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BIBLIOTECA PEDAGÓGICA BRASILEIRA
* *
Vol 210
V O L Ó W

AUGUSTO D E SAINT-HILAIRE
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Viagens pelo Distrito dos
Diamantes
i •
e Litoral •do BrasilJt

COM UM "RESUMO HISTÓRICO DAS
REVOLUÇÕES DO BRASIL, DA CHE-
GADA D E D. JOÃO VI À AMÉRICA
À ABDICAÇÃO D E D. PEDRO"

TRADUÇÃO DE
LEONAM DE AZEREDO PENA

1941
COMPANHIA E D I T O R A NACIONAL
Sfto Paulo — Rio — Recife — Porto Alegre

DUAS PALAVRAS DO TRADUTOR

Com o presente volume fica praticamente
completa a tradução dos diários de viagem do na-
turalista francês AUGUSTE DE SAINT-H1LA1RE;
exceptuada apenas a parte referente à IS viagem
a Província de São Paulo, todos os interessantes
livros de SAINT-HILAIRE foram publicados na
coleção "Brasiliana".
Foi
a Companhia Editora Nacional que abriu
a trilha dessa utilíssima tarefa de verter para o
português as obras de cientistas estrangeiros que
visitaram o Brasil, avultando a de SAINT-HILAIRE
com a primeira tradução aparecida logo ao quinto
volume da coleção "Brasiliana", em 1932.
Cábendo-me, por assim dizer, o encerramento
dessa honrosa missão, creio lícito enaltecer o tra-
balho realizado pela Editora Nacional, à qual o»
leitores brasileiros ficam a dever o grande bene-
ficio de possibilitar o conhecimento de obras úteis
e raras, pondo-as ao alcance de todos.
De minha parte considero-me f eliz) por ter
colaborado nessa missão, contribuindo com a tra-
dução da «Viagem ao Rio Grande do Sul" e agora

XIV

com a da "Viagem pelo Distrito dos Diamantes e
Litoral do Brasil", colaboração em que procurei
imprimir quanto de zelo e lealdade foi possível,
certo de que pelo menos no tocante à parte refe-
rente à botânica êsses dois diários apresentam-se
corretos em suas versões para a nossa língua.

L.A.P.

Rio, mi.

AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE

Dados biográficos e bibliográficos

AUGUSTIN FRANÇOIS CÉSAR PROVENSAL era o seu
nòme de batismo. Nasceu a 4 de Outubro de 1779, em Or-
léans, França.
Quando adolescente foi trabalhar no comércio a Hamburgo.
Mas seus pendores para as ciências naturais fizeram que aban-
donasse a carreira que lhe tinha sido escolhida pelos pais, e
SAINT-HILAIRE regressou à França, onde estudou botânica
com os grandes mestres A. L. DE JUSSIEU, L. Cl. RICHARD
e R. DESFONTAINES.
Em 1816 veiu ao Brasil, incorporado à comitiva do duque
de Luxemburgo, embaixador junto ao reino de D. João VI.
De 1816 a 1822 percorreu os atuais Estados do Rio de Ja-
neiro» Minas Gerais, Espírito Santo, Goiaz, São Paulo, Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul, bem como parte dos ter-
ritórios Uruguaio e Paraguaio, coligindo formidável quantidade
de plantas e animais* para o "Museúm d'Histoire Naturelle"
de Paris.
Sua vida no Brasil foi cheia de episódios acidentados, como
soem ser as dos naturalistas que se dedicam com espírito de
sacerdócio à cata de exemplares para pesquizas, estudando a
natureza in-loco e não pelas informações e amostras recebidas
pelas malas postais.
Hoje, com as facilidades de transporte e comunicação, com
a compreensão que todos têm (poderes públicos e povo) dos
altos interesses das ciências naturais, o naturalista itinerante
ainda sofre horrores, sertão a dentro. Que dizer, então, da-
queles que, há mais de um século, quando a própria capital da
República ainda era uma verdadeira selva, se aventuravam pelo
interior, à procura de elementos para o estudo da natureza
deste vasto território do nosso Brasil?

VIII

Dentre os naturalistas que nos visitaram, SAINT-HILAiRE
pode sier considerado o mais amigo fio Brasil, o melhor obser-
vador e o coração mais bondoso que nos soube vêr.
Viajando acompanhado por pessoas rudes, às quais se
afeiçoara com facilidade, muito sofreu pelo mau carater ou
pela ignorância de seus auxiliares de jornada.
Recebido aqui com cavalheirismo, ali com indiferentismo,
acolá com grosseria, soube o grande botânico portar-se perfei-
tamente de acordo com as conveniências do momento e em
seus escritos consignar o louvor aos que fizeram jús a isso e
a censura, sempre branda e desculposa, aos que o receberam
mal ou não o quizeram receber.
O modo pelo qual se preocupava com os destinos do
Brasil, as sugestões que fazia para a remoção dos males que
nos assolavam, bem diziam do carater gaulez de um homem
dedicado à "ciência amavel". As saudades que sentia de sua
pátria, a insistência com que se referia à sua velha progenitora
e ao sobrinho, que deixara em França, significavam o seu co-
ração sensível e amoldavam-no às nossas gentes do interior,
que êle tanto apreciava pelas condições de vida que levavam.
Imparcial nos seus julgamentos, a ponto de comparar loca-
lidades e costumes de sua e de nossa pátria, com louvores ao
que aqui vira, SAINT-HILAIRE é-nos um consolo, sempre
presente a memória, quando turistas que nos vêem do alto do
Corcovado ou ^de sobre os tapetes dos Casinos, nos insultam
através das crônicas que escrevem à guisa de observadores de
povos, natureza e costumes, que não viram e não sentiram,
porque o Brasil para ser visto e compreendido exige sacrifícios
UMTONPT E LV Q N S ° U M S ^ N T - H I L A I R E , um MARTIUS
6
stddor^ ° U t r O S d 6 S S a f i b r a f o r a m c a P a z e s e P° s "

peroassa ^ U ^ Z Z • S C r Í t ° S d f x a d o s P° r SAINT-HILAIRE
eSpírito de
pessoal aHadin Í T desprendimento
reocu a
col ^ mateH.l . • * P P ndo-se sempre em
coligir material e em tomar notas a respeito do mesmo na
p u r e z a , tudo para o «Museum», sem vaidade nem inTerêsse

UnÍdade Cm aPanharÍnSCtosaves,
J
q u a ^ M ^ K r
pcues e,peixes
r '
para tornar menos sensível" a falta
que

IX

o zoologo DELALANDE ,a causar à ciência, com sua partida
do Brasil. Seus livros de botânica, seus diários de viagem
sao interessantes, úteis e até atuais da primeira à última linha!
A ciência ecológica, creada por WARMING algumas dé-
cadas apos a estada de SAINT-HILAIRE no Brasil, foi por
ele tratada de modo positivo
Já em 1816 SÀINT-HILAIRE estabeleceu no Brasil o li-
mite da cana de açúcar, do café, do algodão e do trigo E a
geobotanica nao lhe foi estranha quando considerou os cara*
faCe d S daS m a t a s e dos
cobertosf ** ^ ° campo« d e i
Impressionava-lhe, muito mais que a decantada questão da
f ra se
2 , . "saint ileriana" corre de boca e m i o c ^
So ranc1oSenaS ^ ^ t ^ t e n h a S Í d o P r ^erida pelo
sábio francês), impressionava-lhe, repito, a questão da derru-
t j T n l l d : T S a r r t a S ' Problema ainda insolúvel
e agravado dia a dia. Chega a ser invejável a argúcia com
que o Autor tratava esses assuntos, naquela é o o c J d L l T
Pds tudo quanto aqui estudou e p r e & ffié £ £
bcilhos vanos ou se tem realizado com uma p r e c i s f p ^

brasne™dH° * 0 t varÍados as ectos
P da vida rural
brasileira poude apontar os erros de nossa política econômica
c s ^ r t s T d l a r ' a , d H g e n t e S e dirigidos, as P rovidênc"sne-
ccssanas ao desenvolvimento agrário do país.
jaroWno n s1in^ 10l ~ e * * p d ° B r a S Ü ' l e t i v a m e n t e , o que muitos
qUlzeram ou não
a notável f " souberam fazer Prova-o
C a é ainda citado
em toda aa nno Z
s s ar ' v a"s tT o seu nome
' * , literatura sociológica e etnográfica
série d r p ^ c a ç õ e s 0 : Setembr m deÍXand CSta notável

CJETS?
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dans
«'intérieur du Brèsil, lá pravincc
TJ 1 8SÍOn
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<*" em Mém. du
N t r Pans Vo1 IX 1822
V W e dl^i ? " - - - < > Págs. 307-380:
2 vo^Pa^s 1837 vrCCS í Ri
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le litoral du R r i l i * »iamans et sur
Mo * 1 Ct
ParÍS 1833; V y a g e a u x source
,a ° * du
1847 -48 V o v ^ T .P r o v i n c e de Goiaz, 2 vol. Paris
a, S , e d u BrésiI
1850; Voya?e
v dfl n« ! ' 2 Bruxelas
> °yage dans les provinces de Salnt-Paul et de Sainte

X

Catharine, 2 vol. Paris 1851; Voyage à Rio Grande do Sul,
contendo o relato de sua segunda viagem a Minas e a São
Paulo, 1 vol. Orléans 1887, publicação póstuma devida ao Sr.
R de Dreuzy.
Isso no tocante aos seus diários de viagem, aos seis anos
passados em contacto com a natureza e com o povo do Brasil
meridional e mediterrâneo.
Desses onze volumes estão já traduzidos para nossa língua :
Segunda Viagem a Minas e São Paulo, por A. Taunay —
Editora Nacional, S. Paulo; Viagem ao Rio Grande do Sul, por
Leonam de Azeredo Penna — Àriel Editora — Rio, 1935 e 2.a
edição na coleção Brasliana, Vol. 167; Viagem à província de
Santa Catarina, por C. da Costa Ferreira ; Viagem às Nascentes
do Rio São Francisco e à Província de Goiaz, por Ciado Ri-
beiro Lessa ; Segunda Viagem ao interior do Brasil, Espírito
Santo ,por Carlos Madeira; Viagem pelas Províncias do Rio
de Janeiro e Minas Getfais, por Ciado Ribeiro Lessa, todas na
coleção Brasiliana, da Editora Nacional.
O jornalista JOSÉ MATTOSO MAIA FORTE publicou
em separado a parte referente ao território fluminense? que se
acha dispersa em diversos dos volumes acima citados e o Sr.
RUBENS BORBA DE MORAIS traduziu e publicou a Via-
gem à Província de São Paulo.
Além desses diários deixou SAINT-HILAIRE os seguintes
trabalhos :
Memoi^e sur les Plantes auxquelles on attribue un pla-
centa libre, 1816; Mémoire sur* les Cucurbitacées, les Passlflo»
rées, et le nouveau groupe des Nhandirobées, 1823; Histoire
des plantes les plus remarquables du Brésil et du Paraguay,
1824; Plantes Usuelles des Brésiliens, 1824; Flora Brasiliae
Meridionalis (com A. de JUSSIEU et J. CÀMBESSÈDES), 3
vol., 1825-33; Conspectus Polygalaearum Brasiliae Meridionalis,
1828; Mémoire sur les Myrsinées, las Sapotées et les em-
bryons parallèles au plan de l'ombilic, 1837; Monographie des
Primulacéea et des Lentibulariées du Brésil etc. (com F. GI-
RARD) II ed. 1840; Tableau géographique de la végétation
primitive dans la province de Minas Geraes, 1837 e Leçons de
botanique, 1840; Province de S. Pedro do Rio Grande do Sul
au Brésil. Rapport sur le ouvrage intitulé: Anais da Província

XIV

do S. Pedro, por José Felic^no F. Pinheiro, barão de S Leo-
poldo, Paris; Les Sources du Rio S. Francisco, 1842; Obser-
vations sur les diviseurs des eaux de quelques» uns des grands
fleuves de l'Amérique du Sud (Brésil) et la nomenclature qu'il
parait convenable de leur appliquer, 1837; Revue de la flore
da Brésil (com CH. NAUDIN) ; L'Agriculture et l'élévage de
bétail dans les campos gerais, 1849; Mémoire sur le système
d'agriculture adopté par les Brésiliens, et lesi résultats qu'il a
eus dans la province de Minas Gerais, 1838; Comparaison de
la végétation d un pays en partie extra-tropical avec cel'e d'une
ccntree limitrophe entièrement située entre les typiques 1850
Polygalae nova species, 1832; Cryptogamae brasiliensis/1839. '
Todos esses escritos, publicados na primeira metade do
século passado, são hoje raros, especialmente no Brasil onde

sAmTmLAiRF°ntrará u m a c o l e ç ã o C o m p l e t a d o s liv
™s de

L. A. P.

Rio, 1941.

ÍNDICE
Pags
Duas palavras do tradutor y
Auguste de Saint-Hilaire (Dados biográficos e
bibliográficos) yjj
Prefácio ^y

Capítulo I - História do distrito dos diamantes. -
Sua administração j
II — Ainda os diamantes. — Diversos servi-
viços. — Tejuco. — Observações sobre a
aclimatação das árvores frutíferas 23
III —. Excursões nos arredores de Tijuco. —
Novos detalhes sobre os diamantes. —
Acidente com o autor ^ 50
IV — Viagem de Tijuco ao morro de Gaspar
Soares pela serra da Lapa 66
V —. Caminho do morro de Gaspar Soares a
Itajurú de S. Miguel, pela aldeia de
Cocais. Estada em Itajurú 9fl
VI — Partida de Itajurú. — A cidade de Caeté.
— A serra da Piedade e a irmã Germana 100
VII — A cidade de Sabará. — Estrada de Sa-
bará a Vila Rica 12?
VIII — Parada nos arredores de Vila Rica. —
Criação de gado. — Diversas medidas
administrativas 147
IX — Congonhas do Campo. — A igreja de N.
S. Bom Jesus de Matosinhos. — As fun-
dições de prata. — Fuga de Firmiano 159
X — Caminhos de Congonhas do Campo a
São João d'El Rei 179
XI — São João d'El Rei 191

XIV

Pags
Capítulo XII — Viagem de S. João d'El Rei ao Rio de
Janeiro 214
XIII — O autor deixa o Rio de Janeiro para
visitar o litoral que se estende ao norte
dessa cidade. — Descrição da região
situada entre a capital do país e o lugar
chamado Cabeçú 240
XIV — Contrariedades causadas por um tro-
peiro. — O autor volta aoi Rio de* Janei-
ro. — Descrição da região situada entre
Cabeçú e o lago de Saquarema . . . . . . 257
XV — Os lagos de Saquarema e Araruama. —
Comparação dos indígenas do Brasil com
os chineses 271

(SEGUNDO VOLUME)

Capítulo I - História sucinta da civilização dos' índios
do Brasil. - A aldeia de S. Pedro dos
índios. — Modo de viajar 296
II — A cidade de Cabo Frio e o promontório
do mesmo nome 3l6

III - Viagem de Cabo Frio à cidade de Macaé
— A aldeia de S. João da Barra 345
IV - A cidade de Macaé. - Viagem dessa ci-
dade aos limites do distrito de Campos
aos Goitacazes _
V - Quadro geral do distrito de Campos dos
vjroitacazes ^g
V I - V i a g e m no distrito de Campos dos
Goitacazes ^
Resumo histórico das revoluções do Brasil desde a che-
gada do rei D. João VI à America até à abdicação
do imperador D. Pedro 43Q

C a s a e m q u e se h o s p e d o u o Duque de L u x e m b u r g o no Rio de J a n e i r o , em 1816

PREFÁCIO

A indulgência com a qual foi acolhido meu
primeiro livro de viagens ao Brasil encoraja-me a
publicar o segundo. Não me afasto do plano se-
guido e continúo a ter como dever precípuo a
observância da mais escrupulosa exatidão nas
narrativas.
Descrevendo os lugares que hei visitado, trans-
porto-me sempre ao tempo de minha viagem e faço
abstração dos acontecimentos que se passaram
posteriormente. Tais acontecimentos podem ter
causado mudanças notáveis em algumas cidades
do litoral, às quais não me refiro neste livro, como
sejam: Rio de Janeiro, Recife, Baia. Mas, as po-
pulações do interior e as das zonas do litoral
situadas entre as grandes cidades, são pouco nu-
merosas e a instrução aí pouco difundida para que
o novo estado de cousas possa ter tido alguma
influência sensível.
De mais a mais para ligar a época em que
escrevo à em que percorri o Brasil eu deveria ter-
minar meu relato pelo resumo histórico dos acon-
tecimentos que tiveram lugar após a chegada do
rei D. JOÃO VI à América, até à abdicação do
imperador D. PEDRO. Para publicar êste resumo
histórico submeti-o antes a testemunhos oculares
os mais informados e os mais imparciais: a apro-

XIV

vaçào destas testemunhas é uma garantia da exa-
tidão com que apresento os fatos.
Agora vou me ocupar, sem descanso, com a
redação do meu terceiro relato, que tornará conhe-
cidas regiões sobre as quais não há, por assim
dizer, nada publicado, tais como a parte oriental
da provinda de Minas Gerais, as montanhas onde
nascem os famosos rios S. Francisco e Tocantins,
os desertos de Goiáz, os deliciosos Campos Gerais,
os arredores de Curitiba, a costa que se estende
de Paranaguá a Santa Catarina, uma grande parte
da província do Rio Grande, as Missões do Uru-
guai, e enfim os picos do Ibitipoca, do Papagaio,
Aiuruoca etc..
Dar-me-ei por feliz se os meus trabalhos pu-
derem ser úteis às ciências a que consagrei toda a
minha existência.

CAPÍTULO I

HISTÓRIA DO DISTRITO DOS DIAMANTES. —
SUA ADMINISTRAÇÃO.

Descrição sumária do Distrito dos Diaman-
tes. — Sua história. — Sua administração em
1817. — O intendente dos diamantes e suas atri-
buições. — O ouvidor ou fiscal. — Os oficiais da
administração diamantina. — A junta real dos
diamantes. — Os administradores particulares. —
Os feitores. — O que se entende por serviços. —
Quais os negros empregados na extração dos dia-
mantes; como são nutridos; êles preferem a
extração dos diamantes aos trabalhos nas casas
de seus donos; como são castigados; recompensas
dadas aos negros que encontram diamantes de
qualquer valor. — Processos usados na remessa
dos diamantes à Junta e ao Governo. — Forças
militares do Distrito dos Diamantes. — Destaca-
mento de cavalaria. Companhias de pedestres. —
Qual a quantidade de diamantes produzida pelo
Distrito. — Despesas da Administração diaman-
tina. — Dívidas dessa Administração; papel moe-
da. — Medidas tomadas para impedir o roubo dos
diamantes. Habilidade dos negros para ocultarem
essas pedras; anedota. — Garimpeiros. — Contra-
bandistas propriamente ditos; suas manhas; suas
maneiras de traficar com os negros; seus lucros.
Diamantes das diversas partes do Brasil. — Jazi-
das de diamantes; cascalho.

Submetido a uma administração particular, fechado
nao somente aos estrangeiros, mas ainda aos nacionais,
o Distrito dos Diamantes forma como que um estado
à-parte, no meio do vasto Império do Brasil. Êsse
distrito, um dos mais elevados da província de Minas,

<1 24
AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE

está encravado na comarca do Serro-Fno; ele faz
parte da prande cadeia ocidental e compreende uma
área, quas°e circular, de cêrca de 12 léguas de circun-
ferência. Rochedos sobranceiros, altas montanhas,
terrenos arenosos e estéreis, irrigados por um grande
número de riachos, sítios os mais bucólicos, uma ve-
getação tão curiosa quão variada, eis o que se nos
apresenta no Distrito dos Diamantes; e é nesses luga-
res selvagens que a natureza se contenta com escon-
der a preciosa pedra que constitue para Portugal a
fonte de tantas riquezas.
BERNARDO FONSECA LOBO foi o primeiro que
descobriu diamantes no Serro-Frio, e não teve outra
recompensa além do título de capitão-mor da Vila do
Príncipe, com a função de notário na mesma vila.
Ignorava-se a princípio a verdadeira natureza dos
diamantes encontrados por LOBO; contentavam-se de
ver o brilho dessas pedras e usavam-nas como fichas
para marcação de jogos. Entretanto um certo ouvi-
dor, que havia morado nas índias Ocidentais, reconhe-
ceu que as pedras brilhantes de Serro-Frio não eram
outra cousa senão diamantes; conseguiu secretamente
um grande número delas e seguiu para Poitugal.
Ignora-se o ano em que se deu essa grande desco-
berta; todavia sabe-se que o governador D. LOU-
RENÇO DÉ ALMEIDA, tendo remetido à corte
algumas pedras transparentes, dizia, em carta de 27
de Julho de 1729, que as considerava como diamantes;
sabe-se ainda que lhe fôra respondido não se haver
enganado em suas conjeturas, acrescentando mais que
duas remessas de pedras semelhantes haviam sido
feitas, já, de Minas a Lisboa.

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 3

Por um decreto de 8 cle Fevereiro de 1730, os dia-
mantes foram declarados propriedade real. Permi-
tiu-se a todo mundo a sua pesquisa, mas, cada escravo
empregado nesse trabalho foi submetido a uma capi-
tação; era proibida a exportação de diamantes para a
Europa em navios estrangeiros; e taxou-se o frete de
cada pedra em 1% de seu valor. A capitação que
inicialmente era de cinco mil réis (1), foi elevada em
seguida até quarenta mil réis, dando-se mesmo ao
governador da Província, CONDE DE GALVEAS, o
poder de fazê-la elevar-se a cincoenta mil réis se jul-
gasse necessário. Um tal processo de impostos era
evidentemente injusto, porquanto em uma exploração
tâo aventurosa como essa dos diamantes, os produtos
não são ncessariamente proporcionais ao número de
braços que se empregam. Não foi entretanto esse o
motivo que levou o governo a renunciar à capitação e
a seguir um outro sistema para a pesquisa dos dia-
mantes; no correr de dois anos o preço das pedras
diminuirá em 3/4; julgou-se necessário tomar medidas
que limitassem a extração.
Em 1735 (2) ela foi posta em fazenda pela soma
anual de cento e trinta e oito contos de réis
(138:000$000) ; mas, impuzeram aos arrendatários a
condição de não empregar mais de 600 negros, e, até
o ano de 1772 o contrato foi renovado seis vezes.
(1) PIZARRO diz que a primeira capitação data de 18 de
Março do 1732. Nesse ponto está de acôrdo com SOUTHEY. E'
contudo inconcebível que em sua própria obra tenha êle deixado
imprimir, sem nenhuma observação, um trecho em que afirma
que essa mesma capitação data de 22 de Abril de 1722, época
em que os diamantes não tinham sido ainda descobertos.
(2) E s s a data é tomada de PIZARRO, e, como coincide de
modo passável com as descrições de SOUTHEY, parece-me mais
exata que a fornecida por LUIZ BELTRÃO D E GOUVEIA AL-
MEIDA, em sua "Memória".

<1 24
A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE

Entretanto, tendo o governo reconhecido que a
extração de diamantes por arrendadores era frequen-
temente acompanhada por fraudes e abusos, resolveu
a explorar por sua própria conta as terras diamantinas.
Novos regulamentos foram elaborados; POMBAL era
então ministro; esses regulamentos, diz SOUTHEY,
traziam a marca de seu caráter. O Distrito dos Dia-
mantes ficou como que isolado do resto do Universo;
situado em um país governado por um poder absoluto,
esse distrito foi submetido a um despotismo ainda
mais absoluto; os laços sociais foram rompidos ou
pelo menos enfraquecidos; tudo foi sacrificado ao de-
sejo de assegurar à coroa a propriedade exclusiva dos
diamantes (3).
O excessivo rigor dos regulamentos fê-los cair em
desuso. Posso citar, por ex., aqueles que determina-
vam limites estreitos à população do Distrito e que
limitavam o número de comerciantes; o que condenava
ao confisco ou às galés um negro encontrado com um
almocrafre (4) e uma escudela; enfim aquele que proi-
bia a abertura das^^undações-de^uma^casa. sem que
os trabalhos fossem testemunhados por um oficial de
justiça e três feitores. O processo da administração
dos diamantes sofreu também modificações em dife-
rentes épocas. Vou mostrar o que ela era em 1817,
sem me ocupar com as mudanças que tiveram lugar
depois dessa época.
O principal administrador do Distrito é o inten-
dente dos diamantes, que reúne a esse título o de

(3) Vide SOUTHEY — I « s t . of B r a a . I I I .
F e r r a m e n t a de
ito? mineiro, descrita no meu primeiro

criado por MANOEL FER- REIRA DA CÂMARA BETENCOURT E SÁ (5). volume II. (5) Vide minha "Primeira Viagem". e a influência que lhes dá o talento e a oratória.pende emprega- dos. Quanto aos delitos criminais mais graves. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 5 intendente geral das minas. (7) O legislador. temendo sem dúvida a habilidade dos advogados. dispõe da força militar etc. ao do Sr. O ordenado dos intendentes é de 8. O poder do intendente é quase absoluto. tratou de interditar-lhes a entrada no Distrito dos Diamantes. e é preciso que para esta última qualidade tenha êle estudado jurisprudência. As fun- ções do intendente considerado como juiz propriamente dito não se estendem além de seu distrito. A autori- dade do intendente não se limita apenas ao que diz respeito aos diamantes.000 cruzados afim de indenizá-lo das despesas de viagens a que é obrigado como diretor das fundições reais em Gaspar Soares (8). DA CÂMARA acrescentaram-se 2. substitue ou sus. é ao mesmo tempo ad- ministrador e juiz. . Nas causas de valor inferior a 100$000 êle pode pronunciar suas sentenças sem audiência e sem apelação (7). (6) Os próprios governadores da Província não podem entrar no Distrito sem sua permissão. (8) Vide minha "Primeira Viagem". permite ou impede a entrada no Distrito (6). é a ele que compete o conhecimento dos delitos relativos ao contrabando de diamantes cometidos em toda a província de Minas e até mesmo do resto do Império. mas. vol. é ainda o encarregado do policiamento do seu distrito. Êle regu- lamenta à vontade tudo o que concerne ao trabalho das minas de diamantes.. tais como assassinatos.000 cruzados . I. compete-lhe apenas instruir os processos e em seguida enviar o acusado a Vila Rica. toma as medidas que julga convenientes para impedir o contrabando.

O ordenado do fiscal eleva-se a 2 contos de réis. O cofre tem três chaves. À sua frente acham-se dois tesoureiros (caixas). a outra nas do primeiro tesoureiro. Além do presidente a junta compõe-se de 4 membros — o fiscal. Existia. que rece- bem. os 2 tesoureiros e o guarda- (9) O administrador-geral e r a t a m b é m Inspector-geral. Após os tesoureiros veem os guarda-livros cujos vencimentos se elevam a 1:040$000. 2. os oficiais da adminis- tração diamantina (oficiais da contadoria). O intendente preside a um conselho denominado junta real dos diamantes. (10) Traveis In the interior ©f Brazil. e em seguida veem 7 comissários ou escri- vães. um administrador-geral (9) encarregado da direção e vi- gilância geral dos trabalhos relativos à extração dos diamantes.° tesoureiro quem preenche as funções de adminis- trador geral. ganhando cada um 320$000. ~ Eis quais são. que convoca quando julga oportuno. o guarda-chaves do cofre onde são depositados os diamantes.000 cruzados. . Não há. uma fica em mãos do intendente. cuja função é principalmente judicial. Êsse lugar foi suprimido & é hoje (1817) o 2. poucos anos antes de minha viagem. cada um. ficando a terceira com o primeiro escrivão. exercendo de algum modo as funções do ministério público. sendo encarre- gado de defender na administração os interesses do governo. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Abaixo do intendente quem tem o primeiro lugar no Distrito dos Diamantes é o ouvidor ou fiscal. como disse MAWE (10). em seguida.

E' possível que o lugar de inspector-geral tenha sido estabelecido após minha viagem. Cada administra- dor particular dirige um certo número de negros cujo agrupamento forma o que se chama uma tropa. _ (13) O nome de f e i t o r é dado em geral nas habitações ru- rais a aquele que substitue o patrão. po- dendo variar segundo as circunstâncias e necessidades do momento. transmite as ordens deste último e faz trabalhar os escravos. mas este não tem voto no Conselho (11). Talvez seja possível dar a essa palavra a significação de gerente. Se no ano em curso torna-se necessário modificar al- guma das resoluções tomadas na assembléia geral. Os escrivães são funcionários de c a t e g o - ria inferior. p á g . f a z i a m parte da Junta. Além das sessões ordinárias da junta de que falei acima há anualmente uma assembléia geral a que com- parecem todos os administradores particulares. . (12) Traveis etc. com direito a voto. mas. 225. e que era de oito na época de minha viagem. Os ordenados dêsses administradores são de 200$000.. que não fazem parte da Junta. o guarda-livros não tem o titulo de escrivão. como adianta o Sr. as diferentes tropas de negros e de que modo devem ser feitos os trabalhos. E' essa assembléia que determina onde serão colocadas no ano seguinte. O número de escravos que compõem uma tropa não é fixado em 200. a Junta resolve-o em sessão ordinária. que fazem executar as ordens daqueles (11) Foi publicado na Alemanha que o Insnector-se^al e u m guarda -livros (cscrivllo tios diamantes). O exercício imediato dos trabalhos relativos à extração dos diamantes é confiado a empregados deno- minados administradores particulares. Tem também um secretário (escrivão da junta). 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 7 livros. cujo número varia segundo as necessidades do serviço. MAWE (12). Abaixo dos administradores particulares veem os feitores (13).

do mesmo nível dos feitores e tendo sob suas ordens vários escravos. não se dá mais de um capelão a cada grupo de duas tropas trabalhando em um mes- mo serviço. manna. 225. em caso de necessidade substituem os administradores. MAWE.. De acordo com os regulamentos cada tropa tem um capelão. Os lugares onde se extraem diamantes chamam-se serviços. . mas. o nú- mero dos empregados. Existia então para os doentes um hospital com um cirurgião e um médico (médico de partido) . Cada um deles recebia 160$000 de ordenado. como a administração muito endivi- dada procure reduzir. p á g . que são sub-administra- cíores encarregados especialmente da fiscalização dos feitores e que. serralheiros etc. cargos da mesma categoria e do mesmo ven- cimento dos feitores. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE e que fiscalizam os negros. Cada serviço tem um guarda-armazem e um moleiro. Quando o go- verno suprimiu o arrendamento dos diamantes êle comprou aos arrendatários os escravos que emprega- vam. que os feitores g a n h a v a m 300$000. tanto quanto é possível. Nunca houve. (15) Traveis In the of Braz. mas no momento em que os negros empregados pela admi- nistração não são mais de sua propriedade. ela não rr-anha I n T ® h o u v e e n ^ a n o guando se publicou na Ale. Os diferentes serviços são dota- dos de carpinteiros. ao tempo de minha viagem havia apenas seis desses eclesiásticos para as oito tropas.li. Os feitores ganham 100$000 a seco (14). um cirur- gião para cada tropa de negros (15). Entre os feitores e os administradores particulares existe ainda um cargo intermediário: o dos cabeças. como quer o Sr.

vol. por ex.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 9 tem nenhuma necessidade de manter um hospital nem de pagar médicos. São os proprietários cios negros que os vestem e os tratam em caso de moléstia. 206 da Coleção Brasiliana). pela manhã. Houve tempo em que seu número ascendeu a três mil. I. tornam-se. (Vide minha "Viagem às províncias do Rio de Janeiro e Minas". pág. ao meio- dia e à tarde.. mas a administração. tal como sai tio moinho. Essa soma foi então reduzida a $900. E' com o fubá que se faz uma espécie de polenta chamada angü. A farinha é o milho amassado por meio do monjolo e depois tornado em pó fino. Cada semana os negros recebem para sua alimen- tação um quarto de alqueire de fubá (17). é a administração que os nutre e fornece as ferramentas necessárias aos trabalhos (16). pág. Como dispõem de muito pouco tempo durante o dia. 235. (16) Os empregados da administração teem o direito de colocar um certo número de negros entre os que sao emprega- dos na extração dos diamantes. depois a $675. a esses víve- res ajunta-se ainda um pedaço de fumo de rôlo. Os negros comem três vezes por dia. . A princípio pagavam-nos à razão de 1$200 por semana. são êles obrigados a cozinhar seus ali- mentos à noite e às vezes não dispõem de outro com- bustível além de ervas secas. 126. foi forçada a reduzi-los a mil. Obrigados a estar continuamente dentro dágua durante o tempo da lavagem do minério e consumindo alimentos pouco nutritivos. pela debilidade do tubo intestinal. Todos os escravos ocupados nos diversos serviços pertencem a particulares que os alugam à administra- ção. muito endividada. Cada administrador particular Pode. Quan- do há falta de feijão substituem-no pela carne. uma certa quantidade de feijão e um pouco de sal. quase sempre frios e mal cozidos. Cor- responde ao vol. (17) O fubá é a verdadeira farinha de milho. colocar 20.

Os remilamen tos vedam a aplicação de mais de cincoenta 5 l e s d e bacalhau. aqui e. e dois de seus aplicam lhe .es obedecem a uma regra fixa e desde que se adaptem nao teem que temer os castigos. . são sem dúvid- as causas principais dessa preferência. ° ° ° ? ° r d n C ° t r a n ^ a s d e couro. mas. imediatamente. Todavia quase todos preferem a extração dos diamantes ao serviço de seus donos O dinheiro que eles conseguem pelo furto de diamantes e a esperança que nutrem de conseguir alforria se encontrarem pedras de grande valor. mas há ainda outras. um negro que W i r ao "v U eÍa e V e Ent? U a n d 0 * ^ * * P-nição f m a i s severa. e enquanto nas casas de seus donos eles sao submetidos a todos os seus caprichos.<1 24 AUGUSTO DE S A I N T .^ ? P e r m i ? s ã 0 d e c l i c a r essa espécie podem i^flíp-ír ° S a d m i n i s t ^ d o r e s particulares podem infligir um castigo tão severo. frequentemente u l t r a p a ^ t s e Íi- enC ? n t r a U m d i a m a n t e c I Ue Pese n ^ o i t a v a (18) a administração avalia o feliz escravo.H I L A I R E morosos e apáticos. segundo PREIdNET pesa 3 g r a m a s 6. Então amarra-se o culpado. ™ nádegas golpes de ba- ^ s feitores n . Além disso correm frequente- mente o risco de serem esmagados pelas pedras que se destacam das jazidas ou soterrados pelos desmoro- namentos. cantam em coro can- ções de suas terras. (18) A oitava. C mP St de chkotT. A- ae m»™ de «que se servem para castigar. Seu trabalho é contínuo e penoso. S e m o ^ sob as vistas dos feitores eles não podem gozar um instante de repouso. Reunidos em grande número esses infelizes se divertem em seus trabalhos. Os feitores trazem ordinariamente um grande pau terminado por uma uma tira ura d^ couro.

No fim de cada mês ou em datas mais curtas. a saber: uma faca. se a Junta julga conveniente. Em 1816 foram libertados 3 negros. um cha- péu. veste-o e concede-lhe a liberdade. Aó fim do dia os feito- íes vão reunidos entregar o resultado do trabalho ao administrador particular. os diamantes são remetidos ao te- souro e cada administrador particular remete os de seu serviço por um ou dois feitores acompanhados de . mantendo-o entre o polegfar e o indicador. Êste conta os diamantes encontrados. Êle tem o direito de con- servar seu lugar na administração dos diamantes. mas até Outubro de 1817 nenhum negro gozou dêsse benefício. Para os dia- mantes que pesam menos de 3/4 da oitava a 2 vinténs os negros recebem pequenas recompensas. carregam no em triunfo aos ombros. proporcio- rais ao valor das pedras. festejam-no. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 11 compra-o a seu dono. depois vai guardá-lo na escudela suspensa do telheiro sob o ciual se faz a operação da lavagem. DA CÂMARA oue imprimiu essas disposições ao regulamento. que anteriormente eram pagos ao seu dono. mas é obrigado a trabalhar ainda um certo t e m p o para a administração. Foi o Sr. um colete etc. Desde que um negro encontre um diamante êle mostra-o ao feitor. Seus companheiros coroam-no. faz registrar o número e peso por um feitor cognominado Kstário e em seguida guarda-os em uma bolsa que deve trazer sempre consigo. e cada semana recebe $600. separando os outros dedos. Quando o diamante encontrado pesa 3/4 da oitava o negro tem sua liberdade assegu- rada.

tornavam a pesá- los e registravam em um livro o peso. s e m a n a ao Tejuco para entregar os diamantes V Z aue êsse«. onde passam sucessivamente todos os diaman- tes recolhidos. chamados pedestres.SFS p e r c o®r rme rMa ami ° ° U J u n h o d é 1 8 1 8 ' é P ° c a e m faz suSôr o Distrito dos Diamantes. o nome do serviço onde foram encontrados e a data da remessa. por dois soldados do regimento de cavalaria da província e por quatro ho- mens a pé (pedestres). isso q 6 n e os m e s e s de H Outubro e Junho houve modi- uu ficações nos regulamentos. o fiscal e o primeiro tesoureiro apõem suas rubricas. sem abri-la. e. e de um destaca- AJ un inm ^ S s cientistas escreveram que os administradores k í n n í f « P ° r . que são em seguida envolvidos em papel e depois em sacos. Os tesoureiros verificavam o número dos diamantes que recebiam. A operação dessa remessa obedece aos seguintes trabalhos: existem doze peneiras cujas malhas vão diminuindo da primeira à última. Deste modo obtém-se doze lotes de diamantes. Chegada a Vila Rica a caixa é apresentada ao general que. A fôrça militar à disposição do intendente e da administração compõe-se de duas companhias de homens a pé. Anualmente são remetidas ao Rio de Janeiro as pedras encontradas no ano precedente. apõe tam- bém sua rubrica. <1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE alguns negros (19). A caixa segue acompanhada por um empre- gado escolhido pelo intendente. «. Em seguida os diamantes eram guardados no cofre. . Os maiores ficam retidos na peneira de malhas maiores e assim sucessivamente até aos menores que ficam retidos na peneira mais fina. logo que essa formalidade é con- cluida a comitiva se põe em marcha para a capital.!„??. Os sacos são então postos em uma caixa sôbre a qual o intendente.

Cada companhia é coman- dada por um capitão-mor. fardamento e até as da aquisição de um fuzil e um sabre. Uma delas é destinada princi- palmente ao auxílio dos soldados do destacamento: chamam-na companhia da intendência. depende. sendo obrigados a fazer as despesas de nutrição. para deter os que nele procuram entrar sem permissão do intendente etc. na guarda das caixas etc. Os regulamentos proíbem a venda de aguardente nos serviços para impedir entre os trabalhadores e os comerciantes uma conivência . As duas companhias de homens a pé ou pedestres são compostas cada uma de trinta homens. E' o govêrno que lhes fornece a pólvora e o chumbo dando- lhes além disso uma ajuda de custo quando são envia- dos ao Rio de Janeiro. Cerca de 20 homens acham-se acantonados nas fronteiras do Distrito dos Diamantes afim de im- pedir os contrabandos. Cada companhia usa um uniforme particular. Os pedestres recebem cada ano 76$800. Os pedestres devem procurar e prender os contrabandistas e impedir a venda de aguardente aos negros empregados na ex- tração dos diamantes. todos mulatos ou negros livres. para vistoriar os viajantes que saem do Distrito. inclusive oficiais. mais imedia- tamente dos tesoureiros e da administração e é espe- cialmente encarregada de cumprir as ordens do administrador e do intendente.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 13 mento do regimento da província contando 50 homens. O restante do destacamento é habitualmente aquartelado no Te- juco e empregado no serviço de patrulhamento. A outra. que é igualmente um homem de côr. O destacamento de cavalaria é comandado por um capitão. cha- mada companhia da extração.

citado pelo Sr. vol. e. Essa soma é retirada cia receita da província e enviada semestralmente à junta diamantina pela junta do te- souro real de Vila Rica (junta da fazenda real). êles teriam sido enviados anualmente. . e a aguardente apreendida pelos pedestres é confiscada em seu proveito. 18. somente os maiores teriam sido reservados para o rei. João VI teria readquirido todos os seus direitos.H I L A I R E favorável ao contrabando. de 1807 a 1817. Se as notas que possuo são exatas. a junta dela lança (20) Segundo o Sr. sendo a isso que se denomina assistência (21). Em dez anos. o Distrito dos Dia- mantes forneceu. E' de se observar que o produto do quinto cobrado sobre o ouro em pó que se funde nas quatro intendências (vide minha "Primeira Viagem". à casa Hoppe & Comp. VERDIER. Chegada ao Tejuco a assistência é depositada no tesouro. esses mesmos diamantes seriam vendidos na Inglaterra por cerca de 25 a 30$000. a casa Hoppe teria recebido os outros à base de 7$200 o karat. (21) Presumo que êsse vocábulo ê sempre usado para designar subvenção.. lapidados.000 karats (20). FREYCINET. mas atualmente êle não emprega mais de 300. o karat português é de 3% menos forte que o karat francês. de Amsterdam. qualquer que seja a importância.000 cru- zados. mas enfim os empenhos contratados teriam cessado em 1817. em bruto. e então o rei D. I) é atualmente apli- cado na despesa dos diamantes.<1 24 AUGUSTO DE S A I N T . O governo chegou a dispender cerca de um milhão de cruzados nos trabalhos de extração dos diamantes. afim de satisfazer os pedidos de numerário feitos pelo impe- rador Napoleão. os diamantes do Brasil teriam sido empenhados durante vários anos para a obtenção de empréstimos na Holanda. em media anual.

en- viando-se anualmente uma conta corrente ao Ministé- rio. Êsses vales. Durante muito tempo a administração pagou as diárias dos negros e os víveres adquiridos para nutri- los em vales chamados de extração real (bilhete de extração real). a administração. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 15 mão para pagar os ordenados dos empregados. cujas despesas foram tôdas feitas pela administração diamantina. são pagos separadamente pela junta real cie Vila Rica. digo eu. pelo estabelecimento das forjas do Morro de Gaspar Soares. quando de sua chegada ao Brasil pedira o dinheiro que se achava em caixa. por ordem do governo. feitos a mão. do escrivão da junta e da companhia de pedestres. os vales . pela alta considerável que os víveres tiveram em 1814. as diversas despesas do serviço. enfim talvez pela facilidade com a qual as administra- ções. Os vencimentos do intendente. por um atraso de seis meses que^ a junta de Vila Rica incorre nos pagamentos da assis- tência. achando-se endividada. mas oriundos igualmente da receita da Frovíncia. como os particulares. Entretanto a administração tendo se endivi- dado por diversas circunstâncias: pela remessa que foi feita ao soberano de metade da assistência. cha- mada companhia da intendência não estão incluídos na assistência. é somente dito que eles serão pagos a quem os apresen- tar. trazem os nomes dos credores aos quais são emitidos e são assi- nados pelo intendente. do fiscal. por um dos tesoureiros. fazem despesas desde que não seja preciso desembolsar dinheiro em espécie. as diá- rias dos negros. pelo guarda-livros e pelo empregado encarregado de seus registros. A época do pagamento não é indicada. mas a princípio eram trocados por ouro ao fim de um ano.

tendo sido tomadas me- didas para desarmar os mais hábeis ladrões. o que causou grande celeuma entre os proprietários que dispunham de grande quantidade desses bilhetes. Conten- tar-me-ei com citar aqui um exemplo. sem que nenhum diamante tenha sido descoberto. as contas dos aluga- dores de escravos. o empregado encarregado de os receber dava-lhe um bônus (lembrança) e se- gundo os novos regulamentos cada bônus devia ser igúãTmente pago em dinheiro ao fim de seis meses. tinha por fim assegurar ao iei a posse exclusiva dessas preciosas pedras. é preso. todas as possibilida- des de roubo foram previstas.rviços e a reduzir os vencimentos dos empregados. . Viu-se que o sistema de administração introduzido no Distrito dos Diamantes.. O governo recusou formalmente concorrer ao pagamento da dívida e foi para saldá-la que a administração dos diamantes se viu forçada a diminuir o número de negros distribuídos nos diversos se. cuidaram-se dos menores detalhes. Contudo os bilhe- tes tinham curso no público com um desconto de cêrca de 25%. Para isso tudo se achava arranjado com maravilhosa sagacidade. mas em 1817 a junta do tesouro real declarou que não seriam mais recebidos ao par e eles caí- ram em um descrédito total. Quando um comerciante ou um cultivador fornecia víveres.H I L A I R E deixaram de ser pagos nos prazos. outrora muito mais consideráveis. ao tempo de minha viagem. Cessando a emissão de vales.<1 24 AUGUSTO DE S A i n T . fazem-no em seguida engulir três pedras co- muns e não lhe restituem a liberdade senão depois de evacuadas as três pedras. Logo que um negro é acusado de haver furtado um diamante. deviam ser saldadas semestralmente e os pagamentos eram feitos em dinheiro.

as (22) Não é impossível que haja negros que furtem para seus donos. mas essa disposição iniqua não é atualmente cumprida. Segundo os editais todo e. punido assim por uma falta que não cometeu e nem podia impedir fôsse cometida (22). O escravo que furta diamantes é então chicoteado. Al- guns deles ficavam de esculca em lugares elevados. Foi entretanto em vão que se estabeleceram leis pçnai3 e sc multiplicaram as^medidas preventivas. mas observa-se que na maioria das vezes êles agem Por conta própria. Durante esse tempo não se dá nenhuma retribuição pelo trabalho do negro o que representa um castigo para seu dono.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 17 A prevenção contra roubos não foi apenas tomada por precauções as mais minuciosas. e teve seus bens confis- cados em proveito do Estado. Os escravos con- denados ao ferro formam uma tropa separada que é tratada mais severamente que as outras e que é en- carregada de trabalhos mais rudes. existia uma espécie de contrabandistas que se reunia em tropas e se distribuía pelos lugares onde essas preciosas pedras se achavam em maior abundância e eles próprios faziam a exploração. Quando os dia- mantes estavam menos difíceis de extrair. segundo o valor do furto. Um homem livre. cuidou-se ainda opor às tentações o temor de castigos atrozes. em seguida é posto a ferros por um tempo mais ou menos considerável. avisando os demais à aproximação dos soldados e o bando se refugiava nas montanhas de difícil acesso. A ambição e a astúcia zombavam de todos os temores c triunfavam sôbre todos os obstáculos. na costa da Africa. . acusado de contrabando foi exilado para Angola.scravo ladrão deveria também ser confiscado. e mais abundantes.

Os recém-chegados recebem lições dos antigos e tornam-se às vezes tão hábeis quanto esses. . mandou buscar aquele que era tido como o mais hábil. aventureiros. Êstes asseguravam que a fiscalização mais perfeita não podia impedir o roubo de diamantes pelos escravos. DA CÂMARA queixava-se de que os roubos de diamantes tornavam-se cada vez mais numerosos. uma pequena pedra no meio de uma mistura de calhaus e areia em um dos canais de lavagem (24) e prometeu ao escravo dar-lhe liberdade se êle conseguisse escamotear a pedra tão habilmente que não fôsse percebido em seu furto. aqueles que tra- ficam diamantes roubados pelos escravos nos diferentes serviços. Os negros teem para esse gênero de furto uma sutileza de causar inveja aos nossos mais hábeis gatu- nos. em seguida colocou. Um dos predecessores do Sr. . querendo então fazer uma experiência da habilidade dos negros.<1 24 AUGUSTO DE S A I N T .pág\ 67 e seguintes. confundindo-os sem dúvida com os contrabandistas. O intendente. Ao (24) Erradamente alguns escritores teem falado de ga- rimpeiros como se êles ainda existissem. Foi isso que fez dar a esses homens. contrabandistas propriamente ditos. enquanto que o intendente nele fixava os mais atentos olhares. que se manteve. o nome de grimpeiros. Mas se não exis- tem mais os garimpeiros (23) haverá. apenas alguns negros fugidos vão pro- curá-los ainda à beira dos regatos. O negro pôs-se a lavar a areia pelo processo costumeiro. êle mesmo. Depois que os diamantes se tornaram mais raros sendo precisos trabalhos mais consideráveis para tirá-los do seio da terra. acusando os administradores de falta de vigilância.H I L A I R E mais escarpadas. por corrupção a palavra garimpeiro. (24) Ver adiante. donde se formou. sem duvida.

os pequenos ciamantes. regressando na noite seguinte. mas sua verdadeira finalidade é adquirir diamantes. visto como podem empregar negros de sua propriedade nos serviços onde eles próprios exercem atividades. Muitas vezes o contra- bandista não tem tempo de se afastar do serviço na mesma noite da chegada. por ca- minhos pouco conhecidos. Enquanto que os escravos. Sente-se que os escravos nunca teriam sonhado roubar diamantes sem o engodo que incessan- temente lhe oferecem os feitores e contrabandistas propriamente ditos. já . Êsses teem nas tropas negros subornados que lhes levam os companheiros que tenham pedras a vender. O contrabandista cue se arrisca a ir adquirir diamantes nos serviços encontra mercado para suas pedras principalmente entre os comerciantes do Tejuco e Vila do Príncipe. e. durante a operação da lavagem. então é ele recolhido a uma das casas dos negros. disse o negro. Se se pode acreditar na palavra dos brancos. os feitores não em- pregam menor astúcia em fazer o contrabando. aí ficando escondido durante o ciia. Aventureiros aproveitam-se da noite para chegarem aos diferentes serviços. com fazendas e outras mercadorias. Outras vezes são comerciantes que veem do Rio de Janeiro. sendo mais fácil a estes últimos entregarem-se a esse comér- cio ilícito. No 1 ejuco o contrabandista revende a 20 frs. Os diamantes são pesados e são pagos à razão de 15 francos o vintém. roubam os diamantes. como pretexto para permanecerem na Vila do Príncipe. frequentemente quase ina- cessíveis. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 19 fim de alguns instantes o magistrado perguntou ao escravo onde se achava a pedra. tirando a pedra da boca mostrou-a ao intendente. eu estou livre. que comprou diretamente dos negros.

O govêrno não faz explorar senão os arredores do Tejuco. não somente batendo sôbre eles. que ele seja tão generalizado no Tejuco como pretende MAWE (25). Para isso os negros usam pequenos cristais aos quais fazem adquirir a forma e o aspecto dos diamantes brutos. Mas. se mau grado os esforços diariamente repetidos. é falso que os diamantes aí circulem no comércio como moeda. não se pode chegar a impedir o contrabando. é sôbre os de maior volume que o contrabandista aufere melhores lucros. é falso sobretudo que sejam obtidas. toda- via.. o homem prático sabe distinguí-los facilmente. . pág.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE em Vila do Príncipe dão-lhe 25 frs. ninguém mesmo me mos- trou um só. 252. Como os negros vendem indistinta- mente a peso todos os diamantes que eles furtam. porque há a con- siderar o risco corrido na saída do Distrito conduzindo pedras roubadas. sem fazer nenhuma diferença pelo tamanho. indulgências reli- giosas destinadas a dissipar os escrúpulos dos compra- dores. é falso. E' comum aos contrabandistas novatos serem enganados pelos escravos. por meio deles. como também esfregando uns aos outros. metendo-os na boca e apertando-os contra os dentes para observar se produzem o som argentino que lhes é peculiar. Entretanto elas ocorrem ainda em (25) V i d e Travei» in the interior of Brasil. porque é lá que existe maior quantidade dessas pedras. apesar dos severos regulamentos existentes. Se. para imitar a côr da pedra preciosa usam rolar os cristais no meio de pe- quenos grãos de chumbo. se o ignorante pode ser enganado por diamantes falsos. Passei um mês no Distrito e ninguém me propôs vender um diamante.

da Prata. Romão não sómente em CA55AL» © ESCHWEGE. é proibida aos particulares a pesquisa de diamantes. Existem diamantes ainda em Mato Grosso. Borrachudo. escrevi. e eu encontro S. Andaiá. Existem (26) Em meu primeiro Relato. 442 — SCHW. donde acontece que o cascalho não se acha unicamente em seu leito atual. 127 (28) Encontrar-se-á na descrição de minha 3. próximo de S. São Marcos. Santo Antônio. Neue Welt. Santa Fé. Não se encontra mais o diamante em sua matriz primitiva. I. pág. Em toda parte. tais como:' a serra de Santo Antônio ou do Grão Mogol. Paranaíba. do Sono. em Rio Claro. na província de S. Êsses calhaus íolados de mistura com os diamantes são o que se chama cascalho (29). como no Tejuco. Para- catú (27) etc.a viagem detalhes curiosos sôbre a maneira ostensiva com que é feito o contrabando de diamantes. pág. próximo de Fortaleza. Paulo. Romão (26). em Cuiabá. próximo dos Campos Gerais. daí destacados. (27) SPIX et MART. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 21 diferentes partes da Província de Minas. tão vastos e de popu- lação pequena como Goiás e Mato Grosso é impossível combater o contrabando e tolera-se o que se não pode impedir (28). rolaram com os ca- lhaus para o leito dos rios e regatos. (29) Acredito não ser preciso dizer que se não deve es- crever como MAWE — casealao.. mas creio dever renunciar a essa ortografia. s. e essa matriz por sua vez não é mais en- contrada em parte nenhuma. Aí falarei também dos arredores de Fortaleza. nos rios chamados Abaeté. Sendo ela de consistên- cia muito fraca foi sem dúvida arrastada pelas águas e os diamantes. mas nos lugares mais distantes. Frequentemente o leito dos re- gatos muda de lugar. no Rio Claro (província de Goiáz). . O nome de que se trata não pode originar-se senão de Sanctus Romanug. — Refse. como PIZARRO. ewfim no rio Tibagi. mas ainda em rainhas próprias notas. Quebra Anzóis. R o m ã o .

1 I! (30) Os mineralogistas encontrarão detalhes científicos I sôbre a história natural dos diamantes do Brasil nos escritos ti dos Srs. A descrição pormenorizada das minhas visitas aos diferentes serviços fará conhecer os penosos trabalhos a que se. mas estes são em pequeno número (30). ESCHWEGE. . Quase |S sempre há ouro no cascalho qjue contém diamantes e quanto mais aurífero mais rico em diamantes êle é. SPIX. Nos riachos onde o cascalho já foi lavado não é raro '1ü11 encontrar-se ao fim de algum tempo novos diamantes. como os mineradores dos arredores de Vila Rica eles atulhavam o leito dos riachos com o resíduo das lava- gens e para se achar o cascalho é agora preciso re- mover espessa camada de areia e pedras. A exploração das terras diamantinas torna-se cada dia mais difícil. nos que apresentavam menor dificuldade. MAHTIUS. Quando era feita pelos arrenda- tários eles fizeram pesquisas nos terrenos e regatos mais ricos.H I L A I R E sinais da presença dos diamantes. aflorados pelas águas. entregam atualmente os mineradores. entretanto esses sinais são em geral pouco certos e para se certificar se um regato ou um terreno contém diamantes é pre- ciso dispor de recursos para essas pesquisas. 24 <1 AUGUSTO DE S A I N T .

hospital e deflexões sobre a pequena du- ração dos estabelecimentos úteis na província de Minas. regatos explorados pelos negros deste serviço. — DIVERSOS SERVIÇOS. — Plan- tas européias cultivadas em Tejuco. e que. — Estabelecimento do Córrego Novo. estabe- lecimentos de que se compõe. — Posição geográfica de Tejuco.. TEJUCO. — De que modo os habitantes do Tejuco valorizam seus capitais. subi a serra do Cumataí. in- fluência que o clima da América teve sobre as árvores frutíferas européias. — Nome e título dessa vila. . fontes. casas reli- giosas. sua posição. ao serviço dos diamantes de Rio Pardo. casas dos negros aí empregados. — Comércio dos negros. esterilidade dos arredores. CAPITULO II ÂINDA OS DIAMANTES. — OBSERVAÇÕES SÔBRE A ACLIMA- TAÇÃO DAS ÁRVORES FRUTÍFERAS. Serviço dos diamantes de Rio Pardo. pôsto militar. qual a esta- ção mais favorável à cultura dos legumes. para entrar no Distrito dos Diamantes. cheguei. — Caráter dos habi- tantes do Tejuco. doenças mais comuns. suas casas. suas ruas. após ter passado uma noite horrível. lojas e comércio. sede da Administração e da Intendência. Viu-se na minha primeira Relação que ao deixar o Deserto. — Aldeia da Chapada. suas igrejas. Casa de campo de Pinheiro . clima. excursões às montanhas. dormindo sôbre uma pedra. — Mendicidade. a 22 de Setembro de 1817. seus jardins. ocupações de seus habi- tantes. víveres e mercjado'. — Chegada a Tejuco.

como nas minas de ouro (2). Parei no primeiro estabelecimento que encontrei o de Córrego Novo.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE O serviço do Rio Pardo foi estabelecido aí pelo ano de 1807. Tôdas são construídas de barro e cobertas de capim. Elas sao colocadas em torno de uma praça regular e qua- drada. e abaixo dele encontra-se um desses leitos de pedras duras que se denominam pi- çarras. a outra à beira de um regato vizinho denominado Rio Pardo. uma colocada à beira de um regato que se chama Córrego Novo. por sua reunião uma pequena aldeia que se eleva em doce declive acima do regato. i n í í è e n a s para! mar e «••« negro. As casas da tropa de Córrego Novo. bem diferentes (2) S e r b « 1 ^ 3 . não é somente no leito desses dois regatos que se encontram diamantes. em número de 22. e se compõe de duas tropas. Demais. O primeiro se reúne ao segundo e este divide suas águas entre dois pequenos rios — o Cipó e o Paraúna (1) que são afluentes do S. e que me cumulou de gentilezas. formam. são tôdas térreas e as cobertas. mas fui recebido por um feitor que uma doença havia im- pedido de se ausentar. Aí o cascalho não tem mais de um palmo de espessura. ê a d * f i - . Francisco. Pa- rece que o Córrego Novo e o Rio Pardo produziram muitos diamantes e não há nenhuma dificuldade em extrair os que ainda existem nesses pequenos regatos porquanto o cascalho se acha logo à superfície de seus leitos. tira-se também cascalho nas encostas (grupiaras) que se estendem às suas margens. As duas tropas que compõem o conjunto do serviço haviam sido reunidas momenta neamente à de um serviço situado mais adiante.

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 25 cias que se vêem em outros lugares. . No meio das casas que compõem êste último existe uma pequena capela coberta de capim. mais numero- sas que as de Córrego Novo. não te em paredes e cada uma é ocupada por vários escravos. O terreno é desigual. grande número de espécies. viaja-se sempre pelas montanhas. acham-se aqui em abundância e apresentam. Dois feitores residem em uma mesma casa. tao raras no Sertão. ali a vegetação torna-se um pouco mais vigorosa e são as Lychnopho- ras. As folhas dos arbustos são em geral pequenas e de uma cor carregada. As Melastomatáceas de folhagem miúda. quase continuamente árido e mas- sas de rochedos elevam-se aqui e acolá. Quanto ao administrador. são caiadas e várias dentre elas possuem jardins onde vi pessegueiros carregados de flores. êste ocupa uma casa inteira e foi nela que me hospedei durante minha estada em Córrego Novo. Entre Córreg-o Novo e a aldeia da Chapada. Imediatamente após ter deixado Córrego Novo passei pelo serviço de Rio Pardo. as Mirtáceas e outros arbustos que cobrem a terra. As casas dos feitores teem janelas. são muito mais elevadas que as paredes que as susteem. dispondo cada um de dois cômodos e uma cozinha. foi para lá que resolvi seguir. duas léguas adiante. lhe são absolutamente semelhantes. menores que as dos fiscais. como em tôdas as montanhas. entretanto em sua disposição não se observou nenhuma regularidade. Tendo sabido que o intendente habitava enfão uma pequena casa que mandara construir na parte mais montanhosa do Distrito (serra). As casas dos negros. Essas casas. Aqui o solo produz somente ervas e sub-arbustos.

Entre- tanto como esta região elevada não é extremamente quente estou persuadido de que o centeio podia ai ser cultivado em algumas terras. fica sôbre uma eminência achatada. uma posição quase a prumo. Mas. assim como a areia branca. São obriga- dos a construí-las assim porque a erva empregada na cobertura sendo mole e fina deixará passar as águas das chuvas se a inclinação fôr menor. DA CÂMARA. e é essa ocupação que mantém os habitantes da aldeia. Nos arredores de Chapada o terreno é seco. árido e as pedras. mas. for- çado a dispensar grande número de escravos e feitores afim de poder solver a dívida da administração. cercada a alguma distância por rochedos nus. onde parei.—Não se vê nos arredores da aldeia nenhum traço de cultura. mos- tram-se em toda parte entre gramíneas e outras ervas extremamente pouco numerosas. é preciso dizer. calculam em quatro vinténs o ouro que podem colher num dia. Êsses homens. mas ainda mesmo que não confessassem seus ganhos a pobreza que mostram indica suficiente- mente que eles não pão consideráveis. compõem a aldeia. O Sr.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE A aldeia da Chapada. Os regatos que correm em Chapada deram outrora muitos diamantes. Não foi apenas aos mulatos de Chapada que per- mitiram a pesquisa do ouro nos lugares pertencentes à demarcação diamantina. todos mulatos. Suas cobertas teem. como atualmente a maior parte deles está esgotada o intendente permite que aí se explore o ouro. con- cedeu a diversos particulares a permissão de extrair . Cerca de trinta mi- seráveis choupanas construídas desordenadamente. como as de Rio Pardo. a cata do ouro convém mais que a agricultura à indo- lência dos habitantes das regiões auríferas.

Todas as vezes que me encon- trei com alguns deles. • Êsse pôsto é encarregado de inspeccionar os viajantes e impedir o contrabando dos diamantes. 381. Impossível escolher-se recanto mais solitário. da Coleção Brasiliana) . para o qual trazia uma carta de recomendação. pág. casa de campo do inten- dente.( A ) . II. Fui recebido pelo cabo. A casa do proprietário. pág.® Rela- ção — vol. e. pág. que não passa de simples chou- pana. ele hospedou-me. . Conduzido por um guia que me foi cedido pelo cabo do pôsto de r V m p a d a . 76. cheguei a Pinheiro. Colocou-se em Chapada um destacamento de cava- laria tirado do Regimento das Minas e comandado por um cabo. (Corresponde ao Volume 126-A. com a importante paróquia de Chapada. (Corresponde ao Volume 126. caminhos horríveis no meio de rochedos. nutriu-me e à minha gente e os militares do pôsto tiveram para co- migo tôda a sorte de atenções. Pág. na região de Minas Novas (Vide minha I a Relaqão. da Coleção Brasiliana). (3) Vide o que a êsse respeito escrevi na minha 1. deparei modos extremamente delicados e de todo diferentes dessa rusticidade gros- seira que carateriza frequentemente o soldado europeu. (4) Tenho necessidade de dizer que ê preciso não con- fundir a aldeia de Chapada de que falo aqui. 321. 71. I. após ter feito duas léguas. vol. ao pé de um rochedo. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 27 ouro em diversos regatos onde não existem mais dia- mantes (3). foi construída ao fundo. Em geral no tocante à polidez não é demais fazer o elogio dos soldados do regimento cie Minas. Os habitantes do Tejuco teem o costume de empregar seus capitais na compra de negros que alugam em seguida à administração e teriam sido ar- ruinados se persistisse a proibição de extração do ouro em tôda a extensão do Distrito.

mas aqui o aspecto é singular. Enfim. O Sr. uma excursão de duas ou tres léguas nas montanhas que circundam sua habi- taçao. nas partes mais baixas. Encon- tram-se nas montanhas da Europa paisagens que se compõem de elementos mais ou menos semelhantes. pas- tagens herbaceas. não tive o prazer de ver flores. no meio das quais notam-se. com o intendente. defronte da re- sidência. pela elegância do porte. tudo estava dessecado. algumas bananeiras. . Seu gado era muito bonito. mas ainda para proceder a úteis experiências. Onde o rochedo não se mostrava descoberto encontrei. não somente como objeto de distração. O intendente criava em Pinheiro muitos animais. carrascais. fiz a cavalo. Nas vizinhanças da habitação enormes rochedos elevam-se próximo ao regato. apresenta uma vasta pastagem e é cortado por ttm regato onde não existem diaman- tes. sendo-me impossível pintá-lo. abaixo dessas montanhas que limitam o hori- zonte. sua posição e à natureza dos vegetais. a vista repousa sobre um grupo de casinholas intercaladas de árvores. como nos demais lugares. mas acha- va-se muito aborrecido devido à pobreza e secura do solo. <1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Diante dela o horizonte é limitado por montanhas muito aproximadas umas das outras e mais ou menos em círculo. No dia seguinte à minha chegada a Pinheiro. as vacas -tinham têtas muito pequenas e davam pouco leite. o que creio ser devido à côr dos rochedos. mas. O terreno entre essas montanhas é desigual. todavia. e onde rochedos de um pardo carregado mostram-se por todos os lados. DA CÂMARA experimentava também cultivar ao redor de sua casa legumes e alguns grãos. nos lugares mais elevados.

(Corresponde ao Volume 126-A. Voltando à residência do intendente. como nos arredores de Vila do Príncipe. Fiz aí também conhecer a s árvores anãs chamadas carrasqtieiros. arbustos esparsos e particular- mente Lychnophora (5). 292. mas aqui o capim gordura acha-se já aquém do limite setentrional que indiquei para essa planta (17° 40' de lat. Uma chama de côr de aurora carre- gada estendia-se de uma ponta a outra do pasto. da Coleção Brasiliana). (Corresponde ao Volume 126-A. vol. à tarde. o que explica a semelhança que teem com as nossas iluminações êsses incêndios vistos a grandes distâncias. O exces- sivo calor impediu-me. pág. enfim. págs. 327. o grande feto e o capim gordura (Tristegis glutinosa ou melhor Melinis gluti- nosa) tomaram o lugar que as árvores ocupavam ou- trora. pela manhã. quando regressámos a casa (5) Viu-se na Relaçflo já publicada qu© as singulares compostas chamadas Lyeluiophora«. (7) Vide minha 1. Nunca havia visto essas plantas no sertão nem em Minas Novas. o mesmo limite. ocorrem em geral nas en- costas pedregosas. 433. Ií. Foram derrubadas diversas árvores afim de serem feitas plantações e. 364 da Co- leçSo Brasiliana). de gozar as belezas do campo.) (6). 241. devo- rando-o com excessiva rapidez e formando como que pequenos tufos cintilantes dispersos em pequenos in- tervalos. 348.» Relaçfio. (6) Vide minha 1. 276. passei pela primeira vez diante de pastagens onde acabavam de deitar fogo (7). e a grande samambaia que ordinariamente o precede na ordem das vegetações sucessivas deve ter. II. nas encostas pedregosas. mas. cuja largura é pouco considerável. 454." Relação. pág. vol. . 229. pág. 405. Em outra excursão seguimos as margens do rio Pinheiro. segundo penso. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 29 grandes árvores nas grotas e nos vales.

represando-o por um forte dique. completamente sêca. estão longe de formar. próximo à confluência o rio parece estacar seu curso por uma altura fortemente escarpada. extrair o cascalho afim de lavá-lo em seguida. o Pinheiro corre entre mon- tanhas onde a pedra se mostra a nu entre árvores e arbustos. enormes rochedos pardacentos e completa- mente desprovidos de verdura se apresentavam diante . sem difi- culdade. andámos em um caminho estreito entre o Pinheiro e uma profunda fossa. pararam para pescar pequenos peixes. ela fica 50 palmos acima do Pinheiro. do leito dessecado foi possível. e como se verá em seguida é empregado ainda. Entretanto à medida que avançávamos os grandes vegetais tornavam-se mais raros e troncos decepados de uma côr pardacenta apareciam frequen- temente no meio de árvores cobertas de folhas. maldizendo o sol dos trópicos.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE fazia muito menos calor e pude observar à vontade as paisagens que sucessivamente se ofereceram aos meus olhos. Em um lugar onde o intendente e o resto da comitiva. Essa fossa havia recebido as águas do rio em uma época em que ele era explorado pelos procuradores de diamantes. As árvores que crescem no meio dos rochedos dos dois lados do rio. ele foi empregado em muitos outros riachos. massas espessas de verdura. e. e. como as florestas virgens. mas haviam-no forçado a aí entrar. enormes rochas elevam-se do meio das águas minadas por elas em todos os sentidos. Daí a pouco o aspecto da região tornou-se ainda mais sel- vagem. Aliás não foi apenas com o Pinheiro que se empregou esse processo. Aqui as árvores isoladas deixam distinguir sua folhagem e não se pode deixar de admirar a elegância de algumas leguminosas. Deixando esse lugar solitário.

. Deixámos Pinheiro a 29 de Setembro de 1817. Diversas paisagens passavam ainda pelos nossos olhos e enfim achámo-nos de novo na habitação de Pinheiro. que se chama monjolo. e Agaves com imensas panículas forma- vam um vasto cercado ao redor dessa humilde morada. Des- cíamos uma garganta larga e profunda quando um contraste encantador se ofereceu aos nossos olhares. Durante o tempo em que aí demorei tive ocasião de ver duas árvores que crescem em geral no Distrito dos Diamantes e que são extremamente úteis à região. Uma. são empre- gadas na construção de casas. que tem o nome de pereira da serra não se achava em flor quando a vi. é uma Leguminosa. na dos objetos e apare- lhos destinados à extração dos diamantes. após haver atravessado uma região montanhosa onde os rochedos se mostram por todos os lados no meio de uma vegetação raquítica. Em geral existe ouro em regular quantidade em todos os arredores do Tejuco. e não pude identificar a família a que pertence. do outro bananeiras e laranjeiras crescendo em um terreno inclinado rodeavam uma pequena casa. devido à dureza de suas madeiras. Tôdas as duas. de um lado o rio corria em murmúrios ao pé de mon- tanhas incultas. Aí esse metal acha-se princi- palmente no leito dos riachos e nas encostas vizinhas. o rio desaparecera aos nossos olhos e apenas ouvíamos o murmúrio das águas. passámos um regato onde se extrae ouro e à margem do qual haviam construído algumas palhoças para os negros mineradores. não havia nenhum lugar onde o trabalho do homem. a jnlgar-se por sua folhagem. tivesse procurado dar vida e beleza. mesmo o mais singelo.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 31 de nós. a outra. Mas.

foi o que me sucedeu anteriormente em Vila Rica. mas. A senhora DA CÂMARA. os principais habitantes se gpr^gsem em visita lo. _ No dia seguinte à minha chegada ao Tejuco recebi visita das pessoas mais. DA CÂMARA tinha sido obrigado a passar para uma casa que apenas dava para sua família. fazia as honras da casa. quando regressei do Brasil os habitantes de várias ci- dades haviam já. Após duas léguas chegámos enfim à capital do Distrito dos Diamantes. e. João VI a ma conduta dos Portugueses da Europa . Êsse costume. durante minha estada no Tejuco êle não cessou de cercar-me de distinções. mas as refeições eu ia fazer em casa do Sr. tem para o viajante a vantagem de fazê-lo conhecer. mulher de modos distintos.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE parece que em poucos lugares êle aparece em veios e esses mesmo muito curtos. desde os pri- meiros momentos de sua chegada. comiam conosco e. fui então hospedado em um prédio outrora habitado pelos intendentes do Distrito. Foi assim que à chegada de JJ. A praxe manda que logo que urn estrangeiro conhecido páre em qualquer cidade. renunciado a essa praxe. os homens que podem mais facilmente prestar-lhe serviços. DA CÂMARA. se não me engano. importantes do lugar e não me demorei em retribuir tais visitas. Vila do Príncipe e várias aldeias. magoados pela negligência ou grosseria inata de alguns estrangeiros que não souberam corresponder as gentilezas recebidas.' Ela e suas filhas não se escondiam nunca. Como procediam a reparos no edifício da Intendência o Sr. ba- seado em um sentimento de boa-acolhida. admitiam o convívio dos homens. adotando os hábitos europeus.

não se quis mesmo elevar Tijuco à categoria de cabeça de paróquia. tendo encontrado muito ouro nessa região. aí se fixaram até ao começo do século passado. Os terrenos das vizinhanças do íegato são firmes mas o nome de Tijuco persistiu na aldeia principal do Distrito dos Diamantes. Tijuco pertence ao bispado de Vila do Príncipe A palavra diocese foi sem dúvida. Não se dá ao Tijuco outro nome além de ar- raial (9). Pi®. As margens desse regato eram pantanosas e foi isso que fez dar ao lugar o nome de Tejuco (8). na língua dos índios. e. POMBAL proibiu se formasse aí uma diocese e que em consequência. (10) Sábios viajantes dizem que. já que é assim chamada. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 33 tornou o povo do Rio de Janeiro menos hospitaleiro do que se mostrava até então. para impedir ao clero de assumir grande importância no Distrito dos Diamantes (10). posta nessa passagem em lugar do vocábulo paróquia.» Relação. pois qua não há bispado na Vila do Príncipe e esta vila faz parte. eleva-se a cerca de 6. .000 almas. (S) SOUTHEY 8 outros estrangeiros escreveram Tejuco» mas eu acredito dever me cingir à maneira de escrever de 2 geógrafos nacionais — PIZARRO e CAZAL. entretanto a população dessa aldeia. e o número de casas é de cerca de 800. (9) Já expliquei a significação dessa palavra em minha 1. Parece que os mais antigos habitantes do Tejuco foram aventureiros paulistas que. que a verdadeira palavra da língua-geral é Tyjiicn. Provavelmente. Um dos primeiros sítios onde eles fizeram descobertas foi num pequeno regato que corre sobre o monte onde hoje se acha a aldeia. ao tempo de minha viagem ela não era senão humilde sucursal dependente de Vila do Príncipe (11). da Diocese de Mariana. que significa barro. para paralisar a in- fluência dos Eclesiásticos no Distrito dos Diamantes. como s e sabe. (11) Em 18JL9 Tijuco passou a cabeça de paróquia.

pá*. Ainda não tinha visto tão belos em nenhuma parte da província. As ruas de Tijuco são bem largas. Francisco. seja ao chegar a Pinheiro. 73. plantada num desses jar- dins. Do outro lado do vale outeiros extre- mamente áridos fazem face à aldqia. Tijuco é construída sôbre a encosta de uma colina cujo cume foi profundamente cavado pelos minerado- res. avista-se uma palmeira. e apresentam por todos os lados rochedos de um pardo escuro. bran- cas por fora e geralmente bem cuidadas. quase tôdas são em rampa. Até a uma certa distância os cami- nhos tinham sido reparados (escrito em 1817) pelos cuidados do intendente e por meio de auxílios parti- culares. seja chegando ao serviço de Curralinho. da dos próprios rochedos. que. um regato que tem o nome de Rio S. A verdura dos jardins da aldeia contrasta.» Rela- da° Co 1 eção B r a s i l i a n a ^ C o r r e s P o n d e ao Volume 126-A. são cobertas de telhas. segundo o gosto dos proprietários e. o que é consequência do modo em que a aldeia foi colo- cada. com esses tons sombrios. . e. vendo os caminhos que a ela vão ter. mas muito mal calçadas. em muitas casas (12) Espécie de tijolo de que já falei em minha 1. Ao pé dessa colina corre. como mos- trarei. A cercadura das portas e das janelas é pintada de diferentes côres. muito limpas. outras com adobes (12). As casas construídas umas em barro e madeira. domina tôdas as casas e forma acima delas uma elegante coroa. em um vale demasia- damente estreito.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Antes mesmo de chegar a essa bonita aldeia o viajante fica bem impressionado. no meio dos quais cresce um relvado cuja côr difere pouco (quando de minha viagem).

o seu. Neles vêem-se laranjeiras. jaboticabeiras. De várias casas vêem-se não somente as que ficam mais abaixo. Os jardins são muito numerosos e cada casa tem. entre as quais o cravo é a espécie favorita. mas ainda o fundo do vale e os outeiros que se elevam em face da vila . Quando fiz minhas visitas de despedida. bananeiras. e os telhados aqui não fazem abas tão grandes para fora das paredes. um pequeno número de pinheiros (Araucaria brasiliensis) e alguns marmeleiros. cadeiras de grande espaldar. Quanto aos móveis eram sempre em pe- queno número. chicórea. tive ocasião de entrar nas principais casas de Tijuco e elas pareceram-me de extrema limpeza. alfaces. por assim dizer. entretanto êles são dispostos sem or- dem e sem simetria. De qualquer modo resultam perspectivas muito agradáveis dessa mistura de casas e jardins dispostos irregularmente sôbre um plano inclinado. e não se poderá descrever bem o efeito encantador que produz na paisagem o contraste da verdura tão fresca dos jardins com a côr dojs telhados das casas e mais ainda com as tintas pardacentas e austeras do vale e das montanhas circundantes. bancos e mesas. As paredes das peças onde fui recebido estavam caia- das. sendo em geral tamboretes cobertos de couro cru. Os jardins de Tijuco pareceram-me geral- mente melhor cuidados que os que havia visto em outros lugares. pessegueiros. algumas ervas medicinais e flores. são muito raras em Tijuco. . os lambris e os rodapés pintados à imitação de mármore. Cultivam-se tam- bém couves.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 35 as janelas teem vidraças. algumas fi- gueiras. As rótulas que tornam tão tristes as casas de Vila Rica. batata.

Várias igrejas possuem um pequeno orgão. eles celebram festas da padroeira com muita solenidade e todos os confrades. mantido pelos irmãos. Os bens da igreja do Rosário são administrados por brancos e êles teem o cuidado de rehaver em grosso o que os negros lhes roubaram a varejo. S.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Apesar de ser cabeça do Distrito dos Diamantes o lugar foi durante muito tempo uma sucursal. A dos negros africanos não é menos bela. do Rosário. que são muito nume- rosos. Uma santa preta se vê sôbre o altar-mor de N. há também as que possuem belos ornatos e são muito ricas em prataria. do Rosário. não seria de esperar existisse algum no . entre- tanto contam-se aí sete igrejas principais e duas ca- pelas. construído na al- deia. e os mulatos por suar vez teem a deles. Francisco e do Carmo. e este último tinha um procurador a que cada fiel remetia a retribuição que há costume pagar pela páscoa. Quanto à sucursal. são por elas mantidas e na maioria dispõem de um capelão. Todos esses edifícios são pequenos mas ornamentados com gosto e muito limpos. os negros crioulos teem uma outra. S. As mais bonitas são as de Santo Antônio. Os negros da costa da África teem uma igreja. Por cima da porta das igrejas há uma tribuna onde ficam os músicos quando se celebram missas solenes. rodeada por santos negros nos altares laterais. esforçam-se por economizar cada um 600 réis por ano para oferecer à sua igreja. todas as outras foram cons- truídas pelas irmandades. a de N. S. Como não são permitidos os conventos em tôda a província. acha- va-se dotada de um padre que recebia um salário fixo do cura de Vila do Príncipe. Excetuada a primeira. que é sucursal. dizia um homem de espírito. na ocasião de minha viagem.

Êle adquiriu uma casa em um local muito arejado e dotou o estabelecimento dos objetos necessários. e o infeliz sistema de agricultura introduzido em Minas Gerais destruiu rapidamente as fazendas (13) situadas na parte menos deserta desta província. encarregados de recolher as esmolas que os fiéis consagram ao Santo Sepulcro. Aqui é mais difícil que na Europa fundar estabelecimentos de beneficência capazes de subsistir muito tempo. entretanto existe aí um asilo onde se educam mocas e outro de frades da ordem terceira de S. na região das Mi- nas elas nada valem. Sus- tentados por donativos diários tais estabelecimentos devem ter vida precária. . Aí por 1787 um eremita. como disse em minha 1. Na ocasião de minha viagem havia apenas dois frades nesse último asilo. propriedades rurais de a l g u m a importância. retirou-se." Relação. Fran- cisco. Mas êsse útil cidadão. quando se pode fixar. êle estimulava o orgulho dos habitantes e o hospital durou enquanto seu fundador permaneceu no Tijuco. onde encontrar homens que queiram arrendar terras. E. No seio de um povo quase nômade.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 37 Tijuco. doutro lado. Na Europa as propriedades territoriais são justamente consideradas como as mais seguras. as casas também perderam seu valor. as esmolas tornaram-se trenos abundantes e o hospital foi abandonado. qual é aqui a natureza de fundos sólidos ? Os escravos teem curta existência. tendo-se aborrecido com certos atos das au- toridades locais. sem retribuição (13) As fazendas são. Aliás as fa- zendas só raramente produzem. administradas que são por feitores pouco interessados em cumprir seus deve- res . tendo excitado a caridade dos fiéis. reuniu esmolas muito abundantes para fun- dar um hospital. O eremita esmolava.

diariamente. Outrora os intendentes moravam dentro da aldeia. são fornecidas por pequenas fontes que nascem na própria montanha onde é construída a aldeia. E' uma casa grande e muito cômoda. além de 3 públicos. como suas águas não são de boa qualidade apenas servem para a lavagem de roupas e irrigação de jardins. mas o intendente aduba-o fazendo transportar para aí. quando com poucos gas- tos pocle-se tornar propriotário ? Existem em Tijuco vários edifícios públicos. A sede da intendência possue talvez a mais bela varanda que existe em toda a província. a cadeia. . pode ter de 50 a 55 passos de comprimento. Existem chafarizes em grande número de casas. A casa da administração. Um riacho denomi- nado Rio das Pedras teve suas águas desviadas para a povoação. cuja fachada é regular. o vale que se estende abaixo da povoação e os rochedos que lhe ficam em frente. sem ornamento algum. mas a intendência geral é situada fora. O solo dêsse pomar fôra ou- trora trabalhado pelQ^^mwe^uk^g^ A rjp g p 0 j a Hn HP sua terra vegetal tornou-se de extrema esterilidade. E' lá que trabalham os empregados e é onde são guardados os valores. Essa casa possue um vasto cercado plantado de laran- jeiras e jaboticabeiras. mas. tais como o quartel. a sede da administração (contadoria) e a da intendência. mas esses edifícios nada oferecem de notável. o lixo da aldeia. o primeiro tesoureiro aí reside e a junta rea- liza suas sessões em uma das salas.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE zlguma. de onde se avista uma parte do Tijuco. nos terrenos alheios. As águas que se bebem em Tijuco são excelentes. construída sôbre um outeiro.

mas como essa cidade está a cêrca de 240 léguas de Tijuco e como a estrada oferece pouca comodidade aos viajantes. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 39 Há diversas praças públicas em Tijuco. quinquilharia. se se introduzisse a prática dos pastos artificiais. Entretanto é possível que se se adotasse nessa região um sistema de agricultura mais racional. que causam admiração sejam procurados a uma tão grande distância do lito- ral. é com o Eio de Janeiro que os comerciantes de Tijuco mantêm suas relações comerciais mais importantes. comes- tíveis. tendo-se em vista a distância e. Essas mercadorias são quase todas de fabricação inglesa (1817) e são vendidas em geral por preços muito módicos. As lojas dessa aldeia são providas de tôda sorte de panos. Em troca das mercadorias que Tijuco recebe dos portos a aldeia fornece uma parte do nu- merário que o govêrno aí espalha cada ano nos orde- nados dos empregados. nelas se encontram também chapéus. vidros e mesmo grande quantidade de artigos de luxo. a difi- culdade de transportes. faltando mesmo em alguns lugares. Contam- se 134 léguas desta bonita povoação à capital do Brasil. Os arredores de Tijuco apresentam um solo árido e não produzem nem mesmo os gêneros necessários à subsistência dos habitantes. A Baía fornece alguns artigos. e se os caminhos são bem mais difíceis que os da Baía ao menos encontram-sè ranchos em distâncias bem "mais próximas. mas são tão pequenas e irregulares que apenas merecem o nome de encruzilhadas. louças. se se cuidasse de criar maior quantidade de . e os diamantes que passam em con- trabando. o ouro que se extrai das minas das vizinhanças.

veem de 10. o centeio. seca. e sobretudo de Peçanha (15). Mas. pouco a pouco. os feijões. tanto pelos habitantes da aldeia como pelos negros empregados na pesquisa dos diamantes. Árassuaí etc. de modo a. podia-se cultivar. .. 15. A frente dessa hospedaria forma uma galeria onde são depositadas as mercado- rias de que se trata. enfim empregando- se a charrua. Os víveres que aí são consumidos. e que pode ser considerada como uma espécie de mercado. Incessantemente vêem-se chegar a Tijuco carava- nas de burros carregados de mercadorias e víveres. Penha. em vários pontos do Distrito. enquanto se persistir em seguir a prática usada atualmente em toda a Pro- víncia não se tirará nenhum partido das terras dos arredores de Tijuco. principalmente de Rio Vermelho.H I L A I R E gado. a farinha de milho e a mandioca. T. mas os grãos. não podem ser vendidos senão em uma delas. Há na localidade três hospedarias onde param os tro- peiros . obter a fertilização do solo pelos excrementos aí deixados pelos animais. fazendo-se a parcagem (14). 20 e 25 léguas de distância.« Relação. e pode-se dizer com segurança que é a existência de Tijuco e por consequência a extração dos diamantes que entreteem uma ligeira abastança entre os agri- cultores dessas diferentes povoações. outros grãos miúdos e talvez mesmo a cevada. E' mesmo o único que existe em tôda a Província. — Parcagem é urn sistema de adubação que consiste em pascentar pequenos animais em cercados móveis. Certas casas dedicam-se espe- cialmente à venda do toucinho e da carne.<1 24 AUGUSTO DE S A I N T . situada na praça da Intendência. O distanciamento em que Tijuco se encontra dos lugares que o aprovisionam e a aridez de seus arre- (14) N. (15) Já me referi a êsses lugares em minha 1.

segundo observações do Sr. 68 c. As forra- gens são ainda mais caras que a lenha. O (16) Entre 61es o capim colônia (Pnnlcum mnxlmuia var. B. Alguns habitantes que querem ter sempre animais de cocheira. Tijuco acha-se situada a 18°14'3" de latitude S.) o alqueire e o frango a 150 (95 c. Mart. (17) Esta posição foi determinada pelos matemáticos por- tugueses citados em Brasilien Neue Welt. São negros que as vão procurar e as vendem por conta de seus donos.) a arroba. a lenha não é menos cara que os víveres e. o feijão a 900 réis (5 f.) a carga de 2 feixes. Agrost.) . era preciso pagar um vintém (20 c. quando de minha viagem. nâo existam anuais.) . 62 c. o milho a 600 réis (3 f. 1817) a 150 réis (95 c. ape- nas suficientes à alimentação de um burro durante um dia. o toucinho a 8 patacas (16 f. Êles fazem feixes de 7 a 8 palmos que transportam nos ombros e que são vendidos (Set. (17) e a uma altitude de 3.) . dão até cinco cortes (16).) por um pequenino feixe.715 pés acima do nível do mar. ESCHWEGE. Assim a farinha de mandioca era vendida em fins de Setembro de 1817 a 750 réis o alqueire (4 f.) Como os arredores de Tijuco não apre- sentam senão uma região descoberta onde crescem somente arbustos. 24 c. 166) que n&o me pareceu natural da região e cujos caules ramificados e de 3 a 4 pés de altura nascem em tufos.800 réis (11 f. Pizarro indica 18° 6 . o arroz a 1. et Nees. cultivam em seus quintais algu- mas espécies de gramíneas vivazes que. sendo preciso ir buscar longe a erva com que se nutrem os cavalos e burros. Nos arredores a pastagem é excessivamente magra. 75 c. en- tretanto acredito que só cultivam as vivazes. Não quero afirmar que entre as Gramíneas cultivadas em Tijuco para forragem. nos terrenos pouco adubados. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 55 dores. tornam os principais víveres aí geralmente mais caros que em todas as outras partes da Província. .

e o . Enfim. a tempe- ratura é amena mas muito variável. como em todas as partes da Província. O calor moderado que faz em Tijuco torna raros a lepra e a elefantíasis. Ali pqr meados de Ja- neiro há uma quinzena de dias de bom tempo e de um calor muito grande. o termô- metro desce a 44° Fahr. Durante os meses de Outubro e Novembro. sendo a média de 70° a 72° Fah.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE ar que aí se respira é absolutamente puro. explica-se pela libertinagem a que todas as classes da sociedade se entregam exagera- damente. que ocorrem aqui como no resto do Brasil. o termômetro sobe geralmente a 80° Fah. (21. O mês de Junho é o menos quente do ano e. atingem os homens livres.11 a 22. que são ordinariamente os mais quentes do ano. tais como a Urtica dioica L.22 c. tendo êsse curto intervalo o nome de veranico (verão pequeno). elas são oriundas dos vícios e costumes dos mora- dores da região. Durante estes dois meses as tro- voadas são muito frequentes e sempre trazidas por ventos do quadrante norte.. o grande número de doenças venéreas. Assim em Tijuco.). e uma vida muito sedentária são as principais causas das moléstias nervosas que.66 c. O uso prematuro dos prazeres do amor. a hidropsia. frequente entre as pessoas de côr. mas não é ao clima que devemos atribuí- las . muito frequente- mente. O clima temperado da capital do Distrito dos Diamantes é propício às produções européias. (26. é resultado da sua paixão pela aguar- dente de cana. enquanto que a inconstância da temperatura multiplica as gripes e bronquites. Ou- tras afecções mórbidas são comuns no Distrito dos Diamantes. durante êsse mês.). e várias plantas do nosso país.

por assim dizer. DA CÂMARA. as figueiras. estão. (18) Talvez seja útil fazer novas pesquisas para verificar se várias espécies não serão cultivadas sob o nome de capim Angola. doutro lado parece plausível seja uma razão oposta que impede o trevo e a alfafa de frutificar em Tijuco. como em outras parte da província. A batata inglesa prospera mais ou menos bem em Tijuco. cujas semqntes terão sem dúvida vindo no meio das de legumes. Entretanto se o clima da capital do Distrito dos Dia- mantes é muito temperado para que o capim Angola aí dê sementes.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 43 Verbascum blattaria L. os marmeleiros. Essas Leguminosas foram várias vezes semeadas pelo Sr. ex- plica facilmente essa diferença. mas em compensação as bananeiras. produzem bons frutos nos pomares desta aldeia. Os pesseguei- ros. O capim Angola (Panicum spectabile Mart. e é provavelmente a mesma causa que permite a cultura do repolho em Tijuco enquanto que êle não medra em Rio Manso. Também cul- tivam o aspargo. plantada em tôdas as estações do ano. ele frutifica bem. enquanto que em Rio Manso.. naturalizadas nas ruas de Tijuco. a poucas léguas de distância mas em muito menor altitude. cresceram mas não produziram sementes. amigas do calor. et Nees) (18) não floresce em Tijuco. porém apenas pela elegância da folhagem afim de misturá-la nos ramalhetes de flores. Sem dúvida aqui as causas do desenvolvimento das partes herbáceas são tão podero- sas que elas prejudicam a formação das sementes. A tempe- ratura de Tijuco. aí se desenvolvem mal e teem geralmente caules menos vigorosos que nos ou- tros lugares. . mais baixa que a de Rio Manso.

mas não ficam. desde que se tenha o cuidado de irrigá-los. no mês de Junho. não adianta regar as plantas do país. é porque sua vegetação é paralisada por um frio relativamente mais importante que a falta dágua. . na parte de Minas Novas situada além da Vila do Fanado.» Relaçfto. completamente (19) Ver minha 1. Ao contrário. 113 e s e g u i n t e s . p á g . mas é preciso lembrar que a tem- peratura da região muito baixa das catingas é bem diferente da de Tijuco. eles não devem produzir frutos tão facilmente quanto na estação queaite e as regas suprem a umidade. o que não me foi possível na mesma época no Distrito dos Diamantes (19). pág. pereiras. encontrei cons- tantemente em Junho e Julho verdura à margem dos riachos e lagoas. (Cor- responde ao Volume 126-A. o tempo da seca é mais favorável aos legumes da Europa. disseram-me. florescendo logo depois e em seguida cobrindo-se de nova folha- gem.<1 24 A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE Segundo me disse o Sr. Em Tijuco os pessegueiros perdem completamente suas folhas durante o mês de Setembro. único elemento que lhes falta para o fenômeno da vegetação. DA CAMARA. Durante a seca os le- gumes europeus encontram uma temperatura análoga á de seus paises de origem. porquanto elas não progridem com isso. se as plantas indígenas não produzem em tempo seco mau grado as irrigações artificiais. acrescentou-me esse mesmo observador. E' fácil de explicar essa diferença que à primeira vista parece bizarra. As macieiras. enquanto 'tudo nos arredores !se achava dessecado. eu podia. nesta região. da Coleção Brasiliana). II. Entretanto. dormir numa galeria aberta. marmeleiros renovam suas folhas e florescem à mesma época que os pesse- gueiros. e que sem haver frio. Na verdade. 101.

e. tendem a provar que a mudança de que falo operou-se de modo brusco. perei- ras os botões conteem ao mesmo tempo folhas e flores. A folhagem antiga cai. como no pessegueiro os primei- ros botões dão somente flores. nos marmeleiros. imediatamente depois desen- volvem-se os botões. com efeito. os botões florais. de que tomei conhecimento após haver escrito o que precede. o que é notável é que no hemisfério austral nossas árvores frutíferas modelaram a série dos fenômenos de sua vegetação em função do curso do sol. e que s&o devidas ao Sr. distintos dos botões foliares. Vê-se pelo_ que precede que a foliação de nossas árvores frutíferas dura todo o ano e que uma circuns- tância estranha à essência de sua vegetação. enquanto que os botões dos marme- leiros etc. entretanto ela se explica facilmente pela diferença que existe entre os botões do pessegueiro e os da macieira. e que a época de sua floração é determinada nos dois hemisférios pela volta do sol na direção do trópico mais próximo. Não po- (20) Observações manuscritas. produzindo simultaneamente folhas e flores não permitem que estas últimas espécies fiquem sem verdura. reduziu essa foliação a seis meses. No pessegueiro.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 45 desfolhados. Não poderei dizer se essa mudança operou-se de uma vez ou se se operou paulatinamente (20) . DE GESTAS.. . se as- sim posso expressar-me. pereira etc. aparecem primeiro. mas. macieiras. Vê-se mais que passando a um outro hemisfério essas mesmas árvores modifi- caram as fases de sua vida vegetal e adotaram. como acontece no nosso hemisfério. Essa diferença parece à primeira vista bastante singular. os hábitos das espécies indí- genas. as árvores ficam algum tempo sem folhas.

H I L A I R E derei. não teriam obtido para a maturação de seus frutos a quantidade de calor que lhes é necessária. seu clima. os habitantes de Tijuco não possuem (21) Em outro lugar darei a tudo quanto digo sôbre êsse assunto desenvolvimento indispensável. As plantas orna- mentais cultivadas nos nossos jardins e transportadas a Tijuco. e parece que mudando as fases dos seus ciclos as diferentes espécies continuaram a manter os mesmos intervalos entre as respectivas épocas de floração. o botão de ouro. acredito. porque é em Setembro que a anémona floresce e em Agosto a violeta (22). (22) Sente-se que para as plantas anuais ê a époaít da sementeira que deve determinar a da floração. mas. nem na Província do Rio Grande. seus edifícios públicos. O que é certo é que sem isso não se teriam conhecido os pêssegos etc. após ter dado a conhecer a situação da capital do Distrito dos Diamantes. a sau- dade. a margarida. tais como os cravos. Aliás não foram somente as árvores frutíferas da Europa que sofreram modificações no curso de sua vegetação na América Meridional.. se ela não se tivesse dado. nossas árvores. nas poucas partes do Brasil onde creio possam pros- perar.<1 24 AUGUSTO DE S A I N T . Em tôda a província de Minas encontrei homens de costumes delicados. cheios de afabilidade e hospitaleiros. o amor-perfeito. explicar uma mudança tão extraordi- nária. nem na Pro- víncia Cisplatina (21). eu não dissesse qualquer cousa a respeito dos habitantes desta bela aldeia. . florescem princi- palmente nos meses de Outubro e Novembro. nem na região elevada dos Diamantes. Minha tarefa não estaria perfeita se. mas a escolha dessa época é necessariamente hoje o resultado da experiência.

I. 347. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 47 tais qualidades em menor grau. sem terem mestres. os brancos são geralmente bem trajados e as mulheres brancas que tive ocasião de ver não o eram menos. Após o que hei dito sôbre os recursos de Tijuco não se deve admirar se se acrescentar que aí reina um ar de abastança que não. pág. 294. As casas são conservadas com cuidado. . havia observado em nenhuma outra parte da Província. Logo após o Intendente ofere- ceu-me um concerto em que figuravam lindas variantes sobre uma ária do caderno. Os habitantes de Tijuco são principalmente notáveis na arte caligrá- fica e podem a êsse respeito rivalizar com os mais hábeis ingleses. cheios de nobre entusiasmo. Mas é preciso dizer: os habitantes de (23) Vide minha 1. Tanto quanto pude julgar eles não são menos hábeis na arte musical que os outros habi- tantes da Província. Antônio não me pareceu inferior à que. chegaram a falar nossa língua de modo inteligível com o auxílio único de uma gramática muito mal escrita. e úa missa cantada que assisti na Igreja de S. (Correspon- de ao Volume 126. nas primeiras classes da sociedade elas são ainda acrescidas por uma polidez sem afetação e pelas qualidades de sociabilidade. e. Vários moços (1818). vol. En- contrei nesta localidade mais instrução que em todo o resto do Brasil. assisti alguns meses antes na Vila do Príncipe (23). aprenderam o francês. pedi licença à Sra. mais gosto pela literatura e um desejo mais vivo de se instruir. MATILDE DA CÂMARA para ofertar-lhe um caderno de músicas. da Coleção Brasiliana). praticando muito entre si. p á g . Pouco tempo antes de minha partida.» Relaçfio. conhecem nossos melhores autores e alguns mesmo.

ou nas lojas como caixeiros e as pessoas de côr exercem os outros vários serviços. e pode-se mesmo dizer que aí se encontram indivíduos andrajosos mais raramente que em Vila Rica e Vila do Príncipe. diz-se que êle não dispõe de ninguém para ir buscar-lhe um balde d'água ou um feixe de lenha. e. quando êle consegue economizar algum dinheiro. e por êsse meio retiram de seu capital juros de cerca de 16%. A compra de escravos é também para grande nú- mero dos habitantes de Tijuco. 86c. como pretende TOHN MAWE (24).) com alimentação e os mestres de obras 600 rs. 229. A primeira cousa que seduz um operário em Ti- juco.<1 24 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Tijuco não fogem a esse caráter de imprevidência que infelizmente tanto distingue os brasileiros. (cerca de 3f. Um carpinteiro ou pedreiro ganha por dia 300 rs. 24) Traveis in the interior of Brazil. (cerca de lf. um meio fácil de valo- rizar seus capitais.). eles gastam à medida que recebem e frequentemente os empre- gados da administração diamantina morrem endivi- dados. mais mendigos que em outras povoações. apesar de seus ordenados serem consideráveis. eles alugam à administração dos diamantes os escravos de que se tornam proprietários. é arranjar um escravo. para pintar a pobreza de um homem livre. Mas desse modo êles põem seus valores em fundo morto e nada deixam aos seus herdeiros. . 98c. tal é o sentido de vergonha dado a certos trabalhos que. E' falso entretanto que haja em Tijuco. Os homens de nossa raça acham meios de se empregarem na extração dos diamantes como feitores.

fresco e úmido. sombrio. . que no do Rio de Ja- neiro. que sendo montanhoso. e a dis- tância não é tão grande. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 63 E* principalmente da Baía que veem os escravos que se vendem em Tijuco e seus arredores. mas observou-se que há menor número de mortes no caminho da Baía. Pode-se comprá-los por menor preço no Rio de Janeiro. que atravessa vastas planícies muito quentes. deve ser mais nocivo à saúde dos negros recém-che- gados da costa da África.

DA CA- MÂRA. — Acidente com o Autor. transportado a Tijuco. — Interêsse que lhe tes- temunham os habitantes desta aldeia. — Passeio a Bandeirinha. Intendente dos Diamantes. — Serviço de Matamata. Aproveitei minha estada em Tijuco para ir visitar vários serviço». DA CÂMARA. roda a chapelet. — Rochedo da Linguiça. — Serviço do mesmo nome. Tijuco apresenta um aspecto ainda mais agradável que o da parte setentrional. — Resto de antiguidades indígenas. A maio- ria das casas mostram-se umas abaixo das outras. — ACIDENTE COM O AUTOR. ao sair da aldeia. - NOVOS DETALHES SÔBRE OS DIAMANTES. lado. O Autor é. CAPÍTULO III EXCURSÕES NOS ARREDORES DE TIJUCO. — O caráter do Sr. segui. e a . Volta ao serviço de Linguiça. — Detalhes ^ sôbre essa operação. entremeiadas de pomares e pastagens artificiais. — O Autor segue rumo às forjas do Bomfim. Acompanhado pelo filho do Intendente e por um moço a quem êsse magistrado dedicava muito afeto. um caminho muito bonito e bom. que é o do sul. graças aos cuidados do Sr. — Serviço de Curralinho. — Divisões do trabalho de ex- tração de diamantes segundo as estações do ano. — Por- menores sôbre esse serviço. Aspecto de Tijuco do lado sul. — Opinião do médico do Distrito dos Diamantes sôbre os re- médios empregados pelos agricultores na cura das moléstias venéreas. Deste. — O que é um bicame. — Descrição dos hangars sob os quais se faz a lavagem dos diamantes.

mas. aqui são as Mirtáceas que dominam. mais próximos uns dos outros. Pág. se- melhantes às de Rio Pardo. a pouca distância de suas margens. os negros clêste serviço haviam sido enviados aos de Linguiça e de Mata-Mata. terminam por formar carrascos cuja vegetação extremamente variada pro- duz agradável efeito. (Corresponde ao Volume 126-A. Não havia nin- guém em Curralinho quando aí passámos. chegámos a um serviço de diamantes. de St. também chamado Curralinho.) que carateriza os carrascos dos planaltos argilosos de Minas Novas. (1) Já expliquei a significação da palavra curral. são construídas sem ordem.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 51 palmeira de que falei. Êste riacho não fornece mais diamantes. 319. . chamado serviço do Curralinho (1). Não se vê aqui a mimosa (Mi- mosa dumetoriim Aug. vol. As casas dos negros e dos feitores. Hil. entretanto ainda se descobrem pedras preciosas fora de seu leito. semeado de rochedos e as árvores que crescem aqui e acolá teem pouco vigor. Entretanto o solo torna-se pouco a pouco menos árido e os arbustos. que. En- fim. 262.» Relação. infelizmen- te. reunido a alguns outros pequenos regatos toma o nome de Junta-Junta. atraves- sámos o rio S. na época de minha viagem a sêca era extrema e não encontrei senão um pequeno número de plantas em flor. em mi- nha l. II. ao passarmos por uma moradia muito importante. à margem de um riacho. A região montanhosa que logo atravessámos é b a s t a n t e acidentada. porque ar havia outrora um cercado para animais. Tendo caminhado durante algum tempo. coroa todo êsse conjunto. pág. Francisco. Desde logo não se vê senão um areial branco. da Coleção Brasiliana).

compostos de pedras nuas e dei côr parda. Do lugar onde se acham situadas as casas do serviço avistámos o fundo do vale. um pouco acima da parte mais baixa da garganta avistámos as casas dos negros e dos feitores. e. de longe.52 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Após deixarmos Curralinho subimos por instantes um ligeiro declive e logo nos encontrámos à beira de profunda garganta. Para chegar ao fundo da garganta. que se segue ao declive do rochedo de Lin- guiça e descreve longas curvas. desenham os contornos da garganta que estava sob nossas vistas. que ele empresta ao serviço colocado logo abaixo. Rochedos altos e des- iguais. mas que várias delas se elevam ao meio de rochedos. as outras teem forma muito mais irregulares. O rochedo sobre o qual nos acha- camos tem o nome de Linguiça. À direita e à esquerda havia rochas a pique. chegámos enfim ao serviço e vi que as casas que o compõem não são absolutamente construídas sôbre o mesmo nível. A rocha que se apresentava à esquerda termina por um cume largo e arredondado. as que foram recentemente construídas pelos trabalhadores vindos provisoriamen- te de Linguiça não passavam de palhoças feitas com folhas de palmeiras. De todos os lados imensos rochedos talhados a pique en- quadram um vale estreito. colocadas cada uma sôbre uma pequena plataforma separada. onde não se vê nenhuma vegetação. entre as quais crescem apenas alguns arbustos. As casas que há muito pertencem ao serviço são construídas de terra e cobertas de capim. nos pareceram todas construí- das sôbre uma espécie de planalto. que. nenhuma verdura. parecendo separá-lo do resto do universo. Descendo sempre. Os revolvimentos e a desordem . entrámos em uma ravina muito escarpada.

Caminhámos pouco tempo e che- gámos a uma espécie de "plateau". muito acima do leito verdadeiro. grandes pedras que os trabalhadores haviam deslo- cado com dificuldade jaziam esparsas aqui e acolá. p á g . E' aí que ficam as casas do serviço de Mata-mata. onde devíamos voltar no dia seguinte. Ao fundo do vale corre um regato chamado Ribeirão do Inferno. em mon- tanhas que se não encerrassem tesouros em seu seio. de um verde agradável. seu leito foi posto a sêco. Era quase noite quando chegámos a Mata-mata e somente no dia seguinte Quando se descobriram diamantes nesse lugar. seriam apenas frequentadas por alguns animais sel- vagens. enfim. seguindo no vale um caminho paralelo ao ribeirão do Inferno. de todos os lados viam-se montes de terra e montões de cascalho. davam vida a estes tristes lugares. D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 53 causados pelos trabalhos necessários à extração dos diamantes emprestam a êsses lugares um aspecto ainda mais agreste e selvagem. conflitos estouraram. SPIX et MARTIUS. sendo suas águas desviadas para um canal artificial. À esquerda e à direita êsse caminho é bordado de arbustos cuja folhagem. Entretanto um grande número de negros que aí circulavam ativamente. e nos dirigimos ao de Mata-mata (2). donde u ' m ° n ° m « de Mata-mata. e um pouco acima de seu leito. construídas sem ordem e ainda do mesmo tipo das de Rio Pardo. I. cantando ale- gremente. que nos tra- tou com as maiores atenções. Como já era tarde. cercado por todos os lados por enormes rochas nuas e a pique. o povo Para al g© precipitou em massa. 452 . contrasta com a côr escura dos ro- chedos próximos. H e i s e . Fomos recebidos pelo administrador. não nos detivemos no serviço de Linguiça.

