Você está na página 1de 127
O Amor do Censor ensaio sobre a ordem dogl'!lática "Trata-se de observar como se propaga

O Amor do Censor

ensaio sobre a ordem dogl'!lática

"Trata-se de observar como se propaga a submissão, quando a obra-

prima do Poder consiste em se fazer amar." Lacan nos mostrou que o amnr se fundamenta numa palavra va-

zia . Se a plena palavra garante a proli- feração e a expansão dos sentidos, é porque seu fundamento é o desejo. O desejo, estamos lembrados disto desde Spinoza, é a essencialidade do ser falan-

te (que se nomeia humano). E Freud nos ensina que, em sua raiz, o desejo é

deSejo de desejo - com tantos sentidos

ruas sem qualquer significaçlro possível.

Já a palavra vazia é aquela que se obs-

tina na significaçã'o, subtrocando, as- sim, o desejo por um aparente "desejo de submissa-o".

As grandes burocracias de mode- lo ocidental encontram facilmente seu paradigma no Direito Canônico e na Teologia Escolástica, cujo feliz casa- mento nos arranjou a bela liturgia de

submissa-o a que ainda assistimos: a lei

organizada em sistemas -

com seus co-

(•·."·.*'

·,

\.\

'

l

a que ainda assistimos: a lei organizada em sistemas - com seus co- • (•·."·.*' ·,
a que ainda assistimos: a lei organizada em sistemas - com seus co- • (•·."·.*' ·,

i.

l i

Pierre Legend re

O Amor do Censor

ensaio sobre a ordem dogmática

Traduçfo de:

CoWgio Freudiano do Rio de Janeiro:

Aluísio Menezes Potiguara Mendes da Silveira Jr.

I

a~

editora

~ Colégio Freudiano do Rio de Janeiro

~

FORENSE-UNIVERSITÁRIA

Rio de Janeiro

Traduzido de: L'Amour du Censeur- Essai sur L'Ordre Dogmatique Copyright © Sditions du Seuil, 1974

Traduzido de:

L'Amour du Censeur- Essai sur L'Ordre Dogmatique

Copyright © Sditions du Seuil, 1974

Consultor da tradução : M . D . Magno Capa: Luiz Carlos Galvã"o Miranda

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Edit ores de Livros, RJ .

L526a

Legendre, Pierre.

, O Amor do censor: ensaio sobre a ordem dogmattca/ Pier-

.

.

re Legendre ; traduçfo e revisto de

Aluísio Pereira de Mene-

zes, M . D . Magno [e) Potiguara Mendes da Silveira Jr. (do] Colégio Freudiano do Rio de Janeiro.- R_io de Janeiro: Fo- rense Universitária : Colégio F reudiano, 1983.

Anexos

1.

Dogmatismo

L Título ll. Título : Ensaio sobre a o r-

dem dogmática

CDD-148

 

83.()662

CDU -

165.71

Reservados direitos de propriedade desta tradução pela EDITORA FORENSE-UNIVERSITÁRIA LTDA. Av. Erasmo Braga, 227- Gr. 309- Te!.: 283-11 52 Rio de Janeiro - RJ

Impresso no Brasil

SUMÁRIO

 

Posição do Tema

7

I. Desta GloSil a Freud

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

• .

 

.

.

.

.

.

.

.

13

 

Onde Freud podia ver a Instituição

.

.

.

,'.

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

17

Articular um Seguimento

 

30

Fundação do

Média

Discurso Canônico . Um retorno â

.

.

sua Idade

.

44

II.

Os Primitivos da CensUTll no Ocidente

 

.

.

 

.

53

O

Genitor da Palavra

.

:

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

.

.

.

 

.

.

.

.

59

O

Texto como Discurso Assentado

 

.

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

72

Tra tado da Prestança do Doutor

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

.

.

88

III.

O Sujeito Possuido pe/4 Instituição

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

107

A

Ordem Sexual e seu Terror

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

113

. Onde Passam os Rebeldes? NotaÇÕes sobre a Antinomia .

Política dos C011fessores

.

.

.

:

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

129

146

IV.

Parêntese. A lmtituiçlib e sua Arte do

 

Traço

 

.

15 5

V.

ODiscurso Suspenso

165

A Utopia Patriot a e sua Lei

 

173

Paradigma. A Burocracia como Universo Feliz e Culpado .

 

190

Também, a Questlo Sabatina. Quem está hoje no lugar do Canonista?

VI. No Final: A Função Dogmática e séu Onico Dicionário .

Anexo I. Viático do Leitor

.

.

Anexo

11. Distinç ões para fundar a boa Ciência.

Textos Exemplares

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

207

223

235

239

,.

r

!

r

Posição do Tema

Este livro trata do Poder e de seus arredores de saber, em um deter- minado lugar da história.

Trata-se de observar como se propaga a submissa:o, que se torna dese·

jo de submissão, quando a grande obra do Poder consiste em fazer-re amar.

A realizaçlo de tal prodígio sempre supôs uma ciência particular, que pre-

cisamente constitui a annaçâ'o desse amor e camufla com seu texto a pres- tidigitaçlio de uma pura e súnples imposiçlo de adestramento. Em outras

palavras, a Lei em cada sistema institui sua ciência própria, um saber legí·

timo e magistral, para assegurar a comunicação das censuras até os sujei· tos e fazer prevalecer a opiniio dos mestres. No estreito espaço das tradi· çõcrS ocidentais, mas graças ã linhagem ininterrompida dos comentários jurídicos ou das novas versões do texto, se nos oferece essa matéria sur- preendentemente preservada, uma ciênCÍIJ perpétua do Poder. Dos teólo- gos-legistas da Antigüidade aos manipuladores de propagandas publicitá- rias, um e mesmo instrumental dogmático se aperfeiçoou a fim de captar os sujeitos pelo meio infalível que aqui está em questão : a crença de

amor.

Será, pois, reaberta a velha trincheira dos Jogmatisrnos onde se enraízam ainda as núrabolantes ciências humanas, por demais mal·informa· .

das sobre seu terreno. Seria preciso colocar em evidência urrui transmissão,

e depois o jogo mais moderno das ancestrais técnicas do fazer-crer

essas técnicas não há institui,&ão, isto é, não há ordem nem subversão. Se o

censor dá título a este curto trabalho, esta referência está aí para

lembrar, segWldo o estilo ingênuo dos teóricos medievais da Lei, fundado·

res no Ocidente de uma medicina da

d~ ;por esse prodígio, o oponente pode ser defmido como um culpado, e o erro, como uma É, pois, por esse viés particular: o Direito, reconhecido como a mais antiga ciência das leis para reger, isto é, dominar e fazer caminhar o gênero

7

tQS<!LilQ.JlÓ_do

amor ·do

sem.

alma, que o fo.der

leis para reger, isto é, dominar e fazer caminhar o gênero 7 tQS<!LilQ.JlÓ_do amor ·do sem.

humano, que eu abordo o estudo da instituiyJ'o. No qual veremos os t écni- cos das propagandas ocupar a coloca.ç!o prestigiosa, outrora reservada às diversas espécies do jurista. O texto dos ancestrais foi transmitido; por vias que se tornaram obscuras à antropologia, ele foi recebido nas organizações nacionalistas dos tempos modernos; com suas belas peças originais, toma- das do Direito Romano e da teologia crista', ele prossegue sua carreira, transfonna sua língua, melhora e desenvolve sua casuística. Evidentemente meu recorte do t~:ma é parcíal, porque na·o tem a intenção de considerar o todo da instituição, tal como os Ocidentais a construíram por detrás de uma cortina tradicional, cujos elementos roma- no-cristãos foram consideravelmente discernidos pela ftlosofia alemi do século XIX, e por Hegel em primeiro lugar. Com est e ensaio, penso somen· te em demonstrar o sepultamento dos temas que fundavam a crença no Poder na Europa medieval; temas progressivamente submersos pelas mais afáve.i's interpretações, e não obstante sempre presentes no âmago do texto.

nessa gran-

~ de parada social que chamamos comodamente um sistema &rfdico, e are- velar o ponto de passagem obrigat? rio de toda doutrina que enuncia a sub· miSSfo: uma sexologia, para assegurar e justificar o poder dos chefes. Nes- sa passagem inevitável, onde pode ser percebida, sob sua fonna delirante, porém estritamente ordenada n o texto, a nútologia primordial recitada à maneira ocidental, o Direito divulga um certo reiÜJle das crenças e se inau- gura enquanto instrumento político. Compreender oomo funciona uma manipulação tão radical dos símbolos sexuais, a partir de tal saber arcaico, deveria:' ajudar - pelo menos é o que quero esperar - a conceber mais cla- ramente os jogos contemporâneos do dogmatismo na instituição que nos tem. Em ambos os casos, a psicanálise reivindicará que isso seja observado com mais atença-o.

~ O presente trabalho se inscrexe na moyência dessa empresa· penetrar

.l)js_pQ.nb9:11lU1~~com que apareÇ!

49

d Qgm.a

Jiwo

~fun~_o

a camufla,&em dQilllá~~aPari observar. o fenômen~tudcnal.As ques-

tões, ao correr das pagmas, serfo suficrentemente enunciadas, o que toma desnecessário que neste preâmbulo sejam enunciadas uma a uma. Preferi- ria, antes, dar o tom ao leitor. Este livro nã(} libertará nin&uém, pois não pretendo mostrar o avesso e o direito das cartas. Assim como a psicanálise nfo se redÚz ã chave dos sonhos, muito menos ao suspiro de alívio que vem acompanhar a recusa de sua história em tantos sujeitos de uma velha monarquia governada pontificalmente (eu falo da República francesa), onde se reconhece, como eu sempre disse, a fatura ocidental de um estado selvagem ainda prescrito sob o regime industrial. Se há de fato aqui matéria lógica, nenhuma ciência é admitida para responder por ela, salvo a do juris-

8

ta , que procede por uma liturgia regrada , com todos aqueles de seu cortejo ,

para selar a verdade. Trata-se, portanto. de observar um ditado teatral, a

prestidigitação a fim de arrumar as únicas q uestões lícitas, e essa cena que nos é mostrada : os mestres da Lei sendo presa de sua lógica.

a instituição por intermediários e por sím bolos, para re-

presentar o conflito. Nela se faz necessário um discurso regrado , pontual- mente recitado, rigoroso em sua gramática e que preserva a escaJa dos sen- tidos, conseqüentemente, discurso ortodoxo e de saber. O indivíduo, seja

qual for, não figura como instituído sob os tiranos, nem cadáver nem dor·

" midor, mas realmente com o portador de uma máscara que lhe cabe, sujeito flagrante de seu papel, repetido até o desejo de ser tomado por tal. Nin- guém escapa a semelhante adestxamento, pois a instituição persegue seus rebeldes e é infligida até aos loucos, a todos os evadidos. "Todo mundo odeia a per-Seguição", diz um paciente.

Eis porque esses paralelos, que fundamentam meu estudo, entre dois

registros em que a instituição constitui igualmente pro blema, entre dois

modos igualmente dogmáticos, duas sobrecargas dtl censura no texto. Nes-

Assim

opera

se ponto, o Direito Romano vem, antes de mais nada, ajudar, que ele é o

inventor da palavra famosa;·.f!r'Siiiüiçio, que se tornou inaudível a meus

alunos, ignaros demais de uma

litígio com o herói legendário , o imperador-teólogo, o

das coisas para perceber seu

próprio Jusii.uWto ,

oráculo a ser ainda conjurado por toda ciência social no Ocidente até Hegel

certà'ã;ecãnica

e Marx inclusive. Interpretar a instituição é primeiramente refazer a sua

~ · Se existe um meio através do qual se possa conseguir para o psica- nalista wn salvo-conduto nesse domínio em que vige o saber dogmático do manejo e da oonduçlo do homem pela instituição, esse meio, o único, con- siste em retomar ao texto. Bem como na experiência analítica se inaugura

, uma glosa e se ostenta a lógica, para repor em jogo o u fazer fracassar o conflito conforme o instante em que ele está em causa: a economia do mesmo sistema se reproduz, mas na escala e na medida macroscópica. O ao-.âmago da censura é, nos dojs casçs. o a cesso ao tema do text9, a decripta~ de um discurso. Este ensaio escabroso deve, t ambém, neste primeiro momento de uma exposição difícil, insistir na importância e na generalidade do discur- so jurídico. Procuro determinar a natureza exata das conivências entre a ameaça de que se alimenta a ordem psíquica e essa outra ameaça, não me-

acesso

nos simbólica e sempre. m.aq.uiada, que

para um grupo humano historicamente designado e culturalmente identi· ficável. A psiquiatria h oje sabe, começando a receber a formidável lição de uma antropologia a princípjo inventada para convencer o negro a renunciar

9

funda

a

ord.em

_de um poder so_çial .!.,

a seu conflito, que os quadros clfnicos se diversificam de acordo com as inúmeras nuanças em relação às fonnas variadas do adesttamento humano. O que empreendo aqui é uma suma de questões cujo objeto é o de localizar alguma coisa no plano da selvageria ocidental e mesmo, se possível e mais de perto, no plano de um grupo especificado,.o francês, a que chamo na- cional por falta de saber mais a respeito. Qualquer psicanalista admite tam- bém que na análise, se o paciente nfo é o único em causa, a instituiÇio se entrelaça mecanicamente, pela única razlo de haver esta estranha testemu- nha, o próprio analista, que sabe se calar ex cothedm e nlo ficar desanna- do, a menos que seja um ingênuo; a tr~~ênciaintervém numa situação que reproduz-e fabrica de novo os poderes magistrais conferidos ao Exco-

--- mungador, segundo as necessidades de um grande processo. Enfim, se faltasse a certos leitores uma justificaçfo que tornasse

- plausível minha empresa, eis mais uma prova. Este livro representa o ins-

- · tante de urna conclusã'o. Concluo que existe, do pon~jl.lristas :.; :.' aljmentados pela tradiçfo ocideota),um por-baixo proibido, a moa de uma _::j; ~\ ciência infernal. Sua máxima , que me foi várias vezes comentada por um

~ deles, está nestas linhas: in:Crpn;~~.demajs é como tocar piano com um ~ .martelo! Semelliante graceJO, nws profundo do que diz, visava a dissuadir do esforço interpretativo, tido com ilícito, isto é, subversivo para além de umacerta fronteira familiar designada como intransponível. Por muito tem· po este interdito me foi sibllino, inapreensível em suas razões como em suas defesas algumas vezes expostas, a propósito desse ou daquele trabalho de minha lavra, sem discrição. Mas, pouco a pouco, precisou-~Seo nó. A fre· qüentaç® dos glosadores medievais, uma experiência de tecnocrata passa· da no deserto africano, depois a aprendizagem da grande obra psicanalítica deviam contribuir para precisar os termos de um debate regrado, eludido sob a alusão, experimentalmente reconstituído em Nanterre onde me foi singularmente proposto o velho paradigma do Direito e de seu Terror: ali foi reproduzido o texto dos Padres por novos clérigos adestrados na imemo- rial Universidade e falando comicamente de hõerdade, sem se dar conta do simulacro; admiráveis cenas em que foi repisado o mais antigo repertório, do qual os estudantes-juristas e seus professores sabiam, por instinto, en- contrar as liturgias. Na querela canônica, recitam-se várias ver~~ei e são representados papéis de Romanos. Tratar isso seria portanto reabrir a pesquisa que tem relaçfo com o jurídico. Não ter como abolida a arte da glosa, mas aprontar para nosso uso as técnicas da referência. deeífrar-lhe os sjlêncios. apreender o sentido e o contrasenso, o texto e seu acr~scimodialético, a palavra de um doutor. Semelhante tarefa vem apoiar o longo trabalho de Freud, o qual na:o pode

10

vem apoiar o longo trabalho de Freud, o qual na:o pode 10 ., ·' ser continuado

.,

·'

ser continuado ou retomado sem levar em conta os longos encadeamentos do dogmatismo; também deveria sugerir a mais de um analista, preso na rede de seu próprio desejo, úteis observações sobre o modo de emprego da lógica, sobre o alcance do caso em psiquiatria, talvez, enfmt, sobre o enig- ma a respeito dos seguimentos da psicanálise em face da história continua- da dos procedimentos dogmáticos no espaço cultural europeu. A partir daí, o tema deste trabalho introdutório ganha seu lugar, e

seus desenvolvimentos se propOem. na:o como contribuiç4o teórica. mas I

como ex.periêm;ia Vários problemas consideráveis se • acham reconhecidos, designando por grandes massas uma matéria muito vasta, abusivamente negligenciada. Desbaratar esta trama nJQ é coisa de pouca monta, pois se op&m a essa tarefa as censuras em uso e a carência dos pontífices wstwos no cafamaum universitário. E por isso que este livro mio foi publicado sob qualquer divisa.

classjfiça~o. clc

11

universitário. E por isso que este livro mio foi publicado sob qualquer divisa. classjfiça~o. clc 11

•.

I

I

Desta Glosa a Freud

Introduzo sob esta rubrica nada mais nada menos que a definiçllo preliminar, uma exposi.çllo dos elementos à maneira da antiga retórica, que

sabia coagir o aluno a seguir um sentido obri&atório-. Não se entra na casa

dos legistas (outro nome para identificar os juristas aos técnicos da Lei)

c:omo se entra na casa da sogra, sem ser apanhado pela~ ;mas, pedindo emprestado o desvio de um acesso à matéria- o occessw·ua materiam, di- ziam os medievais - , por conSeguinte, a via tra ·ada, admitida de antemão.

Pua facilitar a virada e mostiar bem, de saída, que o estudo da tradição y juddjca nio pode atingir o núcleo das coisas sem transjtar por esse lado onde está o psicanalista, é necessário marcar uma primeira interrupção quanto à referência a Freud. Antes de mais nada, entendamo-nos sobre um ponto. Este trabalho n!o tem por fun e nfo terá por matéria voltar à história das concepções analíticas~ tensões no seio do primeiro grupo freudiano em que o tema da ~~si@ foi enunciado repetidas vezes.~ relações de Tausk com Fieud, porexemplo, mereceriam, do ponto de vista de sua tragédia fmal, novas observações, colocando diretarpente a questão do conflito em termos

de instituição 1 A nosso ver, a persistência e a gra-ridade das dissensões en·

tre analistas, ligadas ao fenômeno do culto supersticioso dirigido para a pessoa ou para os escritos de Freud, aqui e ali, mesmo na opinião menos:# informada, manifestam seguramente que a psicanálise constitui problemas no QPe diz re.weito à ciênciae ao poder. Por mais interessante que seja, este grande caso nfO pode ser aprofundado aqui, ~is o propósito visa reconsti- tuil a um tempo o invólucr"-do doW'atismo ocidental, do qual se ex· traiu precisamente o discurso freiimm'<(: será que esta brecha sofreu uma guinada? Eis wna questlo política que está longe de ter sido esgotada. Depois vem wn breve parêntese, destinado aos leitores nlo-analistas (ou n!o-analisandos) e, mais ainda, aos especialistas do dogma jurídico. Nlo apresento minhas notações para fundar um freudo-qualquer coisa

sobre a matéria institucional, que considero insuficientemente explorada. Não proponho, em parte alguma, precipitar-me na direção de uma doutrina da evasão em que os saberes venham perder suas cores e suas propriedades, como qualquer um hoje pode constatar na vala comum das disciplinas universitárias. A instituição ocidental e o dbgmatismo que a solda nilo se deixado pe~ceber em um coquetel de anedotas históricas e de transgres· soes analíticas. Esta observação justifica também uma refleXfo sobre o pro- jeto de meu comentário a partii de uma releitura de Freud. Reler Freud, a ftm de relevar em sua obra os lugares principais da questão, e para fixar as intenções: aspirar.ao sentido das coi~~sob sua co·

bertura jurídica, trabalhar para descobrtr o modo operatono comum ~

qualquer cen~ra. desentemu a relação que liga a psicanálise à.tradição do

Ocidente ainda presente atrás do advento das grandes burocracws. Trata-se,

portanto, de precisar a ínserçlo do estudo, ao mesmo ~~po nos confms da obra freudiana , ali onde cessa a estrita relação das analises, e no centro

da teoria que reúne entre si os mais diversos casos clínicos.

. Enfun, devo acentuar a importância de meu recurso aos medievaJ.s, várias vezes louvados em meu livro. Sobre isto, há ainda váriás razões que

enunciarei mais adiante, no decorrer de um descritivo técnico sem o qual as formas ocidentais do dogmatismo , por conseguinte, as invenções do '-. saber para fazer amar a submissão, permanecem incompreensíveis. O leitor está em condições de navegar por ae . mas é preciso que aqui, ao abordar· mos esta matéria rude, não hesitemos quanto à Idade Média, ainda essen·

.

cial. Certamente , todo ataque dirigido contra o obscurantismo é impressio·

nante por aquilo que nos mascara, e a rejeição dos medievais p~rafora da modernidade (do ponto de vista do discurso sobre o Poder) contmua sendo uma extraordinária trapaça. Leiam, então, Kafka: o glosado r reaparece nele com todas as letras e vem ordenar a fuzilaria. Vamos parar de rir da Idade Média de suas técnicas do obscurecimento, sempre eludidas, ~empre pre· sentes: Seria preciso desfazer esse qüiproquó, e eu me empenharei nesse sentido, nos capítulos que se seguem, retornando ao discurso me?ieval do m étodo , que trata efetivamente da instiJuição e do processo . :rectSo acre~­ centar que i!.&Losa 3 . corDf' retornadi )iterai do t.exw , está no a.mago da p Sl · canálise? Indicarei, aí também, o estilo convemente para mampular tal pa-

i

!

ralelo.

16

I

ONDE FREUD PODIA VER A INSTITUIÇÃO

Uma precisão quanto a meu ajuntamento de referências a Freud a fun de introduzir, do modo mais simples, o curto tratado que publico. Não tenho a intenção de fazer aqui um sumário exaustivo, e nada pode dispen- sar o leitor, se ele é amante de quadros completos, de recorrer , ele próprio e por sua conta, a esse índice enigmático das Gesammelte Werke, onde se

mostrando a riqueza das

alusões a quem quiser collier bem as palavras, de passagem por esse alfabe- to. Não se trata tampouco de empreender uma historiografia que ensine

Freud a Freud, e que aborreça sua obra para contabilizar seus bons tre- chos. Bu me interesso pelo que Di obra é incisivo, por retraçar o procedi· menta que. por certas vias, conduziu Freud a lembrar incessantemente a extenslo ló&ica de toda análise e a inte~a! subversão que nela se anuncia, em relação ao que necessariamente, em cada experiência analítica, ali não está, e que se encadeia com a ordem urúversal das censuras.

intitula a matéria sob as mais diversas rubricas 4 ,

texto freudi ano se inscreve , portanto , segundo a apreensão de meu Jf:

O

estudo, como a contrqdogmáticll no âmago desta maquinaria designada pe- lo termo geral de c~t,ara, termo domesticado tardiamente pelo próprio Ocidente, após a radical defm.ição que lhe foi dada outrora pelos medie- vais5 . Em virtude disso, todo o corpus freudiano alcança um estatuto espe-

cial na classificaçao das espécies do saber sobre o homem, porque ele enun· cia a ruptura com os ~amostradicionais. Observamos, por conseguinte, essa passagem em direção a uma nova demarcaçfo das ciências - passagem evi- dentemente marcada pelo trágico para o próprio Freud - , fazendo surgir a psicanilise (tal como adiant'<?u'seu principal fundador) na junçao em que podemos articulá-Ia com outros textos, os do jurista e os do teólogo, que decorrem de uma Antigüidade especificada, reescrita no ditado escolástico, ele próprio mais ou menos frustrado, desmembrado em todo caso, pelos

século XVIII. Em face dos saberes dogmáti-

cos provenientes da cultura latina, a psicanálise figura uma posição em

decorado res de conjuntos do

17

que se desenvolve a t6cnica moderna de se chegar aos ~ntidos segundo as antecipaçoes de um Buffon, quando ele fez resplandescer sua aritmética

moral' ; o sistema do vellio Direjto e seus vestígios galicanos se viram entllo

desqualificados por um

naturalista. Onde estio, em nossos dias, ~ herdeiros do jurista medieval? Na tnnsposiça-o das máscaras e no grande qüiproquó doravante alimentado· pelas famosas cimcills hUI1fllfllls, meu retomo à Idade Média, da qual tra- taremos mais adiante, aposta identificar alguma coi.sa no debate, que desde

Freud~ urna dJreçfo nova, sobre um tema fundamental da institui-

Ç(o:~.

A censura, isto é, os bons meios de enterrar o conflito, segundo as exigências de um duplo jogo e1n que se realiza a funçfo vital de mascarár a verdade. Para compreender que os textos jurídicos podem, tambm eles, ser interpretados de acordo com esta proposiçfo, voltemos a este artigo de

método: cqmo dae se lq ullJl ceruura?

negador jamais visto, nfo mais o her~tico, mas o

A. Primtila notaçlo:a grrmde amt!llça de !tlber demais.

Neste lugar da história, a França e outros países onde se desenvolveu a rellgifo católk:a do Poder, países profundamente marcados por uma polí- cia particular dos bons e maus livros, dos bons e maus autores, etc., seria

ainda bastante vantajoso refletir sobre a perseguiçlo - uma espécie de damnatio no estilo antigo - que cercou de início as descobertas e a temáti- ca de Freud. Nesta zona de desenvolvimento humano, onde a ruptura nfo aparável havia sido hi pouco conseguida pelo trabalho e pelo sofrimento de Galileu, o vasto problema da boa ciência (originariamente oposta à mi ciência, divulgada pelo herético) deve ser considerada sem leviandade. Co- mo a física moderna, pela mesma brecha aberta, depois alarpda, a psicaná· lise se investe contra o qüiproquó da Fé, de·uma ciência fundada pela teo- logia, contra o modo t radicional de sua propaganda, contra o fechamento

e por procedimentos

jurídicos ou políticos adaptad<J. à singularidade dos dois casos, Freud so- freu a fatalidade do ultraje oficial, da defesa irônica dos clérigos de todos

os lados e de ser, dedo em riste, apontado pelo excomungador. Remontan- do a algumas décadas, qualquer um veria como os bons autores de ent!o escamoteaJam por frases bem medidas um desafio tido como ignóbü. Depois, começou a obra de recuperação, que prossegue diante de nossos ollios. Freud, como Galileu, após a descida infernal, foi erigido como signo fasto, para fundar, de novo, esse velho dogmatismo ocidental, que sabe

do saber sob I;IJll magistério universal. Como 1 (;allieu,

18

arrum~ a Verdade fulminando o Erro e passar, quando é preciso, da fantasia b~oca à alusa:o surrealista; que essa direçfo tenha sido hoje bem-sucedida ou nlo, tratarei dela mais adiante, no último capítulo. No momento, fiquemos na quest!o da irrupção primeira, aquela anterior à mascarada: o t~:'!:to freudiano foi rejeitado, sendo declarado inadnqssível por ter suspeitado que a censura social se relacionava também ao discurso

llumor.

. A psicanálise -rebento do Au{kliirung -

perturbou o repertórioclá.s-

s.tCO, extraordinariamente dependente da tradiçfo jurídica quando é o caso de tratar de instituiÇÕeS e de propagar os saberes poHticos. Nas sociedades nacionalistas da Europa ocidental, os jw:i!~socupam um lugar forte, exer- cem uma fWlçlo estratégica que oonsiste em aferrolhar cada sistema. seja ele qual for. Com coostmcia , este poder:·o de fabricar o invólucro de um dosmatismo, se reconstrviY, sesundo normas que a socioJoa;ia .até agora pouco estudou. Bem dentro do discurso ordinirio da censura (discuno mantido pelos juristas e seus lugares-tenentes), F.reud produzju uma saída, mostrando que se representa alguma ooisa por conta de uma outll cena. Se nos colocamos do ponto de vista do texto conforme ãs sociedades da Eu- ropa hi pouco laicizadas. 6 fácil conceber que Freud se imiscuía efetiva- mente na lógica tradicional que protegia os conflitos num discurso cujos m~tres eram titulados. Havia assim, segundo a nomenclatura antiga dos cnmes atrozes, atentado consumado pela palavra nefanda a palavra sub- versiva: &cwl~e" .Para compreender a f~çadas institui- ções espalhadas por sobre a superfície do Ocidente cristlo, e conseqüente- mente, para nfO se equivocar sobre o lado natural das reações ultraDegatí-

~ co~tra a psicanálise em seus primeiros pusos, ~ preciso aprender a

discenur ?aco~panhamento teocrático desse conjunto imponente, cuja fun~o:o1 de~da.até nós pelo Oire.jto Romano (lembremo-nos de que

os .Direitos nagon;ps europeus S4o coostituC4oo de materiais fartamente

t~mados do Djrejto Romano), a partir das profecias do Imperadqr Jysü-

. ru~o no tratado da Soberana Trindade (De summll Trinitate), queã'6re o

mm c&hre có~o de t~ ~s t~mpm ·rqaow sob Sff!Jf:! os Yz.i1ps- No·

~ando ~ta agilidade de felt~ da qual a instituiçfo tira seu vigor e seu ngo~(o JOaO de Qma crença primeira), deixando ver os alicerces do-real e o defe~oda J~ -esta ~tica loucura tratada, segundo o dogmatis- mo &os mediévms, como uma colt!IYl sem ~Cildo-, o texto freudiano mes-

mo que

tivesse esboçado uma nova teoria causal da sulnnissJo, dizia :nwto

sobre a matéria no tocante aos tratados do ato humano transmitido pouco a

. pouco desde a F&::olástica, para deixar de provocar o mais defensivo reflexs:>. Seria altamente significativo, e muito importante na prática, n.fo

·.

.

.

'

i

J>;,

reflexs:>. Seria altamente significativo, e muito importante na prática, n.fo ·. . . ' i J>;,

19

reflexs:>. Seria altamente significativo, e muito importante na prática, n.fo ·. . . ' i J>;,
reflexs:>. Seria altamente significativo, e muito importante na prática, n.fo ·. . . ' i J>;,

confundir entre si as diferentes reações negativas provocadas pela invençlo

analítica e suas conseqüências, do ponto de vista dos ressentimentcs de que a Regra institucional a!!rome a recuperação a fim de captar-lhe a ener· gia e de oferecer substitutos plausíveis aos indivíduos. Muitas nuanças deveriam ser introduzidas. As reações em causa sem dúvida variaram muito de cinqüenta anos para cá e, mais ainda, depois da última guerra no inte· rior desses aglomerados nacionais o nde se constituem os dogmas nacíona· listas cuja exata consistência sempre se ignora, com exceça-o dos juristas (pois , eles , pelo menos , não podem se deixar levar ~punemen te por semelhante igno rância). Os Direitos nacionais, como as línguas, acarretam as diferenças e fixam as distâncias antropológicas. As alçadas das censuras nacionais nlo são intercambiáveis, e se deixar lograr a esse respeito diz,

precisamen te, muito sobre as renovações do dogmatismo em

nossas socíe·

dades dominadas por wna chantagem doutrinária e pela mais cínica manipulaçl'o publicitária, proclamando a universal abolição da história. Seàa m•&ito útil reexaminar. pelo viés çills vellios nacjonalisroq_u ~oldagcm das grupos humanos a seu adestramegto tradjciona1. Exatamente como o

recente fanatismo que nos fabricou um Freu4:pontif}ce, as resistências à psicanálise também apresentaram diversas variantes. Essas resistências, de resto, permanecem para nós interessantes de serem lembradas, enquanto recusa primitiva que.vem enunciar, da maneira majs radical, uma negação essencial. A evocação de que as teorias sexuajs

estariam em estreitas rei~ com a

político. p[OVQCOU um &fªDde pavor. Seja em suas exposições especialmen· te consagradas a explicar seu próprio desafio, seja no curso de seus relató-

rios clínicos, FréÚd pôde notar esse ponto de gravitação de toda a oposi·

Çllo: um suposto pa constatado como delito

cia. A psicanálise vê o sexo por toda parte. Este aforisma tinha acotq.1da na

França, até bem pouco tempo ainda, em alguns meios universitários onde o

reflexo ancestral do respeito ao texto

em particular, junto a especialistas de certas matérias jurídicas (não todas)

ainda ensinadas à medieval; o fato merece ser realçado, pois ele é eloqüente

e verdadeiramente notável. Que haja fmgunen to não há dúvida, o menos

erudito em nosso assunto justificaria isto; pois a maior parte dos contradito·

res que manejavam com admirável destreza o argumento do escândalo nfo havia lido Freud. Essas reações funcionaram mecanicamente . Talvez fosse útil remeter a uma das passagens mais claras de um artigo menos conheci· do, no qual Freud resunúa em algumas páginas concisas seu ensino: "O que

a psicanálise chama de sexualidade não é de modo aleum idêntica à impul-

são Q.Ue aproxima os sexos e tepde a produzir a volúpia nas parte~vnitais,

20

cultura e sua ciência do adeS1Jamen to

de ultraje à ciên·

1~ismo,

se rnartifesta de modo mais claro , e

mas, antes. ao que exprime o termo eeral e compreensjyo de Eros no Ban- quete de Platão"

. sw ~~a virtude de assinalar este outro ponto de importância: a longa rneditaçao de Freud sobre as tradições da cultura, às quais se relacionam necessariamente nfo a regra corno a ciência do Ocidente. A psicanálise

De~ernos.um pouco o truque do tema do Eros. Este lembrete pos-

.

8

'

nelas intervém prowcandQ~~ quandg apjna)a Q1K sjm)Jó!ic;g se

D

coloca.para simular o verdadeiro conflitQ Que nw está lá. Seria p reciso me- todicamente retornar a esse plano de fundo vital, ao arttigo viveiro das cen· suras ocidentais, onde pescamos tanto de nosso instrumental normativo inclusive, com certeza, um velhíssimo Cuide des ggarés (Guia dos perdi:

dos) 9 , com o qual infalivelmente se colore a velha medicina alienista, que, de bom grado, busca urna moral e tradiçOes; o dogmatismo por toda parte traçou seus mapas, designou os lugares da correção ou da recuperaÇI"o, des- creve o caminho desviado para toda verdade (t7ames veritatis). Aliás, obser- ve~os a p~ de agora, pela força das coisas, o saber tradkional nlo pôde de~ de abnr a questlo fundamental do sujeito, nem de mostrar qw: a Le1 recebe da ordem fálica sua legitimidade (doutrina do pecado, nanar- ração das origens). A teologia dos Padres fornece, em vários registros, seus súnbolos riquíssimos. Quanto a isso, remeto às exposições sublimes de Ambrósio e de Agostinho sobre a cola ou o prego da alma, de que tratare- mos mais adiante, em tempo oportuno.

~

. Ao jogo de um fmgimento e às pudicícias complicadas de que fizera

especialidade sua a oposição à psicanálise há algumas décadas, e graças às quais se conseguiu aqui e ali fazer pesar sobre Freud o desejo de espetar o se~o por toda parte, o leitor se absterá de objetar a menor ironia. A psica· nálise chegou ao oco das hecatombes e do apodrecimento de que a ins- tituiçfo cristf não pode se restabelecer. Entre o discurso antigo e medieval · SQbre a censura, e o discurso do burguês balzaquiano ou weberiano, um vazio progressivo, a história de uma perda ao termo da qual emergem duas extremidades, a Jawum asilar e a oolícja qdminjstrqtilla, tratad~singular· mente pelas instituições leigas da sociedade industrial Quanto â censura social, de que testemunho a organizaçfo cultural, a psicanálise, surgida da intuiçtro de que esse vazio nfo é vazio, suputa sob as variáveis dos tem- P_OS e dos lugares, a invariante de uma estrutura fundamental. O artigo ·Citado de Freud constitui um interessante testemunho sobre a situação a que tinha entlo chegado o universo ocidental dos signos; eu saliento ainda

estas linhas : ''A socie~.~.~2.Q.~J.9.1JYir.f~.~

(de que trata a psicanálise), porque sob m1útru aspedoulua.fo tem a cons- ciência tranqüila. Ela começou por se colocar um ideal de alta moralidade,

õ .a deJÇ.Q.tlena,.d.~sw .relações

21

a moralidade sendo a represdo dos instintos, e exigiu de todos os seus

membros que real.i.zassem esse_ideal, sem se inQuietar com o que esta obe·

.Mas ela nlo é nem bastante rica, nem

bastante organizada para poder lhes oferecer wna indenizaçfo proporcio-

nai à sua renúncia. O indivíduo é , pois, levado a encontrar um meio de ar· ranjar para si uma compensaçfo suficiente e que lhe permita conservar seu

equilíbrio psíquico".

djência pode custar aos

jndiyC4y9s.

Mais adiante, isto: "A psicanálise revela as fraquezas

rdew sjstoma • recomenda seu abandono. Ela sustenta que é preciso afrou-

~ .xar a rigidez do recalcamento do instinto e dar, por isso, mais lugar à vera-

Por ter formulado essas críticas a psicanálise, inimiga da civiliZil-

cidade

1 pio, foi banida como perigo público" 10

- Empreendo, do ponto de vista desse quadro sinistro e sem dúvida mais realista do que hoje se quer acreditar, apesar das aparências de Ubera- çao, trazer ímportantes precisões a esse diagnóstico sobre uma história emi· nentemente complc,;xa. As sociedades que fizeram o Ocidente desenvolve- ram - será preciso lembrar - uma técnica da sub.mi§.são sobre a qual, no século XX, ~ fazemos uma vaga idéia, em vi{ tude da laicjzacfp da funçan . de censura e dos b~bitos de pensamentos novos em contato com as dbl· cias ditas humanas e sociais O empreendimento analítico foi inventado quando o dogmatismo de remota época e seu sistema penitenciário 1e encaminhavam para uma fase aguda de SQa crise. A instituição antiga, enunciada no texto dos teólogos e dos juristas,"pretendia assegurar a ind~ nizaç6o , pretensão bem enfraquecida na sociedade liberal de que Freud nos a &ombriâ descrição, nlo sem ter percebido e explorado em outro lugar

a mais de veracidade" para

desfazer a dramaturgia de que se alimenta essa instituiçã"o ininterrompida, ali onde foi banida com tanto clamor a psicanálise? O que isto significa para nós, herdeiros diretos do discurso dogmático? Vendo como se defen·

de a mitologia da onipotência, como se reconstitui a lógica dos desvios do

seus fundamentos es:senciais. Mas bastaria um

sujeito, coneo do.aprendidos a tirania das leis e o qilipróquó do rebelde, resta pouca margem à dúvida. A resposta dfõto está na expansão dos

sistemas burocratizados, portadores do KJMde presente da Beneficência,

aptos a medir a totalidade do conflito como para recuperar a ameaça de saber demais sobre o sujeito e sua religifo do Poder.

8. AnalógiCtJs - a ordem n~ttca e sua revelação.

Um ponto que se deve ftxar bem, a fim de situar a psicanáJise em face desta realidade evane~enteque nomeauaos instituição, conceme diretamen·

22

que nomeauaos instituição, conceme diretamen· 22 ., te à fonte das observações freudianas: a relaçlo

.,

te à fonte das observações freudianas: a relaçlo dos casos clínicos. Remon- tando este caminho de Freud, perceberemos sem difiCuldade que o estudo

que visa peaeg~úra instjtujçfo social atn1s da trincheira dQ&Wátjca deve vol-

tar a esta narração <JlC acentua, aotet de majsnada, apsicamilis;como .ciêJI. c:i.a do Cll!n- Eu nfo retomarei aqui evidentementeo vasto quadro conhecido

por qualquer analista

Sobretudo

Dora e O Homem dos Ratos, casos maio-

res para compreender essas duas vertentes essenciais e complementares, a

histeria e a neurose obsl;e~~va,vêm compor a referência fundamental; a

que se acrescentam as proposições classificatórias adiantadas pelas histó-

rias-tipo do Joãozinho , do Homem dos Lobos, e mesmo do Presidente

Schreher cuja mitologia flamejante deveria atrair a atenção dos especialis- tas da dita cultura ocidental. Mas, de acordo com a perspectiva de meu en- saio, nfo leiam esses textos ímportantes para alimentar de anedotas um ca- tálogo qualquer. ã maneira como usavam outrora de suas autoridades os historiógrafos europeus indo buscar em Plutarco a prova ilustre. Se essas referências são obrigatórias, é a fun de colocar em relação os elementos de uma construção, a da neurose (ou da paranóia), e aquela de que procede a Lei Social. Sobre este tema essencial, que justifica meu passeio, observe· mosisto:

A revelação da neurose, do ponto de vista denos.w pesquisas,é a de ter

~

-~

5

mostrado o funcionamento de umaordem dQmrítica, sob os traços de uma J

deformaç:ro ou de um exagero do oonflitn rwtwql mecanicamente reprodu-

!I

zido por cad,a ser humano . A

ao prerejto e aos cânooes da

.
.

·

titu tone

repcriçao extenuante dos sjanos. a obediência

(alta. a yenera~o das nWcaras ~esta perseve-

·o, todos esses elementos eu diria de b_om grado paia reconhecer a densidade do

~

vocab rio dos Juristas romanos~ 1 )defmem wna constitujCJO ooHtica da J

~ - O procedimento da análise dá forma

textual a isso , quando o ana-

~-'

.: .~-

··

;:

·'

:.:

lisando sob o olhar que ele crê do Outro, arragca as nalay[J§ dg §'Jl' çm;po .

Para cada um sua Lei específica, c;onforme a sua história, a sua apologética .

específica; paxa cada um $ Ua

me a sua gramática e o léxico para dizê.Ja. A questio aberta,.a partir deste"desaprumo das coisas, é a de aproxi· mar por esse nó vital o regi.uMt un~~9l!Lflas creg~icas, pois se trata de reç9nst~ -~J(J~_s~--~~~~~- Onde as distinções tradicionais recor- tam a convicção da análise: "QuiJd credilnus, auctoritati'", o que acredita- mos está relacionado ao vínculo de autoridade, observaram os Senhores de

versao partjcuJar da ciência do Poder, confor-

Port-Royal depois de Agostinho 12 Um sujeito qualquer, sujeito de seu

conflito ou sujeito do Poder na sociedade,cfpresa dessa lógica a serviço de uma Fé qualquer, pouco importa se esta ou qualquer outra. A Lei deve

23

J . ,~;. 4 ,,~ portanto ser tomada ao p4! da letra de seu s

J

. ,~;.

4 ,,~

portanto ser tomada ao p4! da letra de seus símbolos e segundo sua função na grande obra institucional que trabalha para escamotear ou reduzir o c.le-

sejo. ~

ei.s para n~s um termo chave, a ~un de convencer o leitor

de que, na mshrmçw soc,al como na neurose ll40 estamos lonu

seus sucessores hoje na

A~

do (ate~

'

' dor de feitiços. *0 trabalho do jurista (depois, o de

-:~~~

,.

~ empresa dogmática) é exatamente a arte de !nventar as palavras /!qnqg.i?i~ ,. > ><:>

zadoras, de indicar o objeto de amor hndl! a política coloca o prestigin e de manipular as ameaÇQs primordiais; e ainda aí, se efetua um retorno a

Freud, reconduzindo a seu nível verídico o pavor conservador do brocar-

à ciência que é conside-

rada tal pela própria instituição por seus cientistas qualificados, em seu en- cargo de repre:;entar ir.laginariamente o objeto real do dese]u estipulando uma sexnlogia para todos, ela se intitula tradicionalmeute sob as rubricas da Fé da qual ela procede em linha reta, graças ao jogo mais ou menos sofisticado dos símbolos de justificaç~o(Pai monarca e pontífice); por esta referên~ia constante ao obj eto do desejo pode operar a CJ~~. para difundir pouco a pouco a legitimidade, prodigalizar seus seguimentos, arti- cular a Regra e desjgnar o jgiJgiao . No indispensável retomo ao texto freu- diano, aqui se impõe mais particularmente a releitura da síntese consagra- da ~s teorias sexuais infantis , poi s essas páginas podem constituir uma uti · líssima infioduçJo ao processo mais primitivo da subm.issao 14

do : "O trono e o altar esta:o em

perigo"J 3 . Quanto

~

~

Um último comentário a meu tema AnJZlégicas. Eu tenho com isso a intenção de insistir também na dificuldade da empresa. O destrinçarnento da embrulhada institucional não está terminado para o Ocidente. Por meios incessantemente renovados, o dogroatismo reconstitui seu abrigo, mesmo hoje com a·contribwç:ro das ciências humanas/sociais. Com a con- diç!o de identificar claramente os d:!spojos t radicionais e as técnicas de sa- ber da propagaçlo, a psicanáJis~ pode Cúntribuir preciS;lmente para mostrá- lo, isolando algumas molas lógicas elementares.

C. A Igreja e as estrutura.s libidinais. NotaçiJes sobre a referência de Freud à instituição latinJZ.

A atençfo voltada para o fe nômeno da organizaçfo religiosa é para nós de um imenso interesse, pois ela mostra que Freud havia descoberto ali

• Traduzimos fetiche por feitiço porque a palavra é de ori&em portuguesa (N .

doT.).

24

·"'.

~

;j

'?'~

·.J

"

.,ç,

·~''t ~

!

-

""'

.'<"-

,

·,·:;JI'-·-

um acesso privilegíado aos problemas específicos da instituiç:Jo ocidental. Meu comentário virá portanto se enxertar aí sem dificuldade. Entretanto não seria preciso procurar no descritivo freudiano mais do que seu autor colocou. Os desenvolvimentos sobre a Igreja primeiro, depois sobre o exército (sendo este aqui menos importante, salvo se for o momento de estudar a solidificação dos sistemas burocráticos cuja prática se inspira igualmente no modelo .mili1Jr), se fundamentam em considerações gerais, estimuJadas pelas circunstâncias, não sobre um estudo verdadeiramente puxado da tradição ; as páginas, frequentemente citadas, que tratam da or- ganizaç~o das ·massas, constituem sotnente um apontar para as questões em que foram adiantados alguns conceitos ainda diretamente utilizáveis. Observarei que recorrer aos Direitos dos doutores europeus, na sua

totalidade e sem os separar de seu fundamento teológico fuado na Idade ·<(

Média graças ãs contribuições essenciais da filosofia aristotélica principal- mente, va.L.nos permitir ir muito majs lon~ do que Freud na obserya.ça-o das técnicas de submissa:o aperfeiçoadas no Ocidente latino. Perceberemos, particularmente, a extrema capac~dade adquirida por esse vasto conjunto

histórico para transfonnar líbri o, nem pôr e m risco o

tente. Tomou-se evidente, S'! ncs r"ferimos à matriz eclesiástica que a ilu- são de que falava Freud e que une os membros da Igreja, não d~pendeSo·

mente

quanto organizada n') seif) de um agregado político-burocrático (a Santa-Sé

principalmente, seu Direito monárq·~bo e suas práticas ultracentralistas), teceu suas ligações de tal forma qu~ uoa alteração radical da Cristologia tradicional. não exigiria automaticamente a de~ de um manejo

tão aperfeiçoado da crença no Poder. QJ~.Xl:

em sentido estrito , por alusão às nonnasjyrfsliclsJ1ll&l:.~a)contém todos os expedientes necessários ·para sustentar uma ampla diversificação dos símbolos originários (doravante mais ou menos relacionados à divindade do Cristo, eJe próprio bastante apagado pela imponente organizaçllo), con- tanto que os novos símbolos substitutivos assumam a relaç!o com alguém o u alguma coisa que os doutores legítimos, mestres das propagandas da Fé, possam garantir com verossimilhança : eis o lugar-tenente-do-Pai. Essas

o bservaÇÕes são muitíssimo importantes, no que visam sobretudo o ramo católico do cristianismo, que devia servir de molde a inúmeras experiências institucionais progressivamente secularizadas pelo encargo nacionalista e o tL advento das sociedades industriais. A genética_da.lnsti1uiçM se acha real- r

m~~tita hlstória das reli~Qes, cuja importância Freud

pressentiu, embora ele mesmo pusesse em dúvida suas próprias aproxima-

·=.!

,1

seus enunçiados jurfcidos sem arruinar seu equi- regime da.$ crepcas no Poder onisçiente e onipo-

\)

~-i·

da presença invisível do Cristo ; visto que a comunidade cristli, en-

ô

·co (canônico aqui

bem

nu.ma

25

'~

ções 15 Sempre moderna, sempre tradicional, ajg[ti~--~-º-~malmo.delou

os dogmatismM e .1Wl$porta ainda

um reservatório de mjtos fundamentais (sobre • bjeJJrquia, sobre .o chefe ,

sobre a classificação social) que poderíamos acreditar perdido para tempre, e com os quais a antropologia deveria se ocupar mais, se por acaso ela te dispusesse verdadeiramente a son~ os aglomerados humanos da Europa latina. Após ter recoohecido o alcance historico da experiência religiosa (e

PQJ Jab

nossos

olhos, seu mUSCJ~.Yi.vo,

~ militar) na formaçlo do inyólucro institucional no Ocidente, o conceito freudiano de modelo (Muster
~
militar) na formaçlo do inyólucro institucional no Ocidente, o conceito
freudiano de
modelo (Muster 16 ) permite esclarecer a compatibilidade da
referencíação psicanalítica com o enigma da formação de massas (das Riit·
sei der Massenbildung): formações estáveis e altamente organizadas, a insti·
tuição em suma, da qual podem existir tantas e tantas espécies. Aprofun·
dar essa idéia permitiria compreender a lógica das relações entre esses dois
universos aparentemente tão distantes um do outro: o sujeito, presa de seu
· conflito particular, o texto da Lei no qual se agencia a verdo social de um
drama político original. Compreender os procedimentos e a na_tureza das
correspondências, eis a utilidade óe voltar a essa noçlo,"hoje bastante ba·
nal, apesar da matemática que ela encerra: o eodelo. Freud se serviu bem
desse espelho, cujos efeitos captou, precisamente quando levantou o que
~
naS religiões é problemático no que conceme a qualquer analista.
~
Notemos que a relidlo coloca brutalmente a quest!o do P.~~-
tuando a pretensão do fazerger de QPC vive a jnstituj~o.Primeira garan·
tia de uma conquista dos sujeitos pela Lei social, de uma ciência dos cos-
tumes pelo Direito, como é dito desde a Antigüidade. Testemunho de
Quintiliano, retomado por Kant em um famoso tratado onde se aclia de·
'·'"
\ = t ;\
~
_
nunciado o habitull desafio liberal: "Se existem os deuses ou não é algo
sobre o que eu nada poderia dizer., 17 • Na boca do legista, esta máxima é
um fmgimento; vb1o que looos os sistemas institucionais adiantam sua
"'
.
. .,
rf .,:J
·teologia, ainda que seculai e radicalmente leiga.
Fnmd confirma por sua vez tVJC a questão política é cmineotemeute

,~ , abrir. o processo da Verdade. Mas ele precisa a matéria do de-

,.·religiosa.ao

bate: o desejo em busça de seu ayalísta. Com isso é possível pegar a psicaná· Use no âmago de sua contradiçfo, a de ser um saber que rompe com o trato. A instituiçlo tradicional é, efetivamente, suportada por um discurso de ex· ~fplicação,·pela ciência do Je~sta(em nossos dia~acobertada também pe~as.· : t- 1 ditas ciências humanas-sociats), colocando a 1.&1 ofo como um lugar tóp1c0 de aprUjpoameoto do dCscjo, mas como idéia da felicidade. Por ter mostra- do nesse qüiproquó a operação de um ~cio e aberto dessa maneira a via de um estudo que designa os rituais antigos do Poder no Ocidente, o texto

10.· •

\)·

freudjano na-o teve lUJU na classe da cl&lcia oolítica, tJo estreitamente li~ gada ao mal-entendido da seculariza~ona Europa católica. Voltarei muitas veus a esta realidade essencial: a complexidade e a desmedida aparente dos subsistemas jurídicos, desses Direitos nacionais di- retamente provenienle$, em grande parte, dos desmembramentos. do siste- ma eclesiástico (ele mesmo alimentado pelo Direito. recebido do Império romano), estio em relaçfo com a capacidade de recuperação outrora obti· da pela Igreja latina. Um modo unlúrlo de classi.ficaçao para repartir os

rebeldes, o milagre permanente da subm.issão, a força de

desordem jurídica, estes elementos assinalam a perfeição regrada do equí-

voco.

sua fuucio de aferrolhar epe cogWnto do qual ninguém, absolutamente , ·;.· ninguém, sai, sen:io por escapatória definida, e sob a rnãscara obrigatória ~r-

dramatiza~o da .lll

Onde se inscreve a suprema refe"ncia ao Pai onipotente, segundo f

\J.'

do exromnuaado c dp lpuco dp qjmjnoso e daquele que perdeu os sen- tidos. Em outros termos, diversos paralelos, através das observações sobre ~a, deviam permitir a F.w.~gj!ientificar. na submissão à instituiçlo,

o amor da institui~ e suas jogadas, determinados sob o rigor e a coerçllo

de wna simbólica das mais precisas e das mais claras. Se a mecânica doo signos da qual a psicanálise tira aigumeotos permi- te assim passar de um universo a outro graças à casuística do conflito, per- cebe-se a importância de uma mjtoloida do Ausente na instauração da cren·

ça nos poderes de um Onipotente, e na comunicaçfo da regra social pouco

a pouco até ao último sujeito. A sacralizaçao da ordem se mantinha junto

da cristologia tradicional , isto é, a teologja do Chefe (de que se apoderou

o discurso político), que aí figura para despojar os humanos em benefício do Poder intocável ao qual é oferecido o desejo. Ter entrevisto esta inicial da organi.z.aç!o monocrática no Ocidente continua sendo uma intuiç!o oonsider»"el, pois se deve relacionar ao dogma supremo do Cristo padre e rei (dogma eficazmente traduzido peJos juristas) o estabelecimento da grande diferença entre pra·dma e pra-baixo. ~ por aí que se concebem ao mesmo tempo a ocultação da ciência que tem de tratar do Poder e o limiar do não-transponível que distingue, como queria dizer muito bem Platão, o pastor do rebanho. Mesmo nos Estados industriais, após as belas invenções da teocracia pontifícia e das monarquias nacionais, a alusão ao Chefe ado·

garantiu a selvageria original do Político. " O nomem fraco não pode

rável

ter a pretensfo de se elevar à grandeza de alma e ã força do Cristo" 18 Lai-

cizem o aforisma freudiano e vocês terão, convenham, a máxúna de um Es·

tado napoleônico. Eu digo : napóleôrúco, como diria: cristão; nos dois ca-

sos, o símbolo aí está, o de um Mediador que detém o lugar da Verdade. Aliás, é sob a rubrica do estilo antigo das obediências que nasce a

questão de dinheiro, com a qual desde a Antigüidade os juristas se espan- tam, hábeis

questão de dinheiro, com a qual desde a Antigüidade os juristas se espan- tam, hábeis em distinguir o bom e o mau, o limpo e o sujo, em sua classifi- cação das proftssões liberais e das obras servis. A ciência econômica teria neste momento sua palavra a dizer para nos mostrar como foram seculari- zados os símbolos. "Eu aprendi escrevia Ereud_a Eljess, que nosso velho Mundo é J'C.iÍdQ pela Autoridade. como o Novo pelo Dólar" 19 Acrescenta- rei portanto esta notação: que a lgreja e sua Lei canônica nos presenteiam com um Ocidente anterior ao capitalismo, estipulando que o dinheiro não faz o milagre, pois ele é sujo e ruún. Proposições enigmáticas da tradição, eu concordo, e cujo exame, num outro estudo, retornarei sob a divisa do crime arcaico de simonia, a fim de marcar seu alcance primeiro e de seguir

a boa

se desembaraçar de um princípio tfo ruim 20 .

Depois olhemos como nessa Igreja, e sob a égide do Chefe divino, se

enraíza o vínculo

entre a comunidade cristã' e uma família, e que os fiéis se consideram como

irmãos no amor que Cristo lhes dispensa". Com este corolário:"~ o Cristo reinando indivíduos que se achjUD fQr~ deaes yíncylos: são os que não fazem parte da cornynjdade dos crentes gs que nl{o amam o Cris-

to e que

senumor

Se esta intolerância não aspira

mais hoje a violência e a crueldade que a tinham caracterizado outrora, se· ríamos levados a nos enganar se pensássemos que isto foi uma conseqüên- cia da suavizaçfo dos costumes dos homens. I! preciso procurar sua causa antes no enfraquecimento incontestável -dos sentimentos religiosos e dos vínculos libidinais que dele decorrem" 11 . Estas proposições simples devem ser evocadas, não por sua gran- deza trágica, mas em razão da clareza do resumo. A potência do vínculo reli&ioso para solidificar os erupos sociais. só é comparável ao fanatismo dosJDodos mais eyolu{dos na manipulação das massas. A arregimentação difunde a fraternidade e seus delírios adjacentes, apontados contra um inimigo, com ~ozos apropriados. O inquisidor realiza mecarúcamente sua função, trazendo pela instituição uma Salvação; não é sensato zombar dele, pois ele não pode ouvir nem entender a crítica. Hoje é da mesma for- ma insensato tomar ao pé da letra a doutrina moderna da Salvaçfo pelo sorriso e renegar a agress!o da Ciência dita das relações humaMs: esta dou-

trina aí está para acompanhar o parqueamento dos homen s. em sua solidfo.

Q\WWuo dcsí&nio de tomar o sujeito por seu W:sejo. a$ boas tiranias mo-

d,as mais

o~ s4o amados por ele.11~so QJJe urna religião. mesm.Q_quan-

do ela se qualifique de rcligllo do amor deye ser severa e tratar

todos aQueles <me n(O perte ncem a ela(

via dos casuístas da Renascença, em seus esforços de subver~o para

social : "e com profunda razão que insistimos na analogia

)

dernas não ultrapassaram o projeto escolástico medieval nem o

28

·.,

r~motas tradi~ões que se comb.inam na insútuiç~o ocidentaJ; 0 texto con-

trnua a se ennquecer, e a idéia magistraJ, segundo a qual a história estaria

um absurdo universitário. Afirmo que a história do

grande savorr{arre, do qual a Igreja Romana dá testemunho para o Ociden- te, prossegue da mesma maneira.

A refereociação desta história a fim de ajudar a localizar a Lei do Poder entre os Ocidentais, continua sendo, pois, uma tarefa a ser levada

decifração. De re sto, a Igreja

ad~te;é mesmo a condição prévia de toda

latma conheceu e r~~nhece~ tantas variedades sociais desde o Impéri o Romano, que seu Diretto esta em condições de nos revelar, de modo mais

amplo, o traballio da lógica nas instituições, que com um novo modo

fasc~a ~ teórico~ do. sistema desde o século XVIII 22 A psicanálise já

contnbwu paca a ilununação da zona sombria, ~po.is_da

acabada, só. po~e ser

de

inteiY.enção

Freud na tr~diçiQiu.àa.i~,;o~tist(em que a Igreja dita romana -não ~que­

;

.

.

.~

.;

.

çamm

1m _por

mui.to

mensuração política.

tempo

a

seoho.ra

nQ

JJUe

diuespm.o

àuormas

da

29

,,

! I

2

ARTICULAR UM SEGUIMENto

Se a experiência analítica predispõe seg_uramente a llentralitii~dean~

que

relaçiO entre as duas cenas, aquela que se vê e a o~tr~on e se ~':arseu

pOem

b

ra

·o de uma ordem a que se compreenda a tea

'

d

no set

para um sujeito as máscaras , n!o está no pode~ ~e rung

r

·o repet;Íório como se lhe fosse

1

m au en

penmtido responder

~

todo o

.

.

se inaugura, com efeito, a instância comum - a ClVÜWlçfo, ud _onde cada wn é um outro · sujeito, governado sura em pro- um domesticado sob a é&ide das Lets e por uma cen

re

outr~cdar o, d Ordem natural do Direito23 . Se o texto freudJallo , a

P

ópri

~

í

gruculpG.-

fá' '"'

tura, rl; 7

a _qufe

.-- ·· -·-?;j

nuncta

.d

.

segun ° a

ecem nesta . obra .

despet'to das passagens coraJOsas que volta e meta apar

a d' por que Vlas prea·

consa erav '·cavam os dois círculos, nem pretendeu liberar, neste ponto,

:: ~=:U:ueseja. Com~ç~,entfo, as verdadeiras dificuldades deste

. Entre essp grandes dificuldades, na empresa de dar se~en~o a

F ud é reciso reconhecer em primeiro lugar aquela que estará pnnctpal·

• mente em qu

tenninado da história latina. reinventa umra&~co e q

nrumto ao fim dos fins. Entretanto, nfo a encontramos

se

-.

estfo aqui· a de convencer que a psjcanáljse, nesse espaço de· ·

estudo e a charlatanice de vanos.

·

.

• el designou correspondências.

lóg~.cas, n o JZ

.

re

p

·

T

·

·

ue ela n"' !L

,.""

? Ou

t

an es

~~

- ,.,

emanCI&lJf nm.,

.

m

-- -- -- recuperada na feudaüdade dos mitos religiosos m?demos

'aria fazer do analisando uma espécie de verdadelTO mentir~ -o ~shakesperiano que futuca gracejador o túmulo - e que mta repetir

;:~oi diotice : é prnihid.Q proibir; na feira das Libera~ões. sem en~.ntr.ar a

de

\

.J

·~~~ ::!:+· . a Micanálise mantém doravante sua banaca, sob o stgno li

vre.

p leYJ·anameote esses anúncios do governo sorridente,

menor r~enÇJa, -

ento

do encerr~de

-- ~

.

róximo das leis, da ruína das políCias, do amor

d

il . d

oc

1

d

a. ~

leis, da ruína das políCias, do amor d il . d oc 1 d a. ~

Não

constm!dos para djMjmular a tíranja industrialista e propagar a

nas burocracias contemporâneas. O texto freudiano se acha de fato mobili:

zado peIos .~.A . da manipulaçw em urna vasta empresa de desarmameu

30

const_remos -----~- --

~.CNfiiCOS

I

·~ I

to dos sujeitos ; ele reaparece assim de novo, tratado segundo a ordem de

uma tr.ldiÇfo e

recapitulado como parte do discurso ancestral A psicanáli-

se é ronyoçada para servir à grande obra da submjsslo moderna. para for-

necer temas tranqüilizantes, para facilitar a divulgaçã'o de superpropagan.

das elaboradas em nome das irresistíveis ciências humanas, etc fUdo justif1Ca um breve parêntese.

E voltemos ao constituinte freudiano da cultura, considerando o

. Esta con-

conceito do Superego;

A. De como o Superego da cultura (Kultur-Überich) não é outro coisa

senifo um discwso canônico.

' { A noçfo teórica mais importante que Freud adiantara para introdu-

zir a compreensfo do mecanismo institycional, anaJogicamente relacionado aos procedimentos internos da psique individual, é, sem dúvida alguma, a do SuperetQ. Este elemento, contestado tão radicalmente por ocasifo das primeiras réplicas dirigidas contra a psicanálise acusada de aprontar a des- moralizaçio das massas, ~por demais conhecido do leitor para ser de novo estudado ponnenorizadamente. Contentar-me-ei em trazer várias precisões indispensáveis, lembrando o .peso dew definjçlo de uma ~stânçjade jn!.

I gamento em que "se resumem ncmas rclaç,oes com 03 pai " 24 ' e que deve

.r:

!

.

contribuir para abrir a via para um reexame do jogo concreto da instituiçfo encarada na escala de grupos especificados.

Reconheçamos a via de acesso. Poderiam me contrapor como obstá- culo a extenslo do desvio de que me sirvo aqui, jil que começo o estudo evocando, de safda, o estilo medieval das coisas, aquilo de que a maior parte dos praticantes da psicanáli'se ou dos pesquisadores em sua movência acrcditarlo potler se abster !em dificuldade. Certamente. Saídos de seu ga- binete, psiquiatras ou nfo, demonstram muitas vezes a esse respeito uma ignorância suspeita, estando eles próprios em causa. Faltam-nos, sem a menor dúvida, excetuando-se insignificantes estudos sobre o estatuto SO· cial dos analistas, verdadeiros relatórios que restil!Jam estes a seu círculo, evidentemente que nfo ao bom povo dos pacientes, com certeza incapazes de contradizer u narrações mais ou menos sinceras que inspira seu caso ex poat facto; eu suspeito que alguns de nossos testemunhos, imitadores de Freud, menos pontuais que ele e, sobretudo, menos informados sobre

tradições da ~turasocial,

um pouco, arranjam o casus 4 manei-

ra dos antigos autores de questiona, tfo hábeis em lograr o estudante. Quanto â estrutura dos arranjos da profJSSfo, à sua Querela do Lutrin, ao

forçam"

31

fft.: ~·;x.·IJ<.if.'

sacerdotalismo com que volta e meia se envenena uma leitura do texto freudiano acolhido freqüentemente como escritura de revelação, isto seria o suficiente , com certeza, para abrir uma ~ria crítica. Na verdade , que sabemos exatamente da psicanálise na própria França de hoje, sobre suas curas de serviço, sobre o sentido apregoado e o outro sentido? O que 6 que ela vem enfatizar na ordem da ameaça? O que é que ela vem, por fim, fabricar nesta velha Nação galicana? Seria preciso pua nós primeiro reconhecer que a psicanálise está no nó das grandes manobras instit ucionais, e que nem é possível ser de outro modo no momento atual. Ela se enuncia, por conseguinte , como segmento tradicional. Aprender a identificar seu lugar automaticmnente designado numa situaç~o tústórica particulu é um empreendimento bastante espi- nhoso, cuja importãncia será percebida pouco a pouco, a fim de compreen- der por um certo viés o próprio discurso analítico, o do paciente, o de seu Chefe, e tentar antecipar quanto ao futuro provável da famosa ciência dos • sonhos na sua relação com a instituição. Em outros termos, devemos oom- <i!'"' preender a natureza das analogias entre a Lej da cultura e o texto fix ado ~c ;.sf.:J em qualque r análise , aprofundar esta relaçfo por um meio geralmente "" q_ 0 · negligenciado, a saber, o texto jurídjco oferecido como material absoluta- mente elementar ; insubstituível também, pois precisamente ele recita e (;Jl-:-JL; restitui através de proposições totalmen_t.e eni&máticas a totalidade do

mado o poder dos pais, o direito do olhar sobre nós; confiada n!o mais ao analista, porém aos do.utores c Uja ciência é a da I.ei. Canônica também por este fato; graças ao invólucro primordial da religilo católica para qualquer produto ocidental. Ao mesmo tempo, a cultura aparece em uma forma dada ;l história e incompreensível sem seu texto própóo, que nos é entregue tal qual, arran-

jado na língua ultradouta do jurista que fala como convém, isto é, com a o~:1 " maior exatidão, mantendo cuidadosamente ao abrigo o oue oode ser dito e

o qu.e Dia deye sê~o.Esse discurso canônico vem por tanto se instaurar pa-

ra ajudar os sujeitos do Direito a obscurecer a verdade do desejo , para ajus-

,;~,;,i:-'>u

ta r o texto segundg u neccssid3des lóajças de um adestramento e preservar

I

?

sua narrativa bíblica, exatamente à maneira eficaz dos antigos canonistas ' · da Igreja romana, que foram na Europa os grandes modelos. O velho jogo das etimologias sugere isso com perfeiçlo : se a Lei estll no âmago do caso, ela se impõe como vínculo e como leitura 25 Razão maior para transferir ao discurso da cultura a qualificaçfo mais extremá, que pode expressar sem dificuldade a idéia da legitimidade absoluta. Por isso, eu acentuo o valor do

velho vocábulo do

Direito can ô nico · o discl.lrs~nico.

Isto posto. resta tirar partido deste parale o .

\< - ?: ,- : sublime e do normativo a que se refere qyalqyer sujeito. na sociedade que

fala esse Direito nacional ; ao mesmo tempo, pela garantia e pela fertilidade

dos

entrincheiramentos do desejo. ~ por isso- como veremos - que as fontes jurídicas da instituição apresentam uma inestimável gravidade , nesses grupos-rebentos da civilizaçfo latina, onde a Lei é dit.a num escóto ininter-

rupto manejado por uma casta douta que ainda hoie podem® identificar. A institui~i declara nomeadamente a l&j e seu doutpr. Seria preciso que o analista se ftZesse conhecer tão bem quanto o jurista, no momento em que se determina, por sob nossos ollios, uma lição nova da censura pela

:)

de suas@ esse texto dá a entender que, tunbém_ele, provém

~

O

B. De como o di3CUTSO canônico está presente pam instaurar a ordem de

uma censuro.

Antes de pre tender a decriptagem de um texto que pode nos abrir a instituição em seu ponto mais vulnerável (quero dizer no ponto preciso da transparência , em que se consegue a recuperaçfo social do objeto de amor), vamos nos entender quanto a própria idéia da censura.

leitores mais críticos tirarão a exposição no seu começo;

proveito, evitarei por princípio

Fraqueza ou n~o.fraqueza de q ue meus

psicologizar"

poderia~~ també~ ·:~iologizá~a", ~i s_ se se qu er cb~l ªtf.ao _~o

 

virtude das ciências ditas humanas; saberíamos entã'o mais sobre o alcance

 

da dogrnahca, a assts ten CJa de vánas caêncw afins será evidentemente ne-

histórico da grande invença:o freudiana.

~a . Trata-se , antes mesmo de qualquer teoria

geral, de en trar na eco-

Aí está portanto o tema novo de uma pesquisa, graças ã qual , de acordo com minha hipótese, teríamos chance de compreender como se es-

nomw de um sistenw textual, a fim de apreender o8 seus procedimentos ló- gicos e de observar a reta"º destes cpm a funçlo da cepwra, isto é, com o

_f.
_f.

tabelece a correspondência entre os dois planos, o do Superego gue o dis-

enunciado de uma Lei da cultura. Se existe uma relaçfo do Superego cul-

c

s arar e o do Su

er

o dJl

tural com

um inconsciente, esta s6 pode ser com um sujeito 26

; isto, por

çado no

· espaço d e um discUI~ efetivamente

J11:!!!ltido em um xto e de sig·

conseguinte, aumenta nossas dificuldades, poslç!o que é tomada aqui , e do

 

nado

ilQui

pelo termo "canônico" a fim de

assinal~r bem jsto: a censura,

modo mais claro, para barrar as transposiçoes simplificadas sobre a elo-

para ser lícita e a única possível, deve ser confiada a outros que tenham to-

qüência do inconsciente. Abstenhamo-nos de um saber do asno, que não

·,,'- 32

-

33

"'> Ç\:;- . J < l~ ~· .~·.·o J·.IJ:''L

rw:;,;t.T

:.~r::~S

fala através d.o diseurso canônico e ape-

sar da censura, etc. Nós só perceberemos melhor o lado alegórico {ou ma- termtíco) da aludo freudiana e ao mesmo tempo o extenso trajeto a ser percorrido em direçlo a uma teoria desnudada de obscuridades ou de la- cunas. O que nlo é para amanhã. Embora, no momento, abstendo-me de considerações teóricas, demasiado onerosas para este breve ensaio de início

dedicado a descobrir as grandes questões de um debate novo sobre o dis- curso dogmático, f com que se note a importincia de usar em nossa matéria o termo censura (6til do mesmo modo em um sentido bem próxi· mo ao analítico, co onne a ocasifo). Famoso vocábulo, recuperado dos

Romanos pelo Direito canônico a partir da Idade Média para catalo~ o bricabraque das excomunhões, interditos e suspensõesl 7 , do qual os co- mentadores retiveram principalmente isto: que a censura é uma pena, mas para pena medicinal· O censurado é o sujei~o q~ -caiem falta, segundo as formas definidas, e metodicamente classificadas como tal. Veremos, por outro lado, que a Lei. recitada num texto e pelos doutores,

en uncia SU3$ IÇ&J». todas as sms) reans referindo-se i OTdcm também.da

. ftXada, dos símbolos; deste último ponto de vista, o texto jurídico {outro·

ra apoiado na fantasmagoria declarada pelos teólogos, hoje nas representa-

manipuladas pelas propagandas publicitárias) procede, ao mais alto

:]P.'\grau, de uma maquilagem, de arranjos que venham tomar plausíveis e ine-

deixará de nos dizer que o

Isso"

cum

a

alma~.uma

ções

~~

vitáveis as multo doutas dmotas do deoejo. O sistoma juddico funci_ono

pará"peneirar. descolorir e reco!orir. desttuír e reconstruir ten~m mta a grande obra: adçstrar para o amçr .do }>Qdu. Em outros tennos, sob as pro· posições algumas vezes delirantes de sua simbólica e pelos procedimentos classificatórios da justificação repressiva, a Lei estipula, para sujeitos indis· tintos e desconhecidos, um universo idealizado da falta (manque, n. do t.)

e destina ao pobre-pecador-doente de sua falta (jaute, n. do t.) (mais

tarde o cidadão intercambiável da sociedade dita liberal) o benefício de uma pg1a. de uma persegui~loleiítirna (fundada como tal pelo discurso) de que se espera a reconciliaçlo, acréscimo do ilusório. Aidéia da Sa]y.Jção

,

que fteq.üentemcnte aproveitei. em dupl2JiWM2 bem-<iita palavra também para o analista. Dadas essas precisões, é necessário voltar ao motivo freudiano do Su~go.Como manter-se o mais próximo possível da alusão? Segundo a abordagem que proponho aqui, serlo distinguidos três ele- mentos essenciais que podem servir para referenciar esta estrutura de Su-

xreio. a instância da oenSUQ!,9ial cujo jogo vamos ver sumariamente co- mo se instaura e funciona . Reconheceremos sucessivamente : um corpo d e

34

está

entre

os juristas. d e tal modo associada à pena e ao bend.Wo

moral

tmlL~ dessa 0

dência, seu avalista, e ruuzlmente, o axioma particular que formaliza a pu· nição. Estes três pedaços de um só conj\Ulto detenninam as relações lógí· ca.s, as próprias relaÇ(!es que instituem a censura numa dada cultura. Esfor- cemo-nos em compreender por aí ·a importância do saber jurídico, funda- mental nessas matérias.

nisto : a Regra que

prop(le a instituiçJo para dizer sua censura, não é uma codificação dos in- terditos, nem o enunciado de um número x de comandos ou de preceitos. I! preciso se desfazer de uma idéia tão sumária, no entanto muito comum entre os pesquisadores em ciências humanas e sociais, nas quais o saber do jurista é apresentado sob a caricatura do "artigo tal". Esta ressonância bi· zarra da ciência do Direito na memória d os não-juristas pode ter ao menos um interesse, se ela permite melhor compreender que só se apreende aque-

la ciência, em virtude de sua alta tecnicidade, com precauções, com palavras

de passe recusadas a qualquer estranho. Em outros tennos, estamos diante " de uma ciincia reservada, a Ciência por excelência dos Pontífices, no sen-

tido em que a compreendiam os Latinos. Ponto capital, que ser' por sua vez precisado mais adiante. Mas a nota sobre a qual se apóia a observaçlo de um corpo de ciência está alhures, no isolamento desse fenômeno primei·

ro: a exigência vital de uma relaçlo simbólica que permita conciliar a prag-

Um corpo de ciência. Insistamos primeiramente

mática do Direito ao discurso que todos os grupos humanos observam para si mesmos quanto à natureza . Com isso, toda ciência j urCdjça indica bem ~t

que ela cnçcna o mita~cceMidade por onde come~u e recomeça a ci!ncia pam cada um de seus wjcjtos. Nio portanto ciência jurídica que nfo seja injdalmente ruSIO particular de aotropoloiJa . Em outras palavras ,

o .sistema normativo ocupa uma certa camada, um certo lugar, um rÓ"Ifoc:

na ozdem \U1ivenal ~Jldas, e funcwn;z como tal. Nenhum jurista pode fazer nada quanto a isso e pouco importa que ele saiba; ele ocupa seu qua- dndo, seu jardim fechado, honus tonclusus, dizia de maneira excelente o texto medieval. Mesmo reduzida e espedaçada pela maquinaria infonnacio· nal da Jurística 28 , esta ciência famosa n~o deixou, aquém e além dos Ro· manos, ilustres em uma manob.ra como esta, de ser apresêntada como fata- lidade lógjca. A Cf:D$lJr3 social está dentro de uma orde,n. Agora, é preciso aprender a reconhecer que a forma sapiente sob a qual se enuncia a censura implica também este outro elemento: o avf!!!,sta. Eu tenho a intençJo com isso de designar a funçJo de tr~~o,assumi· . da na tradiçfo ocidental pelo qen~vetsitário(trtldere jurrt: ~cholastice:

literalmente , transnútir os direitos oomo na Escola), que partiCipa na defi· niçfo escrita de uma ciência sacerdotal, isto é, que estabelece e hierarquiza ela mesma seus medill. Veremos, estudando seu modelo arquetípico, que

;:z.

-· -

.

i

.,

í;

,

(),

:;;-

35

,.'tfo•

i?:

; ~ ~ .-lt J.
;
~
~
.-lt
J.

•t_

este universo cultural que aqui está sendo problematizado comporta um estatuto fixado de antenúo, essencialmente predeterminado, de todos os intervenientes da onipotência, que receberam poder - um poder sàgrado - de obter as respostas da censura. Indício segundo e considerável da lógica , por toda parte presente na instituição.

tex tual en~:lohado pelo tema do SnperegQ.da .cultu·

ra orpniza o /uw comum rias penas, que vem precisar as condições nas quais o tratamento do rebelde pode ser conseguido e de que maneira a p.u- niçJO se acba eri&ida como palavra traoqüilizadQra. Com efeito, o exco- mungador nlo se dirige ao delinqüente, mas aos outros, e seu discurso re- grado, regulamentado na parte do Direito concernente ao processo, plei- teia a inocência de todos pela instituiçfo que prodigaliza o perdão. Este é o

axioma de induJLência , bem co nh ecido dos j uri stas 29 , que coloca como máxima geral que o Poder é impecável e q ue a falta (faute ) se organiza co- mo noçlo abstrata, idealidade pura que defme algum objeto dramatizado e que passaria de mfo em m!lo até voltar à mio da justiça, ou seja, ao Mestre da Lei. A grande questlo da ~. real ou fictícia , e da cl a$$ifi c.aç!n do s assinala a utopia da dúvida quanto ao fundamento último da censura; o lugar de uma boa instituiçfo que não faça a partilha dos hwna-

nos sob a proteçfo de um terror qualquer, o lugar da sociedade fraterna que tenha frustrado a ameaça, um lugar ~mo travestimento libid.inal, nega à instituiçfo sua realidade trágica; esse lugat nâ'o existe, todos os juristas dirlo a vocês; os quais pelo menos conhecem sua Patrística, sua ciência dos Padres. Semelhante tese oferece a mais fértil das confrontações para a con- jectura freudiana sobre esta matéria. Estas distinções que introduzo, a fim de cercar os elementos comple- mentares que compõem o sistema da censura encarada na escala da cultura ocidental, parecerão, neste momento, bastante difíceis, talvez mesmo in-

leito r nfo previnido de um outro fato a ser também relevado: a

distância colocada entre o desenvolvimento visível ou concreto das coisas institucionais (exemplo de nossos dias : o estilo dos conflitos no seio de

uma burocracia nacional) e a rede lógica de conceitos de que fazem uso os juristas. Nada roemos evidente, com efeito cp1e a ligação entre a .ardemma:

nifestada aparentemente e a ordenaç:rg do por-dehajxo da censura, presen-

Enfim, o sistema

~J.'ElY!c! os,

certas ao

Qç)a inter-

pretaçfo que aqui está em questllo. Os manipuladores da Lei, especialistas

à qual a instituição pode viver e se perpetuar. exercem

uma ciência in~bida; se retomo, em minha proposiçfo, uma das fórmu las mais felizes de I . Lacan, é ao pé da letra , pois os j uristas, antigos ou moder- nos, e aqueles que hoje partilham de sua tarefa dos tempos clássicos, geral-

nesta casuística graças

te no texto, mas ilegível sem o suplemento trazido precisamente

mente Dlo sabem para que serve eaa arte consumada para tratar do (e o)

conflito; além do mais, o saber nfo é o exercício deles. Mas, uma das difi-

ao abordar -o tenit óóo onde reina como mestre o

CUldades fundamentais,

,,

jw:i úa,

vez enfumados em sua própria fortaleza e ameaçados de nlo ver nada da transaçfo institucional, caso eles eludam ter na maior conta essa ciência sacerdotal e sagrada que lhes é cuidadosamente oculta pela operação lógica da cultura. Por isso; é preciSo logo evitar julgar apressadamente demais as proposições técnicas provenientes dos legistas, proposiçOes que podem pa- reQ§L~.muito àmpies, mai que s«o realmente enjiffiíÍticas, quando vêm se inscrever na gama dos prQblemas de interpretação que a psi- canálise considera, de seu ponto de vista e de suas posiçOC$. A fim de provar que o olhar analítico nfo exclui a possibilidade de se obliquar em direçfo a esse texto, será útil trazer novas precisões que ve- ·

nham ajudar os céticos:

provém da ignorância crassa dos observado-res exteriores, por sua

C. Onde pode engajar-se esta pesquisa: na identificação de um mb~ dogmático, de seus portadores e dos meios de SUil defesa.

Aqui está, portanto, ftxada para a exploraçio psicanalítica, fora do · testemunho cJínico, uma espkie de programa, utilizável como guia, a fim de condUZir o estudo da instituiça'o até ao pont o onde se possa ver qúe efetivamente a Mi desnor;Wa o d esejo, lliss jmui a uma v~<!fde, pre side a

e s ta troca de que proced e todo discurso polít ico . Sabemos doravante que a :[!, ,,

texto (o text~ paciente) a ser l