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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

30

julho 2010 ano III ficina
julho
2010
ano III
ficina

fim?

SAMIZDAT 30

julho de 2010

Edição, Capa e Diagramação:

Henry Alfred Bugalho

Revisão Geral Maria de Fátima Romani

Autores Caio Rudá Cirilo S. Lemos Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Jú Blasina Léo Borges Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Deves Wellington Souza

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Editorial

É chegada a hora de nos despedirmos. Oferecemos a vocês o que tínhamos de melhor, de mais criativo, o nosso sangue e a nossa alma e esperamos que tenhamos saciado parte da sua sede por Literatura. Nesta estrada das Letras, muitos de nós ainda ensaiam os primeiros passos e é difícil mensurar a importância que uma publicação como a Revista SAMIZDAT tem, quando se trata de nos motivar e dar-nos um retorno dos leitores. Todos os escritores desejam ser lidos, que as pessoas, em conversas de bar com amigos, indiquem um bom livro que leram e que estes sejam os nossos livros. Ansiamos sim por reconhecimento e imortalidade; ninguém que deita meses ou anos escrevendo um romance deixa de pensar, um minuto sequer, se será lido daqui dez, vinte ou cem anos no futuro. Escrevemos para nos comunicar com você, nosso leitor de hoje, mas também escrevemos para nos comunicar com seus filhos e netos. A Literatura é a nossa ponte para o futuro. Por isto, gostaríamos de acreditar que a Revista SAMIZDAT termina neste dia, mas que sua mensagem perdu- rará por muitos anos vindouros.

Henry Alfred Bugalho

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.

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Sumário

Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho o Fim da Samizdat 8 Henry Alfred
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho o Fim da Samizdat 8 Henry Alfred
Sumário Por quE Samizdat? 6   Henry Alfred Bugalho o Fim da Samizdat 8 Henry Alfred

Por quE Samizdat?

6

 

Henry Alfred Bugalho

o

Fim da Samizdat

8

Henry Alfred Bugalho

CoNtoS

 

Como o melro no seu dragoeiro

10

 

Joaquim Bispo

La Chason dernière

14

 

Ju Blasina

o

sinal

16

Henry Alfred Bugalho

Na corda bamba

 

18

 

Henry Alfred Bugalho

Noite de festa

 

20

 

Cirilo S. Lemos

Bom dia, Carlinhos

22

 

José Guilherme Vereza

Vertigens de um recomeço

24

 

Léo Borges

artiGo

 

o que é o prazer?

 

28

 

Joaquim Bispo

a inspiração

 

32

 

Joaquim Bispo

CrÔNiCa

 

Sex toys

 

34

Ju Blasina

PoESia Ciclo 36 Fatima Romani fim? 37 Marcia Szajnbok testamento 38 Caio Rudá de
PoESia Ciclo 36 Fatima Romani fim? 37 Marcia Szajnbok testamento 38 Caio Rudá de

PoESia

Ciclo

36

Fatima Romani

fim?

37

Marcia Szajnbok

testamento

38

Caio Rudá de Oliveira

orvalhinho

40

Wellington Souza

da mulher

41

Wellington Souza

dois poemas desvairados

42

Maria de Fátima Santos

Etapas

43

Maristela Deves

SoBrE oS autorES da Samizdat

44

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.com

ficina

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Por que Samizdat? “Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky
Henry Alfred Bugalho
inclusão e Exclusão
henrybugalho@hotmail.com
se converte em uma ditadu-
ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de
inclusão e exclusão.
O
grupo dominante, pela
própria natureza restritiva
do poder, costuma excluir ou
ignorar tudo aquilo que não
pertença a seu projeto, ou
que esteja contra seus prin-
cípios.
Em reação, aqueles que
se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
riam, ou não conseguiam,
fazer parte da máquina
administrativa - que esti-
pulava como deveria ser a
cultura, a informação, a voz
do povo -, encontraram na
autopublicação clandestina
um meio de expressão.
Em regimes autoritários,
esta exclusão é muito eviden-
te, sob forma de perseguição,
censura, exílio. Qualquer um
que se interponha no cami-
nho dos dirigentes é afastado
Datilografando, mimeo-
grafando, ou simplesmente
manuscrevendo, tais autores
russos disseminavam suas
idéias. E ao leitor era incum-
e
ostracizado.
As razões disto são muito
bida a tarefa de continuar
esta cadeia, reproduzindo tais
obras e também as passando
simples de se compreender:
o
diferente, o dissidente é
perigoso, pois apresenta
alternativas, às vezes, muito
melhores do que o estabe-
lecido. Por isto, é necessário
suprimir, esconder, banir.
adiante. Este processo foi
designado "samizdat", que
nada mais significa do que
"autopublicado", em oposição
às publicações oficiais do
regime soviético.
A
União Soviética não
foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte-
sia do Gulag Museum em Perm-36.
logo

E por que Samizdat?

A indústria cultural - e o

mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, base- ado no que se julga não ter valor mercadológico. Inex- plicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maio- res do que o lucro.

A indústria deseja o pro-

duto pronto e com consumi- dores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mes- mo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado.

E a autopublicação, como em qualquer regime exclu- dente, torna-se a via para produtores culturais atingi- rem o público.

Este é um processo soli- tário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes apa- ratos midiáticos - como TV,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho.

O

único aspecto que conta é

o

prazer que a obra causa no

leitor.

Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro

lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua pala- vra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros,

é quem recebe os louros por seus acertos.

E, com a internet, os au-

tores possuem acesso direto

e imediato a seus leitores. A

repercussão do que escreve (quando há) surge em ques- tão de minutos.

A serem obrigados a

burlar a indústria cultural,

os autores conquistaram algo

que jamais conseguiriam de outro modo, o contato qua-

se

pessoal com os leitores,

o

diálogo capaz de tornar a

obra melhor, a rede de conta-

tos que, se não é tão influen-

te quanto a da grande mídia,

faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam

o prazer de ouvir o respal-

do de leitores sinceros, que

não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos.

Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pós-

modernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição

que vise rotular e definir a

orientação dum grupo. São apenas escritores interessados

em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim

a heterogeneidade.

Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de auto- publicação, mas “Samizdat” porque também é um modo

de contornar um processo

de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profis- sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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poemas, resenhas literárias e muito mais. www.revistasamizdat.com www.revistasamizdat.comwww.revistasamizdat.com 77

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Comuunicado

Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Comuunicado Henry Alfred Bugalho O Fim da SAMIZDAT 8 SAMIZDAT julho de 2010
Comuunicado Henry Alfred Bugalho O Fim da SAMIZDAT 8 SAMIZDAT julho de 2010
Comuunicado Henry Alfred Bugalho O Fim da SAMIZDAT 8 SAMIZDAT julho de 2010
O Fim da SAMIZDAT
O Fim da SAMIZDAT

O Fim da SAMIZDAT

http://www.flickr.com/photos/timove/2202112003/sizes/o/

A Revista SAMIZDAT acaba e nos deixa com a sensação de incompletude.

Todos perdemos um pouco com o seu fim. Nós, escritores, teremos um espaço a menos de expres- são — um espaço demo- crático, livre e heterogêneo —, vocês, leitores, um canal

a menos de comunicação

com uma nova geração de escritores em língua portu- guesa. Poderíamos tentar por a

culpa do fim da SAMIZDAT

a uma série de fatores, a

uma porção de pessoas, a uma combinação de omis- sões, a isto ou a aquilo. Falhamos e também acer- tamos, demos mais valor à criação e menos à divulga- ção, mas isto não explicaria o fim, tampouco a longevi-

dade da SAMIZDAT. Não podemos pensar que ela teve vida breve, pelo contrário, como já repeti em todos os aniversários desta publicação, supreen- dia-me todos os anos, e to- dos os meses em que ainda estávamos por aqui. Foram trinta edições, mais de oi- tocentos textos publicados, aproximadamente cinquen- ta autores colaboradores

e meio milhão de acessos.

Para uma publicação li- terária, tenho certeza que fizemos mais do que jamais poderíamos ter imaginado. Se um dia, um dos auto- res da SAMIZDAT obtiver reconhecimento, alguns olharão para trás e se espantarão diante de nos-

sos esforços, pois apenas quem um dia já tentou uma

empreitada semelhante sabe dos desafios de reunir tan- tos talentos diferentes num único trabalho. A sensação de incomple- tude resulta da consciência de que poderíamos mais, mas cada um tem sua trilha

individual para percorrer.

É reconfortante para um

escritor estar na companhia dos seus, cada um batalhan- do por um lugar ao sol,

mas o caminho solitário é

igualmente importante e necessário para o cresci-

mento. As grandes ideias e

a motivação para perseve-

rarmos geralmente brotam naquele momento em que estamos sozinhos, num em- bate com as palavras e em como elas serão recebidas pelos leitores. Nestes anos, vi vários

escritores desistirem, su- cumbirem às necessidades

e facilidades da vida co-

tidiana, do funcionalismo

público, do salário fixo ao fim do mês, da vida fami- liar. Somos todos humanos

e também precisamos de

teto e comida, e isto acaba sufocando, às vezes, a Lite- ratura. Nem todos engolem

meses e anos sem nenhum resultado, sem reconheci- mento, sem um tostão, e é exatamente esta a realidade de milhares de escritores por aí. Ninguém disse que seria fácil Por isto, do mesmo modo que não duvido que um

futuro grande nome da Li- teratura tenha passado pela SAMIZDAT, também sei que muitos de nós não chega-

rão até o fim desta estrada

e que esta publicação será

apenas uma boa recorda- ção de sonhos não realiza- dos. Assim como foram os sonhos de infância, de se tornar jogador de futebol,

bombeiro, modelo, atriz, ou astronauta.

Pessoalmente, o ciclo da SAMIZDAT termina no exato momento em que um outro ciclo começa, quando terei de enfrentar o desafio de viver exclusivamente do

que escrevo, sem a rede de segurança de um emprego convencional, quando todo

e qualquer exemplar ven-

dido conta. E acredito que todos os demais membros também estarão por aí, atuando em novos projetos, concluindo projetos antigos, escrevendo, criando e se

aperfeiçoando. A todos eles dedico os meus mais sinceros agra- decimentos pela confiança que um dia depositaram

em mim, por dedicarem seu tempo e talento a um proje- to ambicioso e que nos deu muito trabalho. E também agradeço aos nossos leitores, fiéis ou eventuais, que são o fim e a motivação de tudo que escrevemos. Vemo-nos em breve.

Henry Alfred Bugalho.

Contos

Contos Joaquim Bispo Como o melro no seu dragoeiro 10 SAMIZDAT julho de 2010
Joaquim Bispo
Joaquim Bispo

Como o melro no seu dragoeiro

Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro
Como o melro no seu dragoeiro

O nome de baptismo era Armindo, mas «Ro- lhas» foi o que começa- ram a chamar-lhe, desde

que a namorada o deixou

e ele começou a pedir

rolhas ao Sr. Mário do Estrela – um restaurante na Calçada da Ajuda – ninguém sabia para quê.

Desde pequeno, era um miúdo metido consigo, e

o facto de ser muito ma-

gro e alto, também não ajudava a fazer amizades. O pai era «arrasta» na praça da Ribeira e a mãe vendia hortaliça, de ma- nhã, na praça da Travessa da Boa-Hora. Nem para uma coisa nem para a

outra arranjaram, os pais, maneira de o entusias- mar. De vez em quando,

a mãe conseguia que lhe

dessem trabalho – carre-

gador em lojas de móveis, marçano em mercearias

– mas rapidamente aban-

donava o trabalho, quan- do não era o patrão a dizer à mãe que o rapaz andava sempre nas nu- vens e não dava conta do recado. Deambulava pelo bairro da Ajuda e do Caramão ou refugiava-se na mata de Montes Cla- ros. Ou então, isolava-se na biblioteca do Centro Paroquial a ler poesia. Numa dessas vezes, escre- veu nas costas do cartão de sócio:

Vagueio por um mundo que me não conhece A minha alma anseia o além

Aí pelos dezanove anos, começou a namorar com uma vizinha, a Alcina, que achava graça ao seu

ar desajeitado. Sentavam-

se aos domingos num banco do Jardim Botâni- co, debaixo dum choupo. Ele recitava-lhe pequenos poemas de Cesário Verde

e ela sentia que não ha-

via nenhum homem tão sensível como o Armin-

do. Numa dessas tardes,

à sombra do choupo, ele

recitou-lhe um poema de sua autoria, como se fosse de Cesário, para ver se ela notava a diferença. Começava assim:

Olhaste-me graciosa e prazenteira Como se eu fora de to- dos o mais nobre…

Ela não notou dife-

rença, o que muito o envaideceu. Foi um na- moro agradável e alegre, enquanto durou. Passado um ano, Alcina sentiu que a mesa não se ia guarnecer com poesia e passou-se para o filho do dono da serralharia do Altinho, com o qual ca- sou pouco depois. Foi um rude golpe para Armin- do. Alguns diziam que o moço desatinara e apon- tavam o facto de ter pas- sado a andar sempre com um bolso cheio de rolhas de cortiça. Por essa altura escreveu numa carteira de fósforos:

O poema só brota nos

http://www.flickr.com/photos/maxbisschop/151463268/sizes/o/

peitos esfacelados

Uns meses depois, um tio, que trabalhava no

Jardim Tropical, puxou-

o para jardineiro. Tratar

das plantas e dos can- teiros, manter o jardim limpo, eram tarefas que lhe agradavam. O con- tacto com as plantas e os animais, a percepção dos seus ciclos, faziam-no sentir-se em comunhão com o mistério da Natu- reza. Escrevia:

Deixa a palmeira para a algazarra dos pardais e a araucária para o bulício dos demais! Na paz do dragoeiro faz, melro, o teu poleiro!

Quando ganhou expe- riência, encarregaram-no dos alfobres nas estufas, onde pode trabalhar so- zinho, como gosta. Pre- para as pequenas leiras de terra, semeia e cobre as sementes, identifica as plantações, rega as pe- quenas plantas quando rebentam, transfere-as para vasos ou canteiros, quando atingem tamanho adequado, e cuida delas até serem mudadas para

o ar livre.

Embora atento ao que faz, a sua mente arqui- tecta frases, avalia rimas

e sonoridades, sobretudo

ausculta o coração. De- pois, à hora de almoço, senta-se num banco e verte, num caderno de

papel colorido, o que o íntimo lhe inspira:

Todo o caule por mi- nhas mãos tange. Esgrimo da mandrágora o alfange, o aloendro murmura e range.

Quando o dia de tra- balho termina, dirige-se

para a beira-rio, a jusante da estação dos barcos, com uma bolsa de pano

a tiracolo. Senta-se no

paredão e fica a olhar o rio. «Para onde irão todas aquelas águas? Alguém lhes marca o destino? Certo é que seguem de- cididas, na direcção do sol-pôr. Outras pessoas as irão contemplar, lá lon- ge.»

Armindo tira então da bolsa, uma garrafa vazia de vidro transparente, separa a folha de cader- no com o seu pequeno poema, enrola-a, ata-a com um junco seco e introdu-la meticulosa- mente na garrafa. Num

ritual sempre igual, tira do bolso uma das rolhas

e veda a garrafa cuidado-

samente. Então, levanta-se

e atira a garrafa ao rio,

tão longe quanto a sua força alcança. Solene, fica

a observá-la, primeiro

com o gargalo a esbrace- jar, como se apelasse por

socorro, depois num su- ave gesto de adeus e, por fim, a deslizar lentamente, imperceptivelmente, em direcção ao mar.

À noite, antes de ador- mecer, com o «Só» de António Nobre à cabe- ceira, sente às vezes algo indefinível, como que uma sintonia com um es- pírito desconhecido, mas tão íntimo como si pró- prio. Gosta de imaginar que, lá longe, numa praia remota, do outro lado do Atlântico, alguém, vague- ando ao sabor dos seus pensamentos solitários, encontra uma das suas garrafas e lê:

Penso em ti, minha amiga, alma gé- mea, minha irmã. Só e triste. Anseio por te conhecer. Pensa em mim, assim nos vamos encontrar!