Ao nascer do dia fui acordado pelo ruído do tam- bor que todas as manhãs chama os negros ao trabalho. posta em movimento pelas águas assim captadas. estagnavam-se na parte do riacho que se queria deixar a seco.54 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE pudemos visitar o serviço. construído com táboas tinha sido erigido sôbre pilastras à margem do pequeno regato. Um canal inclinado. iam regressar aos diferentes serviços a que pertenciam. para além do espaço onde haviam extraído o cascalho durante o tempo da sêca. As tropas que haviam trabalhado ocasionalmente em Mata-mata. elevava as que. . 12 de largura e quase outro tanto de altura. Quando me levantei os negros e os feitores punham-se em marcha. assim nada molestava os trabalhadores. foi preciso recorrer a um outro meio. Uma roda dágua. filtrando através das terras. Durante o dia ò calor es- teve excessivo e se fazia mister muito mais ainda nesse vale profundo onde os rochedos refletiam por todos os lados os raios do sol. Como os rochedos que margeam o riacho não permitiam cavar no próprio terreno um leito arti- ficial. e tudo em tôrno de nós apresentava um ar de atividade a que não se está acostumado nesta região. íamos ver primeiro o lugar onde haviam tirado o cascalho nesse ano e que se achava a pouca distância do "plateau'' onde estavam as palhoças do serviço. Era êsse canal que recebia todas as águas do riacho e tornava a despejá-las em seu leito natural. media 400 palmos de comprimento. No meio do leito do riacho que ainda é aqui o ribeirão do Inferno haviam construído um largo dique para deter as águas em seu curso e desviá-la de seu leito costumeiro.

o canal e dique iam ser desmontados. em que natu- ralmente as águas devem ser menos abundantes e em que se pode governá-las mais facilmente. já esgotados. de tuna mistura de areia e calhaus. calafetadas com estôpa tirada da árvore chamada im- birussú. mas onde êle é extraído dos terrenos vizinhos. composto. Há serviços. onde o cascalho não se tira mais do leito dos legatos. depositam-no em montes na estação das chuvas e cuida-se de lavá-lo e procurar os diamantes que pode conter. retira-se o cascalho do leito dos rios. transpor- tando-o a um lugar próximo àquele em que devia ser feita a lavagem. Quando visitámos Mata-mata estava terminada a extração do cascalho. Durante a estação da sêca. Frequentemente para extrair uma maior quantidade de cascalho dos liachos que ainda não estejam esgotados reunem-se . como em Linguiça.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 55 Êsse gênero de canal artificial que acabo de des- crever tem o nome de bicame. pode ser feito em qualquer estação do ano. como disse. Quando o trabalho termina há grande cuidado em guardar as tábuas para o ano seguinte. as do canal de Mata-mata. Os bicames são sem- pre construidos com tábuas. Entrementes os negros do serviço ocupavam- se em carregar em grandes gamelas o cascalho que estava sendo tirado do ribeirão do Inferno. não deixam escapar entre elas uma só gota dágua. Êste trabalho. e o lugar onde o cascalho foi tirado tem o nome de cata. Em geral o trabalho da exploração dos diamantes nos riachos se faz em dois tempos e em duas épocas diferentes. porque a raridade da madeira nesta região não permite des- perdícios. retomando o riacho seu leito ordi- nário. mais fácil.

mas para a dos diamantes basta que ela seja límpida e que permita descobrir essas preciosas pedras no meio dos calhaus. e as duas os lados. seguimos para o sítio onde o cascalho devia ser lavado. sendo uma horizontal. colocado e m cada canal. um lado que do outro. de capim. Do lado onde a coberta se prolonga mais acham-se os canais destinados à ope- ração da lavagem. Cada um dêles se compõe de 3 tábuas. estando bem junto dêles para que um de seus lados vede essa mesma extremidade. r e m e x e o cas- . Êste trabalho é feito sob galpões de 48 a 50 palmos. desce mais baixo de. mas eis o que me explicaram h o m e n s que conhecem perfeita- mente o assunto. Não presenciei a operação da lavagem. Um conduto de madeira onde a água corre sem cessar acha-se colocado perpendicularmente à extremidade superior dos 24 canais. por um buraco do conduto. U m negro. Sob cada galpão há 24 canais colocados uns ao lado dos outros e uma mesma tábua serve simultanea- mente a 2 canais diferentes. Q corpo curvado. Para a lavagem do ouro é necessário que a água seja abundante. cada um dêles tem 2 palmos de largura em sua parte mais alta e vai-se alargando um pouco depois dessa parte. a cada canal. até à extremidade inferior. cuja coberta. Êsses canais são ligeira- mente inclinados. A água passa. Era o que vinha de acontecer às que havíamos visto partir de Mata-mata. o fundo.56 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE às tropas habitualmente postadas à margem dos re- gatos as que tiram cascalho da terra e à aproximação das chuvas fazem-nas voltar a seu trabalho costu- meiro. e por meio de uma rôlha fecha-se essa abertura quando é preciso. Após haver deixado os lugares que acabo de des- crever. uma perna avançada.

VOL. Se alguém dirige a palavra a um desses rígidos vigias. não tirando a vista cie sobre os trabalhadores. para depois roubá-lo. pág. A um dos postes que. ele pode responder. uma grande gamela ou batéia. podiam. O escravo retira com a mão os calhaus maiores e quando o cascalho está bem lavado pro- curam-se os diamantes. Como os negros." íteiaçSo. 244. quando o cascalho é muito rico admite-se um feitor a mais. I. susteem o galpão é fixada horizontalmente uma táboa estreita onde se acha uma caixa redonda contendo tabaco e o negro que encontra um diamante aí vai tomar uma pitada. e logo que um negro acha um dia- mante êle mostra-o ao feitor e em seguida vai depo- sitá-lo na gamela. mas quando os feitores notam que os escravos estão adormecendo dão-lhes ordem de ir tomar uma pitada de tabaco. Do meio do galpão onde se faz a lavagem fica suspensa. Um feitor é encarregado de vigiar oito negros. O trabalho de lavagem causa sono aos ope- rários. . (Corresponde ao Volume 126. mas. pág. durante a lavagem. 214. esconder um diamante no meio dos calhaus. eles são obrigados a passar de tempo em tempo de um canal a outro. A água que escapa do conduto dilue a terra misturada aos calhaus e carre- ga-a para fora. O feitor a quem a monotonia de ura tal trabalho levar ao sono. <*a Coleção Brasiliana). mas sem voltar a cabeça. além disso são (3) Instrumento de minerador que descrevi em minha 1. havendo assim 3 desses empre- gados em cada lavagem. se ficassem sem- pre trabalhando nos mesmos canais. será logo despedido. como disse já. colocadas sob o galpão e diante dos canais.1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 57 calho com sua alavanca (3). Durante essa operação os feitores ficam sentados em cadeiras altas.

achava-se obstruída pelos roche- dos. Quando visitei o hangar onde se faz a operação da lavagem. para cavar a este último um leito artificial. O cascalho tinha 2 a 3 palmos de espessura. retornámos ao serviço dc Linguiça onde não pudéramos parar na véspera. como aconteceu em Mata-mata. quando o frio se faz sentir.58 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE obrigados a bater a mão direita contra a esquerda. Após despedirmos do administrador do serviço de Mata-mata. Os negros não teem outra roupa. como a parte do regato que havia sido explorada durante a estação sêca de 1817. para elevar as águas 50 palmos acima de seu leito ordinário. algumas vezes entretanto. não foi preciso construir um bicame com táboas. mas. mostraram-me um canal isolado. ao fim do trabalho passam-lhe os dedos dentroí da boca e submetem-nos a uma busca escrupulosa. além de um pedaço de pano de algodão amarrado ao redor das cadeiras. ser- vindo-se então destes últimos para terminar a operação. O leito do Ribeirão do Inferno aí tinha sido posto a a seco do mesmo modo que em Mata-mata. como havia aqui bastante largueza entre os rochedos e o regato. fora preciso nesse ano realizar trabalhos consi- deráveis. e. no trabalho de lavagem. que respondera a todas as minhas per- guntas com extrema bondade. muito alto. as terras se destacam mais prontamente que nos pequenos canais de que falei linhas atrás. mas é preciso que não tenha dobraduras nem bolsos. muito mais largo que os já descritos e onde a água corre com mais abundância. Quando o cascalho é pobre é levado a esse canal. tanto em . Entretanto foi necessário construir um dique (encerca). permitem-lhes o uso de um colête. Os montões de cascalho que vi.

paralelamente a êle e acima da cata. A máquina estava colocada à margem do leito artificial. e que não devem subsistir após o tempo da seca. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 59 Linguiça corno em Mata-mata apresentam uma mis- tura de areia e seixos rolados. Durante o tempo em que estive em Tijuco. Uma grande roda era posta em movimento por um jacto dágua que vinha do alto. . Ve- nâncio. à extremidade do qual elas escapam. o eixo prolongado dessa roda atravessava uma outra muito menor. Mas. fazen- do-a subir por todo o cano. entram na água do fundo da cata. e. ia visitar uma lavagem de ouro pertencente ao Sr. eram compostos simplesmente de camadas alternadas de folhas e de terra. formado de quatro tábuas. o moço que me acompanhava a Mata-mata. não tardariam em encher a cata. Para esgotar as águas que. Os diques de que falei mais acima. é construído com peças de madeira fin- cadas obliquamente nos rochedos e sustidas elas mes- mas por escoras de madeira. de modo idêntico a Mata-mata. carregando essa água com elas. Enquanto a roda gira as tábuas do "chapelet" passam por fora do conduto para o seu interior. quando um dique deve ter uma duração mais longa. se estende obliquamente da cata até à máquina. da largura de 3 ou 4 polegadas. filtrando-se através da terra. O "chapelet" passa em um cano de madeira que. Esta apresenta uma corrente em que cada elo é atravessado por uma pequena tábua quadrada. empregou-se em Linguiça. à medida que esta girava via-se o "chapelet" desenrolar-se sóbre ela. A metade do "chapelet" escorrega por fora e por cima do cano e a outra metade por cima do cano. uma ioda dágua.

60 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Essa lavagem situada a 3 léguas da aldeia. mas os detritos não teriam sido arrastados muito tempo para se arredondarem como os seixos rolados (6). ele não é composto de seixos rolados. o lonidiiim Ianatum ASH. Hil. Íd e ao ao VoíumI i ? f i mpa*. S. Entre Tijuco e Bandeirinha o terreno é árido e arenoso e não apresenta senão campos. n í h o A R T I U S o ouro s"ha-se* 8 8 tamljérrf ^ W em Bandeirinha também na grania quartzosa..Brasiliana). 2 Ericáceas. . A lavagem de Bandeirinha. . várias Polygala. situada à margem de um regato chamado Córrego do Ouro. mas o ouro aí se acha misturado entre pe- daços de pedras quebradas e que ainda possuem arestas. entre outras. E' fácil concluir-se que isso tenha acontecido a todas as lavras de grupiara. n' h a 221. O gur- gulho (5) encontra-se quase à flor da terra sobre en- costas pouco inclinadas. Eram.o c a . Isso prova que em alguma agitação o precioso metal fôra transportado de uma distância pouco considerável. com- postos de plantas herbáceas. Apesar da extrema se- cura encontrei em flor cerca de 30 plantas que ainda não possuía. era no gênero das que se denominam lavra de grupiara (4). PA*. Volume 1^6. da Coleção I. 2 ou 3 belas Melas- tomatáceas. tem o nome de Bandeirinha e para aí chegar nunca saíamos das montanhas. (Corresponde gulosos n f S n " 6 ! aos detritos de rocha ainda an- w ín n ! ? V l 0 SP aQr eUcaei s mSee a ec mh a ° our<> «as lavras de S ru- ° " ' palavra .252. a pedra que lhe servia de jazida foi quebrada.. que se assemelha a um musgo por suas pequenas folhas e seus caules estendidos sobre o chão. enfim a encantadora Declieuxia mtss- cosa Aug.

126. Atravessámos então o vale que se estende ao pé de Tijuco e subimos a colina oposta. outros agrupados de modo bizarro. 227 da Coleção Brasiliana). O intendente quis acompanhar-me até uma certa distância da aldeia.» RelaçAo. pág. Estando já a duas léguas e meia de Tijuco e somente a uma de Rio Manso (8). Os mais antigos habitantes de Tijuco lembram-se de ter visto esses desenhos e todo mundo os atribue aos índios que ocupavam a região antes da chegada dos portugueses. afim de ir devolver ao capitão MANOEL JOSE' ALVES PE- REIRA as malas que êle me emprestara na ocasião em que viajei em demanda do sertão. quando parti para as forjas de Bomfim. de superfície muito lisa. pág\ 261. tomei a resolução de seguir para esta última povoação. e. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL Havia já muito tempo que eu me achava em Ti- juco. pus-me a ca- (7) Vide minha 1. I. uns iso- lados. meu sangue corria de todos os lados e meu olho esquerdo principalmente foi grandemente ofendido. Pus-me então a colher flores. onde havia traços grosseiros feitos com uma tinta vermelha. mas em seguida a vegetação torna-se mais bonita que a de perto de Tijuco. DA CÂMARA chamou minha atenção para um rochedo inclinado. (Corresponde ao Voi. vol. (o) E n&o Rio Man«o. A queda foi violenta. como escreveram certos viajantes. após ter lavado o rosto em um riacho. Mas logo minha pasta de plantas assustou o cavalo que eu montava e caí no meio das pedras. À beira do caminho o Sr. O terreno que margeia o caminho é a princípio arenoso e árido. deixando seguir o tocador João Mo- leira (7) que conduzia os animais carregados com minha bagagem. Foram esses os únicos sinais das antiguidades ameri- canas que vi durante o curso de minhas longas viagens. Ês- ses traços representam desenhos de pássaros. .

Aliás foi inutil- mente que procurei a etimologia de Mandanha. achava-me em extrema fraqueza. para poder descrevê-los. No dia se- guinte eu estava incapaz de pôr-me de novo a caminho. Acordando peguei as rédeas de meu cavalo e recomecei a cami- nhar. Êle recebeu-me perfeitamente e teve para comigo todos os cuidados imagináveis. Achava-me muito mal quando passei por esses lugares. JU. tendo perdido muito sangue. PIRES^raviarníe recomendado ao Sr. Induziram-me a fazer-me sangrar. mas fiquei in- deciso. Sentia então uma vio. sentia dificuldade para falar e engulir. que é dos principais proprietários de Rio Manso. Depois dois negros que passavam ajudaram-me a mon- tar a cavalo e um deles me conduziu a Rio Manso. mas admirei o caminho que conduz de Tijuco a Mendanha. . consequência da comoção que sofri. DA CÂMARA e honra sua inte. 76 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE minhar. Antes dessa aldeia. quase todo cavado na rocha. menos de mêdo da sangria que do homem que nome L * e "( IT Ç Oa v q U2e2 0 o s S r s . sentei-me e dormi imediatamente. A pouca distância do local em que levei a queda encontrei meu cavalo. ?° ® ? Alemanha.MAWE fez conhecer sob o Sa virMelt^L COn 5f l z . que outrora forneceu muito diamante e que é localizado às margens do Jequitinhonha (9). não me era possível abrir o ôlho nem juntar os dois maxilares. 1 H a • I gencia. | lenta dôr no estômago. O Sr. Ao fim de pouco tempo as forças faltaram-me. Êsse caminho é fruto dos cuidados do Sr. minha cabeça tinha inchado. seu tio. acha-se um serviço.r a n >-n a E' preciso também não escre- mentl Í?Ao. amarrado a uma árvore por algum transeunte honesto. vi-me obrigado a tornar a sentar e tornei a desfalecer. em um lugar chamado Man- danha ou Mendanha. \ LIÃO.

. JULIÃO emprestou-me cinco de seus escravos. não terei palavras bastantes para fazer o elogio das atenções que teve para comigo. BARROS algumas plantas usuais acompanhadas de notas interessantes. Dois dias após minha queda parti para Tijuco. sem dúvida. que essa música agravava o cansaço de meu cérebro. que se revezavam no caminho.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 63 a devia fazer. como é habito dos africanos. achando-me bastante pros- trado. Fui tratado pelo'Sr. e não supunha. Como dois carregadores não poderiam fazer sozinhos as 5 léguas que se contam de Rio Manso a Tijuco. e recebi as provas de mais tocante interesse. Essas provas continuaram durante todo o tempo em que estive sob tratamento e jamais falarei de Tijuco sem um sentimento de profundo reconhecimento. de sua ama- bilidade e dos conhecimentos que possuía (10). Rece- (10) Após minha partida do Tiiuco recebi do Sr. BARROS o melhor cirurgião de Tijuco. deitado em uma rede. decidi-me a deixar que me tirassem sangue. Contudo. já muito enfraquecido. para tornar a caminhada mais suave. Essa boa gente. e não somente não fui magoado. Infelizmente soube depois que êsse útil cidadão havia falecido. como também senti muitas melhorias. À minha chegada a Tijuco encontrei os principais moradores do lugar reunidos na casa em que me hos- pedei. pessoas mesmo que eu nunca vira vinham pedir notí- cias ao meu tropeiro e testemunhavam-lhe satisfação quando ficavam sabendo que haviam exagerado muito as consequências de minha queda. Segundo a usança da região ela era suspensa por suas extremidades de um pau muito forte e cada ponta do pau sustentada por um negro. seguia cantando. A população inteira tomou parte no acidente que sofri. o Sr.

JOSÉ PAULO DIAS ( JORGE (PIRES) (11). COUTO. durante o tempo em que estive I li doente. s a é um a das provas da pouca estabilidade dos no- í l i1a e n t r e PTIT?« ^ 8 C _ a m a Vos brasileiros. sem ter viajado tanto. Conheci também. O outro. para expressar-me seu sentimento e o do capitão MANOEL IOSÉ ALVES PEREIRA. TEI- if XEIRA. o filho mais velho do Sr. Perguntei-lhes o que §1 pensavam dos numerosos vegetais a que os colonos Is de Minas atribuem a propriedade de curar radicalmente li! as moléstias venéreas e que quase sempre são violen- § 11 tos purgativos. 0 Sr. Um II deles. Um doa i f i à l a I n d a n &dizia-me que seu filho. poeta amá- II vel. sem destruí-la. LEANDRO e nunca esque- cerei os momentos agradáveis que passei com o Sr. a P I R E S m a s meu? a m ? ^ ^ í DIOGO JORGE. o Sr. com cêrca de 20 anos de ° havia escolhido seu sobrenome. o Dr. não esquecerei também as provas de amizade do Sr. cujas palestras muito contribuíram para meu per- feito conhecimento da região. os dois médicos que clinicavam em Tijuco. FRANCISCO LEANDRO PIRES fez expressamen- III te a viagem de Bomfim a Tijuco. estudara quirira grande experiência. tinha percorrido tôda a Europa e era dotado de vasta cultura. homem instruído. o qual tinha a bondade de prover a todas as minhas necessidades. Fr cquentemente eu recebi também a visita dos irmãos do Sr. Por mais idônea que seja „ „ J ! 1 ^f Em®. fiz a mesma pergunta ao cirurgião BARROS e todos três me responderam que os remé- 11 dios anti-sifilíticos dos agricultores não produziam outro resultado que o de dar à moléstia um curso diferente. VICENTE PIRES. . 64 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE bia diariamente a visita do Intendente. moço menos recomendável por suas felizes iniciativas que pelos cuidados tocantes que I prodigalizava a seu velho pai.

bastante afastada dele para poder cobiçar seu lugar. Vi<3e minha 1. pensei em pôr-me de novo a caminho e não foi sem viva emoção que me despedi do intendente e de sua família. . tantas foram as provas de carinho e amizade eme -4 recebi. parece-me entretanto necessário que suas opiniões sejam confir- madas por novas observações. ele não deixava protelar nenhum caso. ri„ . visando conciliar as partes e pou- par-lhes gastos. II. ela era unânime em elogiá-lo. A gente do povo amava-o e. 24. como disse alhures (12). tinhas vastos conhecimentos e idéias boas sobre política e administração. Tanto quanto lhe era possível procurava abandonar as vãs formalidades. à sua bela pátria. de modo pater- nal. porquanto conheci muitas pessoas que me afirmaram terem sarado da sífilis sem recorrer ao tratamento mercurial. enquanto es- tive doente fui tratado como se estivesse na minha casa paterna. CÂMARA havia. viajado durante 8 anos nas principais partes da Eu- ropa. 16. DA CAMARA. (Correspon- de ao Volume 12S-A. da Colegão Brasiliana). distinguia-se por uma probi- itr^osjnineiros e poucos homens poderiam ser tão úteis como ele. Du- rante minha estada no Distrito dos Diamantes deles recebi todas as delicadezas imagináveis. A justiça era distribuída pelo Sr. Vivia entre os empregados e habi- tantes de Tijuco como no meio de seus iguais. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 65 a autoridade dos homens que acabo de citar. pág. elas go- zam de saúde perfeita e seus filhos pareceram-me igualmente sadios.® Relaçfio. vol. O Sr. Quando me senti quase restabelecido. pág.

Modo pelos quais êles fazem chapéus. segundo PIZARRO. Nesse tempo ele era mais agradável ainda. desfrutei a i n d a uma vez o panorama encantador que eu já havia a d m i r a d o ao viajar para Mata-mata. e atra- vessando a aldeia na direção N-S. as chuvas haviam começado. Seus h a b i t a n t e s fabricam tecidos de algodão. e os pomares que se estendem sôbre a vertente do morro onde a aldeia é construída apresentavam uma v e g e t a - ção nova. — Aldeia do Milho Verde. — M u d a n ç a produzida pelos climas na vegetação. — Descrição da serra da Lapa. Modo de extrair diamantes c h a m a d o garimpar. Serviço do m e s m o nome. Cultura de cereais e da vinha nas m o n t a n h a s . . — F a z e n d a de Ocubas. d e Tijuco a Milho Verde inclusive. — Aldeia da T a p e r a . decide-se a viajar pela grande cadeia de m o n t a n h a s de Minas Gerais. Num trajeto de 5 léguas (1). — O A. — Pas- tagens dos arredores de Congonhas. lembranças da pátria. — Chegada à Vila do Príncipe e partida da mesma. O A u t o r passa pela segunda vez em Tapanhuacanga. CAPÍTULO IV VIAGEM DE TIJUCO AO MORRO DE GASPAR SOARES PELA SERRA DA LAPA O Autor deixa Tijuco. — U m bosque de Indáiás. — A s p e c t o do Distrito dos Diamantes. — A h a b i t a ç ã o de Barreto. — Aldeia de Congonhas da Serra. Serviço do Vau. — Aspecto da região que se estende de Milho Verde à Vila do Príncipe. — U m Carex. — As Borbas. percorre-se uma região e x t r e m a m e n t e (1) 6 1/2 léguas. Deixei Tijuco a 30 de Outubro de 1817.

Se s e admirar de que minhas descrições sejam um pouco diferentes das dêles. Rochedos de uma côr parda mostram-se por tôda parte e dão à paisagem um aspecto agreste e selvagem. Excetuadas algumas casas de campo muito pró- ximas de Tijuco. (vulgo candeia). A vegetação muda várias vezes. dessa aldeia ao (2) Alguns escritores. e. pertencentes a várias nações estran- geiras. onde domina seja a areia. note-se que procurei destituir este meu livro dos quadros românticos e dos trechos de grane!o efeito. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 81 montanhosa. sobre diversos declives cobertos de pedras. . nenhuma se vêem grandes florestas. para cingir-me a esboçar de modo fiel as cousas que sucessivamente passaram pelos meus olhos. mas seus caules eram mais delgados e mais estendidos. Enfim. em parte. entre es- tas últimas. achei em grande abundância uma espécie de folhas pequenas do gênero Lychnophora Mart. arbustos de diferentes tamanhos. Para além de As Borbas. geralmente retos e muito próximos uns dos outros. não encontrámos. gênero que. Nas grotas crescem ar- bustos de 3 a 4 pés. apa- recem ervas entremeiadas de sub-arbustos. Em alguns lugares em que o solo é argiloso e quase plano. mas. seja a pedra. vi árvores raquíticas e separadas como as dos taboleiros do sertão. Por todos os lados surgem nascentes dágua e frequente- mente se ouve o ruído das águas correndo através dos rochedos. As chuvas tinham dado à folhagem das plantas um tom agradável e os relvados produziam às vezes um belo efeito no meio dos rochedos (2). onde não se vê nenhum traço de cultura. nos lugares mais elevados. esparsos. segundo a elevação e a natureza do solo. tentaram descrever a« belezas naturais do Distrito dos Diamantes. são eles que caraterizam os carrascos das altas montanhas. nas montanhas caracte- riza as vertentes pedregosas.

Entremen- tes meu tropeiro. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE lugar chamado Borbas. em seguida vi que me haviam dado informações errôneas. p á g . encontrámos uma pequena pa- lhoça habitada por negros. senão uma miserável casa. Ressentia-me ainda das consequên- cias de minha queda. ao lado de um braseiro feito no meio do quarto. achava-se já deitado sobre tábuas. junto à qual existia um pobre rancho ou galpão (3). 69. contudo reani- mei-me um pouco comendo alguns pedaços de biscouto. O rancho que me indi- caram ficava muito mais longe do que eu pensava e. como me ha#iam dito que um pouco adiante en- contraríamos melhor pousada'. mas. (Corresponde a o V o l u m e 126. fiz arrumar minhas cobertas sobre um couro do outro lado do fogo. a pouca distância do lugar onde eu tinha parado. Quando cheguei a essa casa o tropeiro Silva já havia descarregado uma parte de minha bagagem. Apeei-me e deitei-me sobre a relva. além disso achava-me muito contrariado com as atormentações de um dos meus camaradas.» Relaçfio. e viajantes chegados depois de mim distribuiram-se pelo resto da peça. antes de me deitar tive ainda ânimo para e s c r e v e r meu diário. decidido a não ir mais longe. mandei carregar de novo os animais. ( 3 ) V i d e m i n h a 1. d a C o l e ç ã o Brasiliana). Nada havia comido desde 9 horas da manhã. que ia de Vila do Príncipe para Tijuco. Era já muito tarde para poder-se cozinhar alguma cousa. v o l . fomos surpreendidos pela noite. e caí no mais cruel desânimo. entretan- to. Um padre. e. minha fraqueza era extrema e já não me podia manter a ca- valo. chegou. I. p á g . 64. . antes de aí chegarmos. que ficara para trás. ele me induziu a tornar a montar e.

. 141). c o m p o n d o . p á g . Apesar de haver uma guarda colocada em Milho Verde não é de crer-se que essa aldeia seja o limite do Distrito dos Diamantes. e. comovo de Vau. S. Êsse gênero de trabalho denomina-se garimpar. ele dispensou-me tôda a sorte de gentilezas e minha bagagem não foi vistoriada. Hoje não se faz trabalho regular em nenhum dos dois. esta pobre palhoça onde passei a noite.s e de uma dúzia de casas e de uma igreja (4) E' aí a sede do destacamento de soldados encarregados de inspeccionar os viajantes que vão de Tijuco à Vila do Príncipe. Junto do riacho chamado Rio das Pedras. forneceu outrora muitos diamantes. porque era a pesqui- (4) Parece que apôs minha p a s s a g e m P ° r ^ l h o L u S T d í igreja dessa aldeia tornou-se dependência da nova P ^ ó q m a de S. dos Prazeres do Milho V e r d e . Apresentei ao oficial que o comandava o salvo-conduto que me fornecera a se- cretaria do Estado. vi casas pertencentes a um serviço de # diamantes. Mem. ao lugar chamado Cabeça do Bernardo. (A esta paróquia ficarão pertencendo as capelas de N. da Abadia. e N. pequena aldeia situada 'a uma légua e meia de Borbas. . O território dêsse Dis- trito estende-se até mais longe. como um dos meus cavalos se achava grandemente fatigado não fui além de Milho Verde. algumas vezes aí enviam negros para procurar diamantes que hajam escapado às antigas pesquisas.. hist. . b. Gonçalo do Rio Preto. A aldeia de Milho Verde situa-se em uma região árida que não possibilitava nenhum gênero de plan- tação. Existe em Milho Verde um serviço que. VIII. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 83 Era muito tarde quando parti. no^lugar chamado Vau. no dia seguinte.

e fiquei ainda uma dezena de dias em .70 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE sas irregulares que se dedicavam os contrabandistas chamados. o terreno que. ia penetrar na estrada que lá vai dar. sombra e frescura. Então a vegetação muda e os grandes fetos que nas- cem por tôda parte indicam que esses lugares foram outrora cobertos de florestas. Compreende-se facilmente a satisfação que expe- rimentei ao rever fetos árboreos. os vales são mais profundos e foi então que entrei na zona das florestas» da qual me afastara ao distanciar-me das margens do Jequitinhonha e da região dos índios sel- vagens. Fui perfeitamente acolhido pelo cura de Vila do Príncipe. Mais perto de Vila do Príncipe a terra torna-se novamente argilosa e avermelhada. garimpeiros. o caminho desce muito mais que sobe. onde fôra perfeitamente acolhido e onde possuía amigos. Após vários meses. Sr. a um lugar que eu já conhecia. Deixando Milho Verde. Entretanto é evi- dente que. No lugar chamado Três Barras. reencontrando bela verdura. somente tinha sob as vistas rochedos pardacentos e ervas queimadas pelo sol. percebem-se montanhas se- melhantes àquelas que se teem sob as vistas desde a capital do Distrito dos Diamantes. havia sido cons- tantemente arenoso. tornou-se argiloso e avermelhado. Parecia-me que repentinamente eu havia transposto uma imensa distância que me separava da França. Melastomatáceas de folhas pe- quenas etc. desde Tijuco. como já disse. considerado em seu conjunto. Achava-me agora a 123 léguas do Rio de Janeiro. Eriocaulon. Entretanto as areias reaparecem logo e com elas as plantas que lhes são peculiares. Mas foi ainda com maior alegria que avistei Vila do Príncipe. FRANCISCO RODRIGUES RIBEIRO DE AVELAR.

de admirar a beleza da verdura dos campos artificiais.pedi. / estação chuvosa estava virtualmenteiniciada. Êle me avia cumulado de provas de amizade. nunca.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 71 . seria possível dizer-lhe sem emoção . a vista nunca se me repousou em tons mais agradáveis. Durante os últimos meses de minha viagem um calor insuportável e uma seca extrema haviam pro- duzido em mim uma irritação nervosa que nao me nermitia ver com bons olhos as cousas que me cer- cavam Tal não se deu quando deixei Vila do Príncipe. Entretanto as chuvas haviam estragado muito os caminhos. recebera-me s vezes em sua casa. Tinha meu coração apertado quando dele me de. Du- rante o tempo em que permaneci em Vila do Príncipe não se passou um dia sem chuva. A doce frescura que se espalhava na atmosfera mer- gulhou-me logo numa calma deliciosa e pude dedicar- ir. entretanto resolvi rnrtir Í1M1-817).ua casa. tratando da embalagem de minhas coleçoes.nunca mais nos veremos! ? . Estava longe de prever as cruéis contrariedades que me deviam causar um dia. Para além dos campos artificiais que circundam esta r .e perfeitamente à contemplação da natureza. Por mim mesmo pouco temia a água realmente quente que nesta região cai do céu. O caminho que segui deixando Vila do Príncipe. . Apesar da chuva o excelente cura ncompanhou-me durante algum tempo. Nao deixei. mas temia-a por causa de minhas coleções. a terra vermelha e argilosa tornara-se ex- tremamente escorregadia e meus animais tinham dificuldade em se manter sobre o declive dos morros. foi o mesmo pelo qual aí chegara alguns meses antes. ai recuperara minha saúde.

da Coleção Brasiliana). entremeiadas de ba- naneiras. <2b8. . subindo ao monte oposto gozei de um Panorama. apresenta um relvado do mais belo verde. mais abaixo estende-se um \aiezinho. onde eu estivera doente durante alguns dias. com efeito. em uma elipse alongada. Em minha l. muito íngreme. para ir logo à Tapera. à extremidade da aldeia de Ta- panhuacanga. cujo cume é coberto de mata e a encosta. anunciou-me sua proximidade e logo. mas a passar pelo lado dessa mesma cadeia chamada serra da Lapa e que é muito alta. O intendente dos diamantes havia me induzido a não seguir o caminho já meu conhecido. atravessei o vale que se estende abaixo da primeira Gessas aldeias e. e por todos os lados vêem-se montes reves- te^ ^ ^ ^ m a t a s " v i r ^ e n s e e m P*rte de pas- A região que se estende de Tapanhuacanga a Ta- pera apresenta o aspecto caraterístico das regiões de pág ao V o l n J e U ^ P à s Y e ^ d t ' 314. surgindu- ao pe de um monte alto. enfim a vista de uma capela construida na encosta de um monte. as casas. passei defronte da miserável hos- pedaria de Ouro Fino. A igreja é o primeiro edifício que se ve ao pe da montanha. Segui tal conselho. Quando aí pas- sei de novo a beleza que as chuvas imprimiram à verdura dos montes vizinhos emprestava à paisagem maior encanto ainda. avistei-a tôda. atravessei uma região dotada de tufos de ár- vores e pastagens. Descobri a aldeia inteira. Saindo de Tapanhuacanga. e que se es- tende a léste da grande cadeia (5). (Corresponde »» pag. 72 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE aldeia. a Relação descrevi sua encantadora posição. agrupam-se imediatamente abaixo da igreja.

de rochedos. Vi no meio dessas matas numerosas planta- ções de milho. esta época é menos que nunca o tempo das flores (6). Gramínea que então (13 de Novembro) estava com uma altura de um a dois pés. Na parte arborizada o solo é argiloso. como se as árvo- res tivessem sido plantadas pelo homem. apresenta ~aindaruma alternativa de matas-virgens e terras descobertas. S. Vêem-se vales estreitos e profundos e montes com encostas íngremes. Parece que na região das florestas virgens. o que é sem dúvida devido I areia que se mistura à terra em grande pro- porção. vê-se ao contrário uma terra negra misturada com muita areia. n a . crescem Gramíneas. eriçadas. e rochas arredondadas aparecem aqui e acolá. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 73 mata-virgem. o solo torna-se mais argiloso e somente se vêem matas. en- tremeiadas de sub-arbustos. Esta vegetação é a mesma que observei. em 2 ou 3 lugares diferentes. na parte des- coberta. A Nã . mas nas cercanias da aldeia. aqui e acolá. todavia a vegetação não é uniformemente contínua. vários meses atrás. Ali. em limites certos. . Mãe dos Homens.J * e s t a Ç õ e s das «êcas e das c h u v a s teem limites m a i s certos. Um terreno de natureza diferente produziu tal mudança. achei-me repentina- mente sobre um terreno descoberto. Após haver atravessado durante alguns instantes um grupo de árvores pouco altas. bem como a pequena palmeira de montanha. misturado com areia e alguns calhaus. à flor da terra. entre Tororopá e Tapanhuacanga. <> preciso dizer que falo aqui da província de Minas. que vi pela primeira vez na serra de N. en- tretanto elas não tem grande vigor. Tôda a região que percorri até cêrca de légua e meia^deTTãpera.

pág. Uma só rua. e isso mesmo constantemente à margem de pequenas fontes. o milho não dá mais (7) Perto das fontes que nascem nos l u g a r e s descobertos sempre encontrei até então várias e belas espécies de Sau- vagesias. I. (Corresponde ao Volume 126. limitado por colinas. As casas que a compõem são em número de 70. constitue a aldeia. à extremidade da qual fica a igreja. antes que as árvores floresçam é preciso que seus brotos adquiram um determinado crescimento. outras de Gramíneas. comuns nos montes que percorri então (7). vol. onde se en- contra ordinariamente um maior número de espécies floridas. não vi flores senão em uma Cássia e uma ou duas Mirtáceas. 310. e apenas alguns habitantes mandam dois ou três negros bateiar nos regatos próximos. Tapera. Entre Vila do Príncipe e Tapanhuacanga. fica situada em um grande vale. 265. pág. Ao redor da aldeia o vale não oferece senão traços do trabalho dos mineradores.74 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE vegetação deve naturalmente atrasar-se no tempo da seca e. (8) Vide minha 1. eles retiraram do solo o ouro mais fácil de extrair e retiraram-se em seguida. . cobertas umas de mata-virgem. dependência da. quase tôdas cobertas de telhas e muito bonitas. As terras das redondezas são muito arenosas para serem boas. mas várias entre elas estão abandonadas e em muito mau estado.« Relação. Os primeiros moradores de Tapera foram os mi- neradores. creio não ter visto mais de meia dúzia. e nos campos. paróquia de Conceição (8). muito menos ainda vi nas partes florestais do caminho de Tapanhuacanga a Tapera. da Coleção Brasiliana). Atualmente não existem minerações importantes. Não é também a agricultura que mantém a popu- lação atual de Tapera.

rem. págs. dispostos de diferentes modos. ou das raizes de uma espécie de garança chamada erva de rato ou ruivinha (Rúbia noxia Aug. crescia tão pouco que sua cultura foi abandonada. com um pedaço de ferro chamado fieira. colchas e mesmo lençóis e toalhas. Como o vime. 8 Relação (vol. que infelizmente não sabem fixar. por mim descrita da minha l. em Tapera. Quanto à tinta vermelha. e que vegeta a grande altura nos troncos das árvores das florestas. PI. Fazem-se ainda. I. chamada araribá. chapéus de algodão. As colchas apresentam quadrados azues e vermelhos. extre- mamente longa. Eis como são fabricados. 209). nas aldeias vizinhas e até no sertão. ela é rachada em diversas porções no sentido do seu comprimento. assim essa aldeia seria em breve inteiramente deserta. 13 e 399). Aliás nenhuma grande estrada vai dar à Tapera. que é dotado de alguns furos redondos de diferentes tamanhos. Para tingir o algodão de azul emprega-se o anil. usando-se a urina como fixador. S. Para formar a armação do chapéu usam a liana chamada cipó imbé. arredondando-se à ponta com uma faca. Quase todo o mundo aí fabrica tecidos de algodão. e a cana de açúcar. passando-se a liana por um ou por vários . que outra cousa não é senão a raiz de uma Arácea parasita. se aí não houvesse um gênero de indústria que poderá manter seus habitantes. que havia sido experimentada. Êsses diversos tecidos são vendidos na própria região ou são expor- tados para o Rio de Janeiro. Esta raiz. é muito flexível e de consistência mole. Hil. é retirada de uma árvore das matas virgens. gSgjasigi 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 75 de 100 a 150 por 1. que são vendidos a 2 patacas (4_fnmgas)^-e que são usados na própria região.

que disfarça as costuras e a espiral. mas não encontrei nenhuma M 11 planta nova. a forma do cha- péu é dada fazendo-se uma espiral com a liana e cosendo-a em seguida. da Coleção Brasiliana) e fi seguintes). págs. Cardando-se em seguida dá-se ao chapéu um aspecto piloso. a Relação. planta que ii»3liM:t carateriza geralmente as minerações abandonadas. »Pi A 6 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE 11 I'I desses furos e puxando-se o cipó. onde há pouco humus. ao Volume 126-A. de modo que não são tão boas para êsse gê^ III nero de cultura como a das~cããting^s dc Ara^suai II i11l (Vide minha l. Os habitantes de Tapera obteem em Peçanha e mesmo em Minas Novas uma parte do algodão que i empregam. mas êles são muito pesados e se embebem dágua muito facilmente. Depois disso envolve-se o cipó com algodão. de modo -idêntico ao fabrico dos chapéus de palha. 98 (Corresponde lié. mas acre- dito tratar-se também do Anatherum bicorne Palis. Para obter esta última côr faz-se simplesmen- te cozer em água as folhas de uma planta que cresce nos lugares úmidos. Plantam também o algodoeiro. pág. vê-se apenas uma «MB il espécie de Saccharum (9) extremamente comum nos (9) Restrinjo-me aqui ao texto de meu diário. Em geral nas minerações da região de m matas virgens. Aproveitei minha estada em Tapera para herbori- I1 zar no meio das antigas minerações do vale onde se II acha situada a aldeia. mas frequentemente tingem-nos de I te preto. Quando tintos êsses chapéus imitam perfeitamente os de feltro. apre- sentam ao mesmo tempo uma mistura de argila muito ill grande. mas as terras de sua aldeia apesar de muito silicosas. vol. . II. Algumas vezes deixam-no com a cor branca natural. 89. obtem-se o arre- dondamento em todo o seu comprimento.

essa chapada não apresenta senão ervas e sub-arbustos. durante cerca de uma légua e meia. a Composta denominada "erva do vigário". e algumas outras plantas vulgares. diminuem a beleza da verdura. cobertos alguns de um Saccharum de caule duro (10). Essa diferença é devida ao fato de que as pastagens de Vila do Príncipe são constantemente tosadas pelo gado. no meio da qual rochas se mostram aqui e acolá. enquanto que aqui. Ela termina por uma vasta chapada ondulada onde o solo se compõe de uma mistura de areia branca e terra negra. montes onde existiam outrora florestas virgens J mas onde não se vêem hoje senão alguns bosquetes e imensos espaços. « . A região que atravessei. incendiaram as florestas. Entre as ervas as mais comuns (10) Provavelmente a i n d a o Anatherum bicorne. deixando Tapera para ir a Congonhas. capim gordura e outros de sa- mambaias. para chegarem a tal fim. Antônio. a vegetação destas montanhas não deixa ver senão cores escuras. Os d e s c o b r i d o r e exploradores dessas minas quizeram pôr a zona a descoberto e. Não é crível que todos estes montes despojados de sua antiga vegetação devam essa perda às culturas. as plantas conser- vam seu caule antigo. Como todas em que o terreno e a altitude lhe são semelhantes. onde não há gado para pastar. que misturado entre os novos. apresenta. chamada serra de S. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 77 campos artificiais. A cerca de uma légua e meia de Tapera. outros de. subimos uma^Jta montanha. Aconteceu aqui a mesma cousa que em muitos outros lugares onde existiam minerações. Em vez da verdura tão fresca das pasta- gens de Vila do Príncipe.

mulher (mulher das matas). de um verde alegre não teem a dureza das de várias outras espécies desse gênero (11). um vento desagradável se fazia sentir e eu cheguei a Congonhas molhado. fiz duas léguas mais do que devia. tiritando de frio e muito fatigado. Quanto aos arbustos que crescem mais abundantemente na chapada da serra de Santo Antônio. enquanto que a outra. dá a significação dêsse nome como derivada das palavras indígenas caa. Hil). uma das quais tem as flores guar- necidas de um envolucro branco. é uma dependência desta paróquia (12) e devia ser chamada sempre Congonhas da Serra. De qualquer modo a aldeia de Congonhas. distante 4 léguas de Tapera e 9 léguas de Conceição. Não sei se esta etimologia está certa. mas o que é certo é que pelo nome de congonhas se designa em Minas a planta famosa cujas folhas fornecem aos habitantes do Pa- raguai a bebida que êles denominam mate (Ilex para- guariensis St. marca em espiral ao redor do caule. M a t f V J I I j p á g 2 d e 1 3 9 . Melastomatáceas de folhas pequenas e enfim uma Vellozia cujos caules atingem às vezes até 8 pés e cujas folhas. mata. (12) Piz. referindo-se a um outro lugar que tem também o nome de Congonhas. O caminho de Congonhas me havia sido mal indi- cado.78 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE são duas Ciperáceas. Um viajante. O tempo estava horrível. e cunha. são uma Com- posta (Vernonia pseudo-myrtus N). e teria mesmo me afastado muito de meu caminho se êle não me tivesse sido indicado por um negro que tive a felicidade de encontrar. para fol as anti em ^ s a s deixam. M e m . depois da queda. muito maior e que geralmente caracteriza os lugares semelhantes. tem folhas glaucas e flores polígamas.

em geral ao pé da cadeia de montanhas. p a r e c e . e principalmente de Santa Luzia. mesmo durante a estação das secas. As terras das redondezas conteem muita areia. mas a geada do ano seguinte danifica essa brotação e assim esse vege- tal nunca frutifica. criá-los em maior quantidade.m e . pelo menos ainda não foi encontrado. porquanto a aldeia é quase unicamente circundada de pastagens. o centeio e a cevada aí me- draram bem todas as vezes que foram tentadas suas culturas. e se compõe de 60 e poucas casas. em Junho. ao m* • Tijuco. mas os habitantes são muito indolentes para se dedicarem a esse gênero de cultura. numa região montanhosa . ou. próximo de Vila Rica.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 79 impedir-se a confusão com o lugar chamado Congo- nhas do Campo. entretanto. Vila do Príncipe. Há ordinariamente uma espécie de cerração composta de gotículas finíssimas. o que mantém a população dessa aldeia é a passagem das caravanas que vão de Sabará. A região montanhosa onde está Congonhas é uma das mais elevadas da província. e. A aldeia de Congonhas da Serra fica sobre o declive de uma colina. Não existe ouro em seus arredores. Cada ano. que em compensação as laranjas de Congonhas da Serra são excelentes. não é raro chover aqui vários dias seguidos. O caule da bananeira brota depois de terminada a estação fria. e. mas poderiam. As chuvas são ai muito mais frequentes que em Conceição. que exige mais cuidados que a do milho. há geada nesta zona o que im- pede a cultura da cana. entretanto o trigo. e com Congo- nhas de Sabará. Afirmam. Êles possuem alguns ani- mais. e.

Tôda esta região foi outrora coberta de flo- restas. Miguel de Mato Dentro e Vila do Príncipe. pág. e o que parece prová-lo é que. pág. vol. Após ter deixado Congonhas da Serra contentei- me de fazer uma légua. ficando incapazes de manter à distância os outros vegetais. assáz redu- zidos. em número mais considerável. 309. Os campos que atravessei entre Congonhas da Serra e Casa do Barreto diferem muito das pastagens artificiais (13) que se vêem entre S. 264. indo pernoitar no lugar cha- mado Casa do Barreto (nome do proprietário). surgindo as samambaias desde os primeiros anos de lavoura. obter -se-ia certamente uma boa pro- dução de leite. . (13) Não creio haver necessidade de repetir que entendo como tais aquelas que sucedem naturalmente ao incêndio das florestas. mas. e os campos que percebi ao longe. Ademais sou mais inclinado a atri- buir essa diferença menos a uma elevação maior. apresentam atualmente somente pastagens e alguns tufos de inatas virgens. -ií\ 4 > m i n h a 1 a « Relação. As Gramíneas aí dominam ainda. A região que percorri para aí chegar. foram precisos poucos anos para transformar a região em pastagens. (Corresponde ao Volume 126. I. da Coleção Brasiliana).80 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE e alta como esta. Como a terra é pobre. como a que se atravessa entre Tapera e Con- gonhas . que à inferioridade do solo. O capim gordura e o sapé parecem não ter tanta força como ao pé das montanhas. mas aqui não foram os pesquisadores de ouro que destruíram as matas. j á tive ocasião de fazer observar que o aspecto dos campos artificiais que se formam em lugares muito elevados é sempre êsse (14). no meio delas apa- recem outras plantas.

apresentei-me em casa do Sr. Ao ver uma árvore das ilhas do Pacífico. nem por toda a pompa da vegetação equinoxial. Às margens lodosas de um riacho. nunca passava por Vila do Príncipe ou Conceição. contem grande mistura de areia. ia ter as forjas. Quando o intendente dos diamantes se dirigia de Tijuco às forjas reais de Gaspar Soares. Era êsse o caminho que eu devia seguir. èle seguia pelas montanhas a estrada de Santa Luzia a Congonhas. Para chegar mais depressa. não longe de Congonhas. o joven POTAVERI. como a do. encontrei o primeiro Carex (Carex brasi- Hensis N. BARRETO. de uma côr quase negra. êle fez-me recordar os encantos de amizade e as margens risonhas do Loiret. atravessando a serra da Lapa. estamos em Otaiti!" BON- PLAND. várias espécies européias. e estudado com tanto carinho. que não pas- . que se achava na Eu- ropa. BARRETO. pelos Epiden- dmm de panículas de ouro. Não trocaria êsse humilde Carex pelas mais elegantes Melastomatáceas. a pouca distância dêste pouso mandara construir um caminho que. tão diferentes das austeras solidões que então percorria. que vi no Brasil. o terreno. e. em suas viagens. O Carex de Congonhas fez nascer em minha alma semelhantes emoções. ele lembrou-me numerosas espécies do mesmo gênero que havia co- lhido em França. e talvez para evitar homenagens fastidiosas. DA CÂMARA. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 81 entre Congonhas e Casa do Barreto. e notei que a bainha das folhas rasgava-se em forma de rede. Munido da recomendação do Sr. exclamava: "Oh. dormia em casa do Sr.). descobriu uma Typha e essa humilde planta despertou nele lembranças de sua in- fância e sua pátria. nem pelas Cássias de lon- gos cachos.

provando quanto a região é favorá- vel a esse cereal. Os plantios tinham sido feitos no mês de Junho e estavamos já na época da colheita (17 de Novembro de 1817). uma im- portante fazenda. elas achavam-se em flor quando de minha viagem. Experimentei do vinagre feito com vinho dessas parreiras. As cinzas escassas das Gramíneas não forneceriam um adubo abundante e a pronta infestação de ervas dani- nhas. BARRETO uma so- berba latada de parreiras que. abafariam logo os milharais novos. o que não impediu me recebesse de modo o mais cordial. Observa-se que nestas m o n t a n h a s altas e frias a vinha segue em sua vegetação. se se quizer seguir obstinadamente o sistema de agricultura usado pelos brasileiros. produzia uvas suficientes ao fabrico do vinho. ficando as plantas des- pidas até Setembro. sendo que os frutos amadureceriam em Feve- reiro. e em vez de uma erva inútil. quase a mesma ordem que na Europa. por conseguinte. em breve. Se se adotar aqui o emprego da charrúa e dos adubos.82 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRe sava de um pobre agricultor. achando-o muito forte. nesta região úmida. mas todas as suas terras foram sucessivamente cultivadas e atualmente não servem senão para pastos. e. não se poderá obter duas colheitas por ano como a c o n t e c e . BARRETO mostrou-me um belo campo de centeio. em Junho já não há mais folhas. anualmente. BARRETO podava suas parreiras em Setembro. esta região alta e pouco seca produzirá com abundância o centeio. e provavelmente a cevada. bem como outros pequenos cereais dos cli- mas temperados. Nesta época as folhas começam a cair . Vi também em casa do Sr. A habitação de Barreto fora outrora. tudo mudará. de aspecto.

e enfim comecei a subir a serra da Lapa. e. vide também mais adiante o capítulo VI. tal o Ocubas. mas. traz a geada. Guiado por BARRETO atravessei durante algum tempo ora matas muito pobres. não tenho dúvida que não termine senão depois de várias léguas.» Relaçfio. lançam-se direta ou indiretamente no S. Nenhum rio considerá- vel aí nasce. como no sertão. Não poderei dizer quais são os limites desse trecho da cadeia ocidental. basta-me agora dizer que nas montanhas da Lapa a geada s efaz constantemente sentir durante o mês de Junho. mas é aí que teem nascentes vários regatos. Francisco. Como nunca me f a l a r a m desse rio quando passei por essas montanhas. . é um importante divisor de águas. outros. levam suas águas ao Rio Doce (17). em Goiaz e em Sabará (15). na direção de Gaspar Soares. mau grado estivessemos no mês de Novem- bro. e é ainda ele que acompanha as grandes chuvas da estação própria. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 83 nas zonas mais quentes. ora pastagens artifi- ciais (16). De qualquer modo. alguns dos quais correndo para oeste. na vertente léste. De tempos em tempos experimentava na serra da Lapa uma chuva fria que. como as que experimentei (15) Vide o que disse em minha 1. Tendo dado notícias de geadas anuais nos arredores de Con- gonhas. a serra da Lapa. era acompanhada de um vento muito frio. um dos trechos mais elevados da cadeia. quando se tratou de v e g e t a ç ã o brasileira. E' o vento de oeste que. descendo sensivelmente em demanda da fazenda de Ocubas. é p o s s í v e l que êle não tenha o m e s m o nome em todo o seu curso. como o Cipó. (17) CAZAIi diz que o rio Piracicaba nasce na serra da Lapa. é verdade. disseram-me. (16) Já expliquei o que s i g n i f i c a m essas palavras. Os ventos de léste são portadores de chuva fina.

Ibitipoca. mas todas igual- mente cobertas de pastagens herbáceas. Os veados chamados veados campeiros (Cer- vus campestris). Em uma parte da Serra. pelo menos naquelas em que a caça não foi ainda destruída. vasto e rodeado de pequenas eleva- Çoes o n d e a r o c h a s e mostra a descoberto. ob- servei que o solo se compunha de uma mistura variável 1 de terra preta e areia branca e duvido que tôda a montanha não apresente uma mistura semelhante. TIUS nunor ( R e i srelacionaram as codornas . 8) TalVeZ S6ja melhor escrever como PIZARRO: Pe- M AR com^TtoamuTmfior major eí . Em certas Hneo8. Já havia observado uma vegetação da mesma natureza nos pla- naltos de tôdas as altas montanhas onde havia herbo- rizado até então. enfim a serra de Santo Antônio próximo a Congonhas. considerar esse tipo de vegetação como per- tencendo aos planaltos das mais altas montanhas do brasil. o Serro Frio. S. próximo de Bandeirinha. bem como galináceos de sabor agra- davei. 84 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE durante minha viagem. dos Pirinéus (18). sem risco de enganos. que os caçadores conhecem pelo nome de perdizes e codornas (19). a serra de N. do Papagaio. . O primeiro planalto que encontrei na serra da Lapa e ondulado. Lembro-me que mais tarde encontrei pastagens semelhantes nos altiplanos da serra da Ca- nastra. as da Penha e Curmataí. I. são comuns na serra da Lapa e nao duvido sejam também encontrados com abun- ciancia nas serras acima citadas. 44G). e por conseguinte acredito que se pode. p á g . Mãe dos Homens. atravessei várias chapadas perfeitamente distintas. Desde o momento em que escalei a serra até o em que I comecei a descer de modo sensível.

O Rancho do Meio da Serra fica sobre uma de- pressão do terreno. comodidade. 332. rodeada no interior de leitos ou canapés rústicos (gi- raos) (20) e onde a fumaça. vol. Não fiz a descida da serra da Lapa no mesmo dia da subida. absolutamente. são a única nota menos triste dêstes lugares selvagens. torna a paisagem triste e austera. Essa casa. . quando se dirige às forjas de^Gaspar Soares. nasce uma erva fina que me faz lembrar as montanhas de Auvergne. Passei a noite em uma casa que o inten- dente fizera construir para aí dormir. e que provavelmente obteria melhores resultados se semeasse o centeio nos lugares menos úmidos da montanha. Ao deixá-lo atinge-se novo pla- nalto. que planta milho nos capões. é cercado por outeiros desiguais. e sua vegeta- ção não difere da que observei na véspera. I. Todas essas pastagens teern uma coloração pardacenta. os tufos de matas (capões) que se vêem aqui e ali. que. cujas folhas apresen- tam um caráter notável. Êste. tal o de ser dispostas jim três fileiras longitudinais. da Coleção Brasiliana). nas grotas. pág. não oferece. pág. antes de (20) Dei a descrição em minha 1. 396 responde ao Volume 126. menos úmidos e mais arenosos. pouco úmido. e a planta dominante é uma Ciperácea muito grande. Em outros lugares. não tendo outra saída que a porta. me incomodava extremamente enquanto tra- balhava. Na ausência do intendente o rancho é vi- giado pelos filhos de um cultivador das vizinhanças.« Relaçfio. onde a rocha se mostra a nú. aliada à côr sombria das rochas. E' uma grande construção sem janelas.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 85 partes o solo é muito pantanoso. chamada Ran- cho do Meio da Serra.

desce-se sempre. enfim chega-se ao riacho de Ocubas. e encontram-se quase r õ L T r U P Ç t ° m a t a S ' n a m a i o r i a s e i r a s e capoei- roes. 86 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE chegar ao Rancho do Meio da Serra. sucede ao que venho de descrever. donde se descobrem vários tufos de matas. Um terceiro planalto. apresentando a mesma vegetação. passei a outro. a Melastòmatácea denominada Microlicia juniperina • enfim a Ciperácea com envóluero branco que encontrei na serra t e Santo Antônio. e uma Melas - tòmatácea (Marcetia cespitosa N). mais elevado. As outras plantas aí domi- nantes são a Virgularia alpestris Mart. Êste último planalto é sem dúvida o ponto culminante da serra. é preciso t ^ n l T l a V a U 6 d Í Z e m q U e d e P ° i s d a * chuvas êle torna-se volumoso e difícil de passar. e não deve estar abaixo de 5.500 a 6. Em outeiros sempre menores atravessei três pe- quenos planos que são circundados de rochas e onde nascem as mesmas plantas encontradas no planalto que se atravessa ao deixar o Rancho do Meio da Serra. 'Várias Ciperáceas ai nascem em abundância. que não é domi- nado por nenhum outeiro e cujo solo é úmido e pantanoso. Após haver deixado o planalto que acabo de des crever. Depois dêsses altiplanos. em lugares úmidos. várias espécies de Rubiáceas. e as plantas que crescem com mais abundância no meio dessa erva são: uma Radiada de flores amarelas e caules ascendentes. então a vegetaçao muda inteiramente. De- pois deste começa-se a descer.000 pés acima do nível do mar. Uma erva fina e muito densa compõe o conjunto dessa vegetação. igualmente úmido. . que encontrei igualmente na véspera.

e. bondosa acolhida. dêsse modo evita- se-lhe o trânsito pelo interior da casa e êle não pode ver as mulheres. Quanto à cana de açúcar. o que prova quanto desci durante o (21) Não encontrei êsse vocábulo em nenhuma parte. à margem direita do riacho. cuja verdura extremamente fresca contrasta agradavelmente com a côr carregada das matas virgens dos outros montes. mas que não mostra. e não podia esperar senão boa recepção. O milho não produz mais de uma espiga e resnde apenas 100/1. Em geral é numa peça separada do resto da casa que se agasalha o estrangeiro. A fazenda de Ocubas não tem ainda 60 anos de existência (1817). outeiros dominam os montes que venho de citar. desenvolve-se muito bem em Ocubas. Do lado da fazenda a mon- tanha apresenta uma crista de rochas pardacentas. . e. Esta fazenda foi construída a meia encosta sobre um monte que se eleva acima do riacho do mesmo nome. que. sob os auspícios do intendente. De mais a mais suas terras não são boas. vêem-se. na parte menos distante da habitação. estando menos cerradas as árvores que os cobrem apresentam uma tonalidade diferente da dos vegetais próximos. Mais longe. Apresentei-me em Ocubas. mas a hospitalidade é tal nesta região. Deram-me um pequeno quarto abrindo para fora. senão um relvado. cuja situação é bastante pitoresca. como tantas outras já se acha em decadência. mesmo sem essa recomendação eu teria. outros montes cobertos de árvores sombrias que formam um anfi- teatro. Em frente da habitação. estou certo. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 87 Parei na fazenda de Ocubas (21). es- crever — Fazenda do Cubas. E' possível tratar-se de um nome de homem e que se deva. rio Cubas.

fazia ecoai seus cantos graves e imitava com singular exatidão o ruído produzido pela lima e pelo martelo sôbre o ferro S aS V e z e s atraves . e uma grande quantidade de árvores. diferentes por suas folhagens formavam sobre minha cabeça uma abóbada impene- trável aos raios solares. enquanto que as raízes da Arácea chamada cipó imbé (22) caiam sobre minha cabeça. o ferreiro (Casmarynchos nudicol- Us). como fios a prumo. unindo-se aos seus ramos. depois de ter percorrido durante algum tem P o refiôes dcfco- miraclo F ' r i m e n t e i U m s e n t i m e ^ o de profunda ad- miraçao E ai que a natureza mostra tôda a sua TÃZETTU matíLt r é I r q u e a S Í e I a deV p a r e c e ° s e dizer c o m d e s d o b r P esar - > essas . d a C o l e ^ o Brasiliana). - 6S f ram sem necessidade ° ~ ^truida» viree C ns m °n 3 S r P r e aCOnteda ao t r a v e s s a r florestas M M M xlmas de O c u i r p r : Sf l "o r e*s c e r recessidad^ . . Z t W ] (Corresponde . A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE dia. os vegetais teem encontram tão poucas flores nas f l o rque necessidade de ar e luz. ao Volume l U . entrei em florestas virgens de vegetação muito vigorosa O caminho era extremamente estreito. No silencio da floresta. que eu não ouvia desde vários meses. pois que parti pela manhã de um ponto que deve ser muito mais elevado do que aquele em que a cana cie açúcar pode começar a produzir. Momentos após ter deixado Ocubas. é por isso e s L em^ Sfreral ) s- 4 13 e 339 responde a o ^ o l u m e ^ m * ^ V * " ' ' (Cor- (23) Vide minha l á IS j 6 335. Cipós serpenteavam entre os grandes vegetais. s e i florestas virgens.

(Correspon- de ao Volume 126. tão notáveis dos indaiás. Se- melhante observação já eu havia feito a respeito de uma mata de cecropia (embaúba) que vi entre Ubá e Pau Grande. Seu flanco é coberto de matas virgens e êle termina por um rochedo a pique. pá*. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 89 Junto ao lugar chamado Mata-Ca valos. mas as formas tão singulares. Um pouco mais longe o terreno torna-se pedre- goso . nossas faias. não apresentam ntns tn1 rn^rwAi-. das guariro- bas.. havendo grandes áreas em que não crescem outras árvores. p á * . 103. parecem tristes e monótonas quando reunidas em grande número. 103. salvo ligeiras modi- ficações de colorido. vol. e creio que tal acontece com todas as espécies de porte muito caraterístico. Dir-se-ia uma irande fortaleza construída sobre a montanha para ijnpedir o viajante de prosseguir no seu caminho. nossos carvalhos. em «ma floresta de indaiás parece ver-se o mesmo indi- víduo repetindo milhares de vezes. eternamente as mesmas. da Coleção Brasiliana). e. Apesar de vi- verem em sociedade as árvores de nossas florestas. dos buritis.. nas encostas dos morros vê-se grande quantidade de indaiás (24). achatado no alto. Essas palmeiras que isola- das emprestam belo efeito à paisagem. são. um monte muito alto se apresenta à frente do caminho. de ao'Voi.Yi d e i T > h a * l a K«1««11®. forque elas não te em formas tão pronunciadas e porque seus galhos podem se misturar de cem modos diferentes. das cecropia. I. nossas bétulas. *imâ .

. Isso vem provar. — A aldeia de Cocais. che- guei. à casa de meu excelente amigo Sr. s. . V e n d a de Duas Pontes. ESTADA EM ITAJURú. 256. Miguel. saindo de Ocubas. — Chegada a Ita- jurú. CAPÍTULO V CAMINHO DO MORRO DE GASPAR SOARES A ITAJURÚ DE S. . Minas de ouro e de f e r r o de Cocais. 189 e 199 da Coleção . gineceu. D u a s visitas. Fazenda de D o m i n g o s A f o n s o . a 19 de Novembro de 1817 à aldeia de Gaspar Soares (1) e. ° e 126. dirige-se a I t a j u r ú de S. O índic . PELA ALDEIA DE COCAIS. Após haver feito 3 léguas.J' " * ' Brasiliana). que em geral as primeiras chuvas não são suficientes para lazer florir os vegetais. O A. ANTÔNIO GOMES DE ABREU (2). — Fazenda do C o u t o . da Coleção VOl PágS í0 214 227 (Correspondi a íV Ot l Ulm e« 1 2^6 ^ . mas nao encontrei quase nenhuma planta nos lugares onde no mês de Março precedente. seu en- genho de açúcar. parti logo para ir a Itajurú de S. parei no rancho de Ponte Alta e na aldeia de Itambé. Miguel de M a t o Dentro. Como da minha passagem anterior. MIGUEL. 184. Contrariedades. Miguel. colhera um tão grande numero. P o n t e do M a c h a d o . mais uma vez. Em Minas a seca do inverno PáJUg ETcorredspandOÍ ía l V otl u m6 m ™ lnha voJ " Brasiliana).Firmiano. — Região situada e n t r e I t a m b é e Cocais.R e g i ã o situada entre Cocais e I t a j u r ú de S. págr. Paisagem e n c a n t a d o r a ..

quando de minha primeira viagem. (Corresponde ao Volume 126. que foram queimadas para fazer lavouras (4). e não deixei essa estrada senão entre as aldeias de Cocais e Catas Altas (3). portanto. I.* Relaefto. de Fevereiro a Maio. para retomar a atividade. Pág\ 288. pela sucursal de Itabira de Mato Dentro. sempre a léste da grande cadeia. continuei a seguir. pela estrada real que. vai de Mariana a Vila do Príncipe. Tòda a região percorrida. mas quando me dirigia de Itambé a Itajurú. v o l . acompanhado de chuvas. Não v querendo passar por uma região que eu já conhecia. Outrora esta zona apresentava florestas imensas. entre Itambé e Cocais. pág. eôbre o s i s t e m a de agricultura adotado pelos brasileiros. a do calor e das chuvas.» Relaçfto. havia visto alguns insetos. desapa recém quando ela se retarda e são encontrados em grande quantidade na estação em que a natureza sai de seu repouso. de modo que a maioria das plantas só pode dar flores ao fim da estação das águas e ao começo da sêca. pág. é necessário que os ramos se alonguem antes de florir. estando ainda ein Tijuco. o capim gordura e capoeiras. no meio das quais há muito escassa área de terras de cultura. Em seguida às primeiras chuvas. Os insetos acompanham o ciclo da vegetação. é coberta de montanhas. da Coleção Brasi- liana). 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 91 retarda a vegetação. além de Itambé. (Corresponde ao Volume 126. Para ir de Itajurú a Itambé. i»3. vol. cerca de 10 léguas. e em seu lugar vêem-se hoje somente grandes samambaias. (3) Catas Altas foi descrita em minha 1. ao fim de Novem- bro. Vide o que escrevi em minha 1. êsses animais tornaram-se já muito numerosos. I. passei. 173. 248. isto é. pág. .perdida eia tem necessidade do calor do verão. da Coleção Brasiliana).

direií Td oC a dÍSt nCÍã u caminho de Duas Ponte * > depara-se. Aí notei um pequeno pátio cercado de muros muitos altos. ao qual estava ligada uma cons- trução separada da habitação. onde passei no dia em que deixei m c a ^ ™ g r a n d e p e r t encente. como fizeram na P a l a v r a c Que me pareceu c o m u n a ™ f ^ ^ i . A venda tomou êsse nome. que vários proprie- tários estabeleciam vendas à margem das estradas para poderem vender seu milho mais facilmente e a melhor preço. como « z e r a m ^ ^ t % ™ a £ ® r e d I t o s e r melhor es- a8 mo rizeram os Sr s . Alguns proprietários escrupulosos usam êsse sistema. a P r i m e i r a f o i construída se h l ° !° T a n g U ' 6 a S C g U n d a S Ô b r e o Macuco. que fica a 4 léguas existe apenas exíguo número de residências. j a disse. misturado é 6 as culturas! * ^ P a r a tôda. SPIX e MARTIUS. O solo dos e S ã Um barr com1* T T ° a v e ^ e l h a d o . O pátio e o edifício eram destinados às mulheres escravas. uma das mais importantes desta re- gião. que n arredores an ^ J o n g e da venda. em outra ocasião. e. cada noite o dono da fazenda tinha o cuidado de encerrar suas negras nessa espécie de gineceu. .m e à pronúncia crever Tangue. e a única fazenda um pouco importante que vi nesse trecho foi a do Couto. à > a bela fazenda de DOMINGOS A]amaihaNã° 86 d6Ve 6SCrever Ponte». porque A t i v a m e n t e e preciso passar uma ponte para aí che- íêbr 1 r S a r T 0 U t r " a ° S a Í r . A de Duas Pontes foi construída em umat pequena planície cercada de colinas e onde passa o n o Tangui (6). afim de salvaguardar suas escravas das perseguições dos homens Duas Pontes (5). a DOMIN- v e n d a W b AFONSO. 106 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Entre Itambé e Duas Pontes.

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 93 AFONSO. tropas carregadas de açúcar e aguardente. fui recebido a contento e conduzido ao engenho que. pode moer por dia 24 carros de cana. O proprietário dessa casita disse-me que outrora as ter- ras dos arredores eram grandemente produtivas. nela trabalham 130 escravos e. Apresentei-me. De todos os engenhos que vi na província de Minas era êsse o único cujos cilin- dros eram revestidos de lâminas de ferro e não pude deixar de admirar a elegância de suas rodas. descobrem-se as montanhas . O milho não rende mais em Ponte do Machado. a cana somente produz açúcar um ano. do que 100/1. e foi o que aconteceu aos arredores de Ponte do Machado. distante apenas 2 léguas. a fazenda de Domingos Afonso deve ser tuna das mais importantes da província. disseram-me. por muito fértil que seja o terreno êle se esgota logo quando se lhe pede sempre sem lhe dar nunca. De Duas Pontes fui pernoitar a 3 léguas e meia em uma pequena casa chamada Ponte do Machado. demonstrando logo o de- sejo de ver a usina de açúcar. como em uma multidão de outros luga- res. Vários mineradores de Cocais e Santa Bárbara tinham ai fazendas de onde tiravam víveres para seus escra- vos. A jul- gar-se somente pelo tamanho dos edifícios que a compõem. mas. Entre Ponte do Machado e a aldeia de Cocais. Imensas plantações de cana depen- dem desta habitação. várias vezes por mês partem de Domingos Afonso para a cidade de Sabará. sendo que o segundo corte serve apenas para fabrico de aguardente. e as aparên- cias não enganam.

Ela é construída ao mesmo tempo sobre o topo e sobre o flanco de uma colina que se eleva ao pé da serra. Ao redor desta foram plantadas pal- meiras cujos caules eretos e a folhagem leve contras tam de modo notável com as fôrmas das árvores cerradas e copadas da serra.ve r m u l \ T . mentidos pelos minera- rev0. 108 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE chamadas serra de Cocais e chegando à aldeia passa-se e repassa-se várias vezes o riacho denominado Una (7) Havia muito tempo não gozava de vista tão agra- dável quanto a que me ofereceu a aldeia de Cocais observada das montanhas opostas. ? igualmente as margens do riacho Corre s o b r SU|S' ^ . ^ a lfngUa e \ e a or do t terreno geral significa em que corre. em grotas. c . As casas que se estendem pelo flanco aa coima. desenvol- vendo-se atrás da aldeia. negro. e um leito enegrecido suas águas sujas pela argtla vermelha que resulta da lavagem do ouro. são separadas umas das outras por grupos de bananeiras. percebe-se. à frente da qual foi cons- truída a igreja. cafeeiros e laranjei- 1 1 ' a® t a l m o ° ° densas que em parte nenhuma deixam E m t 0 d 0 s 05 w 7 ( •° c r e d o r e s da colina a raSga 3 6m todos os rW« . Esta. pequenas e baixas. outros simplesmente revestidos de gramados e. enquanto que a brancura das paredes da igreja faz ressaltar o verde sombrio aessas arvores. aqui e acolá rochas de côr enegrecida A direita. termino por uma larga plataforma. forma uma espécie de hemi- círculo que apresenta grandes espaços cobertos de florestas sombrias. duas grandes jazidas onde a terra se apresenta desprovida de vegetação e ao redor das quais se acham esparsas numerosas casas de negros. O conjunto dessa paisagem apresenta um cará- nom^que^rioa0^^ 1 11 ! ^. A colina onde se acha a aldeia.

Cocais (8). como as de tantas outras aldeias das regiões auríferas. Dizem que o ferro de Cocais é de muito boa qualidade. pág. é de 22 e 1/2 k. Como disse já. (Corresponde ao Volume 126. cujo interior não apresenta nada de notável. com o resto fabri- cam instrumentos necessários à exploração de suas minas. não estão em estado de decadência. nada lembra a Europa. E' mais possível que e s s e vo- cábulo seja simplesmente o plural de cocai. as casas são peque- nas . as palmeiras que cercam a igreja. a forma das casas contra as quais se apertam bananeiras e laranjeiras. que segundo o A cie Corografia Brasileira. deve sua existência a al- « gumas jazidas que produziram muito ouro. segundo os Srs. até a côr do Una. — * 1 . as árvores copadas que a cobrem. da qual depende quase toda a aldeia e a região circunvizinha. João do Morro Grande.TTTi9) 0 o u r o n e s t a região. Essas K minas pertencem a uma só família. sucursal da paróquia de S. as jazidas que se avistam. que fica a cêrca de 2 léguas e que depende do termo de Caeté. quando o ouro estiver completament esgotado. mas que Jj hoje já não mostram grande abundância (9). as côres da montanha. para tomar o cami- (8) Procurei saber s e Cocais não vinha de çocão. rr. significa no Brasil um lugar plantado de coqueiros. mas em geral não denunciam abastança. Passeei pela aldeia. Foi além de Cocais que deixei a grande estrada de Vila do Príncipe a Vila Rica. Sf D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 95 llillli ter particular. Os che- fes dessa família acabam de montar (1817) forjas à margem do Una. as forjas poderão sem dúvida contribuir para a subsistência da aldeia. tudo é brasileiro. •«3 Jj". nome de uma espécie de párvore própria para as encostas (Vide minha V 7 i R < ? a ç fCt oo 'l e v o ã1 o. ágr ' 4 4 4 . íu i S Brasiliana). assim. SPIX e MAR- 1IUS. êles vendem uma parte do ferro que fundem em seu estabelecimento e.

retiraram daí bastante ouro. existe uma que por seu tamanho chamou-me a atenção. ' (Corwspon- (12) Vidft m i n ^ i . podendo ser comparada a um de nossos cas- m ^ S x r c D e S t a C a S a ' q U e P e r t e n c i a à família do capitão l IRES. de ao Volume l™6 pág 2?4 da p T * . Miguel de Mato Dentro. J m i . Continuei a atravessar a região outrora coberta de matas virgens.o r r e s p o n - . dependia outrora uma mineração importante. Nunca do a o ^ o I u m ^ l ^ ^ L 1 ' md^a f ?C o lJe ° ã\ ^ J * * ' 2 1 6 ' (Correspon- d i ) Vide mlnEo 1 . „ ' . da aldeia de Itabira (11). As duas margens do rio foram revolvidas pelos mineradores. Tufos de matas mostram-se ainda a q u í e acolá. segui o caminho já meu conhecido de minha viagem à serra do Caraça. principalmente nos outeiros. por todos os lados só se vêem terrenos cobertos de capim gordura. Nesse povoado. onde fui tão bem rece- T I Í M A ? ^ ! p r i m e i r a vez pelo coronel ANTÔNIO 10MAZ DE FIGUEIREDO NEVES (12). está hoje quase abando- nada. d a Colegao1 B r a s i l2i1a6 n a ) . Para i r d e Santa Quitéria à habitação de Itajurú de S.B r a s i l i a' n aV) . cujas casas são muito separadas umas das outras. 96 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE nho de Santa Quitéria e Itajurú de S. Após ter feito duas léguas e meia. ™ . e construidas a pouca distância do rio.. essa mineração esgotou-se e a casa está atualmente quase abandonada. mas. e ° B r a s i l2i6a9n a ) . a* ao Volun l e l T BPdg. que precede a aldeia de Santa Bárbara. mas o metal esgotou-se e a povoação de Itajurú de Santa Bárbara. parei na bela habitação de Santa Quitéria. Chegado próximo do Rio de Santa Bárbara segui seu curso até à aldeia do mesmo nome (10). da m ^ r Coleção Z ' . Miguel de Mato Dentro.

nenhuma descoberta me compensou do atraso a que fui obrigado. decepcio- nado em minhas mais doces esperanças. Entretanto duas visitas que recebemos durante minha estada em Itajurú amenizaram minhas contra- riedades. e. Fiel à sua promessa. de volta a sua terra. A outra visita não era esperada. Todavia o modo de trajar dêsse via- . mostrei- me ainda a residência do dono da fazenda e continuei meu caminho. Saía um dia do pátio da habitação. receava tornar-me pesado ao meu excelente hospedeiro. GOMES. tão agradável quão instrutiva. o brasileiro que me inspirava maior confiança e afeição. iazendo-me gozar de sua palestra. o respeitável Sr. de Itabira. Silva e o tocador João Moreira. com muita ami- zade. tendo respondido negativamente. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 97 estive tão impaciente por chegar. vieram juntar ainda outras amolações. mas não recebera para mim nenhuma carta de França. O capitão GOMES acolheu-me. e à contrariedade que experimentei. e a vida sedentária que era forçado a levar juntava-se ao mau estar que não cessara de experimentar depois de minha queda. o capitão PIRES. Esperava encontrar em Itajurú notícias da Europa. ANTÔNIO GOMES DE ABREU e FREITAS. Corno a vegetação dos arredores de Itajurú é pouco variada. veiu passar alguns dias em casa do Sr. O caráter do pobre PRE- GENT se alterava dia a dia. e ia rever meu exce- lente amigo. quando vi entrar um homem que me perguntou se eu era filho do capitão ANTÔNIO GOMES. durante muito tempo o capitão GO- MES procurou inutilmente dois homens que quizessem conduzir os animais. queriam por termo às suas viagens.

Enquanto que eu ansiava por deixar Itajurú. chegado recentemente ao Brasil. difícil enga- riar-se sobre a que nação pertencia.R E Í A ^ de Firmiano encontra-se no II vol. nem pela ambição. Corri ao encontro de seu patrão e tive grande satisfação em abraçar. e sua resposta provou-me que tomando-o por um compatriota eu não me enganara em minhas conjeturas. o botocudo Firmiano (13) desejava aí ficar para sempre. antigo aluno da Escola Politécnica. de . MONTLEVADE fixou residência em Minas Gerais: aí estabeleceu fundições e poderá prestar gran- des serviços à bela terra que se tornou para êle uma segunda pátria. O viajante que vinha de chegar a Itajurú era o Sr. engenheiro de Minas. Eu temia torna-lo infeliz. 9 Sr. ANTÔ- NIO ILDEFONSO GOMES. e voltei. seus desejos não iam além ^ p r i m e i r a s necessidades da vida e eu podia satisfa- minha 3 L . e êsse moço lhe dera uma carta de recomendação para os habitantes de Itajurú. mas até então esse temor não se justificara. sua fisionomia. com o Sr. após alguns instantes de reflexão não duvidei tratar-se de um francês. tão longe de meu país. antes de sua partida. tirando-o das florestas. Um criado estrangeiro acha- va-se à porta do pátio. Alheio a todos os nos- sos costumes. MONTLEVADE. dirigi-lhe a palavra em francês. seu ar desembaraçado e a viva- cidade de seus movimentos haviam me impressionado. era o do viajante. Esse rapaz continuava alegre e contente. Firmiano não era atormentado peh cupidez. um patrício igualmente recomendável por sua instru- ção e por seu caráter. tendo deixado o Rio de Janei- ro para percorrer a província de Minas Gerais. Tra- vara amizade. 98 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE jante.

Prendia-se àqueles que lhe faziam o bem e. Demonstrava inteligência. e como estava sempre alegre. c. Gozando o dia de hoje e entregue à sua imprevidência. meu coração não poderá ir". Mas. não tendo mesmo sido contrariado sem razão. sendo naturalmente imita- dor. . é preciso confessar. amavam-no muito. não se re- cusava a trabalhar e era mesmo muito zeloso por tudo quanto concernia aos animais de carga. pela aproximação dos homens de nossa raça. o pobre selvagem teve quase sempre sob os olhos exemplos detestáveis. Para que permanecesse como era então. Nunca tendo sido mal- tratado. Após a morte deste último. as mulheres admitiam-no no interior da casa e êle divertia-as por seu bom hu- mour e ingenuidade. grato pelas bondades que lhe propor- cionaram em Itajurú. seria preciso que Firmiano nunca se sepa- rasse de mim e de meu criado. disse um dia: "Vou ficar aqui. os índios acabam sem- pre por adquirir alguns defeitos. havia conservado todas as suas graças selvagens. O capitão ANTÔNIO GOMES e tôda a sua família. perdeu-se e nunca mais foi feliz. não posso ir para a França. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 99 zê-los torlos. era sempre recebido com bondade. se se esquecia de alguns era sempre daqueles onde não tinha sido bem recebido. êle não consi- derava o futuro senão como a continuação da felicidade que usufruía. Lembrava-se perfeitamente dos lugares por onde havíamos passado. logo que os demonstrava.

S. — Chegada a S a b a r á . entao ° l a d o oriental da grande cordilheira. seu nome. . seus e r e m i t a s e os da província de Minas.U m a cruz.Aldeia de Cuiabá. b a r a ' s e 2 u i n d ° direção oeste-nordeste. João' do Morro Grande. — Habita çao de Boa V i s t a . pús-me em uarcha. — A CIDADE DE CAETÉ . O A.Aldeia do •rompeu. .A aldeia de S. sua igreja Carneiros. encontrando enfim um tropeiro. Havia mais de um mês que me achava em Itaiurú. suas ruas e suas c a s a s .A SERRA DA PIEDADE E A IRMÃ GERMANA. _ Descrição geral da região situada entre I t a j u r ú e Sabará. sua v e g e t a ç ã o . seu proprietário - A serra da Piedade. festas de Natal. - WaDitaçao de Antônio Lopes.Algumas palavras sobre o c a r á t e r dos mineiros. — Reflexões sobre os inconvenientes da exploração das minas e sobre o sistema de agricultura u s a d o pelos brasileiros. separa-se do capitão A n t ô n i o Gomes de A b r e u e Freitas - O n o Santa Bárbara.A cidade de C a e t é . a capela que foí construída nessa m o n t a n h a . . Nao querendo voltar a Vila Rica pelo cami- d e s T c ? ^ C 0 ? K C l d 0 ' f Í Z U m a I o n ^ a v o l t a Pelas cida- Setnf ?ÍC e S ? . História e doença da freira Germana. . — A habitação de Morro Grande. u m a g r o t a . N T "M francês a errada do V em S t e ^ numeração dos capítulos está . . CAPÍTULO VI PARTIDA DE ITAJURú. quanao. vista que se goza de seu c u m e .Arraial de N. . de modo g e r a l . .' O Autor deixa I t a j u r u . — F a l s o sobreiro - Uma trovoada. sua h i s t o r i a . da Penha.

as excavações irregulares feitas pelos mineradores. E' uma região que nada apresenta parecido com a brilhante monoto- nia do Deserto. Ainda r. A região que percorri numa extensão de cerca de 20 léguas até à cidade de Sabará. Itajurú onde encontrara por duas vezes a hospitalidade mais amável e mai tocante. (1) Essa montanha é descrita em minha 1. reduzidos restos das florestas primitivas. com tôda a sua niajestosidade. e quase por tôda parte o capim gordura toma o lugar das florestas primitivas. a serra oo Caraça (1) logo se nos apresentou. quizeram me acompanhar. no lado ocidental. avistava ainda a habitação de. pela terceira vez. A altura das montanhas. entretanto sentia meus olhos en- cherem-se de lágrimas. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 101 depois. JOÃO e GOMES. êste último e seus dois filhos.« Relaçfio. é extrema- mente montanhosa tendo sido fornecedora de prodi- giosa quantidade de ouro. . poucas são as culturas que aí se vêem.âo era chegado o momento de me separar dêsses excelentes amigos. tendo atravessado essa cadeia nas proximida- des de Caeté. emprestam às paisagens uma austeridade atenuada apenas pelo azul resplan- descente do céu dos trópicos. olhando para trás. achei-me. as formas majestosas dos grandes vege- tais e sua verdura sombria. vastos campos de capim gordura e tufos de matas. Até então viamos apenas jazidas aban- cionadas. a profun- didade dos vales. Como ao deixar Itajurú eu devia ir pernoitar em casa do irmão do capitão ANTÔNIO GOMES DE ABREU E FREITAS. Quando deixámos êsse caminho. quando. Até próximo de Santa Bárbara seguimos caminho já meu conhecido e que vai dessa aldeia a Itajurú e a Miguel.

e essa época é para brasileir o s a da reunião das famílias Os filhos . tinha olhos azues e os cabelos louros. a respeito desse rio. nossos animais. a habitação aonde-devíamos pousar. homem de cêrca de 50 anos. em meio a escuri- dão. Entretanto chegamos sem acidente à habitação de Boa Vista. mas sua contrariedade era unicamente por minha causa. a lan- terna nao produzia senão uma luz fraca. um dos parentes do capi- tão. Descendia de uma dessas famílias de paulistas que tantas desco- bertas fizeram no interior do Brasil. e nós nos mantinhamos em profundo silêncio. fomos surpreendidos por uma noite profunda e nos perdemos. alguém que teve a bondade de nos servir de guia çue nos conduziu até à casa do Sr. desce- mos logo um monte extremamente íngreme . e fui ABREUmente reCebÍd ° pel ° ca Pitão J°Ä0 J O S E ' DE A vista do capitão ANTÔNIO GOMES devia ser muito agradavel a seu irmão. JOÃO VIEIRA forneceu-nos uma lanterna e um novo guia. animado do mes- mo espirito de seus antepassados. tinha aparência alegre e jovial. JOÃO VIEIRA DE GODOI ALVARO LEME. 102 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Era já muito tarde quando partimos de Itajurú- a uma légua de Boa Vista. Êste proprietário. e eu lhe devo. O bom capitão ANTÔNIO GOMES mostrava-se desesperado com esse imprevisto. havia arrostado por varias^ vezes os numerosos perigos de uma viagem pelo no Doce. e o que é raro neste país. as miormaçoes que em seguida mencionarei. como que arrastados pelo declive da monta- nha. Fomos enfim felizes de encontrar. O Sr. tanto mais que nos achavamos em tempo de Natal. Após pôrmo-nos a caminho. pareciam nos lançar em algum abismo.

Aqui. ou o tinha sido ligeiramente. ^Corresponde ao Volume 126. pá«?. que devem encerrar também muito ouro. Fiz uma herborização tias vizinhanças do rio. pág. o capim gor- dura é. mas os morros próximos. sendo preciso cada dia um tempo enorme para carregar as numerosas coleções que eu tinha formado durante um ano na província de Minas. sem nada encontrar. Poderia citar uma mina pertencente ao capitão JOÃO JOSE' DE ABREU. segundo diziam. um ambi- cioso que não admite sociedade. vol. como já tive oportunidade de dizer. para enviá-los diretamente a Vila Rica. ela inda não havia sido explorada. não foram explorados. devido a ser muito difícil o trabalho neles. da Coleção Brasiliana). I.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 103 estabelecidos longe de seus pais. celebram com banquetes o prazer do reencontro. O Sr. A casa do capitão JOÃO JOSE' fica quase à beira do rio Santa Barbára. Deixei a fazenda da Boa Vista a 2 de Janeiro de 1818. tantas riquezas quanto as montanhas de Itabira (2). como em outros lugares. JOÃO JOSE' ofereceu-me guardar em sua casa as malas que eu não precisava transportar co- migo. as margens do rio Santa Bárbara foram revolvidas pelos mineradores. situada ao meio de um dos outeiros que circundam a casa. 271 e seguintes. após uma longa separação. porquanto vários dos meus animais de carga achavam-se cansados. .» Relação. assim como os animais que as carregavam. Aceitei o ofereci- mento do capitão deveras agradecido. seu irmão e seus ( (2) Vide minha 1. e entretanto prometia. Todos os morros que rodeam esta habitação e os que lhe ficam em frente são cober- tos de capim gordura. 235. vão então visitá-los C. O capitão ANTÔNIO GOMES.

P tas bem diferentes das giestas . Tomei grande parte na enorme sensibilidade desses excelentes amigos. João do Morro Grande. ele muda de nome. entretanto a á í v o l e m ° Z f l ° r e s t r e l a s . Quando me vi só. 118 118 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE filhos acompanharam-me até à aldeia d e S. e a idéia de nunca mais revê-los me pareceu insuportável. Amério a uma ou vLi r l aass Slaníí lan "5? ° t a m e " t e aplicado na da Europa. não pude deixar de maldizer as viagens que parecem nos pro- porcionar o ensejo de conhecer homens de bem só para nos forçar a uma separação imediata. entretanto as distrações da viagem dissioa- ram pouco a pouco minha tristeza e cheguei resignado ao lugar aonde devia pousar. No momento de nossa separação o capitão estava alagado em lágrimas e seus filhos pa- reciam vivamente comovidos. passámos o no banta Barbara. sombrios pres- sentimentos. Miguel. g e s t ã o e duvido sobre se Um cidadão mui o fn^truMo P l a n t a e necm M l n a s e n ° Paraguai. juntaram-se às minhas recordações fazendo-me cair em profunda me- lancolia. disse^m que o T h f s l a " t 0 " ™n*e r?i*C»a n o^sb rd eã o a etimologia n o m e de «'tama ao Pane„lA d os ®ar«nf? '^ 8 re ° ®jgnifica «lesta e êaw t? ? í® c e r*«>«a. em espanhol. Ca- panem A. Pouco depois de ter deixado Boa Vista. no lugar chamado Capanema (3) distante 6 léguas da habitação de Boa Vista. espécie de T r v n r ^ 6 P r d Uguaranis caá montanha e conheço. Não êsse nome foi dado A m/« . Uruguai e ao qua devo S ° n t r e i nas Missõef do indígena. P a J n í p E arectme a M r n da^ a na Cl la0 avv° r a s QU6rem na Alemanha.várias vezes. Êsse no nasce na grande cordilheira. recebe na al- deia de Barra o rio Caeté e lança-se no Piracicaba bem abaixo de S. cujas águas são avermelhadas como todas as que servem à lavagem do ouro. que foram acertados.

vi de tempo em tempo. todo o seu antigo esplendor. 112. Outrora o ouro era encontrado com abundância nas vizinhanças deste rio. Quase logo após ter atravessado S. senão céu e mar (4). contudo. estando atualmente inteiramente abandonada.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 105 Entre Boa Vista e S. sob a qual não posso deixar de dizer algumas palavras. via- (4) "Voyage au Cap. é a cabeça de uma paró- quia cuja população ascende a 5. (6). segundo SPARMAN. pág. durante muito tempo. João do Morro Grande. mineradores para aí acorreram e construíram a aldeia de S. Os mesmos objetos parecem diferentes ao viajante. (6) Loc. casas e campos de milho. (5) Piz. e que compreende cinco sucursais (5). Quando atravessei esta parte da província pela primeira vez ela me pareceu deserta. cit. Um homem. VIII. S. passei diante de uma cruz. segundo a na- tureza dos termos de comparação. mas as minas logo se esgotaram e a aldeia teve a mesma sorte que tantas outras. João do Morro Grande. . foi.420 habitantes. porque antes eles não tinham sob às vistas. porque'resta-lhe ainda uma das mais belas igrejas que vi na província de Minas. às margens do rio Caeté e ao pé dos montes que o dominam. onde me separei do capitão GOMES. Mem. João. Hist. de Bonne Espérance". mas depois que percorri o sertão achei-a extremamente povoada. A aldeia de S. SPARMAN teve enfim uma idéia exata dessa região e se viajantes fizeram magníficas descrições a respeito da mesma. João do Morro Grande. João fica a 19°57' de lat. Após uma grande estada no Cabo da Boa Esperança. Não perdeu.

. a cabeça cheia de vãs esperan- ças. em busca da fortuna. De um modo geral foi a comarca da Sabará a parte da província onde até então eu havia encontrado maior numero de brancos e ao mesmo tempo os ho- mens mais polidos e mais instruídos (7). A fazenda do Morro Grande pertencia ao sargento- mor DOMINGOS PINTO. Esgotada a mina é preciso que ele vá. afim co3 na pStô P da?nm!^ ent l ™a. o estabelecimento do mi- nerador não seria durável. acreditou ter visto almas do pur- gatório. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE jando nessa região. Os canais que levavam água às jazidas estão semi-destruidos e de espaço em espaço encontram-se casas vasias que caem em ruínas. que eu havia visto em Ita- juru. sob a forma de pombos. Trata-se de um liomem bem educado e de modos extremamente distin- tos. Em memória dessa aparição êle fez erguer a cruz. Como já disse. a história que venho de relatar acha-se gravada ao pé da mesma. Os mineradores dispersarain-se e agora a região acha-se em triste abandono. que volteavam ao redor de seu cavalo. quas^ sempre imprevidente. João à fazenda do Morro Grande. Z r i L d e . pedindo-lhe preces. onde parei. Por toda parte suas margens foram escavadas pelos mineradores • grande foi a produção de ouro. mas hoje ela está esgotada. ladeei sempre o rio Caeté. e que me recebeu muito bem. a outro lugar.ÍS c°nsiderável número de bran- d'El L f 6 n f t . Na época cm que havia opulência nesta região os pais enviavam ciguns de seus filhos à Universidade de Coimbra. ele nada economiza para o futuro e quase sempre termina na miséria uma vida iniciada na opulência. Para ir de S. R Í ° d a s M o r t e s mv M izinh João * ^S ã &mUÍt êlGS »•no« ° ° .

pág. E' de crer-se que esse processo mecânico será aos poucos adotado em outras minas. Ao pé do Morro Grande passei por uma habitação onde* para quebrar o minério de ferro que contem ouro. Como disse alhures (8) o seminário de Mariana que havia sido fundado por alguns mineradores ricos. fui ver suas minas. 163. das quais dei a descrição na primeira parte desta obra. mas. e que são situadas na mon- tanha chamada Morro Grande. I. continuei a subir e vi ainda outras minas em explora- ção. ao Vni\. mas inteiramen- te independentes. 151. por máquinas a vapor. foi também muito útil a tôda região. ao menos acharam-se em condições de transmitir al- gumas luzes às suas famílias. Começaram. residente em Vila Rica. (Corresponde 126. por procurar o ouro nas margens dos rios onde era fácil de extrair. PINTO e a aldeia de S. . E' a essa montanha que a fazenda do Sr. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 107 de torná-los capazes de ocupar altos cargos. à época de minha viagem não havia para a educação outros recursos além dos "mestres de escola" propriamente ditos. da Coleção Brasiliana). como disse. João elevem provavelmente os nomes. depois que os terrenos de aluvião não produziram mais uada. Deixando a fazenda do sargento-mor Domingos Pinto. Após haver examinado a jazida do sargento-mor. e enfim um professor de filosofia. e quando faltar a água ela será substituída por bois ou mesmo com o tempo. foi preciso procurá-lo no interior das montanhas. pág.u mJ nde i e «>J Tlin í ia *•* R e l a « f i o ' vol. e se estes últimos não puderam fazer o mesmo com seus filhos. alguns professores de gramática latina. pagos pelo govêrno. se serviam de "bocards" análogos aos empregados na Europa. mas.

t r a d u z : "monte verda- como se acredifou . cheguei enfim à cidade de Caeté. MANOEL NUNES VIANA foi tes- temunha dos esforços que faziam para tomarem o bacamarte ao estrangeiro e dos insultos que lhe diri- escrito C a í y í é . tanha c o b e r t a d e ^ a n ^ V v ^ "' m a s "m0n- B ' » * « 0 ) I I I E 8 ) ! e l m a ^ P I Z A R l ? n e a Ír in f ° r ' m a SOUTHEV (Hi S t. para dela se apoderarem. of. aargento-mornaufiata n t l * í *>"e essa descoberta a um ferença TOseen l NARDES. eles não acha- iam meio mais fácil que o de acusar o portador de xe-ia roubado. A . A di- ardes e Narde vavelmente a um T r r o t i S ^ f > « * devida pro- erro Autor.e i rP«r a conseguinte. TDT7T^>0Âc^paulÍStas' J U L I ° C E S A R e JERÔNIMO i^JiUKOSO. ! a da etimologia radfe AN T ÔNIO L/U JZ D E 'mON TO VA ° *t r a d u ~ ^ f ' ^ ° deiro de paios m ^ n Q » ~ . O nome desta cidade que. os primeiros descobridores desta legião e que a povoaram (10).« ^ ^ ! n a ° s i ^S ne imf i cCa lma r. como tendo sido teatro de um dos primeiros conflitos que fomen- taram a guerra civil entre os paulistas e os forasteiro ou estrangeiros. Foram o sargento-mor VARDES e os irmãos GUERRA^ oriundos de Santos. porquanto efetivamente existi' iam grandes florestas em suas vizinhanças (9). ' c n J l t ^ u T A^ o ^ ^ ^ C«ité. quando viram passar um forasteiro tra- zendo a mao um bacamarte. tendo-se adotada p o í q u a n í o T a n l m a l S r te ° Sa rp ar foí xa i mque sigo deve ser indígena Com Vflní « V* . na língua dos índios significa "montanha coberta por grossas árvores"' foi-lhe dado outrora. C a e t é é célebre na história das Minas. Esta arma despertou- lhes cobiça e. 108 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Após haver seguido por um vale emoldurado por montes de uma altura considerável. fcPosráfico ocorrido a um ou ao outro . . achavam-se no adro da igreja de Caete.

S. Mas a êsse tempo era pouco usado entre os brasileiros o costume de solucionar questões em com- bates singulares. Quando o governador do Rio de Taneiro ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE COELHO. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 109 giam. prudente e corajoso. João do Morro Grande. págr. contando cerca de 5. era um homem forte. foi também nessa localidade que ela começou a ter fim. nome que não fói adotado na linguagem habitual. (11) PIZ.000 habitantes e as de S. era natural de Portu- gal. De resto. A notícia dessa disputa correu logo aos arraiais de mineiros de Sabarabussu e de Rio das Velhas e os forasteiros pas- saram a considerar MANOEL NUNES como seu chefe e defensor. hi»t. sob o nome de Vila Nova da Rainha. Seu têrmo faz parte da comarca de Sabará. é administrada por dois juizes ordinários e compreende cinco paróquias: a da cidade. Houve troca de palavras ofensivas e MANOEL N U N E S desafiou os paulistas ao campo da honra. VIII. 112-113. Em 1714 Caeté foi elevada a cidade.. MANOEL. Santa Bárbara. percebeu que o obieto em litígio pertencia bem legiti- mamente ao seu portador e interecedeu em favor desse homem. se a guerra civil teve início em Caeté. por sua vez. . teve em Caeté conferências com MANOEL NUNES VIA- NA. conseguindo que êste se demitisse do poder de que se achava ilegalmente revestido pelo voto de" es- trangeiros. se apre- sentou para repôr a região no caminho da ordem. os dois paulistas acharam que seria menos perigoso reunir seus parentes e amigos e atacar MANOEL NUNES em sua própria casa. Miguel de Piracicaba e a de Curral d'El Rei (11). Mem.

do Bom Sucesso. Esta cidade devia ser muito agra- dável no tempo em que era próspera. sôhre a encosta de uma colina. 112. 116. / liO AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE A cidade de Caeté acha-se a 19°50' (12) e está construída à margem de um regato.). mas teve a mesma sorte que tantas outras. Sua nave é muito larga e contei 4/ passos do altar-mor à porta. começada há cêrca de 50 anos (1818) custou. onde as igrejas são em geral pequenas. da Coleção Braaillana).a . disse- lam-me. S. . f ? í ' 120. Sua população atual não vai além de 300 ou 400 almas.000 fs. duvido que exista no Rio de Janeiro alguma que se lhe possa com- parar. a sacristia e igualmente muito grande e eu admirei a — i M<im hl8t VIIt Pág 110 U3) VM ' n 1. Há todavia em Caeté um monumento que assinala o seu antigo esplendor — é sua igreja. Como nas demais os altares laterais sao colocados obliquamente (13). a balaustrada exis- tente ao redor da nave. desde seu exterior chama a atenção por sua grandiosidade. A igreja paroquial de N. Não somente r-ao havia visto em tôda a província de Minas uma umca que fosse tão bonita. suas minas esgotaram-se e a cidade foi abandonada. é mais comprida do que larga. suas ruas são amplas e calçadas e. Vê-se aí um grande número de casas belas atualmente desertas e caindo em ruínas. E' construída de pedras e.000 cruzados (280. negro como o ébano Acima da porta de entrada vê-se uma grande tribuna . (Correspon- Pag. o que é um tamanho considerável para o Brasil. foi leita com madeira de jacarandá. ao menos vê-se que foram bem construídas. el ' T ' ' de ao V o l u m e % ? 6 5 L i ? g . se na maioria as casas são de um andar apenas. que deviam suas ori- i gens à presença do ouro. separando-a do santuário. mas ainda.

dirigi-me à serra da Piedade. comparados aos da França. bem como as imagens dos santos são melhores que as de todas as igrejas que até então visitei na província de Minas. Quase imediata- mente comecei a subir. sendo todavia muito pequenos rebanhos. as- semelhando-se à dos arredores de S. O mesmo acontece (14)— 1 Talvez volte a êsse assunto em minha 3. em Minas Novas. A pouca distância de Caeté. todos atualmente abandonados. montanha que fica a 2 léguas e que é um dos picos mais altos da cadeia ocidental. entretanto não foram em- pregados exageradamente e as pinturas do teto. construídos sem dúvida na época em que havia abundância de ouro na região. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 111 limpeza aí reinante. A de Caeté é ornada com extremo gosto. Não pouparam os dourados. nesta região as ovelhas não exigiriam tantos cuidados como na Eu- jopa^ e não será exagerado estranhar que a adminis- tração não trate de encorajar uma fonte de renda que acabará por libertar o Brasil do maior tributo talvez. Desde que me acho na província de Minas ainda rião tinha visto tantos carneiros como nos arredores de Caeté. João. que é quase branca. . Deixando a cidade de Caeté. E' entretanto incontes- tável que as pastagens das montanhas de Minas Gerais são muito próprias à criação de ovinos. encontra-se um gran- de numero de casebres. Todo o edifício é iluminado por doze grandes vitrais nada havendo dessa obscuridade que nos inspira tristeza quando entramos em nossas igrejas. e durante algum tempo fiquei admirado com a côr da terra. Qe todos que ele paga à Europa (14).» Relaçfto.

apresentando à extremidade de exíguo hori- zonte. subinelo sempre. entrei em matas. e. a bondade e a alegria de ANTÔNIO LOPES não se desmentiram. mas o excelente velho fez questão que eu comparti- lhasse de suas refeições. Quase sempre serviam-nos um caruru de chicória. estudar sua vegetação e observar o que essa montanha apresenta de interes- (15) E' preciso nâo confundir o arraial de Penha." Relação. mas isso era tudo quanto Lopes dispunha e êle ofe- recia-o de bom grado (16). uma massa arredondada. 20. (Cor- responde ao Volume 126-A. A parada que f i z em casa dêsse velho p e r m i t i u .112 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE no povoado da Penha. sem sal e sem manteiga (Vide minha 1. chamada Fazenda de Antônio Lopes. construído igualmente por mine- radores. Meu criado caiu doente em sua casa. sôbre a qual rochedos se mostram. Já disse que se chama canjica ao milho co- ziao nagua. II. ou N. aqui e ali. pâg. 10). e uma canjica que por sua côr mostrava a sujeira da vasilha onde tinha sido cozida. p á g . Collio BáÃsiUana). situado a uma légua de Caeté. Êsse LOPES era um pobre velho que me acolheu do melhor modo possível. com a aldeia do mesmo nome pertencente ao termo de Minas Novas (Vide minha J. Esta aldeia possue uma capela. A serra da Piedade fica defronte desta última.. durante todo êsse tempo.(COrreSPOnde V l u m e 126 ° ' Pág> 110 ' da . vizinho de Caeté. pequena mas muito bonita. no meio de um gramado par- dacento (15). vi-me obrigado a aí ficar durante uma semana.a Rei. S. Pouco tempo após haver passado por Penha.m e percorrer a serra da Piedade. vol. e. cheguei enfim a uma fazenda situada ao pé da serra da Piedade. da Penha. da Coleção Brasiliana)- Ub) Pela palavra carurfi entende-se em geral um cozido üe ervas picadas. Meus camaradas cozinhavam.

muito fraca não apresenta senão arbustos.400 pés de altura (acimo do nível do mar) (17). Como para chegar à fazenda Hp ANTÔNIO LOPES já se subiu bastante. muito considerável. o nome de serra da Pie- S P I X 6 MART ím ml nha -> Rela ft 422.í í ^ í i q U Ô a P Ó S h a V e r o b t i d o U m P a r matas pouío v InrnLo c h ^ i a d a s " P ° u a a r : Q»e aí cresciam então rentes d a s 1 f ? im.s e e queimavam-se as colheitas d e i x a v a . 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 113 sante. não se oepara nenhuma fonte e a vegetação.t 8 ««Poeiras. dessa habitação ao cume da montanha tião é. as geadas não permitem o cultivo'dessas plantas. São matas do tipo capoeirão. Ela tem cerca de 5. entre- tanto as bananeiras e a cana de açúcar dão bem na fazenda e por conseguinte esse lugar deve ser menos elevado que a aldeia de Congonhas da Serra onde como se viu. rochas mostram-se aqui e acolá. começa-se a subir uma encosta firme. o terreno e todo ferro. n S i J P ? t e c i a m novas m a t a s chamadas capoelrfieg o« arbustos d ? r i a p ° o é i r 0 n ' C ° m ° r e f i r m o a q u i ' n ã o e e veem . na região. a distância em linha reta.r " oer J?í u í ' I ' QUe > e n f i m deixando-se a s animais a Pasía? / n £ Í m i P e C l l h o d e s d e q u e a I n â o s e P a s s e m (plural de « í . c o r t a v a m . inteiramente dife- eapoeiraá . que sucedem às capoeiras. mau grado não ter encontrado nelas nenhum dos arbustos que compõem as capoei- ras (18). ao que me pareceu. e acha-se situada a 4 léguas da cidade de Sabará. Para atingir a serra dá-se uma grande volta. sub-arbustos e ervas E' somente no lugar em que as matas deixam de aparecer fc ° e a t e r r a «ao mais se presta à cultura que a montanha toma. tacões em u m T ^ T ' . Atra- vessa-se então terrenos outrora cultivados e hoje co- bertos de matas. ^ * ®> W Para fazer plan- n o r e s t z T o T l ^ a virgem. Logo que se sai das matas de que venho de talar. mas pode-se chegar até ao cimo mesmo a cavalo.

(Gesnéria rupícola. Var. A montanha termina por uma pequena plataforma. Na verdade os habi- tantes da região reconhecem. com a diferença que esta última apresenta uma quantidade de vegetais bem mais con- siderável que a serra da Piedade visto ser mais úmida. A vista da gente procura em vão um lago. mas essa vista apresenta apenas uma sucessão de montes e vales que se repetem e se tornam fatigan- tes pela monotonia. êsses diferentes pontos. dispostas em umbela etc. as espécies que aí aparecem são das mesmas que colhi na serra do Caraça. enfim uma bela Gesneriácea cujas folhas teem a face dorsal violeta púrpura e com flores tubuladas de um v e r m e l h o ^ - cado. As plantas mais comuns na parte descoberta da serra da Piedade são duas espécies de Compostas. onde não podemos vê-las. à direita . No alto da serra da Piedade foi construída uma capela muito grande. de onde se descobre o mais extenso panorama que me foi dado apreciar depois que me acho na província de Minas. uma Le- guminosa (Betencourtia rhinchosioides N). mas fui decepcionado em minhas esperanças. a cidade de Sabará. um rio ou uma aldeia sobre a qual possa repousar. mas. Esperava aí encontrar grande número de plan- tas. o rio das Velhas e a povoação de Santa Luzia. uma Con- volvulácea a que chamei Evolvuhis rufus. contra a qual apoiaram. pulcherrima). há sempre a preocupação de situar as habi- tações nas depressões. distantes de 4 a 5 léguas.114 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE dade. nesse vasto horizonte. não poderão ser distinguidos pelo es- trangeiro que nunca percorreu a região. a serra do Caraça é o único acidente que empresta um pouco a variedade a um trecho da paisagem. por sua altura e forma de seus rochedos.

no alto da montanha. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 115 e à esquerda. que se multiplicaram em extrema abundância e que pro- vavelmente não poderão mais desaparecer. e as três plantas. sem dúvida. Usam um grande chãpétTe uma batina. proliferam por toda parte e vegetam como em seu país de origem. por seu semblante rubicundo e sua cabeleira postiça. mas tal não acontece. entre as sementes vieram natu- ralmente as das outras espécies. Um eremita semeou. Em frente à ca- pela vêem-se rochedos. se celebram na semana santa. algumas plantas européias. já meio roída pelos ratos. a exemplo dos antigos anacoretas eles se dedicavam ao cultivo da terra. Todas essas construções são de pedra e datam de 40 anos atrás (escrito em 1818). velha e dilatada. confesso. no meio dos quais foram colo- cadas cruzes destinadas aos "passos" que. Quando de minha via- gem eles eram apenas três: dois pequenos mulatos muito ativos e um velho branco que. eles acham muito mais cômodo recorrer à caridade pública e a fazenda não é . Os eremitas que ocupam a espécie de monastério da serra da Piedade são simples leigos. ou melhor uma espécie de "robe de chambre" preta. o Cerastium vulgarum e a Stella- ria media. Tais são o nosso morangueiro. À capela da Hedade pertencem uma fazenda e algumas terras situadas ao pé da montanha. encontrando nessa altitude uma temperatura que lhes convém. Fiquei tão encantado quanto surpreso de achar. a pri- meira dessas plantas. prcvo- cou-me grande desejo de rir. edifícios onde residem os eremitas da montanha e os peregrinos que a devoção leva a esse lugar. por seu ar distraído. poder-se-ia pensar que os eremitas cuidam da fazenda e que.

deviam. E' pre- ciso convir. deixam crescer a barba e algumas vezes mesmo a própria cabeleira. Para dar uma idéia do que são os eremitas. aliás pouco numerosos na província de Minas. tomam a re- solução de montar guarda a uma capela e. mas esses dois jovens mulatos. quando regressando de esmolar. êles percorrem a região. antes de recorrer à generosidade dos fiéis. fazem beijar a imagem às pessoas que vão encontrando e recebem por isso esmolas em dinheiro e objetos. BARÃO DE ESCHWEGE. Carregando uma caixa envidraçada contendo a imagem do padroeiro de sua igreja. II. para expiar seus pecados. começar por tirar partido das ter- ras à sua disposição. Alguns fa- zem voto de levar êsse gênero de vida até o fim de seus dias. com efeito.116 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE para eles mais que um abrigo. o Sr. mas a maioria a isso se dedica por um certo tempo. parece-me. cheios de vida e saúde. como em muitas outras cousas. intro- duziram^ tristes abusos. . pedir esmo- las para sua conservação. (19) (19) Jouviiel von Braziiien. creio não poder fazer cousa melhor que traduzir o que a respeito escreveu um viajante respeitável. todavia. não querem subir logo à montanha. 95. Aqui. vários dêsses ere- mitas não tomam o hábito senão para viverem à custa do próximo. que seu trabalho não seria sufi- ciente à subsistência e manutenção da capela. Êles se cobrem por uma espécie de hábito. "Chamam-se ermitões (eremitas) homens que ordinariamente. e vão beber às melhores tavernas com o dinheiro que a generosidade pública lhes ofere- ceu".

o £ a r a . de coloração parda e amarela. tal o seu nome. havia já muito tempo. para aí chegar-se é preciso descer sobre grandes pedras arrumadas à guisa de escada. Conheci na serra da Piedade uma mulher de quem lalavam muito nas comarcas de Sabará e Vila Rica.e serve para iluminar o interior. Fizeram-na exorcismar. habitada por eremitas que achavam o alto da montanha muito frio durante a estação das secas. Diferentes espé- cies de arbustos guarnecem os arredores desse modesto abrigo. e. de afecções histéricas acompanhadas de convulsões violentas. e a quan- . Entrei nessa gruta mas aí ape- nas encontrei os restos de um leito. fora atacada. enfim as pedras que servem de escada. cons- truída com terra vermelha fecha inteiramente a entrada dessa g r u t a . empregaram-se remédios inteiramente ^ontrano seu estado e Q maJ agravou_se A q tem_ VIagem ela che -. Soube. E' por uma abertura lateral que se penetra na gruta. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 117 Em uma de minhas excursões fui ter a uma gruta formada por um largo rochedo que avança horizontal- mente acima do solo. o que provava que ela se achava há muito tempo abandonada. 10 anos antes (escrito em 1818). C P nto de '° ° não poder mais deixar o leito. que a gruta tinha sido. pelo meu hospedeiro. A «•ma GERMANA. são cobertas por várias espécies de samambaias. mas no meio da parede fizeram u. A pequena parede que foi construída na parte da frente asseme- lbava-a a uma casa. protegidas do ardor do sol pela rocha superior. a parte de cima do rochedo que serve de teto é coberta de Tillandsia e de Orquidáceas de flores bi- zarras.ma pequena janela qu. Uma pequena parede. Essa gruta parecia feita para um jardim inglês desenhado com a maior elegância. há vários anos.

Ela não comia carne e recusava igualmente as gorduras. quei- jo. Era voz geral que os costumes de GERMANA ha- viam sido sempre puros e sua conduta irrepreensível. S. um pouco de pão ou farinha. da Piedade. frequentemente ela recusava alimentar- se e quase sempre era preciso obrigá-la a comer qual- quer cousa. . sem proferir uma palavra. Durante o curso de sua moléstia. Lá. conservando-se assim até à noite de sábado para domingo. sua devoção crescia dia a dia: queria jejuar completamente às sextas e sábados. À época de minha viagem havia 4 anos que esse fenômeno se dera pela primeira vez e daí por diante êle se repetira semanalmente. e obteve permissão de morar nesse asilo.s e igualmente e ela se manteve nessa atitude durante 48 horas. meditando um dia sobre os mistérios da paixão. ela entrou numa es- pécie de êxtase. sem fazer um movimento. seus braços endureceram e estende- ram-se em forma de cruz. seus pés c r u z a r a m . não podendo mesmo tomar um caldo. A irmã GER- MANA tomava essa atitude extática na noite de quinta para sexta-feira.118 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE tidade de alimentos que ela tomava cada dia era pouco maior que a que se dá a um recém-nascido. constituíam todo o seu alimento. sem tomar qualquer a l i m e n t o . a princípio sua mãe quis impedí-la mas GER- MANA declarou que durante esses dois dias era-lhe inteiramente impossível tomar qualquer alimento e daí por diante ela passou-os sempre na mais completa abstinência. Para satisfazer sua devoção pela Virgem ela se fez transportar à serra da Piedade. Alguns doces. cuja capela fora erguida sob a invocação de N.

único dia de trabalho. GOMIDE. mas uma multidão de pessoas continuou a subir ao alto da serra. sem o nome do autor. Cada dia ê s s e s animais. testemunharam-no. — Nesse trabalho o Dr. de todas as clas- ses. Mas aos sábados. n a C a p e l a d a S e n h o r a d a P i e d a d e d a s e r r a e t c . com uma multidão de autoridades. declarando por escrito que o estado da doente era sobrenatural. Essa declaração ficou manuscrita. Q. deixados. de víveres à vila. conta o fato seguinte. mas circulou de mão em mão. o Dr. . que os êxtases de GERMANA não eram senão o resultado de uma catalepsia (20). um médico muito culto. segundo o costume. fez imprimir no Rio de Janeiro. uma pequena brochura. que era um homem ajui- zado e competente. acreditou-se no milagre. procurando explicar a periodicidade dos ê x t a s e s de GERMANA. a irmã GERMANA foi proclamada santa. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 119 Os rumores desse fenômeno espalharam-se logo pelos arredores. e m u m a r a p a r i g a q u e Julgarão s a n - ta. cheia de ciência e de lógica. GOMIDE. Entretanto o último bispo de Mariana. A opinião do público dividiu-se. sendo dela tirado um grande número de cópias. da Universidade de Edim- burgo. mas ainda. R i o d e Janeiro. compreendeu a inconveniência das numerosas reuniões provocadas pela presença de (20) A brochura de que se trata intitula-se: I m p u g n a ç ã o analítica ao exame feito pelos clinico« Antonio Pedro de Souza e Manoel Quintão da Silva. o padre CIPRIANO DA SANTÍSSIMA TRINDADE. em 1814. milhares de pessoas. vinham pela manhã e à tarde procurar em casa de seu dono sua costumeira ração de milho. e dois cirur- giões dos arredores aumentaram ainda a veneração pública. Entretanto. onde prova. aos sábados. não somente eles não s e apresentavam para a ração. escondiam-se no campo. achou-se no dever de refutar a declaração dos dois cirurgiões e. no pasto.ue a meu ver merece ser relembrado: "Uçri proprietário dos arredores de Caeté possuia uma tropa de mulas que empregava no transporte. para admirar o prodígio de que ela era teatro.

não me pareceu desprovido de instrução. Os devotos ficaram muito preocupados com a proibição do bispo de Mariana- mas não sossegaram. Todas as terças-feiras ela experimentava um êxtase de algumas horas. para diminuir o pretenso milagre. Pouco tempo antes da minha estada ali. proibiu a celebração de missas na montanha. Haviam-me ga- bado muito o desinteresse e a caridade dêsse eclesiás- tico. mas havia terminado por lembrar-se que a terça-feira era o dia em que se costumava oferecer à meditação dos devotos os sofrimentos de Jesus cru- cificado. seus braços deixavam a posição na- tural e. 120 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE GERMANA na serra da Piedade. ho- mem grave. Várias pessoas ofereceram a GERMANA abrigo em suas casas. um novo prodígio começara a se manifestar na pretendida santa. ela preferiu o seu diretor. de tempo em tempo seu diretor ali ia dizer missa. solicitaram diretamente ao rei a permissão de celebrar missas na capela da serra. enquanto durasse o êxtase. ficavam cruzados atrasadas costas da doente. tui recebido pelo diretor da enferma. sendo atendidos. e na ocasião de minha viagem a fre- quência de peregrinos e curiosos renovava-se sema- nalmente. e. GERMANA foi novamente levada ao alto da serra. Conversámos durante muito tempo. que residia nas vizi- nhanças da montanha. No correr da conversa que tive com o seu confessor disse-me ele que durante algum tempo não soubera como explicar êsse fe- nômeno. Falou-me de sua . Quando cheguei pela primeira vez ao alto da serra. de idade avançada. sob o pretexto de que o rei não havia dado permissão.

Se o que êsse padre me relatou sobre sua ascendência sôbre GERMANA não foi exagerado. que os homens competentes estudas- sem o estado de GERMANA. ela não hesitará em atender- . Afirmou - me. se- gundo me disse. mas com os braços sempre cruzados. os partidários do magnetismo animal daí tirariam provavelmente grande partido em apoio de sua doutrina. GOMIDE foi de te. com efeito. por pouco que tocasse o braço ou a mão da doente êle lhes dava a posição que quizesse.r escrito seu opúsculo sem se ter dado ao trabalho de vir ver a enferma. que em meio às mais terríveis convul- sões era bastante que êle tocasse na doente psra torná-la calma. ela se levantara. Quando GERMANA se achava em seus êxtases periódicos. desde essa ocasião sempre repetiu a comu- r p P M n L T Í O d C S C t l S ê x t a s e s . O qu* é certo é que tendo o confessor de GERMANA lhe or- denado que comungasse em um dos seus dias de êx- tase. Desejava. e a única censura que fez ao Dr. e. ajoelhada.A l i á s > 0 d i r e t o r de ^ K M A N A falava sempre com muita simplicidade do donMirf T ! ? S Ô b J e a P r e t e n s a s a n t * i êle o atribuía à «ocihdadea c rda enferma e seu respeito pelo caráter sa- PorW escentando que qualquer outro eclesiástico P a e u a conseguir os mesmos resultados. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 121 penitência sem nenhum entusiasmo. num movimento convulso do leito em que havia sido levada à igreja. Êsse homem exWmrf 0 0 1 " a q U ' d a C O n f í a n ç a q u e o s magnetizadores * tal q u í SseUeu l i " ' 0 8 1 ? ° b c d i ê n d a d e S S a P ° b r e inteira 1 ' r e o r c I e n a r <ilie P a *se uma semana Sem se aumentar. seus membros adquiriam tal rigidez que seria mais fácil quebrá-los que dobrá-los • mas se se pode acreditar no testemunho de seu con- fessor. ela recebeu a santa ' ostia.

não tivera a liber- dade de estender-se completamente. Perguntei-lhe como se achava. com a ca- beça envolta em um lenço. deitada de costas. Experimentei várias vezes dobrar seus braços. Percebi seu rosto sob um grande lenço que se pro- longava adiante de sua testa. Pedi para ver GERMANA e fui levado ao pequeno quarto onde ela ficava permanentemente deitada. A irmã de GERMANA que o r d i n a r i a m e n t e . mas indicava grande magreza e debilidade extrema. Nessa posição GERMANA conser- vava a mais perfeita imobilidade. mas. Sua fisionomia era doce e agradável. a rigidez dos músculos aumentava em consequência de meus esforços e convenci-me de que se insistisse poderia prejudicar à doente. e nada sofrerá. não agitasse ligeiramente a co- berta. o polegar e o indicador estavam esticados. os outros dedos fechados. idade que efetivamente lhe atribuíam. ao quarto de GERMANA. Ela se achava sobre seu leito. o outro estendia se para fora da cama e estava apoiado sobre um tam- borete. um deles detido pela parede. acrescentava. fui. Na v e r d a d e fechei suas mãos várias vezes.122 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE me. os joelhos dobrados e os pés colocados um sobre o outro. com voz quase sumida. ela respon- deu-me que se achava melhor do que merecia. seu pulso era apenas perceptível e poder-se-ia acreditá-la morta se seu peito. Voltando na sexta-feira ao alto da montanha. Seus braços estavam em cruz. pareceu-me não ter mais de 34 anos. receio ofender a Deus com uma experiência dessas. pela segunda vez. inutilmente. e. devido à respiração. mas no momento em que largava seus dedos eles retomavam a posição an- terior. A doente tinha as mãos extremamente frias. Tomei- lhe o pulso e surpreendi-me de achá-lo muito acelerado.

Antes de subir à serra. mas que ela frequen- temente gemia e suspirava. não mais vi falar a seu respeito. que sua cabeça se. Depois ?p Urao rl t Uadoo s estava escrito tive notícia cque a morte havia posto sofrimentos <?e GERMANA. para ver GERMANA du- rante seus êxtases. . Saindo da fazenda de ANTÔNIO LOPES. para ser exato. pretendera experimentar nela a ação do magnetismo animal. mas. disse-me que essa pobre moça não se apresentava sempre tão calma durante seus êxtases. agitava sobre o travesseiro. como nesse dia. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 123 cuidava dela. devo confessar que minha atenção era desviada sem cessar pela presença de testemunhas e por suas conversas. e ignoro qual tenha sido o fim dessa in- feliz (21). que na verdade seus pés e seus braços ficavam constantemente imóveis. e recentemente as autori- astâ-la da Serra. sob pretexto de tomar o pulso da doente. coloquei minha mão esquerda sôbre a sua e pús-me na disposição de espírito exigida pelos magnetizadores. mas a presença de várias testemunhas impediu-me de fazê-lo com regularidade. e que se achava presente na ocasião de minha visita. Deixei a serra da Piedade no dia seguinte àquele em que vira GERMANA em êxtase. para ir a Sabará. e que movimentos convulsivos se manifestavam principalmente ai pelas 3 horas. momen- to em que Jesus Cristo expirara. tornei a passar pelo povoado da Penha. Distanciando-me da região em que ela residia. Entretanto. nenhum resultado obtive.

Francisco. é. como dis. As margens desse riacho foram exploradas. Aqui. principalmente tendo-se em conta. Não e demais dizer que entre Caeté e a cidade de Sabará eu me achava na vertente ocidental da grande cordilheira. asse- melha-se à da cortiça. que. e. como em toda parte. e este último lança-se no rio das Velhas. 0 nome de u m a p a l m e i r a . Mostra-- iam-me nesta zona minerações das mais antigas da província. <22) Macaflba. para arrolhar garrafas. dão- lhe na região o nome de cortiça. o rio Ouro Fino recebe as águas do riacho que corre em Caeté. Seria interessante procurar multiplicar a falsa cortiça dos arredores de Sabará. foi preciso cavar para chegar ao cascalho. os dois reunidos tomam o nome de no Sabará. da qual talarei em seguida. Essa árvore. cuja casca espessa. 124 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE logo depois segui as margens de um riacho chamado no do Ouro Fino. sem a menor prudência deixaram cobrir com o resíduo das lavagens os terre- nos que ainda não tinham sido trabalhados. suberosa e elástica. pareceu-me ser uma Mimosa. um dos afluentes do rio S. Próximo do rio Ouro Fino vi árvores de tamanho medíocre. nome que em Portimal oao ao Quercus suber. por todos os lados. pelos mineradores apresentando-se cheias de excavaçôes e montes de pedras. . a gente se vê frequen- temente obrigado a servir-se dos sabugos de milho qUe COm 86 Sabe é es etestYco ' ° ' P°nÍ°so e Pouco Antes de chegar à fazenda Macaúbas (22). que apenas apresentava folhas quando a observei.e. sendo empregada para o mesmo fim. no interior do Brasil.

nome que em Portugal oao ao Quercus sufeer. cuja casca espessa. como dis. dão- lhe na região o nome de cortiça. Francisco. pareceu-me ser uma Mimosa. pelos mineradores apresentando-se cheias de excavações e montes de pedras. Seria interessante procurar multiplicar a falsa cortiça dos arredores de Sabará principalmente tendo-se em conta. suberosa e elástica. foi preciso cavar para chegar ao cascalho. que apenas apresentava folha« s quando a observei. Mostra- iam-me nesta zona minerações das mais antigas da província. sem a menor prudência deixaram cobrir com o resíduo das lavagens os terre- nos que ainda não tinham sido trabalhados. que. os dois reunidos tomam o nome de no Sabará. (22) Macoüba. no interior do Brasil. Próximo do rio Ouro Fino vi árvores de tamanho medíocre. 0 nome de u m a palmeira. . para arrolhar' garrafas. é. Aqui. por todos os lados. As margens desse riacho foram exploradas. o rio Ouro Fino recebe as águas do mcho que corre em Caeté. elástico q U C ' C ° m 0 SC S a b e ' é e s P ° n Í ° s o e Antes de chegar à fazenda Macaúbas (22). sendo empregada para o mesmr J i s s a ar 10 vore. da qual talarei em seguida. Não ademais dizer que entre Caeté e a cidade de Sabará eu me achava na vertente ocidental da grande cordilheira.e. a gente se vê frequen- temente obrigado a servir-se dos sabugos de milho. e. como em toda parte. e este último lança-se no rio ^ r U m d 0 S afluentes do rio S. 124 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE logo depois segui as margens de um riacho chamado rio do Ouro Fino. asse- melha-se a da cortiça.

«evo e n t r e - eursaia a Í e n c o n t r o Cuiabá nem na l i s t a d a s su Sabará Al?ás t * * P . Em meio ao ruído das águas. Essa má- quina fora construída a meia encosta. quando « |uai X^-^MSF^ avras ÊUaranís ou t a n t o ^ s c l a ^ e c e r 1 ? . acima do rio Sabará. ! .° r P T Z A R R O ' na d a s do t ê r m o de a-.W ^o admite para haja indicado um n o m êq ^u en T n ao s e i a ^ í T ^ o seja usado na ^ região. proximo daí se achava a mina. Passei por essa fazenda cujas ins- talações sao consideráveis. distinguia-se entre- tanto o de um moinho destinado a fragmentar minério de ferro onde se encontra encerrado ouro.aldeias senão o? f n ^ ! 1 PIZARRO . os desmoronamentos que vinham de se verificar provavam quanto esse processo é perig-oso O moinho e a mina de que venho de tratar pertencem a fazenda de Macaúbas. A chuva caía quase perpendicularmente em gotas grossas e pesadas • num instante fomos encharcados até à pele. Descia- mos então uma encosta de declive áspero. situada à cerca de 2 léguas da cidacxe de Sabará. Nos outeiros vizinhos aldeia existiam diversas minas em atividade. mas pareceram-míe mal conservadas. Margeando sempre o rio Sabará. abaixo do rio oabara. mas depois de Macaúbas fomos sur- preendidos por terrível tempestade. explorada a ceu descoberto. 1 ? 6 ^ 0 8 ° q u e * S e d i s n a r e ^ ã o . C^bá .1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 125 Depois de Novembro quase não se passara um dia sem chuva. o caminho servia de leito às águas que se escoavam em torrentes e o tempo sombrio acrescentava nova tristeza ao as- pecto naturalmente agreste da região assáz monta- nhosa que então atravessava. cheguei ao ar- C UÍab á « r K ( * > P e r t ~ t e à p a r ó q u V d e Cae_ 01 c o n s t r u i d a m n l f ? sôbre a encosta de um monte.

sucursal de Sabará. mas. uma ponte marca essas divisas. E' a pouca distância de Cuiabá que se acham as divisas entre os termos de Caeté e Sabará. Então a necessidade imperiosa forçá-lo-á à renunciar a esse sistema agrícola destru- tor. e Pompéu. à medida que o ouro desaparece. serão rapidamente esgotadas. encontrei região mais descoberta. observa-se que em um espaço de 20 léguas passei por duas cidades e< cinco aldeias. quando cheguei a Sabará. das quais tudo se retira e nada se restitue. do outro lado. Entre- mentes as terras destas regiões. mas as minas esgotaram-se e a aldeia acha-se atualmente quase deserta. Havia percorrido 4 1/2 léguas depois da serra da Piedade. . mas já não haverá consolo para a lembrança das belas florestas cujas árvores preciosas. situada também à margem do rio Sabará. podiam ser úteis a uma longa sucessão de gerações. Atravessei-a e. achava-me à margem esquerda. Em poucos anos um pequeno número de homens terão estragado uma imensa província. entrei na velha cidade. Essa cidade fica à margem direita ou setentrional do rio do mesmo nome. após atra- vessar uma ponte de madeira. e poderão dizer: "é uma terra acabada". a população desaparece com ele e dirige-se em massa às regiões agrícolas. As margens desse rio forneceram outrora muito ourò. exploradas com critério. A uma légua da capital da comarca do Rio das Velhas atravessei a aldeia de Pompéu ou Santo Antô- nio de Pompéu. Segundo o que relatei. Isso prova como foram povoadas outrora as zonas auríferas da província de Minas. e. era rico e florescente.126 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE de minha viagem.

jardim. suas ruas. lê-se na biografia de FERNÃO DIAS PAIS LEME. A história de Sabará acha-se estreitamente ligada à da descoberta da região das minas. a vinha aí produz duas vezes por ano. — ESTRADA DE SA- BARÁ A VILA RICA. CAPÍTULO VII A CIDADE DE SABARÁ. pontes. — Aspecto da região entre Sabará e Vila Rica. suas casas. —• Causas da miséria da região entre Sabará e Ana de Sá. Os habitantes de Sabará. —• Arraial de Casa Branca. que êle formara 3 estabelecimentos no ter- ritório de Sabará (provavelmente de 1664 a 1677) (1). Inhumações. — Arraial de Santo Antônio de Rio Acima. História de Sabará. JOSÉ TEI- XEIRA. Essa boa fortuna estava reservada ao seu (1) Originariamente o território de Sabará tinha o nome de Sabará-Bussú ou Suberá-Bussú. edifício da Intendência e o produto das minas da comarca de Sabará. — O rio das Velhas. Comércio. pilões de minério. — Arraial de Santa Rita. entretanto. fontes e praças. gosto pela ênfase. — Aldeia de Rio de Pedras. suas igrejas. — A situação dessa ci- dade . da utilidade de aí criar-se gado. Não foi êle. E s s a semelhança de nomes lança alguma confusão na história da fundação da província de Minas. Produtos da região. O professor de latim. história que não remonta a 200 anos e que entretanto apresenta mais de uma . — A habitação de HENRIQUE BRANDÃO. O Sr. — Aldeia de Congonhas do Sabará. a quem se deve essa descoberta. seu caráter nobre. mas parece que a essa época dava-se também o nome de Sabará-Bussú oji Tuberá- Bussú à s m o n t a n h a s atualmente chamadas Serra das E s m e - raldas. quem descobriu as ricas jazidas desta zona.

dizem. e que o que de e S s i S ' ° P a g a v a de turmalinas ou pedaços . mas talvez Sabará venha somente de cabará. le- Rel T s e m ao Rio Doce ÍV. na verdade. D. minha 1. BOR- BA GATO recusou ceder a propriedade que lhe que- riam confiscar.1 P 6 dír a n 5 ^ Minas.U S SPIZARRO diz que os vocábulos Subrá-Bussú ou Tu- Ú sisnilficani f rí cousa aveludada. internou-se com alguns índios nos desertos de Rio Doce e viveu entre os selvagens como seu cacique. RODRIGO CASTELO BRANCO foi morto pelos companheiros de seu adversário. Paulo e obteve promessa não somente de perdão. vado 2 Lm 0 e r«M e Q n tdUe. indo em busca das pre- tensas minas de esmeraldas.» melharWo! i ® durante algum tempo a pesquisa de pedras se- rlsiâo ^ c ° b j e t J? qdUa es hexcursões feitas pelos paulistas na v e f i a d e í r L 1« e n U2 a s n a o pj er o vPí anrcei cae certo é que nâo existem se t o í o u t J . BORGA GATO ficou senhor da pólvora e dos instrumentos de mine- rador que seu sogro deixara nos arredores de Sabará. um conflito teve lugar e D. Após a morte de FERNÃO DIAS. Entretanto ele pediu perdão por intermédio cie seus parentes residentes em S. como pensa SOUTHEY. MANOEL BORBA GATO. Quanto à desinência bu8»fl é muito possível qu e seja. cába oçfi significa peludo na língua geral. Cumpri- dúvida. o qual não deu no- tícias de suas pesquisas senão após haver vívido unia long-a série de aventuras romanescas. chegara às margens do rio das Velhas com um grupo de paulistas (2). que. desde que ele se dispuzesse a mostrar as minas que dizia ter descoberto no território de Sabará. uma c o r r u p t e l a da palavra g-ua»sü. mas ainda a de uma recompensa. Temendo punição êste último fu- giu . 128 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE genro. palavra guarani tomada do portu- ™ hespanhol. R O D R I G O DE CASTELO BRANCO. mas esses objetos foram reclamados para o serviço público pelo superintendente das minas. e Í rs 0u a M vAi *a C O S AZEREDO havia. cabra. que significa grande.

(De um quadro a óleo de Manoel P e n n a ) . no morro do me sano nome.A casa da " I n t e n d ê n c i a " . em Sabará.

dá o nome de ^•AJ^KIEI.t o s a p a g a r o quinto. julgou que esse arraial era assaz povoado para ser erigido em vila e deu-lhe o título de Vila Real de Sabará. Um certo personagem. O que é certo é que A R T I S não é nome p o r t u g u ê s . cha- mado ARTIS. que se tirava da terra com tanta facili- dade. p o r q u a n t o apos essa r e t i r a d a êle não exercia m a i s comando das tropas.s e por fim. 426) r e p e t e essa n a r r a t i v a colocando-a mais ou menos e n t r e os anos 1710 e 1713. MASCARENHAS ao g o v e r n a d o r que foi a s s a s s i n a d o . primeiro governador de S. Não pude descobrir. terminando mesmo por obter o título de governador. . 273) que a l g u n s anos após a f u n d a ç ã o de Sabará. O h i s t o r i a d o r f r a n c ê s do Brasil (Híst. c o n t r o l a r os novos 2 o ! ! ! e f o r e á . fez seguir ti opas que d o m i n a r a m Sabará. NUNES VIANA. p e g a r a m em armas. FRANCISCO D E CASTRO MORAIS não poude enviar « opas a Minas após a r e t i r a d a de DUGUAY TROUIN. a 31 de Outubro de 1717 (3). a côrte de Lisboa enviou um n o b r e p a r a g o v e r n a r a região. que havia feito d e s c o b e r t a s i m p o r t a n t e s na região.págf. com se- gurança. que foi confirmada pelo rei de Portugal. ANTÔNIO DE ALBU- QUERQUE COELHO. v o l . Então seus arredores forneciam ouro em abundância. desde o ano de 1711. que os habitantes da região dizem que era bas- tante arrancar um tufo de mato e sacudi-lo para ver (3) MAWE diz (Traveis ín tlie interior of Brazil. Durante alguns anos a vila de Sabará foi rica e florescente. . que não houve em Minas nem no Rio J a n e i r o g o v e r n a d o r c h a m a d o GABRIEL MASCARENHAS e que enfim. e essa escôlha conciliou tocios os partidos. h o m e m cheio de intrepidez e constância. du Kiesii. r T ? ^ a C r e S C e n t a q u e a p 6 s a f u g : a d e DtTGUAY TROUIN. g o v e r n a d o r do Rio de Janeiro. o g o v e r n a d o r foi m o r t o . mas suponho ser a de BORBA GATO ou a de MANOEL. Paulo e de Minas Gerais. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 129 da tal condição foi BORBA GATO nomeado tenente general. vários combates t i v e r a m l u g a r . m a s o vice-rei r e m e t e u reforços e os rebeldes s u b m e t e r a m . III. mas êle chama Sa- n 0 A ü ü r ^ v i l a o n d e o s conflitos t i v e r a m l u g a r . é M A W E quem o diz. a o r i g e m de t o d a essa história. d e t u r p a d a . FRAN- C I N O DE CASTRO. Numerosos aventureiros acorreram a Sabará. a c r e s c e n t a o mes- mo autor. que não h á o l u g a r c h a m a d o S a b o r á . foi nomeado governador. Êstes.

A comarca de Sabará se divide cm três termos. Francisco. e a oeste até à província de Goiás. a de Paracatú. a leste a de Sêrro Frio (4). o da vila propriamente dita. hist. . A comarca de Sabará é a cabeça. vol. . compre- endendo 8 paróquias. abrangia durante muito tempo. é verdade. Todo o mundo afirma. e que tem o nome de comarca de Sabará ou do Rio das Velhas. S. que é florestal e aurífera e que seria mais lógico fôsse anexada à Vila (4) P i z . sendo mantida apenas por seus tribunais e sua intendência do ouro. Doutro lado. A grande cordilheira divide-a em duas partes desiguais e muito diferenciadas: a do oriente. João d'El Rei e de Vila Rica. Lavadas e relavadas mil vezes as terras vizi- nhas do rio Sabará e do rio das Velhas nada mais podem dar ao minerador. é preciso ter escravos e há na região pouca gente suficientemente capaz de se dedicar a empresas tão importantes. as comarcas de S.Sabará não faz nenhum comércio. de que se separava pela serra dos Cristais e da Tabatinga. 31 em.130 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE surgir pedaços de ouro. e os de Caeté e Pitanguí. e então ela se estendia ao norte até aos limites de Per- nambuco a 13°17' lat. VIII. Um decreto de 17 de Junho de 1715 des- membrou desse imenso território uma comarca nova. Atualmente isso não é mais assim. hoje a comarca de Sabará é limitada a oeste pelo rio S. Dos outros lados ela conservou seus antigos limites a saber: ao sul. que os morros circunvizinhos conteem ainda tesouros imensos. para possuí-los é preciso pagar adiantado. quase um terço da província. mas..

° pág. Francisco. 2. quan- do de minha viagem. pág. Apertada entre os montes e o rio. cobertos de capim gordura. porque foi lá que se formaram os mais antigos estabelecimentos. êle podia ter as dimensões do Essone junto a Pithiviers. A cidade de Sabará. Na v e r d a d e PIZARRO diz (Hem.000 habi- tantes (7). A g r a n d e cordilheira divido as á g u a s dêsse rio e as do rio Doce. dos Srs. a c r e s c e n t a em seguida. a maior que vi na província de Minas depois que deixei Vila Rica. t i r o a s c i f r a s a q u i indicadas. na estação chuvosa. não se pode f i a r nesse número. A parte da cidade mais distante da embocadura do lio Sabará tem o nome de Vila Velha. a do ocidente. acha-se a W I S " lat. 100) que S a b a r á contem 7. mas no tempo da sêca êle é apenas constituído por um filete dágua.660 indivíduos. liist. Êsse rio lança-se no rio das Velhas à extremidade mesmo da vila. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 131 Rica. que compreende vá- rias s u c u r s a i s . isto é. mas. p.porque em outro l u g a r (id. que hoje existem em Sabará 9. (6) Tal é a indicação de PIZARRO. (7) Não tendo t o m a d o a p o n t a m e n t o s sobre a população de Sabará. (6) e pode ter 800 casas e 5. de Sabará de 19° 52'35". por conseguinte a parte o r i e n t a l da c o m a r c a deve ser b a n h a d a pelos a f l u e n t e s do último dêsses rios. SPIX e MAR- TIUS. Foi construída ao pé de uma série de montes pouco elevados. e forma nesse lugar uma espécie de (5) O que digo a q u i é suficiente para provar que CAZAL se e n g a n a q u a n d o diz q u e a comarca do Rio das Velhas é i r r i : gada pelos a f l u e n t e s do S-. e n ã o se sabe se êle se r e f e r e à vila pro- p r i a m e n t e dita ou ao c o n j u n t o paroquial. que apresenta principalmente pas- tagens e um povo dado à criação de cavalos e gado (5). S'egundo os mate- máticos p o r t u g u e s e s citados por ESCHWEGE a lat.100 almas. . que se alarga diante da igreja paroquial. e se estende por cerca de 1/4 de légua à margem seten- trional do rio que lhe dá o nome. Vila Velha não se compõem senão de uma rua. 104) o mesmo escritor não o aplica s e n ã o aos c o m u n g a n t e s existentes em 1778 em S a b a r á .

As de rés-do-chão são em geral baixas e pequenas. Várias dessas ruas são muito largas . mas as casas que a compõem são todas caiadas e bem conservadas. mas com pedras pequenas e desiguais. Imediata- mente após essa colina. as rótulas e os por- tais não são pintados de vermelho escuro. Para além de Vila Velha a vila se prolonga sobre uma pe- quena colina terminada por um "plateau" sobre o qual se acha o edifício da Intendência do ouro. Os lambris. elas são quase quadradas e são cobertas de telhas com pouca inclinação no telhado. como sempre. os móveis. que se chama rua Direita. à qual dão o nome de Barra. posso citar sobretudo a principal. Várias teem um andar e janelas envidraçadas. onde é construída a Vila Nova. segundo a pra- xe. são pouco numerosos. deixando entre êles e o rio um espaço considerável. mas hoje não anuncia senão decadência. A Vila Nova forma uma espécie de triângulo muito irregular. No tempo em que Sabará ainda era florescente Vila Velha era a parte mais rica e mais habitada . O interior das casas em que entrei pareceu-me muito limpo. apesar de ser em ziguezagues. crescendo mato por tôda parte.132 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE praça onde se celebram as festas públicas. mas menos velhos que os de Vila do Príncipe. os montes desaparecem. As ruas de Sabará são calçadas. que significa confluência. os tetos e os ângulos dos quartos são pintados. . como em Vila Rica. Sabará não apresenta o aspecto triste da capital da província. A forma das casas é a mesma que a de outros lugares . é pouco movimentada. que se denomina Morro da Intendência. Os telhados não avançam muito além das paredes .

Uma das igrejas de Sabará de que não posso deixar de falar é a do Carmo. E' construída de pedra. é do- tada de naves laterais com capelas. muito limpa. situada abaixo da Inten- dência. bonita no interior. Pode dizer-se que em geral as igrejas da província de Minas são mantidas mais asseadas que as nossas e. por um vaso de barro cheio dágua. acha-se em ruína. se as artes não apresentam nenhuma obra prima. as arcadas que separam essas naves do corpo central são guarnecidas de escul- turas góticas e todas douradas. muito comuns em Sabará. E' atravessado. sou inclinado a acreditar que são da autoria do mesmo artista que fez as pinturas da igreja de Ouro Preto. no mesmo monte. o que até então não vira em nenhuma parte. D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 133. Os dourados foram aí empregados com espantosa profusão. A igreja matriz. cada. em seu comprimento por uma aléa guarnecida. de cada lado. Cada lado do coro é ornado por três quadros representando passagens da vida de Tesus Cristo. por uma fileira de laranjeiras cujos pés são envolvi- dos. dedicada a N. Há ern Sabará 5 igrejas principais e algumas ca- pelas. Acha-se situada na Vila Velha e é um monumento da riqueza dos primeiros habitantes de Sabará. (8) S'egundo PIZARRO ela foi fundada em 1701. e são os melhores que vi na pro- víncia . S. de subir às árvores e devorar as folhas. velho edifício de um andar. em compensação não se vê nada bizarro nem ridículo. em Vila Rica. isso é usado para impedir às formigas. A séde da Intendência do ouro. da Conceição c. 0 . ornada de muitos dourados e muito clara. mas seu pomar é notável em relação a esta região. ao que parece a mais antiga de todas (8).

^ uni das l a v r a s de M i n a s G e r a i s . e ar lr 1Ugar d e 12T A l i á s acredLt r! o quX V ^ n ^ í í . de 1813 a 1915. (9) •Já dei (Vide m i n h a 1.Corog. E S C H W E G E . ae ^ y . com e f e i t o ela iTtJ . pouco cômodas e indignas de um estabelecimento que fornece ao Estado somas tão avultadas. era média. pàg. d A --» •.s creio d e v e r v o l t a r a o a s s u n t o .3 termos que compõem a comarca de Sabará. todavia ela é muito mais i m p o r t a n t e que a de Víh.. ° . o m f s m o método eme era Vila do Príncipe. sendo a operação acompanhada das mesmas formalidades. na época em apreço. para fundir o ouro. em duas arrobas de ouro por t r i m e s t r e . n f s p a r a a j u r i s d i ç ã o da I n t e n d ê n c i a de Sabará. —Brasiliana) Annda Coleção . 339j (Cor- V /"»Ir 7 -wv-i 12*._ " c / T í U C o m p r e e n d e n d o a c o m a r c a d» P a r a c a t ú ) . cento e noventa e sete lavras de ouro nos . Além da praça de que já falei. H « . i G E nao s e j a c o m p l e t o (10) CAZAL . vê-se na Vila Nova uma outra. Segundo o Sr. I. p u b l i c a d o por ma . físse local compõe-se de quatro ou cinco peças muito pequenas e baixas. 134 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE E1 no pavimento térreo da Intendência o local consagrado à fundição do ouro. era 1818. não havia mais de 193 lavras na juris- dição da intendência de Vila Rica. do Príncipe e o produto do quinto avalia-se ainda. a f i m d* s a n a r i r ^ i ^ T c ? 1 ^ s e i n t r o d u z i u na m i n h a c i t a ç ã o .» Relação. V'. João d'El Rei. A Intendência cie Rio das Ve- lhas rende ao govérno infinitamente menos que outro- r a . . vol. apesar de pequena e irregular.. Sabará possue algumas pontes e uma fonte de excelente água (10). 97 na cie Serro Frio e 17 na de P a r a c a t ú (9). na \ iia \ elha. Adota-se em Sabará. 2SS. pois se o quadro do viajante alemão é exato. contavam-se. maior número de lavras. 187. O ouro dos arredores de Sabará é de 22 a 23 quilates. I. J ^ s p o n a e ao Volume ÇA C \ r\ 1 O p á . 127 na de S. . Braz. muito bonita. o que sig- nifica que esta comarca possuía.

corno disse. e. 273 e 276. chupei saborosas u v a s . uma segunda colheita em J u n h o e Julho. tempo da seca. pág-s. Durante minha estada em Sabará. boa aparência. mas. V I I I . >Iem. produz também com abundância o arroz. muito florescente. p á g . As relações mercantis dos a r r e d o r e s fazem-se na aldeia.m e ír-enos afetuosos que i os de Tijuco. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 135 Existe em Sabará um g r a n d e n ú m e r o de tabernas. o milho e o leilão (12). amadurecendo melhor e não apodrecendo com facilidade. . Em meados de Janeiro. A u n a de açúcar prospera muito bem nos t e r r e n o s desta vila . modos distintos. época em que c li estive. e esta Vila não exporta produtos da lavoura. entretanto. I I — 334 e 337. p r ó x i m o ao rio das Velhas c a entrada cio sertão. Apesar de muito quente o clima de Sabará não ocasiona. achei-os de uma polidez perfeita. que te em gosto mais agradável que os de Janeiro. em J u n h o e julho. contendo menor quantidade dágua. na rua chamada do F o g o há várias casas onde se vende ex- clusivamente o toucinho. ( C o r r e s p o n d e ao V o l u m e 126-A.» Rei. mas p a r e c e r a m . de Santa Luzia. uma nova poda prepara a primeira colheita cio ano seguinte. Após a colheita da esta- cão das chuvas as folhas c a e m . é o verdadeiro e n t r e p o s t o desta u 11 i tu a regi ã o (11). si- tuada a 3 léguas cie Sabará. hist. J Não é r a r o en- contrar-se em Sabará homens que receberam instrução (11) V i d e m i n h a 1. que. nem da indús- tria. u i u n i a s lojas de comestíveis e fazendas . podam-se as plantas e obtem-se. da C o l e ç ã o Brasiliana) • (12) PIZ*. a vinha dá novos frutos. n e n h u m a espécie de epidemia. vi os principais moradores da vila. Corno já disse. a comarca de Sabará se limita ao sen consumo interno.

João VI.sobre a< vantagens da filosofia. Os versos que frequentemente fa- ziam honra de D. e intendente ou inspetor do ouro. Além do seu curso de latim. muito bem concatenados. pago pelo governo. pro- vou-me que não há aqui menos gosto pela músic'a que nas outras partes da província de Minas.136 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE e que sabem o latim. em casa do Sr. O Sr. então juiz- cle-iora. O orador queria "ter a eloquência de Cícero para celebrar seus benfeitores: ele queria poder fazer conhecido do universo inteiro a acolhida que tivera na vila. era de tal modo ridículo nu* ou vindo-o custei a conter o riso. T E I X E I R A era um . no qual o autor agradecia aos habitantes de Sabará a hospitalidade que^ havia encontrado. . O texto apresentava uma série de lugares-comuns. formado pela Universidade de Coimbra. O profes- sor de Sabará era um homem bem educado. e ter à sua disposição todas as trombetas do sucesso. Os homens de uma certa classe sâo bem trajados. e notei mesmo que os empregados da Intendência se vestem com mais cuidado e asseio que os nossos funcionários. na capital da comarca do Rio das Velhas. que os portugueses ainda con- servam ate hoje. Entre as pessoas que vi em Sabará posso citar o professor de gramática latina. eram geralmente cheios do mais ndicuo exagero. Hospedei-me. Fui aco- Perfeitamente. o exórdio. e uma missa. aí destacado em virtude da lei que determina que cada cabeça de comarca tenha um professor de latim. lecionava filosofia racional e moral. JOSÉ TEIXEIRA. mas. a que assisti. aliás. O professor de Sa- bara nao fazia. nada mais do que se adaptar a esse gosto pela ênfase. êle teve a bondade de ler para mim sua aula inicial. no que era pago pelos alunos.

. seu desinte- resse. (13) Depois que o B r a s i l se t o r n o u independente o S r . 110 e 128. por tôda parte onde o conheciam gaba- vam-lhe as qualidades. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 137 homem de 40 e poucos anos. Despedi-rne desse respeitável magistrado. ou mesmo viajando nessa cadeia. (Corres- Volume 126. JOSE' T E I X E I R A foi g u i n d a d o a c a r g o s os mais i m p o r t a n t e s . Já disse em outro lugar (15) que a cordilheira dividia a região das florestas da dos campos.» Hei. poi-ri ( Í 6) ao m i n h a l. p á g . para seguir a Vila Rica (14). vol. I. JOSÉ TEIXEIRA. p á g . sua humanidade. vol. e s o b r e t u d o meu " Q u a d r o da Ve- féetaçao P r i m i t i v a da província de Minas Gerais". dirigindo-me mais ou menos para sul-sudeste. da Coleção Brasiliana). Nascido em Minas. rico e de semblante muito agradável. sua compe- tência e seu amor à pátria (13). devia naturalmente percorrer uma zona muito montanhosa. Era impossí- vel desfrutar melhor reputação que a do Sr. Contornando sempre a vertente ocidental da grande cordilheira. . pois durante as 18 léguas que percorri entre Sabará e Vila Rica atravessei quase sempre terrenos cobertos de tufos de matas ou pas- tagens de capim gordura e foi unicamente em trechos limitados que vi campos naturais mais ou menos seme- lhantes aos dos arredores de Barbacena (16). m i n h a 1. entretanto as matas se estendem quase até a vertente ocidental. insei-to nos Anais do Ciências N a t u r a i s " . sua candura. seu amor pela justiça.a Rei. de Setembro de 1831. 111 e 134. fizera seus estudos em Coimbra e tinha conversação atraente. " Cocho d ' Á g u a 3 1/2 " ^ " A n a de Sá 4 R a n c h o de J o s é H e n r i q u e 3 " " Vila R i c a 3 1/2 17 1/2 ( 5 > Vide l . (14) I t i n e r á r i o a p r o x i m a d o cie S a b a r á a Vila Rica: Dq S a b a r á a H e n r i q u e B r a n d ã o 3 1/2 l é g u a s .

. estava de tal modo cheio que tive dificuldade em atravessá-lo. em suas vizinhanças. dizem. 384. Em um monte elevado. Era um campo natural composto de ervas. Braz. (18) O que digo da insalubridade do rio das Velhas não é: penso. depois inclina-se um pouco para oeste. AUGUSTO DE SAXNT-HILAIRE Nesta viagem afastei-me um pouco do rio das Velhas. (17) CAZ. I. após receber em seu curso um grande número de riachos e rios. chamado Morro do Mar- meleiro. muito salubre (18). lança-se no S. no meio das quais surgiam. não oferecem aos olhos senão montes de cascalhos. alguns arbustos. que vinham caindo diariamente. próximo do arraial de S. o rio das Velhas produziu muito ouro. mas acrescentam que depois que as matas vizinhas foram derrubadas e que o ar pode circular livremente. e. de longe em longe. Clorog. O rio das Velhas nasce a algumas léguas de Vila Rica. mulheres velhas da tribu dos Cari- jós. Um córrego que ordinariamente não passa de um filete dágua. a região tornou-se. Êsse rio tem o nome de rio das Velhas. De suas nascentes até Jaguará. subindo sempre em direção à suas nascentes. A pouca distância de Sabará fui ainda atingido pelas chuvas. vi vegetação diferente da dos arredores.. Bartolomeu (17). lugar situado abaixo de Santa Luzia. Francisco. no arraial de Barra. em um espaço de várias léguas suas margens lavadas e relavadas mil vezes. aplicável senão à parte que se estende acima de Jaguará. Dizem que outrora suas margens eram pestilentas como as do rio Doce. resíduos das lavagens. porque os paulistas que procuravam índios acharam. Êle corre muito tempo na direção S-N. c.

. de Sabará. 107. na direção S. porque me acho no c. 236. p. I. S. E' ela situada em uma baixada. Sua igreja. À cerca'de 3 léguas. parei em uma fazenda muito bonita que tem o nome de Fazenda do Henrique Brandão. (21) Loc.. é construída a uma das extremidades de uma praça muito regular. VIII. em forma de um longo quadrilátero. a 14 léguas de Mariana e 96 léguas do Rio de Janeiro (21). (22) Já disse em minha 1. segunda. Após ter feito 3 léguas e meia depois da Vila de Sabará. os trabalhos tornaram-se difíceis e Congonhas atual- mente apresenta decadência e abandono (22). Mem. W. a 19°20' lat.390 indi- víduos (20). O precioso metal esgotou-se. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 139 Notei belas plantas nessa montanha. mas a chuva impediu-me de colhê-las.ever de dar detalhes de aldeias a que não se dava atenção maior se estivessem na Europa. A fazenda do Henrique Brandão é construída a meia encosta sobre um rochedo que domina o vale onde (19) Os Srs. SPTX e MARTIUS escreveram Congonhas cie Mato Dentro: mas eu não encontro êsse nome em minhas ano- tações e PIZARRO também não o indica. passei pela aldeia de Congonhas de Sabará (19). Fui per- feitamente atendido pelo alferes PAULO BARBOSA que eu já havia visto em Sabará e que me havia con- vidado a passar alguns momentos em sua casa. cit. 33°26' long. e sua história é a mesma de tantas outras aldeias.. (20) PIZ. cabeça de uma paróquia cuja população ascende a 1. H i s t .® Rei. da Coleção B r a s i l i a n a ) . isolada como ge- ralmente adota-se neste país. 272. Congonhas deve sua fun- dação a mineradores atraídos pelo ouro que se encon- trava em seus arredores. pág. (Corresponde ao Volume 126.

indicam a abastança dos proprietários. logo reaparece. Êsse jardim não apresenta aliás. As terras e as pedras auríferas são lançadas por uma janela a um cômodo onde existe um moinho de pilão. Quando se julga que as pedras foram suficientemente moídas. que possuem 3 minas exploradas a céu aberto e teem 150 negros (1818). separados por fileiras . por todos os lados. Uma das minas fica ao lado da fazenda e é no terreiro mesmo da habitação que se faz a lavagem do minério. cujas paredes são pintadas. para embelezar um plano distante. de qualquer modo. Algumas casas construídas aqui e acolá e uma porfie sobre o rio. e se de distância em distân- cia êle fica encoberto pelo avanço dos morros sobre o vale. foge obliquamente no meio dos montes.140 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE corre o rio das Velhas. As partes que passam através da esteira são lavadas. onde as habitações são ordi- nariamente colocadas nos fundos. Êste. semelhante aos que já descrevi. mais do que grandes canteiros onde são cultivadas hortaliças. Antes de eu deixar a fazenda. o alferes BARBOSA levou-me ao seu jardim. que é muito grande e irrigado. dão variedade à paisagem. as que não passam voltam ao moinho para serem de novo piladas. Da casa do proprietário des- cobre-se uma vista agradável. joga-se a areia que daí resulta em uma grande esteira formada por paus transversais dispostos como nossas rótulas. uma exceção nesta região. que é muito largo. A posição da fazenda de Henrique Brandão é. mas é pena que a casa não seja voltada para o vale. Os móveis e a lar- gueza dos cômodos. por pequenos regos. o rio aí serpea entre antigas minerações.

p á g . e é uma sucursal da paróquia de Santo Antônio do Rio Acima. Êsse edifício foi construído à beira do rio. e nos outeiros o vento era muito tvio. as nuvens que cobriam o céu comunicavam a toda a paisagem um ar cie tristeza. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 141 de laranjeiras e diferentes espécies de jaboticabei- ias (23). ao fundo da praça. então aproximava-me das nascentes do rio das Velhas e portanto a região tornava-se cada vez mais alta. A alguma distância da fazenda de Henrique Bran- dão. Essa última aldeia compreende apenas um pequeno número de casas em mau estado. (Correspon- ao Volume 126-A. e. faz face ao rio é coberto de mata. Nesse dia somente choveu após minha chegada. As casas são esparsas. O morro que. O caminho estava horrível. a Relação. para aproximar-se da aldeia de Santo Antônio. atravessa-se a aldeia de Santa Rita. ao lado um regato se lança. . No dia em que deixei Henrique Brandão. espumando. A vista da parte da aldeia onde se encontra a igreja é muito agradável. cá e lá. pág. nos jardins a que se dão maiores cuidados. fui parar na habitação de Cocho d'Água. da Coleção Brasiliana). mas dizem que seus arredores foram ricos em ouro. sobre uma larga rocha arredondada. Tal é o sistema adotado na província de Minas. 322. 264. vol. que domina o rio das Velhas. a 3 1/2 léguas. em uma pequena praça coberta de grama e cercada de morros. mas no dia seguinte a água começou a cair quase no momento da minha partida. Nesse lugar o caminho se afasta do rio das Velhas. ao redor da praça. Nesta zona o alto dos morros mais elevados apresenta pastagens naturais compostas de Gramíneas (23) Vide minha l. II.

200 habitantes. os traços do trabalho dos mineradores. segunda. e esta última. se se pode acreditar em PIZARRO.. mas acham-se atualmente desertas ou em ruínas. VIII p. 107) r?!«^ M *?arar . „ ° de Janeiro. ou talvez Pizarrão. Rio de Pedras é a cabeça de uma paróquia. o que. foi outrora populo- sa (24). Em várias partes desta zona a terra foi t^ ( . Como Congonhas e Santo Antônio. mas nos lugares menos elevados vêem- se pastagens artificiais entremeadas de tufos de matas. avista-se de longe e empresta um belo efeito à paisagem. no sertão. A maioria das casas desta aldeia foram construídas com cuidado. 2 4 ) ® ! ^ u n d o P I Z A r r o (Mem. Depois que me puzera em marcha não vira senão localidades em decadência. À cerca de 3 léguas de Cocho d'Água passei pela aldeia de Rio de Pedras. No lugar chamado Piçarrão. encontrei o rio das Velhas. que é cons- truída entre duas fileiras de palmeiras. mas não vira também nenhuma ern tão mau estado quanto Rio de Pedras. A muito pouca distância de Rio de Pedras encontrei ainda uma paróquia. hoje quase abandonada. situada sôbre um outeiro acima do rio que lhe dá nome. a 20°13' lat. assim. Si'a noa u e N8-6 dS -o Rd 1a Conceição de Rio de Pedras. e 333°24' lonfe. não passa de uma pequenina fazenda. não tem senão uma légua quadrada de território. hist. E' a ponte de Piçarrão que delimita as comarcas de Sabará e Vila Vi ainda em Piçarrão. A igreja. fica ÍJ^ . como o são quase tôdas neste país. o que prova quanto esta região. a de Casa Branca. . que não havia visto descle Santo Antônio e que passei por uma ponte muito ruim. em um espaço de apenas 9 léguas atravessei 3 paróquias. 142 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE c sub-arbustos. com 1. de que falarei daqui a pouco.

Os que os. Suas terras são efetivamente muito pouco produtivas. próximo à habitação de Ana Sá (25). mas imprevidentes. vivendo então na indigência. em terrenos que nunca foram explorados. prece- deram possuíam escravos. . a 3 1/2 ls. muito grande. mais de 20 por 1. Essa propriedade foi legada a um negro crioulo por um homem que sem dúvida não tinha herdeiros naturais. há. Os habitantes da região vizinha de Ana de Sá não são compensados pelos resultados da agricultura. disseram-me. Francisco. é porque os habitantes não dis- põem de capitais para explorá-lo. onde parei. há. A habitação de Cocho d'Água. onde eu havia pousado. ordina- riamente celibatários. fornece uma prova do que venho de expôr. não casavam seus negros. digo eu. mas esse homem não deixou nenhum escravo ao seu sucessor e êste procurou em vão alugar suas terras. e os víveres que eles consomem veern em grande parte das margens. um dos afluentes do S. à beira mesmo do rio. na impossibilidade que se acham de explorar suas minas. Se a região está pobre e abandonada não é porque o ouro se tenha exgotado. de Henrique Brandão. mas. do rio Paraopeba.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 143 inteiramente despojada do ouro que continha. sem meios de explorá-las. e os atuais habitantes da região são obri- gados a se limitar a trabalhos que rendem pouca cousa ao minerador. o milho não rende. circundada por uma vasta varanda e tem em sua dependência uma sesmaria de terras ricas em ouro. Os escravos morreram com os proprietários. a 4 léguas de Cocho cTÁgua. (25) E' um nome de mulher. estes deixa- ram a seus herdeiros apenas terras. Ela é de um andar. muito férteis.

Não conheço remédio para esse inconveniente. f p 1 o s ° N E d a comarca de S. (Corresponde ao volume 126-A. mas o governo poderá torná-lo menos sensível. João d ' E l Rei. 412. mais v í . a comarca de v u a Uica o Serro F r i o e a p a r t e Lêste da c o m a r c a de Sabará.e ^l 11118 ' l a Relação. ou ao menos abolindo os direitos que são pagos em Malhada pelos produtos das salinas da Baía e de Pernambuco (28). parece-me mesmo mais favorável. 144 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE O melhor meio de tirar partido dos arredores de Ana de Sá. Essas medidas a c a r - retariam. 387. Todavia. 173. será a de criar cavalos e bois. 1 Volmino i 9r a" . promovendo a baixa do preço do sal. pags. 332. 195. e em geral do território que se estende dessa habitação até Sabará. II. I. 6 m lnha i a Relaefio. é preciso confessar. a água não é aqui escassa como no deserto e a erva dos campos nunca se desseca inteiramente. Esta região apresenta excelentes pastagens e como a situada entre Vila Rica e Vila do Príncipe. conforme já teem experimentado vários proprie- tários. ppaor rt e e s s e n c i a l m e n t e a u r í f e r a . . uma vantagem imensa. sacrifícios momentâneos. sem dúvida. o sertão terá sempre sobre os arredores de Sabará! Vila do Príncipe e Vila Rica. afim de tornar o rio Doce navegável. a de possuir terrenos salitreiros que substituem as rações de sal que se devem ministrar aos animais nas Gerais (26). (Corresponde ao Vo- f . In 1 U mo me 19« .' que o sertão para a criação do gado. da Coleção Brasiliana). mas o Estado seria compensado logo pela prosperidade que adquiriria uma região hoje quase abandonada e pelos E n t e n d e . sob alguns aspectos. Para isso é preciso acertar medidas eficazes. porquanto se ele engorda os animais tende também a enfraquecê-los (27). da Coleção Brasiliana).s ea gme ra ai is s a a n t i g a r e g i ã o das minas. 314. e que o capim gordura torna talvez mais necessária que qualquer outra esécie de pastage^m.

segunda. cavalos e couros. a de Casa Branca ou Santo Antônio de Casa Branca. a 20*2' lat. menos ambiciosas que a Tristegis glutmosa (ou melhor Melinis minutiflora) elas deixam várias espécies de plantas e principalmente uma Com- posta. outras são as Gramíneas que. passei por uma aldeia que ainda é cabeça de uma paróquia. situada a 4 léguas N. 6 de Ma- riana e 84 do Rio de Janeiro. Para além de Ana de Sá e mesmo depois de Santo Antônio do Rio Acima. nos campos artificiais cobrem a terra. Alguns morros são quase unicamente cobertos por uma Rubiácea (Spermacoce polygonifolia N) que infelizmente é muito comum nos arredores de Vila Rica. torna inúteis como a Gen- tiana lutea de nossas montanhas. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 145 impostos que seriam pagos pelo gado. crescer aqui e acolá no meio delas. ? VIII. mas esse rio nada fornece atualmente e os habitantes que ainda existem na aldeia. Entrei na igreja de Casa Branca. 95. Casa Branca pareceu-me pouco considerável e no mesmo estado de ruínas e abandono de tantos outros lugares. A cerca de 2 1/2 léguas de Ana Sá. . com a qual é frequentemente encontrada. próximo de Casa Branca. S. e. Outrora tiravam. o capim gordura torna-se raro. e que sendo tão pouco apetecível ao gado quanto a Composta chamada mata-pasto. de flores pouco visíveis. acima do rio das Velhas. de Vila Rica. o qual não é aqui mais que um simples regato. muito ouro. (29). Essa aldeia foi construída sobre o morro. no rio das Velhas. vivem das minguadas produ- ções de algumas terras circunvizinhas. que é construída de pedra e muito bonita. os espaços imensos cie que se apodera. p. e 332°36' long. hist. No momento faziam a se- (29) Mem.

De Ana Sá fui parar no rancho de JOSÉ HENRI- QUES. 162 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE pultura para uma mulher. . o corpo vestido e o rosto descoberto. a metade dos emolumentos pertence à igreja paroquial ou igreja matriz. os casamentos e batizados podem ser feitos em quaisquer igrejas. As pessoas de condição inferior são ordinariamente enterradas fora das igrejas. cujo corpo havia sido exposto no meio da igreja. Segundo o costume da região o féretro não tinha sido fechado. Quando os enterros. para determinar o lugar onde deve ser inhumado. casamentos e batizados são feitos nas igrejas filiais. O uso de epitá- fios é quase desconhecido. casamentos e enterros nas igrejas paroquiais respectivas. bastando para isso a permissão dos curas. situado a 3 léguas dessa habitação e a 3 1/2 de Vila Rica. Também não há o hábito de realizar batismos. para os enterramentos é bastante a vontade do morto. as outras o são geralmente dentro das igrejas. expressa em testamento.

nem toucinho. — Caminho de José Henriques a Vila Rica. No caminho de Sabará a Vila Rica o rancho de José Henriques é o mais próximo desta última cidade. Já disse ter deixado em Boa Vista. o Botocudo e meu novo "tocador". — Passeio a Mariana. — Planta relativa à explo- ração das minas de ouro. — Cobertas de colmo. para aguardar sua volta. tendo comigo Prégent. vários de meus animais. Se não fui me instalar em Vila Rica foi por- . — Criação do gado. Clima da região. CAPÍTULO VIII PARADA NOS ARREDORES DE VILA RICA. Estada no Rancho de José Henriques. S. entretanto êle não oferce o menor íecurso para as necessidades da vida. instalei-me no Rancho de José Henriques. e. e eu me alojei em um pequeno quarto muito escuro. — Veranico ou pequeno verão. — CRIAÇÃO DE GADO. em casa do capitão JOÃO JOSÉ DE ABREU. aí não se encon- trava nem feijão. necessi- dade de dar-lhe sal. — Medidas contra os vagabundos. sua influência sobre as colheitas. Suas produções. arroz. nem milho. Mandei pro- curá-los pelo meu novo tropeiro. Um negociante francês. com parte de minha bagagem. Manoel Soares. Entrada desta cidade. — Declaração que se exige dos proprietários. — DIVERSAS MEDIDAS ADMINISTRATIVAS. Encontro. as vacas não produzem leite quando perdem seus bezerros. onde mal podia mexer e onde a chuva entrava por todos os lados. lembranças da pátria. Bartolomeu e os doces de marmelo.

148 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

que as pastagens são ali muito más e porque são aí
frequentes os roubos de animais. Por um motivo que
não saberei explicar, o viajante encontra geralmente
maiores dificuldades e menos comodidade às portas
das cidades do Brasil que nos lugares mais despo-
voados.
A região onde se acha situado o rancho, sendo
muito alta, não tem temperatura muito elevada. As
macieiras e os marmeleiros aí dão muitos frutos e a
colheita de marmelos é mesmo de grande importância
para a aldeia de S. Bartolomeu, cabeça da paróquia,
situada a 1 1/2 légua de João Henriques (1). Não há^
disseram-me, uma pessoa em S. Bartolomeu que não
tenha um quintal plantado de marmeleiros e maciei-
ras; os habitantes fazem com os marmelos um doce
muito afamado que é posto em caixas quadradas feitas
com uma madeira branca e leve chamada caixeta (2)
e não somente vendem essas caixas em Vila Rica e
seus arredores, mas ainda fazem remessas ao Rio de
Janeiro. Comi desses doces; eles teem pouca trans-
parência, porque não há o cuidado de eliminar as se-
mentes e o miolo; mas teem gôsto quase tão agra-
dável quanto as famosas marmeladas de Orléans. Os
marmelos que se colhem nesta região aproximam-se
menos da forma de uma pera que da de maçã, e não
teem a mesma acidez que os nossos. Quanto às
maçãs acredito que serão muito boas, se, as deixarem

(1) Segundo os matemáticos portugueses citados por
dESCHWEGE. S. Bartolomeu fica a 20»21' lat. S.
(2) O sábio FREYCINET escreveu cachete, e acredito ser
essa mais de acordo com a pronúncia da palavra, segundo mi-
nhas próprias notas. Mas caixeta adotada por PIZARRO, não
o e menos e parece-me muito mais racional, porque a palavra
em questão não pode derivar senão de caixa.

1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 149

amadurecer, pois há o mau vêzo de colheram-nas ver-
des. De resto não é somente em S. Bartolomeu que
se plantam macieiras; elas são plantadas também nos
arredores de Vila Rica e na serra de Capanema.
As pastagens montanhosas de tôda a região vizi-
nha de José Henriques são muito propicias à criação
de gado; as vacas são aí geralmente de boa raça e
achei o leite produzido pelas de meu hospedeiro tão
gordo quanto os melhores das vacas da França. Não
há, entretanto, muito tempo que os habitantes de Vila
Rica começaram a criar o gado. Êles não sonhavam
outrora senão com a procura do ouro, esquecendo-se
das ocupações rurais; mas o exgotamento das minas,
ou a dificuldade de suas explorações, obrigou-nos a
procurar outras fontes de riqueza. Quando de minha
viagem um colono, vizinho de José Henriques, possuía
já mais de mil bovinos, e fabricava carne seca; outros
proprietários faziam manteiga, e, se uma parte dos
queijos que se vendem em Vila Rica veem de S. João
d'El Rei, uma outra parte é produto das vacas criadas
nos arredores mesmo da Capital das Minas .
Nesta região, como no sertão, e em todo o resto
do Brasil, não há estábulos; não se recolhem os ani-
mais ; êles erram noite e dia pelas pastagens e mesmo
quando as vacas párem sua única alimentação é sem-
pre a que encontram elas mesmas nos campos. A
única despesa que se faz para o gado é dar-lhe sal,
porque, fora do sertão não se encontram terrenos sali-
trosos (3). Para engordar e conservar saúde o gado
(3) Se o que me disseram em Pessanha é verdade, parece
haver nesse lugar algumas terras salitrosas, pois que é, afir-
mam, com essa espécie de terra que os Botocudos temperam seus
alimentos. (Vide minha 1.« Rei, II, 168). (Corresponde ao Vo-
Jume 126-A, p á g . 144, da Coleção Brasiliana).

150 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

tem necessidade indispensável do sal e ele é extrema-
mente guloso dessa substância. Todos os quinze dias
os proprietários mais abastados ministram às suas
vacas uma porção de sal dissolvido n'água, e as pessoas
mais pobres usam dá-lo ao menos quando as vacas pa-
rem. A espécie de dependência que a paixão pelo sal
produz nos animais, fá-los perder qualquer cousa dos
hábitos selvagens que adquirem naturalmente pelo há-
bito de viver noite e dia longe das casas, e logo que
uma vaca foge, o desejo de tomar sua costumeira ração
de sal faz com que volte à casa de seu dono. Em geral
quando os bezerros atingem a idade de um ano é que
se começa a lhes dar sal (4). Nunca se abatem os ar
mais antes dessa idade; assim não conhecem o que
seja a carne de vitela propriamente dita.
Em toda a província de Minas, as vacas não pro-
duzem leite senão enquanto amamentam os bezerros,
e se estes veem a morrer as têtas das vacas secam
logo (5). O intendente dos diamantes, Sr. DA CA-
MARA, havia feito experiências para obter leite mes-
mo quando as vacas são privadas dos bezerros; mas as
tentativas dêsse homem cuidadoso não surtiram ne-
nhum resultado. O proprietário é então obrigado a
dividir o leite com os bezerros, e como não se dá a
(4) O Brasil não é a única parte da América onds, para
conservar o gado, seja preciso dar-lhe sal. O Sr. ROUXJN diz
a mesma cousa dos de Colômbia. (Rech. anim. dom. dãns les
Ann. sc. nat. XVI, 20).
(5) Falando, em minha 1.» Rei. dos animais do Deserto,
esqueci-me infelizmente de relatar essas particularidades.. qu e
teriam explicado facilmente porque as vacas dão tão pouco
leite em S. Elói, Formiga etc. O Sr. ROULIN diz também que
as vacas da Colômbia não produzem leite quando privadas de
seus bezerros. (Rech. an. dom. dana les Ann. sc. nat. XVI).
oe, como me asseguraram, acontece o mesmo e m Portugal, as
Passando ao Brasil não teriam sofrido, em relação à pro-
auçao do leite, nenhuma modificação em seu organismo

1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 151

eles nenhuma outra alimentação, ficam de extrema
magreza. Disso se conclue que se é obrigado a ter os
bezerros habitualmente apartados de suas respectivas
mães. Até à ocasião em que começam a pastar, são
levados para junto das vacas duas vezes por dia; mas,
quando êles podem comer, somente são amamentados
uma vez. Além do que se reserva para a nutrição dos
bezerros as vacas dos arredores de Vila Rica dão co-
mumente 4 garrafas de leite por dia, e, quando de
minha viagem, uma vaca que produzia leitet nessa
quantidade era geralmente vendida por 8$000 a lOfOOO
(50 a 62,50 fs.). As vacas desta região são portanto
bem melhores, leiteiras que as dos arredores de S.
Elói e Formiga, no sertão (6), provavelmente mesmo
que as de todo o deserto; isso é devido não somente
ao fato das pastagens dos arredores de Vila Rica não
secarem totalmente, e porque as águas sejam abun-
dantes, mas também porque o sal não prejudica os
órgãos digestivos dos animais como a terra salitrosa
daquelas regiões.
Durante minha estada no rancho de José Henri-
ques fui várias vezes a Vila Rica. Outrora cuidavam
da estrada que vai a essa cidade, porque ela era tam-
bém o caminho de Cachoeira, onde os governadores
da província possuíam uma casa de campo. Alguns
trechos dessa estrada eram calçados; em outros os
barrancos são protegidos por muros e, a pouca dis-
tância do rancho de JOSÉ HENRIQUES existe uma
ponte de pedras. Mas, como os governadores abando-
naram a casa de campo, deixaram de cuidar da estrada
e ela tornou-se péssima. Hoje a estrada está cheia
(6) Vide minha 1.» Relaçflo II. 319. (Corresponde ao Vo-
lume 126-A, p á g . 262, da Coleção Brasiliana),

152 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

de atoleiros, pedras amontoadas e rochas escorrega
chas, sendo difícil conceber como as bestas e cavalos
nao quebram ali suas pernas. As peores estradas" da
província são as que se avizinham da capital, o que
nao e para se admirar, porquanto são elas necesarh
mente as mais frequentadas e não são as mais zeladas
Durante longo trecho o caminho de José Henri
quês a Vila Rica sobe sempre, seguindo, a meia encosta
as altas montanhas que teem o nome de serra de Vila
Kica. Dai o viajante avista, em plano inferior, uma
vasta^extensão de montes apresentando grandes on-
dulaçoes, cobertas de pastagens e matas de um verde
escuro, hntao não se descobre nenhum ponto sôbr-
n U err. a h V 1 S t a i P 0 S S a d e S C a n S a r c o m P ^ e r , e apenas'
^ Percebe ao longe um grupo de fazendas; por toda
parte a monotonia e a mais fatigante. O povo da
legião diz distinguir ao longe as torres da igreja de
b. Bartolomeu, mas foi-me impossível distinguí-la.
Apos ter subido muito desce-se pouco a pouco até
vila Kica, e e então, principalmente, que o caminho
se torna horrível. Todas as montanhas que se per-
cebem sao cobertas de arbustos densos e cie um verde
sombrio, incessantemente cortados pelos negros para
as necessidades dos moradores. Êsses arbustos subs-
tituem as florestas virgens que os primeiros minera-
Z Z r a m q U e i m a d ° P a m descobrir a região e em
J g u n s lugares para plantar o milho. O solo é intei-
i«^mente ferruginoso e muito estéril
RÍCa avista se
Quena n ° T f * ™ ™ - ^ ^ " ^ pe-
Cldade A s Casas
f ente ? ^ ' ^ a m em
Cã nã maÍOrÍa
t e m e n t e r 7 °;- assobradadas e recen-
a
apitaÍ'da T ' * ^ ^ d á v e l impressão da
Ccipital da piovmcia; mas logo se é desiludido, q u a n d o .

1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 153

chegando à cidade pela rua das Cabeças vêem-se casas
< mal cuidadas cujas portas e janelas são pintadas de
vermelho e com telhados que se prolongam desmedi-
damente além das paredes. A rua das Cabeças é em
grande parte habitada por ferradores e por comer-
ciantes de comestiveis, o que não é de se admirar
porquanto grande número de caravanas entram na
cidade por essa rua.
A primeira vez que fui de José Henriques a Vila
Rica, apressei-me a procurar o Sr. de ESCHWEGE,
que me havia tão bem acolhido quando de minha pri-
meira passagem por ali; infelizmente não o encontrei
(• soube que o mesmo havia seguido para o Rio de
janeiro com o projeto de apresentar ao rei o novo
plano relativo ao modo de explorar as minas de ouro.
Apresentei-me igualmente em casa do governador da
província, o qual não me pôde receber visto estar
adoentado; mas seu ajudante de campo disse-me que
eu devia renovar a visita. Voltei então no dia se-
guinte, ao palacio e o governador recebeu-me com
extrema bondade. Uma das principais personagens
da cidade que fui visitar nesse mesmo dia recebeu-me
com muita atenção, e insistiu por diversas vezes, se-
gundo o uso do país, que a casa me pertencia (esta
casa^ é sua); eu vinha de longe e preferia, confesso,
que esse homem fosse mais comedido em bonitas frases
e me oferecesse algum refresco.
Encontrei em Vila Rica um negociante francês
Que para aí viera estabelecer-se momentaneamente e
que parecia muito satisfeito de ter tomado essa deli-
beração. Fizera de Vila Rica ponto central de onde
se estendia até S. João d'El Rei, pretendendo ir até
ao Sêrro Frio. Êle era obrigado a vender a varejo

154 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

para poder achar compradores para suas mercadorias,
i!o que não fazia senão imitar os comerciantes da re-
gião, entre os quais não se encontra um só que venda
exclusivamente por atacado. O Sr. LEZAN, é assim
o nome desse compatriota, era o primeiro comerciante
francês que aparecia nesta região (7).
Era desejo meu aproveitar a estada no rancho de
José Henriques, para escalar a serra do Itacolomí (8),
montanha que domina Vila Rica, alta de 950 toesas
acima do nível do mar, segundo o Sr. ESCHWEGE.
O êrro de um guia fez abortar meu projeto; mas, devo
à ignorância dêsse homem o prazer de rever a cidade
de Mariana. Ouase à chegada dessa cidade fui sur-
preendido por uma tempestade. Refugiei-me em uma
casa situada à margem da estrada, sendo perfeita-
mente recebido pelo proprietário. LTm dos que se
achavam presentes dirigiu-me a palavra em francês,
e falava tão bem essa língua que não pude deixar de
lhe perguntar se havia viajado pela França; respon-
deu-me que não. Supus então que êsse homem podia
ter sido educado em um colégio fundado em Portugal
(7) Meus amigos os Srs. GOUTEREAU DE PAIMBEAÍJF
e DAVID CHAUVET DE GENÜVE, foram, se não me engano,
os primeiros negociantes franceses que chegaram a Minas No-
vas; era 1818 êles aí se achavam.
(8) Foi escrito que o Itacolumi ou Itncolumi, vinha de
ita pedra e eolumi menino. Ita quer realmente dizer pedra,
mas columf não pertence nem à língua geral nem ao dialeto
guarani; essa palavra é uma corruptela de corumi corumim ou
melhor de conumi, que, as primeiras na língua geral e a se-
gunda em guarani, significam não menino mas rapaz. E'
preciso também ter cuidado para não confundir o Itacolomí de
\ lia Rica com outra montanha chamada Itacolomí e que se
acna nas vizinhanças de Mariana. Esta £ muito menos ele-
vada que a o u t r a ; sua superfície apresenta uma terra vermelha
Q argilosa e sua vegetação denota apenas d e s s e s fetos que cos-
t u m a m substituir à s matas derrubadas. O c a m i n h o que vai
ír^Ts ao p » e 8W«o de S. João Batista o n d e existe uma
aivisao militar, passa pelo Itacolomí de Mariana.

1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 155

por D. MARQUET (9), antigo superior do colégio de
Pontlevoy; dei-lhe a conhecer tal conjetura e vi que
não me havia enganado. Eu havia passado em Pon-
tlevoy os primeiros anos de minha infância e tivera D.
MARQUÉT por professor. Encontrar um de seus
alunos tão longe de França era para mim como se
encontrasse um velho companheiro. Quando a gente
corre por terras estranhas e longínquas, tudo o que
pode despertar lembranças da pátria e da infância 5
avidamente apreendido; uma planta, um inseto mesmo
que lembre os da terra natal, não podemos vê-los sem
alguma emoção.
Apesar da satisfação que experimentava ao ouvir
falar francês no interior do Brasil, devo entretanto
convir que à época de minha viagem nossa língua era
geralmente perigosa para os portugueses. Em geral
êles só liam nossos maus livros; êles aí buscavam
grosseiro epicurismo e enchiam o espírito com "essas
teorias de direito absoluto, dessas vagas generalidades
do fim do século dezoito, que trazem a morte em seu
seio" (10).

(9) Dom ALPHONSE-JEAN-BAPTISTE MARQUET, bene-
ditino da congregação de S. Maur, último superior do monas-
tério e do antigo colégio real e militar de Pontlevoy, reunia a
altas virtudes, uma alma forte, conhecimentos vastos e varia-
dos e o difícil dom de dirigir a mocidade. Êle havia elaborado
a " A r i d e v e r i f i c r les d a t e s " e composto uma " G r a m m a i r e Al-
lemande". Forçado, em 1792, a deixar o colégio de Pontlevoy,
passou a Portugal e al fundou um educandário. Voltou à
França sob o govêrno consular e estabeleceu em Orléans um
pensionato que obteve amplo sucesso. Como quizessem subme-
tê-lo a alguns regulamentos universitários que contrariavam
seus processos, êle mudou-se para Paris onde s e dedicou as
letras; mas o desejo de se tornar útil levou-o a aceitar as fun-
ções curiais. 'Em seguida foi êle incumbido da direção d<3 uma
casa de educação, que tinha sido fundada para os filhos dos
cavaleiros de S. Luiz; morreu nesse posto, a 12/10/817.
(10) Expressões do Globe de 5 de Agosto de 1830.

AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE

Voltando de Mariana passei alguns dias em Vila
Rica, onde fui aborrecido pelo mais terrível tempo. 0
fim de 1817 e o começo de 1818 foram excessivamente
chuvosos; mas em tôda esta região, como em Tijuco,
goza-se ordinariamente, no mês de Janeiro, de uma
quinzena de dias em que o tempo melhora. Êsse in-
tervalo, a que dão o nome de veranico, é extremamente
agradável, especialmente nas zonas altas, e lembra,
diz ESCHWEGE, o fim do verão na Alemanha (11).
Não há ninguém que não julgue que o veranico deva
ter grande influência sobre as colheitas; êle age mor-
mente sobre a do feijão, que, plantado em Setembro* e
Outubro deve amadurecer de fins de Dezembro a fins
de Janeiro (12). Observou-se também que os grãos
de milho tornam-se maiores e mais farinhosos quando
o veranico, sucedendo às longas chuvas, tem lugar
após a floração das plantas, no momento em que os
novos grãos começam a crescer.
Para defender-se da água, os homens de uma certa
classe usam guarda-chuvas ordinariamente cobertos de
pano de algodão, tecido qne resiste melhor que a seda
aos toques dos espinhos e dos ramos. Quanto aos
negros, êles se preservam da chuva por meio de pito-
rescos mantos, feitos com folhas muito sêcas e muito
longas de uma Gramínea ou Ciperácea, chamada ca-
pim mumbéca, que nasce nos lugares altos. No sertão
sao folhas da palmeira buriti que se empregam em
lugar do capim mumbéca.
Antes de deixar o rancho de José Henriques, tive
ainda o prazer de rever o barão de ESCHWEGE, que
não me testemunhou menos amizade que da primeira
(11) Journ. 1, 49.
(12) L . C.

TOMAZ ANTÔNIO DE VILANOVA E PORTUGAL se achava empolgado. as vantagens que podiam ter as declarações em apreço e sua verdadeira finalidade. e que êles demonstrassem a legitimidade dessas posses. esse mesmo projeto que o Sr. Foi. Êste competente cidadão havia escolhido entre as leis alemãs o que melhor havia sobre a exploração das minas. se me não engano. onde seria tão vantajoso atrair novos habitantes. Sr. Seu plano relativo ao modo de explorar as minas vinha de ser adotado pelo governo. o que há de certo. intendente dos diamantes. ESCHWEGE reajustou. é que a medida por si só podia ter um fim útil muito necessário em um país que. mas não creio que seja posto em execução. Seu projeto foi adotado desde 1803. ele fez algu- mas modificações e conseguiu fôsse aceito pelo minis- tro. aliás. creio que tiveram tão pouca aplicação quanto os planos dos Srs. Muito anteriormente o Sr. mas sem força de lei. De qualquer modo. Mas. Nessa mesma ocasião o governo queria exigir dos mineiros uma declaração das terras de que se diziam possessores. . após haver passado pela desordem e pela anarquia. DA CÂMARA e ESCHWEGE sobre a mineração. ESCHWEGE. se acha hoje dividido por um pequeno número de proprietários e. e dos quais alguns foram exe- cutados de maneira absurda. companhias deviam ser constituidas sob a direção do proprio Sr. tendo o cuidado de modificar o que não se adaptava à sua pátria. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 157 vez que o encontrei. MANOEL FERREIRA DA CÂMARA BETENCOURT E SÁ. Essa medida ligava-se talvez aos pla- nos de colonização de que o ministro de então. havia sido encarre- gado de apresentar ao rei um projeto de regulamento para as minas de ouro do Brasil.

já. terão o mesmo resultado que as anteriores. diminuir o nú- mero de vagabundos (vadios). Várias vezes. Despe- di-me então de meu hospedeiro. apesar de pobre nada me cobrou pelo quarto que me cedeu. Havia. que são o flagelo da província de Minas.158 AUGUSTO DE S A I N T . quase 15 dias que me achava no rancho de José Henriques quando meu tropeiro chegou de Boa Vista com meus animais e minhas coleções. o bom Miguel. aliás quando passei um ano mais tarde pela província de Minas não se dizia haver menos vadios que antes. mas bandos de ociosos aparecem cada dia. e pús-me em marcha. quero crer que as ordens dadas ao tempo em que viajei. que.H I L A I R E Quando estive no rancho de José Henriques co- mentavam-se as sábias medidas que o governo vinha de tomar para reprimir a vagabundagem. já. tentaram. favorecidos pela condescendência dos pro- prietários . . e as ordens que haviam sido dadas aos comandantes de visar os passa- portes dos viajantes que atravessavam as aldeias cidades.

ne- gros fugitivos. . como os das altas monta- nhas ou dos arredores de Barbacena. — Al- deia da Cachoeira. I. — A igreja de N. estende-se a léste da grande cadeia. entre José Henri- ques e Congonhas do Campo. apresentam Gra- míneas geralmente muito finas. Bom Jesus He Matosinhos. a princípio rnuito mon- tanhosa vai-se tornando pouco a pouco mais baixa à medida que se aproxima desta última localidade. — O índio Firmiano desaparece. Em um espaço de cem léguas. — A IGREJA DE N. 188. (1) Vide minha 1. entremeadas de sub- arbustos. — O Autor se perde. grupo de matas (capões). — Capitães do mato. — Des- crição da região vizinha de Congonhas de Campo. Encontra-se Firmiano. 212. — FUGA DE FIRMIANO. — AS FUNDIÇÕES DE PRATA. CAPÍTULO IX CONGONHAS DO CAMPO. crescem nas grotas e nas encostas mais abrigadas. Partida do Rancho de José Henriques. BOM JESUS DE MATOSINHOS. — Aldeia de Congonhas de Campo. S. na província de Minas. S. — As forjas do Prata. que. Como acontece geralmente nos lugares onde se observa esse gênero de vegetação. Causas da diferença que a vegetação apresenta. é aí que os lavradores fazem suas plantações (1).» Rei. O Autor põe-se a perse- guí-lo e procura-o inutilmente nos arredores de Congonhas e Vila Rica. uma região que. mas logo se entra nos campos naturais. (Corresponde ao Volume 126. Co- meça-se por atravessar capoeiras. p â g . d a ColeQão B r a s i l i a n a ) .

. Cachoeira foi construída sobre as encostas de duas colinas opostas. Avistei ao (2) P I Z .180 almas (2). Não via mais que imensas pastagens. H i s t .. e compõe-se de casas separadas umas das outras. Desci a princípio por um caminho muito difícil. 94. fiquei para trás. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE A uma légua de José Henriques. VIII. Mem. nuvens espessas anunciavam uma tempestade. sem dúvida. Os governado- res da Província tinham outrora. Sra de Nazaré de Cachoeira do Campo. uma residência de descanso a que dão o nome de palácio. Cachoeira deve. em profunda ravina. segui caminho diferente dp dêle. Colhendo muitas plantas. pois nos arredores vêem-se excavações profundas que tive- ram por objetivo a extração do ouro. ao tempo de minha viagem ia pô-la em leilão. Errando por aqui e acolá.. achei-me em uma região alta. mas. acha -se a aldeia de Cachoeira ou N. depois do lugar chamado Lagoa. Dirigi-me para lá. Eu me havia desentendido com meu tropeiro. e expressei-lhe tôda a minha indignação. mas essa casa acha-se abandonada e parece que. afim de descobrir uma casa. Pedi-lhe que me désse um guia. p . cabeça de uma paróquia que compreende 3 sucursais e uma população de mais de 2. a 20°22' lat S e 332°20' long. senti-me ieliz ao descobrir uma ao longe. depois. sua fundação aos mineradores. Um velho decrépito achava-se sentado diante da porta e recitava preces. perdi a paciência. nesta alcleia. onde milhares de trilhos leitos pelo gado cruzavam todos os sentidos. e. não tendo obtido como tesposta senão palavras grosseiras. seg. no meio de montanhas. tendo às mãos um rosário. tendo escalado a encosta que faz face a aquela que eu vinha de descer.

ao pé de uma montanha. para alcan- çar a outra margem montei novamente. o proprie- tário ofereceu-se para conduzir-me à casa de FRAN- CISCO DA COSTA aonde pensava poder pernoitar. e eu via que de um momento para outro cairíamos num precipício. Caminhámos juntos e fo- mos pernoitar no lugar denominado Pires. entretanto não tardei a reconhecer que seguíamos o caminho por onde já ha- víamos passado. deparei. corcoveando. sem sabê-lo. Reiniciei a viagem no dia seguinte pela manhã. Chegado ao fundo da grota encontrei um regato e. a lagoa que dá nome ao distrito. a pouca distância da casa de FRANCISCO DA COSTA. . diante do qual eu ja havia passado. Caminhava com precaução extrema. Não encontrei aí o meu pessoal. com minha caravana. encon- trei meu tropeiro Manoel Soares. Quando chegámos no fundo da ravina de que venho de falar. Durante o dia esse caminho já me pare- cera horrível. que na véspera havia parado. Felizmente escapei desse perigo e cheguei sem aci- dentes à casa de FRANCISCO DA COSTA que faz parte do distrito chamado Lagoa. e. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 161 longe outra habitação e para lá me dirigi. à margem da estrada. em uma casa abandonada. o animal recusava ir mais longe. a escuridão era tal que foi ab solutamente impossível distinguir os objetos que nos rodeavam. A noite surpreendeu-me logo. mas o declive do terreno acelerava o animal que me empurrava frequentemente e eu re- ceava que ele viesse a cair por cima de mim. mas fui acolhido com amável hospita- lidade. trazendo a minha bêsta pelo cabestro. Próximo do lugar chamado Pires. à noite ele pareceu-me cem vezes mais.

Semelhante ou quase semelhante à que eu atra- vessei nas vésperas. ( C o r r e s p o n d e a o Volume 126-A. não tendo podido fazer mais de uma légua. 68. II. vol. a Rei. não é apenas ondulada como o Sertão. raquíticas. árvores tortuosas. parei na aldeia de Congonhas do Campo. crescem. nos declives mais incli- nados. separadas umas das outras. êsses vales profundos que cara- cterizam geralmente a região das florestas. como o do Alto dos Bois (4). como no sertão. pág. da Coleção Braalllana). parti muito tarde e. (4) Vide m i n h a l. deixam entre êles grandes intervalos. não se vêem êsses morros próximos uns dos outros. O pequeno estio de. p á g . A água. mas em geral são arredondados no alto. No dia seguinte a chuva continuou durante grande parte do dia. a região que percorri entre Pires e Congonhas. seus declives não são muito fortes. Janeiro (veranico) faltou completamente este ano e todo mundo assegurou-me que chuvas tão abundantes (3) e de tamanha duração eram muito raras. de folhas que- (3)Vide o que disse atrás a respeito do v e r a n i c o . a região é consideravelmente elevada em relação ao nível do mar. Nos altos como nos vales mais largos e mais desco- bertos não se vêem senão Gramíneas e outras ervas entremeadas de sub-arbustos. . 65. ou os da serra da Lapa e das montanhas de Tijuco. passando através do teto da casa. escorria sobre minhas malas e fui obrigado a acordar o meu pessoal para mudar de lugar tôda a minha bagagem. esses fortes declives. os morros são desiguais. 178 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Entre a casa de Francisco Costa e Pires a chuva quase não cessara de cair e continuou a cair durante toda a noite. A terra é avermelhada e mais ou mejios are- nosa . também não se vêem êsses vastos planaltos.

voL II. da Coleção Brasiliana). se as grandes diferenças de vegetação que se ob- seivam na província de Minas coincidem com as dife- renças da constituição mineralógica do solo. pág. grés e ferro. (6) Vide minha 1. D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 163 bradiças.» Rei. Na verdade o Sr. não é menos verossímil que não são estas últimas que modi- ficam o conjunto das produções vegetais. Julho e Agosto circular livre- mente e prejudicar o crescimento das plantas. enfim nos fundos e nos declives mais abrigados. e que as pastagens natu- rais e os arbustos tortuosos encontram-se nos terrenos cuja base se compõe de xisto argiloso. pelo que vem de ser dito sobre a vegetação da região vizinha de Pires e de Congonhas. pág. de ESCHWEGE (7) observou que a vegetação era mais vigorosa nos terrenos primitivos que nos de formação mais recente. 24. vol. encontram-se florestas virgens. porquanto se viu que nos lugares onde o terreno começa a ser abrigado há o aparecimento das árvores raquíticas e que nos lu- gares mais abrigados ainda. êle observou que as matas crescem nas montanhas de granito. aparecem as florestas. 30. (7) In. XVIII. 249. Sc. da Coleção Brasiliana). O Sr. pág. . (Corresponde ao Volume 126-A. (8) D i c .. 302. pág. de gneiss. (Corresponde ao Volume 126-A. Mas. de xisto micáceo e de sienita. Já disse (6) que os campos de Gramíneas eram devidos à disposição do solo que permite aos ventos dos meses de Junho.. Nat. II.. se isso fôsse necessário. Essa asserção seria confirmada. casca suberosa (5) . vol.® Rei. DE CANDOLLE de há muito mostrou (8) que a natureza mineralógica dos diversos terrenos não exerce nenhu- ma influência sôbre a vegetação ou que pelo menos (5) Vide minha 1. litt.

o maior ou menor grau de unidade que êle encerra. de todos os lados vêem-se cumiadas separadas e desiguais. êsse cientista viu terrenos calcáreos de formação antiga descobertos em certos lugares. modifica verdadeiramente a natureza das produções vegetais. é a exposição do solo. o verde alegre dos relvados. de formas variadas. a quantidade maior ou menor de humus que cobre sua superfície. Fran- cisco. os rochedos par- dacentos que se mostram nos altos dos morros mais elevados. ESCHWEGE tendem a demonstrar a verdade dessa opinião. . e as próprias observações feitas pelo Sr. esta é dominada por uma montanha mais elevada. espalha sobre o rochedo suas águas espumantes. E' sobre- tudo no lugar chamado Barnabé que a vista se torna mais agradável. cavada so- bre o flanco de uma colina. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE sua ação é pequena. O que. sobre o lado da montanha um r e g a t o formando uma cascata. à direita do caminho existe uma profunda mineração. Seja como fôr a variedade que apresenta a vege- tação entre Pires e Congonhas empresta à paisagem um encanto a que se ajunta a desigualdade das mon- tanhas. a sub-divisão mais ou menos sensível de suas partículas. e que. Antes de chegar a Congonhas passa-se por um regato que tem o nome de rio Santo Antônio. e. próximo de Formiga e Abaeté. Ao longe vê-se sobre o cume de um morro uma das igrejas de Congonhas . onde as rochas se mostram aqui e acolá. pois que nas vizinhanças do rio S. numa mesma latitude e em altitudes semelhantes. enquanto que noutros eles produziam uma vegetação rica e densas florestas. verdes pastagens e bosquetes. enfim o contraste que formam as minerações com o terreno e a côr fresca das pastagens.

a 8 léguas E. Congonhas é célebre na história das Minas. E. e que em 1813 continha uma população de 2. governador do Rio de Janeiro. acha-se situada a 21°30' lat. _ (12) Parece-me que sob o nome de Congonhas do Campo se designa vulgarmente um vasto distrito. (10) ESOHW. reúne suas águas a um regato mais considerável. da Conceição pertence ao termo de Mariana e que uma outra parto forma a paróquia de Bi. p.412 habitantes (10) e em 1822 a população era de 2. quan- do êle obrigou D. e 332°27' long. E' cabeça de uma paróquia pertencente.. 9 de Mariana e 74 do Rio de Janeiro (9). da Conceição das Congoníias de Quclu».ue foi nesse lugar que se postou MANOEL NUNES VIANA. da Conceição de Congonhas do Campo. S. a se pôr em fuga. (9) PIZ. htst. segunda. 97. S.. de Vila Rica. e é no alto desse morro. VIII. João d'El Rei. Jorn. chefe dos forasteiros revoltados (1708). ao menos em parte. A maior parte das casas se acha so- bre o morro que fica à margem direita do riacho.640 indivíduos (11). porquanto PIZARRO disse (Mem. O rio das Congonhas servia de limite entre a comarca de Vila Rica e a de S. por- c. entre os quais corre o riacho que tem o mesmo nome que a povoação. VIII. S. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 165 próximo cla aldeia. S. que viera à província de Minas para restabelecer a ordem. Mera. FERNANDO MARTINS MASCA RENHAS.. chamado rio das Congonhas. ou N. A aldeia de Congonhas do Campo. hist. pertencente ao termo de Queluz e à comarca de S. A aldeia é construída sobre dois morros opostos. (11) O volume de PIZARRO onde se encontra essa ava- liação é de 1822. João d'El Rei. ao termo de Vila Rica. 96) que uma parte do território das Congonhas chamada do Carmo onde se acha a paróquia de N. . no meio de uma praça alongada. e assim a aldeia pertence a duas comarcas diferentes (12). .

vindos de muito longe e. Os devotos para ali se dirigem. sempre deixam algum dinheiro.*oje Congonhas. disse um viajante inglês que passou por congonhas do Campo. é o final do nome de e de u m a «mt cidade: essa igreja não pertence a uma cidade e sim a uma aldeia. cujo nome. como tantas outras aldeias. p. situada. notável por seu tama- nho. 95). que se celebra em Setembro. enfim o rio que passa em Congonhas nao é o Paraopeba. bem como nas do rio Congonhas e ao redor da aldeia. as encostas dos morros rasgadas e reviradas de todos os modos. atestam o traballho de maior vulto. Senhor Bom Jesus de Mato- sinhos. Congonhas do Campo deve sua fundação a mine- radores que encontraram muito ouro nas margens do rio Santo Antônio. é pqssível.166 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE que se acha a igreja paroquial. a aldeia fica cheia de forasteiros e devotos (13). que goza de grande celebridade. No morro que fica fronteiro ao que venho de falar vê-se a igreja de N. à paróquia de Congonhas do Campo. entretanto. 96. não somente nos arredores mais fora da província. (14) "Matozinho". Existe também nos arredores um (13) Apesar da igreja de Bom Jesus de Matosinhos não estar situada do mesmo lado do rio que a igreja paroquial. limpa e animada. . mas o rio Congonhas. segunda. ela pertence. como sa pode ver nas Memórias 1« Ih tório» m VIII. tenha sido originariamente Caacunlia (Vide mais acima. Há nessa frase quase tantos erros quantas são as palavras Matosinhos e não Matozinho. mas fnLnnu . vendo-se grande número de casas mal conservadas ou mesmo abandonadas (14). diante de Oaan- eitiiJia . João d'El Rei. na época da festa do padroeiro. a margem setentrional do Paraopeba. e que os peregrinos que a devoção aí leva. é uma pequena cidade. Congonhas cái então em decadência. pág. O que ainda mantém êste pequeno povoado é que êle tem a vantagem de estar situado em uma das es- tradas que vão de Vila Rica a S.

S. para esta região. . de Matosinho mas em trabalho recente o Autor penitencia-se. Sendo a região. sem dúvida. a geada é menos frequente. e várias fazendas muito importantes. de que falam os Srs. como o terreno não é bom. estátuas de pedra representando os profetas (18). (15) Escreveram na Alemanha. cujo ouro. que é. de Loreto. ESCHWEGE. Essa igreja foi construida no cume de um morro. sendo que r i - ZARRO pretende que elas representam cenas da paixao. (17) Notes oii Braz. Fazem-se algu- mas criações de gado nos campos e cultiva-se nos capões. Diante dela colocaram sôbre os muros da escadaria e sôbre os do terraço. LUCCOCK dissera. a geada é muito frequente • impede que se dedique à cultura da cana de açúcar. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 183 pequeno número de minerações em atividade (15). e. Está visto que eu não deixaria Congonhas sem ir visitar a igreja de N. A cjualidade do terreno varia muito nos arre- dores de Congonhas do Campo. S. a cana cresce pouco e dá apenas dois cortes. entre outras a mineração do coronel ROMUALíDO JOSE' MONTEIRO DE BARROS. o que prova no artista um talento natu- (15) Pode-se citar. ê de 22 k . como se viu. no meio de um terraço pavimentado de largas pedras e circundado por um muro de arrimo. 520 (18) O Sr. que essa i f r e j a e r a con- sagrada à Virgem e tinha o nome de N . SPIX e MARTIUS. dêsse êrro. mas. pág. segundo os lugares o milho rende de 100 a 200 alqueires. Essas esta- tuas não são obras primas. mas observa- se no modo pelo qual foram esculpidas qualquer cousa de grandioso. ESCH WEGE acha que a pedra com que foram feitas essas estátuas seja a esteatita. Bom Jesus de Matosinhos (16). pelo menos e m parte. como observa LUCCOCK (17) o que é para a Itália a N. segundo estes últimos. que elas representavam os profetas. Entretanto observou-se que. muito alta. nas altitudes onde a umi- dade não é tão grande como nas baixadas. antes de mim. . S.

48. A imagem que constitue objeto de veneração dos devotos foi colocada no interior do altar-mor. uma grande vocação pela escultura. êle resolveu tomar não sei que espécie de bebida. com a intenção de dar mais vivacidade e elevação a seu espírito. mas perdeu o uso de suas extremidades. Essa igreja é pequena. (Corresponde ao pagr. Enfim atrás da igreja veem-se duas construções compridas. disseram-me. sendo que alguns teem os cabelos ridiculamente levantados em topete. colocadas em trente uma da outra e que são destinadas a abrigar os peregrinos e confrades estrangeiros. Elas são devidas a um homem que residia em Vila Rica e que demonstrou desde sua infância. 168 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE ral muito pronunciado. Muito ioven ainda. da Coleção Brasiliana). Quando de minha viagem tencionavam construir um pouco abaixo da igreja de Matosinhos. conservada limpa e ornada de um grande número de quadros feitos em Vila Rica. que não cabe mais nada. na vertente Volume* 7o» L 38 . onde se acham reunidas em uma grande sala uma tão prodigiosa quantidade de oferendas e membros de cera. depois depositam-se esmolas. mas rica. Entretanto prosseguiu no exer- cício de sua arte. . A sacris- tia e grande e muito bonita. Acima do altar elevam- se pequenos degraus ornados de pequenas figuras de anjos segurando castiçais. De um dos lados do tem- plo existe uma casa chamada "casa dos milagres". êle fazia prender as ferramentas na extremidade do ante-braço e foi assim que fez as está- tuas da igreja de Matosinhos. dos quais vários denotam felizes inclinações para a pintura (19). Beijam- se os pés dessa imagem para merecer indulgências. e representa Jesus Cristo morto.

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 169 do morro em que ela se acha. que nunca viajou e nunca teve um modêlo com que se guiasse. vêem-se ainda uma mistura de pastagens herbáceas. No comêço de 1818 apenas uma delas estava terminada internamente e aí se via a cena representada por imagens de madeira. como são obra de um homem da região. mas apresenta quase sempre o mesmo aspecto. quando estive em Ubá. mas. são quadradas e terminam por um pequeno zimbório cer- cado por uma balaustrada. Até Barnabé e mesmo um pouco mais longe. Aproveitei a minha estada em Congonhas do Campo para ir visitar as forjas do Prata. para ali conduzira uma tropa de Coroa- dos. Como teve a felicidade de sarar deixou sua casa e veiu cumprir sua promessa. Três dessas capelas haviam. Não é apenas pelo aspecto que esses últimos campos. indo de Pires a Congonhas. Essas imagens são muito mal feitas. bosquetes e campos dotados de árvores tortuosas e raquíticas. já. sete capelas representan- do os principais mistérios da paixão de Jesus Cristo. prometeu a Deus servir à igreja de Matosinhos se obtivesse sua cura. segui. sido construídas. elas devem ser julgadas com certa indul- gência. para o que teve de viajar 60 léguas. pintadas. e de tamanho natural. o caminho pelo qual eu já havia passado. Fôra ele que. O homem que me mostrou a igreja de Matosinhos não me era desconhecido. distantes duas léguas. Tendo sido atacado por grave doença dos pés. assemelham-se aos . Após Barnabé a região se eleva gradualmente. para ir a essas forjas.

De todos os lados há abundância de ferro. como a árvore raquítica conhecida no deserto sob o nome de "pau-terra" . . se se pode acreditar no Sr. Que- rendo favorecer a companhia que vinha de se organizar. Caindo dessa ono^í* ~ ® . como noutros lugares o minério mostra-se à flor da terra e. reuniu logo 10 acionistas. termi- nando inteiramente em Junho de 1813. tendo anunciado que um capital de 10. Paulo.000 cruzados bastava para formar a em- presa. mas. Encontrei entre Barnabé e as forjas do Prata várias espécies pertencentes ao gênero Qualea. por conseguinte é pequeno o trabalho da extração. cujos frutos os habitantes do Sertão comem. A construção das novas for- jas foi iniciada em Novembro de 1811. encontrei também essa Malpi- ghiacea de grandes folhas duras e esbranquiçadas. AUGUSTO DE SAINT-HILAIHE ao sertão. não houve outra que trabalhasse tão ativamente e em tão grande escala (20). de preferência aos de outras espécies. á r I ° P á « .239. cujo principal foi o conde de Palma. As forjas do Prata foram construídas sob a dire- ção do Sr. ESCHWEGE. ali. uma bigorna e algumas outras peças enco- mendadas na Inglaterra. Essas forjas são situadas em um fundo e cercadas de morros cobertos de matas. e que se chama muricí. a fundição do ferro teve comêço em 17 de Dezembro de 1812. da Coleção Brasiliana). ESCHWEGE que. As águas necessárias às forjas descem das montanhas e são levadas em uma calha que se projeta para dentro das construções onde ficam os fornos. As forjas do Prata começaram após as do Morro de Gaspar Soares e de Ipanema. pág- <209. (Corresponde ao Volume 126. o governo do Rio de Janeiro fez-lhe presente de um martelete. então governador da província. nos arredores de Prata. próximo de S.

por meio de pilões. como não custa. Contentam-se em fazer o ferro em barras. construídos pelo processo sueco. ao mais baixo onde fica o martelete. acionado por água e empre- ogado na oficina de serralheiro. Êsse pilão é destinado a livrar a massa fundida das partes heterogêneas e impuras. renova o ar que ativa os fornos e. em- pregam-se nas forjas somente os pedaços maiores de carvão. por meio da qual faz-se escorregar o metal fundido. para aproveitamento da força da água. ela eleva o martelete destinado a fazer barras do ferro fundido. como não havia uma quantidade dágua capaz de fazer mover os pilões. enfim. render até 80%. . Essa disposição é pouco cômoda para o trabalho. existente no estabele- cimento. Afim de remediar o defeito que o ferro fabriçado no país apresenta geral- mente. Outrora o mar- telete ficava no mesmo galpão que os fornos. onde se acham os fornos. O carvão. é feito pelo processo europeu. por assim dizer. mas. colocando-se uma lage inclinada. O minério pode. do pavilhão mais alto. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 171 calha a água faz mover os pilões que trituram o miné- rio . foi preciso colocar o martelete em um plano inferior ao dos fornos. o que fica dessa escolha é peneirado por meio de um cilindro de bambú. ativar o fogo e elevar o martelo ao mesmo tempo. Quando a massa de ferro fundido sai do forno é posta em outro pilão. fornecido pelas árvores das florestas vizi- nhas. entretanto foi remediada tanto quanto possível. sendo fundido em fornos. o de ter consistência próxima da do aço. mas. nada. movido do mesmo modo que o que mói o miné- rio. não sendo manufaturado no estabelecimento. Antes de empregar o mineral é reduzido a pó fino. segundo ESCHWEGE. em nú- mero de 4.

por ter causado a infelicidade desse rapaz. Eu me recriminava. sendo-me impossível atinar com o motivo de sua fuga. No dia seguinte ao de minha visita às forjas do Prata (12 de Fevereiro de 1818). Parti em minha besta. tirando-o de suas florestas. Dando uma busca em seu saco de viagem encontrámos ape nas objetos menos úteis e de menor valor . e tomei a resolução de tudo fazer para encontrá-lo. João d'El Rei. Êsse acontecimento causou-me uma grande contrariedade porquanto eu não esperava que tal sucedesse. Sempre tratara Firmiano como um filho. satisfazendo todos^os seus desejos e não vira pessoa nenhuma fazer-lhe o menor mal. mas. â tarde. acompanhado de um toca- dor de nome Francisco. que eu tomara em Vila Rica. pen- sando que Firmiano devia ter voltado pela região que . ele nos parecera de muito mau humor e nós não tivemos dúvida de que êle havia fugido. lembramo- nos então que pela madrugada ele havia aberto doce- mente a porta do galpão onde dormíamos . desgostando do trabalho e já habituado a algumas doçuras da vida civilizada ele seria muito infeliz em uma região onde há grande prevenção contra os homens de sua raça. nas vésperas. retê-lo-ia pelo terror.172 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE tiram dêle apenas 16%. ESCH- WEGE garante que essas forjas dão lucro aos acio- nistas. e segui o caminho pelo qual viera de Congonhas. sem recursos e findaria por cair nas mãos de algum homem rude que. Está claro que. para aproveitar-se de seu trabalho. Êle iria errar de fazenda em fazenda. desejava prosseguir viagem em direção a S. no mo- mento da partida procurou-se em vão Firmiano. A arroba de ferro fundido vende-se nas forjas do Prata a 2$400 e o Sr. a mim mesmo.

No dia seguinte segui em direção a Congonhas.» Rei. (Corresponde ao Volume 126. 128. as árvores que (21) Vide minha 1. apresenta uma sequência de morros altos e arredondados. onde contava continuar minhas pesquisas pela vizinhança. A uma légua de Congonhas fui informado por um homem que nas vésperas meu boto- cudo lhe pedira informações sobre o caminho de Vila Rica. Tão longe quanto a vista possa se estender não se vê senão um vasto território sem habitações e imensas pasta- gens sem gado. . já havia pousado poucos dias antes. foi em direção a essa cidadesque tomei a resolução de fazer minhas pesquisas. em um espaço de 4 léguas. vol. 134. decidi-me a seguir o caminho que se entronca na grande estrada do Rio de Janeiro a Vila Rica próximo do Capão do Lana ou simples- mente Capão (21). ESCHWEGE criava em sua casa. da Coleção Brasiliana). Anteriormente Firmiano havia falado com muito entusiasmo da capital de Minas e dos encantos de uma pequena índia Purí que o Sr. Está claro que eu não devia voltar pelo que eu vinha de deixar. prome- tendo 9 oitavas (cerca de 68 francos) a quem me' trouxesse Firmiano. I. interroguei a todas as pessoas que encontrava.. onde. mas em parte nenhuma davam-me notícias do fugitivo. conforme disse. Vários caminhos vão de Congonhas à capital da Província. pág. Voltei e dormi em casa de FRANCISCO DA COSTA. Eram fortes razões para acre- ditar que meu jovem selvagem havia tomado o cami- nho de Vila Rica. cobertos de plantas herbáceas. A região que percorri até esse lugar. Nas florestas virgens.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 173 já conhecia. Fui até o lugar chamado arraial do Leite. pág. pouco distante de Cachoeira.

nhoa no« J^a E S J h w E G E explica o mau estado dos cami- ISS^R^SR^^S: provínc?a S n ^ ° rf . deixando em tal estado os caminhos que conduzem à triste capital de Minas. disse-me: "Senhor. eu som um criminoso". o tocador Francisco. êle se tornara cem veies peor. Dir-se-ia que. onde passei a noite. parti do Capão. os esqueletos de bêstas e cavalos que continuamente encontrava davam-me notícias dos inúmeros acidentes por ali ocorridos. o único que se achava armado entre nós. O sol já se havia posto quando cheguei a Capão. muito cêdo. para meu jantar fui obrigado a contentar-me com um prato de couve e feijão. e. até à minha chegada a Capão não avistei senão duas ou três casinhas e uma pequena capela. onde a estrada acha-se apertada entre dois morros a pique. í . Até Vila Rica só vi profundos atoleiros.. 174 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE por toclos os lados limitam o horizonte visual podem iludir-nos sôbre a falta de habitações. tinha-se a intenção de isolá-la de todo o uni- verso (22). No ano precedente eu já me queixara do caminho que vai desse lugar à capital da Província. mas aqui nada atenua a extensão do deserto e o viajante se entedia pela monotonia dessas montanhas que não apresentam nenhum acidente e onde nenhum traço de cultura ou de indústria revela a presença do homem. Após o momento em que comecei a me distanciar de Congo- nhas. a / a p Í t a l d o i m ^ r i ° e ^ s capitais d e S do/à r e l S acUidade que tinhamc os proprietários p e r obriga- da adm^i — - . quando em um lugar solitário. durante todo o dia não tinha comido senão um pouco de leite coalhado e farinha. feita em tal situação. Essa confissão. Ainda não tínhamos chegado. A 8 de Fevereiro.

enfim fui procurar o oficial do regimento que comandava os "capitães do mato". parece. Segui então na encosta da montanha em declive pedregoso e escarpado e cheguei à casa do barão de ESCHWEGE. Não havia notícias de Firmiano em Vila Rica. um grande número de negros se refugiou nas matas. entretanto dominei-me. III. Francisco relatou-me sua história. . temeu-se que formassem a s s o c i a ç õ e s perigosas. quase inaces- síveis. protegidos pelas montanhas. onde. espécie de milícia já esta- belecida em outros pontos do Brasil. Era preciso livrar esse homem cias vistas daqueles que poderiam prendê-lo. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 175 não era nada tranquilizadora. Aproveitei minha estada nessa vila para escrever a vá- rias pessoas. nos quais. O proprietário de um negro que é preso dá 25$000 (156 frs. principalmente nos arredores de Vila Rica. encarregados de perseguir os escravos fugidos. (Hist. cometem roubos frequente«. sendo essa im- portância dividida entre os capitães (23). de modo a inocentar-se. pedindo-lhe instruísse sua gente no senti-: de prender Firmiano. Chamam-se "capitães do mato" homens de cor. para impedir êsses agrupamentos foram criados os eapitfies do mato. 25) pela sua prisão. Por uma consequência natural dêsse acontecimento se se pode crer nas conjeturas inverossímeis de SOÜTHEY. porém l i v r e s . of Braa. 247-249). mas. A 17 de Dezembro de 1722 foram publicados os regulamentos que fixavam os deveres dos capitães do mato e as retribuições a que tinham direito segundo as circunstâncias. Os negros fugidos são muito comuns em algumas zonas da pro- víncia de Minas. pedindo-lhes deter êsse joven selvagem caso aparecesse em casa delas. ao mesmo tempo preveniam contra as trapaças dêsses homens. não se podia confiar. está visto. Geralmente esses escravos teem nessas montanhas um esconderijo (23) No século passado os negros de Minas formaram contra os brancos uma conspiração que foi felizmente desco- berta. como aconteceu outrora em Palmares (Pernambuco).

Continuei minha caminhada sem nenhum acidente até cerca de uma légua de Francisco da Costa. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE comum. fiz perto de meia légua sem encontrá-lo.. a alguns passos dali.rií 2 4 ) %ssas Palavras parecem-me africanas. que se atravessa antes de chegar à casa de Francisco da Costa. 1 0 sig ifica margem d ^ r ? ^ " ' . o que s i g n i f i c a dizer: vagabundo das matas. logo após encontrei outro riacho. metendo os pés nagua. e. ramos. ríSdo » r í n p n w 8 3 0 ' d a e x a t i d ã o dessa etimologia. muito mais largo. '<lW. Aí apeei-rne para colher algumas plantas e o tocador Francisco incumbiu-se de seguir com minha mula. O q u e dá força à opinião cio aC ha n o do P A Pm*?"® .4 34). I). chamando-se quilombolas aos negros aí refugiados (24). mas diz-se t ? ™ Â 1 Ã T ^ a l . o tocador e a mula. segundo ele. bo?« mhtjato ( N O t e s OM B r a « .o I I. aonde desejava aguardar o resultado das pesquisas que deviam ser feitas pelos capitães do mato". percorre as matas. contando encontrar. Quando as plantas ficaram prontas pus-me em marcha. a 10 de Fevereiro. caambolo ou cnlam- RAI que ad 2 ? ®' ™ i t e a palavra calhambolu (Dic. o que^sfinl?^ ^ 1 0 e r o i n d i c a u m a Partícula de composição. partindo daí no dia se- guinte de volta a Congonhas.? 6 c a n h e n e h o ™ > que. mas. t a m b o l a ' e c r e i o também eanhambola. e. Era natural que eu encontrasse air. Atravessei um regato. " Propriamente aquele que vive à na0h (Vide M o r Dic J c o n s f j o atinar a t i n a r cáo m a ?" >. Essa classe de fugitivos é denominada: ribeirinhos (25)" De Vila Rica segui. Outros negros fugidos vivem isolados . pertencem à e rVivfr? f ™ s i / n i f i c a r i a m — homem acostumado a fugir. a que se dá o nome de quilombo. ' a s l S m f l c a Ç ã o de caabô. que s i g n i f i c a matos. prefe- hornem" n t L U C C O C K W *a« derivar caambolo de caambo eiro. ficam na vizinhança das casas e recebem dos próprios escravos dessas casas o alimento de que necessitam. .Nesse caso não razao da aplicação dessa palavra. "Tesoro de la l e n g u a guarani". para o Rancho de José Henriques.

en- trei no quarto em que se achava o índio. sem maldade e não me ocasionou nenhuma contrarie- dade. em Vila Rica capacitei-me que era possível substituí-lo e. mas. em seguida. durante todo o tempo que esteve a meu serviço. Chegado à casa de FRANCISCO DA COSTA. segundo o uso dos brasileiros. já não duvidava dessa nova contrariedade. devo confessar. mas. aproximei-me dêle. peguei-lhe a mão. Após as pesquisas que havia feito. como já fizera. que se confessara criminoso. pareceu um pouco admirado de me ver. não podia con- servar a esperança de ver tão cedo meu selvagem fora- gido . pertencente a FRANCISCO DA COSTA. Falei-lhe então severamente. esse apego caíra muito também. tivesse fugido com os dois animais e uma mula onde se achava minha roupa e dinheiro. pouco a pouco eu me acostumara à perda desse rapaz e pensava que ele poderia tornar a fugir. refletindo sobre o pouco apego que demonstrara. Nos primeiros ins- tantes da fuga do Botocudo essa notícia ter-me-ia causado a mais pura alegria. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 177 nas margens dos riachos as pegadas do tocador e dos animais. tendo feito sair as pessoas que ali se achavam. ouvi os negros desse homem gritar de longe avisando- me que Firmiano havia sido preso nas vésperas e que se achava na casa de seu Senhor. Errei em pensar mal desse moço. sem constrangimento estendeu-me a mão para pedir-me a bênção. ele era dócil. entretanto quando passei por um velho engenho de açúcar. de minha parte. mas não vi nenhuma e comecei a temer que Francisco. Infeliz desde meses atrás. re- lembrei-lhe o que havia feito por ele e censurei sua . quando avistei meu tocador: o cavalo e a mula haviam fugido por uma estrada lateral e Francisco estivera em sua persegui- ção. mas.

afim de poder.178 AUGUSTO DE SAINT-I^ILAIRE ingratidão. haviam avisado ao senhor e êste conseguira atraí-lo à sua casa. e que tinha sido muito infeliz. não calculando as conse- quências de seus atos. que logo que se disse que ele deveria voltar para minhn companhia. que an- dava à procura do índio e que logo encontrámos. dizia. que eu devia estar muito longe e que manifestara a intenção de seguir para Itajurú. tendo-o percebido. após repetir a pergunta várias vezes! que meu tropeiro Manoel Soares lhe tinha zangado muito. . Os índios agem quase sempre irrefletidamente. para a casa do capitão ANTÔNIO GO- MES. tentado pela recompensa conside- rável. mas Prégent. queixando-se apenas de Manoel Soares. que eu havia prometido. Acrescentou que após sua fuga havia se refugiado em uma casa de ne- gro. sendo esse o motivo da fuga. Nos primeiros momentos da viagem Firmiano pareceu triste e envergonhado. Parti nessa mesma tarde para ir pernoitar em Pires donde contava partir no dia seguinte cedo. onde achou pouco que comer. ao que respondeu. não tardando em restituir-lhe tôda a sua alegria. Havia dado uma volta para evitar a residência de FRANCISCO DA COSTA. distanciar-me de Congo- nhas. mas os negros. pilhe- nou com êle. nesse mesmo dia. com tristeza. Algumas lágrimas escaparam de seus olhos e ele assegurou-me que jamais me abandonaria. durante o tempo em que o índio ali estivera somente falara elogiosamente a meu respeito. Perguntei-lhe qual havia sido o motivo de sua fuga. O pobre selvagem havia fugido como uma criança travêssa se esconde quando se lhe ralha. por instinto. como de seu hábito. O pessoal da casa de FRANCISCO DA COSTA contou-me que.

A terra tem. de Congonhas do Campo ao Rancho do Marçal. como havia feito depois de Sabará. e geralmente o terreno pareceu-me mais desigual que montanhoso. ou ao menos de seus pon- tos culminantes. — Aldeia de Lagoa Dourada. frequentemen- te. situada a 10 léguas do Rancho do Marçal. Em um espaço de cerca de 15 léguas portuguesas. — Aldeia de Suassuí.300 pés ingleses. Já vimos que antes de chegar a Congonhas do Campo havia encontrado região muito menos monta- nhosa que nos arredores de Vila Rica. João d'El Rei. Muro. — Pulgas penetrantes. — Modo de viajar. continuei. o que não é muito de estranhar. acima do nível do mar. Algodão. a viajar a oeste da cor- dilheira ocidental. Francisco e alguns dos mais arientais do rio da Prata. próximo de S. — Aldeia de Carandaí. João D'E1 Rei. pois que é aí que nascem os afluen- tes meridionais do rio S. O Sr. uma côr vermelha como nos arredores de Vila do Príncipe. Essa região é propícia às árvores frutíferas da Europa. talvez mesmo sempre. Até Roça da Viúva. CAPÍTULO X CAMINHOS DE CONGONHAS DO CAMPO A SÃO JOÃO D'EL REI Descrição geral da região situada entre Con- gonhas do Campo e S. Bo- vinos e carneiros. pois que Congonhas começa a se distanciar da grande cadeia. não avistei . O rio Paraopeba. ESCHWEGE dá a Congonhas do Campo uma altura de 2. mais ou menos na direção sul-su- deste. e no conjunto a região deve ser muito elevada. — Venda de Camapoã.

não apresentam senão Gramíneas muito finas entre as quais não há f r e quencia de outras plantas. ciesta região. e p d a de vários arbustos Ccirateristicos principalmente o Baccharis conhecido sob o nome de alecrim do campo. Uma Gramínea de caule delgado e de espigas horizontais (Echinoloena scabra var.' mata virgem. Entretanto quando os ai bustos se tornam raros nos campos artificiai. enàoi L h c o n s a g r a r a m à sua magnífica senão e m l i g a r e " J ? ™ b r ° t e r v i s t o a P ^ n t a em questão m mgares outrora cultivados. capoeiras e campos. e infinitamente mais difícil fazer distin- ção das zonas onde o sapé e o capim gordura dominam nas pastagens que sucedem às florestas (1). Êsses campos artificiais distih- guem-se geralmente pela ausência da Echinoloena scabra. em tôda essa região" minhas colheitas foram quase nulas. nas áreas onde as matas . eles se aproximam mais ou me- nos desses últimos. equivocado quando afir- Gerate E. entretanto tornam-se comuns logo que se aproxima de Carandaí e da serra de S. ou pela presença de uma outra Gramínea « Panscum campestre M. segundo são mais ou menos "to- sados pelo gado. O S S ^ d i z e r é q u e P a s «ei 22 mesos quo os Srs e g p n r M ARTIUS ê ' m a i s tempo da m e t a d e do viagem. c h a t a ) carateriza esses campos.P . MAR- mei que o c ^ t ' ^ . Êstes últimos quando de carater primitivo. N. como as de TÍUS et NEFcf °q 'U e e U m e hea vAi ap o s t o l o * ! « dos Srs.f n S n í l T . Quanto aos campos artificiais quer dizer. aqueles que sucederam às florestas virgens' ou antes as capoeiras. n qã U° 6 e rn aâ on aPt 0u dr ea rl 6 ni a Província de Minas foi P r o d u z i d o S f demonstrar que êie a Percorrer essa nrnvíL? U e . assim. José A região apresenta frequentemente bosquetes d. como qua se todas as pastagens naturais puramente herbáceas que eu vira ate então. conhecer ^ T n " J a J Í T 0 aiSn d iGs P e n s á v e l a aqueles que queiram r InIneas o £ t 4 s n a r t S ? n l ~ l 0 bu * a e x c e lfe n t brasileiras. 180 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE nenhuma mineração.

166). na região compreendida entre Con- gonhas e o Rancho do Marçal. essa opinião é também a do Sr. e sem dúvida nos luga- res circunvizinhos. Em Paracatú. até a aldeia de Carandaí não são as diferenças de altitude que de- terminam a presença de matas ou de pastagens. diz o Sr. são mais ou menos das mesmas alturas. primitivamente trazida do território espanhol. assim como nas zonas que elo percorreu. se êsse vocábulo pode ser aqui empregado com propriedade. e navia composto uma memória sôbre a agricultura de seu país. Reli as numerosas notas sôbre os lugares onde nasce o capim gordura e não encontrei senão a confirmação de minhas lembranças. JOSE' TEIXEIRA (Vide referência à pág. considera-se o capim gordura como uma espécie exótica. De qualquer modo. porque a pterís aquilina in- igena em Sologne aí cobre logo os terrenos em repouso. à margem dos caminhos e algu- mas vezes nos "pousos" dos viajantes. Isso ^ perfeitamente verdadeiro. pois que a região é apenas ligeiramente desigual e os mon- tes. ai Pteris caudata assenhorea-se igualmente dos terrenos outrora cultivados. MARTIUS. acho ainda aqui a confirmação do que eu havia dito sôbre a causa que impede as florestas de serem mais extensas na região onde os morros são arredon- dados e não teem declives fortes. W preciso notar que não são sómente os homens rudes que consideram o capina gordura como exótico. que possue alguns conhecimentos de história natural. e ^i^retanto não s© pode considerá-la como espécie exótica. Com efeito nas ter ias que me pareceram boas vi árvores cobertas de foram destruídas pelo homem. como forragem. e. MARTIUS nunca esteve. em um espaço de 9 léguas. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 181 Com efeito. mas. -Na província de Minas. homem muito culto. . fôra outrora cultivada nos arredores. a Echinoloena scabra aparece algumas vezes nos campos artificiais e algumas vezes vêem-se também êsses arbustos nas pastagens natu- rais. Demais. não concluirei e que o E r i g e r o n canadense não seja exótico pelo fato 'e também se assenhorear das terras outrora cultivadas. onde o Sr. As matas apossaram-se das melhores terras. e os habitantes da vila que venho de citar dizem que essa grama. se existe alguma área um pouco arenosa e pedregosa é aí que se encontram os campos naturais.

As matas que essas árvores formam serão oode se dizer. e . sua f cundidade e sua riqueza. cultivados com sucesso. ao centro <lua*e tão bons quanto os lado« A ! 3 Vaa Sp tra0S v ep lat sa td 5a se n s a r aque ^ vêem por todos os bei™ P criação de gado. . . podendo citar. -se quefeijão. e nela nao vi nem uma fazenda mais ou menos importante \ er-se-a. que vários sítios produzem milho. não sem alguma razão. açúcar exista a umae s deráv ! a n C f Caminh0 ' P ' a n t a Ç ° e s um tanto con- edlt c~ ." 'Gaba-se. Mas essa reputação se i bem pouco merecida se se fosse julgar a comarca loãTd-E! R p r . No início da estação . ° q U e 3 m a Í O r P a r t e <«<» frutos se . 182 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIrE líquenes nao apresentando aquele vigor que carateriz-. pelos detalhes em que breve entra- rei. nesta egiao elevada. pouco cultivada. a comarca de Rio das Mortes pela vast. que é de bela raça como em geral todo o da província de Minas.qUe P e r c 0 .nisso consistindo todo o cuidado do agricultor. todavia. em apoio de minha opi- n ao pêssegos amarelos que saboreei em Roca da pareceram dò cenfr Tda França. d-H Rei e t l a a R i c r e Í j ° S * * M ^ ^ em S ' satJÜ*™" c u . ela e miserável.dão de suas plantações.gÍ f° . r Í e n t r e eS joao d El Rei. um novo intermediário entre as f l o r e i propriamente ditas e os campos de árvores raquítica. os grandes vegetais da região montanhosa das flori tas.principalmente nas épocas Sal aOS c a r n e i r o s todo n . mas não ouaírnipr t U C T a p r Í S C O ' e e m q« a lq«er chuva ou qualquer trovoada deixam os rebanhos soltos nos cam de iim « m p ° e m t e m P ° . t i v a d o r e s possuem carneiros.

70. de Congonhas a S. que atravessa a região que venho de descrever. A região que então percorri pertence ao termo de Queluz. Parti de Congonhas a 13 de Fevereiro e. Não se vai pedir hospedagem aos proprietários das habitações. João d'El Rei. João d'El Rei. mas. tem-se o cuidado de construir pequenos muros de pedra sêca. de distância em distância. são quase sempre mantidos por homens de uma classe muito inferior. I. achei-me na comarca de Rio das Mortes ou de S. Após haver dado uma idéia geral da região que se percorre entre Congonhas do Campo e S. des- providos de tôdas as comodidades. passarei a alguns detalhes. como acontece nas regiões pouco frequentadas por viajantes. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 183 quente e chuvosa. João d'El Rei. em Outubro. o modo de viajar é o mesmo do caminho do Rio de Janeiro a Vila Rica (2). (Corresponde ao Volume 126.. o são mais que as pessoas da mesma classe em França. p á g . a uns 15 ou 20 anos. . 66. Cercam-se os jardins do mesmo modo. que suas relações com os tropeiros tornam pouco ho- nestos. tendo atravessado o riacho do mesmo nome. vol. (2) Vide minha l. é que se tosquiam as ovelhas. da Coleção Brasiliana). e. a Rei. do lado de Congonhas e do Pires é o minério de ferro o mate- rial empregado nesses muros. Êsses ranchos. sendo aí que se pára. Na estrada. contudo. Nesta região. muito movimentada. mas que. encontram-se ranchos e vendas. pág. de onde não saí senão para seguir para a província do Rio de Janeiro. para garantir suas pastagens contra o gado alheio e impedir o desaparecimento do próprio.

. . v u j ( P. segundo PIZARRO é «r. Paropeva.. hist. 67. dos vocábílos l n d w " 6 S S e " o mr ieo Ve e ma ' eb c o m o disse LUC- que a ortografia do ? d e V Í al* s e«. poderá ser chamado o celeiro de Vila R i c a . s e g . O. rio Paraopeba nasce nas vizinhanças de Oueluz e apos um curso de cerca de 60 léguas (4) lança-se no S. e vivendo a hora presente. I.^ aPi '^ é I>e?>a ' P I Z A E R 0 Peranpeba e rapeba. os agricultores vizinhos de a S C m e a m m a Í S d o <Jue P ° d e comportar a extensão de suas propriedades.t êSSe U m d°S traÇ°s d o ^ á í e r nacional. S. Francisco.i. sen- s as a qUC í?rnecem uma Parte dos víveres que se : ü dZ s rt n tT0 dHe Mar p ana> S f a r á 6 n a C a P i t a l d e Minas.. Encorajados pelo consumo de seus produtos. . corno nunca é adubado.: ^ / ' p«™ ^ u nascentes. da nomes brasileiros a d e quando se trata (5 } P17 ir ora».m e alguma in- tento como está m t e n t . * ^ ° auestfto. ™ n t a ° m e ' m ° a U t 0 r ' ° m Í n d r o e ° cultivador' queiem em um so ano tirar de seu terreno tudo o que Zlr . 184 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE A uma légua de Congonhas do Campo acha-se aldeia de Redondo. que. a urna sucursal da paróquia de N. 383. diz ESCHWEGE. a pensei apesar d e que LUCCOTK í í ' S6Ja a u t o r i d Preferida. Não me detive nessa aldeia • parei a margem do Paraopeba (3) que se encontra a um légua e meia de Redondo e que se atravessa porF uma ponte de madeira. r chato. da Conceição das Con gonhas de Queluz.^ES^H^Er r ^ V p«. Mas aqui n . entre os rios Pará e Abaeté (5) As do ro eba na parte mais rr. ' 1 Paraopeba. o solo não tem tempo para produzir novas matas e. E n t r e - COCK.S n í ^ S U n ? " * LUCCOCK Pa- interpretei mal e s r í S i» J° a6 P r o n úixcia que sem dúvida Compreende^e 0ue ^Cientemente Poropeba. enfim' eu m . — Mem. nacioll . certeza s ô b r e o m d í J ^ 0 ™ n^oomu ex eerma m . sao tidas como de grande fecundidade.

era mantida por uma família de brancos. sendo portanto pouco movimentada nos dias de serviço. (Corresponde ao Vol. depois da ponte do Parao- peba.vol. I. de acôrdo com a pro- nuncia usada na região. e a grande quantidade de terrenos que (6) Brás. parece-me. Snssuhy vem evidentemente das palavras da rnrn!? — cunçw» veado e rs. «••oç> õa Coleção Brasiliana). deverão ser distinguidos. a cana de açúcar. (7) Creio dever escrever Sassuhy. como a de Re- dondo é uma dependência da paróquia de N. 11. 400. 0 primeiro pelo nome de Sassnlty e o sesrundo pelo de S u s s u h y . 194 nprf á b u l o s t-áma pniim. o algodão.1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 185 desseca-se esgota-se. da Conceição de Congonhas de Queluz (8).1 Suassuhf. LUC- LAJ^K. quando parei na venda de Camapoã (9). Essa aldeia apresenta uma larga rua. À cerca de uma légua da ponte de Paraopeba passei pela aldeia de Suassuí (7). n a d a iuo justifique essa asserção. pág. e campos fecundos se trans- formam logo em um carrascal de samambáias e Gra- míneas de má qualidade. etc. i ^ e n í i à l í n g u a seraL E' sem razão que sábios viajantes. que. S. I. Plantam-se nos arredores de Camapoã. que se lança no. pâg". seios arredondados.. todavia. não descubro. que n r f . rjo (rio dos Veados). Tal é o estado em que se encontra hoje a maior parte da região de que se trata" (6). Jo? P I Z .3. 9..' VMo ce m » V I I I» P. 126. . por onde passa a estrada e pertence quase inteiramente a lavradores da vizinhan- ça que aí veem apenas aos domingos. que. o milho que rende 150 a 200 por um.s e g . escrevem CamaboSo. Havia feito 4 léguas. . o feijão. mas não ê menos verdade que admi- tinao-se8-61. Neue Welt.. cousa muito rara nesta região. As várias pessoas de que se com- punha essa família eram tôdas louras e também de belas cores. 10. escreveu Suá-snl e pretende que essas palavras signifi- •am o grande e o pequeno veado. . 1 ejuaicados pela pronúncia alemã. De qualquer modo a aldeia em ^Pite-o e o rio do mesmo nome.rio Doce (Vide Re ! .

teitas com tanto cuidado. da Coleção » £ . ou melhor 0 peso das sementes representa 3/4 do peso total 'A cultura do algodoeiro é em geral feita em vários pontos da comarca do Rio das Mortes. Queluz e Carandaí a arroba de algodão em caroço rende tanto ou quase tanto quanto em Pessanha e Minas Novas. mas o algodão ctesses lugares é muito inferior ao de Minas Novas De outro lado se em Camapoã. uma arroba de algodão em caroço dá 8 libras de pluma. e principalmente ele>' duram muito menos que em Pessanha (10). Aqui os a W doeiros começam a produzir somente no segundo ano e não duram mais que 4 anos.a Rel " voL J ' 404 e vol. constituindo o meu tormento. pág. situado a 8 léguas de Camapoã. prova aue esta região tem sido muito cultivada. que se eterniza- ram. João como acontece em Minas Novas. davam-me as mais vivas inquietações pelas mi- nhas coleções. de Vila de Campanha etc. a M a (Corresponde ao Volume 126-A. mas. II. Lagoa . no de S. 186 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE apresentam atualmente campos artificiais.. João cVEl Rei. « •. tais como no termo de Queluz. vê-se que p algodão não produz tão cedo em Camapoã e prova velmente em outras partes da comarca de S. No dia em que deixei a venda de Camapoã dese- java ir até Lagoa Dourada (11). mas uma tempestade lorçou-me a deter a meia légua dessa vila no lugar chamado Roça da Viúva. 6 338 6 V 1Ume 126 A páí? flaTofeX Braúna?! ^ ° " ' < 95' genS(1(VolVÍn p á i U 6 l r j ? n a pri ™ eira *>arte de minhas via- 160. 106. As chuvas. se eu pudesse prever as con- trariedades que iam me causar na volta! m (CorresLr^fn ^h. Com cm- satisfaçao eu teria visto a destruição dessas coleções. pág. versos ikS 0 ?aL t ^em n ) mSeÔ bd ree Laas otradições a do relativas aos di- Dourada etc ® ° ° * Pau Dourado.

(Corresponde ao Volume 126. Aí ninguém os incomoda de modo que podem se proliferar à vontade. Honra pois ao jovem natu- (12) Vide minha l. 249.Quanto a PISON. forçaram-me a refugiar sob a galeria (va- randa) da habitação. mas é necessário que a fecundação se tenha realizado enquanto o inseto era senhor de todos os seus movi- mentos e quando se achava em seu estado mais natu- ral (13). veiu com MAURÍ- CIO DE NASSAU. I. a imensa quantidade de pulgas e bichos de pé que me assaltaram. sob o nome indígena de tanga. mais inexato que MARC- O. todavia não sei como explicar quais sejam seus alimentos nas casas abando- nadas. pág. correr ou aproximar-se de um indi- víduo de sua espécie. sôbre a qual êle vivia e era destinada a . descreveu de modo passável. 289). a Rei. seus intestinos adquirem um tal volume que ultrapassa enormemente o da cabeça. são geralmente multiplicados nas casas abandonadas. e então o inseto perde as principais faculdades que a natureza lhe concedera. acreditava que o animal ficava preso nessa espécie de saco que forma seu abdômen distendido (MARCG. ~" PIS. vol. Bras. mas ainda. como se sabe. O que é certo é que logo que o bicho penetr no pé do homem êle se apresenta em estado anormal. que. como já disse (12) não são somente abundantes nas casas novas. tais as de pular. (13) MARCGRAPP.conter sua posteridade . mas. mas êle considerava a parte ailatada do abdômen dêsse inseto como uma membrana inde- pendente.. próximo à fazenda da Roça da Viúva. 46. 35. Brns. sendo impossível sair pelo furo por onde penetrou. da Coleção Brasiliana). Os bichos de pé. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 187 Achava-me então alojado em um rancho abando- nado. o bicho de pé. Na verdade o bicho de pé põe ovos no logar onde penetrou e de onde não pode sair. Convém repetir que não conhecemos da maior parte dos animais da América Meridional senão suas formas exteriores.RAFF. pág. m r n r n ^ m m m m 1 .

. nenhuma mineração até o lugar chamado ROCP da Viuva. LUND.azem com a coloração destes vegetais. Essa a. f seria muito rica. cujos arredores forneceram e ainda fornecem muito ° l i . como tantos outros - reunir insetos do Brasil. se os habitantes não tivessem excessiv <U) O Sr. Dizem que na região vizinha de Camapoã. O . dedicou-se durante v < W anos. t a m b é m a í v i loja bem . e dotadas. exis- tem terras auríferas. 188 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE i alista que. produzem um conjunto muito agradável. ° Pequeno lago próximo. n „ r r g e m í Wn PeqUen° ao <3ual deve seu nome. Foi proximo desta habitação que come-. Apesar de Lagoa Dourada nn S S T a ° U m a S U C U r s a I ' v i entretanto dois edifícios S ^ s?t a° na I etl a0 . de Copenhague. as lutas e os amores dos numerosos aní mais de que são povoadas (14). no seio das florestas v i r L - as manhas. disse-me um J ^ m o r a d o r . limitando. segundo o costunv Í " " m a . ao estudo de seus costumes e que. S da Conceição dos Prados. não se. S CafaS de L a ^ ° a D o u r a d a em geral sepa iadas umas oas outras.ontraste que as minerações destituídas de verdura . quer ainda voltar às rep-iõe* equmoxiais e ir observar. E' construída em uma grota. h o r t a o u ^ uma plantação de bananeiras.deia' faz parte do têrmo de S Tosé e uma sucursal da paróquia de Prados. entretanto não vi. a disoosicãc a S e f . como disse atras." p a r 3 com" pJetar suas observações. a ver terrenos que haviam sido explorados por p e - c a d o r e s de ouro e vi em seguida muitas minerações ^ vi£Urada> aWeia situada a meia ^ * . ou N.

(15) Não se deve escrever Candnahy como se fez na Ale- ha. a região. Carandaí é uma especie de aldeia. aqui e acolá. à esquerda do caminho estende-se a serra de S. As terras cultivadas são muito raras à margem da estrada. a elevada cadeia de mon- tanhas que tem o nome de Serra de S. Apresenta algumas matas nas grotas e imensa extensão de pastagens naturais. significa palmeira. um pequeno número de animais erra. e onde os íochedos nús aparecem aqui e acolá. Esta parte da província é alta e arenosa. e. é pouco mais ou menos idêntica à que percorri nos dias ante- riores . em atividade. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 189 gosto pelas demandas e náo gastassem em "processos" todo o dinheiro que possuem. que fica à cêrca de 2 léguas. mais além vêem-se várias minerações. próximo de Carandaí o terreno torna-se mar. nos campos. montanhoso. De Roça da Viúva a Carandaí vi pequeno número de casas. José. com- posta de 4 ou 5 casas. a certa distância. cana de açúcar. entretanto os campos naturais são talvez maio- res. José. no meio de uma vegetação pardacenta. De Carandaí fui parar no Rancho do Marçal. que fica à cerca de 4 1/2 léguas. Carandaí. Nos arredores cultivam o mi- lho. mas não se avista nenhuma ha- bitação e não se vê nenhuma terra cultivada. onde parei. À esquerda do caminho avista-se. em guarani. arroz. . feijões. em geral de aspecto miserável. Entre Roça da Viúva e Carandaí (15). que deve seu nome a um regato junto ao qual foi construída. coberta de rochedos. mas garantem-me que as há em grande quantidade a pouca distância do caminho.

De um lado é envolto pelas colinas de alturas desiguais. José. avista-se S. 190 AUGUSTO DE S v t N T . e ao longe.H I L A I R E Um pouco antes de chegar ao Rancho do Marçal desce-se por um declive interessante. fiquei no Rancho do Marçal e daí ia. com um camarada visita-la. árvores. mas. en- tre grupos de. caravanas teem o costume de parar a alguma distância dela. e do outro pela serra de S. aqui e ali vêem-se minerações. . João d'El Rei. Como essa cidade é cercada de más pastagens. pastagens naturais cobrem-no em quase tôda sua extensão. Foi o que fiz.

é a mais meridional das cinco que compõem a província de Minas Gerais. Retrato dos portugueses estabelecidos nessa cidade e no Brasil em geral. lucros dos negociantes de algodão. Aldeia de Bom Jesus de Matosinhos. João D'Ei Rei. árvores frutíferas. Ocupação dos habitantes. João é a cabeça. — População do termo de S. A aldeia de Porto Real. — Região situada entre Rancho do Marçal e S. João D'E1 Rei. a oeste as províncias de Goiaz e S. intendência. CAPÍTULO XI SAO JOÃO D'EL REI Comarca de Rio das Mortes. hospital. A comarca de que S. João D'E1 Rei. sua situação: pontes. artigos de exportação. Cultura. — História de S. ao sul esta última e a do Rio de . — Necessidade de dividir os bispados do Brasil e criar um em S. sua civilização. João D'E1 Rei. Mendicidade. suas divisões. sua população comparada à de outras partes da província. Comércio. prisão. João D'E1 Rei. albergues. Seus limites são: a léste a comarca de Vila Rica. produtos. Retrato dos habitantes de S. suas montanhas. João D'EI Rei. — S. ao norte as de Sabará e Paracatú. Sucursais que dêle dependem. e que tem o nome de Rio das Mortes ou S. Tem a fôrma de um quadrilátero muito irregular e fica de 19°30' a 23°40' de latitude S e pouco mais ou menos de 335° a 328° de longitude. víveres. carros de boi. rios: vegetação. Paulo. O Rio das Mortes Grande. ruas e casas. igrejas. sua altitude. João D'E1 Rei. seus limites. Suas forças militares.

ao centro o de Campanha da Princeza.) e ao mesmo tempo uma parte dessa outra cadeia mais oci- dental. . ou melhor. João D'El Rei compreende toda a bacia do Rio Grande. Volume iYÍ d e „? i : l n h *o C o Rel " VoL l e C ä o P á S. ao norte o de Tamandn' e enfim. um pouco mais para oeste. acredito que. mas não são os ado- taaos. Sem falar mesmo de alguns pontos notáveis por sua altura. a léste os de Barbacena e Queluz . (Corresponde ao obra do Sr dÄE Sn? J 4 ^ . Francisco e ao rio Tocantins (serra das Vertentes. Francisco cor- rem também na de Sêrro Frio. Ela se divide em 8 termos. e a de Serro Frio as do Arassuaí. pouco mais para oes'te ain- da. mas. pág. I. bem a oeste o de S. I. a de Vila -Rica as nas- centes do rio Doce. e o Jequiti- ° * e vários dos afluentes do S. tomada em seu conjunto. cadeia ocidental (serra do Espinhaço. i n t i t u l a d a : Brasilien Neue Welt. a comarca de S. ao meio do qual se mostram de longe em longe grupos de montanhas e que dá nascença ao S. As nascentes do S. 82) (Corresponde ao «íiif^íL P ' 8 7 ' d a Colefiäo Brasiliana). Francisco. ao norte o de Santa Maria de Baependi. que pertencem à serra do Espi- nhaço e à serra da Canastra. que a comarca de S. os d- S. 192 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Janeiro (1). Tais limites seriam sem dúvida bem naturais. a comarca de Sabará as mais distanciadas do S. vide também a pág 167 OHWEGE. João D'el Rei é a mais alta (1) Um viajante inglês pretende que os limites das comar- cas que compõem a província de Minas são determinados pelos aas bacias dos grandes rios. Francisco fazem parte da comarca ae m o das Mortes.» Rei. José e S.69. desse planalto.) (3). a comarca de Sabará estende-^3 sobre as e tes da ? Arassua £ r a n d e cadeia de montanhas. Carlos do Jacuí (2)7 Esta comarca compreende um trecho da grande . Na comarca do Rio das Mortes acham-se as altas serras de Ibitipoca e o pico de Aiuruoca. traçando íínit» ™ quadro geral dessa comarca creio ser Indispensável repetir esses detalhes. »»'«sUiana). ESCHW. que fazem parte da serra das Vertentes. João D'E1 Rei . (2) Já indiquei os limites e as divisões da comarca do Çl? J f s Mortes! s (Vide na 1.. ESCHW.

ESCHW. carneiros. 1 desses. Lá. açúcar. enfim. ao Paraguai e ao Uruguai termina por constituir o rio da Prata (4). nela estão as nascentes do rio das Mortes Grande. começa este •último rio. por onde se passa para entrar na província de S. João D'El Rqi fornece também aos habi- tantes do Rio de Janeiro prodigiosa quantidade de toucinho e de queijos. hoje é à agricultura e principalmente à pecuária que se dedicam os habitantes da região. No mais a maior parte da comarca é coberta de pastagens. o Lambari. Uma grande parte do gado e dos porcos que se consomem na capital do país vão da comarca de S. cabras. mas achei que não devia citar em um quadro •1 senão as indicações mais importantes. afluente do Paraibuna e o Jaguarí. afluen- tes do famoso rio Grande. unido ao Paranaíba. é nessa comarca que nasce o rio S. algodão em rama. o Pará e o Paraopeba . ÍJ deria c tar ° * muitas outras montanhas e outros rios. que se lança no Tietê. A co- marca de S. Outrora a comarca produziu muito ouro . Uma pequena faixa da comarca do Rio das Mortes. constituídas de gramíneas. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 193 de todas as que constituem a província de Minas. tais como o Bambuí. Paulo. outras ervas e sub-arbustos. mas. Francisco e que co- meçam a correr seus primeiros afluentes. do Sapucaí e do Rio Pardo. tecidos gros seiros de algodão. e nela que nascem. situada a leste da serra da Mantiqueira (parte meri- dional da grande serra do Espinhaço. o rio Preto. . favorecidos pela vantagem de serem vizinhos da província do Rio de Janeiro e de poderem exportar facilmente os seus pro- dutos.). João e principalmente da zona do rio Grande. pertencem à região das florestas. e uma porção ainda menor que se acha ao pé dessa mesma cadeia. couros. que.

enquanto esta.° 1 ) . um vago ou um arbitrário que não me permitem adotar seus algarismos com inteira confiança. que em particular na paróquia de Vila do Príncipe onde existem mais de 28.OSO DE OLIVEIRA a 222. apesar de ser inferior em extensão a duas delas: as de Sabará e cle Paracatú.... (6) Esta indicação foi-me dada ao mesmo tempo pelo cura e pelo ouvidor de S. as proporções são bem diferentes na comarca do Rio das (5) LUCCOCK indica a i n d a cavalos. Miguel de Mato Dentro não haveria 1/6. tomada em conjunto conta mais ou menos 10 indivíduos por légua quadrada (7). ( C o r r e s p o n d e ao Volume 126. João. feitos pelos pastores das diversas paróquias não dão mais do 170. n o s Anais Fluminenses n. só a comarca de S.000 indiví- duos não existe 1/9 de homens de nossa raça e que na de S. 80. Maria de Baependi (5). sendo por conseguinte a mais populosa das cinco que formam a província de Minas Gerais. m a s pa- rece reinar sôbre êsse ponto. uma obscuridade. vol. Já disse alhures que os brancos não chegam a constituir um quarto da po- pulação de Minas.000 almas sôbre todo o território de Minas. A comarca do Rio das Mortes compreende cerca de 200. As indicações de P I Z A R R O para as paróquias e sucursais do Rio das Mortes levariam a população total da comarca à cerca de 170 ou 180 mil almas. Se admitirmos.194 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE enfim o fumo produzido no termo de S. que não haja mais de 500. I. p á g . o Rio das Mortes. 470).580 léguas quadradas apresentará cerca de 40 pessoas por légua. nos 2 autores que cito aquí. pág. . Os levantamentos das popu- lações. mas as declarações sôbre as quais esses levantamen- tos são baseados nunca são exatas. e.000 habitantes p a r a toda a comarca do Rio das Mortes.« Rei. burros. João D'el Rei compreenderá mais do terço da população da pro- víncia. (7) Vide minha 1.000 alm as (6). 86 da Coleção Brasiliana). estimado de modo aproximado sua superfície em 4. como já o fiz. galinhas e pedras preciosas (Biotes on Braz. e as de ANTÔNIO RODRIGUES VEI.583 (Igreja do Brasil etc.

vizinho da província do Rio de Janeiro. no meio de um povo dado ao comércio e à agricultura. As razões das duas diferenças que assinalei entre a população de Rio das Mortes e a das outras comar- cas. são bem fáceis de descobrir. onde não se pode esperar um verda- deiro sucesso senão com auxílio de um capital já adquirido. As causas que levaram a essa comarca. E' preciso. na verdade muito aproximados. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 195 Mortes. porque esse território. os emigrados europeus receam . nela ocasionaram também uma distribuição de habitantes muito irregular. que nas zonas auríferas. não existe uma só na metade ocidental. uma população mais considerável que nas outras. pois que os brancos aí estão na proporção 1:3 em relação aos negros ou aos mestiços. como naquelas em que se extrae o ouro ou se cultiva a terra. e. ademais eles teem melho- res oportunidade de fazer alguma fortuna. Os primeiros colonos es- tabeleceram-se na parte oriental onde havia muito ouro e foi aí que os novos emigrantes se fixaram. menos estabelecerem-se aí. Não há a mesma necessidade de introduzir negros escravos numa região onde se dedica sobretudo ao negócio e à criação do gado. a população dessa última metade não vai além de um quinto da de tôda a comarca. como o Rio das Mortes é mais vizinho do Rio de Janeiro que as outras partes da província de Minas. A léste do centro da comarca acham-se cinco vilas. se acha melhor colocado no que concerne às comuni- cações e ao comércio. todavia. segundo meus cálculos. . não pensar que a população do Rio das Mortes seja igualmente distribuída sôbre tôda a superfície da comarca. Além disso.

eles não pensam em dar instrução aos seus filhos. foi o velho FERNÃO DIAS PAIS LEME que. lançou as pri- meiras habitações na comarca do Rio das Mortes (8). Os índios que povoa- vam a região puzeram entraves ao progresso dos aven- tureiros paulistas. se a posição geográfica da comarca do Rio das Mortes e a natureza de suas rique- zas tendem a aumentar o número de habitantes dessa região. provavelmente. of Braz. III. . VIU. estava reservada a TOMÉ PORTES D'EL REI. João D'E1 Rei. acha-se em SOUTHEY — CORTES D'Eli REI. e como sua ignorância não os impede de gozar. donde o nome do rio sôbre cujas margens se deram os combates — rio das Mortes (10). quando se enriquecem. elas não influem de modo tão feliz em sua civilização. . mas esse trabalho não teve. houve luta. (10 „ > A d o t o a opinião de PIZARRO (Mein. Hfst. que lançou numerosos habitantes ao território de S. Observa-se na comarca de Rio das Mortes menos conhecimentos. aí pelo fim do XVII século. João.. nenhum prosseguimento. A honra de descobrir as minas de ouro. Os costu- mes grosseiros favorecidos ainda pelos hábitos rurais. 121) mais aceitável que a que atribue o nome de Rio das mortes às escaramuças entre os paulistas e forasteiros. Segundo dizem. menos polidez e mesmo menos hospitalidade. P- seg. (9) Em vez de PORTES D'EL REI.. Um pouco mais tarde o território do Rio das Mortes foi principal teatro das lutas entre os Pau- (8) SOUTH. 47. dessa consideração que infelizmente se dá aos ricos. nascido em Taubaté (9).H i s t .196 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE De qualquer modo. Como êsses emigrados portugueses que aumentam sem cessar a população da comarca de Rio das Mortes e sobretudo a de S. que nas outras partes da província. perpetuam-se nas famílias. não receberam nenhuma educação.

João V (12). creio dever adotar a data indicada em um manuscrito que vi em mãos do cura de S. governador do Rio de Janeiro. que apresenta a um só tempo acontecimentos interessantes e detalhes sôbre costumes tão estranhos quão variados. Paulo. que se fizesse uma comarca do território do Rio das Mortes. Quanto a mim. e o povo de Minas conserva ainda a lembrança de um sanerento combate havido entre os dois partidos. Destacaram um ouvidor a S. e. BRAZ BALTAZAR DA SILVEIRA. PEDRO OB ALMEIDA PORTUGAL. João foi formada era 1714. hfst. e enfim PIZARRO em 1718. invadida pelos franceses. a 18 de Dezembro de 1713. (12) CAZAL faz remontar a 1712 a criação da vila de S. até que ANTÔNIO D E ALBUQUER- QUE COELHO. esse homem hábil foi logo (1711) obrigado a correr em socorro da cidade do Rio de Ja- neiro. João (11) A história da guerra civil dos Forasteiros e dos Paulistas foi escrita sob a influência de p a i x õ e s Q u e frequen- temente dividiam os europeus e os colonos do Brasil. até então chamado Rio das Mortes. no governo de D. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 213 listas e Forasteiros (1707 a 1708) ou estrangeiros. no número dos que a ele se juntaram estavam os habitantes do Rio das Mortes. Seria de desejar que algum mineiro ins- truído e imparcial fizesse algumas pesquisas sôbre essa histo- ria. João D'E1 Rei. porque se admite a de 19 de Janeiro de 1718 (Mem. parece- me. sem aí criar uma vila. conse- guiu fazê-la cessar. ora. BRAZ BALTAZAR DA SILVEIRA. o Patriota coloca êsse acontecimento no ano de 1719. . . foi erigido em vila sob o nome de Vila de S. conde Assumar. sob D. é difícil. e. e que era extraido dos registros da Câmara dessa vila. nome que foi dado em honra ao rei D. p. João D'El Rei. mas. 120) reconhece ao mesmo tempo (p. pró- ximo do Rio das Mortes (11). Nomeado primeiro governador de Minas e S. sob o govêrno de D. s e g . sucessor de ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE. o arraial. a pro- víncia de Minas foi dividida em 4 comarcas. assim está cheia de erros. Durante muito tempo a cabeça da comarca teve o nome de Arraial do Rio das Mortes. A guerra civil durou 'cêrca de 2 anos. De resto PIZARRO teve co- nhecimento dessa data. VIII. 26) que a comarca de S. João d'El Rei.

p. residente em Vill Wca. e os liames que unem os filhos aos pais são. que compreende. e a comarca foi sucessivamente dividida em termos. . Ao tempo de minha viagem havia um movimento no sentido de erigir em bispado a comarca de S. será de gran- des benefícios. A comarca de Rio das Mortes não depende toda ela. Assim isolado o homem se d e g r a d a (13) PIZ. hlSt " VIIT ' Pá§: .H I L A I R E D'E1 Rei com funções de corregedor e administrador dos bens dos defuntos e ausentes (provedor dos defun tos e ausentes) (13). e o terri- tono situado ao sul desses limites pertence à d i o c r - de S. se a execução desse projeto se realiza. ? ^ v e r » ? d o r que ad- referia-se an ««Ví* d em 1818. 198 AUGUSTO DE S v t N T . 124 ' ~ VELOZO In (16) Crlobe. 1830. . João e. VIII. Paulo. Cabo Verde e Sapucaí (15). a vida fica concentrada. 121. Êsse bispado é limitado pelo rio Sapucaí e uma parte do rio Grande. Camanducáia. vol. Rio Pardo. isso porque os filhos sabem que aeixanao a casa paterna encontrarão em tôda parte terras onde se estabelecerem e materiais para cons- truir uma cabana. dependentes da ouvidoria de Ç João (14). Mem. sob o nome de "comarca eclesiástica do Cabo Verde" as paróquias de Jacuí. E' evidente que êsse escritor província de C r . cada um fica entregue a si mesmo. 26 N o v . como disse um escritor filosofo (16) no círculo estreito da família. Numa região onde uma pequena popu- lação se acha disseminada sôbre um vasto território nao e possível haver sociedade. A^(1ÍUIZMapp73. esses mes- mos. N a é p o c a geOmV e Questão r n a d o r a l ênão m d existia o na general.. s e g . d ministrava S. do bispado de Mariana. hl st. muito fracos.

O têrmo de que S. um viajante acrescenta que. Êstes. 253. frequen- temente esquecidos (17). n. no meio de desertos. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 215 DOUCO a pouco. Memórias. Se. Existem nesse têrmo dois regimentos de cavalaria da guarda nacional e 28 companhias de ordenanças. êles não poderão fruir. "quanto aos soldados do linha são todos atraídos por meio da imprensa. participam grande- mente da corrupção geral. das classes mais pobres dos camponeses. p á g . que estão todos sob o comando . se se dividissem os bispados. infelizmente. vol. Essa instrução. (17) Vide o que escrevi a êsse respeito na minha 1. Vide também a memória intitulada 'A igreja do Brasil" nos "Anais Fluminenses".° 1. 128) (18). milícia inferior subordinada aos capitães-mores (PIZ. como o sertão de Minas Gerais e a região de Goiaz fornecem numerosos exemplos. elas somente podem elevar sua alma e impedir o decesso da dignidade do homem. João D'E1 Rei é a capital. VIII. da Coleção Brasiliana). mas. II. é preciso que zele por sua instrução moral. (Corresponde ao Volume 126-A. atualmente maiores que muitos reinos.000 indivíduos em idade de receber os sacramentos e está sob a jurisdição de um "juiz-de-fora" que exerce as funções de inspetor do ouro e as de juiz de órfãos. 307. senão dos sacerdotes. pois o governo brasileiro quer que os habitantes dos sertões do interior não cáiam na mais completa bar- baria. So- m e n t e idéias religiosas podem preservar de uma tal infelicidade àquele que vive abandonado a si mesmo. João. (18) Após haver dito alguma cousa das guardas nacionais de S. caindo em estado de completa apatia e e m b r u t e c i m e n t o . os padres poderiam ser fiscalizados mais eficientemente e chamados mais facilmente aos seus deveres.« Re- lação. pág. com- preende uma população de 22. no atual estado de cousas. como já tive oportunidade de dizer.

Fran- cisco da Onça. João continuei a atravessar o plano onde fica o Rancho do Marçal e cheguei a um vale que se prolonga perpendicularmente a esse plano. Gonçalo do Brumado. Frequentemente havia admirado belezas majestosas mas sempre áspe- ras e selvagens. Ana. tive os olhos postos em uma paisagem que tem qual- quer cousa desse ar de alegria a que as paisagens francesas devem tantos encantos. 320. João compreende todo o ter- mo.3 8 ° l < C o r r e s P o n d e ao Volume 126. N. S. além da vila ela compreende 14 sucursais cujos serventuários são. O vale é mui! vasto e margeado por pequenas colinas cobertas de relva. S. Tiago e S. da Conceição d. o v i a j a n t e em iVh« £ -5? S m a a e u c r e i o s e r â o ° b e l ° r e g i m e n t o de cava- i n ^ « t Í ? 5 « Ar J ^ p o s s í v e l f a l a r com maior m e x a t m a o (Vide o que escrevi s ô b r e esse r e g i m e n t o na aninha da Coleção w-EÍF. de Nazaré. Um regato aí serpentea e de um lado avistam- se numerosas casas de campo. S. Antônio do Amparo. S.. Rita. S Gonçalo de Ibituruna. S. S. S. N. N. Antônio do Rio das Mortes Pequeno. segundo uma praxe muito condenável. que raramen t © os r e ú n e m e que são pouco S i ? * •P 0 d 6E xt eprr eesms a nv idsot -a s es e n desse modo. 200 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Só a paróquia de S. Aí gozei a vista mais risonha que se me ofereceu depois que viajava na província de Minas. Essas sucursais são as de: S. da Piedade • S. todas dotadas de um dfJlS l a ^ 6 1o 1 s» 6 . S. Lon- . pela primeira vez depois de 15 meses. pá*. Barra do Rio das Mortes Pequeno e Grande. N S do Bom Sucesso. Para ir a S. escolhidos e pagos pelos curas. S. Madre de Deus. reputarão ' V ^ k*?* 0 ' e que foi dit ° de sua excelente a arência de MAWÈ inH?nlníf P e de suas atribuições na obra don 1815) mtltulada: Traveis i„ tite Interior of Brasil. S. Sebas- tião do Rio Abaixo. mas. Miguel de Cajuru. N.

em todo o caso é evidente que a serra de que se trata seja a do mesmo nome vizinha de Vila Rica. hoje. pâg. de aspecto assaz pitoresco.. O rio das Mortes vai lançar-se no rio Grande à cerca de 20 léguas de S. entre outras a elegante espécie que já descrevi sob o nome de Macaúbas (Acro- eomia sclerocarpa Mart. termina por uma copa a princípio arre- dondada e depois quase plana. entre as moitas de bananeiras e laranjei- ras se elevam várias palmeiras. MAWB que pretendia que o rio Grande se lançava no rio das Velhas. a beleza do conjunto da paisagem. S. onde. de Oliveira. de Oliveira. (Corresponde ao Volume 126-A.« Rei. e nasce não longe de Barbace- na (20).) (19). e chamado Lavra de N. E' quase igualmente inútil dizer que não se deve escrever Rio do« Mortos. nesse lugar. que empresta seu nome à comarca. creio. CAZAL disse que êsse rio nasce na serra do Ouro Branco próximo à do Piranga Talvez essa serra do Ouro Branco seja a monta- nha onde se acha situada N. como fez LUCCOCK. região. é a Araucária que. por um pequeno telhado de telhas ocas sustentado por postes. para o erro do Sr. . E' inútil. II. acima de Ibituruna. O trânsito humano é fixado em 80 réis (50 cents. 307. pode ter quase 15 toesas de largura. com largura bastante apenas para um carro de bois. por suas fôrmas pitorescas. vol.) e o dos animais em 160 réis (1 (19) Vide minha 1. composta de ramos verticilados curvados como candelabros. Uma árvore comum nesses jardins aumenta. da Coleção Brasiliana). 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 201 jardim. e que. num sítio situado a uma légua do registro velho. em estado adulto. e que é abrigada como as da Suíça. S. chamar a atenção. do lado oeste. onde se encontra o rio das Mortes Grande. EM Porto Real atravessa-se êsse rio por uma ponte de ma- deira. À cerca de meia légua de Marçal chega-se ao ar- raial chamado Porto Real. pág. mas. 377. (20) As informações que aqui dou sôbre as nascentes do rio das Mortes foram-me fornecidas na própria. João d'El Rei.

é. Enfim CAZAL. cheguei logo à aldeia de Bom Jesus de Matosinhos. à cerca de 25 léguas sul-sudoeste de Vila Rica. arenosas. Ela foi construída em um vasto vale. a "portaria" ou passaporte privilegiado de que era portador nada tive que desem- bolsar. estendendo-se em declive suave. a um quarto de légua dessa aldeia entrei na vila de S. formando uma espécie de triângulo cuja ponta começa abaixo das montanhas e cujo lado maior é paralelo ao vale. Tendo atravessado Porto Real. de um lado acom- panham o vale. e. cobertas de uma grama rasa : são arredondadas e pouco elevadas. Enfim. José às de PIZARRO. Dois riachos os de Tijuco e Barreiras ou Ribeirão e Córrego Seco (22). mas achei os dois outros em um manuscrito que me foi remetido por uma das pessoas mais notáveis da vila de S. João. Tendo mostrado aos empregados encarregados da cobrança. tiram à paisagem qualquer cousa de sua beleza. As montanhas opostas teem uma altura mais considerá- vel . situada a 21°7'4" de latitude S. A posição desta vila é muito agradável. José. João d'El Rei e S'. como todos os outros. Êsse pedágio. e. são escarpadas. porque há incontestavelmente algum êrro nas dêste último autor. São também os nomes de Tijuco e Barreiras que se encontram em PIZARRO.202 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE franco). (22) Êstes dois últimos nomes foram-me indicados no próprio local. João d'El Rei.s e por toda parte. João a S. rochedos pardacentos. (21). diz que duas pontes . unem-se logo abaixo (21) Essa posição foi determinada pelos matemáticos por- tugueses citados no Neae WeJt de Von ESCHWEGB. que. As colinas que. com efeito não há senão duas léguas de S. são estéreis. m o s t r a m . esta- tuído pelo fisco. onde se celebram de modo especial as festas de Pentecostes. Preferi as indicações desse autor para S. segundo PIZARRO achar-se-á e n t r e essas duas cidades cerca de um grau de latitude e vários de longitude. ao pé dos morros do Lenheiro e do Senhor do Bomfim.

I. 120). da Coleção Brasiliana). por dentro ela é rica e muito asseada. 377) diz que essa praça ê grande. o que é a capela-mor das igrejas (vol. S. João dez igrejas cujas mais notáveis são: S. não difere muito das igrejas do interior . João. I. que divide João em dois quarteirões. só se fala de uma ponte. ai entrando. Esta. pelos quais CAZAL e PIZARRO designam essas pontes. feita na Alemanha. (23) Os epítetos f o r m o s a s e m a j e s t o s a s . fazem com que pareça mais pro- funda. . E' sem razão que. diante da qual existe uma pequena praça (25). mas. p á g . pág. a pouca distância de Porto Real. sómente pocVam ser em- pregados por homens que apenas conhecem as do Brasil. em uma descrição de S. formando um pequeno rio que divide a vila em duas partes muito desiguais. cada uma com três arcos (23). foram construidas sôbre o pequeno rio Tijuco. por fora. e as duas torres que lhe servem de campanário. A igreja de S. E' também sem razão que SOTTTHEY situa e s s a vila sôbre o rio das Mortes. Di-Lo sem dúvida por comparação. ao mesmo tempo que fazem ressaltar o brilho dos dourados. Francisco e a igreja paroquial dedicada a N. comparada às da região. como chama gran- diosa a ponte de madeira de Bom Jesus de Matosinhos. Braz. elegantes e muito altas. Francisco foi construída sobre uma plataforma. são redondas.» Rei. (21) Expliquei em minha 1. Seu interior que ao tempo de minha via gem ainda não estava concluído. do Pilar. mas parece grande. Para estabelecer comunicação entre as duas partes da vila foram construidas duas pontes de pedra. Duas cortinas brancas colocadas à entrada desta última. Fica-se deslumbrado. nada tem de notável. (25) CAZAL (Corog. João. pela quantidade de dourados que ornam os seis altares laterais e sobretudo a capela-mor (24). Há em S. que apenas dá passagem para um carro de bois. (Corresponde ao Volume 126. 116. serpenteando pelo vale vai lançar-se no rio das Mortes. e. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 203 de S.

Vêem-se. João nenhum chafariz público. um tamborete coberto de couro. SPIX e MAR- TIUS. I • As casas do ouvidor e da intendência são dois edi- fícios pouco consideráveis porém muito bonitos. Da intendência não somente se descortina toda a vila. I. n vale. INÁCIO MELO e SOUZA. se se pode acreditar em LUCCOCK. 204 220 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Existe em S. mas cerca de um ano antes de minha viagem tinha sido restabelecido por meio de esmolas dos fiéis. . I Estrebarias descobertas circundavam o pátio dessa hospedaria. poi II' assim dizer. de rés-do-chão. 458). João me havia sido indicada como sendo a melhor. conversando com os transeuntes ou implorando claridade. uma mesa. os presos nas grades das celas. A cadeia é um prédio muito baixo. o odor da minha cama era absolutamente o mesmo de um hospital mal cuidado. onde fica a casa do ouvidor e que está. fora da vila. e era suja e infecta. Além da pequena praça existente diante da igreja de S. 317. Os quartos não tinham outro mobiliário além de uma cama. como também a vista ainda se estende para além. Êsses detentos. (27) Notes ou Brax-. segundo o hábito quase geral na província. havendo projeto de mantê-lo por meio de urna loteria (26). Não vi em S. A hospedaria onde parei em S. w Francisco vi uma outra. 457 — R e i s . . Essa descrição (26) LUCCOCK atribue o restabelecimento dêsse hospital aos cuidados do magistrado MANOEL. são na maioria assassinos (27). Durante algum tempo esteve ao abandono. João d'El Rei um pequeno hospital pertencente à irmandade da Misericórdia. do qual faz o maior elogio (Notes on Braa. igualmente muito pequena e I irregular.

de resto a quase todas as hospedarias # da província de Minas. sem gran- des dificuldades. Não somente esta vila não tem esse ar de tristeza e abandono. 205 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL iclaota-se. geralmente muito bem sortidas. um grande número de lojas. sem a precaução que tomo. mas são em geral bonitas. Entretanto achei necessário dever sempre juntar a êsse nome o de p o r t u g u ê s . a cada passo. as portas. i . não so- mente não se vêem. Os primeiros habitantes de S. As ruas de S. peculiar a quase todas as desta província. os telhados não avançam demasidamente para fora das paredes e as venezianas abrem-se da direita para a esquerda e não de baixo para cima como em Vila Rica. João d'El Rei. principalmente na rua Direita. que. m a n t i d a s nessa época por portugueses da Europa e por brasileiros (28). as ve- nezianas e as esquadrias são pintadas de verde. e. João. João em 6. cin- zento ou imitando mármore. João são geralmente calçadas e muito largas Segundo o uso em tôda esta região. e um grande número entre elas possue um andar alem do térreo. consideráveis quantidades de ouro na (28) Os descendentes de portugueses estabelecidos na Amé- rica teem atualmente o nome de brasileiros. as casas são"baixas. princi- palmente quando falar de indígenas civilizados. casas abandonadas caindo em ruínas. de viagem ou de história chamam B r é s i l i e n s ou B r a s i l i e n s ((VOLTAIRE) apenas aos indígenas. Quase todas são caiadas. como já disse. bem cuidadas. mas ainda tudo aí parce vivo e animado. foram mineradores. e mesmo às do Rio de Janeiro.000 almas e. Vê-se em S. Calcula-se a população de S. correria o risco de ser frequentemente mal compreendido na Europa. em nenhuma outra vila da província vi tantos bran- cos e tão poucos mulatos. colhiam. porque a maioria dos livros de geografia.

ainda hoje. por S. fariam des- pesas consideráveis e. Se os pobres continuam a ir faiscar nos rios e regatos. sem cessar. quatro caravanas de 50 animais cada. João em particular envia à capital em troca das da Europa. ao que parece. à mineração. esta vila tornou-se o centro de considerável comércio. menos conhecidos. a viagem de S. até 1818. para extraí-lo era preciso dispor dê maior número de escravos. 318. quase todos os artigos de que necessitam. algodão em ra- ma. faziam. mas. (30) Notes on Braz-. Tosé e Vila da Campanha (29). queijos. João. João d'El Rei e a casa de fundição do ouro é principalmente alimentada. . e os morros vizinhos conteem. os ven- deiros das pequenas vilas da comarca de Rio das Mor- tes e das comarcas mais distantes teem certeza de encontrar numa mesma casa em S. toucinho. Há atualmente poucas jazidas em exploração nos arredores de S. Segundo SPIX.preferem geralmente às possibilidades aventu- reiras da mineração os lucros mais positivos dos negó- cios. diz MARTIUS. MAR- TIUS e LUCCOCK. Os comerciantes. João re- nunciaram. tecidos grosseiros de algodão e alguns outros artigos (30). enquanto que. açúcar. compram no Rio de Janeiro todos os objetos que podem ser consumidos no interior. As mercadorias que a vila de S. 470. são o ouro. não gozariam do^mesmo crédito. se fossem ao Rio de Janeiro perderiam muito tempo. couros. João (39) Reis. os homens mais abas- tados. Depois que o Brasil se tomou independente e os habitantes de S. Uma parte desta é. que tende a aumentar com o tempo. ao menos em parte. construída sobre terrenos auríferos. I. muito dos quais bem ricos.206 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIrE serra do Lenheiro e no regato que banha a vila. muito ouro.

E' de notar que êsse mesmo algodão que. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 223 no Rio de Janeiro. devem. valia. João d'El Rei. Ora. no Rio de Janeiro. Em uma região verdadeiramente agrícola. 470. sob o nome de algodão de Minas Gerais (31).200 rs. que transitam (31) Notes ou Braz. por conseguinte ser vendidos a preços moderados e. não se vendia a mais de $600 antes da paz geral. mil escudos fran- ceses. Já disse que o al- godão do Rio das Mortes se reduzia depois de desca- roçado a 1/4 de seu pêso. João o preço de 4$800 sem sementes. O algodão que se colhe nessa comarca é em parte comprado pelos negociantes de S. João ao Rio de Janeiro. e. em caroço. pode-se julgar a respeito dos lucros pro- porcionados por êsse artigo. João. João. dariam para o gozo de todos os confortos que a região pode oferecer. . pelo que se disse mais acima. descaroçado era revendido a 8. João. que tratam de descaroçá-lo e possuem prensas para mete-lo em sacos de couro. 1$20Q em S. Os víveres que se consomem em S. para des- caroçar tinia arroba de algodão dispendia-se 3 vinténs e pagava-se 600 rs. o que estabelecia para S. Em 1818 êsse algodão era vendido em S.. com sementes. se se pode acreditar em LUCCOCK. Êle ficava pois em cêrca de 5$512 ao negociante de S. anualmente. Se se pode acreditar no ultimo desses três escritores. por arroba para o transporte de S. os pro- dutos não poderão deixar de ser abundantes. para transportar mercadorias entre 'essas duas cidades. a 1. João veem das fazendas vizinhas em carros de bois.000 rs. em 1818. a balança desse comércio era a f a v o r da comarca do Rio das Mortes.

nos arredores de S. ele responde que rende tantos carros. pêssegos e . vai do Rancho do Mar- çal a S. processo que nos parece merecer elogios. quan- do se pergunta a um agricultor quanto de milho colhe por alqueire de terra. Êles são. sendo os víveres abundantes em S. O atreja- mento é feito sobre o pescoço dos bois e não sobre a cabeça. Êstes. Doutro lado. fechando o veículo pela frente. e que. uma série quase ininterrupta de campos e pomares. Apesar dos habitantes cio Rio das Mortes dedica- rem-se geralmente à agricultura. não pensem que os arredores desta vila apresentam. geralmente nus e parecem pouco habitados. prejudica muito as pastagens e por conseguinte o gado. construidos quase do mesmo modo em toda a comarca. dizem. deixa-o aberto por trás. e aí são colhidos com abundância os marmelos. as plantas se cobrem frequentemente. mas não é menos verda- deiro que um grande número de fazendas se acham espalhadas nas grotas e duvido que haja. como um carro de triunfo. Julho e Agosto. são semi-elípticos e dotados de rodas quase inteiriças. tantas plantações quanto as que vi no delicioso vale que. como as da França e da Alemanha. Durante os meses de Junho. Como a comarca de Rio das Mortes é em grande parte pouco montanhosa. de uma geada branca que. é comum o uso de carros de bois. próximo das "outras vilas de Minas Gerais.208 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE pelas ruas até que toda a carga seja vendida. João d'El Rei. João. e. João d'E1i Rei. pelo contrário. esta região elevada e já muito medidional é propícia à cultura das árvores frutíferas da Europa. Em buracos feitos ao redor da mesa do carro fincam longas varas destinadas a reter uma esteira que impede a queda dos produtos transporta- dos.

«j"Taboleiro" dos arredores de Minas Novas (Minas Gerais) na época em que Saint-Hilaire e s t e v e n o B r a s i l S (Estampa da "Flora" de Martius) .

e que nunca foi observado na Europa. O autor que acabo de citar indica tres varie- dades de gmmixamas: as de roxo carregado. segundo PIZARRO. a parte oleosa que elas conteem tem entretanto um ardor que faz mal à garganta. portanto muito interessante. E' à Eugenia brasiliana de L A M A R C K q u e deve ser dado o nome de grnmixameira. . misturado às gru- mixameiras (32). as vermelhas e. Quando. apesar de. João. achan- clo-as excelentes (33). como aconteceu na Alemanha. às jaboticabeiras: macieiras. seus frutos não chamam gnrmiehamos. pereiras. e. que. pessegueiros. damascos. Como acabamos de ver. DOMBEY havia escrito gurmichama e não grumichama. grande número de pés de abricós e castanheiros novos. vem de igranamichama ou igbanemicliama. enfim. dizem. não tive ocasião de vê-lo. mas. se as no- zes não são más. João d'El Rei experimentei gran- de satisfação vendo em um pomar. Várias pessoas plantaram também. em g. Trata-se de uma sub-variedade branca. como pen- saram em França. em Feverei- ro de 1819. Já disse que a civilização dos habitantes do Rio das Mortes era inferior as dos das comarcas de Sa- bará e Sêrro Frio. (33) CAZAL e LUCCOCK falam de um fruto particular. da laranja denominada tangerina. com sucesso. há muito tempo. o infeliz DOM- EEY. sendo do tamanho de uma cereja. nogueiras e castanheiros. Nestas últimas partes da provín- cia despertei sempre uma viva curiosidade. Comi ura damasco e u'a manga. as brancas. As gi-umixameiras nunca devem ser chamadas grumijamas. Esse truto e acompanhado de duas brâeteas foliáceas e tem o nome de grumixama. voltei a S. às bananeiras. citado por LAMARCK. os ter dado a conhecer sob o nome de siirmichamas. encontradiças nos distritos de Mangaratiba e Ilha Grande.1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 209 maçãs muito boas. acredito que se pronuncia das duas maneiras. província do Rio de Janeiro. que se (32) A s grnmixameiras são árvores de tamanho médio cujo f r u t o de côr roxa muito carregada tem gosto fresco e agradável. Havia então quase três anos que me achava no Brasil e ainda não tinha visto nenhum indivídua das três últimas es- pécies «itadas.

ver-se-á também. Foi em S. que fui tratado com amável hos- pitalidade por vários colonos da comarca do Rio das Mortes. estão entretanto longe da polidez a m á v e l dos bons habitantes de Serro Frio. Isso não era a hospitalidade a que eu me habituara nas outras partes da provín- cia e que tantas vezes me ajudara a suportar as con- trariedades e o cansaço da minha viagem. em segui- da ouviram-se gargalhadas acompanhadas dle co- mentários indelicados. Saí à noite para passear na vila. não tar- daremos em ver. Sabará e Vila do Prín- cipe. em outros diários meus. por ex. João que. Estou longe de querer atribuir esses defeitos a todas as pessoas da comarca do Rio das Mortes. Mau grado minha roupa não diferir muito das dos brasi- leiros.. sem minha permissão. como também me- xiam em tudo quanto era meu. Percebi a diferença existente entre essas vilas no mesmo dia em que cheguei a S. na comarca do Rio das Mortes. Ao contrário. Mas acredito que trairia a verdade se fi- zesse dos habitantes de S. como louvo o bondoso pro- prietário do Rancho do Marçal. João. Nas di- ferentes estadas que fiz em S. tive ocasião de entrar em casa de quase todos os negociantes da vila. João.210 AÜGUSTÔ DE SAINT-HILAIRE era importuna nunca fora grosseira. e devo confessar que se não possuem esse estúpido orgulho que sempre se nota nos comerciantes do Rio de Janeiro. não somente me di- rigiam as perguntas mais tolas. João D'el Rei os mesmos elogios que fiz aos do Tijuco. todo mundo parava para me olhar. após cerca de um mês de inquietações e cuida- . não somente era alvo de comentários pouco delicados. Havia um soberbo luar e po- dia-se sem dificuldade distinguir os objetos.

DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 211 dos tive. vivendo atrasadamente no interior de suas casas. jovens que não receberam educação nenhuma. não havia na vila lu^ar onde um homem de bem pudesse frequentar. A população das outras vilas da província não se renova pelo mesmo modo porque são menos comerciantes e mais arraigadas ao inte- rior. No momento em que entrei em sua casa. sendo assim que a ignorância e a falta de civilização se perpetuam em S. homens de suas famílias. tornando-se negociantes. de Portugal. pela terceira vez. estranhas a todos os encantos da vida social. tôda gente soube da tris- teza por que passei e não recebi de uma só pessoa qualquer ato de solidariedade. Um negociante. João D'E1 Rei. Por sua vez fazem vir da Europa. endereçada por uma casa muito conceituada do Rio de Janeiro. a população comercial da vila é renovada incessantemente por jovens vindos das pro- víncias as mais distantes. homem algo instruido. Após servirem como caixeiros esses jovens começam a negociar por conta própria. assegu- rou-me que. o desgosto de perder o pobre Prégent. fui portador de uma carta de crédito. salvo pequena exceção. Quando. durante minha terceira viagem. conservam tôda a grosseria de seus costumes. João. mas que são or- gulhosos de terem nascido na Europa. a um dos homens mais ricos de S. porquanto já possuem qualquer cousa. uara aprender o comércio. na- tural de outra região. fiz a viagem de Minas. tão sem educação quanto eles. Como já disse. achava-se êle deitado sobre o i . mostrando mais orgulho que anteriormente. que os habitantes eram em geral pessoas grosseiras e sem educação.

Os negociantes portugueses estabelecidos não so- mente em S.212 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE balcão. os europeus economizam soldo a soldo. João como em outras parte. trabalhos que os americanos só entregam aos escravos homens. conservam toda a sua primitiva rudeza. e. Tais modos são assaz estranhos. En- quanto os brasileiros dissipam negligentemente tudo quanto possuem. Achando-me em um tal dia nessa vila. conforme tive já ocasião de dizer. De tudo quanto se viu acima. como também não se dignou levantar-se para receber-me e fez-me ler a carta que lhe apresentei. fiquei admirado da quantidade de mendigos que enchiam as ruas. homens de classe inferior.s do Brasil onde viajei. A primeira cousa que arranjam é uma negra. nem ofereceu o mais ligeiro préstimo. arrumadeira e até para carregar água e lenha. que frequentemente não sabem ler nem escrever e que começaram sem nenhum capital. são. João. aleijados e em más condições para o trabalho. e não somente não me fez a menor delica- deza. que sirva ao mesmo tempo de cozinheira. Se- . amásia. repito. Êsses pobres são constituídos por negros e mulatos velhos. não se admirará se eu acrescentar ^ que a mendicância é comum em S. sem dúvida. lavadeira. passando por todas as privações afim de con- seguir fortuna. e o cura disse-me que semanalmente auxiliava a'mais de 400 pessoas. mas eles não me surpreenderam quando soube que o homem que assim procedera era um europeu. juntando a isso uma insuportável arrogância. na maior parte. tratam com desprêso os bra- sileiros. É aos sábados que os mendigos teem o costu- me de sair para pedir esmolas. aos quais devem sua opulência. Tornando-se ricos esses ho- mens.

concessão que devia somente constituir um ato de clemência! (34) Um escritor inglês. desembaraçam-se deles. que teve j u l g a m e n t o s muito se- veros p a r a com os brasileiros.s e e n t r e t a n t o . Fiquei tão a d m i r a d o com o n ú - mero de mendigos que se vêem em S. J o ã o . dando-lhes alforria. abreviando-a muitas vezes por um trabalho forçado e. Não se pode deixar de tremer de indignação quan- do se considera que essa barbaria se repete frequen- temente em um país onde os víveres são tão abun- dantes e onde custaria tão pouco aos proprietários de escravos pagar à humanidade e à gratidão uma dívida sagrada. d u r a n t e dez anos. . João. E n t ã o eles não terão outro recurso que pedir esmola. i n d u l g e n t e com os h a b i t a n t e s cie S. em sua casa. u m a séria de negócios comerciais e onde recebera. a men- dicância. por um certo tempo. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 213 nhorcs bárbaros tudo tiram da mocidade de seus es- cravos. exceto a l g u n s a que se permite. É também inconcebível que as leis nada tenham regulado sobre esse horrível abuso da alfor- ria. quando não podem mais tirar partido desses infelizes. S e n a interessante se esse v i a j a n t e não fôsse bem acolhido em u m a localidade com a qual h a v i a êle feito. que em d u a s de minhas viagens r e g i s t r e i em meu diário as m e s m a s observa- ções sôbre êsse fato. êle concede-lhes v á r i a s qualidades re- comendáveis. t o r n a n d o .s e um peso morto para a população. Mas. louvando muito a recepção que lhe fizeram. al- guns desses h a b i t a n t e s . m o s t r a .. . concordando que eles sao des- tituídos do educação. foi sem dúvida a g r a t i d a o que Ihe ditou a f r a s e que se vai ler: "Não há aqui n e n h u m mendigo. como compensação p a r a uma pobreza h o n e s t a a a l g u m infortúnio e x t r a o r d i n á r i o " .

Aspecto de seus arre- dores. vista admirável. — O Autor escolhe o châmado caminho de terira. Refle- xões sôbre a alforria. Carpinteiros brasileiros. Cores do céu. — Calor. Aldeia do Pilar. e. Os ranchos. — Sucupira. CAPÍTULO XII VIAGEM DE S. — Encruzilhada e os dois caminhos que levam ao Rio de Janeiro. — Idéia geral da região que se estende entre S. — Passagem do Pa- raibuna. — Brancos que se encontram entre Barbacena e Pedro Alves. Achava-me em Rancho do Marçal em casa de um cidadão que não se dedicava a nenhum comércio. Arbusto com cheiro de limão. — A planície. — Aldeia de Taquarassú. — Cascata da Viúva. João do Campo. José e Barbacena. Ovídio e a academia de Artes. Ranchos. belezas da vegetação. — Fazenda do Barroso. — Passagem do Paraiba. O Sr. As- pecto da região. José. JOÃO D'EL REI AO RIO DE JANEIRO Partida do Rancho do Marçal. — Habita- ção de Marcos da Costa. minha bagagem devia incomodá-lo muito. O calor aumenta e a vegetação torna-se ainda mais bela. — Fazenda do Faria. en- . e que por conseguinte não podia esperar nenhuma re- compensa pelo serviço que me prestava. — O Autor retoma o caminho de terra. — O rio do Pilar. — Úbá. — O Autor retoma a grande estrada de Vila Rica ao Rio de Janeiro. — Algumas palavras sobre a grande estrada e seu aspecto. — O Autor chega ao Rio de Janeiro. — Serra da Boa Vista. — O que é S. — Espécies de bananeiras cultivadas na província de Minas. Pontes. hospedando- me. — Serra de ? José. — Vila de S. recepção feita ao Autor.

pág.. onde havia terra vegetal encontrei gramíneas e outras ervas. vol. S. her- bor zado.) Eni todos os lugares aonde andei nessa serra e ela eri- çada de rochas nuas. a 19 de Janeiro. alguns arbustos.Mem. D. que descobriu o lugar onde hoje se encon- tra a vila de S. S.1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 215 f r e t a n t o . José. 35». o termo de que esta (1) "piZ. Êste exemplo e outros que citarei. p. a 26 léguas de Mariana e 63 léguas do Rio de Janeiro (1). enfim. h i s t . e. um instante sequer. Eschw. José. Pedro de Almeida Portugal. estranha à hospitalidade.V^onwn Volume 126. Foi João de Serqueira Afonso (2) paulista de Taubaté. José. da Coleção Brasiliana). . Havia feito uma légua. onde havia ja.m e posto em marcha (22-2-1818). quando me achava no Rancho do Marçal e que não pode ser senão um contraforte da grande eadeia ocidental (serra do Espinhaço.» Rei. Um grande numero de aven- tureiros reuniu-se nesse sítio. contornando a serra de S . mostra que se a comarca de Rio das Mortes é menos hospitaleira que as outras ela não é entretanto. cheguei à vila d e s s e nome. P T 7 A R R O e é a mesma (3) A data que cito é indicada por P e | a ^ que êsse Autor cita para a fundação da Vila üe que p a r a esta ú l t i m a vila adotei outra. quando. Pág. sua bondade e complacência jamais se des- m e n t i r a m . T e n d o .. data nao t e n n o o i cimento de d i v e r g ê n c i a s sôbre a d a t a da ao (4) Vide m i n h a 1. 304.s e em PIZARRO. s e g . e aqui e acolá um pequeno número de arvores raquí- ticas Entre essas plantas poucas havia que eu ja não tivesse recolhido em outros lugares. si- tuada a 21°5'30" de lat. 129 e 180^ SOUTHEY (2) \U/ Êsses i y o c ^ o nomes 11 Wiliv >J a c h a m . . conde de Açumar• ai fun- dou a vila (3). I. mas. m a s o escreveu: Joaso de Sequeira Afonso. José é atualmente administrada por dois juizes ordinários (4). VIII. seguia então ao pé da serra de S.

Após haver atravessado S. Para transitar pela ponte de maciei- ra que há sobre esse rio é preciso pagar pedágio.. em um largo vale. colocada sobre um "plateau". para que. h i s t . se criasse outra vila. tendo sido abandonadas quase todas as antigas minerações. cheguei à mar- gem do rio das Mortes. meu passaporte privilegiado (portaria) isentou-me desse imposto. Mem. José apresentam su- midades arredondadas. Ella é pequena mas conta com casas muito bonitas e fica-se admirado do tamanho da igre- ja paroquial. . W PIZ. e a de N S da Conceição dos Prados. João.060 pessoas (6). Ê à margem do rio das Mortes e abaixo das montanhas de S. 131 e 132. As colinas que cercam S.840 indivíduos sobre um território de mais de 40 léguas. VIII. Os franceses que T í ° Poderão ler o interessante (6) de 1 h l s W e . José. p. . . . que compreende uma ponn' lação de 5. mas. de P. contando 12. 216 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE vila é a cabeça (5) divide-se em duas paróquias . José. que corre abaixo da vila. cavadas e revira- das em todos os sentidos demonstram quais eram as ocupações dos primeiros habitantes dessa vila. DENIS'.a da vila propriamente dita. tão perto de S.lu Portugal. do lado oposto à vila. quase a ermo S GAMA a n t i H ' Josê ntitulad «lue nasceu BASÍLIO DA ouiferêm ter l S S a ° bra Vvngunl. Hoje o metal pre- cioso que constituía o objetivo de tantas pesquisas acha-se quase esgotado. margeam o vale descortina-se vista muito agradável. B e g . enquanto os flancos. José que está construída a vila que tem esse nome. Dos montes que. Morros que fazem parte da serra de S. Seus arredores fornecem muito ouro e é de crer-se que este lugar foi^ de grande importância.

154). Outras habita- ções. In Maranhan maxiprojpere luxuriante (Bras. que os comem com farinha de milho. formam altas muralhas de roche- dos enegrecidos onde crescem. Note-se que todas as vezes que descrevo vilas e aldeias das regiões auríferas. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 217 pique e uniformes. maiores e de sabor menos delicado. Abaixo dessas montanhas vê-se a vila de S. refiro-me ao plantio das bananeiras junto de cada casa. de bagas pequenas e gosto agradável. 1658. chamada "farta velhaco". pág. as chamadas "São Tomé". Sou inclinado a acreditar que a variedade "Maranhão" ê realmente originária clessa região do Brasil. a variedade "Maranhão". mais longe se acham vas- tas minerações e. enfim. ainda que não me tenha sido possível es- tudar as "Maranhão" e "farta v e l h a c o p r e s u m o serem simples variedades da Musa paradisíaca (7). José. donde se pode concluir que a "farta velhaco" não ê conhecida na capital do Brasil. . aqui e acolá. (7) PIZARRO. cujos frutos. Tomé". dominada pela igreja paroquial. próximo à qual fica o principal grupo de casas. cercadas de bananeiras. éd. com frutos ainda maiores que as bananas "da terra" . são um gran- de recurso para os pobres. e enfim a quarta. muito sadios e nutritivos. Na província de Minas são cultivadas qua- tro espécies de bananeiras. falando dos frutos do Rio de Janeiro ape- gas faz menção a t r ê s espécies cie bananeiras: "da terra . as "da terra". pois que PISON diz positivamente que as bananeiras aí teem grande desenvolvimento. e x i s t e m esparsas no vale. alguns a r b u s t o s . a "da terra" — Musa paradi- síaca L.^são comidos depois de cozidos. abaixo da vila corre o rio das Mortes. com leito cheio de curvas e sinuosidades. Os frutos dessas imensas ervas. cujos cachos e frutos são ainda maiores que as "da terra' A banana "São Tomé" deve ser classificada como Musa sapientum L . "Maranhão" e "S. cafeeiros e laranjeiras. e.

ora ondulada. onde parei antes de entrar na grande estrada. no dia seguinte venderam-me. na fa- zenda do Faria. não permite mais o plantio de bana- neiras.218 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Ora montanhosa. o frio dos meses d Julho e Agosto. e deve ser muito frequentado. mas nas grotas existem tufos de matas. por obséquio. A altitude torna-se tal que. os campos apresentam pastagens naturais geralmente compostas de gramíneas. José. Subindo a uma das culminãncias existentes a 5 ou 6 léguas de S. João d'El Rei a Bar- bacena. (8) Itinerário. João d'El Rei ao Rio de Ja- neiro. meio alqueire dêsse cereal. e. de S. inutilmente. as pastagens ofereciam-me aspecto pouco variado. entretanto são poucas as habitações que se vêem nos campos rnar- geantes. o terreno nessas alturas é arenoso ou pedregoso. no terceiro dia não pude conseguir farinha. vizinha das nascentes do rio das Mor- tes. deve naturalmente ir se elevando cada vez mais. o mesmo acontecendo com as que atravessei de S. João a Barbacena. . sendo essas partes aproveita- das para a lavoura. José a Barbacena. É inconcebível a falta de recursos nessa estrada. a região que per- corri em um espaço de 8 a 10 léguas. João. Entre Vila Rica e S.de Vila Rica ao Rio de Janeiro. deparei imensas solidões que fati- gam os olhos. por sua monotonia. a d q u i r i r um pouco de milho. pois que se vai aproximando sempre da serra da Mantiqueira. O caminho que então palmilhava é um dos que conduzem de S. embora tivesse parado em um lugar onde as caravanas costumavam pousar (8). Em tôda essa região o cimo dos montes é arredondado. No dia em que deixei o Rancho do Marçal procurei. de S. aproximado. onde apenas notam-se traços de culturas.

fiquei aturdido com uma tal recepção. confesso-o. e. Acostumado à hospitalidade dos bondosos habitantes de Serro Frio. Todavia é preciso notar que me era lícito abusar do passaporte de que era portador. que. Jose » » " » » » Rancho das Ervas 1 ^ ^guas •• » » » » " Fazenda do Barroso 3 » i» » » » » •» de F a r i a 3 ü9 " •• » » » » » v i l a do Barbacena . João e B a r b a c e n a . que a do Rio Grande do Sul onde não vi nenhuma ponte sôbre os numerosos rios que atravessei. mostrando todo o meu mau humor. O dono da casa res- pondeu-me. nesse l u g a r . 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 219 Antes de chegar à fazenda do Barroso. de modo assaz grosseiro. "entretanto havia quase 14 meses que viajava na ' . tal como ura militar que obtém alojamento pela força. serve de limite entre os termos de S. só. Atravessa-se o rio sobre uma ponte. com minha "portaria" à mão. então. entretanto. o qual me dava os mais amplos direi- tos. que sua casa não oferecia nenhuma comodidade. alguns instantes após. Retirei-me. 2 léguas De S. apresentei-me pela segunda vez. sem antes falar ao proprietá- rio dessa habitação. onde dormi no dia seguinte à minha partida do Rancho do Mar- çal. melhor dotada. muito ruim. pedin- do polidamente hospitalidade. Não desejava fazer entrar toda a minha comitiva na fazenda do Barroso. as da província de Minas. encontrei novamente o rio das Mortes. na maioria. João d'El Rei a S. indicando-me uni rancho situado a alguma distância. como o são. Apresentei-me.

servindo-me ele ape- nas para meu trânsito em alfândegas e rios. A descoberta de al- gumas belas plantas compensou-me das insignificantes colheitas que fiz nas pastagens e nas colinas.220 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE província de Minas e era a segunda vez que eu o apre- sentava a um simples particular. situada a alguma distância da estrada mas onde as caravanas param frequentemente. fui conversar com meus hos- pedeiros. quando passaram os primei- ros momentos de frieza. Entre- tanto observei que nesses lufares os breios apresen- tam uma vegetação menos variada que os da Eurooa. Aproveitei o tempo ou- rne sobrava para ir herborizar a pouca distância da ha- bitacao. ordenando fosse a bafa- gem descarregada: mas. seguinte fui parar na fazenda do Faria. o cine se pode censurar nos habitantes desta parte da província é uma espécie de rusticidade irônica que contrasta singularmente com essa polidez simnles e afetuosa dos moradores de Sa~ bara e Serro Frio.rT * não se tinha desaparecido attando apos ter-me instalado na fazenda do Barroso termi- nei meu trabalho cotidiano. dia . É natural que se encontre mais hospitalidade nos lufares afas- tados que nas margens das estradas muito frequenta- das pelas caravanas: mas. a mareem de um breio. logo que o proprietário de Barroso come çou a ler a "portaria" não esperei mesmo sua res- posta e chamei meu pessoal. . As palavras rancho e arranchar (parar sob um rancho) — apenas usadas . como se nada tivesse acontecido. e torna» mo-nos os melhores amiVos dêste mundo. 0 s o í nír. instalei-me nesse abrigo e não tive necessidad fle pedir asilo ao dono da casa. Como há aí um rancho. De qual- quer modo.

64. O pro- prietário dessa fazenda aproveita pastagens que cer- cam sua habitação para criar muito gado. Faria não tinha. (10) Os p o r t u g u e s e s da Europa empregam a palavra ran- cl»o com o u t r a significação. a fumaça. deixado passar água das chuvas e o terreno que servia de soalho achava-se úmido e quase escorregadio. um rancho propriamente dito é um grande galpão destinado a re- ceber os viajantes (10). aplicam-se por extensão a todos os lugares onde se pousa. havia ao que parece. mas nas zonas elevadas e. não foi apenas o desconforto do rancho o que penei na fazenda do Faria. de um telhado sustido por postes. 69 e 71. em uma região cuja altitude torna-a muito fria para que as bananeiras possam aí medrar. cegava-me e eu não dispunha de tempo suficiente. Ademais o telhado. êle se adapta igualmen- te a muitos outros dêsses galpões.. Tomei (9) Vide minha 1. de nosso fogo. da Coleção Brasiliana). senão duas pequenas aberturas. vol. como já disse (9). Êsse galpão não passa.» Rei. fre- quentemente. mas. É preciso notar que êsse quadro não é exclusivo do rancho do Faria. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 221 no Brasil. os ranchos são ordinariamente fechados por muros. . 67 (Corresponde ao Volume 126. Respondia fria- mente com afirmativas ou negativas. como já disse. A fazenda do Faria. de dia. frias como a em que se acha a fazenda do Faria. O de. I. Mas. mas não conse- guia desencorajar os interlocutores. p á g s . para analisar as plantas colhidas. próxima da serra da Manti- queira e das nascentes do rio das Mortes fica. além da porta. por consequência. Jamais fui assediado por perguntas tão indiscretas e pouco distintas quanto as que me foram feitas nesse lugar. mal conservado. p á g s .

próximo de Faria. achando-o muito gordo. recomendo a colheita de suas sementes aos naturalistas que acreditem ainda não terem feito o suficiente pela ciência e por seus se- melhantes ao darem nomes aos animais e às plantas. as folhas de um arbusto. em parte nenhuma. automatica- mente. em um espaço de duas léguas. e. colhi. motivo pelo qual não pude verificar a que família pertencia. É digno de ob- servação o fato dessa ambiciosa gramínea não ultra- passar a vertente ocidental da serra da Mantiqueira e de sua longa continuação (serra do Espinhaço). por . Não me esquecerei de dizer que. a longitude 380° deve ser. considerada c o m o seu limite ocidental. e as gramíneas que compõem. Chegado a Barbacena achei-me novamente sobre a grande estrada do Rio de Janeiro a Vila Rica. talvez. Entretanto. quase exclusivamente. como será útil introduzí-lo nos jardins. as pastagens são pouco vigorosas e separadas umas das outras. de Congonhas do Campo até Faria. se a latitude de 17°40' é a t u a l m e n t e seu limite setentrional (conforme referi linhas atrás). o terreno é muito árido. não vi. por consequência. A região que atravessei entre Faria e Barbacena. nem uma só touceira de capim gordura. pas- sando próximo de uma capoeira. arenoso e pedregoso. Os morros são sempre arredon- dados .222 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE leite aí produzido. nenhuma planta em flor que não me fôsse conhecida. mas. lembrando a essência de limão. o das regiões montanhosas. não difere da que per- corri nas vésperas. Êsse arbusto não se achava em flor. esfregando-as entre os dedos fui agradavelmente surpreso ao sentir um cheiro exquisito. como é em geral. Não vi.

^^86®11^^ Na região das Minas. que. vales mais profundos e tufos de matas mais numerosos. LAMBERT inclue na estampa IV d o a p e n d i c e de s a obra e que file classifica. que o Sr. ao meu ver. onde a terra era arenosa e de má qualidade.. Paulo dão-lhe o ú . y paraguariensis. do 8. João d ' E l Rei. como eu o fiz a i U e r i o r m e n t e . Nestes. LAMBERT a p r e s e n t a sob o « o r n e I ex congonha ' P i n . . 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 223 onde h a v i a p a s s a d o . como em Curitiba. Paulo. ê a b s o l u t a m e n t e a mesma planta dos arreou res de Curitiba. não existe em nenhuma outra comarca da província de Minas. m a s em p a r t e n e n h u m a ouvi chamá-la m a t e ou congonha.) (11). Relação. LAMBERT. e. n ã o me r e f e r i a ela em n e n h u m a parte de meus livros. Logo após deixar Barbacena. Tendo descrito essa a e s t r a d a na m i n h a l.»1«*. é acompa- nhada de uma árvore famosa chamada congonhas ou mate (Ilex paraguariensis A. (11) A f i r m e i (App. encontrei-a. há 14 meses. além da de S. que me s e r á fácil explicar. O mate d o P a r a g u a i aquele que os J e s u i t a s p l a n t a v a m em suas Missões ft realmente a planta que o Sr. U . VI). t . João. o Sr. creio vel e n t r a r em novos detalhes. em estado selvagem. aí explorada g r a n d e m e n t e . província de S. em várias zonas da ^ Z Z l t i Minas. onde não se faz uso habitual do n ^ existem v á r i a s p l a n t a s que. tive o prazer de admi- rar. recomendo-a ao leitor. a majestosa Araucaria bra- siliensis. enfim é ainaa a mesma p l a n t a que indico aqui como encontradíça nos a r r e t e . começa a perceber a apro- ximação da região das florestas. a c r e s c e n t a n d o aqui um pequeno número de detalhes. H. mas por um mal entendido. um «âbio ao qual . vol IX) que o verdadeiro m a t e do P a r a g u a i vegetava " R u r a l m e n t e nos arredores de Curitiba. 44. encontra morros um pouco menos arredondados. segundo os l u g a r e s são chamadas . discutiu esse fatc em sua a d m i r á v e l o b r a sôbre o gênero Pin«s. Como não se»trata aqui de u m a q u e s t ã o de Botânica especulativa. é certo. ou Mém. do Sr MAK- TIUS. Voy. "«. S. Q u a n t o à C a p i n e congonha. mas f ^ m ^ U do maior i n t e í ê s s e p a r a o comércio brasileiro. no início de minha v i a g e m pela província de Minas. e que aqui. Botânica m u i t o deve. o viajante que vem de uma região descoberta. somente depois de meu regresso à Europa tive ^ n h e c m i e n t o pela bela viagem dos Srs SPIX e M A R T I U S1 q1 1u e1 %lj«mas pes «oas dos a r r e d o r e s de S.

aliás. muito difícil. I. Aqui não é o ca- pim gordura que se segue às capoeiras. (Corres- ponde ao Volume 126.» Relação. vindas do Rio de Janeiro. meu tropeiro despe- diu-se humoristicamente do "João do Campo" e di- rigiu preces à Virgem e a Santo Antônio para obter congonhas. MARTTUS em seu eloquente escrito sobre a Fisionomia dos Vegetais reconhece que sua Cnssine eongonfea deve ser ser ali- nhada entre os falsos-mates. constantemen- te consumidas e dei má qualidade. essa estrada é muito prejudicial aos burros e cavalos. LAMBERT. vol. da região das florestas. pois que nunca pensei em descrever estas plantas. uma Voehysia. e. que se o mate de Curitiba é muito inferior ao do Paraguai isso é em parte devido a uma diferença de terreno. porque essa verdade é muito importante. mas ainda porque as pastagens formadas pelas des- truição das matas são pouco extensas. então. dificilmente seca. 111. pág. tais como uma Iiuxemlbiir^ia. da Coleção Brasiliana). animais de carga haviam morrido. porque a espécie de Curi- tiba -seja diferente da do Paraguai. nesse ano.224 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Várias caravanas. abrigada pelas árvores.» Relação. deixámos a re- gião das pastagens herbáceas. es- tavam estacionadas em Borda do Campo (12) para se reorganizarem. pág. As longas chuvas haviam arruinado inteiramente a estrada que. 113. atolados na lama e não havia caravana que. tivesse saído das matas sem algum animal doente ou estropiado. 111. (Corres- ponde ao \ o l u m e 126. Quando. pág. mas nunca. estas são logo substituídas pelos grandes fetos. após a passagem. 110. como o fez o Sr. nnr^ii o ^ i c í e m i n h a 1. o próprio Sr. da Coleção Brasiliana). erradamente. repito. (12) Vide minha 1. mas principalmente porque os curitibanos não sabem preparar essa planta. por assim dizer. (13). próximo de Batalha. uma espécie do meu gênero Trimerla. Em todo tem- po. De tudo isso vê-se que se não deve. como pensa o Sr. De tudo isso. admirar de encontrar em minha descrição do IIex paragnariensis caracteres que não se enquadram nas diagnoses de Ilex congonha e Cassine eongonlia. vol. LAMBERT. . I. pág. não somente porque é muito montanhosa.

Quando de minha primeira passagem não havia visto tantas caravanas porque então era a época do Natal. ouvia continuamente o eco das vozes dos tropeiros e o ruído dos guizos da madrinha da tropa. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 225 a graça de atravessar sem dificuldades as florestas. Quando se entra nos campos é em casa de "João do Campo" que se entra. No silêncio dessas matas. As florestas de Pessanha. por seus grandes volumes deviam ocupar maior número de animais. o que im- pede contemplemos os detalhes da floresta. tendo ao alto uma pluma ou um pequeno boneco. mas a vista pode abranger uma maior extensão. em Minas. não são atravessadas senão por trilhos ou picadas que barram a vista a poucos passos mas que deixam perceber todas as belezas dos deta- lhes da mata. as duas margens foram devastadas até uma certa distância. plantações de milho. como a estrada do Rio de Janeiro é muito frequentada. As matas virgens teem uma majestade que me causa sempre profunda impressão. mas essa impres- são não è a mesma em toda parte.. no meu regresso. a cabeça ornada de panejamentos colori- dos.. por ex. de tempo em tempo. "João do Campo" é um ser imaginário representati- vo das regiões descobertas. cercadas de árvores altas que oferecem o contraste cios trabalhos do homem com as obras da natureza. a época da reunião das famílias. mercadorias que.. quando o viajante dorme ao relento é "João do Campo" que o hospeda. . nos altos avistam-se frequentemente imensas massas de flores- ta espessa e. estavam carregadas de vinho e de sal. A maioria das caravanas que encontrei. e. que é. mula predileta que guia fielmente a caravana. Ao contrário.

que apenas co- nhecia as ordens de seu dono. de espessa camada de poeira. enquanto para o norte de Minas os homens de p nossa raça teem geralmente alguma abastança e estão acima dos mulatos. habitam frequentemente as mais miseráveis choupanas e em casa deles. mal acordara. pediu ao proprietário. cobrindo- me e à bagagem. e. Pedi ao escravo que esperas- se até nossa saída. grosseira curiosidade. não fez caso das minhas . Essa permissão foi negada e Manoel não poude obter outro abrigo que um telheiro onde havia uma pequena forja. apa- receu um negro varrendo ao redor da forja. logo vi o negro se dispor a acender o fogo da forja. Sofri essa nova amolação com tôda paciência. que servia de apoio ao meu leito e sobre o qual estavam todos os meus objetos. os brancos que se encontram entre Barbacena e Pedro Alves. João os brancos eram menos raros que nas outras partes da província. Deixara um dia meu tropeiro. Chegada a hora de pousar esse homem pa- rou em uma pobre habitação. mas esse homem. À minha chegada. mas.226 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Já disse que na comarca de S. Tive idéia de re- correr ao meu passaporte privilegiado. fiquei muito contrariado de ver minha bagagem colocada em um lugar onde havia uma camada espessa de esterco e onde ficava exposta à voracidade dos cães e dos porcos. Manoel Soares. como quase em todas as dos moradores dos lugares mar- geantes a esta estrada. per- missão para passar a noite na casa. Mas. como o rancho dela dependente estivesse ocupado por outros viajantes. que eira um homem branco. ir adiante. observa-se grande apatia e I. para obter asilo. mas. No dia seguinte. como era muito tarde conformei-me com a minha sorte. confesso.

as árvores cerradas umas contra as outras confundir seus ramos e os delicados folíolos das mimosas preencher os in- tervalos deixados pelas grandes folhas das palmeiras. apesar de ser mais intenso que o do sertão. No dia em que cheguei a Paraibuna o calor era tanto que apesar de irmos a passo. tal era a frescura que apresentavam. eram 4 horas da manhã quan- do quizeram acender o forno da forja. com admiração. como o terreno tornava-se gra- dativamente menos elevado. Entretanto uma de minhas bêstas de. o suor corria-me a grande. Demais. Fui ouvido com uma tranquilidade parva. Via. mas obtive ao menos que se ordenasse ao negro suspender seu tra- balho até à nossa partida. porquanto o ar continha mais humidade e meus nervos não se irritavam. Êle disse-me que minha portaria me isentava dos direitos. fugindo. Levantando-me precipitadamente armei-me da portaria e fui procurai- os donos da casa. o calor tornava-se mais sensível. montados. todavia. Êsse calor.carga quiz vingar-me. no declive dos morros. reclamando energicamente contra aquele procedimento que me pareceu proposital. Chegado à margem do Paraibuna apresentei meu passaporte ao comandante do destacamento incumbido da arrecadação do pedágio. Ao passo que o calor aumentava a vegetação ia-se tornando cada vez mais bela. Pare- cia-me que as plantas vinham de se cobrir com uma vestimenta nova. nos arredores de Vila Rica fatigam a vista e inspiram tristeza. e somente foi encontrada ao meio dia.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 227 palavras e continuou seu trabalho. Já não eram mais essas cores sombrias e pardacentas que. mas não me dispen- . Próximo de Paraibuna o caminho parecçeu-me mais belo. era infinitamente menos penoso.

pág. Forçado a procurar abrigo sob a varanda de uma venda vizinha. 31. . afim de evitar o contra- bando de diamantes ou de ouro em pó. aí apenas achei espaço para minha bagagem. se os acidentes do ter- reno não deixassem perceber os troncos das árvores e se as diferenças de altura.228 AUGUSTO DE SaINT-H^ILAIRE sava da busca costumeira. As árvores se apertam e entrelaçam seus ramos. mas não foram sequer tocadas e a vistoria limitou-se assim a ligeira formalidade. como não existe senão um pequeno galpão para receber as numerosas caravanas que se apresentam todos os dias. as árvores que produzem sem cessar ramos e folhas so (14) Vide minha 1. não traíssem a espantosa variedade de espécies. lianas flexíveis vão de árvore em árvore. qualquer cousa a desejar: são as flores. entretanto. côr e folhagem.» Relação. pâg. da Coleção Brasiliana). e. Não há palavras que pintem tanta magnifi- cência. Essas belas florestas. obrigado a esperar du- rante muito tempo. formar uma só massa. I. Entre o Paraibuna e o Paraíba o calor aumentou de intensidade e a vegetação pareceu-me ainda mais bela. e as plantas pareceriam. descrevendo mil ondulações. Fiz então descarregar minhas malas e abri duas delas. 15. Não fui mais feliz depois que atravessei o rio. Tais são as comodidades que apresenta a movimentada estrada de Vila Rica à capital do Brasil. mas. ( C o r r e s p o n - de ao Volume 126. sendo atormentado pelos ratos e pelas formigas. minha bagagem ficou exposta ao sol. como já disse (14). por assim dizer. sem poder passar o rio. vol. por isso. não havia também lugar no rancho existente do outro lado. deixam-me. Vários tropeiros tinhas chegado antes de mim. fui.

» Rei. vaidosos e ignorantes. no mês de Junho. encon- tram-se no Brasil homens ridículos. talvez tenha sido eu muito severo no criticar as aventuras que êsse Autor diz lhe terem sucedido nas margens do Paraíba e do Paraibuna. empreguei uma parte do dia a observar com paciência a balsa que avançava lentamente e terminei por deixar minha bagagem para o dia seguinte. o trabalho de carregá-las de novo. . exploradores da situação aos viajantes Para extorquir-lhes dinheiro. que o Sr LUCCOCK errara em dar o título de governador ao comandante do registro de Paraíba. mas duas caravanas anteciparam-me e. que haviam já carregado várias vezes minhas malas. dava maior relêvo às belezas que me cerca- vam. mas. e pode-se encontrar neste País. o que então acontecia. fiquei admirado da semelhança do céu com o de Paris no tempo de canícula. no meio de cães e de porcos que rondavam minhas malas. Com efeito. não se pode carregar mui- to a balsa. como na Europa. que me recebeu com extrema delicadeza (15) e teve a bondade de oferecer-me um pequeno quarto. É de notar que as côres do céu não são sempre belas. fiz observar. mas não aceitei tal oferecimento. quando as águas estão altas. Fui ver o co- mandante. tanto quanto em França e Inglaterra. (15) Em minha 1. dando-me grande preocupação por minha bagagem. Assim.. para não dar aos meus homens. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 229 raramente florescem. quando cheguei ao Rio de Janeiro. com razão. e apenas de longe em longe al- gumas mimosas deixam ver suas paniculas brancas no meio de uma folhagem finamente rendada. Foi entre os postes que susteem a casa do comandante que procurei abrigo e passei uma noite muito má. variando segundo as estações. O azul do céu mais brilhante que já admirara depois de estar no Brasil. Cheguei cedo á margem do Paraíba. Era preciso que esperasse a minha vez'.

26. Após tantos impecilhos tive a felicidade de partir. Minha hospedeira esta- va livre e havia sido libertada por seu dono quando apresentou sinais de decadência. 8. houve dificuldade em encontrar os animais. passa por Pau Grande.230 A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE No dia seguinte. atravessa a parte da cadeia marítima que se chama serra da Viúva e se prolonga até à capital (16). em minha l. chamado "ca- minho de terra". (Cor- responde ao Volume 126. situada no meio da mata. de manhã. I. que é o mais frequentado. cheguei a um lugar chamado Encruzilhada. Pao. mas creio que êsse nome ê dado a várias espécies diferentes. O outro. onde a estrada se divide. Como havia feito intenção de passar pela habitação de Ubá. Um dos dois ramos. pois um compilador copiando o viajante errt questão fez de Pau Grande dois lugares distintos. que não é situada à margem do "caminho de terra". p á g s . 22. Grande e Uva. e. 37 e 59. (17) Vê-se. era apertadíssima. Antes que fossem reunidos chegou outra caravana e foi preciso que eu esperasse mais uma vez. resolvi não passar de Sucupira (18) e parei em casa de uma negra velha. . cuja choupana. no lugar chama- do Sucupira (17). dizendo que s e acham sôbre o caminho de terra. (18) Sucupira ê o nome de uma árvore. Meus animais estavam extremamente fatigados. É um hábito comum neste país libertar os escravos quando não servem (18) Vide o que escrevi sôbre êsse caminho e sôbre a serra da Viúva. 51.. da Coleção Bra- siliana) . Êsse êrro levou a outros. p á g s . A sucupira que co- nheço ê uma encantadora Papilioriácea. a Rei. vol. tendo feito uma meia légua depois do Parada. onde se em- barca para o Rio de Janeiro. pelo que digo aquí que um viajante inglês que não seguiu esta estrada equivocou-se em citar Ubá (que êle chama Uva) ao lado de Pau Grande. deixei esse caminho a quatro léguas do Paraíba. leva ao Porto da Estrela.

juntar-se-á ainda o que inspiram os doentes. em um lugar onde havia passado dias tão agradáveis. e sua família. êle tornar-se-á vagabundo ou mesmo ladrão e assassino. Um. Se. sem ter aprendido nenhum ofício. que seja preguiçoso e sem inteligência. ao contrário a alforria é concedida a um jovem. é preciso notar que esse sistema é péssimo. Se o negro liberto está velho não terá meios de preservar sua indigência e ao des- prezo que há por sua cor. Um pouco antes de Ubá apeei do cavalo. Mas. deixei meus camaradas para trás. Experimentei indizível prazer em achar-me de novo após tantas fadigas. » A habitação de Ubá tinha sido melhorada durante minha _ ausência. e cheguei à habitação quase correndo. a velhice e a miséria. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 231 mais para o trabalho. dos artistas. as quais não são mais conhecidas no Rio de Janeiro que em França ou Ale- manha.francêses chamados •n Tz-wSrt VT n ' «»j/n» » . Para cúmulo da felicidade o Sr. João Rodrigues Pereira de Almeida estava então em casa. Fui perfeitamente acolhido e inquerido sobre as re- giões que eu havia visitado. No tempo em que estive no Brasil a maioria dos negros condenados por crimes no Rio de Janeiro era constituída de libertos. muito numerosa. compunha-se de várias pessoas que eu já conhecia. .

g r a v a d o r . os pro- f e s s o r e s foram pagos. tal não a c o n t e c e u . era preciso primeiro i n s t r u i r os brasileiros em o f í c i o s e p r o f i s s õ e s mais úteis. porto vizinho de Ubá aonde contava embarcar para a Capital (20). 3 14 1/2 . Usavam apenas pregos para fixar peças de madeira. Deixei então o Sr. ajustando-as à medida que iam sendo prepara- das. a n t e s de pensar em formar pintores e escultores. Êsses trabalhos haviam sido executados com muito cuidado e o Sr. Como foi justamente observado. talvez. as peças eram trabalhadas umas após as ou- tras. era preciso cuidar de tirar deles a l g u m proveito. Retomei logo o "caminho de t e r r a " e parei sob um telheiro que caía em ruínas e que não havia. mecânico. Em geral a arte de carpintaria tinha então em tôda essa região. . Almeida (12-3-818) para ir à aldeia do Pilar. . não deixavam de inspirar- lhes idéias novas. Mas. (20) Itinerário a p r o x i m a d o de U b á a P o r t o do Pilar: D e Ubá à f a z e n d a da R o ç a d a 4 léguas " " Marcos da Costa . Não queria voltar ao Rio de Janeiro pelo ca- minho que eu conhecia. não se lhes deu nenhum aluno. grande necessidade de ser aperfeiçoada. Almeida proporcionava assim aos seus vizinhos o importante serviço de oferecer-lhes modelos que. 4 " " Taquarassú 3 1/2 l é g u a s " " »" Porto do Pilar . quando não fossem de todo perfeitos. o que naturalmente obrigava a repetir a confec- ção de muitas que se não ajustavam devidamente.232 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE dem do proprietário de Ubá. Absolutamente não se faziam projetos e de^ senhos. uma máquina que movi- mentava os pilões fazendo ao mesmo tempo mover uma serra e um moinho. P R A D I E R . ainda que p a r e ç a incrível. OVIDE. Como t i n h a sido f e i t a d e s p e s a para trazer ao Erasil um grupo de a r t i s t a s . ignorando-se o uso dos en- caixes. e.

Não somente aí não se encontram aqueles imensos trechos em que a terra vegetal desapareceu para dar lugar a amontoados de pedregulho. Perto de Marcos da Costa a vista é linda. mas as habitações são bem conservadas e anun- ciam abastança. não so- mente aí não se vêem. Mas. onde parei. êles sabem que o viajante se detem ao fim do dia. devi- do aos seus ranchos. No lugar onde a estrada de Pilar se separa do "caminho de t e r r a " (Encruzilhada) a região torna- se montanhosa. é aí que termina a bacia do Paraíba e que se entra na grande cadeia paralela ao mar (serra do Mar). que havia atravessado em 1816. senão nas estradas muito fre- quentadas. como não temem concurrência. Logo ao chegar a Marcos da Costa desci a serra da Viuva. Seria justo que os colonos que vendem milho aos viajantes. não vi mais nenhuma cultura. e comecei a encontrar plantações. antes da bifurcação que conduz a Pilar. encobertas por . a cada passo. que desce por um declive muito forte. casas abandona- das. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 233 sido varrido desde que fôra construído. e. a verdura muito fresca e as plantações são melhor cuidadas que as do interior. como também a vegetação é vigorosa. Toda a região que percorri no caminho de terra. pouco se lhes dá o conforto ou desconforto dos ranchos. causou-me admiração pela diferença que apresenta em relação à de Minas. Até ao lugar chamado Marcos da Costa. tivessem o cuidado de^ conservar e limpar esses miseráveis abrigos. existe um regato cujas águas. em outro ponto. mas a ve- getação é sempre bela e imensas matas virgens co- brem as montanhas. A es- querda do caminho.

234 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE árvores e espessa vegetação. consultar e outros escorraçá-los que do entre compreende g ahaviam àd êles oproprietária. situada na p r o v í n c i a de Minas Gerais menos e. a c o s t u m a d o s desde a i n f â n c i a a uma vida ociosa. Enfim. formando uma cascata (cachoeira da Viú- va). Os a g r e g a d o s são na maioria m u l a t o s e negros. Neste país. tomando por padrinho de seus f i l h o s o proprietário dos terrenos sôbre os quais estão estabelecidos. fazenda que ociosidade. indo reunir ao pé da montanha a um outro regato. m a s não exercem a profissão s e n ã o em último recurso e pedem por um dia de trabalho o s u f i c i e n t e para viverem oito sem nada fazer. comem e bebem â. Duas fazendas e algumas casas de agregados foram construidas ao pé da serra. "Podia-se crer^ diz êle..s e de indicar a s dêstes últimos. Paulo). sem dúvida ter em v i s t a senão a população de Minas e de a l g u m a s partes das províncias do Rio de Janeiro e de S.. os homens a que c h a m a m a g r e g a d o s ." Relação. enquanto que nos altos existem matas virgens. . aqui muito respeitados. em m i n h a 1. porquanto êsses homens são mais uma carga que uma utilidade para os proprietários. no meio das quais a Melastomatácea (21) Já f i z conhecer. que fazer qualquer cousa. Quase sempre casados ou vivendo com uma amante os agregados tra- tam. gada s e avários aproprietária. o flanco destas últimas apresenta numerosas plantações de cana de açúcar e de milho. Mencionei quais s ã o as atribulações dos pro- prietários em relação aos a g r e g a d o s . correm rumorejantes en- tre pedras. que f o r m a m quase um quarto da população (o autor não pode. o escritor que vou citar i n c u m b i u . traduzirei aqui a p a s s a g e m onde êles são descritos por um sábio que observou com perfeição os c o s t u m e s de várias partes do Brasil. frequentemente.. nsuas teilm é ageviviam u nterras atqueimar otornou-se s viu-se da quadradas. P a r a completar o que escrevi a êsse respeito. que os a g r e g a d o s são v i s t o s com prazer pelos colonos.. Mais de 150 agregados a c h a v a m . tornados compadres dos colonos ê l e s se consideram como per- t e n c e n t e s à s f a m í l i a s dêstes. não podem adquirir o hábito do trabalho e preferem ficar na indigência. so- bretudo pelos do interior. carpinteiro etc. os que gozam liberdade. . Na verdade êle« aprendem. de alfaiate. (que comumente os l e v a a m á s a ç õ e s ) . de prendê-los pelos laços religiosos do compadresco. apesar q uhpela a roubavam. onde o braço é raro. m a s enganar-se- ia. em uma pequena bacia. c u s t a dêles e apenas rendem-lhes pequenos s e r v i ç o s . . cercada de altas montanhas.s e fixados à fazenda do Pompêu. na dona sem maior obri- suas tal da ao . um ofício. vconstruído i para ade mfôrça gobtido emais nÊesrsarmada oeesôbre sscade aohomens nedesordem s150 ecaridosa.

Após pôr-me a caminho. (22) N ã o é " f l o r de quaresima". n ã o deve. um p e q u e n o t r a b a l h o ou u m a pequena retribuição. O Proprietário le- g a l m e n t e e s t a b e l e c i d o . e l a t e r i a melhor feito.s e e x c e s s i v a m e n t e s e v e r a incend ando em bloco a s c h o u p a n a s de a l g u n s i n f e l i z e s s e m asilo que se na viam r e f u g i a d o e m s u a s 150 l é g u a s quadradas.l h e . apresenta a forma aproximada de um pão de açúcar e cuja vegetação magra e rasteira contrasta com as matas vigorosas dos montes vizinhos. por m a i s f o r t e razao s e r . mais alta que tôdas as outras. subi durante algum tem- po. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 235 chamada "flor de quaresma" (22) alteia sua copa de 30 a 40 pés. II. Chegado à parte mais alta dessa cadeia parcial. mas são^ designa- dos pelo nome particular de serra da Boa Vista.i o s um a um. fazendo parte da gran- de cadeia marítima (serra do Mar). reser- v a n d o . Bras.m e . ocupado em defender minhas cousas contra os cães e os porcos.i a p o s s í v e l i m p ô r . s u b m e t e n d o . parece-me. P á g . 32)''. grrandiflora! e outra» espécies ( R e i s . se P ™ c u r a s s e con- servá-los.l h e s a l g u m a s condições e e x p u i s a . atravessando florestas virgens da mais bela vege- tação e cheguei ao pé de uma montanha inacessível que.. R h e x l a p r l n c e p s . c u z MARTIUS. O rancho sob o qual dormi em Marcos da Costa era ainda mais imundo que o em que me detive nas vésperas e passei péssima noite. das quais ser- lhe-ia d i f í c i l u s u f r u i r e m t ô d a a s u a e x t e n s ã o A d e m a i s se eia tinha m e i o s para e x p u l s á . Por entre os tron- "choupanas ( E S C H W . exigindo^ dSles por ex. coberta de grandes flores roxas.. P o r c o n s e g u i n t e . I. como f o i escrito Sob o nome de f l o r de « u a r e s m a compreende-se v á r i a s p l a n t a g . Todos êsses montes ligam-se à serra da Viúva e à dos Órgãos. .o s a u m a reforma.s e o d i r e i t o de e x p u l s a r a aqueles que não c u m p r i s s e m as c o n d i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s . q u e a d a m a g e n e r o s a que p o s s u i a a fazenda oo P o m p é u m o s t r o u .l o s em massa. holoserleea. em s e u próprio i n t e r ê s s e e no d ê s s e s m i s e r á v e i s . s e m dúvida ser ^ i f a d o a admitir q u e m quer que s e j a participando de sua V ™ » ™ ™ * * ' mas p a r e c e . reconheci que seu nome era justo. 5 5 5 ) . em vez de caçá-los como a u m rebanho daninho.

253
253 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

cos das árvores avistei um trecho da baía do Rio de
Janeiro e algumas das ilhas nela existentes; mas
essa vista nada era em relação à que eu ia admirar
Comecei a descer, e logo o mais majestoso espe-
táculo se ofereceu aos meus olhos. Ao redor de mim
altas montanhas, cobertas de espessas florestas, dis-
punham-se em semicírculo. Abaixo da cadeia minha
vista mergulhava-se numa imensa extensão de colinas
onde as matas são entremeadas de plantações; à es-
querda avistei quase tôda a baía do Rio de Janeiro
e uma parte das ilhas; enfim, à entrada da baía via a
montanha pitoresca chamada Pão cle Açúcar e, apesar
de não poder distinguir a cidade reconhecia sem difi-
culdade o ponto onde se acha situada. O céu mais
brilhante e os efeitos de luz mais variados aumenta-
vam a beleza dessa vista imensa. Não pude, confesso,
contemplá-la sem profunda emoção. Após tão longa
viagem, tantas canseiras e privações, revia o porto
onde um dia eu devia embarcar para F r a n ç a ; as duas
mil léguas que me separavam da pátria podiam ser
transpostas em menos tempo que o que empreguei em
percorrer a província de Minãs, e, se me decidisse a
prolongar meu exílio, iria ao menos ter o prazer indi-
zível de receber notícias de minha família e de minha
pátria.
A descida da serra é íngreme, pedregosa e difícil.
Antes de chegar ao pé da montanha ouve-se o ruído
de um regato que corre entre pedras. É o rio Pilar,
que irriga a planície que eu ia atravessar e que toma
seu nome da aldeia a que me dirigia. Êsse pequeno
n o é o último dos afluentes do Iguassu, que, como já

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 237

disse cm outro lugar, lança-se na baía do Rio de
Janeiro (23).
Logo que se desce a cadeia marítima o aspecto
da região muda de caráter. Deixando-se atrás as
montanhas percorridas, outras que se ligam a aque-
las aparecem e, por uma singular ilusão de ótica, o
conjunto parece fechar inteiramente o plano aonde
corre o rio Pilar. Os prados pantanosos que margeam
esse rio apresentam a mais fresca verdura; não se vê
um detrito sequer de erva sêca, uma folha amarelan-
do, e, em parte nenhuma a vista é entristecida por

(23) S e g u n d o i n f o r m a ç õ e s que sem dúvida obteve no Rio
de Janeiro o sábio e n a v e g a d o r FREYCINET disse (Voyage I r .
h í s t . ; pág\ 79) que o rio do Pilar chama-se também Ua.r&hy.
CAZAL f a l a ao m e s m o tempo (Corog. B i a s . II, 13 e 14) do
Marahy e do Pilar, deixando em dúvidas êsse ponto da topo-
grafia U m a descrição do Rio de Janeiro inserta no precioso
livro i n t i t u l a d o : Nouvelles Annales des Voyages (Tome IV de
1830) indica i g u a l m e n t e o Marahy e o Pilar; mas o autor dessa
d e s c r i ç ã o b a s e i a - s e em LUCCOCK e CAZAL, sem tratar de con-
ciliar seus estudos, e, traduzindo o que diz êste último a res-
peito do Marahy d e i x a p a t e n t e não ter compreendido o assunto.
Quanto a PIZARRO, êle não fala do rio Marahy, no texto de
seu capítulo sobre a paróquia do Pilar, mas, cita em uma nota
(Mem. iiist II, 122) u m a espécie de ata do ano de 1697 onde se
diz que, n e s s e ano, foi abençoada a paróquia de N. S. do Pil/u\
d i s t r i t o d e Guagassü, Morabahy e Jaguaré. O Gnas:>ssû é e v i -
dentemente o I g u a s s ú de hoje e o Jaguaré, não pode deixar ae
ser o Iguaré de CAZAL (Corog. II, 13); ora, como riao ha
dúvida que o P i l a r é o rio mais notável do lugar (parece-me),
é de crer que ê s s e n o m e não f o s s e conhecido em 1397 e que
tenha sido t o m a d o da paróquia era substituição ao antigo nome
que devia ter sido Morabahy; o que confirma inteiramente a
asserção do Sr. F R E Y C I N E T . Assim o nome de rio da Estieia
fará p r o v a v e l m e n t e desaparecer pouco a pouco o antigo nome
de Rio de ï n l m m f r i m dado a um dos rios mais no.táveis de
quantos se lançam na baía do Rio de Janeiro. Lamento viva-
mente não ter posto e m execução a idéia de fazer uma viagem
pela baía do R i o de Janeiro. Uma topografia completa aessa
baía e s e u s contornos seria uma obra extremamente interes-
sante e r e c o m e n d á v e l a o s homens dignos da re^giao Serâ hoje
m e n o s difícil de realizar essa obra, porquanto PIZAKKU ja suu
diversos aspectos, lançou os fundamentos em suas exceienteb
memórias.

238 A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE

esses fetos que, na província de Minas, substituem as
florestas. Por todos os lados vegetação a mais bri-
lhante, luxuriante e vigorosa que se pode imaginar e
de que se procurará inutilmente fazer uma idéia, desde
que se não tenha saído da Europa.
No dia em que desci a cordilheira parei no lugar
chamado Taquarassú, onde existem algumas casas,
uma venda e um rancho para os viajantes.
Para além de Taquarassú a planície, de que eu já
havia atravessado o comêço, alarga-se de modo sen
sível, e as altas serras dos Órgãos, da Estrela e da
Boa Vista, não parecem mais formar senão um semi-
círculo ao redor dela. Essa planície estende-se até
ao mar, em um espaço de algumas léguas; o pequeno
rio do Pilar aí serpenteia e, como é navegável às ca-
noas é muito útil aos agricultores no transporte de
seus produtos.
O terreno baixo, e em alguns lugares, pantanoso,
produz de todos os lados gramíneas aquáticas e altas
Ciperáceas. Nos lugares secos o solo apresenta uma
mistura de areia fina e de terra parda onde a man-
dioca desenvolve-se bem, enquanto que lugares mais
húmidos produzem arroz em abundância. Por toda a
parte a vegetação continúa a ser vigorosa e a verdura
de extrema frescura. Choupanas, vendas e algumas
habitações acham-se dispersas no campo, tornando-o
mais risonho. Mas, não estando mais nas m o n t a n h a s ,
embora admirando a beleza da paisagem, tinha que
me queixar do calor excessivo.
Após haver feito três léguas depois de T a q u a r a s -
sú, cheguei enfim à aldeia do Pilar ou N. S. do Pilar
de Iguassu, cabeça de uma paróquia cuja fundação re-
monta ao ano de 1697 e que confina com as de Iguas-

1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 239

sú, S. Antônio de Jacutinga (24), de N. S. da Conceição
do Alferes, de N. S. cla Piedade de Anhumirim ou
I n h u m i r i m , a que pertence o porto da Estrela (25) de
que já falei páginas atrás.
A aldeia do Pilar possue uma rua que termina na
igreja; mas vêem-se belas casas e lojas bem sortidas.
Uma pequena parte das caravanas que veem de Minas
Gerais pára em Pilar, aí deixando algum dinheiro. A
região vizinha produz açúcar, legumes, arroz, farinha
de mandioca e café, produtos esses que são exporta-
dos para o Rio de Janeiro através dos pequenos rios
da Mantiqueira, Bananal, Saracuruna e Pilar (26).
Há na paróquia do Pilar olarias cujos produtos são
também objeto de exportação (27).
Deixei meus animais em Pilar e embarquei com
minhas coleções, e, após uma viagem de 15 mêses,
tive enfim a felicidade de rever o Rio de Janeiro (17
de Março de 1818); essa cidade, cuja posição será
sempre para o estrangeiro objeto da mais viva admi-
ração, e cujo porto, para me valer das expressões do
sábio e sensato SOUTHEY, é um dos mais vastos, do
mais cômodos e dos mais belos do mundo (28).

(24) Vide minha l . a Relaçfio, vol. I, págs. 7 e 57. ( f o r r e s
ponde ao Volume 126, p á g s . 25 e 63, da Coleção Brasiliana) •
(25) PIZ. Mem. liist-, v o l . II, p á g s . 122, 123, IM e Lti.
(26) CAZAL e FREYCINET dizem que existe um canal
que liga o rio Pilar ao rio Inhumirim ou rio da Estréia.
(27) PIZ. Mem. h i s t - , II, 129.
(28) The position of the city mideway between Eu o p .
and India, and w i t h Africa opposite, is the best that could be
desidered for general commerce; the harbour, one of the most
capacious, commodious and beautifull of the world . Local
revolutions h a v e deprived Alexandria and Constantinople or
that commercial importance which their situation formerly-
assured to them and which loitered into the views of their great
founders. B u t the w h o l e civilized world may be rebarbanzed,
before Rio de Janeiro can cease to be one at the most im-
portant positions upon the world (Hist, of Braz., Ill, 814;.

CAPÍTULO X I I I

O AUTOR DEIXA O RIO DE JANEIRO PARA
VISITAR O LITORAL QUE SE ESTENDE AO
NORTE DESSA CIDADE. — DESCRIÇÃO DA
REGIÃO SITUADA ENTRE A CAPITAL DO PAÍS
E O LUGAR CHAMADO CABEÇO

Estada do Ãutor no Rio de Janeiro. — O Â.
põe-se a caminho do litoral-norte da Capital do
Brasil, —• Idéia geral do caminho que se segue
nessa costa. — Passagem da baía do Rio de Ja-
neiro. — A cidade de Praia Grande. — Aldeia de
S Gonçalo. Comparação da população dos arre-
dores do Rio de Janeiro com a de Minas. Cul-
tura. — O rio Guaxindiba e a região vizinha. — O
distrito de Cabeçú. Modo de conduzir as bestas.
Abrigos que os viajantes encontram no litoral.
Descrição das vendas dos arredores do Rio de
Janeiro. Pastagens fechadas.

Chegado ao Rio de Janeiro passei algum tempo a
pôr em ordem minhas coleções ; limpei os insetos que
havia trazido de Minas Gerais; troquei o papel de
minhas plantas secas ; remeti para a França três caixas
de objetos de história natural e enderecei aos pro-
fessores do Museu de Paris uma "Segunda memória
sobre os vegetais aos quais se atribue f uma placenta
central livre" (1). Fazia também pequenas herbori-
zações nos arredores da cidade ; mas, nunca dei à flora

(1) Minha "Primeira memória sôbre as p l a n t a s às quais
se atribue uma placenta central livre", foi inserta no vol. H
das "Memórias do Museu"; a s e g u n d a faz parte do vol.
<pag. 381). Nesta última memória lanço um golpe de vista
sobre a família das Santaláceas; m o s t r o que a s Mirsináceas

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 241

da capital do Brasil, estudada por um grande número
de pe-ssoas, a mesma atenção que à do interior.
A sociedade que frequentava no Rio de Janeiro re-
confortava~me amplamente da solidão na qual vivi,
quando percorri a província de Minas. A casa do ge-
neroso JOÃO RODRIGUES P E R E I R A D E ALMEI-
DA estava-me aberta e eu podia verdadeiramente con
siderá-la como se fôsse minha. Após haver passado o
dia ocupado em meus trabalhos, ia distrair-me em casa
de amáveis franceses, os Srs. MALLER, encarregado
dos negócios de França, DE GESTAS, depois cônsul
geral, o falecido Sr. ESCRAGNOLLES, que governou
a província do Maranhão por designação do Imperador
do Brasil. Tive também o prazer de me entreter fre-
quentemente a cerca de meus estudos favoritos com o
meu amigo F R E I LEANDRO DO SACRAMENTO,
professor de Botânica, e com vários estrangeiros, dis-
tintos igualmente por suas amabilidades, e por seus
conhecimentos; Sr. D'OLFERS, encarregado dos negó-
cios da Prússia; Sr. Prof. MIKAN, o Dr. P O H L e r
infortunado e respeitável RADDI que, após ter sido
vítima das injustiças de que sofre frequentemente o
viajante naturalista no regresso à sua pátria, exilou-se
uma segunda vez e terminou seus dias em uma terra
longínqua.
Mas, qualquer que fôsse a atração exercida sôbre
mim nessa estada no Rio de Janeiro (2), a vegetação
devem, na série linear, preceder imediatamente as Primulá-
ceas; enfim indico os d e s e n v o l v i m e n t o s sucessivos do embrião
da Avfoemiin e provo que a semente dessa planta não é, como
pensam muitos, desprovido de tegumento.
(2) Lamento não poder enumerar tôdas as pessoas que,
durante minhas diversas estadas no Rio de Janeiro, me presta-
ram serviços e foram bondosas para comigo. Que meus a m i g o s
fers. BOURDON et F R Y achem entretanto aqui um sinal de lem-
brança e uma ligeira h o m e n a g e m de reconhecimento.

259 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

luxuriante de suas florestas e as belezas de seus arre-
dores, não tardei em pensar em distanciar-me dessa
cidade. Não queria entretanto empreender uma longa
viagem sem r e c e b e r notícias da F r a n ç a ; havia escrito
à minha família e aguardava resposta. P a r a não ficar
atoa durante êsse intervalo, resolvi consagrar alguns
meses a visitar o litoral que se estende ao norte da
capital do Brasil. Em vez de prolongar minha estada
na América eu devia ter voltado logo para a Europa.
Todo o material que eu havia recolhido até êsse mo-
mento podia ter sido publicado e eu teria evitado
muitos sofrimentos. Regressei, é verdade, com cole-
ções mais consideráveis; fui obrigado durante muitos
anos a atrasar os trabalhos e a maior parte do ma-
terial, que, me custou tantos sacrifícios e fadigas, se
inutilizará.
Decidido a fazer uma viagem pelo litoral escrevi
aos meus amigos do interior rogarwio-lhes enviar-me
um tropeiro; esperei as respostas durante muito tem-
po; tive grandes contrariedades, como acontece sem-
pre neste país no meio dos preparativos de uma via-
gem por t e r r a ; mas, enfim, consegui organizar minha
caravana. Ela se compunha de um número de animais
de carga suficiente para transportar minha bagagem e
minhas coleções, meu doméstico francês, o índio Fir-
miano, um tropeiro chamado José, que me foi e n v i a d o
de Ubá e do negro Zamore, que um negociante f r a n c ê s
estabelecido no Rio de Janeiro me havia pedido para
levar comigo afim de habituá-lo às viagens e ao ser-
viço dos animais.
Grandes estradas ligam a capital do Brasil a Mi-
nas e a S. Paulo; mas, à época de minha viagem nao
existia nenhum caminho entre o Rio de Janeiro e as

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 243

províncias do norte, À chegada de D. João VI ao
Brasil, foi dada ordem de se construir uma grande es-
trada da Baía ao Rio de Janeiro; ela foi começada,
mas logo abandonada porque as câmaras das cidades
por onde passasse deviam fazer despesas e elas teem
pouca receita. Era então quase sempre por mar que
se ia de um porto a outro; caravanas regulares nunca
percorriam a costa, sendo pouco conhecido o trabalho
com animais de carga. Quando por acaso se desejava
viajar por terra do Rio de Janeiro ao norte do Brasil,
seguia-se até as lagoas de Saquarema e Araruama,
por um desses caminhos que jmanteem comunicação
entre a capital e as fazendas das vizinhanças; contor-
navam-se em seguida as duas lagoas, e, exetuados pe-
quenos trechos, não se fazia outra cousa, até ao rio
Doce, que caminhar sôbre uma praia arenosa, batida
pelas vagas.
Parti do Rio de Janeiro a 18-8-818, às duas horas
da tarde. Como a cidade fica na parte ocidental da
baía, e como desta a Cabo Frio a costa do Brasil
segue a direção de oeste a léste, para depois subir
pouco a pouco de sul a norte, é claro que, querendo
eu seguir essa direção, era necessário contornar a
baía ou atravessá-la. Tomej esta última providência
e fui ter ao lugar chamado Praia de D. Manoel, que
se acha à extremidade da cidade.
Tinha previamente obtido vários barcos para
transportar meus animais de carga. Essa operação,
que teria sido extremamente fácil, se existisse uma
ponte apropriada, essa operação, repito, foi muito de-
morada. Era preciso forçar os animais a entrar ná-
gua; inclinar, com grande esforço, as pequenas em-
barcações e aí colocar as patas dianteiras das pobres

244 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

bêstas corn risco de quebrar-lhe as pernas, e enfim
dar-lhe muitas chicotadas para fazê-las saltar nos
barcos (3). Êstes são pequenos mas bonitos; são
cuidadosamente pintados e um toldo neles existente
protege os passageiros dos ardores do sol.
Navegando a remo e a vela, distanciámo-nos logo
do porto, e uma vista magnífica ofereceu-se aos meus
olhos. Avistava uma parte da cidade, dominada pelo
hospital militar, vasto edifício que se eleva ao alto de
uma colina. Num plano mais distanciado o horizonte
era limitado pelas montanhas da Tijuca e do Corco-
vado, cujas formas bizarras e variadas produzem o
mais'pitoresco efeito. Ao fundo da baía a serra dos
Órgãos aparecia por intervalos, através de espessa
cerração. Do lado oposto, e mais perto de nós, via
o Pão de Açúcar, sentinela da entrada da baía, onde
navegavam, ao longe, alguns navios.
Ao fim de uma hora de viagem tínhamos atraves-
sado a baía e cbegavamos à Praia Grande, situada ao
fundo de pequena enseada (4). Nessa ocasião o lugar
não passava de uma aldeia, e, durante muito tempo
não teve outra designação; mas, em 1819 acharam de
bom aviso torná-la em cidade, dando-lhe um "juiz-
de-fora", cuja jurisdição se estende às paróquias de
S. João de Cariri, de Itapui, S. Lourenço, S. Gonçalo
e mesmo sobre o território de Maricá (5). Uma rua
muito larga mas pouco extensa atravessa Praia Gran-

i s ) Parece que o Sr. PRÍNCIPE D E N E U W I E D passou
pelas mesmas dificuldades quando embarcou em S. Cristo^- ,
para atravessar a baía (V. Voyages Brés., trad. E i R . H,
(4) Se se pode acreditar no Sr. LUCCOCK, um belo eco se
faz ouvir no meio da enseada de Praia Grande, quando se atira
do canhão no Rio de Janeiro (Notes 01» Brase., 262).
(5) PIZ. Mem. h i s t . , III, 187, 188.

a baía do Rio de Janeiro. CAZAL Itaipü e o Sr. as ca- sas. cujas águas teem comunicação com as de Maricá. a lagoa Jacuné (6). hist. situada a 3/4 de légua da entrada da baía e com 3/4 de légua de comprimento. VII. de Saquarema e Araruama. oferecendo-lhes abundante pesca. Gonçalo ao invés de seguir pa- ralelamente à costa. peixe seco. mas se essa cidade é oouco extensa é. que se acha em HZ AR RO. voltando em seguida para (6) PIZ. na maioria das quais vêem-se vendas ou lojas. — Piratininga que se encontra em CAZAL e PIZARRO. Entre Praia Grande e Cabo Frio estende-se para- lelamente ao litoral uma longa série de lagunas que embelezam a região e contribuem para dar alguma abastança aos habitantes. são limpas e muito bonitas. como escreveu um francês competente. porque yg s i g n i f i c a água e ytapü é uma palavra guarani bem conhecida que quer dizer o som de um sino (água cujo ruído imita o som de um s i n o ) . a lagoa de Corurupina. muito movimenta- da. de 2 a 3 léguas de comprimento e que em certas épocas se comunica com o mar e é tida como muito piscosa. 174.. . margeando na direção de S. Mem. enfim as mais importantes. Como o caminho pelo qual passei. CAZAL e LUCCOCK. 122 © II. a lagoa de Maricá. e que vem das palavras guaranis pirá tini. a N. P e l a e t i m o l o g i a indígena Itapuyg deve ser pre- ferida. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 245 de. Essas lagunas são as de Piratininga. faz uma grande volta. a de Itapuí. em compensação. — PIZARRO gra- fava ora Itapuyg ora Itaipuyg. — Cururupina. F R E Y - CJNET Taipü. é indubitavelmente mais exata que Curueupiua. a lagoa Brava. com efeito curarfi na l í n g u a geral s i g n i f i c a sapo e LUCCOCK pensa que o vocábulo curuiupina f o i dado à lagoa por causa de um animal singular aí existente e semelhante a um sapo (prova- velmente a l g u m peixe). perpendicularmente ao m a r . barcos aí chegam e saem incessantemente. de menos de 1/2 légua de comprimento. seguindo para S. ê também provavelmente mais correto que Petininga indicada em um dos mais interessantes livros de viagem ulti- mamente saído.

líK De Praia Grande a S. i " " " a Cabeçú 3 léguas » » '' " Fazenda do Padre Manoel 2 1/2 léguas " " Venda da Mata 4 1/2 " » » » à s m a r g e n s do l a g o de S a q u a r e m a 4 1/« Obf». nome que vem evidente- mente das palavras da língua geral yby terra e mitanga ou pitanga menino (menino da terra). E de crer- (7) Itinerário aproximado de Praia Grande ao lago d e Saquarema: . cheia de gomos. somente vi este lago e o de Araruama. Pode-se por ex.. fui pernoitar em uma casa de campo distante cerca de 1/4 de légua. Gonçalo. — A estrada que segui não é a íinica que conduz de Praia Grande ao lago de Saquarema.. então carregada de flores. aldeia íegudb " às margens do Guaxindiba . pa- ralelo ao mar. pertencente a um francês. pequena Mirtácea. A sinonímia dessa planta foi muito confundida pelos botânicos. evitar passar por S. cuja brancura contrasta com a verdura fresca dos grupos de arbustos esparsos aqui e acolá. Entre êstes notei um grande número de pitangueiras. O terreno perfeitamente plano. DE CÂN- DOLE consagrou em seu Prodromusj e acredito mais. O caminho que tomei. conservando o vocáculo pitanga parado fruto da pitangueira. de gosto muito agradá- vel (8). Gonçalo. com . mas é evidente que se deve dar à pitangueira o n o l " e de Eugenia Michaelli de LAMARCK. Não me detive em Praia Grande. que vegeta à beira-mar nos terrenos arenosos e que produz uma baga vermelha. a pitangueira cha- mava-se. tem pouca largura e é limitado por morros revestidos de matas pouco densas. deixando à minha direita todos os que precedem e de que falei linhas atrás (7). em linha oblíqua visando o lago de Saquare- ma. monosperma. pode-se também passar pela pequena (8) A época de PISON e MARCGRAFF.246 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE sudeste. vila de Maricá. „ ixp. Com o tempo os guêses abreviaram a palavra e deram-lhe uma terminaçao a^ aeôrdo com s u a língua. nome que o Sr. como a da maioria das espécies comuns. era Pernambuco ibipitanga. que o cami- nho atravessa. segue por um areial quase puro.

Aqui nada faz lembrar a austeridade das solidões de Minas Ge- êste último autor. por morros. dizendo que o vento sopra a s f l o r e s das pitangueiras caem e cobrem a terra como uma neve perfumada. avistam-se. Parece-me que as flores da pitangueira são muito p e q u e n a s e pouco numerosas para produzirem s e m e - lhante efeito. asseme- lhando-se a um lago de pequena extensão. a s s i m como Plinia pedunculata de U N N E U (Pilho) não são outra cousa que E i i g e n i a Michelli. Em uma bela descrição tentaram pintar as belezas da noite nos arredores do Rio de Janeiro. pedunculata entre as espécies descritas pelo ilustre sueco. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 247 se que em uma época pouco distante esse terreno fôsse coberto pelas águas do mar e que estas se estendes- sem até ao pé das montanhas. Os sábios MARTIUS e SPIX 1 i ^ F e ^ s e m a a 1 s b U n S ^ a um Myríus pedunculata q u e atribuem a L I N N E U . não se pode perceber o canal existente entre elas e a terra firme. por cima das ilhas. o solo chato que êle percorre é limitado a uma distância muito grande. mas nao encontrei M. à direita e à esquerda. f e i t a s a custa ae observações i n e x a t a s . fazendo buracos no barro. Talvez f ô s s e de bom aviso que v i a j a n t e s deixas- sem aos r o m a n c i s t a s e s s a s tiradas poéticas. Várias ilhas ornadas de bela verdura fe- cham a entrada da enseada. . Dificilmente se encontrará uma situação mais bo- nita que a da casa de campo onde parei logo após ter deixado Praia Grande. as montanhas da Ti- juca e do Corcovado. abaixo de uma capela dedicada a Santana. ao longe. Essa casa foi construída à bei- ra de uma enseada. que Myrtus brasiliana e Plinia rubra d- LINNEU ( P a i ) . As águas do mar banham ligeiramente o terreno que atravessei ao deixar a casa de que acabo de des- crever a posição. esse terreno é coberto de pequenos mangues e nele se vê uma quantidade considerável de carangueijos. isto e pitangueira. O caminho logo se distancia da praia e. À direita da casa fica a colina onde está a capela e.

onde o escra- vo. dos quais saboreei deliciosos. mas cujo porte e folhagem são muito mais elegantes. da espécie chamada se- leta. procurar distração e esquecer sua miserável condição. construídas com certo cuidado. De todos os lados a região é cortada por estradas e a gente encontra sempre negros conduzindo para Praia Grande ou outros pequenos portos. na maioria. com a en- cantadora Mimosa conhecida no Rio de Janeiro pelo nome de espinho. tal como couves. a vegetação primitiva desapa- receu e tudo indica a presença do homem. Nos arredores de Praia Grande vê-se um grande número de plantações de laranjeiras.248 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE rais. longe dos olhos do dono. O terreno quen- te e arenoso dessa zona convém perfeitamente a esses vegetais. mimosa cuja verdura lembra a do nosso pilriteiro à entrada da primavera. e por toda parte se encontra movimento e vida. nessa mesma zona. bebendo aguardente de cana. fei- jões e melancias. Vi também. favore- . que estavam na ocasião cobertos de frutos. vai. As es- tradas são dotadas cle numerosas vendas. Um céu brilhante embeleza o campo. seus tra- balhos e a vizinhança de uma grande capital. produzem na paisagem um efeito pitoresco. este não apresenta nem a monotonia das planícies nem o aspecto sombrio das regiões montanhosas. Como na Europa. Não há um campo nem uma plantação que não seja limitada por uma cerca alta. alguns campos de mandioca e muita hortaliça. tropas de bestas carregadas de mantimentos. e essas sebes são feitas. Todo mundo sabe que as hortaliças dão bem nas terras arenosas e é à sua cultura. De pe- quenas em pequenas distâncias avistam-se choupanas e casas de campo que.

vender seus produtos na cidade. os enviam aos pequenos por- tos. de que já falei. por conta do lavrador. se estendem à direita e à es- querda. Gonçalo. a maioria d | s s e s habi- tantes é proveniente de Açores. como disse. no centro da qual fica a igreja. Os lavradores que não vão. do Des- terro de Itambi e a de Bom Jesus de Paquetá. que os habitan- tes de Praia Grande mais se dedicam. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 249 cida ainda pela vizinhança da Capital. João Batista de Itaboraí. cujo proprietário re - cebe os produtos dos colonos. a léste pela de Maricá. a nor- deste pela de S. a oeste e a nordoeste pelas águas da baía. Gonçalo (9). Numerosas cape- (9) Erradamente escreveram S. A cerca de três léguas de Praia Grande. muito numerosos. nessa rua vêem-se muitas vendas e lojas bem sortidas (10). . Essa paróquia depende. (10) LUCCOCK louva muito a hospitalidade dos habitan- tes de S. isolada como o são geral- mente os templos. passei pelo arraial de S. situados à margem da baía. João de Cariri. As duas linhas de colinas. a barca chega cedo à praia de D. São Gonçalo é cabeça de uma paróquia criada em 1645 e que tinha então o nome de Igreja de Guaxin- diba. Êsse arraial apresenta uma larga rua. ao sul pela de S. onde existe um mercado. S. da justiça de Praia Grande. Manoel. Nesses portos há um armazém. A acreditar-se nele. Gonzales na Inglaterra e S Goiígalve» na Alemanha. mediante pe- quena retribuição. eles próprios. e os produtos aí são vendidos. Ela compreende 12 pequenas ilhas e é limitada ao norte pelas paróquias de N. todas as noites esse homem faz seguir uma barca para a cidade.

disseram-me que (11) FIZ. Mem. 7. notável por sua antiguidade. Mem.000 habitantes (12). S. mesmo consi- derando sómente os adultos no número que acfuí relembro. (14) PIZ. da Luz. III. Gonçalo. . na de S. mas apenas citarei uma." R c l * (vol. 21. acha-se que é tão deserta quanto o interior do Brasil. contavam-se em 1820. Gonçalo é i n f e l i z m e n t e muito obscuro. Gonçalo. entretanto penso que não pode haver erro muito s e n s í v e l n a s indicações q"e aqui dou. 367) sôbre a paróquia de Morrinhos.000^ adul- tos^ 790 fogos. (13) O que PIZARRO disse sôbre a e x t e n s ã o da paróquia de S. quando êste veiu. em 1560. ali comecei a ver algumas plantações de cana e. h i s t . A medida que se distancia da Capital ou dos por- tos que para ela conduzem.s e recorrer ao q u e escrevi em minha 1. (12) P o d e . III. com um diâmetro que não vai além de 5 a 6 léguas (13). haverá uma grande diferença entre a população d e s t a paróquia e a da paróquia de S. porquanto foi fundada por um dos colonos que acompanharam o Governador Mem de Sá. III..250 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE las estão disseminadas pelo território dessa paróquia. p á g s . demais. 5 distilarias de aguardente e 7 olarias (14).. a de N. além de S. Enquanto que em Minas há paróquias de 80 a 100 léguas de comprimento com apenas 11. logo que se penetra nas partes setentrionais da pro- víncia do Rio de J a n e i r o . e. Gonçalo as terras tornam-se melhores. e. 26 engenhos de açúcar. fundar um estabe- lecimento na baía do Rio de Janeiro (11). mas. segundo ê s s e Autor. A comparação que aca- bo de fazer aqui prova como os arredores da Capital são mais populosos que a província de Minas. 21. p á g s . as pequenas ^ culturas devem naturalmente diminuir. 23. 19. htet.

fundador da capitania de S. pois que. ^ c a r na pro- víncia do Rio de Janeiro deu lugar aos mais singulares erros. O milho. e. mas há uma vantagem que não se tem na província de Minas. o que prova como essa região quente. Êste cereal necessita de umidade para se desen- volver. e isso não se dá nas regiões planas e pouco elevadas. pode-se semear o milho no mes de (15) A história da introdução da cana de . baixa e úmida é mais favorável à cultura dessa gramínea que as regiões elevadas do interior de Minas Gerais. Garantiram- me também que. que tive ocasião de ver. vizinhas do Rio de Janeiro. era pequeno e raquítico. por conseguinte. Aqui. sob um clima muito quente. motivo pelo qual somente uma vez se pode colher suas sementes nos lugares onde há uma longa estação sêca. suponho que a terra não é aqui bastante rica para essa planta. Assim um compilador moderno escreveu 6 que a c a n a l e i a t a c a r havia sido plantada nessa província P ^ ^ ^ ^ A F o S s O DE apôs os desastres de S. uma alternativa continua de bom tempo e de chuvas deve n e c e s s a r i a m e n t e manter a vegetação em constante atividade. enfim. m<ub de duzentos anos antes dos desastres de S. D-omingne». a cana dura algumas vezes 12 anos e mesmo mais. nos terrenos mais adequados. fez conhecer a cana de a ^ c a r no BrasU ela foi introduzida no território do Rio de Janeiro ao tempo de MEM DE SÁ (e não Memdasa) que havia Bido n o ^ e a d o goveip nador geral da América portuguêsa no ano de 1557. em 1674. mais de cem anos antes desses m e s m o s desastre&% havia já cento e nove e n g e n h o s de açúcar no território do M o de Janeiro. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 251 há muitas outras nas vizinhanças (15). isto e. disseram-me. do outro lado das colinas que limitam a estrada. Gonçalo. e êle produz bem. po- de-se fazer duas colheitas do "trigo da Turquia" por ano. para plan- tá-lo são escolhidos os lugares mais sombrios. MARTIM AFONSO SOUZA. Vicente f o 1 aí pelo ano de 1531. D o m m g o s . . Também se cultiva o café nos arredores de S.

A uma légua do arraial de S. asseguraram-me que em muitos lu- gares a terra não tinha necessidade de repouso. e que é i g u a l m e n t e a empregada por CAZAL. Entre o Guaxindiba e o Cabeçú. porque Gua- xandiba.s e em o u t r o s a u t o r e s Guaxindiba.m e originar das p a l a - vras guaranis gua chá. chamado também rio de Alcântara. H á também na província de Porto S'eguro um rio Guaxindiba. parece m a i s e m conformidade com a pronúncia usada na região. Quanto a Guaxandiba.252 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Agosto para colhê-lo em Janeiro. (17) A o r t o g r a f i a que s i g o aqui. um dos numero- sos afluentes da baía do Rio de Janeiro. é p o s s i v e l m e n t e a reais antiga alteração das palavras primitivas. enfim um l u g a r chamado Guaxindiba ou Guaxin- daba acha-se frequentemente indicado na h i s t ó r i a da g u e r r a que os portugueses s u s t e n t a r a m nos começos do século X V I I contra os franceses estabelecidos no Maranhão- . Dizem que é muito piscoso e que os carangueijos que por êle sobem tornam-se maiores que os que perma- necem nas águas do mar. Nesta zona não vi. Guazintiba e Guajintibô. absolutamente. Gonçalo. aquele gran- de feto que em Minas se assenhoreia de vastos ter- renos . a Rei. encontram-se pés isolados de capim gordura (Tristegis glutinosa ou melhor Mdinis minutiflora)• mas não vi pastagens inteiramente formadas por essa gramínea (16). que foi adotada por PIZARRO. meninas. durante este último mês fazem-se novas semeaduras para colhêr em Ju- nho. bem como à (16) Vide o que escrevi a respeito do capim gordura. e n t r e t a n t o e n c o n t r a . em minha l. p a r e c e . de onde veiu Guaxindiba. A vegetação natural pareceu-me ser absolutamente a mesma das partes baixas dos arredores do Rio de Janeiro. As palavras GnarJntiba e Guajintibô não são exatas. e. reunião (reunião de meninas). parei em uma venda construída próximo do rio Guaxindiba (17). que fica a 3 lé- guas. à direita. a região é ondulada. Guaxandiba. e tiba. Êsse rio tem pouca largura e seu curso é de menos de 3 léguas.

vêem-se ainda colinas.) . até à Venda da Mata. p r o p r i a m e n t e dito. outrora. vi três importantes engenhos de açúcar. mas ainda nas três léguas que fiz para ir de Guaxindiba a Ca- beçú. arroz. mandioca. e reconhece-se pelo pouco vigor das maiores árvores. alegre e animado por todos os lados. bonito e continua a ser perfeitamente uniforme em um espaço de cerca de 10 léguas. outro chamado Mestre de Campo e o terceiro pouco distante de Cabeçú. apresenta uma alter- nativa de tufos de árvores. pastagens. mas atualmente não se vê nenhum resto delas. Não somente o caminho é por tóda a parte dotado de vendas. não somente choupanas e casas maiores são esparsas aqui e acolá. Demais não é para se admirar seja esta região tão povoada. é plano. que elas substi- tuem a outras. o toucinho . Quanto ao caminho. O campo. largo. pois que é vizinha da capital do Império e começou a ser habitada por eu- r o p e u s há quase três séculos. A zona de Cabeçú produz não somente açúcar. Assim. É evidente que esta região foi. uma galinha se vendia por duas patacas (4 fr. feijão e mesmo um pouco de algodão. porquanto esta fica próximo e os cultivadores teem grande facilidade em transportar os produtos de suas terras. Entretanto. terrenos culti- vados e principalmente plantações de cana de açúcar. e que tem êsse nome. mas ainda café. apesar da região ser muito cultivada os víveres são aí tão caros quanto na cidade. as terras que se não acham cultivadas f o r a m entretanto devastadas um dia. um a pouca distância de Guaxindiba. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 253 e s q u e r d a . ao tempo de minha viagem. coberta de matas virgens.

e x p r e s s a a l i á s c o m dúvidas. Uma tal opinião. e. que • . Como as distâncias aqui são muito pequenas os animais empregados são de preferência os menores e os mais fracos. parece le- vado a crer que foi da palavra maricá que derivou A m é r i c a . 254 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE valia 120 réis a libra (75 cents. Os m a r a c á s eram para os Tupinambás uma espécie de fetiche. Iene: suar. tão bem organizadas. f r e q u e n t e m e n t e vêem-se êsses pobres animais galopar com seus sacos batendo-lhes nos flancos. 212 bis).1 relata vários desses fatos. Quando se quer usá-los lança-se sobre seu lombo um pedaço I de pano e por cima'uma albarda grosseira à qual de- penduram. oco e cheio ac t ÉS sementes chamava-se também maracá. e. O f r u t o da paasiflorn. segundo o padre ANTÔNIO RUIZ D E MONTOU A (Tes. nome que êsse f r u t o tem a i n d a brasileiros-portuguêses e que. (18) E' preciso não esquecer que à época em que f a l o tudo se vendia ainda em prata. Um escritor inglês. m u t i l a d o sem dúvida por PISOJN 11 e MARCGRAFF. de Saqtiarema e de outras aldeias distantes algumas léguas e que iam levar os diversos produtos da região a Praia Grande ou aos portos vizinhos. que são o veículo do comércio de Minas. à direita e à esquerda. donde v e m c e r t a m e n t e I a palavra maracujá. Entre Guaxindiba e Cabeçú vi um grande núme- ro de tropas que vinham da cidade de Maricá (19). a dúzia (18).) e os ovos 1 fr. mas de modo diferente. êles terminaram por chamar todos os instrumentos mbaraeá. e fl que VESPÚCIO tomou o nome de Américo como SCIPIÃO o de Africano. . W' (19) Maricá vem e v i d e n t e m e n t e da p a l a v r a indígena II mb ara cã ou ínaraeá que s i g n i f i c a uma bolsa cheia de sementes Os antigos índios empregavam e s s a s bolsas como i n s t r " ^ í ? Í ? A 3 de música. e muito fantasiosa para merecer qualquer exame. Os negros condutores de animais não possuem nenhuma idéia sobre o modo de tratá-los. tornou-se para os botânicos o de um gênero das Passifloráceas — Murucuia. Far-se-á uma idéia bem falsa se se lhes aplicar o que eu já disse a respeito das caravanas. s a c o s de couro cru contendo os mantimentos que enviam à cidade.

ê mais exato quando diz que essas P ^ j r a s s i g n m eam. estabe- lecem e que se faz o transporte das mercadorias. apesar de ^ d í g e n a . Inclino-me todavia mais por e s t a última etimologia que pela primeira. Contudo as lojas não teem teto. m a s devo dfzer que PIZARRO e s c r e v e u o r a Cabaçü. aqui e ali são colocados. tão comuns na es- trada de Minas Gerais à Capital. cabaçfi. grandes caixas conteem farinha e milho. E s s a s dua «etimologias podem ser Je fieiras. porque cabaçfi na língua geral quer dizer. é por mar que as comunicações se. atendo & região. e de outro lado ê possível também que C a b e ç ú ou Chboçft veem de ena f l o r e s t a e ç« ou s u a ç ü . O reduzido nú- mero de viajantes isolados que. de longe em longe. antes da chegada dos europeus. como nas mar- eens do Guaxindiba. entre- tanto são mais limpas e melhor cuidadas. desordenadamente. deriva evidentemente de cabaça. garrafas de aguardente de cana (cachaça) são arrumadas em prateleiras ao redor do salão. por c o n s e g u i n t e não se encontram em parte nenhuma e s s e s "pavilhões chamados ranchos. Entre o Rio de Janeiro e a embocadura do rio Doce. p e r c o r r e m a costa. chama-o erradamente c a b e » « e Cabasfi. e que servem de abri- go aos tropeiros e às suas bagagens. a u m e n t a t i v o . Êsse Autor aplica ê s s e s nomes ao Pequeno rio Que sem dúvida emprestou-os ao distrito em que c o r r * LUCCUCJ^ que percorreu o mesmo distrito. que é portugues e é inals admissível que em uma região onde havia outrora tantos índios. . foi em uma venda que pernoitei. de que originou bussfi por corrupção. f l o r e s t a de grandes ârvore^s o a baça. nunca se viaja em c a r a v a n a . êles hajam dado um nome ao rio em questão. na l í n g u a dos índios. param nas vendas e nas habitações situadas a alguma distância da estrada. o toucinho e (20) Adotando essa grafia. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 255 No lugar chamado Cabeçú (20). As vendas dos arredores do Rio de Janeiro dife- rem pouco das tavernas da província de Minas. ora Cabeçú. como no sul do Brasil entre Guaratuba e Laguna e p r o v a v e l m e n t e em todo o litoral.

abrindo para a varanda. pela vanta- gem de se poder partir à hora em que se entender. e o viajante pode aí deixar seus cavalos e bestas de carga. muito estreito e sem nenhuma comunicação com o interior da casa. ao contrário. De cada venda depende um pasto fechado. deixam-se os cavalos e burros errar pelos campos em tôda liberdade. creio. para formar uma espécie de ga- leria (•varanda). onde as terras devem ter mais valor. As vendas em que pernoitei em Cabeçú.) por animal e por noite. mediante uma retribuição que não vai além de 20 réis (12 c. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE outros comestíveis. que ficam sempre em pé. na largura da galeria. Um aumento de despesa tão in- significante é amplamente compensado. se estende de uma parede a outra e serve de mesa aos bebedores de cachaça. Aqui. que é pouco cultivada. . muito mais frequentes que em Mi- nas. Do lado. Na província de Minas. é nesse lugar obscuro que se aloja o viajante. há o cuidado de cercar as pastagens. acha- se um pequeno cômodo sem janelas. na fazenda do padre Manoel e na Mata e quase todas que vi em grande número entre este último lugar e Praia Grande teem um telheiro que se projeta além das paredes da casa. onde as pastagens não são muito eixtensas e onde os roubos são. e em tôda a costa até ao rio Doce. enfim um grande balcão paralelo à porta. e que quase por tôda parte oferece imensas pastagens. porquanto não se fica na dependência dos animais e de seus condutores.

após muito procurar encontra um novo tropeiro e volta a Cabeçú. quais as causas. CAPÍTULO XIV CONTRARIEDADES CAUSADAS POR UM TRO- PEIRO. O bom Zamore. Venda da Mata. naturalmente muito preguiço- so. Cêrcas de laranjeiras. com moderação. O Autor chega às margens da lagoa de Saquarema. menos capaz de ajudar a um tropeiro que . mas disse-me que. Procurou então conciliar a situação. — O AUTOR VOLTA AO RIO DE JANEI- RO. e enfim anunciou-me que ia me deixar. não me pediu dinheiro. Êle é quase engajnado por um ladrão. Re- provei. Pretendia que. Engenhos de açúcar. — Região situada entre êsse lugar e a fazenda do padre Manoel. Re- trato dos brancos residentes nesta zona. Reflexões sobre os inconvenientes de ser servido por homens livres em país onde se admite a escravidão. — O Auior volta ao Rio de Janeiro. apesar de não saber o fran- cês. havia ainda sido prejudicado por seu dono e era. sua conduta para comigo. quando o tro- peiro José veiu anunciar-me que tinha algo a comuni- car-me. queixou-se também de Za- more. êle permaneceria a meu ser- viço. — DESCRIÇÃO DA REGIÃO SITUADA ENTRE CABEÇÚ E O LAGO DE SAQUAREMA O Autor é abandonado por seu tropeiro . Influên cia do clima sobre nossa raça. confesso. se eu lhe permitisse bater em Zamore. à vontade. — Descrição dos cam- pos vizinhos. Preparava-me para deixar Cabeçú. havia percebido que eu falara mal dele com o meu doméstico P r é g e n t .

sem cerimônia. Isso não era.s e um tropeiro fizera com que eu admitisse êsse homem. é c o t i d i a n a m e n t e obrigado a tornar-se escravo dos ho- mens livres que emprega e paga. sem quem p u d e s s e delas cuidar e conduzi-las. em uma cafeteira de que me ser- via' c o n s t a n t e m e n t e . por sua côr pertence à casta dos escravos se decide a descer a um serviço doméstico. todavia. uma ra- zão para e n t r e g á .m rude. em M i n a s . o homem livre tem f r e q u e n t e m e n t e uma falsa idéia d a liberdade. Tomei então a r e s o l u ç ã o de perguntar pelas vizinhanças se não c o n h e c i a m al- gum tropeiro que me quizesse acompanhar em minha .l o à brutalidade de um home. com uma tropa de bêstas. é verdade que havia comunicado a Prégent o receio que eu tinha de contrair a moléstia a que me referi há pouco. êle crê amenizar essa humi- lhação por meio de bizarra s u s c e t i b i l i d a d e . e logo depois mandei lavar a cafe- teira José tinha ainda contra mim uma queixa nao menos grave. porquanto ele era portador de moléstia de pele. mas. Em uni país onde a escravidão é permitida. Achava-me a dois dias do Rio de Janeiro. e a q u e l e que tem a delicadeza de nunca se servir de e s c r a v o s . acom- panham as caravanas. não l h e fiz nenhuma censura. que um médico me dissera ser contagiosa e difícil de curar. ^ De qualquer modo a saída de José pôs-me em grande embaraço.258 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE esses meninos de 10 a 12 anos que. José não partiu sem me explicar qual fora o mal que eu dissera dêle. Aliás somente a dificuldade em a r r a n j a r . e quando um homem livre que. eu lhe dirigia a palavra sem chamá-lo senhor! A admissão da escravatura torna o trabalho deshonroso. e p o r c o n s e q u ê n c i a era preciso decidir pela recusa a Uma tal proposta. Eu o havia visto be- ber.

gênero de ação na verdade muito comum neste país. para a remessa de merca- dorias outros condutores além de negros sem nenhu- ma experiência do trabalho com animais de carga. porquanto não se faz na região viagem mais longa que a da Capital. que provavelmen- te me seria útil.ã o em minha 3.» Rei. Tomei então a resolução de não continuar a procurar um tropeiro no distrito em que me achava. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E L I T O R A L 259 viagem. Paulo. não passando de um clêsses homens chamados peão. dizendo-me que eu podia bater-lhe quanto quizesse. ainda inédita. i 8 jppljjl . cuja habilidade consis- te em lançar o laço e domesticar cavalos e bestas de carga (1). a criação e comércio de animais de sela e de carga. O dono da casa tendo tomado conhecimento de minha portaria. Todo mundo era acorde em assegurar-me que não conseguiria nenhum tropeiro nos arredores de Cabeçú. Quando ia montar a cavalo apareceu-me o bom Zamore. recebeu-me com extrema polidez e disse-me que a duas léguas de sua casa havia numa habitação um tropeiro de S. e x - plicações d e t a l h a d a s sôbre os i»e5es. não havendo. e resolvi partir no no dia seguinte para o Rio de Janeiro dei- xando em Cabeçú meus empregados e minha bagagem. e fui ter a um engenho de açúcar pouco dis- tante de Cabeçú.. Todavia não tardei em ser informa- do que o pretendido tropeiro era desses que não sabem carregar e ferrar os animais.s e . Disseram-me também que êsse paulista viera de entrar a serviço de um negociante de cavalos e que eu não poderia tê-lo a meu serviço sem preju- dicar a seu patrão. mas que um homem educado não praticará em parte nenhuma. mas que êle estava resolvido a voltar à ci- (1) E n c o n t r a r .

II. a pala- vra mais geralmente adotada pelos d e s c e n d e n t e s de^portugueses.). Lá deixei meu cavalo em casa do francês de que já falei. RUIZ D E MONTOYA Tes. VII. O que é muito i n t e r e s s a n t e ê que o termo karatas que tem evidentemente a mesma o r i g e m que caraguata ô observado nas Antilhas para plantas a n á l o g a s . ao seu tempo. digo eu. m a s s e g u n d o o que di® MANOEL DE ARRUDA CÂMARA. Gravatá ê creio. guar. — Ntniveau Voyage etc. temendo que êle fugisse. mas e s s a palavra. como se pode ver nos escritos" do P. O caraguatâ guaçfi d e M A R C G R A F F (caroatá açft de A R R U D A . Minha paciência esgo- tou-se. e ao qual se deve um tratado sobre as que produzem fibra (Dissertação sObve as plantas do Brasil que podem dar linhos. que acredita ser raridade. Contornei a margem desta última. confesso. . Do- (2) A s s i m são chamadas as B r o m e l i á c e a s de l o n g a s fo*has lineares e espinhosas nas margens. e t c . q u e nao e uma corrupção devida aos portugueses. . que são evidentemente a l t e r a ç õ s p o r t u g u ê s a s ae caroá. e. fi-lo caminhar à minha frente até Praia Grande. algumas bofetadas no Zamore. A cidade de Praia Grande situa-se. pita de todo o Brasil meridional) p a r e c e . como já disse. construido à entrada da enseada sobre a ponta que se estende para além da Praia de S. mas que pertence ao dialeto conhecido pelo nome de tupi ou língua geral. Rio de Janeiro.m e ser a Agave vivi™ para de LINNEU. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE dade porque eu devia ir muito longe e os caminhos estavam cheios de espinhos. e embarquei para o Rio de Janeiro. sob o nome de B r o m e i s variegata e o crauatá de rede s o b o n o m e d e Bromelia sagenaria. a palavra caraguatá era usada em Pernambuco. I s s o prova como era disseminada a língua guarani. 130. sobre a qual se vê a bela aldeia de S. D U T E R T R E (Hist. ARRUDA. passei diante do forte de Gravatá ou Ca rauatá (2). nessa província foi substi- tuída a palavra caraguatft pelo vocábulo carcá. vem evi- dentemente do guarani earaguaíá que se aplica ao mesmo tempo ao fruto do ananás e às folhas dessa planta própria« p a i a a indústria têxtil (A.. Domingos. nas partes do Brasil que percorri. descreve o caroá ou erauá de Per- nambuco. Parece também que se serve atualmente em Pernambuco das palavras erauata e erautft. Ani. 385). ao fundo de pequena enseada. LABAT e do P. que merece os m a i o r e s e l o g i o s por se tei ocupado da utilidade das plantas brasileiras. 1810). dei. As obras de PISON e MARCGRAPP provam que. ARRUDA.

O homem de confiança desse último assegu- rou-me que o paulista havia roubado uma tropa de bestas e uma soma em dinheiro. pela manhã. induziram-me a não tomá-lo a meu serviço e indica- ram-me para informações mais detalhadas. confesso. minha conhecida. esperando sem dúvida que em sua presença não ou- sariam falar mal a seu respeito.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 261 mingos. sem mesmo ter o cuidado de trocar de nome e de roupas. trazendo um paulista cujo semblante e modos agradaram-me extremamente. enfim achei-me na parte central da baía que separa o Rio de Janeiro da costa oposta. . indicou-me uma pessoa distinta em casa da qual eu poderia obter informações a seu respeito. Chegámos. e o meu primeiro cuidado foi entregar Zamore ao seu dono. o bispo de Goiaz. É preciso haver muito pouca polí- cia em um país onde um homem acusado e conhecido como ladrão. desarmando assim sua manobra. Êle quis entrar comigo. felizmente. pedi-lhe que me esperasse na porta. O do- méstico regressou logo. mas. no dia seguinte. que ficou surpresa ao me ver e mandou imediatamente seu doméstico ao albergue vizinho para saber se aí não se encontraria algum tropeiro desempregado. deixar de me afligir. O vento es- tava extremamente forte e o mar agitado. Disseram-me que o paulista era um mau indivíduo. possa mostrar-se impunemente. veiu procurar-me para condu- zir-me à casa dessa pessoa. e acrescentou que esse cidadão estava sendo procurado pelas autorida- des de sua terra. Dirigi-me em se- guida à casa de uma senhora. Êssc homem pediu-me um ordenado muito modesto. e. as ondas levantavam nossa frágil embarcação que caía depois violentamente e eu não pude.

entretanto. ele es- pera em sua casa os mineiros e os paulistas que veeni comprar suas mercadorias. são substituídas pelos en- (3) O titulo de padre se dá em p o r t u g u ê s aos seculares e o de frei aos religiosos. Êle apresenta uma alterna- tiva de colinas e vales. enfim alguns tufos de mata vir- gem. mas eles não puderam descobrir nenhum. o ha- bitante do Rio de Janeiro só viaja embarcado. Mas. Como já se vai distanciando do Rio de Janeiro. o aspecto do campo continúa a ser extremamente agradável. continuei minhas pesquisas. já se não vêem mais tantas laranjeiras nem plantas hortícolas e as pequenas casas de campo tão comuns nas pro- ximidades de Praia Grande. permitem comparar as belezas da vegetação primitiva com as oriundas do cultivo e da presença do homem. Após algumas hesitações esse homem decidiu-se a entrar a meu serviço. Por c o n s e g u i n t e não se deve. Como não se encontram bons tropeiros senão entre o povo de Minas. de matas.262 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE Livre desse homem. pastagens e vastas plantações de cana. percorri todas as hospedarias. Entre esse lugar e o sítio chamado "fazenda pa- dre Manoel (3). apressei- me a partir e logo cheguei a Cabeçú. que se percebem cie longe em longe. traduzir padre em f r a n c ê s pela palavra pêre e nem em alemão por pater. Parecerá extraordinário que em uma região onde somente se viaja a cavalo. bondosos mineiros anunciaram-me que haviam encontrado um homem que me podia servir. como tem sido feito. inutilmente. . e estes regressam com os empregados que haviam trazido. seja tão difícil encontrar um tropeiro. Um dia depois. dirigi-me aos mineiros de meu conhe- cimento que se achavam 110 Rio de Janeiro.

pois que os relvados nascem somente nos lugares em que os homens pisam sem cessar e onde pascentam o gado. Ao redor da casa do dono. Diante da r a s a estendem-se imensos relvados uniformes. Além das plan- tações de cana. creio. . quase sempre sem ordem as usinas e as casas dos negros. geralmente caiada e construída com algum cuidado. abster de tirar daí a l g informação. a„ M 4 W E c h a m a Porto (4) E' êsse porto que o the Interior of tio Caxlies. e acontece que às vezes falsas especulações dos compradores ta- zem com que os p r o d u t o s tenham aí preços mais ele- vados que no Rio de Janeiro. e. A maioria dos cultivadores fazem suas remessas poi conta própria. u m a e ESCHWEGE já f i z e r a m a respeito uma crítica justa. construídas em terra batida e cobertas de capim. t A . contudo eles são numerosos. Êstes não podem ser tão frequentes quanto às pequenas fazendas onde se dedicam às pe- quenas lavouras. si- tuado na baía do Rio de Janeiro (4). outros vendem suas mercadorias a ne- gociantes que as veem procurar no local. de lon°'e os distinguimos sem dificuldade devido ao gran- de número de construções de que se compõem. Da fazenda do padre Manoel e de todas as dos arredores. são dispostas. vi ainda outras de mandioca e de mi- lho porém em menor número. Neste distrito a cana de açúcar dura dois ou tres anos. que in- dicam que a região é de há muito habitada. . Entre as canas plan- tam frequentemente feijão e milho. de onde os pro- dutos são embarcados para o Rio de Janeiro. de que fazem su- c e s s i v a s "colheitas. O livro d ê s s e escritor ( T i a v e i s m i eeôgra- Brazil) é de tal modo cheio de cousas e r r a l a s que os g e o | f os devem. os produtos das lavouras sao remetidos ao pequeno porto chamado Das Caixas. segundo a natureza do terreno. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 263 eenhos de cana.

e apresenta uma alternativa de derrubadas. 14. Mem. 0 espaço de terreno cercado é desigual. ele ainda apresen- tava sinais das chuvas abundantes que haviam caído há algum tempo. protegido dos raios solares. sôbre uma eminência. em um imenso cercado pertencente à fazenda do padre Manoel. Antônio de Sá. fica em frente à venda. fica situada a sete l é g u a s e meia ao nordeste da Capital do Brasil. a região mais cheia de matas. Há aí uma vasta área cercada onde se encontram vá- (5) A pequena vila de S. que. — P I Z . II. e ao lado. há uma capela junto a uma árvore copada. quebrada apenas pelo chilrear de alguns passarinhos e pelo canto cadenciado dos negros que trabalhavam no engenho. Pouco a pouco o campo tornou-se menos alegre. à. mais conhecida sob o nome de Macacú (e não Maccacú como escreveu MAWE). Ao sair dessa mata entrei em uma região desco- berta e cheguei ao lugar chamado Rio Seco. margem esquerda do rio Macacú. I. e as bestas de carga aí enterravam as pernas até ao meio em uma lama negra e pegajosa. entrei em uma mata virgem. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE A venda onde pernoitei no dia em que deixei Ca- beçú fica situada sôbre uma elevação. Uma colina muito elevada. depende da justiça de Macacú (5). Ao pé desta estão os edifícios do engenho de açúcar. as coli- nas menos baixas e mais aproximadas. . Bina. Além da fazenda do padre Manoel não encontrei mais tanta gente e as habitações pareceram-me me- nos numerosas. como seus arredores. bosques e pastagens. 32. o mais considerável do quantos se lançam na baía do Rio de Janeiro (CAZ. A mais profunda calma reinava nesta bela paisagem. O caminho era aí plano como o que eu havia seguido desde Praia Grande. Corog. 196). hist. por árvores copadas. coroada por um tufo de mata virgem.

sem pausa. falam todos ao mesmo tempo. o produto dos roubos que fazem^aos seus donos. paralelamente ao caminho e forma uma pequena cascata cujo ruído se ouve de muito longe (6). Alojei-me em Mata em um pequeno cubículo es- curo. desejando à dona da casa que achas- se uma hospitalidade mais amável se algum dia tives- se de empreender um viagem. Aqui é ainda a cana o objeto de principal cultivo. Êles para aí levam como já disse.) a arroba. . destinado aos viajantes. prolongam suas estranhas palestras noite a dentro. Pedi permissão para pousar em uma dessas casas. chamado rio da Mata. sempre em pé. bebendo esquecem sua triste condição. lugares de gôzo. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 265 rias casas esparsas aqui e acolá e um engenho de cana. Os colonos que não teem escravos suficientes para manter planta- ções de cana. o feijão (6) Foi nas f l o r e s t a s virgens vizinhas de Mata que en- contrei a Mimosácea de 5 pistilos de que o Sr. e. D E CÂNDOLE fala em seus escritos e que tâo bem confirma suas belas teorias sôbre a organização da flor. uma meia dúzia de negros rodeavam-me e interrom- piam-me continuamente. defronte do qual se estende imenso relvado. corre no meio das árvores. Um regato. como crianças. para esses infelizes. à época de minha viagem o açúcar branco era ven- dido a 8 patacas (16 fr. Para ir de Rio Seco à Venda da Mata. limitam-se a cultivar o milho. sempre em movimento. e que fica a uma meia légua. e. As vendas são. Enquanto trabalhava. mas percebi que não havia grande interesse em receber-me e continuei minha caminhada. ela não me foi inteiramente recusada. atravessei espessa flo- resta. aonde parei.

situado. consideráveis. que se perde. Não se lhes dedica nenhum cuidado. encontram-se rebanhos de bovinos. como dos a r r e d o r e s da fazenda do padre Manoel. Exige-se em s e g u i d a . FREYCINET o alqueire do Rio de Ja neiro equivale a 40 litros. 160 réis (1 fr. Êsse fato demonstra a apatia reinante entre os habitantes desta região. Nos campos que percorri durante muitos dias. é or- dinariamente nas faldas das montanhas que se fazem as plantações de cafeeiros. e creio que as pastagens teem capaci- dade para muito mais. Neste lugar o milho não é transforma- do em farinha. mas ga- rantiram-me a existência de cafezais em lugares um pouco afastados do caminho e mais sombrios. e. o cereal é dado aos animais domésti- cos ou vendido no Rio de Janeiro. Sem ser de boa raça. não há mesmo o de cortar-lhe a lã.) pelo transporte de cada saco pelas pe- (3) Segundo o Sr. há cerca de 7 léguas e é de 40 francos o frete de um carro que carrega vinte sacos de açucat de quatro alqueires cada ( 7 ) .266 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE e a mandioca. em todo o litoral do Brasil. à época de minha viagem o café era vendido na zona por^8 a 9 patacas a arroba. De Cabeçú a Mata não vi nenhuma plantação de cafeeiros. na baía. ou em carros puxados por bois. as vacas produziam até 4 garrafas de leite por dia. as mercadorias destina- das ao Rio de Janeiro são embarcadas no Porto das Caixas. De Mata ao Porto das Caixas. O transporte para aí se faz em lombo de burro em sacos de couro. creio. e mais longe ainda. c o r n o disse. Vi igual- mente nesta região um grande número de^ carneiros. Desta aldeia até Rio Doce. De todo o distrito de Mata. . so- mente é usada a farinha de mandioca.

Após haver passado diante de uma soberba plan- tação de cafeeiros que se desenvolve na falda da mon- tanha. mas. em trechos consideráveis apre- (8) Devo confessar que tenho algumas dúvidas sôbre a exatidão dêsse vocábulo. derru- badas e belos gramados. Gramíneas. Arvores copadas e de um verde sombrio for- mam uma abobada magnífica acima da. para alem dessa estende-se imensa planície. Entra-se em seguida em uma floresta virgem e sobe- SP a uma montanha chamada serra A 9 de Tinguí f • (8). e. existe uma floresta considerável. guarnecida à direita e à esquerda por montanhas e colinas. determina o horizonte. Para além de Mata a região continua a ser cober - ta de matas. ao longe. respira-se. \ t fque p r o v a v e l m e n t e se liga à grande cadeia marítima. tornando-se mais montanhosa. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 267 quenas embarcações que vão do Porto das Caixas ao Rio de Janeiro. cabeça do via- jante.aqui a mais agradável frescura. e depara-se magnífica vista. Numerosos fetos. Ao começar a descida da montanha sai-se da flo- resta. Ao pé mesmo da serra. Nessa planície o caminho e largo e uniforme. e. entrei na planície de que venho de falar onde se vêem ao mesmo tempo terrenos cultivados. onde foram derrubadas as matas. musgos. Ai e o leito de um regato pouco profundo que serve de ca- minho. o olhar perde-se sôbre o vasto lago de Saquarema. Comelináceas e Acantáceas formam dos dois lados do regato uma cobertura desigual. enquanto noutros lugares o calor é excessivo. . O cami- nho sobe durante algum tempo acima de um vale es traito e profundo. que. que somente vê o azul do céu em pequenas cla- reiras aí existentes.

e. pedi permissão para aí pousar. Passej_em seguida por outras elevações. com esse ar de in- dolência e frieza que tem quase tôda a gente dessa região. indicativo da vizinhança do mar. Nesta região serve-se da laranjeira espinhosa para fazer cercas. Apresentando-me em uma venda. semelhante. nova. Pedi inutil- mente outro quarto. Êsse homem respondeu- me com muita delicadeza que ia levar-me à casa de um de seus parentes. subi ainda uma montanha. mas esse gênero de sebe não é tão agra- dável como se possa imaginar na Europa. para além da igreja do mesmo nome. Não sabendo o que fazer tive a idéa de me dirigir a um cidadão que pas- sava no momento. na cor. devido unicamente à estagnação das águas pluviais. perguntando-lhe se era possível ar- ranjar-me um alojamento. O dono da casa. no declive das quais vi plantações de café muito regulares e vigoro- sas. Meus animais caminha- vam com dificuldade nesses imensos lamaçais. e. . Após haver atravessado a planície de que venho de falar. quase negra. zanguei-me. mostrou-me um pequeno gabinete escuro onde já se achava alojado um viajante doente. e logo chegámos a uma pequena casa. do outro lado encontrei areias. que se estende ao longe. apenas pa- receu que o homem me entendia. O verde escuro e brilhante das folhas da laranjeira tem qual- quer cousa de triste e elas formam uma massa muito compacta. roguei. e cheguei enfim às margens da lagoa de Saqua- rema. onde me foi dada permissão para pernoitar.268 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE senta uma lama pegajosa. à das ruas de Paris. comple- tamente sem escoamento.

êles parecem tristes. peça a um negro indicações so- bre o que deveis seguir. construídas de pau a p i q u e . talvez tivesse visto um numero dc brancos ainda mais considerável Êstes últimos een todos uma côr morena ou amarelo pálida. A região é cortada por g r a n J . Os brancos de que fa o aqui te em o cuidado de saudar a todos que encontram. e ele nada respondera. Não encontrei. se entre eles eu vi a muitos mulatos. havia visto mesmo somente indivíduos de uma classe inferior ou se tanto. sabe-se somente que se poderá percoirer o caminho em tantas horas. indiferentes a tudo. Nin- guém saberá informar quantas léguas ha de tai sitio a tal outro. como as de Minas E n t r e t a n t o um grande numero dos que ha- b i t a m essas tristes palhoças são homens brancos. peça a a um branco e ele responderá confusamente. Depois de deixar o Rio de Janeiro quase nunca estive em presença de proprietários ricos. A vizinhança de uma capital onde as classes inferiores apenas adquiriram . 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 269 À exceção de dois ou três engenhos de açúcar. indo- lentes e estúpidos. frios. nada que lembrasse a raça americana. mas é talvez apenas a isso que se limita sua polidez. tamue vislumbrei nenhum sinal que carateizasse a raça ne- gara . já bem diferentes das casas de campo existentes nas proximidades d o Rio de Taneiro não passavam de míseras choupanas meio a r r u i n a d a s . e cada um toma por me- dida a velocidade de seu cavalo. essa^casa era a mais agradável de quantas eu vira no ( ipcorrer do dia. mas. As outras. número de caminhos. olhos e ca belos negros. entretanto não posso deixar de crer que alguns dos ancestrais de vários desses homens se haviam li- gado a mulheres africanas. de classe média. em suas fisionomia.

e o Sr. mas. onde as comunicações se renovam sem cessar essas últimas influências sâo continuamente modifi- cadas. onde essas mesmas influências podem ainda exercer sua força quase inteira. . acredito ter notado que em geral a inteligência dos habitantes estava em correlação com a elevação do solo. nas regiões que percorri durante minhas viagens. e sua apatia e estupidez teern por causa o clima excessivamente quente e úmido. Na Europa. explica bem a grosseria de costumes reinante nos habitantes dos campos dos arredores.270 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE um fraquíssimo grau de civilização. PIUMBOLDT fez uma observação semelhante para as partes da América que êle visitou.

— O Ãutor deixa as margens do lago de Saquarema. Forçado pela moléstia de um dos meus animais. C A P Í T U L O XV OS LAGOS DE SAQUAREMA E ARARUAMA. Nessas cercas cresce abundantemente uma bela Composta que se prende aos objetos próximos por meio de suas gavinhas e se assemelha. e para herbo- rizar na faixa de terra que separa o lago do oceano. a passar o dia em casa do homem que me alojara pró- ximo do lago de Saquarema. Cultura. Saindo de casa de meu hospedeiro. retrato das mulheres que as habitam. Descrição do lago de saquarema e da faixa de terra que o separa do mar. — O Autor chega à aldeia de S. segui entre duas cercas um caminho estreito e sombrio. anil. As choupanas aí construídas. Vegetação natural. — Descrição do lago. Recepção feita ao Ãutor. — Venda de Iguaba Grande. — Paróquia do mesmo nome. Sua igreja. Modo de fazer es- teiras. pelo porte. — COMPARAÇÃO DOS INDÍGENAS DO BRASIL COM OS CHINESES. de Ararua- ma. Salinas. — Fazenda do capitão-mor. — Arraial de Mataruna. aproveitei essa estada para ir visitar a aldeia do mesmo nome. — Comparação dos mongóis e em particular dos chineses com os in- dígenas do Brasil. — Agricul- tura. Vegetação dessa faixa. — Comunicação do lago de Saquarema com o mar. Pedro. — Arraial de Saquarema. Ocupações dos habitantes de Saquarema 1 a que raça pertencem esses habitantes. à nossa Vicia sepium (Mu- .

c o L o ^ r P v o v f ' ™ S a q u é m a r a . mas compreende ainda outros. de largura. O lago de Saquarema íl) muito irregular. r p a l a v r a s ZiIZZ ^a U a^a Saquarema vem talvez das a e r a m a ê d e s i 4 a c ã o dn Í L . 272 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE tisia speciosa Hook). o lago de Saqua- rema nao é formado somente dos dois lagos de que venho de falar. e logo cheguei junto do lago Nas vésperas. do lado de leste. a en- . tem 3 ou 4 ls. quer dizer bem ao lae-n 7 1 ' n o m e q u e s e a d a p t a muito chentes coSílderAvete. por 3/4 1. sem dúvida porque é vizinho da barra de Saquarema. £>nde o r f A n ô u I T n ° A s s i m caquaá . pensei que tôda a sua extensão se limitava ao espaço compreendido entre o lugar em que me achava e a paróquia d e Saquarema. Passei diante de montes <u cascas de ostras e caramujos. comunica-se com o Cacimba por um canal chamado Boqueirão do Girau. arrecadadas da nm ~ para o fabrico de cal. recebeu o nome de Cacimba. ' 8Ujelto ' S e g u n d o PIZARRO. nas pro- ximidades das montanhas altas e pitorescas na es- pécie de cabo ou ponta chamada Ponta Negra e s- compõe de duas partes principais. ele começa do lado oeste. n e m Seqaare- passa Quanto a u t o r e s . ° °l mt ° o u temp ° ' » » « » « r e m a . de comprimento. Uin que se chama Lagoa da Barra. mas isso não é exato.Que a u m l n ? a r f a ™u m e' . * a r r a > e a o u t r a que se estende até à igreja paro- quial de Saquarema. Se- gundo o que me disseram no local. S a s o a i e m a ne ma.A ú l t i m a dessas palavras rama. ou se se quizer d- dois verdadeiros lagos que se comunicam entre si por meio de um canal natural muito estreito que se chama Boqueirão do Engenho. A parte mais ocidental a que começa na Ponta Negra. tem o nome de Lagoa . quando ao fim do dia cheguei à margem do lago.

ou a l g u m a a Palavra a n á l o g a do dialeto tupi. é preciso pagar também à razão de vintém cada. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 273 o outro que se comunica com a Lagoa da Barra pelo Boqueirão de S. — D e v e t r a t a r . chegando às margens do lago não vi outras espécies que as que vegetam nos arredores do lago de Freitas (3). O ca- minho que se segue nessa faixa de terra. ora margeia o lago. Os cavalos e burros atraves- sam o canal a nado. w ) N . vizinho da Capital. a palavra outr g u a r a n i U r n s s a n g a y . e.s e da Lagoa R o d r i g o de Freitas. ora dele se afasta. que fica escondido por arbustos e brenhas. mas se da canoa a gente os se- gura pelas redeas. Um negro que morava do outro lado veiu buscar-me em uma canoa. Em parte nenhuma se avista o mar. o solo não apresenta senão um areia! quase puro (2) R u s s a n g a p r o v a v e l m e n t e substituiu. mas em tôda parte se ouve o rugir das vagas que veern quebrar sobre as praias. uma vegetação inteiramente nova ofereceu- se aos meus olhos. A faixa de terra (restinga) que separa a Cacimba do Oceano pode ter o comprimento de uma meia lé- gua. tem o nome de Russanga (2). Entre Praia Grande e Saquarema somente en- contrei plantas das existentes nos arredores do Rio de Janeiro. com o tempo. para chegar à igreja paroquial de Saquarema. T. Paga-se pela passagem um vintém por pessoa. José. "rio da g a l i n h a choca". atravessar o Boqueirão do Engenho. Na faixa de terra ou restinga. Em tôda extensão dessa espécie de calçada natu- ral. para chegar à faixa de terra que se prolonga entre Cacimba e o Oceano. Achando-me à margem setentrional do lago foi preciso. . é estreita e assemelha-se a uma calçada.

cujas ba- gas sésseis e com uma semente. são globosas. tais como a pitangueira (Eugenia Michelli). quase todos ramificados desde a base. a muito pequenas distâncias uns dos ou- tros crescem. alguns Cestrum e várias Mirtáceas. apresentando-se sob a forma de tufos isolados.) . negras. formam acima do caminho belas latadas que fazem lembrar as aléias de um jardim inglês. Ciperáceas em relvado. Al- gumas vezes esses arbustos se elevam um pouco mais. e a l g u m a s outras plantas muito baixas que gostam dos l u g a r e s frescos. enfim. se a umidade aumenta caminha-se so- bre encantadores tapetes verdes pintalgados de uma (4) N . T. então.274 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE Entretanto. do tamanho de uma cereja. uma Cassia de folhas muito grandes e rijas. — Pelo s i s t e m a t a x o n ô m i c o hoje universalmente adotado. e. que é o de ENGLER. Bem junto dos pés dêsses arbustos crescem em abundância uma Rubiácea de flores azues (Cocco- cypselum nummularifolium). tendo os gêneros que a teonstituiam passado para a família das Anacardiáeeas. quando é úmido encontram-se pe- quenos Eriocaulon. Citarei principalmente a Terebentácea (4) conhecida sob o nome de aroeira (Scbinus therebintifolius Rad. Ouando o terreno é seco não se vê nenhuma planta nos espaços existentes entre os arbustos. no meio desse areial. que já havia encontrado nos arredores do Rio de Janeiro. entrelaçando seus galhos. enfim uma outra espécie conhecida sob o nome de fruta de cachorro. mas de sabor pouco agra- dável. . arbustos de 4 a 5 pés de altura. artisticamente desenhado. uma espécie cuja folhagem imita perfeita- mente a da murta comum. não mais e x i s t e a f a m í l i a das Terebentáceas. próximo da enseada de Botafogo e que produz o mesmo efeito da hera- terrestre nas matas da Europa.

um ou dois ban- cos e algum vasilhame. quase todos nus. cobertas cle colmo. Teem a pele de côr amorenada. seus hábitos. A po- breza dessas mulheres. São cons- truidas de barro. índices seguros da profissão do pro- prietário. cabeça descoberta com os cabelos presos por uma travessa. palhoças que. Como a natureza do solo não admite ne- nhuma espécie de cultura. a nudez de seus filhos. apresentam aspecto de indigência. algumas teem olhos bonitos. suas atitudes destituídas de graça. não existem nem jardins nem plantações ao redor dessas míseras moradas. fizeram-me lembrar as aldeias indígenas. onde são abrigadas uma ca- noa e uma rede. Andam descalças. Nelas não se nota nenhuma imundície. entretanto são geralmente brancos os habitantes (5) Vide "Introduction a l'histoire des plantes les plus remarquables du Brésil et Paraguay". Em toda a extensão da restinga vêem-se. e. baixas e frequen- temente quase em ruínas. Seus filhos. mas não se vêem outros móveis além de redes. As mulheres ficam sentadas no chão no interior das palhoças ou nas soleiras das portas. suas miseráveis moradias. Não teem por vestimenta senão uma camisa de algodão e uma sáia dêsse mesmo tecido. sem e x c e ç ã o . É ordinariamente o oitão que faz frente para o caminho e frequentemente a coberta se prolonga para além das paredes laterais para formar um alpendre. a peque- nas distâncias umas das outras.1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 275 quantidade inumerável d e pequenas flores côr de car- ne. . pertencentes a uma planta do gênero Hedyp- tis (5). se trazem algu- ma camisa ela está quase sempre em trapos. aliás não vi nenhuma que fôsse realmente bonita.

276 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE desta zona. e n t r e t a n t o suponho que é a 1>pfta de <l ue falarei depois. e que c h a m a m tabün. pág. sôbre uma colina isolada e arredondada que fonna Vide adiante. em cada entalhe existe um fio enrolado em dois no- velos. é construída quase à extremidade da restinga. de modo que fiquem com o centro livre. Indo à igreja de Saquarema. e por consequência da extremidade da restinga. Uma longa vara. . como há entre as duas fileiras de casas um espaço considerável ocu- pado por arbustos. levando um novelo para cima e outro para baixo. assim por diante até que se tenha ter- minado a esteira (7). S. pertencer na maioria i nossa raça (6). que dão na zona o nome particular de arraial ou freguesia. colocada horizontalmente é dotada de entalhes distanciados cerca de 5 polegadas. as choupanas tornam-se mais numerosas e são menos separadas umas das outras. dedicada a N. e mais reunidas umas às outras. A igreja de Saquarema. pelo menos. utensílio de tão grande uso nesta região. À medida que se aproxima da igreja de Saquare- ma. pode-se dizer que o arraial de Sa- quarema é formado por duas ruas em vez de uma. 294. os que aí vivem parecem ao primeiro golpe de vista. Co- loca-se um pequeno molho de junco ou de colmos no sentido do comprimento da vara e amarra-se com cada um dos fios. vi de que modo são feitas as esteiras. chamando-se Sa- quarema a todo o território paroquial vizinho ao lago. ou. Por fim elas se apre- sentam dispostas em duas linhas. É ao grupo de casas mais próximas da igreja. (7) Não tenho certeza sôbre a espécie que se emprega em oaquarema para fazer as e s t e i r a s . de Na- zaré. mas. Ao lado do primeiro feixe de junco amarra-se um segundo.

entretanto. Do alto dessa colina. via a restinga. alguns escombros indicavam a exis- tência de um velho telégrafo. ao redor dessas tristes ruínas esta- vam esparsas. que se chama morro de Nazaré. No trabalho do homem. não tendo. restolhos do cemiterio da igreja. para além do lago. da miséria e da destruição. A colina onde fica a pequena igreja de Saquarema não limita a restinga. confundindo com o céu no horizon- te. linda vista se ofereceu aos meus olhos. um canhão enferrujado jazia por terra. mais de duzentos ou trezentos passos de largura. ossos quebrados e crânios es- branquiçados. a imagem da insignificância. minha vista se detivesse sôbre as cousas reunidas junto de mim no alto da colina. lançando a vista para as praias descobri ao longe Cabo Frio. Do lado oposto eu tinha. e no próprio homem. quase abaixo de mim. A pobre igreja de N. sendo muito baixa e . de Nazaré pa- recia prestes a r u i r . que avançando sôbre o mar parece querer disputar-lhe o domínio. S. Esta se prolonga ainda um pouco mais. cá e lá. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 277 um pequeno avanço sobre o mar. coberta de um rel- vado curto e pardacento. via as vagas dirigindo-se majestosamente em direção dessa espécie de calçada e quebrar-se contra uma tão frágil barreira. enfim. Mas. e. sepa- rado da colina por um pequeno vale constituído de areia p u r a . se após haver contempla- do esse grandioso quadro. nas obras da natureza a imagem da grandiosidade. meu olhar perdeu-se sôbre vastos campos dispostos como um anfiteatro. então o mais estranho contraste feriria minha imaginação. o arraial de Saquarema. cujas margens são quase planas. De um lado êles abrangiam uma imen- sa extensão dágua. avistava todo o trecho do lago chamado Cacimba.

Vai-se de Saquarema a Maricá e daí a S. O aluguel de um burro destinado a transportar o peixe seco de Saquarema a S. e sendo a costa muito difícil mesmo às embar- cações maiores. logo fecham o canal.H I L A I R E apresentando apenas um areial sem nenhuma espécie de vegetação. a 6 fr. mas que trabalhos mal orientados entupiram a entrada. AUGUSTO DE S A I N T . ou melhor. trabalho que exige poucas forças. Dizem que outrora se podia entrar com embarcações do oceano no lago. Restabelecer essa commumca- ção. varia de um cru zado a três patacas (2. Quando se tem pescado todo o peixe que havia entrado no lago. salgam os peixes. transportando mais areia. rasga-se novo canal e o lago de novo se enche. Os peixes entram no lago com a.).s águas do mar. porque é nesse lugar que se faz a comunicação do lago com o mar. As rêdes de que se servem os pescadores de Sa- quarema sao feitas com um fio muito fino mas ao mesmo tempo muito resistente. Domingos. seria dar vida a esta zona e enriquecê-la. Do- mingos. Nesse lugar os habitantes de Saquare- ma rasgam de tempos em tempos um canal que esta- belece comunicação entre o lago e o mar. Os habitantes das margens do lago cle Saquarema e em particular os da restinga. se não é impossível. Pescam no lago e no mar. de onde se embarca para atravessar a baia. são todos pescadores. a extremidade da restinga. os transportes são sempre feitos por terra. e estas. tem o nome de Barra. A parte da restinga onde se rasga o canal. se se quizer. pois que o solo é constituído somente de areia. deixam- nos secar e vendem-nos no Rio de Janeiro.50 fr. tirado das folhas de . Como sua extrema pobreza apenas permite que disponham de canoas.

que se emprega a l g u m a s vezes nas febres i n t e r m i t e n t e s e que o extrato dessa mesma casca substituirá sem i n c o n v e n i e n t e o catechú das índias Orientais (Reis-. e.° X X X ) . Tingem-se as redes de negro por meio de casca da Terebentácea chamada aroeira (Schinus íherehmtiíolius Rad. Estas não são submetidas a nenhuma preparação. nat. n. adotar as melhores es- pécies e m u l t i p l i c á . 93) s o b o n o m e d e araticft pana e da qual êle diz que a 'casca era empregada no fabrico de rolhas. a s s i m c o m o ticuin. Essas fibras reunidas produzem uma estopa sedosa e de um belo verde-maçã. Bactris setosa. a v á r i a s e s p é c i e s : Astrocaryum vulgare. B r á s . facilmente. — Plantes usnelles. MARTIUS 1 diz que a casca dessa árvore encerra muito tanino. O Sr. destacando-se as fibras le- nhosas. que se fia e se tece. Como seria útil ao Brasil uma socie- dade de a g r i c u l t u r a que se quizesse ocupar de semelhantes tra- balhos! Já se d e v e m u i t o a ARRUDA por suas pesquisas sobre aa plantas brasileiras que produzem fio. enquanto que MANOEL D E ARRUDA CÂMARA (Diss. (9) A aroeira. (10) A p a l a v r a i n d í g e n a areticflm ou araticú. seria preciso fazer com todos eles e x p e r i ê n c i a s comparativas. Essa identidade de n o m e s para plantas diferentes explica s u f i c i e n - t e m e n t e o m o t i v o pelo qual não há uma idéia concorde sobre a bondade do fio do tucum. E' incontestável que um ou diversos tucuns dão bom fio. comum nos arredores do Rio de Janeiro e no litoral. até ao sertão da Baía e talvez mais para o norte. à guisa de cortiça. (Aug. do T ). estende-se. é preciso ir m a i s l o n g e e aperfeiçoar l e u trabalho. e talvez ainda a outras espécies. . e porque êle foi elogiado por MANOEL FERREIRA DA CÂMARA (Deserição física da comarca dos Ilhéus). d e s c r i t a s pelo sáb?o MARTIUS. parece.l a s . onde transparece o desejo de a f a s t a r do assunto o que m a i s i n t e r e s s a à nossa espécie. que se aplica. A f a m í l i a é Anacardiáceas. A de que se trata no momento não pode deixar de ser a Anona paliistris Lm. 32) cuidou de depreciá-lo. E' a q u e M A R C G R A F P d e s i g n a (Hist. Flaiit. H i l . 788) Nunca serão demasiados os louvores f e i t o s a êsse sábio nor ter provado que a botânica não despreza as obser- vações" úteis e por ter também procurado j u s t i f i c a r essa ciência em face das c e n s u r a s f e i t a s mais de uma vez a e s s a s obras descritivas e áridas. a t u a l m e n t e . Braetris acanthocarpa. Braz-. ser- vem-se das raizes mais leves e ainda mais esponjosas de um areticum (anona) que cresce à beira-mar (10). "(8) A verdadeira palavra i n d í g e n a é tucum. . d e s i g n a to- das as espécies d e a n o n a s indígenas. pelo sistema* de ENGLER (N.) (9). êle abriu o caminho. Bactris maraia. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 279 uma palmeira chamada ticum (8). limita-se a batê- las para separar a casca. S .

** m a Í O r i a ' inteiramente áno HêW . a t T ^ c . "««ca. moços que procu- r . A região de S- quarema foi povoada por marinheiros desertores que a! podiam exercer um trabalho já deles conhecido o de pescador . terrenos de excelente qualidade não esperam «enlo . os escravos são muito raros nesse haver tamíwhn e n c o n t r e i . tendia S i Ç ã o mista e menos im- . O ros- St Ç0S é m ÍS Íortu'uéir ' . f o dos C VaI a l n g a d a f o r m a c a r á C vo se. pequeno trabalho para nutrir ao agricultor t â m . negros e deve P C S muUlt0a de Sarfiínrrm ° " ° . M a s í ? uma multidão de homens a que falta a coragem ne c e s s a m a penetração do hinterland. frequentemente. U .0S d a f a C e P r o ^ i n e n t e s e o nariz a rerião l l P 7 . esta zona foi também povoada por c'ri- cToRioH ? 1 Ü V O S ' n . m e r ° d e í n d Í O S habitavam outrora esa are VrTZ' P c e r a m .a isolar. te haja escolhido para residência L l T o L l T / o Z favorável como a que venho de descrever. h e r e S d e m á v i d a ' e e n f i ™ veem do R o de Janeiro.XitaíeCrUtament0 mÍHtar a "*» o u a r e n r n ã 0 n r m e Í r ° % h a b Í t a n t e S d ° S a r e i a i s <*e Sa- ijruahnèntp n f S S U ' a m e SeUS « c e s s o r e s são gua mente pobres.n ã o f i c a ™ m s destruição que os in- Ue Uma or an za ppeiteita Tfei a ten v ja. r e l a r S d e S U a S m u l h e r e s «>™ os por- èxpò tos à <e s m >a s caa u s a sê S dt ee S Ú . 280 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Admirar-se-a talvez que em um país onde vastn. C aTb e I.°o s s ã ° ° ^ dis- í e te™ J ° Msos e muito p r e t o s e n f i m larlo CrZ ° SS .M a S ' 5 6 o s habitantes b ancos n . . t Í m O S . d a V ' a d l f Í C Í 1 d e n o t a r n a fisionomia de 3 g U n S t r a Ç 0 S d a ra< a o rlL = ^ e r i c a n a . mas as crianças que d J ! .

café. (12) Disseram-me. que Saquarema dependia mi- litarmente do distrito de Cabo Frio e judicialmente do fôro ctsj Maricá. mas ninguém fabrica manteiga. o qual é também oriundo de Minas Gerais (12). Acredito não ser preciso esclarecer que o transporte dos produtos agrí - colas é idêntico ao do peixe (11). . passando peio Rio de Janeiro e são muito caros. no lugar.) e o café a 5 patacas (14 frs. mas mostrou- se muito distinto e alegre.) a arroba. entretanto a criação de suinos é redu- zidíssima nesta região. no dia da minha partida serviu-me de guia em todo o trecho do caminho onde (11) Vide o que disse páginas atrás. e os queijos que se comem na região veem de Minas. igualmente do Rio de Ja- neiro que vem todo o toucinho existente nas vendas. pareceu-me entretanto que elas poderiam produzir muito mais. como teria feito um mineiro. êle cobrou-me mesmo o milho consumi- do pelos animais e o aluguel dos pastos. e. Havia-me conduzido ao Boqueirão do Engenho. é preciso acentuar que nem todos os habi- tantes da paróquia de Saquarema são pescadores. como no resto do Brasil os alimentos são preparados com a gor- dura de porco. À época de minha viagem o açúcar mascavo era vendido nos arredores de Saquarema ao preço de 4 1/2 a 5 patacas a arroba (9 a 10 frs. Aqueles que vivem a alguma distância da praia culti- vam a terra e produzem principalmente açúcar. é. rebanhos de vacas pastando nos cam- pos . Meu hospedeiro de Saquarema nunca me convidou para tomar parte em suas refeições. Vêem-se por ex. Apesar dos agricultores dos arredores de Saqua- rema saberem tirar partido de suas terras. feijão e milho. 1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 281 Aliás. Aqui.

Í S ? s « fcI?Pre Sa sempre o último desses nomes que entretanto nto " f m aa tUU a 8í mT ae nd to e . a todos que encontrava. 1•s 1H lI Após haver deixado a casa em que posei (13). ao Éfl qual se dá por isso o nome de Fazenda do Capitão- 11 mór. 282 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE havia p e r i g o de m e p e r d e r . s e g u i n d o o m é t o d o d o s t r o p e i r o s de M i n a s . aliás U11S i. HH atravessando depois terrenos planos cobertos de der- " / rubadas. Quanto a mn si admite ao mesmo tempo AraraAma e Irlruftma. A direita. e onde quase não encontrei plantas ffi Ei em flor. no começo do lago existe um engenho de açúcar pertencente ao Capitão-mór do distrito. e n t r e t a n t o êle e s e u s f i l h o s traziam s e m p r e as p e r n a s n u a s e o s p é s d e s c a l ç o s . n ã o u s a v a m o u t r a r o u p a além d e u m c a m i s ã o de a l g o d ã o e u m a c a l ç a m u i t o limpa.s e escrevendo Iruáma. qual a distância que podia ha- ver entre Saquarema e a paróquia de Araruama e Li •P-in • (13) Itinerário aproximado de Saquarema a Cabo Frio: De Saquarema à Fazenda do Capitão-mor 3 léguas " Guaba Grande 3 1/2 " " Aldeia de S. descobrir a etimologia u a s p a l a v r a s Araruama e Iriruama. aifiisíl »1: wm- . porquanto desde dois dias antes eu perguntava inutilmente. Pedro 2 " Vila d e Cabo Frio 2 101/2 I " PT7 4 T n 5 r » L ^ C C O C X e n ê ' a l l o u . l i n h a s buscas. e. Zâ% . Chegado a uma fazenda muito mal conser- üÈ vada.V i r l s i g n i f i c a concha e ara dia. onde fui atormentado ilP por mosquitos. Não sabia se devia ir mais adiante. Saí enfim dessa mata e logo um grande lago feí apareceu aos meus olhos: o de Araruama ou Ira - ruama (14). Êsse h o m e m pertencia à r a ç a e u r o p é i a . deixa- i— v a m as f r a l d a s d a s c a m i s a s p o r f o r a da calça. diante da qual existe um vasto relvado. Como m u i t a g e n t e da r e g i ã o . contornei durante algum tempo o lago de Saquarema. entrei em uma grande mata virgem.

pintalgado por algumas árvores. uma negra veiu perguntar o que eu de- sejava. retirando-se em seguida. havia inutilmente procurado. Entrando na casa do Capitão-mór. térrea. a de uma parte do lago e da planície adjacente. Para além do lago a região é des- igual e florestal. fosse um ferrador. Uma circunstância deci- diu-me a parar na Fazenda do Capitão-mór. junto dessa ficam as casas dos negros. o que parecerá quase incrível. pequenas. achei-me em uma comprida sala cujo mobiliário se compunha de um par de mesas velhas e algumas cadeiras pintadas de vermelho e preto. aí en- contrei um ferreiro e. O engenho do Capitão-mór fica em uma vasta planície margeante o lago. Durante o tempo em que esperava. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 283 desta à aldeia de S. construídas de barro e cobertas de colmos. uma escrava reapareceu e disse-me que seu dono d o r - mia a sesta. ao alto de uma colina foi construída a casa do proprietário. depois do Rio de Janei- ro. bai- xas. quase quadradas. ha- . e. Ao pé da colina se estende um belo relvado. no momento em que eu contem- plava essa bonita paisagem era ela animada por pi- rogas de pescadores que navegavam ligeiramente no lago. de lá deparei uma vista muito agradável. semelhantes na fôrma às de nossos jardins. fosse um ferreiro. Segundo a praxe bati palmas afim de me anunciar. sem janelas. e enfim. para fazer- me uma peça que era necessária à albarda de meus burros. Após haver espera- do mais de um quarto de hora tornei a bater palmas. Pedro. Querendo pedir ao Capitão-mór permissão para passar a noite em sua fazenda. subi à colina onde fica sua casa.

-rmtao pensei com saudades nos meus bondosos minei- ros. apareceu enfim o velho capitão-mór. Em uma região onde as idéas ape- nas se prendem às necessidades imediatas da vida.m o r . algumas mulheres mal vestidas. pas- sarinhos e insetos? Após ter-se feito esperar por mais de uma hora. leu-o sem convidar-me a sentar e deixou-me retirar sem me dirigir uma só palavra. era e s t a : " o senhor tem mer- cadorias para vender?" E em verdade essa pergunta era desculpável. Voltando para junto de meus empregados fiz descarregar minhas malas sob um telheiro anexo ao engenho. um homem se entreagsse a tantas privações e se expuzesse a tantos perigos para reunir plantas. onde havia mais de meio pé de esterco. quem poderia supôr que. devia naturalmente concluir que o Capitão-mór não residia sozinho e perguntei à escrava se não havia outra pessoa a que eu pudesse me dirigir na falta do dono. Já tinha começado a trabalhar quando o C a p i t ã o . com seus filhos. sem esperança de algum lu- cro. sem móveis e em grande desordem. Após minha partida do Rio de Janeiro ainda não havia sido cum- primentado por uma m u l h e r . mas deu-me permissão para me alojar no en- genho e mandou dar aos meus animais uma gamela cheia de milho. A pergunta que me foi dirigida por todos os que eu encontrava não tardou a seguir esse sinal <de hospitalidade. sentadas no chão. A negra abriu então uma porta e eu vi em uma grande peça suja. mostrei-lhe meu passaporte real. nesse particular a mu- lher do Capitão-mór não foi mais delicada que as outras. era a dona da casa. 301 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE via visto cabeças de mulheres aparecer docemente por uma porta meio a b e r t a . Uma delas adiantou-se.

começando a seguir-lhe a margem. mais ou menos perto a margem do lago de Araruama. dos fei- tores que ameaçavam incessantemente os escravos. O moinho era mo- vido por animais. e. para ir da Fazenda do Capitão-mór à venda de Guaba Grande. após haver dito que não queria que eu ficasse num local tão impróprio. mau grado a algazarra que se fazia ao meu redor. O caminho que segui num espaço de três léguas e meia. mais fatigantes ainda. Foi perto da igreja de S. condoeu-se e. Logo cheguei a um pequeno rio chamado rio de Francisco Leite. fez transportar minha bagagem- oara uma pequena galeria junto ao moinho e deu-me um leito. Era já muito tarde quando me deitei. estava morti- ficado de cansaço e sono. Sebastião que me aproximei do lago de Araruama. Uma ponte fora construída nesse rio. Da casa do Capitão-mor eu apenas vira uma pequena par- . Mas não bastava isso. mas estava em tão mau estado que não pude atravessá-la sem apear-me do cavalo. perdi de vista o lago e durante algum tempo somente o percebi através de clareiras nos matos. aproximou-se de mim. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 285 passou por ali. e em seguida dele torna a se aproximar. Não tive entretanto muito que me rejubi- lar pela mudança de alojamento. os gritos dos negros e os. Quase imediatamente após ter deixado o engenho do Capitão-mór. Frequentemente é na própria praia que êle se desenvolve. dormi profundamente. o pessoal do engenho veiu con- versar comigo. contorna. demonstrar-me sua estupidez e impe- dir-me de gozar do repouso de que muito necessitava. ao ruído feito pelo andar dos ani- mais juntava-se o rinchar das rodas da engenhoca. depois se distan- cia para poupar ao viajante das longas sinuosidades do lago.

. O lago de A r a r u a m a ou I r a r u a m a tem 6 léguas portuguesas de leste a oeste (15) e. III. e m b a r c a ç õ e s m a i o r e s .s e também lancha aos e s c a l e r e s dos n a v i o s . mas níio (Corog. Na m a r g e m ocidental do lago existem vários pequenos portos onde os proprietários vizinhos embarcam também para a Capital os produtos (15) Creio qu© P I Z A R R O se e n g a n o u d a n d o . . de sua origem a Cabo Frio. contudo. onde se situa a vila de Cabo Frio (17). A maré faz-se sentir até ao local chamado Ponta Grossa. Uma faixa de terra inculta separa-o do oceano. estende-se até Cabo Frio onde se comunica com o oceano. Coi-o^.286 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE t e dessa vasta laguna. segundo um m a n u s c r i t o p o r t u g u ê s e c a r t a s náuticas dos Srs.7 A T a r ^ m a t e m d e 1 4 a 1 6 braças de profundidade. 38). (16) C A Z . < 17 > V 1 d e a soberba c a r t a p u b l i c a d a pelo s á b i o F R E Y - CINET. diz t r o c . II. 173) que o lago r A . aí descarregam-se as mercadorias que transportam e que vão. (18) As lanchas são e m p r e g a d a s p a r a a c a b o t a g e m . agora ela se me o f e r e c i a aos olhos em tôda a sua vasta e x t e n s ã o . situado mais ou menos ao meio de seu comprimento (16). bem como as sumacas. 3 8 . Braz.l h e 9 léguas. em embarcações maiores. em quase todo o seu comprimento é ela estreita e quase des- povoada. suas águas são salgadas e são abundantemente piscosas. p r o v a v e l m e n t e m a i s ousado. (19) PIZARRO a s s e g u r a (Mem. ROUSfSIN e GIVRY. podem navegar no lago. hlst. B r a . mas ao chegar à sua extremidade oriental ela se alarga para o lado do lago. C h a m a . começando nc engenho do Capitão-mor. As pequenas em- ba reações a que dão o nome de lanchas. movidas a vela (18). e r Y e r t 0 s l u ^ a r e s êle t e m v á r i a s b r a ç a s de f u n d u r a e nou- tros pode ser a t r a v e s s a d o a v a u . do lado sudoeste não avistava seus limites e poderia facilmen- te tomá-la por uma baía. formando uma es- pécie de quadrado que se projeta de sul a norte. para o Rio de Janeiro (19)..

e. (Mem. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 287 de seus solos. Essa paróquia cuja criação remonta ao ano de 1798. como este lugar é mais distante o f r e t e dos outros portos era menor. m a s n ã o e x i s t e ali n e n h u m com esse nome. V. tendo confundido o n o m e com o da igreja de Saquarema. Em Mataruna ha um peque- (20) PIZ. lugar a respeito do qual logo falarei. de Nazaré. Foi construída quase à beira do lago. A igreja paroquial é a de S. não havendo outro arraial entre a aldeia de S. Mataruna (22) oferece.) por arroba. Sebastião de Araruama de que falei atrás e que foi fundada por capuchinhos (21). de todos esses portos os mais fre- quentados são os do Capitão-mór e de Mataruna. como disse. a mais consi- derável reunião de casas existente na paróquia de Ara- ruama. da l í n g u a geral. c i t (22) T a l v e z Mataruna v e n h a do p o r t u g u ê s e _ cabulo « n a . a N. s i g n i f i c a n d o n e g r o Foi erraaa mente q u e em u m a c o m p i l a ç ã o recente se e s c r e v e u Matarnua. p á g s .. (21) L o c . mas. dedi- cada. pequena e jaz em ruínas.200 almas (20). de que já falei. em 1815. possue 3 engenhos de açúcar e compreendia. v o l . Sebastião a Mataruna cammha-ise na praia.. é isolada. . liisí. baixa. Êsse n o m e é t ã o errado quanto o Francesco Leite dado a o rio Francisco Leite. à exceção do arraial de Ma- taruna compõe-se apenas de fazendas e casas isoladas. Ao tempo de minha viagem o frete entre Capitão-mór e o Rio de Janeiro custava 120 réis (75 c. Presumo que ê l e q u i z e s s e s e referir ao arraial de Mataruna. tem por limites as de Cabo Frio e Saquarema. Nenhum arraial se chama A r a r u a m a . 232-34. 525 fogos e 4. Para ir da igreja de S. Pedro dos índios (23). mas êsse nome foi dado a uma vasta paróquia que se estende às margens do lago e que. como disse. S. em areial puro. (23) U m v i a j a n t e colocou & m a r g e m do l a g o o arraial de N a z a r é .

E m £ e r a l não há na m a r g e m do lago senão bote- quineiros ou pescadores. Outrora a P l a n t a do anil e r a c u l t i v a d a n e s t a z o n a em maior es- . cana. café. ao que parece. algodão. do gênero das chamadas Ian chas. O terreno cé SUU1CLLIUU sobretudo favorável à mandioca. Cerca de vmte casas compõem o arraial de Mataruna Elas sao situadas à beira dágua. muito bonita. sendo comumente ao fim de um ano que se arrancam as raizes. pequenas. As casas são na maioria vendas ou pertencentes a pescadores. João d El Rei conta-se aqui por carro. preços mais ou menos semelhantes aos correntes desde o lugar cha- mado Mata. servindo para a navegação no lago. e ele não é de boa qual ciade : Impregnados de sal. mandioca etc. e teem quase todas uma varanda ou galena formada por um prolongamento do telha- do. com o mesmo nome do arraial (rio MatarunaT constituindo um bom porto. O solo é muito arenoso para ser cultivado. Aa época de minha viagem o açúcar branco era ven- a 7 c P a t a c a s (14 fr. Nos melhores lu- gares o milho rende por alqueire 3 carros de 20 sacos. capazes de produzir todos os alimentos próprios da r e g i ã o : milho. o mascavo claro a ^patacas e o mais comum a 4 patacas. Como nos arredores de b. muito baixas cobertas de telhas. ou melhor. . muito plana. muito útil aos lavrado res da vizinhança. permite esse meio de transporte.) a a r r o b a . os terrenos baixos e n W o S / a 0 a 1 d m i t e n i a c u l t u r a do a r r o z . um braço d* lago. Nesta região não se cultiva o algodão °Tconsumo famílias. contendo 2 alqueires cada um. distanciando-se um pouco do laso encontram-se boas terras. porquanto a região. 288 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE no regato. Vi nesse lugar uma pequena em" barcaçao. mas. feijão. sustida por dois esteios não lavrados.

Vista do Catete e Laranjeiras. r r ^ m n a A* " F W a " dp M a r t i n i . em princípios do século passado.

1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 289

cala que atualmente (24); e n t r e t a n t o alguns colonos
s e m e a m ainda essa planta, porquanto o anil é muito
caro no Rio de Janeiro. P a r a isso limpam e prepa-
ram o terreno; fazem pequenos buracos a um palmo
uns dos outros e aí depositam um punhado de semen-
tes; as plantas podem ser cortadas no fim de seis
meses.
Nas boas terras deste distrito a vegetação natural
ainda difere pouco da dos arredores do Rio de Janeiro;
as plantas dos terrenos muito arenosos são quase as
mesmas que observei em Saquarema. À margem
mesmo do lago crescem algumas belas espécies; aí
colhi o único linho que encontrei na província do Rio
de Janeiro (Linum littorale A. S. H . ) ; aí achei tam-
bém uma bela U m b e l í f e r a ; enfim colho ainda uma
Polygala chamada na região "Alecrim da praia"
(Polygala cyparissias A. S. H.) sem dúvida devido à

(24) A p e s a r de um r e g u l a m e n t o ( p r o v i s ã o ) do c o n s e l h o de
U l t r a - m a r , de 24 de A b r i l de 1642, p e r m i t i r a o s c o l o n o s b r a s i -
leiros o p l a n t i o do a n i l n a s t e r r a s q u e não f ô s s e m próprias à
c u l t u r a d a cana, p a r e c e q u e s ó m e n t e a p ó s o g o v e r n o do Marquês
cio Lavradio c o m e ç o u ê l e a s e r c u l t i v a d o . Cheio de i n t e r ê s s e
pelo bem público, e s s e v i c e - r e i , que f o i n o m e a d o no ano de
1768, induziu os c o l o n o s ao c u l t i v o do a n i l e f e z comprar, por
c o n t a do g o v e r n o , a 2?500 o a r r a t e l ou l i b r a (460 g r a m a s ) t o d o
o anil que l h e f ô s s e a p r e s e n t a d o . Os h a b i t a n t e s do Rio de
Janeiro a c h a n d o e n t ã o q u e h a v i a g r a n d e v a n t a g e m no fabrico
do corante, d e d i c a r a m - s e c o m ardor a e s s a i n d ú s t r i a . Os ar-
r e d o r e s de Cabo F r i o e r a m em p a r t i c u l a r t ã o f a v o r á v e i s à
cultura do anileiro, q u e c a d a a n o ê s s e d i s t r i t o f o r n e c i a 1.500
a r r o b a s do pó: e, c o m o o g o v e r n o p a g a v a de acôrdo c o m a
qualidade do produto, os c u l t i v a d o r e s i n t e r e s s a r a m - s e em a p e r -
feiçoá-lo, e u m a i s e n ç ã o de i m p o s t o s a i n d a m a i s f a v o r e c e u
(PIZ. Mem. liíst-, III, 147). E n t r e t a n t o f a l s i f i c a ç õ e s s o b r e -
vieram, d e s m e r e c e n d o o a n i l da p r o v í n c i a do R i o de J a n e i r o .
Aías, f ô s s e d e v i d o a e s s a ou a o u t r a s c a u s a s , o que é c e r t o é
que a c u l t u r a do anil e s t á q u a s e d e s a p a r e c i d a n o s a r r e d o r e s
aa Capital do B r a s i l . D e q u a l q u e r m o d o con'cl.ue-se, p e l o que
acabo de dizer, que a n d o u errado um d o s v i s i t a n t e s do I m p é r i o
atirrnanrio que os b r a s i l e i r o s não s a b i a m tirar p a r t i d o d e s s a
indústria.

290 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE

sua raiz odorante e suas folhas estreitas (25), e que,
nascendo também na província de Santa Catarina, co;i-
tribue para provar que a vegetação do litoral é, como
já disse, muito menos variável que a do interior. A
Vinca rósea é de tal modo disseminada, mesmo longe
das habitações, que se chega quase a acreditá-la in-
dígena.
O lugar mais notável depois de Mataruna é o en-
genho de Parati (26), cuja capela, que se avista de
muito longe, produz belo efeito na paisagem. Como o
de Capitão-mor esse engenho tem a vantagem de ser
situado à beira do lago, podendo-se embarcar o açucar
diretamente dos armazéns. Para além de Parati dis-
tanc.iei-me do lago e atravessei um vasto terreno ou-
trora cultivado e hoje coberto dessa espécie de Saccha-
rum que aqui, como em Minas se chama sapé. Mais
longe voltei às margens do lago e, após uma cami-
(25) Como n ã o t i n h a e m m ã o s n o t a s na o c a s i ã o em que
f i z a d e s c r i Q ã o d a Polygala cyparissfas (PI. Bras. merid., II,
15), n a d a d i s s e a r e s p e i t o do odor d a s raizes. O nome v u l g a r
da p l a n t a n ã o foi t a m b é m e s c r i t o cie m o d o e x a t o na F l o r e rtii
Iilrésil, p o r q u e s u a i m p r e s s ã o foi f e i t a a d u z e n t a s l é g u a s de
mim. A s o b r a s c i e n t í f i c a s pão s e m p r e i n c o r r e t a s quando im-
p r e s s a s l o n g e de s e u s a u t o r e s ; e f r e q u e n t e m e n t e são incom-
p l e t a s q u a n d o n ã o s ã o r e d i g i d a s por q u e m c o l h e u os m a t e r i a i s .
P e r m u i t o c o m p e t e n t e que se seja, há s o b r e os a n i m a i s e m e s m o
s o b r e a s p l a n t a s e x ó t i c a s d e t a l h e s q u e se n ã o p o d e m ciar de
m o d o p e r f e i t o s e n u n c a se saiu de c a s a ; e a f i n a l i d a d e dos
g o v e r n o s , e n v i a n d o v i a j a n t e s a o s p a í s e s l o n g í n q u o s , será quase
s e m p r e c u m p r i d a de m o d o f a l h o q u a n d o ê s t e s ú l t i m o s não qui-
z e r e m ou não p u d e r e m p u b l i c a r ê l e s m e s m o s , os r e s u l t a d o s de
s u a s e x c u r s õ e s . S e j a - s e p e r m i t i d o c i t a r um e x e m p l o . As plan-
t a s do m e u s a u d o s o a m i g o Sr. S E L L O W c a i r a m em m ã o s das
m a i s h á b e i s e f o r a m q u a s e s e m p r e d e s c r i t a s c o m m u i t a com-
p e t ê n c i a ; m a s n i n g u é m a l é m do s á b i o S E L L O W , poderia saber
o n d e e l a s f o r a m c o l h i d a s e se t i v e s s e m sido d e s c r i t a s por éle
não s e r i a m v a g a m e n t e d e s i g n a d a s " e l a s n a s c e m no B r a s i l " ,
isto é, e m u m a i m e n s a r e g i ã o o n d e s e c o n t a m 4 ou 5 f l o r a s dis-
tintas, s e n d o que a s d u a s m a i s d i s t a n c i a d a s d i f e r e m entre si
m a i s que as de H a m b u r g o e A l g é r i a .
(26) Parati n a l í n g u a g e r a l d e s i g n a o p e i x e que os portu-
g u e s e s - b r a s i l e i r o s c h a m a m tainha.

1 D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 201

iihada de mais de 3 léguas, parei em uma venda no
lugar denominado Guaba Grande (27). Apenas me
instalara e a curiosidade lançara ao meu redor os fre-
gueses da venda, aos quais era preciso dar atenção em
suas estúpidas perguntas. Êsses homens, apesar de
todos brancos, não eram, apesar disso nem mais ricos,
nem menos ignorantes. Meu competente amigo Sr.
SELLOW, que havia acompanhado o Sr. Príncipe de
NEUWIED no litoral do Brasil, dissera-me que, para
se gozar alguma consideração era preciso não parar
nas vendas; mas, confesso, a recepção do Capitão-mor
desencorajou-me de continuar pedindo hospitalidade
aos proprietários dos engenhos de açúcar. Nas vendas
não havia nenhuma cerimônia, nenhuma "toilette" a
fazer; pagava hospedagem e não temia desagradar ou
incomodar ninguém. Era forçado, na verdade, a ou-
vir conversas tolas; mas a esse respeito não tinha sido
mais feliz na fazenda do Capitão-mor.
A venda de Guaba Grande fica na praia de Ara-
ruama, ao fundo de uma enseada em semicírculo, cujas
margens apresentam terreno desigual e coberto de
vegetação. Diante da casa o lago se estende ao longe;
e, enfim o horizonte é limitado por uma linha de ver-
dura que forma sem dúvida a faixa de terra existente
entre o lago e o oceano.
À extremidade da enseada de que venho de falar
e do lado direito da venda existe um promontório que
tem o nome de Cachira (28). Nesse lugar, e em mui-

<27) E s c r e v o de a c ô r d o com a pronúncia do l u g a r ; e s e
^ A R R O e s c r e v e u I g u a b a foi para obedecer à e t i m o l o g i a in-
dígena. Com efeito, i gruaba, em g u a r a n i s i g n i f i c a um v a s o
quQ serve para beber á g u a .
' 2 8 > A c h a - s e c a c i r a nas Mern. h l s t . de PIZARRO (III,
mas isso é s e m d ú v i d a um êrro t i p o g r á f i c o .

292 A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE

tos outros vizinhos do lago, existem salinas (29)
Quando as águas do lago aumentam, enchem as cister
nas naturais existentes às suas margens. O lago baixa
em seguida, mas a água fica nas cisternas, evaporan-
do-se pouco a pouco e deixando um depósito salino (30)
Os mais antigos moradores da região sabiam tirar
partido das salinas, aí abundantes; entretanto como o
sal indígena fazia diminuir o consumo do que vinha
de Portugal, foi proibida por decretos (cartas-régias)
de 28 de Fevereiro de 1690 e 18 de Janeiro de 1691 a
exploração de salinas no Brasil e o consumo de outro
sal que não fôsse o importado da metrópole. Os habi-
tantes das vizinhanças do lago de Araruama não se
intimidaram com essa proibição e continuaram a ex-
plorar as salinas. Mas o monopólio do comércio desse
produto h avia sido confiado a interessados que se quei-
xaram ; o governador LUTZ BAÍA M O N T E I R O enviou
tropas ao distrito de Cabo Frio e, sem temer as leis
existentes, fez sequestrar, por sua conta e risco, não
somente o sal retirado das cisternas, mas ainda os bens
daqueles que se entregavam a esse gênero de explora-
ção. Reclamações foram endereçadas pelo povo ao rei
D. JOÃO V ; este reformou as leis e, em um c o n t r a t o
feito com novos arrendadores, permitiu a e x p l o r a ç ã o
das salinas de Pernambuco e de Cabo Frio (31). Du-
rante muito tempo estas últimas foram franqueadas a
todo mundo; mas acabaram por arrendar as principais

(29) PIZARRO indica s a l i n a s n ã o s ó m e n t e em Cacliira, mas
ainda entre a V i l a de Cabo F r i o e o Iago de A r a r u a m a , no
promontório c h a m a d o P o n t a do B a i x o , no d e n o m i n a d o Ponta
do Chiqueiro e e n f i m nos c h a m a d o s P o n t a dos Costa, da Perina,
Massambaba e do P u l a .
(30) S e g u n d o o a u t o r das Mem. hist. e x i s t e m salinas em
que o sal se f o r m a i n d e p e n d e n t e da e n t r a d a das á g u a s do Ara-
ruama (Mem. hist., III, 154).
(31) PIZ. Mem. hi»t., III, págs. 154-169.

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 293

dentre elas, particularmente a de Cachira e não deixa-
ram ao público senão as menos importantes. Os mo-
nopolizadores dão, aos que pedem, a permissão para
explorar o sal com a condição de lhes remeterem a me-
tade da colheita (32).
S a i n d o cia venda de Guaba Grande distanciei-me
do l a g o , sómente dele me aproximando ao chegar à
aldeia de S. Pedro. Atravessei então u'a mata virgem,
m u i t o magra, e em seguida entrei em derrubadas onde,
de tempo em tempo, vi algumas palhoças. Sem ser
tão povoada como os arredores de Praia Grande, de
Cabeçú e mesmo de Saquarema, esta região ainda o é
m u i t o ; mas a pequenez das casas, o mau estado em que
se a c h a m , e a aparência dos habitantes indicam in-
digência.
Nos dias precedentes eu já encontrára, no campo,
índios do número dos que chamam "civilizados".
A p ó s ter deixado Guaba Grande vi mais numerosos, o
que indicava a proximidade da aldeia de S. Pedro.
Tendo feito duas léguas aí cheguei cedo, mas, para
p o d e r p ô r meus animais em um pasto fechado, parei em
uma venda situada a pouca distância do povoado.
Como a de Guaba, esta foi construída à beira do lago,
ao fundo de uma enseada semicircular e muito grande.
À direita desta última o terreno é muito coberto de
vegetação arbórea, e, em um plano um pouco menos
distanciado, eleva-se uma pequena colina igualmente
coberta de matas, ao pé da qual existem algumas casas,
esparsas; do lado esquerdo a praia se eleva acima do
lago, e é aí que fica a aldeia de S. Pedro, produzindo
(32) PIZARRO a s s e g u r a que as s a l i n a s renderiam muito
mais se os h a b i t a n t e s da região, m e n o s preguiçosos, t i v e s s e m
o cuidado de l i m p a r as c i s t e r n a s e i m p e d i s s e m a s á g u a s de
nelas penetrar f o r a do tempo próprio.

294 A U g U s T O DE SAINT-H^ILAIRE

na paisagem um agradável efeito. A praia não ter-
mina na aldeia; ela se estende muito mais longe, é
desigual e cobertas de m a t a s ; diante da venda o hori-
zonte não tem outro limite senão o lago, que tem aqui
demasiada largura para que se possa avistar a outra
margem, e que se confunde com o céu.
Encontr ei na venda três chineses que vinham de
mascatear em Cabo Frio e seus arredores. Eram ale-
gres, delicados e, logo que desci do cavalo vieram me
convidar para com eles almoçar. Como todos os seus
patrícios que se encontravam nessa época, 110 Rio de
Janeiro, traziam as vestimentas de seu país, aliás fá-
ceis de renovar porquanto existiam alfaiates chineses
na Capital do Brasil.
Podia então, fazer à minha vontade, a comparação
entre os chineses e os índios e achei sua semelhança
notável. A face dos chineses é na verdade mais chata
e mais larga que a dos índios; mas seus olhos são
igualmente divergentes, seu nariz achatado, o osso da
face igualmente proeminente, enfim uns e outros são
geralmente imberbes. A raça americana é, sem dú-
vida, como já disse (l. a Relação, vol. II, pág. 231. Cor-
responde ao volume 126-A, pág. 193, da coleção Bra-
siliana) e como tendem a provar as tradições indígenas,
uma modificação da raça mongólica ; modificação de-
vida ao clima, e misturada, ao menos nas sub-raças, com

(33) E' incontestável, diz o meu a m i g o Sr. d'OLFERS' (era
ESCHW. Jour. von B r a z . , II, 194) "que c e r t a s p o p u l a ç õ e s
brasileiras muito s e aproximam dos m o n g ó i s p o r sua cara
chata, nariz inteiramente chato i g u a l a n d o - s e com as faces,
ossos das faces proeminentes, l o n g o s cabelos lisos e de uma
cor parda, olhos um pouco oblíquos e a côr a m a r e l a da
* i c a - s e admirado d e s s a s e m e l h a n ç a quando s e encontram ao
mesmo tempo nas praias de banho do Rio de Janeiro um chinês
e um indígena"'. Nesse trecho o Sr. O L F E R S l i m i t a - s e a assi-
nalar a semelhança dos índios com m o n g ó i s ; mas, o m a i s ilustre

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 295

alguns dos ramos menos nobres da raça caucásica (33).
Enquanto me achava entregue à escrita deste diário
na venda da aldeia de S. Pedro, descobri mais uma
relação entre as raças mongólica e americana. Um
chinês cantava ao meu lado e eu acreditei ouvir o canto
dos Botocudos, amenizado e aperfeiçoado. Como estes
últimos, que aliás se assemelham mais aos mongóis que
todas as outras tribus americanas, o chinês de que falo
arrancava com esforço os sons; sua entonação era na-
sal e êle produzia estrépitos na voz que não eram menos
bruscos que os do canto dos Botocudos, sem, todavia,
ser tão ruidoso.

z o o l o g i s t a do n o s s o tempo, Sr. CUVIER, parece participar de
minha opinião s o b r e a o r i g e m m i s t a de certos americanos, pois
atribue a o s i n d í g e n a s da A m é r i c a t r a ç o s d e origem m o n g o l e
e u r o p é i a ( R é g n e a n i m a l , v o l . I, p á g . 85). Devo c o n f e s s a r
entretanto que, ao m e n o s em um g r a n d e número de tribus, os
traços c a u c á s i c o s n ã o m e parecem tão prounciados como diz o
Sr. CUVIER; t a l v e z ê s s e sábio e a l g u n s outros tenham sido
induzidos a o êrro por e s t a m p a s de Botocudos que f o r a m publi-
cadas na A l e m a n h a , onde os c a r a c t e r e s d a raça caucásica pare-
ceram-me ter sido s i n g u l a r m e n t e exagerados. Mostrando que
os a m e r i c a n o s t e e m a o m e s m o tempo qualquer c o u s a de euro-
peus e de m o n g ó i s , o autor de R é g n e animal acrescenta que
sua tez v e r m e l h a de cobre não b a s t a para torná-los em uma raça
particular. Isso é t ã o verdadeiro que s e essa côr existe entre
a l g u n s a m e r i c a n o s e l a não aparece nos do Brasil meridional;
eu e o Sr. E S C H W E G E já d e m o n s t r á m o s a verdade a esse res-
peito (Vide m i n h a 1.* Rei., I, 425. Corresponde ao Volume
p á g . 356, d a Coleção B r a s i l i a n a ) e Journal v o u Brasllien. i,
84). e eis como o Sr. d ' O L F E R S se exprime sobre o m e s m o
assunto. "Nunca vi e n t r e os índios do Brasil uma cor v e r d a -
deiramente cúprea. A t o n a l i d a d e de s u a s peles diferentes pouco
ou quase n ã o d i f e r e da côr de um europeu meridional q u e i m a d o
de sol; e, q u a n d o s e a c o s t u m a desde cedo uma criança indí-
g e n a a v e s t i r - s e à européia, ela não se torna m a i s parda q u e
os m o n g ó i s . A c ô r dos a m e r i c a n o s a p e n a s e x i s t e e m s u a epi-
derme pela ação dos r a i o s solares, f a l t a de asseio, c o l o r a ç a o
artificial, e não t e m s u a sede no que se c h a m o u rete mwscosiun
Malpighii".

F I M D O 1.° V O L U M E

( S E G U N D O V O L U M E )

CAPÍTULO I

HISTÓRIA SUCINTA DA CIVILIZAÇÃO DOS
ÍNDIOS DO BRASIL. - A ALDEIA D E S. PEDRO
DOS ÍNDIOS. — MODO D E VIAJAR.

História sumária da civilização dos índios do
Brasil. — Fundação da Aldeia de S. Pedro dos
índios. Descrição dessa aldeia. Governo que os
Jesuítas haviam estabelecido. Notas sobre a lín-
gua geral. De que modo a aldeia é hoje adminis-
trada. — Inalienabilidade das terras dos índios;
restrições que tendem a despojá-los de suas pro-
priedades. Fisionomia dos índios de S. Pedro.
Suas ocupações. Seu caráter. A próxima destrui-
ção dos índios do Brasil. Mamelucos. — 0
capitão-mor Eugênio. — Um carpinteiro espa-
nhol. — Como o Autor viaja pelo litoral.

Prosseguindo minha viagem pelo litoral f a l a r e i
frequentemente dos tristes restos de uma civilização
que em breve terá desaparecido com a i n f e l i z raça a
que pertence. Mas, sem dúvida compreender-me-ão
m a i s e eu n a o
, começar por, em poucas palavras, dar
uma ideia da origem dessa civilização, os m i s e r á v e i s
aos quais levou remédios t ã o eficazes, e os d e p l o r á v e i s
icsultados de s u a destruição. As ruínas são c o u s a s
interessantes quando sabemos a q u e edifício p e r t e n c e m
e que maos bárbaras vieram demoli-lo.
Us portugueses, descobrindo o Brasil, aí encontra-
ram homens que lhes pareceram apenas m e r e c e r esse

1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 297

nome. Êsses homens diferem dos europeus pela côr
de sua pele, por seus cabelos e conjunto fisionômico.
Estavam n u s ; viviam nas matas, sem leis e sem reli-
gião e se entregavam a barbarias a que se não poderia
acreditar se não fossem confirmadas por viajantes de
t o d a s as nacionalidades e de tôdas as crenças.
Os europeus não tardaram a aperceber-se da infe-
r i o r i d a d e dos indígenas do Brasil e procuraram condu-
zi-los à vontade do seu interesse. Em vão pedia-se à
m e t r ó p o l e leis favoráveis aos índios; havia sido estabe-
lecido em princípio que em alguns casos, os índios
p o d i a m ser escravizados; os lavradores facilmente en-
contravam pretexto para multiplicar o número de
escravos.
A l i á s os primeiros colonos portugueses que se fi-
x a r a m no Brasil não eram menos bárbaros que os
p r ó p r i o s selvagens. Na maioria exilados da pátria por
t e r e m cometido crimes atrozes, não levavam ao Novo
M u n d o senão vícios. Êsses homens acostumaram-se
f a c i l m e n t e a serem indiferentes às crueldades que os
i n d í g e n a s exerciam contra seus inimigos, e os indígenas
não tardaram a tomar parte em tôda a corrupção dos
e u r o p e u s . Uma população horrível formou-se dessa
mistura de oprimidos e opressores.
Dm ante muito tempo o governo português havia
d a d o pouca atenção às suas colônias no Brasil. En-
q u a n t o que os plantadores torturavam os índios, os
governadores, independentes uns dos outros, torna-
vam-se absolutos em suas capitanias, jogando com a
honra e a vida de seus administradores. Avisado pelas
queixas a esse respeito, o rei D. JOÃO III resolve«
remediar tamanhos males. Querendo subordinar a um
c e n t r o comum as diferentes partes do Brasil e tornar

NÓBREGA. lutador e naturalista (1). a p a r t e posterior do macaco. comandava tropas. Mais jovem. dedicaram-se sem re- servas à felicidade dos índios no que foram logo se- guidos pelo celebre J O S É D E A N C H I E T A . pertencia a uma família nobre. compunha cânticos. tais eram as palavras poderosas que sem cessar pregavam aos índios e pelas quais os atraiam. poucos anos apos P I E T R O M A R T I R E e G R Y N E U S d e s c r e v e r a m . AN- CHIETA f a l a do gambá quase c o m o os m o d e r n o s . A N C H I E T A foi certamente um dos homens mais extraordinários de sua época. . que como ele. en- (1) Não pude ler s e m a d m i r a ç ã o t r e c h o s escritos pelo P ANCHIETA sobre a h i s t ó r i a n a t u r a l do Brasil e que se acham no p r e c i o s o livro i n t i t u l a d o N o t i c i a s u l t r a m a r i n a s . conhe- cia o mundo. as m ã o s de um h o m e m e a s o r e l h a s de um morcego. para tornar-se útil adaptava-se a t u d o . criou um lugar de capitão-general. e chegou à Baía em 1549 acompanhado de M A N O E L DA NÓBREGA e de cinco outros religiosos. as crianças. cuidava dos en- fermos e não desdenhava mesmo os trabalhos manuais mais vulgares. mais ativo ainda. ANCHIETA foi ao mesmo tempo poeta. e. cortando aos governadores particulares a autoridade sem limites que haviam tido até então. se é possível. justo e pru- dente. foi nomeado capitão-gene- ral da América Portuguesa. Ouvindo-lhes os harmoniosos cânticos. ensinava às crianças. Mal chegavam ao Brasil esses religiosos censura- vam aos seus compatriotas pelas crueldades que prati- cavam para com os índios e baniam da c o m u n h ã o cristã aqueles que escravizavam o aborígene.298 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE mais fáceis as comunicações da colônia com a metró- pole.n o como tendo a parte a n t e r i o r de u m a raposa. uma gramática e um dicionário na língua dos índios. T O M É D E SOUZA. Deus e a liberdade. Um homem firme. e reunia a uma prodigiosa atividade vistas largas e a habilidade de administrador.

idéias nobres e o desejo de ser (2) Que me s e j a p e r m i t i d o repetir aqui o a u e j á d x s s e a l h u r e s s o b r e a i n f e r i o r i d a d e dos i n d í g e n a s do B r a s i l . tinha esse mi- nistro vistas largas. a da destruição dos índios. Mas. Mau grado um caráter dos mais despóticos. porque supria a inferioridade do íncola e era para esses hornens- c r i a n ç a s uma benemérita tutela (2). c o m o o m e s m o d e f e i t o se prende à o r g a n i z a ç ã o a i n d a i m p e r f e i t a da i n f a n c i a . e como que fascinadas. es- c r e v e r e a amar a Deus e a seus semelhantes. Durante dois séculos os jesuítas governaram os índios d o Brasil. se sua administração obteve tão belos resultados e merece grandes elogios é porque ela se adaptava perfeitamente ao caráter dos indígenas. seria absurdo e teria fracassado. t a n t o quanto o podiam ser. mas. Ao privar esses infelizes de seus protetores. . tornando-os em homens úteis e felizes. contar. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 299 cantadas. POM- BAL não os abandonou todavia. tendo conosco uma o r i g e m c o m u m . reuniram-se em aldeias e foram civilizados. são i g u a l m e n t e a n i m a d o s do sôpro d i v i n o . m a s P a r e c e . reuniam-se ao redor de uma humilde capela e aprendiam a ler. Pouco a p o u c o os indígenas renunciaram aos seus bárbaros c o s t u m e s . a si próprios.m e in- c o n t e s t á v e l que a i m p r e v i d ê n c i a p r e n d e . POMBAL teve conhecimento da ação deles e não viu os serviços que prestavam à América. donde o Idiotismo e d e f o r m i d a d e s d o s c r e t i n o s da S u i s s a e de S a v o i a . ' Entretanto uma violenta tempestade formava-se p o u c o a pouco na Europa contra o poder dos jesuítas. Jurou-lhes um ódio implacável e expulsou-os do Brasil. pronun- ciando a ordem de expulsão pronunciava também uma s e n t e n ç a bem mais funesta. Aplicado a um p o v o de nossa raça o governo que os discípulos de LOYOLA adotaram para os índios.s e à s d i f e r e n ç a s üe f o r m a que a r a ç a a p r e s e n t a . us índios. h o m e n s c o m o nós.

até que. zelosos. acreditava os índios suscetíveis da mesma civlização que nós. n u n c a tendo v i s i t a d o a América. 252. deviam exercer autoridade paternal. os casamentos mistos encorajados etc. (3) O Sr. P O M B A L partia de um princípio falso. então as aldeias cairam em ruínas e os indígenas do Brasil retrogradaram à barbaria (3). Fez para os índios numerosos regu- lamentos. os portugueses que se misturaram aos índios tiranizaram e corromperam o pobre íncola. as mesmas idéias que eu. seriam homens sensatos. e por estranho desprezo acusava a inferioridade os indígenas do Brasil como resultado do regímen jesuítico. submeteu-os a " d i r e t o r e s " que deviam ser. 523. 24.. 212. a língua portuguesa substituiria o tupi. tornados iguais aos portugueses constituíssem como que uma só fa- mília. a religião respeitada. Os que fo- ram dados aos índios. uma emancipação gra- dual devia ser dada aos índios. homens íntegros. Quanto a mim não poderei ser t a x a d o de parcialidade a favor . dizia êle. SOU T H E Y. Diretores tais como queria POMBAL. enfim. ambiciosos. contraditória e inaplicável a aquele que co- nhece a América e os índios. muita cousa parecerá absurda. não podia ter sôbre o caráter dos índios e s u a inferioridade. que tendia principal- mente a suprir essa inferioridade. virtuo- sos . I. prudentes. 697) que n a t u r a l m e n t e não é s u s p e i t o porquanto sempre deixa entrever quanto é êle contrário ao catolicismo.300 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE útil à sua pátria. tor- naram-se em temíveis déspotas. a embriaguez banida com cuidado. escolas deviam ser fundadas em tôdas as aldeias. O europeu que ler o conjunto desses regula- mentos poderá aplaudi-los. m a s o quadro que v e n h o de descrever está literalmente de acordo com as d e s c r i ç õ e s d ê s s e laborioso e competente escritor (Vide H i s t o r y of Brazil. homens imorais. II1512. frequentemente mesmo já punidos judicialmente. era a ma- gistrados de sua raça que os índios deviam obedecer.

ALMEIDA BARRETO. acreditava que os h a b i t a n t e s dessa aldeia haviam Perten- cido a uma tribu chamada Sarussfl (talvez SacavÚ). rçaro era 1789. (4) Um eclesiástico meu conhecido. haviam tido necessidade de socorros. e que haviam sido conduzidos para próximo do lago de Araruama pelos jesuítas. . contribuíram para sua primeira expulsão. é uma justiça que se lhe deve fazer. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 301 A p ó s POMBAL. não posso dizer que à época de minha viagem esses homens fossem verdadeiramente infelizes. Pedro dos ín- dios. em uma época em que os portugueses de Cabo Frio atacados por a l g u m inimigo. e. o governo português. o capitao-mor MARTIM . o abade MANOEL. fundada em 1630 (4) tinha sido originariamente dirigida pelos pa- dres da Companhia de Jesus. mas suas providências não se basea- vam num verdadeiro conhecimento da raça americana e fracassaram sempre do fim colimado. se o não cumprimento das leis na aldeia de S. V. porquan- to não foram submetidos a "diretores" . a n - ça. Segundo PIZARRO. 91). foram os capuchinhos encarregados da dos J e s u í t a s . que a prin- cípio êles h a b i t a v a m a capitania do Espírito Santo. Após a expulsão desses religiosos. Todavia é preciso dizer: os indígenas não so- frem as mesmas misérias em todo o Brasil. A aldeia de S. porque tôdas as impressões que recebi em minha juventude e s t ã o bem longe de lhes ser favoráveis e nunca deixarei de venerar a memória de a l g u n s homens que em * . procurou muitas vezes tornar felizes os índios. que havia sido cura de b. que tratou êsse_ ponto histórico de modo muito sucinto (Mem-. ver- se-á quanto estou longe de exagerar a triste situação dos índios submetidos aos descendentes de portugue- ses. Apesar de expostos a constantes vexames os índios civiliza- dos da província do Espírito Santo são muito menos maltratados que os das Missões do Uruguai. Pedro dos Índios. deve necessariamente conduzir ao desapareci- mento os indígenas que a habitam. Quando me referir às Missões do Uruguai.

A costa onde foi construída a aldeia de b. domina entretanto tôda a en- seada s e m i c i r c u l a r que a banha e que faz parte da vasta laguna de Araruama. 666).s e em vir e m socorro dos b r a n c o s . apenas encon-C o m o t r a s s e m os d. M e m . n a s p r o x i m i dess. U m português havia n a v i o encaLhado. O h i s t o r i a d o r i n g l ê s n a d a diz da fundação da a l d e i a de S. V . 91. ela foi transformada em paróquia. diz SOUTHEY. como todas as aldeias que haviam pertencido aos je- suítas. . "" que SOUTHEY c o n t a a d e s t r u i ç ã o d o s G o i t a c a z e s . Os í n d i o s de Cabo F r i o e os de R e r i t y g b a tendo o u v i d o f a l a r do n a u f r á g i o a p r e s - s a r a m . Pedro. t o d a v i a creio q u e e l a d e v e ser submetida a novo e x a m e m u i t o m e n o s tradições p r o v a v e l m e n t e d u v i d o s a s do a b a d e M A N O E L BAK RETO que por não coincidir com o s f a t o s c o n t a d o s por bOU- Í H E Y ?Ht«t.es í n d i g e n a s d a d e s m a s a e q u i p a g e m se s a l v a r a em e s c a l e r . m a s . e a n t e s dêle p e l o s padres VASCONCELOS e JABOATÃO. mas. m a s t a w e z se possa conciliar s u a n a r r a t i v a c o m a de CAZAL. a d m i t i n d o se que a l i g a f o r m a d a pelos p o r t u g u e s e s c o n t r a os Goitacazes. por um decreto de 8 de Maio de 1788. E s t o u l o n g e de q u e r e r c o n t e s t a r a verdade d e s s a i n f o r m a ç ã o . (5) PIZ. Mas.•WWBW| R B 348 AUGUSTO DE SAINT-HILAÍRE administração da aldeia. II 44) eme durante l o n g o s a n o s os h a b i t a n t e s dos c a m p o s q u e te em o nome de G o i t a c a z e s h a v i a m r e s i s t i d o a o s p o r t u g u e s e s . h o m e n s p o d e r o s o s f o r m a r a m c o n t r a a s s e l v a g e n s uma l i s a i r v e n c í v e l . E n t r a n d o era m a i s d e t a l h e s CAZAL diz (Coros..estroços do n a v i o e n i n g u é m da e q u i p a g e m . (5). que o a t a q u e c o m e ç o u e m 1629 e que Oo Indígena« f o r a m v e n c i d o s f u n d a n d o . em 16^0 a aldeia" de S P e d r o .s e p a r a os que se rende ara a aldeia de S.. s e g u n d o e l e os í n d i o s Goitacazes f o r a m quase d e s t r u í d o s e m 1630 por ura raoüvo murto diverso do indicado por CAZAL. concluíram que os p o r t u g u e s e s h a v i a m sido d e v o r a d o s p e i o s Goitacazes e e x t e r m i n a r a m u m a p a r t e d e s s a t r i b u . da qual se não pode n e g a r a e x i s t ê n c i a . aí r e u n i u í n d i o s G o i t a c a z e s e o u t r o s vindos de Sepetiba ou Itinga. Fedro. sem ser muito elevada. É fácil de ver que os fun- TW SÁ nua h a v i a sido g o v e r n a d o r do R i o de J a n e i r o f u n d o u . e posta sob a jurisdição de um juiz ordiná- rio. p e g o u o p r i m e i r o p r e - t e x t o que se a p r e s e n t o u para e x t e r m i n a r os s e l v a g e n s e qu foi por sua i n s t i g a ç ã o que os í n d i g e n a s de Cabo F r i o e t t e i i t y g b a t o m a r a m a r m a s (Vide m a i s a d i a n t e o c a p í t u l o s o o r e Campos de G o i t a c a z e s ) . Pedro. ^ f . enfim. II. no t ê r m o de I l h a Grande e e n f i m c o n f i o u aos j e s u í t a s a a d m i n i s t r a ç ã o e s p i r i t u a l e t ê m p o r a da nova aldeia. l i i s t .. of B r a z .

Esteios existen- tes aqui e acolá.. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 303 dadores dessa aldeia tiveram intenção de dar-lhe for- ma simétrica. forma uma praça muito larga e é desenhada por um dos lados de duas ruas que se comunicando com a extremidade da rua principal se curvam em semi- círculo. U m a inscrição que se lê no mosteiro indica que êle foi terminado há 80 anos (escrito em 1818). a entrada da igreja dá para a praça. coberta de gra- ma. em compensação ainda não se esqueceram do governo dos jesuítas. que êsses religiosos . As casas. foram construídas com pouca a r t e . apresentam um corpo principal com duas alas. todas de madeira e barro. Pedro sabem. Os índios de S. mos- tram que de início havia idéia de fazer duas ruas da principal mas que o projeto foi abandonado. Todos os habi- tantes de S. A meia lua. embranquecidos pelo tempo. após o governo dos jesuítas foram construídas outras casas. Aliás. constitue o convento. As ruas são cavadas de modo que as casas ficam em nível superior ao da rua. Entra-se em S. desordenadamente. fora do antigo alinhamen- to. quebrando-se a regularidade da aldeia. anexo ao templo. a outra. É do lado oposto à praça que ficam as alas. em todas as aldeias. A igreja e o antigo convento. o que nunca deixavam de fazer. Mas se nada sa- bem de suas origens. Pedro não conservaram nada do tempo em que eram selvagens e ignoram ate a que tribus pertenciam seus ancestrais. Pedro por uma larga rua que vai ter a uma meia lua limitada pela igreja e pelo antigo convento. por ex. são cobertas de colmos e na maioria des- tituídas de janelas. com o corpo principal. uma destas forma a igreja.

Em s e u s c a r a c t e r e s gerais. estão bem l o n g e de ser l í n g u a s bárbaras.. 371).m e a fazer j sobre a etimologia dos vocábulos p o r t u g u e s e s . Os jesuitas tinham profundo conhecimento do idioma dos índios. e ensinavam-lhes a agricultura e dife- rentes ofícios.b r a s i l e i r o s da f língua indígena pesquisas de que hei s u c e s s i v a m e n t e c o n s i g n a d o os resultados n e s t a obra. I. os padres ARAUJO e B E T T E N D O R F não f o r a m _ o b r i - gados a tomar para seus catecismos. III. m a s não é menos ver- dade que a l í n g u a g e r a l e seu dialeto. sem dú- vida. E l a s teem doçura e o f e r e c e m a extrema v a n t a g e m de admitir p a l a v r a s c o m p o s t a s f r e q u e n - t e m e n t e muito pitorescas. (7) H o m e n s que a b s o l u t a m e n t e não conhecem a raç/a. não permitiam o ensino da língua portuguesa. . suavidade e a riqueza da l í n g u a g e r a l . O que há j de n o t á v e l é que. Três dias por semana os índios tra- balhavam na manutenção da igreja. A l i á s a l i n g u a g e m dos índios da costa. 427). Os padres ANCHIETA. da dos diversos idiomas em uso entre a s nações de origem s caucásica (Vide m i n h a 1. f vagens. uma só e x p r e s s ã o de l í n g u a s estrangeiras (Vide P r ó l o g o do Dicionário P o r t u g u ê s e Brasiliano). of Brasr.» Rei. que não se pode acusar de parcialidade. do convento e (6) N i s t o os j e s u i t a s e s t a v a m de acôrdo com as leis de D Pedro II (SOUTHEY H i s t . Contudo em breve não haverá m a i s no | Brasil nenhum traço da língua dos índios.. E s s a s considerações l e v a r a m . ser conservada.304 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE vedavam a entrada de brancos na aldeia (6) e não permitiam aos índios afastarem-se dela. Êles os instruíam na doutrina cristã. cativando-os por um grande número de práti- cas exteriores. americana condenaram e s s a sábia precaução dos jesuitas.. merecia. tendo de representar idéias f r e q u e n t e m e n t e muito a b s t r a t a s e escrevendo em um idioma f a l a d o pelos sei. elegância. VASCONCELOS e F I G U E I R A g a b a m a delicadeza. para impedir relações que podiam corromper o ín- cola e levá-lo à opressão. Grande número d e s s a s p a l a v r a s teem sido introduzidas na l í n g u a p o r t u g u e s a do Brasil e creio que não lhe tiram nada ds sua harmonia e encanto. a pronúncia das l í n g u a s i n d í g e n a s é muito diferente. e. e eu não encontro nenhum têrmo e s t r a n g e i r o nos numerosos exemplos tirados da doutrina cristã que o padre ANTÔNIO RUIZ DE MONTOYA cita sem c e s s a r no seu Tesoro de la l e n g u a guarani. c h e g a n d o > mesmo a comparar suas belezas às da l í n g u a g r e g a . como se vai ver. o guarani. além das palavras que passaram para o p o r t u g u ê s e das quais ningjlém conhece a verdadeira origem. mas a êsse respeito a Companhia de J e s u s foi s u f i c i e n t e m e n t e j u s t i - ficada pelo p r o t e s t a n t e SOUTHEY.

Que se compare a sua conduta com o modo por que são tratados os índios. que os havia conhecido. mas como o do pai de família que supre por sua experiência e seu senso a pouca inteli- gência de seus filhos. diz que e n t ã o o v i g á r i o de S. os padres davam braços à agricultura e à indústria. O govêrno dos discípulos de L O Y O - LA era absoluto. v o n B r n s . A religiosi- dade dos velhos e sua compreensão do cumprimento dos deveres. são. 183 e s e g u i n t e s .. ao passo que agora procu- (8) Meu compilador. „ Ilim. (9) Vide m i n h a 1. o melhor testemunho em favor desses religiosos. 79-83. II. . e não se poderá deixar de confessar que para os americanos indígenas^ a expul- são dos religiosos da Companhia de Jesus foi um ver- dadeiro desastre (10). eram extremamente amados pelos índios. atualmente. que não era favorável aos jesuítas. Não sómente não h a v i a c l é r i g o s índios n e s t a região. durante s três outros dias cada um trabalhava para si próprio. V i d e também o que a ê s s e respeito e s c r e - veu o barão d ' E S C H W E G H . L i m i t o . que se reporta à época da m i n h a viagem. creio poder a s s e g u r a r que não havia a b s o l u t a m e n t e n e n h u m nas diversas p a r t e s do B r a s i l que visitei. quase centenária. pág. 218 e í a e g u l n tes. Pedro era um índio. J o u r . êles conseguiam reuni-los em aldeias. (Corresponde a<> Volura 126-A. Êles tornavam o íncola cris- tão e virtuoso. p á g . d a Coleção B r a s i l i a n a ) . 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 305 de tudo que se relacionava com o bem comum da al- deia . em Minas (9). quando êles foram forçados a deixar a aldeia todos os habitantes choraram. I. (Correspondem ao V o l u m e 126-A.m e a citar aqui uma autoridade que não deve ser m a i s s u s p e i t a que a de SOUTHEY e a minha. (10) E s s a idéia f o i e x p r e s s a em um jornal. m a s ainda. 57. . atualmente disper- sam-se e são oprimidos. contava-me que. hoje o indígena é um pervertido. o v e l h o Globe.» Rei. dizia-me o vigário da aldeia (8). Os padres da companhia. nome que a maioria dos brasileiros dão aos jesuítas. da Coleção Brasiliana) e seguintes. e uma velha mulher. f i l o s ó f i c o im- portante. 56.

de que uma parte ainda se acha em mata virgem foi anexada à comu- nidade da aldeia e o território concedido foi declarado (11) Dou a conhecer ê s s e g ê n e r o de c a s t i g o em minha 1. êles são divididos em com- panhias comandadas por capitães ^escolhidos entre eles e que devem obediência ao capitão-mor. e concederam-se aos habitantes de S Pedro grandes privilégios. Como sua ciyihzaçao datava de longos anos não se lhes deu nenhum di- retor e eles escaparam à mais triste das tiranias: a de um subalterno ignorante e interesseiro Os mdios de S Pedro não são subordinados a jurisdição portu- guesa. segundo a natureza dos delitos. enfim. . Compreendeu-se que para tirar partido dos indígenas já civilizados era preciso tratá-los com doçura. mandar os cul- pados ao tronco (11). pode. ou mesmo condená-los a tra- balhos públicos por um tempo mais ou menos longo. (Corresponde a o V o l u m e 126-A. mas a um capitão-mor. seja de armas na mão. mandando-os para isso ao Rio de Janeiro. II. Êsse magistra- do julga as pendências de quaisquer naturezas que sejam. Pedro não fazem parte da guarda nacio- nal portuguesa (milícia). as tribus que não tiveram tem- po de se civilizar ou entre as quais não se puderam introduzir." Rei. Os habi- tantes de S. sen- tiu-se oue escravizando-os corria-se o risco de rever- tê-los à barbaria. u Colegão B r a s i l i a n a ) . p à g . gere o policiamento e a boa ordem. Uma vasta extensão de terra.306 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE ram todos os meios de destruir. Quando se tirou aos jesuitas a admimstraçao dos índios não se deixou de tomar medidas de prudência. (vol. tirado dentre eles. e que exerce a mais vasta autoridade. seja sorrateiramente. 42).

ela restabelecia em seu favor uma verdadeira tutela e era uma homenagem prestada à administração jesuítica. que se pagam as taxas aci- ma referidas. que concede ou não a permissão. como se vai ver.. e acabará por torná-la intei- ramente ilusória. É ao ouvi- dor do Rio de Janeiro. eminentemente protetora. ele indeniza-lhe apenas o valor das plantações que se acham feitas. os efeitos dessa medida. as terras da aldeia sendo con- sideradas como inalienáveis. A lei determina o emprego do produto (12) A braça quadrada equivale. ao menos em alguns casos. que tem o título de conser- vador dos bens da aldeia". Mas. Esta medida. tão perfeitamente adaptada ao caráter defeituoso da raça americana. podia impedir. ele enca- minha seu pedido ao capitão-mor. Sempre que um índio quer culti- var um terreno pertencente à comunidade. Pedro destruirá pouco a pouco. mas. e o por- tuguês paga a taxa como se o terreno tivesse sido di- retamente concedido pelo capitão-mor. o índio dele se apodera e nada tem a pagar. uma restrição feita à inalienabilidade do território dos índios de S. No caso afirmativo o capitão-mor mede o terreno. bem como o das casas ou outras bemfeitorias aí construídas. . o branco não pode re- tribuir ao indígena. s e g u n d o o Sr FREYCI- NET. Fundada sobre o conhecimento da inferioridade dos índios e sua imprevidência. É igualmente permitido conceder terras aos homens brancos. a 484 m e t r o s quadrados (Voyage Ur M s t . o incon- veniente de misturar os índios com os brancos e evi- tar que aquelles fossem logo despojados. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 307 inalienável. mas estes são arrendatários e pagam à co- munidade da aldeia a taxa de um tostão por bra- ça (IV Todo índio pode ceder seus campos a um homem branco.

passará pouco a pouco às mãos dos brancos (12). à época de minha viagem. não restando aos aborígenes senão uma propriedade nominal. mas os índios não tocam no dinheiro que a lei lhe/s destina.s e . por inalienável que seja. o vigário obtinha pequenas quan- tias apenas suficientes para as reparações de maior urgência. hoje V i l a de B e n e v e n t e . Éstes sem dúvida serão somente locatários. tornado presbitério. Não me compete indagar o que faziam da renda da aldeia de S. o presbitério cai em ruínas e a igreja não se acha em melhor estado. o que já a c o n t e c e u à a n t i g a aldeia de R e r i t y s b a . fisionomica- mente. todos os traços gerais da raça americana. na proporção relativa à posição que cada um ocupa na aldeia. Pedro apresentam. Pedro. e se se deixar persistir os odiosos abusos aí introdu- zidos. porquanto eles constituem uma considerável população. eles são longevos e quase todos teem numerosa prole. teem (13) E \ como v e r . na ocasião de seus casamentos. mas o Estado ou seus prepostos tornar-se-ão os verdadei- ros beneficiados. Entretanto nada disso acontece. Seria entretanto inadiável assegurar a existência dos índigenas de S. P e d r o . Como a região por eles habitada é incessantemente varrida pelos ventos e de grande salubridade.á m a i s adiante. apenas observei que se se não modificar o regulamento atualmente em vigor. H á cui- dado em receber os arrendamentos com todo o rigor. o território dos índios. e que o saldo dessas despesas seja distribuído aos índios. . ela está sem ornamenta- ção e era a custa de pedidos insistentes que. 348 AUGUSTO DE SAINT-HILAÍRE dessas taxas na conservação da igreja e do convento. na Pro- víncia do Espirito Santo. Os índios de S.

Pedro e os dos p o v o a - dos que vi em Minas Gerais. A s crian- ças oriundas dessa mestiçagem teem a cabeça mais arredondada que os índios e os portugueses e a côr m a i s clara que a d o s verdadeiros índios. algumas das quais são muito bo- n i t a s . aos quais se dá o nome de mamelu- cos. e da testa ao lábio forma uma concavidade. Se me não engano existe entretanto notável d i f e r e n ç a entre os índios de S. bem diferentes dos mulatos. ossos das faces proemi- nentes. mas tam- bém mais volumosa. vieram estabelecer-se em S. pescoço curto. Muitos brancos. mais larga que a dos segundos e de uma forma mais próxima da oval-aguda. E l a s teem as narinas muito largas. olhos divergentes. ocasio- n a n d o não somente uniões passageiras como também c a s a m e n t o s que alteraram a raça indígena. atraídos pela fecundidade das ter- ras da aldeia e a taxa moderada pela qual se pode obtê-la. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 309 cabelos negros e muito lisos. A côr não é cúprea. No semblante das crianças observei um caráter que lhes dá uma semelhança singular com os quadrúmanos. Pedro. nariz chato. e. mas. Suas faces e seu nariz são ainda os da raça americana. teem um ar de doçura muito agradável. mas ainda . o nariz é longo. O s mamelucos gozam na aldeia de todos os p r i v i l é g i o s concedidos aos índios. e parecem muito ro- bustos. sobre- tudo as mulheres. A cabeça dos primeiros pareceu-me não somente mais comprida. São de estatura média. mas muito pouco saliente. Ê s s e s mestiços. o que é notável é que seus olhos não são divergentes. teem espáduas e peitos largos. não somente não se envergonham de não pertencer inteiramente à raça européia. ela se aproxima do tom bistre. São imber- bes ou quase.

m u l a t o s e o cie ^ a m e l u c o s 2ão s e m p r e u s a d o s . III. m u l a t o s . c a r i o c a s e caboclos. e n f i m cariboca e s t a v a q u a s e f o r a de uso. nascído™ ™ Brasil. 3 0 7 ) . crioulo«. etc. lá entre êles. . B r a . of B r a . consegui que repetissem dife- rentes têrmos da língua. d e p o i s que a e s c r a v i d ã o l e g a i dos índios f o i abolida e q u e o g o v ê r n o l h e s c o n c e d e u a l g u m a proteção. ou ao me- Tl 41 M A R C G R A F F diz ( H i s t . quando e m p r e g a d o s e r v e c o m o a p e l i d o in u r i o s o para os índios. c r i a d o s no ódio de s u a r a ç a m a t e r n a davam caça aos índios c o m m a i s c r u e l d a d e que os p i o p r i o b brancos (SOUTHEY. A s cou- sas n a t u r a l m e n t e m u d a r a m .t e os b r a s i l e i r o s . . Dando um pouco de dinheiro a al- guns dêsses homens. Em 1789. Atual- mente somente alguns indígenas idosos empregam a língua de seus ancestrais. os n o m e s de c r i o u l o s . n u n c a o u v i o de m o a a m b o . . 3 2 0 ) . 306. "fisses h o m e n s . brancos e mulatos rnultiplicaram-se. outrora empregado entre os numerosos indígenas de todo o litoral. P e d r o q u e o s m a m e - lucos ou s e u s d e s c e n d e n t e s n ã o s e e n v e r g o n h a m m a i s de per- tencer à raça índia. t a d . a l é m d o s í n d i o s de raça l u T a em moíamlh^s! n a s c i d o s de p a i e m ã e e u r o p e u s . e mesmo a s s i m e n v e r g o n h a n d o . simples dialeto do guarani. e os mais hábeis já se esqueceram de muitos têrmos usuais. f U h o s de u m índio e u m a n e g r a .. com ligeiras alterações não é outra cousa que a chamada tupi ou língua geral. A o que parece n ã o é s ó em S . Mas. sc que os m a m e l u c o s t i v e r a m g r a n d e papel n a h i s t ó r i a d o s P a u l i s tas. II. de pai e m ã e a f r i c a n o s . d e s c o n h e c i a m o s d e v e r e s da r e l i g i ã o e da sociedade civil. B r a s i l que percorri. que f o r m a r a m o u t r o r a u m a g r a n d e Par*:e da p o o u l a ç ã o de S. Somente sob a ação da aguardente expressam-se sem acanhamento em seu idioma. Pedro sabia o português. e ROSTER diz e x p r e s s a m e n t e que os m a m e l u c o s do n o r t e do B r a s i l t e e m q u a l q u e r i n d e p e n d ê n c i a de caráter e t e e m pelos b r a n c o s m e n o s r e s p e i t o q u e o s m u l a t o s (Voyages danai l e nord. Hfst. Paulo. e. depois dessa data as relações entre índios. Jay. e n ü m m a n c o s n a s c i d o s de um e u r o p e u e u m a í n d i a Nas partes d o . ao menos na aparência (14).s e disso. N a t .s e . 304.310 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE se mostram orgulhosos de pertencer à clã que é aqui favorecida. S a b . p a u l i s t a s m u i t o d i s t i n t o s g a b a m . apenas um índio em S.s e de des- cender de f a m o s o cacique. que. 268) que ao s e u t ^ n o d i s ü n e u T a m . c n b o c o ou c a - boclo.

passam a semana no campo com suas famílias. vol. ponde ao V o l u m e 126. teem muitas aspi- rações. na pronúncia das línguas indígenas. com o algodão da região. Pedro. para c tn ob £ mistu- S. Brasiliana).» Rei. tenham f e i t o a d o t â . Pedro. fabricam também. c o m o cre P I Z A R R U n>ra q u e f a l a v a m rados com os de Sepetiba. p a g s . deve-se concluir de tudo isso que há. Os índios de S. como essas povoações falam idiomas bem diferentes entre si e bem diversos da língua geral. se. somente vindo à aldeia nos dias de festa e domingos. e. falam a l í n g u a g e r a l . abrem pouco a boca. » ^ p á g . ca- racteres que pertencem a toda a raça indígena. o dos Coroados de Rio Bonito e de outras po- voações que encontrei em Minas Gerais. Pedro f o i f u n d a d a por S. 55 e 357 «a » v o l . DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 311 nos da maioria deles (15). principalmente fazem com o taquarassu (17) chapéus artisticamente trançados e cestas que sabem tingir^de cores vivas porém pouco duráveis. e e s t e „ « " t e e m a origem que tende-se a c o n c l u i r q u e ê s t e s fl l ^ " f ' J f m E n \ r e anto não lhes atribue o a u t o r da ^ r o g r u t i a Brasileira *nt: ê i m p o s s í v e l que os J e s u í t a s . em seu conjunto. dão pouco movimento aos ó r f ã o s da voz e frequentemente apoiam-se sobre a última sílaba.. (Corres- (16) Vide m i n h a 1. É da cultura do solo que vivem os mdios de b. ven- ~ (15) CAZAL c o m o Já me ^ f e r i a c i n ^ diz que a aldeia de S. Pedro falam pela garganta e pelo nariz. que sem dúvida eram aos q 0 tupí . áo.l a . Èsse modo de pronunciar é. (Corresponde ao Volume 126.por todos ^ ^ ^ ^ o ^ o i t a c a z e s de Tiveram s o b r e t u d o que a g i r assim. . redes muito elegantes. I. ^ c S l ê g a o Brasiliana). 20. m . p a g . e que podem contribuir para fazê-las distinguir. T náe-q 47 427. Êsses homens são afamados na região pela habilidade com que serram tábuas e exercem algumas pequenas indústrias que lhes são peculiares. Pedro dos índios. que t i n h a m f e i t o um e 5 fundado da l í n g u a g e r a l e c o m p o s t o um catecismo ^ trar am. (17) E s p é c i e de bambú descrita em m i n h a 1.

mas sua preguiça é e x t r e m a .312 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE dendo os chapéus de palha a uma pataca e meia (2 a 3 fr. quase nunca teem excedente a vender. êles teem necessidade de viver sob uma tutela protetora. São alegres. quase abolida da memória dêles. de redes por êles mesmos feitas.) e as redes a um ou dois cruzados. Apenas cultivam o suficiente para viver. mas ao mesmo tempo encontram-se entre êles as boas qualidades e principalmente os de- feitos que teem. no seio das florestas. propriamente di- tos. amam apaixonadamente a aguardente e nunca pensam no futuro. os de alfaiate. etc. continuam crianças apesar de todos os es- forços feitos para torná-los homens. como é possível. abandonando pela metade do cus- to o fruto de um longo trabalho. tendo renunciado a seus antigos t r a j e s .. pouco modificaram o caráter dos índios de S. e se algum tem a fantasia de ir ao Rio de Janeiro. logo resolve satis- fazer essa fantasia. não gostam de apren- dê-los. ves- tem-se à moda portuguesa. Estão sempre parados e imprevidentes. tecelão. seus irmãos ain- da selvagens. e mais frequentemente ainda de an- zóis e linhas. êles se servem para apanhar o peixe. de humor dócil. sua civilização fi- cará sempre imperfeita. direitos e espirituais. A pesca ainda é uma das ocupações favoritas dos índios. Duzentos anos de civilização. e a maioria dos artífices que moram na aldeia são brancos ou mulatos. Pedro foi. como já se viu. ou m e l h o r dizendo. . sob dois regimens inteiramente diferentes. como o eram outrora no meio das matas e charnecas. A língua primitiva dos índios de S. Isso c o n f i r m a ainda o que eu disse alhures. Quanto aos ofícios. e se. os índios não são susce- tíveis do mesmo progresso que nós. Pedro.

As mulheres aí se achavam agachadas no chão. De tudo o que precede. o capitão-mor dos índios era ori- undo. mas os brancos. seus olhos divergiam em sentido contrário aos dos índios de raça pura. c r e i o . os Í n d i o s c i v i l i z a d o s d e r a m . Nela se via. O v i a j a n t e que fez aos índio* essa a c u s a ç ã o d e f a l s i d a d e disse t a m b é m que o t r a ç o m a i s notável de seu c a r á t e r é u m orgulho indomito. mas o digno magistrado achava-se sentado no chão. ligrar ê á s e d e f e i t o a j u s t a desconfiança de que f a l o aqui. confesso. Disse que os índios de S. bem f r a n c a m e n t e . cada qual sôbre uma toalha sepa- rada. EUGÊNIO. na verdade. Pedro. eles em breve terão desaparecido da superfície do Brasil e provavelmente de outras partes da América. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 313 não se pode proporcionar-lhes tal benefício. era evidente que eu não devia esperar encontrar nas casas dos índios de S. é p r e c i s o . percebi que evitava responder às per- guntas que lhe fazia. Quan- do entrei em sua casa achava-se êle ocupado em tecer uma rede para apanhar camarões. q u e e s s e s e r i a o ú l t i m o d e f e i t o q u e «e p o d e r i a atribuir a essa pobre gente. de uma mestiçagem. Pedro apenas cultivavam o necessário as suas subsistências. As em que entrei estavam sujas e desprovidas de tôda espécie de co- modidades. . e não vi outros utensílios além de redes e al- gumas panelas. (18) S'e. Indo visitar o capitão-mor da aldeia não achei sua casa melhor que a de seus administrados. Pareceu-me ser sensato. Os índios dão geralmente pro- vas de uma desconfiança bem justificada pela violên- cia e astúcia que a seu respeito empregam os homens de nossa raça (18). nenhum sinal de riqueza. c o m o s e d i s s e a r e s p e i t o d o s h a b i t a n t e s le £3. P e d r o . mas. evidentemente. e. a l g u m a s v e z e s . p r o v a s a e f i n u r a e d i s s i m u l a ç ã o . um banco e um par de tamboretes . com sua mulher. o que me pareceu mais notável.

todos os europeus tornam- se. entre 8 e 9 horas. aliás minha alimentação era quase . parava. com muita bondade. Partia pela manhã. descarregavam minhas malas e eu delas retirava tudo quanto era necessário à aná- lise das espécies que colhera. no ca- minho. grande distância entre as ci- dades de Orléans e Valência. percebia uma planta que me era desconhecida. Ao tempo de minha viagem o café valia no lugar 7 a 8 patacas (14 a 16 fr. por assim dizer. o açúcar branco valia de 7 a 8 pa- tacas a arroba e o milho 3 1/2 pataca o alqueire. e. Durante minha estada na aldeia de S. O bom carpinteiro pres- tou-me pequenos serviços. quan- do deixei a aldeia indicou-me o caminho da cidade de Cabo Frio. o arroz se vendia igualmente a 7 e 8 patacas o saco de 4 alqueires. descia do cavalo. acen- dia o fogo e fazia ferver água necessária ao chá e ao feijão. sem dúvida. que seguia a passos lentos. Êsse homem. Tôdas as vezes que. dêle dependentes.314 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE arrendatários de terrenos da aldeia. mas esses preços eram conside- rados muito altos. estabelecido na região havia 40 anos. Pedro dos Índios muito tive que louvar a bondade de um velho carpinteiro espanhol. irmãos. Enquanto me dedicava a êsse trabalho o índio Firmiano ia buscar lenha. teem sempre al- guns gêneros à venda. creio. logo que me viu chamou-me "compatriota" e demonstrou a maior alegria em ver- me. Em lugar de farinha de milho eu comia fa- rinha de mandioca. em uma região tão diferente da Europa. mas. de que modo eu viajava depois que deixei o Rio de Janeiro. minha caravana. punha-as na prensa e alcançava. Há. É tempo de dizer. a trote. colhia algumas amostras. Após haver feito de duas a quatro léguas.) a arroba.

mas sua preguiça e lentidão eram extremas. amava o trabalho e f r e q u e n t e m e n t e ajudava aos outros domésticos. e. sem ajuda. enquanto meu doméstico Prégemt preparava os pássaros que havia caçado.e 228. ficava sempre muito longe da caravana. Quando a bir- miano. serviam-se os tradicionais feijões e escrevia meu diá- rio Algumas vezes meu trabalho prolongava-se noi- te a dentro. Acostumado a viver à sombra das florestas primitivas ele sotna muito o calor excessivo das r e g i ô e \ d ô S C o b e r t ^ i r e a f d e : nosas que então percorríamos e tinha q u e i m a d u r a s de sol nas pernas e nos braços.« Bel. fa- zia uma pequena herborização. dispersos depois de meu regresso. O caráter desse pobre moço alterava-se cada vez mais. ^ J ^ ^ Volume 126. aliava a um caráter dócil. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 315 a mesma que adotava em Minas (19). I. demonstrava bom humor e inteligência. Quanto ao^ tropeuo achava-me muito s a t i s f e i t o . todavia eu me levantava ao nascer do sol concluía o que não pudera ser terminado nas vés- peras. págs. e depois. da Coleção Brasil mna>. sobrava-me ainda bastante tempo. bastante atividade o índio descan- sava nele todo o trabalho. Se após ter tomado o chá.. não matava nenhum pássaro e nao fazia mesmo. Como meu novo tropeiro. (19) Vide m i n h a 1. antes de partir auxiliava Prégent a mudar as plantas. continuava a ser o que se chama um bom menino". eu tinha que suportar estoicamente suas exqui- sitices e comprava bem caro os pássaros que ele ca- çava e que. Manoel da Costa. sua fácil cozinha. terão sido provavelmente bem pouco úteis. . eu começava a mudar as plantas de papel. 123.

aproximando-se da cidade de Cabo Frio vêem- . igrejas. atra- vessei capoeiras e mais raramente terrenos em cul- tura. — História do Distrito de Cabo Frio. Descrição dss. Ventos dominantes. Suas praças. depara em encontrar um abrigo. de tempo em tempo percebem-se no campo choupanas espar- sas. — Vista que se goza ao che- gar a ela. Descrição das t e r r a s e ilhas que f o r m a m o c o n j u n t o do Cabo. secadouros sobre os quais expõem os peixes. — V e g e t a ç ã o da faixa de terra que separa o lago do oceano. — O san- gradouro do A r a r u a m a . P e d r o dos índios e a cidade de Cabo Frio. — Comércio Agricultura. A ponta de Léste. não há aí médicos nem farmacêuticos. seu c a r á t e r . A região é montanhosa e florestal. Arraial da Praia do A n j o . ocupação de seus ha b i t a n t e s . Ocupação dos h a b i t a n t e s . cidade. Agua que se bebe na cidade de Cabo Frio. — E x c u r s ã o ao Cabo F r i o propria- mente dito. Insalubridade dessa cidade. S. Após haver partido da aldeia de S. — Vista que se descortina do alto da m o n t a n h a c h a m a d a M o r r o de N. Pedro. da. — Distinção que é preciso fazer e n t r e o Cabo e a cidade de Cabo Frio. ruas. o pouco g o s t o que teein pela instrução e a r t e s mecânicas. o convento dos franciscanos. P r a i n h a . — Dificuldades que o A. Praia do Pontal. >3»"i^iaJípIjiS! C A P Í T U L O II A CIDADE DE CABO FRIO E O PROMONTÓRIO DO MESMO NOME Região situada entre S. e. Guia. Área e população da paróquia de que faz parte. sua p o b r e z a . " t o i l e t t e " das mulheres do arraial. — A d m i n i s t r a ç ã o dessa ci- dade.

. Tinha-me distanciado do lago de A r a r u a m a . se o pa- norama que se goza não tem a mesma pompa e a mesma extensão do que se admira em S. (1) U m dos m a i s h á b e i s o r n i t o l o g i s t a s de n o s s o t e m p o . ora planan- do no ar. da Cuia. mas. Avistam-se as duas margens do lago. m a s êsse nome é errado. A montanha. acabava de ser caiado. algumas pequenas ilhas elevam-se à super- fície das águas. precipitam-se sobre suas presas com gran- de rapidez. mas. e uma prodigiosa quantidade de pás- saros aquáticos. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 317 se algumas casas melhores. da Guia (2) é coroada por um pequeno ora- tório. Nesse lugar a largura do lago já não é considerável. é porque nesse lugar êle fôrma um cotovelo. Mais perto da cidade o panorama ainda mais se embeleza. Príncipe de N I E U W I E D . como se verá. (2) E n c o n t r a . nos terrenos do con- XT ento dos franciscanos. dando ao local efeito dos mais agradáveis. quando por ali passei. que se acha situada. O lago parece limitado por uma montanha coberta por um relvado raso e o verde ten- ro dessa erva contrasta com o tom mais carregado das árvores e arbustos dos arredores. e em uma compilacão muito recente: N. Pedro ou em Guaba Grande. Se o lago parece terminar ao pé do outeiro de que venho de falar. S. Mais longe êle não apresenta m a i s que um largo canal. este. ora reunidos em grupos. e. a pouca distância da cidade achei-me de novo às suas margens. e que tem o nome de Mori de N. A palavra i m a d e s i g n a ê s s e s v a s o s que se f a z e m cortando ao meio as ca- b a ç a s ou o f r u t o da C r e s e e n i i a eujete L . especificou o s pássaros que vivem às m a r g e n s do l a g o de Araruama. êle é mais agradável e mais ri- sonho. à margem oriental dêste último. que apresentam terreno desigual e ornado da mais bela verdura. S.s e em CAZAL. o Sr.

como os animais são man- tidos pelas redeas pelos que vão nas pirogas. Tendo atravessado o rio Itajurú. mesmo em casa de homeiis os mais pobres. A curiosidade tinha a t r a í d o (3) Já mostrei que na "língua geral» Itajurú s i g n i f i c a v a boca de pedra. A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE fica situada a cidade de Cabo Frio. ^ Haviam-me dito que eu podia conseguir asilo no convento dos franciscanos. mas. Minha soli- citação foi duramente recusada. Acostumado a ser alvo de tocante hospitalidade. Em pirogas muito estreitas. Talvez d i g a m t a m b é m Tajurú. . na direção de NE. e. e pre- ciso pagar mais 20 réis por animal. o lago forma um outro'cotovelo para logo unir-se ao m a r . insisti. dêsse lado êle parece limitado por uma praça verdejante. à razão de 20 reis por pessoa. tudo foi inútil. por perder a paciência. não é raro ser e m p r e g a d a no B r a s i l outras á g u a s além dos rios propriamente ditos. Quanto à palavra rio. Na margem opos- ta. sem saber o que fazer. acabei. fechada por todos os lados. ofereci di- nheiro. deixei meu pessoal na sua margem e fui pe- dir ao guardião permissão para passar um par de dias em um campo do convento bem como licença para deixar os animais pastar na montanha. r i a c h o s e beirões. onde me achava. "ordens superiores" eram as desculpas apresentadas. Os cavalos e bêstas passam a nado. vis-a-vis. faz-se a travessia do canal. disse palavras duras ao velho monge e voltei à praia. em corrupçfi". confesso. existem montanhas e não se vê outra casa além da venda em que se pára para atra- vessar o lago e chegar à cidadã É onde existe o co- tovelo referido que se situa o Convento dos Francis- canos . 0 espaço compreendido entre os dois cotovelos tem o nome de Itajurú (3) e representa uma imensa área d'água.

de longe. e sal- picada como a de Saquarema. e. avistei o alto-mar. a pequenas lagunas. Em frente da ca- pela que foi construida no cume da montanha. elas me indicaram uma. será em vão qualquer tentativa de pintar por palavras tamanha magnificência. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 319 para o redor de minha bagagem grande número de c r i a n ç a s . Vou tentar esboçá-lo. para além da restinga que o separa do lago de Araruama. cujas sinuosidades inu- meráveis não poderiam ser descritas e cujas margens. estreita e muito plana. A taixa ae terra que limita o lago. Uma enseada se desenha entre a ponta do Costão. situada a leste da cidade e o cabo cujas montanhas avançam mar a dentro. o lago se contrae numa bacia de forma oblonga. No dia seguinte fui ao convento dos francisca- no^ subindo ao morro a êle pertencente e do qual já disse qualquer cousa. mas isso será unicamente para dar uma idéia segura da posição dos respectivos lu- gares . a elas me dirigi para saber se poderia en- c o n t r a r uma casa para alugar. Antes de desennar o cui velo de que resulta o canal chamado Itajuru. De lá desfrutei o mais belo pa- norama que se me deparara durante minhas viagens. Por tras da capela a vista perde-se sobre o Araruama.s e de novo e lorma o cau*i. não sabendo que fazer dos a n i m a i s . ta- zendo uma curva. depois. capoeiras e pastagens apresem tam a mais bela verdura. a l a r g a . entre os quais intervalos de areia branca assemelham-se. . de arbustos. aonde me instalei mediante o módico aluguel de 320 réis (2 fr. A entrada do rio Itajurú ele se contrae ainda mais. mandei-os ao convento tendo tido o tro- peiro Manoel da Costa a habilidade de reconciliar-me com os monges. revestidas de matas.) por quatro dias.

e foi feliz a idéia de consagrá-la a N. deve ser avistada de muito longe. de toda parte. do lado do sul. (5) Chegaram mesmo a c o n f u n d i r a cidade com o cabo. Imediatamente. Quanto à s s i n u o s i d a d e s da costa. entretanto (4) Acho também Cambuf em m i n h a s a n o t a ç õ e s . descreven- do um ângulo de cêrca de 60°. e enfim para além das terras que limitam o rio I t a j u r ú ainda se avista o mar. da Guia.348 AUGUSTO DE SAINT-HILAÍRE com a figura de um quadrilátero comprido e irregu- lar. que se assemelha a uma lançadeira e que não é dominada por nenhum edifí- cio notável. S. Camboa s i g n i f i c a na l í n g u a dos Índios um lago em que os p e i x e s e n t r a m c o m a maré montante e ficam detidos na maré v a z a n t e . para os l a d o s da extremidade da restinga de Araruama. O interior do distrito de Cabo Frio tem sido até agora mal conhecido pelos geógrafos (5). chamada Passagem. existem pequenos montes que avançam pelo mar p a r a formar a ponta do Costão. uma espécie de aldeia. que. então que. Para além desse cotovelo o lago torna-se de novo muito estreito e é. fica a pe- quena cidade de Cabo Frio. se chama Camboa (4). é entretanto considerada como parte da pequena cidade. elas Hfinta traçadas pelo c o m p e t e n t e a l m i r a n t e ROUSSIN. Segundo o autor citado por PIZARRO. ao longe. À mar- gem desse último canal existe. na margem setentrional de C a m b o a . Na margem oriental do Itajurú. ' ™ a s s e u livro não é conhecido n a E u r o p a e as pesquisas muit fnro + o difíceis. o rio Itajurú. curva-se para c o m u nicar-se com o mar. mu- dando ainda de nome. é eufi- QUe a êSSü respelto 08 dP e j a r geógrafos nada teem a . preciosos documentos são devidos ao e x a t o e laborioso PIZAR- . Em fren- te a passagem. apesar de distanciada 1/8 de légua de Cabo Frio. A pequena capela que foi construída no seu alto. Tal é a vista que se descortina do morro pertencente ao convento dos franciscanos.

rr u ro } SOUTHEY. o v a s o rendeu-se e os canhões de que se achava arma- do f o r a m colocados pelos portugueses à entrada do s a n g r a d o u r o do Araruama ( 7 ) . I. Tendo conhecimento das provocações que essas duas (6) A L P H . Foi ainda de Cabo Frio que em 1568 partiram os franceses. . hlst-. BEAUCHAMP. of B r a a . Rechassados por SALVADOR CORREIA. > 52. O capitão defendeu- se sobre a ponte. 305. I. armado de canhões e de excelente e q u i p a g e m . com os í n d i o s . um comércio de trocas (6). eles continuaram a ir a Cabo Frio onde compravam pau-brasil aos índios (8). A nova vitória dos portugueses não venceu. VILLEGA- G N O N aí tocou e foi bem recebido pelos Tupinambás e o u t r o s selvagens. 312 — PI2. transportou-se a Cabo F r i o com 400 portugueses e 700 indígenas. Um novo navio. g o - v e r n a d o r do Rio de Janeiro. governa- dor desta cidade. Brés. . 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 321 poucos anos após a descoberta do Brasil. seus aliados. e os holandeses seguiam-lhes o exemplo. Êstes chegaram a construir uma pequena fortaleza ao norte do sangradouro e os p r i m e i r o s levantaram uma casa de pedra no lado sul.. aí tinha aportado.. o f B r a a . 304. mas terminou por cair morto. 305. mas. entretanto. Hlst. fez grande carnificina en- tre os tamôios e os remanescentes dessa tribu fugiram p a r a as montanhas. Hlst. Hlst. ANTÔNIO SALEMA.. Mem. Mau grado essas pre- cauções os franceses não cessaram de comerciar com os t a m ô i o s . a chamado dos T a m ô i o s . 304. fize s ram uma última tentativa para se apoderarem do território do Rio de Janeiro. quando. a obstinação dos negociantes f r a n c e s e s . (7) SOUTHEY. em 1572. forçou os f r a n c e s e s a depôr as armas. os franceses recuaram até Cabo Frio. esse lugar era já célebre entre os franceses que aí faziam.

para a zona tórrida. mas êsse lugar foi enfim suprimido por um decreto de 30 de Outubro de 1730. uma aldeia de índios e um forte sem soldados. para lá seguiu com alguns portugueses e induziu os índios de Sepetiba e da província do Espírito Santo a se reu- nirem a ele. a pretensa cidade apenas se compunha de algumas dú- zias de portugueses. durante os meses de Junho e Julho são muito frios. o rei FELI- P E II ordenou a GASPAR D E SOUZA. que então se achavam no cabo com cinco navios carregados de pau-brasil. CONSTANTINO D E MENE- LAU. O promontório chamado Cabo Frio deve seu nome aos ventos aí dominantes e que. Apesar da cidade ficar a duas ou três léguas do c a b o êle serviu para batizá-la. com o título de capitão-mor. ESTEVÃO GOMES que havia feito grandes sacrifícios para rechassar os corsários estran- geiros. então capitão-tnor do Rio de Janeiro. governador do Brasil. Durante mais de um século o Cabo Frio continuou a ter governadores particulares. c o m o . foi nomeado governador da província. aí se fundou uma vila a que se deu o nome pom- poso de cidade. o estabelecimento de uma colônia portu- guesa em Cabo Frio e a fortificação dêsse lugar. M E N E L A U destruiu o forte bem como a casa dos franceses e. O território de Cabo Frio tornou-se então numa pequena província e. Nos atos públicos ainda se dá à vila o nome de cidade. em 1615. tanto quanto fosse possível. sem se preocupar com o inconveniente que resultaria do entulhamento do sangradouro do Araruama. que ela recebeu. Os holandeses. foram expulsos da região. aí mandou atirar os ma- teriais dos edifícios demolidos.322 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE nações faziam aos navios portugueses. título tão pouco acertado que em 1648.

recentemente. h i s t . palavras às quais não acrescentam nenhuma qualificação e dão o nome de "cabo". (11) E x p l i q u e i era m i n h a 1. (10) PIZ. A cidade de Cabo Frio depende da Comarca da Capital. da Coleção Brasiliana) e s e g u i n t e s ) . "câmaras". p á g . I. 304. está hoje reduzida a três ou quatro léguas e conta cêrca de duas mil almas. de uma paróquia. quanto à cidade de Cabo Frio eles chamam sempre "Cabo F r i o " . fo- ram eles substituídos por um "juiz de fora" e é este que recebe o dízimo das casas que o ouvidor do Rio de Janeiro vinha anteriormente receber cada ano (11). A paróquia de Cabo Frio. mas. "juizes de fora" e "juizes ordinários". ao promontório (9). Vol.» Rei. Mem. JOÃO VI ao Brasil não havia aí outros magistrados de primeira instância além de "juizes ordinários" . . 1 4 2 . de uma justiça. quando os habitantes da região se referem à "cidade" é ao Rio de Janeiro que aludem. que lhe atribue um viajante moderno. . 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 323 disse. Mas. à época de sua fundação e que é reservado or- dinariamente às cabeças de dioceses. II. (9) P e l o v i s t o n ã o ê e x a t o dar à cidade de Cabo Frio o nome de V i l a do Cabo Frio. 359 (Corresponde ao Volume 126. Cabo Frio é ao mesmo tempo capital de um dis- trito de milícia ou guarda nacional. após ter tido outrora vinte léguas de comprimento. simplesmente. Antes da chegada de D. A jurisdição dessa câ- mara foi então estendida até à província do Espírito Santo. mas a criação de várias vilas foi diminuindo essa jurisdição e atualmente ela é de poucas lé- guas (10). Aí por meados do século XVII foi criada uma câmara municipal na cidade. o * que são "ouvidores".

de que ve- nho de referir. Dos 2. se me não e n g a n o . a p a r ó q u i a de Cabo F r i o compreendia 11. m a s hoje ela n ã o c o n t a m a i s de 7. bem como os pequenos pedaços de madeira. (12) PIZARRO diz que outroz^a. pequenas. . que c o m p õ e m a sua armação. e m s e u cálculo* de t ô d a s a s r e d u ç õ e s feitas. Pedro dos í n d i o s .000 indivíduos.000 adultos.600 a l m a s . transversais. E s s a população. E' a o próprio v i g á r i o de Cabo Frio que devo a s i n f o r m a ç õ e s aqui r e g i s t r a d a s e. já disse que essa cidade está situada à margem oriental de um grande canal chamado rio Ita- jurú. prolongamento do lago A r a r u a m a . O interior dessas míseras moradias corresponde ao exterior e demonstra pobreza. da grossura de um dedo. vendo-se entre eles poucos negros e muito menos mulatos. Já descrevi a topografia de tôda a região vizinha de Cabo Frio. i s t o é. mas a maior parte destes últimos acha-se disseminada pelas pro- priedades rurais das vizinhanças. enfim acres- centei que ela ficava no fim da faixa de t e r r a (restin- ga) que separa o lago do mar e que apresentava a for- ma de uma lançadeira. para o s l i m i t e s hoje m u i t o restritos da paróquia. deixam ver a terra vermelha com que foram cons- truídas. e os grandes pedaços de reboco caidos da maipria delas.324 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE compreendendo as pessoas de côr (12). J o ã o da Barra e S. com janelas estreitas. seria imensa. e t a l v e z t e n h a m e s m o incluido a s p o p u l a ç õ e s de S. Só a cidade abrange mais da metade dessa população e conta cêrca de duzentos fogos. mas baixas. o título pomposo com que a enfeitavam. Os habitantes da cidade são na maioria brancos. quase mil são escravos. E' p o s s í v e l que o a u t o r das Memórias não tenha f e i t o conta. À exceção de 5 a 6 casas assobradadas todas as outras são térreas. mais que em 1648. Essa cidade não merece atu- almente. i n d i c a d a de m o d o m u i t o vago. não p o s s o deixar de crer que m e r e c e m a l g u m a c o n f i a n ç a . s e m d ú v i d a q u a n d o tinha vinte l é g u a s de comprimento. P°r conse- guinte. são cobertas de telhas.

se assemelha a uma lançadeira. que limita a maior das duas praças de Cabo Frio. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 325 À entrada da cidade. triangular como a primeira. de toda essa disposição deve resultar uma forma que. vão dar a uma outra praça. existe uma grande área de terreno baldio onde cresce em abundância uma sali- cornia que eu já havia colhido próximo do Rio de Ja- neiro. por assim dizer. atravessadas por al- gumas outras muito estreitas. . S. Adiante dessa área acha-se o arraial da Pas- sagem. enquanto que do outro lado ele parece ter por limite um terreno des- igual e dotado de bela verdura. que é tido como parte integrante da cidade. enfim de um lado vê-se o convento dos franciscanos e o. Essas três ruas. a chamada rua da Praia. na qual fica a igreja paroquial e que termina por uma rua única. há uma pequena praça que forma um triângulo cuja ponta fica em direção ao monastério. como. Nada mais bonito que a vista que se goza des- sas casas. algumas embarcações. e à base do qual co- meçam três ruas arqueadas mais ou menos paralelas ao rio Itajurú. formada por uma única fila de casas. e. não há nenhum movimento na cidade. como disse. vegeta por tôda parte um gramado muito fino e de belo efeito. As praias e as ruas não são calçadas. parecem limitar o canal. A extremidade dessa rua. Além das ruas de que venho de falar há ainda uma. Ê fácil concluir que. quase sempre. muito larga. que. para além do lago ficam as montanhas que o limitam e a venda próximo da qual se embarca para ir ter à cidade. do lado do convento. como se viu. mas muito maior. melhor cons- truída que todas as outras. à margem do lago. da Guia. morro de N. Diante delas estende-se o canal de Itajurú onde circulam.

. pouco ornamentada. Bento. A igreja paroquial é maior. e (13) PIZ. tendo sido. FREYCINET) de profundidade. s.76 a lm. ha- via sido fundado por 16 religiosos (14) e contava na ocasião apenas 3. Nesse espaço o canal de Camboa parece um rio. pareceu-me muito bem conservado e. entulhada pelos escombros dos for- tes demolidos. pelo exterior.344 AUcUtSTO DE SAINT-HILAIRE e fica à margem do canal de Camboa. 137. mas em relação ao número de seus moradores êle não é pequeno.. quan- do por ali passei. C. Êsse monastério não é muito g r a n d e . construido em 1686 (13). concordando bem com a pobreza das casas que a cercam. Estas duas últimas não passam de pequenas capelas que. extremamente limpo e cercado de construções. São Be- nedito. o rio Itajurú depois que se dobra em di- reção ao mar. Além da igreja do convento há ainda mais três na cidade de Cabo Frio. não tem hoje mais de 8 a 9 palmos (lm. H e l e n a ) . sem teto. Do arraial da Passagem ao sangradouro do Ara- ruama (barra). mas que ainda não se acha- va terminado. (14) L. S. como se viu. Mem. havia sido recentemente caiado. II. pode haver meio quarto de légua. De um dos lados da igreja fica um pequeno claustro quadrado. mas é irregular. hlst. a igreja paroquial dedicada a N. pareceram-me em muito mau es- tado. da Assunção (outrora a Sta. O convento dos franciscanos. pertencente a Passagem. e enfim S. nome que toma. como vimos.98. em sua extremidade êle descreve uma curva e enfim se une ao oceano por uma estreita abertura que.

. . Exceção feita da serra do Caraça e das vizinhan- ças da Penha. no meio dos quais elevam-se vários cactus. e n t r a m t a m b é m no s a n g r a - d o u r o de Cabo Frio. estende-se um relvado de bela verdura. q u e e m u m a d e s s a s ilhotas. q u a n d o se d i s s e q u e o cabo F r i o era um p r o m o n t o r i o rochoso. que u m a l a g u n a s e p r o l o n g a v a em s e m i c í r c u l o no interior das terras. e que à s s u a s m a r g e n s e s t a v a s i t u a d a a cidade de Cabo Frio. não creio ter achado. é dividido desigualmente por uma ilhota. . Para além dêstes a ilhota eleva-se brus- camente para formar um montículo arredondado. d i a n t e do q u a l s e a c h a m a l g u m a s i l h o t a s da m e s m a n a t u r e z a .. uma região mais interessante para a botânica que essa península . 6sse p e q u e n o í o r t e tem o n o m e de " F o r t e de S. (17) T u d o q u a n t o se t e m e s c r i t o a t é aqui sôbre a topo- g r a f i a d a s t e r r a s de Cabo F r i o dá idéia pouco e x a t a do l u g a r : por ex. desde o comêço de minha viagem. onde foi construída a mesquinha casa a que é dado o nome pomposo de fortaleza (16). p r ó x i m a s d a c o s U . e do lado existem tufos de arbustos de copa quase esférica. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 327 onde não podem navegar senão pequenas lanchas (15). (16) S e g u n d o P I Z A R R O e CAZAL. cortada ao meio. m (15) P I Z A R R O d i s s e ( M e m . no declive do montículo.s e p e q u e n a f o r t a l e z a que d e f e n d i a um p o r t o . que se renovam de quinze em quinze dias. Êsse é obrigado a dar aviso. e que são coman- dados por um simples cabo. c e - v a v a . Mateus". por assim dizer. II. 178) que a s a ™ * « » " ' e m b a r c a ç õ e s u m p o u c o m a i o r e s . m a s q u e s ã o o b r i g a d a s a esperar a mare m o n t a n t e Dara e v i t a r o s e n t u l h o s . na província de Minas. e no lugar da inter- rupção vêem-se apenas rochedos enegrecidos. 0 sangradouro apresenta um aspecto muito agradá- vel. Diante dessa pequena construção. ao coronel do distrito. h i s t . Ao longe avista-se o cabo Frio e o alto mar.•• . da entrada e da saída de embarcações que passam pelo embarcadouro (17). O pretenso forte é guardado por seis soldados da milícia ou guarda nacional. quase à flor dágua.

v e r . indica-a como e x i s t e n t e nos arredores do Rio de Jaueiro. j mas que se nãr>. v e r . à P H i s t . crescem aqui e acolá.encontra nenhuma província da Mina. e eu não observei nos arredores dessa capital nenhum gênero de v e g e t a ç ã o que se parecesse com as das r e s t i n g a s . Que deve dizer um brasileiro. mas. des p l a n t e s l e s p l u s remarquables. chato e uniforme é consti- tuído de puro areial.. diariamente aí se en- contravam grande numero de plantas interessantes. Arbustos de quatro a seis pés. e. (19) Vide minha introdução à Histoire de» plantes les plus rcmarquebles du Brésil et du Paraguai". (Introd. . O ilustre D E CANDOLLE inserindo e s t a espécie em s e u útil Prodromns (IV. quando em uma obra de história natural muito apreciada e recente.á que e x i s t e no Brasil. Du- rante o tempo que passei em Cabo Frio herborizei to- dos os dias nessa península. e cactus de hastes nuas e erejtas. m a s a f a i x a de terra onde encontrei a Loranthns r o t m i d l f o l l u s f i c a a 30 l é g u a s por terra e 18 por mar da Capital do Brasil. 292). as numerosas espécies a que pertencem teem cada uma um porte e uma folhagem que lhes são pró- prios . X X I ) . não menos abundante em suas espé. j cies que em indivíduos. P e n s o que os n a t u r a l i s t a s deviam ter o maior cuidado na exatidão das localidades que indicam. uma Lo- ranthus (18) espalha-se de qualquer jeito sôbre as [ Eugenia.s e .328 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE ou restinga que separa o oceano do Araruama.s e . pág. êle encontra a província da Mina e a de Cftntagalo? Consultando a l g u n s livros de g e o g r a f i a um pouco modernos. uma província de Minas ou Minas G e r a i s . apre- sentam-se em geral sob a forma de tufos isolados. S. Dir- se-ia ura jardim inglês no qual o artista tivesse dis- posto os arbustos de acordo com suas afinidades e contrastes mais felizes (19). H i l . Aí domina a família das Mirtáceas. . pequenas lianas sobem em seus r a m o s . contrastam com as massas de folhagem que as envolvem. Sem dúvida foi levado a e s s a a s s e r ç ã o pela intro- dução muito resumida que quis citar. Por tôda parte o terreno.á ainda que Cantagalo não passa de uma p e q u e n i n a vila da pro- víncia do Rio de Janeiro. entre as plantas dêsse grupo : (18) Lorantlms r o t i i n d l f o l i n s A u g . por ex. e. ramificados desde a base.

n o t á v e l por s u a s corolas amarelas. No meio de todos esses arbustos. a outra de f l o r e s esverdeadas (Andrômeda revoluta) e uma Cuphea (Cuphea f l a v a ) . ao Sr. sobre a areia branqui- centa. verdadeiramente detestável. entre as plantas interessantes de Cabo Frio. No trecho do litoral que percorri até então era-se privado de uma vantagem que se goza em Minas — a de beber uma água excelente. A que se bebe na cidade de Cabo Frio apresenta uma particularidade singularissima. diz o autor das Memórias histórica» (11. apresenta ao mesmo tempo uma côr de ferrugem muito intensa. esbranquiçada. entre suas folhas bri- lhantes. (21) I n f o r m a r a m . não obstante asseguraram-me que elas perdiam tal sabor quando se tinha o cuidado de deixá-las repousar. assim como em S. e.. Pedro ela torna-se turva. . S. É à péssima qualidade das águas que se atribuem. apesar de for- necida por diversas fontes é em toda parte da mesma natureza. e. que os ani- mais não temem comer a p l a n t a em apreço: (Notes on Brás. Perfeitamente límpi- da e sem nenhum gosto. Todavia quando descia o morro de N. 315) e se m e não e n g a n o e s s a a s s e r t i v a é comprovada por mi- nha a amostras.) que mostram ao mesmo tempo. Suas águas teem também uma côr de fer- rugem ou â m b a r . da Guia fui ver uma fonte um pouco diferente das outras. duas Ericáceas. uma de f l o r e s ver- melhas (Gaylnssacia pseudo vacefnfum). Pouco depois do Rio de Janeiro a água deixa de ser boa. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 329 posso citar as pitangueiras (Eugenia Michellii Lam. mas achei-lhe um gôsto ferrugino- so muito pronunciado. percebem-se apenas. na região. A Ioniditim ipeca- cuanha é uma das mais comuns (21). as fe- (20) N ã o posso deixar de assinalar ainda. LUCCOCK. 153). es- pessa. em Guaba Gran- de. algumas ervas esparsas. . flores alvas e os belos frutos vermelhos de que estão carregadas (20).

88) um f a r m a c ê u t i c o em Cabo Frio.. e. . Os en- fermos dirigem-se a mulheres que teem. I. Eyr. que as brisas do mar l i m p a m e p u r i f i c a m a a t m o s f e r a " .330 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE bres. . e. porém sem a necessá- ria habilidade (23). Entre os primeiros há alguns que possuem 9 a 10 negros e que teem uma dessas (22) Na verdade o Príncipe de N E U W I E D m e n c i o n a (Heis. Mem. não existem na região. Ao redor da cidade de Cabo Frio o solo é cons- tituído somente de uma areia pura. como se v ê e m em Minas. I. que. 124). vindo em seguida o do frio. e s c r i t o r muito exato. h i s t . que com a l g u n s remédios vendem m u i t a s outras c o u s a s . assolam o território de Cabo Frio. ao que parece. Observei os ventos muito violentos durante minha es- tada nessa região. 84 o u V o y a g e Brés. e não poderá ser cultivado. II. O tempo do calor co- meça no mês de Agosto e vai até Março ou Abril. diz o Sr. Demais. diz e x p r e s s a m e n t e que n u n c a h o u v e na cidade de Cabo F r i o "farmacêutico estabelecido com f a r m á c i a aberta". infelizmente. Mas êsse cientista. Os ventos que aí se fazem sentir mais frequentemente são os de N E durante a estação quen- te e os de NW durante a fria. 152. Muita op-ente se mete a fazer sangrias.. nem farmacêuticos (22). X. de NEUWIED ( R e i s . asseguraram-me que o ar aí nun- ca é calmo. cada ano. trad. se Cabo Frio não é uma região muito salubre é de crer-se que ainda o seria menos sem os ventos que. mas que são de profunda ignorância. é verdade. a p e n a s e n t r e v i u e s s a parte do litoral e é a s s a z p o s s í v e l que o h o m e m de que êle f a l a s e j a um d e s s e s negociantes. do qual. a l i á s se queixa. PIZARRO. Todos os seus habitantes são pois pesca- dores ou artífices. como disse. (23) PIZ. algumas idéias ligeiras sobre as propriedades das plantas. médicos. (24) "Os h a b i t a n t e s de Cabo Frio pretendem. . Essas doenças periódicas exigiriam os cuidados de al- guns homens de ciência. aí sopram sem cessar (24).

Êsses h o m e n s . pene- t r a r a m o interior do Brasil. aven- t u r e i r o s . carregam cargas. a 700$000 (3. mas alguns entre eles não eram destituí- dos de educação e todos possuíam alma forte e per- s e v e r a n ç a . andam descalços e enfim. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 331 p e q u e n a s embarcações chamadas lanchas. essa estupidez que eu havia observado desde o Rio de Janeiro nos colonos do litoral. Os próprios . F i c o u dito que em 1618 existiam apenas algumas d ú z i a s d e brancos e uma aldeia de índios em Cabo F r i o . eram. conheci um que era caixeiro de um mulato. mestiçagens alteraram então nossa raça e não serão os reforços que ela recebeu posteriormente que p o d e r ã o retorná-la à sua verdadeira dignidade. sem dúvida. en- tregam-se sem acanhamento a serviços que um minei- r o olharia c o m o deshonroso. brancos vão buscar água e l e n h a . todavia. No- tei nos colonos de Cabo Frio essa frieza. aí pelo começo do século XVII. os que povoaram as costas e s t é r e i s de Cabo Frio. Ao contrário. cujo valor a s c e n d e . essa indo- lência. não podiam ser senão deser- t o r e s o u criminosos banidos da pátria e que não ti- n h a m coragem para ir além do primeiro asilo q u e se lhes apresentasse na rota. m a s a i n d a m a l sortidas.750 fr. são. os mais ricos da cidade. quando novas. Êsses homens terão a i n d a sido enervados pelo calor do clima e pelo ar dos pântanos. Pode- se dizer que em geral reina em Cabo Frio uma grande pobreza. os b r a n c o s . Como os escravos são raros.). q u e formam quase tôda a população. e uma parte de seus defeitos deve ne- cessariamente ter sido transmitida aos pósteros. e as vendas são não somente pouco numerosas. há apenas três ou quatro lojas de manti- m e n t o . Os h o m e n s que. cujos capitais não vão além de 25 a 30 m i l f r a n c o s .

apresentei-me em casa de duas das personagens mais notáveis de Cabo Frio: élas nem ao menos se dignaram pagar-me a vi- sita. En- (25) Um m o d e r n o compilador.332 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE cidadãos que se acham em nível superior à maioria. É verdade também que esse pro- fessor. Mem. . ele não tinha nenhum interesse em atrair grande número de discípulos. além dos que desejam seguir a vida eclesiástica. e s c r e v e u que e x i s t e m em Cabo F r i o v á r i o s pro- fessores de latim. 145. que devem ser pagos pela admi- nistração. ninguém se dedica ao latim. esquecido pelo governo. sendo forçado a dedicar-se ao comércio. estupidamente ocupados em me olharem es- crever. para viver. ao tempo de minha viagem o professor somente tinha dois alunos. Mas a extrema apatia dos habitantes des- se lugar afasta-os dos estudos. c o m p r e e n d e n d o mal o que disse CAZAL. . I s s o não é verdade. mas ainda o desprezo pelas artes mecânicas (26). h i s t . os principais habitantes das cidades vão visitar o estrangeiro logo que este chega. II. porquanto passavam horas seguidas sem proferir palavras. Diariamente eu era importunado por uma mul- tidão de crianças e rapazes que entravam em meu quarto ou se comprimiam diante de minha janela. por sua educação. Na província de Minas Ge- rais. não são mais polidos que o restan- te de seus compatrícios. e. Há em Cabo Frio um mestre-escola e um pro- fessor de latim (25). A paixão que os habitantes da região teem pela pesca inspira-lhes não somente o desamor ao estudo. (26) PIZ. havia sete anos que não recebia o ordenado que lhe era atribuído e. mas não era pelo barulho que se tornavam importu- nos.

há. Êstes enviam por con- ta própria ao Rio de Taneiro o produto de suas t e r r a s . mas a maioria dos outros agricultores. que se prendem a duas grandes varas ligadas em s u a s extremidades. a s da CAZAL e PIZARRO. à época de minha viagem aí havia três sôbre os estaleiros. N ã o o u v i pronunciar e s s e v o c á b u l o de m o d o diferente do q u e aqui e s c r e v o e m i n h a o r t o g r a f i a e igual. à margem . menos ricos. nas vizinhan- ças da cidade. (27) O s á b i o F R E Y C I N E T disse. o óleo preto e o óleo vermelho são as preferidas. Usam. em canoas. lhe deram no R i o de Janeiro. 1 DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL 333 tretanto dedicam-se. longas redes com a forma de coa- dor. a uma indústria que não é sem CIO C a i > . . 1 importância: aí constroem grande numero dessas pe- q u e n a s embarcações a que chamam lanchas. pescadores e artífices. para apanhar e s s e s crustáceos. que a palavra ®6 de vários modos. próximo de Passagem. vão os pes- cadores para o meio do canal: prendem as redes perto do barco e acendem uma grande tocha. À noite. abundantes principalmente no _ i a l chamado Rio I t a j u r ú . \s madeiras que e m p r e g a m veem do interior. um gran- de número de cultivadores e entre eles dois proprie- tários de engenhos de açúcar. .) a arroba. Pela módica quantia de 80 réis (50 c. 1 de Camboa. entretanto. Quanto ao peixe fresco. e ven- dido a 4 patacas (8 f. A região é ainda afama- da por seus camarões. para além dos tristes areiais. c o m o disse. Atraídos p e l a luz os camarões e n t r a m nas redes sendo colhidos em grandes quantidades. Se os habitantes de Cabo Frio são. e. Não é somente à pesca de peixes que se entregam os habitantes de Cabo Frio. a su- cupira (27).) adquiri-os em porção suficiente para todos os m e u s empregados.

. por exemplo. Comprei ai (28) Corruptela de atravessadores.) por saco de 2 alqueires (30) . além disso teem que arcar com os pesados impostos que gravam os comestíveis oriundos do Rio de Janeiro. 44 c. e q u i v a l e m . é de 18 lé- guas portuguesas. Acorrem também aos arredores de Cabo Frio negociantes da Baía.334 A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE vendem seus produtos a negociantes da Capital. (30) 2 a l q u e i r e s no R. mas êle não é de qualidade superior. a 80 l i t r o s . É fácil con- cluir que êsse gênero de comércio deve ter para a re- gião inconvenientes graves. com uma pequena embarcação e bom vento. e a que dão o nome de travessadores (28). Os sacos em que são acondicio- nados os produtos da lavoura local são feitos com te- cidos de algodão provenientes de Minas Gerais ou da província do Espírito Santo. que. Pedro dos índios (29). O transporte de Cabo Frio à Capital é pago à razão de 12 vinténs (1 f. Cultiva-se também um pouco de algodão nos arredores de Cabo F r i o . e. por mar. mas êstes limitam- se a adquirir farinha de mandioca. Os travessadores fazem adiantamentos aos agricultores e adquirem pre- viamente certa quantidade da colheita. de J. acontece que por várias vezes os habitantes da cidade ficam em dificuldade para obterem os in- dispensáveis alimentos. (29) Indiquei em p á g i n a s anteriores os preços correntes à época de m i n h a v i a g e m . Como os lavradores fa- zem compromissos cuja execução deve absorver toda a colheita. que os veem procurar na região. seg. a carne sêca. pode-se fazer em um dia a viagem. F R E Y C I N i ^ x . É desnecessário dizer que os preços daqui são iguais aos da aldeia de S. e os colonos reser- vam-no geralmente para o uso de suas famílias e em particular para as roupas dos negros.

ou se se quizer. p á g . à do anil. enfim em al- guns lugares uma pequena palmeira chamada gurirí cujo caule é subterrâneo e as folhas radicais. Não queria passar pela cidade de Cabo Frio. à extremidade oriental dessa espécie de quadrado largo em que ter- mina a restinga de Araruama. . II. v o l . . à extremidade sudeste da restinga de Ara- (31) P I Z A R R O diz (Mem. Para além dessa praia vêem- se então gramíneas. . chama-se Praia do Pontal. t r a d . S. uma espécie de Amarantácea cujos longos caules alastram-se sobre a areia. I. m a s que a f a l s i f i c a ç ã o do produto f e z d e c a i r a i n d ú s t r i a c o m o a c o n t e c e u . Afastando-se bem do mar encontra-se então a vegetação de restingas. A s a m o s t r a s de gurirí c o l h i d a s pelo príncipe d e N E U W I E D f o r a m d e s c r i t a s na A l e - manha sob o n o m e de Allagoptera pumila. o u V o y a g r e B r é s . e compõe-se de um areial puro. E Y R . perfeitamente branco e sem vegetação. ao preço de 4 patacas a arroba (31). a primeira terra que havia avistado ao chegar ao Brasil. No lugar em que termina a praia do Pontal. . 67. . (32) o príncipe de N E U W I E D m e n c i o n a e s s a p a l m e i r a e diz q u e e l a s e c h a m a t a m b é m p i s s a n d f l ( R e i s . h i s t . 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 335 uma pequena quantidade de que necessitava para em- balagem de minhas coleções. vivendo em sociedade cobrem grandes áreas (32). I. 149) que d u r a n t e a l - g u m t e m p o a c r i a ç ã o de cochonilhas foi por m u i t p t e m p o e x - p l o r a d a e m Cabo Frio. Apôs ter saído da cidade. A praia margeante a enseada prolonga-se de norte a sul. cujos frutos são muito pequenos e dispostos em espigas den- sas como as do milho. que já fiz conhecida e que se compõe de arbustos esparsos e se- melhantes a tufos. da Guia e que se estende ao sul da ponta do Costão. sem ir ver o cabo. contornei toda a enseada que se avista do morro de N. e que. 95).

Aí deixei de contor- nar a praia e. As elevações que rodeiam a Prainha apresentam vegetação assaz raquítica. penso. algumas cabanas de pescadores. F R E Y C I N E T . H a v e r á a l g u m êrro n a s i n d i c a ç õ e s que me foram dadas nos próprios l u g a r e s que m e n c i o n o ? H a v e r á ocorrido a l g u m êrro n a carta a que m e r e f i r o ? Os h a b i t a n t e s de Cabo Frio darão o nome de ilha dos p a p a g a i o s a d u a s ilhas a o m e s m o tempo? S ó m e n t e n o v a s p e s q u i s a s t o p o g r á f i c a s na região poderão r e s o l v e r e s s a s dúvidas. Distinguem-se nesses montes: um cactus espinhoso cujas numerosas hastes crescem como candelabros. E s t á claro que não foi a ilha dos P a p a g a i o s c o n s i g n a d a por F R E Y C I N E T que a v i s t e i a o chegar a essa extremidade. no meio dos areiais. Pedro. começa o conjunto de terras que. publicado pelo Sr. Aí vejo a ilha dos P a p a g a i o s colocada ao lado do s a n g r a d o u r o do A r a r u a m a e uma ilha chamada tio Posstal situada em f r e n t e à e x t r e m i d a d e sul da praia do Pontal. Chegado à extremidade chamada canto do Pontal. grandes áreas. confundem seus ramos numero- sos e formam u'a massa de folhas ovais. avis- tei. Ponta de S. cheguei a uma outra enseada. na direção SE. No canto do Pontal existem. uma Mirsinácea que ultrapassa ordinariamente a altura de um homem e que vive em sociedade. brilhantes. porque serve de asilo a um grande número dessas aves (33). a que dão o nome de Ilha dos Papagáios. Esta ainda é muito me- nor que a da praia do Pontal e tem o nome de Prainha (34).336 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE ruama. de (33) Creio dever c o n s i g n a r aqui a l g u m a s d ú v i d a s que me inspiraram a inspecção do belo m a p a da p r o v í n c i a do R i o de Janeiro. dispostos em verticilo. uma ilha deserta. na c a r t a do Sr. passando por trás de uma ponta de terra que pertence ao conjunto de Cabo Frio e que tem partes cultivadas pelos pescadores do canto do Pontal. formam o cabo Frio. ela só. Os diferentes pés desta última planta são muito agrupados. FREYCINET. próximo da praia. (34) E' chamada. projetando-se oceano a dentro. . ocupa.

Essa enseada. adiante da Ponta de Leste existe outra pequena ilha. por assim dizer. dá-se mais particularmente. significa. que se estende mais ou menos de norte a sul. Após ter contornado o fundo da enseada da Prai- nha voltei a percorrer terras afastadas do mar. quando vem da Europa para o Brasil. ilha por excelência (35). é ela sobretudo que avista o navegador. limitada. o nome de Cabo à Ponta de Léste e à ilha que lhe fica em frente. um pouco menores que as da laran- jeira. que. ilha principal. m a s eu n ã o o o u v i na r e g i ã o e êle n ã o é c i t a d o por PIZARRO. deve necessariamente haver três canais ou estreitos dando acesso do alto mar às enseadas do Forno e do A n j o . na região. pertencerem realmente ao cabo Frio. F R E Y C I N E T . muito profunda. Existindo duas ilhas em frente à terra firme. Em f r e n t e à Ponta do Porco existe uma pequena ilha chamada Ilha dos Porcos. Também. . Passei então por trás de um promontório que se projeta no mar na direção sudeste. E' esta última que forma a parte mais avançada das terras de Cabo F r i o . em duas partes desiguais cuja mais setentrional. à esquerda e à di- reita por montes. apesar de todas as terras que se projetam no oceano. no caso. (35) E s t a iLha é d e s i g n a d a sob o n o m e de I l h a d a T r o m b a . chama-se Praia do Forno e a meridional: Praia do Anjo. a menor. passado este achei-me diante de uma terceira enseada. depois do limite meridional da Praia do Pontal. é dividida por uma projeção de terra. encantado. Al- gumas vezes também se designa esta última pelo nome de Ilha. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 337 um verde escuro. O conjunto é limitado por um lado pela Ponta do Porco e do outro pela Ponta de Leste. na carta e n a b e l a obra do Sr.

dos R e m é d i o s s i t u a d a na P r a i a do Anjo. do que digo. sem dúvida pela ação do v e n t o tomaram uma posição de tal modo oblíqua que se acreditaria que iriam tombar. 1 3 6 ) ' . bem conservada.338 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE o primeiro entre a Ponta do Porco e a ilha do mesmo nome.m o se dedica à pesca. sobre as quais descansam os madei- (36) Vê-se. dedicada a N. o segundo entre as duas ilhas. que. dos R e m é d i o s ê uma paróquia ou u m a a l d e i a ^ ^ a l ao norte da pequena ilha dos F r a n c e s e s . construídas de pau a pique e barro e acham-se em muito mau estado. mas na Praia do Anjo. podem aí entrar por diversas aberturas e que aí encontram um abrigo seguro. mas. que há e n g a n o e m deolarar a^e IS. Al- gumas mesmo. diz e x p r e s s a m e n t e : N p s " » " e s u^ paróquia de N . b. Não se encontram habitantes na praia chamada Praia do F o r n o . dos Remédios e de uma vintena de c h o u p a n a s construí- das desordenadamente na praia e entremeadas de ar- bustos (36). segundo os ventos. O que se acha entre a Ponta de Léste e a Ilha chama-se Bo- queirão de Léste. cobertas de colmo. P I Z A R R O em> g tão e s c r u p l o s a m e n t e exato. Os esteios colocados nos quatro ângu- los dessas casas não são lavrados e terminam por pe- quenas forquilhas. . o terceiro entre a ilha 'propriamente dita e a Ponta de Leste. baixas. S. onde m . a c h a . o nome de Bo- queirão' do Sul. encontra-se um pequeno povoado. O estrei- to canal que separa a Ponta do Porco da ilha do mesmo nome chama-se Boqueirão do Nordeste. onde parei.s e a c a P - de N . 3 . . tomando direção de léste a sul ele tem à sua extremidade meridional. II. Êste compoe-se de uma pequena capela. da A s s u n ç ã o de Cabo Frio. mal iluminadas. E s t a capela foi c o n s t r u í d a por Antonio Luiz Pereira e outros p e s c a d o r e s ( M e m . A enseada da Praia do A n j o é extre- mamente útil às pequenas embarcações de cabotagem. S. Essas choupanas são pequenas.

senão em pequena quantidade. Todos os habitantes da Praia do Anjo dedicam-se à pesca e. o peixe fres- co. p á g . mau grado pertencerem e serem habitadas por brancos. cuja abun- dância é prodigiosa e constitue delicado manjar. e. Remetem parte do peixe sêco ao Rio de Janeiro e outra parte vendem aos agricultores das vizinhanças que o empregam na ali- mentação dos negros. framinguete. a cada passo encontra-se. como rica em variedades de peixes. estas servem de apoio a outras varas. da Coleção Brasiliana). mas eu estava longe de esperar (37) Vide m i n h a 1. o indício de suas ocupações habituais. As mulheres deviam naturalmente estar vesti- das com algum asseio. II. êles escamam e limpam o excedente. e é nessa espécie de soalho gradeado que se expõe o peixe a secar. À beiramar vê-se um grande número de paus com forquilhas que sus- tentam varas horizontais sobre as quais são estendidas as redes molhadas. no povoado. .» Rei. p á g \ 42.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 339 r a m e n t o s da coberta. (Corresponde a o Volume 126-A. 41. O dia em que pernoitei na Praia do Anjo era do- mingo... essas cabanas a p e n a s são comparáveis à s da Aldeia dos Macumís (37). Cada seca- douro é frequentemente composto de três fileiras de esteios com forquilhas que recebem varas transversais. junto às casas existem os seca- douros dos peixes destinados à conserva. da cabeça à cauda. salgam-no e põem-no a secar nos secadouros descritos. sarda e principalmente a tainha. cavala. Em uma palavra. Os mais comuns são os conhecidos na re- gião pelos nomes de: enxova. Como os pescadores de Cabo Frio não podem vender nem consumir. Não somente a pesca é extremamente abundante nas vizinhanças de Cabo Frio. grassuma. fendendo os peixes. vol.

mas aí vi uma cesta cheia de bas- tões de pomada que o botequineiro estava certo de vender às moças do arraial. traziam seus longos cabelos presos no alto por uma travessa. todas as mulheres que vi desde o Rio de Janeiro tinham modos absolutamente semelhantes. elas não^apresentam nada parecido com as camponesas européias. Foi em vão que ofereci dinheiro a crianças andrajosas para . uma cama e alguma louça. mas eu prefiro mil vezes a rusticidade destas últimas ao ar frio. Essas mu- lheres. não fogem como acontece às senhoras de Minas. quando vemos que as moradoras dos sertões demonstram tanta "coquetterie". mas. Assim vestidas achavam-se essas mulheres sentadas nas soleiras de suas portas ou agachadas no interior das choupanas. colares e brincos. desdenhoso e grosseiro das habitantes desta parte do Brasil. toalhas. segundo a moda geralmente estabelecida entre as brasileiras. que não possuíam outro mobiliário além de duas malas. tomei a deliberação de ir à Ponta de Léste. e. o único gênero de embarcações que se encontra aqui. A venda onde passei a noite tinha apenas um pouco de milho. duas ou três garrafas de aguardente e algumas libras de toucinho. como o vento estava muito vio- lento para que eu pudesse atravessar o canal em uma piroga. Não falo aqui somente das da Praia do Anjo. quando avistam um homem. Convenhamos que não podemos nos queixar da vaidade das mulheres das nossas cidades.340 A U G u S T O DE SAINT-H^ILAIRe o singular contraste que me ofereciam as míseras choupanas com a " t o i l e t t e " das suas moradoras. chalés de mus- selina ou de seda. Elas usavam vestidos de musselina bordada. Logo após ter chegado à Praia dos Anjos^ queria ir à ilha do Cabo.

achei-me em b a i x o . passei em se- g u i d a por terrenos cobertos do Cactus e da Mirsinásea que já vira nos montes da enseada de P r a i n h a .terra firme. Chegado ao p o n t o que domina toda a baía. A pesca é mais abundante ainda ao redor da ilha do Cabo que nas costas da. a p ó s ter descido sobre rochedos negros. e. Após ficar mui- t o t e m p o livre e l a foi recentemente arrendada pela câ- m a r a de Cabo F r i o . construídas perto da praia chamada Praia da Ilha. o conjunto dos lugares que já descrevi. De lá avistei o Boqueirão do Sul. . avistei. . à beira do oceano. no tempo de f r i o vão pastar à Ponta de Léste. Meu guia disse-me que os habitantes do arraial possuem algumas vacas. A p ó s termos seguido pela praia chegámos à monta- nha que limita a enseada do Anjo do lado sul e faz p a r t e do promontório a que me dirigia. atra- v e s s e i pastagens naturais de muito boa qualidade. a p o n t a que separa a enseada do Anjo da do Forno. de vegetação muito m e s q u i n h a . somente um velho negro se dis- pôs a servir-ine de guia. o canal que a separa da terra firme o c a b o propriamente dito e a entrada do canal de Leste. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 341 que me conduzissem. como em seguida tornou-se m e n o s abundante deixaram-na novamente livre. P e n e t r e i em um mato virgem. parte meridional do c a n a l que separa a ilha do Cabo da terra firme. as q u a i s . do lado oposto da montanha. a ilha d o s Porcos. de um só golpe d e v i s t a . c o m e n t e i com meu guia a respeito da excelência das p a s t a g e n s d a montanha e demonstrei minha surpresa por não ver aí nenhum gado. mas. que cobre o alto do m o r r o . Voltando da Ponta de Léste ao arraial do Anjo. Para a l é m do canal via a ilha e algumas choupanas de^ pes- c a d o r e s .

No regresso à Praia do Anjo fui ver um forno de cal. próxima do arraial do Anjo. . que queima com extrema facilidade. encontra-se pedra calcárea. que estava iniciada. e. O lugar em que se tira a pedra na Praia do Anjo é plano e pantanoso. e que é também empregada para construção. Servem para isso do tingoassuiba (Zanthoxy- LUM?tingoassuiba A. e que é em tudo semelhante à praia do Anjo. ela é encontrada sob uma camada de terra de cêrca de palmo e meio e é retirada em pedaços por meio de picaretas. preferida às conchas. espé- cie de árvore da família das Rutáceas. o que há de notável é que nas A n t i l h a s dão o n o m e de e s p i n h e i r o amarelo a uma outra espécie de Z a n t h o x y l u m (Z. Êsse nome prova que os índios h a v i a m reconhecido a presença de uma côr a m a r e l a n a árvore em q u e s t ã o . elas são perseguidas pelos mosquitos. Antes do fim do dia fiz ainda uma excursão à cha- mada Praia Grande. onde se vêem ainda algumas choupanas de pescadores. H. existindo em cada um desses três lugares fornos em que se queimam calcá- reos. pode ser e m p r e g a d a eni tinturaria. asse- guraram-me.342 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE mas na estação quente. Êste dia foi (38) T i n g o a s s u i b a parece-me vir das p a l a v r a s tupis t a g o a amarelo e yba árvore.. exclusivamente. O forno é circular e aberto de um lado em toda a sua altura. tendo ao centro uma pilha de lenha em que se atêa fogo por cima. Br. cariíloeuni) cuja madeira. mas próximo à cidade de Cabo Frio. e enfim. 78) (38). a cal é feita com conchas que se catam na praia. construido à extremidade do arraial. I. na Praia do Anjo. Nele são postas camadas alternadas de pedras e lenha. e f e t i v a m e n t e amarela. com o a u m e n t a t i v o çw ( á r v o r e muito amarela). em S. I Fl. Pedro dos Índios. No Rio de Janeiro e em todo o litoral até Cabo Frio. S.

A noite. n ã o é p o s s í v e l lançar ai a âncora. c o n t i n ú a a t é ao e s t r e i t o do Sul ( B o q u e i r ã o do Sul) onde t e m 8 b r a ç a s de f u n d u r a ( M e m . A u m a m e i a l é g u a para a l é m do Pontal. p o d e m e n t r a r e m b a r c a ç õ e s m a i o rea que a s que p a s s a m p e l o p r i m e i r o . e o « a n a l que se ve entre a ilha e a l i n h a de areia. " E m u m a e x t e n s ã o de d u a s l é g u a s e x i s t e n - tes na p r a i a e n t r e o s a n g r a d o u r o do Cabo F r i o e o p r o m o n t o r i o cio P o n t a l n ã o p o d e a n c o r a r n e n h u m a e m b a r c a ç ã o porque ai n ã o e x i s t e n e n h u m a b r i g o e p o r q u e s e n d o o f u n d o do mar c o n s - t i t u í d o de a r e i a f i n a e a c a m a d a . o qual v a i a t é B o q u e i r ã o do Cabo. e x i s t e um t r e c h o formado por i n a c e s s í v e l rochedo.s e no m e i o d ê s t e a i l h a d o s Porcos. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 343 b e m a p r o v e i t a d o e facultou-me a colheita de plantas interessantes. na praia do Anjo. e l e v a n d o . n a q u a l v i n t e e m b a r c a ç õ e s das m a i o r e s teriam um a b r i g o s e g u r o e b o m a n c o r a d o u r o . n . htst. N « 8 ^ ?Snta de seada e x i s t e u m a l i n h a d e a r e i a que c o m e ç a n d o ™ Lêste vai d i r e t a m e n t e à i l h a do Cabo. d i s t a n t e . t e n d o de 15 a 20 P a l m o s üe profundidade. por terra. o que n ã o a c o n t e c e na do Anjc onde o a n c o ramento é mau. O dono da venda deu-me por leito u m simples lençol. que t e m a p e n a s 40 a W b r a ç a s de l a r g u r a . Ura e o u t r o e s t r e i t o c o n d u z e m às e n s e a d a s do Anjo e do F o r n o . Além. p a r a c o m p l e t a r ê s t e c a p í t u l o será m e l h o r transcrever a q u i o que d i s s e P I Z A R R O sôbre o litoral que v e - nho de d e s c r e v e r e que s e p r o l o n g a da cidade de Cabo Frio a o Eoqueirão do Sul. P o r e s t e ú l t i m o que t e m mais de 200 b r a ç a s de l a r g u r a . m e i a l é g u a . senti f r i o e não pude dormir (39). a c h a . pouco descansou- me das fadigas do dia. q u e divide os e s t r e i t o s do N o r t e e de Lésto. (39) Creio que.s e a enseada da P r a i n h a . m a s o d e s e m b a r q u e fácil.. entretanto. • AS . sôbre o qual deitei completa- m e n t e v e s t i d o . O vento f o i terrível. N e s t a ú l t i m a a s e m b a r c a ç o e s a c h a m melhor abrigo.

se o c a n a l que s e p a r a a I l h a dos P o r c o s da do Cabo se c h a m a B o q u e i r ã o de L é s t e . n ã o pude indicar o n o m e cio que f i c a e n t r e a I l h a d o s P o r c o s e a do Cabo. mas.m e o c o n t r á r i o .° —• S e g u n d o ê s s e A u t o r . E' p o s s í v e l que m e t e n h a m e n g a n a d o . 348 AUGUSTO DE SAINT-HILAÍRE i n f o r m a ç õ e s d a d a s a q u i por P I Z A R R O s u p r i r ã o e m a l g u m a s p a r t e s o que f a l t a em m i n h a s d e s c r i ç õ e s .° — F i z ver que a p r e s e n ç a das d u a s i l h a s c o l o c a d a s d i a n t e da e x t r e m i d a d e da t e r r a f i r m e do c a b o F r i o dev© n e c e s s a r i a m e n t e f o r m a r t r ê s c a n a i s . mas. em v i r t u d e de s u a p o s i ç ã o g e o g r á f i c a . corno se d e n o m i n a r á a e n t r a d a do c a n a l c o m p r e e n d i d a e n t r e e s s a m e s m a ilha e a P o n t a de L é s t e ? 2. F R E Y C I N E T a repre- s e n t a em s u a bela c a r t a g e o g r á f i c a . P I Z A R R O diz que e s s e c a n a l s e c h a m a Bo- queirão de L é s t e . sendo a s s i m p o r q u e t e r i a m c o n s t r u í d o um ar- raial na P r a i a do Anjo. no l u g a r d i s s e r a m . confesso. em a l g u n s p o n t o s e l a s e x i g e m o u t r a s e x p l i c a ç õ e s . m a s n ã o dá d e s i g n a - ção p a r a a e x t r e m i d a d e o r i e n t a l do e s t r e i t o que s e p a r a a P o n t a de L é s t e da i l h a do Cabo. e n q u a n t o não se vê u m a ú n i c a p a l h o ç a na P r a i a do Forno. que P I Z A R R O diz s e r p r e f e r í v e l à o u t r a ? 3. Os n o m e s que P I Z A R R O d á a o s dois primeiros estreitos parecem-me acertados.° — O A u t o r d a s M e m ó r i a s h i s t ó r i c a s a s s e g u r a que a P r a i a do Anjo n ã o o f e r e c e bom a n c o r a d o u r o . ê l e dá o n o m e de B o q u e i r ã o do N o r t e ao c a n a l a que c h a m o B o q u e i r ã o de N o r d e s t e . h á n a e n s e a d a do A n j o um c o r d ã o de a r e i a que c o m e ç a n a P o n t a d e L é s t e e se e s t e n d e a t é à i l h a do Cabo. 1. e é e f e t i v a m e n t e f o r a dela que o Sr. . mas. O Sr. Se ê s s e c o r d ã o c o m e ç a na P o n t a que l i m i t a a en- seada e s t á c l a r o que ê l e n ã o f i c a n a e n s e a d a p r o p r i a m e n t e dita.

e. — Observações sôbre as ordens religiosas. — Fazenda de Campos Novos. por toda parte o terreno era uniforme e mais ou m e n o s arenoso. Mau abrigo. que conserva numa extensão de um grau até ao c a b o de S. Jacinto. — Região situada entre o rio das Ostras e a Venda da Sica. depois curva-se para formar a baia chamada B a í a Formosa e em seguida retoma a direção norte- oeste. —• Florestas vizinhas de Campos Novos. — O rio das . Descrição da região situada entre a cidade de Cabo Frio e a habitação de S. Re- t r a t o de uma moça. que frequentemente é dotada de lagunas. Deixando a cidade de Cabo Frio para ir aos limites do termo de Macaé e de lá ao distrito de Goitacazes era . J o ã o da Barra e o rio das Ostras. Tomé. como disse. o litoral do Brasil dirige-se. Região situada entre S. Mais adiante êle segue direção cie N E . — Pedágio exorbitante. Modo de comer as ostras. Comércio. JOÃO DA BARRA. J o ã o da Barra. — A al- deia de S. Culturas. Plantas marinhas. — Fazenda de S. A ALDEIA DE S. — Os vendeiros. de W para E.Ostras. No espaço de cerca de um grau entre o Rio de Janeiro e Cabo Frio. CAPÍTULO III VIAGEM DE CÂBO FRIO À CIDADE DE MACAÉ. — Notas sôbre as destruições causadas pelos naturalistas. Jacinto. Em quase todo esse trecho afastei- me da costa.

passei então por capoeiras e em seguida atravessei matas virgens. vegetando so- bre terreno arenoso. (Corresponde ao Volume 126. aqui cha- mados araponga (2) fazem eco nessas solidões com seus gritos estridentes. ora o"do martelar sobre uma bigorna (3). (3) Vide minha 1. mas. ' Êstes ao menos teem uma desculpa aceitável — precisam dar alimento às suas famílias.« Rei. Para au- mentar coleções que logo são destruídas por insetos. da Coleção Brasiliana). Uma grande quantidade de ferradores. .Jacinto 3 ls. " " Sítio do P a u l i s t a ( c h o u p a n a ) 4 " » " " Sítio do P i r e s ( c h o u p a n a ) . certos naturalistas destroem talvez mais que os caçadores.. I. 33. 17. mas. teem pouco vigor. que ora imitam o ruído da lima. João da B a r r a 4 1/2 " " " " " " embarcadouro do R i o das Ostras 2 " » » ?! " " Venda de B o a s s i c a 4 1/2 " » )' ?! " " cidade de Macaé 1/2 " " Cabiuna ( p e q u e n a f a z e n d a ) . .R ÍI 348 AUGUSTO DE SAINT-HILAÍRE preciso necessariamente repassar pelo rio I t a j u r ú (1). neles não se vê nenhuma árvore. ôca. " " " " a S. 2 ls. . No meio da mata existem grandes trechos pantanosos. p á g . aí cresce somente uma erva muito rala. Outrora as arapongas teriam sido também muito comuns perto do Rio de Janeiro. qual será a desculpa dêstes?. 2 1/2 " " " " Andrade 4 1/2' 27 1/2 " (2) A r a p o n g a vem do g u a r a n i ara dia. Penetrei o interior para evitar seguir os contornos da península terminada pela Ponta de João Fernandes e os da Baía F o r m o s a . vol. teriam sido destruídos pelos caçadores. sendo a carne dêsses notáveis pássaros muito boa para comer. e. que. s o m de uma cous?. e (1) Itinerário aproximado de Cabo F r i o ao distrito de Goitacazes: Da cidade de Cabo Frio à f a z e n d a de S . p á g . .

b o ^ c m JEAN J A C Q U E S R O U S S E A U levou-lhe. fui p e d i r hospitalidade na fazenda de S. demonstrando alegria. possuidor de muitas outras pro- p r i e d a d e s . P o u c o depois chegou o dono da casa. de p l a n t a s ou de insetos. se me nao engano a predição d e s s e c i e n t i s t a já e s t a v a cumprida. Jacinto. sacrificam tudo no mundo afim de anexar as l e t r a s iniciais de seus nomes a descrições de pássaros. O proprietário não se achava em casa q u a n d o ai cheguei. quase d e s t r u i r i a . sem nenhuma cerimonia. e que não cuidava daquela. exclamou ROUSSEAU com t r i s t e ^ porque colheu-a?" N ã o h a v e r á nada verdadeiro entre as i r a s e s u m pouco d e c l a m a t ó r i a s . 368. O e u r . uma planta muito rara que o f i l ó s o f o de Genebra em vao procurava desde m u i t o tempo. c o m » ! . «Ah! Senhor. eles exterminam todas as harmonias da natureza e fazem desaparecer até à última das espécies gue embelezam nossos prados e b o s q u e s . v o l . . e. Gen. aborreci-me e acabei por des- c a r r e g a r minha bagagem.. promenade. triunfante. Todo munoo conhece a a n e d o t a s e g u i n t e : Um mooo . de s u a s deliciosas R é v é r i c s ? ( \ m e VII. XX. E. Tratava-se de um homem muito rico. insisti. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 347 que êles mesmos não apreciam.) f t o r n a r a m . New. ed. e a isso chamam suas glórias! (4) Após ter feito três léguas. |sg tragos c a u s a d o s pelos botânicos. Jour. ARNOTT. desde o rio Itajurú. 178«). fui muito mal recebido pelo negro a que me dirigi.n o excess vãmente r a r o e breve ele terá desaparecido completamente. nue h e . e r e s p o n d e u atenciosamente a tôdas as minhas perguntas. A R N ü i emio* (Jam. disse o Sr. aonde tinha o c o s t u m e de apenas deter-se de passagem. Vioitei Va^ cluse poucos a n o s após o Sr. Não pareceu c o n t r a r i a d o em ver-me instalado em sua casa. phll.lim. conver- sou muito tempo comigo. hoje tão fáceis de realizar quanto o preenchimento dos claros de uma fórmula de p a s s a p o r t e . Em seu lucrar um mineiro achar-se-ia na obrigaçao de (4) Um f e t o dedicado a P E T R A R C A <Asple»ium ^ ^ cbae) crescia outrora entre os rochedos de V ^ t e . . que e s s e ilustre misantropo e s c i e v e u sobre a botânica em uma.

A extremidade de um dos grandes lados do pátio. por conseguinte não se devia para ai enviar senão os religiosos encarregados da administra- ção. Jacinto são próprias a todos os gêneros de culturas. e em poucos anos a fa- . morrendo êstes os escravos foram distribuídos entre os herdeiros. o engenho cessou de funcionar.348 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE convidar-me a j a n t a r . Partindo de S. excetuada a do arroz. vê-se. outrora perten- cente aos Jesuítas. Êste e a igreja não me pareceram em proporção com o restante do estabeleci- mento. algumas são isoladas na fila. ou- tras reunidas sob um mesmo t e t o . contei 28 ao lado onde se acha o convento. porquanto a umidade não é aí perma- nente e a sêca que lhe sucede torna o terreno excessi- vamente duro. ficam as casas construídas para os negros e as casinhas sem dúvida destinadas aos operários livres que trabalhavam no estabelecimento. As terras dos arredores de S. Ao redor de imenso pátio que forma um quadrílatero longo aberto por um dos lados menores. pequenas e cobertas de capim. esta fazenda não podia ser senão uma fonte de renda e. Após a expulsão dos jesuítas o estabelecimento passou para as mãos de homens ricos. As casas que rodeam uma parte do pátio são grossei- ramente construídas de pau a pique e barro. à extremi- dade do grande lado oposto existe um engenho de cana. aqui já era muito não me rece- berem grosseiramente. Jacinto passei por capoeiras e logo cheguei à fazenda de Campos Novos. Nem mesmo nos lugares pantanosos se pode plantar essa gramínea. sôbre uma pe- quena eminência a igreja com o convento e. mas.

P e d r o dos índios a S. o homem isolado. e n c o n rou e m u m a f l o r e s t a u quadrado i r r e g u l a r f o r m a d o por c h o u p a n a s de t e r i a « uma c a p e l a u m p o u c o m e l h o r c o n s t r u í d a ^ f ^ ^ m e n t e nesse l u g a r u m g r a n d e n ü m e r o de n e g r o s sujos.ios e de forças. diz ainda. e. Num pais novo é preciso. e.e s t a r f í s i c o e do a p . . seja com fins de lucro c o m u m não poderiam surgir no seio de um pais cor- ^ T ^ v i a j a n t e i n g l ê s diz que indo f e S .s e que tendo o d e v e r de se o c u p a r do b e m . mesmo as mais zelosas'. de qualquer modo. . J o ã o d a B a r r a . mostra o quanto é ele fraco. após tantos esforços apenas deixa ligeiros traços de seu trabalho. n ã o p o d e s e r o u t r o t a m b é m s e n ã o C a m - pos N o v o s . a todos permite f o r m a r associações quando se fazem necessárias. seja"com fins filantrópicos. E m nossa Pátria as prin- cipais dificuldades foram de há muito vencidas. o . a b a n d o n a s s e ajai ponto u m a t ã o b e l a p r o p r i e d a d e . Parece-m<> que a fazenda em q u e s t ã o f ô s s e o u t r a q u e a de C a m p o s ^ o v o .r i e e o a m e n t o m o r a l d o s h a b i t a n t e s do país. De outro lado as grandes associações. ^^iram nus. foi a s s i m que os beneditinos aceleraram outrora o desen- volvimento rural da França. lutando contra ela. e por c o n s e g u i n t e a s c e n s u r a s f e i t a s a o s b e n e d i t i n o s c a e m pm t e r r ^ O l u g a r d e s i g n a d o n a b e l a c a r t a g e o g r á f i c a do Sr. r e s p o n d e r a m . já não cumpririam os mesmos fins que outro- ra porquanto a instrução deixou de ser privilégio de t i m a só classe e a civilização mais regularmente distri- buída. * KK. A natureza aí conservou quase toda a sua potência. para ai realizar grandes c o u s a s uma reunião íntima de me.r i c u l t o r isolado pode.l h e que p e r t e m n os beneciu a m nos do R i o de J a n e i r o . _ . p e r g u n t o u . o . J sob o n o m e d e c o l é g i o . •quais <e*am o ^ J desses i n f e l i z e s . ^IIN-L. e a d m i r a . e as corporações religiosas. 1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 367 zenda de Campos Novos provavelmente não existirá mais (5). O mesmo não acontece no Impé- rio Brasileiro. e n f i m e m p e o r e s t a d o q u e t o d o s ?s e s c r a v o s que <61 e j a » encontrado a t é e n t ã o . suprir a si m e s m o . tais como existem entre nós.

J o ã o da Barra" Nessa mata o terreno é arenoso. nela não se vêem dessas árvores enormes que inspiram uma espécie de respeito. mas. de admitir h a j a exceções. vastos intervalos. sem ter a magni- ficência comum aos lugares cíe terra boa. toda- via. a Bromelia e Tillandsia de folhas rijas e uniformes cobrem. ou as minas de Anicuns. a vegetação. O caminho é arenoso mas (6) E ' claro que f a l o de modo g e r a l e não posso deixa1. sou testemunha das que se qui- zeram criar aqui afim de tornar navegável o rio D o c e . e. de explorar o ouro e o ferro em Minas Gerais. sem espírito de associação. não é. numerosas palmeiras produzem frequentemente os mais felizes contrastes. O mesmo acontece q u a n d o me refiro à semicivilização do Brasil. mas os seus costumes eram os do r e s t o do país. Para um tal país. corporações r e l i - giosas dotadas de seu antigo espírito são de desejar À época de minha viagem ainda havia ordens monásti- cas no Brasil. no meio dos g r a n d e s vegetais. desprovida de beleza. de todos os lados a Bougamvillea brasiliensis mistura (11-9-818) seus longos cachos purpurinos à folhagem das plantas que a cercam. mas são muito próximas uma das ou- tras e extremamente variadas. atravessei uma mata virgem que se prolonga até à aldeia de S. degeneradas. Nesta mata não fui presa dessa espécie de temor religioso que causam ordina- riamente as florestas virgens. essas ordens não apresenta- vam mais que uma reunião de homens vivendo sob o mesmo teto. Após ter deixado Campos Novos. . . aí gozei mais calma- mente o prazer de admirar. sem entusiasmo e com todos os defeitos do individualismo (6).350 AUGUSTO » DE SAXNT-HILAIÍIÊ rompido por um longo despotismo e apenas semicivi- lizado como o Brasil. As árvores apenas teem tamanho médio.

Jofto d a ^ f ^ V S Í ^ a n i a dó B. e a c r e s c e n t a q u e 327x ram h a v e r um lasro e m s e u al. á t i ) . Ela fica à extremidade do r i o * m a s êste parece querer retardar o momento de lançar-se no oceano. . João da Barra (7) e logo. a s s i m é d e s i g n a d a P príncipe cie N E U W I E D q u e n e l a e s t e \ e . s e g u n d o CAZAL S. Do lado de onde vem c»no. sem forçar a natureza. João. A « t r e m u i a d c da aldeia mais próxima do mar. porque. quase a sua emboca- dura descreve ainda sinuosidades que contribuem para e m b d e z a r a paisagem.s e . avistava a aldeia construída na margem oposta e pude ter uma idéia exata de sua posição. s e no:™ b B. João (8). porquanto. _ Entretanto o ruído das águas do mar anunciou-me a proximidade da aldeia de S.g » um v i a j a n t e e n ã o d e v e s e r confuncUdi* ^ X r a p a r a í b a mado S. J o ã o q u e ê u m a v i l a s i t u a d a a emi>oc P a r a l b a e E s t a ú l t i m a c h a m a . acrescentar algum conforto e gozo além do que concerne a vista. p á g . s a i n d o da floresta. o horizonte é limitado. a s pa João L B a r r a n u n c a se p o d e r i a a c r e s c e n t a r do R i g ' A * R O De r e s t o o n o m e 9.1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 351 perfeitamente f i r m e . J o S o e e s t á c l a r o que e . não se vê nele nenhuma erva c assemelha-se às áleas desses jardins ingleses onde ha o cuidado de. respeito há s e g u n d o F R E Y C I N E T : Suo J « a ® / a ^ ™ V l Z A R R O p o r q u a n t o u m g r a v e erro n a obra p r e c i o s a SAo JoSo êsse e s c r i t o r c h a m a a v i l a e m a p r e ç o J 1 1 ^ »ao deVe dn Barra do R i o 9. Em um lu to ar ~ S T T j o l o da B a r r a n ã o t e m o título> d e . descrevem uma curva. J o ã o da B a r r a . onde me achava.to ( N o t e s o n B r a s . o rio e o terreno por êle banhado. por uma alta mon- t a n h a chamada Serra de S. muito perto. cheguei à margem do rio S. J o ã o daP r ( 8 a ) Í a ^ i n c o n t e s t a v e l m e n t e e s t a m o n t a n h a que L J C C O C K di 3 ter v i s t o s ô b r e a m a r g e m d o rio S. Salvador. . ê " ^ altura e m 600 a 700 p é s . o nual serve de limites entre os termos de Cabo Frio e Macaé Do lado direito. S. pertencer a u m l u g a r s i t u a d o & e m b o cdo ParaiD f u l u r a p o s s í v e l q u e a v i l a do P a r a í b a t e n h a ^ ^ T ^ e s i ^ d z pelo de Vila de S. mas. João.

Acre- ditei tratar-se do comandante da aldeia e que iria . E' o que acontece no rio S. sendo com isso prejudicados o co- mércio e o tesouro público. um relvado es- treito . de todos os lados. Em se- guida à igreja vem um terreno arenoso e depois deste um morro.352 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE muito baixo vê-se. tendo as bestas atravessado o rio a nado. seguras pelas rédeas. exorbitantes forçarão muita gente a não se arredar de casa. após a última casa. os direitos de pedágio deviam ser moderados. pela das bêstas. ao pé do qual o rio S. ainda semicivilizado e onde reina tanta indolência. mais ou menos próxima do rio e do oceano. João. Logo que chegamos à beira do rio um negro veiu procurar-nos com uma piroga. quantas pessoas não se deverão privar de passar o rio para não pagar 160 réis. é evidente que. Nela embarcámos. Mas. Perguntei ao negro que transporta os v i a j a n t e s aonde poderia encontrar um abrigo. Exigem 160 réis (1 franco) pela passagem de cada pessoa e 80 rs. para não se tornarem contraproducentes. sobretudo quando se vem de atravessar durante algumas horas u'a m a t a onde. E' sem dúvida necessário que se paguem impostos e não é menos justo exigi-los nas passagens dos rios que em outras cousas. tendo obtido a res- posta que o comandante arranjar-me-ia algum. E' fácil conceber como êsse conjunto deve pare- cer encantador . sendo fácil compreender que não é boa política dificultar as comunicações entre os habitantes de um país novo. o terreno em seguida se eleva e apresenta uma pequena plataforma sobre a qual construíram a igreja. Em um lugar tão pobre. a vista é limitada por árvores. João lança-se no mar.

porquanto passou minha portaria a outra p e s s o a para que fosse lida. Não se tratava. vol. cabeça de uma paro- Í T ^ v i a j a n t e i n g l ê s que dá a 3. dificultado por densa fumaça. e que sem dúvida nem ler sabia. do magistrado da aldeia. Ê s s e destacamento devia ser substituído quinzenal- m e n t e .1 DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL 353 encontrar o homem mais distinto do lugar. João da Barra. p á g . e pus- me a trabalhar.o a . da Coleção B r a s i l i a n a ) . se apertavam ao redor de mim.« Rei.s e que uma tal d i g n i d a d e t e n h a s ^ o conferida ao a n t i g o c a i x e i r o que c o n h e c e r a no 1Rio de Ja neiro e que. 15. desdenhoso. grosseiro. era capaz de t o d a s as vil ração do v i a j a n t e t e r i a sido menor se t e n d o tido c u i d a d o üe tomar i n f o r m a ç õ e s e x a t a s . definitiva ou provisoriamente. entre soldados que evidentemente em nada p a r e c i a m com os do regimento de Minas (10). p á g . S. mas de um simples cabo de polícia que comandava um desta- camento de 6 homens encarregados de fiscalizar o pa- gamento do pedágio e de prender os viajantes suspeitos. q falo aqui. fiquei um p o u c o desapontado ao ver-me apresentado a um mulato mal vestido. I. a d m i r a n d o ..(Corresponde ao Volume 126. 31. t i v e s s e sabido que o Pre e n o s u p e rintendente n ã o p a s s a v a de um s i m p l e s cabo de m n . que. temendo ser roubado e podendo apenas mover os braços. J o ã o de Macaé v i l a m a i s s e t e n t r i o n a l a t ^ u e ^ os tttuios de s u p e r i n t e n d e n t e e e x c e l ê n c i a ao c o m a n d a n t e do posto ü . mas as pessoas mais abastadas pagavam as substituições e eram quase sempre os mesmos homens oue ocupavam o posto (9). onde fui tão mal hospedado. diz êle. Obtive licença de passar a n o i t e na casa ocupada por essa personagem e logo fui c i e n t e do cargo por ela ocupado. como eu havia imaginado. Fiquei instalado no corpo da guarda. no meio de curiosos. . de todos os lados. 0 0 ) V i d e m i n h a 1. é. ái Birr^o nome de S.

^ que c o n t a os fatos que venho de citar ornado não dá notícia da decisão que a e s s e r e s p e i t o deve ter tomaao o g o ( v 1 | r ) n 0 p I Z A R R O flá. João. o «. dos rios das A g u a s t ^ 8 ™ (Águas Compridas s e g u n d o F R E Y C I N E T ) . alguns novos detalhes concluirão sua descrição. João. 175). S o J g u l o . em 1818.354 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE q u i a ( l l ) . bem con- siderável. fornecerem produtos exportáveis. os propne- nn A aldeia de S João da Barra dependia da paróquia do Sagrada^ FamíUa de ^puca. paralelas ao rio. se atualmente é lugar tão sem importância. parte da c a d e i a marí- tima. II. e que se acha compreendida entre ela e o oceano. . Ao tempo de minha viagem esse lugar já era um entreposto comercial de madeira. João B a t i s t a da Barra do R i o 8. Os principais a f l u e n t e s cia margem meridional são os riachos dos Gaviões e do Ouro. Lourenço.j braças na sua maior largura e 12 a 20 p a l m o s de prof'"»ndidade. tendo P o ^ ^ ^ " interior. Compõe-se unicamente de duas ruas. ^ o ã o o título de paróquia e s u b s t i t u i r o n o j e d e J ^ J £ F a m í l i a pelo de S. que podem. vir atracar no porto de S. Tendo caiclo a igreja ®aroyu ai ~ ^ ^ ^ f c a d a J a ° l ° Jolí o^ pernil o* ^sião Tran s p or ta do3 pa ra "es t a. A aldeia é cons- truída à embocadura do rio S. e P I . n V batismais O v i g á r i o pretendia dar e n t ã o à capela de S. Mem. dos rios da Aldeia Veina at- Ipuca. M s t . a lagoa F e i a e enfim o l a g o Inhutrunuaiba. Grandes florestas virgens margeam o n o que tem cerca de 18 léguas de curso (12) . da Lontra e do Dourado. sôbre uma ponta ou língua de terra que prolonga a m a r g e m esquerda ou setentrional do rio. mas houve. Jogo. Dei uma idéia de sua situação. A emboca- dura do rio é navegável às lanchas e sumacas. reclamações contra esse projeto. do regato Maratuan. de l ê s t e para oeste as á g u a s do riacho de S. f o r m a d o sobretudo pelos rios Capivari e B a c a x á (PIZ. sem dificuldade. acha-se todavia colocada em ótimas con- dições para tornar-se numa cidade de vulto.lhe u m c u r s o d e 25 l é g u a s mais ou me- nos. João da Barra. mas. dos Crubixais das Bananeiras. Do lado norte ele recebe s u c e s s i v a m e n t e . quando as margens do rio S. . Êste rio nasce na serra cie Macacú. ^ S S . menos desertas e mais culti- vadas. e corre de ocidente para o oriente file t e m de 15 a .

alguns engenhos de cana nos arredores de S João. e que. frequentemen- te. Como os colonos empregam ordinariamente seus escravos no trabalho da derrubada. fazem o mesmo que os produtores de açúcar — enviam-nas. João da Barra. atravessei du- rante muito tempo uma planície arenosa cuja vegeta- ção apresenta aspecto muito s e m e l h a n t e as nossas charnecas. não ven- dendo na região o produto de seus estabelecimentos. copa arredondada e muito raquíticos. por conta própria. 50 c.) o saco de duas arrobas quilos 490). D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 355 tários ribeirinhos derrubam e serram as árvores me- lhores e vendem as tábuas a negociantes de S. . enfim farinha de mandioca abaixo de duas patacas (4 f. não cultivam se- não o necessário ao consumo de suas famílias. há entretanto. Os cultivadores que não possuem engenhos de cana. O frete de S. Quando de mi- nha viagem não se encontrava nos arredores de b.) o alqueire (40 litros). arroz por menos de 12 tostões (9 f. Êles teem no Rio de Taneiro correspondentes ou sócios aos quais exoedem o açúcar. havendo alguns que o fa-em em embarcações particulares. sendo os proprietários homens ricos. ao Rio de Janeiro. mas que possuem mercadorias a vender. entre os ramos viçosos apresentam outros inteira- (13) V i d e o que f o i dito no capítulo precedente srôbre a comércio de Cabo Frio. João. constituída de arbustos de 2 a 3 pes. e quando o vento é favo- rável não se gastam mais de 48 horas para fazer essa viagem. também os travessadores (13) não aparecem nesta zona. que as expedem para o Rio de Janeiro. Após ter deixado S. João da Barra à capital do Brasil é de 2 tostões ou 200 réis Dor saco de 2 alqueires. João um bom café a menos de 7 a 8 patacas.

em espaços irregulares. pequena planu. decidi deixar para o dia seguinte a passagem do rio. Entre esses arbustos n a s - cem relvados e de tempo em tempo encontram-se poças d á g u a . e que se a s s e - melha às dos lugares altos de Minas Gerais (Marcetia teniiifolia DC). da Flora de Caiena. não pude conter minha surpresa ao ver na janela de uma miserável choupana uma encantadora m o ç a vestida à moda inglesa com um chalé de s e d a e cabelos penteados elegantemente.). Uma côr desagradável é principalmente o que e n f e i a as mulheres desta parte do litoral. Sua beleza sur- preendeu-me mais q u e s u a " t o i l e t t e " . Toda essa operação tomaria muito tempo. com longos caules del- gados e grandes flores azttes (14). sem folhas e sem utrículos. pequenas e míseras cabanas. assinalarei ainda a P e r a m a hirsuta. João quando cheguei ao rio das Ostras Era então muito tarde. a maré estava alta e. . onde existem. nas quais vegeta com abundância uma Villarsia (Villarsia communis N. (14) Entre as plantas das c h a r n e c a s v i z i n h a s de S.356 A U g U s T O DE SAINT-H^ILAIRE mente secos e sem folhas. muito interessante. A pouca distância do rio das Ostras retoma-se a beira do oceano. Mau grado acostumado a ver nas mais tristes moradas mulheres vestidas c o m o as das cidades. Nas partes ú m i d a s encontrei frequen- temente também uma Utrieularia (Utricularia tricolor N). para poder atravessar o rio era preciso descarregar as bes- tas e recarregá-las na outra margem. Uma das espécies mais comuns nesse lugar é a Melastomatácea de pequenas folhas com a altura de cerca de um pé. e como eu tinha granae número de plantas a estudar. porquanto d e s d e o Rio de Janeiro não vira rosto verdadeiramente belo. da Barra. Não havia caminhado mais de duas léguas desde a aldeia de S.

nesta costa. ^ £ possível q u e e ^ a l g u m a p a r t e m a i s e l e v a d a d a s m a r g e n s des^e rio h a j a u m a t a l v e g e t a ç ã o . DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . Pernoitei em uma venda construida â margem es- q u e r d a d o rio.n a s com s e u s r a m o s p e n d e n t e s e q u e c o q u s i r o s . mais pre- videntes. possuem vendas. . entretanto notei que conservavam amda algum s a b o r delicado. contudo.léguas de curso Pequenas embarcações podem. cujo dono era um antigo calafate nas- cido em Portugal. R e i . M a i s a t i v o s . q u e g r a n d e s ^ ^ f ^ ^ ^ t o o m - b r e m . são portugueses. mais acostumados ao trabalho. T r a d . Segui esse rio num espaço de algumas cen- tenas de passos. Mas. Em geral a maioria dos homens que. o (16) Voltarei a tratar dêsse a s s u n t o na m i n h a 3. desde 3 primeira geração os filhos desses europeus sofrem as influências dos exemplos e do clima e nao se encon- t r a m neles as qualidades que proporcionaram aos seus pais alguma abastança (16). Essa grosseira preoaração imprime-lhe um gosto desagradável de fu- m a ç a . e eu atravessei a vau o rio das Qstras. são cozi- d-s ao fogo. porém somente aproveitando a alta. No dia seguinte pela manhã a maré baixou. 357* O rio das Ostras não tem mais de 2. 96 ou V o y a g e B r é s . I.. mais econômicos que os naturais do pais. . (15) O p r í n c i p e de N E U W I E D rio das O s t r a s s ã o e n c a n t a d o r a s . entrar nor" sua embocadura. notando que êle é margeado por man- o-ues (15). ROom^ bream ( R i s . um pouco acima da venda. As ostras não s ã o aqui e m p r e g a d a s cruas na alimentação. sao m a i s c a o a z e s p a r a esse gênero de negócio. sem serem antes abertas.O nome do rio vem da abundância de o s t r a s q u e se nota em sua embocadura. J á tive oportunidade de dizer qualquer c o u s a na primeira.

cujos ramos. não me oferecia ne- nhuma vista agradável. caminhando-se ato- la-se completamente na areia. ao contrário da parte de terreno coberta de vegetais que se a v i z i n h a . Estas são cobertas de arbustos cerrados uns c o n t r a os outros. de uma areia branca e pura. fiquei livre de grande incômodo. no meio dos quais vêem-se raminhos dessecados. e sobretudo de Mirsináceas. do rio das Os- tras à fazenda de Boassica. quando a gente está sobre uma praia baixa apenas percebe uma estreita porção dele. Ouem nunca viu o mar imagina que êle apresenta a imagem da mais perfeita imensidão. Mais longe. e isso é talvez exato quando o avistamos de um alto qualquer. felizmente não tive que sofrer esses flagelos. Na primeira parte do caminho a praia nua e are- nosa é alguns pés mais alta que as terras vizinhas. a poeira e a reverberação solar devem ser insuportáveis. O caminho não é outra cousa que a própria praia. não mudou senão uma vez. che- gando todos à mesma altura. Aí encon- tra-se ainda uma vegetação triste e sombria. pousa- dos na praia. e. apresentam u'a massa de um verde escuro e triste. e eníim em um espaço de mais de 4 léguas o aspecto da vege- tação. Havia chovido e o céu achava-se encoberto. ja- mais deparara lugar tão pobre em plantas era flor: apenas percebia alguns pássaros marinhos que. sobre a qual eu caminhava. e fica-se fatigado pelo vaivém periódico das vagas assim como pela mo- notonia do marulhar. voavam à nossa aproximaçao. mas. não via nenhuma cultura.358 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Em um espaço de 4 léguas e meia. margeante a praia. mas. as . mas. próximo da qual parei. Quando não há nebu- losidade e a areia está seca. a praia eleva-se formando uma cumiada. segui quase sempre à beiramar. A praia.

. cuja folhagem tem também uma colo- ração sombria. Ao pe dessas árvores e arbustos crescem abundantemente A m a r a n t á c e a s de um verde escuro. Tillaiidsia e ananases selvagens. chamada Venda da Sica. e o tempo chuvoso resolvi não ir mais longe. Braz. Depois de ter seguido durante alguns minutos a margem ocidental do lago. plantas espi- nhosas que formam trama impenetrável. enfim uma quantidade prodigiosa de Cactus. Era ainda um português o dono da venda da Sica. 39 — ViM. Corog. Atravessei em seguida um tufo de mata virgem e achei-me logo diante de uma v e n d a muito limpa e recentemente construída. é pouco funda. Deu-me um pequeno quarto e (17) E s t a p l a n t a será extremamente^ P r e c i o s a J J como disse.. seus g r ã o s podem destruir ou a f u g e n t a r as g r a n u m i g a s . recebe diversos riachos e é muito pis- cosa quando há o cuidado de abrir uma entrada as águas do mar (19). II. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . Como o vento estava frio. uma Sophora cha- m a d a "feijão da praia" (Sóphora littoralis Neuw et Schrad) (17). J»«™- . f l a g e l o da a g r i c u l t u r a b r a s e i r a (18) A braça. Essa lagoa mede 2.40U braças (18) de comprimento e 60 no lugar mais largo. 359* árvores e arbustos que a compõem não terminam num nível comum. apenas separada do oceano por estreita faixa de terra arenosa e mar- geada de grandes florestas. passei diante de um engenho de açúcar cuja importância estava suficientemente demonstrada pelas numerosas casas de negros e ao qual se dá o nome de Fazenda da B o a s s i c a devido ao lago vizinho. ela apresenta aspecto diferente. A cerca de um quarto de légua do lugar em que parei cheguei a um grande lago de água salgada cha- mado' Lagoa da Sica ou de Boassica. s e g u n d o F R E Y C I N E T t e ^ m â O ^ (17) CAZ.

360 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE não fui obrigado a dividí-lo com meus empregados. e cheguei à cidade de S. creio que êsse c i e n t i s t a não s e g u i u o m e s m o ca- minho que eu. p e l a descrição do príncipe de NüiL-- "WIED. ci- dade próxima. e ao mesmo tempo para preparar uma vin- tena de espécies de Fucus que eu havia encontrado. atra- vessei u'a mata de cêrca de meia légua. depois do Rio de Janeiro eu ainda não tinha ficado tão bem alojado (20). a de Sica. A l a g o a de que f a l a é. não longe do meu alojamento. João de Macaé. voltando no dia seguinte e. Após ter deixado a venda vizinha desse lago. . senão um serralheiro pouco hábil e que talvez estivesse ausente da cidade. s e m dúvida. Prégent ^ partiu logo. Quando quis abrir minhas malas não encontrei as chaves. e sabe-se quanto esses vege- tais são raros nas praias rasas e arenosas. João e Boassica. como as existentes entre S. comumente chamada — Macaé. João e Macaé. mas. Fiquei muito aborrecido por perdê-las por- quanto garantiram-me que não havia em Macaé. (20) T i v e dificuldade em reconhecer a r e g i ã o que P®rcor- ria entre S. com grande satisfação vi que trazia a cambada de chaves. porquanto muito me queixava da pobreza de plantas marinhas dos arre- dores do Rio de Janeiro. Essa colheita foi preciosa para mim. em rochedos à flor dágua. Passei o dia na venda da Sica para cuidar de mi- nhas coleções que não haviam tido esse cuidado nas vésperas. que encontrara na praia. porquanto também eles tiveram seu quarto.

das ilhas S a n t a n a a o Rio de Janeiro. aos raios do soi. — Al- g u m a s palavras sobre o interior do país. p á g . . — O Autor psrde-se. H i s t ó r i a de Macaé. . — F a z e n d a de Cabiunas. 1578. . em 1547. o nome de Macaé havia sido ciado pelos indígenas ao lugar que ainda hoje a s s i m se denomina. visitou a baía do Rio de Jaueiro e seus arre- dores.Animais.VIAGEM DESSA CIDA- DE AOS LIMITES DO DISTRITO DE CAMPOS DOS GOITACAZES.Sítio do Paulista. .Percevejos do Brasil. Descrição da cidade. — Arraial do B a r r e t o .Sítio do Pires. Segundo êsse escritor que. — Descrição sucinta do lito- ral. um rochedo inacessível elevava-se como uma torre no litoral vizinho a Macaé. Não sei onde fica êsse rochedo outrora chamado pelos navegantes Esmeralda de Maq-he? mas foi êle certamente que deu à região o nome que ela (1) Voyage. e refletia. e d . — Sítio do Andrade. Reflexões sôhre o modo de explorar as m a t a s n e s t a região e em todo o Brasil.Re- gião situada entre o sítio do Paulista e o sitio do Ãndrade. CAPÍTULO IV A CIDADE DE MACAÉ. . . . sua utilidade para os contrabandistas. E' de crer-se que mesmo antes da chegada dos portugueses ao Brasil. de fato esse nome é encontrado^com ligeira alteração na interessante descrição do ingênuo e verí- dico JEAN DE LERY (1). Seu comércio. Cul- tura _ As ilhas de S a n t a n a . 55. uma tal claridade que se podia tomá-lo por uma esmeralda.

existente em seus campos (2). J o ã o D e l R e i etc. à^ embo- cadura do rio do mesmo nome e é dividida por esse rio (2) N a v e r d a d e n ã o e n c o n t r o a p a l a v r a macaé n o trabalho de D.. Mcm. Os habitantes dessa cidade desejaram também que ela se tornasse cabeça de uma paróquia. p o r q u e se a t r a d u z i r m o s por ftoiws. em língua guarani. hist. Cabo Frio. Uma aldeia se formou nos arredores dessa capela e por um decreto (alvará) de 29-7-1813 foi elevada a cidade. João Batista (4). porquanto. c o m o f e z o escritor e. (4) PIZ. Mais recentemente os jesuítas possuíram uma habita- ção para os lados da embocadura do rio Macaé e aí construíram uma capela sob a invocação de Santana. Creio q u e a p a l a v r a vila d e v e s e r tra duzida em f r a n c ê s por viile. todavia ficou ela provisoriamente submetida à jurisdição do juiz de fora do Cabo Frio. sob o nome de S.m q u e s t ã o . Por limite me- ridional foi dado ao termo da nova cidade o rio S. Macaé situa-se em encantadora posição. p o i s que ê s s e s l u g a r e s n ã o t e e m o t í t u l o de vila. em 1815. João de Macaé (3). Maricá etc. ainda em nossos dias os habitantes do Paraguai chamam macaé. 304. é p r e c i s o n ã o c h a m a r villes a Sabará. V. tanto não posso ter a menor dúvida sôbre a etimologia a que refiro aqui. Ao tempo de JEAN DE LERY o território de Ma- caé era habitado por selvagens aliados dos Goitacazes. a uma espécie de arara inteiramente verde. S a q u a - r e m a e S. e. J o ã o da B a r r a não s e r i a m bourgs. . dando-se a Macaé apenas um juiz suplente. (3) U m s á b i o n a v e g a n t e dá o t í t u l o de burgo a Macae. no que foram atendidos. João e por linde setentrional a embocadura do rio Furado. Jvm todo o c a s o s e se d e v e dar à s vilas o n o m e de bourgs. porquanto me foi indicada nas Missões do U r u g u a i por um homem competente que vivera muito tempo no P a r a g u a i e que conhecia perfeitamente a língua guarani.362 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE tem. a capela de Santana foi definitivamente promovida a igreja paroquial sob a invocação de S. S. F É L I X D E A Z A R A s ô b r e a s a v e s do P a r a g u a i .

para oeste o horizonte é limitado pela serra de Macaé. e. e tôdas as sinuosidades que o rio descreve antes de sua embocadura. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . entretanto não se compoe de mais de sessenta ou oitenta casas. Depois de descrever várias curvas. pequenas. Toda a região é assaz plana. 363* em duas partes desiguais. avançando entre o oceano e o rio. cadeia que se prende â serra do Mar. esparsas. O conjunto que acabo de descrever apresenta uma paisagem encantadora. . na maioria cobertas de colmos. assemelhando-se de longe a um pequeno castelo. Ainda sobre a margem direita do Macaé foi a igreja cons- truída. em uma grande praça ainda em formação. Baixas. por assim dizer. e no me*o da qual o pico chamado Morro do Frade e notável por sua altura e sua forma singular. ergueram o marco da iustica destinado a tornar conhecida a classificaçao da cidade na ordem judiciária e administrativa. arenosa e nua. de onde se abrange melhor as montanhas que se ele- vam no horizonte. separadas umas das outras. não podia ser com- . o pequeno morro isolado onde tica a igreja. Desse mesmo lado do no. Macaé. sobretudo quando vista da margem esquerda do no. que termina o lado direito ou meridional da cidade. o rio Macaé lança-se no oceano entre a faixa de terra referida e um montículo em parte cultivado. em sua extre- midade. em parte coberto de matas. em frente desta existe uma faixa de terra baixa._ Apesar das vantagens e belezas de sua posição. A parte setentrional da cidade fica muito mais longe da embocadura do rio que a meridional. A que fica à margem di- reita é a maior. a pouca distancia das casas. ao alto de um pequeno morro. ao tempo de minha viagem. mas.

excelente ancoradouro (6). João da Barra. do lado sul vêem-se numerosas vendas. vende-a a negociantes estabelecidos em Macaé mesmo. As grandes lan- chas e as sumacas podem transpor a embocadura do Macaé. I. .364 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE parada senão a uma pequena aldeia de França. Êste último diz (Mem. e várias casas anunciam a abastança de seus proprietários pelo cuidado com que são conservadas. quando meio carregadas. . O principal comércio desta cidade é atualmente o da madeira. Como os colonos de S. mas. As árvores que mais f r e q u e n t e m e n t e f5) CAZAL e o príncipe de N S U W I E D do-lhe 15 e P I - ZARRO 16. V o y a g e Ur. oferecem a todas as espécies de embarcações. II. l s i s í . Macaé já apresenta um ar de vida raramente notado no interior e mesmo no litoral do Brasil. do riacho da Serra Verde. enfim as ilhas de Santana situadas à altura da embocadura. a maioria. Pedro e Cruhixais. um excelente abrigo contra os ventos do sul. as á g u a s do l a g o c h a m a d o Lagoinha. cha- mada Baía da Concha.s terras por êle banhadas são próprias para as principais culturas. 175) que ele nasce nas montanhas também chamadas Macaé e que recebe os n o s João Manoel e Ataláia.. o rio Morto. J u r u m i r i m o Boassica. dos riachos S'abiá. os dos arredores de Macaé escolhem nas matas virgens as árvores mais bonitas para transformarem-nas em tá- buas. Alguns enviam a madeira diretamente ao Rio cie Janeiro.. H i s t . do das Aduelas. do l a g o Traíra. dos rios S. fora da embocadura as embarcações encontram em uma pequena baía. considerados os mais perigosos. do l a g o Pau de Ferro. e se fizeram dêsse lugar uma cidade e sede de um têrmo foi sem dúvida porque há confiança em seu futuro desenvolvimento. 84. do rio do Ouro. e principalmente os menos abastados. do riacho Genipapo. (6) FRETCINET. O rio que aí passa tem cerca de 18 léguas de curso (5) e a.

sem outro proveito que o de um adubo passageiro. Assim. 132). H i s t . valiam trinta mil reis a dúzia (cêrca de 187 f. (7). quando exploram árvores preciosas. de outro lado. para não ter necessidade de curvar o corpo no trabalho. qntretanto. m a s os n e m e s s a o a de tal rnocio desfigurados que ela deve ser considerada como i n e x i s t e n t e . com 30 palmos de c o m p r i m e n t o por 2 de largura. ta- zem-no de modo a concorrer para a extinção de suas (7) Vide a t a b e l a de m a d e i r a ^ a d a s no K ^ ^ e ^ feita pelo Sr. o uso de explorar inteiramente uma certa extensão de floresta. . .) à época de minha viagem. E' de crer. nao bá como na Europa. cuja madeira é e m p r e g a d a na marcenaria. GESTAS e seguintes) O saudoso SOUZA ( V o r a g e Vr. Quando passei por Macaé as belas árvores já começavam a se tornar raras e frequentemente eram procuradas em florestas muito distantes da embocadura do rio. o vi- nb ático. 115 e s e g u n d e s . escolhem-se aqui e acolá as árvores que se quer cortar e o lenhador as abate à sua altura. as do vinhático. como já disse. etc. e provavelmente em todo o Brasil. F R E Y C I N E T de ^ o com ^ ^ ^ obteve dos Srs. 365* DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . privados de ar e lo. e m p r e g a d o na carpintaria etc. b e i r a s de MAWE já havia publicado uma pequena lista das madeira* ae Cantag-alo ( T r a v e i .-o abafados pelas lianas não poderiam produzir bro- ta ção: com mais forte razão os tocos de 3 ou 4 pes de altura elevem logo secar e morrer. os tocos.que tem lenho amarelo e quase imputrecível. o óleo. enquanto que de um lado os brasileiros ateam fogo a imensas flores- tas. esse comércio tende a diminuir e desapa- recer Aqui. próprio para marcenaria e construção naval. Mesmo que as árvores fossem abatidas ao nível do solo. a caixeta. a canela. que devido à imprevidência do cultivador. As tábuas são vendidas por dúzias. o nosso pinho. . que substitue. I. exploram nesta região são o jacarandá. o araribá.

na discussão de vagas questões de direito absoluto ou as vãs teorias de uma economia política antiquada e inaplicável sobretudo à América? A exploração de madeiras não é. Vários colonos renunciaram en- tão a seus engenhos e dedicam-se hoje à cultura do cafeeiro. Entre o sítio do Paulista situado a 4 léguas ao norte dessa cidade e o porto de S. mas reconheceu-se que é a cana de açúcar a planta mais conveniente à região e que ela pouco renderia se não fôsse cortada no mo- mento da maturação. que dá menos trabalho que a da cana. João da Barra contam-se cerca de 20 engenhos de açúcar. Vi operários brasileiros trabalhando tábuas de madeira comum na França ou na Inglaterra.366 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE espécies. se o govêrno do Brasil continuar a ligar tão pouca atenção ao que se faz atualmente na expiração das florestas brasileiras. nem tantos escravos e que . livre o Brasil dos grilhões do sistema colonial. à qual se devem os felizes ensaios sobre a introdução da cocho- nilha e da cultura do índigo (anil). não exigindo tantas benfeitorias. pode-se prever com segurança que em breve os navios irão da Europa ao Brasil carregados de tábuas de madeiras de construção. e. mais ou menos distan- ciados da beira do mar. Sob a benéfica administração do MARQUÊS DO LAVRADIO havia sido criada na Capital uma academia filosófica que se ocupava da utilidade da agricultura do país. arrancando-os a imprevidência e abrindo-lhes novas fontes de prosperi- dade? Isso não seria melhor que consumir tempo e inteligência. a única ocupação dos cultivadores dos arredores de Macae. Como é que hoje. não se forma na capital do império uma sociedade de agri- cultura que tenha por fim esclarecer os lavradores so- bre seus verdadeiros interesses. aliás.

ordenou-lhes abandonassem a ilha. o mes- mo acontecendo ao milho. ao arroz e à mandioca. um pouco ao sul da embocadura do rio Macaé (8). é excelente e perfeitamente límpida. mas a que se bebe em Macaé. que tem propriamente o nome de ilha de Santana é dotada de árvores e agua potável. vizinhas dessa cidade. com bom vento pode-se fazer a v i a g e m em 48 horas e mesmo em menos tempo. mas tendo o governo percebido que. situadas a uma meia légua do mar. entretanto. Outrora aí havia alguns moradores. h i s t . . M e m . mesmo para os barcos de alta tonelagem. são em número de três. Os colonos dos arredores de Macaé cultivam o algodão mas somente para o consumo de suas famílias. eles se aproveitavam das vantagens da posição da ilha para favorecer o contrabando de pau-brasil e de escravos. e. Direi agora alguma cousa mais. e. em uma região tão quente ela pode ser considerada como inapreciável. a necessidade de numerário obriga frequentemente os menos ricos a vender na própria região uma parte de suas colheitas. e apresenta bom ancoradouro. A maioria dos proprietários enviam por conta própria. Já me referi às ilhas de Santana. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . mas. O frete. II. porque. Asseguram. ao Rio de Janeiro'o café colhido. 177. Desde muito tempo encontrava por toda parte água extremamente má. de Macaé à capital do Brasil é de 2 patacas o saco de 2 alqueires. A maior. Entre as vantagens que gozei na cidade de Macaé há uma que não pode passar em silêncio. para tornar mais completa a descrição que dei de tôda a região. Essas ilhas. que a ilha de Santana (8) P I Z . desde essa época não foi concedida a nenhuma pessoa permissão para ai residir. 367* produz muito bem nas vertentes vizinhas de Macaé. .

que termina ao norte pela ponta dos Búzios e ao sul pela de João Fer- nandes . insignificante curso dágua que deve nascer perto de Campos Novos. distante uma légua da ponta de João Fer- nandes. levando-a à ilha de Santana onde é adquirida pelos compra- dores (9). A uma meia légua desta última fica a foz do rio S. Essa madeira. encontrar-se-ia a 4 léguas de Macaé e da baía das Conchas a embocadura do rio das Ostras.H Í L A I K E ainda é hoje de grande utilidade para os aventureiros estrangeiros que fazem o comércio fraudulento de pau- brasil. sôbre a segunda. Ao sul do Una a costa se curva para formar a Baía Formosa. que se não pode cortar sem per- missão expressa do rei. carre- gando a madeira em pequenas embarcações. seguindo a costa. a uma légua (9) Creio não ser preciso repetir que me refiro à época de minha v i a g e m . João e a 3 léguas mais adiante a do rio Una. . O lado meridional dessa baía é limitado por uma pequena península. onde qualquer embarcação poderá encontrar abrigo. e. a primeira fica distante uma légua do rio Una. há um destaca- mento militar incumbido da repressão ao contrabando de pau-brasil. dizem. estes aproveitam as noites para abaterem as árvores. Para além dessas duas pontas a costa retoma a direção NW que havia tido desde o rio Macaé até o fundo da Baia Formosa. Os contrabandistas estran- geiros obtem-no dos habitantes da região. .388 A U G U S T O DE S A I N T . depois diante da enseada do Pero. é extremamente abundante nos arredores de Cabo Frio.Se das ilhas de Santana se quizesse navegar para o sul. próximo da foz. passa-se então diante da pequena enseada da Ferradura. Nas vizinhanças dessas pontas ficam as ilhas chamadas da Âncora e outros menores. .

( E s t a m p a da " F l o r a " de MartiusJ .Queimada na Província de Minas Gerais.

DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . mas os índios foram. nada paguei. que não perde mais até quase a baía do Rio de Janeiro. E' en- tão que o litoral toma a direção EW. ROUSSIN. Mais longe ficam as terras do Cabo Frio que já escrevi. no meio das imensas florestas vizinhas da serra do Mar. nem por mim. apre- sentam pouco interesse para que eu as transcreva aqui. a do morro de Nazaré e a ponta Negra.) por pessoa. e devo lamentar não ter visitado esses lugares. e. e. em piroga. ou portaria. nem por meus empregados e por meus animais de carga. 369* da primeira. sem dúvida. E' preciso que se diga que entre Cabo Frio e a cidade de Macaé a escassez de habitantes somente é observada no litoral propriamente dito. o rio. pode-se desembarcar igualmente dentro dessas duas enseadas. Graças ao meu passa- porte régio. . saindo-se pelo Boqueirão do Sul avista-se a pequena ilha dos Franceses. sem dúvida muito interessantes para o naturalista e onde teria o prazer de encontrar ainda alguns restos de uma civilização de que em breve não haverá mais o menor sinal. quase retiííneo em todo esse espaço ele aí não oferece senão duas pontas mais ou menos notáveis. htet. No interior. substituídos por bran- cos ou mulatos.. 179 e as cartas do Sr. As descrições que teem sido publi- cadas sôbre esses luçares são muito deficientes. rochedo que avança sôbre o mar em uma distância de mais ou menos um quarto de légua (10). os missionários haviam formado diversas aldeias que foram depois transformadas em paróquias. II. Deixando Macaé atravessei. Parece que a população indígena decresceu singularmente . (10) Vide Mem. O pedágio é cobrado pela administração da cidade à razão de 40 réis (25 c.

quando passei pelo arraial do Barreto. di- zendo ser o fim da minha viagem apenas colhêr plantas (11) Como se verá mais adiante os Campos de G o i t a c a z e s começam em Macaé. que se compõe de uma capela e algumas choupanas construídas ao redor de um belo gramado. E' uma planície que se pro- longa entre colinas e à beira do mar e que apresenta tufos de matas entremeados de pastagens um pouco pantanosas onde pascem numerosos animais. mas aí despertei uma curiosidade que não deixou de ser importuna. e respondendo negativamente.370 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE Para além do rio Macaé percorre-se uma região agradável e risonha (11). O juiz suplente de Macaé me havia dado^uma carta de recomendação para o proprietário de Cabiúnas. . Com- primiam-se ao redor de mim e atormentavam-me com perguntas impertinentes e cada qual mais ridícula. Perguntavam-me então quais mer- cadorias eu vendia. Sua casa foi a primeira onde. Aliás havia duas ou três que nunca deixavam de fazer. A cerca de uma légua de Barreto parei na pe- quena habitação de Cabiúnas (12). mas seus habitantes não teem aí um capelão. que me recebeu perfeitamente bem. construída sôbre uma colina de onde se avista uma região agradavel- mente ornada de matas e pastagens. Êsse lugar depende da paróquia de Macaé. depois do começo de minha viagem pelo litoral. (12) Provavelmente das palavras tupis — caba — marim- bondo e una preto. me ofereceram a jantar. em todos os lugares em que parei desde que sai do Rio de Janeiro. o que é comum nos lugares um pouco distanciados da igreja paroquial e onde alguns colonos se acham reunidos. Havia feito uma légua desde Macaé.

as Mirtáceas mostram-se em maior número que as plantas de outras famílias. queriam logo saber quanto eu ganhava para isso. Meu hospedeiro de Cabiúnas fez-me almoçar em sua casa. perto de Cabiúnas os arbustos são em geral mais espaçados e menos vigorosos. 371* do país. Pouco tempo após ter deixado a casa desse homem cheguei a uma grande planície que se prolonga entre o mar e os morros cobertos de matas. todavia. mas. Tinha me distanciado de minha comitiva para co- lhêr plantas. no meio do qual há abundância de uma Xyris e três ou quatro espécies de pequenos Eriocaulon de flores solitárias. observou que não nos acháva- . Aqui. ao menos pelo aspecto. gênero de plantas que procura terrenos análogos aos que em nosso país são preferidos pela Exacum filifor- me e pelo Linum radiola. como em Cabo Frio. mas provavelmente havia esquecido que mi- nha caravana não devia parar antes das cinco ou seis horas da tarde porquanto apenas ofereceu-me uma ti- gela de café com um pequeno pedaço de bolo de farinha de mandioca. Aí. sempre que o solo se torna um pouco úmido aparece um relvado fino e raquítico. Ao fim de algum tempo.. meu doméstico. Acostumados à venalidade introduzida no país por um despotismo sem energia. essa boa gente não podia conceber que se dedicasse a qualquer trabalho sem outro motivo que o de ganhar algum dinheiro. encontrei uma vege- tação semelhante. no meio de um areial branco e quase puro. à da restinga de Cabo Frio. Nos lugares secos os espaços entre os arbustos são inteira- mente nus. não formam os tufos e. à época de minha viagem (16 de Setembro) havia muito menor número de flores. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . que me acompanhava.

que separa o mar de um grande lago. descobrimos uma casa à beira do caminho. com grande satisfação. repetido.372 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE mos no caminho certo. aí encontrei licor. que logo se dissipou por» quanto êsse telhado era de uma capela abandonada. Contudo avistámos ao longe um telhado. Enfim. toda a região apre- sentava o aspecto austero da aridez e da solidão. o que quer dizer que passavam . onde fui informado de que não me achava des- viado do caminho. como não notava nenhum traço da passagem de minhas bestas. e que minhas bestas haviam passado por ali poucos momentos antes. procurámos outro no meio do areial. O dono da venda respondeu-me que pescava no lago. Entretanto. acabei por convencer- me de que me havia desviado e entrevi com aflição a probabilidade de passar a noite ao relento e sem nada para comer. Mau grado a mesquinha aparência da venda e seu isola- mento. inutilmente. A côr do mar con- trastava tristemente com o tom pardacento do lago. Tratava-se de uma pequena venda. Aí chegando deparámos uma estreita faixa de ter- ra. foi preciso voltar ao que havíamos deixado. e nenhuma habitação aparecia aos nossos olhos . aí fiz com grande prazer um complemento ao almoço frugal do meu hospedeiro de Cabiúnas. o único movimento que aí se notava era o das vagas. biscoutos. contra o qual as ondas vinham quebrar. e que passavam continuamente via- jantes pela estrada. como temia. Caminhávamos sobre um areial puro. monótono. - dando-me alguma esperança. figos secos e azei- tonas. Per- guntei ao proprietário e a sua mulher se não se enfa- davam naquela solidão. sem vegetação. do outro lado deste avistámos apenas matas. pareceram surpresos com minha pergunta.

Como em Minas. Seria impossível cultivar alguma cousa no sítio do Paulista. 373* dois ou três por dia. atravessando sempre um terreno plano e á r i d o encontra-se então o sítio do Paulista. O hábito familiariza o homem com todas as situações. além do que os bezerros consomem. Após o lago de Carapeboi (13). m i l h o e uma pastagem cercada para os animais. São tratados com tão poucos cuidados quanto os de Minas e nem mesmo há necessidade de lhes dar sal porquanto a terra e a água são mais ou menos impre- g n a d o s dessa substância. os s í t i o s são estabe- lecimentos rurais i n f e r i o r e s às fazendas.\ Em uma costa tão deserta o viajante é feliz em encontrar êsse asilo. manteiga e alguns outros alimentos. não há nada que não termine p o r fazê-lo feliz. e. não p a s s a de uma choupana construída à beira do oceano. O gado de^sta zona é su- (13) Carapfboi vem p r o v a v e l m e n t e das palavras i n d í g e n a s eai*R cousa curta e h o y a cobra. em uma planície estéril e arenosa (14). o n d e a c h a queijo..» Rei.outra la- g u n a . acha-se. na margem do qual f i c a a venda de que venho de falar. um dos lugares em que param os viajantes que percorrem essa e s t r a d a . DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . são tidas como as melhores. e as que produzem 4 pintas por dia. mas existem nesse lugar terrenos cobertos de uma erva m u i t o fina e de boa qualidade para que o proprietário p o s s a aí criar algum gado. (14) Como d i s s e na minha l. quando se persuade que é impossível mudar de situação e quando ao mesmo tempo não tem êle sob as vistas os objetos que possam torturar-lhe a imaginação. . somente as v a c a s com bezerro fornecem leite. O sítio do Paulista que deve sem dúvida seu n o m e à terra d o que primeiro aí se estabeleceu. Aqui os bovinos não pertencem a nenhuma raça boa.

O último lago diante do qual passei antes de chegar ao lugar chamado sítio do Pires. quase sempre de sabor pouco agradável. atribuídas às águas estagnadas que bebem nos lugares baixos. Em alguns. em uin espaço de 7 1/2 léguas.seus produtos ao Rio de Janeiro. e arenosa. Disseram-me que esperavam ali vender suas mercadorias porquanto os usineiros do lugar preferiam remeter . 255. p â g . Do sítio do Paulista ao sítio do Andrade. E' de notar que é pelas plantas aquáticas que a vegetação deste país mais se assemelha à flora européia. uma grande Sagitária. uma bela utriculária. João da Barra com uma tropa carregada de açú- car. Chegando ao sítio do Paulista aí encontrei nego- ciantes vindos da cidade de Campos e que se dirigiam a S. continuei a percorrer região uniforme. situados entre o sítio do Paulista e o sítio do Pires. latifolia e a angustilolia. é chamada na re- (15) V i d e m i n h a Histoire des plantes les plu» remaifcja« Mes du Brésil et du Paraguai. nas margens cresce o Âlisma ranunculoides e nos lugares simples- mente pantanosos a Drosera intermedia tal como é encontrada nos arredores de Paris na represa de S. estava i n t e i r a m e n t e co- berto por uma Typha que me pareceu i n t e r m e d i á r i a entre a T. um nenúfar branco. . porém. Leger (15). o que. vê-se uma Ciperácea que por seu porte assemelha-se muito ao Scirpus lacutris. pois que em regiões tão pouco parecidas essas plantas habitam um meio que é sempre mais ou menos o mesmo.374 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE jeito a cólicas. aliás não é de se admirar. deserta. são tratados pela mudança de pastagem e aproximação das lagoas de água salgada. À direita do caminho que margea o mar estendem-se dunas e à esquerda sucedem-se lagos de água mais ou menos doce.

uma outra espécie de praga privou-me de dormir. indica que. sendo habitada por um escravo de sua família. limitada. ven- do-se apenas vasta planície. 375* d ã o tabúa. Não percorri em um só dia o trecho de 7 léguas que venho de descrever. quan- do chove durante muito tempo. Em c o n s i d e r á v e l trecho não existe nenhum lago. espalhava um odor muito desagradável. não sendo difícil ver-se isso pois que os vapores exalados das lagunas devem necessariamente infestar a atmosfera. espalhadas pelas pastagens dos arredores. Êsses desagradáveis animaizinhos pareceram-me ser mais alongados que os da Europa. em parte apodrecido. A duas léguas e meia do sítio do Paulista parei no sítio do Pires. A choupana do Pires de- pende de uma fazenda vizinha. mas penso que essa diferença de forma é resultado da mudança de clima. Desde o começo dessa viagem não havíamos ces- sado. por matas e coberta de um relvado fino e uniforme. entre- tanto a terra. essas grandes planícies transformam-se em lagos. que. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . fui atormentado por persevejos de cama. e frequentemente tínhamos de nos quei- xar dos mosquitos. servindo para cobrir casas e fazer esteiras. ao longe. O que tende a provar que o persevejo não é natural desta parte da América é que êle ainda é muito pouco . eu e meus empregados de ser atormentados pelos bichos de pé. Esse es- cravo criava galinhas e pescava nos lagos. a quem seu dono havia confiado a guarda de duzentas ou trezentas cabeças de gado. Durante a noite que passei no sítio do Pires.m e que a região era muito insalubre. D i s s e . fendida por toda parte. Para aí chegar passei entre o lago coberto de Typha e uma laguna cheia de Sphagnum. choupana um pouco afastada do caminho.

O sítio do Andrade fica situado perto do mar. e. A casa tem um só andar e compõe-se de uma capela. não se encontrando seu nome nos dicio- nários da língua-geral. à entrada da planície. que. e durante todo o dia apenas encontrei duas pes- soas. nenhuma chou- pana. Nessa triste região não vi. uma sala. deitados sobre o solo. Os numerosos animais que pastam nos campos. alguns cactus espinhosos. vizinha da cidade de Campos. e pertencia : como esta fazenda. uma cozinha e uma varanda ou galeria. Os relvados e as margens das lagunas não oferecem senão uma espécie de gramínea e tufos flo- ridos de uma pequena Hedyotis.376 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE disseminado. à ordem dos jesuítas. durante todo o dia não colhi nem uma só planta. entre Pires e Andrade nenhuma quinta. com apenas um pé a pé e meio de altura. dois quartos. Nada mais monótono que a vegetação desta região. mostram quanto o terreno é sáfaro. nos lugares em que há mais variedade aparecem unicamente pitam gueiras (Eugenia Michellii). e.). Bromeliáceas igualmente cheias de espinhos e aroeiras (Schinus therebentifolius Radd. são a única nota de movimento e vida exis- tente na paisagem. O terreno no sítio do Anárade é pantanoso e constituído por uma mistura de areia e terra negra. con- junto que nas zonas desertas constitue um verdadeiro palácio. Na duna que se es- tende à beiramar apenas se vêem pés raquíticos da Sophora littoralis (feijão da praia). Faz parte da bela fazenda do Colégio. Do sitio do Pires fui pernoitar no sítio do An- drade. e as aves aquáticas que voam gravemente por cima dos lagos ou que procuram seu alimento nos terrenos úmidos. Ao redor da casa vêem-se vastas pastagens formadas .

vastas pasta- g e n s que se estendem paralelamente ao mar e onde h a g a d o numeroso. D) II S T M T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL 377 oor uma relva rasa. limite do termo de Macaé e do distrito cie Campos dos Goitacazes. mais longe veem-se tufos de m a t a s r a q u í t i c a s . Um regato de água salobra ser- pentea na planície onde pascem numerosos rebanhos. distrito que será conhecido no capítulo seguinte. en- c a r r e g a d o s de cuidar do gado que vive nos arredores e sem dúvida este lugar em breve só apresentara r u í n aao. . . Cheguei em seguida à embocadura cio rio Furado. Após ter saído do sítio do Andrade atravessei. Atualmente o sítio do Andrade é apenas habitado por dois escravos da fazenda do Colégio. s. E' de crer que os jesuítas construíram essa casa para terem um abrigo quando iam da cidade de Campos à sita usina de açúcar de Campos Novos ou à aldeia de S Pedro. d u r a n t e um pouco mais de 1/4 de légua. e.

— População do distrito. — Cultura de cana de a ç ú c a r . desejo que teem todos os habitantes de Campos de se tornarem proprietários de usinas. quase todo. — História de Campos dos Goitacazes. sua emboca- d u r a . resultado moral dessa ambição. como essa província é muito pobre para suprir-se a si mesma. — Como são tratados os escravos em Campos. Entretanto não é ao ouvidor da Capital que se recorre das decisões do^ tri- bunal de Campos. . — Fertilidade. — Caráter dos habitantes deste lugar. — O Paraíba. seus limites. — Criação de bovinos e cavalos. inundações desse rio. lenha que se emprega para aquecer as caldeiras das usinas. CAPÍTULO y QUADRO GERAL DO DISTRITO DE CAMPOS DOS GOITACAZES. Os Campos dos Goitacazes estão sujeitos à auto- ridade de um juiz-de-fora e formam parte integrante da província do Rio de Janeiro. mas ao da província do Espírito Santo. e. O território de Campos dos Goita- cazes pertence. influência que exer- cem sobre a salubridade da região. a quatro poderosos proprietários. Administração do distrito de Campos dos Goitacazes. a u m e n t o progressivo do número de usinas. seu curso. quantidade de açúcar exportado e modo de e x p o r t a ç ã o . volume dágua que êle leva ao m a r . — E m que condições esses pro- prietários arrendam seus terrenos. resolveram aplicar em suas des- pesas grande parte das rendas de Campos dos Goita- cazes. diversas qualidades de açúcar. como se faz o comércio d o açúcar.

(3) PIZ. III. 86. ela torna-se de extre- ma fecundidade. mais ao longe as montanhas aproximam-se do oceano. mas. Mst•. que. .s e que caiu em êrro um célebre v i a j a n t e ^ a n d o acreditava que n â o h a v i a s a v a n a s na província do Rio ae Janeiro. . mas mais próximo da cidade de Campos. uma população numerosa entrega-se ao seu cultivo. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . falando-se corretamente. N ã o s ó m e n t e e l a s e x i s t e m no d i s t r i t o de c a m p o s . OUAU VI e do Imperador D. 379* A jurisdição do juiz-de-fora encarregado da ad- ministração desta região começa na embocadura do rio F u r a d o . PEDRO. dotada apenas de juizes ordinários (1). o solo (1) P I Z . Na parte vizinha dq mar ela é pantanosa. compreende o território de S. a 20°16' de lat. comumente. arenosa e coberta de uma erva rasteira (4) . . 85. essa planície pode ter uma dúzia de léguas (3). i n f e l i z m e n t e deixaram êsse ponto da g e o g r a n a brasileira em g r a n d e obscuridade. deve ser chamado de Distrito de Campos dos Goitacazes. E' esse território que. João da Praia ou da Barra. e estende-se até ao rio Cabapuana. S. ao que parece. M e m . . . e o viajante que durante muito tempo teve sob seus olhos praias áridas e desertas. (4) V ê . (2) O que d i g o sôbre os l i m i t e s de Campos e resultado da comparação de m i n h a s n o t a s com o que escreveram CAZA1. João (2). h i s t . III. Do cabo de São Tomé à sua extre- midade ocidental. Mem. casa de campo do rei D. 106. e PIZARRO. goza enfim o prazer de admirar uma região risonha que lhe lembra os arredores das grandes cidades da Europa. limite das províncias do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Em frente a Campos a margem esquerda do Paraíba é igualmente muito fértil e muito cultivada. chama-se Campos dos Goitacazes à imensa planície que se estende do mar às montanhas entre o Paraíba e o rio Macaé ou mesmo o rio S. pequena vila situada à embocadura do Paraíba. m a s ainda perto de Santa Cruz.

como se procurasse sempre abrir uma passa- gem através das montanhas. Paulo e perde logo o nome de Paratinga. Banha as pequenas vilas de G u a r a t i n g u e t á . descrevendo mesmo uma espécie de pa- rábola. PIZARRO ou E S C H - WEGE. em g u a r a n i s i g n i f i c a — rio que vai ao mar. Após ter corrido cêrca de trinta léguas sem nenhum desvio sensível. (Corresponde ao Vo- lume 126.. na serra da Bocaina (8). Êle corre por trás dessa cadeia. a Rei. rio de que já falei em outra ocasião (6) e sobre o qual darei ainda alguns detalhes.65. parte da grande cadeia marítima. que se une à cadeia marítima. A princípio êle se dirige para SW. da Coleção Brasiliana). O Paraíba (7) nasce à cerca de 28 léguas do Rio de Janeiro. (5) A c o n t i n u a ç ã o d e s t e diário f a r á conhecida e s s a re- g i ã o com detalhes. 60. vol. são além disso irriga- dos por grande número de rios. quase paralelamente ao mar. En- tretanto é preciso excetuar o Paraíba. pág. I. como não pode ir mais longe descreve uma volta sobre si mesmo. lagunas e pântanos. cheios de lagos de água doce. Paraitinga ou Piraitinga que tinha de início. Os Campos dos Goitacazes.380 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE torna-se mais desigual. (7) P o r Parayfoa que. Não m e lembro de ter o u v i d o f s s e nome e não o acho indicado em CAZAL». avança pela província de S. grandes amtas reaparecem e os terrenos cultivados tornam-se mais raros (5). o prolongamento da serra da Man- tiqueira ou serra do Espinhaço. a população decresce. (8) Vide m i n h a l. (8) U m c i e n t i s t a e s c r e v e u que o P a r a í b a n a s c e n a s m o n - t a n h a s de Mato Grosso. encontra. seguindo a direção norte-nor- deste. mas formando numerosas sinuosidades. . junto à cidade de Jacareí. Êstes teem todos um curso pouco extenso e são pouco importantes.

entretanto a embocadura desse (9) Percorri e s s a encantadora região em minha 4. 6. II. — PIZ. enfim. 43. Como o Paraíba percorre uma vasta região. porquanto seus afluen- tes. mas." viagem. (12) N ã o poderia a f i r m a r se n e s s e lugar exi3te verdadei- ramente uma c a s c a t a ou se não simplesmente corredeiras. Se se tornasse esse rio navegável em todo o seu curso. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . o que talvez não seja impossível. são geralmente pouco consideráveis. Fidélis. 130. po- dem entrar no Paraíba. . descendo de duas cadeias de montanhas muito próximas. C o r o g . h i s t . no mar. III. Mem. aldeia situada a 8 léguas de Cam- pos (11) ele forma uma cascata (12). incessantemente interrompido por pedras e cheio de ilhotas. Passando pela aldeia de Rezende inclina-se para NE.. em guarani quer dizer — rio que forma ondas njegras. Perto de S. embelezando os campos com suas elegantes sinuosidades (9) e passa para a província do Rio de Janeiro. após um curso de cerca de 90 a 100 léguas portuguesas.. — ESCHW. po- der-se-á crer que leva ao oceano um imenso volume dágua. 381* Lorena e Pindamonhangaba. banha em se- guida a cidade de Campos. de 2. (13) CAZ. depois para E e recebe as águas do Parai ou Paraibuna (10) e do rio Pomba. lançando-se. somente é navegável em trechos pouco extensos (13). João da Praia. Embarcações (sumacas) capazes de levar de 5C a 120 caixas de açúcar. mais em baixo as águas do Muriaé unem-se às suas.000 libras cada uma. . Neuc W e l t . No estado atual das cousas o Paraíba. isso não acontece. (11) Curiosos detalhes sobre essa aldeia são encontrados nos escritos do príncipe de N E U W I E D . II. (10) Por P a r a y u n a que. um pouco acima de S. dar-se-ia vida nova aos belos lugares que ele irriga e onde os transportes são atualmente difíceis e dispendiosos. B r a z .

diz q u e b a r c o s d e g r a n d e t o n e l a g e m apoj t a m a e s s a cidade. N ã o p o s s o d e i x a r de v e r e s s a a s s e r ^ c o m o e r r ô n e a . mas que não podem conter mais de 13 a 16 quando as águas estão baixas (15). Mst. III. somente cessa a 10 léguas do oceano. p o d e m ir ate cidade. e. e o canal aonde passam os barcos muda frequentemente de lu- gar. do lado sul em particular as águas alcançam cerca de 10 léguas fora de seu lejto normal. n a é p o c a d a s e n c h e n t e s . AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE rio é muito perigosa. mais distanciados o são geral- mente logo ao comêço do ano.. No distrito de Campos as chuvas caem principal- mente durante os últimos meses do ano. E' unicamente nas marés altas que os sumacas podem entrar ou sair. j u s t a m e n t e célebre. enquanto que outros. . segundo a direção de que veem as areias (14). muitos terrenos que nunca são inundados. transborda pelos cam- pos. (Mem. o Paraíba. muito perto do rio. 1 3 2 ) . a s s u m a c a s . aí pelo fim da estação chuvosa. elas se espraiam somente nas partes baixas. h á o u t r o m a i s s e t e n t r i o n a l por o n d e p a s s a m a s p i r o g a - unicamente nas marés altas que as sumacas podem (15) U m c i e n t i s t a . e n t r e t a n t o d e v o a c r e s c e n t a r que. A inundação. estende-se em ambas as margens. Da cidade de Campos a esse ponto as mer- cadorias são transportadas em barcos que na época das enchentes comportam de 18 a 20 caixas de açúcar. E' impossível que essas (14) P I Z A R R O diz q u e a l é m do c a n a l p e l o qual p a s s a m as s u m a c a s . e ordinaria- mente em Janeiro. m a s q u e n u n c a e s t e v e em Campos. dois ventos de direções diferentes lhes são sucessivamente necessários nessa circunstância e elas não poderiam ir além do ponto onde a maré deixa de atuar. existindo ao redor de Campos. s e g u n d o n - ZARRO. saindo de seu leito. E' preciso entretanto não pensar que elas cobrem toda a região. obstruida por areias. começando na embocadura do rio.

se as i n u n d a ç õ e s do Paraíba não exercem influência maléfica sobre a saúde da maioria dos habitantes do distrito de Campos. nos arredores de Campos as doenças nao são muito frequentes ( 1 7 ) . TAVARES. e. formando pouco a pouco o que hoje apresentam. podem se dar m u d a n ç a s notáveis. e parece que nas margens de certos rios. e em um espaço de 10 anos. Aliás é bem evidente que se esses terrenos um pouco elevados não recebem mais as águas do Paraíba. H y g . devem ser muito insalubres (16). eles eram outrora alcançados pelo rio. Mas. Disseram-me que os terre- nos inundados não eram em geral os mais férteis. nem irrigadas pelas águas do rio. Considerados em conjunto os Campos dos Goitacazes não podem ser tidos como região perigosa para a saúde. fonte da fecun- didade atual. Na verdade ium mi*dico mu distinto do Rio de Janeiro. com camadas superpostas de um limo útil. . tais como o sítio do Pires. cita ^ febre biliosa que em 180S exerceu em Campos a s maiores d i z i m a ç õ e s (Cons. Mas. acrescentam. o Dr. ê sabido que uma r e g i ã o se higieniza à medida que ê cultivada. exis- tindo. 383* inundações não contribuam para a fecundidade de cer- tos trechos dos Campos dos Goitacazes. terras que produzem todos os anos sem nunca serem adubadas. E' impossível que as inundações do Paraíba não contribuam para tornar insalubres algumas partes dos Campos dos Goitacazes. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . Os lugares permanentemente pantanosos. P a r i s . anualmente. até aqui pouco cultivados. reinam anual- mente as febres palustres. Ventos contínuos e for- tes varrem os miasmas que se elevam dos terrenos inundados. ^ r r t e c ^ ® n t 0 e - (17) O S u e e s c r e v o e s t á a b s o l u t a m e n t e de acordo com o s dados que s e v ê e m em^PIZARRO. elas (16) Vide a d e s c r i ç ã o d ê s s e l u g a r no c a P í t u l o . 1823). mas há outros em que elas devem manter um excesso de umidade pouco favorável à cultura.

Tourn-. Ela se compunha de três tribus: Goytaguaçú. Seus hábitos diferiam (18) Sabe-«© que as o v e l h a s e s t ã o e x p o s t a s m a i s ou menos a o m e s m o p e r i g o nas r e g i õ e s i n u n d á v e i s de F r a n ç a . na ocasião das inundações. a t u a l m e n t e c h a m a d o s gu&vullios p e l o s p o r t u g u e s e s . donde seu nome atual (19). Após ter feito conhecida a constituição física dos campos compreendidos entre o Paraíba e o Macaé. 44) que a l é m d o s Goi- t a c a z e s . Os animais. hist. Goaytacazes ou Goitacazes. é verdade. ( II. entretanto quando após a retirada das águas. s i t u a d a a p o u c a d i s t â n c i a da cidade de Campos ( P I Z . o u t r a cousa n ã o sao que os G o i t a c a z e s . absolutamente não falava a "língua geral". I s s o n ã o é i m p o s s í v e l p o r q u a n t o s e g u n d o E S C H W E G E (. 125) o s P u r í s t i n h a m uma o r i g e m c o m u m com os Coroados que. Bras. Os Goitacazes eram os mais selvagens e cruéis de todos os índios do litoral. (19) CAZAL dia (Coros.. que não somente faziam guerras contínuas aos seus vizinhos. c o m o s e v e r á . as pastagens não são logo lavadas por alguma chuva. Q u a n t o a o s Giiarôs. II. . e formava no litoral do Brasil uma espécie de quisto no meio das tribus da sub-raça tupi.384 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE teem graves inconvenientes para o gado bovino. poucos a n o s após a c o n q u i s t a d e s s e s b e l o s c a m p o s u m a a l d e i a c r i s t ã de G u a r u l h o s aí foi f u n d a d a por m i s s i o n á r i o s f r a n c e s e s da ordem dos Capuchinhos. à sub-raça dos Tapuias. como viviam en- tre si num estado horrível de hostilidades sempre reno- vadas. ê que. Reuniam a uma complei ção gigântea uma força extraordinária e sabiam ma- nejar o arco com destreza. a l d e i a que ê a t u a l m e n t e a p a r ó q u i a da S. ou G u a r u l h o s o que t e n d e a provar que c o n t a v a m t a m b é m n o n ú m e r o dos h a b i t a n t e s p r i m i t i v o s dos C a m p o s de G o i t a c a z e s . ao que se diz. Mem. Goyta- camopi e os Goytacajacorito. Onetaca- zes. h a v i a aí os Puris e os Gitarüs. direi qualquer cousa sobre sua história. Êles eram outrora habitados pela nação dos Onetacas. refugiam-se nos lugares elevados. 2 2 ) . Essa nação pertencia. A n t ô n i o d o s Guarulhos. IV. o limo que cobre as ervas causa moléstias mortais (18).

que foi publicado m a i s tarde. que s e g u i fielmente. (22) SOUTHEY h a v i a dito no . 1578. •no s e g u n d o volume. é d . 220. eles armazenavam as o s s a t u r a s dos seus inimigos vencidos e construíam tro- f é u s abomináveis (22). ele concorda com o que e s c r e v e u o P. construíam suas tabas sustentadas por um poste. An eh. e onde dá n o v o s d e t a l h e s sobre os índios em questão. mas. vivendo longe das florestas. 5. de 20 a 30 léguas de (20) I n c o n t e s t a v e l m e n t e o tubarão dos Brasil. B r a s . foi provavelmente a dificuldade de lenha. que os Goitaeazes aprisionavam s e u s inimigos. e. Suas flechas eram armadas de dentes agudos de tubarão (20) e. nessa r e g i ã o descoberta. sob o nome de capitania de S. c h a . o nobre português PE- DRO DE GÓIS DA SILVA recebeu seu quinhão. no meio dos grandes lagos que cobrem a região. Quando o rei D. Não t e n d o receio de ver seus cabelos embaraçados em lia- nas e galhos de árvores. VASCONCELOS. p â g . — VASC. nos combates que incessantemente t i n h a m com esse peixe perigoso. tornaram-se hábeis nadadores e. l i v . DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . e n t r e t a n t o . que os levou ao hábito bárbaro de c o z e r ligeiramente a carne dos animais de que se nu- t r i a m . . Vid. JOÃO III dividiu o Brasil entre os grandes senhores feudais. Menos cruéis. empregavam tanta c o r a g e m como força e habilidade (21). 52. 385* muito dos dos outros Tapuias. p á g s . 37. para os animais que implacáveis para com os homens que os injuriavam.primeiro v o l u m e de sua e x - celente história. deixavam-no crescer em liber- d a d e .eiros-Portu- g-nesea é o Squallus tifouro L. mas são geralmente o resultado das circunstâncias em que se viram coloca- dos. (21) L E R Y Voy. I. — P. para evitar o inconveniente de dormir em terreno pantanoso. 53. A s s i m . JOSÉ D E MORAIS D A FONSECA PINTO in E S C H W . Tomé. 12. como certos pombais. aprenderam a combater galhardamente em campo raso.

A as- sociação que se formara para se a s s e n h o r e a r dos Cam- pos dos Goitacazes juntaram-se: o provincial cio jesuítas. GÓIS embarcou acompanhado de colonos. os europeus não conseguiram nenhum progresso sensível nos campos dos Goitacazes. viu-se obrigado a ceder às solicita- ções de companheiros desanimados e a abandonar a empresa pela qual havia feito tão grandes sacrifícios. após três anos de hosti- lidade contínuas. Obtiveram em 16*o ou 1627 as concessões que pediram. e. mas deixaram pas- sar um tempo assaz considerável sem explora-las de- tidos pelo temor que lhes inspiravam os índios Goitaca- zes A ambição e cupidez dos portugueses nao lhes permitia entretanto abandonar para sempre a uma população selvagem uma das zonas mais ferteis da vasta região de que se diziam legítimos donos. Vicente e Es- pírito Santo. Os Goi (23) E s t a data indicada a principio pelo padre D E MADRE DEUS. o abade dos beneditinos e várias p e r s o n a g e n s distintas dessa época. os homens ricos do Rio de Janeiro associaram-se para pedir ao procurador de GIL DE GÓIS vastos terrenos onde se propunham a criar gado. Durante dois anos viveu ele em paz com os Goitacazes. tudo quanto possuía e chegou. porquaiito ê a que se na obra de PIZARRO. . com armas e víveres. mas depois e s s e s índios fizeram-lhe guerra. nos Campos dos Goitacazes. Entretanto.386 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE litoral situada entre as capitanias de S. escritor cuja e x a t i d ã o é i n c o n t e s t á v e l . g e n t r e t a n t o acredito dever aceitá-la. Apaixonado pelo Brasil. foi em s e g u i d a rejeitada pelo abaüe ^ . como eram conhecidas as vantagens apresentadas por êsses belos campos. entre outras a figura de ^ VADOR CORREIA DE SÂ E BENEVIDES. Parece que até ao tempo de GIL DE GÓIS. se- cundo sucessor de PEDRO DE GÓIS. em 1553 (23) à foz do Paraíba.

e refugiaram-se nas florestas. após terem cortado seus l o n g o s c a b e l o s e a d o t a d o uma espécie de tonsura. tendo adotado o costume de cortar os cabelos ao redor e no alto da cabeça. J o u r n . Mas. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . tenham cortado s e u s cabelos. r e s p e i t a m muito as tradições ancestrais. sendo postos em fuga numerosos deles. renun- ciam contudo. E Y R . na província de Minas. II. D e m a i s não será de estranhar que os Goitacazes. pág. Querem n e g a r que as n a ç õ e s . 64) que não sômente possuia documentos preciosos relativos aos Goitaca- zes. (25) Parece que os Coropôs não se misturaram todos a o s Goitacazes. dizem. por medida da comodidade. deste volume. I. .n o s cortados. 143. os Macunís que. Se os índios nunca mudam de caráter. Quando vi os Botocudos do J e q u i t i n h o n h a havia apenas 9 anos que se rela- cionavam com os f i l h o s dos europeus (Vide minha l. atualmente (24). teem. muitos dentre êles já n ã o traziam o bodoque e o capitão Joahima morava em uma c h o u - pana idêntica à s dos brancos. Braz. porque êstes deixam crescer seus cabelos enquanto que os coroados u s a m . Ali eles incorporaram à sua tribu a horda dos coropós. Os (24) Vide a nota I do capítulo I.. todavia. onde seus descendentes ainda vi- vem. recebe- ram dos europeus a alcunha de coroados (26). adotado as r o u p a s e constroem c a s a s à moda dos p o r t u g u e s e s . (Corresponde ao V o l u m e 126-A. para os lados da província de Minas Gerais. e n f i m os próprios coroados. que haviam subjugado (25) e. trad. 76 e 124). (26) O príncipe de N E U W I E D . mas cujos a n c e s t r a i s haviam sido b e n f e i t o r e s desses índios e que e n f i m havia tido por avô êsse DOMINGOS1 ALVARES PESSANHA de que falarei. aos c o s t u m e s que n a maior parte das vezes são f r u t o s das necessidades da existência. porque em 1818 existiam ainda nas m a r g e n s do rio Pomba. refutando o autor da "Co- rografia Brazílica" ( V o y a g e . Pedro. a Rei. E e o n . 125).. Os índios que escaparam à morte não quizeram se submeter ao vencedor. Jotiíii. II. os mais corajosos foram mortos e para os que se renderam foi fundada a aldeia de S. 387* tacazes foram atacados aí pelo ano de 1630. a l g u m a s c e n t e n a s d e s s e s índios que a b s o l u t a m e n t e não se confundiam com os coroado« (ESCHW. ela o é ainda por JOSÉ JOAQUIM (DE A Z E R E D O COUTINHO ( E n s . I. p a s s a n d o de uma região de campos para outra de f l o r e s t a s espessas. mudaram ainda uma vez de moda (ESCHW. f a c i l m e n t e . 123 da Coleção Brasi- liana) e já tinham o hábito de vestir. a identidade das duas "nações" não é somente a t e s t a d a pelo abade CAZAL. 197) diz que não é verossímil que os coroados descendam dos Goitacazes. .

os P a n h a m e s . Alguns missionários fi- zeram esforços 110 sentido de tornar menos selva- gens (27) os antigos habitantes dos campos do Paraí- b a ' e cumulando-os de benefícios. triunfou inteiramente sôbre sua^ animo- sidade.. PESSANHA construiu para êles em sua fazenda de Santa Cruz. história dos i n d í g e n a s americanos e sobretudo da o r i g e m a suas numerosas tribus.388 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE Goitacazes ou Coroados não persistiram. c o n t i n u a m e n t e emi que- rela uns com os outros. os P a n h a m e s . entretanto. Por o u t r o l a d o os Goitacazes. v i v e m em conjunto porém sem união. Jourm. 414. Cansados de uma luta em que quase sempre levavam desvantagem. o s M a c u r ^ s e o ^ n o x ó s f a c i l m e n t e se misturaram próximo de ^ s s a a h a « ^ minha 1. . (27) MARLIÉRE in litt. minha v i a g e m .) roados ( E S C H W . da Coleção Brasiliana). Indíeenas n o s s a m dividir-se e f u n d í r . enquanto que os Coroados viviam em boa harmonia com a população portuguesa de Campos.« Rei.. no seu ódio aos portugueses. 125). por •> diversas tribus tendem a se dividir e subdividir s e m c e s s a i . 33 . i^onae . Entretanto. usando da mais escrupulosa boa fé. Mas s a b e . os Malalís. dificuldades i n t r a n s p o n í v e i s que se encontram no e s t u a o . os e l e m e n t o s da vida social não sao e n c o n t r a . Os índios a b s o l u t a m e n t e nao c o n h e c e r a a cidade. acreditam ter o r i g e m comum. ^ entre êles. (Corresponde ao V o l u m e 126-A pág. ^ divididos. não longe da cidade. os Malaiis e os Monoxôs etc. juntando-se em s e g u i d a para de novo se separar. II. e ao t e m p o d .s ^ q u a l a facilidade com que os j e s u i t a s reuniram n a s a m e s m a s l l d e i a s índios de d i f e r e n t e s t r i b u s . em três hordas sempre em g u e r r a unias com as outras: os P u r l s pertenceram outrora â n a ç a o d o . cometiam tôda sorte de hosti- lidades contra os colonos de Minas Gerais que tinham se estabelecido em suas vizinhanças. DOMINGOS ALVES PESSANHA que governava a cidade de Campos. . na qualidade de capitão-mor. c o m o disse. .. e n f i m osi ^ cudos são divididos em vários bandos. um -a*to galpão aonde vinham descansar e fazer >trocas com seus novos aliados. Os Goitacazes reapareceram como amigos nos campos em que haviam feito uma guerra sem tréguas aos portugueses. I.s e u m a s à s outras.

Êste eclesiástico era filho do c a p i t ã o . E n t r e g a n d o . . os Coroados tornaram-se menos bárbaros e foram muito úteis aos portugueses em suas guerras contra os Bo- tocudos (28). . ou- trora. e.s e de boa fé aos seus selvagens amigos. t a s i c o m o a t u a l m e n t e e x i s t e m . (29) D i z e m que o arcebisoo do Rio de J a n e i r o h a v i a s i d o admitido n u m t ê r ç o da p a r t i l h a y é n t r e j e s u í t a s e beneditinos. m a s que a t u a l m e n t e já não e x i s t e m .s e s e m p r e a recorrer a a l g u n s a u t o r e s a n t i g o s ou à obra pouco r e c o m e n d á v e l intitulada Histoire du Brésil. ÂNGELO deixou-se levar por eles através de florestas onde nenhum filho de europeu ainda havia penetrado. Os quinhões"foram feitos de modo equitativo. persistindo ela. após a morte de seu pai. a menos que dessem como garantia a palavra do abade ÂNGELO PESSANHA. que ouerem tornar c o n h e c i d o s os índios da parte oriental da A m é - rica. narram c o u s a s que existiram. que haviam aprendido a desconfiar de seus inimigos não quizeram entrar em negociações. a ordem dos Jesuítas e a dos Be- neditinos possessores de terrenos mais consideráveis que os de seus consócios (29). Quando os Goitacazes refugiaram-se nas florestas.m e i n t e i r a m e n t e errônea. SPIX e MAR- TIUS. SALVADOR CORREIA mandou (28) P o r m e n o r e s m u i t o i n t e r e s s a n t e s sôbre os c o s t u m e s atuais dos coroados e s u a s relações com os p o r t u g u e s e s Joram publicados no J o u r n a l v o u B r a s i l i e n pelos Srs. T a i s e s c r i t o s é que d e v i a m ser c o n s u l t a d o s pelos ro- m a n c i s t a s e p e l o s c o m p i l a d o r e s de história e g e o g r a f i a . tornara-se também benfeitor dos Goitaca- zes.m o r DOMINGOS ALVARES. A paz foi concluída em 1758 entre os mi- neiros e os Coroados ou Goitacazes. L i m i t a n d o . mas diver- sas manobras tornaram SALVADOR CORREIA DE SA E BENEVIDES. mas esses índios. os portugueses dividiram entre si os belos campos. Essa a s s e r ç ã o p a r e c e . em 1757. Como havia necessidade de um templo para cele- brar o ofício divino. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . 389* OS mineiros pediram. paz aos Goitacazes.

PEDRO II concedeu ao novo donatário permissão para fundar duas cidades nos Campos dos Goitacazes. em 1652. atraidos pela reputação de sua fecundidade. por p r o c e s s o s o p r e s s i v o s que caçar os índios. vis- conde da Seca. Numerosos colonos vieram logo.390 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE construir em suas terras. CORREIA DE SÁ foi feliz em suas pretensões. achava-se em Lisboa para solicitar a doação dos Campos dos Goitacazes ou Capitania de S. após a morte de GIL DE GÓIS havia revertido à coroa. MARTIM CORREIA DE SÁ. Tal foi a origem inicial da cidade de S. . no meio dêles imiscuiu-se uma multidão de criminosos. os habitantes da região resolveram elevar a ci- dade o núcleo que se formara ao redor da igreja de S. e nomearam os funcionários municipais. eles idealizaram fundar uma república na região em aj)rêço. Salvador dos Campos dos Goitacazes ou s i m p l e s m e n t e (30) Tudo quanto venho de dizer. Bento. Salvador. apoiado em autoridades respeitáveis. Sem recorrer à autoridade real. Salvador dos Campos dos Goitacazes ou simplesmente Campos (30). prova quanto há de errado quando s e e s c r e v e u que "quando aí pelo ano de 1580. SELEMA (por S'ALEMA) go- vernador do Rio. Afim de escapar à perseguição da justiça. confiando-a aos frades de S. de diversos pon- tos do Brasil. fixar-se nos campos dos Goitacazes. em 1674 a capitania de S. Tomé. A criação ilegal da de S. os j e s u í t a s tomaram posse das terras s i t u a d a s ao sul do Paraíba a f i m de se tornarem ú t e i s a o s índios". teve. foi pela segunda vez desmembrada dos domínios do Estado e o rei D. Salvador. e. uma capela consa- grada a S. A essa época. As cruel- dades de certos homens poderosos e os repetidos vexa- mes ocasionados pelos gerentes de vários proprietários residentes no Rio de Janeiro muito contribuíram para excitar o povo à revolta. que. Tomé ou do Paraíba do Sul.

O título principal não foi encontrado. mas. 391* Campos foi regularizada em 1675 ou 1676. inquieto. e o governo pôde enfim trabalhar com eficiência na civilizaçao dêsse povo. Êstes haviam obtido uma indenização. D. ~ \ cidade de Campos havia sido fundada original- mente a alguma distância do Paraíba. a cidade perdeu definiti- vamente um pedaço de seu território. no meio do qual os malfeitores não cessavam de refugiar. para satisfação geral dos próprios habitantes. os habitantes solicita- ram permissão para transferir seus domicílios. desordem e à rebelião a fraca autori- dade dos donatários ou de seus procuradores era in- suficiente. pouco tempo deoois deu-se também o título de cidade a S. em 1752 os Campos dos Goitacazes foram de novo anexados ao domínio da coroa. e vivia grosseiramente à vontade. em 1678 foram estabelecer-se à beira do rio. dedicando-se à fácil criação do gado. Em um período de 30 anos. e. parece. era tur- bulento. O povo dessa região. MARQUÊS DO LAVRADIO. em um ter- reno que pertencia aos monges de São Bento. Para sofrear homens tão inclinados à. adminis- trava honrosamente a província do Rio de Janeiro foi um dos que mais se esforçaram para modificar o ca- . que em 1774. Descontentes dessa posição pouco favorável. cultivando apenas o necessário ao seu consumo. LUIZ DE ALMEIDA PORTUGAL SOARES. João da Praia ou da Barra. e. a história do distrito dos G o i t a c a z e s apenas oferece uma longa série de disputas e revoltas. 12 anos mais tar- de houve querelas relativamente ao tratado que eles haviam feito. mas. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . uma excomunhão foi lançada contra os membros da câmara municipal e. situada na foz do Paraíba.

essa criação não exige nenhum sa- crifício. fazendo-lhes sentir necessidade de paz e boa ordem. sem instrução e fácil de sublevar-se (31). Reconheceram então que suas terras eram extremamente favoráveis à cultura da cana de açúcar e todos a ela se dedicaram. Durante muito te>mpo. acostumava-os ao exemplo da submissão e nunca os deixava regressar sem lhes fazer algum favor. . desencaminhavam sem di- ficuldade um povo agitado. o desejo de progredir inspirou-lhes gôsto pelo trabalho. Mas. e. Mem. novos confortos corrigiram-lhes pouco a pouco a gros- seria de seus hábitos e eles se policiaram (32). 119. (32) CAZ. — PIZ. Trabalhos mais frequentes acalmaram a imaginação irrequieta dessa gente. h i s t . Êle tinha principalmente o cuidado de afastar da região em apreço os advogados que. . como disse. na região tropical. 86-148. mas achei-os superiores a essa triste popula- (31) Vide a s curiosas i n s t r u ç õ e s dadas pelo m a r q u ê s de Lavradio a seu sucessor e i n s e r t a s n a s Mem. B r a z . Por outro lado atraia para perto de si os habitantes de Campos. os louváveis esforços dos vice-reis do Rio de Janeiro contribuíram menos talvez para reformar os costumes dos habitantes dos Campos dos Goitacazes que a mudança que então se operou em suas ocupa- ções habituais. 42-47. eles se dedicavam inteiramente à criação de gado. A U G U S T O DE SAINT-HILAIRE ráter do povo dos Campos dos Goitacazes. III. II. Coro«. com palavras bonitas. Distribuiu muitas terras que ainda se achavam sem dono e enco- rajou cidadãos do Rio de Janeiro a irem estabelecer-se entre o Macaé e o Paraíba. Os campistas não podem ser comparados aos mi- neiros .h f s í * III. .

. e frequentemente davam a um quinhão área maior que a de fato exis- tente. os vizi- nhos viveram em harmonia. Outrora não havia o cui- dado de medir as sesmarias (35). 393* ção. no meio da qual passei. (35) U m a sesmaria é. Mas. (34) CAZ. tornando-se dissipadores cairam nas garras dos nego- ciantes que lhes fazem adiantamentos. uns com os outros (34). Embora renunciando aos seus antigos costumes. não tomando posse senão de pequena parte de suas propriedades e não temendo fossem seus direitos um dia contestados. Braz-. não manifes- tam mais suas revoltas contra as autoridades. As obs- curidades da legislação portuguesa contribuem ainda para entreter entre êles esse hábito demolidor. 53. Braz-. os campistas conservaram ainda alguma cousa de seu antigo gosto pelas querelas. cada um quis conhecer os terrenos de (33) CAZ. c o m o d i s s e e m m i n h a l. — TAV. os campistas adquiriram defeitos outrora inexistentes. são faltos de ordem e p a s s a m a vida no meio das aperturas oriundas de uma fortuna mal dirigida. D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL . depois que a cultura pôs todos os colonos em contato com seus domínios. Corog. e a in- cúria com que foram concedidas originariamente as terras da região tornou-se para êles uma fonte de de- mandas sempre renovadas. 53. mas lutam sem cessar. a Rei. II. o lote de t e r r a v i r g e m que o g o v e r n o pode c o n c e d e r a u m particular. entre o rio Furado e a capital do Brasil. Enquanto a população foi pouco considerável e não se conhecia o verdadeiro valor da terra. Cons. hy». Um luxo desenfreiado implantou-se entre êle/s (33) .. II. No meio dos defeitos nascidos com suas novas ocupações. Corog.

ao fim de cada con- trato. elas tornam-se de sua propriedade. a quadrada em 4. há muitos anos. não é menos verdadeiro que a maior parte das terras da região acha-se dividida em 4 fazendas de imensa extensão: a do Colégio. que. A c r e d i t a r . O agricultor tem o direito de c o n s t i t u i r nos terrenos alugados todas as benfeitorias que lhe são necessárias. .. Por seu lado o proprietário pode. não pagando mais de 2 patacas por 100 braças quadradas (37). recorrendo aos procuradores. pertencente aos Beneditinos. o hmca (37) O Sr. Bento. Acreditei dever c i n g i r . sendo-lhe mesmo permitido vende-las a um terceiro. O locatário é obrigado a uma retribuição anual e comumente o arrendamento renova-se de qua- tro em quatro anos. u s proprietários teem tão pouco o costume de retirar cie m autor brasileiro citado por FREYGIN ET. t r a çou u m r e t r a t o h o r r í v e l dos h a b i t a n t e s de C a m p o s .m e às notas q tomei n a r e g i ã o e a a l g u m a s Lembranças c o n f i r m a d a s y CAZAIi e por PIZARRO. a de S. . c o m o ja disse. e arrendam uma parte delas.s e . Existem na fazenda de S.á não haver lavradores tao im- previdentes que construam em terrenos de o n d e podem ser expulsos f a c i l m e n t e . Os proprietários desses vastos latitundios nao po- dem cultivar todas as suas terras. nesse caso passa a ser a r r e n d a t a n o . LU<CCOU^ l h e s é m a i s favorável. a do visconde da Sêca e enfim a do Morgado. mas e preciso que ele pague as construções e benfeitorias feitas pelo lo- catário. apossar-se de seus domínios. entretanto tal não se da. ad- vogados e juizes (36). outrora pertencente aos Jesuítas.«y- 94 A U G U S T O DE SAINT-HILAXRE que possuía títulos. F R E Y C I N E T avalia.m84. " Se existem no distrito dos Campos dos Goitacazes pequenas propriedades. Bento agricultores cujas famílias arrendaram pedaços de terra.

volta-se ao plantio da cana. que os agricultores acostumaram-se a viver na maior segurança. sem serem adubadas e sem serem irrigadas pelas águas de nenhum rio. . cujos colmos vegetam então com todo vigor. sem nunca repousar. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . de outro lado é i possível que os agricultores não se conformarão em 1 renunciar a vantagens que o correr dos anos consa- j grou. Dissenções perigosas seriam de temer se o atual estado de cousas fôsse durável. que então recompensa amplamen- te o trabalho do agricultor. não poderão durar muito t e m p o . Resulta de tudo isso as relações entre agri- cultores e proprietários são muito menos favoráveis a estes que a aqueles. mas está claro que essas relações. a necessidade de dinheiro^ e uma desordem muito frequente nesta região. Uma simples mudança de cultura é o único meio que se toma para assegurar colheitas abundantes. e. forçarão pouco a pouco os proprietários a alienar inteiramente os terrenos arrendados. Já ao tempo de minha viagem os pro- 1 prietários começavam a achar que a renda de suas j terras alugadas era muito pequena. fundadas em simples costumes. Já tive ocasião de dizer qualquer cousa a respeito da fecundidade do Distrito de Campos dos Goitacazes. Ela é tal que as terras de certos lugares produzem há cem anos. 395* suas terras os locatários e de aumentar o preço da locação. Quando a cana de açúcar começa a não mais produzir é substi- tuída pela mandioca. mas é de crer-se que partilhas testamentárias. quando essa raiz já não produz bem. Constroem casas consideráveis e e n p e n h o s de cana em terrenos alugados por quatro anos somente e frequentemente esses terrenos são ce- didos a terceiros pelo mesmo preço anterior às benfei- torias.

um rebanho de 200 vacas não produz atualmente mais de 50 bezerros (39). j tanosa como a de Goitacazes não poderá ser favorável j à criação de cabras e carneiros. . hist-. ninguém anda a pé nesta região. atualmente essa exportação está reduzida à sexta parte. j como a umidade influe sem dúvida sobre a qualidade da carne. e. . (39) P I Z . mas correm com muita velocidade. à força de ser tosada pelo gado ela apenas produz hoje um relvado raso. Os ne- gros e os homens de classe inferior teem. como até recebem-no de Minas Gerais (38). 107-110. Quando a pecuária costituia a in- dústria exclusiva dos habitantes desta região.396 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Dizem que outrora nascia nas pastagens naturais de Campos uma forragem notável por sua altura. para condu- zir seus cavalos. esta é menos saborosa e conserva-se menos que a dos porcos criados nos lugares altos e secos. Os cavalos dos Campos dos Goitacazes pareceram- me pequenos e mal feitos. dizem que exce- tuadas as terras virgens. 0 . um método singular: eles batem no pescoço do animal com um bastão curto e de c e r t a grossura. P e d r o f o r n e c i a q u e i j o s a C a m p o s . gado de Campos dos Goitacazes é em geral de uma raça j mirrada e sujeito à várias moléstias. Como se multiplicam facilmente. mas. III. M e m . e são numerosos. eles enviavam anualmente ao Rio de Janeiro cerca de 6 a 8 mil cabeças de gado. (38) P e n s o q u e P I Z A R R O s e e n g a n o u q u a n d o disse que R i o G r a n d e de S. Também a criação de porcos é muito pequena nos arredores de Campos. Não somente os agricul- tores já não remetem queijos para várias partes do Brasil. j E' fácil de conceber que uma região plana e pan.

A c u l t u r a do arroz e s t á l o n g e de s e r d e s c o n n e c i ü a no litoial. sendo_ importante n a o a b a n d o n a r a ria cão do g a d o n e s t a região. a da cana dá atualmente tão grandes lucros que absorve todas as outras. O Sr. creio de . •solos são i m p r ó p r i o s para essa c u l t u r a . D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL . nao s ó m e n t e para t e r os bois que f a z e m m o v e r os moinhos. Com e i to colono n ã o p l a n t a i n d i f e r e n t e m e n t e o q u e possa m e d r a r em s u a s t e r r a s . como disse. e x a m i n a r isi-loco a n a t u r e z a do solo. em todo o litoral. entretanto não posso afir- mar que tal se dê em todas as partes do distrito. não há então aqui tropas de bestas viajando com regu- laridade como na província de Minas. o q u e de l e s t o f a z e m os c o l o n o s europeus. M e t . m e s m o ^ p m i d o q u e o a o possa medrar nos l u g a r e s c i t a d M A R T i U S isso ^ n d a o s p o r não será m o t i v o s u f i c i e n t e para aí c u l u v a . 397* Como disse. esses animais são mesmo muitos raros em Campos. ao rio Doce. mas. . e ninguém sabe avaliar as dis- tâncias. .a pequenas z o n a s indicadas no escrito de M A R T I Ub e s t ã o s^ me não engano. dando u m a l i s t a t i r a d a . de J. penso. P a r a ^f j s t i n g m r os t r e c h o s de terra próprias ft c u l t u r a d e s s e c e r e a l é f ^ s o . III. e é m e s m o u m a a a s r u r u e z a s cui pi o l í n c i a do E s p í r i t o Santo. e. se m e não e n g a n o . Os habitantes desta região só fazem por terra pequenas viagens. m a s ainda para o sustento de uma p o p u l a ç ã o numerosa. que vai do R. toda- (40) P I Z A R R O M e m .i o . corno a i n d a aisse. 113. t e r r e n o s i m p r e g n a d o s de sal e. Z A R m E s s a idéia h o n r a a s a g a c i d a d e do c é l e b r e l ^ a i o mas creio que file a m o d i f i c a r i a s e v i s i t a s s e os l u g a r e s de ^ e t a l o e. ele e s c o l h e aquilo que dá m e l h o r r e s u i t a d a /. Fre- quentemente é a cana replantada todos os anos. Mas. Maa. h á n a c o s t a s e t e n t r i o n a l da_ p r o v í n c i a do K. Dizem que vários gêneros de culturas dão resul- tado em Campos (40) . s ã o os m a i s p r ó x i m o s •cio m a r . podendo então deixar repousar suas montadas. é por mar que as mercadorias são t r a n s p o r t a d a s para o Rio de Janeiro. andam em grande velocidade. l i m í t r o f e dos C a m p o s dos G o i t a c a z e s . a t u a l m e n t e . em pastagens. MARTIUS diz que seria i m p o r t a n t e introduzir a c u l t u r a do a r r o z e r r p e i t a s zonas de Campos. Asse- guraram-me que as terras novas são menos favoráveis à cana que as já cultivadas. que. de J.

Sem falar no consumo cia própria região. Mem. de m i n h a s n o t a s e d o s e s c r i t o s de CAZAU e P I Z A R R O . s o b r e o n ú m e r o de usinas. . de 1779 a 1801 aumentou para 200. i n t e r e s s a n t e que o Sr. Com dois anos em uma superfície de 40 palmos produz em geral um carro de i cana. 15 anos mais tarde ele cresceu para 360 e enfim em 1820 havia no distrito 400 engenhos de açúcar e cerca de 12 distilarias (42). Até 1769 não havia ainda em Campos mais de 56 usinas de açúcar. o b s e r v a r que os n ú m e r o s r e f e r e n t e s a é p o c a s a n t e r i o r e s c r i a ç ã o d a c i d a d e de M a c a é e s u a s e p a r a ç ã o do D i s t r i t o cie C a m p o s d o s G o i t a c a z e s d e v e m incluir p r o v a v e l m e n t e usinas h o j e p e r t e n c e n t e s a e s s a p e q u e n a cidade. e. em 1778 esse número subiu a 168. Segundo PIZARRO (43) há | poucos proprietários que fabricam anualmente mais de 30 a 40 caixas. assegurava-se que nesse ano a produção subiria j a 11 mil caixas de açúcar. III.» R e i .398 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE 3 via há zonas em que essa gramínea produz de soca 1 durante mais de 10 anos (41). fazendo anualmente de 4 a 5 via- gens . (43) P1Z. com o peso de duas arrobas cada uma. todavia (41) F a l e i e m m i n h a 1.s e c o n s u l t a r a ê s s e r e s p e i t o u m t r e c h o m u i t o minucioso. M A R T I U S j u n t o u à s u a A g r o s t o l o f e i e ( p á g . algumas podem carregar até 120 caixas. e. haviam saído de Campos nos últimos anos anteriores a 1818 cerca de 8 mil caixas de açúcar e 5 a 6 mil pipas de j cachaça. como a colheita de 1818 havia sido muito I boa. quando a estação é favorável um carro rende cerca de três fôrmas de açúcar. A s s i m o n u m e r p r o p o r c i o n a l do a u m e n t o de i n s t a l a ç õ e s d e v e s e r m a i o r que o que r e s u l t a d a s i n d i c a ç õ e s a c i m a . Cerca de 60 embarcações são j ocupadas no transporte do açúcar e da cachaça fabri- cados em Campos. 121. hist-. p o i s que d u r a n t e o curso cio c r e s c i m e n t o do n ú m e r o de e n g e n h o s a e x t e n s ã o do t e r r i t ó r i o diminuiu. 5ô2 e s e g u i n t e s ) . de c u l t u r a da c a n a no Brasil P o d e . (42) Tiro e s s e s p o r m e n o r e s .

mas é o dono do barco que se encarrega do transporte da carga desde a ci- dade à foz do rio. p á g s . na verdade o govêrno. o meio-redondo. o batido e o meio-batido. apesar de empregada em tanoaria.). porque na maioria tingem mais ou menos a aguardente de cana. Fidélis. proibiu sua exploração. A Laurácea chamada canela. mas. . também dao preferência ao louro que provavelmente pertence tam- bém ao grupo das Lauríneas e que. a madeira com que se confeccionavam as caixas de açúcar. nin- guém liga importância a uma proibição de que a ad- ministração não tem meios de fazer respeitada. 399* na maioria apenas comportam 50 a 60. produzindo agra- dável odor não dá à cachaça a mínima coloraçao. (44) Oa a ç ú c a r e s de Campos. 564 e 569). Como não existem florestas nos arredores da ci- dade de Campos. O frete de uma caixa de açúcar de Campos ao Rio de Janeiro é habitualmente de 4$000 (25 f. são. querendo reserva-la para a construcão naval. Distinguem-se em Campos 5 qualidades de\ açúcar branco: o fino. e as pipas para aguardente veem principalmente de S. Poucas madeiras servem para o fabrico de pipas. À época de minha viagem a primeira dessas qualidades era vendida a 2$100 a arroba. s e g u n d o a f i r m a m os melhores de todo o Brasil (Vide Agrrostologla. A que se emprega nas caixas chama-se jacatiba. Quan- to ao mascavo ou açúcar meia-côr não é distinguido em várias qualidades e tem um só preço. o redondo. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . O tapinhuáu é outra madeira de que se servem para fazer pipas. tem entretanto o defeito de comunicar certa coloração à bebida. mau grado seu gosto e sua côr variarem muito (44). de MARTIUb. e no Brasil ela e pre- ferida cristalina.

e quererão c o n s e r v a r suas caldeiras em atividade pelo maior prazo possível. Com efeito a escassez de lenha faz-se sentir cada vez mais. sendo de temer sejam. tenham introduzido aperfeiçoamentos nessa operação. expôr-se ao ridículo. Induzir os brasileiros ao plantio de árvores destinadas à lenha é. porquanto sâo também possuidores de usinas. Mas. Omne n e g o t i u m non est nisi c o n t i n u u m peri- culum.400 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Acreditar-se-á que os habitantes dos Campos dos Goitacazes. . entretanto continuam destruindo e incendiando suas florestas com (45) O que digo dos plantadores de c a n a de C a m p o s é extensivo aos das diversas p a r t e s do Brasil por onde passei. em mui- tos lugares somente arbustos e árvores esparsas podem fornecer combustíveis. breve. Deviam prin- cipalmente construir fornos mais econômicos e cuidar. 568)". . Itaque fructus maximê est iniqus ataque incertus et in quinti- tate sacohari et qualitate ( A g r o s t . Como já disse. Na verdade existem ainda matas muito próximo da cidade de Campos. id fieri solere mihi con- fitendum est. para êles. MARTIUS. Os processos de fabricação são então ainda muito imperfeitos (45). os primeiros habitantes dos Campos dos Goita- cazes apenas cuidavam da pecuária. vários proprietários de usinas obrigados a cessar seus trabalhos. e. como já teem feito alguns cultivadores de empregar o bagaço na alimentação do fogo e das caldeiras. O Sr. para isso seriam precisos conheci- mentos que êles não possuem e que dificilmente adqui- rirão sem deixar o país. mas per- tencem a homens que as não venderão. feré rusquam BrasiLiae tam subtiliter et scientificè. que visitou as províncias s e t e n t r i o n a i s desse vasto império exprime-se a respeito do s e g u i n t e modo: "Quod vero al eaccharum ex succo expresso parandum attenet. incessantemente entregues ao» fabrico do açúcar. ud herus certara sacehari messem securô sperare possit. para formar as pastagens êles incendiaram suas florestas. quin operarii omninô inscii res sibi e x p o n o r e p o s s i n t .

Porque alguns proprietários de Campos não procurarão desde já li- bertar-se de uma opinião absurda? Porque. k (46) N . Entretanto aquele que na América se der ao cuidado de lançar à terra sementes do árvores florestais não terá no futuro os mesmos trabalhos e sacrifícios que o plantador europeu. nas felizes zonas situadas entre os trópicos a vegetação é de tal modo ativa que o agricultor terá logo sombra sob as árvores que plantar e poderá mesmo. no ato da entrega do açúcar. quanto aos o u t r o s vendem-no aos negociantes da região. cortá-las diversas vezes (47). ainda hoje a situação é a m e s m a . lançando as vistas sobre o futuro não escolherão um canto de seus domínios pouco próprio à cultura para aí lançar as sementes de algumas árvores de crescimento rá- pido? O primeiro que plantar um tufo de mata no distrito de Campos dos Goitacazes merecerá. deduzindo-se então do valor contratado. 40* tamanha perseverança que. prati- camente. — I s s o foi dito em 1833. pagando. Êstes ú l t i m o s teem o costume de comprar o açúcar antes de fabricado.s e que. a gratidão do país. T . . O negócio é f e i t o como se a mercadoria fôsse de primeira quali- d a d e . e n t r e t a n t o éle m e s m o c o n - fessa que já em 1801 n o v e u s i n a s f o r a m o b r i g a d a s a i n t e r r o m - per se as trabalhos por f a l t a de combustível. durante o curso de sua vida. D i z e r . a diferença é calculada posteriormente. um adiantamento. Os mais ricos proprietários de Campos enviam di- retamente ao Rio de Janeiro seus produtos . . serão cedo ou tarde forçados a replantar as matas (46). DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . se não quizerem tornar desertas grandes zonas do país. ousamos dizer. (47) E m uma de s u a s obras PIZARRO parece n ã o t e m e r a escassez de madeira em Campos. .

Deviam prin- cipalmente construir fornos mais econômicos e cuidar como já teem feito alguns cultivadores de empregar o bagaço na alimentação do fogo e das caldeiras. e. incessantemente entregues ao» fabrico do açúcar. que v i s i t o u as p r o v í n c i a s s e t e n t r i o n a i s desse v a s t o i m p é r i o e x p r i m e . e n t r e t a n t o continuam destruindo e incendiando suas florestas com (45) O q u e d i g o d o s p l a n t a d o r e s de c a n a de C a m p o s ê e x t e n s i v o a o s d a s d i v e r s a s p a r t e s do B r a s i l por o n d e passei. para isso seriam precisos conheci- mentos que êles não possuem e que dificilmente adqui- rirão sem deixar o país. os primeiros habitantes dos Campos dos Goita- cazes apenas cuidavam da pecuária.s e a r e s p e i t o do s e g u i n t e m o d o : "Quod v e r o al s a c c h a r u m e x s u e c o e x p r e s s o p a r a n d u m a t t e n e t . tenham introduzido aperfeiçoamentos nessa operação. ud h e r u s certarn s a c c h a r i m e s s e m s e e u r ô s p e r a r e p o s s i t . i t a q u e f r u c t u s m a x i m ê est i n i q u s a t a q u e i n c e r t u s e t in q u i n t i - t a t e s a c o h a n e t q u a l i t a t e (Ag-rost. Induzir os brasileiros ao plantio de árvores destinadas à lenha é. MARTIUS. em mui- tos lugares somente arbustos e árvores esparsas p o d e m fornecer combustíveis. quin o p e r a r i i o m n i n ó i n s c i i r e s sibi e x p o n o r e possint. Os processos de fabricação são então ainda muito imperfeitos (45). porquanto são também possuidores de usinas. para êles. mas per- tencem a homens que as não venderão. vários proprietários de usinas obrigados a cessar seus trabalhos. . 568)". Mas. sendo de temer sejam. Na verdade existem ainda matas muito próximo da cidade de Campos. O Sr. expôr-se ao ridículo. e quererão conservar suas caldeiras em atividade pelo maior prazo p o s s í v e l . breve. id f i e r i s o l e r e mihi con- ti t e n d u m est. AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE ^ Acreditar-se-á que os habitantes dos Campos dos Goitacazes. feré n u a q u a m Brasil. Com efeito a escassez de lenha faz-se sentir cada vez mais. Como já disse. para formar as pastagens êles incendiaram suas florestas.ia e t a m s u b t i l i t e r et s c i e n t i f i c è .. Omne n e g o t i u m non e s t n i s i c o n t i n u u m peri- cu-um.

no ato da entrega do açúcar. . se não quizerem tornar desertas grandes zonas do país. e n t r e t a n t o êle m e s m o c o n - fessa que já. durante o curso de sua vida. serão cedo ou tarde forçados a replantar as matas (46). ainda hoje a s i t u a ç ã o é a m e s m a . ousamos dizer. » (. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . a diferença é calculada posteriormente. Os mais ricos proprietários de Campos enviam di- retamente ao Rio de Janeiro seus produtos. prati- camente. deduzindo-se então do valor contratado. O negócio é feito como se a mercadoria fôsse de primeira quali- dade. (47) E m uma de s u a s obras PIZARRO parece não temer a escassez de madeira em Campos. Entretanto aquele que na América se der ao cuidado de lançar à terra sementes do árvores florestais não terá no futuro os mesmos trabalhos e sacrifícios que o plantador europeu.46) N. . quanto aos outros vendem-no aos negociantes da região. pagando um adiantamento. — Isso foi dito e m 1833. lançando as vistas sobre o futuro não escolherão um canto de seus domínios pouco próprio à cultura para aí lançar as sementes de algumas árvores de crescimento rá- pido? O. Porque alguns proprietários de Campos não procurarão desde já li- bertar-se de uma opinião absurda? Porque. cortá-las diversas vezes (47). em 1801 n o v e u s i n a s f o r a m o b r i g a d a s a interrom- per se as trabalhos por f a l t a de combustível. a gratidão do país.s e que. . nas felizes zonas situadas entre os trópicos a vegetação é de tal modo ativa que o agricultor terá logo sombra sob as árvores que plantar e poderá mesmo. 40* tamanha perseverança que. primeiro que plantar um tufo de mata no distrito de Campos dos Goitacazes merecerá. T. Êstes últimos teem o costume de comprar o açúcar antes de fabricado. D i z e r .

H I L A I R E Dizem que o comércio nessa cidade é feito com muita lentidão e pouca boa fé. Pouco tempo antes de minha chegada a Campos o represen- tante de uma casa inglesa vinha de deixar essa cidade. 120. Os negociantes estabelecidos em Campos e aos quais os cultivadores teem o costume de vender seus produtos. hlst-. diz PIZARRO (49). segundo PIZARRO. após uma estada de um mês. . mercadorias. 123. arrendados que sejam. enriquecendo-se em pouco tempo. são na maioria. um homem tem quatro palmos de terra. U m a das causas do constrangimento (48) em que vivem os habitantes de Campos é a mania que todos teem de ser "senhores de engenho". lilst-. principalmente se se trata de um estrangeiro. Mem. III. julgan- do-se mais esperto que eles. Apenas. adiantando- lhes dinheiro. enquanto que o agricultor imprevi- dente ou pródigo vive sempre endividado e no cami- nho da ruína. por pequena que seja sua instalação. Êsses estabelecimentos. vê-se obrigado a hipotecar por longos anos os produtos de suas colheitas. pretende logo construir um engenho de açúcar . criados por mal e n t e n d i d a ambição concorrerão a um resultado moral útil a re- gião. escravos. Os vendedores teem o costume de não fazer o preço. e. portu- gueses-europeus. pedindo ao compra- dor que faça a proposta. (49) PIZ. Mem. Para mantê-los os proprietários são o b r i g a d o s (48) PIZ. AUGUSTO DE S A I N T . sem ter podido concluir nenhum negócio. III. Êsses homens parcimoniosos põem os colonos numa verdadeira dependência. desconfiam do comprador que se apresenta espontaneamente para negociar. recusando vender-lhes.

D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL . e o trabalho terminará. deixando como retribuição metade da colheita. abreviando a existência desses infelizes (50). há. e assim sobrecar- regam os negros de trabalho. fossem tratados com doçura. ao mesmo tempo que há sempre pessoas à procura de escravos. por enobrecer-se inteiramente. onde os pro- prietários não se envergonham de se entregar aos trabalhos agrícolas manuais. 403* a r e n u n c i a r a uma vida ociosa. o pai de família. evadidos em consequência da insuportável vida que levam. (50) C o n s u l t a n d o PIZARRO. os escravos. escritor e x a t o e consciencioso. Quando teve início no Brasil a cam- panha da abolição da escravatura. alguns obedeceram a essa determinação. Êstes fazem a moagem em q u a l q u e r engenho próximo. Apesar de um grande número de pequenos pro- prietários quererem absolutamente possuir um enge- nho de açúcar. v e r . mas infelizmente tal não se dá. tornados de qualquer modo companheiros do homem livre.s e .á que e s t o u l o n g e de exagerar. o govêrno ordenou aos proprietários de Campos que casassem seus escra- vos. Querem fazer açúcar cada ano mais. Poder-se-ia supôr que em Campos. Existem perto da ci- dade de Campos várias fazendas onde se vêem escravos doentes em consequência dos maus tratos recebidos. todavia muitos outros que se re- s i g n a m a cultivar a cana sem terem a honra de ser "senhores de engenho". é de esperar-se. mas outros responderam que era inútil dar maridos às ne- gras porquanto não seria possível criar seus filhos. sua mulher e seus filhos participam da cultura da terra ou da fabricação do açúcar. . sem se inquietar com o prejuízo que ocasionam a si próprios.

para que não vejam que se continuam surdos à voz da humanidade. mas. do rio Cabapuana ao rio M a c a e . E' fácil compreender que e s s e último sistema deve ter graves inconvenientes para os negros recém-chegados da costa d'Africa. aproximadamente. quando. Tem portanto 30 léguas de comprimento por uma lar- g u r a m é d i a . além do domingo dão-lhes outro dia por semana afim de que trabalhem por própria conta. sendo a comida farinha de mandioca e carne sêca cozida com feijão preto. Êsse distrito. deveriam ao menos por interesse próprio cuidar de seus escravos. após afastadas de seus filhos durante parte do dia. de 8 léguas. os viciados. tal como foi delimitado para organização da mílicia ou guarda nacional.404 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE Logo após os partos essas mulheres eram obrigadas a trabalhar nas plantações de cana. Em outras fazendas os escravos não recebem nenhuma alimentação. e s t e n - de -se. aqueles enfim. era-lhes permitido voltar para junto de- les elas levavam-lhes um aleitamento defeituoso. Após ter feito conhecidos e m todos os seus d e t a - lhes o distrito de Campos. como poderiam as pobres criancinhas resistir às cruéis misérias com que a avareza dos brancos cercava s e u s berços? Nas fazendas em que há algum cuidado com os negros dão-lhes alimento três vezes ao dia. sob um sol abrasa- dor. e. para os pre- guiçosos. . devo dizer alguma cousa de sua população. como vimos. E' preciso que os brasileiros sejam tão estra- nhos à idéia do futuro quanto os próprios índios. verdadeiramente numerosos. aos quais não é possível induzir à previ- dência.

233 Moças idem. quatro vezes mais que a comarca de S. três vezes mais que em todo o conjunto da província de Minas Gerais. idem.cn do sexo masculino 10. 405* Eis o número de indivíduos aí compreendidos em 1816: Homens livres C<J 2. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL .537 TOTAL 31.265 casamentos 4.5. idem . . em superfície igual.917 Segundo esta estatística é claro que em 1816 con- tavam-se em Campos 133 pessoas por légua quadrada. duvido que haja outro lugar em que. 3. O pe- queno quadro que venho de traçar fornece ainda resultados importantes dos quais indicarei os prmci- .50 Rapazes solteiros viven- do em casa dos pais . idem 3. João em particular e somente dez ve^es menos que na França. se conte uma po- pulação tão considerável quanto a de Campos. 738 1^560 Escravos .907 17.000 almas.45U do sexo feminino 6.722 Agregados e emprega- dos do sexo masculino 731 Idem idem do sexo fe- minino 999 Homens solteiros vi- vendo sós 607 Mulheres. isto é. Excetuadas as cidades brasi- leiras de mais de 8.

não seria de admirar se se achasse essa média em 5 a 6 filhos para cada casal. que compreende as mulheres de má vida. Goiás. com efeito.°) O mesmo quadro mostra que o número de casamentos é infini- tamente maior em Campos que no interior do Brasil. as mulheres solteiras que não são prostitutas. nas zonas de in- dústria pastoril dá -se o contrário — o numero de es- cravos é inferior ao de homens livres. 3. . 4. de modo idêntico ao que acontece nas regiões auríferas de Minas.°) Enfim vê-se pelo quadro em aprêço que os casamentos são muito menos fecundos em Campos que no interior. é preciso deduzir-se.406 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE pais.°) Mostra também que as mere- trizes são menos numerosas em Campos que no inte- rior . o que é certamente devido ao fato das mulheres não se esconderem dos homens e ao de serem os brancos aqui menos raros. sabe-se.°) Prova que nessa região de grandes usinas de açúcar o número de escravos é superior ao de ho- mens livres. etc. 1. porquanto da cifra 738. para ter o número exato destas. embora sem possuir dados rigorosos sobre o têrmo médio da fecun- didade das mulheres de Minas. 2.

Anedota sobre o Vanellus cayenuensis ou queriqueri. e é formado pelas águas de um grande lago de agua doce (lagoa Feia) situado a algumas léguas do mar. Bento. Barra do Furado. CAPÍTULO VI VIAGEM NO DISTRITO DE CAMPOS DOS GOITACAZES. A embocadura dos dois .Fazenda de Barra Sêca. Bento e a fazenda do Colégio. O rio cuja foz alcancei a pouca distância do sítio do Andrade tem na região o nome de rio do^ Forno. — Descrição dessa fazenda. . Capela. Aspecto da região situada en- tre Santo A m a r o e a fazenda de S.Margens do Paraíba .Vista que se descortina em frente a Campos. explica- ção da acolhida que lhe é feita. No momento de lançar-se no oceano o rio do Forno reune- se a outro rio.Algumas palavras sobrt esta última fazenda. O que se deve: en- tender por Sertões. As mulheres desta re- gião e seus hábitos. — Cestos chamados juquiás. índios selvagens. — Região situada entre o F u r a d o e o Curral da Boa Vista. — Situação da cidade. Sua administraçao. Carro de boi. Descrição da fazenda do Colégio. - Como o Autor é recebido nesta fazenda. . . - Fazenda de Mumbeca. que vem de lado diametralmente oposto.Passagem do Paraíba.Caminho que conduz dessa fazenda a Campos. popu- lação . . . — Arraial de Santo Amaro. . Como sao ai tratados os escravos. — O rio Cabapuana. . Conversa com um índio. — Curral ria Boa Vista. Região situada entre S. o Bragança ou Laranjeira.Como o distilador Baglioni dirige seus negros .Região situada entre Barra Sêca e Manguinhos.

Salvador dos Campos dos Goitacazes: D e Barra do Furado ao Curral da B o a V i s t a 2 3/4 ls. Êle não faz n e n h u m a r e f e r ê n c i a ao nome do rio do Forno e parece que é sob o nome de canzora ou c a n z o u r a que êle^ d e s i g n a o rio B r a g a n ç a . E' a Barra do Furado. Um negro me servia de guia. Quando se vai do sítio do Andrade a Campos. deliberei tomar o caminho que vai sempres por terra (2). Aqui o pedágio não é arrendado pelo fisco (fazenda real). B e n t o 2 1/2" do Colégio 3 " " cidade de Campos 3 " 11 1/4 " . serve de limite entre os distritos de Campos e Macaé (1). somente dando entrada às embarcações muito pequenas. Não sou o único. mas l o g o (1) Os d e t a l h e s que PIZARRO dá sobre o Furado são pouco claros. parece que na estação seca nenhuma embarcação pode transpô-la. Após atravessar o Furado pode-se seguir vários caminhos para chegar à capital do distrito. sem dúvida. pas- sa-se o Furado em estreita piroga. deu B a r g a n í a por Bragança. (2) Itinerário p t proximado da f r o n t e i r a meridional cio dis- trito de Campos dos Goitacazes à cidade de S. Como já havia perdido muito tempo para passar o Furado e a sêca afastava o perigo dos caminhos bre- josos. como já disse. evitando-se pântanos im- praticáveis na estação chuvosa. à f a z e n d a de S. Comecei então a caminhar paralelamente ao mar. e. é o próprio passador que usufrue inteiramente das retribuições pagas pelos viajantes. aí em- barca-se uma segunda vez. conhecida sob o nome de Barra do Fu- rado é muito estreita e pouca profunda. que.408 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE rios reunidos. aliás que indica e s t e último. ele era encontrado n a relação do p r í n c i p e de N E U W I E D . onde um êrro t i p o g r á f i c o . bem como F a r a d o por Furado. O mais seguro passa pelo lugar chamado Tapagem.

onde parei. contentando-se em ajuntar alguns detritos de pau seco e terra. coberto de uma erva rasa. Na guerra de manhas e em- boscadas que ARTIGAS fez durante muito tempo nas (3) C A Z A L e s c r e v e u q u e r o q u e r o e o p r í n c i p e de N E U W I E D . 409* entrei em uma planície e poucos instantes após deparei um dos pântanos de que me haviam falado. duas de minhas bestas atola- ram-se nessa lama até ao ventre. esverdeados e marmorizados de negro. devido pronunciarem distin- tamente essas sílabas em seu gritos altos e agudos fVaneüos cayenneiisis Neuw. o que se deve atribuir sem dúvida à má qualidade das pastagens e talvez aos ventos se^os e contínuos que predominam na região. não avistava senão um terreno per- feitamente uniforme.. Daí até ao Curral da Boa Vista. . Essas interessantes aves voam aos pares e procuram seus alimentos nos lugares úmidos. voam em círculo e pouco alto. N o R i o G r a n d e d o Sul d i z e m q n e r o q u e r o . principalmente das a que chamam queriqueri (3). de vegetação raquítica. o caminho era sempre bom. e foi preciso descar- regá-las para poder afastá-las desse perigoso lugar. Deixam que a gente se aproxime muito delas. por assim dizer. Seus ovos. apesar das indicações de meu gia. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . Tão longe quanto minha vista alcançasse. so- mente no horizonte avistava alguns tufos de mata. íiuerquev. sem fazer ninhos. são pouco maiores que os do pombo. Tringa cayenaiensis Lath). Põem quatro ovos sobre a terra. e muito mais largos em uma extremidade que noutra. Nessa imensa planície pascen- tam numerosos cavalos e bois. porém todos pequenos e magros. São eles formados por um barro negro e profundo. Como o terreno é pantanoso encontra-se uma mul- tidão de aves aquáticas.

O Curral da Boa Vista. servindo de abrigo aos vaqueiros dessa fazenda. As árvores que compõem essa mata. enegrecido e coberto de uma erva rasa e tosada constantemente por um grande número de ca- valos e bois. Desde vários dias via junto de tôdas as casas grandes cestos feitos com grande cuidado. . que eu havia visto de longe. Como o caminho é apenas assinalado nessa parte da planície temia ver meus animais de carga atolar na lama. Junto da choupana há um tufo de matas. fica daí distante 3 lé- guas. nunca cousa semelhante me acontecera em Minas Gerais. Era a se- gunda vez que. que à apro- ximação do homem fazem ouvir seus gritos estridentes. Para além do Boa Vista. a planície. disseram- me que eram destinados a apanhar peixe e que tinham o nome de jiiquiá. nesta região.m e sem ser pago por êsse grande trabalho. sobretudo garças e queriqueris. ao menos no porte..410 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE províncias do sul. elas são insignificantes. sempre uni- forme. apresenta ainda até Santo Amaro um terreno pantanoso. E' uma pobre choupana dependente da fazenda do visconde da Seca. nascendo em terreno muito sêco e arenoso. pediam-me dinheiro para indicar-me um caminho. raquíticas. vendo-se então imensa quantidade de aves aquáticas. Um pouco antes de Santo Amaro o solo torna-se extremamente pantanoso. onde pernoitei no dia em que deixei o sítio do Andrade. com as das florestas vir gens. enfim pude ver como eram usados.. Indaguei de um negro por onde devia passar. mas esse homem não quis r e s p o n d e r . em nada se asse- melham. separadas umas das outras. formando pequeno bosque. ao entrar na pla- nície. os diversos destacamentos foram frequentemente traídos pelos queriqueri.

sendo retirado pela abertura superior do juquiá.o pelo fundo da água à medida que se avança. havendo dêsse lado uma abertura por onde pode passar um braço até den- tro da cesta. laranjeiras e pequena plantaçao de algo- dão. a extremidade mais larga é inteira- m e n t e aberta. Durante êsse dia fez um calor excessivo. E' nos brejos que se servem dos juqmás.). A armadilha que venho de d e s c r e v e r é feita com essa gramínea de altos caules e f o l h a s dísticas chamada ubá na província do R b de Janeiro e cana brava na de Minas Gerais (Gynenum parvifolium Spix. que são provavelmente invenção indígena. e s p a r s a s . 411* Os juquiás. Nees. largo e muito bonito e bordados por sebes. q u e se prolongam para fora do tecido do cesto. c a m i n h a . teem 3 a 4 pés de largura e a f o r m a de um sino. O caminho. é sempre a mesma planície. Para além dêsse lugar a região muda de aspecto. c o m o o nome indica. ligadas em conjunto as taquaras v e r t i - cais. p a s s a n d o . mas sla difere muito do acará do S.s e no meio deles tendo o juquiá pela mão. Francisco. A p r i n c i p a l espécie de peixe que Se prende por esse pro- c e s s o é a chamada acará. gretando meus lábios . muito afastadas uma das outras. tendo cada uma um pequeno quintal. f o r m a m uma espécie de punho. O p e i x e . DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . escondido no meio da lama e n t r a no ^cesto. porém não e mais tao descoberta e tem qualquer cousa daquele ar alegre e animado dos campos europeus nas vizinhanças cias grandes cidades. Santo Amaro é uma pequena aldeia que se com- põe de uma capela e uma vintena de pequenas casas. Mart. acom- panhado de vento forte e sêco. e frequentemente a gente passa em frente a casas cobertas de telhas e cercadas de bananeiras.

Mau grado construídos de tijolos e com paredes muito grossas estes últimos achavam-se em muito mau estado. Um ar de gran- deza que ainda não tinha observado em parte nenhuma nem mesmo em Campos Novos. 412 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE e os dos meus empregados. ' '. o que já havia sido iniciado pela igreja. ordem dos Beneditinos (4). mas a falta de polidez e hospitalidade não seria dos defeitos que se 4 lhes pudessem atribuir. nota-se no conjunto de construções do monastério. o passaporte real de que eu £ ' portador. fcssas casas são agrupadas e não teem mais de 6 pés de altura. o que já nos acontecera em varias zonas descobertas da província de Minas Chegado à fazenda de S. As casas dos negros tormam tres lados de um pátio gramado que pode ter uns passos dè comprimento por 250 de largura. uma usina de açúcar/cerca de 1000 cabeças de gado e 500 escravos (5). apresentei aos r e S o S o í que eram apenas dois. Bento. mas tratava-se de reconstrui-los. e preciso confessar . A fazenda de S. ao lado fica o engenho de açúcar. Bento dificilmente reconheceria esses monges como filhos seus. propriedade H. (4) Vide págrlna 124. Bento possue uma extensão de terra considerável. troduzii) lOÍcuílVaToô ü eem m »1° ** ou ^ t i p o g r a f i a que in- um escrito de grande valor. são feitas de tijolos. Fui perfeitamente acolhido por ê l e ^ n s t a laram-me em um quarto muito cômodo e pouco depois r r ^ T ^ V T p a r t e e m s u a e x c e I e n t e rifei! ^s. O claustro tem forma quadrada e fica entre a igreja e os edifícios do monas- tério propriamente dito. L ' . . cobertas de telhas e dotadas de uma pequena janela que se abre para o pátio A igreja e o convento fecham este último.

são asilo p a r a quantidade inumerável de aves aquáticas e res- c e n d e m mau cheiro. certamente prejudi- cial aos habitantes do monastério. sendo eles empregados nas fazendas. ainda. As negras estavam com a cábeça envolvida em um pano negro. que era dia de festa. (6) Não sõmente o Dr. porém não eram bonitas. à moda das espanholas. não atrelam os bois pela cabeça. ou melhor dizendo. Como esta região é extrema- mente plana o uso de carros puxados por bois é aí muito comum. desagradável. em frente ao convento a vista se detem nas montanhas da cadeia marítima. costume que devia ser adotado em tôda parté. TAVARES diz mais ou menos a mesma mas cousa da côr dos habitantes das margens da lagoa Feia. vi o pátio da fazenda encher-se de gente das vizinhanças que vinha à missa. Era em pequenas carroças puxadas por bois e co- bertas de um toldo de couro cru que as mulheres chegavam ao convento. - . DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . dois charcos. Bento. pálidas. bordados de veludo negro. Estas tinham belos olhos negros. 434* Dois l a g o s . côr de azeitona. No dia seguinte à minha chegada a S. sem graça (6). faz dêles a mais triste descriç&o. quanto às mulheres livres tra- ziam "manteaux" de pano grosso. e«ifim al- gumas palmeiras africanas plantadas no pátio do con- v e n t o contribuem para embelezar o conjunto da pai- sagem. desde a capital até Campos e provavelmente em uma grande parte do litoral. Como em Minas. se vêem um à direita outro à esquerda da habitação . Deste avista-se a planície coberta de agradável verdura e limitada por matas e capoeiras.

fez-me esperar durante muito tempo em um vestíbulo. é bordado de sebes espessas de Mimosas ou de uma multidão de arbustos variados. Êste estava à mesa. continuei a atravessar a planície. O caminho. Chegado à fazenda do Colégio (7) em direção à qual dirigi-me ao deixar S. modes- tas. Esta região é encantadora e tem um ar de animação que somente observei nos ar redores da Capital do Brasil. na verdade. ninguém parecia ligar-me atenção . 414 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE Antes de deixar a fazenda de S. de longe em longe. entreguei meu pas- saporte ao meu empregado afim dei apresentá-lo ao dono da casa. de tudo quanto havia sobre a mesa (8). mas o Brasil d u r í S L ^ I ÍSSO n â o ê 1180 g e r a l . Entretanto não tardei a ficar desconcertado com a extrema frieza dos convivas. crescendo em liberdade. Encontrei em uma sala de jantar uma reunião numerosa e aceitei o oferecimento que me fizeram para tomar parte no jantar. Bento. largo è muito bonito. Atrás dessas cercas percebem-se pas- tagens e plantações de mandioca e cana de açúcar Veem-se. frequentemente encontramos pequenas casas cercadas de algodoeiros e laranjeiras. Enfim no hori- zonte avista-se a cadeia marítima. mas. o dono da casa ofereceu-me. mas. e.Porquanto percorri condicões coríi® A ! amn °e 8S 'a v dÍ ov e np do ob r ee n t r e à homens d o ri de tôdas as êsse o uso Íe?aT * • °<> • *&<> e r a . Bento. usinas de açúcar. ° PrInCÍPe d e N E U W I E D brasileiros Dorém^tríüín^A Vu em pratos servem aos seus convivas aue cada nii»i «^i entã separados e que o prato o u t ros uratos S i t ° cercado por uma auréola de posso asseverar t «»o aconteceu uma ou duas vezes. enfim um senhor gritou-me do alto de uma cancela que eu podia subir. ninguém me dirigia a pala- ? v i d ® n t * <lu® fi preciso não confundir esta fazenda W fnXaTpertS de S° PideMs.

fundada pelos jesuítas e era residência de dois religio- sos encarregados de administrá-la. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . diga-se de passagem. e. No dia de minha chegada a Colégio tinha infelizmente esquecido essa pequena precaução e fui castigado por ter me apresentado com humilde roupa e um simples chapéu de. tinha o cuidado de pôr.palha. os homens de uma classe elevada dão ao vestuário uma grande importância. Êsse imenso do- mínio foi durante muito tempo dedicado à criação do gado. tendo-se mesmo queimado as matas para formar pastagens. Em tôda parte julga-se o desconhecido pela roupa que veste. antes de entrar nas casas das pessoas mais abastadas tinha o cuidado de trocar de vestimenta à sombra de alguma árvore. mais que em qualquer outra parte. Um governo é bem defeituoso. Uma circunstância explicará talvez a recepção p o u c o amável que me fizeram em Colégio. como já disse. quan- do não s a b e inspirar aos que lhe obedecem sentimentos de deveres mais nobres. querendo ser-me agradável. Foi somente poucos anos antes da» supres- são da ordem que os jesuítas começaram a cultivar a . concebia que eu percorresse o Brasil sem outro motivo que o de ganhar dinheiro. e no Brasil. Conhecendo os hábitos do país e não querendo me privar das vantagens que oferece ao na- turalista viajante uma roupa leve e de pouco valor. Ninguém. roupas convenientes para essas situações. ele falou-me de minhas viagens e. 415* vra Após o jantar fui um pouco mais feliz. em nenhu- m a c l a s s e social. passeei pela fazenda com um dos proprietários. A fazenda do Colégio havia sido. bem por cima em uma das malas. de- sejou que eu conseguisse algum benefício dos meais t r a b a l h o s e de minhas fadigas.

não acontecerá aqui. A habitaçao propriamente dita tem um ar de grandeza a que se não está acostumado nesta região. onde tudo e feito de modo mesquinho. mas. Em Colégio seguiram . as terras divididas não cessarão de ser cultivadas porquanto no distrito a população é numerosa e o pe- queno proprietário não se acanha de trabalhar. . como que para durar ape- nas um dia. A fazenda do Colégio possue vários milhares de cabeças de gado. formam aqui os três lados de um pátio que tem cerca de 360 passos de comprimento por de largura. feitas de tijolos e co- bertas de telhas. porém em maiores proporçoes. ADÓS a expulsão dos padres da Companhia a fazenda foi * principio administrada por conta do rei. e. O comprador tinha falecido pouco tempo antes da minha estada ali e parece que seus herdeiros estavam em vias de de- mandar.um plano de cons- trução idêntico ao de S. Uma fachada comum à igreja e ao convento forma um dos pequenos lados do pátio. 1. no meio deste há uma casa. a igreja separa-o em duas partes e. O domínio terminará por ser dividido. estendendo-se até ao Macaé.500 escravos e tem cerca de 9 léguas quadradas de terreno. o monastério pro- priamente dito não tem grande extensão. os edifícios cairão em ruínas. o que acontece'em outras parte do Brasil onde existem poucos habitantes e onde as comunicações são difíceis. Compa- rado ao resto do estabelecimento. Bento. 416 AUGUSTO DE SAINT-HÍLAIKE cana em Colégio e aí construíram uma usina. mas em 1781 (9) foi posta em leilão e vendida por 500 mil cruzados ( r milhão e 500 mil francos). sem dúvida construída pelos jesuítas para recreio dos índios e dos negros. Casas de negros. de cada lado desta última <9> Data tirada de PIZARRO.

Mas aqui a coloração das folhas é ainda mais agradável que em nossos climas e a for- ma dos arbustos é mais variada que as de nossas pe- reiras selvagens e nosso "aubépine" (*). desde que chegara ao Brasil. bela e perfeita- mente firme. cobram de poeira as sebes marginantes. tudo anuncia a pre- sença do homem. A grande es- trada aonde logo entrei. e construídas com menos cuidado e ordem que as do pátio. T. porém na maioria co- bertas de capim. não tem a mesma frescura. e. conhecida em Portugal pelos nomes de es- frinhoiro alvar e pllriteiro. tanto (*) If. entre ela e o convento. fe . 417* existe um pátio comprido. muita larga. 0 engenho de açúcar dá para o pátio. excetuados os arredores do Rio de Janeiro não havia visto em parte nenhuma. Planta da família das Rosáceas (Crataegus oxyecantha Lamk. Para alcan- çar essa estrada segui por um belo caminho que passa entre duas sebes de verdura e que me fez lembrar os dos arredores de Orléans. tantos terrenos cultivados. Não se vêem terrenos abandonados. tais como se apresentam no início da primavera.). Por tôda parte vêem-se carroças que trans- portam aguardente ou açúcar. Aliás os cam- pos circunvizinhos teem um ar tão alegre e tão animado quanto as vizinhanças das grandes cidades provinciais francesas. Atrás das casas que o cercam há uma fileira exterior de casinhas igual- mente destinadas aos escravos. um edifício intei- ramente isolado onde tratam dos doentes. Em um dos lados da fazenda há uma olaria e a alguma distância. A habitação do Colégio é um pouco distanciada do caminho que conduz à cidade de Campos. DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . porque os ho- mens a cavalo e as carroças que aí passam sem cessar. cavalos e bois numerosos pastando nos campos salpicados de laranjeiras.

f* . JOSÉ JOAQUIM fui logo visitar as autori- dades principais e as diversas.- 418 AUGUSTO DE SAINT-HILAIRE movimento. mas ainda de um vigário geral com jurisdição em 6 paróquias (12). habitações tão frequentes e próximas umas das outras (10). Sua popu- lação subia. Bento e Colégio. em encantadora posição. Após o jantar ele me conduziu à casa do Sr. JOSÉ JOAQUIM CARVALHO. Êsses senhores tiveram para comigo todas as benevolências possíveis e me alojaram em uma bonita casa dando para o rio. <18> P I Z „ Mem. nessa locali- dade. hlst. Chegando a Campos (24-9-1818). $ ã o tomei notas sôbre a distância de Campos ao CAZAL 5 * d® N B U W I E D d i z Que é de 8 léguas e {"> M I I I . fui ver o Sr. O mesmo viajante acrescenta que a região é fértil. uma distilaria. contudo é bem considerável. 145. francês que havia instalado. A usina mais importante que vi entre Colégio e Campos foi a do visconde de Seca. A este estabelecimento e aos dois anteriormente mencionados pertence a maior parte das terras situadas entre o Furado e a cidade de Campos. «ias que no tempo a t e r * a f i c a reduzida a um areial árido. e em 1816 havia aí 1. ao qual estava eu recomendado. situada a légua e meia da cidade. m ..000 almas (13).102 casas. BAGLIONI. Todavia está longe de apresentar o ar de grandeza que se nota em S. Não somente é residência de um juiz-de-fora. em 1820. a perto de 8. 106. ^ Esta última é construída à margem direita do Pa- raíba^ (11). isso parece difícil de conciliar. pessoas a que estava (10) Das descrições fiéis que faço dos Campos dos Goita- cazes ter-se-á sem dúvida dificuldade em conceber como um viajante poude dizer que * jamais esti vera tão próximo de morrer de fome como nesses campos tão elogiados". Acompanhado pelo Sr.

para cada falta cobrava u'a multa sobre o salário dos mesmos. mas. o Sr. Entretanto tendo sabido que a estrada de Campos a Pomba estava quase impraticável. O Sr. Semanalmente pagâva a seus escravos uma retribuição proporcional ao traba- lho e à inteligência de cada um deles. Por tôda parte fui acolhido com deli- cadeza e bondade. SPIX e MAR- TIUS detalhes interessantes sôbre o Presidio de S. neste país. (15) Itinerário aproximado da cidade de Campos à fron- teira da província do Rio de Janeiro: De Campos & fazenda de Barra Sêca 2 1/2 léguas " " " choupana de Curralinho . 2 1/2 " " Muribéca 4 . João Batista. e que nela passavam-se de 10 a 12 dias sem encontrar casas nem pastagens. Por esse sistema êle evitava o suplício de castigar seus negros. voltei ao meu antigo projeto e decidi prosseguir viagem pelo lito- ral (15). . Êle afetava mormente ao pobre Prégent cujo humor e saúde se alteravam cada vez mais. . DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . Como eu temia continuar a viagem com esse moço tão doen- te. na província de Minas. GUIDO TOMAZ MARLIÉRE. (14) Há nos escritos dos Srs. e o zêlo com que essa pobre gente se empe- nhava em cumprir com seus deveres compensava am- plamente o patrão. João Ba- tista (14). . tomei a deliberação de renunciar k visita à Capita- nia do Espírito Santo e voltar à Capital do Brasil passando por Pomba e pelo Presídio de S. havia de causar algum escândalo. onde comandava um francês amigo dos índios. ESCHWEGE. Durante minha estada em Campos o calor esteve excessivo. 4 " * » » fazenda de Manguinhos . 419* recomendado. BAGLIONI tinha tido idéa de estabelecer uma sua distilaria um processo que.

como os arrédores do Rio de Janeiro. cercadas. Então Campos se apresenta obliquamente. porquanto em Campos o rio iá e muito largo. entretanto elas são pouco extensas e. alegres campos rodeam-na • ao longe eleva-se ura trecho da cadeia marítima e o Paraíba enfeita a paisagem. nas pastagens. A região não apre- senta majestosas belezas. O caminho que me levava à usina de Barra Seca segue constantemente a margem do rio. para além ficam plantações de cana. As ca- sas de negros.mais alegre e animada. Um monte de bagaços anuncia sempre a usina. 420 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE P \ em uma piroga que os viajantes atravessam O Paraíba. Quase» por toda parte a estrada atravessa pastagens semeadas de laranjeiras. ou de simples casas. ou esparsas. e asalm 6 t o m h i Í e " Sem assim também € ^Minas na Parte Gerais. mas é . O pedágio é pago ao fisco. j 'A f I f a margem esquerda do Paraíba avista- se toda a cidade de Campos. são co- locadas paralelamente ao rio. e. descrevendo longas sinuo- sidades. ainda aqui meu passaporte isentou-me dessa despesa. alguns passos adiante a vista torna-se ainda mais agradável. que se espalha em forma de crescente à margem do rio. passam a nado o que muito os cansa. Quanto às bestas e cavalos. e. a pouca distância vêem-se os bois destinados a mover os engenhos. minhas viagens que é . pequenas e cobertas de colmos. em seguida à do patrão. Sobe-se ao alojamento do dono por uma escada externa que vai ter a uma va- randa. Nas casas das usinas o andar térreo não é habitado (16). cá e lá. aproximan- do-se cada vez mais do oceano. mas. A cada instante passa-se diante de engenhos de açúcar. pela qual entra-se nos quartos e salas.

ouvi o rufar do tambor. e. FERNANDO CARNEIRO LEÃO. então um dos diretores do Banco Real. Uma c e r c a ' s e p a r a . Os negros levantaram-se. Pernoitei em Barra Sêca. se o ca- m i n h o atravessa algum cercado. mais com- prida que alta. esse tempo tão curto é suficiente para conseguir não somente os gêneros necessários à sua subsistência. colocada um pouco fora do prumo. como todos das usinas que vi no decorrer do dia. entretanto. Barra Sêca. noutros lugares não há costume de alimentar os es- cravos. 421* eme pastam aguardando o momento do trabalho. que é preciso se abrir quando se passa. se se pode acreditar no administra- dor da fazenda. senão três dias em cada quin- zena. Nesta fazenda comprazem em dar mensalmente a cada família de negros 8 libras de carne sêca e peixe. mas ainda um excedente que êles podem vender. é uma considerável usi- na. mas enviam a metade dêles a trabalhar por conta própria três dias por semana. se fecha por seu próprio peso. pertencente ao Sr. onde encontram os instrumentos de que neces- sitam para cultivar a terra e fornos para preparar a farinha de mandioca. comprar escravos. portanto. há ali uma pesada porteira. acrescentava o administrador. à fazenda do Ser- tão. o que aconte— fre- q u e n t e m e n t e . No dia seguinte às 5 horas da manhã. e. situada no meio de matas a oeste da fazenda prin- cipal. êles mesmos. e que. reuniram-se diante de um oratório e cantaram a oração da manhã. Os edifícios de residência ficam em frente ao rio Paraíba.a s pastagens dos vizinhos. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . Os negros de Barra Sêca não gozam nisso. Em Barra Sêca. como .^ alguns ne- gros tornaram-se tão ricos que puderam. onde parei.

209. m J edida q«e se distancia de Campos. todavia. a mim. comunicam-se com uma peça que serve" de sala ou de quarto de dormir. Em muita casas os fieis reunem-se para ouvir missa na varanda iicando o oratorio na extremidade desta. Na verdade. ao contrário. o oratório tem dimensões apenas suficientes para que um padre possa T c e I e brar missa Essas espécies de pequenas capeks es" tando abertas. a popula- ção vai diminuindo. É nessa peça que I pessoas se reúnem para assistir ao ofício divino • ter minado este o oratório é fechado e a peça com a qual se comunica volta à sua função habitual. ^ * A n t e V Í e n ? S P ô r m o s em marcha o administrador de Barra Seca fez servir aos meus camaradas copioso aimoço. . 422 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE em muitos outros lugares. * Terminada a prece os negros de Barra Sêca pu- deram-se em fila diante da casa e o administrador deu-lhes as ordens de serviço! Êsse dia era domingo Os escravos a que cabia trabalhar por conta própria seguiram para a fazenda do Sertão. Os mineiros aplicam a palavra sertão somente às regiões desco- bertas situadas além da cadeia ocidental. não longe de Bar- ão VollumeVÍd26 p S ? * ^ rffVi01*11' pág . aqui. ~ À . Os sertões em cada pro- víncia sao as partes mais desertas de cada uma. in- dependendo do tipo de vegetação (17). Nao devendo jantar antes das 5 ou 6 da tarde dispensaria de bom grado tal distinção. (Corresponde pas< 256» da Coleção Brasiliana). chamam sertão às florestas ainda pouco habitadas si- tuadas a oeste do litoral. ofereceu apenas chá e boli- nhos. Aliás não foi essa única vez que se pretendeu honrar-me com uma distinção dessas. porque não conhecem região menos povoada.

dirigi-me para os lados do mar por uma estrada diagonal. João da Praia. que se apresenta às vezes dividido por ilhas. à beira- mar. Em um destes últimos um contras- te interessante chamou-me a atenção. para ganhar tempo. e passa-se por um terreno constituído por uma areia quase pura. cresciam grandes árvores. como é habitual. e em . mas em seguida os tufos de mata virgem tornam-se mais numerosos. Entre Curralinha e Manguinhos distancia-se pou- co do mar. cujas fo- lhas. beirei sempre o Paraíba. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . não se contentam de fazer 4 léguas por dia. lianas e arbus- tos ofereciam aspecto admiravelmente variado. Continuando a seguir esse rio t e m necessaria- mente chegado A pequena vila de S. cha- mada Ponte Nova. ninguém pára então na mísera palhoça de Curralinho. Como na restinga de Cabo Frio. e. chellii Lam. Até a uma ponte que o caminho atravessa. mas. 423* ra Seca encontrei ainda casas e plantações de cana. Alguns lugares entretanto são inteira- mente cobertos de feijões da praia (Sophora littoralis Neuw Schrad) muito próximos uns dos outros. motivo pelo qual não encontrei nela nenhum recurso. sendo mesmo inutil- mente que mandei procurar milho para meus animais na venda situada a alguma distância dali. O caminho passava entre duas fileiras de Canna indica. tinham forma eclíp- tica. acima dessa espécie de aléia tão perfeitamente uniforme.). Quando os habitantes de Campos vão à provín- cia do Espírito Santo. entre os quais dominam as pitangueiras (Eugenia Mi. com dois metros de altura.. só há nele arbustos ramificados desde a^ base. indo parar em uma pobre choupana construída no meio das areias.

O chefe da família disse n ^ f l . Por isso achei melhor fugir e in- ce" na (20) e S0. " 0 juiz Cle . fiz uma demorada herboriza çao. queixamo-nos sem obter justiça e conquis- tando inimizades. mas iômo a. onde parei (18) com poe-se de algumas pequenas casas cobertas de cao^" e construídas à beiramar. cheguei a um local des- coberto e arenoso onde encontrei uma choupana ha- bitada por md. Em geral no Brasil não e P o d e julgar o estado da agricultura de uma região a P e l q U 5 6 V d o s r o ~ h ° ! Í * caminhos W longe das S ^ S T " * ^ " ^ ^ Continuando meu passeio por um pequeno trilho que atravessa matas virgens. estes teem gado que danifica nossas plan- tares. As terras circunvizinha" apresentam aspecto de franca esterilidade. 424 A U G U S T O DE SAINT-H^ILAIRE espaços consideráveis não se encontra senão a J „ pecie de Borraginácea cujos caules são deTtados s^r>r observada pert°de <*» s k A fazenda de Mançuinhos.' t d á a O S P o r t u gueses as terras vizinhas dasjiossas. cheguei ainda cedo. afastando-me da praia (19) e vi bananeiras m a .Ít "de ° n d e nÍngUém me aborre " « M U 3 : : : : ! zjüj:-1«"*«. moeiros e vastos mandiocais. — 08 ~ « S S T í ^ ^ a S S r e branco?''"0 Sa0t ° .os civilizados. N°Va de Benevente e deixara sua terra para tugir aos vexames a que estava sujeito.

pelo mais felis acaso encontrámos um viajante. em uma praia firme porém arenosa e banhada pelas águas do mar A vegetação que limita essa praia é mais ou menos a que eu já havia observado entre o rio das Ostras e a venda de Boassica (22). . nenhum inseto e nenhum pássaro. de repente.) e feijões da praia não encontrei ninguém. Findámos entretanto por distanciarmo-nos da praia e penetrámos em uma floresta. por tôda parte profunda solidão que o ruído monó- tono das vagas ainda tornava mais triste. achámos que nos ha- víamos perdido. Os habitantes da região indicam tão mal os caminhos que. no (21) E x i s t e m a i n d a no B r a s i l 2 l u g a r e s c o m ê s s e no: um na p r o v í n c i a d a B a í a e o o u t r o n a de P e r n a m b u c o . não vi casas. embora seguindo a verdadeira estrada. Durante muito tempo continuei atravessar a flo- resta e. para ir pernoitar na fazenda de Muribeca (21) caminhei constante- mente. ar- bustos em parte dessecados que se elevam a uma al- tura uniforme e entre os quais se nota um grande nú- mero de aroeiras (Schinus therebintifolius Radd) pi- tangueiras (Eugenia Michellii Lam. em um trecho de 3 1/2 léguas. O temor de dormir ao relento ator mentava-nos menos que o de morrer de sede. deparei um lugar descoberto. Após várias cònjeturas tomámos a deliberação de voltar atrás e. (22) Vide referências páginas atrás. Era uma trama impene- trável de cactus. e minhas pegadas mesmo eram logo apagadas pelo vento e pelas águas do mar. por- quanto durante todo o dia apenas encontrámos água doce em um pequeno lago pantanoso. D I S T R I T O DOS D I A M A N T E S E LITORAL Após ter deixado Manguinhos. que nos confirmou o caminho que seguíamos. de monocotiledôneas espinhosas.

Logo me aproximei da fazenda de Muribéca. bebei à vontade". formando sinuo- sidades . dis- se-me. numerosos animais pastam em liberdade. a su- doeste. Comecei. formam o conjunto da fazenda. A fazenda de Muribéca tem 11 léguas de compri- mento. A planí- cie é coberta de um relvado verdejante . mostrou-se muito atencioso e tão satisfeito ao despedir-se quanto ao abordar-me. Avistando um pequeno brejo. eis aqui urna muito boa. Incluia-se no número das pertencentes aos jesuítas. que eu julgaria injurioso oferecer-lhe dinheiro. que eu havia visto de longe. para os lados de NW o horizonte é limitado por uma cadeia de montanhas quei se desco- bre ao longe. dele. as benfeitorias que eles haviam edificado estavam mais distantes do mar . É cons- truída ao pé de algumas pequenas colinas que. a Casa do proprietário e um grande número de casas de negros. ao sair da floresta. a do brejo é salgada. Êsse risonho lugar realiza o ideai das alegres solidões outrora cantadas na poesia pastoral. apro- ximei na esperança de encontrar algumas plantas Um velho mulato que fiscalizava os negros viu-me de longe e correu ao meu encontro. cercada de matas virgens. "Se procurais água. limitam uma planície estreita e muito compri- da. enfim. em louca corrida tendo uma cabaça às mãos. mas ao tempo dêsses padres havia florestas onde hoje está a usina de açúcar. a perder a influ- ência das vizinhanças do Rio de Janeiro. mas. e o pequeno rio Muribé- ca irriga-a em tôda a sua extensão. como se vê. 426 AUGUSTO DE SAINT-HÍLAIKE meio de vasta plantação onde trabalhavam numero sos negros. O mulato demonstrava tanta satisfação em prestar-me êsse favor. Um engenho de açúcar.

velas etc. não obstante deu-nos ga- linhas. matando cavalos e o gado que encontram. sendo pois um mi- . anun- ciei-lhe que o não incomodaria e que meu pessoal pre- pararia os nossos alimentos. contudo eles ainda aparecem de tempo em tempo nos arredores da^ an- tiga habitação dos jesuítas. entretanto êle teve para comigo tôda a sorte de aten- ções. queimou as matas margeantes o rio. abandonou as construções feitas pelos jesuítas. Quando esse homem faleceu seus herdeiros puzeram- se a demandar uns contra os outros e a fazenda cessou de ser explorada. Após a destruição da Companhia de Jesus. A pessoa que me recomendara a esse c i d a d ã o apenas o conhecia. Após alguns anos uma circunstância preju- dicial à região contribuiu ainda mais para o abandono dessa fazenda. atualmente em ruínas. Fui recebido em Muribéca por um padre encar- regado da administração dessa fazenda. e construiu a casa e o engenho de que falei atrás. escolheu as terras que lhe pareceram mais próprias à cana. 427* e a fazenda era destinada apenas à criação de cavalos e bovinos. peixes. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . o comprador da fazenda achou de melhor alvitre cul- tivar a terra. Sabendo que meu hospedeiro era pobre. foi-lhes feita ativa perseguição. Aliás o proprietário que sucedeu aos padres da Companhia não julgara seus terrenos tão bem quanto aqueles religiosos. esse solo contem demasiada areia para ser próprio à cana de açúcar e a fazenda de Muribéca caiu na mais completa deca- dência. índios selvagens sairam repentina- mente das matas e exterminaram homens e animais. pelo menos na parte outrora habitada pelos jesuítas. Êsse excelente homem era natural da província de Minas.

e lança-se ao mar pouco distante da habitação em apreço. essa risonha planície que forma espécie de oásis no meio de sombrias flo- restas. tomando à sua embocadura o nome de Cama- puana ou Cabapuana. Antes de distanciar-me de Muribéca contemplei ainda uma vez. Antes do aparecimento dos índios selvagens nesse ponto do li- toral. JOSÉ JOAQUIM DE CARVALHO Por tôda a parte onde os encontramos. com satisfação. 428 AUGUSTO DE SAINT-HÍLAIKE neiro quem melhor me acolhera em Campos. que. Se algum viajante passa por esta fazenda é por alguns instantes. É êle que separa a província do Rio de Janeiro da do Espírito Santo. diante da fazenda não tem largura considerável. e* quan- do prossegue viagem minha solidão torna-se mais pe- nosa". Êsse rio nasce não longe das nascentes do Muriaé. que sou obrigado a manter a uma certa distância de' mim. O céu apresenta um azul dos mais brilhantes. havia em Cabapuana um destacamento de seis homens encarregados de receber o pedágio e examinar . na serra do Pico. não vejo ninguém a quem possa comunicar meus pensamentos. mas. e a calma profunda que reinava na natureza junta mais encanto à paisagem. deook do Sr. os mineiros distinguem- se por sua hospitalidade e coração bondoso. "Sempre no meio dos negros. O admi- nistrador de Muribéca fez todos os esforços para re- ter-me por um dia. como eu desejava voltar de- pressa ao Rio de Janeiro. Passei em pirogas o rio Muribéca. não acedi aos seus desejos Meu hospedeiro deplorava o profundo isolamento a que estava condenado. dizia-me êle.

C a m a p u a n a S e alhures. I. mas. lugar situado A pouco L i s longe.o banto. dos viajantes. e não deve haver senão tres homens em Cabapuana (tá). . 240) condena os ^ / ^ ^ ^ a ^ p a r a escrever poana. j s S i s t e em quência de corrupção. ^ t í t P u t . seios ar Encontra-se t a m b é m um rio Camapuan na província a Grande do Sul e outro na de Mato Grosso. D a foz d o M«rfbeca seguiu S A I N T .« P r o v í n c i a do Es- FÍrÍ DoSuanat0sIgllir a t r a d u z o do U b t S a ç t B d r o a tpe e ra d dor ^ A u í c r . E p o s s i ™ o termo originário seja Camapuan. entretanto n ã o sei e m que se . .t-. NOTA DO T R A D U T O R . depois que os indí- 05 paS Cometeram hostilidade nessa região. Minas um l u g a r c h a m a d o arredondados. ° v o l u T n e d o r e l a t o de sua 2> uma das páginas mais interessantes de quantas escreveu SAINT-HILAIRE. o s quais já s e a c h a m vertidos P f ? ° r a P s ^ a n g a ' e m l 9 3 6 . incluiu no í i n a l d o 2 . E Y E R . 429* DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL .H I L A I R E para a p r o v i n d a do E s p r. estabele- c e um posto militar em Boa Vista. q descreve e m 9 c a p í t u l o s que se s e g u e m ao que v e n h o de tra (luzir. Cabapuana ou C a m a p ann sao certam mes c o n s a g r a d o s pelos moradores br 73): CINET adota o nome Cabapuana " " £ ' mas CAZAL diz que o n o m e a t u a l m e n t e adotado ê Cabapu ^ q que êle deriva de C a m a p u ã ( C o r « « . derivado das p a l a v r a s t u p i s c á m a puán. baseia no_ Itabapoana. * mesmo que exato PIZARRO e s c r e v e Camapuan. (23) E' com razflo que o príncipe de N l J ü W n P ( = e trad.

JOÃO VI À AMÉRICA ATÉ A ABDICAÇÃO DO IMPERADOR D. tinha ainda uma finalidade mais odio- (1) Vide Prefácio. . O sistema colonial não tendia somente a empo- brecer o Brasil. Eram obrigados a se fazerem julgar às mar- g e n s d o Tejo e seus filhos não podiam obter graus de medico ou de bacharel se não iam buscá-los a Coimbra. m e n 0 S v e r d a d e <lue ^ mais severas proibiçoes impediam incessantemente os brasileiros de aproveitar as dadivas da natureza de sua pátria. Fe- chado aos estrangeiros o Brasil exhauria-se em pro- veito dos negociantes de Lisboa. possuim abundantes salinas e deviam com- prar a companhias européias o sal de que necessita- vam. Seus habitantes an- davam sobre minérios de ferro. e. A CHEGADA DO REI D. RESUMO HISTÓRICO DAS REVOLUÇÕES DO BRASIL DESDE . sob pena de ir findar seus dias em uma costa insalubre da Angola. PEDRO (I) f0Í 0 BrasiI sistema"oí submetido ao sistema colonial. eram obrigados a comprar a Portugal seus instrumentos agrícolas. Êsse sistema talvez tenha sido me- nos rigoroso nesse belo país que na América espanho- n r ^ n a ° e .

Tivera um irmão a quem haviam prodigalizado todòs os cuidados de uma excelente educação. Cada ca- pitania tinha seu sátrapa. filho mais moço. absolutamente. era um círculo imenso cujos raios iam convergir bem longe da circunferência. procurou asilo na América. cada qual com seu pequeno exército. mas absolutamente não havia brasileiros. frequentemente mes- mo. deixaram subsistir a desunião das províncias. J O a O V I era no Rio de Janeiro o soberano de uma multidão de pequenos Estados distintos. parte do siste- ma colonial teve que cair. J O Ã O V I . enquanto que êle. D. Não se pro- curou estabelecer alguma uniformidade no novo reino. JOÃO VI era estranho às mais simples noções da arte de governar os homens. Havia um país chamado Brasil. a metrópole esperava conservar por mais longo período essa superioridade de forças que lhe era necessária para exercer sua tirania. 431* a de dividí-lo. Mas. no Brasil. após êsse esforço. mostrou-se sempre um filho terno e . DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL .s e dificilmente entre si. havia sido condenado a uma profunda'ignorância. Comu- n i c a v a m . expulso de Portugal pelos franceses. Quando D . cada uma com seu pequeno tesouro. ignoravam reciprocamente suas existências. nunca sabia pronunciar uma recusa. JOÃO VI era de uma bondade inata. pararam. nao se foi muito longe. cuja existência vinha de ser proclamada. que não parecia ser destinado ao trono. e D. Não havia. um centro comum . Semeando germens de desunião en- tre as províncias. Estabeleceram então no Rio de Janeiro tribunais de última instância. D. o Brasil foi aberto aos estrangeiros e foi enfim permitido aos seus habitantes o aproveitamento das riquezas que a natureza a cada passo lhes oferecia.

PORTUGAL. . todas as províncias do Brasil. de ação e de vida. m d e t e r a evolução que então r l t . D. mas nenhu™ nhecia o Brasil. a emancipação do Brasil. mas queria'fa z e r e c o n d ^ ^ de uma só vez. o ultimo ministro que teve o rei D. e possui S COnheamentos nomTr^ v " sõbre agricultura. D E VILA N 0 V A E o últitnt^ . nSn l . a p l d a d o r e s : queria fazer o bem. . Os que lhe sucederam. como rei foi absolutamente Lio Os ministros que governaram sob seu nomP foram todos desprovidos de talento. dando-lhes um centro comum !. simples cidadão teria sido notável fior gumas qualidades. Era integro. con- de s n l vários anos já. K n t e f a Z l a 0 m a l ' TOMAZ ANTÔNIO P exoloHiii T e r " e . julgava executáveis projetos gigantescos que exigiam séculos Jara serem concluídos. RODRIGO conde 1 tinha idéias elevadas. velhos e doentes viam sempre a Europa no Império do Brasil e de - Cm S S n n ^ encoltraram. e logrado pelos charlataes que o cercavam. quase com a rapidez do relampago. em um país onde tudo é enírave ^ sidade de suas ideias a pequenez do meio. parecia-lhe uma espécie oor vêlh° irreahzavel. suas idéias an- Sf umhas com«7 T í ' não e s tavam em harmonia n e m COm a s monsrniií ^ necessidades atuais da portuguesa. eco- 4" 1 1 1 O Artrt_ • m ^ i mas. mais logrado 3 por sua imaginação exagerada. ? d t . mas foi cercado Dorém . 432 ArorsTo DE SAINT-HIEAIHE respeitoso. JOÃO VI como m t r ° a i : b S O l U t \ e r a Um de bem. para que pudesse cicaTrizar a " h a ^ " que o sistema colonial fizera a êsse pais : para t i as partes divididas.T r t U g a l ' e d e i x o u " a invadir.

e mesmo por essa espécie de compadresco que êle imprimia à sua familiaridade. "por uma afabilidade contrastante com a habitual nos antigos governadores. Como o so- berano era amado pelo povo. JOÃO amava o Brasil. A revolução de Portugal fôra obra de alguns ho- mens esclarecidos. cuidadosamente. enfim. para che- gar a tal fim. fazendo desaparecer até aos últimos ves- tígios o sistema colonial. D. Era necessário esconder dêle. constituindo um im- pério brasileiro. é preciso dizer. e envidaram esforços no sentido de fazer voltar a corte ao seio da mãe-pátria. DISTRITO DOS DIAMANTES F LITORAL 433 # ' Nessa época os habitantes desse país acreditavam- se obrigados a ter para com o soberano. era preciso maior energia. Mas. E êle foi o "bode expiatório" de uma grande intriga. aquele respeito mesclado de idola- tria que se não vê mais entre os europeus. JOÃO VI havia conquistado a amizade de seu povo pelo seu natural bondoso. o plano de associá-lo a uma revolução que o horrorizava. D. mas a massa do povo não podia conceber seus fins nem seus princípios. a vassalagem familiar dos habitantes deste país proporcionava-lhe o prazer da so- berania sem os incômodos que lhe são próprios e. JOÃO VI poderia ter salvo a mais bela parte da monarquia portuguesa. Abandonando a metrópole a algu- mas chances. o que não pos- suía o filho ignorante e bonachão do rei D. vivendo no meio dos brasileiros que o adoravam. sentiu-se que sua liga- ção às transformações que vinham de ter lugar tor- ná-las-ia menos impopulares. o temor de atravessar o oceano prendia-o ainda mais ao continente americano. conseguiram per- suadí-lo de que sua presença faria retornar à ordem . que a Pro- vidência lhes deu. maior co- nhecimento dos homens e das cousas. e D. JOSÉ.

os do interior começaram a examinar suas qualidades e progressos. Os brasileiros indignaram-se com o abandono em que ficaram após o regresso do soberano. conse- guiram triunfar ao mesmo tempo sobre suas afeições e repugnâncias. e. JOÃO VI ainda a bordo do navio que o levava à Europa quando perdeu todas as suas ilusões. e o soberano mor- reu infeliz. à civilização. Uma hor. Soberano absoluto. em desprezo. . Achava-se D. Profundamente feridos pelo orgu- lhoso desdém dos habitantes da capital. tornaram-no num escravo. sob o pretexto de tornarem-no num rei constitu- cional. os resultados do péssimo sistema colonial mostraram-se então no que tinham de mais odioso. que tinham por ele. As rivalidades entre as capitanias revelaram-se mais que nunca. a qual po- dia viver independente do resto do mundo. Cadá província queria ser a primeira: cada qual queria ser sede da capital do reino. estranho às artes. indo ao ponto de prescrever a hora que devia desembarcar. nunca foi um tira- no. e o habitante do sertão. foi transportado para longe delas. um legítimo orgulho não permitia aos seus habitantes que fossem a além-mar refazer a cadeia penosa que a emancipação havia rompido. quando a polític. rível anarquia ia aniquilar o Brasil. Seus cortesãos ditaram-lhe leis as mais rigo- rosas. por essa manobra.434 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE os portugueses rebeldes. a todas as comodida- des da vida sustentava com orgulho que não havia nada que se não encontrasse em sua terra. O único centro de união a que se ligavam as províncias do Brasil. Como não podiam odiá-lo transformaram a amizade..

para se tornar po- pular. ela feria-o ao mesmo tempo no seu orgulho e nos seus interesses. Tal emancipação atira- va-o a um segundo plano e fechava uma das suas prin- cipais fontes de riqueza. O povo de Portugal não podia ver sem mágua a e m a n c i p a ç ã o de sua colônia. JOÃO VI ha- via confiado a regência. j OAO VI via com igual apreensão o saber e as virtudes. era preciso fazer voltar o Brasil ao jugo da côrte! Cegos pela vaidade nacional. Um decreto defei- tuosamente hipócrita restabeleceu o antigo sistema colonial. os legisladores portugueses nem ao menos tiveram o cuidado de lan- çar os olhos ao mapa do Brasil. mas a côrte corrompida de D. retornasse a Europa. PEDRO desobedeceu aos le- gisladores de Lisboa. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . Uma intriga fez expulsar o sábio educador e o príncipe nao teve outro mestre além do franciscano ANTONIO Dfc . as cortes ordenaram que D PEDRO já casado e pai de família. A assembléia da metrópole acreditou então que. O insulto que haviam recebido em comum os bra- sileiros e o príncipe regente. 435* injusta e absurda da côrte de Lisboa veiu prolongar sua existência. O novo soberano do imenso império do Brasil tinha apenas 22 anos. com ele a frente. Sua infância havia sido con- fiada a um homem de mérito — o p o r t u g u ê s RADE- MACHER. compreendendo em um só anátema o reino do Brasil e o jovem príncipe a quem D. D. os brasileiros. para viajar sob as vistas de um governador e com êle ler os De Officiis d© Cícero e as Aventuras de Telémaco. combateram os soldados portugueses e proclamaram a sua independência. e. contribuiu para que mu- tuamente se unissem.

nas circunstâncias espinho- sas em que se achava. e o padre ANTÔNIO A R R A B I D A não quis mesmo transmitir ao seu discípulo os pou. mas. . nobres senti- mentos e o sincero desejo de praticar o bem. cos que possuía. boa memória e alma superior. não era suficiente. Se a educação tivesse aperfeiçoado esses dons preciosos. teria ele podido fun- dar sobre bases sólidas um império livre e florescente. JOÃO VI. Êsse monge era tido em sua Ordem como um homem instruído. a China e o Império Britânico . a Alemanha e a Itália. os conhe- cimentos do mais instruído dos franciscanos eram ain- da muito deficientes. mas. digamos. secundassem-no com maior talento e maior zêlo. d e um império ainda não organizado. que teria embaraçado um ho- mem muito mais experimentado em negócios públicos. segundo as províncias. hoje bispo. sem conhecimento dos homens e das cousas. PEDRO. êsse problema. di- ferenças mais sensíveis que as que se notam entre a França e a Inglaterra. sem instrução. D. Era pre- ciso cuidar de dar ao Brasil uma nova forma de go- verno. Êsse príncipe tinha a seu favor as vantagens da mocidade. apenas entrado na vida. sem dúvida. D. Era muito. não podia ser entregue ao filho de D. sem um amigo sincero e ajuizado. PEDRO nascera com boas qua- lidades de espírito. retidão. achou-se à testa de um império apenas menor que a HRussta. se tivesse reprimido os naturais defeitos a que a cri- ança se inclina. se o exemplo do vício não tivesse fe- rido seus primeiros olhares. se por meio de graves estudos tivessem fixado sua imaginação móvel. e se. uma grande resistência física. 436 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE ARRABIDA. mal conhecido e cuja popula- ção heterogênea apresenta. levado às rédeas do Estado. estranho aos I negócios.

aumentou por um momento o poder do imperador. o povo pediu que o projeto apresentado fôsse conside- rado legal imediatamente. trabalharam nessa grande obra. tão móbil e inexperiente. pelo atordoamento produzido. PEDRO temeu per- der a autoridade e de um golpe violento dissolveu a assembléia constituinte. PEDRO anunciara que ia submeter a uma nova assembléia um projeto de constituição notável por seu liberalismo. PEDRO foi proclamado "imperador constitucional". Mas haviam aprendido a desconfiar de D. pela força das municipalidades. Mas. algum tempo depois (2) JOSÉ (BONIFÁCIO DE ANDRADA tutor do jovem PEDRO II. reunidos no Rio de Ja- neiro. À 25 de Março de 1824 foi proclamada a nova constituição. para tirar proveito de um tal procedimento era preciso uma constância e uma habilidade que se não podiam esperar de um imperador tão moço ainda. e. D. D. . exilando alguns membros no- táveis por seus talentos e eloquência (2). em última análise. PEDRO. mas os deputa- dos das diversas províncias. ROCHA. MON- TEZUMA e t c . Entretanto uma forte tendência ao rèpublicanismo não tardou em se manifestar nos deputados. a dissolução da assembléia cons- tituinte não serviu talvez. 437* Após ter tido os títulos de "príncipe regente" e de "defensor do Brasil". DISTRITO DOS D I A M A N T E S E LITORAL . A princípio não havia. Foi um golpe de audácia que. senão para tornar o Imperador um pouco menos popular. e êsse projeto foi efetivamente apre- sentado à nação em 11 de Dezembro de 1823. a t u a l ministro do Brasil em Paris. D. te- mia-se que se êle reunisse uma segunda assembléia constituinte tornaria a dissolvê-la antes de termina- das as discussões. absolutamente uma "constituição" .

difícil de ser estudada. Mas. após a chegada da corte de Portugal ao Rio de Janei- ro. cidade que é ao mesmo tem- po colônia. Absolutamente não há homogeneidade entre os habitantes do Brasil. que são bons generosos. pueris vaidades e inte- resses mesquinhos foi espalhada pelo Brasil. e. mas. Entretanto pode-se dizer em geral. Mas. PEDRO. que seu pai mantivera sempre longe dos negócios do Estado. . negros forros e escravos. porto de mar. divididos entre si por intrigas. Uma multidão de patriarçados aristocráticos. apresenta um amálgama bizarro de americanos e portugueses. Está claro que a nova forma de governo devia ter- se adaptado a êsse triste estado de cousas. e que em particular os de várias províncias são notáveis pela vivacidade de espírito e de inteligência. nes- te país não existia absolutamente a sociedade e ape- nas podia-se notar alguns elementos de sociabilidade. residência de uma c o m corrompida. a admissão da escravatura familia- rizara-os com exemplos dos mais abjetos vícios. brancos e homens de côr. homens livres. hospitaleiros. magníficos mesmo. que devia procurar unir os brasileiros e fazer alguma cousa por sua educação moral e política. o hábito da venalidade foi introduzido em todas as classes. e D. capital.438 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE foram convocadas duas câmaras que logo começaram v m seus trabalhos. podia apenas conhecer o Rio de Janeiro. que eles teem hábitos pacíficos. o sis- tema colonial mantivera os brasileiros na mais pro- funda ignorância. cidade cuja população. para poder dar aos / habitantes do Brasil uma carta concebida nesse espírito era preciso conhecê-los profundamente. está sempre sob as mais danosas influencias.

As paixões oriundas do sistema colonial e do despotismo enervado de D. essa garantia das liberdades públicas. Essa carta consagrava princípios de justiça. levam longe a licenciosidade De- pois do ano d e l 8 2 1 apenas apareceram no Brasil duas ou três obras úteis. q u e r i a sinceramente que seu povo fôsse livre. Desde o primeiro momento da revolução ura gran- de número de homens ignorantes. passou a ser o órgão do ódio e da inveja. e não encontrava. foram chamados bruscamente à administração do Estado. foi essa nobre idéia que presidiu à redação da carta constitu- cional. revoltariam os europeus que. JOÃO VI. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . Tantos foram os incapazes que chegaram sucessivamente ao . Os panfle- tos que se imprimiam no Rio de Janeiro. habituados a tôda sorte de servilismo. a última de nossas legiões deseja-lo-ia apenas para um de seus cabos. desencadearam-se sôbre o Brasil. e se hoje êsse país começa a ser conhecido deve-se isso ao trabalho dos estrangeiros. para a França ou para a Alemanha. Era em vão que o Imperador procurava dentre os que o cercavam ministros capazes de fazer o império prosperar. nesse particular. 439* D. em sua essência. PEDRO. e alguns de seus artigos mereciam grandes elogios. a l i á s não diferia ela. por tôda parte. senão as mais desesperadoras nulidades. animado por sentimentos generosos. parecen- do querer despedaçá-lo. presas da bai- xeza e do personalismo. de tantos ou- tros documentos do mesmo gênero. Passava de um homem sem energia a um corrompido. A imprensa. nada tinha de bra- sileira e serviria tanto para o México como para o Brasil. Algumas pessoas puderam ver em Paris um ministro da guerra exilado pelo governo brasileiro.

era sobretudo fru- to da facilidade com que se desenvolviam. tão grande número de homens viciosos que é desculpado de não acreditar mais na honra e na integridade. O govêrno brasileiro teve também. o govêrno parecia marchar por sobres- saltos e perdia a cada passo alguma cousa de sua con- sideração primitiva. mas. por outro lado D. LUIZ XIV e o czar PEDRO haviam mandado buscar no estrangeiro sábios capazes de instruir seus povos. por um momento. nesse imen- so território. era impossível ao govêrno seguir um sistema uniforme. enviaram à França jovens bra- sileiros. e é sabido como foram felizes os resultados obtidos. que tivessem vulgarizado conhecimentos úteis. chegar às rédeas do go- vêrno sem instrução e sem nenhuma experiência. dando- . os germens da prosperidade que uma na- tureza benfazeja ali expandiu com mãos pródigas. fizeram despesas enormes com êles. No meio das mudanças contínuas que se opera- vam no ministério. em lugar de chamar ao Rio de Janeiro professores competentes que dessem lições a grandes auditórios. durante õ curso de seu governo. PEDRO encontrou. Todavia o Brasil conseguia algum progredir. Tais oscilações faziam com que o imperador fôsse acusado de perfídia e má fé. isso entretanto era mais fruto da liberdade das relações comerciais que da ação do govêrno. a idéia de aproveitar-se das luzes das na- ções mais civilizadas. desde que' em circunstâncias muito difíceis. êle era apenas versátil e sê-lo-á sempre. a um ato de"força seguia-se um de fraqueza.440 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE poder que não será de admirar que a maioria dos bra- sileiros pretendem hoje alcançar um lugar de minis" t r o .

A circunstância que vimos de citar não foi a úni- ca com qtte o governo brasileiro pretendeu provar não ser indiferente aos nobres trabalhos da inteligência. para fazer regressar à pátria essa juventude pouco estudiosa foi empregada tanta violência quanto o foi de pouco discernimento ao fazê-la partir. Talvez que tal finalidade tivesse sido conseguida se se pu- zessem em concurso os lugares dos pensionistas que deviam seguir para a Europa. Não foi absolutamente a esses . as des- pesas subiam a tal ponto que. MARTIUS e POHL. BERZELIUS etc. Os pensionistas do Estado gozaram os pra- zeres de Paris. que tantos serviços prestou ao continente americano. suas produções e suas riquezas. a sábios que. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . cidadãos como: CUVIER. GAY-LUSSAC. mas foram o afilhadismo e a intriga que presidiram à escolha. HUMBOLDT. ou ainda a homens cujas importantes pesquisas tiveram grande influência sobre o progres- so das mais úteis ciências e contribuíram para a pros- peridade de todos os povos. SPIX. por ex. conseguindo assim man- dar moços instruídos e trabalhadores. e nesse número havia pessoas que ignoravam os princípios de gramática e de ari- mética. à custa de seus conterrâneos. PÕISSON. Quis um dia recompensar alguns estrangeiros célebres.. Como era impossível conceder favores a todos os gêneros de mérito. como os Srs. AMPÈRE. dedicaram-se em particular a tornar conhecido o Brasil. DAVY. acreditar-se-ia talvez que êle désse preferên- cia ao Sr. ARA- GO. e sua escolha caiu sobre homens de que não havia dúvidas sobre sua competência superior. Os poderosos da época enviaram ao Velho Mundo seus parentes e protegidos. 441* fies ordem de estudar e tornarem-se sábios.

ele fez recair sua escolha sobre SCRIBE E ROSSINI (3) Se tivéssemos a intenção de relatar todos os fatos que. mas.H Í L A I K E que o governo brasileiro pensou em recompensar . que o monarca nomeara MARQUÊS DE M A N O E L crafif A I R E S D E CAZAL. há doze anos. e enfadaram-no do Brasil. Orgulhosos da su- perioridade de seu país. o "pai da geo- c u b l L Í ! 5 . . Ela foi acelera- da por uma personagem desde muito tempo famosa entre os brasileiros: FELISBERTO CALDEIRA BRANT. atormentado pelas pa- tifarias sempre renascentes. Uma catástrofe se preparava.442 A U G U S T O DE S A I N T . esses homens pintavam à ima- ginação do grande imperador as delícias da Europa. Fatigado da governança. homens obscuros e sem educação. D. as piratarias de COCHRANE.» edição de sua e x c e l e n t e obra sobre o Brasil. sob as cores as mais brilhantes. a re- volta sucessiva de diversas províncias. PEDRO procu- rou consolação nas confidências e compadresco de al- guns servidores. teríamos o prazer de citar vários nomes justa- mente honrados. se teem sucedido no império do Brasil. não ousando dispensar in- teira confiança aos seus ministros. que pouco a pouco dêle se enfadava também. O isolamento em que se achava poderá sem dúvida ser- vir de_xlescul{^ olhos dos brasileiros ela apresentou-se mais grave porquanto tais favoritos eram portugueses. V-' morreu em Lisboa na indigência. da corte e suas intrigas. a guerra tão infeliz quanto impolítica do Rio da Prata. acreditaríamos mais de uma vez transcrever algumas páginas dos anais do Baixo-Im- pério. nos fornece- riam detalhes de costumes de grande interesse. traçando a história do governo do Rio de Janeiro. sem poder t o u c a r a 2.

Chegado à testa dos negócios do Estado. legalizando. a menos que lhe dessem a alta prova da confiança im- perial. De volta ao Brasil. acumulava uma grande fortuna. deve então restringir-se ao relato dos fatos. Êle foi general em chefe da armada do sul. FELISBERTO levava vida aventurosa. esteve à testa de tôdas as transa- ções importantes que o Brasil entabolou com o es- trangeiro. O imperador cumu- lou-o de títulos e honrarias. sem nenhum exame. e ROCHA PINTO. filha de EUGÈNE BEAUHARNAIS.. as contas que apresentasse. No meio das festivi- dades que se sucederam. encarregou-se de todos os empréstimos e enfim foi a êle que o imperador entregou as negocia- ções relativas ao seu casamento com a jovem princesa. secretário íntimo do gabinete do impe- rador. superintendente das pro- . 443* BARBACENA. se a história con- temporânea pode admitir considerações gerais. e já. e ofereceria talvez um tipo particular em um romance de costumes. mas êle recusou aceitar êsses favores. DISTRITO DOS DIAMANTES E LITORAL . o esperto cortesão teve a habilidade de insinuar-se cada vez mais no espírito de seu chefe. fez valer seus importantes serviços e ter- minou por impôr-se como um homem indispensável. Mas. desde o antigo regime. se não conseguisse afastar dele alguns favoritos influentes mormente FRANCIS- CO GOMES. Ofereceram-lhe a pasta das finanças e a presidência do Conselho. A pintura exata do caráter desse ho- mem teria qualquer cousa de muito picante para os europeus. FELIS- BERTO sentiu que não se assenhorearia inteiramente do espírito do monarca. FELISBERTO CALDEIRA BRANT aproveitou-se do atordoamento que causara ao monarca aquela feliz aliança.

GOMES não perdeu tempo. Mas a União Americana foi fundada por sectários virtuo- sos. havia sabido manejar um partido. havia aproveitado do poder que ainda possuía e. enviando tais documentos dire- tamente a D. p r e p a r a d o s para a liberdade pelas lições e mesmo pelos e x e m p l o s de seus antepassados europeus. Pintaram- lhe sob as mais sedutores cores a crescente prosperi- dade da América do Norte. A afeição que êste votava ao seu ministro transmudou-se imediatamente em indig-- f* f< • • 4 O naçao. distri- buia-os em profusão. acostumado a manejar os homens. excitando poderosamente o es- pírito revolucionário que em breve levou o imperador à abdicação.444 AUGUSTO DE SAINT-H^ILAIRE priedades imperiais. e as idéias do federalismo espalharam-se em todas as províncias do Brasil. cheios de energia e constância. Pela publicidade que lhe deu FELISBERTO. Enquanto que GOMES tramava a queda de FE- LISBERTO êste não dormia. que. transformou-se em acusador. assacou-lhe as mais violentas censuras e de- mitiu-o. PEDRO. seguro do apôio das câmaras. Chegado a Londres. Lançaram nessa época uma armadilha bem peri- gosa à inexperiência do povo brasileiro. afastando-se habilmente da verdadeira questão. publicou um panfleto onde. criou jor- nais que favoreciam seu ódio e seus desejos. essa pen- dência tornou-se num caso nacional. Provocou pendências e o impe- rador viu-se obrigado a enviar à Europa os seus que- ridos confidentes. reuniu todos os documentos possíveis para provar que FELISBERTO não fora sempre um representante probo. O ministro de- mitido pôs-se à frente dos descontentes. Decaído. não se deixou abater. eram capazes de con- .

445* ebê-la e dignos de gozá-la. é preciso di- zer. mas. Sôfregos de . Os brasileiros sacudiram nobremente o jugo do sistema colonial. a de Minas Ge- rais é certamente a mais civilizada e talvez a mais rica. mas sem perceber talvez. como o escravo que rom- pidos os grilhões vê durante muitos anos ainda as ci- catrizes da cadeia sôbre seus pobres membros. No meio da agitação produzida nos espíritos pela idéia do federalismo e sistemas demagógicos. sob um r e d i m e despótico cujas finalidades eram não somente empobrecê-lo como desmoralizá-lo. querem sem dúvida o federalismo. que se acautelem os bra- sileiros contra uma decepção que os levará a anarquia e aos vexames de uma multidão de p e q u e n o s tiranos. e ele gemia. Era preciso. a u - toridade. há cêrca de 10 anos. A União Americana. infelizmen- te que o povo brasileiro fôsse formado dos mesmos e l e m e n t o s e se achasse nas mesmas circunstâncias. fatigado embora pelo peso de s