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PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014)

A Ascensão do Empreendedor: apresentação de uma pesquisa sobre a popularização de sujeitos empreendedores 1

Julia Salgado 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Resumo

Este artigo apresenta os primeiros achados de uma pesquisa de tese em andamento. Com o objetivo de investigar a recorrência do discurso sobre o empreendedor na grande mídia, e sua consequente repercussão na subjetividade e na sociabilidade do indivíduo contemporâneo, esta pesquisa parte da sugestão de que tal dispersão discursiva estaria endossando a popularização do empreendedor na sociedade brasileira como subjetividade não apenas possível, mas, sobretudo, desejável. Aventa-se que tal movimento estaria criando novas categorias de trabalhador, como pode ser percebido nas recém-criadas classificações “empreendedor individual” e “empreendedor social”. A primeira etapa da pesquisa consiste numa sondagem, na Revista Veja, dos discursos sobre o empreendedor entre os anos 1980 e 2010. O objetivo é averiguar o quão recorrente é sua menção; quais associações são feitas ao termo; em que contextos e sob que enfoques ele é citado; como é feita sua construção subjetiva. Esta etapa, que encerra uma investigação quantitativa e qualitativa, objetiva confirmar ou não a sugestão do empreendedorismo como um fenômeno em processo de crescente disseminação e consolidação em nossa sociedade. No presente artigo nos ateremos à apresentação da pesquisa de tese como um todo, e nos primeiros resultados quantitativos da referida sondagem.

Palavras-chave: empreendedor; subjetividade; neoliberalismo; mídia; Revista Veja.

Em minha dissertação de mestrado, realizada entre 2009 e 2011, analisei as mudanças nas representações da juventude em duas temporalidades distintas: na década de noventa e no fim dos anos 2000. O objetivo era compreender as continuidades e rupturas nos modos como a mídia apresentava uma específica

1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 01 Cultura Empreendedora e Espaço Biográfico, do 4º Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de 2014. 2 Doutoranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a orientação do Prof. Dr. João Freire Filho. Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Bolsista CNPq. Email: juliasalgado@gmail.com.

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juventude brasileira. Um dos traços mais marcantes que emergiu na análise foi o empreendedorismo. Enquanto para a juventude dos anos noventa temas como vestibular, emprego e concurso público estavam na pauta do dia; os adolescentes de 2010 eram apresentados como empreendedores natos. Ainda com 13 ou 14 anos, os jovens destacavam-se com seus empreendimentos na internet, deixando assuntos como escola e vestibular para segundo plano. O empreendedorismo, então, se tornou fruto da minha curiosidade, e de lá pra cá atentei para a proliferação da figura do empreendedor em nossa sociedade, a exaltação que lhe era dirigida pela mídia e a crescente segmentação nos “tipos” de empreendedor. Isso porque o termo empreendedor não se referia mais apenas ao grande capitalista, em geral representado pelo homem de meia idade, branco e pertencente à classe média alta. Afloravam novas identidades possíveis: para os jovens, o maior foco recaía sobre os negócios na web, fazendo deles os protagonistas de uma “geração de empreendedores da internet”; mais recentemente, aos jovens e demais pessoas em busca de um “trabalho com propósito”, surge a figura do empreendedor social como novo nicho propalado; aos desempregados e trabalhadores autônomos foi designada a categoria do empreendedor individual, articulação do governo federal para a formalização de milhões de trabalhadores informais. Tamanhas são a visibilidade e a deferência conferidas ao empreendedor não apenas pela mídia, mas também pelas empresas, pelas instituições de ensino e pelo governo, entre outros que julguei válida a empreitada de investigar os motivos de tal destaque em meu doutorado. Ou seja, a pergunta que norteia a pesquisa da tese é:

como é possível que hoje, no Brasil, o empreendedor seja uma figura destacada e positivada nos diversos discursos que circulam pelo nosso tecido social? Esta pergunta, assim construída, pressupõe a assunção da premissa de que o empreendedor não é, historicamente, o modelo de trabalhador caracteristicamente brasileiro. Fatores socioculturais, que vão desde uma católica devoção à humildade e repúdio à usura, até um ambiente economicamente desfavorável à ascensão social, levam a crer que o modelo de trabalhador nacional típico é (ou era) o assalariado, e

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em especial o funcionário público, o “homem cordial” que lança mão dos laços sociais (como família e amigos) para transitar no mercado de trabalho (Holanda apud Castellano, 2014). O empreendedor, por outro lado, teria a sua maior materialização na sociedade norte-americana, onde tanto a cultura protestante quanto a real possibilidade de ascensão social formariam um terreno fértil para a disseminação de uma subjetividade calcada no individualismo e no mérito do labor (Weber, 2004). Partindo, portanto, desta premissa básica, a tese sugere que o empreendedor vem emergindo, nos últimos anos, como grande protagonista do atual mercado de trabalho nacional. Ele seria uma figura em vias de popularização (e mesmo massificação) na sociedade brasileira, que passa a vê-lo não apenas como subjetividade possível, mas, sobretudo, desejável. Além disso, aventa-se uma diversificação nas tipologias de empreendedor: a partir de agora não somente o grande capitalista está representado sob esta designação, mas também outras formas de empreender passam a ser consideradas pelos discursos em voga, como os empreendedores “solitário” (individual) e “solidário” (social), duas categorias que serão examinadas na tese. A explicação que se insinua para esses movimentos de popularização e diversificação do empreendedor no Brasil tem sua origem na adesão, no país, dos preceitos neoliberais não apenas em nossa economia, mas também em nossa cultura. Isto é, o empreendedorismo seria uma resposta não somente à falta de empregos, mas também à ambígua imposição de uma cultura tão individualista quanto solidária 3 . A averiguação de tais suposições isto é, o trabalho de pesquisa da tese propriamente dito - poderia se dar por diversos caminhos: através da consulta a estatísticas sobre novas empresas e o número de empreendedores no Brasil (caso esta fosse uma pesquisa de áreas exatas, como a Economia ou a Administração); através

3 O atual sistema capitalista, baseado na ideologia neoliberal de um mercado livre e autorregulador, estaria estimulando a criação de quadros de trabalhadores adequados às novas configurações do mercado, que dentre outras coisas demanda sujeitos que sejam autônomos, orientados pelo individualismo, mas também solidários aos problemas sociais que emergem em tempos de falência dos Estados de Bem Estar Social (Boltanski & Chiapello, 2009).

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de uma abordagem etnográfica sobre as preferências e inclinações dos indivíduos a respeito de carreiras empreendedoras (neste caso, uma pesquisa da Antropologia); ou ainda sobre as mudanças estruturais em nossa sociedade que permitiram a proliferação do empreendedor como subjetividade possível e desejada (aqui, uma pesquisa calcada na Sociologia ou nas Ciências Políticas). Mas sendo do campo da Comunicação, o trabalho propõe a investigação da emergência e popularização da figura do empreendedor a partir dos discursos midiáticos ou seja, como tais discursos, ainda que difusos e muitas vezes desconexos, contribuem para a solidificação positivada de um personagem em nossa paisagem sociocultural: o empreendedor como novo tipo ideal de trabalhador. A atenção aos discursos, objeto caro à Comunicação, não é trivial: Foucault (2008a) nos ensinou que os discursos não são meros ecos de práticas institucionais e relações sociais. Antes disso, os diversos discursos que circulam pelo tecido social funcionam como incansáveis operários, constantemente construindo sentidos, edificando representações e operando naturalizações. Tomados em conjunto, determinados dizeres têm a capacidade de incutir e manter, em específicas circunstâncias, relações de poder e dominação, influenciando no rumo das práticas sociais e das subjetividades individuais. Em resumo: os discursos não apenas são influenciados pelos acontecimentos e relações em sociedade, mas também acabam por influenciá-los, numa relação mútua e constante. Com isso em mente, entendemos que o objeto de pesquisa não é formado pelos empreendedores, as estatísticas sobre eles ou as topografias do mercado de trabalho em que atuam. Nossos objetos são os discursos sobre o empreendedor, falas que, ao enunciá-los, os apresentam, aproximam e naturalizam como novas modalidades de subjetividade e sociabilidade. Os enunciados, ao darem visibilidade ao objeto, trabalham no sentido de torná-lo mais presente, mais familiar, enfim, mais verdadeiro. Mas dentre tantas e variadas vozes que discorrem sobre o empreendedor de novelas ao noticiário, de programas de auditório a jornais especializados, de

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propagandas a filmes e documentários quais tomar como objeto? Um recorte certamente é necessário para que a pesquisa não se perca diante de um corpus tão vasto. A primeira decisão metodológica foi, então, eleger o empreendedor, e não o empreendedorismo, como objeto de análise. Ou seja, mais do que compreender os procedimentos e predicados peculiares ao exercício do empreendedorismo, objetiva- se examinar o processo de popularização e a construção subjetiva criada, pela mídia, em torno do agente que empreende. Em outras palavras, nosso objeto é o discurso sobre o sujeito empreendedor, e não a prática empreendedora. Para isso, a etapa inicial da pesquisa consiste num levantamento da recorrência do termo “empreendedor” na Revista Veja entre os anos 1980 e 2010. A ideia, aqui, é perceber com qual frequência e com quais significados o termo foi utilizado ao longo desse período, intervalo de tempo significativo para podermos observar as eventuais permanências e descontinuidades no discurso. Os anos de 1980

e 2010 não foram escolhidos ao acaso, mas representam igual distanciamento (tanto

pra trás, quanto pra frente) da década de 1990, quando o Brasil abre sua economia ao

livre mercado internacional. Tal dado não é irrelevante, visto que é nesse período que

o país passa a receber, junto com produtos e capitais estrangeiros, a influência do neoliberalismo como ética que rege não apenas a economia, mas também as relações no mercado de trabalho. O empreendedor capitalista, indivíduo da “dinâmica

o homem da empresa e da produção” (Foucault, 2008b, 201) aporta

concorrencial (

em solo nacional como a materialização individual do trabalhador livre, eficiente e performático (Ehrenberg, 2010). Mais ainda, ele se torna sinônimo de sucesso profissional, sendo recorrentemente apontado como o indivíduo que “realizou o sonho de ser seu próprio chefe” 4 . Assim, espera-se que o espaço de tempo entre 1980 e 2010 seja suficiente para apontar algumas significativas transformações no uso do termo. Em seguida, pretende-se aprofundar o estudo nas duas categorias de empreendedor já mencionadas: o individual e o social. O empreendedor individual é

)

4 Inúmeras são as reportagens que usam variações desta frase para apontar o negócio próprio como um dos maiores sonhos do brasileiro

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um personagem recente e ainda pouco conhecido pelos brasileiros. Em 2009 foi instituída a lei que cria uma nova e mais baixa faixa de tributação no país, e com ela surge o sujeito tributado: o micro empreendedor individual (MEI). Fruto de uma articulação jurídica do governo federal, o MEI nasce com o claro intento de trazer à legalidade (e, consequentemente, à tributação) milhões de pessoas que atuam no mercado informal. Mais especificamente, segundo dados da Previdência Social, o programa objetiva formalizar onze milhões de trabalhadores informais (Salgado, 2012); em junho de 2014 o número de adeptos ao programa já tinha chegado a quatro milhões 5 . Considerando dados do IBGE de abril de 2014 6 , que indicam uma população economicamente ativa (PEA) de pouco mais de 24 milhões de brasileiros, a ambição de formar 11 milhões de micro empreendedores individuais não é insignificante. Mas o interesse pelo objeto não se deve apenas à abrangência de sua ação. Interessa-nos, em especial, compreender através de que processos discursivos trabalhadores informais (como borracheiros, manicures, pipoqueiros e ambulantes, entre mais de 500 ocupações cadastradas) são elevados ao status de “empresários”,

pessoas que “restituídas em sua cidadania (

passam a ser respeitadas enquanto

empreendedores” (Andrade apud Salgado, 2012). Nesses discursos, as possíveis consequências negativas decorrentes da absoluta privatização das responsabilidades sobre o destino profissional são silenciadas diante do enaltecimento das benesses advindas do individualismo empreendedor. Tais construções identitárias têm espaço privilegiado nos anúncios e materiais de divulgação do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa), principal órgão promotor da categoria. É sobre este material que nos debruçaremos nesta fase da pesquisa. Na etapa seguinte, a análise recai sobre o empreendedor social, apontado como o indivíduo disposto a correr os riscos materiais e psicológicos de um novo

)

5

Disponível

em:

microempreendedores-cadastrados-atinge-4-milhoes-12722449. Acesso em: 30/07/2014. 6 Disponível em:

ge/2014/pme_201404pubCompleta.pdf. Acesso em: 30/07/2014.

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empreendimento cujos dividendos atendem prioritariamente a outros, e não a si mesmo. Associando antigas práticas de filantropia e caridade aos atuais mandamentos do mercado, o empreendedor social tem sua ascensão em tempos de declínio do Estado de Bem Estar Social. Ou seja: ele é detentor de características típicas do empreendedor capitalista como individualidade, autonomia, tenacidade e predisposição ao risco , mas as usaria para o benefício coletivo, o que o tornaria “moralmente superior” ao seu congênere capitalista. Sabendo navegar por entre a inexplicável e complexa lógica do mercado neoliberal, o empreendedor social transcende a autonomia de si e por si e propõe uma ação cidadã autônoma e altruísta. Isto é, ele não apenas independeria dos governos e das instituições modernas para capitanear sua própria vida, como passaria a agir em benefício coletivo quando estes governos e instituições perdem seu poder de ação. Em resumo, o empreendedor social seria o trabalhador que mais personificaria o “novo espírito do capitalismo” (Boltanski & Chiapello, 2009), uma vez que ele une, de modo eficaz, solidariedade e lucratividade. Evidentemente, muitas incongruências estão em jogo nesta construção identitária, a começar pela própria ambiguidade do termo “empreendedor social”, passando pela definição do que seria uma atuação reconhecida como “social”, até a efetividade de sua ação na sociedade (Casaqui, 2014 e 2013a). Mas, novamente, o que nos interessa é compreender os modos de construção subjetiva do empreendedor social, assim como os caminhos de convocação para que os indivíduos (em especial os jovens) adiram a este perfil. Para isso, debruçar-nos-emos em matérias da Folha de São Paulo, jornal que dedica uma rubrica exclusiva ao tema “empreendedor social”, assim como promove uma premiação anual, em parceria com a Fundação Schwab, dedicado às iniciativas no setor. Finalmente, cabe um pequeno apontamento a respeito da justificativa da pesquisa descrita. Não obstante sua atual relevância econômica e social em nosso país, pesquisas sobre empreendedorismo e, mais especificamente, sobre o empreendedor ainda são escassas fora dos campos da Administração e da Economia

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(campos estes que, via de regra, adotam análises positivistas e utilitaristas do objeto). Nas Ciências Humanas como um todo, e explicitamente na área da Comunicação (áreas onde se haveria a esperança de encontrar trabalhos orientados por uma perspectiva crítica), há um quase absoluto silêncio na produção acadêmica sobre o tema 7 . Afortunadamente, novas vozes prometem ressoar nessa área, trazendo pesquisas sobre o empreendedorismo e suas reverberações na subjetividade e sociabilidade contemporâneas. Os trabalhos do professor Vander Casaqui (2014, 2013a, 2013b), assim como a criação do Grupo de Trabalho Cultura Empreendedora e Espaço Biográfico (Comunicon 2014) abrem novos caminhos, com os quais este trabalho pretende contribuir.

O empreendedor na Revista Veja: 1980 a 2010

Procurar reverberações da lógica empreendedora na Revista Veja, o “panfleto neoliberal mais característico da mídia brasileira” (Cazeloto, 2011, 1), pode parecer uma tarefa óbvia demais, mesmo banal. Seria, ainda segundo Cazeloto em uma jocosa passagem, “como afirmar que uma bula papal é conservadora” (idem). Há, no entanto, uma justificativa. Apesar do seu claro (ainda que não declarado) posicionamento político de direita, o escrutínio de Veja é pertinente pela significância da publicação na formação do senso comum do brasileiro, uma vez que é a revista semanal de maior circulação nacional, com uma audiência de 12 milhões de pessoas somando suas plataformas impressa e digital 8 . Com o presunçoso slogan “VEJA, indispensável para o que você quer ser”, “Veja se vangloria por ser ‘a maior, a mais influente e a mais prestigiada revista brasileira’, uma publicação ‘investigativa e esclarecedora que repercute em todo o país, com reportagens que explicam as grandes questões nacionais e do mundo’” (Freire Filho, 2011). A revista tem como missão

7 De acordo com pesquisa no banco de dissertações e teses da Capes, a busca pelo termo empreendedor resultou em apenas dois trabalhos na área da Comunicação, sendo que nenhum tem como escopo a análise do empreendedor como subjetividade emergente. 8 Disponível em: http://www.publiabril.com.br/marcas/veja/revista/informacoes-gerais. Acesso em:

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Ser a maior e mais respeitada revista do Brasil. Ser a principal publicação brasileira em todos os sentidos. Não apenas em circulação, faturamento publicitário, assinantes, qualidade, competência jornalística, mas também em sua insistência na necessidade de consertar, reformular, repensar e reformar o Brasil. Essa é a missão da revista. Ela existe para que os leitores entendam melhor o mundo em que vivemos. 9

Estamos cientes de que a “reformulação do país” e o “entendimento do mundo vivido” propostos pela publicação passam, evidentemente, pelas suas escolhas editoriais e inclinações políticas. Mas percebemos, também, que o “entendimento de

mundo” apontado por Veja tem reflexo no conjunto das opiniões do brasileiro médio, que assina o semanário ou simplesmente o folheia na antessala do consultório médico,

na recepção de uma empresa, no salão de beleza

ampla, em outras publicações com inclinações diversas daquela de Veja, daria maior nitidez a respeito do fenômeno que se vislumbra o empreendedor como figura disseminada e exaltada em nossa sociedade. Tal amplitude, por outro lado, impossibilitaria a determinação de um corpus conciso o suficiente para ser examinado com a profundidade que se espera numa tese de doutorado. Como segundo e último ponto, a escolha de Veja carrega também um ordenamento prático: em seu site, a publicação oferece todo o acervo da revista digitalizado, o que sem dúvida facilita uma sondagem em mais de mil e quinhentas edições, como é o caso desta pesquisa. Oferecendo uma ferramenta de busca na qual é possível procurar por palavra-chave ou expressão e, ainda, determinar o período da pesquisa, o Acervo Digital de Veja 10 tem se tornado um instrumento de grande valia aos pesquisadores de mídia. Fazendo uso deste recurso, busquei as recorrências da palavra “empreendedor” nas edições que vão de janeiro de 1980 até dezembro de 2010, num período de 31 anos. A procura resultou em 262 inserções em 233 peças 11 , entre matérias especiais,

Sem dúvida, uma pesquisa mais

9 Disponível em: https://www.facebook.com/Veja/info. Acesso em: 03/08/2014. 10 Disponível em: www.veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx. 11 Como em algumas matérias e reportagens o termo era usado mais de uma vez, contabilizei apenas o número das peças (jornalísticas e publicitárias), e não as repetições da palavra, exceto nos casos em que ela foi usada com sentidos diferentes numa mesma matéria ou publicidade.

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reportagens, editoriais, entrevistas, carta dos leitores e publicidades 12 . Como tais dados em estado bruto pouco ajudariam a averiguar a sugestão do empreendedor como sujeito em crescente evidência no território discursivo brasileiro, foi preciso extrair desses números categorias que apontassem para os usos e sentidos adotados pelo termo. O primeiro passo foi verificar a incidência da palavra nas páginas da revista em cada ano, o que nos indicou, de imediato, para a sua progressiva inserção no léxico de Veja. Como é possível ver no Gráfico 1, o vocábulo sai de meras duas incidências em 1980 e chega a vinte e duas em 2008, ano em que a palavra “empreendedor” mais foi usada por Veja. Vistos desta forma, os dados mostram uma curva irregular, porém ascendente: enquanto ao longo da década de 1980 o termo foi usado em 44 peças, na década de 1990 essa soma chega a 64. Na primeira década do século XXI o número salta para 129 inserções.

década do século XXI o número salta para 129 inserções. Gráfico 1 1 2 A título

Gráfico 1

12 A título de curiosidade, fiz a mesma pesquisa entre os anos 1968 (ano de lançamento da revista) e 1979, para ver a incidência do vocábulo no período anterior àquele de interesse. Como resultado, o período de 12 anos apresentou apenas 34 inserções, uma média de 2,8 inserções ao ano.

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Em seguida, procuramos diferenciar as inserções pela sua natureza, ou seja, quais eram de caráter publicitário e quais eram produtos jornalísticos, como matérias, editoriais, reportagens etc. Incluímos também nesta segunda categoria as cartas dos leitores, pois percebemos que seus assuntos, via de regra, refletiam reportagens de edições passadas, permanecendo assim na agenda estabelecida por Veja. No Gráfico 2 vemos que a predominância no uso do vocábulo é de natureza jornalística, representando mais de 80% das inserções. Ambas as categorias refletem, igualmente,

a gradual implantação da palavra no léxico cotidiano do brasileiro. A última, porém, é

a que mais nos interessa examinar na etapa da análise qualitativa, visto que reflete não apenas os modos pelos quais o sujeito empreendedor é modulado e apresentado pelo veículo, como também é consumido e reformulado pelos leitores através de suas cartas.

e apresentado pelo veículo, como também é consumido e reformulado pelos leitores através de suas cartas.

Gráfico 2

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Finalmente, categorizamos os mais de duzentos e trinta usos do termo empreendedor pelo sentido que lhe é atribuído. A palavra, como sabemos, pode ser empregada tanto como substantivo quanto como adjetivo. Como indica o Gráfico 3, em 62% dos casos a palavra é usada como substantivo, enquanto em 38% seu uso é adjetivado.

como substantivo, enquanto em 38% seu uso é adjetivado. Gráfico 3 Como substantivo, percebemos dois usos

Gráfico 3

Como substantivo, percebemos dois usos predominantes: na maior parte das

vezes o vocábulo ganha o sentido de empresário, homem de negócios, ou seja, aquele que empreende no mercado capitalista visando o lucro (“Ele não é um empreendedor

tradicional, aquele empresário que cultiva o seu negócio com carinho de pai

Veja, 11/06/1997, p. 106; “Digamos que eu seja um grande patrão, um grande empreendedor, alguém capaz como Marcel Dassault ele produz aviões, é um homem formidável.” – Veja, 18/08/1982, p. 4; “Nem para gerar empregos, álibi de

qualquer empreendedor, a pecuária serve.” – Veja, 22/04/1992, p. 67). Com este

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significado, o substantivo faz referência a um heterogêneo grupo de pessoas de Visconde de Mauá a Eike Batista, passando George Soros, Richard Branson, Victor Civita e até o improvável “Seu Creysson”, proprietário da inusitada “Organizações

Tabajara”

como indivíduo que realiza algo, que coloca em execução determinada tarefa, que é movido pela lógica empresarial, mas sem necessariamente ser um empresário (isto é, proprietário de uma empresa capitalista). O empreendimento, aqui, pode se dar nas

é preciso saber que cabe a cada um

de nós ser o empreendedor da própria vida.” – Veja, 04/11/2009, p. 46; “[Thatcher]

da ideia de que cada indivíduo é um empreendedor econômico que vai se

virar por si

empreendedor, jamais satisfeito, possivelmente infeliz, sempre buscando novos desafios.” – Veja 23/12/1981, p. 98). Como adjetivo, ou seja, vocábulo que acrescenta uma qualidade ao substantivo ao qual se refere, o termo empreendedor em geral assume conotações positivas nas linhas de Veja, rotulando o sujeito empreendedor como aquele que tem persistência”, “criatividade”, “dinamismo” e “disposição para correr riscos”. Os substantivos aos quais o adjetivo empreendedor faz referência não são apenas indivíduos, mas também lugares, empresas, governos, países e, notadamente, “seus espíritos”. Mais da metade das recorrências da palavra empreendedor, quando usada como adjetivo, qualifica o espírito(e variantes, tais quais “caráter”, “perfil”, “determinação”, entre outros) de

alguém ou alguma coisa (

papel crucial exercido por uma elite detentora de

Veja 15/04/1992, p. 38; “O pioneiro Freud foi um edipiano

artes, na ciência, no esporte, na vida pessoal. (“

A segunda acepção substantivada da palavra se refere ao empreendedor

profeta

conhecimento avançado, espírito empreendedor, energia criadora e com os valores democráticos bem consolidados.” – Veja, 15/12/2010; “Sua [de Victor Civita] coragem, sua ousadia, seu entusiasmo permanente e seu espírito empreendedor levaram à criação de revistas e obras culturais que revolucionaram a atividade editorial e enriqueceram a vida de várias gerações de brasileiros.” – Veja, 07/02/2007; “Em certa medida, a resistência do espírito empreendedor brasileiro a exigências absurdas do Estado lembra o vôo do besouro, que, apesar da aerodinâmica e do peso,

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consegue sair do chão.” – Veja, 01/09/2004; “

próprios: fartura de recursos naturais, força de trabalho disciplinada e barata, espírito

empreendedor suficiente para resistir ao sufoco de anos de economia centralizada ” – Veja, 10/06/1992; “Os Prêmios Rolex de Iniciativa têm um objetivo: dar apoio financeiro a projetos que possam abrir novos horizontes em seu campo específico e que tenham aquele espírito empreendedor presente na Rolex e nos possuidores de um Rolex.” – Veja, 27/10/1982). O espírito, “substância imaterial, incorpórea, inteligente, consciente de si, onde se situam os processos psíquicos, a vontade, os princípios morais” (Houaiss, 2009), parece ser a nova fronteira a ser conquistada pela ética capitalista, que em sua fase neoliberal não se contenta apenas com o domínio sobre o corpo físico, mas almeja os sentimentos, a emoção, a alma. Esta curiosa recorrência certamente será merecedora de ulterior escrutínio na pesquisa de tese.

o país [Vietnã] tem atrativos

Conclusão A investigação do número de aparições de um termo num determinado veículo de comunicação por um dado tempo pode parecer uma grande tolice, tarefa mecânica que não resultaria em qualquer contribuição a uma pesquisa acadêmica de cunho qualitativo. Mas não é. Ao contrário, acreditamos que tal tipo de consulta pode fornecer preciosas indicações a respeito dos usos e da aderência de um termo no imaginário social. Esta é a intenção desta primeira etapa da pesquisa: vislumbrar em que medida as recorrências do termo empreendedor nas páginas da revista Veja podem contribuir para a “reforma dos modos e costumes nacionais” (Freire Filho, 2011, p. 737) de se pensar o indivíduo trabalhador. A crescente inserção da palavra empreendedor no conteúdo jornalístico da revista seja como sujeito atual e bem sucedido, seja como uma qualidade positiva de pessoas, lugares e instituições – sugere uma valorização dessa figura pelo veículo, que lança mão do “discurso competente dos especialistas” e de “narrativas de vida edificantes” (idem), para oferecer um receituário de subjetividades atinadas à cultura empreendedora. A

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confirmação desta sugestão, contudo, só poderá ser sancionada futuramente, na etapa qualitativa da presente pesquisa.

Referências

BOLTANSKI, Luc. & CHIAPELLO, Ève. O novo espírito do capitalismo. São Paulo:

Martins Fontes, 2009.

CASAQUI, Vander. Concepções e significados do empreendedorismo social no Brasil e em Portugal: crise, performance e bem comum. XV Encontro Nacional de Sociologia Industrial, das Organizações e do Trabalho. Covilhã, 2013a.

Questões metodológicas para o estudo das vidas narrativizadas: aplicação às narrativas de empreendedores sociais. Famecos. Porto Alegre, v. 20, n. 3, p. 866-883, setembro/dezembro 2013b.

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