E adormece mansa- mente.

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O lugar onde

a boa Literatura

é fabricada

ficina www.oficinaeditora.com

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Contos

La Chanson Dernière
La Chanson Dernière
La Chanson Dernière

La Chanson Dernière

Contos La Chanson Dernière Ju Blasina http://www.flickr.com/photos/ilianov/3468044909/sizes/o/ 14 SAMIZDAT julho de
Ju Blasina
Ju Blasina
Contos La Chanson Dernière Ju Blasina http://www.flickr.com/photos/ilianov/3468044909/sizes/o/ 14 SAMIZDAT julho de

http://www.flickr.com/photos/ilianov/3468044909/sizes/o/

Deitada em sua cama, ela brincava de adivinhar. Era um jogo simples, travado em seu lugar secreto, usado nos mo- mentos de dor, de medo

e de solidão, tendo como

único adversário, o tem-

po. Esperava com isso dele ganhar um pequeno crédito em instantes ou memórias, por menor que

fossem. Naquela altura da sua vida, isso era tudo o que importava! Ouvindo a primeira música, Paris, foi levada ao momento em que ven- deu seu tempo em troca de moedas que agora, já

não tinham valor

se hoje lhe fizessem tal proposta ou essa multi-

plicada por dez, por mil,

a resposta seria outra

Qual a serventia de todas as riquezas acumuladas,

se já não havia tempo para desfrutá-las ou saúde para retornar à sua ama- da Paris? Definitivamen- te, aquela não fora uma troca justa! E balançando

a cabeça negativamente,

no ritmo da canção, ela

criticava a estupidez de sua juventude. Não, não seria naquela

faixa

presságio em relação à próxima; “se fosse La Vie ”

En Rose

Ah,

E tinha um bom

mas não, era

Rien Du Rien. Não era uma canção romântica, porém, ainda assim flo- resciam quentes lembran- ças sob as cobertas que

lhe guardavam do frio.

Havia amado tanto e por tantas vezes! Havia amado

a tantos

também, nem sempre com a mesma intensidade ou reciprocidade, mas o amor por si já fazia tudo

ter valido a pena! Se havia algo para lamentar, era o silêncio que morava entre o fim de uma faixa e o início de outra. Quase apostou na próxima, mas o tempo lhe deu outra vanta- gem – estava generoso ele hoje! O que viria a

seguir? Padam

dizia a vitrola. Seria essa

a última canção, a trilha sonora do seu adeus? Um adeus que ninguém pode-

ria ouvir. Não se entriste- cia por isso; despedir-se- ia da vida e das pequenas marionetes que dançavam em suas memórias falhas

e o faria com o maior

sorriso que suas forças

pudessem permitir!

E sido amada

Padam

Não temia a morte.

Depois de

Não mais

tantos anos de dor, já havia se habituado a sua proximidade gélida. Sen- tia o calor se dissipar do

quarto a cada instante

e isso era o prelúdio do

fim. É claro que ainda restavam muitas dúvidas, mas nenhuma necessida-

de de saciá-las. Não seria deselegante ao ponto de reclamar ao vazio. Não

temia o partir – partiria

à francesa! – nem lamen-

tava a solidão: dizia a si

mesma que as pessoas são mais belas nas memórias,

os momentos, mais colori- dos, sejam eles de tristeza ou de alegria, e quando havia uma pequena falha, ela logo a preenchia com uma bela pincelada de fantasia! Por isso, não, não temia o fim. Mas temia profun- damente partir no entre- meio de uma canção tão linda quanto Adieu Mon

Coeur

rodada, passaria a vez

Por isso, nessa

Nota da Autora: Esse conto foi escrito sob a súbita inspiração provo- cada pelo filme “Piaf - Um Hino Ao Amor” (origi-

nalmente “La Môme”, em inglês “La Vie En Rose”), lançado em 2007 sob a direção de Olivier Dahan. Todas as canções citadas no conto (títulos em itá- lico) foram interpretadas por Edith Piaf.

Contos

O Sinal

Contos O Sinal Henry Alfred Bugalho http://www.flickr.com/photos/raphic/4001822051/sizes/l/ 16 SAMIZDAT julho de 2010
Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Contos O Sinal Henry Alfred Bugalho http://www.flickr.com/photos/raphic/4001822051/sizes/l/ 16 SAMIZDAT julho de 2010

http://www.flickr.com/photos/raphic/4001822051/sizes/l/

O sol se punha pela milésima vez atrás das montanhas. Todos os

dias, ao cair da tarde, Alcebíades saía à varanda

à espera do sinal.

Ainda não sabia qual era seria este signo, mas aguardava-o religiosa-

mente. O sinal que o libertaria, que finalmente

o permitiria partir e co-

nhecer o mundo.

Ao receber sua missão,

o combinado era por

apenas seis luas cheias. Mas a outra guarnição não chegara para dar-lhe baixa e os meses e anos se sucederam. Seu com- panheiro de campanha morreu logo nas primei- ras semanas, vitimado por uma serpente peço- nhenta. Sozinho, Alcebía- des suportou o isolamen- to e a solidão.

Quando os mantimen- tos acabaram, ele caçou e plantou. Durante a seca, andava duas léguas para apanhar água no regato. Na grande nevasca do in- verno passado, ele pensou que morreria congelado quando uma avalanche soterrou o casebre. Con- tudo, sobreviveu, aguar- dando apenas o dia do sinal.

Em criança, sonhava em viajar aos confins do mundo, descobrir terras longínquas e conhecer povos diferentes, assim como nas histórias que ouvira de mercadores e

soldados. Foi assim que, desde cedo, ele tomou a resolução de se alistar, parecia a solução mais óbvia para seu anseio por

aventuras. Equivocara-se, por isto agora apodrecia longe de tudo e de todos. Se retornasse à sua ter- ra e aos seus, nenhuma história teria para contar,

nenhuma novidade, nada que causasse inveja nos outros.

Portanto, uma vez que recebesse baixa, embarca- ria num navio e desapa- receria no mundo. Talvez finalmente fosse feliz.

Pela milésima vez, o sol se punha atrás das montanhas, vermelho e silencioso, lançando raios dourados e púrpura para as nuvens compridas acima. Mil pores-do-sol, todos diferentes, todos trazendo a mesma expec- tativa.

Mas a nuvem de poeira que se erguia no horizon- te rompeu a monotonia do crepúsculo. O sinal! O dia da baixa!

Alcebíades acendeu a tocha na varanda e to- das as luzes do casebre, pois somente assim se certificaria que a nova guarnição chegaria ao destino depois de o sol houver desaparecido e o mundo ter sido recoberto por trevas. Correu para arrumar suas trouxas e, toda a hora, saía para a varanda, mas não avistava

os oportunos visitantes. Sentou-se na escada e acendeu um cigarro, fin- gindo tranquilidade.

Ouviu o trote dos ca- valos e seu coração bateu com mais força. O dia havia chegado!

Todavia, assim que a tocha da varanda alu- miou os cavaleiros, Al- cebíades reconheceu a bandeira, os brasões e as armaduras inimigas. Dei- tou a mão sobre a empu- nhadura da espada, mas os cavaleiros retesaram seus arcos e ordenaram- lhe que largasse a arma.

Dois deles desmonta- ram e, lendo um perga- minho, anunciaram sua sentença de morte. Foi então que Alcebíades re- cebeu as primeiras notí- cias de sua terra, da guer- ra que a havia devastado e como o império rival anexava todos os territó- rios e bens de seu povo, que incluía aquele posto avançado de guarda.

Puseram-no de joelhos e ele pôde sentir o fio da espada em sua nuca.

Por mil crepúsculos Alcebíades esperou o sinal da libertação e ele enfim chegara, num gol- pe rápido e fatal do aço inimigo.

Contos

Henry Alfred Bugalho
Henry Alfred Bugalho
Contos Henry Alfred Bugalho Na Corda Bamba http://www.flickr.com/photos/admiriam/4189278913/sizes/o/ 18 SAMIZDAT julho
Na Corda Bamba
Na Corda Bamba
Na Corda Bamba
Na Corda Bamba
Na Corda Bamba

Na Corda Bamba

Contos Henry Alfred Bugalho Na Corda Bamba http://www.flickr.com/photos/admiriam/4189278913/sizes/o/ 18 SAMIZDAT julho

http://www.flickr.com/photos/admiriam/4189278913/sizes/o/

 

Quantas vezes havia ensaiado a despedida? Quantas vezes havia re- petido para si que jamais pisaria novamente numa corda bamba?

Planejou, então, a des- pedida, num temível des- filadeiro na Costa Rica. A imprensa foi convocada, o equilibrista se prepa- rou.

Foi assim em Roma, Paris e Nova York. E a despedida era sempre adiada, postergada por causa de provas ainda mais ousadas, como da vez em que cruzou um canyon gigantesco sem qualquer tipo de prote- ção. Sobrevivera. Como da vez em que atraves- sou a corda sob ventos inclementes na Turíngia. Também sobrevivera.

Sem dificuldades, atin- giu a metade do percurso, para assombro da plateia. Só que, desta vez, algo in- comum ocorreu: o equi- librista teve medo. Não da queda, nem da morte, nem do esquecimento. Teve medo de ter desper- diçado toda sua vida per- fazendo um ofício vazio, sem sentido, tolo.

Por que fazia o que fazia?

Sua trajetória nada mais era do que um em- bate diário com a morte. Quem sairia vitorioso, ele ou ela? Por vezes, sentia o toque cálido a empurrá- lo para baixo, a forçá-lo ao erro, e fazê-lo titube- ar. Não tinha medo, pois medo é para os fracos. Esta presença soturna, sempre pairando sobre seu ofício, era o seu ver- dadeiro estímulo, anima- va-o, inspirava-o a ir mais longe.

Não encontrava respos-

ta.

Pensou em precipitar- se desfiladeiro abaixo, estatelando-se nos roche- dos e no riacho, mas não, caminhou passo depois de passo até o fim da corda bamba.

Sob aplausos da mul- tidão, sob os flashes da câmera, o anticlímax: o equilibrista acenou, e nunca mais se soube dele.

O equilibrista deu mais um passo: o último.

Mas envelhecia e nin- guém mais queria ver um velho equilibrista, que não apresentava novida- des.

Contos

Noite de Festa
Noite de Festa

Noite de Festa

Contos Noite de Festa Cirilo S. Lemos 20 SAMIZDAT julho de 2010 http://www.flickr.com/photos/kntr/3765788204/sizes/o/
Cirilo S. Lemos
Cirilo S. Lemos

20 SAMIZDAT julho de 2010

http://www.flickr.com/photos/kntr/3765788204/sizes/o/

Noite de festa no ran- cho de César Romero. Morrera com um balaço no peito seu grande ini- migo Zé Diabo, que com seu bando de facínoras fizera mal às suas três filhas. O corpo do demô- nio está pendurado pelo pescoço num galho alto de amendoeira. Moscas patinham por sua bar- ba, vapores apodrecidos sobem de seus poros, a língua roxa agora é pre- ta. Há três dias encara com olhos defuntos a bebedeira e a dança em volta da fogueira onde se faz cinzas de seus treze asseclas. É noite de fes- ta no rancho de César Romero, e a promessa é que vai longe. Faceiras, suas três filhas arrancam suspiros da caboclada, Das Dores, Das Almas e Esperança, balouçando as saias rodadas ao dedilhar das violas. Cospem no cadáver sujo toda vez que a dança as conduz até ali, efusivamente aplaudidas pelos peões de chapéu na mão. Estão felizes, seus males estão vingados. Tem comida, tem bebida, tem cantoria: é noite de festa no rancho de César Romero. Mas eis que o Inferno manda de volta Zé Diabo num sopro de

enxofre. O morto salta da

corda, salpicado pela pra- ta da lua e pelo vermelho do fogo. Move-se rápido que nem parece defunto. Agarra a peixeira de um desprevenido e começa

a

lavar com sangue o

terreiro da festa. Passa a fio de faca os seresteiros,

sangra feito porco seu inimigo jurado, mata de terror o padre de cora- ção fraco. Mata a música, mata a dança, mata a

festa e as pessoas, os ho- mens e as crianças, as ve- lhas beatas e as moças de carne nova. Mata, mata e mata. Das três filhas de César Romero, Esperança

é

a última que morre.

Contos

Bom

dia, Carlinhos

José Guilherme Vereza
José Guilherme Vereza

José Guilherme Vereza

http://www.flickr.com/photos/thepack/160619427/sizes/l/

Café da manhã. Carli- nhos já de gravata, olhos pregados no jornal.

Chega a mãe de bule na mão. Penhoar amas- sado, cabelo preso mal ajambrado, cara de que madrugou para botar a mesa.

- Bom dia, filhinho.

- Bom dia.

- Eu disse bom dia, filhinho.

- Eu respondi: bom dia.

- Você fala pra dentro.

- E a senhora não ouve de fora.

Só ouve o que já está dentro.

- Você está irritado, meu filho?

- Não.

- Eu irritei você?

- Não. Claro, que não, mãe.

- Alguma notícia irri- tou você?

- Não, mãe. Já estou va-

cinado com as irritações do mundo…

- Foi essa Gabriela, então.

Ela irritou você. Você chegou tão tarde…

- Não, mãe. A Gabi

não me irrita nunca. Muito pelo contrário.

É o meu bálsamo. Meu oásis. A flor que nasceu no brejo

onde minha vida se atolava… Gostou?

- Poesia não enche bar- riga, Carlinhos.

- Mãe, me deixa ler o jornal em paz.

- Você é tão inocente, meu filho.

Não sabe nada da vida… Carlinhos, está me ouvindo?

Pois sim. Sabia de tudo e bico calado.

O importante é que ele

nunca deixou faltar nada

nessa casa.

- Eu não acredito que

estou ouvindo isso.

- Você está irritado, meu filho.

-

Estou ouvindo uma

-

Não, não estou irrita-

voz ao longe,

do.

voz de chapinha arra- nhando no ladrilho,

unha arrastando no

quadro negro…só isso.

- Você não era assim.

- Assim como?

- Grosseiro e irritado.

- Mas eu não estou

irritado.

- Desde que voltou

para casa ficou desse

jeito.

Foi recebido com tanto carinho, meu Deus…

- Provisoriamente, mãe.

Eu avisei: pro-vi-sio-ra-

men-te.

- Não sei por que lar-

gou a Belinha, moça tão

boa, coitada…

- De novo, mãe: o ca-

samento ficou chato, sem

graça, acabou.

- Por que você não ar- rumou uma amante?

É isso que os homens fazem para manter o ca- samento.

Seu pai sempre foi assim. Você acha que eu não sabia?

- Por que está falando assim com irritação?

- Mas eu não estou

irritado. Já disse.

- Está sim. Mãe sabe

quando o filho está irri-

tado.

Carlinhos tira os olhos

do jornal, suspira,

levanta a cabeça e fin-

ge que conta as teias de aranha no teto.

Com toda calma, pega bule, xícara, pires, prati- nho, manteigueira, poti-

nho de geléia, joga tudo contra a parede.

- Agora estou irritado,

mãe. Satisfeita?

A mãe, calada, arruma

um pano para limpar a

sujeira.

E se abaixa, vitoriosa, para catar os cacos.

Contos Vertigens de um recomeço Léo Borges http://www.flickr.com/photos/jjjohn/2207697692/sizes/o/
Contos
Vertigens de
um recomeço
Léo Borges
http://www.flickr.com/photos/jjjohn/2207697692/sizes/o/

Dizem que se o sol morresse agora ainda vi- veríamos em sua presença por mais alguns instantes, suficientes para que nosso padecer se iniciasse sob luz. Nágila não era mais meu sol, talvez nunca houvesse sido como que- riam me fazer acreditar, mas a solidão, sim, essa era minha, tal qual um sol escuro e morto, com dé- beis raios de lembranças, saudades que demoram a sumir.

Alguns diziam que minha ingenuidade me impedia de entender a pa- lavra ‘traição’. Mas porque eu deveria entendê-la? Eu vivia bem sem ela. Eu só não vivia bem sem Nági- la. Não me adiantavam as inócuas teses dos poetas, psicanalistas, amigos, dou- tores, mestres em dores da alma, angústias, vertigens, assuntos que só o verda- deiro coração dilacerado domina.

Ipês tristes me escolta- vam por aquele caminho de terra vermelho-sangue até a Cachoeira das Ver- tigens, local de nome sugestivo, pertinente aos espíritos aflitos. O canto dos pássaros soava cinza com seus réquiens in- diferentes à infelicidade humana. Recomeçar. As cigarras e seus silvos tão fortes quanto breves expli- cavam o verbo usado por Nágila. “Quero conhecer outros mundos”. “Ela está te trocando por um sujeito da cidade”. “Vou fazer um curso”. “Só ficou contigo enquanto isso era útil”.

“Será bom passear pela praia”. “Ela tem um caso por lá”. “Meu coração é seu”. “Nunca mais vai vol- tar”. “É só um recomeço”.

“É o fim”. Vozes aleatórias

– explicativas ou acusa-

tórias – se entranhavam em minha mente, zunindo como açoites, castigos que eu recebia sem saber o

motivo. Esqueciam que eu não acreditava em indí-

cios, em palavras racionais, que sempre aceitei melhor

a inocência das emoções.

Mas os argumentos, frágeis como alegria resignada, continuavam brotando de todas as partes, em sua ânsia por vitórias sem sentido, sem uma razão que curasse minha ferida. Se meus amigos enxerga- vam o mal, eu os compre- endia, queriam meu bem. Se Nágila mentia, eu esta- va ali para ouvir, tolerar, mesmo que todos esses truques só servissem para eliminar o obstáculo final para o seu reinício: eu. Fui excluído de sua vida para que suas ambições urba- nas aflorassem, crescessem da forma como ela queria, sem cheiro de mato, sem céu de estrelas, sem água da pedra, sem meu sorriso por vê-la. Muito provavel- mente amar incondicional- mente fosse isso mesmo:

permitir ao invés de ques- tionar, libertar antes de exigir, recomeçar para não entristecer.

O barulho da cacho- eira já refrescava meus pensamentos. Perto de um dos cantos do lago observei minha imagem

na superfície trêmula e vi um homem compreensi- vo com sua angústia. Dei um sorriso, coisa que não fazia há algum tempo. Com as mãos banhei meu

rosto e procurei admirar a grandiosa queda d’água. Impressionante como ela estava mais densa, mais próxima de um cená- rio natural e não de um sonho. A Cachoeira das Vertigens possuía a pecu- liaridade de ser sempre

interpretada pelo capricho crítico de seu admirador. Era o colírio de turistas, mas transformava-se em espaço lúgubre para os mal intencionados. Casais apaixonados a tinham como um paraíso terrestre, enquanto que para solitá- rios era o ombro compa- nheiro. Não raro, homens eufóricos subiam até o cume da rocha principal para declamar o amor por suas mulheres, atitude esta potencialmente valorizada pelo perigo daquela área.

Imerso em meus de- vaneios eu acreditava ter como únicas companhei- ras as trêmulas folhas das palmeiras e a brisa serena que circulava por entre a mata . Foi quando notei na parte direita de uma das pedras um vulto feminino. Agucei o olhar e percebi que era Nínive, uma moça que, assim como eu, tam- bém morava e trabalhava na região. Nunca a repa- rara bem porque até então meus olhos só se serviam de Nágila, mas sabia que ela era noiva de um fazen- deiro. Procurei decifrar o

que ela fazia sozinha ali, já que, até para experientes guias, aquela parte da ca- choeira era muito traiço- eira. Acenei com as mãos. Ela viu, mas não respon- deu. Seu rosto denuncia- va uma chaga na alma, uma tristeza semelhante a que eu despejara no lago minutos atrás. Um pânico atroz dominou minhas ações quando vislumbrei em seu semblante uma in- tenção de autodestruição.

Corri por entre a mata

lateral, escalando aos pulos

e tropeços robustas pedras

escorregadias, alheias ao

desespero da situação. Gri- tei para que ficasse parada até minha chegada, ouvin- do como resposta apenas

o eco de minhas próprias

súplicas. Ao chegar perto de onde estava pude me certificar do risco real que sua vida corria. Nínive estava descalça na parte onde a incidência de lodo

era maior, sem nenhum apoio para as mãos. Sua expressão carregada de mágoa evidenciava claro desejo de morte. A primei- ra coisa que fiz foi pedir para que ela não se me-

xesse. Chorando, ela disse em baixa voz para que eu não me intrometesse em sua vontade. Coloquei-me

o mais perto possível de

onde estava, num ângulo

inferior, amparado pelo

galho de uma árvore, com

o braço estendido. A água

fria fluía forte por entre

seus pés.

– Nínive, olha, não

conheço sua vida nem sei

o que te trouxe até aqui,

mas se você fizer isso a vitória será dos seus pro- blemas.

Sua cabeça não levantou

e seus olhos permanece- ram namorando o preci- pício.

– Eu não quero vitória,

Julian. Eu só queria que respeitassem meus senti- mentos. Mas não adianta quem é você para enten- der alguém abandonado pelo amor?

– Talvez alguém que

também tenha sido.

A moça ergueu a ca-

beça e finalmente nossos olhares se sintonizaram. Uma fina chuva começou

a cair sobre a Cachoeira

da Vertigem. O risco de

queda aumentava a cada segundo. Nínive comentou sobre o motivo da decisão derradeira.

– Meu noivo me lar-

gou para ficar com minha irmã. Tiveram um relacio-

namento durante meses sem que eu soubesse.

– A mulher que eu

amava foi embora para a cidade. Disse que tinha vá- rias ambições, mas eu não estava incluído em nenhu- ma delas. Meus amigos contam que ela me trocou por outro.

– O apoio de meus ami-

gos não serviu para juntar

meus pedaços. Victor e Ariadne foram embora e

me deixaram aqui, morta – falou, como se ali só hou- vesse um corpo oco, sem sangue e sem espírito.

– Oportunidades apare-

cem a cada momento para

que possamos viver o que ainda não vivemos – disse, mantendo o braço estica- do.

Nínive relutava em re- ceber a ajuda. As gotas da chuva se confundiam com

as lágrimas em seu rosto.

Um de seus pés derrapou.

– Segure minha mão.

Vamos conversar um pouco. Só estou pedindo um minuto! Nem é tanto tempo assim

Finalmente Nínive ce- deu e segurou meu braço. No momento em que sua perna buscava apoio na

parte seca, escorregou. Se- gurei-a com força enquan-

to ouvia seus gritos cor- tando o ar. Com alguma dificuldade, abracei sua cintura e a puxei com fir- meza para, então, cairmos entre as árvores. Olhei

com muito afeto para seu

rosto afogado em medo

e desilusão. Seus cabelos

molhados deixavam ex- postos apenas parte de sua face de traços angulosos, o

suficiente para perceber o quanto era bela.

– Por que as pessoas

fazem isso com quem as ama? – indagou Nínive querendo uma resposta impossível.

– Não acredito que seja

por ódio. Pode ser ego- ísmo, mas quem não é egoísta? Eu queria Nágila, ela queria ouras coisas.

Talvez um dia ela também queira algo que não possa ter. Acho sinceramente que na vida podemos ter tudo

o que almejamos, só que

existem coisas que não

deveríamos almejar.

– Não! As pessoas não

se preocupam com o sen-

timento de quem as ama

de

verdade. Mas e daí, né?

O

que vale é seguir seu

caminho, independente do sofrimento que se vai causar em quem se doou por um relacionamento, em quem foi seu amante. ‘Seja feliz’, esse é o lema. Engraçado como eu queria que todos fossem felizes:

meu noivo, minha irmã, meus amigos. Mas e a mi- nha felicidade? Sei lá onde ela está. Deveria estar ali embaixo agora, junto das pedras, mas nem isso você deixou.

O pranto de Nínive era tão sincero quanto minha vontade em estancá-lo. Involuntariamente a moça apoiou sua cabeça em meu ombro, soluçando. Afaguei sua cabeça com carinho verdadeiro, procu- rando aliviar sua dor. Suas mãos juntas escondiam a face de uma vergonha que não era dela.

– Sabe, Nínive, eu ama-

va tanto minha namorada

que agora fico feliz em saber que ela foi embora.

– Como assim?

– Se ela está realizada

com outra pessoa na cida- de, por que eu deveria fi-

car triste? Penso que amar

de verdade é querer ver o

outro sempre feliz, estando ou não do nosso lado.

Os olhos de Nínive fixa- ram-se nos meus. O sen- timento de fim que havia neles evaporava, cedendo

espaço a interesses vívidos.

Seu equilíbrio voltava ao

normal fazendo com que percebesse a insanidade de seu ato no alto das Verti-

gens.

– Nem sei o que fazer

para poder me desculpar pelo que fiz você passar – disse ela olhando o feri- mento em minha perna ocasionado por uma pe- dra.

– Se você sorrir já vai bastar.

Um tímido sorriso emergiu sincero em seu rosto, convidando sua beleza a sair do anonima- to. Seus olhos castanhos brilhavam como se den- tro orbitassem pérolas. Pude sentir sua respiração quente muito próxima de mim. Como ímãs, nossos rostos foram se aproxi- mando até que nossos lábios se encontraram. Um sabor fresco, de vida intensa, aportou em mi- nha boca. Havia tempo que não sentia o gosto de uma mulher, sendo que

nos últimos anos o único

que provara havia sido

o de Nágila. Aos poucos,

sob o agora vivo ruído da

queda das águas, tudo foi

se tornando mais gostoso

e ardente. Impressionava

como a vida poderia nos surpreender com situações tão antagônicas, destino que, de uma angústia pro- funda, se transformava em vibração positiva, desejo pujante, de impensável plenitude.

Uma conexão de sabor indescritível conquistou

nossas almas. Viajando visceralmente por minha amante, saboreava cada es- pasmo sentido, cada limite conquistado, cada gemido ouvido. Ao tempo em que

nos fundíamos, a chuva

triste abandonava a Ca-

choeira das Vertigens, dan- do lugar a um sol discreto, cujos raios luminosos faziam brilhar ainda mais

o colo de minha ninfa.

Nágila, Victor, a chuva e as

lágrimas já eram passado,

lembranças remotas, tão esquecíveis quanto dores infantis. Real era Níni- ve, seu corpo, sua boca e nosso prazer. Eu percebia que o tempo agora era um aliado e que nada mais importava além da opor- tunidade que nos foi dada:

um recomeço – vertigino- so como se apresentava, mas integral também por

isso. Entrega e renascimen- to traduzidos em fluídos

e emoções que brotavam

por entre ecos vindos das pedras, reencontrando emissores envoltos em or- gasmos possíveis, libertos das profundezas do ser.

A reflexão serena que

se seguiu nos manteve ca- lados – até porque tudo já havia sido dito. E a refres- cante orquestra das águas

naquela cachoeira trouxe sensações impregnadas de vida, vertigens que, agora eu entendia, tinham força para sobrepujar cicatrizes através de um simples recomeço.

artigo Joaquim Bispo o que é o Prazer? 7 Perguntas à «Ética a Nicómaco» de
artigo
Joaquim Bispo
o que é o Prazer?
7 Perguntas à «Ética a Nicómaco» de aristóteles
1. O que é o prazer e
qual a sua origem?
As opiniões acerca do pra-
zer não são consensuais: uns
dizem que é o bem; outros,
que é desprezível – seja por-
que pensam isso, seja porque
acham ser a atitude mais
pedagógica. Só são realmen-
te úteis os enunciados que
reflictam verdadeiramente os
fenómenos como se apresen-
tam na realidade. Se o forem,
têm credibilidade e levam
as pessoas a segui-los e a
adoptar um modo de vida
justo, caso contrário, serão
menosprezados em favor da
força possante dos efeitos dos
prazeres.
«Pensa-se que o prazer
é uma das possibilidades
extremas mais profunda-
mente domiciliadas na nossa
natureza.» Daí educarmos os
jovens a saberem lidar com
eles. Prazeres e sofrimentos
acompanham a nossa vida,
fugindo nós destes e pro-
curando aqueles, a fim de
alcançarmos uma vida feliz.
Sentir atracção e aversão são
disposições de enorme im-
portância para a realização
da excelência do carácter.
Do bem, pode-se falar
do bem absoluto e do bem
relativo a alguém. Também
há prazeres que, parecendo
maus em absoluto, o não são
para certa pessoa. E há situ-
ações que parecem prazeres
sem o ser, como a convales-
cença.
«A actividade existente
nos desejos é a actividade do
que em nós ainda resta do
nosso estado naturalmente
constituído, outrora integral.»
Os prazeres resultam do
exercício que fazemos do que

http://www.uah.edu/colleges/liberal/philosophy/heikes/302/time/rembrant/aristotle-homer.jpg

já somos. São actividades do modo de ser naturalmente constituído. O prazer que sentimos é diferente, quer estejamos num processo de preenchimento do estado natural, quer o tenhamos já preenchido. No último caso

o prazer pode ser absoluto.

Pelo facto de os prazeres do corpo serem a forma mais conhecida e familiar, pensa- se que é a única existente. Há prazeres sem sofrimento ou desejo, como a activida- de contemplativa. Nenhum prazer dado pela sensatez ou por outra disposição pode constituir um impedimento à contemplação.

2. O que se diz acerca dos prazeres do corpo?

Há prazeres que devem ser preferidos, devido à sua excelência, mas outros – aqueles a respeito dos quais se define o devasso – devem ser evitados.

Mas porque é deprimente

o sofrimento devido à falta

destes? Se são maus, não se- ria a sua falta boa? Ou serão maus só se excederem o li- mite do melhor? O sofrimen- to não se opõe ao excesso de prazer, mas à falta de todo o grau de prazer necessário.

Porque são preferidos os

prazeres do corpo? Expulsam

o sofrimento; e os excessivos

actuam como um remédio para o sofrimento excessivo.

A nossa natureza não é simples. A cura é a acção

da parte que ficou saudável sobre a parte doente. Isso

é

sentido como agradável

e

confundido com prazer.

Quando existe equilíbrio, parece não haver prazer nem dor.

Há formas de prazer (vis) que resultam de acções de uma natureza vil, e formas de prazer que funcionam como remédio para uma quebra do estado saudável natural. Mas é melhor ser saudável do que tornar-se

saudável.

Os prazeres sensuais são tão perseguidos pelo facto de serem tão fortes. Para alguns, não ter prazer nem

dor já é doloroso. Chega-se

a provocar a falta de um

prazer necessário para se poder debelá-la. Se tal não for inócuo, tais atitudes são criticáveis.

O ser vivo está sempre numa situação de constante esforço de equilíbrio. Perí- odos da vida e pessoas há que sofrem de desequilíbrio crónico. O prazer só conse- gue expulsar o sofrimento se for suficientemente forte. Esta

é a razão responsável pelas

formas de vida que os vis e os devassos procuram.

As formas de prazer ver-

gonhosas não são verdadei- ramente agradáveis, mas tão só para certos homens em particular, tomados, prova- velmente, por uma afecção específica. Não se trata de uma verdadeira escolha, como a que é feita sem condicionalismos. Um prazer

com origem vergonhosa não

confere um prazer justo, mas um prazer de acordo com

a disposição vergonhosa do seu possuidor.

3. Que teses existem acerca de bem e prazer?

Dizem:

– o que se passa com o prazer e o sofrimento acon- tece no mesmo horizonte da

excelência e da perversão do carácter humano. No entan-

to, prazer e bem não são a

mesma coisa;

– os prazeres são persegui-

dos por crianças e animais

e são um impedimento à

sensatez – alguns são vergo- nhosos e repreensíveis, ou-

tros nocivos, outros doentios.

O temperado foge deles e o

sensato não persegue o que é

agradável;

– embora algumas for-

mas de prazer sejam boas,

o prazer não é o bem, por-

que o prazer acontece num processo que se dirige para a formação de uma natureza. E o bem é um fim.

Há, portanto, quem dis- corde que o prazer seja um bem. Sendo perseguido por todos, como se fosse um bem, não parece ter nexo esta tese.

Eudoxo pensava que o prazer era o bem, devido a ser procurado, incondicio- nalmente, por todos os seres. Sendo o bem para todos, seria o bem supremo.

Platão refuta a tese de que

o prazer é o bem supremo.

Para ele, uma vida de prazer

é melhor se combinada com

a sensatez, do que sem ela.

Se o prazer isolado não é o

melhor, então, não pode ser o

bem supremo.

4. O prazer é ou não um

bem?

Se o prazer não fosse um

bem nem um mal, também

o sofrimento não seria bom

nem mau e não havia razão para evitar o sofrimento.

O sofrimento é um mal e

deve ser evitado, logo o pra- zer deve ser um certo bem.

Nada impede que o supremo bem seja uma certa forma

de prazer, só porque alguns prazeres são maus. Se não houvesse formas de prazer boas nem actividades que dessem prazer, aquele que

é feliz não teria uma vida

agradável. Então, para que precisaria dos prazeres, caso não fossem um bem?

Todos pensam que a vida feliz é uma vida doce e envolvem o prazer na feli- cidade. O facto de todos os animais e Humanos perse- guirem prazeres é um indí- cio de que a felicidade é de alguma maneira o supremo bem. Se houver activida- des livres de impedimento para cada disposição, e a felicidade for uma delas, tal actividade será a coisa mais querida. Uma actividade livre de impedimento é o prazer. Portanto, o supremo bem será uma certa forma de prazer.

5. O prazer é um proces- so de regresso a um estado equilibrado?

A situação do prazer pare- ce assemelhar-se à da saú- de. Admite maior e menor equilíbrio. E não parece ser um fenómeno de mudança de estado, como dizem os platónicos, pois a sua intensi- dade não depende da rapidez ou da lentidão da mudança de estado.

Será um preenchimento

do que falta ao estado natu- ral? O preenchimento não

é prazer; acontece é que se

sente prazer no decurso dele. E nem todos os prazeres são precedidos pela dor da falta:

não se sente dor antes do prazer da aprendizagem, nem

antes dos prazeres do olfacto,

da visão e da audição. Como se podia fazer sentir a falta, e consequente prazer de pre- enchimento, da falta que não

existia?

O prazer parece es-

tar completo em qualquer momento temporal do seu decurso. Por isso não se trata de uma mudança. As mu- danças transcorrem no tem- po, enquanto que o prazer pode transcender o tempo – ser total num “aqui e agora”.

«A actividade que chega

à máxima completude é a

que dá um prazer extremo.» Quando a capacidade per- ceptiva se encontra em boas

condições, e é activada pela excelência do objecto que cai no seu campo de percepção específico do objecto, acon- tece a percepção mais com- pleta nesse campo específico

e um prazer extremo. Tal

prazer, conduz a actividade

a uma maior completude,

numa interacção de estimu- lação.

Porque não acontecem, então, estados de prazer permanente? É que a excita- ção inicial do pensamento, que intensifica a actividade perceptiva, esmorece com o tempo.

6. Que relação existe entre prazer e completude de actividade?

«A intensidade de uma actividade aumenta com o prazer que lhe é pertinen- te», «porque cada espécie de

prazer tem um laço estreito de afinidade com a activida- de a que confere um maior grau de completude» , como dito atrás. «Quem exerce a sua actividade com prazer»,

atinge nela um maior «grau de discernimento e rigor». Torna-se mais competente nessa tarefa.

A ligação entre uma actividade e o prazer que lhe pertence pode tornar-se tão profunda e indissociável que se pode duvidar se não são uma única coisa. O que, muitas vezes, significa subal- ternizar outras actividades, próprias ou alheias, igual- mente merecedoras de aten- ção, mas que não induzem o mesmo prazer. Os prazeres associados a essas actividades são vistos como estranhos e funcionam à maneira dos sofrimentos – arruínam a actividade mais aprazível.

Cada homem encara cada prazer de modo diferente e o que pode ser delicioso para um pode ser execrável para outro. Mas o que é unanime-

mente considerado vergonho- so não poderá ser chamado

prazer senão pelo depravado.

Actividades diferentes geram prazeres diferentes. «A percepção visual é superior em nível de pureza à táctil», bem como a acústica e a olfactiva são superiores às do gosto ou do paladar. «Tam- bém os prazeres se distin- guem de modo semelhante:

os do pensamento teórico são superiores em grau de pureza aos prazeres das sen- sações.»

E qual será o que é, por excelência, pertencente à na- tureza humana? Deve ser o que se manifesta nas activi- dades especificamente huma- nas. E deve proporcionar um alto grau de completude.

Todos os homens desejam alcançar completude nas actividades a que estão mais

afeiçoados. Como o prazer leva as actividades a um maior grau de completude, os homens procuram alcan- çá-lo, com a intenção dessa possibilidade preferencial. Vida e prazer andam, assim, ligados.

7. O que é a felicidade?

A felicidade é uma coi-

sa séria, não é uma espécie de divertimento, pois seria absurdo a vida ter como meta a brincadeira. Também

o descanso (parecido com

a brincadeira) não é o fim último – existe em função da actividade.

A felicidade basta-se a

si própria, é um fim e não um meio. Tudo pode ser um meio para outro fim, excep- to a felicidade que é o fim último.

A felicidade consiste nas

actividades que se produzem de acordo com a excelência. Sendo a felicidade o fim mais excelente, terá que ser de acordo com a mais poderosa das excelências.

O poder de compreensão

– aquilo que por natureza

parece «comandar-nos, ou dar-nos uma compreensão intrínseca do que é belo e divino» – será a actividade que estará de acordo com a excelência que lhe pertence. «Tal será a felicidade na sua completude máxima. Uma tal actividade é, como dissemos, contemplativa.»

«Nós pensamos também que a felicidade tem de estar misturada com o prazer, porque a mais agradável de todas as actividades que se produzem de acordo com a excelência» é a que é con- siderada de acordo com a

sabedoria. «Parece, então, pois que a filosofia [o filosofar] possui a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há» .

Conclusão

Os prazeres são elementos profundamente arreigados na nossa natureza. Acompa-

nham a nossa vida tornando-

a mais agradável, ou fazendo-

nos sofrer com a sua falta.

A maneira como lidamos

com eles determina se nos

tornamos pessoas amargas ou de bem com a vida, se a desfrutamos saudavelmente ou se vivemos reféns da pro-

cura de prazeres. «É o modo como lhes reagirmos e não a intensidade com que eles se

fazem sentir o que determina

a relação que estabelecemos com eles.»

Anunciam-se pelos de- sejos, que são promessas de

exultação futura. «O desejo de prazer arremessa-nos para um futuro que ainda não

se constituiu, mas que está

eivado de promessa.»

Nos prazeres do corpo há

que ser comedido e usar só a

porção necessária, pois «não

é a qualidade do desejo que

traz consigo a perturbação da vida, mas a quantidade.»

Ser comedido não é fácil, porque os desejos são ve- ementes e os sofrimentos daí decorrentes podem ser dolorosos. Muitos homens

cedem aos seus apelos de uma maneira desregrada, seja

o

devasso que nem sequer

se

tenta conter, seja o frouxo

que tenciona conter-se mas abdica sem luta. O homem sensato e lúcido arma-se de decisões sustentadas em ar- gumentos fundamentados e,

quando os apelos de praze- res excessivos o acometem, resiste apoiado nessa decisão amadurecida. Ademais, ante- cipa as situações de desejo e enfrenta-as com a seguran- ça que a análise prévia lhe forneceu. Um homem assim possui autodomínio.

Os prazeres do corpo são os mais óbvios mas muitos outros há, os quais podem

ser tanto ou mais gratifi- cantes. Toda a actividade

exercida com gosto faz o seu praticante atingir níveis de completude que, por sua vez, lhe transmitem um prazer suplementar. Aquela que atingir um grau de excelên- cia fornece o prazer mais excelente, o supremo bem, a felicidade.

Para Aristóteles as activi- dades do pensamento teóri- co fornecem prazeres com maior grau de pureza do que as sensações. O exercício de compreensão do mundo – o filosofar – será a actividade que estará de acordo com a mais poderosa das exce- lências. Possui, portanto, a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há.

Bibliografia:

ARISTÓTELES, António

de Castro Caeiro (tradução do grego), «Ética a Nicóma- co», Lisboa, Quetzal Editores,

2009.

CAEIRO, António, «A Areté como Possibilidade Extrema do Humano», Lisboa,

Imprensa Nacional-Casa da

Moeda, 2002.

artigo a inspiração Joaquim Bispo A inspiração é uma ideias e as formas que ele
artigo
a inspiração
Joaquim Bispo
A inspiração é uma
ideias e as formas que ele
procurava.
ao artista – o que o des-
fulguração intelectual
produtora de estruturas
representativas novas. Às
vezes chamada intuição,
criatividade, imaginação,
era, nos tempos de Só-
crates, tida como tendo
origem em entidades
sobrenaturais: musas. A
entidade sobrenatural
“sopraria” ao autor as
Este tema interessou e
preocupou os artistas de
todos os tempos, manten-
do-se contemporâneas as
questões da origem e do
funcionamento da inspi-
ração. É muito diferente,
nas suas implicações,
aceitar que ela resulta de
uma intervenção externa
responsabiliza e o meno-
riza – ou que ela resulta
de uma elaboração subtil
dos níveis mais elevados
do intelecto.
As teses modernas
apontam para esta últi-
ma origem. Ao modo de
conhecimento próprio
da percepção, junta-se
o modo da intuição,

http://www.flickr.com/photos/h-k-d/3068888802/sizes/o/

como «um sair-de-si e um captar, uma busca de conteúdos significa-

tivos.» «Ambas, intuição

e percepção, são modos

de conhecimento, vias de buscar certas ordenações

e certos significados». Os dados do conhecimen- to são conformados e ordenados previamente para poderem constituir imagens referenciais e normativas. As novas estruturas resultam da reelaboração dos ma- teriais de tudo o que o homem sabe e imagina – conhecimentos, conjectu- ras, propostas, dúvidas – materiais continuamente avaliados e comparados com imagens referen- ciais. Operações de rela- cionamento, diferencia- ção, nivelamento ajudam

a fazer escolhas, construir

alternativas e formu- lar conclusões, sempre visando algum tipo de ordem. «A fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente coisas boas, medíocres e más, mas o seu critério, extremamente aguçado e exercitado, rejeita, selec-

ciona, associa».

As conclusões são

muitas vezes inesperadas

e surpreendentes, por-

que, como reelaborações, podem parecer novidades absolutas, mas, tendo sido baseadas em materiais existentes, formulam visões de certo modo pressentidas. É mais correcto falar-se de re- conhecimento, um reco- nhecimento imediato.

Esta teorização não

evita a declaração surpre- endente de que «até agora os processos intuitivos mostraram-se inabor- dáveis por investigações racionais e fogem mesmo

à auto-análise. Surgindo

de modo espontâneo das

profundezas do ser, não é possível explicar o como

e o porquê do caminho».

No entanto, sabemos que

o processo se apoia nos

materiais existentes, pelo que pesquisar, meditar, andar à volta do assunto, recolher informação, tra- balhar, em suma, são os cântaros que descem aos mananciais da criação. «A improvisação artísti- ca fica muito abaixo em

relação ao pensamento estético sério e trabalho- samente seleccionado».

Um Giacometti, um Sara- mago labutam longamen- te na luta com a peça, com o texto, para lhes extrair a forma e o senti- do que procuram, sendo ambos apenas revelados e reconhecidos no trajecto calcorreado.

Bibliografia:

NIETZSCHE, Friedrich, “Da Alma dos Artistas e dos Escritores” in «Huma- no, Demasiado Humano», Lisboa, Relógio d’Água Editores, Lda., 1997.

OSTROWER, Fayga, “Caminhos Intuitivos e Inspiração” in «Criati- vidade e Processos de Criação», Rio de Janeiro, Imago, 1977.

PLATÃO, Victor Jabou-

ille (trad.), «Íon», Lisboa, Editorial Inquérito, Lda.,

1988.

Crônica

Sex toys

Ju Blasina
Ju Blasina

http://www.flickr.com/photos/mharrsch/4443057583/sizes/l/

Quando o assunto é sexo, você se considera uma pessoa liberal? Acha que, entre quatro paredes,

vale tudo, ou essa simples pergunta já lhe parece invasiva? De qualquer forma, relaxe, pois essa crônica não pretende adentrar a sua intimida- de. Talvez, só espiar um

Em busca do

seu ponto de vista, seu posicionamento sobre o assunto em questão.

Se você estiver sen- tindo uma certa malícia por baixo dessas linhas, lembre-se que o sentido das palavras é a nossa mente quem dá! Mas não se recrimine, muito pelo contrário: nos dias de hoje, ser inocente é uma atitude que não pega bem!

E para satisfazer a opinião alheia, tem mui-

ta gente por aí vestindo

a carapaça de vinil, com

medo de, sem ela, parecer careta ou pior: não apa- recer! Desde que a série americana, Sex and the City, fez do vibrador o melhor amigo da mulher, que muitas só faltam le- var o seu pra passear, de coleira – e botas, pinos, chicotes, algemas e o que mais o espaço permitir!

É como se a geração que

recebeu a tão almejada liberdade sexual tivesse

pouquinho

convertendo o “livre” em “liberal” e fazendo disso um pré-requisito social.

Ser heterossexual, mo- nogâmico e reservado é praticamente uma afron-

ta aos valores da socie- dade contemporânea! E por conta disso, existem hoje tantos falsos gays

– aqueles que buscam

um envolvimento sócio- sexual (sim, porque se não mostrar, não conta!) com pessoas do mesmo sexo por razões pra lá de duvidosas, longe daquelas pelas quais a comunidade verdadeiramente gay luta até hoje!

Foi-se o tempo em que

a palavra swing* quali-

ficava os indivíduos que possuíam malemolência

e samba no pé. A menos,

é claro, que o sexo seja

considerado um novo estilo de dança. Nesse caso, já pensou no suces-

so que faria a dança dos famosos, para maiores de dezoito anos? Dá até para imaginar a sentença de um jurado: “Eu fico com o casal A, porque ele tem um belíssimo movi- mento de quadril, e ela, uma abertura de pernas

perfeita!” – talvez, nesse contexto, as expressões perna-de-pau e duro de

assistir ganhassem novos

significados

Só talvez.

amantes modernos são de

vidro transparente – tan- to para ver, quanto para mostrar! E na ânsia por esquentar, sacudir e api- mentar a relação, muitos casais acabam perdendo- se mutuamente – o que

é compreensível

ta contar o número de

acessórios que dividem a cama! E, quando a pilha

deles acaba, muitos pre- ferem trocar os antigos brinquedos por humanos.

E logo o casal vira de

três, de quatro e de quan- tos mais couberem na vontade do playcouple* e no coração do polyamo- ri*.

Bas-

Se, entre quatro pare-

des, vale tudo? Vale

tudo! Até mesmo dançar homem com homem e mulher com mulher! Só não vale fazer de nós os sex toys*

Vale

*Nota da autora:

Playcouple – nome dado

ao casal adepto do swing, ou de outras práticas se- xuais liberais. Polyamori

– estilo de vida onde há,

além de uma vida sexual, envolvimento afetivo com mais de uma pessoa. