-se que Gigliola Spagnuolo . orelhas um pou­ co afastadas da cabeça. Após muitos olhares longos e assustados que me lançava de longe . O esforço que fazia para conter a timidez era impressionante . eu própria me esqueci disso .

talvez para acenarmos um adeus à farm1ia que se ia embora. assoma­ ram-se às janelas . grandes e pe­ quenas . como eu ouvira murmurar. mais cedo ou mais tarde se descobria que o mal de facto existia. Vi que Lila e Nunzia. Marisa. mas ele parecia ter mais que fazer.foi a mulher que o obrigou à mudança. que lhe quer tirar o marido . Donato Sarratore . entre as quais também essa? Todas nós . também se debruçavam para ver. um que­ branto que tornava indistinto tudo o que me rodeava. e os mesmos olhos azuis e cabelos loiros que o filho Enzo . magra e viúva. a mesma carroça e o mesmo cavalo velho com que ele e ela vendiam fruta e hortaliça pelas ruas do bairro . Havia uma grande curio­ sidade . quando toda a farm1ia Sarratore se mudou . para prender tudo bem à carroça. incluindo a minha mãe e eu . Procurei o olhar de Nino . Parecia que Donato recebera uma casa nova directamente dos Caminhos de Ferro do Estado . como era costume . de palha azul. Como reagiria Melina? Seria verdade . Por fim o desfile de móveis e de trastes acabou . colchões . tendo aos lados as duas filhas . estávamos à janela. Daí a pouco . atarefado a transportar caixas a abarrotar de coisas e senti a culpa. Pensei que talvez ele me tivesse feito a declaração porque já sabia que se ia embora e queria dizer-me antes o que sentia por mim. de seis . a pena de lhe ter dito que não . Empurrava o carrinho com o filho bebé . oito ou nove . Ou então . As mulheres . Uma manhã apareceu no pátio a carroça e o cavalo que per­ tenciam ao marido de Assunta. pusera até um cha­ peuzinho estivo . que era da minha idade . e o seu olho estrábico parecia feito de propósito para detectar os movimentos secretos do bairro . Além de vender fruta e hortaliça. Nicola. para fugir à perseguição de Melina. Era provável . e acondicionaram tudo na carroça. ou para assistirmos ao espectáculo da raiva daquela mulher feia. bugigangas de todo o género . Ouviu-se de repente um barulho de coisas partidas . e Clelia. Nicola e Donato co­ meçaram a passar cordas . Olhei para ele . perto de uma praça que se chamava Piazza Nazionale .A Amiga Genial 45 Voltou-me à lembrança mais tarde . para minha grande contrariedade . também fazia mudanças . sem um motivo concreto . Lídia Sarra­ tore apareceu vestida como se fosse para uma festa.disse a minha mãe . Assal­ tou-me então . Agora ia-se escapulir como um passarinho . móveis . assim que ouviram o ruído das rodas no pátio . o próprio Nino e também Lídia começaram a trazer coisas para baixo . sua mãe . Nicola tinha um rosto largo e atraente . que ela tivera um filho de Sarratore e depois o matara? E seria possível que ela se pusesse a gritar coisas horríveis . A minha mãe via sempre o mal onde .

que gritava: mamã. antes de mais porque era um palito . ressaltavam e se quebravam. embora com a professora exibisse vocábulos da língua . Panelas de cobre . Deve ter percebido que olhava para ela e desapareceu logo da janela. Entretanto a carroça pôs-se em movimento . Ecoou também a voz dolorosa de Ada. a segunda filha de Melina. Quase ao mesmo tempo . Nenhum menino alguma vez declarou o seu amor a Lila. porca e sempre com feridas . e Donato subiu para a carroça. aaah» . ferro puro: manípulo de ferro e base de ferro . em forma de proa. Era um ferro de engomar. Gigliola Spagnuolo recebia constan­ temente propostas de namoro e eu também era muito requisitada. usava o da minha mãe . Melina começou a gritar. Após um instante de hesitação também eu tapei os ouvidos .por muito pouco . Melina. para junto dos seus bens. Por último vi voar da janela uma espécie de mancha negra. fazendo de conta que era um navio numa tempestade . Ao rés da parede . como se estivesse ferida. garrafas . Mas Lila não agradava. enquanto Nino parecia sem vontade de se ir embora. E vi-lhe outra cara. e ela nunca me disse se isso lhe dava desgosto.não o matou . e dom Nicola segurava o cavalo pelo freio enquanto as coisas tombavam no asfalto. Quando ainda tinha Tina e brincava em casa. idêntico. pratos . uma cara de desnor­ teamento . Não a víamos . não . e na rua Lídia Sarratore caminhava de cabeça baixa. mamã. como se precisasse de sons nítidos para compreender. apenas «aaah . a poucos centímetros de Nino . não gritava palavras . 1 2. sem um adeus para ninguém. espalhando estilhaços por entre as patas nervosas do animal. Lídia e os três filhos mais pequenos esgueiraram-se também direito ao portão . e a curiosidade foi tanta que libertei os tímpanos . O objecto despenhou-se em voo picado e com um baque seco fez um buraco no chão . copos . Procurei Lila com os olhos . com as filhas atrás . porém. curvada sobre o carrinho . como que hipnotizado pela quantidade de ob­ jectos frágeis atirados contra o asfalto . Inventava alcunhas humilhantes e. parecia que voavam da janela por vontade pró­ pria. Mas entretanto começaram a voar objectos da jane­ la. Por pouco .46 Elena Ferrante no segundo andar. mas também por ter a língua afiada. Eram gritos de um tal tormento que vi Lila tapar os ouvidos com as mãos. dela não aparecia um braço nem uma mão ao atirar as coisas .

a sua dureza que resplandecia nos dias de sol . esperando que Lila mas oferecesse: toma. . de ser rejeitado por Gigliola Spagnuolo. Embora tivesse mostrado ser muito hábil com as contas de ca­ beça. Pouco falávamos . fica tu com elas . cheio de palavrões . pondo à vista uma polpa granulosa que não sabia mal . eu ficaria mais contente do que se ela me oferecesse uma coi­ sa sua. era demasiado preguiçoso .» Estava a mentir. connosco falava só um dialecto desprezí­ vel. Mas não o fez . ele seguiu-nos pela rua larga e . Eu e Lila come­ çámos a rir.» Foi tudo . e ele não ficou triste por isso . Depois da altercação com Giglio­ la. mas tínhamos sempre uma risada para tudo o que nos acontecia. «Ü que faço eu a isto?» «Come-as . Vi-a pendurar nele a coroa. vimo-lo· cada vez menos . parece-me. aliás . até se alegrou . Disse-lhe apenas . e a pele se ti­ rava facilmente . Ela própria espetou o prego na janela. e antes . Muito depois de lhe ter partido a cabeça com a pedra. não sendo propriamente um pedido de namoro. Só Enzo fez uma coisa que. Enzo virou costas e correu para o trabalho . Enzo nunca mais lhe deu presentes . 13. que contara a toda a gente que ele se lhe declarara. nem lhes tocava. Senti que se ela me desse a prenda que recebera de Enzo . que matava à nascença qualquer sentimento amoroso . era um fruto que não apreciava. e recordo ainda a sensação de traição quando as levou para casa.» «Deita-as fora.» «Verdes?» «Deixa-as amadurecer. Disse aquela frase para fazer uma experiência.» «Não as quero . Atraía-me a cor ver­ melho-amarelada de quando ainda estavam verdes . por isso o professor não o propôs para o exame de admissão . perante os meus olhos incrédulos . era no entanto um sinal de admiração e de respeito.A Amiga Genial 47 italiana que ninguém conhecia. estendeu a Lila uma coroa de sorvas . mas que se desfazia de uma maneira que me fazia lembrar as carcaças dos ratos que encontrávamos na rua. em tom divertido: «Eu gosto de sorvas . Mas quando amadureciam às janelas e se tornavam castanhas e moles como pequenas peras secas .

» «Mas porquê?» «Porque disseram que ela é inteligente . mas o pai nem quis discutir o assunto . nos encantavam a todas . para ir com o pai ao mercado da fruta e da hortaliça ou para correr as ruas do bairro com a carroça. Não consegui . A pro­ fessora chamou por turnos os meus pais. coxa. mas na verdade já trabalhava com os pais .» Discutiram muito . Eu estudei todas as maneiras de convencer o meu pai a não mandar à escola a minha mãe . os de Gigliola e os de Lila. quando estávamos quase a terminar a quinta classe . desenhava com realismo princesas com penteados . de modo que Nunzia teve de ir. Mas os pais de Lila disseram que não . «Para ela poder estudar Latim. depois . além do exame final da instrução primária. Mas nós . pois ela. fomos informadas de que tínhamos capacidades para continuar a estudar. jóias . quando Lila os fazia. «A professora quer dinheiro . e até desenhos muito coloridos que na aula. Perante a sua tímida mas firme recusa. que era porteiro e sabia ter boas maneiras . apresentou­ -lhe composições maravilhosas .48 Elena Ferrante Inscreveu-se na escola comercial . A princípio a minha mãe estava contra e o meu pai indeciso. Nunzia Cerullo fez algumas tentativas com pouca convicção . porque o exame é difícil» «Mas para que serve esse exame?» . vestidos e sapatos nunca vistos em livro nenhum. também o exame de admissão à escola média. por isso depressa se desligou da escola. finalmente deci­ diram deixar-me fazer o exame . Foi ela. mas ela fez com que o director os mandasse chamar. Mas quando a recusa se confirmou . problemas resolvidos com inteligência. perguntou o meu pai . que fosse antes ele. surripiando lápis de cor Giotto . a professora perdeu a calma e arrastou a mãe de Lila até . Levantava-se muito cedo . Nem era in­ tenção deles ir falar com a professora. Diz que tem de lhe dar aulas extraordi- nárias . falou com a professora e regressou a casa carrancuda. severa mas calma. com um olho dançarino e sempre cheia de raiva. nem no cinema paroquial . a professora Oliviero . o meu pai mostrou-se cautelosamente a favor e a mi­ nha mãe resignou-se a ser um pouco menos contrária.» «Mas se é inteligente . para lhes dizer que nós devíamos fazer sem falta. e deu uma bofetada a Rino por ele lhe dizer que fazia mal . senão tiravam-me imediatamente da escola. porque é que a professora tem de lhe dar aulas pagas?» «Porque assim ela viverá melhor e nós pior. mas sempre na condição de eu ser óp­ tima aluna. vendendo produtos do campo .

mas consolei-me pensando que era também o som do coração dela. vi-lhe na boca um dente de ouro muito brilhante . eu do lado da parede e ela do lado do corrimão . do que Alfonso . estava um tanto admirada. e cada acto seu de desobediência tinha desfechos espantosos . mas eu a cada degrau tinha vontade de virar costas e voltar para o pátio. No dia seguinte . Quando falou. Por isso subimos as escadas . mais forte do que o irmão Rino . Fez-se silêncio . Lila. foi naquela ocasião que me convenci que nada podia detê-la. incluindo a professora e os carabinieri. ao lado uma da outra. Mas Nunzia não podia ceder. girou o botão da campainha. que nos podiam meter na cadeia. quando íamos para a escola. procuramos dom Achille . Parecia ser a mais forte das meninas .» . diante dela qual­ quer proibição perdia consistência. se sentiam na obri­ gação de elogiá-la. mas ela decidiu fazê­ -lo na mesma e eu fui atrás dela. Assim. Aliás . Dona Maria abriu-nos a porta. depois ouviu-se chinelar. Dentro do apartamento ouviam-se vozes . Lila disse-lhe em dialecto: «Não . como se fosse uma aluna indisciplinada. Ainda sinto a mão de Lila a agarrar a minha. as mãos suadas bem apertadas . Apesar do seu aspecto frágil . e dá-me prazer pensar que ela o fez não só porque pressentiu que eu não teria coragem de ir até ao último andar. Pensou que procuráva­ mos Alfonso . mais forte do que os nossos pais. Também era proibido ir a casa de dom Achille . Em frente da porta de dom Achille o meu coração batia com força. não tinha autorização do marido . de cortar a respiração . pois todos sabiam que era inútil proibi-la de alguma coisa. Queríamos que dom Achille nos devolvesse as nossas bonecas . embora de má vontade . Acreditei . a professora e o director se cansarem. mais forte do que todos os adultos . subimos os últimos lanços . Sabia como passar dos limites sem nunca chegar a sofrer as consequências . Lila disse-me no tom habitual: mas eu faço o exame na mesma. procurava ter ânimo para continuar. 14. do que Stefano .A Amiga Genial 49 ao director. de Stefano ou de Pinuc­ cia. com aquele gesto . Portanto foi repetindo que não até ela própria. sentia-o nos ouvidos . talvez de Alfonso. Todos acabavam por se dar por vencidos e ainda por cima. mas também porque ela própria. trazia um roupão verde desbotado . depois de uma longa espera muda em frente da porta. mais forte do que Enzo .

não sei onde foi buscar tanta coragem: «0 senhor é que as apanhou . apanhaste a boneca da filha do sapateiro?» «Eu não . «Então?» «As bonecas» . Não podia crer que ele era uma pessoa normal . Lila disse com firmeza. Achei-o feio . um pouco desproporcionado . braços que lhe chegavam aos joelhos e um cigarro na boca.» Dom Achille chegou à luz e. um pouco baixo . Perguntou em voz rouca: «Quem é?» «A filha pequena do sapateiro com a filha do Greco . mas não tanto como imaginara. e que ao fundo entrevíamos Alfonso . pernas curtas . a mim?» . franziu a testa. perguntou dom Achille . Uma figura opulenta surgiu da penumbra. O rosto era de carne .50 Elena Ferrante «Diz-me a mim. a boca era grande e delgada. «Sim. pela primeira vez . Eu nem podia crer que estávamos ali diante de dom Achille . Por isso esperava que de um momento para o outro ele se transfor­ masse . Tinha olhos luzidios . e só tinha algum cabelo desgrenhado por cima das orelhas . disse Lila. Stefano e Pinuccia. ao ouvir estas últimas palavras . comprido . apanhaste-a tu?» Risotas .» «0 senhor apanhou-as lá em baixo na cave . o queixo volumoso com uma cova ao centro . «Que bonecas?» «As nossas . e que Lila falava com ele daquele modo e ele olhava para ela perplexo .» O homem.» Dom Achille virou-se e gritou para o interior do apartamento: «Piou . mas nor­ mal . e a tia Maria a pôr a mesa para o jantar. aborrecido . . e meteu-as no seu saco negro . nós vimo-lo . um pouco calvo . Tinha o tron­ co alto .» «Alfõ .» «É com ele que temos de falar. o alto da cabeça brilhava. com o branco coberto de riachos verme­ lhos .» A mulher gritou: «Achl . vimo-lo bem. via-se a brasa.» Houve um instante de silêncio .» «Não precisamos aqui das vossas bonecas .» Mais chinelar. Nada de minerais nem cintilar de vidros . «Vocês .

à espera que ele tirasse de lá uma faca . as janelas davam para os jardins da igreja e dali avistava-se . A professo­ ra. continuava a dizer-me que ia fazer o exame e que iria para o primeiro ano da escola média.» Eu disse em italiano.» 15. saía a correr. Lila nunca foi . Gigliola Spagnuolo e eu começámos a ir a casa da professora. oferecia-nos bolinhos secos em forma de coração e uma gasosa.» «Vou já. para nos prepararmos para o exame de admissão .» Mas entretanto . Logo a seguir à Páscoa. abriu-o . parece-me . está pronto . Ele debruçou-se do corrimão e resmoneou : «E lembrem-se de que fui eu que as ofereci . com o dinheiro de dom Achille comprou um roman­ ce : Mulherzinhas . não me recordo quanto . disse . «E os livros?» «Emprestas-mos tu . para lá dos campos . no fim da aula. como agora éramos muito amigas . Decidiu comprá-lo porque já o conhecia e gostara . «Vão comprar bonecas» . e Maria gritou: «Achi . como se quisesse perceber bem o sentido das palavras: «Eu peguei nas vossas bonecas e meti-as no saco negro?» Senti que ele não ficara zangado . os postes da linha férrea.» Dom Achille levou uma mão grande e larga ao bolso de trás das cal­ ças . mas sim desgostoso de repente . os pais não tinham concordado em pagar à professora. Mas afinal tirou o porta-moedas . Lila arrancou-lhe o dinheiro da mão e arrastou-me pela escada abai- xo . olhou lá para dentro e entregou algum dinheiro a Lila. Gosta­ va daquelas aulas particulares . como se estivesse a ter a confirmação de uma coisa que já sabia. Mas ela. atenta para não cair nas escadas : «Boa noite e bom apetite . Nós apertámos as mãos com força. A professora morava mesmo ao lado da igreja paroquial da Sagrada Famí­ lia.A Amiga Genial 51 Dom Achille repetiu . na mesma turma que eu . Gigliola passava por baixo das minhas janelas e chamava-me . duas por semana. Disse algo em dialecto que não percebi . Eu já estava pronta.

nos últimos tempos . tantas e tantas vezes que o livro ficou sebento . mas está bem para ti» . Quando houve a questão do exame de admis­ são . Lila. quero ter um salário. começaram a cair fios e a soltar-se os cadernos . ele e o pai discutiam constantemente . Rino . Rino. Por isso uma manhã decidiu-se . tinha onde comer. Então . . achava in­ justo trabalhar tanto como o pai e não receber um centavo . na opinião dela Mulherzinhas era muito bonito . que tinha na montra sei lá desde quando um exemplar de Mulherzinhas amarelecido pelo sol . ou em voz alta.52 Elena Ferrante muito dele . Começavam a falar de dinheiro e acabavam a litigar por causa de Lila. Chegava. terminara Cuo­ re a custo . porque Lila não se sentia à vontade para tê-lo em casa dela. Chamou-me da rua. e não empobrecê-la. esfrangalhado . era um rapaz muito nervoso e iniciara uma batalha pessoal para ser pago pelo trabalho que fazia. ao sítio onde tínhamos enterrado o dinheiro de dom Achille numa caixinha de metal . quando teve de restituir o livro à professora. co­ meçámos a encontrar-nos no pátio para lê-lo . Era uma leitora vagarosa. com a seguinte frase a acompanhar: «Este é para as mais crescidas . o teu pai está a ensinar-te tudo o que sabe. lamentou-se de não poder continuar a reler Mulh er­ zinhas e de não poder falar comigo sobre o livro . O seu raciocínio era: levanto-me às seis. Lila havia lido Mulherzinhas e Coração em pouco tempo . ou em silêncio . Nessa altura Rino teria uns dezasseis anos . e não tarda muito serás capaz de fazer um sapato inteiro . Rino tinha uma cama onde dormir. A ela calhara-lhe Mulherzinhas . Na quarta classe a professora Oliviero tinha dado às melho­ res alunas livros para lermos . dentro do prazo estabelecido pela professora para devolução . porém. venho para a loja e trabalho até às oito da noite. pago-te generosamente ensinando-te o ofício completo . Fernan­ do Cerullo respondia-lhe com aparente paciência: «Eu já te pago. Eu não conseguira lê-lo . principalmente ao jantar. Tu daqui a pouco sabes apenas pôr uns saltos novos ou uma orla. pegámos nele e fomos perguntar à Iolanda da papelaria. e dizia que não havia comparação . por isso discutiam. ao lado . protegia-a. perdeu a lombada. ainda o sou . para que queria dinheiro? A sua obrigação era ajudar a fannlia. Assim que nos tomámos proprietárias do livro . Mas o rapaz insistia. fomos ao paul . uma da outra. ou umas meias-solas. Andámos a lê-lo durante meses . Eu era a guardiã. se chegava. sem uma só palavra que me explicasse do que se tratava. Mas essas palavras escandalizavam o pai e a mãe.» Mas esse pagamento com base no ensino não era bas­ tante para Rino . zangava-se se a apanhasse a ler. gostávamos muito dele . Mas era o nosso livro . O pai . e a mim calhara Coração . tinha-o em casa no meio dos livros da escola.

Falávamos dela como nas histórias se fala da busca de um tesouro . «Se for preciso pagar propinas . tomou-se a nossa ideia fixa. e ainda duas irmãs solteiras de Fernando .A Amiga Genial 53 «Se me pagares . e também os pais de Nunzia. não cabia na sua maneira de ver que ela continuasse a estudar. ela apesar de tudo não tinha rancor ao pai . as coisas alte­ raram-se e começámos a associar os estudos ao dinheiro . e até para as canetas . e a mãe ao fim e ao cabo era da mesma opinião . Conse­ guiria ter um salário e com o seu dinheiro lhe pagaria a escola. para o mapa-múndi . dir-se-ia que a riqueza estava escondida em qualquer sítio do bairro . pedia desculpa com voz rancorosa. Ela nunca mo disse . Ouvindo-nos . que é rapariga. dentro de arcas que quando se abriam soltavam clarões . por razões que eu não com­ preendia. com o único objecti­ vo de fazer do irmão a pessoa mais rica do bairro . mas ficou-me a impressão de que enquanto eu odiava a minha mãe . Por isso . Dizia que ele era todo cheio de gentilezas . . E Lila. «Estudar? Porquê? Eu estudei?» «Não . lhas mandava fazer a ela. viviam todos da pequena oficina de sapateiro . O rapaz . dizia Rino . e odiava-a mesmo . naquele último ano da primária. dizia que no dia do santo do seu nome era ele próprio que lhe levava chocolate quente à cama e quatro bolachas . Depois . dizia que ele . Só o irmão pensava de maneira diferente e lutava corajosamente contra o pai . Dizíamos que quando fôssemos ricas faríamos isto e faríamos aquilo . A farru1ia era nume­ rosa. ele paga-mas» . dizia-me . Disse-me que quando acabasse de estudar queria ganhar muito dinheiro . dizia que o ouvira dizer aos amigos que a filha dele era a pessoa mais inteligente do bairro . que de uma forma ou de outra. Adorava-o. há-de estudar?» O assunto encerrava-se quase sempre com uma bofetada na cara de Rino . mesmo sem querer. não sei porquê . Pensámos que . à espera de que a encontrássemos . Tinha a certeza de que o irmão também lhe daria dinheiro para os livros escolares .» «E tu estudaste?» «Não . para o estojo. Lila ficava calada durante aquelas discussões . encarrego-me de a mandar estudar» . a bata e o laço . profundamente . para os lápis de cor. mostrava-se convencida de que Rino havia de ganhar. A riqueza. sobre a questão do estudo era como falar com uma parede . Mas o que se havia de fazer. E tam­ bém não cabia nas suas possibilidades financeiras .» «Então porque é que a tua irmã. sem chorar. quando precisava de fazer contas . faltara ao res­ peito ao pai .

54 Elena Ferrante

se estudássemos muito , seríamos capazes de escrever livros e que os
livros nos tomariam ricas . A riqueza continuava a ser um resplendor de
moedas de ouro fechadas dentro de inúmeras arcas , mas para a alcançar
bastava estudar e escrever um livro .
«Escrevemos um juntas» , disse Lila uma vez , o que me encheu de
alegria.
Talvez a ideia tenha tomado forma quando ela descobriu que a autora
de Mulherzinhas ganhou tanto dinheiro dessa maneira que deu um pou­
co da sua riqueza à fanu1ia. Mas não garanto . Falámos sobre isso , disse­
-lhe que podíamos começar logo depois do exame de admissão . Concor­
dou , mas não conseguiu resistir. Enquanto eu tinha muito que estudar,
ainda mais por causa das aulas da tarde com a Spagnuolo e a professora,
ela tinha mais tempo livre; meteu mãos à obra e escreveu um romance
sem mim.
Fiquei magoada quando ela o trouxe para eu ler, mas não disse nada,
contive a desilusão e elogiei-a muito . Eram dez folhas de papel quadri­
culado, dobradas e presas com um alfinete de costureira. Tinha uma capa
desenhada a lápis de cor e lembro-me do título . Chamava-se A Fada
Azul, era apaixonante e cheio de palavras difíceis. Disse-lhe que o desse
a ler à professora. Não quis . Implorei-lhe , ofereci-me para ser eu a
entregar-lho . Com pouca convicção , fez sinal que sim.
Um dia, quando estava em casa da professora para a aula, aproveitei
a ida de Gigliola à casa de banho e tirei da pasta A Fada Azul. Disse que
era um romance muito bonito escrito pela Lila e que ela queria que a
professora o lesse . Mas a professora, que nos últimos cinco anos sempre
se entusiasmara com tudo o que Lila fazia, à parte as maldades , respon­
deu friamente:
«Diz à Cerullo que faria bem em estudar para o exame da primária,
em vez de perder tempo» . E embora ficasse com o romance de Lila,
deixou-o em cima da mesa sem sequer olhar para ele .
Aquela atitude desorientou-me . O que é que acontecera? Zangara-se
com a mãe de Lila? Tinha alargado a zanga a Lila também? Estava abor­
recida por causa do dinheiro que os pais da minha amiga não lhe tinham
querido dar? Não compreendi . Uns dias depois , cautelosamente , per­
guntei-lhe se já lera A Fada Azul. Respondeu-me num tom insólito , de
modo pouco claro , como se só eu e ela fôssemos capazes de perceber.
Tenho as frases bem gravadas na memória.
«Sabes o que é a plebe , Greco?»
«Sim. A plebe , os tribunos da plebe , os Gracchi.»

A Amiga Genial 55

«A plebe é uma coisa muito feia.»
«Sim.»
«E se uma pessoa quer continuar a ser da plebe , ela , os filhos, os fi­
lhos dos filhos, nada merecem. Esquece a Cerullo e pensa em ti .»
A professora Oliviero nunca mais disse nada a respeito de A Fada
Azul. Lila pediu-me notícias duas ou três vezes , depois não fez mais
caso . Disse , pesarosa:
«Assim que tiver tempo escrevo outro , aquele não era bom.»
«Era maravilhoso.»
«Metia nojo .»
Mas tomou-se menos vivaça, sobretudo nas aulas , provavelmente
porque percebeu que a professora já não a elogiava, por vezes até se
mostrava incomodada com o seu excesso de qualidades . Quando se
realizou a competição do final do ano ela foi a melhor, mas sem o atre­
vimento de outros tempos . Para terminar o dia, o director apresentou a
quem estava ainda em competição - Lila, Gigliola e eu - um proble­
ma dificílimo que ele mesmo inventara. Gigliola e eu esforçámo-nos
sem resultado . Lila reduziu os olhos a duas gretas como era costume e
concentrou-se . Foi a última a capitular. Disse em tom tímido , insólito
nela, que o problema não se podia resolver porque havia algo errado no
enunciado , mas não sabia dizer o quê . O que ela foi dizer ! A professora
deu-lhe uma grande ensaboadela. Vi Lila no quadro com o giz na mão ,
franzina, muito pálida, a ser atingida por rajadas de frases cruéis . Sentia
o sofrimento dela, não conseguia suportar o tremor do seu lábio inferior
e pouco faltou para eu desatar a chorar.
«Quando não sabemos resolver um problema» , concluiu a professora
com frieza, «não dizemos que o problema está errado , dizemos que não
somos capazes de o resolver.»
O director ficou em silêncio . Tanto quanto me lembro , o dia termi­
nou ali .

16.

Pouco antes do exame final da primária, Lila desafiou-me para fazer
outra das muitas coisas que eu nunca teria tido coragem de fazer sozi­
nha. Decidimos não ir à escola e atravessar as fronteiras do bairro .
Nunca acontecera. Tanto quanto conseguia lembrar-me , nunca fora
além dos prédios brancos de quarto andar, do pátio , da igreja paroquial ,

56 Elena Ferrante

dos jardins , nem alguma vez sentira o impulso de fazê-lo . Passavam
comboios constantemente do lado de lá dos campos , automóveis e ca­
miões circulavam de um lado para o outro na rua larga, mas não me
lembrava de uma só vez ter perguntado a mim mesma, ou ao meu pai ,
ou à professora, para onde iam os automóveis , os camiões , os comboios ,
para que cidade , para que mundo?
Lila também nunca se mostrara particularmente interessada, mas
daquela vez organizou tudo . Recomendou-me que dissesse à minha mãe
que depois das aulas iríamos todas a casa da professora a uma festa de
final de ano escolar, e apesar de eu tentar recordar-lhe que as professo­
ras nunca tinham convidado as alunas todas para ir a suas casas fazer
uma festa, ela disse que precisamente por isso é que devíamos dizer
aquilo . O acontecimento pareceria tão excepcional que nenhum dos
nossos progenitores teria o atrevimento de ir à escola perguntar se era
verdade ou não . Confiei , como sempre , e correu precisamente como ela
dissera. Em minha casa todos acreditaram, não só o meu pai e os meus
irmãos, como também a minha mãe .
Na noite anterior não consegui dormir. O que haveria para além do
bairro , para além do seu perímetro que tão bem conhecia? Atrás de nós
elevava-se uma colina densamente arborizada e uns escassos edifícios
junto dos carris cintilantes. Na nossa frente , para lá da rua larga, esten­
dia-se uma rua toda esburacada que bordejava os pauis . À direita, quan­
do se saía do portão , havia uma faixa de terras sem árvores por baixo de
um céu enorme . À esquerda havia um túnel com três bocas , mas se
trepássemos até aos carris da linha férrea, nos dias limpos via-se , depois
de algumas casas baixas e muros de tufo e uma vegetação cerrada, uma
montanha azul com um cume mais baixo e outro um pouco mais alto ,
que se chamava Vesúvio e era um vulcão .
Mas nada daquilo que tínhamos diante dos olhos todos os dias , ou que
podíamos avistar se subíssemos a colina, nos impressionava. Habituadas
pelos livros da escola a falar com muita competência daquilo que nunca
tínhamos visto , o que nos excitava era o invisível . Lila dizia que mesmo
na direcção do Vesúvio era o mar. Rino , que já lá fora, contara-lhe que
era feito de água azul e cintilante , uma beleza de espectáculo . Ao domin­
go , principalmente no Verão , mas também muitas vezes no Inverno , ele
corria para lá com os amigos para ir tomar banho , e prometera-lhe que a
levava. Não era ele o único que tinha visto o mar, evidentemente , outros
nossos conhecidos também o tinham visto. Uma vez Nino Sarratore e a
sua irmã Marisa falaram-nos do mar, num tom de quem achava normal

A Amiga Genial 57

ir lá de vez em quando comer biscoitos e marisco . Gigliola Spagnuolo
também já lá estivera. Ela, Nino e Marisa tinham a sorte de ter uns pais
que levavam os filhos a fazer passeios até longe, não só meia dúzia de
passos até aos jardins em frente da igreja. Os nossos não eram assim,
faltava-lhes tempo , faltava-lhes dinheiro , faltava-lhes vontade . Na verda­
de parecia-me que tinha uma vaga lembrança azulada do mar, a minha
mãe dizia que me levara com ela em pequena, quando ia fazer banhos de
areia à perna ofendida. Mas eu pouco acreditava na minha mãe , e com
Lila, que nada sabia a tal respeito , eu admitia que também nada sabia. De
modo que ela planeou fazer como Rino , pôr-se a caminho e chegar lá
sozinha. Convenceu-me a ir com ela. No dia seguinte .
Levantei-me cedo , fiz tudo como se fosse para a escola, as sopas de
pão no leite quente, a pasta, a bata. Esperei por Lila em frente do portão
como sempre , só que , em vez de irmos para a direita, atravessámos a rua
larga e seguimos para a esquerda, na direcção do túnel .
Era de manhã cedo e já fazia calor. Havia no ar um odor forte a terra
e a erva que enxugavam ao sol . Subimos por entre arbustos altos , por
veredas incertas que se dirigiam para os carris . Chegámos a um poste de
electricidade , tirámos as batas e metemo-las nas pastas , que esconde­
mos no meio das moitas . Depois corremos pelos campos que conhecía­
mos bem e voámos excitadas por um declive que nos levou até ao túnel .
A boca da direita era muito escura, nunca tínhamos penetrado naquela
obscuridade. Demos as mãos e seguimos . Era uma passagem comprida,
o círculo luminoso da saída parecia distante . Quando nos habituámos à
penumbra vimos , aturdidas pelo ribombar dos passos , as linhas de água
prateada que deslizavam pelas paredes e as enormes poças . Prossegui­
mos , muito tensas . Lila soltou um grito e riu-se da explosão violenta dó
som. Depois gritei eu_ e ri-me também. A partir daí não fizemos senão
gritar, ao mesmo tempo e em separado . Risadas e gritos , gritos e risadas ,
só pelo prazer de os ouvir ampliados . A tensão afrouxou , começou a
viagem.
Tínhamos diante de nós muitas horas durante as quais nenhum dos
nossos familiares nos procuraria. Quando penso no prazer de ser livre,
penso no início daquela jornada, quando saímos do túnel e nos encontrá­
mos numa estrada sempre a direito a perder de vista, a estrada que , segun­
do o que Rino dissera a Lila, temos de percorrer toda para chegar ao mar.
Senti-me exposta ao desconhecido com alegria. Nada que fosse compará­
vel com a descida às caves ou a subida até casa de dom Achille. Estava
um sol nebuloso , um forte cheiro a queimado . Caminhámos muito tempo

58 Elena Ferrante

entre muros desmoronados invadidos pelas ervas , edifícios baixos de
onde vinham vozes em dialecto , por vezes um clangor. Vimos um cavalo
descer cautelosamente uma ladeira e atravessar a estrada a relinchar. Vi­
mos uma mulher jovem debruçada de uma varanda, a pentear-se com o
pente fino para os piolhos . Vimos um grupo de garotos ranhosos que pa­
raram de brincar e nos olharam com ar ameaçador. Também vimos um
homem gordo em camisola interior, que saiu de uma casa em ruínas , abriu
as calças e nos mostrou o pénis. Mas não tivemos medo de nada: Dom
Nicola, o pai de Enzo , às vezes deixava-nos fazer festas ao cavalo, os
garotos também no nosso pátio eram ameaçadores , e havia o velho dom
Mimi que nos mostrava o seu coiso asqueroso sempre que vínhamos da
escola. Durante pelo menos três horas de caminho a grande estrada que
percorríamos não nos pareceu diferente do segmento que víamos todos os
dias . E não senti a responsabilidade do caminho certo . Íamos de mão
dada, avançávamos lado a lado, mas para mim, de acordo com o que era
costume, era como se Lila fosse dez passos à minha frente e soubesse com
precisão o que fazer, por onde ir. Estava habituada a sentir-me segunda
em tudo , por isso estava certa de que para ela, que desde sempre era a
primeira, tudo era claro: o passo , a contagem do tempo de que dispúnha­
mos para ir e voltar, o percurso para chegar ao mar. Para mim era como
se ela tivesse tudo arrumado na cabeça, de tal modo que o mundo em
volta não conseguiria criar desordem. Abandonei-me com alegria. Lem­
bro-me de uma luz difusa que não parecia vir do céu e sim das profunde­
zas da terra, mas que vista à superfície era fraca, feia.
Depois começámos a ficar cansadas , a ter sede e fome . Nisso não tí­
nhamos pensado . Lila abrandou o passo , e eu abrandei também. Surpre­
endi-a duas ou três vezes a olhar para mim como se estivesse arrepen­
dida de me ter feito uma maldade . O que se passava? Reparei que se
virava muito para trás e comecei a virar-me também . A mão dela come­
çou a suar. Há muito tempo que se deixara de ver atrás de nós o túnel ,
que era a fronteira com o bairro . A estrada já percorrida era-nos pouco
familiar, tal como a que continuava a abrir-se diante de nós . As pessoas
pareciam totalmente indiferentes à nossa sorte . E entretanto ia surgindo
à nossa volta uma paisagem de abandono: bidões amolgados , madeira
queimada, esqueletos de automóveis , rodas de carroça com os raios
partidos , móveis semidestruídos , ferragens ferrujentas . Porque olhava
Lila para trás? Porque deixara de falar? O que é que não corria bem?
Olhei melhor. O céu , que a princípio estava muito alto , era como se
tivesse baixado . Atrás de nós estava a ficar tudo negro , viam-se nuvens

no espaço de poucos segundos transformaram-se numa cascata de água. Estávamos ensopadas . Fizemos o caminho em passo rápido . camiões ruidosos passa­ vam. trovejou com mais força. o mar não devia estar longe . Tinha a boca aberta. disse Lila. Corremos . os olhos assustados . mas parecia ser pressionada dos lados por um cinzento violáceo prestes a sufocá-la.A Amiga Genial 59 grossas . Era um esquema de raciocínio que aprendera com ela e admirava-me que não o pusesse em prática. Senti medo . os olhos arregalados . pesadas . os vestidos de repente ensopados . cegas pela chuva. as pingas engrossaram ainda mais . velozes. e apertava-me a mão com força. olhava nervosamente para a frente . que ela também tenha medo? O que se passa com ela? As primeiras grandes pingas chegaram. primeiro debaixo de grandes báte­ gas . para o lado . os pés nus dentro das sandálias gastas . Nenhuma de nós se lembrou de procurar abrigo . Não percebi . Corremos até ficar sem fôlego .» «Não .» «Então vamos até ao mar. pousadas por cima das árvores e dos postes da luz . bateram na poeira da estrada e formaram manchas castanhas . com o coração em tumulto . que não ade­ riam ao terreno enlameado . Passámos de novo pelo túnel . «E o mar?» «É longe de mais.» «Porquê?» Vi-a agitada como nunca vira. mas o que mais me assustou foi a expressão de Lila. depois sob uma chuva miudinha. quer continuássemos em frente . Por que razão não prosseguíamos? Tínhamos tempo . para trás . e quer voltássemos para casa. os cabelos colados à cabeça. levantando ondas de lama. pelo contrário. Havia qualquer coisa .que de repente a impeliu a arrastar-me para casa à pressa. se chovesse molhávamo-nos na mesma. os lábios roxos . Uma luz violácea fendeu o céu escuro . À nossa frente . a luz ainda encandeava. Depois não conseguimos mais . atravessámos os cam- . Será possível . Ouviram-se trovões ao longe . e por fim sob um céu cinzento . Levan­ tou-se vento . perguntei-me . nova para mim. Relâmpagos . trovões .qualquer coisa que ela tinha na ponta da língua mas não se resolvia a dizer-me .» «E a casa?» «Também. Lila deu-me um puxão . um rio de água corria de cada lado da estrada. «Voltemos» . foi com pouca convicção que corri na direcção do bairro . abrandámos .

Encontrámo-nos nos jardins .ex­ tinguia em mim todos os vínculos e todas as preocupações. Seria possível? Arrastara-me consigo na esperança de que os meus pais . já não me mandassem para a escola média? Ou trouxera-me para trás a toda a pressa justamente para evitar esse casti­ go? Ou . e eu levara tareia por nada. Não conseguia compreender. Lila de re­ pente arrependera-se do plano que concebera. Durante toda a noite tentei perceber o que tinha de facto acontecido . como castigo . ela descobriu as nódoas negras nos meus braços e perguntou-me o que acontecera. Ele enervou-se . perplexa.interrogo-me hoje . para que ela não se zangasse com Lila. Em casa dela ninguém dera por nada. Ao serão a minha mãe contou tudo ao meu pai e obrigou-o a bater­ -me . Quando avistei ao longe a sua figura a coxear. encaminhámo-nos para casa. sentia-me longe de tudo e de todos . A minha mãe fora até lá com o guarda-chuva. No dia seguinte não a esperei ao portão . sempre de olhos baixos .descobrira-o pela primeira vez . Primeiro ele deu-lhe uma bofetada e depois . Ocorrera uma misteriosa inversão de atitudes . «Só te bateram?» «Que mais haviam de me fazer?» «Ainda te vão mandar estudar latim?» Olhei para ela. quis regressar aos confins do bairro . Tensa. fazendo-nos es­ tremecer. Esbofeteou-me e bateu-me com o guarda-chuva. as coisas agora estavam assim. pois não queria fazê-lo . Lila pirou-se . Lila não voltou a dar-me a mão . e a distância . fui sozinha para a escola. Nem me deixou falar.desejara uma coisa e outra em momen­ tos diferentes? . gritando que me mata­ va se eu voltasse a fazer algo daquele género . No bair­ ro . para me acompanhar até à festa da professora.60 Elena Ferrante pos . o céu fizera-se negro à hora da saída da escola. e começaram a discutir. Encontrámos as pastas . irritado consigo mesmo . deu-mas pela medida grande . Os arbustos carregados de água roçavam por nós . corri-lhe imediatamente ao encontro deixando Lila para trás . Encolhi os ombros. vestimos as batas secas por cima da roupa molhada. Depressa compreendemos que nada correra como previsto . Descobrira que eu não me encontrava na escola e que não havia festa nenhuma. apesar d a chuva. teria prosseguido caminho . Devíamos ter ido ao mar e não fomos . Havia horas que me procurava. renunciara ao mar. Eu .

A Amiga Genial 61

17.

Fizemos juntas o exame final da primária. Quando percebeu que eu
faria também o de admissão , perdeu a energia. Aconteceu algo que sur­
preendeu toda a gente: eu passei nos dois exames com dez em todas as
disciplinas ; Lila passou no exame da primária com nove em todas e
oito em aritmética.
Não me disse uma única palavra de raiva ou de descontentamento .
Mas começou a fazer conluio com Carmela Peluso , a filha do carpin­
teiro-batoteiro , como se eu já não bastasse para ela. No espaço de pou­
cos dias formámos um trio , no qual eu , apesar de ter sido a número um
da escola, estava quase sempre em terceiro lugar. Falavam e diziam
piadas uma à outra constantemente , ou melhor, Lila falava e dizia pia­
das , Carmela ouvia e divertia-se . Quando dávamos os nossos passeios
entre a igreja e a rua larga, Lila ia sempre no meio , e nós , uma de cada
lado . Se notava que ela tendia para se aproximar mais de Carmela, eu
sofria com isso e tinha vontade de voltar para casa.
Nesse último período da primária parecia que andava atordoada, co­
mo se tivesse sofrido um golpe de sol . Já fazia muito calor e costumá­
vamos molhar a cabeça na fonte . Recordo-a com os cabelos e a cara a
pingar água e sempre a querer falar da nossa ida para a escola no ano
seguinte . Tornara-se o seu tema preferido e tratava-o como se fosse um
dos contos que tinha intenção de escrever para ficar rica. Agora, ao fa­
lar, dirigia-se de preferência a Carmela Peluso , que no exame da primá­
ria tivera sete em tudo e também não fizera o exame de admissão .
Lila tinha muito jeito para contar histórias , parecia ser tudo verdade ,
a escola para onde iríamos , os professores , fazia-me rir e preocupava­
-me . Mas uma manhã interrompi-a.
«Lila» , disse-lhe , «tu não podes ir para a escola média, não fizeste o
exame de admissão . Nem tu nem a Peluso podem ir.»
Zangou-se . Disse que iria na mesma, com exame ou sem exame .
«E a Carmela também?»
«Também .»
«Não é possível .»
«Então vais ver.»
Mas as minhas palavras devem ter-lhe dado um grande abanão . A
partir daí deixou de contar histórias sobre o nosso futuro escolar e tor­
nou-se silenciosa. Depois , com uma determinação repentina, começou
a atormentar a farm1ia, gritando que queria estudar latim como Gigliola

62 Elena Ferrante

Spagnuolo e eu íamos estudar. Zangou-se sobretudo com Rino , que
prometera ajudá-la e não o fizera. Era inútil explicar-lhe que já não
havia nada a fazer, pois mostrava-se ainda mais irracional e mais má.
No princípio do Verão assaltou-me um sentimento difícil de explicar
por palavras . Via-a nervosa e agressiva como sempre fora, e isso alegra­
va-me , reconhecia-a. Mas também sentia, por trás dos seus antigos
modos , um desgosto que me incomodava. Ela sofria, e a sua dor não me
agradava. Preferia-a quando ela era diferente de mim, muito distante
dos meus anseios. E o mal-estar que sentia por descobrir que ela era
frágil transformava-se por vias secretas numa necessidade minha de ser
superior. Sempre que podia, cautelosamente e de preferência quando
Carmela Peluso não estava presente , arranjava maneira de lhe recordar
que a minha caderneta escolar era melhor do que a dela. Sempre que
podia, cautelosamente , lembrava-lhe que ia para a escola média e ela
não . Deixar de ser a segunda, passar-lhe à frente , pela primeira vez pare­
ceu-me um sucesso . Teve de se compenetrar disso e tomou-se ainda
mais áspera, mas não para comigo, para a fanu1ia.
Muitas vezes , enquanto esperava que ela descesse para o pátio , ouvia
os seus berros que vinham das janelas . Lançava insultos no pior dialec­
to de rua, tão pesados que ao ouvi-los me ocorriam pensamentos de
ordem e de respeito , não me parecia certo ela tratar os adultos daquela
maneira, e até o irmão . É verdade que o pai , o sapateiro Fernando , quan­
do estava com os azeites tomava-se mau . Mas todos os pais se enfure­
ciam. Além disso o dela, se não fosse provocado , era um homem gentil ,
simpático , muito trabalhador. De cara parecia-se com um actor que se
chamava Randolph Scott, mas sem a sua finura. Era mais grosseiro ,
nada de tons claros , tinha uma barbaça preta que começava logo abaixo
dos olhos , e umas mãos largas e curtas sulcadas de porcaria em cada
prega e debaixo das unhas . Gostava de brincar. Quando eu ia a casa da
Lila ele prendia-me o nariz entre o indicador e o médio e fingia que mo
arrancava. Queria fazer-me acreditar que mo tinha roubado e que ele
agora se agitava, aprisionado entre os seus dedos , tentando escapulir-se
para voltar para a minha cara. Eu achava graça àquilo . Mas se Rino , ou
Lila, ou os outros filhos , o faziam zangar, até eu me assustava ao ouvi­
-lo da rua.
Uma tarde , não sei o que aconteceu . No tempo quente ficávamos na rua
até à hora do jantar. Dessa vez, Lila não se deixava ver, e fui chamá-la por
baixo das janelas , que eram no rés-do-chão. Chamei «Ll , Ll, Ll» , e a mi­
nha voz juntava-se à de Fernando , muito alta, à da mulher e à voz insis-

A Amiga Genial 63

tente da minha amiga. Ouvi claramente que se passava qualquer coisa que
me aterrorizava. Das janelas saía um napolitano grosseiro e o ruído de
objectos a partirem-se. Aparentemente não era nada diferente daquilo que
acontecia em minha casa quando a minha mãe se enfurecia porque o di­
nheiro não chegava, e o meu pai se zangava porque ela já tinha gastado a
parte do ordenado que lhe dera. Na realidade , havia uma diferença subs­
tancial. O meu pai continha-se , mesmo quando estava furioso, tornava-se
violento em surdina, impedindo a voz de explodir, embora as veias do
pescoço se lhe dilatassem e os olhos lançassem chamas . Fernando, pelo
contrário, gritava, partia coisas , e a raiva crescia, não conseguia parar; as
tentativas que a mulher fazia para o acalmar enfureciam-no ainda mais , e
mesmo que a zanga não fosse com ela acabava por lhe bater. Portanto
insistia em chamar Lila, para tirá-la daquela tempestade de gritos , de
obscenidades , de ruídos de destruição . Eu gritava «Ll , Ll , Ll» , mas ela
- bem a ouvia - não parava de insultar o pai .
Tínhamos dez anos , daí a pouco fazíamos onze. Eu estava a ficar mais
cheia, Lila continuava baixinha, magra, era leve e delicada. De repente os
gritos pararam e daí a instantes a minha amiga voou pela janela, passou
por cima da minha cabeça e aterrou no asfalto atrás de mim.
Fiquei estarrecida. Fernando apareceu à janela, continuando a gritar
ameaças horríveis à filha. Atirara-a como se fosse um objecto .
Olhei para ela aterrorizada, enquanto tentava levantar-se , dizendo-me
com uma careta quase divertida:
«Não me aconteceu nada.»
Mas estava a sangrar, tinha partido um braço .

18.

Os pais podiam fazer aquilo e mais , às meninas atrevidas . Depois ,
Fernando tornou-se mais sisudo , mais trabalhador do que o habitual .
Durante esse Verão , eu , Carmela e Lila passámos muitas vezes em fren­
te da sua oficinazita, mas enquanto Rino nos acenava sempre alegre­
mente , o sapateiro , enquanto a filha teve o braço engessado , nem sequer
olhava para ela. Via-se que estava arrependido . Os seus actos violentos
de pai pouca coisa eram, se comparados com a violência dispersa pelo
bairro . No bar Solara, com o calor, entre perdas ao jogo e bebedeiras
importunas , chegava-se com frequência ao desespero (palavra que em
dialecto significava ter perdido toda a esperança, mas , também , estar

64 Elena Ferrante

sem um tostão) , e depois às cenas de pancadaria. Silvio Solara, o dono ,
um homem corpulento com uma barriga imponente , olhos azuis e testa
muito alta, tinha um bordão escuro atrás do balcão , com o qual não
hesitava em bater em quem não pagasse o consumo , quem tivesse pedi­
do empréstimos e quando se vencesse o prazo não os liquidasse , quem
fizesse acordos de qualquer tipo e não os cumprisse , e muitas vezes era
ajudado pelos filhos, Marcello e Michele , rapazes da idade do irmão de
Lila, mas que batiam com mais força do que o pai . Ali , dava-se pancada
e levava-se . Depois os homens voltavam para casa exasperados pelas
perdas ao jogo , pelo álcool , pelas dívidas , pelos prazos , pelas pancadas ,
e à primeira palavra torta batiam na fanu1ia, um chorrilho de dislates
que davam origem a outros dislates .
A meio daquela longa estação ocorreu um facto que perturbou toda a
gente , mas que teve um efeito particular sobre Lila. Dom Achille , o
terrível dom Achille , foi assassinado em sua casa ao início da tarde de
um dia de Agosto surpreendentemente chuvoso .
Encontrava-se na cozinha, acabara de abrir a janela para deixar entrar
a frescura da chuva. Levantara-se da cama de propósito , interrompendo
a sesta. Vestia um pijama azul-claro muito gasto , calçava apenas meias
de cor amarelada, escurecidas nos calcanhares . Assim que abriu a jane­
la, bateu-lhe na cara uma rajada de chuva e, do lado direito do pescoço ,
a meio caminho entre o maxilar e a clavícula, foi trespassado por uma
faca.
O sangue esguichou-lhe do pescoço e atingiu uma panela de cobre
pendurada na parede . O cobre era tão brilhante que o sangue parecia
uma mancha de tinta da qual escorria - assim contava Lila - uma li­
nha negra irregular. O assassino - mas ela inclinava-se mais para uma
assassina - entrara sem arrombar a porta, a uma hora em que as crian­
ças e os jovens estavam na rua e os adultos, se não estavam a trabalhar,
estavam a repousar. Entrara de certeza com uma chave falsa. Certamen­
te tencionava apunhalá-lo no coração enquanto dormia, mas encontrara­
-o acordado e dera-lhe a facada no pescoço . Dom Achille virou-se , com
a lâmina espetada no pescoço , os olhos arregalados e o sangue a sair a
rodos e a ensopar-lhe o pijama. Depois caiu de joelhos e em seguida de
cara no chão .
O assassínio impressionou tanto Lila que quase todos os dias , muito
séria, nos obrigava a ouvir a descrição como se tivesse assistido , acres­
centando sempre novos pormenores . Eu e Carmela ficávamos assusta­
das de a ouvir, Carmela nem conseguia dormir de noite . Nos momentos

A Amiga Genial 65

mais horríveis , quando a linha negra de sangue escorria pela panela de
cobre , os olhos de Lila tornavam-se duas gretas ferozes . Com certeza
imaginava que o criminoso era mulher, só porque lhe era mais fácil
identificar-se com ela.
Nesse tempo íamos muito para casa dos Peluso , para jogar às damas
e ao jogo dos três , Lila tinha então essa paixão. A mãe de Carmela
mandava-nos entrar para a sala de jantar, cujos móveis haviam sido
feitos pelo marido , antes de dom Achille lhe ter tirado as ferramentas de
carpinteiro e a oficina. Sentávamo-nos à mesa, entre dois aparadores
com espelhos , e jogávamos . Antipatizava cada vez mais com Carmela,
mas fingia ser sua amiga, pelo menos tanto como era de Lila, e em cer­
tas ocasiões até lhe fazia crer que gostava mais dela. Por outro lado ,
simpatizava muito com a senhora Peluso . Trabalhara na Tabaqueira,
mas perdera o posto de trabalho meses antes e estava sempre em casa.
Mas tanto na boa sorte como na má era uma pessoa alegre , gorda, com
um grande peito , faces afogueadas por duas rosetas vermelhas , e embo­
ra o dinheiro escasseasse tinha sempre qualquer coisa boa para nos
oferecer. O marido também parecia um bocado mais tranquilo . Agora
servia à mesa numa pizzeria e tentava não ir ao bar Solara perder às
cartas o pouco que ganhava.
Uma manhã estávamos na sala de jantar a jogar às damas , eu e Car­
mela contra Lila. Nós duas sentadas de um lado e ela do outro . Atrás de
nós encontravam-se os dois móveis idênticos , com os espelhos . Eram de
madeira escura e tinham cornijas com volutas . Via a imagem das três
reflectida até ao infinito e não conseguia concentrar-me , não só por
causa das imagens que não me agradavam, como devido aos gritos de
Alfredo Peluso , que naquele dia estava muito nervoso e implicava com
a mulher, Giuseppina.
A certa altura bateram à porta e a senhora Peluso foi abrir. Exclama­
ções , gritos . Nós fomos as três espreitar ao corredor e vimos os cara­
binieri , figuras que muito temíamos . Os carabinieri agarraram Alfredo
e levaram-no . Ele esbracejou , gritou , chamou os filhos pelos nomes ,
Pasquale , Carmela, Ciro , Immacolata, agarrava-se aos móveis feitos
pelas próprias mãos, às cadeiras , a Giuseppina, jurava que não matara
dom Achille , que estava inocente . Carmela chorava desesperada, todos
choravam, também comecei a chorar. Lila não , Lila fez aquele olhar que
anos antes fizera a Melina, mas com algumas diferenças : agora, embora
imóvel , parecia estar em movimento juntamente com Alfredo Peluso ,
que lançava gritos roucos e assustadores: «Aaaah ! »

Estava inocente de certe­ za. consolou-a. Cochichavam uma com a outra sem parar e. . mas que na sua opinião não fora ele . chegavam-se um bocado mais para lá. e em breve fugiria da prisão . para evitar que eu ouvisse . fizera muito bem em matar dom Achille . Dizia-lhe que se de facto fora o pai .66 Elena Ferrante Foi a coisa mais terrível a que assistimos ao longo da nossa infância. se eu me aproximava. Lila preocupou-se com Carmela. impressionou-me muito .

Adolescência História dos sapatos .

figuras escuras excitadas pela festa. ainda incapaz de lhe dar nome . como se aqueles . Mas de repente - disse-me . mas imperceptível . Dizia que nessas alturas as margens das pessoas e das coisas se dissolviam de repente . Começou a sentir aversão pe­ los gritos que saíam das gargantas de todos aqueles que circulavam pelo terraço no meio dos fumos . no alto do terraço onde estávamos a festejar a chegada de 1 960 . no alto de um dos prédios do bairro . me contou em pormenor o que lhe acontecera naquela ocasião . como depois contarei . Apesar de fazer muito frio . 1. foi acometida bruscamente por uma sensação desse tipo . forçando o significado corrente da palavra. naquela noite . O coração batia-lhe descontroladamente. Pareceu-lhe que todos gritavam muito alto e se movimentavam muito depressa.. ritual a que Lila. no meio dos rebentamentos . agressi­ vos . e agora olhava com satisfação as linhas de fogo no céu . estava a destruir os contornos das pessoas e das coisas e a revelar-se .. Quando . e que ainda lhe acontecia. e pela primei­ ra vez recorreu a esse vocábulo . Essa sensação foi acompanhada de náusea e ela teve a impressão de que alguma coisa totalmente material . numa noite de Novembro de 1 980 . Só anos depois .tínhamos ambas trinta e cinco anos. foi ela que sempre o usou . pelo espumante . apesar do frio começou a cobrir-se de suor. éramos casadas . presente em seu redor e em redor de todos e de tudo desde sempre . Estávamos no exterior. dera a sua colaboração . mães de filhos . O termo não é meu . pela comida. Olhávamos para os homens. A 3 1 de Dezembro de 1 959 Lila teve o seu primeiro episódio de des­ marginação . assustou-se e guardou o caso para si . Acendiam as mechas dos fogos de artifício para festejar o novo ano . que estavam alegres . usávamos vestidos leves e decotados para parecer­ mos bonitas .

transformando-a numa matéria lisa e macia. muito amigáveis . mau cheiro a mais . Como somos mal feitos . os braços . o pai . já tivera muitas vezes a sensação de entrar. Lila disse também que aquela coisa a que chamava desmarginação. Os ombros largos . Mas naquela noite de fim de ano apercebera-se pela primeira vez da existência de en­ tidades desconhecidas . Fernando . Lila tentara acalmar-se . dissera a si mesma: tenho de agarrar o caudal que está a atravessar-me . Fumo a mais . O tumulto do coração dominava-a. como somos insuficientes . pensou ela. ou numa sílaba. a mais voraz . a mais mesquinha. de que pequenos animais avermelhados . tivera a certeza absoluta. tomara-se-lhe insuportável o modo como as nossas gargantas húmidas banhavam as palavras no líquido da saliva. demasiado relampejar de fo­ gos na geada. ou num número . Na altura em que me fez essa descrição . a pessoa que afinal lhe era mais familiar. uma forma animal atarracada. 2. Quando tiraram o gesso a Lila e reapareceu o seu bracinho muito branco mas perfeitamente funcional . sentia-se sufocar. entre os gritos de alegria. A náusea cresceu. do frenesim com que se agitavam. violando­ -lhe os contornos . o dia­ lecto deixou de lhe ser familiar. tenho de atirá-lo para fora de mim. estavam a dissolver a composi­ ção da estrada. Parecia-lhe que o via pela primeira vez tal como ele era. que quebravam o contorno habitual do mundo . já não foguetes e morteiros . Uma sensação de repugnância apoderara-se de todos os corpos em movi­ mento. enquanto voava em direcção ao asfalto. E o asco. concentrava-se sobretudo no corpo do seu irmão Rino. da sua estrutura óssea. caídos de qualquer recanto do céu negro. as orelhas . E no dia em que o pai a atirara pela janela. durante fracções de segundos . mas tiros de pistola. as pernas. Por exemplo . embora a tivesse atingido de forma clara só daquela vez. uma espécie de última detonação . a mais feroz. os olhos . a que mais gritava. O seu irmão Rino gritava obscenidades insuportáveis na direcção dos clarões amarelados . sabe-se lá porquê . os narizes . Alguém estava a disparar. e passou-lhe qualquer coisa ao lado .70 Elena Ferrante sons obedecessem a leis novas e desconhecidas . chegou a um . deixando ver a sua natureza assustadora. pareciam-lhe atributos de seres monstruosos . como que o sopro de um bater de asa. E isso tinha-a transtornado. a pessoa que ela mais amava. Mas nesse instante ouviu . não era totalmente nova para ela. numa pessoa ou numa coisa. membruda.

se a interrogavam recusava-se a responder. mas fazíamos de conta que não nos conhecíamos . Estava . mais pálida do que o habitual . o fantasma de uma menina que tinha comido ba­ gas venenosas . seria a melhor aluna. Também eu não fui bem sucedida no primeiro ano da escola média. contrariada. nunca se ria . o que me causou uma ansiedade insuportável . e embora não o admitisse claramen­ te . estenografia. Ela foi . Passavam-se os dias e não conseguia recuperar. e não com Lila. e no final do ano reprovou . se tinha de fazer exercícios fa­ zia-os em cinco minutos e depois incomodava as colegas . Mas afinal recompôs-se . ou contabi­ lidade . Em alguma parte secreta do meu ser eu aspirava a uma escola a que ela nunca tivesse acesso . sem Lila. e da qual lhe falaria quando isso se concretizasse . achava que Alfredo Peluso fizera bem em ma­ tar-lhe o pai e não me ocorriam palavras de conforto . Mas ela pareceu aceitá-la com uma espécie de resignação . porque a filha faltava muitas vezes sem justificação . em que eu . e lutámos o ano inteiro para não ficarmos entre os piores . No início tive grandes expectativas . éramos uns bichinhos assustados com a nossa própria mediocridade . Nem a sua condi­ ção de órfão me comovia. Acabei por me encontrar numa espécie de lamaçal . tal como Gigliola. Assim que experimentava sair. voltava-lhe a febre . foram muitos os que mos­ traram ser melhores do que eu . permitiu-lhe que frequentasse uma escola para aprender não sei bem o quê . que eu vira desenhado num livro da professora Oliviero . quase contra vontade . era como se ele carregasse parte da culpa pelo terror que dom Achille me causara durante anos . o filho mais novo de dom Achille . Mas foi cada vez menos à escola. sem se pronunciar directamente . sentia-me contente por ter entrado juntamente com Gigliola Spag­ nuolo . Mas comecei logo a claudicar. Usava uma faixa preta cosida no casaco. Um dia vi-a na rua e pare­ ceu-me um fantasma. de tal modo que o vírus depressa lhe tirou todas as energias . Começou a despontar em surdina a ideia de que . nunca mais saborearia o prazer de pertencer ao grupo restrito dos melhores . mas sim pela boca de Rino e da mulher. ou essas três disciplinas . na sua ausência. Custou-me muito . muito pior do que aquela que tivemos quase todos . com a desculpa de se sentir fraca. Depois correu o boato que ela ia morrer em breve .A Amiga Genial 71 acordo consigo mesmo e . De vez em quando encontrava à entrada Alfonso . A certa altura apanhou uma gripe má. Nunzia foi chamada pelos professores . perturbava as aulas . Nunzia. sempre metido consigo . ou economia doméstica. gabando-me . Eu não sabia o que lhe dizer.

o dialecto vergado a um italiano cheio de erros de gramática. o cabelo sem brilho . os seus sapatos velhos . Passei um Verão entorpecido . Fui à retrete ver o que tinha e descobri que as cuecas estavam sujas de sangue . merecia continuar. uma vez que eu afinal fora aprovada. a amava. Gigliola tinha de repetir Latim e Matemática. espremi-as e voltei a vesti-las molhadas . No fim do ano soube-se que passara com média de oito . Sentia que Lila já não queria ser minha amiga. Aterrorizada não sei bem por que razão . talvez por recear uma repri­ menda da minha mãe por me ter magoado entre as pernas . geralmente em companhia de Gigliola. Quando saíram as notas . com o seu italiano que se assemelha­ va um pouco ao da Ilíada . lavei-as bem . Quando já não suportava o medo . De vez em quando via Lila a passear com Carmela Peluso . na opinião dela. que me falava muito do jovem estudante universitário que ia a casa dar-lhe explicações e que . esperando não ser apanhada pela minha mãe . na minha presença. mas tentei sossegar. Uma tarde adormeci deveras e ao acordar senti-me molhada. o que me deprimiu muito . ao passo que Gigliola reprovara em duas .72 Elena Ferrante numa turma diferente da minha e constava que era muito bom aluno . e esse pensa­ mento dava-me um cansaço como se tivesse sono . Voltou para casa carrancuda. sussur­ rei a Lila: . Depois saí para o calor do pátio . Discutiram muito . eu safei-me com seis em tudo . Sofri uma dupla humilhação: envergonhei-me porque não fora capaz de alcançar o nível que tinha na primária. O coração saltava-me de medo . litigaram e por fim o meu pai decidiu que . estendia-me em cima da cama e passava pelo sono . e a figura torta da minha mãe . que ela precisava de ajuda em casa e eu devia deixar de estudar. de­ centemente vestida da professora. que só me salvara em Latim graças à sua generosidade . mas que se não tivesse aulas particulares no ano seguinte não conseguiria passar. pensando que seria a humidade das cuecas . Senti que estava outra vez a ficar molhada. Eu escutava-a mas aborrecia-me . que também frequentara uma escola não sei de quê e também reprovara. Às vezes . Ela também deve ter sentido o peso daquela humilhação . e envergonhei-me também pela diferença entre a figura harmoniosa. Encontrei Lila e Carmela. fui passear com elas até à igreja. a professora mandou chamar a minha mãe e disse-lhe. no pátio . disse ao meu pai que os professores não estavam satis­ feitos comigo .

Era seis ou sete centímetros mais baixa. depois . «significa que já és adulta e já podes ter filhos. perguntei . «As mulheres têm isso por natureza. sem nada ou quase nada dizer.» «De certeza?» «De certeza.» . Passei a tarde toda a falar com ela. De repente pareceu-me pequena. só pele e osso .» «És boa?» «Muito .» Pensou um bocado e murmurou: «Eu fiz de propósito para reprovar. mas depois parou e perguntou-me: «Como é o latim?» «Bonito .» «E o que vais fazer?» «Aquilo que me apetecer.» Peguei-lhe num braço . Sangra-se durante uns dias . e vimo-la hesitar. se um homem te enfiar o coiso na barriga. mais pe­ quena do que sempre a achara. disse . Pelo contrário . mas ela seguiu­ -nos . tens dores na barriga e nas costas . E nem sabia tão-pouco o que era o sangue . como nós .» Fez menção de se ir embora. «Estou-me nas tintas» . A preocupação era tal que acabei por me confessar às duas . muito pálida apesar dos dias ao ar livre . mas depois passa. Nunca mais quero ir para escola nenhuma. E ainda nenhum rapaz se lhe declarara.A Amiga Genial 73 «Tenho uma coisa para te dizer. dissemos-lhe ambas num falso tom de consolação .» «Ü quê?» «Quero dizer só a ti .» Lila ficou a ouvir-nos . Perguntámos­ -lhe se já tinha o sangue . E reprovara. dá-me nojo. todos os meses . «Também te há-de aparecer» . tentando afastá-la de Carmela. Carmela sabia tudo. embo­ ra dirigindo-me só a Lila. E quem o tem também me dá nojo . Fiquei a saber que daquela ferida não se morria. com má vontade respondeu que não . A naturalidade com que me dissera o pouco que sabia tranquilizou-me e fez-me simpatizar com ela. Já havia um ano que tinha o sangue .» O silêncio de Lila impeliu-me para Carmela. «Ü que poderá ser?» . até à hora do jantar. «É normal» . disse . «eu não o tenho porque não quero ter.

Foi com esses modos que Carmela acabou por me conquistar. embora oscilasse desagradavelmente entre risadas a mais e lamúrias a mais . Aquela espécie de apropriação indevida desagradava­ -me por um lado e por outro atraía-me . Oscilava entre a irritação por ver uma recriação que me parecia uma caricatura. um pouco masculina mas sobretudo feminina. que . Tomei-me muito amiga de Car­ mela Peluso . Contou-me que o pai estava inocente . Engordei . sob a pele do peito despontaram-me dois rebentos duros . a filha do assassino estava apaixonada pelo filho da vítima. os modos de Lila encantavam-me na mesma. que estava apaixonada por Alfonso Carracci . e o fascínio .74 Elena Ferrante Deixou-nos ali no meio do pátio e foi-se embora. nem sequer com Lila. Contou-me inesperadamente . gesticulava de modo seme­ lhante e ao andar tentava reproduzir os movimentos dela. e dos prantos que faziam. S e decidira abrir-se comigo era porque j á não conseguia guardar tudo lá dentro . Mas que história ! Talvez nem Lila fosse capaz de construir uma his­ tória assim . Era um amor que a atormentava e a consumia. floriram-me pêlos nas axilas e na . embora fisi­ camente fosse mais parecida comigo: bonita e rechonchuda. que quem matara dom Achille fora uma criatura escura. porque . Contou-me que a nova escola fora muito desagradável: todos implicavam com ela e os professores não a podiam ver. Bastava vê-lo atravessar o pátio ou caminhar pela rua para se sentir desmaiar. sofrera a influência de Lila de maneira tão forte que às vezes era uma espécie de sucedâneo . Anali­ sámos todas as possíveis consequências daquela paixão até as escolas reabrirem e eu deixar de ter tempo para escutá-la. embora adulterados . De um momento para o outro passou do sorriso às lágrimas . 3. com um sorriso fátuo . Não se deixou ver o resto do Verão . Carmela jurou que nunca falara disso com ninguém . vendia saúde como eu . que vivia com os ratos e saía das sarjetas do esgoto mesmo de dia. Gostei do seu tom dramático . usava certas expressões recorrentes . Ao falar imitava-lhe os tons . Falou-me de quando ia a Poggiorea­ le com a mãe e os irmãos visitar o pai . Foi uma confidência que me impressionou muito e que consolidou a nossa amizade . Começou um período de indisposição . fazia as coisas terríveis que tinha a fazer e depois escapulia-se para debaixo do chão .

Falava e ria-se . os meus seios não eram verdadeiros . Disse ainda que ele . Mas pouco depois voltou . mas tinha de lhe provar que não usava algodão .A Amiga Genial 75 púbis. Por fim disse que .» «E se tiveres algodão?» «Não tenho . estava sempre ansiosa. recorri conscientemente ao tom atrevido de Lila: «Dá-me as dez liras . Senti pela primeira vez a força magnética que o meu corpo exercia sobre os homens . onde eu era perfeitamente delineada pelos delicados segmentos de luz . a princípio tão duro . seguiu­ -me na rua e disse-me que . que tinha apostado vinte liras . Já não sabia quem era. nua. na companhia de um rapaz da sua turma. Depois viraram-se e fugiram pela escada abaixo . sou eu que tenho razão?» «Sim.» Deu-me dez liras e subimos os três em silêncio até ao último andar de um prédio que ficava a poucos metros do jardim. achava que eram verdadeiros . que eu lhes punha algodão . Sentia-me à mercê de forças ocultas que actuavam no interior do meu corpo .» «Porquê . com uma penugem por cima do lábio. Comecei a desconfiar que iria continuar a mudar. Gino . Dei um suspiro de alívio e fui ao bar Solara comprar um gelado . na opinião dos seus companheiros . pelo contrário . ao pé da porta de ferro que dava para o terraço . caso ganhasse a aposta. Chorava mui­ to. Gino disse: «Ele tem de estar presente. o filho do farmacêutico . as frases de latim pareciam­ -me não ter pés nem cabeça.» Pôs-se a andar e eu prossegui .» Recorri novamente ao tom de Lila: «Primeiro o dinheiro . decepcionada. Aquele episódio ficou-me gravado na memória. Assim que podia fechava-me na retrete e via-me ao espelho . Aquele pedido assustou-me . e ninguém mais gostaria de mim. Na escola esforcei-me mais do que nos anos precedentes . co­ xa. tomou-se maior e mais macio . Não sabendo como proceder. dez liras ficavam para ele e as outras dez eram para mim. à saída da escola. os exercícios de matemática quase nunca davam o resultado previsto no caderno de exercícios . repentinamente . levantei a blusa e mostrei os seios . Ficaram os dois parados a olhar. um magrinho de cujo nome não me recordo . Ali . com um olho torto . senão os outros não acreditam que ganhei . até que de mim ressurgisse minha mãe . como se não acreditassem no que os seus olhos viam. Entretanto o peito . Uma manhã. mas . tomei-me triste e nervosa.

começava a falar ininterruptamente e com admiração do trabalho que o pai e o irmão faziam. na preparação do fio . a cortadora. e era capaz de fazer uso de todas . e foi trabalhar para uma fábrica de calçado em Casaria. que imitara o olhar e o tom e os gestos da Cerullo em situações de conflito descarado . fui tentada a chamá-la e a contar-lhe tudo . parecia-me que era diferente . a esmeriladora. A mãe pedia-lhe que a ajudasse em casa. em . fugiu da oficina do avô . e ela. como sempre . 4. mas mais uma vez ela pouco compareceu e nova­ mente a reprovaram. Mas ela não me viu e eu segui caminho . não mostrou qualquer curiosidade pela minha escola. e depois . Quando passei com o gelado em frente da oficina de Fer­ nando e vi Lila absorta a arrumar sapatos sobre uma comprida pratelei­ ra. em vez de opor resistência. após uma breve hesitação pusera-me no lugar dela.. Se eu numa situação daquelas tivesse de tomar uma decisão com as emoções na mais pura desordem. até para os que iam para a guerra. mas não era capaz de explicar em que sentido . porque ela.ao domingo depois da missa ou a passear entre os jardins e a rua larga . o pai pedia-lhe para estar na oficina. a pespontadora. pareceu até contente de trabalhar para ambos . mas também conhecia bem as máquinas . decidiria ficar. abrira lugar para ela em mim. para ver o que ela pensava. em peleiros e em pelarias . Quando pensava de novo naquele instante em que Gino me fez o pedido . em meias-solas . Falou-me em couro .76 Elena Ferrante sobretudo dei-me conta de que Lila actuava. em tacão inteiro e meio tacão . e ficava muito contente . Soube que o pai quando era rapaz quis emancipar-se . Ou melhor. Naquele ano Rino obrigou-a a matricular-se de novo na escola. ficava. como um fantasma exigente . e o meu contentamento des­ vanecia-se . Tinha sempre que fazer. em gáspeas . onde fizera sapatos para toda a gente . não só sobre Carmela mas também sobre mim. Porém. que também era sapateiro . um pouco ansiosa: faço como Carmela? Parecia-me que não . na sua ausência. As raras vezes em que nos encontrámos . Descobriu que Fernando sabia fazer um sapato à mão do princípio ao fim. sentia com preci­ são que me passara a mim mesma para trás . E se estivesse na companhia de Lila? Puxava-lhe por um braço e sussurrava-lhe «vamos embora» . o que teria feito? Tinha fugido . como sempre . Mas às vezes interrogava-me . inesperadamente .

Ela comprava a revista Sogno e devorava fotonovelas . atordoada pela infelicidade . o filho do farmacêutico era uma espécie . sem trabalhos de casa. disse-lhe que me amava.A Amiga Genial 77 como se aplicava uma sola e se coloria e se dava brilho . o martelo . e de má vontade . o cheiro bom da cola misturado com o dos sapa­ tos velhos. Carmela. Sobretudo . A princípio parecia-me tempo perdido . passava pela oficina de Fernando só para ver Lila no seu posto de traba­ lho . graças à habilidade que tinham de encerrar os pés das pessoas em sapatos sólidos e cómodos . fugia sem esperar pelo olhar de Lila.. o pescoço delgado . os sapatos velhos com solas novas . activa. Durante meses e meses pareceu-me que tinham fugido dos manuais escolares todas as promessas . por trás da porta de vidro . voltava sempre para casa com a impressão de que . en­ quadrada pela cabeça inclinada do pai e a cabeça inclinada do irmão . À saída da escola. mas lá estava. depois comecei a dar uma olhadela também e passámos a lê-las juntas . do qual re­ gressara como um explorador plenamente satisfeito . toda a energia. o pé de ferro . o rosto emaciado .Casoria. a fábrica . Nas aulas comecei a sentir-me inutilmente presente . tomando-os mais cómodos . passava sem interrupção dos comentários às histórias de amor ficcionais aos comen­ tários à história do seu verdadeiro amor. sem aulas . quando ela me via e me fazia adeus . o balcãozito sossegado . estava excluída de um privilégio raro . Só me ia embora. Eu . pareceram­ -me ser as melhores pessoas do bairro . Envergonhada. Gino . e co­ mentávamos as histórias e aquilo que cada personagem dizia. Mas muitas vezes era Rino que dava por mim primeiro . Um domingo dei por mim a falar apaixonadamente de sapatos com Carmela Peluso . no jardim . mais do que eu . por não passar os meus dias na oficina de um sapateiro e tendo por pai um banalíssimo porteiro . Aos olhos dela. para não lhe ficar atrás . uma vez falei-lhe no filho do farmacêutico . escrito em letras brancas sobre fundo negro . e ela voltava a concentrar-se no trabalho . tão satisfeito que agora preferia a pequena oficina da fanu1ia. Usou todos aqueles termos do ofício como se fossem mágicos e o pai os tivesse aprendido num mundo encantado . como se fosse uma cliente interessada na mercadoria. e fazia­ -me caretas cómicas para eu me rir. com o seu peito magro sem som­ bra de seios . Não sei o que ela fazia exactamente . ao fundo . por Alfonso . e os novos metidos numa forma que dilatava o cabedal e os alargava. E puxou-me para dentro daquele vocabulário com um entu­ siasmo tão enérgico que o pai e Rino . sentada a uma mesinha. Por vezes parava para ver na montra as caixas de cromatina. sem livros . e eu respondia à saudação .

e depois disse que tinha de ir. Mas um domingo tudo mudou outra vez . à catequese . que tentava fazer minha a nova pai­ xão de Lila. e estive quase a contar-lhe da­ quela vez que me pedira para lhe mostrar o peito . Era uma sala ampla. comecei a gabá-los e a gabar quem os tinha feito tão bonitos . como é que Lila entrara? Após muitas hesitações lá me aventurei a passar pela porta. que trouxe con­ sigo uma sensação de à-vontade . as coisas ficavam sujas . até ao átrio . Carmela. Depressa tive de admitir que aquilo que eu fazia sozinha não me dava emoção . e que eu mostrara e ganhara dez liras . o Latim. Carmela ouviu-me distraída. ela. os professores . con­ tornei o edifício e voltei para trás . reconheci o cheiro . Mas tínhamos a revista Sogno bem aberta sobre os joelhos e os meus olhos caíram sobre os lindos sapatos de salto de uma das actrizes . só aquilo em que Lila tocava é que era importante . Nunca mais entrara na minha antiga escola e senti uma grande emoção. pareciam­ -me decisivamente menos sugestivos do que o acabamento de um sapa­ to . A escola média. embora imitasse os modos de Lila. mas depois aborreci-me. um sentimento de mim que eu já não tinha. cheias de pó . Todo aquele período teve este ritmo . andávamos a preparar-nos para a primeira comu­ nhão . Lila e eu . a língua dos livros . Entrei pela única porta aberta no rés-do-chão . As escolas ao domingo estavam fe­ chadas . Mas se ela se afastava. À saída Lila disse que tinha que fazer e afastou-se . Segui com Carmela. os livros . Sapatos e sapateiros pouco ou nada lhe interessavam. despedi-me dela. Pareceu-me um assunto muito oportuno . e não pude conter-me . Contei uma dezena de adultos e muitas crian- . mantinha-se fiel às únicas coisas que a cativavam: as fotonovelas e o amor. Para minha grande surpresa. Mas quanto mais falava mais me apercebia. Mas vi que não se dirigia para casa. mais do que a his­ tória das maminhas . e isso deprimiu-me . iluminada com lâmpadas de néon . se a sua voz se distanciava das coisas . Ao contrário de mim. futuro herdeiro da farmácia. com embaraço . Tínhamos ido . um senhor que nun­ ca se casaria com a filha de um porteiro . nem Gino nem Alfonso nos resistiriam. entrou no edifício da escola primária.78 Elena Ferrante de príncipe inacessível . e tinha as paredes cobertas de estantes repletas de velhos livros . e a fantasiar que se usássemos sapatos assim. 5.

com o cabelo grisalho cortado à escovinha. outras preocupações me afligiam. não passavam de resmungos . mas não me saíram bem. metia-me em casa. gozavam comi­ go . folheavam-nos. aliás . magro . perturbado . Gino e o colega tinham espalhado o boato que eu não tinha problemas em mostrar o físico . Experimentei afastá-los uma vez ou duas imitando os modos de Lila. escrevia qualquer coisa no livro de registo e as pessoas saíam com um ou mais livros. Disse-lhe que não . se queria ser namorada dele . no entanto . Depois fui assoberbada pela chusma de trabalhos e de dúvidas de final do ano . Com medo de me importunarem. o professor Ferraro . por ressentimento . Depois punham-se em fila em frente de uma secretária a que estava sentado um velho inimigo da professora Oliviero . até na rua. Não tinha tempo de lhe fazer perguntas antes que ela me virasse as costas e se afastasse no seu passo de esguelha. Estudava muito . embora sem interesse . Ferraro exa­ minava o texto escolhido . Durante uns tempos as horas na escola pareceram-me mais insignifi­ cantes do que nunca. punham-nos no lugar. já só saía para ir à escola e contrariada. estudava muito .A Amiga Genial 79 ças . Andava mais brusca do que o habitual . interessava-se por sapatos e chinelada. O soutien tornou-me o peito ainda mais visível . comprimia o peito cruzando os braços sobre ele . receava ter más notas . No dia seguinte perguntou-me . já não frequentava a escola. Riam-se. por vingança. talvez já tivesse saído . fui-me embora. sentia-me misteriosamente culpada e sozinha com a minha culpa. ia ali buscar livros? Gostava daquele espaço? Porque não me convidava para ir com ela? Porque me deixara com Carmela? Porque falava comigo sobre a maneira de esme­ rilar as solas e não daquilo que lia? Irritei-me . Pirava-me . Nos últimos meses de escola fui perseguida pelos rapazes e depressa percebi porquê . Parecia envergonhada de eu ter seios e de me ter vindo o sangue . e então não me aguentei e comecei a chorar. sem nada me dizer. Pegavam em livros . Uma manhã de Maio . e de vez em quando vinha um pedir-me que repetisse o espectáculo . Olhei em volta: Lila não estava. mas orgulhosa por o filho do farmacêutico me querer. até no pátio . sem fanfar­ ronice . por atrapalhação . Gino seguiu-me e perguntou-me . A minha mãe disse-me que eu era indecente com todo aquele peito que me crescera e levou-me a comprar um soutien . Os rapazes insistiam. Além disso . até esco­ lherem um. O que andava ela a fazer. Os toscos esclarecimentos que me dava eram breves e insufi­ cientes .

80 Elena Ferrante outra vez e nunca mais desistiu de perguntar. Falámos as três no assunto . nem com os professo­ res . Aqueles momentos iluminaram-me o coração e a cabe­ ça: eu e ela e aquelas palavras bem arquitectadas . Porém . aconselhou-me a namo­ rar com Gino . Em vez de reatar a minha relação com Lila e torná-la exclusiva. sobretudo no Ve­ rão . atraiu para junto dela muitas outras meninas . falando de amor. Entretanto queria que aquela conversa se tornasse o modelo de todos os nossos próximos encontros . e Lila pareceu-me impressionada. Não era verdadeiro amor. embora eu passasse o tempo a falar de namorados . Respondi inesperadamente em italiano . para a impressionar. para ela e para Carmela durante todo o Verão . até Junho . mas na condição de ele aceitar comprar gelados para mim. haviam impressionado tanto Carmela Peluso que ela acabou por contar a toda a gente . A conversa e o conselho que ela me dera. Depois . Foi maravilhoso . O desafio com Lila dera-me um prazer tão intenso que planeei dedicar-me totalmente a ela. De frase em frase . demos início a uma conversa na linguagem das histórias aos quadradinhos e dos livros . «Se não aceitar. para ela perceber que . não devia ser tratada como Carmela: «Porque não estou certa dos meus sentimentos. «Porque lhe disseste que não?» . mas não sofri com isso . voltando de súbito ao dialecto . Lila convenceu-me de que no amor só se obtém alguma segurança submetendo o pretendente a duras provas . Esta. Como se fosse um daqueles nossos desafios da primária. e contou a Lila. nem com os colegas . portanto . quando fizemos a primeira comunhão . Carmela não queria acreditar que eu rejeitasse o filho do far­ macêutico . como se tivesse levado uma pancada na cabeça que me trouxera à memória imagens e palavras . O resultado foi que a filha do sapatei­ ro . interessou-se pelo caso . Assim vestidas . quando eu tinha mais tempo livre . todas vestidas de branco como as noivas . o que reduziu Carmela a uma ouvinte pura e simples . quer dizer que o amor não é verdadeiro . se tornou em poucos dias a mais acreditada conselheira sobre assuntos . aquele episódio não teve o seguimento que eu esperava. para minha admiração . demorámo-nos no adro da igreja já a pecar. Sentira-me outra vez inteligente .» Fiz como ela me disse e Gino desapareceu . Na escola média não acontecia nada do género . e o seu efeito . que não tinha seios nem menstruação e nem sequer um pretendente .» Era uma frase que eu aprendera nas leituras da revista Sogno . perguntou-me Lila em dialecto . em vez de se afastar com o ar de quem se está nas tintas .

ora trazendo-me fruta. no tom áspero habitual: «Não te podemos pagar as lições . Depois . Não havia dinheiro para me mandarem ter explicações durante o Verão . Dessa vez foi mesmo o meu pai que disse que era inútil continuar. e que em vez disso fizera de conta que não era importante: Alfonso Carracci passou com média de oito . vinham consolar-me por turnos. Os manuais escolares tinham custado muito dinheiro . Mas eu sentia-me sozinha na mesma.» Olhei-a. Foram dias desconsoladores . e não conseguia tranquilizar-me . Peppe e Gianni . Captava sempre frases que achava lindas e sofria com isso . impondo a mim própria não ir ao pátio nem aos jardins . Acres­ centou: «Não está escrito em parte nenhuma que não podes fazê-lo . depois de mim havia dois rapazes e outra rapariga. uma tarde . Mas sobretudo . tomara-se evidente que eu não era boa aluna: o filho mais novo de dom Achille passara a tudo e eu não.» Foi tudo o que disse. O dicionário de Latim. senti minha mãe aproxi­ mar-se por trás de mim. Chorava noite e dia. mas podes experimentar estudar sozinha e ver se passas no exame . pelo menos é o que recordo. «Tenho uma coisa para te dizer. Gigliola Spagnuolo passou com média de sete . que culminaram com uma humilhação que sofri e que já devia ter previsto . Disse em dialecto . ora convidando-me para brincar com eles . mas estava tão compenetrada que nem me ouvia. duvidosa. «Lenu» . aceitou esse papel . nariz grande . via-a a cochichar com esta e com aquela . Se não estava ocupada em casa ou na oficina. olho dançarino . No dia seguinte co­ mecei a estudar. e eu tive seis em tudo e quatro em Latim. Mas uma manhã ouvi que me chamavam da rua. apesar de comprado usado fora uma grande des­ pesa. surpreendendo-me uma vez mais. Tinha de me conformar. Era sempre a mesma: cabelo baço . chamava ela. corpo pesado . cumprimentava-a. Debrucei-me na janela. 6. tomei-me feia de propósito para me castigar. E ela. a pequena Elisa. Era Lila. os dois rapazes .A Amiga Genial 81 do coração . Tinha de repetir em Setembro essa única disciplina. o Campanini e Carbone. que depois de terminarmos a primária perdera aquele hábito . a filha do paste­ leiro Spagnuolo passara a tudo e eu não. Passava-lhe ao lado .» . com um triste destino . Era a primogénita.

«Não te disse nada a respeito do pai?» . mas nela não havia soberba nenhuma. que não exprimia orgulho nem altivez por exercer influência sobre todas nós . ao sol . «falar com os outros. Demos uns passos pelo pátio . e que no pátio eram todas assim. E estava a dizer-mo num tom que não lhe conhecia. perguntou-me . metade masculino e metade feminino . aborrecia-me confessar-lhe que tinha de repetir uma disciplina. murmurei . Mas Carme- . que nos romances e nos filmes a filha do assassino podia apaixonar-se pelo filho da vítima.» «Sim. fazia-me lembrar as aves de rapina que vira em filmes no cinema paroquial .» «E quem seria o assassino?» «Um ser. «Não quero falar mais . Eu . de tal forma que a princípio não entendi . sentiria muita soberba.» Lila estreitou os olhos . mostrando-se desgostosa de repente .» «Então é verdade» . como se reduzir os olhos a uma greta lhe permitisse ver de forma mais concentrada. contou-me ela. pois para se tomar um facto verdadeiro seria preciso que nascesse um amor verdadeiro . Disse a Carmela. e acrescentando que Carmela tomava como certo tudo o que ela lhe dizia. disse ela.» Fui de má vontade . Mas daquela vez pareceu-me que havia descoberto qualquer coisa que a irritava e assustava ao mesmo tempo . Que pedido estava contido na­ quela bela frase? Estava a dizer-me que queria falar só comigo porque eu não tomava como certo tudo aquilo que lhe saía da boca e lhe res­ pondia? Estava a dizer-me que só eu era capaz de seguir aquilo que lhe passava pela cabeça? Sim. fiável . séria. mas só se quando falas há alguém que te responde .82 Elena Ferrante «Ü que é?» «Vem cá abaixo . Recordo-me de ter perguntado explicitamente se havia desenvolvimentos entre Carmela e Alfonso . e percebi que não o dizia com des­ prezo . sem um sorriso . não quero falar com ninguém» . balbuciou amuada. Quando fazia aquilo . «É bonito» . «Que está inocente .» Senti no peito uma lufada de alegria. no lugar dela. que está escondido no esgoto e sai pelas sarjetas como os ratos. só uma espécie de impaciência associada ao medo da responsabilidade . «Que desenvolvimentos?» «Ela gosta dele . em­ bora brusco como era costume . Era uma possibilidade . Perguntei-lhe com indolência que novidades havia a respeito de namoros .

Tínhamos doze anos . nas pessoas . e se a filha do assassino casasse com o filho da vítima. Falámos sobre isso . e logo no dia seguinte fora contar a toda a gente que estava apaixonada por Alfonso. para se exibir junto das outras . antes de jantar. uma mentira. cederia pelo menos um pouco se não tivesse sido Peluso . estreitamente chegadas uma à outra. desde que nos lembrávamos . por isso não nos pareceram verdadeiras mudanças . como num jogo .» «Então fazes-me um favor?» Por ela faria qualquer coisa. só nós duas .pensava eu . mas no dia a dia. . naquela manhã de reaproximação: fugir de casa. Naqueles anos da escola média muitas coisas mudaram diante dos nossos olbos . sabíamos que o peso que oprimia o bairro desde sempre .nos compreen­ díamos . «Não te darei chatices» . sabíamos fazê-lo . era saber jogar. no meio do pó e das moscas que os velhos camiões levantavam ao passar. descer aos esgotos através das sarjetas . isto é . mesmo se fizesse frio. eu e ela apenas .A Amiga Genial 83 la não compreendera. mas caminhámos muito tempo pelas ruas escaldantes do bairro . se quem o fizera tivesse sido o habitante do esgoto . mas como se todas aquelas conversas não pudessem deixar de chegar àquela pergunta: «Ainda somos amigas?» «Sim. dormir em estábulos . disse . mesmo que fosse só durante uma hora. que só reinventando tudo . nos jardins . O essencial . como duas velhotas a fazer o ponto das suas vidas cheias de desilusões . o ex-carpinteiro . nas ruas . A certa altura perguntou-me . Nós duas . que mer­ gulhara a faca no pescoço de dom Achille . mesmo se chovesse . Ninguém se compreendia. 7. mas que poderia ter sabe-se lá que consequências . alimentar-me de raí­ zes . Já sabia que eu tinha de repetir a cadeira e queria estudar comigo . e eu e ela. aparentemente sem nexo . se tornava aceitável . Havia qualquer coisa de insuportável nas coisas . e apenas nós . e que eu levasse o livro de Latim. Mas o que ela me pediu pa­ receu-me não ser nada. abandonar o bairro . nunca mais voltar para casa. nos prédios . e num primeiro instante decepcionou-me . Queria simplesmente que nos encontrássemos uma vez por dia. porém.

Na retrosaria. Mas esses dois infortúnios revelaram-se um bem. e o meu pai não se opunha. a enchidos . A antiga carpintaria de Peluso. Quando por lá se passava sentia-se um aroma a especiarias .84 Elena Ferrante O bar Solara foi ampliado . A morte de dom Achille afastara pouco a pouco a sua sombra ameaçadora daquele lugar e de toda a família. Stefano apontava tudo num livrinho e pagá­ vamos no fim do mês . que abria o apetite . e Michele . onde Car­ mela Peluso era caixeira havia pouco tempo . olhos azuis . tomara-se um rapaz encorpado . e corria a metê-las no saco da senhora Spagnuolo ou no de Melina. Enzo . um carácter honesto e tranquilizador ao servir os clientes . quando não havia dinheiro . Gostava de ver a velocidade com que ele fazia correr o peso ao longo do braço da balança até encontrar o equilíbrio certo . que iam comprar bolos para as farm1 ias . de aspecto forte e saudável . preten- . juntamente com Pinuccia. cabelos loiros desgre­ nhados . encheu-se de coisas boas que ocupa­ ram o seu interior e também um pouco do passeio . Assunta. só com os gestos . quem corria as ruas do bairro todas as manhãs com a carroça puxada pelo cavalo . adoptara modos muito cor­ diais e era ela que geria agora a loja. embalava as batatas ou a fruta no cartucho de papel . Os dois filhos de Silvio Solara. o ruído de ferro a correr contra ferro. compraram um 1100 branco e azul e ao domingo pavoneavam-se pelas ruas do bairro . e Stefano .. era o filho mais velho .cujo experiente pasteleiro era o pai de Gigliola Spagnuolo . Agora. que quase nada tinha do garoto que nos atirava pedras. tomou-se uma pastelaria bem abastecida . veloz . e depois . que uma vez na posse de dom Achille se transformara numa charcutaria. a dona Maria. Tinha excelentes produtos e transmitia. A viúva. Marcello . e passados alguns meses uma pneumonia quase lhe matara o cônjuge . a azeitonas . pouco mais novo . Até a minha mãe me mandava lá fazer compras . o mari­ do . também porque . A clientela aumentara muito . começara de um dia para o outro a trabalhar uma jovem costureira e a loja fora ampliada. ou da minha mãe. Tomara-se um rapaz ponderado . e ao domingo enchia-se de homens novos e velhos . e uma voz potente com que gabava a mercadoria. de Verão e de Inverno . de olhar sedu­ tor e sorriso doce . que vendia fruta e hortaliças pelas ruas com Nicola. que já não era o rapazinho furioso que tenta­ ra puxar a língua a Lila. Manejava a balança com grande habilidade . Despontavam iniciativas em todo o bairro . que andava pelos vinte anos . tivera de se reformar devido a fortes dores nas costas . debaixo de chuva e debaixo de sol . a torresmos e a banha. a pão fresco . a filha de quinze anos .

A ofi­ cina onde trabalhava o filho de Melina. onde se erguiam pilares piso após piso . enquanto ele e os outros serravam. como tinha de sustentar a fami1 ia. pela fealdade . e ela. debaixo de sol . A mancha verde desapareceu e no seu lugar surgiu uma clareira amarelada. pelas tensões . emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura. como se não quisesse ser reconhecido pelos ódios acumulados . e por vezes víamo-lo sobre os andaimes dos novos edifícios . Gentile Corresio . uma cova ao lado da estrada. pois fora naquele bar que o seu pai se desgraçara . como se pretendesse alterar os sinais exteriores . voltara a ser cha­ mado para trabalhos daquele tipo . Lila irritava-se se eu me punha a olhar para Pasquale e me distraía. Enfim. exausto . para irem cortar durante a noite as árvores de uma praça do centro de Nápoles . Pasquale .A Amiga Genial 85 dendo tomar-se uma ambiciosa alfaiataria de roupas de senhora. por iniciativa do filho do velho proprietário . foi contratado para ir cortar as árvores junto à linha férrea. trabalhadores em tronco nu ou em camisola interior asfaltavam as estradas e a rua larga. mudou . Algum tempo antes um amigo dissera-lhe que tinha vindo gente ao bar Solara à procura de rapazes . por exemplo . foi . admitiu que logo que eu entrei para o primeiro ano da escola média requisitara uma gramática na bi- . Depressa percebi . a fonte . a folhas massacradas e a mar. ou com um chapéu feito de jornal . tudo se ar­ queava. E cortou muitas . com as narinas cheias do odor a madeira viva.embora não gostasse de Silvio Solara nem dos filhos. o silvado . tudo se agitava. para meu espanto . extirpavam raízes que exalavam um odor a subter­ râneo . a máquina fumegante crepitava. ao romper do dia. Depois . sabia-as todas . O irmão mais velho de Carmela. As declinações . e os verbos também. fendiam o ar. tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro . Enquanto eu e Lila estudá­ vamos latim nos jardins . com aquele jeito maldoso de rapariga que não quer perder tempo . ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias : as árvores estremeciam. rachavam. Pasquale arranjara aquele serviço por um acaso da sorte . Voltara. fazendo o rolo compressor avançar lentamente sobre a camada prepara­ da. Sentía­ mos um cheiro permanente a alcatrão . que ela já sabia muito latim. Perguntei­ -lhe com cautela como era possível . uma coisa leva a outra.. Antonio . Ele . As cores também se modificaram. também o puro e simples espaço que nos ro­ deava. a comer pão com salsichas e grelos du­ rante o intervalo do almoço . tentava transformar-se numa pequena fabriqueta de motociclos . E agora estava no estaleiro de obras perto da linha férrea. preferindo mostrar uma cara nova.

«Uma amiga minha. outro em nome do pai e outro em nome da mãe . pela mesma ordem em que as encontrava na frase que tinha de traduzir. com ar duvidoso . Fazia-me perguntas e enfurecia-se quando eu não sabia. perguntou a professora. Experimenta assim. mostrou-me com orgulho todos os car­ tões que possuía .86 Elena Ferrante blioteca que emprestava livros . Calou-se por instantes e depois aconselhou-me: «Lê primeiro a frase em latim. não só as que apareciam nos exercícios . «Quem te deu explicações?» . perguntou prudentemente: «Foi a professora que te disse para fazeres assim?» A professora nunca dizia nada. aliás . No fim do Verão . ou seja. um bocado trombuda. como eu procurava no dicionário as palavras que não conhecia. de maneira que tinha sempre quatro ao mesmo tempo . e só depois me esforçava para perceber o sentido . limitava-se a marcar os exercícios . Em Setembro fui fazer o exame . Estava encantada com o dicionário de latim. Com cada um deles levava um livro emprestado . Ela também as traduzia. pareceu-me fácil traduzir. com aquelas mãos compridas e magras . tínhamos de estudar. a biblioteca era um grande recurso . mas todas as que lhe viessem à cabeça. Devorava-os e no domingo seguinte ia devolvê-los e levantava outros quatro . Uma vez deu-me uma bofetada num braço . quando o exame estava próximo . pro­ curas os complementos: o complemento directo se o verbo for transiti­ vo . não houve tempo . nunca vira nenhum.» Experimentei . e não me pediu desculpa. que eram quatro: um dela. Quando tiveres o sujeito . e ia apontando os significados principais . disse que se eu voltasse a errar me batia outra vez e com mais força. depois de observar. pesado . um em nome de Rino . Marcava trabalhos de casa no tom que aprendera com a nossa professora Oliviero . tão grosso . com força. fiz a prova escrita sem um erro e na oral soube res­ ponder a todas as perguntas . depois vai ver onde está o verbo . Eu é que me regulava daquele modo .» . Palavra puxa palavra. Mandava-me traduzir trinta frases por dia. De repente . Procurava palavras constan­ temente . · vinte de latim para italiano e dez de italiano para latim. a que era dirigida pelo professor Ferra­ ro . com tantas páginas . muito mais depressa do que eu . ou outros complementos se não for. e estudara-a por curiosidade . Para ela. Nunca lhe perguntei que livros já lera e que livros andava a ler. A partir do verbo percebes qual é o sujeito .

parecia-se com Heitor. Quando saí abracei-a. Esquivou-se com um gesto quase de enfado . Recomeçou a escola e saí-me bem em todas as disciplinas desde o início .» «Mas ainda há muito que estudar.» «Em latim?» «Sim. eu no passeio e eles ao lado . Disse que só que­ ria perceber que coisa era o latim que estudavam os inteligentes . Eu agora tenho uma coisa para fazer com o meu irmão . Mas dos dois . «E então?» «Já percebi . Tomei-me a melhor da aula. onde marcara encontro com Gigliola Spagnuolo . de traseiro. «Já andaste de automóvel?» . disse-lhe que me correra lindamente e perguntei-lhe se podíamos estudar juntas no ano seguinte . e Michele . pareceu-me que convidá-la para conti­ nuarmos era uma bela maneira de lhe mostrar a minha alegria e a minha gratidão . Lila estava à minha espera lá fora. Não via a hora de Lila me pedir que a ajudasse com o latim ou outra coisa. Acompanharam­ -me todo o caminho . e por isso creio que não estudava tanto para a escola como para ela. Naquele ano pareceu-me ter dilatado como a massa de piv. Um domingo em que ia para os jardins . Uma vez que fora ela a primeira a propor que nos encontrássemos só para estudar. Tomei­ -me ainda mais cheia de peito . sentado ao lado dele . à sombra. Vou buscar uns livros à biblioteca. tal como estava representado na versão escolar da Ilíada . ajudas-me . Basta. ao volante . no 1100. Marcello . de cabelo muito escuro e brilhante e o sorriso branco .» «Estuda tu por mim.» «Ü que é?» «Depois mostro-te . e se eu tiver dificuldades .» «Não gostas?» «Sim. Respondi que sim.A Amiga Genial 87 «Universitária?» Não sabia o que significava.a . o mais velho . Eram os dois bonitos . os irmãos Solara aproximaram-se de mim no 1100.» 8. de coxas . o que mais me agradava era Marcello. o mais novo . nem na primária tinha sido tão boa aluna.

» «0 meu pai não quer. limitando-se apenas a con­ vidar-me a entrar. Peppe e Gianni . interveio em seu auxílio . Sem dizer uma palavra aos amigos ou à farm1ia. abriu a porta do carro e puxou-a para dentro . Os irmãos So­ lara disseram-lhe palavras grosseiras . mas depois o pai Solara e um dos barmen saíram para a rua. dividimo-nos sobre este episódio . tímido . Michele chegou mesmo a agarrá­ -la por um braço . Gigliola Spagnuolo e Carmela Peluso tomaram o partido dos Solara. Mas entre aqueles que a viram ser puxada à força para dentro do carro . Disse que não porque se o meu pai viesse a saber que eu tinha entrado naquele automóvel. ne­ nhum dos clientes . Ada tinha catorze anos . e ao mesmo tempo os meus irmãozinhos . Quando é que tens ocasião de entrar num carro como este?» Nunca. a filha mais velha de Melina Cappuccio . a viúva maluca que dera escândalo quando os Sarratore se mudaram . Eu vacilei . e nenhum dos passantes . e embora gostasse muito de mim. raparigas . visivelmente afectado pela morte precoce do pai e também pelos desequilíbrios da mãe . o irmão mais velho que era mecânico na oficina de Gorresio . às escon­ didas da mãe . agora e no futuro . embora fosse um homem bom e amável . sentir-se-iam na obri­ gação . pensei . Mas algum tempo depois não o foram com Ada. houve quem fosse contar a Antonio . mas só porque eles eram bonitos e tinham o 1100. punha bâton . de tentar matar os irmãos Solara.» «Entra. Na presença das minhas duas . apesar de ainda serem pequenos . no entanto ria-se . Os quatro espancaram Antonio até sangrar. sem uma só palavra de preâmbulo . matava-me com pancada imediatamente . sabia-se que era assim e pronto . quando o automóvel acelerou e desapareceu como uma flecha para lá dos prédios em construção . Não havia regras escritas .» «E nós não lhe dizemos . Uma hora depois deixaram-na no mesmo sítio . dis­ ciplinado . isto é . e quando os dois irmãos apareceram recebeu-os a soco e pontapé. e com as pernas compridas e direitas e os seios maiores que os meus. Ao domingo . Durante alguns minutos deu conta do recado . e Ada estava um pouco zan­ gada. Antonio era um bom trabalhador. parecia já crescida e bonita. levamos-te a dar uma volta. foi esperar Marcello e Michele em frente do bar Solara. Os Solara também sa­ biam. tanto mais que tinham sido simpáticos .88 Elena Ferrante «Não . No entanto disse que não e continuei a dizer que não até aos jardins . Nós .

Mas Fernando não queria saber disso . quando as pessoas precisavam de sapatos novos não iam ao sapateiro do bairro . e discutíamos para ver quem os adorava mais . que exprimia sem meias palavras essa minha posição . espantada. . mesmo que alguém quisesse fazer o produto artesanal com todas as regras da arte . cola­ va. Marcello e Michele nem sequer olham para ti» . tivera a coragem de os enfrentar. até debruava. e que Antonio . séria: «Melhor assim. e pensámos que Lila se ia enfurecer. hoje em dia era tudo feito nas fábricas . como as do pai . uma coisa que nada tinha a ver com livros: andava a tentar convencer o pai a começar a fazer sapatos novos . «Üra. também eu ex­ pressava algumas reservas . e trabalho . para evitar sarilhos ao pai e ao irmão Rino . em série . Mas em vez disso . e não nos bolsos da farru1ia Cerullo . Mas ela insistia. não o vendia. era dinheiro deitado fora. ia à ruína. embora não fosse uma beleza. disse Gigliola Spagnuolo . Mas pouco havia a fazer. Fazer sapatos à mão . Hoje existem máquinas .dizia-lhe . Em pouco tempo tinham ficado como as de Rino . a baixo custo. por isso . com a pele das pontas dos dedos amarelada e gros­ sa. e como tinha trabalha­ do em fábricas . e o dinheiro ou está no banco ou na mão dos usurários . mas tensa em cada fibra. embora não fosse musculoso como eles . e as máquinas custam dinheiro. preparava o fio . Embora ninguém a obrigasse a isso . Olhava­ -lhe para as mãos . sabia bem a porcaria que aparecia no mercado . na presença de Lila. Uma vez a discussão tornou-se tão acesa que Lila. pois na verdade eram muito atraentes e era impossível não imaginarmos a figura que faríamos sentadas ao lado de um deles no automóvel .» E ele respondia que. que iam todos os dias ao ginásio levantar pesos. dizia-lhe: «Ninguém sabe fazer sapatos como tu sabes .é uma arte sem futuro . Mas também achava que se tinham comportado muito mal com Ada.» Continuava delgada como sempre. iam às lojas do Rettifilo . descosia. e já manejava as ferramentas de Fernando quase como o irmão . talvez porque não era tão desenvolvida como nós e não conhecia o prazer-temor de sentir o olhar dos Solara em cima dela. Por isso . A dada altura contou-me o plano que tinha em mente . se lhe acontecesse o que acontecera a Ada. respondeu .não era essa a sua tarefa na oficina . Eis a razão por que naquele ano não me perguntou nada de latim.A Amiga Genial 89 amigas inclinava-me para os Solara. embora fosse verdade.começara a fazer trabalhinhos . en­ chia-o de elogios sinceros. papá. trataria da saúde àqueles dois pessoalmente. empalideceu mais do que o habitual e disse que .

e segundo . repetindo aquilo que ela lhe metera na cabeça. O irmão a princípio alinhara com o pai . Mas pouco a pouco deixara-se seduzir. E. na oficina. Na realidade tinha-os inventado ela no seu todo e em cada detalhe . ao passo que Lila podia contar com Rino . a irmã.» «Mas os Solara continuam a crescer. primeiro não se comem. e os ti­ vesse reproduzido no papel . apoiava sempre . O nosso trabalho .» «Não . devido à estupidez do filho . irritado pelo facto de ela meter o nariz nas coisas do trabalho . e agora discutia com o pai dia sim.» «Junto ao caminho-de-ferro está a nascer um novo bairro . conversan­ do com Lila. e vi que o Gorresio . descobri que ela achava o mesmo .» «Estou-me nas tintas para isso . feitos em folhas de papel quadriculado . portanto ninguém capaz de me encorajar e de me apoiar contra a minha mãe . como de costume . dia não . Eram desenhos lindos . onde já não era uma questão de livros e em que o especialista era ele . Dito isto . Ao passo que os sapatos. sempre gentil comigo mas capaz de brutalidades que até ao pai metiam medo . quan­ do se estragam mandas arranjar e podem durar vinte anos . deu a passada maior que a perna. em todas as situações .» «Mete-te na tua vida e esquece os Solara.» Gostava de ver como aquele rapaz . nos tempos que correm . e de qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. «Pelo menos tentemos .90 Elena Ferrante Lila não se deixara convencer e . para homens e para mulheres . como se tivesse tido oportunidade de observar de perto sapatos daquele género em qualquer mundo paralelo ao nosso . sentia que estava do lado dele .» «Papá. já viste como a charcutaria dos Carracci vai de vento em popa?» «0 que eu vi foi que a retrosaria que queria fazer uma alfaiataria fe­ chou . puxara Rino para o seu lado . Invejava Lila por ter aquele irmão tão sólido e às vezes pensava que a verdadeira diferença entre mim e ela era eu só ter irmãos pequenos . como fazia na primária quando desenhava prin- . ricos em pormenores coloridos com precisão . é arranjar sapatos e mais nada. eu achava que Fernando tinha razão . que era capaz de defendê-la de quem quer que fosse .» «Já viste o automóvel que os Solara têm. Uma vez estava a mostrar-me os desenhos dos sapatos que queria fazer com o irmão . libertando-me a mente . as pessoas ganham e querem gastar. porque é preciso comer todos os dias .» «As pessoas gastam em comida.

nem tão-pouco com os das actrizes das fotonovelas . Depois desistiu . para ficarmos realmente ricas precisávamos de uma actividade económica. de não termos nada.explicou­ -me .» «Mas sabe fazê-los?» «Jura que sim.A Amiga Genial 91 cesas .» «E o teu pai?» «Esse é capaz de certeza. só . mas que ele e Rino não podem perder tempo comigo . nada muda.» Aquilo que devia mudar.» «Se uma pessoa não tentar. de qualquer maneira queria escrever um romance juntamente comigo e ganhar muito dinhei­ ro . porque o pai tinha razão . na opinião dela.» «Fernando zanga-se . Mas limitou-se a encolher os ombros à sua maneira despreocupada. não s e pareciam com aqueles que se viam no bairro .» «Rino diz que são difíceis .» «Ü que significa isso?» «Significa que para fazer realmente as coisas é preciso tempo e ma­ teriais que custam dinheiro . Por isso pensava começar com um único par de sapatos . Eu tinha essa ideia firme .» «Então façam-nos. Tinha reduzido Mulherzinhas às devidas proporções . devíamos che­ gar ao ponto de ter tudo . Tentei falar-lhe do velho projecto de escrever romances .» E fez menção de me mostrar também as contas que fizera.. para perceber quanto dinheiro era realmente necessário para fazê-los . Andava a aprender latim pensando nisso e cá no fundo estava convencida de que ela ia buscar tantos livros à bi­ blioteca do professor Ferraro só porque . «E então?» «Devemos experimentar na mesma. tudo bem.» «Porquê?» «Disse que enquanto eu estiver a brincar.» «Ü papá não quer fazê-los . «Gostas deles?» «São muito elegantes. era sempre a mesma coisa: de pobres . Agora . queria concretizá-la. pois apesar de serem sapatos normais. embora tivesse o pensamento fixo nos sapatos . como fizera a autora de Mulherzinhas . embora já não fosse à escola. devíamos passar a ricas . voltou a dobrar as folhas que agitava na mão e disse que era inútil perder tempo . às escon­ didas de Rino .

92 Elena Ferrante para mostrar ao pai como eram bonitos e confortáveis . e disse-me . com Tina e Nu ao pé da fres­ ta da cave . porque têm dinheiro . o irmão Antonio não conta para nada. «A mim não me tocam. Se isso acontecer. sapatos daqueles que uma vez cal­ çados. quatrocen­ tos num ano . conseguissem montar uma fábrica de calçado com as respectivas máquinas e cinquenta operários .» «Não . era preciso iniciar a produção . como ela sabia fazer. todos reluzentes .» «Achas?» «Claro . diz-me . Dois pares de sapatos hoje. e ela ajuda Melina a limpar as escadas dos prédios . Depois . Pareceu dar-se conta de que estávamos a brincar como anos antes com as bonecas . trinta num mês . Depois . Já viste que eles nunca incomodaram Pinuccia Carracci?» «Sim.» .» «E sabes porque se comportaram da maneira que se comportaram corn Ada?» «Não . Rino . porque sou feia e ainda não tenho o sangue» . são tão bonitos e cómodos que à noite vais dormir sem os descalçar. «Uma fábrica de sapatos?» «Sim. quatro amanhã. Mostrou-me um trinchete muito afiado que obtivera na oficina do pai . a marca gravada nas gáspeas: Cerullo.» «Porque Ada não tem pai .» Falou-me da fábrica com grande convicção. Rimo-nos. Lila embatocou . para nos defendermos dos dois irmãos era preciso passar a fazer-lhes muito mal . ou então .» Conclusão . disse . acentuando o ar de menina-velha que me parecia estar a tomar-se o seu traço carac­ terístico: «Sabes porque é que os irmãos Solara se julgam os donos do bairro?» «Porque são prepotentes . como que numa urgência de solidez. e depois os sapatos Cerullo por inteiro . mais do que os Solara. divertimo-nos . «mas a ti pode ser que sim. ou também nós ganhávamos dinheiro . o pai . todos muito elegantes como nos seus desenhos . uma vez que Fernando se tivesse convencido . com frases em italiano que pintavam diante dos meus olhos o anúncio luminoso da fábrica: Cerullo. disse ela. a mãe e os outros irmãozinhos . pelo menos: a fábri­ ca de calçado Cerullo . para que dentro de pouco tempo ela.

disciplina por disciplina. mas não a percas . Fui a melhor da escola. lei s . A minha mãe . e tentou recuperar o prestígio con­ tando-me que Gino andava atrás dela. que teve média de oito . Com quase treze anos .» Menos sucesso tive no pátio . e agora atirava-mo à cara. com o seu tom de maldosa: «Não te deram nenhum dez?» Fiquei aborrecida. Mas bastou aquela frase para que um pensamento latente se tomasse de chofre cla­ ro: se ela andasse na escola comigo . e ela também sabia. nove em italiano e nove em latim. os professores não o tinham dado a ninguém nas cadeiras importantes . mas ela não lhe dava confiança porque estava apaixonada por Marcello Solara. A justiça não era feita com pancadaria? Peluso não matara dom Achille? Voltei para casa. que estava na cozinha ao pé do lava-loiça a escolher horta­ liça.A Amiga Genial 93 Olhei para ela desconcertada . em latim. disse-me sem se virar: «Podes pôr a minha pulseira de prata no domingo . Passei no exame final da escola média com oito em tudo . 9. Ali só os amores e os namorados é que contavam. Ainda por cima. se lho tivessem permitido . e senti-me feliz . nada menos . na mesma classe . que a partir dali começou a gabar-se a toda a gente de que a sua filha primogénita tivera nove em italiano e nove . não sabíamos nada de instituições . ela começou de imediato a falar-me do modo como Alfonso olhava para ela quando passava. justiça. aquilo que sempre ouvimos e vimos à nossa volta desde a primeira infância. Gigliola Spagnuolo entristeceu-se porque ti­ nha de repetir Latim e Matemática. Quando disse a Carmela Peluso que era a melhor da escola. ela disse a rir. para minha surpresa. Melhor do que Alfon­ so . Durante dias e dias gozei essa supremacia absoluta. Concluí que com aquelas últi­ mas frases ela admitira que eu era importante para ela. e isso já eu sabia desde sempre . Dez só davam em comportamento . este ano teria tido dez a tudo . e talvez Marcello tam­ bém a amasse . e de longe melhor do que Gino . Fui muito elogiada pelo meu pai . Lila também não se mostrou particularmente contente . e fazíamo-lo com con­ vicção . Repetíamos . Fui para casa incubando o desgosto de ser a primeira sem ser verda­ deiramente a primeira. Quando lhe disse as minhas notas . os meus pais começaram a falar .

fábrica de calçado. . Achava ela que . tal como o meu futuro . Co­ mecei por iniciativa própria a ajudar a minha mãe a limpar a casa. Por vezes sentia uma grande necessidade de ir procurar Lila à oficina e falar­ -lhe de personagens de que tinha gostado muito . como uma mão inchada pela febre . estimulada por um convite em meu nome vindo pelo correio . por forma a atribuírem-me um lugar de prestígio . a cuidar da desordem que os meus irmãos deixavam atrás de si . Dostoievski . debaixo do calor que naquela época do ano caía sobre o bairro desde manhã. No tempo que me sobrava não saía. aquilo em que me transformaria: uma vendedora gorda e furunculosa na papelaria em frente da igreja. A minha mãe queria pedir à senhora da papelaria que me aceitasse como ajudante . Levei tempo a espremer os furúnculos. soltei o cabelo . a cozinhar. que depois se faziam violáceos e por fim ganhavam pontas amareladas . pus a pulseira de prata da minha mãe . como desde peque­ na me parecia que era. percorri o caminho até à biblioteca. o que serviu para me inflamar ainda mais a cara. Pirandello . Já não estava satisfeita comigo mesma. cadernos e manuais escolares. Deprimida. Até a pele se estava a estragar: na testa. Olhava-me ao espelho e não via aquilo que gostaria de ver. em volta dos maxilares . em que o professor Ferraro me chamava à biblioteca nessa ma­ nhã. cresceu . O meu pai imaginava negociações futu­ ras com os seus conhecimentos na câmara municipal . uma funcionária da câmara solteirona. Um domingo . Tchékhov. Mas continuei a não gostar do que via. lápis . Ela diria uma maldade qualquer. Todo o meu corpo continuava a dilatar-se . cresceu . cresceu . tinha competência para vender canetas . Tentei pôr-me bonita. inteligente como eu era. mais cedo ou mais tarde estrábica e coxa. decidi finalmente reagir. começaria a falar dos planos que fazia com Rino . tudo me parecia sem brilho . mas sem crescer em altu­ ra. a mais pequena. de frases que aprendera de cor. Tolstoi . embora sem se definir. Gogol. proliferavam arquipélagos de inchaços avermelhados . Senti uma tristeza dentro de mim que . agora que tinha nem mais nem menos do que o diploma da escola média. O meu nariz era largo e esborracha­ do .94 Elena Ferrante entre eles de onde poderiam colocar-me . no queixo . como queria acreditar que ainda era. até ao ponto de já nem ao domingo me apetecer sair. sentava-me a um canto a ler romances que ia buscar à biblioteca: Grazia Deledda. mas depois perdia o interesse. e fui . Os cabelos loiros tinham-se tomado castanhos . dinheiro. sapatos . a ocupar-me de Elisa . e eu pouco a pouco acharia que os romances que lia eram inúteis e que a minha vida era uma lástima.

Nunzia Cerullo. que algo fora do nor­ mal se passava. Fazendo­ -me elogios . que tagarelava com Alfonso e Gino muito feliz . Jerome . ou seja. Ferraro . pela pequena multidão de pais e crianças da primária e da escola média que entrava pela porta principal . olhámo-nos de novo e rimo-nos . Olhámos um para o outro. e com uma inesperada sensação de bem-estar. cobrin­ do a boca com a mão. e a Pasquale também. com o cabelo . junto ao fogão . quar­ to . o pároco .disse-me . De­ pois perguntou-me qual era o prémio do seu ex-companheiro de escola. A pequena cerill}ónia começou . enquanto cozia massa com batatas . se juntava a Gigliola. «Bruges-la-Morte . Ele andara na primária com Rino . segundo. ele e o amigo . de Jerome K. baixinho: «Posso levar também os prémios da farm1ia Cerullo . com lágrimas de riso nos olhos . Ferrara entregou-me Três Homens num Barco. a quinta classificada. companheiros de turma e de carteira . Ao sairmos . Agitei-me na cadeira. de acordo com os seus regis­ tos . Os premiados foram: primeiro. terceiro . sentindo ainda os olhos cheios de riso . após seis ou sete anos de escola incluindo as repetições . sufocando o riso . Procurei Lila. mas vi apenas Gigliola Spagnuolo na companhia de Gino e de Alfonso . fui chamada eu . e ambos .A Amiga Genial 95 Percebi logo . olá. ressentida. Agradeci e perguntei . para lhos entre­ gar?» O professor entregou-me os livros dos Cerullo . Entrei . Correios e Telégrafos . Charcutaria. que a dona Nunzia lia de pé . depois de o professor perguntar várias vezes se estava alguém da frum1ia Cerullo na sala. Elena Greco . Foi assim que . enquanto Carmela. Raf­ faella Cerullo. que o sa­ pateiro Fernando não dormia de noite para ler. festões coloridos . o máximo que con­ seguiam ler era: Sal e Tabacos . Compreendi que o professor tivera a ideia de oferecer um livro a todos os leitores que . Deu-me vontade de rir. eram os mais assíduos . enquanto Carmela sussurrava com insistência: «Porque se riem?» Não lhe respondemos . também o director da escola primá­ ria e a professora Oliviero . Fernando Cerullo. Olá. numa mão um romance e na outra a colher de pau . ajudando-se um ao outro .. eu. Rino Cerullo. Pasquale disse-me em dialecto coisas que me fize­ ram rir ainda mais: que Rino estragava a vista com os livros . para receber o meu prémio.» . Cobri melhor as faces irritadas . Instantes depois sentaram-se junto de mim Carmela Peluso e o irmão Pasquale . pouco à vontade . Vi filas de cadeiras já totalmente ocupadas . sentei-me ao fundo da sala. Como a cerimónia ia começar e a requisição de livros estava suspensa naquele momento. quinto.

» «É verdade . estás uma estrela. gordinha.» Fiz menção de me afastar. olhou-me com o seu olhar sempre avaliador e disse-me . trabalhar na papelaria. cheia de saúde . O que mais havia para estudar? Eu nada sabia sobre a organização escolar. Coisa de doidos . Nesse instante ouvi chamar por mim. gostei que ele me fizesse rir.» Olhei-a surpreendida.» Entristeceu-se . Se a professora Oliviero fosse de facto falar com o meu pai e a minha mãe . como tantas palavras que encontrava nos romances .» As atenções de Pasquale Peluso consolaram-me muito . Deus do céu . «Nem pensar nisso . Talvez eu não seja assim tão feia.96 Elena Ferrante «Tem fantasmas?» «Não sei . e devo dizer que um bocado assustada. se calhar sou eu que não sei apreciar-me . aquela rapariga é mesmo esperta. professora.» «Deram o prémio ao Rinuccio . era a professora Oliviero . Palavras como liceu . e como cresceste ! » «Não é verdade .» «Quanto te deu em Latim o professor de Letras?» «Nove . Fui ao encontro dela. com as minhas próprias mãos?» Desatámos outra vez a rir. tu tens de continuar a estudar. como que a confirmar a legitimidade de um juízo mais gene­ roso sobre o meu aspecto: «Que bonita que estás . ou universidade . para mim eram abstractas . dizer-lhes que me mandassem estudar mais . não tinha uma ideia exacta sobre o que se seguia à escola média. Soube que foste a melhor da escola. E também boa aluna. pensei . resignar-me a ser .» «Então eu vou falar com os teus pais. iria desencadear de novo discussões que não me apetecia enfrentar.» «Sim. «Não posso . «Sim. o s meus pais não me deixam.» «Posso ir contigo quando lho fores entregar? Aliás . posso entregar- -lho eu .» «Tens a certeza?» «Sim. É Lina quem lê tudo . Preferia as coisas tal como estavam: ajudar a minha mãe .» «E o que vais fazer agora?» «Vou trabalhar.

» «Adeus. que estava à minha espera. mas eu também já não o era. como dizia a professora.» «E és comunista?» Olhou-me com ar perplexo . Pasquale disse-me que no domingo seguinte ele . «até à vista. Comunista e filho de assassino . e labutar na miséria. hesitei . já sabia que a minha mãe nunca me deixaria ir. «Ainda és pedreiro?» . Mas mesmo assim disse: está bem. Assim que virámos a esquina. e recolhi a minha. professora» . «Não percas tempo com aquele» . referindo-se a Pasquale . a irmã e quem quisesse .» Mas ela agarrou-me por um braço . disse .» Fiz um gesto de assentimento e afastei-me sem me despedir de Pas­ quale . «Sim. Lila não fazia isso havia já pelo menos três anos. mal toquei na dele . recomeçando a rir. Antes de nos separarmos . à parte os seus sonhos loucos de filha e irmã de sapateiro? «Obrigada. disse . Não era um rapaz bonito . que não estava habituada a tais ges­ tos . que primeiro ficou espantado . perguntei-lhe . Perguntou-me se também queria ir. Fiquei de boca aberta. mas que a professora marcara imediatamente com um sinal negativo . embora soubesse que era. era escuro por natureza e por causa do sol . Percorremos o caminho juntos até poucos metros de casa e . o pai é comunista e matou dom Achille .A Amiga Genial 97 feia. para irmos à oficina do sapateiro en­ tregar os livros a Lila e a Rino . E vem de uma farm1ia horrível .» . ser saudável e gorda.» «Adeus. Não quero de maneira nenhuma ver-te com ele. que para mim não tinha sentido . Pasquale apanhou-me . mas depois ouvi com prazer que vinha atrás de mim . «É pedreiro . marcá­ mos encontro para o dia seguinte . Comunista.» «E vais visitar o teu pai a Poggioreale?» Ficou sério: «Quando posso . «Sim. não irá mais além. Tinha os cabelos negros e muito encaraco­ lados . a dez passos de distância. talvez até com Lila. Achei-a fascinante . talvez até comunista. ter furúnculos . comunista. Então ele estendeu-me a mão e eu . dura e áspera. Dei voltas e voltas na cabeça à palavra «comunista» . vou pensar. iam a casa de Gigliola aprender a dançar. com certeza é comunista como o pai . comunista. tinha a boca grande e era filho de assassino .

Os meus pais não ousaram contradizê-la.» Antes de se despedir a professora perguntou-me por Lila. mostrando as coxas descama­ das e as cuecas aos filhos assustados . senão a Oliviero não deixaria de a atormentar e chumbaria sabe-se lá quantas vezes a pequena Elisa como represália. Per­ cebeu-se que Melina. mas olhando-me com ar severo . ouviu-se um grito agudo que nos silenciou . um pouco distraída. punha em ordem as contas e a loja. a gritar por socorro . uma espécie de demência da felicidade . e tentei esgueirar-me . austero: «Lenu . Disso se inteirou minha mãe. Vi que Nunzia Cerullo e Lila se apressavam para ir ver o que se passava. «Diz-lhe que agora também vais estudar grego . lançando o meu pai na mais total angústia e exas­ perando a minha mãe . inter­ rogando as mulheres debruçadas das janelas . furiosa. e o meu pai disse . ameaçava partir-me as duas pernas se soubesse que eu trocara uma só palavra com Pasquale Peluso . Diz-lho . Era Ada. exclamou .» Nessa noite .98 Elena Ferrante 10. mas no essencial as excentricidades eram raras e inócuas . nunca mais te atrevas a falar com Pasquale Peluso . e enquanto o meu pai . estava a ter uma nova crise de loucura. Ria. que depois da mudança dos Sarratore geralmente se portara bem . Exigiu que ambos lhe jurassem que me iam ma­ tricular na escola secundária mais próxima.» Despediu-se dos meus pais toda empertigada. companhia totalmente inadequada para mim. a filha de Melina. Respondi-lhe que ajudava o pai e o irmão . por exemplo cantar alto enquanto lavava as escadas dos prédios ou atirar baldes de água suja para a rua sem ver se ia alguém a passar . vimos um grande alvoroço no pátio . Corremos para as janelas . Ofereceu-se para arranjar ela própria os livros de que eu precisaria. ainda na presença dos meus pais. que me vira sozinha com Pasquale Peluso . como se fosse aquele o proble­ ma principal . A professora Oliviero apresentou-se em minha casa nessa mesma tarde sem ter avisado . «vai dar-nos grandes alegrias . «Esta rapariga» .um pouco melancólica. enquanto a minha mãe . em quem se depositava tão grandes esperanças . Contou ao meu pai . dizia que agora era pre­ ciso mandar-me para a escola dos ricos .. dava saltos em cima da cama e levantava a saia. Fez um trejeito de desprezo e perguntou-me: «Sabe que tiveste nove em Latim?» Fiz sinal que sim . Juraram-lhe solenemente que me iam inscrever na escola secundária. é verdade.

No dia seguinte encontrei-me com Pasquale Peluso em segredo . enquanto Pasquale me dava razão . ao ouvir aquele despropósito . nem mais nem menos. Eu . manifestando sensibilidade pelas coisas do amor. No mesmo dia atraíra a atenção de um jovem misterioso como Pasquale . publicado um livro . mas talvez eu . mais do que qualquer outra coisa. A minha mãe disse que alguém devia tomar a iniciativa de abrir àquele homem de merda a cabeça de merda que ele ti­ nha. A ela. ficaria rica primeiro do que Lila. Dentro . O meu pai . Um livro . Toda a noite ouvimos Melina cantar de felicidade e ouvimos as vozes dos filhos . Ele chegou a arquejar. conseguisse es­ crever um sozinha. e encontravam-se assinalados a tinta vermelha os poemas que ele escrevera para ela. foi ela mesma avaliar a situação. na primeira página. Ajeitou o cabelo e . dei-me conta de que . por ir para aquela escola difícil que se chamava secundária. com a roupa do trabalho . mas a minha mãe impediu-me. como fizera Sarratore . Quando voltou . sim. escrita a caneta. se tudo corresse pelo melhor. Este último acontecimento provava que Lila tinha razão em pensar que nos podia acontecer o mesmo . Aquele empregado dos Caminhos de Ferro do Estado era agora o autor de um livro que o . o que naqueles últimos desenvolvimentos continuava a excitar-me era o facto de Donato Sarra­ tore ter. que o máximo que tinha era o segundo ano da primária e nunca na vida lera nenhum. um livro . Alguém fora entregar um livro a Melina.A Amiga Genial 99 pela porta para ir ter com elas . Na capa do livro estava o nome de Donato Sarratore . com manchas brancas de cal por todo o lado . Quem sabe . no seu passo claudicante . mesmo no prédio em frente do nosso . uma dedicatória para Melina. e descobrira que uma pessoa que até há pouco tempo morava no bairro . estava dominada pelo espanto . abrira-se uma nova escola no meu caminho . que Donato se apaixonara realmente por ela e ainda a amava. com os seus desenhos de sapatos e a sua fábrica de calçado . por outro lado . Pelo caminho contei-lhe a história de Donato e Melina. É certo que ela já desistira disso . Mas enquanto falava. Disse-lhe que estes últimos acontecimentos eram a prova de que ela não era maluca. sobretudo Antonio e Ada. publicara um livro . e apoiada pelo amor de Pasquale . vinha indignada. insultou de forma muito obs­ cena o ferroviário-poeta. 11. tentando acalmá-la mas em vão . todo suado .

pôr-lhe os pés em cima. e assim que nos viram através da porta de vidro guardaram tudo . fraco . Porque a olhava assim. Pasquale lançava olhares furtivos a Lila. dizia que sim só para não me contra­ dizer. pela maneira como deixava a mulher. Também foi a primeira vez que senti que . Lidia.mais atento a eles do que eu estava Rino . mas Lila e Rino estavam lado a lado . Fernando fora a casa fazer a sesta. enquanto Pasqua­ le fazia troça do amigo . tendo de procurar as palavras para um assunto para o qual não tinha palavras prontas . o que pensava eu dela. Excitei-me muito . com grande entusiasmo . embora trocando piadas com Rino .pareceu-me . eu também a leio . E de facto . Era a primeira vez que alguém me interrogava sobre a nossa amizade e falei sobre isso todo o caminho . todos nós havíamos conhecido . Respondi com prazer. diante dos nossos olhos nascera um seu amor trágico . Portanto . daí a pouco começou a mudar de assunto . enquanto . Pareceu-me sem­ pre a mesma rapariga delgada.» Riram-se muito e de vez em quando segredavam ao ouvido um do outro frases sobre Bruges . Ou seja. não um tipo qualquer. a fazer-me perguntas sobre Lila: como era ela na escola.1 00 Elena Ferrante professor Ferrara poderia muito bem incluir na sua biblioteca e empres­ tar. Referi-me às maluqueiras de . com ar apreen­ sivo . o que procurava. esforçando-me para descobrir nela o que atraíra a atenção de Pasquale. Ela arrumou os livros junto de outros que tinha no meio dos sapatos velhos e de alguns cadernos com as capas em mau estado . isto é. Fui com Lila até à arrecadação nas traseiras da loja. o que via nela? Eram olhares longos e intensos que ela parecia nem notar. pálida. pele e osso . excluindo talvez o formato maior dos olhos e uma pequena ondulação no peito . Mas a certa altura reparei que . Mas percebi que sobre esse assunto Pasquale não era capaz de me acompanhar. mas sim um poeta. certamente obscenas . e se for esse o caso . como se quisesse evitar que ouvíssemos o que os divertia tanto a respeito de Bruges . abrindo-lhe o presente debaixo dos olhos e dizendo-lhe: «Depois de leres a história desta Bruges morta dizes-me se gostaste . Quando chegámos à loja ainda íamos a falar nisso . Entre­ guei à minha amiga os presentes do professor Ferrara . Melina. tive a tendência para reduzir a relação entre mim e Lila a afirmações empolgadas e peremptoriamente positivas . que fora inspirado por uma pessoa que conhecíamos muito bem . disse eu a Pasquale . debruçados sobre qualquer coisa que olhavam com hostilidade . que se apressou a arrastar Pasquale para a rua. se éramos muito amigas . mas na realidade aborrecido com o modo como o amigo lhe olhava para a irmã. o cora­ ção saltava-me no peito .

Donato Sarratore .» «Porquê?» «0 Sarratore não teve coragem de se encontrar pessoalmente com Melina. mesmo por cima do título . com naturalidade . na raiz dos cabelos . . «Por agora.» Ela fez um meio sorriso duvidoso . reproduzia-os carregados de tensão. Sim. aqui .dito com palavras de hoje . Donato . senti um calafrio na nuca.» «E não foi uma acção bonita?» «Sabe-se lá. pensa. Mas Lila fez um daqueles seus olhares intensos e vi que estava presa ao livro que eu tinha na mão . injectava-lhe energia. resmoneou . que cativantes gestos formulava. Nápo­ les. pegava nos factos e . Dera-lho Antonio . Olhei-lhe para a pele branca e lisa. assim que ela começava a fazê-lo . para tirá-lo para sempre da vista e do alcance da mãe .» Que bela conversa. Sussurrei-lhe em italiano: «Pensa. Agora a Melina está à espera dele . Isto . e saía-me bem. «Se assim for.distingue-me de Carmela e de todas as outras. que alentou o meu canto . Estendeu a mão e mostrou-me o livro de Sarratore . Peguei-lhe . sem uma fis­ sura. contente .que não só sabia dizer bem as coisas . e não só fisicamente . Foi emocionante ler. e no seu lugar mandou-lhe o livro . Mas também notei com prazer que . porque final­ mente podíamos dizer que conhecíamos alguém que acabava de publicar um livro . reforçava a realidade ao reduzi-la a palavras . examinei-o . como também estava a desenvolver um dom que já lhe conhecia: melhor do que fazia em criança. Pareceu-me . o seu filho Nino foi nosso companheiro de escola. mas contei-lhe sobretudo o entusiasmo que senti . 12 de Junho de 1 958. Olhei-lhe para os lábios . Intitulava­ -se Expressões de Bonança . que olhares. no próprio momento em que ela fala comigo . disse. Abri-o e li em voz alta a dedicató­ ria escrita a tinta: «À Melina. disse-lhe .pensei . eu inflamo-me juntamente com Lila.A Amiga Genial 101 Melina.» Emocionei-me . talvez esteja a mudar. também na maneira de se exprimir. provavelmente toda a fa­ nu1ia Sarratore vai ficar rica. o filho mais velho de Melina. Que mãos fortes e bonitas que ela tinha. A capa era avermelhada. e se o Sarratore não vier ela sofrerá mais do que sofreu até aqui . pensei . «0 Nino terá um carro mais bonito do que o dos Solara» . Donato Sarratore . logo sentia em mim a capacidade para fazer o mesmo . «Com isto?» . logo saberemos» . com um desenho do Sol a brilhar no cimo de uma montanha. para a forma delicada das orelhas . E experimentava. esses poe­ mas só causaram danos.

mas por ela. mas tive consciência disso e contive-me . Enquanto Rino tirava de debaixo do balcão as coisas em que estava a trabalhar antes de chegarmos. Comecei a tocar com os dedos nas zonas mais inflamadas das faces . e o irmão .» Parámos . Percebi de repente que me enganara: Pasquale . a loucura de amor de Melina. o facto de a capa. mas o objecto em si . mas tinha de voltar já para o trabalho . Em­ polámos exageradamente Sarratore . tirinhas de pele . quase contra vontade . talvez para lhe dar a ver: estou a correr o risco de ser despedido apenas por tua causa. Lila disse-me que ela e Rino andavam a tentar fazer um sapato de viagem para homem. Notei que olha­ va de novo para Lila. o prazer embotou-se e veio-me um pensamento desagradável . Pasquale deitou um último olhar a Lila. vocês também irão?» «Domingo ainda está longe . ansioso . o filho do assassino . não a leitura dos versos . depois logo se vê» . o papel daquele livro . dirigindo-se a Rino: «Domingo vamos todos dançar em casa da Gigliola. Quando os dois rapazes reentraram. senão o papá volta e já não podemos fazer mais nada. a Lenuccia tam­ bém vai .1 02 Elena Ferrante Mas enquanto Lila falava de amor. e as observava perplexo . O que iria acontecer? Que reacções iria desenca­ dear. enquanto também eu falava dele . Aquele pensamento tolheu-me a respiração por u m instante . o título . o nome e o apelido terem vindo inflamar de novo o coração da­ quela mulher? Falámos com tanta paixão que Rino de repente perdeu a paciência e gritou: «Então não param com isso? Lila. para ter oportunidade de a ver. E entretanto disse . bocados de couro espesso . à mistura com facas e sovelas e ferros de toda a espécie . intensamente . imediatamente me . que não lhe prestou atenção nenhuma. o comunista. e pôs-se a andar. sem me perguntar se queria ir com ele . longamente . Deitei uma olhadela ao que eles estavam fazendo . vamos trabalhar. quisera acompanhar-me até ali não por mim . tentei continuar a falar de livros e de histórias de amor com Lila. interrompendo a nossa conversa. 12. Pasquale confessou a rir que se escapulira do estaleiro da obra sem dizer nada ao mestre-de-obras . o pedreiro . Senti uma irritação que me pôs nervosa. uma forma de madeira cercada por uma confusão de solas . respondeu Rino .

os movimentos mais secretos daquela história de fidelidade violada. Contei-lhe que fora a professora Oliviero que impusera isso aos meus pais . como podia ser que . como se tivésse­ mos visto . em suma. Senti-me desgostosa pelo desperdício . me sentiria cada vez menos necessária.A Amiga Genial 1 03 fez jurar pela minha irmã Elisa que nunca falaria daquilo a ninguém. porque Pasquale . pele e ferramentas . prome- . dez amanhã. Aliás . porque tinha coisas só dela em que eu não podia partici­ par. e achasse muito mais interessante aquele clima de tensão em tomo de um sapato? Tínhamos falado tão bem sobre Sarratore e Melina. ali na arrecadação da loja e não no salão paroquial ao domin­ go . um filme muito dramático . uma ansiedade pela mulher que so­ fria por amor. Por isso . diante dos meus olhos . embora apontando­ -me para aquele amontoado de couro . Eu queria lá saber de sapatos . eu estava excluída. cada vez que puxavam a conversa. certamen­ te procuraria outras oportunidades de olhar para ela e de lhe pedir. Trabalhavam às escondidas de Fernando . era como se ela e eu tivéssemos lido um romance juntas . porque não fora possível convencer o pai a ajudá­ -los . Lila por aquele caminho viria a fazer grandes coisas sozinha. não conti­ nuasse a sentir lá dentro . tratava-se de uma experiência em que eu só podia participar como testemunha. como diziam que se fazia quando se namorava. e de tentar convencê-la. Embora os dois irmãos me tivessem incluído . Fingi estar interessada no seu projecto secreto . fazendo de mim sua confidente . porque sabia ser independente . mas na verdade fiquei triste . e a tocar-lhe . Mas sobretudo . e a beijá-lo . como eu . de canto que se transformara em livro . Não podia crer que . por se lhe ter metido na cabeça. como se para evidenciar o meu valor e o facto de ser indispensável . não um rapazinho . que poderia ser mais do que o pai . ela me acompanhas­ se à porta como estava fazendo . quando já estava na rua. de paixão . por ela preferir a aventura dos sapatos às nossas conversas . e ameaçava Rino de morte . porque . Rino conseguira o couro e a pele através de um amigo que ganhava a vida numa fábrica de curtumes na Ponte de Casanova. Fernando mandava Lila para casa e gritava que não queria voltar a vê-la na oficina. ou melhor. ao passo que eu precisava dela. um tipo já crescido . Ainda tinha presentes . a namorar com ele em segredo . depois das nossas conversas intensas sobre amor e poesia. aos dezanove anos e faltando-lhe ao respeito . como se para afugentar a sensação de asco que aqueles pen­ samentos me causavam. por ser obrigada a ir-me embora. Disse-lho à porta da loja. disse-lhe de chofre que ia para a escola secundária. Dedicavam à criação do sapato cinco minutos agora.

apercebeu-se primeiro do que eu . mais cedo ou mais tarde . e que . de graça. Durante alguns dias não consegui pensar noutra coisa senão na incógnita das mudanças que iriam afectar Lila. nunca poderia passar sem mim. e pus a pulseira de prata que a minha mãe me dera. perguntou . perplexa. mesmo que ela enriquecesse a fabricar sapatos com Rino . Fi-lo porque queria que ela percebesse que eu era mais única do que rara. que tinham chegado primeiro a mim . sem qualquer nexo: «Na semana passada apareceu-me o sangue . Nada a diferenciava da . O facto de eu ir para a escola secundária num instante perdeu a aura.» «E mais nada?» «E também grego . Portanto agora também ela sangrava. os cabelos muito escuros em desordem.» E . «0 que é a escola secundária?» .» «Grego?» «Sim. à hora do habi­ tual passeio da rua larga até aos jardins . Ele e provavelmente outros rapazes . Quando me encontrei com Lila senti um prazer secreto ao vê-la como andava todos os dias .pensei . ou Gigliola. já estava a mudar. Os movimentos secretos do corpo . também a ela haviam che­ gado como a réplica de um terremoto . ela? Comecei a arranjar-me melhor. «Uma escola importante que vem depois da escola média. Olhou-me .» «E o que vais para lá fazer?» «Estudar. um vestido azul com o decote quadrado . ou Carmela? Ficaria feia como eu? Cheguei a casa e observei-me ao espelho . Tornar-se-ia bonita como Pinuccia Carracci .1 04 Elena Ferrante tendo arranjar-me ela própria. livros usados . sem que Rino a tivesse chamado . e iriam mudá-la. Pasquale . como eu não podia passar sem ela. Por fim murmurou .» Fez uma expressão de quem se perdeu e não sabe o que dizer. Como era eu realmente? Como seria. 13. voltou para dentro . um vestidinho liso e debotado . vesti a minha roupa melhor.» «0 quê?» «Latim. Um domingo à tarde .

meia hora apenas e trazemo-las aqui outra vez . olha o que me fizeste» . Queria que ela se interessasse . onde muito provavel­ mente encontraria rapazes com automóveis mais bonitos do que o dos Solara. por necessidade de me sentir atraente e afortunada. Os dedos de Marcello em volta do meu pulso arrepe­ laram-me a pele . pensando na minha mãe . A pulseira partiu-se . exclamei .A Amiga Genial 1 05 habitual Lila. que desejasse ao menos um bocadinho participar naquela minha aventura pelo lado de fora. co­ mo se quisesse criar uma familiaridade que me acalmasse . e saiu do carro . e quase a ir para a escola dos ricos . nem os vendedores de avelãs e amêndoas torradas e de tremoços . entrem. olhem que Nápoles é grande . Foi num . não se cansam de andar para a frente e para trás . nem o carro . «Calma» . Depois o 1100 dos Solara pôs-se ao nosso lado . Mas o que era essa mudança? Eu tinha o peito grande . tão pequenina que era e fizera-se quase tão alta como eu . Miche . percorremos de novo o ca­ minho até ao jardim. uma menina nervosa e descamada. A dizê-los a am­ bas . voltei-me e disse em italiano: «Obrigada.» Então . mas fiz. em vez de continuar a con­ versar com Lila.» Mostrou-se alegre . ignorando-o . Fomos até ao jardim. que sentisse que estava a perder alguma parte de mim . Lila fez-me de novo perguntas cautelosas sobre a escola secundária. não só a mim . mas não podemos. Disse-lhe o pouco que sabia. Este começou a dizer-nos gracejos . tentou agarrar-me outra vez o pulso . Marcello estendeu a mão . formas de mulher. Marcello ao lado . «Vou repará-la. já viste que bela pulseira tem a filha do porteiro?» O carro parou . enquanto a sua voz dizia: «Trava. é a cidade mais bonita do mundo . Falava. e ela ouvia com muita atenção . Os cinco dedos saíram da janela e vie­ ram agarrar-me pelo pulso . voltámos para trás . puxei o braço com nojo. Em vez de continuar a andar como se ele não existisse . cordial . Não devia tê-lo feito . bonita como vocês . talvez . Vi que era larga e curta. Só me pareceu mais crescida. nem o irmão . mas empolando-o o mais possível . como eu temia sempre perder muito dela. caiu entre o passeio e o carro . Era cedo . Michele ao volante . só um centímetro de diferença. embora ele fosse um rapaz alto e bem feito . Trauteava em dialecto frases do tipo: mas que lindas senhorinhas . ainda não havia a agitação dos domin­ gos . ela pelo lado de dentro . disse ele abrindo a porta. «Meu Deus . Caminhava do lado da estrada.

havia poucos transeuntes. Uma vez que me ia matricular na escola secundária. meteu-se no carro . sua valente» . essa puta não tem coragem.1 06 Elena Ferrante ápice . que fazia metade dele .» Marcello imobilizou-se . Lila. Ele fez-lhe um sorriso tímido . disse Lila.» Depois entrou para o carro e partiram . como se quisesse pedir per­ dão da forma mais humilhante . incrédulo . mas para Lila. «vem cá e vais ver se não tenho coragem. Michele saiu imediatamente do carro . apertando com as unhas a argolinha de prata que se abrira. Marce . não por ter medo» .» Michele deu a volta ao carro . Ajoelhou-se no passeio . «Entra. e eu comecei a chorar. Michele também percebeu isso . 14. encontrou a pulseira. «Um momento» . ao afecto que sentia por ele depressa se juntou uma admiração crescente . disse e . Fiquei com a mesma absoluta certeza que tive na altura: ela não teria hesitado em cortar-lhe a garganta. disse . «Muito bem.» «Vem cá» . olhando não para mim. disse . em dialecto: «Toca-lhe outra vez e vais ver o que te acontece . na minha frente . mimada. De onde estava via bem que a ponta do trinchete já ferira a pele de Marcello . Estava um lindo dia claro e ventoso . Lila estava encostada a Marcello como se lhe tivesse visto um insecto na cara e lho quisesse enxotar.» Lila desencostou lentamente a ponta da lâmina da garganta de Mar­ cello . Tenho a cena gravada na memória com nitidez . pede desculpa às meni­ nas e vamo-nos embora. Entregou-ma. «Comecei a chorar por causa da pulseira. Ainda fazia muito calor. A s fronteiras do bairro esbateram-se n o decurso daquele Verão . dizendo em tom tranquilizador: «Ela não te faz nada. Senti-me amada. tinha o olhar desorientado . qua­ se divertido . Tacteou por baixo do carro. ele quis que eu soubesse bem que transportes tinha de apanhar e quais as ruas por onde devia ir para me dirigir à nova es­ cola em Outubro . Uma manhã o meu pai levou-me com ele . sempre com a mesma calma. E foi a ela que disse: «Desculpa. empurrou-o contra o automóvel e encostou-lhe o trinchete à garganta. Disse com calma. um corte de onde saía um fiozinho de sangue . Marce . observou-a e reparou-a. .

como logo desco­ briu . Tratava toda a gente com familiaridade . ou um autocarro . Gabou a minha extraordinária caderneta escolar a um contínuo cujo padrinho de casamento conhecia bem. Passámos o dia inteiro juntos . com a habilidade com que ele falava com o vendedor de pizza a quem me comprou uma pizza bem quente com re­ queijão . Levou-me pelo Corso Garibaldi . que em casa quase nunca tinha. dom esse que no bairro e em casa escondia. Nápoles . nos transportes públicos . Dedicou-se muito a mim. que era na Piazza Municipio . Tratou do necessário na secretaria com extrema simplici­ dade . Seria possível que só o nosso bairro estivesse cheio de conflitos e violência. Vejam agora quanto espaço . a Via Foria. Dizia que ela era tão modema. que vinham japoneses do Japão de propósito para estudá-la e fazer uma idêntica no país deles. Levou-me à Via Costantinopoli . e com o vendedor de fruta a quem me comprou um pêssego muito amarelo . enquanto o resto da cidade era radioso e benevo­ lente? Levou-me a ver o sítio onde trabalhava. Fiquei assoberbada com os nomes . as árvores todas cortadas e rachadas . com as cores . o Jar­ dim Botânico . podia acelerar processos . à Port' Alba. Disse-me que também ali tudo fora renovado . cumprimentou este e . a única coisa velha é o Maschio Angioino . se quisesse . e o dinheiro corre e gera trabalho . em Nápoles há dois verdadeiros machos . Mostrou-me a Piazza Garibaldi e a estação que estava a ser construída. o teu papá e aquele ali . ou «faz-se o que se pode fazer» . com o barulho do trânsito . o Museu . sabia onde se apa­ nhava o metropolitano . com o esforço de guardar tudo na memória para depois contar a Lila. dizia ele . e depois volta-se a fazer. não me re­ cordo de mais nenhum. ou um eléctrico . Mas confessou-me que gostava mais da estação anterior. Mostrou-me a Piazza Cario III . o Asilo dos Pobres . abrir portas . nos escritórios . sobretudo os pilares .A Amiga Genial 1 07 Conhecia muito bem a enorme extensão da cidade . parte-se . com as vozes. à Via Toledo . estava mais afeiçoado a ela. Fomos à câmara. como se quisesse transmitir-me em poucas horas tudo o que de útil aprendera ao longo da sua existência. era assim desde sempre: corta-se . Reparei que repetia muito «tudo em ordem?» . Na rua mos­ trava-se muito sociável e de uma cortesia dócil. à Piazza Dante . Paciência. mas é bonito . até ao edifício onde era a minha futura escola. com o ar de festa por todo o lado . o único nas nossas vidas . o rapagão . e arranjava sempre maneira de dar a conhecer ao interlocutor que trabalhava na câmara municipal e que . tinha o dom de se tomar simpático .

Na verdade apetecia-me largá-lo . er­ guendo ao alto a clara de ovo da espuma. Naquele momento tão tremendo . eis novamente a charcutaria de Stefano e da sua irmã Pinuccia. Mas que mar. Depois quebravam-se em mil estilhaços cintilantes e chegavam até à estrada. nós duas com aquela capacidade que juntas . Mas de repente senti-me desconsolada. nova eu também. e. Estava muito agitado . e expressá-la por palavras e dar-lhe força. e o mar. Que pena Lila não estar ali . Se fosse ela a fazer o relato daquele dia. e que agora eu pagaria sei lá o quê para que desa­ parecesse da face da terra. Foi um momento inesquecível. Eis no­ vamente as ruas conhecidas . O Vesúvio era uma forma deli­ cada de tom pastel . cheio de luz e de fragor. Ainda bem que a minha mãe nada soubera do episódio da pulseira. atravessar a estrada. Por fim anunciou-me que me ia mostrar o Vesúvio de perto . embora absorvesse muito daquele espectáculo .108 Elena Ferrante aquele . mesmo que não tivesse estado presente . o II 00 dos Solara estaciona­ do em frente do bar. de coisas e pessoas . com outros foi quase mudo . juntamente com uma pequena multidão que apre­ ciava o espectáculo . Senti-me atordoada pelas fortes rajadas e pelo ruído . e o mar. com a vida inteira pela frente . fiz de conta que estava só no novo da cidade . cada vez mais vento . era muito conhecido . eu e Lila. Enzo a vender fruta. As ondas rolavam como tubos de metal azul . a luz ex­ traordinária. correr. repetiu pela enésima vez que eu na escola tivera nove em italiano e nove em latim. se espalhavam em volta sem se deixarem captar. deixar-me atingir pelos estilhaços brilhantes do mar. aos pés da qual se amontoavam as pedras esbranqui­ çadas da cidade . com um «oh ! » de espan­ to e temor de todos os que observávamos. Regressei ao bairro como se tivesse ido a uma terra distante . apresentou-me . imensas coisas . ter-me-ia sentido . o fragor. de certeza. Com alguns foi jovial . Ainda bem que ninguém fora contar a Rino aquilo que acontecera. colava a roupa ao corpo e levantava os cabelos da fronte . o vento cortava a respiração . exposta à fúria inconstante das coisas mas . Tinha a impressão de que . os seus nomes. cada vez mais sol . o senhor manda e eu faço . o perfil cor de terra do Castel dell ' Ovo . Ficámos do outro lado da estrada. demasiadas . Dirigimo-nos para a Via Caracciolo. de ruídos .apenas juntas - tínhamos de pegar na massa de cores . O meu pai apertou-me a mão como se receasse que eu me escapulis­ se . sim. vencedora: eu . apenas está bem. ruidoso . Contei a Lila tudo sobre as ruas . eu ter-me-ia imiscuído com um contracanto indis­ pensável . afastar-me .

onde Pasquale nos que­ ria levar para dançar. e no banco de trás a irmã Pinuccia. Lamentei . necessaria­ mente . Melina . que acabava de comprar a Giardinetta e levava a seu lado a mãe . levantado questões . que agora queria que lhe chamassem Carmen . e ela. que tinha o peso da mãe . com a mente . de longe . à espera dos amigos . eu a falar-lhe do centro de Nápoles e ela a pôr no centro a casa de Gigliola. porque Rino era contra . a Pasquale . e às vezes Rino . num dos prédios do bairro . todo asseado . depois de eu ter falado tanto . e Carmela. eu . naquele momento era apenas um conjunto de sinais inúteis de espaços inúteis . bom iam à praia. mas com os olhos . para evitar discus­ sões com os meus pais . que falava de Donato Sarratore em voz alta. sem dúvida. os grandes e os mais pequenos . que nos fazia adeus dos andaimes da obra. às escondidas do pai . O meu relato . Só faria caso daqueles espaços se lhe surgisse a oportunidade de lá ir. que os Solara tinham metido no carro e levado sabe-se lá para onde durante uma boa hora. no entanto nunca lá tínhamos ido . ela simplesmente tinha uma linha de pensamento muito sua. Michele fazendo de conta que não nos via. Com os ouvidos ouvia-me . estava solidamente ancorada à rua.» Ora aí está. Ao passo que ela se limitou a ouvir-me sem curiosidade . Quando o dia estava. e a princípio pensei que assim fizesse por maldade . mas sobretudo ao seu trabalho secreto . e . E de facto . Era um rapaz generoso . que se alimentava de coisas concretas . nos dias de festa.A Amiga Genial 1 09 viva e activa. Geralmente esperava j unto à bomba de gasolin a e pouco a pouco iam chegando Enzo . ela disse apenas: «Tenho de dizer ao Rino que temos de aceitar o convite do Pasquale Peluso para domingo . e Antonio . Gigliola. Tínhamos sempre aceitado os convi­ tes de Peluso . o bonito filho de dom Achille . para ela. teria feito perguntas . a Gigliola. Mas víamo-lo muitas vezes . às poucas plantas dos jardins. teria tentado demonstrar-lhe que devíamos fazer esse percurso juntas . enquanto Marcello não se esquecia de nos deitar um olhar cordial . a Marcello e Michele Solara que iam a passar no seu 1100. a Stefano . acompanhava com todos . como um livro ou uma fonte . a Melina. que andava a passear com Alfonso e Carmela. porque iria enriquecer-lho . e se Melina estivesse calma vinha também a sua irmã Ada . seria uma companhia muito melhor do que o pai dela. a que se aplicava para ir para a frente com o projecto dos sapa­ tos . não fazia distin­ ções de idades . Mas tive de convencer-me de que não era assim. enquanto Ada tentava arrastá-la para casa. se não tivesse mais nada que fazer. para tirar força ao meu entusiasmo .

quase sem fôlego: . tanto que muitas vezes ficava sentada a olhar. Pousei o manual ao pé dos outros livros . e não grego . Andava muito alegre nesse tempo . cujos pais eram mais toleran­ tes do que os nossos .gra­ mofone . o que era mais fre­ quente .1 10 Elena Ferrante voltavam com a cara vermelha do sol . me entregou o manual de dança e voou pela sala com ele . revelaram-se óptimos dançarinos . para aprendermos bem os passos . a polca. Também quis dançar. dava a impressão de que o seu divertimento consistia só em aprender. reuniam-se em casa de Gigliola. rodopiávamos pela casa. Mas entretanto vi que debaixo de Guerra e paz. Uma vez que fui a casa dela mostrou-me um livrinho que trouxera da biblioteca. com aquele seu ar de quem quer perceber bem como se faz . é bom que se diga. uma exuberância surpreendente nela. quando já estávamos mais experientes . Enquanto dançávamos . estudando-nos . A princípio fez-nos dançar com os pés sobre os dele . e aplaudia os pares mais acertados . quem sabia dançar dançava. fazendo de homem. e nós aprendemos com eles o tango .» Olhei-a. O que dissera ela? Gramofone era italiano . que deu um grito suave . mesmo sem terem gramofone . que desatou a rir ao ver-nos . estreitando os olhos: «Sabes o que essa palavra é?» «Não . Sem mais nem menos agarrou-me pela cintura e.» «Grego . Descobri que gostava muito de dançar. primeiro comigo e depois com a irmã. Tanto Pasquale como Rino . porém.Lila gritou-me de um canto da sala. com uma etiqueta da biblioteca do professor Ferrara . Lila começou a puxar-me para aquelas festarolas . e cada movimento era explicado com desenhos de homens e mulheres a dançar. Gramática. ao passo que Pasquale era muito paciente . como pro­ fessor depressa se enervava. a valsa. e depois . e ali . onde estava escrito tudo sobre os passos de dança. embora sem música. apetecia-me dançar sempre . gramofone . para minha sur­ presa. Mas assim que ele disse aquela palavra . a mazurca. duvidosa. e quem não sabia dançar aprendia. Apareceu Rino . espreitava um livro esfrangalhado intitulado Gramática Grega . Lila. trauteando a música. Rino entretanto largou-me e começou a dançar com a irmã. gramofone . Ouvi que ela me prometia. Grega. dera-lhe o interesse pela dança não sei como . principalmente com a irmã. Rino . Ou então . obrigou-me a dançar o tango . contou-me que Lila apanhara uma tal mania do perfeccionismo que o obrigava constantemente a exercitar-se.

as maçãs do rosto . Eram bonitos . As costas faziam uma curva profunda antes de chegarem ao arco cada vez mais firme do traseiro . andavam à procura de uma nova orques­ tração e pareciam prestes a encontrá-la. exposta a tudo . Tomara-se sinuosa.A Amiga Genial 111 «Depois escrevo-te gramofone em letras gregas . Uma vez Lila exibiu-se numa valsa com o irmão . e no Verão . Quis que eu aprendesse também aquele alfabeto antes de ir para a escola. fiquei zangada. Mas não consegui . o longo pescoço mostrava-se com uma nitidez enterne­ cedora. Sentia-me frágil . os grandes olhos que se estreitavam de repente . Fiquei encantada. tornozelos de menina. a primeira vez .» Disse que tinha que fazer e fui-me embora. não podia passar o meu tempo a segui-la ou a descobrir que ela me seguia. creio . la aos bailes em casa de Gigliola com uma sensação permanente de inferioridade e de vergonha. e obrigou-me a escrevê-lo e a lê-lo . Dançavam tão bem juntos que deixámos o espaço todo para eles . os lábios . O peito tinha uns pequenos pomos graciosos . mas a inferioridade e a vergonha intensificaram­ -se . de dia para dia mais visíveis . Fui à biblioteca buscar uma gramática grega. Apareceram-me mais furúnculos . do mesmo modo que se perde um tema musical muito conhecido quando é adapta­ do com demasiada imaginação . o nariz pequeno . Talvez eu devesse apa­ gar Lila de mim como se fosse um desenho no quadro . quando eu ainda nem pensava em tal coisa. 15. pensei . Esperei que passasse . Quando se penteava com o rabo-de-cavalo . Os tornozelos ainda eram ma­ gros de mais . e de uma maneira ou de outra sentir-me diminuída. Olhando para eles compreendi perfeita­ mente que ela em breve perderia o seu ar de menina-velha. as orelhas . e foi . Deixei que me mostrasse que sabia escrever todas as palavras italianas com o alfabeto grego . que era tempo de férias? Fazia sempre as coisas que eu havia de fazer. Começara a estudar grego ainda antes de eu ir para a escola secundá­ ria? Fizera-o sozinha. fui logo procurá-la. mas quanto faltaria para se adapta- . A fronte alta. primeiro e melhor do que eu? Fugia de mim quando eu a seguia. mas entretanto ia na minha peugada para me passar à frente? Tentei não me encontrar com ela por uns tempos . acertavam bem. mas só existia uma e fora emprestada por turnos a toda a farm1ia Cerullo . Deixei que me ensinasse como se fazia a quadrilha.

Lila era má. em qualquer lugar secreto de mim. o efeito não era dos melhores . Apercebia-se de que Lila o olhava de mau modo . para eu mijar na cara dos Solara. Tinham os olhos postos nela. sobretudo . viam ainda mais coisas do que eu . com sor­ risos incertos e aplausos exagerados . gradualmen­ te tomou-se claro não só para mim. trouxesse consigo a irmã. essas suas capacida­ des pareciam-me agora de pouca importância. Rino . Mas para dizer essas gabarolices era indispensável que a irmã não estivesse presente . Mas . Mas não havia nada a fazer. mas também Antonio e tam­ bém Enzo . como ele . um bocadi­ nho de sorte . para uma pizza . para quem o ouvia. contemplando-a enquanto dançava com Rino . Primeiro que todos Pasquale . que emanava de Lila um fluido que não era apenas sedutor mas também perigoso . repetia amiúde uma frase que lhe dava prazer: basta pouco . Mas se era o meu lado infantil que desencadeava aqueles pensamentos . movimentos provocantes . feições regulares . Na presença dela atrapalhava-se . um vocábulo exagerado que me vinha das histórias da infância. Lila despertara nele a fantasia e as esperanças . Já me mostrara que sabia ferir com palavras e também que seria capaz de matar sem hesitação . mas para todos . não perdia uma oportuni­ dade de aludir a como era hábil no seu trabalho e que iria ficar rico. para quem o via. como o som já próximo da beleza que se avizinha. Era o que eu continuava a pensar. E de facto . contudo . No entanto Carmela tinha uns olhos lindos e . nas saídas em grupo fora do bairro . como se as outras tivessem desaparecido . No final do Verão começaram a aumentar as pressões sobre Rino para que . Tomara-se mais fanfarrão .1 12 Elena Ferrante rem à sua actual figura de rapariga? Tive consciência de que os rapazes . O corpo em mutação de Lila começara a emanar qualquer coisa que os machos sentiam. Dizia para comigo: há-de libertar alguma coisa ainda mais malvada. esboçava algumas frases . No entanto eu tinha mais peito . o certo é que havia neles um fundo de verdade . 16. para um passeio . Também ele me parecia estar a mudar. queria ter o seu espaço . Foi preciso que a música se interrompesse para eles voltarem a si . pernas perfeitas . que a observava desde que andáva­ mos na primeira classe . e recorria à palavra malefí­ cio . uma energia que os atordoava. mas depois continha-se . porém. No entanto Gigliola tinha uns cabelos loiros deslumbrantes .

Quis-me parecer que Antonio me cortejava um pouco . demorava-se a olhar para um engraxador. as ruas apinhadas . sentimos o fedor a peixe estragado por causa do calor. isso equilibrava as atenções de Pasquale com Lila. para os rapazes . tinha aliança no dedo . e por isso preferia não a ter por perto .atirara às escondidas um beijo a Lila. esforçando-se para olhar para outro lado . disse-lhe Rino . Estava ocupado com o seu trabalho e mais nada. para uma mulhera­ ça toda pintada. de distanciamento . arrastava-a atrás de mim com medo de nos perdermos de Rino. Pasquale . um homem dos seus trinta anos. de modo que alguns riam-se . olhava-lhes directamente para a cara. com o irmão ou com outros . dos bares-pastelarias muito mais bem abastecidos do que o dos Solara. Esgueirava-se para se ir exibir como um pavão junto dos amigos . Um domingo. com uma risadinha nervosa a contrastar com o sorriso generoso de Pasquale . Mas por vezes tinha de se sujeitar. tenho a certeza de que não me contara. Nessa noite fomos a uma pizzeria do Rettifilo . Pasquale. soprando-o na ponta dos dedos. fomos sair (Rino veio generosamente assumir perante os meus pais a responsabilida­ de pela minha pessoa) . com uma habilidade excessiva. Mas as coisas agravaram-se . à noite. vencendo a sua timidez . para os homens escuros . a rir. Mas Pasquale perguntou a Lila. respondeu: . após muitas discussões com os nossos pais. começou a fazer voltear a pizza no ar enquanto a amassava. outros faziam-lhe um gesto que significava: o que queres? De vez em quando puxava por ela. disse-nos que o homem que fazia a pizza . Não me recordo se Lila já tivera alguma oportunidade de ir ao centro . que olhava para ele admirada. Fixava as pes­ soas com muita atenção . já bastava estarem todo o dia a trabalhar juntos na sapataria. ou estou enganado?» Lila. era pai de filhos com certeza . e fiquei contente . mas também o perfume dos restaurantes . Atravessámos a Piazza Garibaldi . respondeu ela. Vimos a cidade iluminada pelos anúncios luminosos . Do que me recordo bem é que daquela vez se manteve totalmente muda. «Pára com isso» . comemos com alegria. «Não estou a fazer nada» . Carmela e Ada. das tascas de fritos . Virámo-nos todos para olhar para ele . e trocando sorrisos com Lila. mas ela fica­ va para trás . Mas a certa altura o tipo que fazia a pizza .A Amiga Genial 113 estivesse a trair u m pacto secreto de compostura. sempre a rir: «É verdade . imagine-se. Mas se tinha ido . Antonio .que para nós . rapariguinhas . parecia velho .

correspondia ao olhar como se não se capacitasse de que estava a ser admirada. que se limitara a fazer compreender ao seu empregado uma coisa que era pouco clara para ele . com o seu sorriso cândido nos lábios . O pai . Mas Peluso levantou-se . acorreu imediatamente . e Lila. e não tanto os jovens como os homens feitos . como se estivesse envenenada.principalmente depois do incidente com os Solara . enquanto à nossa mesa o nervosismo de Rino .» «Deixa estar. ela retribuía o olhar. com idades entre os doze e os sete . olhou em volta e . fulminando a irmã com o olhar. feias . Se alguém lhe dizia qualquer coisa. Por fim. sobretudo Carmela. ela parava. como nós : pai . À nossa frente estava uma farru1ia a comer gelado à mesa. O dono do estabelecimento . atirando-o contra a boca do fomo . terminando com uma ameaça: continua assim e nunca mais te trago . com dentadas lentas . foi ao balcão do fomo . Acontecia assim no bairro e fora dele . embora tentando controlar-se .desta vez todos nós reparámos .tínhamos aprendido instintivamente a manter os olhos baixos . peque­ no e pálido . Uma tarde de fim de Agosto fomos até à Villa Comunale . os homens com quem nos cruzáva­ mos olhavam para todas nós . E posso jurar que Lila não trazia nada que desse nas vistas: não pusera bâton e as roupas que vestia eram as mesmas de sempre. Lila. Parecia gente res­ peitável . não . E quando saímos Rino deu um grande raspanete a Lila. e que agora não haveria mais problemas . Até porque . intrigada. e Pasquale explicou-lhe com calma que não era preciso preocupar-se . e Ada. mãe e três filhos . um homem na casa dos sessenta. Pasquale e Antonio cres­ cia. . um homem forte . evidentemente sem se dar conta do risco que corria. de olhos baixos. e por vezes respondia. que naquele tempo se comportava como um nababo . quis oferecer um spumone a todos . disse Rino . o homem.1 14 Elena Ferrante «Eu não vi nada. como se não acreditasse que estavam a falar com ela. Acabámos de comer a pizza em silêncio . bonitinhas . quase nunca lhe dirigiam as obscenidades que habitualmente nos reservavam. Mas aquele senhor . Ir passear com ela ao domingo tomou-se um motivo de permanente tensão . que a mãe lhe fazia.não conseguia tirar os olhos dela. a fingir que não ouvíamos as porcarias que eles nos diziam e seguir em frente . bonitas . perplexa. onde nos sentámos à mesa de um bar porque Pasquale . Se alguém olhava para ela. deu uma bofetada na cara do ho­ mem . Carmela. Pascà» . tinha ar de profes­ sor. Mais vistosas estávamos nós . O que é que se passava? Na rua. dos seus cinquenta. coisa fora do normal . e eu própria .

o professor Ferraro e a sua numerosa farm1ia. na mesma escola que eu) e até trocou algumas palavras com Carmela. disse: «Vocês são afortunados.» Lila desatou a rir devido à tensão nervosa. pois sacrificava-se a trabalhar diaria­ mente na charcutaria. mas já disse isto à minha mulher e aos meus filhos . muito colorida. Veio gente que às nossas festarolas de jovens nunca teria vindo . Maria. deu uma festa com pessoas de todas as idades . Mas depois tudo se compôs da melhor maneira. quase a entrar para a secundária como eu . e tam­ bém Stefano . fez-lhe uma vénia discreta e ia regressar à sua mesa quando Rino o agarrou pelo colarinho . Mais um domingo estragado . Por exemplo Maria. descarregou sobre ele uma série de insultos . licores . bolos de amêndoa. e Antonio puxou Rino dali para fora. o farmacêutico com a mulher e o filho mais velho . pãezinhos de cassata . se bem me lembro) . Por exemplo . O homem zangou-se . A mãe de Gigliola. a mulher gritou metendo-se no meio . Mas o pior aconteceu uma vez que Rino não estava. dirigindo-se educadamente aos rapazes . Como o marido era o pasteleiro da pastelaria Solara. o sentou à força e . dos mais corriqueiros aos da última moda. Peço desculpa. que . Têm aqui uma rapariga que virá a ser mais bela do que uma Vénus de Botticelli . se via a senhora Peluso . como os dizíamos no bairro . bebidas para crian­ ças e discos de música de dança. mas a adesão em tomo de Lila de tensões de proveniência diversa. a viúva de dom Achille .A Amiga Genial 115 levantou-se . os filhos do assassino de dom Achille . foi tudo feito em grande: havia profiteroles em abundância. Gino . no dia do santo do seu nome (chamava-se Rosa. virava a . parou na frente de Lila e . considerando todos os habitan­ tes do bairro potenciais clientes que iriam gastar dinheiro na sua loja. Também lá estavam Pasquale e Carmela Peluso. diante da mulher e dos filhos . por regra. por isso limitou-se a evitar cruzar. O homem por sua vez sorriu . com o filho Alfonso e a filha Pinuccia. O que me espan­ tou não foi o facto em si . o fez percorrer a distância a correr. um só instante que fosse . Estas últimas presenças de início causaram grandes tensões . Stefano percebera precocemente que o comércio se baseia na ausência de discriminações . Por exemplo . pastéis folhados . e senti necessidade de o dizer também a VÓS . o seu olhar com o de Pasquale . Geralmente abria o seu bonito e simpático sorriso para toda a gente . Alfonso era um rapaz simpático (também ia para a secundária. Pinuccia estava sobretudo contente por ter ido a uma festa.

Perguntou a Lila porque não dançava. todas em dialecto . a vontade que tinha de dançar. e em casa de Lila. Aquilo que mais contribuiu para diluir as tensões foi o facto de termos começado a dançar sem demora. Lila. a algazarra aumentou e ninguém fez caso de mais nada. ti­ nham grande curiosidade . a vender fruta e hortaliça com a carroça. que de todos nós era o que tinha mais idade . . De aspecto parecia mais velho do que Rino . Via-se bem nas suas feições que se levantava antes de alvorecer. Foi ele que tomou a iniciativa. para minha satisfação . o rock and rol!. que se alguém lhe tocava sem ela permitir saltava para o lado como se lhe tivesse picado uma vespa. Mas . Lila também não me parecera muito em forma. Aliás . naquela noite decidiu tam­ bém. No resto . manter uma conversa. pela qual todos . e que andava em todas as estações . a ver como Pas­ quale e Carmela Peluso dançavam bem. com o meu irmão Peppe . dos velhos às crianças . Mas quando pu­ seram a tocar outro rock and rol!. Primeiro foram as danças tradicionais e depois passámos para uma nova dança. ficar de fora. com frio . não reagiu . habi­ tuado ao trabalho duro . chegara a dizer-lho . retirei-me para um canto . mas sentia-me muito desajeitada para aqueles movimentos rápidos e ágeis . Ele ficou calado . debaixo de chuva. e . e ela tomara a crítica como um desafio e insisti­ ra em treinar-se sozinha. sobrancelhas e pestanas loiras . e depois disse: eu também não . O garoto que nos atirara pedras . que uma vez lhe oferecera uma coroa de sorvas . tanta era. pegou-lhe num braço com naturalida­ de e levou-a para o meio da sala. já o dançara muitas vezes em casa. É claro que já sabia dançar o rock and roll. embora de má vontade . uma vez que Rino se recusava a dançá-lo . ao domingo . havia ainda um res­ quício do menino rebelde de quem tivéramos de nos defender. ao longo dos anos era como se tives­ se sido absorvido por um organismo de baixa estatura mas forte . que tinha de lidar com a camorra do mercado de fruta e hortaliças . Mas no seu rosto de loiro em que tudo era claro . calcor­ reando as ruas do bairro . evidentemente . ignorou por completo os dois jovens e tagarelou muito tempo com a mãe de Gigliola. Enzo era de poucas palavras mas tranquilas . olhos azuis . a meu lado . encalorada. que de surpresa competira com Lila em aritmética. Mexia-se de modo um pouco ridícu­ lo . Mas a certa altura Enzo aproximou-se dela.1 16 Elena Ferrante cara para o outro lado . Eu . não teria passado pela cabeça de nenhuma de nós trocar piadas com ele . com ela. perfeccionista como era em todas as coisas . decidi ficar a olhar. Ela respondeu: porque ainda não sei dançar bem esta mú­ sica. Olhou­ -o com gratidão e entregou-se à música.

. Stefano e Marcello avançaram ao mesmo tempo para convidá-la para dançar. justamente quando Lila estava a dançar com ele . Até Enzo gosta dela. mas estava muito atento a Lila. a música começou . pensei desolada. Primeiro . cada um deles convencido . Continuou a olhar para ela mesmo quando a música terminou . duvidosos . Me­ xia-se pouco . pretendia claramente dar-lhe prazer. feliz . Mas . fixaram-na durante muito tempo . Deu uma cotovelada a Stefano e disse-lhe em voz alta: . Não os perdi de vista e não foi preciso muito para perceber que . do seu poder abso­ luto . e fizeram-lhe um gesto de saudação exagerado que ele fingiu não ver. Nunca mais tirou os olhos dela. que desviou o olhar. mas Pasquale antecipou-se-lhes . decidiu complicar a situação à sua maneira. o dono da charcutaria. chegaram os irmãos Solara. por fim repararam em Lila. dada a excelência do dançarino . ou por amor ao irmão . ela imediatamente se desenfreou . à maneira de donos do bairro . Muito pelo contrário . Nessa altura Michele Solara.reparei imediatamente . conseguiu como sem­ pre captar a atenção de todos . Quatro homens de idades variadas moveram-se ao mesmo tempo na direcção daquela figurinha de rapariga de catorze anos . Stefano . so­ bretudo Marcello . E . ou pelo simples gosto de armar desordem.Marcello . depois segredaram. Aconteceu tudo num ápice . embora não fosse tão exímia como Carmen . de modo diferente . como se ti­ vesse perdido o pouco tino que tinha. Olhou para ela o tempo todo como se olha para uma diva no cinema. que era o que se sentiam. deitaram um olhar carregado a Ada. deram uma palmada amigável a Stefano e depois puse­ ram-se também a observar os dançarinos . indicaram um ao outro Anto­ nio . A agulha raspou o disco . que agradava a todas . Foram cumprimentar o pastelei­ ro e a mulher. Foi mesmo isto que se passou . Em poucos segundos foi completamente cativado pelo corpo flexível e ele­ gante de Lila. Pasquale começou a dançar com Lila e .A Amiga Genial 1 17 Viu-se imediatamente que Enzo não sabia dançar grande coisa. Enzo tentou impelir Lila para o canto onde eu estava. E ela. Bastou-me vê-los para ficar agitada. disse­ ram qualquer coisa ao ouvido um do outro e Michele fez um visível sinal de concordância. permitir que ela se exibisse . parecia não estar zangado por causa da cena do trinchete . de modo sério e compassado . Marcello e Enzo recuaram.até Stefano . pelo seu rosto fora do comum para o bairro e talvez para toda a cidade de Nápoles . Lila deu um saltinho gracioso de consentimento e bateu as palmas .

e ouviu Stefano . puxando-a. porque a música estava alta e ele es­ tava ocupado a fazer acrobacias com Lila. recomeçou a fazer o que naquele momento mais contava para ela: dançar. com o seu sorriso encantador: «Deixemo-lo dançar. aproximou-se de Carmela e disse-lhe qualquer coisa com modos bruscos . e ficas aqui parado a vê-lo dançar com a miúda com quem tu querias dançar?» Pasquale de certeza não ouviu . mas não aconteceu nada. olhei para Enzo . Mas eu ouvi . que dançava com Lila.118 Elena Ferrante «Mas tu tens sangue na guelra. elevando-a. sentia-se afortunado . ou não? Aquele é o filho do homem que matou o teu pai . Stefano era um rapaz atilado . sabia como o detestava. Enquan­ to o coração me batia de ansiedade . falou com Pasquale . apontava para Stefano . A charcutaria ia de vento em popa. não o vendo . levou-o para um canto e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido . ou mesmo certo de que a vida lhe daria tudo o que desejava. Assim que a música acabou . A música terminou . Estava tudo sob tensão . ou seja. O que queria ele fazer agora? Vi-o a falar com os donos da casa de modo agitado . Olharam os dois de través para Michele Solara. que conversava de novo com Stefano . «Vai» . ele planeava comprar um espaço ao lado para ampliá-la. Michele fez um trejeito de desagrado e foi à procura do pasteleiro e da mulher. Tinha a certeza de que ela lhe diria que não . depois . sisudo . apontava para Pasquale que estava a dan­ çar. e ele em voz baixa mandou-a calar. Antonio apro­ ximou-se deles . Lila voltou para o pé de mim. disse Michele ao irmão . a rir. apontava para o canto onde estava Maria. a transpirar. e continuou a olhar para Lila. apontava para Carmela que se exibia com Antonio . primeiro procurou Pasquale com o olhar. «O caminho está livre» . naturalmente . A música recomeçou e ela. e . agarrou a mão de Marcello como se fosse apenas uma mão . e para Marcello . Pasquale . Olhei para Stefano . Eu disse-lhe: . a mãe de Gigliola deu o braço a Pasquale cordialmente . baixando-a. é um comunista de merda. Carmela pro­ testou em voz baixa. Esperámos que acontecesse qualquer coisa. como se a seguir não existisse um braço e todo o cor­ po dele . Mas não foi assim que aconteceu . Alfonso e Pinuccia. Disse a Mi­ chele . e ouviu Enzo . Depois An­ tonio foi buscar Ada à zona de dança. ele dança bem» . com a vontade de dançar em cada músculo . como se a única coisa que lhe importasse naquele momento fosse ela. que estava ao pé de mim. E Mar­ cello Solara voltou à carga com Lila.

e apesar de ser mais novo e mais baixo . com ar sombrio . ouvi Lila dizer indignada a Enzo . ela era assim mesmo .A Amiga Genial 1 19 «Passa-se qualquer coisa. Estava calmo . «Temos de nos ir embora» . Devo ter revelado tanta angústia na voz que ela finalmente olhou em volta. em dialecto puro: «Tocou-me . O outro riu-se e disse-lhe qualquer obscenida­ de entre dentes . duro . «Está bem.» Seria possível que não se tivesse apercebido de ter dançado com Marcello duas vezes? É possível . mas ele continuou encostado à parede a ver Lila dançar. Ainda bem que o Rino ali não estava. relutante . Pasquale dirigiu-se para a porta da casa. viste? A mim . indelicado . dizendo: «Só mais uma dança. é melhor irmo-nos embora.» «Não . como se só então o reconhecesse . . e olhou para Enzo. dizendo-lhe . nem que venha um terremoto» . é um homem morto . aquele merdoso . perplexa. Mas entretanto . e por Antonio que puxava por Ada. olhou-o incrédula. parecia não estar a fazer o menor esforço . e bateu-lhe com força com o ombro . A força do aperto só se revelou no rosto de Marcello Solara. «Esperemos que a Lila termine esta dança. disse ele num tom que não admitia respostas . Marcello convidou-a mais uma vez e ela deixou-se arrastar de novo pela dança. Pasquale veio até junto de mim e disse-me .» Lila. Depois foi de encontro a Michele Solara. parecia-lhe impossível ele estar a tocar-lhe com tanta confiança. Se o fizer mais alguma vez . Lila dirigiu-se para mim seguida por Marcello .» Enzo desencostou-se da parede e agarrou o pulso de Marcello sem dizer uma palavra. Voltei-me para ver o que Enzo fazia. disse . Tentou libertar o braço . que tí­ nhamos de nos ir embora. Ainda estou a vê-lo . enervada. A música terminou . eu levo-te a casa. cujos olhos brilhavam de satisfação . como se tivesse acordado . imediatamente» . que estava encostado a uma parede . Encaminhei-me para a porta sem esperar mais . quase gritei . a música recomeçou . seguido por Carmela. que soltou Lila com um esgar de dor e agarrou imediatamente o pulso com a outra mão . vamos» . mas Marcello agarrou-a com força. Marcello Solara agarrou Lila por um braço . entre o riso e a súplica: «Fica.» Ela riu-se e exclamou: «Vou dançar mais uma música. Enquanto nos dirigíamos para a saída.

Depois Lila perguntou . e não havia maneira de o acal­ mar. Mas Pasquale só amansou quando viu Lila a chorar. debulhou-se em lágrimas também. Antonio . Enzo tentou convencer-nos a todos a sair da rua. também Antonio começou a gritar. eu e Lila demos-lhe logo o braço e arrastámo-lo dali . Gritava: «Ü meu pai fez bem em matá-lo. enxugando as lágrimas com as costas da mão: «Quem são os nazi-fascistas . com olhos de louco . Enfurecidos . fingindo calma: «Vai tu . porque queria privá-lo de uma ale­ gria: a alegria de ser ele a matar os Solara. como se a fúria de Pasquale lhe tivesse bombeado fôlego para o peito . também fico.o que me perturbou ainda mais . voltando-se para Lila. Pascà? Quem são os monárquicos? O que é o mercado negro?» .» Nesse momento fui eu que desatei a chorar e . e quase parecia que estava zangado com Pasquale .» Nesse instante . que eu ainda nunca tinha visto chorar.» E gritava: «Os Solara.» Então Enzo disse baixinho: «Se vocês ficam. Éramos já quatro raparigas lavadas em lágrimas . E Ada começou a chorar e Carmela não conseguiu conter-se mais. e lágrimas desespe­ radas . Gritava insultos . Dissemos-lhe muito mal dos Solara para o consolar.. dos monárquicos . tu até foste dançar com aquele pulha. em tom resignado: «Pronto . que era a base para o contrabando e para recolher os votos da Estrela e Coroa. mas também frisámos que o melhor era fazer de conta que não existiam. resolvo o assunto dos Solara noutra altura. pai e filhos . Dizia que dom Achille fora espião dos nazi­ -fascistas .» Por entre soluços . gritava a plenos pulmões . Carmela e Ada. Tinha raiva a Michele . Pasquale estava fora de si . vamos . segundos depois . queriam ficar para enfrentar os Solara. mas sobretudo a Marcello e Stefano . nunca o tínhamos visto assim. vemo-nos ama­ nhã. Disse . como se fosse a coisa mais grave: «E tu . «Vamos dormir» . vai . Dizia que o bar Solara sempre havia sido um lugar de camorristas usurários . Mas Pasquale e Antonio calaram-no . e depois apago também da face da terra Stefano e o resto da farm1ia. foi Lila. sim.1 20 Elena Ferrante Lá fora encontrámos Pasquale . por aquilo que haviam feito a Ada. repeti­ ram várias vezes a Enzo . esta noite não . dizia que o dinheiro com que Stefano desenvolvera a charcu­ taria fora ganho pelo pai no mercado negro . Dizia coisas que nós não tínhamos elementos para compreender.» E por fim gritou . encarrego-me eu de lhes cortar as goelas . disse .

o nazismo . o sapateiro . e o seu pai . as coisas . à sua maneira habitual . o avô camorrista dos Solara. o con­ trabando . É difícil dizer o que as respostas de Pasquale fizeram a Lila. aquele até a mãe fez passar fome . corro o risco de errar ao contá-lo . evidentemente . Quando saíamos indicava-me as pessoas . na origem daquele bar está a camorra. o pai Silvio . todos eles criminosos empedernidos ou cúmplices condescendentes . os aliados . casas . dom Achille e o mercado negro . todos comprados com farelos . Em linguagem de hoje.» Depressa se sentiu insatisfeita com Pasquale . e dizia: «Aquele foi à guerra e matou . e o meu pai . na altura. elas não ti­ veram qualquer efeito concreto . a monarquia. um fas­ cista ainda pior do que os filhos Marcello e Michele . tentarei resumir assim: não há gestos. sobre esta pedra marcharam e fizeram a saudação romana. completou as insu­ ficientes informações dele com alguns livros que encontrou na bibliote­ ca. que não contenham a soma de todos os crimes que os seres huma­ nos cometeram e cometem. a república. aquele talho nasceu do roubo de cobre e de assaltos a comboios de mercadorias . provavelmente ela própria dominada pela urgência de se sentir encerrada numa visão compacta. Mas o que importa é que foi tomada pelo frenesim da revelação total . Mas ela.A Amiga Genial 121 17. rostos . o dinheiro destes vem-lhes da fome daqueles . a usura. Fer­ nando . palavras . dizia-o de outra maneira. sus­ piros . Ela e Pasquale encerraram-me num mundo terrível que não dava escapatória. . Era como se ele tivesse accionado um mecanismo na cabeça dela e agora a sua tarefa fosse pôr em ordem uma remessa caótica de sugestões . E assim deu motivações concretas e rostos comuns ao clima de tensão abstracta que desde pequenas havíamos respirado no bairro . a guerra. este automóvel foi compra­ do com a venda de carne estragada e pão contendo pó de mármore no mercado negro . Ela. as ruas . naquela casa torturaram e mataram. todos . ficou transtornada e alterada por causa disso . todos aos seus olhos manchados até ao tutano por culpas tenebrosas . nesta esquina açoitaram. para mim insuportável . Peluso o comunista. ela transformou-os em ruas . todos. aquele espancou e deu a beber óleo de rícino . até porque sobre mim. de tal forma que até ao final do Verão me massacrou com uma única ideia. Cada vez mais tensa e mais obcecada. aquele denunciou uma quantidade de pessoas . sem fissuras . O fascismo .

sempre com os dedos na testa ou nas faces cheias de acne . varrê-la. ficamos na mesma carteira») . Quando recomeçou a escola. Pasquale . que ia a correr para ir abrir a loja. uma das raríssimas turmas mistas daquela escola. com ar assustado . carregada de livros . também vou para a escola secundária. lavá-la. Via-os passear juntos com frequên­ cia. ela. Impus a mim própria uma disciplina que aprende­ ra na escola média: estudava toda a tarde . e depois . encontrava muitas vezes Lila. das cinco da manhã até às sete . mas por outro esperei desligar-me daquela sua avalia­ ção dos delitos e das cumplicidades e das cobardias das pessoas que conhecíamos . E depois pensava: também Lila se apaixonará. de certeza. Gigliola. depois de muitas gaba­ rolices («Sim. não só os professores como o que escreviam no quadro . acabou por ir ajudar o pai na pastelaria dos Solara. continuarão a falar destas questões políticas . e terão filhos que por sua vez falarão das mesmas questões . conhecia Alfonso e Gino . era uma desconhecida para a minha compa­ nheira de carteira. Fui parar a uma turma de quarenta e dois alunos .1 22 Elena Ferrante Depois Pasquale começou a ficar calado . Os dois anos de escola secundária foram muito mais trabalhosos do que a escola média. depois casam-se . e se a princípio era ela que ficava suspensa dos lábios dele . Sentada numa das filas de trás de onde mal via. todos nós . até à hora de jantar. À saída de casa. Dos rapazes . a pés sujos .no sangue . Está apaixonado .eu . As raparigas eram pouquíssimas . que trazíamos . Rino . não conhecia nenhuma. também ele derrotado pela capacidade de Lila de ligar uma coisa à outra. por um lado sofri muito porque sabia que já não disporia de tempo para Lila. agora era ele que ficava suspenso dos lábios dela. cotovelo com cotovelo . a medo . A sala tresandava. Ela interrogava-me acerca das discipli- . pensava eu . sim. e quase fizeram de conta que não me conheciam. mas sentaram-se juntos numa das primeiras carteiras . que amávamos . 18. quando eram horas de ir para a escola. Graças à professora Oliviero depressa obtive o s livros de que precisava. assim como ela era uma desconhecida para mim . sujos e muito usados. Durante os primeiros meses vivi a minha nova vida escolar em silên­ cio . um pivete ácido a suor. formando uma corrente que nos apertava por todos os lados . pôr tudo em ordem antes que chegassem o pai e o irmão . depois namoram.

atormentava-me com perguntas que me punham ansiosa com medo de não ter estudado o suficiente . Em certas manhãs frias . Engolia à pressa o leite e o café e corria para a rua. Vivia apavorada com o possível insucesso na escola. encontrá-la e ficar a saber.. De dia para dia era mais forte a angústia de não ir a tempo . o dono da charcuta­ ria. O seu andar já não era o da menina magricela que fora até alguns meses antes . era Antonio . como se . como de costu­ me . Receava. Até o pequeno-almoço era a correr por culpa dela. dava uma grande volta para não passar em frente da sapataria. da carranca da professora Oliviero . a sacrificar o sono quente e profundo da manhã para fazer boa figu­ ra com a filha do sapateiro . Por isso . e de não ser capaz de responder aos professores. como não era capaz de lhe responder a ela. as leituras sobre o mundo horrível em que caíramos ao nascer. E se não fosse ele . e queria respostas preci­ sas . Stefano Carracci . Uma vez ou duas vi Pasquale chegar junto dela ofegante e acom­ panhá-la. tinha a impressão de estar. Nos poucos minutos do percurso revia as lições aterrorizada. antes que Lila me anunciasse que andava com Pasquale . Por vezes . ao voltar da escola. quando me levantava ainda de madrugada e revia as lições na cozinha. Lila era imprevisível . ia-me virando para trás para lhe deitar um último olhar. sei lá. Se por acaso a avistava de longe . mais do que com os professores da escola dos ricos . Ou até .A Amiga Genial 1 23 nas que tinha nesse dia e o que tinha estudado . Contudo . imediatamente . O metropolitano ia apinhado de rapazes e raparigas . cheios de exigências . Eu não fumava. deixaria de ter tempo para mim. que já fazia amor com Peluso . entre o projecto dos sapatos . ou mesmo Marcello Solara. ao tornear-se-lhe o corpo . Esperava à porta. metia por outra . Os tipos que an­ davam atrás dela eram quase homens. não falava com nin­ guém. Olá. Já era mais alta do que eu . com o espectro vesgo da minha mãe insatisfeita. e começávamos logo a falar. tinha agora uma única ideia firme: arranjar um namorado . da sua própria boca. para não perder nem um metro do trajecto que fazíamos juntas . e os namorados . Via-a vir do prédio onde morava e constatava que ela continuava a mudar. no regresso da escola. imundos de sono e do fumo dos primeiros cigarros . Se não lhas desse . também o passo se tivesse tomado mais suave . Quando parávamos no cruzamen­ to e nos despedíamos .ela ia para a sapataria e eu para a estação do metropolitano . era Enzo . tons diferentes dos que se usavam no bairro . E se não fosse Enzo . olá. metia freneticamente na cabeça linguagens estranhas .

mas distraído . Preferia esses . sobretudo . olhei mais uma vez e o meu coração parou . Olhava para os mais velhos . homem dos seus sessenta anos . o essencial era que usasse calças compridas . nucas bran­ cas por causa do pescoço bem rapado . gorda e furunculosa. muito magro . um rosto que achei boni­ to e com qualquer coisa de familiar. ou apenas entrevê-lo . olhava para os rapazes . para vê-lo . em que me transfor­ mara. mas depois mudei de ideias . sobre­ tudo a si próprios . que não tinham frio: cabelo à escovinha. Era Nino Sarratore . O pai . de certeza que me pedia para ir comigo à escola. dezassete? Observei-o bem. O casaco estava deformado nos cotovelos . estreito de costas . os do liceu . Quantos anos podia ter? Dezasseis . em péssimas condições . um enorme edifício cinzento e escuro . Se lhe contasse . e seguia pelo Corso Garibaldi . para eles sentirem o meu olhar e olharem para mim. Também olhou para mim. os sapatos cambados . Mas depois não resistia e ia ao encontro dela. À saída pensei em ir a correr contar à Lila. À entrada e à saída do liceu . como se via em Stefano e. A partir daquele dia fui para a escola como se vê-lo . Não apresentava qualquer sinal de abastança. sempre a bocejar ruidosa­ mente . desatou a rir assim que eu pronunciei «oraculo» em vez de «orá­ culo» . quase todos de casaco e gravata. não reconhecera a menina loira e esbelta da primária na adolescente de catorze anos . mas reconheceria imediatamente Lila e ficaria fascinado . nos Solara. nunca de sobretudo . Olhava para os meus colegas da secundária. era óbvio que ainda não ficara rico . O professor. não me reconheceu . foi a primeira vez que fui chamada ao estrado . cabelos castanhos desalinhados . mas também me contentava com um do ano acima do meu . O Outono voou . vivia num mundo onde nunca ninguém tivera motivo para . embora tivesse escri­ to um livro de poemas . Olhava com insistência. o filho de Donato Sarratore . as calças puídas . E já sabia o que aconteceria. quando ele saía da escola de cabeça em baixo .1 24 Elena Ferrante rua. com um andar bamboleante . embora conhecesse o significado da palavra. Um dia reparei num aluno por causa do seu andar desengonçado . fosse a verdadeira razão para lá ir. tinham de provar. Uma manhã fui interrogada sobre a Eneida . como de uma fatalidade . Fiquei muito perturbada por causa daquela aparição inesperada. um tal Gerace . Nino não re­ parara em mim. o ferroviário-poeta. o impulso foi muito forte . Não lhe ocorreu que eu . indolente . Decidi dedicar-me à imagem de Nino Sarratore em silêncio . alguns ainda de calções . angustiada. outros de calças à zuava ou compridas .

ali na primeira fila ao lado de Alfonso . deixei-o de boca aberta. Disse que sim. sobretudo porque ele olhava para mim com uma atenção que até àquele momento nunca dispensara a nenhum de nós . dizia-me : quando recomeçar a escola pergunta ao professor como se pronuncia isto . Aceitei .A Amiga Genial 1 25 pronunciá-la. sobre os verbos. Por alturas do Natal já todos me chamavam Greco e alguns Elena. sapato!shoe . para voltarmos juntos para o bairro . Passaram-se uns dias e fize­ mos o primeiro trabalho de Latim. A partir daí foi um crescendo . As minhas qualidades atingiram os outros professores como um dogma. uma manhã. que finalmente arranquei um louvor público ao professor. em Geografia soube na perfeição super­ fícies . Depois entregou-me a folha sem qualquer comentá­ rio . e é claro que a minha pronúncia não era melhor. como se pronuncia aquilo . riquezas do subsolo . agricultura. Mas ela atormen­ tava-me . que pronunciava de modo impre­ ciso . Senti-me humilhada. populações . Um dia perguntou-me outra vez se podíamos ser namorados e eu . Até o professor de Religião me chamou à parte . Fui reabsorvida pelo bairro . principalmente Gino . Fora o professor Ferraro que a aconselhara a fazer assim . No trabalho de Italiano deu-me oito . mostrei uma familiaridade com o alfabeto . arranjara uma gra­ mática. perguntou: «Quem é a Greco ?» Levantei a mão . a esperar por mim . sobre a sintaxe . Toda aquela exaltante tensão teve uma pausa durante as férias do Natal . perceber/to unders­ tand. Tive nove . Respondi aterrorizada. dei um suspiro de alívio . Quando Gerace trouxe os trabalhos corrigidos . vi Lila mais vezes . Mas sobretudo em Grego . embora ele fosse um palerma. tive mais tempo . Em cada um deles escrevera de um lado a palavra em italiano . «Vem cá. uma óptima maneira de aprender vocabulário . naturalmente . Graças àquilo que aprendera com Lila. Já conhecia imensas palavras . Descobrira que eu estudava inglês e . Um dia levou-me à loja e mostrou-me uma caixa de metal cheia de pedacinhos de papel . uma destreza na leitura. Sempre era melhor que nada. em História não errei uma data. Todos se riram. e do outro a palavra inglesa equivalente: lápis!pencil. Gino começou a demorar-se à saída. uma desenvoltura na fonética. e me perguntou se eu me queria inscrever num curso gratuito de Teologia por correspondência. Lia-me o lado em .» Fez-me uma série de perguntas sobre as declinações .

uma vez que eu pouco ou nada sabia do que acontecia nos prédios . Depois passou bruscamente de Dido para Melina e falou-me muito sobre ela. e eu associei-a às nossas ruas sujas . e disse-lhe tudo de um fôlego. por lhe terem estragado o trabalho com pegadas . como se an­ dasse numa escola secreta. e segundo . apaixonara-se por ela. E uma tarde puxou de um comentário que me impressionou muito . Dobrada em duas . na escola. figura sobre quem eu nada sabia. primeiro . como se nunca a perdesse de vista. passara-lhe a eu­ foria. por isso continuava a lavar as es­ cadas dos prédios .1 26 Elena Ferrante italiano e queria que eu lhe dissesse o equivalente em inglês . en­ quanto eu . lanço após lanço . nazismo . Vivia na miséria com os filhos . beber a água . Disse: «Se não houver amor. E não resisti . ainda mais bonito agora do que era na primária. Se alguém descia ou subia. degrau após degrau . aos campos destruídos pelos novos prédios . comunismo . rendeste-te . atirava­ -lhe o trapo . agora trabalhava que nem uma máquina. não é só a vida das pessoas que se toma árida. em cada farm1ia. à violência em cada casa. «esperta. Receei que ela recomeçasse a falar-me de fascis­ mo . mas a ideia era essa. para dizer a verdade . Vi que parecia estar mais adiantada do que eu em tudo . que na minha escola andava Nino Sar­ ratore . Contou-me coisas sobre a sua parente . Mas . começou a gozar comigo . com uma energia e uma agitação capazes de arrasar pessoas mais robustas do que ela. ia a meio do segundo livro . disse . «Fazes amor com o filho do farma­ cêutico» . pois de manhã tinha escola e à noite estudava até tarde . ao passo que ela já sabia a terceira. que namorava com Gino . Em poucos dias a lera toda. Descreveu-ma em por­ menor. começava do último andar e ia passando com as mãos o trapo molhado . temi que fosse dizer-me: também eu namoro . Contara-lhe Ada que uma vez vira a mãe no auge de uma crise . Mas não . e não na escola. ouvi esse nome pela primeira vez da boca dela. juntamente com Ada (o dinheiro que Antonio levava para casa não chegava) . Também me fez perguntas sobre a Eneida .» Não me recordo como ela se expressou exactamente . apaixonaste-te como a amada de Eneias» . começava a gritar insultos. e depressa deduziu que eu ia ainda na pri­ meira. Notei também nela uma certa tensão . quis dar-lhe a saber que estavam a acontecer-me coisas boas . eu preferia falar de outras coisas . queren­ do mostrar-me que estava à altura daquilo que eu estudava. Semicerrou os olhos. aos jardins cheios de poeira. Mas ela interrogou-me sobre as declinações gregas . Mas já não se a ouvia cantar. Mas eu sabia pouco ou nada. Falou-me pormenori­ zadamente de Dido . mas também a das cidades.

Depois acrescentou . como essa tal Dido . e tivera de lho arrancar das mãos .» «Porque ele explica-me as coisas que aconteceram antes de nós . mas de maneira diferente da primária. Estão a perceber? Pas­ so a passo . Por fim começou a rir e prometeu com uma certa solenidade: «Eu nunca me apaixonarei por ninguém. «Conta-lhe a respeito de Melina» .A Amiga Genial 1 27 suja do balde . e a Eneias que a abandonou . incitou-me . que no fim se juntou à filha de um rei .» «É verdade . Uma vez perguntei-lhe . nunca. Disse que nós não sabíamos nada.» «Não . depois voltei . «E o Enzo ?» «Somos amigos . nunca hei-de escrever um poema» . E só naquela altura é que trouxe à baila Nino Sarratore .» «Mas haverá quem se apaixone por ti . pensam todos em mim?» «Sim. anda atrás de ti?» «Sim.» «Ü Stefano atende-me sempre em primeiro lugar. de Gino foi parar a Dido . aquelas conversas agradavam-me . agora que tinha um namorado . que significava: Marcello Solara mete-me nojo. «e diz-lhe que deve contar ao pai» . com cautela: «Ü Marcello Solara. nem em pequenas nem agora. e nunca. .» «E o Pasquale . com maldade: «Pois é muito fácil escrever poemas» .» «Pior para eles . declarou-se-te?» «Estás louca?» «Vi-o acompanhar-te à loja de manhã.» «Vês?» «Não há nada para ver. sinal de que me es­ cutara com atenção .» «E o Stefano?» «Na tua opinião .» «E tu?» Fez um meio sorriso de desprezo . mesmo se a loja estiver cheia. «Não acredito . irão enamorar-se de outra.» Assim regressou o tema do «antes» . e por isso não estávamos em condições de compreender nada.» Mostrei-me pouco convencida.» «Sofrerão . Fui-me embora. que faz ele . como fez Eneias .

na sapataria. Às vezes até tinha a impressão de que Lila é que dependia de mim. ou daquilo em que matutava nas conversas com Pasquale . na rua. nos monárquicos . comíamo-lo a meias . e não eu dela. apercebia-me cada vez mais de que o fazia com um certo acanhamento. Nem de injustiças . E não só nós . passavam por cima disso e iam gastar o seu dinheiro na loja do filho de dom Achille e na dos Solara. remendões . dávamos todos os dias um passeio até ao bar Solara. Encontrava-me com Gino. como se finalmente fosse ela que sentia necessidade de me demonstrar que era capaz de conversar comigo . 19. a charcutaria de Stefano antes era a carpintaria de Peluso . Na escola comportara-me de forma perfeita. todas as coisas . a mesma coisa. cada pedra ou pedaço de madeira.1 28 Elena Ferrante que todas as coisas do bairro . Odiavam dom Achille e tinham medo dos Solara. vendedores de fruta. e também lá nos metiam a nós . Quando me falava de Dido ou do seu método para aprender vocabulário inglês . Ela fizera a experiência com o pai e a mãe . nas coisas de antes. frequentava a escola secun­ dária. Ele comprava-me um bolo. Naquele período senti-me forte. E o mesmo fazia a mãe . E o dinheiro dos Solara. no entanto estavam metidos nelas . contei à professora Oliviero os meus sucessos. conforme os Solara queriam que eles fizessem. estava com rapazes que estudavam Latim e Grego e não com pe­ dreiros . sem nunca pensarmos nelas sequer. Aquela conversa do «antes» impressionou-me mais do que as conver­ sas tenebrosas para as quais me arrastara durante o Verão . e também a minha mãe . nem de exploração . Todavia. E vo­ tavam nos fascistas . As férias passaram-se a falar continuamente . voltávamos para trás . e assim. o meu pai . o pai de Pasquale . Nem do fascismo . e ela elogiou-me . nem de opressões . mas nós tínhamos crescido sem nos apercebermos delas . E no entanto . mesmo pequenas coisas . E pensavam que o que acontecera antes era passado . mecânicos . como ela. sem saberem. charcuteiros e sapa­ teiros. e também lá nos mandavam a nós . e foi reconfortante . Não sabiam de nada. não queriam falar de nada. e para viverem tranquilos punham-lhe uma pedra em cima. nem do rei . o dinheiro de dom Achille fora ganho antes . no pátio . já ali estavam antes de nós . ou da terceira declinação. Passara as fronteiras do bairro . Con­ támos tudo uma à outra. e Rino também. O pai dela fazia de conta que não existira nada antes . E no entanto . davam-lhes continuação .

dizia Ri no . «não se sente . Temos de descolar e de descoser tudo outra vez .» Apalpei . fez uma expressão preocupada e perguntou: «Então?» Lila retirou a mão . como fazia a professora Oliviero quando nos queria encorajar. Pareceu-me antes que tanto ela como o irmão hesitavam em falar-me de coisas de tão pouco valor.» O irmão mostrou­ -se contrariado . Apalpa. Mas quando viu Lila tirar o sapato da água. como um irmão mais velho que se aborrece com as criancices da irmã mais pequena.» . em que ponto estava o sapato secreto que andava a fazer com Rino . e dizia a Rino: «Quanto tempo leva o papá a descobrir estes erros?» A certa altura disse .» «Não» . «Viste? Basta um minuto na água para ficar húmido .» «Só tu é que sentes a humidade . A medida era 43 . largava-os. dizia «formidável» .A Amiga Genial 1 29 de igual para igual . «Está um pouco húmido» . mostrava-me a resistência que tinham . Mas o par de sapatos de homem que me mostraram pareceu-me realmente fora do comum. respondia eu . Até mesmo uma tarde em que resolveu mostrar-me .» «Está húmido . Mas ela encheu uma bacia. Nunca vira nada daquele género nos pés de ninguém. Quanto mais qualida­ des o irmão apontava. já não senti que ela habitava uma terra maravilhosa de onde eu estava ausente. «Apalpa aqui» .» Depois tirava-me os sapatos da mão . disse . fui-lhes elogiando o trabalho com entusiasmo . meteu a mão num dos sapa­ tos como se fosse um pé . Quando foram remexer numa arrecadação e apareceram com um embrulho . e fê-la andar um bocado dentro de água. exactamente como os recor­ dava de um desenho de Lila. do­ brava-os . esti­ mulada pelos meus elogios . mais defeitos ela me mostrava. Ou então era eu que começava a sentir-me superior a eles . disse-me Rino . encorajei-os com fingimento. Enquanto me deixaram tocar-lhes e me apontavam as suas qualidades . «Ela tem de brincar» . Eu aprova­ va. esfregou os dedos e estendeu-lhe o sapato: «Apalpa. não pode ser. «e diz-me se a costura se sente . Lila fez uma careta de desagrado . Mas Lila não parecia satisfeita. o número de Rino e de Fernando . com um aspecto leve e robusto ao mesmo tempo . séria: «Experimentemos outra vez com água. Lenu .» Rino enfiou uma mão e disse: «Está seco . castanhos . com alguma indecisão.

como acontecera com Carmela e as outras raparigas do pátio: talvez eu lhe tenha metido na cabeça uma fantasia que ele não é capaz de controlar. Porém agora. Fez-se-lhe a cara vermelha. Aproximava-se a festa da passagem do ano e a Rino deu-lhe a mania de lançar mais fogo-de-artifício do que todos. fingiu que lho atirava. Lamentou-se que assim nunca mais se acabava. mais . inchou em volta dos olhos e nas maçãs do rosto . Isto preocupava-a. «Estás muito bem. Alguém que já podia dar ao bairro um primeiro sinal da sorte que o novo ano lhe traria. não se conseguiu conter e explodiu numa série de impropérios e insultos dirigidos à irmã. Ela própria acreditava nessa fantasia. E não só: sofreu uma espécie de transformação diante dos meus olhos . lançando fogo-de-artifício em quantidade. Nos dias que se seguiram descobri que o acne estava a secar. e se o tivesse feito a sé­ rio . e sobretudo mais do que os Solara. Um patrãozi­ nho .1 30 Elena Ferrante «Mas que porra. para conseguir representar o papel deles . disse-me Lila. Pessoas que ele invejava e que via como inimigos a abater. Lila nunca disse . já se via como proprietário da fábrica de calçado Cerullo e não queria voltar a ser sapateiro-remendão . e achei-a um pouco triste . é a satisfação que a escola te dá. julgava-a realizável. e mesmo a superar. Disse-me que achava que o irmão . por um lado desorientada por aquela fúria de um jovem habitualmente gentil . muito mais do que os irmãos Solara. por o meu parecer se ter revelado credível e decisivo . mas às vezes era bastante dura com ele. agora apostava demasiado nisso . queria dar-se ares daquilo que não era. Gritou que não queria ficar para sempre naque­ le sítio asqueroso . mas não fanfarrão . matava-a. Agarrou no pé de ferro . e o irmão era uma pedra importante dessa realiza- . Sentia-se perto da riqueza. Repreendeu Lila por tê-lo encorajado primeiro e desencorajado depois . que a princípio duvidava da possibili­ dade de ganhar muito dinheiro com os sapatos . Lila troçava do irmão . 20 . e por outro orgulhosa. e é o amor» . o que é um bocadinho de humidade?» Rino enfureceu-se . a ser escravo do pai e a ver os outros enriquecerem. que aos seus olhos se haviam toma­ do o modelo de homem jovem a imitar. às vezes agressivo . Sempre lhe parecera apenas generosamen­ te impetuoso . era uma faceta de Rino que ela não conhecia. Eu fui-me embora.

outra de rocas e outra de mini-foguetes . que não sabia enfrentar as difi­ culdades com os pés bem assentes na terra. Em casa de Lila também soltavam pouco ou nenhum fogo . e Rino depressa se rebelou . estás a ver como tenho razão?» «Razão em quê?» «Que ele se tornou um fanfarrão . entusiasmado . Mas o estralejar das bombinhas . O fumo denso da pólvora tornava tudo nebuloso . disse eu uma vez . fazia arder os olhos. e Rino devia ter dado por isso . não tínhamos dinheiro . Ele entretanto enfiava a haste dos foguetes numa garrafa de vidro . não queria tratá-lo como um garoto que não sabe gerir os seus sonhos . Juntava-os todos na zona . acendia-a e eu ficava imóvel . fazia subir para o céu o sibilo luminoso . O meu pai comprava uma caixa de fitfit. No final atirava também a garrafa para a rua. a olhar para as faíscas . Nós . mas ela própria me contara. Luzes ofuscantes . Marcello So­ lara passava e voltava a passar todos os dias em frente da sapataria. breves remoinhos de fogo a pouca distância dos meus dedos . o assobio dos foguetes . os Greco . E queria-lhe bem. talvez lhes quisesse mostrar a sua força com o fogo-de-artifício . em minha casa o contributo para os fogos do fim do ano era pobre .» Quem sabe . Desde os doze anos que tinha por hábito ir passar a meia-noite com pessoas mais audazes do que o pai . tudo isso tinha custos. sobre o mármore da janela. «Que dizes?» Riu-se . excitada e temerosa. tanto que dis­ sera muitas vezes à irmã: «Não te atrevas a dar confiança àquele pedaço de merda. «Se calhar tem ciúmes do Marcello» .A Amiga Genial 131 ção . fazendo-se parva. como não podia partir a cara aos Solara por fazerem a corte à irmã. À meia-noite punha na minha mão . as canhonadas dos petardos contra as paredes . tanto a pé como no 1100. explosões . tinha tendência para se exce­ der. provocava tosse . e como era costume . por ser a mais velha. entrava nas casas . no bair­ ro e em toda a cidade de Nápoles. indo à caça deles assim que terminava o caos dos festejos . Onde é que vai buscar dinheiro para o fogo-de-artifício?» Era verdade . e tinham fama as suas tentativas de recuperar petardos que não tivessem explodido . era seis anos mais velho do que ela. Como naquela competição com os Solara. Mas afirmou muitas vezes que faltava firmeza a Rino. quem tinha mais dinheiro é que dis­ parava mais . A noite de fim de ano era uma noite de batalha. acendia a mecha com a brasa do cigarro e . por exemplo . «Se assim for. o ferrinho das estrelinhas ou de uma girândola.

gatos e ratos . Rino observava­ -os da loja com rancor e entretanto negociava com Pasquale . assustariam cães . um sorriso cordial . para aquele desafio no final do ano de 1 95 9 . mancha grande . que nos fez um sorriso embaraçado . Mas poucos passos tínhamos dado quando. inequivocamente a mim . que na noite da passagem do ano matariam pássaros .ele tam­ bém sabia. As coisas tiveram uma pequena e inesperada alteração . claras e secretas . uma . Entre as muitas razões . não Al­ fonso . pagámos o que era devido a dona Maria e fomo-nos embora. havia dias que os dois irmãos andavam para cá e para lá no seu 1100. apesar da mania da grandeza que o atacara . . Mas era sabido . Como acontecia todos os anos. A atender ao balcão .» Alcançou-nos . Respondi . Por isso se atarefou a recolher dinheiro aqui e além para comprar fogo-de-artifício . que tinha mais um bocadinho de dinheiro . me chamou com a sua bonita voz de homem feito: «Lenu . em dialecto . com o porta-bagagem cheio de explosivos . há que admitir também que Rino talvez quisesse vin­ gar-se da sua infância pobre . A loja estava cheia de gente . o próprio Stefano . Metemos tudo nos sacos . Falou com as duas . Mas Stefano dirigiu-me . Só o desfeava um pouco a bata branca manchada de gordura. fazer as compras para a ceia à charcutaria de Stefano Carracci . mas a olhar para mim: «Querem vir festejar o ano novo a minha casa? Alfonso gostaria muito.1 32 Elena Ferrante dos pauis . Tinha uma expressão tranquila. e trac ­ -trac trac a explosão final .» A mulher e os filhos de dom Achille . faziam uma vida muito recatada: igreja. charcutaria. Preparámo-nos para uma longa espera. mas Stefano . deitava-lhes fogo e divertia-se a ver as chamas altas . no máximo qualquer festarola a que não se podia dizer que não . e fariam tremer os prédios desde as caves até aos terraços que os cobriam. olhando para Lila: . para juntar um arsenal que fizesse pelo menos boa figura. um gesto de saudação .que com os Solara ninguém podia concorrer. além de Stefano e Pinuccia estava também Alfonso . quando Lila e eu fomos . mesmo depois do assassinato do pai . Daí a cinco minutos as nos­ sas compras estavam prontas . casa. Aquele convite era uma novidade . a mandado das nossas mães . e disse qualquer coisa ao ouvido do irmão . com Anto­ nio e sobretudo com Enzo . Tinha ainda uma cicatriz escura na mão . Demos-lha e ele retirou-se . O meu colega de escola veio até fora do balcão e perguntou-me se tínhamos a lista das coisas que íamos comprar. de uma vez em que não se chegou para trás a tempo.

» Aquela frase deveria eliminar qualquer outro argumento .» «E o fogo-de-artifício?» «0 que queres dizer?» «Nós trazemos o nosso . dizendo coisas do género: «Ele faz isto por ti . e a mãe . e digam aos vossos pais .» «Depois dêem-me a resposta. vida nova. em tom decisivo: «0 Pasquale e a Carmen Peluso . e para os foguetes vamos para o terraço. e para te ter em casa convida até os comunistas e os assassinos do pai . dançamos . também vêm festejar a nossa casa. venham todos: bebemos espumante . Olhei para Lila. A casa é grande .» Aquelas palavras sensibilizaram-me . vamos juntar-nos com o irmão dela e outros amigos . Durante todo o caminho não fizemos senão rir a bandeiras desprega- das .» «Digam também ao Rino . Murmurou: «Temos de falar com o meu irmão . também ela es- tava desorientada. Ano novo . Alfredo Pe­ luso estava em Poggioreale por ter matado dom Achille .» .» O rapaz dirigiu-se de novo a mim: «Venham todos para minha casa e prometo-vos que quando romper o dia ainda estamos a lançar foguetes. com um olhar muito intenso . Stefano olhou para ela como se até àquele momento não a tivesse visto .A Amiga Genial 133 «Já estamos comprometidas . No entanto . por ti .» Lila interveio .» 21 .» «Não . e retorquiu no tom que se usa para as coisas óbvias: «Está bem.» «Está apaixonado .» «0 que estás tu a dizer? Ele nem sequer olhou para mim. e o filho de dom Achille não podia convidar os filhos de Alfredo para brindarem ao novo ano em sua casa. e tu?» Stefano sorriu: «Que quantidade queres?» «Muitíssimo .

Mas a vontade de vencer os Solara fê-lo hesitar. Se puder. por sua vez. queria apagar tudo . as ruas .» «Ü Stefano tem em mente algo desse género . nessa ocasião os dois irmãos não tinham humilhado ape­ nas Pasquale . perguntei a Lila. Lila a princípio parecia baralhada. E portanto agora ele agravava a acusação . Depois apareceu em minha casa uma tarde . e mais . a sapataria. com ar de quem percebeu tudo . «E o que ganha com isso?» . e perceber era uma coisa de que muito gostávamos . E pouco a pouco . isto é . «Não sei . e disse-me: «Enganámo-nos. não convencida. vou . como faziam os nossos pais .1 34 Elena Ferrante Rino ouviu a proposta de Stefano e disse imediatamente que não . para os arreliar: fazia definitivamente as pazes com os Peluso . que ficou furioso . e falou disso a Pasquale . Não queria fazer de conta que nada acontecera. misturando factos reais e suposições . pois para eles dom Achille já não existia e os filhos e a mulher eram pessoas de bem e respeitáveis . «Lembras-te de quando eu disse à Carmela que podia namorar com o Alfonso?» «Sim.» Stefano . ficaram muito felizes com aquele convite .» Quanto aos nossos pais . o bairro . O Stefano não me quer a mim nem a ti . na opinião de Lila. convidando-os mesmo para sua casa na passagem do ano . Pensando bem. mas agora estou cá eu . Quer fazer um gesto que aqui no bairro ninguém faria. pareceu-lhe ter encontrado a solução . mas sim pôr em prática uma frase do tipo: bem sei . Queria tentar sair do antes .» «Perdoar?» Lila abanou a cabeça. Lila achava que ele tinha outra coisa em mente . o que queria? Pensámos que Ste- fano também pretendesse dar uma lição aos Solara.» Conversámos sobre o assunto à nossa maneira. murmurou: «Está bem. partindo de uma das suas ideias fixas dos últimos tempos . Estava a tentar perceber. e tê-las como amigas era uma honra. como se tivesse esquecido onde estava. intrometendo-se assim na vida dos Carracci e fazendo com que Stefano parecesse não saber defender a memória do pai . Stefano não parecia um tipo capaz de perdoar. Enzo .» «Casar-se ele com a Carmela?» «Mais do que isso . Se não nos queria a nós . estamos cá nós . desde que começara a discutir assuntos com Pasquale . o meu pai foi aquilo que foi . está­ vamos as duas a tentar perceber. Lembrámo-nos de quando Michele fizera com que mandassem Pasquale embora da festa em casa da mãe de Gigliola. mas também Stefano .

O pároco passou pela loja de Ste­ fano . Giuseppina. queria que todo o bairro compreendesse que ele não era dom Achille . a partir de agora.» Mas era bom rapaz . que era como se ele estivesse a dizer: antes de nós aconteceram coisas horríveis. outros de outra. Disse . era melhor para todos . tomemos nota disso e mostremos que nós . Pasquale tentou até responder­ -me em italiano . discutiu o assunto com toda a farru1ia. O estabelecimento onde está a char­ cutaria é aquele onde era antigamente a carpintaria do meu pai . Por fim convenceram-se todos de que a vida já era bastante difícil . exuberante . por ocasião do ano novo . a Pasquale . e se fossem capazes . «ao contrário dos Solara. Deci­ dimos tomar o partido dele . «Melhores» . Pasquale e Antonio gaguejaram qualquer coisa. desenvolta. uns de uma maneira. a do vendedor de fruta e hortaliça. Resumindo . pensou e voltou a pensar. triste: «0 dinheiro com que o Stefano está a ganhar mais dinheiro é o que o pai dele ganhou no mercado negro . e Rino . perguntou Rino . Em seguida explicámos a Rino . dantes uma incansá­ vel trabalhadora de bom carácter.» Lila fez os olhos pequeninos . E assim. a do sapateiro . «Isso é verdade . «Melhores?» . que fazem pior do que o avô e o pai . depois da prisão do marido transformara-se numa mulher deprimida. e foi falar com Giuseppina Peluso novamente . disse eu . falou muito tempo com Maria. Essa hipótese agradou-nos .a família do porteiro . a Antonio .» Falei muito emocionada. os filhos . mas logo desistiu . interessado . de­ pois da ceia de ano novo . Mas preferem estar do lado de quem quer mudar ou do lado dos Solara?» Pasquale disse com altivez . Foi falar com a mãe . somos melhores do que eles . a família de . que o convite de Stefano era mais do que um convite . no dia 3 1 de Dezembro . e dirigiu-se ao pároco . como se estivesse na escola. não se comportaram bem. que por trás dele existiam sig­ nificados importantes . diversas farru1ias . A própria Lila me deitou um olhar admirado . em italiano . embaraçados . tomámo-la logo por uma certeza. triste com a sua má sorte . os nossos pais . de reduzir os conflitos. e sentimos um impulso de grande simpatia pelo jovem Carracci . e que os Peluso também não eram o ex-carpinteiro que o matara. às 23 : 3 0 .A Amiga Genial 1 35 nada. quase não se viam . em parte por convicção e em parte por estar claramente com ciúmes do inesperado protagonismo de Stefano nas palavras de Lila: «Eu estou do meu lado e mais nada.

Rino . 22 . porque os pais não o deixavam sair depois da meia-noite . Achei-o muito bonito .1 36 Elena Ferrante Melina. e depois subimos em bando para o terraço . mas não me ouviu ou fingiu que não ouviu . Antonio . era coisa pouca. Corri para cima. mas estava bem penteada e. eu . Ada e Carmela tínhamos os vestidinhos finos que usávamos para os bailes. Lembro-me de que se tinha penteado com esmero . para festejarem o novo ano juntas . Eu queria um namorado crescido . sem mangas . gelado . Apercebi-me de que o único que se demorava indolentemente lá em baixo era Alfonso . Mas pareciam todos absorvidos pela festa do fogo-de-artifício à meia-noite . que não dizia uma palavra. e pensei que ser namorada de Gino . Já se ou­ viam os primeiros sibilas dos foguetes . Brindámos às coisas maravilhosas que aconteceriam no novo ano . À meia-noite o dono da casa encheu de espumante . porque fazia muito frio . Aguardavam a sua guerra entre homens e nem sequer a Lila davam atenção . parecia uma grande dama. Já se ouvia o baque das coisas velhas que voavam . Quando lhe pedira para ir ter comigo a casa dos Carracci respondera que não podia. Apalpava com nervosismo os brincos . Os rapazes estavam em pulôver. queria um como aqueles rapa­ zes . o da mãe de Pasquale . andei de roda deles toda a noite . Stefano . Chamei-o por boa educação . era perigoso . e tremíamos de frio e de excitação . que se arranjou muito bem para a festa . com os brincos e o seu velho vestido preto de viúva. até à velha casa tão odiada de dom Achille . em primeiro lugar. Calculei que teria mais sete anos do que eu e Lila. gravata e um colete de malha azul . e logo a se­ guir. tinha o rosto um pouco vermelho da agita­ ção . que sulcavam o céu e explodiam em flores coloridas . tinha os olhos irrequietos . os velhos e as crianças com sobretudos e éc harpes . Pasquale e Enzo mesmo em mangas de camisa. cheio de estrelas e de trevas . o copo da mãe . vestia uma camisa branca. Lila. com maneiras de príncipe . Pasquale . o nariz com­ prido . Stefano recebeu-nos com muita cordialidade . a pulsei­ ra de prata da minha mãe . Começara a sentir-me bonita de novo . que era da minha idade . Olhei para eles . Stefano foi particularmente gentil com a senhora Peluso e com Meli­ na.subiram aos grupi­ nhos até ao quarto andar. e não um miúdo . Encontrei um céu tremendo por cima de mim. e queria que os olhos deles me dessem prova disso . Enzo .

de reabastecer todos de munições constantemente . A varanda dos Solara tornou-se . sérios e cordiais . tratando-o co­ mo um miúdo . reagindo às incitações do irmão com gestos de contrariedade .começa­ ram a movimentar-se no escuro e ao frio . Pasquale . entre César e Pompeu . pensei . mas tam­ bém o meu pai . num clima festivo de excitação crescente . que estrondo . Rino . e também o sapateiro . antes da batalha eles teriam feito aqueles mes­ mos olhares . os fa­ miliares . os amigos . de gritos tipo viste estas cores . víamo-los . Rino . mis­ turando-se cada vez menos com os outros. Eu acendi os fitfit e as rocas às crianças . Ada e Carmela. os mais novos . entre Mário e Sila. gritando que eles as desperdiçavam. cada vez mais agitado e a gritar alto . mais visível. encheram as camisas de bombinhas e de petardos . lhe tirava as coisas . tal como nós . Reapareceram am­ plas zonas de céu escuro . lançando petardos . Por fim. Stefano . O pai . Lila con­ venceu Melina a acenderem juntas um fogo-de-bengala. Enzo e Antonio transportaram caixotes e caixas e cartuchos de explosivos. acendendo mechas e lançando fogos-de-artifício do parapeito para baixo ou para o céu . dei­ xando emergir o ruído dos automóveis . encarregou-me a mim. vá. e que o empurrava com maus modos . que se mostrava muito animado . aquelas mesmas poses . Se houvesse uma guerra civil . mas com enfa­ do . das buzinas . e também Lila. os meus irmãos Peppe e Gianni . gostava de ver nos olhos delas o espanto assustado que eu sentira em pequena. mais do que zangar-se . caramba. Alfonso retraiu-se . os gritos . estavam. como as que houve entre Rómulo e Remo . embora através do fumo . a golfada de fogo jorrou com um frufrulhar colorido . os adultos acendiam cigarros uns aos outros com as mãos em concha. os novos e os menos novos . extinguiu-se . e por Rino que tirava bombinhas aos meus irmãos e as usava. apenas perturbado pelos gemidos lânguidos mas assustados de Melina.digamos . Depois . Alfonso também ajudou . que era o mais velho . dominados pelo desejo de . com excepção de Alfonso . Pareceu-me até intimidado por Rino . os filhos . embora por entre os clarões . Gritaram ambas de alegria e no fim abraçaram-se . as risadas . orgulhosos de todas aquelas munições que tinham conseguido reunir. Entretanto os fósforos luzi­ ram.A Amiga Genial 1 37 pelas janelas . A fúria cintilante da cidade atenuou-se lentamente . Todo o bairro estrepitava. conversando . Encontravam-se a pouca distância. Todos os rapazes . arrumaram séries de foguetes dentro de gar­ rafas vazias enfileiradas . vá. porque as lançavam sem esperar que a mecha pegasse realmente fogo .

e dali se abasteceu . «Pascà. aproximou-se e levou a mulher para baixo . em vez de subir para o céu . Pasquale . que eles só se soltariam deveras quando os pobretanas tives­ sem dado por terminadas as suas festarolas e os seus rebentamentos in­ significantes e os seus chuviscos de prata e ouro . aqui . As explosões provocadas pelos Solara eram cada vez mais fortes . e as outras começaram também a retirar dali as crianças .» Nesse momento o pânico apoderou-se de Melina. senão cais lá em baixo . da varanda chegavam obscenidades entusiásticas . com um clarão vermelho estrondoso e um fumo sufocante . sem uma sombra sequer dos tons de voz subtis do co­ merciante. Lila. o fogo intensificou-se bruscamente . não sei . a tremer de frio . gritou Rino a Stefano . Stefano .disse-me ela . Anto . rebentou contra o parapeito do nosso terraço . Até o meu pai fora para baixo . cabia-lhe a ela levá-la para casa. de surpresa.como se numa .» Todos acorreram . Estávamos sozinhas . gritando insultos e lançando petardos às paredes . Um foguete deles. Estava a acontecer-lhe aquela coisa a que já fiz referência e a que ela depois chamou desmarginação. aqui . A cada lançamento . E assim foi . tens disto . Da varanda. o céu e a rua recomeçaram a explodir. A certa altura Rino pôs-se em pé sobre o para­ peito . que começou a gemer. gritou . absorta pelo espectáculo como por um enigma. e faziam gestos obscenos na direcção da varanda dos Solara. Stefano . Mas . «Fizeram de propósito» . Correu para um canto onde depositara um caixote em que nós . tens disto . Foi . convi­ dando os outros a fazerem o mesmo . com o sapateiro . a rir. Nós olhávamos para os seus frenéticos vultos escu­ ros . só no momento em que ficassem a ser eles os senhores absolutos da festa. raparigas . «Enzo» . fez-lhe sinal para se acal­ mar. Repetiam: sim .138 Elena Ferrante caos . estava em silên­ cio . depressa. e no céu abriam-se corolas maravilhosas . tremia. Rino. mas Alfon­ so fez-lhe um sinal . enquanto a mãe berrava de terror e lhe ralhava: «Desce daí. A um foguete dos Solara eles respondiam com outro foguete . pedaço de bosta. A minha mãe seguiu-os imediatamente . e lá em baixo a rua flamejava. Antonio e Rino come­ çaram a responder com novos lançamentos e idênticas obscenidades . Ada bufou de raiva. a bombinhas com bombinhas . dêmos-lhes a ouvir aquilo que nós temos . fora de si . sobretudo se o petar­ do fazia um barulho de destruição . uma silhueta escura no ar gelado . sem nada para fazer. dêmos-lhes a ouvir. No bairro todos sabiam que o que acontecera até àquele momento era pouco. havíamos sido proibidas de tocar. a coxear.

Lila imaginou . as suas margens . engolisse toda a claridade . a ajudara.A Amiga Genial 1 39 noite de Lua cheia. pelo contrário . a sua expressão de medo crescente . Ali . por entre os fumos que queimavam as nari­ nas e o cheiro agressivo do enxofre . no meio do caos . do que dela. no meio de explo­ sões violentas . Também reparei que olhava fixamente o vulto do irmão . Como sempre . perturbados pela quantidade de dinheiro que era possível transformar em rastos luminosos .o irmão desfazer-se. Naquele momento sentia-me mais próxima de Carmela. o que gritava com mais exagero insultos ferozes na direcção do terraço dos Solara . lhe dei pouca atenção . com repulsa. Ela. todas as mar­ gens caíam.o mais activo . Mas não . e ela própria.como se fosse verdade . pouco ou nada da sua angústia se manifestou exteriormente . que se espalhava a si próprio em redor. se iam tornando moles e maleáveis . Fez um grande esforço para se controlar. corroesse a circunferência do círculo lunar e desfigurasse o disco brilhante . Diante dos seus olhos . uma massa escuríssima de tempestade avançasse pelo céu . enquanto eles corriam a apanhar cilindros com grandes rastilhos . mas conseguiu . Mas foram impressões em que só voltei a pensar depois . ali ao frio . Cada segundo da­ quela noite de festa lhe causou horror. sem essas atenções nada significávamos . explosões de um lado e do outro como se terraço e varanda fossem trincheiras . viu .. Teríamos preferido que Stefano . de Ada. nos pusessem o braço em volta dos ombros . admirados com a sua generosidade . Rino perdeu a fisionomia que sempre tivera desde que ela se lembrava. nos pressionassem o flanco contra o flanco e nos dis­ sessem palavras lisonjeiras . desde que ela tinha memória. as feições agradáveis da pessoa em quem confiava. a divertira. espantados com a reserva infin­ dável de Stefano . qualquer coisa violou a estrutura orgânica do seu irmão . no ar gelado . sentiu . a protegera. a fisionomia do rapaz generoso . o mais gabarola. Impres­ sionou-me . faíscas . por isso estávamos bem aconche­ gadas umas às outras para nos aquecermos . parecia não ter necessidade nenhuma das atenções masculinas . e a matéria expandiu-se como um magma. Competiram com os Solara durante não sei quanto tempo . teve a impressão de que. parecia estar assustada com isso. Nós . acabassem com a guerra. mostrando-lhe aquilo de que ele era realmente feito . naquele tumulto de explosões e cores . reduzindo-o à sua ver­ dadeira natureza de tosca matéria insensata. pela simples satisfação de ganhar o desafio . o perfil amado de quem desde sempre . e . fumo . ou Enzo . que geralmente nada temia. honesto. A verdade é que . sobre o mar. explosões . exerceu sobre ele uma pressão tão intensa que lhe despedaçou os contornos . ou Rino . creio . à medida que Rino se movia.

para ganha­ rem a competição . Contudo . Rino gritou . chegaram-nos uns ruídos secos . amuada. Chegou atrasada. pah . também Stefano . descurei Lila. e então Lila afastou Pasquale e correu para puxar o irmão para dentro . mas ela não apareceu . embora ainda não tivesse escola. Nós . Já não se percebia nada. como eu já disse . por gritos e insultos. não têm mais nada» . estrondos . por carros que avançavam pelas ruas pejadas de detritos . sobre­ tudo . que percebeu de imediato o que se estava a passar. fez-se silêncio . Daquela noite . Mas durou pouco . Tomou-se mais preguiçosa. Dois dias depois levantei-me cedo . «Não vais trabalhar?» «Não . pah . Não me apercebi daquilo que lhe aconteceu . e depois dele também Pas­ quale . decepcionado: «Estão a reco­ meçar. foi interrompido por um choro distante de criança. de cujos corpos emanava uma chama mais ardente do que a dos fogos no céu . Então ergueram todos um coro vitorioso . continuou . céu arrombado . até não haver nem mais um rastilho sequer para quei­ mar. berrando-lhe insultos por sua vez . Os Solara. Por fim acalmaram-se . transtornada pelo clima de festa e de perigo . Mesmo quando Enzo gritou: «Eles terminaram. muitas coisas me escaparam.» Mas Enzo . chegámos lá abaixo a gritar. e pelo torveli­ nho dos rapazes .» «E então?» . a alteração era difícil de perceber. os nossos continuaram. 23 . para ir com ela abrir a loja e ajudá-la a fazer as limpezàs .» «Mas porquê?» «Já não me apetece . E depois vimos clarões na varanda dos Solara. estavam a disparar sobre nós .» «E os sapatos novos?» «Estão em banho-maria.1 40 Elena Ferrante todo o bairro estremeceu . Mas das consequências dei-me conta quase de imediato . foi o primeiro a empurrar-nos para dentro . evitando a sapataria. debruçando-se do parapeito do terraço . Rino . vibrou . raparigas . saltando ou abraçando­ -se . foi então que ocorreu a sua primeira mudança interior. Só Rino continuou a lançar insultos ferozes . Mas sobretudo . vidros esmagados . e passeá­ mos pelo bairro .

que o pai examinaria os sapatos e os deitaria fora. O par de sapatos que tinham feito em conjunto . Mas Lila sabia bem (e dizia que Rino também sabia) que o trabalho estava cheio de defeito s . como Stefano . Rino deu-lhe uma bofetada e gritou: «Então vai para casa. Rino aproximou-se de cabeça baixa. e logo nos primeiros dias de Janeiro assisti a mais uma briga feia. Agora falava de dinheiro sem qual­ quer brilho . Continuávamos a ter pressa de ficar ricas . Mas o irmão zangou-se . Por isso lhe dizia que era preciso tentar e voltar a tentar. ela rea­ giu com um insulto feio . Apareceu a mãe: o filho deixara-lhe . Por isso . acordou e encontrou ao lado da cama uma meia cheia de carvão . se transformara em cimento: consolidava. excepto para ele .» Mas como ao virar da esquina não estava. Com­ preendeu que fora Rino e pôs a mesa do pequeno-almoço para todos . Rino na verdade enervava-se . ele achava que já estava pronto .A Amiga Genial 141 Tive a impressão de que ela nem sabia o que queria. De repente pareceu-me até que a riqueza em si mesma já não lhe interessava. magicava com olhos de má no que havia de inventar para acalmá-lo . barrou-nos o caminho e disse-lhe: «Vem já trabalhar. «fi-lo acreditar que a sorte está ao virar da esquina . pelo menos comigo . Fernando . sobre isso não havia discussões . nem brilhos de moedas e pedras preciosas . aquele filho era o seu ai-jesus . muito mais do que a vira ultimamente . o que a comovera. quando viu que a mesa não . segundo parece .» Lila respondeu-lhe que isso nem lhe passava pela cabeça. E foi justamente a partir dessa preocupação que começou a alterar as suas conversas sobre a riqueza . Nem se despediu de mim e foi para casa. deu-lhe a entender que se sentia satisfeito por ela ficar em casa a ajudar a mãe . e Lila não con­ seguia fazê-lo raciocinar. A única certe­ za é que parecia muito preocupada com o irmão . Agora parecia que o dinheiro . Ela. O auge do conflito deu-se no dia da Befana. Pelo contrário . que o caminho para chegar à fábri­ ca de calçado era um percurso difícil. por exemplo . reforçava. nunca repreen­ deu Lila por ter deixado de ir para a sapataria. começou a admitir. uma meia com rebuçados e chocolates . Consertava sobretudo a cabeça de Rino .» Ela obedeceu . era apenas um remédio para evitar que o irmão se metes­ se em sarilhos . mas o ob­ jectivo já não era o mesmo da infância: nem arcas do tesouro . tinha urgência em ser como os Solara . mas ele não queria esperar mais . pendurada numa cadeira. na ideia dela. e queria mostrá-lo a Fernando . vai ajudar a mãe . consertava isto e aquilo . Então ele puxou-a por um braço . «Tudo por minha culpa» .

disse . Enquanto mãe e filha discutiam . evitar o aces- . preparou-se para o fazer. Não sabia nada sobre aquela iniciativa. tentou agarrá-la para lhe bater. «Que bonitos que são» . Fernando sentou-se de novo . «Vejam o que a Befana me trouxe» . a Befana. por baixo . como se fossem uma prenda da Befana. «Quem fez estes sapatos é um mestre» . «fê-los mesmo para os meus pés . que ela tives­ se apreciado a partida. mais insuportável ainda porque continuava a amar o irmão . sem dizer uma palavra. Nesse instante apareceu Fernando em cuecas e camisola interior. naquele olhar. Tirou da caixa os sapatos novos . Tirou-os . e via-se que estava furioso . no meio do fumo e dos estalos: Rino perdera o seu perfil habitual . apareceu o irmão . «Habilidosa. Rino riu-se . da surpresa. Fernando . primeiro o sapato do pé direito . viu algo insuportavelmente mesquinho . pensando que era a brincar. e depois o do esquerdo . papá. disse Nunzia. por seu lado .» Em cada palavra sentia-se como sofria. disse . feitos em segredo pelos dois filhos. «São realmente cómodos» . A cada palavra sarcástica do pai ficava mais orgulhoso . sob o olhar da farm1ia. mas sem que o rosto se lhe desanuviasse . e ela atirou-lhe um pedaço de carvão . que nada sabia sobre a história dos sapatos . «A Befana» . do qual podia sair o irremediável . pareceu-lhe ter a confirmação daquilo que a assustara no terraço . mas quando percebeu que a irmã o fizera a sério . Mas Rino parecia não perceber isso . andou para a frente e para trás na cozinha. deitando olhares apaixo­ nados ao filho . «São sapatos de gente fina» . Lila ficou de boca aberta. queria sair da cozinha. sorria. pronunciava frases incompletas: fiz assim. experimentou-os. todo vermelho . sentou-se e calçou . quando lhe apanhou o olhar alarmado a observar o rosto do pai . mas Lila não deixou . Naquele sorriso. ela agora tinha um irmão desmarginado . Lila.» Levantou-se . com a expressão de u m Randolph Scott encolerizado . e como esse sofrimento o enchia de vontade de partir tudo . com uma caixa de cartão na mão . disse a mulher. a sentir necessidade de estar ao lado dele para o ajudar e ser ajudada. examinou-os por cima. pensei que. comentou . Rino decidira sozinho mostrar ao pai os sapatos novos . Quando viu na cara do irmão um sorrisinho divertido e angustiado ao mesmo tempo .1 42 Elena Ferrante estava posta para ele . por dentro e por fora. acrescentei isto . disse .

e co­ meçou a exigir que a irmã fizesse as coisas de maneira que ele encon­ trasse sempre meias . eu tenho de sair desta situação. Depois volta­ ram a trabalhar juntos . Rino . passava a ferro . não queria deixar o irmão sozinho . mas não conseguia decidir-se . que o ser­ visse e o respeitasse quando voltava do trabalho . por exemplo. «não têm nada atabalhoado . derrubando cadeiras . passou a executar as suas tarefas com atenção e cuidado . mal fez o gesto de virar as costas . com este bico largo são bastante originais. por fim também os sapatos . Disse ao filho: «Vira-te . amuado . fechados na lojeca com os seus deses­ peros. esforçava-se bastante para voltar a ser o mesmo de antigamente . o que havemos de fazer agora? Não podemos ficar parados . feliz e embaraçado . Cozinhava. E sobretudo . continuou Fernando . Ele próprio . Ela encolhia os ombros . e nunca mais foi à sapataria. partindo pratos . tristonho . estendê-la ao sol . e a chorar. andava de roda dela com brincadeiras . cuecas e camisas em ordem na gaveta. chamou-lhe besta e néscio . voltou a calçá-los . Mas em vão . calados .» Lila ficava calada.» Sentou-se . protestava. «São leves e ao mesmo tempo robustos» . estafermo . e atirou-lhe tudo aquilo a que pôde jogar a mão . Nos dias bons . Rinu . às vezes dava-lhe um beijo na . aterro­ rizando a mãe .A Amiga Genial 1 43 so de cólera iminente do pai . lavar a roupa. dizia coisas desagradáveis do tipo: nem uma camisa sabes passar. interpretou o facto como uma desconsideração incompreensível . não se sentia contente por se comportar as­ sim. naturalmente. até esgotarem as forças . os outros irmãos e a vizinhança. cozinhar. Se alguma coisa não lhe agradava. não protestava. tentava acalmar-se . Lila só se meteu no meio quando viu que o irmão . Lila decidiu que o seu papel era ajudar a mãe . arrependia-se. Pai e filho tiveram de desabafar primeiro . falava-lhe em tom gentil: «Estás zangada comigo porque fiquei com todo o mérito dos sapatos? Mas fi-lo» dizia-lhe. o pai deu-lhe um violento pontapé no traseiro . inicialmente ape­ nas preocupado em proteger-se de murros e pontapés . durante algum tempo não se voltou a falar. começava tam­ bém a gritar.» E depois pedia-lhe: «Ajuda-me. domingo de manhã. jurando que preferia matar-se a continuar a trabalhar de graça para o pai . ir às compras . tenho de agradecer à Befana. Mas .» Rino pensou que era uma brincadeira que encerraria definitivamente toda a controvérsia entre eles e virou-se . atou-os . mentindo . nunca os vi nos pés de ninguém. Dos sapatos. «para evitar que o papá se zangasse tam­ bém contigo.

entre nós não acontecera grande coisa. mas não se aguentou . Já sabia que não me custava nada deixar de ter a companhia dele na ida para a escola e no regresso . existiam. e havia de o trair ainda mais . mas era preguiçoso . Regressei à escola. Mesmo quando copiava não prestava atenção . Lila por vezes . quando andava a fazer as compras . Vinha sujo do trabalho e muito agitado . mas mantive-me firme na minha decisão . talvez devido à tensão . Disse-lhe . Gritava­ -lhe que ela é que o traíra. rebentou a rir. e por terem nascido graças a um desenho numa folha de caderno . Gaguejou que mal havíamos começado . Pediu-me para continuarmos mais um pouco . Tanto trabalho deitado fora. simplesmente . Ficámos todos em silêncio . ia ao quarto de arrumos onde escondera os sapatos e apalpava-os . ela própria maravilhada porque. mas na verdade ele só queria que o deixasse co­ piar os trabalhos de casa. pare ele perceber que já não estava zangada.1 44 Elena Ferrante face. mas eu zanguei-me e repeli-o . Lila confidenciou­ -me que recebera duas declarações quase ao mesmo tempo . Muitos dos meus colegas começaram a desistir. Gino teve insuficientes em tudo e pediu-me ajuda. excepto Gino que . as primeiras da sua vida. não estava certo . fui absorvida pelos ritmos torturantes que os pro­ fessores nos impunham. Tentei ajudá-lo . olhava para eles . não se esforçava para compreen­ der. muito perturbados . o que para um rapaz era considerado muito humilhante . Poucos dias depois do meu rompimento com Gino . bem ou mal . preocupado: «Gostas do Alfonso?» Respondi-lhe que . ou pela satisfação de ver que também ao seu companheiro de carteira as coisas corriam mal . mas sem língua. Uma manhã. tentara apalpar-me o peito . deixando­ -o a viver na miséria para sempre . já não gostava dele . embora muito disciplinado . Pasquale fora ao seu encontro . Mas ele entretanto já se zangara de novo e acabava sempre por partir qualquer coisa. Alfonso . pois mais tarde ou mais cedo casaria com um imbecil qualquer e ia-se embora. Viu-se claramente que preferia morrer em vez de deitar uma só lágrima diante da turma. À saída da escola disse-lhe que por causa daquela gargalhada já não éramos namorados . quando não estava ninguém em casa. Deixei-o copiar. também estava em dificulda­ des . Um dia desatou a chorar durante o interrogatório de Grego . A reacção dele foi perguntar-me . e a turma a reduzir-se . Tínhamos dado um beijo. Como namorados . 24 .

A Amiga Genial 1 45

que andava preocupado porque nunca mais a vira na sapataria, e pensou
que estivesse doente . Mas agora que a encontrava de boa saúde , estava
feliz. Porém , enquanto falava, não mostrava felicidade nenhuma no ros­
to . Interrompeu-se como se estivesse a sufocar e, para libertar a gargan­
ta, quase gritou que gostava dela. Amava-a tanto que , se ela estivesse de
acordo , ia falar imediatamente com o irmão , com os pais, com quem
fosse preciso , para um compromisso sério . Ela ficara sem palavras , du­
rante alguns minutos pensou que ele estivesse a brincar. Tantas vezes eu
lhe dissera que Pasquale andava de olho nela, e nunca acreditara. Mas
afinal ali estava ele , num lindo dia de Primavera, quase com as lágrimas
nos olhos, a suplicar-lhe , a dizer que a vida para ele perderia todo o valor
se ela dissesse que não . Como eram difíceis de deslindar os sentimentos
de amor. Lila, com muita cautela, sem nunca dizer que não , encontrara
as palavras para o rejeitar. Disse-lhe que também ela gostava dele , mas
não como se gosta de um namorado . Disse-lhe também que lhe seria
grata para sempre por todas as coisas que ele lhe explicara: o fascismo ,
a resistência, a monarquia, a república, o mercado negro , o comandante
Lauro , os neofascistas , a democracia cristã, o comunismo . Mas compro­
meter-se com ele , não , nunca se comprometeria com ninguém. E con­
cluíra: «Gosto de todos vós , do Antonio , de ti , do Enzo , como gosto do
Rino .» Pasquale , então , murmurara: «Mas eu não gosto de ti como
gosto da Carmela.» Escapulira-se e voltara para o trabalho .
«E a outra declaração?» , perguntei-lhe com curiosidade , mas também
um pouco ansiosa.
«Nunca terias imaginado .»
A outra declaração viera de Marcello Solara.
Ao ouvir aquele nome senti uma pontada no estômago . Se o amor de
Pasquale era um sinal de como Lila era capaz de agradar, o amor de
Marcello , um rapaz bonito , rico , com automóvel , duro , violento , camor­
rista, habituado , portanto , a ter as mulheres que queria, era, aos meus
olhos , aos olhos de todas as raparigas da minha idade , apesar da má
fama que tinha, ou talvez também por causa disso , uma promoção , a
passagem da rapariguinha magricela a mulher, capaz de vergar a si
qualquer um.
«E como aconteceu?»
Marcello ia ao volante do 1100, sozinho , sem o irmão , e viu-a quando
regressava a casa pela rua larga. Não encostara o carro , não falara com
ela através da janela. Deixou o carro no meio da rua , de porta aberta, e
aproximou-se dela. Lila continuou a andar, e ele atrás . Suplicou-lhe que

1 46 Elena Ferrante

lhe perdoasse a maneira como se comportara tempos atrás , admitindo
que ela teria feito bem em matá-lo com o trinchete . Recordou-lhe , emo­
cionado , como tinham dançado bem o rock na festa da mãe de Gigliola,
sinal de que podiam acertar bem o passo um com o outro . Fizera-lhe
muitos elogios: «Como tu cresceste , que lindos olhos que tens, que bo­
nita que és.» Depois contou-lhe o sonho que tivera nessa noite: ele
pedia-a em casamento , ela dizia que sim, e ele oferecia-lhe um anel de
noivado idêntico ao da avó , que tinha um engaste com três diamantes .
Lila finalmente falara, continuando a andar. Perguntou-lhe: «Nesse so­
nho eu disse-te que sim?» . Marcello confirmou e ela respondeu: «Então
foi mesmo um sonho , porque tu és um animal , tu e a tua fallll1 ia, o teu
avô , o teu pai , o teu irmão , e eu nunca te diria que sim, mesmo que digas
que me matas .»
«Disseste-lhe mesmo assim?»
«Disse-lhe ainda mais.»
«Ü quê?»
Quando Marcello , ofendido , lhe respondera que os seus sentimentos
eram muito delicados , que dia e noite só nela pensava com amor, e por
isso não era um animal , mas alguém que a amava, ela retorquira que se
uma pessoa se comportava como ele se comportara com Ada, e se essa
mesma pessoa na noite da passagem do ano se punha a disparar contra
outras pessoas com uma pistola, chamar-lhe animal era ofender os ani­
mais . Marcello percebera finalmente que ela não estava a brincar, que na
verdade o considerava muito menos do que uma rã, do que uma salaman­
dra, e ficou imediatamente deprimido . Murmurara baixinho: «Foi o meu
irmão que disparou .» Mas ao pronunciar esta frase compreendeu logo
que depois disso ela o desprezaria ainda mais . Verdade pura. Lila apres­
sou o passo , e quando ele ainda tentou segui-la, gritou-lhe: «Vai-te em­
bora» , e começou a correr. Ele parou , como se não soubesse onde estava
e o que havia de fazer, e depois voltou para o 1100 de cabeça baixa.
«Tu fizeste isso ao Marcello Solara?»
«Sim.»
«És doida. Não contes a ninguém que o trataste assim.»
Naquele momento pareceu-me uma recomendação supérflua, disse
aquilo só para mostrar que a história dela era importante para mim. Lila,
por natureza, gostava de falar e de fantasiar acerca dos factos , mas não
era de mexericos , ao contrário de nós , que estávamos sempre a mexeri­
car. E de facto , do amor de Pasquale falou só a mim , nunca me constou
que tivesse contado a mais alguém. Mas a respeito de Marcello Solara

A Amiga Genial 1 47

contou a toda a gente . Encontrei Carrne la, que me disse: «Soubeste que
a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» . Depois foi Ada que me
disse: «Nada menos , a tua amiga deu uma nega ao Marcello Solara.»
Pinuccia Carracci , na charcutaria, segredou-me ao ouvido: «É verdade
que a tua amiga disse que não ao Marcello Solara?» Até Alfonso me
disse um dia na escola, estupefacto: «A tua amiga disse que não ao
Marcello Solara?»
Quando vi Lila, disse-lhe:
«Fizeste mal em dizer a toda a gente , o Marcello vai ficar furioso .»
Ela encolheu os ombros . Tinha muito que fazer, com os irmãos , a
casa, a mãe , o pai , e não se deteve muito tempo a falar. Desde a noite
da passagem do ano , dedicava-se só às tarefas domésticas .

25 .

E era mesmo assim. Durante o resto do ano escolar, Lila desinteressou­
-se completamente daquilo que eu fazia na escola. Quando lhe perguntei
que livros ia buscar à biblioteca, o que andava a ler, respondeu com des­
peito: «Já não vou lá buscar nada, os livros fazem-me doer a cabeça.»
Eu , porém, estudava, e ler tomara-se um hábito agradável . Mas tive
de reconhecer que , desde que Lila deixara de me pressionar, de se ante­
cipar a mim no estudo e nas leituras , tanto a escola como a biblioteca
do professor Ferrara tinham deixado de ser uma espécie de aventura,
tomando-se simplesmente uma coisa que eu sabia fazer bem e pela qual
era muito elogiada.
Apercebi-me claramente disso em duas ocasiões.
Uma vez fui buscar livros à biblioteca, com o meu cartão todo preen­
chido com empréstimos e devoluções , e o professor, primeiro congratu­
lou-se com a minha assiduidade , depois perguntou-me por Lila, lamen­
tando muito que ela e toda a família tivessem deixado de ir buscar
livros. É difícil explicar porquê , mas aquela lamentação fez-me sofrer.
Pareceu-me a prova de um verdadeiro interesse por Lila, algo muito
mais profundo do que os louvores pela minha regularidade de leitora
assídua. Veio-me à ideia que , mesmo que Lila só tivesse ido buscar um
livro por ano , teria deixado nesse livro a sua marca, e o professor senti­
-la-ia no momento da devolução , ao passo que eu não deixava marcas ,
eu representava apenas a persistência com que ia somando um livro a
outro livro , desordenadamente .

148 Elena Ferrante

A outra ocasião teve a ver com a rotina escolar. O professor de Letras
trouxe as composições de Italiano corrigidas (ainda me recordo do te­
ma: «As várias fases do drama de Dido» ) , e enquanto geralmente se li­
mitava a dizer duas palavras para justificar o meu oito ou nove habitual ,
naquele dia elogiou-me com eloquência diante da turma, e só no fim
revelou que me dera nada menos do que um dez . No final da aula cha­
mou-me ao corredor, verdadeiramente admirado com a maneira como
eu desenvolvera o tema, e quando o professor de Religião apareceu ,
deteve-o e resumiu-lhe , cheio de entusiasmo , a minha composição . Dias
depois constatei que Gerace não se limitara ao padre , fizera circular
esse meu trabalho pelos outros professores também , e não só os da mi­
nha secção . Alguns professores do liceu agora sorriam-me nos corredo­
res , faziam-me até comentários . Uma professora do primeiro A, por
exemplo , a professora Galiani , muito considerada, e que todos evitavam
por ter fama de ser comunista, e porque em duas penadas era capaz de
deitar por terra qualquer argumentação mal fundamentada, dirigiu-se a
mim no átrio e entusiasmou-se sobretudo com a ideia, central no meu
trabalho , de que , se o amor for desterrado das cidades , a natureza bené­
fica das cidades transforma-se em natureza maléfica. Perguntou-me:
«Ü que significa para ti "uma cidade sem amor"?»
«Um povo privado da felicidade .»
«Dá-me um exemplo .»
Pensei nas discussões que tivera com Lila e Pasquale durante o Ve­
rão , e de repente senti-as como uma verdadeira escola, mais verdadeira
do que aquela que eu tinha todos os dias .
«A Itália sob o fascismo , a Alemanha sob o nazismo , todos nós , seres
humanos , no mundo de hoje.»
Sondou-me com acrescido interesse . Disse que eu escrevia muito
bem, aconselhou-me algumas leituras , ofereceu-se para me emprestar
livros seus. Por fim perguntou o que fazia o meu pai , e eu respondi: «É
porteiro na câmara municipal .» Afastou-se de cabeça baixa.
Aquele interesse da professora Galiani , como é natural , encheu-me de
orgulho , mas não teve grandes consequências , e a rotina escolar voltou
ao normal . Por isso , o facto de eu , ainda no primeiro ano da secundária,
já ser uma aluna com uma certa fama de excepcional , acabou por não me
parecer importante . Afinal o que é que isso provava? Provava acima de
tudo que fora proveitoso estudar e conversar com Lila, tê-la como estí­
mulo e apoio da minha aventura naquele mundo exterior ao bairro, entre
as coisas , as pessoas , as paisagens e as ideias dos livros. Sim, dizia para

A Amiga Genial 1 49

comigo , claro que a composição sobre Dido é minha, a capacidade de
formular frases bonitas é um dom meu; claro que aquilo que escrevi
sobre Dido me pertence; mas não foi elaborado juntamente com ela, não
nos estimulámos mutuamente , a minha paixão não cresceu com o calor
da dela? E aquela ideia da cidade sem amor, que tanto agradara aos pro­
fessores , não me viera de Lila, embora eu depois a tenha desenvolvido
com as minhas capacidades? O que devia eu concluir disto?
Fiquei à espera de novos elogios , que provassem as minhas capaci­
dades autónomas . Mas Gerace , quando marcou outro trabalho sobre a
rainha de Cartago («Eneias e Di do: o encontro de dois fugitivos») , não
se entusiasmou , limitou-se a dar-me um oito . Mas da professora Galiani
recebia cordiais gestos de saudação e fiz a agradável descoberta de que
ela era professora de Latim e Grego de Nino Sarratore , aluno do primei­
ro A. Sentia uma necessidade urgente de atenção e apreço renovados ,
tive esperança que me viessem dele , pelo menos . Tive esperança de que
a sua professora de Letras me elogiasse publicamente , digamos , na tur­
ma dele , fazendo com que se recordasse de mim e finalmente me diri­
gisse a palavra. Mas não aconteceu nada, continuei a entrevê-lo à saída,
à entrada, sempre com o mesmo ar absorto , nunca um olhar. Uma vez
cheguei mesmo a segui-lo pelo Corso Garibaldi e pela Via Casanova, na
esperança de que reparasse em mim e me dissesse: olá, estou a ver que
fazemos o mesmo caminho , ouvi falar muito de ti . Mas seguia apressa­
do , de cabeça baixa, e nunca se virou . Cansei-me , senti desprezo por
mim. Deprimida, meti pelo Corso Novara e fui para casa.
Fui avançando dia após dia, sempre preocupada em confirmar aos
professores , aos colegas , a mim própria, a minha assiduidade e diligên­
cia. Mas entretanto crescia-me cá dentro um sentimento de solidão ,
sentia que aprendia sem energia. Experimentei contar a Lila as queixas
do professor Ferrara , disse-lhe para voltar a ir à biblioteca. Também lhe
disse que o meu trabalho sobre Dido fora muito apreciado , sem lhe
contar o que tinha escrito , mas dando-lhe a entender que o sucesso em
parte também era dela. Ouviu-me apaticamente , talvez já nem se recor­
dasse da nossa conversa sobre aquela personagem, tinha outros proble­
mas . Assim que lhe dei oportunidade , disse-me que Marcello Solara não
se resignara como Pasquale , continuava a andar atrás dela. Se saía para
ir às compras , ele seguia-a, sem a incomodar, até à loja de Stefano , ou
até à carroça de Enzo , só para olhar para ela. Se se assomava à janela,
via-o parado à esquina, à espera de que ela se debruçasse na janela.
Andava enervada com aquela persistência. Receava que o pai desse por

feia. Carmela. Nós três unimo-nos e insistimos . e depois Via dei Mille . vestimo­ -nos o melhor que pudemos . mais ainda. Dizia à irmã. Nós . Pasquale e Rino . mas ela. que o via diariamente . afirmava. e detestava Fernando por não compreender a importância daquelas coisas . era assim que ele estava. ninguém nos leva a melhor. perguntava. zonas onde se sabia que havia gente rica e elegante. Voltámo-nos e vimos o 1 1 00 dos Solara. um televisor. e respondiam só com resmungos em dialecto e insultos a pessoas indeterminadas . e não conseguia resignar-se ao trabalho quotidiano na oficina. «Basta olhar para ele» . «Levo as pessoas a fazerem coisas erradas . Rino continuava agarrado à mania de ficar rico como os Solara. Lila insistia em ir à Via Chiaia. ao pé de nós . como Stefano . em meados de Abril . Recordo-me de que um domingo à noite . e assim que saímos de casa pusemos bâton e pintámos um pouco os olhos . mas não . à Via Filangieri . A convicção de ter feito mais mal ao irmão do que bem consolidara-se . todas deforma­ das . Uma vez disse-me: «Já viste como as pessoas quando acordam são feias . Via-se magra. os nossos acompanhan­ tes tinham caras muito perigosas . Talvez nem se apercebesse de como o seu feitio se deteriorara. saímos os cinco: Lila. «0 que tenho eu?» . Assustava-a a possibilidade de principiar ali uma daquelas histórias de homens . e sobretudo que Rino se apercebesse . Apanhámos o metropolitano . até à Piazza Amedeo . Rino e Pasquale não concorda­ vam. a quem chamavam «janotas» . Lina. Nesse momento ouvimos buzinar. que acabavam em cenas de pancadaria dia sim. raparigas . 26 . Descemos a Via Toledo a pé . dizia. Rino e Pasquale foram todo o caminho alerta.1 50 Elena Ferrante isso .» Queria comprar um automóvel . que ia muito cheio . tratava-a pior do que a uma serva. andava alarmada. diz-m� o que havemos de fa­ zer. Porque é que Marcello se fixara nela? «Tenho alguma coisa de doentio?» . Receavam que alguém nos apalpasse . eu . Dos dois ir- . Desfeito o projecto da fábrica de calçado Cerullo . juntos . no bairro havia muitas . Mas quando Lila mostrava que já não queria apoiá-lo . mas não sabiam ou não queriam explicar-se . tentanto reacender nela o velho entusiasmo: «Nós somos inteligentes . não têm olhar?» Na opinião dela. dia não .» Repetia muito essa ideia.

Pareceram­ -nos bonitas . Mas Lila. e desfez-se em grandes sorrisos e gestos lânguidos. nem responde­ mos . Não viam nenhum de nós . e entrámos na Via Chiaia. fez aquilo que para ela era pa­ rodiar uma pessoa fina. Ou éramos desinteressantes . Enquanto eu teria parado para olhar à vontade para vestidos . belos penteados . Deu-me vontade de voltar imediatamente para casa. deve ter che­ gado por vias secretas aos dois rapazes . naturalmente . . exasperadas pela ideia de que Gigliola e Ada andavam a divertir-se num 1 1 00 . como se aquele encontro não tivesse acontecido . saracoteou-se . lindos brincos cin­ tilantes . Pareciam ter respirado outro ar. com lindos vestidos . que . Aquela nossa insatisfação . Nós hesitámos um pouco e de­ pois resolvemos secundá-la. quatro jovens de automóvel . Estava pasmada. Carmela e eu . e de Pasquale . suspira­ ram e se deram por vencidos. Recordo um passeio entre multidões e uma espécie de diversidade humilhante . sapatos . Não éramos perceptíveis. A nossa maneira era errada: a pé . sério .A Amiga Genial 151 mãos nem nos apercebemos . depois Rino disse em voz baixa a Pasquale que desde sempre se sabia que Gigliola era uma puta. gritou . que olharam para nós . Mas Carmela disse muito mal de Ada. para as senhoras . que é como quem diz . tesos . com a surpresa. terem aprendido a andar sobre fios de vento . de tão espantadas que ficámos com as duas raparigas que nos faziam adeus das janelas: Gigliola e Ada. Está bem. Rino e Pasquale viraram a cara. mal arran­ jados. agitando as mãos e gritando-nos saudações alegres . disseram . elas passavam e parecia que não me viam. Passara num relâmpago a imagem do poder. Foi como se atravessássemos uma fronteira. Agar­ rou-se ao braço de Pasquale . Eu não olha­ va para os rapazes . e Pas­ quale concordou . mas sim para as raparigas . ter comido outros alimentos. enquanto o carro desaparecia na direcção da Piazza del Plebiscito . terem-se vestido em qualquer outro planeta. enquanto nós íamos a pé . Antonio era amigo de ambos e não queriam ofendê-lo . com os lindos irmãos Solara. a maneira certa de saírem do bairro para se irem divertir. calámos . na companhia de Rino . Eram completamente diferentes de nós . que remendava sapa­ tos . o tipo de óculos que usavam . Nenhum deles falou em Ada. Eu senti sobretudo amargura. Ficámos um bocado em silêncio . Lila foi a única que gritou qualquer coisa com entusiasmo e lhes fez adeus com gestos largos . E se por vezes o olhar lhes caía sobre nós . quando usavam óculos . riu . que era pedreiro . voltou a insistir que queria ir passear onde se encontravam as pessoas elegantes .

A rapariga estava toda de verde: sapatos verdes .» «É um liceu clássico» .1 52 Elena Ferrante voltavam-se imediatamente para outro lado . mais crescidos. acompanhada por um jovem moreno . Ninguém se pronunciou . Pasquale. sentia um prazer evidente em ouvir-lhe a voz. aquilo são sapatos?» Fomos até ao Palazzo Cellamare . e na cabeça . Entretanto . a tua escola mete nojo. indispostos pela certeza de estarem num lugar que não era o deles . mas via­ -se que o mais pequeno contacto o perturbava. «Não presta» . perguntou-me com sarcasmo: «Na escola as tuas companheiras são assim?» «Não . de nos vestirmos e de nos maquilharmos e de nos ataviarmos como deve ser. mas percebemos que Rino e Pasquale . disse ela. para não estragarmos a noite . com bons modos (falava com ela. mas também estimula­ das a imaginar como nos transformaríamos . se tivéssemos a possibilidade de nos reeducarmos . não presta. só naquele momento fazíamos essa descoberta e com sentimentos ambíguos . Todos nós reparámos nisso. caminhando a meu lado. feias . saia verde . raparigas . de pulôver branco com decote em V: «Se não houver lá uma como aquela. Olhavam apenas umas para as outras .um chapéu de coco como o de Charlot. e quando ela lhe dera o braço se libertara de imediato .» «Quer dizer que não é uma boa escola. alto . «podes ter a certeza. disse eu . insistiu ele . em olhar para ela. ironizando . o que os punha de mau humor.» «E viste os sapatos?» «Ü quê . Sentíamo-nos acanhadas e ao mesmo tempo encantadas. rea­ gíamos com risotas . se não há lá gente assim. e apontou para uma rapariga loira que vinha na nossa direcção . Lila. ficavas parecida com uma bola-de-berlim. como aquela que ali vai .» «Valente . «Tu alguma vez usavas aquele vestido?» «Nem que me pagassem. Não é verdade . também verde . que evitava de todas as formas estar ao pé de Lila. por aquelas ruas encontravam ape­ nas a confirmação de coisas que já sabiam. picada. claro . que não é bom?» «Bom?» . casaco verde . os tornava carrancudos . a rir e a dizer piadas . como se incomodadas .e era principalmente isso que fazia rir Lila . talvez até fosse capaz de fazê-lo chorar) . . ao passo que nós .» «Eu usava.» E desatou a rir.

Lila acalmou-se . Parámos na Piazza dei Martiri . O rapaz de pulôver branco voltou-se . e apoiou-se à parede com um braço . de quem percebe sempre tudo . Rino derrubou-o com um soco na cara. Rino continha-a com uma mão .» Uma pequena pausa para controlar a respiração . Entretanto . Pascà. vai ver o que faço a quem me chama labrego . e tem de ir por força. gritando: «0 que foi que me chamaste? Não percebi . Ouviste . mas um braço da rapariga reteve-o de imediato . e acrescen­ tou: «Ouviste que aquele pedaço de esterco me chamou labrego? Labre­ go . Rino» . Lila foi a primeira a lançar-se sobre o irmão . «a minha irmã pensa que . antes que ele pontapeasse o jovem caído no chão . sem fôlego: «A minha irmã trouxe-me aqui e vai ver se deixo que me chamem labrego . dis­ se em tom frio: «Vocês agora vão para casa. virando-se para Carmela.A Amiga Genial 153 A hilaridade dela contagiou-nos a todos . puxando-o com uma expressão incrédula. mas que naquele momento lhe parecia inverosímil . sozinhas?» . disse-lhe em dialec­ to . Quando o par passou por nós . lançava-lhe insultos ordinários . Enquanto afastava o irmão . repete lá o que me cha­ maste . voltou para trás e dirigiu directamente a Rino uma série de frases insultuosas . Pascà» . como se mil fragmentos da nossa vida. com um riso nervoso na cara e dirigindo-se a Pasquale: «A minha irmã pensa que aqui se brinca. veste a pele de quem sabe sempre tudo .» «Nós . Rino fez um comentário grosseiro sobre o que a senhora de verde devia fazer com o chapéu de coco. A rapariga e o acompanhan­ te deram alguns passos e pararam. Ele soltou-se . com olhos de louco . e Pasquale parou . quando eu digo que é melhor não irmos para um sítio qualquer. olhando para trás de vez em quando . estivessem a compor uma imagem finalmente nítida. enquanto a rapariga de chapéu de coco ajudava o namorado a levantar-se . Foi num abrir e fechar de olhos. Pasquale . passámos bruscamente do riso ao pavor. puxando-o por um braço e ameaçando-o . Rino continuou agitado . respondeu-lhe Pasquale alarmado .» «Calma. raparigas . de tanta vontade de rir. Empurrámos Rino e Pasquale para longe . o que ele me chamou?» Nós . a incre­ dulidade de Lila dava lugar à fúria desesperada. a mim? Labrego?» E ainda. desde a infância até aos nossos catorze anos de então . mas baixou o tom de voz . como é hábito .

vi Rino a proteger-se das bastonadas com o braço . outros não . com o pulôver de decote em V sujo de sangue . vá. puxei Lila por um braço . atirou-se para a refrega. disse Rino a Lila. bem constituídos .» Rino perdeu de novo a paciência. Mexe-te . Alguns leva­ vam um bastão . Lila soltou-se da minha mão e foi a correr.» Vi que estava pronto para fazê-lo a sério . incitado por ela. primeiro levantou Lila e depois . Vão-se embora. Mas pouco depois . que gritava de raiva e chamava o irmão . atacado a pontapé . mas deitaram-na ao chão . tens de fazer o que eu te digo . era o 1100 dos Solara. Chegámos mesmo a tempo de ver Rino e Pasquale a recuar. pareciam os canoeiros que às vezes admirávamos . Eram todos altos . e o grupo dos bem vestidos a persegui-los e a dar-lhes com os bastões . nem o gelado mereces . tentando conter-se . na direcção do monumento central da praça.» «Não sabemos o caminho . Ten­ támos convencê-la a ficar connosco . dando murros e levando . bem vestidos .» «Carme . Ela também percebeu que corria o risco: «Vou contar ao papá. Rino e Pasquale ergueram-se . Vi Pasquale de joelhos. Passaram ao lado da igreja em passo apressa­ do e dirigiram-se para a praça. Gritámos por socorro . mas os bastões metiam medo . anda. pira-te . Com eles encontrava-se o rapaz a quem Rino esmurrara a cara. disse que voltava para junto do irmão. mas não fez caso . Lila agarrou um dos agressores por um braço . lado a lado . deu-lhe um encontrão: «Queres parar com isso? O irmão mais velho sou eu .1 54 Elena Ferrante «Sim. começámos a subir por Santa Caterina.» «Vai» . tirou qualquer coisa que parecia um pedaço de ferro reluzente e entrou na luta. «toma lá dinheiro .» «Saímos de casa juntos e regressamos juntos. nos passeios de domingo . junto do Castel dell 'Ovo .» «Não mintas . as pessoas não ajudavam. não tarda nada parto-te a cara.» «Não . cinco ou seis . Marcello saiu do carro .» Incertas . come­ çámos a chorar. abriu o porta­ -bagagem sem pressa. Lila mudou de ideias .» «E eu ralado ! Põe-te a andar. eu e Carmela seguimo-la. vá. a interceptar transeuntes . não quero discutir. Só então Michele saiu do carro . com- prem gelados pelo caminho . Depois parou um carro . parou. batendo com uma violência fria que espero não voltar a ver na minha vida. Enquanto discu­ tíamos vimos um grupo de rapazes .

estávamos todas muito admiradas com o comportamento dos dois irmãos . curiosas . que opu­ nha maior resistência. As pessoas que antes se tinham afastado . mas ela não lhe deu resposta. Pareceram-me dois desconheci­ dos . disse Rino aos dois Solara. Michele aproximou-se de Pasquale . para evitarmos ser vistas no carro dos Solara. «Levem daqui as raparigas» . por trabalhar na pastelaria. Gi­ gliola desceu e . Amontoámo-nos todas no banco de trás . mas Pasquale repeliu-o com maus modos e passou pela cara a manga da camisa branca. em primeiro lugar Lila. as cinco raparigas juntas . Fizemos assim a viagem. Valentes . disse Lila. Marcello travou . no colo de Michele .A Amiga Genial 1 55 furiosos . e partimos. com ar de quem . que pare­ cia consumida pela raiva e pela preocupação . «Mas o que é que julgavam» . aproximavam­ -se agora. que agradeceu de má vontade . «Mas sem dúvida» . com Gigliola e Michele a beijarem-se constantemente. Eu olhava para ela. Os rapazes bem vestidos puseram-se em fuga. Voltei-me para olhar para Pasquale e Rino . vendo-a depois molhada de vermelho . e estavam quase a agredir-se . que se dirigiam para a Riviera. divertido . procurando-a com o olhar através do espelho retrovi­ sor. como é?» «Óptimo . Gigliola repetia sem parar: «Mas é claro» . Gigliola e Ada estavam muito irritadas . em passo lento de princesa. rasgando . Dentro do carro houve imediatamente conflitos. Lila não voltou a falar até chegarmos ao bairro . foi sentar-se à frente . Eu estava paralisada de medo . Marce­ llo apanhou do chão um molho de chaves e deu-o a Rino . no tom agra­ decido de quem faz um pedido que não pode evitar. Quisemos que nos deixassem longe de casa. batendo . Marcello pronunciou algumas palavras . portaram-se bem . sentadas no colo umas das outras . Marcello fez-nos entrar para o carro . «Não é possível» . protestaram pela forma incómo­ da de viajar. Eu desviava logo os olhos . diante dos nossos olhos . que sangrava do nariz . apertando . incluindo as ruas da gente rica. olhava para mim. dissemos . «Então apeiem-se e vão a pé» .» . e ela.» «É outro tipo de divertimento . diziam. enquanto dava beijos apaixonados . Exceptuando Lila. mas num tom trocista: «Lá na escola. Fizemos o resto do caminho a pé . de tal modo estavam alterados pelo ódio . A certa altura perguntou-me . Senti-me como se o bairro se tivesse ampliado e abrangesse Nápoles inteira. Pasquale a coxear.» «Mas não te divertes como eu me divirto . sabia bem que os Solara eram gente impecável .

perdera até a aura aventureira da fábrica de sapatos . Incitada pelo meu pai . Agradeci . até ia receber uma coisa que se chamava bolsa de estudo . que tivera o cuidado de não contar ao pai o que acontecera (para justificar as nódoas roxas da cara e do corpo . para ver se ela me recebia em sua casa durante algum tempo . inventara que tinha caído . Não estava de acordo . imagine-se . regozijou-se com o meu bom aproveita­ mento . apresentara-se na oficina para se informar sobre o estado de Rino. fui a casa da professora Oliviero .minha mãe era contra. mas não me disse porquê .» Ela não respondeu . de umas possíveis férias em Ischia. em Ischia? Eu sozinha. 27 .1 56 Elena Ferrante Quando ela. Dos quarenta que éramos . Mas Rino . Estava mais pálida do que o habitual e tinha sulcos roxos profundos sob os olhos . Alfonso tinha que repetir três disciplinas em Setembro . Passei com nove a tudo . Acrescentei . na praia. mas não disse nada à minha mãe sobre aquela possibilidade . passando por cima dela . de barco . ao Rino e ao Pasquale . Eu . as coisas haviam melhorado . O rapaz. eu disse a Lila: «Üs ricos são piores do que nós . Aparentemente . Aqueles da Via dei Mille podiam matá-los . um de açúcar e outro de café . A sua vida. e não tinha coragem de me gabar da aprovação . não gostava que ela metesse o nariz na sua fann1 ia e se per­ mitisse tomar decisões a respeito dos seus filhos . fazendo uma viagem por mar? Eu . comprados no bar Solara. Carmela e Ada se separaram de nós para entrar em casa. Ela não s e sentia muito bem. depois da violência da Piazza dei Martiri. disse que me achava bastante pálida e que tencionava telefonar a uma prima sua que morava em Ischia. para lhe agradecer o seu interesse por mim . tinha qualquer coisa n a garganta que lhe doía.com os dois pacotes do costume . da bolsa de estudo . ficaram trinta e dois . Gino foi reprovado .» Ela abanou a cabeça energicamente . pondo em alvoroço sobretudo Fernando . Mas . mas ainda bem que lá estavam. Já sabia que ela nunca me deixaria ir. circunspecta: «ÜS Solara podem ser gente de merda. a tomar banho em maiô? Nem a Lila falei nisso . pois Marcello Solara dei­ xara de andar atrás dela. em poucos meses . dera-se um facto totalmente inesperado que a deixara perplexa. pela honra que lhe era feita. sem dúvida. mas elogiou-me muito .

tudo é perigoso . objectei uma vez . ou no estô­ mago . Daí a poucos dias Marcello voltara. que se passava em torno da sapataria. Lila. tinham ganho estima por Rino . chamasse ele o que quisesse àquela coisa com os Solara. mas os Solara. trazendo os sapatos do avô para pôr meias-solas. Quando reentrou na oficina. receando que Marcello dissesse alguma palavra a mais. papá. para tirar a carta. ao contrário do pai .» «Ü quê?» «A amizade com o Marcello Solara. quando ouvia falar nisso sentia. e que o filho .» «Ora. não só a sua intervenção. Co­ nhecia bem a fragilidade de Rino . podia espetá-la no peito de um daqueles .» «Uma barra de ferro . Tinha razão . A princípio .» . e despediram-se .A Amiga Genial 1 57 da Lambretta de um amigo) .» «Tu não estás a ver. Rino agradeceu contrariado a Solara. pensara: Rino odeia demasiado os Solara. mas também a gentileza de passar por ali para ver como ele estava.» «Não existe amizade nenhuma. Provavelmente não se tratava de amizade . faria bem em encorajá-la. mas isso não evitava que se enfure­ cesse com a maneira como os Solara lhe estavam entrando na cabeça. depois encorajara-o a tratar da licença de aprendizagem. fazendo dele uma espécie de macaquinho feliz .» «Então quer dizer que tolo eras e tolo continuas a ser. uma grande preocupação . não é possível que se deixe enrolar.» «Aqui . «São perigosos . Depois verificara que as atenções de Mar­ cello seduziam ainda mais o seu irmão mais velho do que os pais . Dois mi­ nutos .» «Üs outros tinham bastões . alheia àquele convívio . onde ela não punha os pés . tu ameaçaste o Marcello com o trinchete . Deram um curto pas­ seio. Lenu . o pai disse-lhe: «Finalmente estás a fazer uma coisa boa. mas a barra estava bem afiada na ponta . levara-o imediatamente para a rua.» «Viste o Michele.» Fernando queria dizer que alguma coisa estava a mudar. aquilo que ele tirou do carro na Piazza dei Martiri?» «Não . recordando-se da batalha do fogo-de-artifício . sem dúvida. assumindo a responsabilidade de o deixar exercitar-se ao volante do seu 1100. depois convidara Rino para dar uma volta de automóvel. «Que mal há nisso?» . Se ele quisesse . depois oferecera-se para o ensinar a conduzir.

nem se fala. mas depois sentiu-se honrado e mostrou cordialidade . ou outra coisa. e Fernando . ansiosa. de início aborreceu-se . «Vou deitar aqui veneno das baratas» . dizes-lhe que não?» «Ora. Disse­ -lhe que seu pai gabava muito a sua grande habilidade . Solara dirigia a conversa sobretudo a Fernando . enquanto Nunzia nos mandava calar. e eu gostava de argumentar. e Rino . Gaguejou qual­ quer coisa em louvor de Silvio Solara. «Se ele te quiser. senão . e chegou mesmo a dizer que .158 Elena Ferrante Ela irritou-se . só Marcello é que falou . «vai pedir a tua mão ao teu pai .» «De verdade?» «Sim. perguntou Nunzia. Ele era irmão dela. em parte por causa do vinho . Fernando .estava eu em casa de Lila. queria afastar Rino daquela relação . junto do fogão . a fim de não incomodarem. à mesa esteve sempre calado . cansado . Disse ao dono da casa que era muito estimado no bairro pelas suas qualidades de sapateiro . mata-te . disse que eu não percebia. ameaçava­ -a. Mas mal fazia qualquer alusão crítica. ou então ria sem motivo . que não fora capaz de lhe dizer que não . Rino mandava-a calar.» «Está muito enganado . Eu própria participei . às vezes batia-lhe . não me recordo . Disse-lhe que Rino sentia uma admiração sem limites pela sua competência como sapateiro . abriu-se a porta de casa e entrou Rino . com Lila. e avançaram tanto que numa noite de fim de Junho . seguido por Marcello . a Lila. a ajudá-la a dobrar os lençóis já secos . Ficou agitada. mas sem se esquecer nunca de servir água ou vinho a Nunzia . avançaram . nos preparativos do jantar. dizia Lila furiosa. «Veio cá para se casar contigo» .» «Que estás tu a dizer?» «É verdade» . Nunzia. comoveu-se .» «Porquê?» . O rapaz convidara Solara para jantar. ao passo que ela tinha outras necessidades . de bom ou de mau grado . e ríamos . a mim . confirmei eu . E o facto é que as coisas . agradeceu as três garrafas de bom vinho que Marcello trouxera.» Durante o jantar. que regressara havia pouco da oficina. Era evidente que se fize­ ra convidado . não meu. provoquei-a eu . levou os outros filhos para a cozinha. E provavelmente era verda­ de . «Que o teu pai nunca saiba disso .. já lhe disse que não .

é exactamente o número 43 . precisamente o meu número . «que o s vossos filhos fizeram u m lindo par de sapatos . Mas Marcello sorriu-lhe com humildade e admitiu: «Sim. sim. exclamou Lila. Rino fixou os olhos no prato e não ousava olhar para o pai . dirigindo-se ao pai: . Lila olhou directamente para o rosto de Solara. «Sei» . Começa-se por uma cave . anda. estavam guardados na arrecadação .» Lila explodiu .» Rino irritou-se e disse: «És uma mentirosa. de respirar o hálito dela. porque é que não há-de tentar? Falou num dialecto bonito . depois o pai ampliara o negócio . que agradem . Disse que o avô começara numa cave . sedutor. concluiu Marcello . e enquanto falou não tirou os olhos da minha amiga. número 43 . elogiando a energia das gerações .» Fernando gaguejou: «Não sei onde estão . mas é só para dizer que o dinheiro deve circular. «Que exagero» . vinha gente de toda a parte de Nápoles tomar um café . Fernando disse devagar: «Sim.» Depois .» «Gostaria muito de os ver. Nunzia?» «Ela é que os tem» . e disse: «Tinha-os . comer um bolo . apontando para a irmã. que aos olhos dele encarnava todas as qualidades femininas possíveis . estivesse a elogiá-la sobretudo a ela. e o pai fulminou-a com o olhar. talvez tenha exagerado um pouco .» Fernando também disse . todos o conheciam . Marcello começou a elogiar a necessidade de progredir. se não se importarem. se tiver habilidade . vai já buscar os sapatos . enervado: «Vai buscar os sapatos . Tu sabes . Já que ninguém gos­ tava deles . que gostaria de a beijar. se for capaz de criar coisas com qualidade . e de geração para ge­ ração pode-se chegar longe .» Fez-se um longo silêncio . Eu sentia e via que ele estava apai­ xonado por ela como nas canções . e hoje. começou a enaltecer a ideia de fazer sapatos novos . com visível incómodo de Rino . o bar-pastelaria Solara era aquilo que se sabia. que ela poderia fazer dele tudo o que quisesse . Só se ouvia o rebuliço do pintassilgo junto à janela. Mas anteontem a mãe disse-me para fazer limpeza e deitei-os fora. Dizia: se uma pessoa sentir vontade . disse Rino .A Amiga Genial 1 59 Rino era muito trabalhador e estava a tomar-se muito competente . E a partir desse momento começou a olhar para Lila como se . En­ tão .

Tinha os sapatos no colo . assustada. in­ sultos .» Nunzia saiu da sala. disse que lhe pertenciam. o vinho estremeceu nos copos: «Levanta-te e vai buscar os sapatos imediatamente .» Rino uniu-se ao pai nas ameaças . Brilhavam à luz fraca de uma lâmpada pendurada de um fio eléctrico .» Mas estava arrasada devido à sua reacção extrema. é desta vez que mato a tua filha. Acompanhei-a a casa. Lila chamou-me . contando que a minha presença a protegesse . Procurámo-la por toda a casa. disse Fernando . «0 que te custava deixá-lo vê-los?» . Convenci-a pouco a pouco a voltar para casa. tomaste-te uma besta enlouquecida. Mas assim que fechei a porta e me encontrei no patamar. Fer­ nando berrou para a mulher: «Tão verdade como Deus ser Deus. Rino arrancou-lhe os sapatos da mão .» Lila afastou a cadeira. perguntei . na penumbra. preocupado: «Se calhar errei . Mas houve da mesma maneira gritos .» Foi Nunzia quem pôs fim àquela tortura. Ela começou a chorar. «Deitei-os fora» .» Fernando bateu na mesa com a mão aberta. o obrigara a fazer má figura perante um convidado importan­ te . subi em bicos de pés . nada. murmurando: «Eu também trabalhei . por causa de um capricho . O primeiro a alarmar-se foi preci­ samente Marcello . desolado . O tempo foi passando em silêncio . vi-os pela primeira vez acabados . não podia ficar escon­ dida lá em cima eternamente . Assim que ele saiu . Abanou energicamente a cabeça. algumas bofetadas . levantou-se . e segredou à mulher: «Vai ver o que a tua filha está a tramar. Estava no último andar. Quando voltou vinha muito atarantada. repetiu baixinho e saiu da sala. mas melhor seria que não o tivesse feito . Não voltou a aparecer. Marcello .1 60 Elena Ferrante «Então agora já os queres? Deitei-os fora porque disseste que não gostavas deles . Tremia-lhe o lá­ bio inferior.» «Não existem problemas» . Eu fui­ -me embora quase em bicos de pés . Fernando gritou-lhe que . Encontrei-a aninhada junto da porta do terraço . «Não quero que ele lhes toque sequer. Fez- . que o trabalho fora todo dele . Chamámos da janela. Nunzia começou a chorar. não en­ contrava Lila. não me tinha apercebido de que existem problemas . desorientada. despediu-se . algo que nunca lhe acontecia. não estava. Disse .

o papá percebe que os teus modelos são bons . que o acompanhasse até à sapataria. Fazemo-los . «Se o Marcello gostar dos sapatos . mas que ela não queria bem a ninguém. com todos os acabamentos . e talvez tu . nem aos pais . se me aplicar. que era sempre submissa . no máximo cinco . para ti .» «Nós três?» «Eu . Rino deu-lhe logo os sapatos .» «E porque haviam de se contentar com uma percentagem pequena?» «Simpatizaram comigo . nem aos irmãos . Rino disse-lhe que lhe queria bem. sempre?» «Os Solara são comerciantes . Farão re- clame aos nossos sapatos.. ordenou aos filhos . conhecem gente importante . que acabassem imediatamente com aquilo .A Amiga Genial 161 -se lívida e . Cada vez que me encontrava com Lila via-lhe uma nova nódoa roxa. O papá é capaz de fazer um par de sapatos. vendemo-los e autofinancia­ mo-nos . Pelo caminho ten­ taram ambos . E então se o Marcello os comprar.» «De certeza.ela. o papá muda de ideias . Mas Rino não se deu por vencido . 28 . vais ver que não lhe fico atrás . ele revelou-lhe o que tinha em mente . Eu escapuli-me dali para fora. e daquela vez as coisas ficaram por ali . que não retorquissem uma única palavra. nos dias que se seguiram conti­ nuou a agredir a irmã com palavras e com as mãos . se não queriam que ela se atirasse da janela.» . damos-lha. e tam­ bém ao marido .» «A quem os vendemos? Ao Marcello Solara. encontrar uma maneira de aca­ bar com aquela guerra. Lila murmu­ rou : «Ü que é querer bem. e deixa-nos começar a trabalhar. vende­ mo-los e autofinanciamo-nos.» «E fá-lo-ão de graça?» «Se quiserem uma pequena percentagem. e o que é querer bem para a nossa família? Estou à espera que me digas . também. Uma manhã ele impôs-lhe que saíssem juntos .» «Não acredito . em quatro dias . E eu . que lhe entregassem os sapatos . com uma voz fora do habitual . Passado algum tempo senti que ela estava resignada. que podem dar frutos . fazemo-los .» Palavra puxa palavra. ele . com palavras cautelosas .

Não dava crédito às hipóteses ingé­ nuas do irmão e receava o indecifrável acordo entre o pai e a mãe . como até podia estar interessado em comprá-los . como se estivesse com dor de barriga e precisasse de ir a correr para casa. dois minutos depois . de olhos baixos . dizia mesmo assim. . sou eu que decido . Mas . disse . decerto escrito por Rino .» Lila suspirou: «Vamos fazer uma coisa: eu digo ao papá.» Rino ficou calado . Um anúncio colado no vidro . mas disse que lhe ficavam um pouco aperta­ dos . naturalmente . em troca. ou outra porra qualquer.» «Ou é assim. «ponho os vossos sapatos na montra da loja. nem sequer Marcello . sim. ou nada feito . Só porque foi instado por Rino . e mais.» Fernando olhou para a mulher. amuada. sapatos da marca Cerullo . se se entusiasmasse com a questão do ponto de vista comercial . Descalçou-os de imediato e desapareceu sem uma palavra sequer de apreço . Rino pôs-se em pé de um salto .1 62 Elena Ferrante «Üs Solara?» «Sim. falas tu .» Dias depois passei pela loja. De qualquer modo . Mas Lila estava céptica. radiante . é que Solara olhou para eles . Decepção para o pai e para o filho . esperava coisas más . se os quiser experimentar. que tinha o rosto afogueado . que sabes falar melhor. pomposamente: «Aqui . se os quiser comprar. Na montra. Marcello reapareceu .» Nessa noite . «Amanhã» . de cabeça baixa. «Isso fui eu que disse» . Passou uma semana. Isto é. e vejamos o que ele pensa. mas como se tivesse outras coisas em men­ te . Se alguém os quiser ver. entre caixas de cromatina e atacadores . faria publicidade ao produto nos círculos que frequen­ tava. precisou Rino . de uma pequena percentagem sobre as vendas . Fernando estava a trabalhar. Lila percebeu que haviam falado so­ bre o assunto e chegado a uma conclusão secreta. Rino estava a trabalhar. na verdade quase arrastado à força para a loja. tem de falar comigo . Lila disse a Fernando que Marcello não só tinha mostrado muita curio­ sidade pela iniciativa dos sapatos . os dois curvados .» «Não te atrevas . vi os bonitos e harmoniosos sapatos da mar­ ca Cerullo . muito nervoso . Experimentou-os . diante do irmão . «Está bem.» Pai e filho esperavam que a boa sorte chegasse . «e não o Marcello . ao jantar. e ninguém mostrou o me­ nor interesse pelos sapatos na montra.

Mas Marcello ignorou-o e dirigiu-se directamente a Fernando . não só para o seu futuro como para o futuro de toda a farm1ia. mas a dormir. arrastavam­ -no de novo para a cama. Rino reagiu àquela viragem com uma febre violenta.» 29 . que em vez de ficar noiva e depois casar-se com Marcello Solara. No entanto . Sabia muito bem que Marce­ llo queria por força ser namorado de Lila. Lila respondeu-lhe . dom Fernà: queria pedir-lhe a mão da sua filha Lina. Casar-se? Com Marcello Solara? Talvez até ter filhos? Não . para o bem dela. mas não me passaria pela cabeça que na nossa idade se pudesse receber uma proposta de casa­ mento . dizendo que . Em meados de Julho aconteceu uma coisa com que devia ter contado . como pai . que juntamente com a mulher intuíra de imediato as reais intenções de Marcello . Fernando . Lila recebera-a. habituá-la-ia pouco a pouco ao casamento . Eu fiquei pasmada com aquela notícia. assustadas . falou com a filha calmamente . em casa. lhe partiria os ossos se não aceitasse um partido daquela importância. teve manifestações inquietantes: levantava-se da cama no meio da noite . Uma tarde . com aquela simples reaparição . nunca trocara um beijo com ninguém. como se qualquer acordo . Encorajei-a a combater aquela nova guerra contra o pai e jurei que a apoiaria. que o afastou do trabalho alguns dias . mas acrescentou que . mas que afinal me apanhou despreve­ nida e me perturbou . de olhos arregalados . absolutamente não . mas que não a fez mudar de opinião . Explicou-lhe que a proposta de Marcello Solara era importante . a aconselhava a aceitar. e como sair . Quando a febre bruscamente desapareceu . apesar de ele já ter perdido a calma e andar a ameaçá-la. ficasse já estipulado . nunca namorara às escondidas . com idêntica calma. e nem tinha ainda quinze anos . e em silêncio e muito agitado ia até à porta. Pus-me imediatamente do lado dela.A Amiga Genial 1 63 e estendeu-lhe a mão . Disse-lhe que ela ainda era uma criança e não tinha de dizer que sim imediatamente . Mas não pude ficar ao lado dela. Nunzia e Lila. Um longo noivado . Seguiu-se uma grande altercação . que se esforçava para abrir. antes iria afogar-se nos pauis . depois da habitual volta pelo bairro a conversar com Lila sobre aquilo que lhe estava a acontecer. Disse-lhe de um só fôlego: «As minhas intenções são muito sérias .

fez-me prometer que antes de os ler os forraria . isto é. tinha eu três ou qua­ tro anos . só tens de ajudá-la um pouco em casa. foi ela mesma que me acompanhou ao barco . Ela é que parecia precisar de repouso . Entrei timidamente na sala. Dirigiu-se a mim: «A menina tem de ir para Ischia repousar. «Esperemos que o mar não esteja agitado» . depois de me ter tirado as medidas e me ter feito à pressa um fato de banho que copiou não sei de onde . a menina anda muito can­ sada. dizia quase para si mesma. me levava a Coroglio todos os dias para me curar do catarro . E ela ficou com um ar ressentido . como que a dizer que a culpa do meu eventual afogamento não devia ser atribuída a ela. e ficar até ao fim de Agosto . não se foi embora depois de me transmitir aquele re­ cado . demorou-se ainda uma hora bem contada. Só explodiu quando a professora. embora o olho dançarino lhe desse um ar alucinado .» Olhei para a professora sem compreender.» Mas passados dois dias .1 64 Elena Ferrante daquela situação . que andas muito cansada. e jurou-me que em pequena. Depois recomen- . Ao longo do caminho até ao porto . enquanto me comprava o bilhete e depois . A minha mãe aguentou com paciência. senão dou-te uma bofetada. como tal . finalmente . Estava a conversar com a nossa mãe . se despediu . e ordenou-me que lhos devolvesse todos n o final d o Verão . Ficou sen­ tada. O que mais a assus­ tava era a travessia. mostrando-me os livros que trouxera para me emprestar. em Ischia. Podes ir para casa dela.» Falou comigo como se fosse ela a minha mãe . voltei para casa e a minha irmã Elisa veio abrir-me a porta. e a minha mãe disse-me . sem u m único canto dobrado . Vai já fazer o jantar. atenta. estava pálida e tinha a cara inchada. aborrecida: «A professora Oliviero diz que tu precisas de repousar. que na sala de jantar se encontrava a sua profes­ sora. com um gesto de desdém para ela e nem uma carícia à minha irmã. e que o mar era lindo e eu aprendera a nadar. Explicou-me quais os que devia ler primeiro e quais depois . não devesse ser tomada em considera­ ção . a senhora Oliviero . Além disso . Mas eu não me lembrava de Coroglio . bombardeou-me com recomendações . excitada. anda. fosse apenas um ser vivo descartável . que fizera o que devia fazer para evitá-lo . nem de saber nadar. Anunciou-me: «A minha prima respondeu ontem mesmo . Disse . e disse-lho . a que era coxa e tinha um olho torto . que estava à espe­ ra disso e teria ficado orgulhosa. e como se a minha verdadeira mãe . nem do mar. Recebe-te com muito prazer. mas simplesmente ao meu esquecimento . e. enquanto aguardámos o embarque .

O percurso pareceu-me longo . Alugava os quartos a veraneantes e ficava com um quartinho para si e a cozinha. ou se te aparecer o sangue . mais justo no traseiro . Fez-me outro que na opinião dela era mais moderno . escrevendo uma carta por dia a Lila. suportes . O resto do tempo era meu . Eu ia dormir na cozinha. ex­ tinguiu-se .foi ficando cada vez mais longe . chegava de terraço . muito alegre . 30 . e que ficasse em casa se ele estivesse agitado ou com a bandeira vermelha. disse ainda. num bonito tom de azul . disse que já eram horas de eu ir à praia. Tinha de fazer a cama à noite e desmontar tudo (tábuas . achou que era de velha. O corpo volumoso da minha mãe . senti-me aterrorizada e feliz ao mes­ mo tempo . dizendo: «0 que fazes tu assim? Veste o fato de banho.assim como o bairro e as atribulações de Lila . nem mesmo com o mar calmo . larga e de areia escura.» Quando o vesti ela desatou a rir. uma viagem por mar. Descobri que tinha obrigações inevitáveis: levantar-me às seis e meia. Desabrochei . muito decotado no peito . No início . que se chamava praia dos Maronti . Mas Nella uma manhã fez troça de mim . Quando o barco se afastou do cais . ditos espirituosos e descrições empolgantes da ilha. peguei numa toalha e num livro e fui até aos Maronti . pediu a um velho marinheiro que olhasse por mim. com tantos medos que a minha mãe me inculcara e os problemas que tinha com o meu corpo ..quando cheguei estava lá um casal inglês com duas crianças .» Antes de nos separarmos . Saía de casa pela primeira vez . ia fazer uma viagem. pôr a mesa para o jantar e lavar a loiça antes de ir para a cama. levantar a mesa e lavar chávenas e tigelas . não deves sequer molhar os pés . passava o tempo no terraço . . entre mil receios e mil curiosidades . encontrei facilmente a casa.A Amiga Genial 1 65 dou-me que não me afastasse da beira da água. todas elas cheias de perguntas . solteira. falado­ ra. colchão) de manhã. Podia estar no terraço a ler com o mar em frente . Cheguei à povoação de autocarro . ou descer a pé por uma estrada branca e íngreme até uma praia comprida. Nella revelou-se uma mulherona simpática. preparar o pequeno-almoço para ela e para os hóspedes . «quando tiveres o estômago cheio . A prima da professora chamava-se Nella Incardo e mo­ rava em Barano . toda vestida. No dia seguinte . Experimentei-o e ela entusiasmou-se . «Sobretudo» .

Depois perdi o pé e afundei-me . Lila que não respondia às minhas cartas . a minha perdesse intensidade e impor­ tância. A praia não tinha fim e estava deserta. escureci . a perna saudável tapada até ao joelho pelo vestido . Fiquei muito tempo em pé a olhar para aquela massa de água. perdendo bocados da vida dela. Levantei-me e fui mo­ lhar os pés . da minha mãe . Enfim. cozi­ nhava muito bem. Gostava de tudo: de me levantar cedo . deixando que a água me subisse dos pés até aos tornozelos .1 66 Elena Ferrante não encontrei ninguém a subir nem a descer. Experimentei um sentimento que depois . . das ruas do bairro . Não tinha saudades do meu pai . Vi-a num relance . sentada na areia preta ao sol do meio-dia. graças ao tratamento que me dava. Entretanto . A água do mar e o sol depressa me apagaram do rosto a inflamação do acne . para me manter à tona de água . a areia granulosa roçagava a cada passo . arrumar a cozi­ nha. e que . Avancei com cautela. mergulhar. Depois sentei-me na toalha. fiz um grande avanço . mas não chegaram. Perceberam que eu queria aprender e falavam cada vez mais comigo com simpatia. ao longo da vida. menos es­ tragada. estava muito bonita. um receio que nunca me passara: o medo de que . dos meus irmãos . sem eu estar presente . que estava sempre alegre . Era verdade que a minha mãe me levara à praia em pequena. boas ou más . passear por Barano. O facto de ela não me responder aumentava essa preocupação . Receava que lhe acontecessem coisas . Esperava cartas de Lila. voltei à superfície e ao ar. um som seco e monótono . encorajava-me . ler mais . os últimos dez dias de Julho deram-me uma sensação de bem­ -estar até então desconhecida. Fazia-me grandes pratos . comecei a servir-lhe de intérprete . Esbra­ cejei aterrorizada. às coxas . preparar o pequeno-almoço . nem uma vez só . Só sentia falta de Lila. com um vestido branco às florinhas . ler estendida ao sol . Apercebi-me de que movia instintivamente os pés e os braços de uma certa maneira. Era um receio antigo . descer e subir a estrada para os Maronti . Portanto . sabia nadar. e a perna doente toda enterrada na areia escaldante . sem saber bem o que fazer. Como era possível viver numa cidade como Nápoles e nunca ter pensado . engoli água. Do mar chega­ va-me um odor intenso . enquanto ela fazia os banhos de areia. tínhamos pro­ metido escrever-nos à despedida. se repetiu muito: a alegria do que é novo . Dizia que eu era um palito quando cheguei e agora. Queimei-me . Nella. em ir tomar um banho de mar? Mas era verdade . Pratiquei um pouco de inglês com a família que estava hospedada em casa de Nella. mais nova. dos jardins . não per­ dia a oportunidade de me fazer elogios . eu aprendera.

dando-me até tempo de lhe escrever todos os dias . d e Donato Sarratore . Nella tinha-o sempre na mesa-de-cabeceira. Já os sabia todos de cor. fiquei ansiosa pela chegada desse rapaz . que ele não gostasse de mim. fazia este ano dezassete anos. disse . para poder visitá-los se resolvesse ir a Inglaterra. dormi­ ríamos sob o mesmo tecto . receei que não conseguíssemos dizer duas palavras um ao outro . por ser ajuizada. por ser disciplinada. Era o segundo ano que vinham. em que desceria a estrada para os Maronti com ele . a fazer as camas de lavado . E depois o filho mais velho . até sabes ler em inglês . um verdadeiro cavalheiro que lhe dizia sem­ pre belas palavras . encontrei-a com um livro na mão . pri­ meiro em silêncio e depois em voz alta. estendendo-me o livro . Sobretudo o marido . em que tomaríamos banho . ao passo que a dela era negra mas cheia. desejo de fuga. A dedicatória di­ zia: «À Nella. Não fazia senão pensar nos momentos inten- . antecipação apaixonada do momento em que veria Nino Sarratore . «Vais deixar de estar sozinha» . Só no final de Julho é que Nella me disse que para o lugar dos ingle­ ses chegaria. que é um doce. Assim que os ingleses partiram. um bonito rapaz . Fi-lo com gosto.» 31. a mudar as roupas . alto . disse-me . Páginas e páginas de apreensão . em voz alta. ale­ gria. magro mas robusto . amá­ veis . o meu rio de palavras e o seu silêncio pareciam demonstrar que a minha vida era maravilhosa. deixando-me dois romances para praticar a leitura. e eu envergonhei-me . Escrevi imediatamente a Lila. mas pobre de acontecimentos . Era Expressões de Bonança .A Amiga Genial 1 67 Embora me esforçasse para lhe transmitir nas cartas o privilégio que eram os meus dias em Ischia. Quando voltei para a cozinha. todas as noites lia um poema. e o seu endereço . e enquanto lavava os pavimentos ela gritou-me da cozinha: «Que inteligente que és . muito educadas . e às suas compotas. Pessoas muito finas . uma farm1ia napolitana. que fora escrito por ele . olharíamos para a Lua e para as estrelas . no primeiro dia de Agosto . Não te chegam os livros que trouxeste?» Fartou-se de me elogiar à distância. Disse que lhe fora oferecido pelo senhor que chegava no dia seguinte. por ler todo o dia e também à noite. «Vê o que ele me escreveu» . Nella quis que a ajudasse a encerar os quartos .

1 68 Elena Ferrante

sos em que ele , segurando o irmão pela mão , havia um século - ah ,
quanto tempo passara - , me declarara o seu amor. Éramos duas crian­
ças , então . Agora sentia-me adulta, quase uma velha.
No dia seguinte fui à paragem da camioneta, para ajudar os hóspedes a
trazer as bagagens . Sentia uma grande agitação, não dormira em toda a
noite . A camioneta chegou , parou , e os passageiros saíram. Reconheci
Donato Sarratore , reconheci Lidia, a mulher, reconheci Marisa, apesar de
estar muito mudada, reconheci Clelia sempre à parte, reconheci o peque­
no Pino , que era agora um rapazinho de rosto sério, e calculei que o me­
nino cheio de birras que estava a atormentar a mãe fosse aquele que , a
última vez que eu vira a farm1ia Sarratore completa, ainda ia no carrinho,
sob a chuva de projécteis atirados por Melina. Mas não vi Nino .
Marisa lançou-me os braços ao pescoço , com um entusiasmo que eu
não esperava. Ao longo de todos aqueles anos nunca, mas nunca mais ,
me recordara dela, ao passo que ela disse que pensara muito em mim ,
com saudades . Quando falou nos velhos tempos d o bairro , e disse aos
pais que eu era a filha do Greco , o porteiro , Lidia, a mãe , fez um trejei­
to de desagrado e correu a agarrar o filho pequeno , e a repreendê-lo não
sei porquê , enquanto Donato Sarratore se ocupou das bagagens , sem
uma frase sequer, tipo: como está o teu pai .
Fiquei deprimida. Os Sarratore instalaram-se nos quartos, eu fui à
praia com Marisa, que conhecia muito bem os Maronti e Ischia inteira,
e estava impaciente , queria ir ao Porto , onde havia mais animação , e a
Forio , e a Casamicciola, a toda a parte menos a Barano , que na opinião
dela era uma pasmaceira. Contou-me que estudava para secretária em­
presarial e que tinha um namorado , que eu em breve conheceria porque
ele vinha visitá-la, mas às escondidas . Por fim disse-me uma coisa que
me deu um baque no coração . Sabia tudo a meu respeito , sabia que eu
andava na secundária, que era uma óptima aluna e que namorava com
Gino , o filho do farmacêutico .
«Quem te contou?»
«Ü meu irmão .»
Portanto , Nino reconhecera-me , portanto sabia quem eu era, portanto
não era desatenção , mas talvez timidez , talvez falta de à-vontade , talvez
vergonha por causa da declaração que me fizera em criança.
«Já há tanto tempo que acabei tudo com o Gino» , disse , «O teu irmão
não está bem informado .»
«Só pensa em estudar, aquele , já há muito tempo que me falou em ti;
anda quase sempre com a cabeça nas nuvens.»

A Amiga Genial 1 69

«Ele não vem?»
«Vem quando o pai se for embora.»
Falou-me de Nino de forma muito crítica. Não tinha sentimentos .
Não se entusiasmava com coisa nenhuma, não se irritava mas também
não era simpático . Era metido consigo , a única coisa que o interessava
era o estudo . Nada lhe dava prazer, era de sangue frio . A única pessoa
que mexia um bocado com ele era o pai . Não quer dizer que discutis­
sem, era um filho respeitador e obediente . Mas Marisa sabia bem que
ele não suportava o pai . Ela, por sua vez , adorava-o . Era o homem me­
lhor e mais inteligente do mundo .
«E fica cá muito tempo , o teu pai? Quando se vai embora?» , pergun-
tei-lhe com um interesse talvez excessivo .
«Só três dias . Tem de ir trabalhar.»
«E o Nino chega daqui a três dias?»
«Sim. Inventou que tinha de ajudar a fami1 ia de um amigo a fazer a
mudança.»
«E não é verdade?»
«Ele não tem amigos . E aliás , não deslocaria aquela pedra dali para
aqui , nem pela mãe , a única pessoa a quem quer bem, quanto mais aju­
dar um amigo .»
Tomámos banho e enxugámo-nos passeando à beira da água. A rir,
indicou-me algo em que eu não reparara. Ao fundo do areal escuro
viam-se formas brancas , imóveis . Arrastou-me , a rir, pela areia escal­
dante , e a certo ponto viu-se claramente que eram pessoas . Pessoas vi­
vas cobertas de lama. Era um tratamento que faziam, não se sabia a quê .
Estendemo-nos na areia e rebolámo-nos, empurrando-nos uma à outra,
fingindo que éramos múmias , como aquelas pessoas . Divertimo-nos
muito e depois fomos tomar outro banho .
À noite a fami1ia Sarratore jantou na cozinha, tendo convidado Nella
e eu para lhes fazermos companhia. Foi um serão agradável . Lidia não
fez qualquer referência ao bairro , mas , passada a fase inicial de hostili­
dade , fez perguntas a meu respeito . Quando Marisa lhe disse que eu era
muito estudiosa e andava na mesma escola que Nino , tomou-se mais
amável . Mas o mais simpático de todos foi Donato Sarratore . Cobriu
Nella de elogios, deu-me os parabéns pelos resultados escolares que ti­
ve , dispensou muitas atenções a Lídia, brincou com Ciro , o mais peque­
no , quis ser ele a arrumar tudo , nem me deixou lavar a loiça.
Observei-o com muita atenção e pareceu-me uma pessoa diferente
daquela de que me lembrava. Sim, estava mais magro , deixara crescer

1 70 Elena Ferrante

bigode , mas à parte o aspecto físico havia algo mais que não entendi
bem e que resultava do comportamento . Talvez me tivesse parecido
mais paternal do que o meu pai e de uma cortesia fora do comum.
Essa sensação acentuou-se nos dois dias seguintes . Quando íamos
para a praia, Sarratore não permitia que Lidia nem nós duas , raparigas ,
levássemos nada. Ele é que ia carregado com o guarda-sol , os sacos com
as toalhas e a comida para o almoço , à ida, e a mesma coisa no regresso ,
quando o caminho era todo a subir. Só nos entregava a carga quando
Gianni choramingava e queria que o levassem ao colo . Tinha um corpo
seco , com poucos pêlos . Usava um fato de banho de cor incerta, não de
tecido , parecia de lã fina. Nadava muito mas sem se afastar, queria mos­
trar a mim e a Marisa como era o estilo livre . A filha nadava como ele ,
com as mesmas braçadas cuidadosas , lentas , e eu comecei a imitá-los .
Exprimia-se mais em italiano do que em dialecto e tendia, com uma
certa insistência, principalmente comigo , para compor frases complica­
das e perífrases fora do comum. Convidava-nos animadamente , a mim ,
Lidia e Marisa, para corrermos para c á e para lá com ele , junto à reben­
tação , para tonificar os músculos , e entretanto fazia-nos rir, com caretas ,
vozes desafinadas , passadas cómicas . Quando tomava banho com a
mulher, boiavam abraçados , falavam em voz baixa, riam muito . No dia
em que se foi embora fiquei triste , como Marisa ficou triste , como Lidia
ficou triste e como Nella ficou triste . A casa, apesar de ecoar as nossas
vozes , parecia tão silenciosa como um túmulo . A única consolação foi
que finalmente chegaria Nino .

32 .

Experimentei sugerir a Marisa que o fôssemos esperar ao porto , mas
ela recusou , disse que o irmão não merecia essas atenções . Nino chegou
à noite . Alto , muito magro , camisa azul, calças escuras , sandálias , um
saco ao ombro , não mostrou a mínima emoção por me encontrar em
Ischia, naquela casa, cheguei a pensar que tivessem telefone em Nápo­
les , que Marisa o tivesse de algum modo informado . À mesa expressou­
-se por monossílabos , ao pequeno-almoço não apareceu . Acordou tarde ,
fomos tarde para a praia, pouco ou nada levou . Mergulhou imediata­
mente , com decisão , sem o virtuosismo exibicionista do pai , com natu­
ralidade . Desapareceu , receei que se tivesse afogado , mas nem Marisa
nem Lidia se preocuparam. Reapareceu quase duas horas depois , pôs-se

A Amiga Genial 171

a ler e a fumar cigarro atrás de cigarro . Leu todo o dia, sem nunca nos
dirigir a palavra, e dispondo as beatas apagadas na areia, em filas de
duas . Também eu me pus a ler, recusando o convite de Marisa para
passear ao longo da rebentação . Ao jantar comeu à pressa e saiu . Levan­
tei a mesa e lavei a loiça, pensando nele . Fiz a cama na cozinha e pus­
-me de novo a ler, à espera que ele voltasse . Li até quase à uma e depois
deixei-me dormir com a luz acesa e o livro aberto sobre o peito . De
manhã acordei com a luz apagada e o livro fechado . Pensei que teria
sido ele e senti uma onda de amor nas veias , que nunca sentira.
Passados alguns dias as coisas melhoraram. Reparei que de vez em
quando olhava para mim , e depois desviava os olhos . Perguntei-lhe o
que estava a ler e disse-lhe o que eu estava a ler. Falámos das nossas
leituras , enfastiando Marisa. A princípio pareceu ouvir-me com atenção ,
mas depois , tal como Lila, começou a tomar as rédeas da conversa e
prosseguiu , cada vez mais preso aos seus raciocínios . Como queria que
ele se apercebesse da minha inteligência, tentava interrompê-lo , argu­
mentar, mas era difícil . Só parecia satisfeito com a minha presença se
eu ficasse em silêncio a ouvi-lo , o que depressa me resignei a fazer. Até
porque ele dizia coisas que eu me sentia incapaz de pensar, ou pelo
menos de dizer com a mesma segurança, e dizia-as num italiano forte ,
cativante .
Marisa às vezes atirava-nos bolas de areia, outras vezes começava a
gritar: «Acabem com isso , estou-me lixando para esse Dostoievski ,
estou-me nas tintas para os Irmãos Karamazov.» Então Nino interrompia­
-se bruscamente e afastava-se pela beira da água de cabeça baixa, até se
transformar num pontinho . Eu passava um bocado com Marisa a falar
do seu namorado , que afinal não podia vir vê-la em segredo , o que a
fazia chorar. Entretanto , sentia-me cada vez melhor, nem podia crer que
a minha vida pudesse ser assim. Talvez , pensava, as raparigas da Via dei
Mille - aquela toda vestida de verde , por exemplo - tivessem uma
vida como aquela.
De três em três ou de quatro em quatro dias , Donato Sarratore volta­
va, mas ficava no máximo vinte e quatro horas , e partia . Dizia que não
pensava em mais nada senão no dia 1 3 de Agosto , quando se instalaria
em Barano durante duas semanas seguidas . Assim que o pai aparecia,
Nino tornava-se uma sombra. Comia, desaparecia, reaparecia alta noite
e não pronunciava uma palavra. Ouvia o pai com uma espécie de sorri­
zinho tolerante , e nunca mostrava concordar nem opor-se a qualquer
coisa que ele dissesse . Só dava alguma opinião decisiva e explícita

1 72 Elena Ferrante

quando Donato mencionava o almejado 1 3 de Agosto . Então , passados
dois minutos , recordava à mãe - à mãe , não a Donato - que a seguir
ao feriado de 15 de Agosto tinha de regressar a Nápoles porque combi­
nara encontrar-se com alguns colegas de escola (planeavam reunir-se
numa casa de campo em Avellino) , e também para começar a fazer os
trabalhos de casa das férias . «É mentira» , sussurrava-me Marisa, «não
tem trabalhos de casa nenhuns .» Mas a mãe elogiava-o , e o pai também.
Aliás , Donato começava logo com um dos seus argumentos preferidos:
Nino tinha muita sorte em estudar; ele só pudera frequentar até ao se­
gundo ano da escola industrial , depois teve de ir trabalhar; mas se tives­
se podido fazer os mesmos estudos que o filho , sabe-se lá até onde teria
chegado . E concluía: «Estuda, Ninu , anda, ouve o que o pai diz , e faz o
que eu não consegui fazer.»
Aquele tom incomodava-o mais do que qualquer outra coisa. Por
vezes , só para o evitar, chegava a convidar as duas , eu e Marisa, para
sairmos com ele . Dizia em voz baixa aos pais, como se nós não fizésse­
mos senão atormentá-lo: «Querem ir comer um gelado , querem dar uma
voltinha, eu acompanho-as .»
Nessas ocasiões Marisa ia a correr preparar-se , toda contente , e eu
lamentava-me porque tinha sempre os mesmos trapos para vestir. Mas
parecia-me que pouco lhe importava que eu estivesse bonita ou feia.
Assim que saíamos de casa ele começava a falar, Marisa sentia-se con­
trariada, dizia que melhor seria ter ficado em casa. Eu , pelo contrário ,
estava suspensa das palavras de Nino . Admirava-me muito que , na
agitação do Porto , entre jovens e menos jovens que olhavam intencio­
nalmente para mim e para Marisa, e se riam, e tentavam meter conversa,
ele não mostrasse nem um traço daquela disposição para a violência que
existia em Pasquale , Rino , Antonio e Enzo , quando saíam connosco e
alguém nos deitava um olhar a mais. Como nosso guarda-costas , de
pouco valia. Talvez por estar absorvido pelas coisas que lhe passavam
pela cabeça, pela mania de me falar delas , deixava que à nossa volta
acontecesse de tudo .
Foi assim que Marisa fez amizade com uns rapazes de Forio , que a
vieram visitar a Barano , e ela levou-os connosco para a praia dos Ma­
ronti , e por isso passámos a sair todas as noites . Íamos os três até ao
Porto , mas , uma vez lá chegados , ela ia-se embora com os novos amigos
(quando é que Pasquale seria tão liberal com Carmela, ou Antonio com
Ada?) , e nós passeávamos ao longo do mar. Depois encontrávamo-nos
por volta das dez e voltávamos para casa.

» «Gostava imenso de ti . ela não me respondia.» «Pensava eu que seríamos noivos e ficaríamos os três juntos para sempre . quando ficámos sós . . e gostaria de ter feito amizade connosco .A Amiga Genial 173 Uma noite . Ficava ansiosa quando o perdia de vista. mas faltara-lhe sempre a coragem. Mas quando ele se afastava para o largo não me sentia capaz de o acompa­ nhar. sempre juntas . Resumindo .» Depois perguntou-me por Lila. na escola?» Felizmente consegui conter-me .» «E faz o quê?» «Ajuda os pais. Nino disse-me sem mais nem me­ nos que invejara desde miúdo a relação que havia entre mim e Lila. «Não percebia nada de noivados . e se antes ficara decep- cionada por ele ter dito que a declaração de amor fora só uma tentativa para se introduzir na minha relação com Lila. ninguém conseguia apanhá-la. Sabia que ele acordava tarde e inventava todo o género de desculpas para não tomar o pequeno­ -almoço com os outros . Voltava para a zona de rebentação e observava com apreensão o rasto que ele deixava. De qualquer maneira. senti realmente uma dor no peito . Dediquei a minha atenção a Nino . tornou-se difícil contar a Lila o que me estava a acontecer. e feliz quando o via regressar. disse . tomávamos banho juntos . sempre a conversar. Esperava por ele . Porém . de­ pois daquela conversa.» E senti o impulso de acrescentar: «Ouviste o que os professores di­ zem de mim. Depois sorriu e disse: «Lembras-te da declaração que eu te fiz?» «Sim. o pontinho escuro da cabeça.» «Era óptima. e deixei de lhe escrever. toldava-me a cabeça. amava-o e sabia que o amava e sentia-me contente por amá-lo . preparava-lhe as coisas e levava-lhas . «Continuou a estudar?» «Não .» Disse mesmo assim (toldava-me a cabeça) . ia com ele para a praia. sussurrei estupidamente: «Obrigada.» «Juntos?» Riu-se de como era em criança. desta vez sofri de forma evidente . Via-nos de longe . «Ela mudou» . «já não é assim . eu .» Fiquei toda afogueada. tu e a tua amiga.

a pessoa de quem eu gostava e que queria que gostasse de mim não mostrava interesse ne­ nhum pela minha pessoa. julga que tudo lhe é perdoado . traindo o outro namorado de Nápoles . Trata os filhos com dedicação . que destino? Pensei no bairro como uma voragem da qual era uma ilusão tentar sair.» «É um homem simpático . Que signos eram os meus. já não tinha furúnculos.» «Toda a gente diz isso . preferia ir passear até aos Maronti . Não se via vivalma e pus-me a chorar de solidão . contava-me ela. renunciando a acompanhar a irmã. Depois senti a areia ranger e vi a sombra de Nino . naqueles dias de conversas cerradas . mas caçou-a na mesma. No bairro podiam acontecer coisas terrí­ veis . como se se tratasse de uma missão . que durante uns segundos o desfeou . Uma noite disse-lhe que não queria ir ao Porto . Eu tivera o cuidado de nunca falar em Melina. onde tinha agora uma espécie de namorado com o qual .» «Ele foi amante dela. o mar mal se mexia. Sentou-se a meu lado . Vai à missa todos os domingos. e agora ele perguntava por ela. «Dedicarei a minha vida» . Faria mal a qualquer pessoa por vaidade .» Não soube o que dizer-lhe . de repente come­ çou a falar do pai . eis porque falava tanto dos Karamazov. Mas ele foi com Marisa. disse . É um hipócrita. o sol e o mar tinham-me tornado mais esbelta. como Rino e Fernando . O que era eu . a Lua estava cheia. Mas a questão não era . trocava beijos e abra­ ços . «a tentar não me parecer com ele . por pura vaidade . Mas a violência daquelas poucas frases cons­ truídas com cuidado fez-me mal . e sem se sentir responsável . Eu . «Como está a Melina ?» Olhei-o estupefacta. Mas trai-a constantemente . Esperava que ele viesse comigo .1 74 Elena Ferrante Mas entretanto o feriado de Agosto ia-se aproximando . no entanto . Como está convencido de que faz toda a gente feliz . que insistia em ir ao Porto . negro-acinzentada à luz do luar. quem era? Sentia-me de novo bonita. mete-me nojo. desci a estrada pedregosa que ia para a praia. Nino odiava o pai com todas as suas forças . pais e filhos chegavam muitas vezes a vias de facto . Desfaz-se em atenções com a minha mãe . Tinha de ir buscar a irmã dali a uma hora.» «E então?» Fez uma careta sarcástica. Sabia muito bem que ela era uma mulher frágil . Notei que estava nervoso . Não falou de livros . por exemplo . batia na areia com o calcanhar esquerdo . A areia estava fria. por uma questão de princípio . «Mais ou menos.

mas ele já ia ao largo . murmurei e dei-lhe o braço . aquele tom acu­ sador. aquelas frases implacáveis . até do meu pai . À noite . era o pai que qualquer rapariga ou rapaz gostaria de ter. O que me perturbou profundamente foi que Donato Sarratore .» «Jurou fidelidade perante Deus» . se o seu peca­ do era a capacidade de amar. Murmurei: «Ele e Melina foram levados pela paixão . a mãe morrera havia pouco . E pensa em Ascânio . e o meu pranto alimentava-se a si próprio . Adormeci ao alvorecer.» Não respondeu . «Nem sequer tu me compreendes» . com o coração aos saltos. o contacto queimou-me os dedos . Quando arrumei os quartos encontrei um marca­ dor de livros de cartolina azul que pertencia a Nino e escondi-o entre as minhas coisas . um beijo muito leve . Ele inclinou-se e beijou-me os lábios. na es­ perança de chegar antes de o barco partir. ela notou que eu estava a sofrer. por aquilo que vira com os meus olhos e ouvira com os meus ouvidos . «Vai lá» . e afas­ tou-se em passos largos . Por isso . Alcancei-o . suavemente . pareceram-me terríveis . Vesti-me à pressa. muito agitado . Chorei toda a noite. «Vou-me embora amanhã» . Além disso . na cozinha silenciosa.» E deu um salto . para não me incomodar. depois fo­ mos buscar Marisa ao Porto . na cozinha.A Amiga Genial 1 75 essa. . 33 . «talvez ainda vás a tempo . São coisas que nos caem mal . exclamou em tom brusco . com os lindos olhos a luzir. o pai devia estar de luto . «Não tem respeito por ela nem por Deus. como Dido e Eneias . disse que Nino quisera tomar o pequeno-almoço no terraço . eu não via nisso nada de particularmente mau. Passei dias difíceis. disse . disse . Nella veio acordar-me e repreendeu-me . Sentia a boca dele na minha. e de facto Marisa adorava-o . Pensei que nem da minha mãe eu falaria assim. permitiu­ -me finalmente . «Mas o dia 1 3 é depois de amanhã. «Eu compreendo-te» . lambia-o com a ponta da língua e chorava. beijava-o . cheirava-o . já na cama. Já se fora embora. A minha paixão desesperada comovia-me . Nunca nos tínhamos tocado . a minha mãe dizia com raiva que sabia-se lá o que ele por aí pintava. não tinha nada de tão repelente . mas são também muito comoventes . lar- guei-o logo .» Corri até ao Porto . Regressámos a Barano falando de livros .

que adora o aspecto das coisas e das pessoas e está sem­ pre a sorrir-lhes .1 76 Elena Ferrante Depois chegou Donato Sarratore e começaram os seus quinze dias de férias . como calculo que o teu pai tenha orgulho em ti . que vêem para além das coisas e das pessoas e parecem assustar-se. e sabem sempre o que está certo e o que está errado . tem um rosto · delicado . Alguns começaram a dançar. E se estiverem enga­ nados? O que tem de tão terrível Marcello Solara. a fronte enterrada sob os cabelos negros . tinha uma bonita voz . Lamentou que o filho já se tivesse ido embora. não . como se cada segundo vivido fosse de uma limpidez total . Tenho orgulho nele . o que é um dom e um sofrimento . os traços do rosto são vincados . pensei . por sua vez. De repente senti- -me contente por nenhum dos dois estar presente na ilha. . e ficou lá connosco até tarde . como Lila. Olhava para aquele homem e pensava: ele e o filho não têm absoluta­ mente nada em comum. improvisou algumas músicas de dança. Nino tem qualquer coisa a roê-lo por dentro . O rapaz com quem Marisa namoriscava arranhava a guitarra e Donato cantou .apercebi-me disso com espanto . Gostava de ambos . com lábios convidativos. mas estava grata àquele pai odiado que dava importância a mim e aos outros jovens . Ela e Nino mal se conhecem. o que tem de tão ter­ rível Donato Sarratore? Eu não percebia. Marisa foi a primeira. depois de um beijo quase impercep­ tível . disse-me . Nino é alto . não se entregam. tem grandes entradas no cabelo e a boca apertada. nunca se relacionaram. mas ficou conten­ te por ele ir encontrar-se com os colegas em Avellino para estudar. receiam aquilo que se passa em volta deles. parece apreciar todas as manifestações da vida. mas também . por não responder às minhas cartas . A partir daquela noite o pai de Nino pareceu-me um remédio sólido . a boca sempre entreaberta.» A presença daquele homem transmitia segurança e acalmou-me . é de estatura média. «É um rapaz realmente sério» .para a escuri­ dão em que Lila me mergulhara. nunca estão contentes . e agora sentia falta deles de maneiras diferentes . mas agora pa­ recem-me muito semelhantes: não precisam de nada nem de ninguém. este homem. quase sem lábios . proporcionava­ -nos alegria e tranquilidade naquela noite nos Maronti . Quis conhecer os novos amigos de Marisa. convidou-os uma noite para faze­ rem uma grande fogueira na praia. Donato tem um olhar receptivo . Quando a noite já ia alta pôs-se também a tocar. Nino olha tudo com olhos pensativos . Donato . Ele próprio se encarregou de juntar toda a lenha que conseguiu encontrar. não apenas contra o escuro para onde me atirara o filho ao ir-se embora. e tocava bem. «como tu .

disse . que gostava muito de mim e que só comigo não fazia birras . elogiava muito a precisão com que eu fazia tudo: pôr a mesa. uma vez que nunca me tinha respondido . Não trouxera nenhum e nunca se interessara pelos meus. e pediu a minha concordância com o olhar. «Vê quem o escreveu.acharam que me ficava muito bem . Uma vez leu-me um artigo inteiro .A Amiga Genial 1 77 Recomecei a ler. Mas eu ficava calada. perguntou-me: «Gostaste?» Era um artigo sobre a velocidade da viagem de comboio . e como Nella e Sarratore . não voltaria a escrever-lhe . brincava calmamente . de caleche ou a pé . e estragar a enorme esti­ ma que tinha por mim. e Lidia res­ pondia-lhe com um sorriso cúmplice . e a cada duas linhas voltava-se para Lidia a sorrir. Li . abraça- . de Pinuc­ cio e do pequeno Ciro . emocio­ nada: «Donato Sarratore . entreter o menino . o Roma . Depois dos seus demorados banhos . enquanto eles tomavam banho da forma habitual . por caminhos campestres . Uma manhã fez-me experimentar um vestido de praia que lhe ficava aperta­ do . ao ouvir aque­ las críticas . acrescentou uma vez . senti-me irmã de Marisa.» Mas . Liguei-me mais à farm1ia Sarratore .» Lídia desatou a rir. Quando acabou . Donato reagiu e começou a gabar o filho mais velho . escrevi uma última carta a Lila em que lhe dizia que . muito» . respondi . Eu achava estranho que uma pessoa que escrevia poemas . ler e estudar. e eu fiz sinal que sim com grande convicção . ao passo que tu fazes tudo com muito juízo . o que lês aqui?» Chegou-se para mim e pôs-me o jornal diante dos olhos . eduquei-a mal . arrumar os quartos. «Sim. do princípio ao fim . Em certos momentos até parecia apreciar-me mais do que à filha. e ele também . «SÓ que tu és bem-disposta e ele está sempre nervoso . lavar a loiça.chamado de urgência para dar uma opinião . não me parecia bem pôr-me a discutir com uma pessoa tão amável . vaidosa. em contras­ te com a da viagem de outros tempos . íamos os dois apanhar conchas . a única coisa que lia. Deixaram-me na areia a tomar conta de Ciro . Dizia: «É man­ driona.» «Tal e qual como o Nino» . Li­ dia. palavras e frases que teriam enfurecido Pasquale e certamente tam­ bém a professora Galiani . que até os publicara. «É uma jóia de rapaz» . ofereceu-mo . cuja hostilidade inicial para comigo se transformara em simpatia e afecto . não estuda. Estava escrito com frases pomposas que ele lia com ênfase . Por vezes lia-me em voz alta uma passagem de algum arti­ go . Donato estendia-se a meu lado a secar ao sol e a ler o jornal . nunca abrisse um livro.

Ho­ je pode parecer estranho . mas . quando aquele período extraordinário estava prestes a terminar. Fui lá abaixo a correr. com o afecto de que me sentia rodeada. Conhecera a alegria do amor por aquele homem acima do vulgar: era revisor nos comboios . Era uma carta de Lila? De Nino? Era de Lila. pobre Melina. lembro-me perfeitamente porque era o dia do meu aniversário. veio-me à . impressionou-me o facto de a escrita conter a voz de Lila. Assomei-me à janela e o carteiro disse que havia uma carta endere­ çada a Greco . mas também era poeta. em finais de Agosto . com a minha tristeza. mas não percebi quase nada do que li . Comprazia-me com estes pensamentos . que Sarratore traía Lidia. rodeada de tantas emoções . mas sem guardar rancor a Sarratore . mas passou-se mesmo assim. Estava contente com tudo . de cho­ fre . Excluía a hipótese de os meus pais me terem escrito . mesmo admitindo . preparei o pequeno-almoço para todos.178 Elena Ferrante dos um ao outro e falando-se ao ouvido . com o coração aos saltos. com a minha capacidade de ler. na­ queles dias . Levantei-me . Mesmo admitindo que Nino tivesse razão e que de facto tivesse havido alguma coisa entre eles. mais ainda do que no passado . Depois . 34 . e jornalista. reflectir em solidão . Fiquei contente . e quando pronun­ ciei essas palavras veio-me à lembrança que Lila os fizera no dia 1 1 . no mesmo dia. tanto mais que a própria mulher não parecia considerá-lo culpado .. Lá dentro vinham cinco folhas bem cheias . Desde as primeiras linhas . embora naquela altura o tivesse forçado a abandonar o bairro . e nisto . agora que o conhecia tão bem não conseguia considerá­ -lo culpado . os Sarrato­ re e Nella insistiram que se fizesse uma pequena festa ao serão . pensar. Eles foram preparar-se para ir para a praia. Quanto a Melina. vamos lá. chegou o carteiro . não me recordara. que eu devorei . Ainda antes de ficar transtornada pelo conteúdo . também a compreendia. Olhei para eles e pensei . Embora segundo os nossos costumes se festejasse sobretudo o santo do nosso nome . Estávamos a 25 . eu comecei a arru­ mar a cozinha. A mente frágil de Melina nunca mais conseguira adaptar-se à normalidade grosseira da sua vida sem ele . aconteceram duas coisas importantes . Rasguei o sobrescrito . E não só . e à mesa disse: «Hoje faço quinze anos» .os aniversários nesse tempo eram considerados irrelevantes . com o meu amor por Nino .

e compreendi o que é que naquela época distante me agradara tanto . Da caixa saiu um objecto de que todos tínhamos conhecimento . ao contrário até de muitos escritores que eu lera e ainda lia. Eu lia. por me dar bem com os Sarratore . das frivolidades . todo suado . aos quinze anos. Sabe-se lá o que Lila pensara de mim. decidira surpreendê-la. e não queria estragar-me as férias com as suas histórias desagradáveis . Depois . foram chegando também os conteúdos . Senti desprezo e rancor pelo professor Gerace . A sua voz era como um fluxo que me arrebatava e me fascinava como quando conversávamos uma com a outra. que me iludira ao dar-me nove em Italiano . apesar de ela não ter estudado mais. Ainda não me escrevera porque sentia-se contente por eu passar o tempo ao sol . açúcar. da confusão do discurso oral.além disso . da alegria fingida. e a prova estava ali . mas que no bairro muito poucos . não se sentia o artifício da palavra escrita. Passada a primeira semana daquele suplício . e ele olhava para ela em silên­ cio . ao contrário de Sarratore nos seus artigos e nos poemas . no en­ tanto estava perfeitamente depurada das escórias da linguagem colo­ quial . Ela não tocava em nada. Lila sabia falar através da escrita. e sem um erro . que depositou na sala de jantar uma caixa de cartão enorme . café . Mas agora sentira necessidade de quebrar o silêncio . por amar Nino .A Amiga Genial 1 79 lembrança A Fada Azul. ao contrário de mim quando escrevia. comigo . Lila mandava-me os parabéns pelo meu aniversário . com o consentimento de Fernando . Apresentara-se de manhã na companhia de um tipo corpulento . Aquela carta teve como primeiro efeito fazer-me sen­ tir. começara a apresentar-se para jantar todas as noites . A qualidade que existia em A Fada Azul era a mesma que me estava a impressionar agora. mas . por gostar tanto de Ischia e da praia dos Maronti . sem contar com os trabalhinhos da escola primária. A esco­ la. não lhe dava confiança nenhuma. uma vez que Lila fazia de conta que ele não estava lá. Trazia sempre qualquer coisa: bolos. Logo depois da minha partida. se tivesse tido a felicidade de nascer da cabeça de Zeus e não dos Greco ou dos Cerullo .não deixava qualquer sinal de falta de natu­ ralidade . Marcello Solara. bombons . dos tons excessivos . o único texto dela que eu lera antes daquele. Che­ gava às oito e meia e ia-se embora às dez e meia em ponto . ela exprimia-se através de fra­ ses tão bem construídas . uma impostora. possuía a viva ordem que eu imagi­ nava que o discurso apresentaria. pouco a pouco . Envergonhei-me das páginas infantis que lhe escrevera. e ao mesmo tempo via-a e ouvia-a. tinha feito passar gato por lebre . na carta de Lila. no dia do meu aniversário . da dor falsa.

porque não era simpática para Solara. ao passo que ela se preparava para um casamento que faria dela uma senhora. era realmente um bom arranjinho . mato-te e pronto .1 80 Elena Ferrante tinham em casa: um televisor. ou melhor. mas deixara de falar com Marcello . e ainda as raivas de Marcello . e que no interior tinha um tubo misterioso que se chamava cátodo . dizia que adorava a televisão . Marcello . Por causa desse tubo . isto é . no qual se viam imagens . dizia de modo obscuro: o mal e o bem estão misturados e fortalecem-se mutuamente . Gostava sobretudo de vê-la com Melina. o arreliava. Rino andava por fora e os pais estavam-se a deitar. Nas últimas páginas dizia que sentia à sua volta todo o mal do bairro . Estava melhor. não . não me limito a ameaçar-te . e continuava a trazer a arma consigo para qualquer emergência. a sério: «Tu gozas comigo . Era o único momento de paz. se sentia cada vez mais noivo. mencionado constantemente pelo homem corpulento e suado . a televisão estava apagada. Após várias tentativas . Ela encontra­ va-se sozinha na cozinha. Como ela não lhe respondia. Rino . o aparelho não funcio­ nara durante dias . as raivas de Fernando e de Nunzia. por tê-lo abandonado ao seu destino de escravo do pai . um aparelho com um écran . seu dono . se eu sei que gostas de outro . todas as raivas se descarregavam em cima dela: as raivas do irmão . Aliás . se tivera outros namorados . a febre passara-lhe por completo . ele começava a dizer mal da televisão . Mas andava aterrorizada. mas lembras-te de quando me ameaçaste com o trinchete? Pois bem. e agora meio bairro . ou ia para a cama sem jantar. e sentia-se cansada. então . Marcello tinha-se ido embora. para dizer a verdade . falando de beijos e abraços de namorados inexistentes . Al­ gumas noites antes acontecera-lhe uma coisa que lhe metera realmente medo . mas o bom sa­ bia a mau e o mau sabia a bom. se algum lhe tocara nem que fosse só com um dedo . ou então andava a vadiar até alta noite com Pasquale e Antonio . quem encontrava. a casa vazia. a lavar a loiça. pior ainda. e pouco depois . a perguntas desconfiadas sobre os lugares onde ela ia durante o dia. sem forças . que . o meu pai e os meus irmãos . ficara em condições . ou . ele uma noite dissera-lhe ao ouvido . exactamente como no cinema. que comparecia todas as noites e se sentava em silêncio .» De modo que ela não sabia como sair daquela situação . tratava-o com sete pedras na mão. Lila. Quanto ao resto . e tendia a passar da devoção silenciosa a tentativas de a beijar. Quando este aparecia. mas que não vi­ nham de um projector e sim pelo ar. uma amálgama que lhe tirava o ar. apesar de ela não o ter aceitado . lembra-te bem disto . incluindo a minha mãe . muito concentrada. iam a casa dos Cerullo ver aquele milagre .

«que me assusta. claro e ao mesmo tempo coloquial . não consegui responder-lhe .» Despedia-se . senão . voltei a escrevê-la. O mundo de Lila. E sinto que tenho de encontrar uma solução . sozinha. quando de repente s e ouviu u m estoiro . tudo . aquela escrevi-a. A mãe aparecera a correr. Mais do que o Marcello . Mas o ódio de Nino pelo pai . apesar de me ter privado do mar. Estava pendura­ da no prego onde normalmente se encontrava. e. com Lidia. parte-se tudo . mesmo que caia. Mas uma panela de cobre . embora desejasse o contrário . Mas se as outras cartas me tinham saído com facilidade . mais do que seja quem for.enchia páginas e páginas em poucos minutos. Feliz- . com Marisa. mas ao centro tinha um grande rasgão . 35 . e escrevi-a de novo mais uma vez . com Pino . veio fazer-me companhia no terraço e trouxe-me uma orchata. como se já não pudesse conservar o seu as­ pecto de panela. vindo do lado dos ta­ chos de cobre . na carta parecia um pai de fanu1ia banal . Felizmente que Nella. que na realidade era um homem notável . sem nunca as corrigir .. repetia os parabéns . Não fui à praia. Tudo aquilo que eu lhe dissera por carta em Julho e Agosto pareceu-me banal . em­ bora não visse a hora de eu regressar. Sem mais nem menos. tudo . uma coisa após outra. porque ela tinha televisão em casa e eu não . E no respeitante a Marcello só consegui dar-lhe conselhos superficiais. com os bordos levantados e retorcidos . Resumindo . esperava que eu pudesse ficar em Ischia com a simpá­ tica dona Nella e nunca mais voltar para o bairro . com Sarratore . embora precisasse urgentemente da minha ajuda. do sol . e culpara-a de a ter deixado cair e de a ter destruído . A carta perturbou-me muito . não me saíram bem.A Amiga Genial 181 mesmo . do prazer de estar com Ciro . A única coisa que parecia de facto verdadeira era a minha decepção . depressa se sobrepôs ao meu . a certa altura. senti um frenesim de me redimir. «É este tipo de coisas» . que tivesse o tom essencial . e o peso que o caso com Melina tivera para que aquele horrível sentimento nascesse . da dela. em camisa de noite . como era costume . com Clelia. concluía Lila. Lila virou-se de chofre e viu que a panela grande de cobre tinha explodido . não se parte e não se deforma daquela maneira. e a própria pane­ la estava toda deformada. A descrição da relação com a fanu1ia Sarratore pareceu-me desprovida de interesse: Donato . tentei responder-lhe imediatamente com uma carta sé­ ria.

Nella disse-me que . metida em sarilhos . no máximo» . Disse .1 82 Elena Ferrante mente que . situara o esguicho de sangue que espirrou do pescoço de dom Achille há cinco anos . e Lidia dizer que Ciro ia sofrer com isso . fazendo explodir uma delas como se fosse um sinal . Marisa ajudou-me a lavar a loiça. As pa­ nelas brilhavam. de repente . na noite anterior. Na verdade . não por acaso . tentei reler à luz ténue a carta da minha amiga. tivesse resolvido ceder. e Lidia e Donato foram deitá-los . Depois Pino e Ciro começaram a dormitar. Nelas . Protestei . ela levantava-se para preparar o pequeno almoço . mas não conseguia esquecer Lila. o tecto exercia um peso opres- . se eu quisesse descansar mais um pouco . e por isso pensava ir-me embora antes do previsto . e ouvir Sarratore exclamar. a mesa dava estalidos . enquanto eu estava tão bem e era tão felicitada. A escrita de q1a era muito sugestiva. Um a um. se havia melgas . Tu­ do coisas que me comoveram e tomaram a minha festa de anos ainda mais feliz . Beijei o marcador como fazia todas as noites . a angústia causada pela decisão difícil que tinha de tomar. deixar que eles se contorcessem em uníssono com a minha vida? Apaguei a luz . Sabia eu imaginar aque­ las coisas sem ela? Seria capaz de dar uma vida a cada objecto . e fiquei só . para ver se havia baratas . isso era tarefa minha. olhei para as panelas com cres­ cente inquietação . Lembrei-me do gosto que ela tinha em vê-las brilhar. que recebera uma carta de uma amiga. todos se retiraram. O meu olhar en­ controu as panelas de cobre . «Depois de amanhã. que essa amiga precisava de mim. quando foi apunhalado . como se a sua forma. Despi-me e meti-me na cama com a carta de Lila e o marcador de livros em tom pastel de Nino . Fiz a minha caminha no canto habitual e analisei a situação . quando voltaram da praia. mas com pouca convicção . Acalmei-me . de modo um pouco dramático . Lidia quis fazer um bolo coberto de creme pasteleiro . desolado: «E como vamos nós passar sem ti?» . quando as lavava areava-as com muito cuidado . Marisa ofereceu-me um cavalo-marinho de estopa que comprara para si no Porto . e ver Marisa contrariada. Nelas centrara agora aquela sen­ sação de ameaça. Donato começou a cantar canções napolitanas . os Sarratore se queixaram de eu ter ficado em casa e recomeçaram a festejar o meu aniversário . disse-o só para ouvir Nella dizer que tinha muita pena. Nella abriu uma garrafa de vermute. as coisas mais preciosas que tinha naque­ le momento . anunciei . Pela janela chovia a luz branca da Lua.

desfiz a cama. afastou a mão . encheu um copo de água. Por muito estranho que hoje possa parecer. Eu não disse nada.A Amiga Genial 1 83 sivo . beijou-me na boca sem a suavidade do filho . da pressão da sua mão . das suas carícias . Ficou uns segundos parado em frente do lava-loiça. fica. enevoaram-se-me os olhos . por aquilo a que ela sabia dar forma e eu não . «Amanhã à noite vamos dar um belo passeio pela praia. disse . dirigiu-se para a minha cama. O bigode picava-me o lábio superior. procurou-me o peito com a mão e acariciou-mo sob a camisa. debruçando-se . Cobri-me com o lençol . senti-lo em mim surpreendeu-me . pelo prazer que me ficara no corpo . Por mais que tentasse afastar a sen­ sação da sua língua. escrevi duas linhas de agradecimen­ to a Nella e fui-me embora. até àquela noite nunca dera prazer a mim própria. saí do torpor. mas essa felicidade tomava-me culposamente infeliz . Vi a sombra de Sarratore entrar na cozinha. e. com pai­ xão . Ele roçou-me de novo os lábios com os lábios . sim. um pouco rouco . . Acocorou­ -se ao meu lado . «Sei que estás acordada» . guar­ dei as minhas coisas . levantou-se e saiu da cozinha. bebeu. Não é verdade?» Eu não disse nada. pelo prazer que todavia sentia. Fiquei imóvel . Devagar. à primeira claridade . Nisto . sem os livros da biblioteca.» «Ela tem problemas . Nino tentara avisar-me . des­ calço . por ela ser tão competente mesmo sem escola. com o seu pijama azul . a língua era áspera. disse . não sei durante quanto tempo . Senti-me de novo humilhada pela capacidade de escrever de Lila. tanto quan­ to me lembrava.» «Eu é que preciso de ti» . largou-me a boca. Eu continuei imó­ vel . Fiquei naquela posição não sei quantas horas . não con­ seguia. sabia que iria acontecer? Senti um ódio irreprimível por Donato Sarratore e asco por mim. senti passos . dos lados vinha a pressão do ar nocturno e do mar. estava aterrorizada por aquele comportamento . pela aversão que me causava. forçando-me os lábios com a língua. não fiz nada. pressionou dois dedos com força sobre as cuecas . «quero-te muito e sei que tu também me queres . disse . Ele foi à torneira. não o conhecia. com os cotovelos apoiados na dobra do lençol . Ele afastou o lençol continuando a beijar-me com cuidado . «Sim. Depois . Depois largou-o . desceu a mão por entre as minhas pernas . precisa de mim.» «Não penses na tua amiga. murmurou boa noite . eu e tu» . Sentia-me fe­ liz. pousou o copo .

a minha transformação parecia-me própria do ambien­ te. o mar parado . disseram com um certo desprezo: «Pareces uma negra. sem dizer uma palavra sobre o meu aspecto . só os odores eram in­ tensos . Na verdade . pareciam pintados de ouro escuro . com as suas cores ténues das primeiras horas da manhã.1 84 Elena Ferrante A ilha estava quase silenciosa. a que Lila não poderia contrapor nada de tão memo­ rável . e a ilha. as pernas . perguntou . como as dos jornais. apanhei o primeiro barco a sair da ilha. é esta a primeira vez que procuro as palavras para aquele fim inesperado das minhas férias . A mi­ nha mãe . Era a mesma. quase uma anomalia. Encontrei Nápoles imersa numa canícula podre e malcheirosa. até fiquei atrapalhada com todo aquele afecto tão explícito. Mas soube imediatamente que a repugnância que sentia por Sar­ ratore e o asco que tinha por mim me impediriam de abrir a boca. que linda filha que eu tenho ! » Quanto aos meus ir­ mãos. fui procurar Lila. uma vez reintegrada no contexto do bairro . preta do sol . sempre entre caras queimadas . Quando ele se pôs em movimento . pensei que finalmente tinha alguma coisa para contar. mas o rosto . os braços . mas em pouco mais de um mês transformara­ -se . «0 que fizeste?» . Com o dinheiro à conta que a minha mãe me entregara havia mais de um mês . os prédios . Assim que pude. dezoito anos . uma mulher de . As pessoas . 36. pareceu-me excessiva. idade que então me parecia avançada. a rua larga. entre os quais se destacou . Abraçou-me .» Olhei-me ao espelho e até eu me admirei : o sol dera-me um loiro esplendoroso . que com os olhos a luzir me cobriu de elogios . ficou para trás . repetido centenas de vezes: «Senhores . «portaste-te mal e a amiga da professo­ ra pôs-te na rua?» Correu de modo diferente com o meu pai . onde todos os rostos e todas as ruas continuavam de uma palidez doentia. cheia de trânsito e de poeira. pelo menos . encheu-me de elogios como nunca fizera.repreendeu-me por ter voltado antes do previsto . agora. Os velhos . Chamei-a do pátio. deram-me a impressão de uma fotografia mal impressa. saiu do prédio a correr. Já não parecia uma rapariga. assomou-se à janela.sem acne . Enquanto estava rodeada das cores de Ischia. mas sim uma mulher. beijou-me .

mas pouco antes de ele se ir embora. Ainda n a noite ante­ rior Marcello chegara com doces e espumante e oferecera-lhe um anel cravejado de diamantes . à sapataria. a si próprio e à família inteira. e quis que a acompanhasse à charcutaria de Stefano . e que . dando-me o braço: «É uma coisa que só posso fazer contigo .A Amiga Genial 1 85 vestidos ficavam-lhe curtos e apertados . E não só . graças ao parentesco com os Solara. como se quisesse ver se havia fugas .» Depois de ir ver o que se passava. assim que Marcelo se foi embora. ao contrário de quando estava acordado . e depois desatou a chorar. explicando-lhe que Rino estava a dormir. se eles insistissem em dar-lho . à porta. A mãe de Lila afeiçoara-se a Marcello . e Fernando sentia-se como se as suas atribulações tivessem termi­ nado . Disse-me que a s coisas pioravam de dia para dia. gritando que se a irmã não queria um trambolho como Marcello . e cingiam-lhe o corpo mais do que o tolerável . e uma hora depois teve outro dos seus episódios de sonambulismo . Ela aceitara-o e pusera-o no dedo . deitaria fogo a tudo . tão felizes por nos reencontrarmos . devolvera-lho com maus modos. adormeceu imediatamente . ele . queria certificar-se de que não havia fugas de gás . e toda a vizinhança acordou . pensava que tinha de esperar até Setembro . gostava das coisas boas que ele lhe levava para casa todas a noites . Estava mais alta ainda. sinuosa. De modo que . . acordou Lila e disse-lhe: «Ü Rino quer realmente queimar-nos vivos . Percebi que estava nervosa. podia encarar o futuro sem cuidados. fora do normal . Rino atirou-se para cima da cama muito agitado . à casa. ele pessoalmente . ator­ mentaram-na mais do que o habitual . Ela levara-o para o quarto e deitara-o . ainda bem que regressaste. aterrorizada. Fernando e Nunzia aperceberam-se imediatamente de que algo não corria bem. na rua olhou em volta e olhou para trás várias vezes . e a dormir. a acender fósforo atrás de fósforo e a passá­ -los perto da torneira do gás . Nunzia. e tinha orgulho em ser proprietária de um tele­ visor. Fo­ ram encontrá-lo na cozinha. Disse apenas: «Vem comi­ go» . para evitar problemas na presença dos pais . E o rosto pálido sobre o pescoço fino pareceu-me de uma beleza delicada. como fazia cada vez mais . pois .» Nunca havíamos feito aquele percurso até aos jardins tão chegadas uma à outra. Nunzia meteu-se no meio . mas não me deu explicações . Lila tranquilizou a mãe . Rino defen­ dera-a. Pai e filho chegaram a vias de facto . Marcello protestou . com o passo tão certo . estava no seu santo direito de o recusar. para saberem o que se estava a passar. como se tivesse crescido dentro deles em poucos minutos . com as costas direitas . Resultado: pela primeira vez desde há muito tempo . ameaçou-a. E acrescentou .

enquanto Lila se conservava à sombra vigiando a rua. Tens de me ajudar. mas não te vi. que davam a ideia de desproporção . Um carro de gente rica. «É bonito . No bairro nunca se vira uma viatura daque­ le género . com o tejadilho descapotável .» «Passei uma semana de férias . à es­ pera de serem atendidas . te­ nho de sair desta situação . «Tu estás bem» . «0 que é?» «Então não vês?» Não estava a ver bem. Atravessou a rua . mas ela não quer crer. tinha agora duas entradas e estava à cunha.» «Bem sei . se calhar éramos os únicos em todo o bairro com um aspecto tão saudável . a Lina disse-me . com uma expressão tensa. pareces uma actriz.» O rosto de Stefano mostrou uma expressão moderada de concordân­ cia. à sombra. cumprimentou-me cordialmente e disse: «Estás com muito bom aspecto . As clientes.» «Onde?» «Em Ischia.» Respondi-lhe que podia contar comigo para tudo e ela pareceu alivia- da. mas não desagradável . toda de vidro e metal . como se eu pudesse carregá-la de energia. como se esperasse uma manifestação de vio­ lência de um momento para o outro . que fora ampliada.» Fiz sinal para o carro .» Vi ao longe uma espécie de mancha vermelha que irradiava luz . Fazendo um gesto para Lila. Procurei-te . apertou-me o braço e sussurrou: «Olha. Ste- . que estava muito séria. disse-me .» Ele também estava bem. Andara ao sol como eu . «tu não imaginas o que eu passo .» O automóvel estava estacionado em frente da charcutaria. «É o carro novo que o Stefano comprou . disse .1 86 Elena Ferrante «Não aguento mais» . lançavam olhares admirados àquele símbolo de bem-estar e de prestígio . Dei umas voltas em torno do carro .» «Eu também estive em Ischia.» Agarrou-se a mim. «tudo te está a correr bem. concluiu . não tinha nada a ver com o II 00 dos Solara. com olhos divertidos : «Comprei-o para a tua amiga. a cabeça grande e a testa alta . Disse-lhe: «Como tu estás preto .» Olhei para Lila. Stefano apareceu à porta da loj a . com a bata suja d e gordura.

Mas lembra-te . que fosse dar uma volta com ele e Alfonso. e logo se via o que ia acontecer.A Amiga Genial 1 87 fano disse-lhe. comprado com a única finalidade de levá-la a dar uma volta. respondeu-me. olhos pretos a brilhar. havia aquele carro desportivo novo e flamejante . abriu a capota. Eu ape- nas vos acompanhei. Mas ela respondera sempre que não . perguntei-lhe . com ele e Pinuccia. instalou-se ela atrás . inebriada pela ve­ locidade e também pelas tranquilas certezas libertadas pelo corpo de Carracci . E desde que lho entregaram. mas não de forma opressiva. sentou-se ao volante . Stefano . mas sem a expressão atrevida de sempre. mas Lila impediu-me . Senti-me bem. preto de cabelo . vagamente irónico: «Agora a Lenuccia já veio . O calor dispersou-se com o vento . Por fim. primeiro em tom de brincadeira. Sim. es­ tava visivelmente preocupada. «Foi feito de propósito para ti» . convidaste-a a ela. preto de cara. dirigin­ do-se para os novos prédios . Eu fiz menção de me enfiar no exíguo espaço traseiro . insiste . Pareceu-me que Lila me explicara tudo sem me explicar nada. «Mas ele sabe do Marcello?» «Claro que sabe . jurara-lhe que comprara o carro para ela. Abriu o carro . pelo prazer de ao menos uma vez lhe abrir a porta para ela entrar. disse-me . «Tudo começou com a chegada deste automóvel» .» Stefano voltou sem bata. como se estivesse a fazer uma experiência de resultado incerto . Acomodei-me pou­ co à vontade ao lado de Stefano e ele arrancou imediatamente . venho cá.» E agora ali estávamos . e depois .» «Tenho medo . o que vais fazer?» Lila disse . que começara agora mesmo . com gentileza. Lila. no final de Julho . dissera-lhe. até . depois . Tinha aquele ar de quando precisava de fazer uma conta de cabeça.» «Lembras-te de quantas coisas fizemos que nos metiam medo? Espe­ rei por ti de propósito . camisa branca e calças escuras . desorientada. mas depois cada vez mais a sério . e não a mim. prometera-lhe: «Quando a Lenuccia regressar de Ischia. .» «E então?» «E então . querendo dizer que não sabia com exactidão aquilo em que se estava a meter. como se a conversa não lhe agradasse: «Vamos lá. «Não sei» . «Ü que se passa?» . com ele e a mãe . primei­ ro . pedi­ ra-lhe assiduamente .» Ele sorriu e entrou na loja.

Contámos tudo . era provável que não tivesse em vista nada de preciso . arrastada a toda a pressa para aquela história.» . havia aquele rapaz que . havia eu . O que tinha ela em mente? Era impossível que não soubesse que estava a preparar um terremoto pior do que quando atirava pedacinhos de papel ensopados em tinta. assim está bem. não?» «Muito veloz» . A volta pelos novos prédios serviu para evitar passar em frente do bar Solara. divertimo-nos e entretanto chegámos aos Granili . porém. Pensei com horror na eventualidade de Marcello Solara disparar sobre ele . Pensei na possibilidade de ele vir a gostar mais de mim do que gostava da minha amiga agora. Stefano quis que contássemos . sem preâmbulos : «Tu és realmente diferente?» Ele procurou-a no retrovisor. séria. es­ tava a violar as regras viris sem qualquer ansiedade visível . Lila não fez qualquer comentário . Era o caminho que eu e Lila tínhamos percorrido havia muitos anos . «0 que acham. Mas que espécie de amizade? Com aquele passeio de automóvel . ela sorriu . Lembrei-me da maneira como olhara para mim . disse eu . embora soubesse de Marcello Solara. destruía equilíbrios só para ver de que outro modo podia recompô-los . «De quem?» «Tu sabes. estava de certeza a acontecer algo de relevante .1 88 Elena Ferrante Sim. Mencionei esse episódio . A sua bonita pessoa de gestos seguros perderia consistência. eu sen­ tada a seu lado com se fosse a namorada dele . ou não quisera. Ela era assim. E no entanto . quando me disse que eu parecia uma actriz . Stefano a guiar com satisfeita perícia. cabelos ao vento . Depois perguntou a Stefano . às vezes tocava­ -me no ombro para me indicar as casas em ruínas . quando a chuva nos apanhou .» Atravessámos o túnel . Olhava em volta. talvez mesmo uma amiza­ de . corre bem. a pobreza maltrapilha ao longo da estrada. «A mim não me importa se o Marcello nos vê» . Sim. entusiasmada. dirigimo-nos para a Marina. «mas se te importa a ti . disse Stefano sem ênfase . como se nela visse a confirmação de qualquer coisa que eu devia perceber de imediato . dar-me os elementos necessários para eu compreen­ der. como o cobre da panela de que Lila me falara na carta. Lila não soube­ ra. Por isso ali íamos nós numa corrida. para esconder com a minha presença palavras secretas entre eles .

a rir: «Não penses que eu me esqueci de quando me quiseste picar a língua. voltámos pelo Rettifilo . «Por quanto os vendem?» «Fala com o meu pai . por ser vaga. acelerou na direcção do porto .» «A intenção é essa. «Eram outros tempos» . com seriedade . cobarde amanhã. disse .» «E depois?» «São muito bonitos. Procurou-a de novo no retrovisor e perguntou: «Üs sapatos que estão na montra são os que vocês fizeram?» «Ü que sabes tu dos sapatos?» «Ü Rino não fala de outra coisa. «A miséria aqui é pior do que para os nossos lados» . agora alarmada.» Ela fez os olhos pequeninos . pela Piazza Garibaldi .» Stefano abanou a cabeça. disse Stefano quando já estávamos per­ to do bairro . disse . Aquele tom alusivo era a prova de que havia intimidade entre eles . pensei que a resposta de Stefano a tivesse irritado . Depois disse em dialecto: «Queres que te diga a verdade?» «Sim. demorava a replicar.» Stefano deu uma decisiva volta em U que me atirou contra a porta. com os olhos semicerrados . metemos pela rua da sapataria. «Disseste-me para os comprar e vou comprá-los . Vi-a banhada de sol .A Amiga Genial 1 89 Não respondeu logo .» . «Compra-os» . A volta durou pouco menos de meia hora.» Nesse instante tive a confirmação de que Lila devia ter-me ocultado não poucos pormenores . E depois . sem responder. mas não sei como irá acabar. tinhas o dobro do meu tamanho . O que tinha eu perdido enquanto estivera em Ischia? Virei-me para olhar para ela. a blusa cheia de seio e de vento . estreitou-os até quase os fechar. «Ü que estás a fazer?» . disse no seu tom provocatório . «Ü teu irmão não está bem» . «Cobarde hoje. perguntou Lila. sem qualquer nexo . de que tinham falado um com o outro mais ve­ zes e não a brincar.» Ele esboçou um sorrisinho embaraçado e.

. veio abrir-me a porta. perante o olhar de Rino e Fernando .» Ele voltou-se para Fernando: «A vossa filha disse que trabalharam bastante neles . ele examinou-os e elogiou-os: «São leves mas resistentes . Lenu?» Eu disse . mentiu Rino .» «Sim» . «Sim» . não opôs resistência. Foi muito amável com pai e filho . Parou o carro em frente da sapataria. deixou-me entrar primeiro . disse Rino . que se desembaraçou sozinha e ficou para trás .1 90 Elena Ferrante 37 . continuando a espantar-nos . olhando maravilhado para a irmã. perguntou se podia ver os sapatos .» Perguntou-me : «0 que achas . porque esperava uma recusa dela: «Vai-lhe buscar os desenhos . estendeu­ -me a mão para me ajudar a sair. Depois sentou-se num banco e des- calçou o sapato do pé direito . «mas não é para já. Foi às trasei­ ras da loja e voltou . sei lá. Lila. Rino foi a correr buscá-los . que nos observavam do interior da loja com uma curiosidade carrancuda. Não se preocupou com Lila. estendendo as folhas de papel ao irmão . mas para mulher. com a ajuda da calçadeira.» Lila. que as passou a Stefano . «Qual é o número?» «43 . e que têm em projecto fazer mais . Estavam ali todos os modelos que ela imaginara havia quase dois anos.» «E não há. os três. Stefano mostrou-me o desenho de um par de sapatos para mulher com o salto muito alto . Stefano abriu a porta da loja. atrapalhada: «São muito bonitos . têm umas linhas muito bonitas mesmo . Quando Lila nos alcançou . mas que até podia ser um 44» .» Examinou de novo os desenhos . tirou-lhe o outro sapato e repetiu a operação . qualquer coisa para perceber melhor?» Rino disse à irmã. De­ pois . continuando a surpreendê-lo . ajudou-o a enfiar o p é n o sapato novo . disse Fernando perplexo . ajoelhou-se em frente de Stefano e . ligeiramente agitado . e a seguir entrou ele sem dar prioridade a Lila. Eu e ele parámos em frente da montra. «Comprava-los para ti?» «Sim. um desenho .

que até ali fizera o papel de homem prático e expedito . «Estão apertados» . perguntou Stefano em tom cordial e . «Podemos meter-tos na máquina e alargá-los» . disse . diante dos nossos olhos perplexos . que o meu irmão é estúpido?» «Ü que queres dizer?» «Se pensas armar-te em palhaço com a minha farm1ia e comigo . abriu a porta. O senhor pensa num preço amigável e eu daqui a três dias venho buscá-los.» «Estás a ofender-me . se não fossem um modelo exclusivo Cerullo? Quando estão prontos?» Rino olhou para o pai . Estava zangada: «Pensas que o meu pai é estúpido . «Ouve.» «Então o que és?» . estás enganado . são ca­ ros .» Stefano sorriu . Rino reanimou-se . «Üs desenhos» . falou num tom afectuoso: «E achas que eu os comprava. perante aquela inesperada novidade . desapontado . «Está muito bem. Esperou que Lila se erguesse e continuou sen­ tado mais alguns segundos. Depois pôs-se em pé e deu uns passos . «Posso trazer-tos dentro de três dias?» .» Fernando ficou impassível . Stefano olhou para mim e perguntou-me: «Que tal me ficam?» «Bem» . interveio Fernando . Eu não sou o Marcello Solara. um mês . disse Fernan­ do . radiante . «Deixamo-los estar na máquina pelo menos três dias» . Ste' . como que a retomar o fôlego . vinte . disse Lila com frieza. mas era evidente que podia ter dito dez . «Então compro-os . Já eu me acomodara no carro ao lado dele quando Lila nos alcançou . Deu-me passagem e saiu atrás de mim. respondi . sem esperar pela resposta.A Amiga Genial 191 Stefano . estes sapatos são um modelo exclusivo Cerullo. o que queria era ganhar tempo . mas num tom de incerteza. Rino ensombrou-se .» Dobrou as folhas com os desenhos e meteu-as no bolso . Depois apertou a mão a Fernando e a Rino e dirigiu-se para a porta. ficou visivelmente perturbado .

» 38 .1 92 Elena Ferrante «Sou comerciante . parte-me a cara. nem fiz qualquer tentativa de dar forma às minhas emoções . e daqui a três dias encontramo-nos . E não me refiro só aos que comprei . não se afastava do carro . Éramos apenas rapariguinhas . marcada pelos lábios e pelas mãos do pai dele . foi várias vezes à charcutaria de Stefa­ no . embora nos considerássemos perfida­ mente desinibidas . Por fim disse uma frase que eu nunca teria tido a cora­ gem de pronunciar: «Olha que o Marcello já tentou comprar-me de todas as maneiras . Pus de lado a voz de Nino e a repugnância pelo bigode do pai . tudo se redimensionou em poucas horas . A vida de Lila mudou de forma decisiva durante aquele mês de Se­ tembro . refiro-me a todos .com a nossa paixão habitual . receando uma possível aparição de Marcello .» Ligou o motor e arrancámos . ela. depois de mui­ tos encontros e de muito falarem. Mas afinal . deixas-me à esquina? Se a minha mãe me vê de carro contigo . . regressara de Ischia apaixonada por Nino . de aparente objecto das atenções de Ste­ fano .Marcello . «Digo-lhe assim» . A ilha esbateu-se . Quanto a mim . como se quisesse ler-lhe a mente . mas a mim ninguém me compra. Stefano . Não foi fácil . Agora tinha a certeza: o passeio de au- tomóvel fora uma espécie de consenso a que chegaram. e parecia-nos sempre que éramos capazes de fazer com que tudo batesse certo. em italiano: «Por favor. Abri espaço para aquilo que se estava a passar com Lila. de cúm­ plice na maquinação de tramas . mas mudou . se não achar que ela me pode render cem. «Eu não gasto uma lira. os sapatos . Disse baixinho . nunca se viu coisa igual . conjecturava ela. desapareceu em qualquer canto secreto da minha mente . Stefano . mas também satisfeita com o meu papel de confidente pródiga em conselhos . Fi-lo com o coração aos saltos. mas pedindo-me sempre que a acompanhasse . Os sapatos que desenhaste .» «E então?» «Então deixa-me pensar. Debatíamos os factos .» Lila olhava-o fixamente . certa de que ia chorar noite e dia por causa da mistura de felicidade e asco que sentia dentro de mim. com a desculpa das compras . Nos três dias que se seguiram ao espantoso passeio no descapotável .» Stefano olhou-a directamente nos olhos durante um longo instante .

e nós limitámo-nos a dar-lhe um ritmo .» «E disseste à minha irmã que também ias comprar os desenhos dela?» «Sim. toda a acção partiu sempre e apenas de Stefano . o objectivo final de todas as nossas tramas pareceu-nos ser esse: lutar por todos os meios contra a intrusão de Mar­ cello na sua vida.gostava muito e pretendia man­ dá-los emoldurar. «Nunca gostei do Marcello . A partir desse momento . ela foi decisiva quando lhe perguntei : «De qual dos dois gostas mais?» Encolheu os ombros . para correr com o Marcello de tua casa?» Pensou um pouco e respondeu que sim. dos quais . Enquanto durou aquele vaivém tentei perceber o que se passava realmente na cabeça de Lila. livrar-se de Marcello . Três dias depois . e dava ouvidos aos mexericos das bisbilhoteiras . Pinuccia atendia os clientes irritada. os dois Cerullo pediram-lhe vinte e cinco mil liras . ele foi à loja e comprou os sapatos .» «Ficavas noiva do Stefano . pontualmente .» Depois . enquanto Alfonso trocava meia dúzia de palavras comigo.disse . embora lhe ficassem apertados . que nos últimos tempos pouco se interessava pelo traba­ lho .A Amiga Genial 1 93 e eu sugeria uma pequena variação: «Não. aproveitando-se do jovem charcuteiro . Neste aspecto . Na rea­ lidade . Entre muitas hesitações . e Maria. O resto veio aglomerar-se em tomo desse objectivo quase por acaso . improvisávamos . para poder estar em sintonia com os objectivos dela. sobretudo . vendendo a Stefano por um preço elevado o único par de sa­ patos produzido pelos Cerullo . tenho-lhe asco . «Emoldurar?» . diz-lhe assim.» «Como um quadro de um pintor?» «Sim. e deu-lhes mais vinte mil em troca dos desenhos de Lila. perguntou Rino . «Sim. na caixa registadora. observava apreensiva o filho mais velho . e anunciou ao pai e ao filho que alugara o espaço ao lado .» Stefano não se ficou por ali . mas depressa me pareceu que a intenção dela era. mas na disposição de descerem até às dez mil . Nos dias seguintes apareceu novamente na sapataria. Ele nem pestanejou . Ou pelo menos assim pensámos . Como é natural . ela e Stefano falavam demoradamente a um canto atrás do balcão . e por vezes uma verdadeira orquestração . A princípio tive a impressão de que ela pretendia simplesmente dar algum dinheiro a ganhar ao pai e ao irmão .

este» . todas as reservas de Fernando se diluíram. . disse Lila. disse . como de todos os outros modelos . ficando assente que os eventuais lucros seriam divididos a meias .1 94 Elena Ferrante da loja deles . como sei que aconteceu com os outros . «A Lina. «Por agora está ali » . da mesma forma que se tomara amigo íntimo dos Solara.» «A minha filha é rapariga» .» «E o dinheiro?» . que recuperou energias . deixem-na estar sossegada.» Toda a família viveu dias agitados .» «E quem é que lhes paga?» . em voz baixa. co­ res . Muitas vezes viu-se sozinho com Melina e Ada em frente do televi­ sor.» «E é só isso?» «É só isso . de Alfonso . sobre o que significaria aquela frase . «Fazem este . disse . este . «Entra ele com ele . uma vez que eles não chegavam lá sozinhos . e até da dona Maria. e. «mas se um dia vocês decidi­ rem expandir-se . Naturalmente . perguntou Fernando . e o jantar ainda não estava pron­ to .» «E se não se venderem?» «Vocês perdem o trabalho que tiveram e ele perde o dinheiro . Tirou as folhas de papel do bolso e mostrou-lhos . «Expandir-nos?» Por fim Lila.» «Disse-o a ti?» . disse: «Está a propor-vos transformar a sapataria numa oficina para fabricar os sapatos Cerullo . de Pi­ nuccia. Stefano compareceu na loja e. justificou-se Fernando . alegria. assim começou a tomar-se amigo íntimo de Stefano . Têm de arranjar trabalhadores . embaraçado . «Disse-o a vocês dois» . «e o Rino ainda não aprendeu bem o ofício . lembrem-se de que estou à vossa disposição . o mais entusiasta era Rino. «mas esperemos que não levem dois anos. um após outro . incrédulo . Quando . às oito e meia. enquanto os Cerullo confabulavam noutra divisão . com base no qual ele enfrenta­ ria todas as despesas e os dois Cerullo dariam início à produção . tanto do modelo que Lila e Rino já haviam executado. alarmou-se Fernando . pressionado por Nun- zia.» Em casa dos Cerullo conversou-se muito . «Mas ele sabe que os sapatos feitos à mão são caros?» «Vocês já lhe mostraram isso . finalmente . após uma curta discussão . perguntou Rino cautelosamente .» Stefano abanou cordialmente a cabeça. indicando o pai e o irmão . chegou-se a um acordo verbal . Chegava à noite . Marcello passou para segundo plano .

que estava outra vez sério e não disse nada. em Casoria. Disse que o seu erro tinha sido casar-se com Nunzia.» Fernando . Stefano ouviu pacientemente . Escolham dois ou três . sim. examinou-os minuciosamente e perguntou-lhe com um ligeiro tom de troça: «Quando os tiveres emoldurados . quantos não se venderiam. pegou nos desenhos da irmã. Rino disse: «Marce . que tinha mãos fracas e vontade nenhuma de tra­ balhar. há muito que teria uma activida­ de só sua. se a tua irmã não esti­ ver de acordo?» Levantou-se .» 39 . de acordo com o vosso critério . sem se virar: «Uma Cerullo os inventou e Cerullo se chamarão . perante a ideia de até ter empregados . antes de ir passear com Pasquale e Antonio . perguntou . que . mas depois insistiu que por agora só lhe interessava ver. Nessa mesma noite . e com uma gama de modelos digna de ser exposta no recinto da Mostra d'Oltremare . melhor do que as marcas Campanile e Isaia. com evidente contrariedade do filho . livremente . se Stefano não tivesse fixado o pensamento naquelas maluquices de Lina.» Stefano acenou-lhe com a mão . Rino acompanhou-o e.» Rino olhou para o pai . «A minha irmã está de acordo com tudo?» . agora podiam ser produzidos e então . apertou vigorosamente a mão a Fernando e dirigiu-se para a porta. subitamente vencido por uma preo­ cupação sua. Contou como fora difícil o trabalho nas máquinas . já viste o carro que o Stefano comprou?» . Rino . Disse .A Amiga Genial 1 95 «Sou também eu . uma paixão da sua juventude que era muito trabalhadora. coisa perfeita. entusiasmou-se e soltou-se-lhe a língua. os desenhos de Lila. ao passo que se se tivesse casado com Ines . que tinha na ideia sapatos lindos . enquanto Stefano se dirigia para o descapotável vermelho: «A marca dos sapatos continua a ser Cerullo . Stefano sorriu : «E quem é que se atreve a fazer alguma coisa. gritou-lhe da porta. executados com perfeição . Falou de quando aprendera o ofício com o falecido pai . onde é que os penduras?» «Aqui mesmo . então . por fim .

deu uma penteadela e disse. alegre: «Sabes que ele comprou os nossos sapatos por quarenta e cinco mil liras?» «Vê-se que tem dinheiro para deitar fora» . dizia que estava cansada e ia dormir.» «A Lenuccia não me parece boa companhia para a sua filha.» «Eu sei que ela vai fazer as compras à charcutaria do Stefano . fazer as compras?» Marcello ficou calado .» «E onde há-de ela ir. e Melina rebentou a rir. E por último disse-lhe: «É rico . bem recebido por Nunzia. nem res­ pondeu . O Stefano anda atrás da filha do porteiro .1 96 Elena Ferrante Marcello . Então . falou com Nunzia. Rino tirou o pente do bolso. passei definitivamente para o lado de Stefano e comecei a enaltecer-lhe os mo­ dos discretos . Rino arranjou maneira de enervar Marcello todas as noites . Mas Nunzia não soube o que lhe responder. que uma procissão de criados de libré depositariam no nosso castelo quando publicássemos um livro como Mulherzinhas - riqueza e fama .tinham-se evaporado para sempre. A partir dali . que ela o confortasse . entontecido pela televisão acesa e pela tristeza. evidentemente . Lila desaparecia. respondeu Marcello .» Eu não era boa companhia? Lila não devia voltar a encontrar-se comi­ go? Quando a minha amiga me contou este pedido de Marcello . com o moral muito em baixo . «Se a sua filha vai dormir assim que eu chego . Para mais . Os baús cheios de moedas de ouro. e o clima tomou-se cada vez mais tenso . o que venho eu cá fa­ zer?» Esperava. «Foi vista no carro com o charcuteiro .» Mas ao dizer aquela frase apercebi-me de como continuava a alterar-se a riqueza com que havíamos sonhado em crianças . Uma noite Marcello . assim que Solara chegava.» «A Lenuccia também ia. não se sabe se por causa daquela boca ou do que estavam a transmitir na televisão . e impedir que ela se desmarginasse juntamente com as pessoas de . Talvez existisse ainda a ideia do dinheiro como cimento para consolidar a nossa existên­ cia. dizendo-lhe qual­ quer coisa que o encorajasse a perseverar na tentativa de conquistar o amor da rapariga. e ele en­ tão gaguejou: «Ela gosta de outro?» «Claro que não . a determinação calma. Diga-lhe que nunca mais se encontre com ela. de olhos baixos. meu filho .

Mas o aspecto fundamental que agora prevalecia era o concreto . a negociação .nós duas . A sapataria foi reorganizada. «Era um miúdo» . e como ele parecia embevecido com a voz dela. e no televisor. estava a criar feições . Num canto continuaram a fazer-se arranjos .A Amiga Genial 1 97 quem gostávamos . Em suma. e eu senti-me imediatamen­ te de acordo . mais uma ra­ zão para estar do lado de Stefano . Stefano . disse-lhe . nenhum baú . que pretendia comprar um sentimento. e por isso sem esplendor e sem glória.os desenhos de sapatos nunca vistos . «É rico» .para arranjarmos maneira de mudar depressa as pessoas . Surgiram três aprendizes . mas materializara-se na insatisfação briguenta de Rino. eram qualidades que Marcello não possuía.pareceu-me entender .voltariam a dizer respeito apenas a Lila e a mim . ouvi que Lila repetia. era um tipo que nós conhecíamos desde sempre . melosa como nunca a ouvi­ ra. era riqueza que se encontrava nos factos do dia-a-dia. Vi como falava com Stefano . Chegou um operário ao espaço que ficava ao lado da sapataria e deitou abaixo a parede divisória. aqueles dois adjectivos confundiram-me . o filho mais velho de dom Achille . eram de Melito . ao ganhar forma em Stefano . senti que davam o golpe final nas fantasias infantis . E conspi­ rámos durante horas . No entanto . a disposição das coisas . queria picar-te a língua» . quase não se ouviam falar. investia em pelaria e numa equipa de trabalho . que queria gastar como um ricaço . emoldurava desenhos . «No entanto . de modo que só naquele momento compreendi que ela fora muito mais além do que aquilo que me dissera por palavras .. os sentimentos . nós três . estava a tomar o aspecto de um rapaz de bata suja de gordura. odor. Fiquei agitada. A riqueza. rapazes da província. que vendia enchi­ dos . não queria ficar de fora. e começámos a rir. Nos dias que se seguiram tudo se foi tomando mais claro . que tencionávamos escrever uma história como Mulherzinhas . e no resto do espaço . e por fim. nos bolos e no anel de Marcello . passo a passo . o gesto quotidiano . Esta riqueza da adolescên­ cia partia de uma iluminação fantasiosa ainda infantil . replicou ela comovida. voz . tinha um carro vermelho descapotável . exprimia simpatia e bondade . e parecia convencido de que era capaz de inaugurar uma nova época de paz e de bem-estar para o bairro . também naquele rapaz amável . gastava quarenta e cinco mil liras como se não fosse nada. não só queria nego­ ciar em queijo provolone como também em sapatos . Nenhum castelo . Mas depois acres­ centou: «Também é simpático e bondoso» . Aderi ao pacto que eles tinham feito .

» Fernando deitou um olhar maldoso ao filho . dom Fernà: deixe que seja a sua filha a decidir.» «A sua filha não sabe disso . O charcuteiro disse com gentileza. as suas formas de madeira para os vários números. num tom de re- signada constatação . Mas se ela me quiser a mim . estou a pedir-lhe que olhe pelo bem da sua filha. Ele abriu a embalagem. Precisamente no dia em que os novos trabalhos iam principiar. «Não . Fernando também. Pediu licença a Fernando para pendurá-los nas paredes .. tem de ma dar. cheio de alegria: «Ele diz a verdade . e entre mim e o senhor fica tudo como está agora. e deu-lhes algumas liras . com molduras estreitas de cor castanha. Gosto tanto dela que se ela for feliz com outro eu retiro-me . olhando em volta: «Temos um trabalho principiado .» . Trazia uma embalagem feita com papel de embrulho . Rino limitou-se a um sorrisinho sa- bichão . mas ela sabe melhor do que o senhor. eu resigno-me. anun­ ciou em voz baixa que queria casar com Lila. Só depois de os quadros estarem pendurados é que Stefano pediu aos três ajudantes que fossem tomar um café .a reflectir naquilo que ia fazer. todos do mesmo tamanho . mas a Lina nunca o quis nem o quer. e Fernando . Eram as folhas de caderno de Lila. Tu e a mãe deixam aquele merdoso vir a casa. Só lhe peço uma coisa. disse debilmente: «Stefano .inesperada num homem tão magro e devorado desde sempre por uma insatisfação rancorosa . Stefa­ no apareceu .se me quiser a mim . como se ele viesse fazer uma inspecção . Se ela quiser o Marcello Solara. estantes . com uma energia repen­ tina e inesperada . Puseram-se todos em pé de um salto .» «Sim. Fernando resmoneou qualquer coisa e Stefano pediu ajuda a Rino e aos aprendizes para pre­ garem os pregos . não nos zanguemos . disse Fernando . Assim que ficou sozinho com o sapateiro e o filho . mas sereno . por fim. protegidas por vidro como se fossem relíquias preciosas . Fez-se um silêncio insuportável . as suas ferramentas .» «Que dizes tu?» Rino intrometeu-se .» «Estás a ameaçar-me» . a Lina está noiva do Marcello Solara.» «Eu é que sei qual é o bem dela. ninguém o poderá impedir. e começou .1 98 Elena Ferrante Fernando dispôs bancos . e dentro havia um considerável número de pequenos quadros .

diante de toda a fallll1ia. Marce . «obrigado . feliz . à noite . a mim que estava lá fora à espera. antes de liga­ rem a televisão . abriu a porta. Parecia-lhe que era che­ gado o momento tão esperado . Com efeito .» 40 . Lila ia dizer-lhe que sim. Stefano dirigiu-se a Lila: «Digo-to diante do teu pai: amo-te muito . Que prazer nos dava sentirmos que estávamos no centro daqueles acontecimentos . Mas agora já me queres?» . chamou-me . séria: «Sim. Agora quem é que diz isto àquele pobre rapaz?» Lila disse: «Eu . só . mas a todos os Solara. dois dias depois . obrigada. assim que saíram do prédio .» Repetiu obrigado pelo menos quatro vezes . com a fria crueldade que facilmente lhe ocorria desde os primeiros anos de vida: «Nunca te disse que te queria.» Fernando atrapalhou-se um pouco e depois murmurou . Queres casar comigo?» Lila respondeu . e que íamos encaminhá-los para uma solução . Lembro-me da enorme tensão daquele momento . vão e voltem. mais do que à minha pró- pria vida. Dez minutos . antes de irem para a mesa.» «Sim» .» «Bem sei .A Amiga Genial 1 99 E aqui Stefano pôs-se em pé . «Lenu . não só ao Marcello . Mas . Lila perguntou a Marcello: «Levas-me a comer um gelado?» Marcello não quis crer nos seus ouvidos . prometeu ele . que andava a passear. Mas não se demorem muito . ela encarou-o e disse pausadamen­ te. as duas juntas . excep­ to Rino . com a mesma subserviência que em tempos passados manifestara em relação a dom Achille: «Estamos a fazer uma grande ofensa. juntamente com Lila.» Entrámos . «Um gelado? Sem termos comido primeiro? Eu e tu?» E perguntou imediatamente a Nunzia: «A senhora também quer vir?» Nunzia ligou o televisor e disse: «Não .

200 Elena Ferrante «Não . e tu sabes que o faço . que era alto e corpulento. e Lila finalmente parec­ eu-me feliz . «É mesmo não?» «Não. Apesar de ter trabalhado na charcutaria todo o Verão . pode ser que eles sejam capazes . Depois . Em compensação.» «Podes acreditar. com uma espécie de estertor. Quando recomeçou a escola senti o seu cinzentismo mais do que o habitual . começo por ti . O que podia ela querer mais? Nada. Ela gritou-lhe: «Manda alguém buscar o televisor. e eu . apoiou-se ao poste de um candeeiro com o coração destroçado . não sou capaz de o fazer. Fui reabsorvida pelo estudo e. Virou-lhe as costas e afastou-se . Gosto de outro . Tinha tudo .» Marcello . Alfonso. Tudo aconteceu em pouco mais de um mês . livrara-se de Marcello Solara e ficara noiva do rapaz abastado mais digno de estima do nosso bairro . dera uma oportunidade ao irmão e a toda a fami1 ia.» Marcello continuou a morder o dedo com fúria.» «Comigo podes tentar já. comecei de novo a estudar até às onze da noite e a pôr o despertador para as cinco e meia. sou eu que vos mato . mordeu a mão direita fechada em punho até ela sangrar. passara .» «Eu já sabia. Porque se tocarem seja em quem for enquanto eu estou viva. não precisamos dele . estreitaram-se as relações com o irmão de Stefano . ou o teu pai .» «Quem é?» «Stefano .» 41 .» Marcello desencostou-se do candeeiro bruscamente .» «Então manda o teu irmão fazê-lo . para evitar que os professores me apanhas­ sem impreparada. Mas esclarece-os bem de que têm de me matar primeiro a mim . mas não queria acreditar. «Gosto demasiado de ti . nada. mas . é assim mesmo . ou qualquer amigo vosso .» «Vou matar-te a ti e a ele . Vi Lila cada vez menos . Encontrara uma saída para o projecto dos sapatos . um rapaz são e fogoso de vinte e três anos . uma espécie de soluço reprimido agitou-lhe o peito .

Tinha sempre aquilo de que eu precisava. pois sentara-se ao lado dele durante um ano . Depressa me chegou aos ouvidos que dizia coisas horríveis de nós . sentia nele uma total ausência daquela determinação que se escondia em cada célula de Stefano . e apesar de os outros rapazes fazerem troça dele por estar sem­ pre na minha companhia. de quem sabemos que não precisamos de espe­ rar nenhuma maldade . para poderem repetir o primeiro ano da secundária juntos. em dialecto: «Toda a gente sabe que o paneleiro é ele . Nunca mais dirigiu a palavra nem a mim. só de rapazes . raro no bairro . pernas um bocado curtas em relação ao tron­ co. embora. ou despedia-se e ia-se em­ bora. assim como nas ruas do bairro. o mesmo nariz e a mesma boca. Grego e Inglês . e. o seu corpo estivesse a tomar formas idênticas . agora no segundo ano . mas ele limitou-se a dizer com des­ prezo . ficou decepcionado . nenhum de nós pensou em mudar de lugar. mesmo que tivesse outra coisa para fazer. os mesmos olhos . No primeiro dia de escola acabámos por nos sentar na mesma carteira. Se percebia que eu queria que ele ficasse a meu lado . nem a Alfonso . Mas fez ainda pior. Que eu estava apaixonada por Alfonso e lhe tocava durante as aulas . e de as raparigas me perguntarem constante­ mente se éramos namorados . cabeça grande . Durante o percurso poucas palavras trocávamos . Gino . ia a correr buscar. embora Alfonso não me correspondesse . Embora nas feições fosse muito parecido com Stefano . Contei isto a Alfonso Carracci . com sete em cada uma das disciplinas que teve de repetir: Latim. porque como sabia bem. e eu afeiçoei-me a ele serenamente . mas não nos sentíamos embaraçados . ficava. e que . Amava-me sem qualquer tensão . embora a sala dele fosse ao lado da nossa e nos encontrássemos muitas vezes nos corredores . esperando que ele partisse a cara a Gino . com o crescimento . aquele tipo de ser humano . como era obrigatório em tais casos . um gesto audaz naquele tempo . exasperou-se ainda mais e tomou-se mesquinho . que desejara que ele reprovasse .A Amiga Genial 20 1 nos exames de recuperação de modo brilhante. sua ex-namorada. acabava por reduzir a sua cortesia a uma espécie de esconderijo do qual sairia inesperadamente . Dava uma im­ pressão de limpeza e de boa educação . em minha opinião . se não tinha. ou esperava-me a uma certa distância. íamos e voltávamos juntos da escola todos os dias .» Alfonso foi uma descoberta agradável e providencial . Alfonso era um rapaz que transmitia tranquilidade . embora no olhar e nos gestos mostrasse a mesma suavidade . seu ex-companheiro de carteira. Era uma pessoa de confiança. ele não gostava de raparigas . Se via que eu precisava de tempo para mim . Quando viu que nós dois . .

É claro que Nino não tinha um descapotável vermelho . Seria fantástico sairmos os quatro . passear com ele . embora não fossem nada parecidos . gostava muito dele . e não um rapazote . embora visse claramente o prestígio que adqui­ riria aos olhos de Lila se me ligasse a ele . Era um passeio longo . faz o mesmo que Stefano fez com os Peluso . No entanto . e era agradável . à distância. ao passo que Stefano era uns centímetros mais baixo do que Lila. Assim que imaginava que o beijava. decidido e corajoso . mas eu despachei-o com duas ou três frases frias . bastava avistar a sua figura alta e magra para me ruborizar e o coração me bater desenfreadamente . o pai não é o filho e o filho não é o pai . Mas uma vez . oficialmente noiva ­ e com que noivo . muito amistoso . dos nossos colegas . falava quase exclusivamente em dialecto . um homem de vinte e dois anos. era so­ bretudo sensível à movimentação lucrativa do dinheiro .202 Elena Ferrante Servi-me dele para evitar Nino Sarratore. Agora. sentia a boca de Donato . quando queria. Mas não era capaz . e por vezes pensava. agora que Lila estava realmente noiva. E falava italiano como um livro aberto . É verdade que o amava. Ía­ mos até à Piazza Nazionale e depois metíamos pelo Corso Meridionale . Um episódio que me alarmou veio complicar ainda mais a situação . E lia e conversava sobre tudo . reequilibrando assim a nossa relação . embora tivesse bom carácter. O motivo pareceu-me muito mais forte do que o dos tempos da infância. Vê-lo trazia-me imediatamente à lembrança Donato Sarratore .. cheia de raiva: porque te compor­ tas assim. ao passo que Stefano vivia encerrado na sua char­ cutaria. não fizera mais do que a escola comercial . Porém. Lila com o seu noivo e eu com o meu . Andava no segundo ano do liceu . Mas era vinte centí­ metros mais alto do que eu . estendiam-se a ele . Nino veio imediatamente ao meu encontro . virei-me e pareceu-me ver. no início da rua larga. que fazia contas melhor do que ele e. dos profes­ sores . e uma onda de prazer e de nojo misturava pai e filho numa única pessoa. Alfonso e eu tínhamo-nos habituado a regressar a casa a pé . era mais urgente do que nunca eu arran­ jar também um noivo invejável . no aterro . portanto não tinha uma lira. Desejava falar com ele . e era sensível às grandes questões da condição humana. embora a paixão me devorasse . E o asco e a raiva que me suscitava a recor­ dação do que o pai dele me fizera sem que eu fosse capaz de o repelir. Contudo . pela segunda vez desde que o vira e me apaixonara não fui capaz de estabelecer uma relação . na caixa registadora da loja tinha a mãe . mas falávamos dos trabalhos de casa. Quando nos vimos pela primeira vez depois de Ischia. pouco depois dos pauis . gentil .

sobretudo se se relacio­ navam com Lila. estava noiva de um homem adulto . e afastávamo-nos conversando . Naquela época tornou-se um exercício quotidiano: tinha estado tão bem em Ischia como Lila estivera mal na desolação do bairro. assim que avistei Nino . assim que me apercebia de poder estar a encorajar a inclinação que ele tinha por mim. receando que ele se aborrecesse e me trocasse por outras companhias . Assim que avistava a figura esguia do rapaz que amava. sentindo-o a meu lado como um escudeiro que me escol­ tava por entre os mil perigos da cidade . ao invés . com a farda de revisor. como se fosse um tiro . Quando olhei de novo . O mesmo barulho regressou no dia seguinte . e . assustada. preocupava-me . linhas de liga­ ção entre momentos e factos distantes entre si . Traçava. Estremeci de raiva e de horror. comportei-me sempre de modo muito gentil com ele . A mente . ficou-me gravado o som que o coração me fez no peito . voltou-me à lembrança a passagem da carta de Lila. . teria de rejeitá-lo . mudava de tom. já lá não estava. «E se ele me interpreta mal e me faz uma declaração de amor?» . Foi um período confuso . estabelecia convergências e divergências . sobre o barulho que a panela de cobre fizera ao rebentar. Seria embaraçoso . e tanto à entrada como à saída mantive-me perto dele . devaneava. e seria no mínimo humilhante para mim andar com um rapazinho . como a felicidade dela aumentara. tinha o cuidado de estar colada a Alfonso . entretanto . 42 . Uma vez em que regressava com Alfonso pelo Corso Meridionale . Gostava de fazer associações daquele género . como se tivesse coisas ur­ gentes para lhe dizer. às vezes até lhe falava com doçura. pareceu-me interessante que tocasse a dois Carracci . desviei logo o olhar. não sei porquê . para ir buscar as bonecas que o pai nos tinha roubado . voltava­ -me para o filho mais novo de dom Achille . Quer essa aparição tivesse sido real ou falsa. apetecia-me aconchegar-me a Nino e . desse mal que experimentámos pela primeira vez quando subimos a escada até casa deles . Mas . o irmão mais novo do noivo dela. Stefano e ele . a função de protegerem. ainda que de formas diferentes . tanto sofrera eu por ter de sair da ilha. Donato Sarratore . Lila. desenhava arabescos incontro­ láveis . como se usasse um esquadro . Lila e eu do mal do mundo . Stefano . Aliás . Então. procurei protecção no afecto por Alfonso .A Amiga Genial 203 da linha férrea. da minha idade .

e ela. O professor Gerace interrogou-me sobre qualquer coisa que escreve­ ra no quadro e apercebeu-se de que eu não via quase nada. mostrei o caderno . eu . que parecia desenhada com fúria por um desenhador raivoso . ao passo que eu . a minha imagem demasiado nítida foi um duro golpe: impurezas na pele . no máximo . cega.» Pareceu-me muito mal . Voltei para casa. ligasse o meu destino ao da minha amiga: eu . As fantasias atenuaram-se . eu agarrada ao braço dela. sob as sobrancelhas já de si de­ masiado espessas . Quando me vi ao espelho . boca grande . e ela a guiar-me com um olhar apurado . arranjou o dinheiro . por entre sombras . ao lado de Lila. estava de novo a ficar feia. E de repente . estra­ gaste a vista. desgastada pelos trabalhos da escola. A cor saudável estava a debotar e o acne a regressar. Quer dizer que fora castigada pela soberba de querer estudar? Então e Lila? Não tinha lido muito mais do que eu? Então porque é que ela tinha uma vista perfeita e eu via cada vez menos? Porque é que eu tinha de usar óculos para o resto da vida e ela não? A necessidade de usar óculos aumentou a minha mania de encontrar um desígnio que . estava cheia de sentimentos de culpa pela despesa que as lentes implicavam. Fui ao oftalmologista. e em alguns olhares de Stefano captara a possibilidade de lhe agradar. Por fim o meu pai . e os óculos concretizaram-se . e os olhos aprisionados na moldura da armação . escreveu-me isso no ca­ derno e quis ver a assinatura de um dos meus progenitores no dia se­ guinte . O meu pai ensombrou­ -se . a minha mãe ralhou-me: «Estás sempre em cima dos livros . esqueci-me deles na carteira. Mas Lila agora estava em vantagem. uma manhã surgiu também o espectro dos óculos . ou . e ela conti­ nuando a semicerrar os olhos e a lançar olhares que viam ainda mais. cara larga. graças às suas negociatas na câmara . e essa impressão não se dissipara depois do regresso a Nápoles . Senti-me definitivamente desfigurada e decidi pô-los só em casa. houvera até momentos em que voltara a considerar-me mais bonita do que ela. nariz grosso . Mas um dia. Disse-me que devia ir de imediato a um oftalmologista. . a satisfação redobra­ ra-lhe a beleza. no bem e no mal . com a pupila opaca. a alegria ou a dor de uma pressupunha a dor ou a alegria da outra. Em Ischia sentira-me bonita. consumida pela paixão frustrada por Nino.204 Elena Ferrante Parecia que . ele diagnosticou-me uma forte miopia. devido a uma qualquer magia maldosa. Achei que o aspecto físico também participava dessa oscilação . à saída da escola. Durante a ma­ quinação constante . quando tivesse de copiar alguma coisa do quadro . um falcão. para ajudá-la a desembaraçar-se de Marcello .

pediu-me os óculos. Comecei a chorar. nos torna­ vam indispensáveis uma à outra. o que me impressionou não foi o facto de estarem como novos. que não precisa de óculos.A Amiga Genial 205 Voltei à sala a correr. a pensar: porque é que lhe ficam bem a ela. me desfiguram a cara? Assim que cheguei à porta. Ela tem o Stefano . batendo as pálpebras . Expressou-se com uma de­ terminação diferente daquela que habitualmente tinha. que não posso passar sem eles . o que tenho? Respondi que tinha a escola. Lá em baixo estava Lila.» 43 . talvez com uma pontinha de perfídia: «Pagar em que sentido?» «Dar-te o dinheiro . Murmurei envergonhada que nunca lhe poderia pagar. ora com alegria. e voltei para casa esperando que os meus pais não reparassem que estava sem óculos . Uns dias depois . E com efeito . tentei convencer-me . um privilégio que ela perdera para sem­ pre . A questão do dinheiro deu ainda mais força àquela impressão de que aquilo que me faltava. ora com sofrimento . Tinham uma haste partida. e ela replicou com ironia. ao fim da tarde . mas o pior já tinha acontecido . ela tirou os óculos divertida. ela tinha. Imaginei qualquer intervenção miraculosa de Rino . Contei-lhe o que me acontecera. basta-lhe estalar os dedos e os meus óculos são arranjados num instante . Não tive coragem de ir para casa. com as ferra­ mentas de sapateiro . Disse-me para os deixar ficar. Disse-me: «Fazem-me doer os olhos» .» Sorriu e depois disse . uma lente quebrada. É essa a minha riqueza. orgulhosa: «Não é preciso . mostrou-se mais calma. exclamando: «Que bem que te ficam. Na pressa que nos assaltava a todos depois do último toque da sineta. que . mas sim que lhe ficavam bem. num jogo contínuo de trocas e inversões .» Entregara os óculos a Stefano . deves usá-los sempre . que os mandara arranjar por um oculista da baixa. disse para mim depois do episódio dos óculos . Corri lá abaixo . tinham ido parar ao chão . e vice-versa. naque- . como se já não fosse preciso lutar até ao extremo pelas pequenas coisas . e pôs-mos na cara. ouvi que me chamavam do pátio . E eu . à primeira vista. e a mim. examinou-os . refugiei-me em casa de Lila em busca de auxílio . agora faço o que me apetece com o dinheiro . tinha os meus óculos postos e.

como se via bem durante o almoço em casa de dom Rodrigo . Con­ cluí que ele tinha razão . a cabeça estava cheia. todos eles . Mas isso não aconteceu . deviam forçosamente ordenar-se de acordo com uma hierarquia. ou sobre os romances maravilhosos que eu continuava a ir buscar à biblioteca do professor Ferraro . ele limitava-se a ouvir e . nem para mim olhava. Ela ouvia-me com atenção . Contava-lhe tudo em pormenor. em segredo ou às claras . ia imediatamente à procura dos livros que lhe permitiriam acompanhar-me . em face da frieza com que o tratara. o que ela mostrou foi uma tendência para intervir . Recorria a Lila. ou sobre as relações entre Deus . Raramente via as minhas colegas de escola bem vestidas . As pautas das notas eram cada vez melhores e até o curso de Teologia por correspondência me correu bem. quem vinha primeiro e quem em último? Veio-me à ideia o que Pasquale me dissera uma vez: que embora a minha escola fosse um liceu clássico . depois das fa­ lhas do ano anterior entrara nos eixos . Em vez disso . e em dialecto era difícil conversar sobre a corrupção da justiça terrena. era como se uma parte dela tivesse posto um freio firme na outra. mas não sabia o que fazer a tanta competência. a meu ver. como as raparigas da Via dei Mille . mas agora. quando se divi­ diam em três . não devia ser das melhores . Além disso . Na aula não havia ninguém com quem pudesse conversar sobre as coisas que lia. e eu esperava que ela sentisse curiosidade e regressasse à fase em que . Encontrávamo-nos e faláva­ mos .206 Elena Ferrante le ano os professores . Exibi os meus êxitos como se fossem a pulseira de prata da minha mãe . não dizia nada que estimulasse em mim outros pensamentos . o Espírito Santo e Jesus. Mas quando tentava reflectir com ele sobre os Promessi Sposi. começaram a elogiar-me de novo . E nunca acontecia virem­ -nas buscar à saída rapazes elegantemente vestidos . principalmente nas férias escolares . por timidez ou ignorância. Alfonso era um rapaz diligente . e nesse caso . enquan­ to nos interrogatórios usava um bom italiano . recebi como prémio uma bíblia de capa preta. ou mesmo sobre o Espírito Santo . então? Sentia necessidade de me expressar. O que fa­ zer. e tinha já mais do que suficiente em todas as matérias . com automóveis mais luxuosos do que os de Marcello ou de Stefano . quando falava comigo nunca abandonava o dialecto . que embora fossem uma só pessoa. As qualidades in­ telectuais também escasseavam . sobre as aulas e os professores . ia-se embora de cabeça baixa. sobre as ideias que me ocorriam . O único rapaz que gozava de uma fama idêntica à minha era Nino .

até que aquele tom estabi­ lizou e se tornou o seu modo de me fazer frente . e não o Pai . contei-lhe do meu curso de Teologia e disse. E tu . ou então provoca um terremoto que destrói tudo . Há micróbios por todo o lado . as pontes e as estradas . que é porteiro da câmara. é um só juntamente com o presidente e com o comandante Lauro? E se olharmos para a segunda hipótese . recordo-me . o anel de noivado . até os tornozelos já não eram dois palitos. um seu fluido milagroso? Mas . Lenu? Nós andamos a voar sobre uma bola de fogo . estava a preparar-se para sair com Stefano . Se eu dizia alguma coisa sobre a Santíssima Trindade . Mas vi os olhos fazerem-se-lhe pequeninos . portanto . quem inventou o mundo foi o Diabo . A cada segundo pode acontecer qualquer coisa que nos faz sofrer de tal modo . um casaco novo . E não só naquela ocasião . geralmente de maneira irónica. para impres­ sioná-la com as questões que me andavam às voltas na cabeça. com meia-dúzia de palavras apressadas . De tempos a tempos a lava sai do Vesúvio . como é possível que uma entidade com funções de mensa­ geiro seja um só . Rino e Alfonso . como um mensageiro? Ou uma emana­ ção das duas primeiras pessoas . a voz . e era de facto outra pessoa agora. mais ou menos. são parte da pessoa de quem emanam. o suor. mas cada vez mais . o colar. Nessa par­ te construímos os edifícios . pensei em voz alta. que nos fazem adoecer e morrer. que não sabia o que pensar do Espírito Santo . A parte que arrefeceu flutua sobre a lava.» Lila. Há guerras . Iam a um cinema na baixa juntamente com Pinuccia. como quando tentava agarrar qualquer coisa que lhe escapava. en- . que não há lágrimas que cheguem. bem. no pri­ meiro caso . um chapeuzinho . um fluido . que a sua função não era clara para mim . Disse em dialecto: «Tu ainda perdes tempo com essas coisas . ou não compreen­ do qual é a sua função . deixando-me confusa. mas quase sempre afáveis . Uma vez . Queres ver o colar de pérolas que o Stefano me ofe­ receu?» Foi isto que ela disse . o que fazes? Um curso de Teo­ logia em que te esforças para compreender o que é o Espírito Santo? Esquece isso .A Amiga Genial 207 de uma penada. o Filho e o Espírito Santo . juntamente com Deus e o seu filho? Não será o mesmo que dizer que o meu pai . só para dar um exemplo . que sentido faz considerar o Espírito Santo separado de Deus e de Jesus? Ou o Espírito Santo é que é a pessoa mais importante e as outras duas são uma sua forma de ser. «uma entidade subordinada ao serviço de Deus e de Jesu s . ela. acabava com qualquer possibili­ dade de conversarmos e começava a mostrar-me os presentes de Stefa­ no . um vestido novo . Olhava para ela enquanto vestia uma saia nova. Há por aí uma miséria que nos torna a todos cruéis . «0 que é?» .

Punha de lado ideias . experimentava os vestidos e os objectos de valor. notava quase de imediato que nunca me ficariam bem como ficavam a ela. que por isso me consideravam óptima aluna. começou a oferecer também pre­ sentes à irmã.208 Elena Ferrante quanto as coisas que me apaixonavam. deixar a luz da cozinha acesa ou a torneira aberta. a sua maneira de ser já causava irritação quando ela era uma garota macilenta. ele abria a carteira? Quer vir armar-se em patroa na nossa casa? Se Maria se limitava a um amuo silencioso . com penteados semelhantes . Ambas traziam claramente estampa­ dos no rosto os seus pensamentos maldosos . coerente com o seu feitio conciliador. sobretudo . não só nunca me com­ praste nada. e punha-me a andar. Entretinha-me a admirar todos aqueles presentes que contrasta­ vam com a casa pobre de Fernando . o sapateiro. Maria. Mas . talvez mais bem feita. de Pinuccia. quando via Lila e Pinuccia prontas para sair. criticava a futura nora por qualquer coisa que fizera dias antes . quanto mais agora. Quem é que a filha do sa­ pateiro julgava ser? Que poção maléfica dera a beber a Stefano? Como é que assim que ela abria a boca. por exemplo . desprovidas de sentido . e resmungava: . por portas travessas . 44 . e. depois de ir beber um copo de água. Aliás . com as quais fazia boa figura perante os professores . Ela própria me falou de uma hostilidade crescente da mãe de Stefano e. pouco mais velha do que nós . que era uma mulher cheia de sorte . explodia. Ela não era feia. num tom fingidamente afável . Mas isso só serviu para azedar Pinuccia ainda mais . O que deu origem a um desafio entre as duas raparigas . arranjava sempre maneira de disfarçar. que iam ao cabeleireiro juntas e compravam roupas idênticas . dirigindo-se ao irmão nestes termos: «Porque é que a ela compras tudo . mas o efeito que qualquer peça de vestuário ou objecto fazia no corpo de uma e no da outra não tinha com­ paração . como se tivesse muito que fazer. como as poucas vezes em que comprei qualquer coisa bo­ nita me criticaste . com vestidos parecidos . Em seguida voltava­ -se para o outro lado . murchavam a um canto . livros . A primeira a reparar nisso foi a mãe. dizendo que estava a fazer despesas inúteis?» Stefano mostrava o seu meio sorriso tranquilo e não respondia. Pinuccia não se continha. No papel de noiva. Lila foi muito invejada e provocou não pouco desagrado . e a mim.

pediu um vestido emprestado a Gigliola. Estava tão bem maquilhada. não resignada à marginalidade .» Nós . fomos dominados pela ansiedade: como nos vestimos . Nos dias festivos . em conversas de outro género . sem o admitirem a si próprias . Por fim. e Gigliola. e fizemos o resto do percurso a pé . concluímos que num lugar público. Ada. mais Pinuccia e Rino . sem o admitirem. Aceitá­ mos . e ele pareceu satisfeito . pelo menos Antonio . uma figurinha fascinante em contraluz . nós apanhámos o autocar­ ro até à Piazza dei Plebiscito .A Amiga Genial 209 «Voltem cedo . Ada. não sabíamos o que dizer a Lila. as raparigas do bairro . descobrimos que Stefano já se encarregara do assunto . mas sim um restaurante em Santa Lucia. começaram a ataviar-se . quando chegou a altura de pagar. toda a noite tentou atrair a atenção de Stefano . que trabalhava na pastelaria e que . embora não oficialmen­ te . em competição com Lila. Lila parecia inalcan­ çável . pois era da idade de Stefano e Rino . apaparicámo-lo . impor-lhe os velhos hábitos . e sentira-se tratado como um pedinte . fora da nossa intimidade de amigas . Uma vez no destino . Passámos quase todo o tempo calados . Antonio voltou para casa aborrecido . e se Rino não se incomodou nada com isso . eles pediram com desenvoltura vários pratos e nós quase nada. Gigliola. andava com Michele Solara. Mas o facto mais sig­ nificativo foi que eu e Ada. quanto custaria? En­ quanto eles . talvez impelido pela sua simpatia por Antonio e Ada. prin­ cipalmente . de propósito para as exibir quando andava pelas ruas ou de automóvel . Carmela. Eu . Trouxe­ mos Stefano para o nosso velho grupo . foram na Giardinetta . Stefano e Rino não escolheram uma pizzeria . nem como tratá-la. com receio de fazer má figura. disse a Lila: «Vê se a Lenuccia e os filhos da Melina amanhã à noite vão comer qualquer coisa connosco . que insistia em ser tratada por Carmen .» O «connosco» referia-se a eles os dois . porque Rino e Stefano falaram sobretudo de dinheiro e nunca se lembraram de envolver. depressa começámos a ter problemas idênticos . e trabalhava como eles . De início tentámos impedi-la. tanto mais que um sábado . mas foi uma noite difícil . e Ada. comprava e pedia para ele lhe comprar coisas bonitas . Mas não havia competição possível . receando que a conta fosse pesada para as nossas possibili­ dades. fazendo­ -lhe denguices excessivas que desagradaram ao irmão . mimámo-lo . coisa de gente rica. que parecia a condizer com a Giardinetta . os quatro . com sentimentos diferentes . que agora gostava muito de passar o tempo livre com o futuro cunhado . tão bem vestida. com o descapo- . Antonio e Ada nunca tínhamos estado num restaurante .

desprendia-se dela um brilho . de meses . em casa. a raparigui­ nha que aprendera latim e grego sozinha. se Lila era bonita. po­ dia sê-lo cada vez mais . de que ainda havia vestígios quando tramámos juntas o enredo que a levara ao noivado com Stefano . Ao longo de dias . um vestido novo . O corpo de rapariguinha. e como parecia já tão distante . uma nova maneira de maqui­ lhar os olhos ou a boca. para se proteger. com os seus pre­ sentes . as raparigas da televisão . e ela parecia fazer uso do sigilo que ele lhe impunha. Naquela noite tomou-se evidente que Lila estava a mudar de catego­ ria. Stefano parecia procurar nela o símbolo mais evidente do futuro de bem-estar e de poder que almejava. Eu nada sabia ainda acerca daquilo a que ela em segredo . ir ao cinema paro­ quial ou ir dançar em casa de Gigliola. para viajar de autocarro . enquanto ela parecia ter descoberto a alegria de beber da fonte inesgotável da sua beleza. deslo­ car-se a pé . o pai e os restantes familiares . tomou-se uma senhorinha que imitava os manequins das revistas de moda. de tudo aquilo que confusamente enfrentara e desafiara desde pequena. cha­ mava desmarginação . com o restaurante de Santa Lucia. reli de propó­ sito a carta que ela me enviara para Ischia.210 Elena Ferrante tável . depois da desagradável experiência da passagem do ano . pois um novo penteado . já não a ouvia. para si mesma. e sentir. Stefano . Mas na vida do dia-a-dia não a via. e proteger o irmão . quando ao domingo saía de braço dado com o noivo . estava sempre à coca em qualquer canto da minha mente . as jovens que vira a passear na Via Chiaia. mas fisicamente imprópria para entrar no metropolitano connosco . pensava repe­ tidamente nela. À luz do sol surgiu em seu lugar uma jovem mulher que . Na carta ainda existia a menina que escrevera A Fada Azul. que era como uma violenta bofetada no rosto da miséria do bairro . que ne­ nhum perfil bem desenhado era capaz de a conter de modo definitivo . Como era cativante o seu modo de falar de si própria. Para quem a via. Mas conhecia a história da panela que explodiu . A Cerullo nervosa e agressiva parecia ter-se imolado . dava a impressão de estar a pôr em prática uma cláusula do acordo existente entre ambos como casal . ir buscar uma pizza ao Corso Garibaldi . parecia querer demonstrar ao bairro que . que devorara metade da bi­ blioteca do professor Ferrara . e dar a ver. depres­ sa foi escorraçado para territórios escuros. E recordo-me de que uma noite . eram apenas contornos mais rebuscados que dissolviam os anteriores . e também aquela que desenhara os sapa­ tos agora emoldurados na sapataria. Tive de re­ conhecer que a Lila que escrevera aquelas palavras tinha desaparecido . .

não houve outras oportunidades idênticas . os dentes azulados aqui e ali . havia algum tempo que tinha uma certa dedicação por mim. 45 . Era uma imagem que utilizava com frequência. Além disso . apesar de ela ser mui- .tal­ vez esperasse . com vestidos que a faziam parecer uma actriz ou uma princesa. a morar no mesmo bairro . Ela. as poucas vezes que abria a boca dizia ditos espirituosos .que nenhuma forma seria capaz de conter Lila. penteada como uma diva. Eu . à sua maneira indiferente . tinha uma vida da qual pouco ou nada sabíamos . parecia ter perdido o interesse pelas raparigas . e . sentia que a sua forma anterior se rompera e relem­ brava aquela passagem tão bonita da carta. não porque os noivos não voltas­ sem a convidar-nos . Fazia muito pouco caso de Ada. cada vez que detectava uma fractura dentro dela ou dentro de mim . Porém. a comer uma pizza com o nosso antigo grupo . Mas preferia sair quando tinha a certeza de que Antonio também estaria presente. ia-me transformando numa ra­ pariga desleixada. caixa-de-óculos . quando os trabalhos de casa não me tiravam todas as energias . ou arranjados pela professora Oliviero . embora vivêssemos ambas o nosso décimo sexto ano de vida. ora com uma desculpa. lenta. passava de braço dado com Stefano. dedos robustos com os quais uma vez desaparafusara sem esforço os parafusos de um pneu furado de um carro velho que Pasquale arranjara. deixava-me levar a um baile caseiro . a panela de cobre rebentada e retorcida. Quanto a Pasquale . e que mais cedo ou mais tarde tudo voltaria a despedaçar-se . com o passar dos meses . a Carmela. despenteada. Depois da desagradável noite no restaurante em Santa Lucia. que dava vontade de acariciar.A Amiga Genial 211 Embora continuássemos . Sim. ora com outra. mas porque nos esquivámos . e não exageradamente . era o único que dava pela minha presença. de repente encontrámo-nos em mundos diferentes . embora tivéssemos tido a mesma infância. Enzo raramente aparecia. mas quando estava presente dedicava­ -se . as mãos grosseiras . embora muito tímido . tanto eu como ela. Via-a da janela. que exalavam o mau-cheiro dos volumes comprados com grande sacrifício no mercado de coisas usadas . Sabia . depois de Lila o rejeitar. cheia de atenções . Mas tinha cabelo negro encaracola­ do . a pele do rosto era brilhante e cheia de pontos negros . fazia-me uma corte discreta. inclinada sobre livros esfrangalhados .

pois foi ele que a meteu na­ quela alhada com o Marcello . que ela era uma rapariga demasiado inteligente para se ter realmente apaixonado por um hipócri­ ta de um nabo como Stefano Carracci . nada é fácil . Dizia que ela devia ter fugido de casa. e solas e palmilhas . Nessas ocasiões eu era a única que não ficava calada. embora não lhe tocassem nem com um dedo . com alguns companheiros seus de confiança. era por natureza um rapaz de bons sentimentos e ajuizado . pai de Michele e de Marcello . dizendo coisas do género: não é fácil fugir de casa. Mas o mais infeliz era Pasquale . sem se exceder. com tanta cola que ali havia. embora desse a impressão que ninguém queria men­ cionar o nome dela. comentara que ele podia fazer todos os sapa­ tos que quisesse . em menos de nada tudo pegava fogo . não é fácil ir contra a vontade das pessoas que estimamos. e pez . nunca encontraria um estabelecimento que lhe ficasse com eles . E concluía fazendo . Nesses serões . Contestava-o . sem contar que . caso houvesse um incêndio na sapataria Cerullo . por não ter sabido educar bem a filha. deitar fogo ao bar­ -pastelaria Solara. Mas a respeito de Lila era crítico . teria de se casar com ele . Quando se soube que Silvio Solara. mesmo só de relance . e se a Lila não tivesse arranjado maneira de se livrar do Marcello . Os seus males de amor roíam-no por dentro . Os rapazes sentiam-se todos um bocado desiludi­ dos . No entanto . tinham confrontado Rino . por fim . mais cedo ou mais tarde acabávamos por falar de Lila. e tinha o cuidado de controlar as suas reacções e de tomar o partido que lhe parecia justo . em vez de te zangares com o teu amigo Rino . e . Dizia que ela devia ter partido a televisão com um martelo . olhando em volta. Se não sentisse um ódio antigo pelos Solara. uma noite . mas onde os ia vender depois .212 Elena Ferrante to delambida com ele . Quando se soube que Marcello e Michele . provavelmente ter-se-ia posto publicamente ao lado de Marcello contra a fami1 ia Cerullo . fora pessoalmente à sapataria renovada de Fernando e o tinha censurado . como é natural . em vez de se sentar a vê-la juntamente com quem se sabia que a comprara só para a ter a ela. embora repetisse constantemente que já não podia olhar mais para as nossas caras feias . iria. Pasquale pro­ metera a si mesmo que . E dizia. tirava-lhe a alegria de viver. com todo aquele fio . o haviam coberto de insultos. em vez de aceitar que Marcello fosse lá todas as noites cortejá-la. e ver Lila e Stefano juntos . desaprovava explicitamente as críticas de Pasquale . Pasquale tomara o partido de Rino sem hesitar. qualquer um deles gostaria de estar no lugar de Stefano . e a prova é que tu a criticas . e depois . e formas de madeira.

Pascà. Fazia-se então um profundo silêncio . embora espalhasse veneno para as baratas em frente da porta de casa. quan­ do Pasquale me interrompeu e disse: «A questão não é essa. quando a Lina vai ao cabeleireiro . a ela e a toda a farm1ia. sem papas na língua. e as negociatas e a usura e todas as porcarias de antes e depois da guerra?» . A Lina arma-se em senhora à custa do sangue de toda a gente pobre deste bairro . quando Enzo se intrometeu com o seu destaque habitual : «Desculpa. o que te parece?» «Veio do ouro das mães de família. dava-me razão . num tom e numa linguagem que . ainda antes de se casar. a comer uma pizza no Rettifilo . num local onde uma pizza margherita e uma cerveja custavam cinquenta liras . para dar estabilidade ao irmão e ao resto da família. os calara a todos. que dom Achille tinha escondido dentro do colchão . e se a tua amiga agora aqui estivesse . uns mais . Dessa vez foram as raparigas que começaram.» «E o dinheiro que investiu na sapataria dos Cerullo veio-lhe da char­ cutaria?» «Porquê . e eu sentia-me orgulhosa de ter refutado todas as críticas feitas à minha amiga. fora o único que tivera a coragem de apoiá-la e de ajudá-la. o que significa "deixa que a sustente"?» Bastou-me ouvir aquela pergunta. para saber que as coisas iam acabar mal . Eu estava a dar início à habitual defesa oficial . queres trazer outra vez à baila dom Achille e o mercado negro . palavra puxa palavra. creio . disse que achava Lila ridícula por andar pelo bairro sempre acabada de sair do cabeleireiro e vestida como a princesa Soraya. outros menos. Quem é que paga. A questão é que a Lina sabe de onde veio aquele dinheiro .A Amiga Genial 213 o elogio de Stefano . «Sim.» «Ü Stefano é simplesmente um comerciante que sabe vender. que conheciam Lila desde peque­ na e gostavam dela. para além do mais . E deixa que ele a sustente .» «Ora. e . observei eu . que achava que Lila aceitara Stefano por dinheiro . ora. todos nos rimos .» Eu ia responder-lhe . Pasquale corou . Mas uma noite a discussão tornou-se feia. quando compra roupas e malas? Quem é que investiu dinheiro na sapataria para que o sapateiro possa brincar aos fabricantes de sapatos?» . que de todos eles . Depois . ficou atrapalhado: «Sustentar significa sustentar. Ada. Enzo também . Carmela disse . desculpa lá. Estávamos todos .

mas sim que se vendeu?» Ficámos todos calados . quase num sussurro: «Anda lá para fora.214 Elena Ferrante «Üu seja. deixa o Pasquale responder.» Enzo fez-lhe sinal para se calar. vendeu-se . Pasquale teve um impulso de violência que todos lhe lemos nos olhos . chamo-lhe prostituta. Lenii . tu estás a dizer que a Lina não se apaixonou . mas Enzo tocou-me no braço . não . e disse aquilo que havia meses tinha vontade de dizer. Quanto a mim. desta vez em voz alta: «Eu .» Nessa altura tentei de novo falar.» Impedimos Pasquale e Antonio de o seguirem. nem está para casar com o Stefano . de gritar a todo o bairro: «Prostituta. Enzo . 46 . Contei esta altercação para mostrar como se passou aquele ano e qual o clima que as opções de Lila originavam.» Enzo respondeu . o Pasquale não quer dizer isso. não aconteceu nada. que que­ ria levantar-se . Limitaram-se a ficar amuados uns dias . principalmente entre os rapa­ zes que em segredo ou explicitamente a tinham amado . A Lina comportou-se e está a com- portar-se como uma prostituta. agarrou num braço de Pasquale . quero saber o que é que o Pasquale chama a uma mulher que se vende . E esteve-se marimbando para o fedor do dinheiro que gasta todos os dias . Antonio gaguejou: «Claro que não . a tinham deseja­ do . com ar sombrio: «Sim. é uma crítica que todos nós temos von­ tade de fazer.» Pasquale disse .» Antonio saltou da cadeira. e com toda a probabilidade a amavam e a desejavam ainda. «Desculpa. tu sabes que ele quer bem à Lina. não exageremos. é difícil dizer a embrulhada de sentimentos em que me encontra- . anunciando: «Espero pelos dois lá fora. O Pasquale está apenas a dizer uma coisa que não é uma acusação .» Enzo pôs-se em pé e disse . Anta ' .» Aqui . depois tudo se normalizou . Enzo . e disse: «Então .» E dirigiu-se para a saída. como todos nós queremos . não está noiva. «Tu cala-te .

agora exibia por cima da velha porta uma espécie de placa com a palavra «Cerullo» . e dava-me gosto fazê-lo . em suma. Sabia-se . que tudo andava ao rallenti e que os trabalhadores . não podiam ser feitos como Lila os inventara. Fernando . Rino e os três aprendizes estavam ocupados a juntar. Eu deitava uma olhadela e seguia em frente . Sabia-se que Fernando afirmava que os sapatos . gostava de me ouvir falar com a autoridade de alguém que anda a estudar maté­ rias difíceis . até mesmo com algum exagero . e que depois Rino as alterava. Mas ficavam-me grava­ dos os pequenos quadros pendurados nas paredes . Lila. como era evidente . pespon­ tar. Passava em frente da velha oficina de Fernando e experimentava um sentimento de vitória por ela. para Lila. Sabia-se que Lila respondia que já não queria saber do assunto . vendê-los não tem nada a ver. que as ti­ nha pendurado ali justamente para esse fim. até chegar àquele re­ sultado: ter estabilidade . Sabia-se que Rino afirmava o contrário e que ia ter com Lila e lhe pedia para intervir. debruçados sobre as mesas . . sorria de si para si e dizia serenamente que queria os sapatos exactamente como se viam nas folhas quadriculadas . conseguira o que queria. recebiam ins­ truções de Fernando . Mas sabia que também seria capaz de contar com o mesmo prazer. e chegava Stefano e ponto final . e tudo parava e recomeçava-se . acabavam aos gritos e a partir coisas . por ser adorada por aquilo que é e por aquilo que sabe inventar. Sabia-se que pai e filho discutiam muito . e que por isso Rino ia ter com Stefano e o arrastava até à ofi­ cina para que fosse ele a dar ordens precisas ao pai .A Amiga Genial 215 va. primeiro . celebrada por Stefano só por amor. tentar realizar o pro­ jecto da fabricação de sapatos . por ser tão amada e por amar. e que Fernando se apercebia das alterações e voltava a alterar. Agora que deu ao irmão o que o irmão queria. que Lila estivera por trás de todas as movimentações de Stefano . Esta trabalheira toda é o re­ sultado final de uma veia artística dela. o dinheiro não tem nada a ver. dar estabilidade ao irmão . É uma felizarda. martelar e esmerilar desde manhã até alta noite . e eu com ela. foram uma fantasia. ligando um passo a outro passo como se fosse um problema de matemática. sobretudo os de mulher. que nunca tivera nenhuma tabuleta. A sapataria. Sabia-se que Stefa­ no ia com ele e olhava muito tempo para os desenhos de Lila emoldu­ rados na parede . É uma felizarda. parágrafo . Defendia Lila e m todas a s ocasiões . e também ter onde ir buscar dinheiro para mandar consertar os meus óculos se eles se partissem. que não passavam de uma fantasia de criança. agora que o afastou dos perigos . Dizia para mim: «Aqueles desenhos .

para me dizer que nunca faria essa coisa a homem ne­ nhum. pois metia-lhe nojo. antes que aconteça alguma coisa má. ela lhe fazia um broche todas as noites?» Eu ignorava o que fosse um broche . Lila assentou no papel de noiva de Stefano . estás doido?» Stefano apressara-se a res­ ponder que acreditava nela. e que lhe fizera . Mas receava que ela se enfureces­ se e que .» «0 Marcello assim o diz . e que ele lhe perguntara que tipo de relações houvera entre ela e Marcello durante o período em que ele frequentara a casa dos Cerullo . quando eu arranjava algum tempo . uma casa.216 Elena Ferrante inventará outra coisa de certeza. me pareceu sempre satisfeita com aquilo que era. pensava: talvez seja melhor avisar Lila. Por isso não quero perdê-la de vista. Mas por fim decidi-me. Mas o Stefano sabe que quando o Marcello ia a casa dela. Conhecia a palavra desde miúda. «Não é verdade . Gigliola disse-me com rancor. a não ser o casamen­ to . Ela respondera-lhe com raiva: «De nenhum tipo . quando . estaria preparada para enfrentar a situa­ ção . Parecia adocicada. se dirigisse directamente a Marcello Solara com o trinchete .» «É um mentiroso .» Mas não aconteceu nada.» Esperei que aqueles boatos não chegassem aos ouvidos de Stefano . Depois disse-me que o boato já chegara aos ouvidos de Stefano . era melhor contar-lhe o que me disseram. Percebi isso pelo facto de ela ter usado uma expres­ são mais clara. devido à maneira como crescera e devido ao feitio que tinha. em dialecto: «A tua amiga agora parece uma princesa . filhos . sem as asperezas de sempre . e mais . mas o seu som sugeria-me só uma espécie de afronta. quanto mais a Marcello Solara. algo de muito humilhante . Alguma coisa há-de acontecer. pelo menos ela ficava a saber de tudo. como se já não visse nada para além disso . pela boca de Gigliola Spagnuolo . não quisesse ver mais nada. E até nas conversas que tínhamos .» «Ai sim? E também conta mentiras ao irmão?» «Foi o Michele que te disse?» «Sim. Descobri que ela estava mais bem informada do que eu acerca do que era um broche . que nunca tivera dúvidas . Fiquei decepcionada. Cada vez que voltava da escola. Dei-me conta disso algum tempo depois . me chegaram aos ouvidos boatos insultuosos a seu respeito .

Mas ela e Stefano . Não reagiam às ofensas . Confessara-lhe que também ela sentia uma necessi­ dade de vingança. subir um degrau mais acima do que os Solara. Stefano continuara entregue ao seu trabalho sem defender a honra da noiva. arrancar-lhe a velha pele e impor-lhe uma nova. e da lógica do bairro . Quando saíam os dois a passear.» E assim . que lhes estavam a fazer os Solara. brincavam. o avô . Mas entretanto fizera uma expressão ausente. Parecia-me mais claro o comportamento dos Solara. nos romances que lia. Saí de lá estupefacta. todos . com a aprovação dos pai s . sempre vestidos como actores de cinema. admirada. O que se estava a passar? Não compreen­ dia. «Um degrau mais acima?» . mesmo sem querer. Via-os às voltas no descapotável . «Sim. ignorá-los: o Marcello . realmente intolerável . adequada à que estava inventando para ela? . o irmão . o pai . perguntei-lhe . onde pensavam que viviam? Comportavam-se de uma maneira que não se encontrava sequer nos poemas que eu estu­ dava na escola. riam.A Amiga Genial 217 aquela pergunta s ó para que ela soubesse que Marcello andava a dizer porcarias a respeito dela. de quem. nem àquela. Lila continuara com a sua vida de noiva sem recorrer ao trinchete ou a outra coisa. é influenciado por cenas de chacina que se lhe formam na mente. Lila reparara nisso e discutiram o assunto du­ rante muito tempo . parecia que nenhuma das velhas regras era válida para eles. Mas de que servia isso? Falaram e voltaram a falar e decidiram. Mostravam gentileza e cortesia com toda a gente . mais coerente com o mundo que conhecíamos desde crianças . fa­ zendo o que lhes apetece sem dar importância ao que as pessoas dizem . Fazer de conta que não existem. so­ zinhos mesmo à noite . o que tinham em mente . Era Lila que andava a persuadir Stefano àqueles comportamentos que faziam deles o casal mais admirado e mais falado do bairro? Era aque­ la a última novidade que ela inventara? Queria sair do bairro continuan­ do no bairro? Queria arrastá-lo para fora de si mesmo . e pensava: vão sei lá para onde sem ninguém a acompanhá-los . de comum acordo . com a aprovação de Rino . beijavam-se na boca. como se fos­ sem John e Jacqueline Kennedy em visita a um bairro de indigentes . e não às escondidas . e os Solara continuaram a divulgar obsce­ nidades . Estava perplexa. com o braço dele em volta dos ombros dela.

quando eu . Pasquale continuou a vida de pedreiro . Carmela. e respondeu: «Tu percebeste . Mas eu e Carmela sabíamos muito bem que os agressores eram só três e ficámos muito preocupadas . como se fossem eles os noivos . como se já não tivesse braços . Pasquale e Antonio andávamos a passear na rua larga. todos eles . Carmela entre o irmão e Enzo . pescoço . Enzo nas suas voltas com a carroça. porque se enfurecem tanto? Lila não é irmã deles . e sempre acompanhados por quatro ou . Ele . no meio . mas não sabiam dizer por quem. E não só: os dois irmãos haviam sido agredidos com selvajaria. Fora reduzido a pedaços . Tudo reentrou bruscamente nos carris habituais quando os boatos a respeito de Lila chegaram aos ouvidos de Pasquale . No dia seguinte e durante muitos dias houve um grande falatório acer­ ca do II 00 dos Solara. com os nossos ouvidos: «Eu parto a cara àquele cagalhão . Aconteceu num domingo . perguntei-me . Pasquale reagiu logo: «Esteve como?» Antonio ficou embaraçado . anda a fazê-la passar por prostituta. Vi-os afastarem-se . a certa altura levantou a voz e ouvimo-lo bem.» Afastaram-se . Antonio a de mecânico . Enzo . um dia. Dali a pouco acompanharam-nos a casa. principalmente . um pouco perturbados . Antonio e Pasquale . falaram um com o outro . Esperámos pelas inevitáveis represálias . durante algum tempo só se deslocavam a pé . três . Mas tomou­ -se evidente que as coisas tinham sido bem feitas . nem sequer prima. mal­ tratados .» Enzo não pestanejou . um de cada lado . vagueámos indolen­ temente . No entanto sentem-se na obrigação de se indignarem . reuniram-se a nós .218 Elena Ferrante 47 . Antonio disse: «Constou-me que o Marcello Solara anda a dizer a toda a gente que a Lina esteve com ele . que Enzo se tornava fisicamente mais compac­ to . dois . que havia pouco tempo dissera o que dissera. que era o mais baixo . devido à minha presença e à de Carmela. pare­ ceu-me ridículo . Juravam que tinham sido espancados numa ruazinha escura. quem não lho permite de certeza é o abai­ xo-assinado . Mas se o Stefano lho permite . muito mais do que Stefano . mais do que Stefano . Enzo . Pasquale . Porquê . por dez pessoas pelo menos .» Depois . Vi e ouvi que Pasquale se enfurecia cada vez mais . eu a conversar com Antonio . gente vinda de fora. Já os Solara. pernas . e fosse um bloco de matéria dura. silêncio .

Senti mais forte do que nunca a insignificância do meu percurso escolar. 1 2 de Março . se casaria. E o pior foi não me restarem dúvidas de que a sorte dela seria melhor do que a minha. mal roçara nos lábios de Nino . Senti-me uma sombra. ela anun­ ciou-me que na Primavera. a hostilidade de Maria.A Amiga Genial 219 cinco amigos . O facto de já haver uma data concreta deu também um carácter concreto à encruzilhada que iria afastar as nossas vidas uma da outra. Sinal de que Lila talvez tivesse ra­ zão . contra uma porta. eram nove . De­ pois o tempo passou . O professor Gerace e a professora . Quando Lila me anunciou o casamento estávamos em Junho . E no fim de contas . e dentro de um ano . Beijara Gino uma vez . em Março . Aquela notícia abalou-me . anos antes . No dia seguinte fui fazer o exame sem vontade nenhuma. Confesso que me deu prazer vê-los naquele estado . por sua vez . com dezasseis anos . permitindo que a raiva pérfida de Pinuccia. e depois mais outro . e suportara os contactos fugazes e imundos do pai dele . Senti vergonha de mim. Era tudo . Mas suce­ deu algo que me fez sentir melhor. claro . ela agora já não atribuía qualquer importância aos livros. como a Fama na Eneida . um filho . Lila. e outro . consumissem Ste­ fano e o levassem a romper o noivado . os boatos espalhados por Marcello Solara. só para pare­ cer invejável aos olhos de Lila. mas agora que fora fixada uma data. vi claramente que o iniciara. mas não conseguia encontrar um desígnio coerente no afastamento dos nossos destinos . Já era previsível . pareceu-me ter batido . mais prepotentes do que antes . teria um marido . Tive pensamenfos mesquinhos . que continuavam a voar de boca em boca por todo o bairro . não dormi nessa noite . um estilo que eles nem eram capazes de imaginar. Sãos e sal­ vos . Desisti de me preparar para o exame . Gente daquela laia tinha de ser combatida através de um estilo de vida superior. ainda com dezasseis anos. e outro . Juntamente com Carmen e Ada critiquei Ste­ fano e também Rino . 48 . Marcello e Michele compraram uma Giulietta verde e recomeçaram a comportar-se como donos do bairro . chorei de desespero . por distracção . Senti orgulho nos meus amigos . Quando estavam a decorrer os exames do segundo ano do secundário . Nove meses talvez fosse muito tempo . Contei os meses . por terem feito de conta que nada acontecera. Pensei na minha magra experiência amo­ rosa. a poucas horas das provas orais. aos dezassete .

elogiaram muito o meu trabalho de Italiano . e é como se nunca a ti­ vesse tido . e o meu pai disse-me que fosse imediatamente a casa da professora Oliviero . disse . mas também porque não estava bem de saúde . cada vez que tinha de escrever: livrar-me do meu tom artificial . mas não deram importância nenhuma ao acontecimento . mas sem entusiasmo . Não era a forma de escrever de Lila. Quando ouvi as minhas palavras na voz do professor. o . Estava com o noivo . A minha mãe achou o meu sucesso escolar perfeitamen­ te natural . a minha mãe gritou: «E se ela te quiser mandar outra vez para Ischia. às co­ xas e ao cu . diz-lhe que eu não estou bem e que tens de me ajudar em casa. E aos meus professores parecia algo realmente fora do normal . desde que a conhecia. em especial . Passei para o primeiro ano do liceu com dez em tudo . Depois pronunciou uma frase que recor­ darei sempre: «A beleza que a Cerullo possuía na mente desde pequena não encontrou saída. o problema que tinha na boca inco­ modava-a muito . Em vez disso . mas em minha casa ninguém se admirou nem me felicitou .» Mas não foi isso que me impressionou .» A professora elogiou-me . como profes­ sora. Naquele dia disse «CU» . Vi que estavam satisfeitos . para ela se lembrar de me arranjar a tempo os livros para o próximo ano . Não fez qualquer referência à minha necessidade de descanso . que fazia parte do júri . e fiquei contente .220 Elena Ferrante Galiani . O único que me felicitou sem meios termos foi Alfonso .» Nunca a ouvira dizer um palavrão . Senti que a admiração dele era genuína. Foi a mágoa. lugares onde depressa desaparece . e foi-lhe toda parar à cara. Quando ia a sair. isso sim . nem à prima Nella. Senti-me a sua aluna mais bem conseguida e fui-me embora aliviada. naturalmente . Fez questão de ler uma passagem ao resto do júri . das frases muito rígidas . E só ao ouvi­ -lo me apercebi daquilo que procurara fazer nos últimos meses . ao peito . começou a falar de Lila. que também passou . como se a professora se tivesse apercebido de que alguma coisa em Lila se desperdiçara porque ela. compreendi que tinha conseguido . era a minha. enquanto a professora Galiani ouvia e aprovava em silêncio com a ca­ beça. com sete em tudo . tentar uma escrita fluente e sedutora como a de Lila na carta de Ischia. e depois gaguejou: «Desculpa. disse que a minha exposição melhorara muito . para minha surpresa. Vira-a na rua. o charcuteiro . de longe . não a protegera e não a desenvolvera bem. não só porque tam­ bém ela já tinha como certo o meu bom aproveitamento . nem a Ischia. Gerace . Greco .

Perguntei ao vendedor de jornais. Apertou-me com força contra ele e deu-me um beijo na face . Fiz menção de me ir embora e ela chamou­ -me e disse: . disse-me que voltasse no Outono .» «0 que queres tu dizer?» «Quero dizer que tu és melhor.» «A Lina também. o dono da mercearia da rua larga. Não fomos . mais por decisão da minha mãe do que do meu pai . Achei intolerável que todos tivessem terror do meu pai . fez uma coisa inconveniente . um beijo ruidoso . pediu desculpa. Levou tempo a responder-me . se preci­ sava de uma caixeira. Diante das pautas afixadas . Aliás . ela começou a rir. na presença dos nossos colegas e dos respectivos pais . e aquela miúda não . como se se tivesse esquecido de que eu era rapariga e que não devia tocar-me . Ele estava condenado a passar o Verão na charcutaria. durante algum tempo tentou não te vencer.» «Não foi por isso . mas não agora. largou-me de imediato . mas não se conteve e gritou: «Dez a tudo.» No regresso a casa falámos muito do casamen­ to do irmão e de Lila.» Também isso me deu prazer. per­ guntei-lhe pela primeira vez o que pensava da futura cunhada. Fui falar com a dona da papelaria. mas depois decidiu vencer e humilhou-me . Desatámos a rir.» «Em que sentido?» «No sentido que o meu irmão tem mesmo muita coragem para casar com ela.» «Perder custa muito . sim . sem qualquer interes­ se . eu em primeiro lugar. todos vocês tinham medo do meu pai . Voltei para casa a chorar. quando nos despedimos ainda ríamos . levado pelo entusiasmo .A Amiga Genial 22 1 que me deu prazer. Nada. casaria contigo . dez a tudo . Precisava. Perguntei a dom Paolo . Prometemos encontrar-nos . Também não precisava de mim. Depois ficou atrapalhado . Depois disse: «Lembras-te daquele desafio que nos obrigaram a fazer na escola?» «Quem é que se conseguiria esquecer?» «Eu tinha a certeza de ganhar. Como me sentia muito à vontade com ele . e que se tivesse sido eu a escolher. impossível . e eu . irmos à praia juntos pelo menos uma vez . devia procurar um trabalho para o Verão .» «Estavas apaixonado por ela?» «Estás a brincar? Sempre me fez sentir acanhado . Nos dias seguintes andei às voltas pelo bairro . quando reabriam as escolas .» «Sim.

e também o meu namoro .e a pagar-me bem . um trabalhador.222 Elena Ferrante «Tu és uma rapariga muito séria. Teve início o meu trabalho . e que tinha um nome estrangeiro . mulheres abastadas com muito tempo livre . pareceu-me uma coisa nada diferente da aprovação com dez em tudo . Dirigi-me para casa muito excitada. Poucos passos dera. tomar banhos de mar. Eras capaz de levar as minhas miúdas a banhos?» Saí da loja muito feliz . evitara-o sempre e nem fora ver se ele passara no exame e com que notas . Duran­ te meses estudara afincadamente .se eu levasse à praia as suas três meninas . e levava­ -as para aquele sítio cheio de cor. Quando Antonio . e ele deve ter-me lido no rosto que aquele era um momento feliz . disse-lhe logo que sim. mar azul. 49 . chamava-se Sea Garden . mulhe- . A senhora da papelaria arranjou-me uma espécie de passe . embora amasse outro . Mar. em fato-macaco. Fiquei contente . Como tudo é agradável . Mas agora sen­ tia-me bem e queria sentir-me ainda melhor. nos autocarros à cunha. intuindo que a minha disposição era favorável . nunca mais poderia acompanhá-la. um adulto . da idade de Stefano . sentindo-me só e feia. Teria de ir todos os dias a um sítio entre Mergellina e Posillipo . qualquer pessoa que tivesse encontrado naquele momento de alegria seria bem acolhida. Lila ia dar um salto definitivo para fora da minha vida. estudantes . durante todo o mês de Julho e os primeiros dez dias de Agosto . e de receber uma remuneração pela tarefa de levar as filhas da senhora da papelaria ao Se a Garden . Lenu . Contei-lhe logo a respeito da senhora da papelaria. Ele vira-me passar e correra para me apanhar. do qual nada sabia. sol e di­ nheiro . guarda-sóis . pensei . como se a minha vida ti­ vesse dado uma volta decisiva. plataformas de cimento . Embora tivesse a certeza de amar Nino Sarratore . e eu todas as manhãs atra­ vessava a cidade com as três meninas . ficar bonita por apanhar sol como no Verão pas­ sado . tenho confiança em ti . Tê-lo a ele como namorado . cheio de nódoas de gordura. A senhora estava disposta a pagar-me . embora não sentisse por ele mais do que um pouco de simpatia. e essa impressão de horas felizes consolidou-se . Encontrei Antonio . me perguntou se eu queria namo­ rar com ele . quando o dia está bom e todas as coisas boas parecem estar só à nossa espera. Ia ganhar dinheiro para os meus pais .

A Amiga Genial 223 res vistosas com rostos vorazes . tomava longos banhos com elas . Uma tarde . Tratava com bons modos os banheiros que tentavam meter conversa. manifestava uma tal dependência absoluta de mim por aqueles escassos contactos nos pauis . deixava-as beber tempo sem fim do repuxo de uma fonte de pedra. e também detestava queimar-se ao sol . ao domingo . a emoção forte . Antonio acabava por ser apenas um fantasma útil para evocar. Regressávamos ao bairro no final da tarde . Íamos até aos pauis por ruas secundárias . Ele era­ -me tão grato . sempre atenta para que não escorregassem e partissem os dentes na pia. Mas fazia-o por mim. esguia. Alimentava-as . com um lindo biquíni vermelho . duro . levantei os olhos um instante e vi uma rapariga alta. ia comigo e com as meninas para o Sea Gar­ den . Mas nunca me senti culpada. Não me viu e eu não soube se devia chamá-la. Também entretinha as meninas com palhaçadas e mergulhos de atleta. eu própria lhe apertei o pénis . embora ganhasse muito pouco . tinha medo de ser vista pela minha mãe e . pois ao longo do dia não era possível beijarmo-nos ou tocarmo-nos . Numa dessa ocasiões . que o prazer que eu lhe proporcio­ nava era de longe superior àquele que ele me dava. salgada da água do mar. enquanto nos beijávamos . Por vezes . Trazia óculos de sol e uma . elegante . exibindo o fato de banho que Nella me fizera no ano anterior. que o pai de Nino me provocara. brincava com elas . grosso . Devolvia as meninas à mãe e corria ao meu encontro secreto com Antonio . escondido dentro das calças . só para estar comigo . talvez ainda mais . sem qualquer recompensa imediata. por um lado . Era Lila. movia-se como se naquele lugar apinhado de gente não estivesse ninguém . De­ pressa o deixei tocar-me nos seios e entre as pernas . Aceitei aquelas práticas com duas perguntas claras no pen­ samento . e por outro . Já ha­ bituada a ter os olhares dos homens pousados nela. Enquanto ele brincava com elas . para acompanhá-la ao guarda-sol . A primeira era: Lila faz estas coisas com Stefano? A segunda era: o prazer que sinto com este rapaz é o mesmo que senti na noite em que Donato Sarratore me tocou? Em ambos os casos . Gastava muito dinheiro com falsa desenvoltura. pela professora Oliviero . Foi com ele que troquei os primeiros beijos verdadeiros . os amores entre Lila e Stefano . Olhava pela meninas . queimada do sol . nem sequer o jovem banheiro que a precedia. difícil de classificar. que depressa me convenci que ele é que estava em dívida para comigo . eu estendia-me ao sol a ler e dissolvia-me no interior das páginas como uma medusa. e quando ele o tirou para fora segurei-o na mão com prazer.

» «Deves dar mais valor a ti . sanduíches . os cigarros. O banheiro abrira-lhe a ca­ deira de repouso e ela estava sentada ao sol . Esperemos que ela me chame . A certa altura Stefano levou-nos todos ao bar e pediu tudo o que era bom.» «A minha mãe acha que ela me paga de mais. e voltei a olhar para o livro . tentei ler. Ainda não lhe contara a respeito do meu traba­ lho .» «Darei mais valor a mim quanto tiver de levar os teus filhos à praia. pen­ sei . levei dali as garotas para que não os incomo­ dassem. bebidas . «Quanto te paga a dona da papelaria?» . Lila foi comigo . e Antonio apontava para mim. recordo-me de que o romance era Oblo­ mov . gelados . a que ela respondeu com idêntica animação . captar o sentido das palavras . o isquei­ ro . fato de banho azul. Quando ergui de novo os olhos . perguntou-me .» «Gostas dele?» . Entretanto Stefano estava a chegar. não demorei a olhar de novo naquela direcção . e desta vez consegui realmente . voltando­ -se de imediato para chamar Stefano . muito branco . tanto so­ bre uma coisa como sobre a outra. enquanto Antonio olhava pelas filhas da senhora da papelaria. Procurei-a com o olhar e vi que estava a falar com Antonio . Beijou Lila nos lábios . Tomámos banho os três juntos . Disse-lhe quanto . mas logo a seguir brincou . mas já sem conseguir ler. conversa em que Antonio fez um brilharete . e as crianças abandonaram imediatamente Antonio e viraram todas as atenções para ele . sei quanto vale passar o tempo contigo . Foi um dia de aparente alegria. Mais uma vez . como os príncipes fazem com as belas adormecidas e. Fiz-lhe um adeus animado . sentou-se também numa cadeira de repouso . quando se referiu a Antonio: «Ele conhece o teu valor?» «Somos namorados há vinte dias . Todavia. Não estava. Lila já lá não estava.» «Dar-te-ei baús cheios de moedas de ouro . Stefano continuava sentado a olhar para o mar. Estava havia muito tempo habituada a auto­ disciplinar-me . É provável que receasse a opinião dela. durante alguns minutos . Lenu .» Olhei para ela. por sua vez . «É pouco .224 Elena Ferrante bolsa de tecido colorido . Quando os dois rapazes começaram a falar de não sei que problemas do descapotável . nem de Antonio . na mão a carteira. para ver se estava a brincar.

ao sol . Já na rua. mas mais do que de ti . séria: «Imenso . Pensei que se Lila voltasse a aparecer no Sea Garden lhe perguntaria o que se passava entre ela e Stefano quando se afastavam sozinhos no carro . mais do que do Rino?» «Mais do que de todos . falou com Stefano . é bom conver­ sarmos assim. talvez nem tudo esteja terminado. que concordou .» «E então?» Desafiei-a com o olhar. davam-nos mais prazer.» «Mais do que dos teus pais . ela nunca mais foi ao Sea Garden . milagrosamente . «Porque eu e tu somos mais bonitos e mais finos» . nos sentimos à vontade . 50 . Afeiçoei-me a Antonio quase sem dar por isso . se não me perguntou que livro estou a ler. Lamentou muito e agradeceu calorosamente . eram horas de levar as meni­ nas à mãe . em que todos . Melina e Ada lavavam as escadas dos prédios . Faziam as mesmas coisas que eu e Antonio fazíamos . e ele ganhava quatro liras na oficina. Depois o sol começou a declinar.A Amiga Genial 225 «Não .» «Estás a gozar comigo. repreendi-o . respondeu . paciência. Disse-lhe: «Venho para aqui todos os dias . não . alguma coisa perdurará en­ tre nós . ou mais ainda. «Tu gostas do Stefano?» Respondeu . zangada. Porque não vens também?» Entusiasmou-se com a ideia. sentadas no cimento quente . quase lhe gritei em dialecto . Foi um dia maravilhoso . assim que Stefano e Lila se afastaram no descapotável . pensei: mesmo que esteja a gozar comigo . e ficou a saber que Antonio já pagara tudo . . se não quis saber como me correram os exames da secundária. com os pés na água. Stefano dirigiu-se à caixa. por exemplo as coisas que lhe atribuíam os boatos lançados pelos dois Solara? Não tinha mais ninguém com quem fazer comparações senão com ela. «Porque é que tu pagaste?» . Mas não houve oportunidade de lhe fazer essas pergun­ tas . Os nossos jogos se­ xuais tomaram-se um pouco mais audazes . mesmo depois de casada.» No entanto . paciência.

dizia que ele viera buscá-la. sabia que iria amá-lo sempre . com medo de que Sarratore tivesse realmente aparecido nas ruas do bairro . Andava preocupado . deixar que nos acari­ cie . Lila gosta imenso de Ste­ fano . com a impressão de ele ter entrado pela janela e se encontrar no meu quarto .» E acrescentou com malícia: «Pensa na Lina Cerullo . ao contrário do que eu lhes recomendara. Fiquei ansiosa. a quem ela chamava Donato . Todos julgam que ela é má e eu boa. acariciar uma pessoa. Dizia para comigo: não se pode beijar. Até ao fim do mês . tenho de estudar muito.» À tardinha. então não é verdade?» Aquela resposta enterneceu-me e impediu-me de lhe dizer que tínha­ mos de nos deixar. em vez de me censurar. e embora elas . Mas ele era tão afectuoso . descontrai-te um pouco por favor. nos Maronti . custa-me . Com o calor. abraçou-me e disse: «Ainda bem . pensei : deve estar de férias em Barano . irónico: «Porquê . Voltara-lhe à lembrança Sarratore . eu amava Nino . Melina geralmen­ te piorava. Depois se­ renei . e os filhos não sabiam como acalmá-la . aqui não . as coisas que ela faz . com este calor. tão apaixonado . mas temos de acabar. e todas as tardes ia para o nosso encontro nos pauis com o discurso preparado . que me faltava a coragem e ia adiando . e que não andasse à procura de Melina mas de mim. vai ser um ano difícil .» Ele beijou-me e murmurou . disse a Antonio: «Foi sempre assim. e sentir só um pouco de afeição por ela. afecto não era amor. A dona da papelaria ficou muito satisfeita com o modo como eu tomara conta das meninas . contassem à mãe que às vezes um rapaz meu amigo ia connosco à praia e davam belos mergulhos com ele . mas agora a escola vai reco­ meçar e este ano vou para o primeiro ano do liceu . desde pequenas . e acabou-se também a alegria do sol e do mar. . as moscas . Era uma decisão que me parecia urgente . Depois do feriado de Agosto . Será no feriado de Agosto . Sentia que era necessário . eu não gosto de Antonio . és demasiado ajuizada para a tua idade . nos pauis . Dizia que o tinha visto . Pensava falar com ele calmamente . ela . De noite acordava sobressaltada. O tempo foi passando e nunca mais encontrava o momento certo para falar com ele .226 Elena Ferrante Em meados de Agosto o meu trabalho acabou . mas na segunda metade de Agosto piorou declaradamente . ajudaste-me muito num momento em que estava triste . queria dizer-lhe: foi um tempo bom. decerto . tenho matérias no­ vas . a poeira.

ouvi chamar por mim. mas és muito melhor do que aquele homem . não sabia o que fazer. Disse que não pensava senão em mim . Então parei e sussurrei-lhe que me deixasse em paz . disse que nunca lá iria. na boca de lábios finos . que gostaria de mos ler.» Voltou-se com relutância. ele veio atrás de mim. Chamei-o: «Senhor Sarratore . na rua larga. e ele fez um sorriso de contrariedade . quando ia fazer as compras . senti que ti­ nha um peso em cima dele que lhe afrouxava o passo . se suicidava. Antonio ficou melancólico . Inclinou-se para me beijar. Uma parte dele estava furiosa. Donato Sarratore andava pelo bairro . e por causa de Lila. e que . Murmurou que esperaria por mim para sempre . mas agora está intimidado . cheia de acanhamento . e afastou-se . Fiquei aterrorizada. é uma pessoa importante . Antonio estava taciturno . Disse que queria encontrar-se comigo . tive vontade de o sacudir e de lhe gritar: tu não es­ creveste livro nenhum. para ele . falar comigo à vontade . Murmurou: «Tu és inteligente . No dia seguinte fomos ao túnel . Quando Sarratore nos viu ao longe . Pensei com raiva: foi capaz de enfrentar os Solara por causa da irmã Ada. Segui em frente . que tinha um namorado e que nunca mais queria vê-lo . que sem mim não podia viver. Senti-lo naquele estado tornou-me mais determinada. caminhava sem pressa. Que me pedi­ ra para dizer a Melina que estaria sempre à espera dela. em Barano . Nessa mesma tarde . Disse que sofrera por não me encontrar em casa de Nella. eu saltei para trás com um gesto de nojo .A Amiga Genial 227 Mas uma manhã. Disse que para dar uma forma ao nosso amor escrevera muitos poe­ mas . todos os dias ao meio-dia. Depois centrei o olhar no bigode preto . Não dormi toda a noite com a preocupação . Voltei-me . Limitei-me a dar-lhe o braço . eu levo-te os poemas de que mais gos­ to» . e a princípio não o reconheci . Decidi recorrer a Antonio . nos pauis . nas feições agradáveis douradas pelo sol . que todos os dias ao meio-dia estaria à entrada do túnel . apenas porque Donato Sarratore . de prestígio . Abanei a cabeça energicamente . e a outra. murmurou: «0 que devo fazer?» Disse-lhe que eu própria o acompanharia ao local de encontro . disse-lhe que a mãe tinha razão . se eu me recusasse . és sensível . Que fora ter comigo na rua. tentou desaparecer à pressa no escuro do túnel. no outro Verão . à entrada do túnel . . e que falaríamos os dois claramente com ele sobre o estado de saúde da mãe . Ficou desesperado .

fez-me sinal para me calar.» «Então . olá Antonio . não apareça aqui no bairro . senhor Sarratore . A minha mãe .» Sarratore atrapalhou-se: «Antonio . é o filho mais velho da dona Me- lina. e disse-lhe . Agradeço-lhe sobretudo por me ter arranjado emprego na ofi­ cina do senhor Gorresio . devia ter. e ele agora vai dizer-lhe tudo . nervosa. mas Antonio . e esforçando-se para falar em italiano: «Estou muito contente de o ver. se o vir nem que seja só uma vez . na praia dos Maronti . ele usara-a muito em Barano .» «Ah . encolheu a cabeça. coisa que nesse tempo era fora do normal no nosso ambiente: «Não sei se se lembra do Antonio . está bem. Prosseguiu: «Mas o senhor já não vive aqui no bairro e a situação para si não é clara.» «Diz-lhe da tua mãe» .» «Isso não me podes pedir. disse Sarratore com uma voz cálida. vai parar ao manicómio . Conhecia-a. acariciante . empurrando-o com os dedos fortes . Ele irritou-se . e estendeu uma mão até ao tronco de Donato Sarratore . pressionei-o . se quiser continuar a ajudá-la. mui­ to pálido e tenso . passa-lhe para sempre a vontade de re­ ver estes sítios de merda. antecipou-se . para meu espanto . Mas prometo-lhe que se o senhor tirar à minha mãe o pouco tino que lhe resta.» .228 Elena Ferrante Disse-lhe .» Sarratore produziu uma voz aguda e muito afectuosa: «Claro que me lembro . que escrevia poemas e artigos no Roma . não a procure . Disse-lhe em dialecto: «Eu não o impeço .» «Falámos muito . Estive quase a intervir. a voz que ele imaginava que um homem de categoria. se aprendi um ofício . meu filho . Curvou os ombros . não lhe mande livros. não podes impedir-me de rever sítios que me são tão queridos» . Era uma voz pastosa. tratando-o por «senhor» . E se o vir. eu nunca tive qualquer intenção de fazer mal à tua mãe .» Antonio compreendeu que o seu momento chegara. A única coisa que sempre quis foi ajudá-la a ela e a vocês todos . se ouve pronunciar o seu nome . artificial­ mente comovida. Aquela tonalidade indignou-me .» «Eu e ele somos namorados . Ser-lhe-ei sempre grato por aquilo que fez por nós depois da morte do meu pai . Tu lembras-te bem de como me esforcei por vocês . a si lho devo . perde a cabeça. eu não me esqueço .

a morte do pai . orgulhosa daquela saída dele . bem nítidos . nunca conheceriam fim. Os preparativos interligaram-se com o lento . elaborado e conflituoso nasci­ mento dos sapatos Cerullo . Os únicos que pareciam serenos eram os noivos . mas notei que tremia. não só nos sapatos no­ vos . 51. Houve apenas dois pequenos instantes de atrito entre eles . os carris da linha férrea. Pensei . a menos de duzentos metros passa­ vam. «Sim» . como a do anúncio da Palmolive . Stefano estava seduzido . e Fernando fazia cenas constantemente . no seu boteco em que era o rei . para garantir a Lila algum enxoval e fazer frente à despesa do copo-de-água. Levei-o dali . e um bidet. o revés da mãe . Discutiram. disse para mim . cosia e martelava tranquilo . Nunzia bordava lençóis noite e dia. em miúdo . O resultado disso foi que durante meses a tensão esteve muito alta na casa dos Cerullo . Pareciam dois empreendimentos que . Foi inútil fazer notar que . colava. O casamento . para não fazerem figura de pedintes . chorando a época feliz em que . O bairro recordou-se daquele casamento durante muito tempo . cheia de afecto . «já percebi . mas tinha uma banheira enorme . reflectia-se e não pouco na sapataria. receita essa que para eles era urgente . que queriam a todo o custo assumir. Dei o braço a Antonio .» Girou sobre os calcanhares e pirou-se na direcção da estação . talvez pela primeira vez. a responsabilidade que lhe caíra em cima. disse à pressa. e alarguei o meu prazo: deixo-o depois do casamento de Lila. para além de outras coisas . que se dissolvia no céu nebuloso . Stefano queria comprar um pequeno apartamento no bairro novo . Fernando e Rino trabalhavam muito . e dava para o Vesúvio . com os preguinhos entre os lábios. no que teria sido para ele . obrigado . que por enquanto não rendiam nada. ao passo que Lila preferia um apartamento nos prédios velhos. por um motivo ou por outro . O primeiro relacionou-se com a futura casa. como todas as casas daquela zona. mas também em mil outros servicinhos que davam lucro imediato . A casa no bairro velho era maior mas era escura e não tinha vista nenhuma.A Amiga Genial 229 Sarratore empalideceu . O apartamento no bairro novo era mais pequeno . e depois o trabalho . enquanto o Vesúvio era um contorno instável e distante. Precisavam de juntar bastante dinheiro .

Ele abanava a cabeça pouco convencido . sapatos que adquirira e nunca usara. pelos apartamentos com o chão a brilhar. via neles . do filho e dos ajudantes . Sugeriu uma estadia em Ischia . sempre vira neles . a seguir. Encontravam-se no terraço da velha casa. começava a ver na história dos sapatos um investi­ mento excessivo de dinheiro . e ela não gostava. o que importava era que com menos de dezassete anos seria dona de uma casa. Ela defendeu o irmão . Que esplendor: pavi­ mentos feitos de grandes ladrilhos reluzentes. Tínha- . Quanto ao resto . e comoveu-se ao dizer que sentia neles . as suas mãozinhas quase de criança. para homem e para mulher. teriam de estar prontos a serem expostos na montra antes do Natal . e talvez n a costa e m volta de Amalfi . com água quente a sair das torneiras . Pegou-lhe nos dedos e beijou-lhos um a um. revelando uma linha de tendência que viria a marcar toda a sua vida. Pelo menos os modelos de Inverno . ela exaltou-se e ele fez imediatamente marcha-atrás . insistiu em não se afastar muito de Nápoles . e no final do Verão . Mais do que outra coisa. Fê-lo no dia em que me foi mostrar a casa nova. Depois . fugiu-lhe da boca. reflexos de problemas internos das respectivas farm1ias . O futuro marido disse quase de imediato que concordava. acabava sempre por deixar escapar palavras pesadas acerca de Fernando e de Rino . mais do que outra coisa. e até telefone . aquele onde haviam disparado o fogo-de-artifício ao desafio com os Solara. saltava em defesa deles . que Rino era sempre mais despachado a pedir dinheiro do que a trabalhar. quando . O segundo motivo de atrito foi a viagem de núpcias .230 Elena Ferrante pelo que era novo . tudo sítios onde nunca estivera. falando com Lila. Disse que até ao fim de No­ vembro queria ver os primeiros resultados . impôs um limite exacto ao faz e desfaz do pai . Capri . Tomei nota do número . cheio de nervos . guardados como testemunho precioso da história de am­ bos . que tinham trabalhado ao lado das mãozonas do irmão . Stefano propôs como destino Veneza. ele replicou . quando se registaram fortes tensões entre ele e os dois Cerullo . os móveis entalhados da sala de jantar e do quarto . mas sim propriedade sua. s e Stefano i a à sapataria Cerullo . o frigorífico . muito alegre . Por exemplo . Foi buscar o par de sapatos do qual nascera todo aquele projecto . as tensões foram mínimas . e apalpou-os . cheirou-os . e Lila depressa se rendeu . pelas pare­ des brancas . e Lila. a banheira para tomar banho de espuma. emocionada. Foi a própria Lila que me contou este acto de amor. via Lila. e que não era alugada. dizendo que nunca mais permitiria que voltassem a estragar-se .

tive vergo­ nha de lhe dizer a verdade . até porque a escola i a começar em breve . que dava para a linha férrea e para o Vesúvio . embora estivessem para casar. me deixaria de fora dos preparativos para o casa­ mento . embora já tivessem casa própria e mobilada. dos trabalhos de casa. nem de foulards .A Amiga Genial 23 1 mos nascido e sido criadas em casas pequenas . Mas não f�i assim. Estava convencida de que Lila. Quando me perguntou .» Mas pareceu-me tocada pelas minhas perguntas . E ao invés . precisamente por causa das aulas . habituara-se ao meu desaparecimento durante o ano escolar. sem um sítio para estudar. não . Respondi que não e ela pareceu satisfeita. a cama com os colchões ainda embalados . Ela nunca concedia nada a Stefano .» «Ele . Eu ainda assim vivia. em breve . assim como as res­ postas dela me tocaram. e eles nada mais que uns beijos?» «Mas ele não te pede?» «Porquê . a mim. «Beijam-se?» «Às vezes. como se não percebesse . Os conflitos com Pinuccia cresceram muito durante o Verão . Saímos para a varanda. sem um quarto para nós . que certamente não me casaria.» Fiquei confusa. eu . ainda não somos casados. com genuína curiosidade . . Reduzi o s encontros nos pauis . Concorda que primeiro devemos casar-nos . embora saíssem sozinhos de automóvel . há muito tempo que fora para além do beijo.» «E o que é que acontece?» Olhou-me. não . «Em que aspecto?» Senti-me embaraçada. Seria possível? Tanta liberdade e nada? Tanto falató­ rio por todo o bairro . se eu dava a Antonio aquilo que ele me pedia. as obscenidades dos Solara. e perguntei-lhe com cuidado: «Tu e o Stefano vêm aqui sozinhos?» «Sim.» «E depois?» «Depois mais nada. 52. ela. Já não se tratava de roupas . às vezes . nem de chapéus . o Antonio pede-te?» «Sim.

mas a todos nós . «Não . na presença de Lila e de forma clara. e na caixa. Pinuccia a certa altura disse ao irmão . os assuntos da charcu­ taria não dizem respeito só a mim.» «Foi ela que te sugeriu isso?» . «Isso não é da tua conta.trabalhar como toda a famí­ lia fazia desde sempre . Esperou que a irmã desabafasse . disparou ela. Ao balcão ponho a Ada. levando-o a fazer coisas muito injustas contra os do seu próprio sangue . não respondeu imediatamente . como se o problema de Lila e da sua colocação na pequena empresa familiar nunca tivesse sido levantado . a senhora precisa de estar todo o dia sentada aí atrás? Não . apontando para Lila. pelo menos depois da lua-de-mel . Disse devagar: «Acalmemo-nos . «Já não precisas de mim?» .» Fez-se um silêncio insuportável . quem é que trata do casamento?» . contra a irmã carnal e até contra a própria mãe . E desta vez a mãe apoiou-a de forma explícita. como todas as respostas de Lila desde sempre . tinha qualquer coisa de temerário. Lila não pestanejou . mã' ? Ouviste o que ele disse? Julga-se o patrão absoluto . A partir de amanhã mando vir para o teu lugar a Ada. que fez com que Pinuccia se exaltasse ainda mais .. tu precisas de trabalhar? Não . Mamã. embora tentando ser conciliadora. Tomou-se evi­ dente que a filha do sapateiro era agora considerada pelas duas mulheres uma feiticeira que viera fazer o papel de patroa. que ou a sua noiva ia trabalhar para a charcutaria.232 Elena Ferrante nem de jóias .» Nessa altura Stefano teve uma pequena hesitação . Essa resposta. gritou a irmã. amanhã mesmo. de desde­ nhoso . Senão . Então . e depois . isto é. como era seu hábito . Pinu . Stefano . e depois Maria levantou-se da cadei­ ra junto da caixa registadora e disse ao filho: «Arranja também alguém para este lugar aqui . Há que tomar uma decisão . a filha da Melina. e dominar o homem da casa com as suas artes . demos trabalho a quem precisa. como fazia também Alfonso sempre que a escola lho permitia . aqui dentro . se não já. eu não sou o patrão de nada. em qualquer função que a fann1ia Carracci lhe quisesse atribuir. disse calmamente que Pinuccia. fa­ ria melhor em ajudar a noiva nos preparativos para o casamento . depois penso . em vez de trabalhar na charcutaria. porque eu estou can­ sada e não quero trabalhar mais. ou então ela também deixaria de trabalhar.» «Ouviste . atirar dinheiro pela jane­ la fora sem mexer um dedo para o ganhar. disse que podia começar imediatamente.

o véu esvoaçante ou o véu preso . Fui . a coroazinha de pedras artificiais. os figurinos. Não me digas que não . A loja era no Rettifilo . «Um conselho sobre o quê?» «Um conselho sobre o vestido de noiva. ainda mato a minha cunhada e a minha sogra. que me olhava fixamente e dizia. e da admissão de Ada (decerto Ada ficou convencida disso . as mangas tufadas . obediente . uma vez que Pinuccia e Maria consideravam coisa reles ir a Sorren­ to. o bolo . as alianças . fica­ vam-lhe bem. O corpete de renda. o menu. A saia larga ou a saia justa. quando já não aguentava as esquisitices das suas futuras parentes . tinha muitas matérias no­ vas e difíceis. o fotógrafo. a decoração da igreja. e recordo-me de ter metido uns livros num saco . Saí com ela . que me disse à queima-roupa: «Por favor. até a viagem de núp­ cias . Fosse o que fosse que ela vestisse . tal como a de pérolas e a de flor de laranjeira. tudo lhe ficava bem. Quase sempre via. e Lila experimentou vestidos de noiva expostos nos manequins da loja. alarmando a sogra e a cunha­ da: «E que tal se escolhêssemos um lindo cetim verde . a sala para a recepção . surgia a Lila de outros tempos .A Amiga Genial 233 Não sei ao certo se Lila estaria de facto por trás da expu lsão de Pinuc­ cia e da mãe do dia-a-dia da charcutaria. havia conflitos por qualquer ninharia: as participações . amanhã vens dar-me um conselho?» Não sabia sequer do que ela falava. Lenu . esperando arranjar maneira de estudar. ou experimentava os vestidos que eram bonitos nos manequins . Mas um dia. A rígida organza. e o vestido valoriza­ va-lhe a beleza. encontrei a minha amiga. a cauda mais comprida ou a mais curta. quando vinha da escola. ficavam-lhe bem. Estava no início do primeiro ano do liceu . aparentemente para dar uma opinião a Lila sobre isto ou aquilo . o que me fazia sofrer. Das quatro da tarde até às sete da noite vimos figurinos . irónica. Foi impossível . Pinuccia e Maria. apalpámos tecidos . a sua beleza valorizava o vestido . e na realidade para apoiá-la numa luta difícil . peço­ -te . Mas às vezes . Positano . ou uma organza . O que sei ao certo é que não lhe agradou que a cunhada e a sogra tivessem tanto tempo livre para se dedicarem ao seu casamento . Ischia ou Capri . De modo que inesperadamente fui chama­ da. muito contrariada. que começou a falar da nossa amiga como se fosse uma fada boa) . As duas mulheres complicaram-lhe a vida. e sobretudo Antonio . o tule nebuloso . porque se não vieres . estudava com demasiado afinco . Tinha sido interrogada a química e não fizera boa figura. o cetim mole . O meu habitual e obstinado esforço já me estava a exaurir. o grupo musical . as lembranças de casamento .

tanto Pinuccia como a mãe estavam de muito bom humor. À saída . e comecei a demonstrar que ele sintetizava as qualidades dos modelos que as duas mulheres apoiavam e as qualidades dos modelos que a minha amiga privilegiava. Percebi de imediato . Lila arranjou manei­ ra de ficarmos um pouco para trás . Pinuccia. Pus em acção uma técnica que aprendera na escola e que consistia no seguinte: sempre que não sabia responder a uma pergunta. realmente ao acaso . Depois Lila perguntou-me . senti que tinha a admiração e a simpatia de mãe e filha. ao fazerem comentários à com­ pra.)) . ou . e a mãe . com um certo espanto . No momento em que . para que recomeçasse a apreciar tecidos e modelos com uma seriedade rancorosa. Depois regressou ao olhar habitual e disse que também estava de acordo . para poder dizer: esta rapariga foi vestida por mim. tragam-me as fotografias do casamento . no movimento de final de dia do Rettifilo . um pouco entontecida por todas aquelas discussões e pelo cheiro dos tecidos novos . irritada: «Ü que é que tu achas . A modista. com frases do tipo: como disse a Lenuccia. para indicar que a noiva estava a brincar. chamavam-me à baila constantemente . concordaram imediatamente comigo . a Lenuccia disse justamente . que eu quero expô-las na montra. Cada vez que Lila se inclinava para um modelo . Pinuccia e Maria alinhavam a favor de outro modelo . Lila limitou-se a olhar para mim com os olhos semicerrados . entusiasmada: «Por favor. tendo o cuidado de não pegar em nenhum dos favoritos de Lila. escolhi um dos figurinos ao acaso. como na aula com os professores .em italiano .234 Elena Ferrante vermelha. Dirigiam-se a Lila quase com afecto e. amarelo?» Eu ti­ nha de dar uma risadinha.que gostava imenso dos modelos preferidos por Pinuccia e a mãe . ou . Lenu?» Fez-se silêncio . ou para um tecido . Lancei-me .» Mas o problema era escolher. que as duas mulheres aguardavam aquele momento e o temiam. Eu estive sempre calada. de outro tecido . mas em argumentações que demonstravam como eles eram adequados às formas de Lila. melhor ainda. seja o que for que escolham. não em elogios . A modista não fazia senão repetir. era pródiga na apresentação de premissas . com a voz segura de alguém que sabe perfeitamente onde quer chegar. Perguntou-me: «Aprendes isso na escola?)) «Ü quê?)) «A usar as palavras para levar as pessoas à certa. Em primeiro lugar disse . ou um bonito tule preto .

ainda obscura para ela. arrependida. murmurei: «Não gostas do modelo que escolhemos?�� «Gosto imenso . apertou-me a mão com força: «Não era minha intenção ser indelicada contigo . é que de mim as pessoas têm medo e de ti não . . mas foi mesmo assim que aconteceu . respondeu .vim a descobrir . para remediar: «Ü Antonio era capaz de morrer por ti . desde sempre . Mas não se tratava do habitual conflito entre sogra. como s e cada uma daquelas questões fosse um treino para quando eu me casasse . A diferença entre mim e ti . em todas as situações . Tive a impressão . a cunhada e a sogra não meteriam o nariz . Fui eu que escolhi o fotógrafo . Aquilo que real­ mente a motivava era estabelecer de uma vez por todas que .» «Foi o Stefano que deu trabalho à Ada» . a partir do interior da gaiola em que se encerrara. mas de Pinuccia e da mãe . tal como ela me ma­ goara. uma maneira de ser muito sua.» «E então?» «Então . e na sua casa. fui eu que escolhi as lem­ branças de casamento . A partir dali fui constantemente chamada para tomar parte nas deci­ sões mais disputadas . e por vezes . disse-lhe . Queria apenas dizer que sabes fazer com que te apreciem. na sua fu­ tura vida de esposa e de mãe . respondeu ela. Com efeito . Disse para te agradecer por teres dado trabalho à irmã. ainda mais chateada. perguntei-lhe: «Queres usar-me para levá-las à certa?» Percebeu que me tinha ofendido .» 53 .» Fiquei chateada. acrescentei imediatamente. faz-me o favor de vires connosco todas as vezes que eu te pedir. nora e cunhada. Fiquei surpreendida. «Pode ser» .A Amiga Genial 235 Senti-me ferida. pelo modo como me usava. convencendo-as a acrescentar ao serviço fotográfico um filme em super-8 . de que enquanto e u me apaixonava por todas a s coisas . e como manipulava Stefano . Então. Lila dava muito pouca atenção às diversas fases do seu casamento . Fui eu que escolhi o restaurante na Via Orazio .» «Talvez porque tu és má» .não a pedido de Lila. e percebi que a magoara. «Eu sou má. Dei-me conta. de que Lila se debatia para encontrar.

contra o seu ateísmo . que apenas existia para compor uma trindade . em Química e em Ma­ temática. Como resultado . ou simplesmente porque senti que todo o mal que o padre dizia dos comunistas me dizia respeito directamente .236 Elena Ferrante Perdia. estudava pouco e até faltei à escola duas ou três vezes . Como o professor de Religião pronunciava cons­ tantemente diatribes contra os comunistas . Para mais . senti­ -me impelida a reagir.era a mesma coisa que coleccionar cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno . Depois do novo encontro com o pai dele . A minha nova professora de Latim e Grego . totalmente supérflua. que sempre se dissera comunista. este . mas eu não lhe dei ouvidos e prossegui até ao fim. para o lugar da mãe de Stefano . só consegui ter suficiente . Mas as coisas alteraram-se inesperadamente . Pela primeira vez fui expulsa da sala e tive uma nota de censura no livro de ponto da aula. evidentemente . já não estudava. Lila já não abria um livro. andava comigo nas palmas das mãos . continuava a atribuir-lhe autoridade sufi­ ciente para me dar força para desafiar o meu professor de Religião . a professora Galiani . e eu? Eu fora buscar a ela a energia para inventar uma imagem que definia a religião como uma colecção de cromos enquanto a cidade arde no fogo do inferno? Quer dizer que não era verdade que a escola fosse a minha riqueza pessoal . mas em Filosofia.. levantei a mão e disse que a condição humana estava de modo tão evidente exposta à fúria cega do acaso que confiar em Deus. tardes inteiras a resolver as questões delas . não sei se por causa do meu afecto por Pasquale . em Jesus e no Espírito Santo . e compreendi que me metera naquele sarilho apenas porque . da sua influência? Chorei lágrimas silenciosas em frente da porta da sala de aula. no­ tavelmente mais nobre do que o simples binómio pai-filho . até àquela comparação conclusiva. Ao fundo do corredor surgiu Nino Sarratore . e depois lembrei-me de que tivera conver­ sas daquelas com Lila. pouco faltava para ser mulher de um charcuteiro e decerto iria parar à caixa registadora. apesar de tudo . a pauta do primeiro trimestre não foi particularmente brilhante . primeiro senti-me desorientada - o que acontecera. O que é facto é que eu . porque me comportara tão levianamente . de onde me viera a convicção absoluta de que as coisas que estava a dizer estavam certas e deviam ser ditas? . Quando me encontrei no corredor. por ser a queridinha da comunista por excelência.uma entidade . que fizera com bom aproveitamento um curso de Teologia por correspondência. a excelentíssima Galiani . já. tinha . distante . Alfonso viu imediatamente que eu me estava a exceder e puxou­ -me timidamente pela bata. uma manhã meti-me numa grande alhada.

o qual por sua vez encontrou Lila uma manhã e. e depressa voltaram a considerar-me uma pessoa a quem se podiam perdoar certas afmnações extravagantes. muito orgulhoso . Tornei-me muito respeitadora. chegou a hora da mediação . «depois do ataque a fundo. enxuguei as lágrimas à pressa. Deixei-me ficar. transmitir a Pasquale o que acontece­ ra. «Mas agora» . disse . fechou-a atrás de si . e não sabendo o que dizer-lhe . e cinco minutos depois reapareceu com ar alegre . Era impossível evitá-lo.» Bateu à porta da sala. oscilando entre a ansiedade por causa das prováveis represálias e o orgulho pelo apoio que recebera de Nino e da professora Galiani . Ela cobriu-me de elogios . o olhar mais firme . como se estivesse a dar uma aula a mim e a Nino . Numa questão de poucos dias pareceu-me ter re­ gressado . esforcei­ -me para recuperar a credibilidade junto dele e dos outros professores que pensavam como ele . ao topo da lista dos alunos mais promissores do nosso esfarrapado liceu . Não podia voltar para a aula nem podia afastar-me para as casas de banho.A Amiga Genial 237 ainda mais razão para me comportar como se ele não existisse . que foi . E foi assim que . e quando ele pa­ rou na minha frente e me perguntou porque estava cá fora. Entretanto . Tive o cuidado de não revelar nada aos meus pais . tinha a maçã-de-adão muito saliente . me tornei a heroína dos meus amigos de sempre. mas . e regressou minutos depois com a professora Galiani . e ao mesmo tempo fazer a mediação . prestável . Estava mais alto . o que se passara. Pedi descul­ pa. como verifiquei que o pedido de desculpa ao padre não bastara. dominado pela emo­ ção . que andava no terceiro ano do liceu e naquele ano faria o exame de acesso à universidade . as feições escavadas pela barba azulada. pois ainda a amava.» Desapa­ receu . e também daquele grupo pequeno mas aguerrido de professores e alunos que contestavam os sermões do professor de religião . num abrir e fechar de olhos. Franziu o sobrolho e disse: «Volto já. contei-lhe tudo. Descobri que podia fazer como a profes­ sora Galiani . pois ambas as coisas complicariam mais a minha situação se o professor de religião viesse à porta. naquela situação . Eu podia entrar de novo . diligente e colaborante com todos os professores que se haviam mostrado hostis para mim. juntamente com Nino Sarratore. mas contei tudo a Antonio . Separei as minhas palavras da minha pessoa. isto é. se agarrou à mi­ nha história como a uma tábua de salvação e lha contou . expor com firmeza as minhas opiniões . . reanimei-me ao vê-lo . conquistando a estima de todos com comporta­ mentos irrepreensíveis . Ele também se deve ter apercebido de que algo não estava bem e dirigiu­ -se para mim. desde que pedisse desculpa ao professor pelo tom agressivo que usara. sem esforço.

mas comportando-me entretanto com os adversários de modo a não perder a sua simpatia e estima. Esforçar-me-ia para que isto se repetisse quando saísse o artigo . logo remediava as coisas . aos meus pais . em por­ menor. Mas assim que nos separámos . Escrevi: «Se Deus está em toda a parte . o meu nome impresso . Tentei dar à minha posição o máximo de dignidade teórica. Depois . nos Ma­ ronti . que escrevesse à pressa meia página de caderno . levou a melhor.» Voltei para casa muito agitada. e pelo caminho falei disso com Alfonso . Mostrou-me a revista. perguntei-lhe . Sentia a cabeça a abarrotar com as frases que ia escrever. Tinha sido muito estimulante receber o aplauso de quem me parecia melhor (a professora Galiani e Nino) . Umas semanas depois Nino pediu-me sem preâm­ bulos . Ele estava presente no índice . o meu artigo . Passei a tarde a escrever e reescrever. Asilo dos Pobres . o professor de matemática) . o padre vai ficar zangado outra vez e chumba-te. re­ correndo a palavras difíceis . «Será assinado em teu nome?» «Sim. Ficou ansioso por minha causa. Encontrei frases sintéticas e densas . só com a premissa. alinhando contra quem me pare­ cia pior (o padre . Ele disse que não com uma energia tão desgostosa que prometi-lhe de imediato: «Está bem. nome e sobrenome . «Para que fim?» Disse-me que colaborava com uma pequena revista que se chamava Nápoles.» Transmitiu-me a sua ansiedade e perdi confiança. a Lila. Contara o episódio na redacção e disseram­ -lhe que . tentariam inseri-lo no próximo número . Lembrei­ -me do pai dele . E o resto? . vou tentar. que necessidade tem ele de se difundir através do Espírito Santo?» Mas a meia página num instante se gastava. a ideia de poder mostrar em breve a revista. se fizesse um resumo disso a tempo . de cor cinzento-sujo. Era um fascículo com cinquen­ ta páginas . com um artigo intitulado Os Números da Miséria . da vaidade com que me lera. e puxa para o lado dele a de química e o de matemática. a professora de química. contando o duelo com o padre. com aquele seu ar sisudo .» «Lenu . à professora Oliviero . o artigo publicado no Roma . e da satisfação . ao professor Ferrara .238 Elena Ferrante Não ficou por ali . aconselhou-me a não escrever nada. «Também escreves poesia?» .

que se ela não gostasse .» «Não . a única era Lila. Olhou para a página contra a vontade . E tive a impressão de ela estar a fazer um esforço doloroso para libertar de qualquer recanto de si própria a velha Lila. Estava em casa dos pais . Pareceu-me que ela se encolhia toda. Perguntou-me . não sou capaz . Por isso . mesmo?» «Sim. que acabaria por transcrever para a minha meia página. com a espontanei­ dade e a naturalidade de uma reacção instintiva. como se a escrita lhe ferisse os olhos . tudo pareceu agradavelmente leve . a princípio resisti . Por fim leu .» «Peço-te . comprometendo-lhe o equilíbrio . esperando encontrá-la. ou se se recusasse mesmo a lê-lo . Como fora treinada. desde a primária. «Posso deslocar uma coisa?» «Podes. embora soubesse que não era verdade . «Elena Greco . a tentar e voltar a tentar com obstinação . escrevia. desenhava. senti necessi­ dade de confirmações . Contei-lhe da proposta de Nino e dei-lhe o caderno . exactamente como Alfonso: «Escreverão o teu nome?» Fiz sinal que sim. aquela que lia.» Apagou muitas palavras e uma frase inteira. para obter um parecer? À minha mãe? Aos meus irmãos? A Antonio? É evidente que não .» . projectava. Recea­ va ainda mais que esse comentário me ficasse a bailar na cabeça . Mas por fim não resisti e fui procurá-la. Mas pedir-lhe isso significava continuar a reconhecer nela uma autoridade. Mas em menos de meia hora voltaram-me as dúvidas . Quando conseguiu .» Estendeu-me o caderno: «Não sou capaz de te dizer se é bom ou não .A Amiga Genial 239 Recomeçava. A quem podia dar a ler o meu texto . Receava que ela li­ quidasse a minha meia página com um comentário depreciativo . quando na verdade agora era eu que sabia mais do que ela. não o daria a Nino para imprimir. por fim obtive um resultado satisfatório e come­ cei a estudar as lições para o dia seguinte . Disse-lhe . «Posso apagar?» «Podes.» Tive de insistir. sus­ citando-me pensamentos excessivos . como se lhe tivesse atirado um peso para cima.

A página dizia exactamente o mesmo que eu escrevera. quando finalmen­ te fui dormir. com uma dureza repentina: «Não quero voltar a ler nada do que tu escreves. Voltei para casa feliz .240 Elena Ferrante Fez um traço em volta de um período e deslocou-o . Depois acres- centou . com uma energia e também uma harmonia que a pessoa que ficara para trás desconhecia que tinha. depois virou-me as costas sem se despedir e foi-se embora. desatando a rir. na bonita caligrafia redonda de Lila.» «Em quê?» «Escreves melhor do que eu . para conservar um sinal visível da sua presença nas minhas palavras . disse: «És tão inteligente . «Posso copiar tudo para outra folha?» «Eu faço isso .» Percebi que não havia ironia. No fim disse . com uma tristeza repentina e inesperada: «A professora Galiani tem razão . a caligrafia dela. para o cimo da folha. é claro que têm de te dar sempre dez . 54 .» «Porquê?» Pensou um pouco . deixa-me fazer eu . Quando me devolveu o caderno . mais directo . Levantei-me às seis e meia para voltar a copiar o texto . Decidi deixar o texto na letra de Lila. era de facto um elogio . com uma linha ondulada. os pequenos acrésci­ mos e. o que deslocara. já muito diferente da minha. batendo muitas vezes as longas pestanas . Levei-o a Nino assim mesmo . Ele leu-o . repetiu aquela frase outra vez . de certa maneira. envergonhada.» Embora eu protestasse .» «Não . «Porque me faz doer» . uma caligrafia que se mantinha inalterada desde a escola primária. fizeram-me sentir que eu fu­ gira de mim própria e agora ia a correr cem passos mais à frente . Mas primeiro li-o . que se tomara mais pequena e mais simplificada. Nem sequer . Fechei-me na retrete para não incomodar o resto da família e estudei até quase às três da manhã. e bateu no centro da cabeça com os dedos. mas de modo mais límpi­ do .» Sentou-se a transcrever. O que apagara.

Obedeceu-me logo . Como Alfonso estava comigo . Correu ao meu encontro . por breves se­ gundos . quando concluiu que eu e Alfonso não éramos namorados . deixou de se dirigir a mim e começou a falar com ele de forma cativante . Quando de repente voltou a ceder-me corpo . Ela insistiu . era tão boa aluna como ele e mais do que ele. pois prontamente . o andar do pai . Escrevia melhor do que ele . apareceu a sua irmã Marisa. Daquela vez . disse que tinha ficado aborrecida por eu não ter voltado para Ba­ rano naquele Verão . que o meu namorado me vinha buscar. uma vez que o irmão já se tinha ido embora. fi-lo . vida. Terminou deste modo aquele nosso novo encontro . lhe ter dado a mão . e me pediu que fizéssemos um bocado do caminho juntos. . Durante uns dias Nino continuou a comportar-se como se escrever melhor do que ele fosse uma culpa que devia ser expiada. à saída. respondi­ -lhe com frieza que já tinha um compromisso . Sabia que Nino estava a olhar para nós e queria que ele percebesse quem eu era. Primeiro contou-nos . Depois . Por isso não andaria de novo atrás dele como um animal fiel . que precisava de lhe dizer não sei o quê . fez-me uma grande festa. Era frívolo como o pai . e tinha um homem. Não nos víamos desde os tempos de Ischia. diante de todos . à sua maneira animada. ter entrelaçado os meus dedos nos dele. apresentei-lho . Sempre me re­ cusara a passear daquela forma. Quando chegou a casa. Aquele comportamento aborreceu­ -me. ele voltou a andar de roda de mim. bastava vê-lo para me enervar. de­ sorientado e ao mesmo tempo recompensado por aquele pedido . embora o detestasse? Pensava que as outras pessoas não podiam passar sem gostar dele . ia publicar na revista em que ele publicava. nem onde podia encontrá-la. e também não tive coragem de lhe perguntar. presen­ ça. sem o amar? Era tão senhor de si que não tolerava outras virtudes senão as suas? Pedi a Antonio que me fosse buscar à escola. Tanto mais que enquanto ele se afastava reconheci . porque me dava a impressão de ser ainda pequena e de andar a passear com o meu pai . mas essas dúvidas desfizeram-se quando um dia. Estragámos tudo uma vez mais. de certeza que contou ao irmão que entre mim e Alfonso nada havia . O que mais o deve ter surpreendido foi eu ali em público . Mas agora.A Amiga Genial 24 1 me disse quando saía a revista. tanto no bairro como fora. aqui está ele . Durante algum tempo deve ter pensado que o namorado era Alfonso . em andar parte do caminho connosco . todos os desgostos de amor. no dia seguinte . Eu irritei-me .

que naquela altura tinham a possibilidade de arranjar um e de se arrumarem. Mas sobretudo porque um casamento era um acontecimen­ to em que ninguém podia fazer má figura . de pratos . roupas para Ada e para os outros irmãos.242 Elena Ferrante 55 . a cunhada e a sogra . Por isso . Fiz a minha vida entre a escola. trabalhavam havia algum tempo a fazer as roupas . que falasse e . a procurar chapéus e bolsas . a fim de oficializar a nossa relação . as avós . Estava intimamente convencida de que só . uma presença apresentável para Melina. casando-se por sua vez dentro de alguns anos . sei lá. permitia que pagassem no fim do mês . a dar voltas para comprar a prenda de casamento . um serviço de copos . Nas casas do bairro .tínhamos o cuidado de manter a nossa relação em segredo absoluto . com uma sombra de angústia escondida sob uma aparência divertida . Esse pedido deve ter-lhe complicado a vida .. Por esta última razão é que quis que Antonio me acompanhasse . dançasse sempre comigo . Também pedi a Antonio que me acompanhasse ao casamento de Lila. os pareceres urgentes sempre que as coisas se ensari lhavam entre Lila. com os meus óculos . e endividou-se para mandar fazer um fato no alfaiate . e queria ter ao lado alguém que me apoiasse . não via a hora de se apre­ sentar em casa dos meus pais . sentia-o como um rompimento de­ finitivo . Na verdade . que não me deixasse sozinha. Eu não dei por nada . Não era tanto por Lila que faziam esse esforço. de talheres. os sapatos velhos . e a agradável ansiedade pelo artigo que podia ver publ icado de u m momento para o outro . as mães. era por Stefano . quiçá . não preciso de nada nem de ninguém . mas desejava ter sob controlo a minha ansiedade de ser atraente . deve ter pensado que finalmente me decidia a deixá-lo sair da clandestinidade . principalmente as raparigas sem namorado . sentir-me composta . que era muito boa pessoa. Amava-me . quando lhe fiz aquele pedido . considera­ va-me a maior sorte que alguma vez tivera. e no entanto pensar: tenho tudo o que uma rapariga de dezasseis anos deve ter. o meu vestido po­ bre feito pela minha mãe . por que diabo é que eu o escolhera a ele . Lila enviara convites para toda a gente . naquela ocasião . Mas Antonio não levou as coisas dessa forma. sem contar com o que lhe custara a prenda de casamento . Perguntava-se muitas vezes em voz alta . Não tinha qualquer intenção de oficializar a coisa . Receava muito aquele dia . tranquila. Queria. que era estúpido e não sabia juntar duas palavras .

Os sapatos eram tal e qual como ela os imaginara a seu tempo . e ia vivendo na expectativa desse dia sem dar muita atenção a Antonio . Se os quiseres exactamente como a minha filha os desenhou . O único que se mostrou descontente foi Stefano . que felicitava Rino . pareciam os três saídos do écran da televisão . dando a entender que o considerava o verdadeiro artífice daquelas obras-primas de leveza robusta. perguntou . Lila interveio discretamente em defesa do pai . Elena Greco . Stefano foi inabalável. como se tivesse aparecido uma fada e realizado um nosso desejo. olhando para os quadros pendurados nas paredes: «Se queres os sapatos para o Natal . arranja outro que os faça. Só se interrompeu quando Fernando . de harmonia dissonante. «0 que é esta franja. de­ certo eram necessárias . disse ao noivo que não se exaltasse . aborrecido . em vez de outros precisamente idênticos aos sapatos de Lila. para que é esta fivela doura­ da?» . ao pai e aos empregados . sem se preocuparem minimamente em mostrar primeiro os sapatos a Lila. De vez em quando perguntava-me: «Sabes em que ponto eles estão?» Eu res­ pondia: «Pergunta ao Rino . Os Cerullo em Novembro convocaram Stefano . ou com a finalidade de disfarçar qualquer defeito de ideação . aliás de pouca relevância. E por mais que Fernando justificasse todas as alterações com questões de solidez . e o mesmo sapato com os acabamentos introduzidos por pai e filho. apresentou-se propositadamente com a noiva e com Pinuccia. pelo contrário . criticou as alterações feitas aos desenhos originais . Stefano . calou a voz melosa de Pinuccia. e. comple­ tamente esgotado . se sentou num canto e disse .» . que metera na cabeça que havia de completar a sua toilette para o casamento com um par de sapatos Cerullo . sentira uma emoção fortíssima.A Amiga Genial 243 existiria realmente a partir do momento em que o meu nome aparecesse impresso . que os seus desenhos eram fantasias de criança e que as alterações . que a Lina não sabe de nada. Interrompeu os parabéns que Lila dava ao irmão . Disse que investira ali demasiado dinheiro para obter uns sapatos vulgares . que pespontas são estes .» Era verdade . aceita-os assim. Quis experimentar um modelo de que gostava e fez muitos elogios a Rino . que no entanto ainda vivia em casa deles . Mas Rino apoiou Stefano . tal como fora feito por Rino e Lila às escondidas de Fernando . Houve muitas altercações. Até Pinuccia ficou de boca aberta. erguendo um tornozelo para lhe mostrar o pé calçado de forma extraordinária. Insistiu sobretudo na comparação entre o sapato de homem. e a discussão prolon­ gou-se por muito tempo . Lila disse-me que ao ver os sapatos que desenhara anos antes tomados realidade . modelo após modelo .

experimentou-o . As caixas brancas empilhadas no interior da sapataria Cerullo continham um sortido razoável . pediu a Rino o número 44. a sua execução não seguira plano nenhum. do interior da sapataria. como que a justificá-lo por certos impulsos . cobriam quase todas as estações do ano . Depois contou­ -me o prazer que sentira ao sentir-se tão bem calçado . na Primavera ou no Outono . a irritar-se por uma ninharia. Só Antonio lá apareceu . propôs-lhe que expusesse alguns sapatos Cerullo . respondeu-lhe a rir: «Assim compro uma Lambretta .244 Elena Ferrante Stefano deu-se por vencido . «muda de humor se não lhe satisfizerem os caprichos imedia­ tamente . Quando perguntou o preço e Rino lho disse . ocupada com o casamento . uma amálgama de peda­ ços de pele e de couro . E quando Rino lhe dis­ se: «Vendo-tos em prestações mensais» . não sentiu a falta de vendas dos sapatos pelo Natal como um fiasco . havia uns mais pesados e outros mais leves . até ali alegre e brincalhão . embora soubesse que ele era unha com carne com os Solara. bancos e sovelas e formas de madeira. não pensados para a realidade do bairro . não sabe esperar. da paisagem desolada no exterior. à espera de clientes . bastava olhar para eles para se ter uma impressão de riqueza. Fui até lá vê-los . com o fato novo vestido e aqueles sapatos nos pés . E isso era uma vantagem . Eram objectos elegan­ tes . e no Inverno .» 56. uma montra com a es­ trela de Belém feita de algodão . não notou que o irmão . N a altura Lila. tal como Fernando . andava novamen­ te melancólico . eram os sapatos dos nossos so­ nhos infantis . imaginando-se comigo no casamento . disse ela a Pinuccia. Depois do Natal . O facto é que pelo N atai não se vendeu um único par. Mas Rino ficou cada vez mais agitado . Mesmo com as alterações introduzidas por Fernando . Mas não concretizou a compra. ficou de boca aberta: «Estás doido?» . sem compro- . que destoava da montra pobre . e Rino também se deu por vencido . Era uma questão de esperar. Nascidos do desejo de Stefano de ver concretizada a pura veia artística de Lila. e caixas de sapatos empilhadas até ao tecto . a dormir mal . os sapatos seriam vendidos . Ao fim e ao cabo . Pelo Natal os sapatos apareceram na montra. com um acabamento refinado. por sua ini­ ciativa própria foi falar com o dono da empoeirada sapataria ao fundo da rua larga e . «É como uma criança» . embora exausto pelo trabalho .» Ela.

que sossegou e começou a armar-se em estratega de vendas . a fundo perdido . Mas não foi daí que vieram os choques capazes de abrir brechas . Rino . Mas deixou pas­ sar. Lila ia a correr provar o vestido de noiva. uma manifestação das forças destrutivas que a haviam atemorizado . na tua opinião eu investi tanto dinheiro na sapataria assim . e dali resultou uma troca de palavrões de que se soube em todo o bairro . só para ver a saída que tinham. . entre tantas coisas . são boni­ tos . As tensões cresceram ainda mais nas proximidades do dia 1 2 de Março . e Lila voltou a sentir que o irmão era um elemento de desordem. que magoaram Lila profundamente . Entretanto a data do casamento aproximava-se . o charcuteiro ouvia-o sem dar si­ nais de irritação . lutava com Pinuccia e Maria que . Foram dois acontecimentos em particular.A Amiga Genial 245 misso . O problema é que é preciso encontrar o merca­ do adequado . mais tendente para a melancolia. temos de os vender. Dizia que era preciso fazer uma análise abran­ gente . Uma tarde gelada de Fevereiro perguntou-me sem mais nem menos se podia acompanhá-la a casa da professora Oliviero . Como nunca antes lhe contara os tons hostis que a professora usara tantas vezes a respeito dela. que aquele produto não era adequado para a sua clientela. só por amor à tua irmã? Estão feitos . Quando saíam os quatro . Nunca mais manifestara qualquer interesse por ela. Os sapatos Cerullo . Mas agora sentia a necessidade de lhe levar o convite pessoal­ mente . dava os últimos retoques à sua futura casa. Ele levou a mal . O homem disse-lhe educadamen­ te que não . nenhum afecto . a conversar com Stefano . Porque é que tantas boas iniciativas tinham falhado? Porque é que a oficina Gorresio tivera de desistir dos motociclos? Porque é que a boutique da retroseira durara só seis meses? Porque eram empreendi­ mentos de pouco fôlego . não achei oportuno falar-lhe nisso naquela ocasião . Rino censurou-o . porque aquelas palavras acabaram por ter um efeito positivo em Rino . tanto mais que em tempos recentes ela me parecera menos agressiva. em breve sairiam do mercado do bairro e se afirmariam em zonas mais ricas . pelo contrário . não toleravam as intru­ sões de Nunzia. Uma única vez Lila o ouviu dizer: «Desculpa. Fernando enfureceu-se com o filho . um atrás do outro . Geralmente . Lila notava com apreensão que o irmão maquinava para ela e Pinuccia irem à frente e ele ficar cinco passos para trás . nenhuma gra­ tidão .» Aquele «SÓ por amor à tua irmã» não lhe caiu bem. so­ bretudo com Pinuccia. e talvez a acolhes­ se bem .

dirigindo-se a mim: «A Cerullo conheço . falando com dificuldade . Porém . talvez mais profundo . O outro desgosto .» Abriu a porta. Enquanto subimos a escada. enfiou o convite por baixo da porta e desceu as escadas . Mas durante uns dias Stefano só lhe deu respostas vagas e confusas .» Fechou-nos a porta na cara. àquelas escadas . Na rua falou sem parar de todas as maçadas burocrá­ ticas na câmara e na igreja. Havia algum tempo que decidira que o padrinho de casamento seria um familiar de Maria. e metade do rosto coberto por uma écharpe .246 Elena Ferrante Lila vestiu-se com um cuidado extremo. que o padrinho fosse este ou aquele era-lhe completamente indiferente . vou casar.» A professora disse . mas ela não . Lila sorriu e disse-lhe: «Professora. notei que ela estava muito ansiosa. de um momento para o outro . «Quem é?» «Greco. o essencial era decidir-se . e de como o meu pai fora prestável . não disse uma palavra. Fomos a pé até ao prédio onde morava a professora. Stefano comunicou- . a dois passos da igreja paroquial . sobretudo objectos de metal . Por causa da sua pro­ núncia. mas esta não sei quem é . a verdade veio à luz . ouvi os passos arrastados da professora. o noivo mudou de ideias . como se tivesse comida na boca: «Quem é? Não a conheço . Ficámos uns instantes paradas no patamar. Esse familiar casara com uma florentina e adquirira o sotaque local . Rodei o botão da campainha. para a confortar. e depois dirigiu-se a mim . Depois . Tinha sobre os ombros uma romeira roxa. Para ela. veio surpreendentemente de Stefano e da história dos sapatos . gozava de um certo prestígio na família. depois toquei-lhe na mão . Vim trazer-lhe o convite . E ficaria muito feliz se viesse ao meu casamento . lembra-se de mim?» A professora Oliviero olhou para ela como fazia na escola quando Lila se portava mal . motivo pelo qual já fora padrinho do crisma de Stefano . a menos de uma semana do casamento . não se conseguia compreender quem ia substituir o casal florentino . Ela retraiu-se .» Lila ficou confusa e disse muito depressa. Lila a princípio falou-me nisso como se fosse um sinal de nervosismo de última hora. Eu estava habituada àquele percurso . em italiano: «Sou a Cerullo . que emigrara para Florença depois da guerra e montara um pequeno negócio de velharias de proveniência vária.

Senti-me lisonjeada. voltou a ser. Fechou-se na casa dos pais . lhe explicou como as coisas eram: O Solara pai era como um banco . como coisa firme . disse que não o queria ver mais . Por fim foi Rino . sem dormir. ainda que muito distante . mas era preciso raciocinar. Passou-se um dia e uma noite . durante alguns dias . Depois veio cha­ mar-me às escondidas da filha. se estivesse no lugar de Lila nunca teria coragem de mandar o casamento às urtigas . complexa. com os olhos esbugalhados e raiados de sangue . Primeiro foi a mãe . Depois foi Fernando . Nunzia. apesar de se estar a um passo da celebração . que também lhe daria muito prazer que o padrinho fosse o comerciante de metais de Florença. Nunzia permaneceu muda a um canto sem se mexer. e que me daria muito prazer fazê-lo . sem justificação nenhuma. num tom um tanto fingido . que agora era capaz de entrar em conflito com o Espírito Santo em público . «queres arruinar-me a mim e a toda a família. não se podia cancelar um casamento e extinguir um amor por uma questão de tão pouca importância. o pai de Marcello e Stefano . e.A Amiga Genial 247 -lhe . O que fazer? Sentia que não seria preciso muito para reencaminhá-la naquela direcção . palco de muitos afectos e interesses . que lhe disse que se deixasse de criancices . . era o canal para colocar nas sapatarias os modelos Cerullo . Deixar de ter aqueles ares . ela seria capaz disso . Lila. Assustei-me . que o padrinho seria Silvio Solara. para eu ir falar com ela e chamá-la à razão . sobretudo . que até àquele momento não admitira sequer a hipótese de al­ gum parente de Marcello Solara. e disse-lhe . de rabo-de-cavalo . e todo o trabalho que fi­ zemos até agora?» Até Pinuccia apareceu . pois para qualquer pessoa que quisesse ter um futuro no bairro era obrigatório ter como padrinho Silvio Solara. Eu . gritou-lhe . que em tom agressivo e com o ar do homem de negócios que só pensa no lucro . Mas ela sim. a miúda que eu conhecia bem. que lhe falou do bem da fanu1ia com consternação . desafiando a auto­ ridade do professor de religião . Estava em causa um casamento . austero . «0 que queres tu fazer?» . não mexeu uma palha que tivesse a ver com o casamento iminente . pensei muito qual seria a minha posição . estar presen­ te no seu casamento . de se comportar como uma Jacqueline Kennedy dos subúrbios . Lá no fundo . Começou a procissão dos familiares . era isso que eu real­ mente queria: trazer de volta a Lila pálida. sem fazer nada em casa. roupas coçadas . Cobriu Stefano dos mais grosseiros insultos . não foi à última prova do vestido de noiva. uma coisa prática. deixou de tratar fos­ se do que fosse. olhos semicerrados de rapace .

Ouviu-me em silêncio . que a aju­ dassem a serenar. e é tudo. de modo que se me meteu na cabeça uma só ideia. Lila.» «Como é que eu faço isso?» «Não sei . disse . Lila. o Silvio será o padrinho e dará uma ajuda ao Rino e ao Stefano para venderem os sapatos. evidentemente . não foi à casa nova. seduziu-a. mas tens de me jurar. e pouco a pouco serenou . pôr os pés . Voltei a embaralhar as cartas que já conhecíamos bem. Falei do antes e do depois . e que por isso mesmo a assustava ainda mais do que as fúrias de Rino .248 Elena Ferrante Mas . não quis devolvê-la ao cinzen­ tismo da casa dos Cerullo . Mas li-lhe nos olhos que aquela atitude de Stefano lhe mostrara uma faceta dele que não conse­ guia ainda ver com clareza. sabe-lo melhor do que eu . não fez nada para tentar reconciliar-se . gosto muito de ti . para desgraça dela e de mim. olhando-o nos olhos : «No meu casamento o Marcello Solara não pode . não foi ele que se plantou à força em tua casa. Não foi ele que puxou a Ada para dentro do carro . de como nós éramos diferentes . da velha geração e da nossa. de maneira nenhu- ma. Disse-me: «Se calhar não é verdade que gosta de mim . De qualquer maneira.» Ele soprou e disse a rir: «Está bem . não foi ele que disparou sobre nós na noite da passagem do ano . queria. Não se deixou ver na char­ cutaria.» . sabes que há coisas que somos forçados a fazer. não foi ele que disse aquelas coisas horríveis a teu respeito. não terá qualquer peso na tua vida futura. é errado confundir as coisas . Esperou que fosse Stefano a dizer-lhe: «Obrigado . voltei a ele com muita paixão . Julgando contribuir para o seu bem. Este último argumento fez mossa. eu juro . num tom de desprezo que nunca usara com Stefano Carracci . e mais não fiz do que dizer-lha e voltar a dizer-lha com uma deli­ cadeza persuasora: o Silvio Solara. voltou à circulação . tu própria mo disseste noutras ocasiões .» «Como é que não gosta de ti? Faz tudo aquilo que tu dizes. de como ela e Stefano eram diferentes .» Só então deixou que ele se aproximasse pelas costas e lhe beijasse o pescoço . pareceu-me uma acção mesqui­ nha. não é o Marcello e também não é o Michele.» «Só quando não lhe ponho em risco o dinheiro verdadeiro» . Mas depois virou-se de chofre e disse-lhe .

sem entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem te está per­ turbando .» «Mais dois anos. não . O dia 1 2 de Março chegou . estou a pensar na professora. em frente . engravidando-a. que a ajudasse a lavar-se . Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária. já primaveril . talvez.» Pôs-se em pé .» «Ainda estás a pensar na história do padrinho?» «Não . mas a certa altura acabou-se o estudo . pego no diploma e acabou-se . a olhar para a água que brilhava na tina. um dia ameno . não pares . e por isso te obrigas a ficar.» Fiz um risinho nervoso . Depois . e depois disse: «Aconteça o que acontecer. ajuda-me . Hoje posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar no seu corpo . A seu lado tinha o vestido de noiva. que parecia o corpo de uma morta. uma situação em que não se pode voltar os olhos para outro lado . de ser a testemu­ nha participante da sua beleza de rapariga de dezasseis anos . ficámos sós .» Ficou calada um instante . poucas horas antes que Stefano lhe tocasse . Mandou a mãe embora. Lila quis que eu fosse cedo para a sua velha casa. com essa rejeição . Perguntou-me à queima-roupa: «Achas que estou a cometer um erro?» «Em quê?» «Em casar-me . a deformasse . no chão de ladrilhos he­ xagonais. a vestir-se. Porque é que ela não quis que eu entrasse?» «Porque ela é uma velha rabugenta. rapazes e raparigas . continua a estudar. a pousar o olhar nas costas de ra- . depois disse: «Obrigada. não se pode desviar a mão sem reconhecer a nos­ sa perturbação .» Nunca a tinha visto nua. tirou as cuecas e o soutien . Tu és a minha amiga genial . sem a declarar precisamente com esse retraimento . a penetrasse .» «Não . sem exprimir. senão atraso-me . envergonhei-me . tens de ser a melhor de todos. a violenta emoção que te domina. tu . e disse: «Vá lá.A Amiga Genial 249 57 . tens de continuar sempre a estudar. Sentou-se à beira da cama em cuecas e soutien . estava a tina de cobre cheia de água fumegante . a pentear-se .» «Para ti . Eu dou-te o dinheiro .

rir. Mas por fim ficou-me apenas o pensamento hostil de que a estava a lavar da cabeça às solas dos pés . cingida ao marido . Olhou-se ao espelho . o vermelho da boca. inflamam-se-te as veias . levantando um pouco o vestido . ali .250 Elena Ferrante paz .» Voltou-se com uma expressão repentina de pavor: «0 que é que me está para acontecer. os olhos escuros e duros . e agita-se-te o coração . Pressionada por Rino . no sexo negro . e ficou-me a impressão de que o cobre da tina era de uma consistência não diferente da carne de Lila. Por último calçou os sapa­ tos que ela própria desenhara. que era lisa. no quarto pobre e escuro . nos joelhos macios . e depois pedindo-lhe que se pusesse em pé . quando afinal tudo está a acontecer. nos pés elegantes. nos tornozelos sinuosos . nas longas pernas .eu . escolhera um par com o salto baixo . no leito da casa nova. distanciá-la com as palavras . e ainda tenho nos ouvidos o ruído da água a gotejar. rija. O tecido ganhou vida. disse . olha: os sonhos da mente acabaram debaixo dos pés . a enfiar o vestido de noiva que eu . Lenu?» .» Riu-se com nervosismo . nos seios com os mamilos inteiriçados . sobre a sua candura correu o calor de Lila. puxar-lhe os cabelos . às mesmas horas . era encontrar um recanto bastante retirado para que Antonio me fizesse a mim. Ajudei-a a enxugar-se . para evitar parecer muito mais alta do que Stefano . E de repente pareceu-me que o único remédio para a dor que estava sentindo . em redor a mobília miserável . presente . chorar com ela. beijá-la. de manhã cedo . «Mas sim. a vestir-se . Lavei-a com gestos lentos e cuidadosos . como a rolha de cortiça empurrada pela palma da mão para dentro do gargalo de uma garrafa de vinho . Imaginei-a. só para que Stefano a sujasse durante a noite . fingir competên­ cias sexuais e instruí-la com voz douta.escolhera para ela. exactamente a mesma coisa. enquanto o comboio estrepitava por baixo das jane­ las . pensei com um misto de orgulho e sofrimento . Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraçá­ -la. «São feios» . e a carne violenta dele entrava nela com um golpe seco . calma. e fazes de conta que nada se passa. nas ancas estreitas e nas nádegas rijas . nua como estava naquele momento . que sentiria. primeiro com ela acocorada no recipiente . que se ela os não calçasse sentiria uma espécie de traição . justamente no momento de maior proximidade . sobre um pavimento irregular manchado de água. «Não é verdade .

no altar coberto de flores . televisão e telefone . que as fornecera com abundância . aborrecida por­ que . olhou para mim . com o rosto de Randolph Scott. ele de camisa branca e fato escuro . os familiares e amigos do noivo encontravam-se todos de um lado . uma actividade económica para a fatn1lia. éramos nós . enquanto o jovem ajudante filmava as fases mais importantes da cerimónia. de Pasquale . de Stefano . Só agora. e até provavam. longe do centro das atenções . do outro . Fernando e Nunzia.A Amiga Genial 25 1 58 . com a de Lila. frigorífico . uma casa que ainda por cima lhe pertencia. sobre cujas idades posso ser mais pre­ cisa: o meu pai tinha trinta e nove anos e a minha mãe trinta e cinco . já prontos havia um bocado . A cerimónia foi longa. é que me apercebo pela primeira vez de que Fernando naquela época não devia ter mais do que quarenta e cinco anos . a caixa-de-óculos . Antonio sentou-se devotadamente a meu lado durante o tempo todo . com um chapeuzinho azul e véu azul. Quando Lila. Nunca os vira tão bem arranjados . Senti com enfado que naquele dia os meus êxitos escolares não os consolavam nada. que estava muito bonito . e ela toda de azul. uma existên­ cia sem nada em comum com a minha. pelo ímpeto dos pensamentos . ao passo que a minha amiga má conquistara um marido abastado . de Antonio . que não passavam de uma inútil perda de tempo . de certeza. Nunzia era uns anos mais nova. O mesmo se aplica aos meus pais. en­ quanto escrevo . e os familiares e amigos da noiva. para fazer-me sentir que ali estava eu . sobre­ tudo à minha mãe . ao lado de Me- . Naquele tempo os pais dela. avançou pela igreja do Sagrado Coração pelo braço do sapateiro . com banhei­ ra. À entra­ da da igreja. delegando em Ada. embora o seu olho dançarino parecesse voltado para outro lado . naquela manhã . Na cozinha esperavam-nos impacientes . As pessoas realmente consumidas pelo calor dos sentimentos .. todas . e foi juntar-se a Stefano . O fotógrafo tirou fotografias durante o tempo todo . esplendorosa na nuvem de ofuscante alvura do vestido e do véu vaporoso . aspirava a um lugar melhor. e os dois. a minha mãe . na igreja. a tarefa de se instalar ao fundo da igreja. Olhei muito para eles . na qualidade de caixeira da charcutaria do noivo . uma espécie de vida fria. com flash e reflectores . com o fato novo feito pelo alfaiate .bendito florista. faziam um bonito par. o pároco fê-la durar uma eternidade . todos os pais me pareciam velhos . os meus . criaturas que aos meus olhos levavam . Não fazia grande distinção entre eles e os avós matemos e paternos .

com muito oiro a cintilar nos pulsos . Reparei que Lila nunca olhou para eles . em que ela anotava quantias e prazos) . e aquela mulher magra. mas não lhe respondi . por aquilo que todos sabiam. Olhei para a mulher. Era dali que vinha o dinhei­ ro para aquela pompa. Lila espalhava em redor uma energia que ninguém podia ignorar. grandes entradas . Corri os olhos pela igreja apinhada. era Manuela que geria os lados práticos dessa ac­ tividade . Lila era mais alta. ele . de nariz comprido e lábios finos . facto que . Enzo . vestidos com todo o luxo . teriam feito melhor figura do que Stefano . sapatos Cerullo nos pés .a começar talvez por Antonio . também ele impecável com o seu fato novo . de vez em quando vira- . é que emprestavam dinheiro a todo o bairro (ou . tal como eu . vestida de cor-de-rosa. olhavam em volta. não eram um casal bonito . um odor a roupas novas . sentado a meu lado . Morto dom Achille . Com efeito . olhos azuis . e sobretudo Pasquale . de costas . como se fizesse questão de compreender perfeitamente o que significava aquele ritual .252 Elena Ferrante lina. por aquilo que eu sabia. Nessa altura olhei para Silvio Solara. ao lado de Lila. sem mostrar nenhuma intimidade espe­ cial . Quanto a Rino . Gigliola estava bonita. ele . E os rapazes não lhes ficavam atrás . não só para o florista. ele mais baixo . Que pompa ! Era evidente que todos os que receberam convite não quiseram faltar. e de a vigiar. as pessoas estavam aborrecidas e. o seu olhar esteve sempre fixo no padre . Manuela. para evitar os mexericos . enquanto o pedreiro e o vendedor de fruta e hortaliça se encontravam ao fundo da igreja. e Carmela Peluso também. o casamento de Lila era um negócio . aliás . mas sobre­ tudo para aquele casal . co­ berta de jóias . estacionada ao lado da noiva. melhor dizendo . o irmão da noiva. significava que não poucos . Lila mostrava-se extremamente concentrada. que luziam tanto como o cabelo cheio de brilhantina. corpu­ lento . pareciam querer demonstrar que ali . pelo contrário . fora instalar-se ao pé de Pinuccia. comparecendo . fornecera também o bolo e as lembranças do casamento .tiveram de pedir dinheiro emprestado . que . aquele homem de tez arro­ xeada. Famoso e temido era o livro de registo de capa vermelha. Achei que vistos as­ sim. de fato escuro . Uma vez ou duas sussurrou-me qualquer coisa ao ouvido . entre outras coisas . quebrando a ordem dos alinhamentos familiares . assim como os outros irmãos . em pé ao lado do noivo . na zona dos familiares do noivo . Sentia­ -se um perfume intenso de flores . Nem se virou sequer para Stefano . Devia limitar-se a estar ao meu lado . como sentinelas do bom êxito da ce­ rimónia. ele parecia um homenzinho apagado . no altar. não só para o fotógrafo .

de mãos nos bolsos . quase escondido por uma coluna. ca­ misa branca. o caos dos automóveis e os nervosismo dos familiares que tinham de ficar à espera. arrastara Nino consigo . desviei a atenção dos noivos . deixara-se levar pela cabeleira enca­ racolada de Marisa e pela sua tagarelice incessante . de preencher os vazios das conversas? Eram namorados? Duvidava. a ele que era tão tímido . E logo a seguir. Nunca o vira de fato escuro . achei-o parecido com um bailarino es­ panhol que vira na televisão . nem sequer do mesmo sangue . Alfonso estava muito bem vestido . ao restaurante . Em primeiro lugar. ele ter-me-ia dito . ambos os noivos disseram o sim de modo límpido e claro . 59 . E depois aconteceu que . Lila e Stefano pararam no adro . ou trocava risinhos com Silvio Solara. entre beijos e abraços . Pensei: e se Stefano realmente não fosse aquilo que parece? Mas abandonei esse pensamen­ to por dois motivos . para obter a autorização dos pais . Lem­ brei-me de ter visto toda a gente . também fisicamente diferente do irmão Stefano . Nino . sem a bata da charcutaria.. como .A Amiga Genial 253 va-se para a mãe . que o dispensava. gravata. e eu tive de me convencer de que Lila já estava casada. que saíram da igreja acompanhados pelos sons vibrantes do órgão e pelo flash do fotógrafo . não só me pareceu alto para os seus dezasseis anos. ele respondeu . mais amados . pois até a convidara para o casamento do irmão . Marisa Sar­ ratore . enquanto outros . Sem as modestas roupas da escola. Marisa. Alfon­ so . sem sinal de barba por enquanto . Mas atrás dele apareceu . magro . apesar de me ser tão dedicado . ou coçava le­ vemente a cabeça. Seguiu-se um confuso aglomerado em tomo dos noivos. entravam de imediato nos carros e eram levados à Via Orazio . E ela.mas mais importantes . entre a comoção geral . as senhoras com chapéus extravagantes? . lábios carnudos . excepto Alfonso . mais esguio e bonito . veio na minha direcção . olhos grandes . de repente . procurei-o com os olhos entre os parentes do noivo e da noiva. despenteado . atrelara-se a ele . Mas as coisas estavam clara­ mente a correr bem. Estava mais alto . com o casaco e as calças coçados que levava para a escola. esplendorosa. Localizei-o ao fundo da igreja. . Acenei-lhe . mais ricamente vestidos . deviam andar a encontrar-se sem eu ter dado por nada. beijaram-se . e trocaram alianças . a relação crescera. A certa altura senti-me ansiosa. de repente . pelos vistos .

Antonio. só para pousá-los em qualquer coisa. com as suas roupas coçadas . o jovem Sarratore . para um automóvel que logo se afastou . alto de mais . os dois Sarratore passaram completamente despercebidos. eu fui agarrada firmemente por um braço . para irem tirar fotografias ao Parco della Rimembranza. olá. nem Carmela. não querias casar também?» . juntamente com Ada e os filhos mais pequenos. arrancámos . De momento .» Enzo respondeu que os vira num carro qualquer. comple­ tamente deslocado . Pasquale .254 Elena Ferrante Portanto ali estava ele . e já nos íamos embora e eu não sabia dizer senão: «Onde estão os meus pais? Esperemos que alguém lhes dê atenção . fiquei ansiosa. e juntaram-se-nos Carmela e Enzo . Essa presença inesperada contribuiu muito para a desordem emotiva daquele dia. e . e ela queria casar-se também. a mãe de Lila. se dependesse de mim. embora ela conservasse traços da menina que fora. um sussurro apenas . mas sem interesse nenhum. com o ar de quem não sabe onde se há-de meter.» . pela mão de Antonio . portanto não havia mais nada a fazer. junto de Alfonso e Marisa que falavam um com o outro . Cumprimentámo­ -nos na igreja. magro de mais .» «Então e tu . casava-me já amanhã. e perdi-o de vista. Melina. Enzo . Carmela. no meio do burburinho . E entretanto Antonio empurrava-me na direcção do automóvel velho de Pasquale . acabei por me en­ contrar na companhia de Ada. de olhos nos noivos como toda a gente . Nunzia. «Eu . que lhe lesse no rosto algum traço de Donato . nem repararam em Marisa. Na verdade ninguém reconheceu Nino . levou-a consigo . cabelo comprido de mais e despenteado . sensível às minhas mudanças de humor. as mãos demasiado mer­ gulhadas nos bolsos das calças . Nino depois foi atrás da irmã e de Alfonso . muito esmorecida. e mal tive tempo de lançar um olhar a Nino . Fiquei nervosa. nem Enzo . no adro da igreja. Mas foi uma preocupação infundada. ainda parado no adro com uma expressão desorientada. embora me libertasse imediatamente . sus- surrou-me ao ouvido: «Ü que foi?» «Nada. Agora. nem sequer Gigliola. enquanto os noivos se metiam num grande au­ tomóvel branco juntamente com o fotógrafo e o ajudante.» «Alguma coisa te aborreceu?» «Não . receando que a mãe de Antonio reconhecesse Nino . olá. perguntou Enzo .» Carmela riu-se: «Aborreceu-a a Lina ter-se casado .

«que a ti ninguém te quer. a única pessoa de quem eu ainda precisava apesar das nossas vidas divergentes . faltando ela. no máximo faziam co­ mentários pesados acerca dos automobilistas vagarosos . Nós . soltávamos gritos de terror. gritavam insultos . vamos escavar uma toca que nos ponha à parte desta forma de conduzir de Pasquale . disse Pasquale .» Descemos em direcção à Marina. ou fazíamos re­ comendações indignadas .sim. sobretudo . Aproximava-se a grande velocidade dos carros dianteiros . Estavam ali os meus amigos . que a minha própria estranheza tomava infe­ liz . Mas essa festa. que o faziam rir e o estimulavam a fazer ainda pior. Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha. a sua linguagem violenta era a minha. com quem partilha­ va a origem e a fuga? E. como se quisesse abalroá-los . Lançava-se . qualquer ligação entre mim e aqueles jovens esgotara-se . vamos falar os dois . estava o meu namora­ do . Antonio e Enzo nem pestanejavam. diz-me quando sai a revista com o meu artigo . íamos para a festa do casamento de Lila. ou a usá-lo à traição . Aqui­ lo que eu era na escola. para os intimidar. de certo modo autodegradar-me . guinava bruscamente e ultrapas­ sava-os . e que eu . ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis . Crescera com aqueles rapazes . e também . Perguntei-me o que fazia eu naquele automóvel . fazendo um grande estrépito e ignorando os sola­ vancos devidos às estradas em mau estado . travava poucos centímetros antes de lhes bater. as raparigas . também . Então porque não estava na companhia de Alfonso .A Amiga Genial 255 «E com quem?» «Eu bem sei com quem. é certo . vem ao copo-d' água. baixavam o vidro e . Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente . enquanto Pasquale os ultrapassava.» «Caluda>> . confirmava que Lila. achava os seus comportamentos nor­ mais . tinha de conter-me . enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente . dos tons de voz violentos de Carrne la e de Enzo . já não pertencia àquele mundo . da sua vulgaridade . porque não me detivera para dizer a Nino: fica. precisamen­ te . Pasquale conduzia com garra. que ele tratava-o como um carro de corrida.de Antonio? . e . Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias . pelo contrário . An­ tonio afinara-lhe o carro tão bem.

confiando-a a Nunzia. e eu . Ada fez uma cara de contrariada e foi sentar-se ao lado do irmão . Não te mandamos estudar para tu te deixares estra­ gar por um operário que é filho de uma maluca. Recusei-me . Silvio e Manuela Solara estavam já instala­ dos a uma mesa. Melina. levantando os olhos para o tecto . já te disse . Ada. juntamente com o comerciante de metais . de feições delicadas . Carmela. A minha mãe impediu-me . Pasquale . fiz de conta que não ouvi .» «Não . O vocalista. que me chamou para junto dela. Ninguém escondia a fome . de que estava prisioneira.» «Vem sentar-te ao pé de mim.» «Vem. Tentei de novo levantar-me e a minha mãe sibilou: «Tens de estar ao pé de mim. era preciso esperar pelos noivos . os meus pais.» Obedeci-lhe . Enzo e Anto­ nio finalmente sentaram-se com o grupo de Gigliola. Com eles vi Gigliola. quase calvo . a sala encheu-se . embaraçados .» . evidentemente . que conse­ guira livrar-se da mãe . Começaram a chegar outros jovens . a sua con­ sorte florentina e a mãe de Stefano . mas a minha mãe agarrou-me um braço com raiva. Voltou a chamar­ -me . esforçan­ do-se para me distrair. todos amigos de Stefano .» «Julgas que eu sou estúpida?» «Não . mã' . nenhum de nós se atrevia a perguntar aos criados de mesa. A banda começou a tocar. que estava impaciente e acolheu Antonio com ges­ tos de raiva. O meu mau humor cresceu . os músicos iam experimen­ tando os instrumentos e o vocalista o microfone . A banda ocupava o seu lugar. Ela sibilou: «Porque é que o filho da Melina anda sempre de roda de ti?» «Ninguém anda de roda de mim. Não sabíamos onde sentar-nos. A minha mãe chamou-me . cantarolou qualquer coisa para experimen­ tar. Então levantou-se e veio ter comigo com o seu passo claudicante . e Ada.» Tentei levantar-me . Antonio estava colado a mim. que de vez em quando olhava para mim. Andámos às voltas . Fomos os primeiros jovens a entrar na sala da festa de casamento . Queria que me fosse sentar ao lado dela. Chegaram mais convidados . ela estava furiosa. nada. veio dizer-me ao ouvido: «Vem. mas . e eu fazia-lhe sinal . na casa dos quarenta.256 Elena Ferrante 60 . Os pais de Lila encontravam-se também sentados a uma mesa comprida com outros familiares .

elegante . A banda começou imediatamente a tocar a marcha nupcial . quem é que seria indicado para mim senão Antonio? Entretanto chegaram os noivos . animou-se . cortês . recordar­ -me de que ia sair um artigo com a minha assinatura. que não tirava os olhos de mim. mas como agora estudava. quando se apresentava em nossa casa para lhe impor o que era para meu bem . aos olhos dela. Nada que tivesse a ver com o meu percur­ so de rapariga estudiosa. Estava lin­ da. para esca­ par à minha mãe. Estava a prender-me por um braço . o jogo dos sa­ patos para Rino e para o pai . do qual ela imaginava ter colhido o melhor. que iam ocupar . pensei : do mundo da minha mãe . na sua evolução . parecia feliz . Antonio . entre aplausos entusiásticos . e concluía. Liguei indissoluvel­ mente à minha mãe . apesar de tudo . Enganei-me . deitou-me um olhar convidativo . a estranheza que continuava a cres­ cer-me cá dentro . tudo perigos que naquele mo­ mento . latim e grego . Não queria que eu estudasse . Porém. felicitada por todo o bairro . Desde pequena que tinha os olhos nela. Senti-me completamente só . considerava-me melhor do que os jovens com quem eu crescera. com aqueles gestos autoritários . Nesse momento entrou Nino Sarratore . Tenho de apagá-la. aquela festa. num movimento contrário ao de Lila e Stefano . eram representados por Antonio . Tenho de con­ cluir. conseguiu fugir. Lila permanecera ali . Vi-o antes de ver Alfonso e Marisa. Os noivos foram obrigados a dançar no meio dos flashes do fotó­ grafo . Ali estava Lila. tornar-me completamente idêntica a ela. Mas estar ao pé dela significava estar no seu mundo . com as suas raivas . A minha mãe tentou segurar­ -me pela orla do vestido . como aliás eu própria acaba­ ra de concluir. precisos nos movimentos . Voltearam pela sala . na mesma revis­ ta em que escrevia um rapaz bonito e inteligente do terceiro ano do liceu . nem sequer Lila. recordar-me de que enfrentara o professor de religião . obrigava-me a estar ao pé dela para me proteger sabe-se lá de que mar tempestuoso . E se me tornasse idêntica a ela. mas eu ti­ nha de ignorá-la. que o meu lugar não era junto deles . Mas eu . Pensei em como era contraditória sem se aperceber disso . recordar-me de que era a melhor em italiano . como sabia fazer a profes­ sora Oliviero . Mas eu tenho de ser capaz . claramente vincu­ lada àquele mundo . aquele casamento . vi-o e pus-me em pé de um salto .A Amiga Genial 257 Ao pé dela . sabe-se lá de que abismo ou precipício . de mãos dadas com o marido . Sorria. ao seu corpo . não posso continuar a ser condescendente . E o melhor era aquele rapaz . mas eu puxei pelo vestido .

Como era possível que um rapaz de dezoito anos falasse da miséria. mas apresentando factos concretos . Arranjámos lugar. esperava que Nino se decidisse a dirigir-me a palavra. 61 .» Sussurrei: «Vai-te embora. como fazia Pasquale . os livros que tratam desses problemas . enquanto a outros ainda não fora servido o ante­ pasto . Entretanto Anto­ nio aproximou-se por trás de mim . Eu estava atrasada em tudo . Nino podia ajudar-me a recuperar terreno . só lia ro­ mances .» «0 quê?» «Os jornais .258 Elena Ferrante os seus lugares ao centro da mesa. não no aspecto genérico e num tom consternado . Alguns já iam no primeiro prato . dirigi-me para a entrada. citando dados precisos? «Onde aprendeste essas coisas?» «Basta ler. Em Ischia ainda tinha as feições do rapazinho atormentado . inclinou-se e disse-me ao ouvido: «Guardei um lugar para ti . no tempo em que lia. contando pedir-lhe logo a seguir. Impressionou-me a sua se­ gurança. pedi-lhe que me falasse do seu artigo acer­ ca da miséria em Nápoles . Havia quem dissesse em voz alta que onde estavam sentados os familiares e amigos do noivo o serviço era melhor do que nas mesas em que se encontravam os familiares e amigos da noiva. o seu crescente tom conflituoso . A própria Lila. Ele deu início a uma conversa muito interessante e muito informativa a respeito do estado da cidade . com natu­ ralidade . E regressou à sua mesa. agora achei-o muito mais maduro . a minha mãe percebeu tudo . muito intimidado . para Alfonso . as revistas . . O vinho não era da mesma qualidade em todas as mesas .» Eu nunca tinha sequer folheado um jornal ou uma revista. Ganhei ânimo e puxei Nino para a conversa. de forma distanciada. notícias sobre o próximo número da revista e sobre a minha meia página. Marisa e Nino . Falei de modo genérico com Alfonso e Marisa. Os convidados mais rancorosos tinham começado a notar as coisas que não estavam correc­ tas .» Olhou em volta hesitante . entre o casal Solara e o casal de Flo­ rença. Ouviu-se um ruído de descontentamento na sala. Senti como detes­ tava aquelas querelas . nunca lera mais do que os velhos romances esfrangalhados da biblioteca.

A um meu protesto passageiro . «escre­ vam romances . e ouvia muito aten­ ta as suas respostas caudalosas . que animava cada frase: a rejeição de palavras pouco claras . Mas depressa me apercebi de que o fio dos seus discursos era constituído por uma única ideia fixa. nem o que comíamos e bebíamos . não sabíamos o que nos serviam nos pratos . Lenu . por exemplo . então aí a conversa é outra. e ele fazia o mesmo . fazem um Dom Qui­ xote. sem floreados . a necessidade de detectar problemas com clareza. Falava sem parar. duro . De vez em quando levantava a voz . não tinha a mesma capacidade de tomar tudo sedutor. «Se querem ser vendedores de fumo» . respondeu assim: «Demasiados maus romances de cavalaria. nem se apercebera de onde me encon­ trava.foi o que me pare­ ceu perceber .servia-se da palavra «literatura» para criticar quem ar­ ruinava a cabeça das pessoas com aquilo a que ele chamava conversa inútil . de sugerir soluções praticáveis e de intervir. e no entanto evitá-lo sempre . Quantos erros cometera com ele. Compunha discursos com a expressão do estudioso .» Na realidade . com todo o respeito por Dom Quixote . mas . muito irri­ tado com os seus inimigos . raramente . declarava-me de acordo com tudo . ou seja. Às vezes olhava para a mesa de Lila: ria. Alfonso e Marisa depressa se sentiram isolados . ele respondia. que chato que o meu irmão é» . Sim. amá-lo . mas se é preciso alterar as coisas . cortante . Só as­ sumi um ar de perplexidade quando ele disse mal da literatura. Não ouvimos mais nada do que se passava à nossa volta. com o romance em que me sentia imersa. Eu ia sempre acenando que sim. para superar o clamor da sala. sem ironia. mas não dava respostas brilhantes como Lila. terei muito gosto em lê-los. Por outro lado . Marisa disse: «Chiça. Nino e eu também ficámos isolados . deleitei-me com o meu arrependimento . aqueles que vendem fumo . Mas tam­ bém culpa minha: eu . Do que precisamos é de pessoas que saibam como funcio­ nam os moinhos e que os ponham a funcionar. da pessoa com quem estava a falar. repetiu duas ou três vezes. falava. nós aqui em Nápoles não temos necessidade de lutar contra moinhos de vento . é só coragem desperdiçada. Culpa do pai . que tanta raiva tinha à minha mãe . e cada pergunta minha era um pequeno impulso que provocava uma avalanche .» Daí a pouco já desejava poder conversar todos os dias com um rapaz daquele nível .per­ mitira que o pai lançasse a sua abjecta sombra sobre o filho? Arrependi­ -me . a música. res­ pondia.A Amiga Genial 259 Comecei a fazer-lhe mais e mais perguntas .eu . Eu esforçava-me para arranjar perguntas para lhe fazer. comia. que estupidez tinha sido querê-lo . cheios de exemplos concretos. e começaram a conversar os dois .

Expunha-me o seu futuro . quando regressasse vestida com o traje de viagem. principalmente das mulheres . receava que me fizesse sinal para ir para junto dele . Dançavam os jovens . Ouvi-lo estimulava-me a mente . ele que tudo o que queria era libertar-se do pai . de qualquer modo já decidi . sem qualquer subserviência. mas como u m cachorrinho . toda elegante . sim. quando já se tivesse ido embora.» Reinava uma grande algazarra e uma alegria embriagada. Olhou para mim sério . e agora eram tratados como pedintes .» «Não te estou a apertar. Retorquiu nervoso . Fui dançar. quase como Lila em tempos o fazia. que daria origem a ódios que durariam meses e anos . Disse . Via como Enzo e Carmela falavam enquanto dançavam e via também . quando já tivesse distribuído as lembranças . «Não me apertes. e a despiques e ofensas que envolveriam maridos . voltou-se para Alfonso . triste: «Vamos dançar. todos eles com a obrigação de mostrar às mães e às irmãs e às avós que sa­ biam ser homens . Paciência. ao lado do marido . qual é o problema?» Fiz um sorriso embaraçado a Nino . A sua dedicação por mim fazia-me crescer. Haviam-se sacrificado para comprar a prenda e a roupa que traziam vestida.260 Elena Ferrante olhava para a mesa de Antonio . não posso continuar com ele . Estava encantada com a maneira como Nino falava comigo . quando ela fosse mudar de roupa. porque é que não protestava com Stefano? Eu co­ nhecia-os . com vi­ nho de má qualidade e atrasos intoleráveis no serviço? Porque é que Lila não intervinha. Continham a raiva por amor de Lila. endividaram-se . amanhã deixo-o. ou se lhes dirigiam com expressões alusivas . então rebenta­ ria uma rixa monumental .» «A minha mãe não quer» . Via os olhares ferozes que os rapazes dirigiam ao vocalista e aos músicos . Eu conhecia-os . revelavam um descontentamento belico­ so . que se dedicava totalmente a mim . As caras torcidas dos familiares da noiva. que olhavam de maneira incorrecta para as suas namoradas . a ficar furioso . sussurrei . Mas eu sentia o que havia realmente por trás da aparência festiva. Mas sentia que tinha os olhos em cima de mim e que estava nervoso . libertar-me-ia da minha mãe . era de novo Antonio . ele sabia que Antonio era o meu namorado . filhos . os adultos e as crianças . mas no fim da festa. Senti tocarem-me no ombro . Ele . É certo que me adorava. em voz alta: «Estão todos a dançar. somos demasiado diferentes . as ideias com base nas quais o construiria. pensei .

sempre o encorajara. sim. Estava a defendê-la perante Alfonso . Pensei : se voltar para junto de Nino . Tinha necessidade . «Quem achas que é? Não o reconheces?» «Não . Agora estava a falar. Dançavam. e aquele olhar era feio . da professora Galiani . mas como professora era extraordinária. casariam. que eu bem sabia como a detesta­ va. dentro de dez anos . embora o seu olho estrábico parecesse olhar noutra direc­ ção . perguntou Antonio . Sentei-me no meu lugar. e com toda a probabilidade dentro de um ano . não queria que ele começasse a discutir com o meu companheiro de turma como até instantes antes discutira comigo . será ele a deixar-me . Charcutaria mais sapatos. e depois ficavam noivos . que nem sequer cortou o cabelo e nem pôs uma gravata?» Largou-me no meio da sala e dirigiu-se em passo rápido para a porta de vidros que dava para o terraço . Atravessei a sala enquanto a orquestra continuava a tocar e os pares continuavam a dançar. olhavam-se nos olhos. Nino pareceu não ter feito o mínimo caso daquilo que se passou . No caso deles tudo aconteceria mais depressa . dentro de um ano no máxi­ mo teriam uma festa de casamento não menos faustosa do que aquela. E aquela é a Marisa. Era evidente que antes da festa termi­ nar começariam a andar juntos ..» «É o Nino .era demasiado rígida . Disse . Tinha os olhos da minha mãe em cima de mim. e não for ter com Antonio ao ter­ raço . estreitavam-se com força.A Amiga Genial 26 1 Pasquale e Ada sentados à mesa. Dizia ele que também acabava por discordar dela muitas vezes . Ir ter com Antonio . Via Rino e Pinuccia. Fiquei sem saber o que fazer durante alguns segundos . Se a fábrica de sapatos Cerullo se concretizasse a sério . Tentei inserir-me na conversa. Prédios velhos mais prédios novos . mas com Nino .para . Sentia urgência em deixar-me agarrar de novo por Nino . e depois pões ­ -te a conversar durante horas com o filho? Mandei fazer o fato novo para estar a ver como tu te divertes com aquele . transmitira-lhe a capacidade de estudar. Eu era como eles? Ainda era? «Quem é aquele?» . e para mim é melhor assim. o filho mais velho do Sarratore . da sua forma torrencial . ner­ voso: «E tu primeiro levas-me ao Sarratore . Tinha os olhos do meu pai em cima de mim. lem ­ bras-te dela?» Não se importou nada com Marisa. Voltar para junto de Nino . para o ameaçar. Amor e interesse .

lhe emprestara também um desses textos . uso-te e depois deito-te fora. que falava com ele olhando-o nos olhos . comprimia no peito a dor que eu lhe causara e olhava para o mar.» 62 . e recordou-se de que a professora. um pouco amuado . Rino de certeza que já assim fizera com Pinuccia. para dentro das suas capacidades . O longo e cansativo almoço de casamento estava a terminar. ligeiramente apreensivo: «Saiu há duas semanas . A banda tocava. há-de haver outra oportunidade». enumerei os livros que a professora me emprestara desde o início do ano e os conselhos que me dera. concluíram que não havia espaço .262 Elena Ferrante não ir a correr fazer as pazes com Antonio e dizer-lhe entre lágrimas: sim. mas a culpa não é minha. sinto-me metade e meta­ de . que me reconhecesse como sua semelhante . dizia com fingida indiferença: «Está bem. e esforçava-me para sorrir.» Hesitou e depois disse: «Mas o teu texto não saiu .» Alfonso fez imediatamente um sorriso de alívio . e Stefano falava-lhe ao ouvido e ela sorria. e murmurou: «Ainda bem. Antonio . e perguntei-lhe . Por isso quase lhe tirei as pala­ vras da boca e. Alfon­ so e Marisa. posso arranjar- -ta eu .era a noiva. Enzo talvez estivesse murmuran­ do a Carmela que gostava dela..» Tive um sobressalto de alegria e perguntei-lhe: «Onde a encontro?» «Vendem-na na livraria Guida. Mas eu tinha uma necessidade crescente de recompensas que me distraíssem de Antonio . o vocalista cantava. tempos antes . Fez que sim com a cabeça. enquanto ele se esforçava para retomar o discurso inter­ rompido.de que Nino me puxasse de modo exclusivo para dentro das coisas que ele sabia. Lila encontrava-se na outra extremidade da sala . De qualquer maneira. Eu estava diante de Nino Sarratore . não sei o que sou nem o que realmente quero. perdoa-me . Tínhamos dezasseis anos . tens razão . muito pro- . a rainha da festa . e começou a falar sobre ele . Pasquale .» «Obrigada. de costas . sem nexo nenhum: «Quando sai a revista?» Olhou-me com um ar duvidoso .

vagueava pela sala assustado . Pensei: talvez publiquem o meu texto no próximo número. até ao lu­ gar estabelecido . aquela altercação sobre quem é que devia ser servido primeiro e melhor. A plebe era aquela luta por comida e vinho . dirigiu-se para a porta com o seu andar bamboleante . de vinho derramado pelo avô de Stefano . até Lila. antes da festa terminar. sem se deixar contaminar. Combinou com Marisa regressarem a casa juntos e Alfonso prometeu acompanhá-la.» Na­ quele momento eu soube o que era a plebe . Podia fazê-lo . com o ar de quem tem um papel a desempenhar e o leva até ao extremo .A Amiga Genial 263 vavelmente . «Sabes o que é a plebe?» «Sim. que a canseira de estudar me elevava. Nino levantou-se e disse que se ia embora. que a professora Oliviero tivera razão em impulsionar-me para a frente e em abandonar Lila. anos antes . com muito mais precisão do que quando . Havia algum tempo que se repetiam os brindes com alusões obscenas . de boca es­ cancarada. Engoli as lágrimas . Perguntei a Nino . de lhe arrancar da boca as palavras necessárias . era . disse Alfonso . a algum lugar. e não conse­ guia. Lutava para me libertar de uma espé­ cie de turvação na cabeça. que estava sério . Sabia entrar e sair do bairro como queria. e ria-se . hesitante: «Não queres cumprimentar a noiva?» Fez um gesto largo . aquele chão sujo que os criados de mesa pisavam para a frente e para trás . e a minha assinatura impressa. e nessa arte destacava-se o negociante de metais . Riam-se to­ dos . até arranjei forças para dizer: «Aliás . sem dúvida. A plebe era a minha mãe . discutir segunda vez seria inútil . A plebe éramos nós . ela mo perguntara. Provavelmente nauseado pelo espectáculo em cena. professora. Mas não disse nada. das alusões sexuais do comerciante de metais . o sinal de que eu tinha realmente um desti­ no . sem um aperto de mão sequer. um aceno qualquer a mim ou a Alfon­ so . à hora combinada. Mas nada atenuava a desilusão . balbuciou qualquer coisa a respeito do vestuário e . já discuti uma vez com o padre . Ela pareceu muito orgulhosa de ter um cavaliere tão educado . Concluí que considerara a publicação daquelas poucas linhas . que tinha bebido e agora estava encostada ao ombro do meu pai . continuei a sorrir. talvez Nino não tenha insis­ tido o suficiente .» «Exactamente» . uma queda de tensão dolorosa. talvez seja melhor eu mesma tratar disso . O chão estava salpicado de molho que esguichara de um prato que uma criança deixou cair. mas Ada arranjaria maneira. aqueles brindes cada vez mais ordinários .

Na verdade . O vocalista começou a cantar Lazzarella . tomar­ -se pálida como era em miúda. fazendo e desfazendo durante me­ ses . Duvidei que eu fosse capaz de fazê-lo . na altura da tu­ multuosa mudança que quase lhe custara a vida. cumprimentando este e aquele com o seu ar de patrões . Quando ele desapareceu . Podia ter dez nos trabalhos . e temi que o seu olhar a trespassasse com uma violência tal que a fizesse em mil estilha­ ços . . com um sorriso amigável . Tinha uma garrafa de vinho na frente . Simplesmente aconteceu aquilo que era previsível que acon­ tecesse . Nino sim. apenas para o bolo de noiva e para as lembranças do casamento . Rino convidou Marcello a sentar-se . Marcello tinha calçados os sapatos comprados tempos antes por Stefano .264 Elena Ferrante capaz de fazê-lo . Tinha o rosto . a revista. Vi Lila perder a cor. Não o modelo que estava à ven­ da. mais branca do que o vestido de noiva. desapertou a gravata. cheirara o meu texto . Depois tive a impressão de a porta do restaurante se ter fechado com uma rajada de vento . olhava para os sapatos de Mar­ cello Solara. com um rubor repentino na garganta e em tomo dos olhos . seu marido . o texto que era meu e de Lila. Silvio fez um ligeiro gesto de cabeça aos filhos . Estudar não chegava. talvez tivesse aprendido anos antes . os gestos . não houve vento . pareceu-me ter desa­ parecido a única pessoa em toda a sala que tinha a energia para me levar dali para fora. puxou o marido energicamente pelo braço e disse-lhe qualquer coisa ao ouvi­ do . Circularam pela sala. com o vinho a esguichar por todo o lado . cruzou as pernas . não era aquele com a fivela dourada. nem tão-pouco bater de portas . Eram sapatos Cerullo para homem. o andar de alguém que faria sempre melhor. e os olhos tiveram aquela repentina contracção que os transformava em duas fendas . O imprevisível só nessa altura se revelou . Olhava para mais longe . podia tudo . mas aquilo era apenas escola. por sua vez . arruinando as mãos . os bonitos e elegantes irmãos Solara. Gigliola lançou os braços ao pescoço de Michele e levou-o a sentar-se a seu lado . Era o par que ela executara juntamente com Rino . Mas ela não estava a olhar para a garrafa. e não o impri­ mira. Marcello sentou-se . Apareceram. Manuela olhou-os com orgulho de mãe . imitando sofrivelmente Aurelio Fierro . Lila.

Índice .

Apagar o rasto 11 Infância .Índice das Personagens 9 Prólogo . História de dom Achille 17 Adolescência . História dos sapatos 67 .

ÜBRAS DA AUTORA NESTA EDITORA Crónicas do Mal de Amor .

Casamento 228 . Jhumpa Lahiri: A Planície 2 1 3 . Vladimir Nabokov: Ada ou Ardor 1 90 . Junot Díaz: É assim Que A Perdes 1 96 . Alice Munro : Amada Vida 205 . Amizade. Dalton Trevisan : A Polaquinha 1 94 . o Rei da Chuva 227 . Homes: Assim para Nós Haja Perdão 2 1 2 . Alice Munro : Falsos Segredos 222 . Namoro. Dalton Trevisan : A Trombeta do Anjo Vingador 203 . Margaret Atwood: Ressurgir 2 1 9 . Vladimir Nabokov : Riso na Escuridão 20 1 . Katherine Anne Porter: A Torre Inclinada e Outros Contos 220 . Cormac McCarthy: Filho de Deus . Sammler 230 . Saul Bellow : O Planeta do Sr. Alice Munro : Vidas de Raparigas e Mulheres 2 1 4 . M . Rachel Kushner: Os Lança. Alice Munro : Ódio. Vladimir Nabokov: Lolita 207 . Michel Houellebecq: Plataforma 226 . Denis Johnson : Anjos 1 99 . Marguerite Duras : Moderato Cantabile 223 . Marguerite Duras : Olhos Azuis Cabelo Preto 224 . Irene Némirovsky : O Vinho da Solidão 1 98 . Saul Bellow : Agarra o Dia 225 .Chamas 2 1 5 . Amor. Saul Bellow : Henderson . Isaac B ábel : Contos e Diários 2 1 6 . A . Dalton Trevisan : Guerra Conjugal 202 . Dalton Trevisan : Novelas nada Exemplares 1 9 3 . Clarice Lispector: Um Sopro de Vida (Pulsações) 1 95 . Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba 1 92 . Hermann Broch: A Morte de Virgílio 2 1 7 . Elena Ferrante: Crónicas do Mal de Amor 2 1 8 . Luigi Pirandello: O Falecido Mattia Pascal 200 . Michel Houellebecq: As Partículas Elementares 208 .ÚLTIMOS LIVROS NESTA COLECÇÃO 1 89 . Hjalmar Sõderberg: O Jogo Sério 206 . Cormac McCarthy: A Travessia 1 9 1 . Vladimir Nabokov: Pnin 209 . Kate Atkinson : Vida Após Vida 2 1 1 . Vladimir Nabokov: A Verdadeira Vida de Sebastian Knight 204 . Nathan Filer: O Choque da Queda 22 1 . Cormac McCarthy : O Conselheiro 2 1 0 . Flannery O ' Connor: O Céu É dos Violentos 229 . Clarice Lispector: Laços de Família 1 97 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful