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1.

APRESENTAÇÃO
O presente memorial tem como principal objetivo descrever minha
trajetória pessoal e profissional, além de ser utilizado como trabalho de
conclusão do curso tecnológico de Processos Gerenciais.
Neste documento estão relatados fatos ocorridos na infância e
adolescência que culminaram com a formação de uma cidadã consciente de
seus direitos e deveres. Está aqui também o porquê de ter buscado aos 37
anos a primeira graduação e o quanto a convivência com os mestres,
professores e coordenadores influenciou minha visão de mundo.

2. A INFÂNCIA

Escrever não é uma tarefa fácil. Especialmente quando o conteúdo é o


relato da própria trajetória e a consequente reflexão a cerca dos próprios
atos. Vasculhar o baú da memória é perceber que muitas foram às
oportunidades perdidas e o quanto aprendemos com os erros. Lembro-me
das pessoas que passaram pela minha vida e deixaram contribuições
importantes para a formação do ser humano que sou hoje. É claro que ainda
há muito para aprender, mas para quem, como eu, tem consciência disso, a
forma como isso irá acontecer é um mero detalhe.
Sou Angela Gomes da Paz Szcymcszyn e hoje tenho 39 anos. Este
sobrenome cheio de consoantes foi um presente dado pelo meu atual marido
que tem descendência polonesa. Ele é uma paranaense que trocou a bem
estruturada Curitiba pela capital baiana, cujo metrô está sendo construído há
dez anos. Ao lembrar de fatos como este fico envergonhada, pois, ouço os
relatos dele a cerca do transporte coletivo de seu estado e a sensação é de
que estou ouvindo estórias de um estrangeiro. Mas ele garante gostar muito
daqui especialmente por ser a terra onde o amor dele mora.
Vivi uma infância tranqüila. Tive a oportunidade de brincar na porta de
casa de baleado, esconder, pular corda... Por ser de família classe média
baixa, quase não ganhei brinquedos e os poucos que me foram dados tinha
conteúdo educativo. Em um dos aniversários fui presenteada com um jogo
lúdico chamado ludo. Como eu gostava daquele brinquedo! Para utilizá-lo
precisava da participação de mais três pessoas. Um por vez lançava um
dado e conforme o número voltado para cima, avançava-se com os pinos em
um caminho. Quem chegasse ao final primeiro vencia a rodada. As crianças
de hoje ficariam entediadas.

2.1. Kichute, Bamba, US Top: Inesquecíveis!

Ingressei na escola aos seis anos. A Escola Princesa Izabel instalada


até o momento no final de linha do bairro da Cidade Nova é pública, mas,
diferente dos tempos atuais, tinha um ensino de qualidade. Ali aprendi a ler e
escrever, permanecendo na instituição até alcançar a 3ª série.
Sempre que olho para o prédio lembro-me da merenda que todos os
alunos tinham direito. Só lá eu tinha a oportunidade de comer pão com
queijo, tomar chocolate quente, mingau... Tudo muito gostoso! Confesso que
eu ficava esperando o momento do recreio só para merendar.
O uniforme era de tergal. Os calçados do momento eram o Kichute e o
Bamba. Meu sonho era chegar logo ao ginásio para poder usar o uniforme
igual ao da minha tia: calça jeans US Top e sapato com salto.
Dos colegas deste período lembro-me de uma com andava sempre.
Eu e Maiza éramos inseparáveis. Estávamos com frequência na casa uma da
outra. Até nossas notas eram parecidas. Aquele que ousasse mexer com
uma das duas teria sérios problemas. Na verdade era mais alarde que
coragem, mas funcionava. A mudança de colégio fez com que a separação
acontecesse.

3. MEU MURO DE BERLIM

Após um rigoroso exame de admissão, passei a estudar no Centro


Integrado de Educação Anísio Teixeira. O colégio era grande, tinha duas
quadras e um muro que separava o ginásio do primário. Para mim aquela
parede parecia a separação entre a Alemanha Oriental e Alemanha
Ocidental. Minha meta era passar de ano para conhecer o que estava ali
atrás. Eu estudava olhando para aquela barreira. Estar do outro lado
representava ascensão.
Finalmente um ano depois eu estava dividindo o mesmo espaço com
meninos e meninas inteligentes e descolados, mas eu ainda não fazia parte
de nenhuma turma. A pesar de me esforçar para ser agradável, conquistar
novos amigos estava difícil.
Jesse Jane foi a única que permitiu maior aproximação. Por esta razão
ela passou a ser minha nova melhor amiga.
Nesta época eu morava em Cajazeira 10. A casa no recém construído
conjunto habitacional, acabava de ser adquirido por minha mãe. Para nós
uma enorme conquista. Fomos um dos primeiros moradores do bairro. Não
havia padaria, quitanda ou supermercado na região. Lembro que minha mãe
era fumante e precisava esperar meu padrasto chegar para que ela pudesse
alimentar o vício. O pão chegava de bicicleta em nossa porta duas vezes ao
dia. O transporte coletivo era composto por apenas um veículo da extinta
Transur, que quando quebrava nos deixava completamente isolados.
No cenário musical Michael Jackson começa sua metamorfose por
meio do clareamento da pela e das cirurgias plásticas. Em terras tupiniquins
o rock nacional ganha força. Bandas como Legião Urbana, Capital Inicial,
entre outros, cantavam música que embalavam os sonhos de uma geração.

4. MINHA VIA CRUCIS

Eu acordava às quatro da manhã e, sem incomodar ninguém,


preparava meu café da manhã, composto por mingau de aveia e pão. No
rádio de pilha a música do Noite Ilustrada dava o ritmo no meu início de dia.
Pegar o ônibus que saia pontualmente as cinco era uma ginástica e tanto!
Estava sempre lotado, e espremida eu seguia em viagem que chegava a
durar duas horas. A pesar de sair tão cedo, houve dias em que cheguei
atrasada para a primeira aula que começava às oito.
Ao meio dia eu ia para a casa da minha avó, que permanecia na
Cidade Nova. Esquentava o almoço que ela deixava, e lá pelas treze horas
eu retornava ao colégio para participar das aulas de dança, ficando lá até às
dezesseis, quando começava minha via crucis para retornar para casa.
Um dia eu cheguei diferente na escola e não conseguia se quer
levantar a cabeça para assistir às aulas. Dona de longas madeixas, me vi
com um cabelo curto e mal cortado. Tentei usar boné, chapéu... Mas nada
disso era permitido na sala de aula. Quando meus colegas viram, passei a
ser a musa inspiradora de todas as piadas de gosto duvidoso. Tudo porque
resolvi aparar as pontas com um cabeleireiro que resolveu aprender a cortar
me utilizando como cobaia. O detalhe é que só depois fiquei sabendo disso.
Demorou para que meus colegas me deixassem em paz. Meus
cabelos voltaram a crescer e eu nunca mais deixei-os nas mão de qualquer
um. Optei por cuidar deles em casa.
Apesar de todas as dificuldades, este foi um dos períodos mais
prazerosos que tive na vida.
Após a conclusão da sexta série minha mãe me matriculou no Colégio
Estadual Edvaldo Brandão Correia. Lá era legal! Todas as segundas os
alunos eram enfileirados e durante o hasteamento das bandeiras todos
cantavam o hino nacional. Quem não participasse deste ritual perdia ponto.
Lembro-me do respeito que tínhamos pelos símbolos do país e do sentimento
de cidadania que aquele ato despertava. O bom é que isso era um exercício
que não precisávamos esperar quatro anos para realizar.

5. NÃO ESQUEÇO AS LIÇÕES DE BIOLOGIA

O primeiro ano do segundo grau, cursei no Colégio Central, local onde


diversos políticos importantes haviam conquistado aprendizado, a exemplo
do falecido Senador Antônio Carlos Magalhães e seu filho Luis Eduardo.
O colégio era bem equipado. Nos laboratórios era possível realizar
experiências práticas. A primeira vez que vi uma célula em movimento foi lá.
A estagiária que substituía uma professora doente, colocou um minúsculo
pedaço de folha encharcada de água e ali pude ver vários quadrados de
cantos arredondados com diversos micro organismos em movimentos
frenéticos dentro deles. Com esta profissional também aprendi que as
amebas se movem por meio de pseudópodos (pequenos cílios que
funcionavam como pernas). Ela fez uma coreografia que ficou fixada em
minha memória.
Embora tivesse alcançado um bom desempenho em todas as
disciplinas, especialmente em educação artística onde tirei nota máxima em
todas as avaliações, em física minhas notas deixavam a desejar, e isso fez
com que fosse reprovada por causa de meio ponto. A professora se quer quis
me ouvir quando a procurei.
Por esta razão e pelo fato do ensino público estar em decadência,
passei a estudar em uma escola particular, mesmo sabendo que para a
maioria quem buscava educação privada estava interessado em pagar para
passar. Fiz dependência e isso evitou que eu repetisse o ano pela primeira
vez.

6. O PRIMEIRO EMPREGO

Como estudante do curso técnico de contabilidade precisava buscar


um estágio na área. Enviei proposta para diversas instituições. No
Baneb(Banco do Estado da Bahia) a solicitação foi entregue pela manha e
antes do dia terminar eles me chamaram. Fiquei durante quatro meses
trabalhando na agência que atendia a Petribras na Calçada. Ali tive contato
com pessoas arrogantes, humildes, complicadas, simples... Observei que em
boa parte das pessoas quanto maior era o cargo e o salário, mas simples e
humilde elas eram. Reforçando o que minha avó sempre dizia: se quiser
conhecer uma pessoa dê poderes a ela ou tire tudo que ela tem.
Após o encerramento do estágio fiquei um curto período sem emprego
até que fui me candidatar para uma vaga nos escritório da Churrascaria
Rodeio. Comecei a trabalhar no mesmo dia e lá fiquei por três anos.
O local escolhido para a instalação do setor administrativo do
restaurante era uma chácara localizada na Estrada Cia Aeroporto. Local de
difícil acesso e que também abrigava a moradia dos donos. Gaúchos da
cidade de Veranópolis, os Baratto achavam que todos os funcionários
queriam roubar-lhes o dinheiro. Viviam sempre vigilantes e os testes
aplicados aos colaboradores eram constantes. Um dia descobriram que uma
das secretárias havia usurpado certa quantia. Mesmo sem provas, eles
trancaram a senhora de cinqüenta anos na câmara frigorífica por tempo
suficiente para amedrontá-la sem, contudo, tirar-lhe a vida.
Os Baratto tinham como hábito registrar um salário mínimo na carteira
profissional e pagar dois ou mais por fora. Ao saber que eu estava grávida,
reduziram minha remuneração e me transferiram para a loja do Retiro onde
fiquei atuando como caixa. Mesmo estando com sete meses de gravidez,
Regina Baratto ordenou ao gerente que tirasse até o banco do pequeno
cubículo onde eu ficava, para que me cansasse e pedisse demissão. Como
sou osso duro de roer, esse desejo foi frustrado.
Após o tempo regulamentado por lei para minha permanência no
quadro de funcionários, eles me dispensaram. Mas, confesso que aprendi
bastante lá, sobretudo como não se deve tratar um colaborador.
Meses depois fui contratada pela SCM Comercial, empresa que
comercializava utensílios para restaurantes, inclusive a Churrascaria Rodeio.
Foi lá que Maria Ângela, gestora da SCM, me conheceu e ao saber que eu
havia deixado de prestar serviços para seu cliente me convidou. Por
problemas oriundos de uma administração desastrosa, onze meses após
minha contratação a empresa fechou as portas.

7. APRENDENDO UMA PROFISSÃO

Em seguida ingressei na Projeto Gráfica. Lugar onde trabalhei por oito


anos e aprendi a profissão que exerço hoje. Conheci o Corel Draw 7 e por ser
muito curiosa aprendi, sem o auxílio de nenhum curso, a desenvolver peças
publicitárias diversas. Descobri o funcionamento de uma máquina off set.
Passei a reconhecer textura e gramatura de papel, a otimizar a produção com
objetivo de reduzir custos e desperdício. Diante do computador eu podia dar
asas à imaginação e isso era o que mais me fascinava. Eu perdia a noção do
tempo quando estava trabalhando. Por conta do estreito contato com o setor
produtivo e vendo a angústia de escritores que desejavam eternizar suas
publicações, desenvolvi um sistema de diagramação elogiado por todos,
inclusive meu patrão que era bem mais experiente que eu no que diz respeito
a impressão.
Eu queria mais, Precisava aprender mais para crescer. Neste
momento senti necessidade de alisar o banco do saber, mas por falta de
condições financeiras para estudar em uma faculdade particular e as públicas
tinham períodos de aulas que me impediriam de freqüenta-las, não pude
realizar tal desejo imediatamente.
Passei a trabalhar como voluntária no Força Jovem Bahia, projeto que
busca dar novas perspectivas de vida para jovens de todas as camadas
sociais, afinal depressão e vício não vêem condição social. Foi aqui que
descobri e tenho desenvolvido o dom de liderar. Dividido em regiões,
atualmente coordeno o núcleo de cultura e de comunicação da regional de
Dois Leões.

8. INGRESSANDO NO MUNDO ACADÊMICO

Após dezoito anos de conclusão do ensino médio resolvi prestar


vestibular na Universidade Jorge Amado, para o curso tecnológico de
Processos Gerenciais. A medida que ia avançando no estudo de cada
disciplina, crescia o desejo de aprender.
Por ser um curso novo na UniJorge, muitas vezes me senti como
cobaia em laboratório, e isso era o sentimento da maioria dos meus colegas.
Era notória a falta de planejamento dos coordenadores do curso, fato que me
levou a elaborar uma série de sugestões que denominei de “Protocolo de
Sugestões”, onde, baseada nas dificuldades que enfrentei, procurei
apresentar ao coordenador acadêmico as possíveis formas de extinção dos
problemas e conseqüente redução de conflitos. Embora algumas medidas já
estivessem sendo implementadas pela faculdade, outras foram retiradas do
“documento”.
Sei que sou uma pessoa com iniciativa, mas por estar trabalhando em
uma organização familiar, cujo gestor se recusa a abrir espaço para idéias
dos colaboradores, ainda não pude colocar em prática tudo que aprendi no
mundo acadêmico, além de estar com meu potencial adormecido. Mas
atitudes para modificar esta realidade estão sendo tomadas. Estou
preparando o site pessoal onde pretendo mostrar meu portfólio que servirá
para apresentar um pouco de minhas atividades produtivas.
Aprofundarei meus estudos sobre as micro e pequenas empresas,
com objetivo de encontrar alternativas de baixo custo para agregar vantagens
competitivas às organizações.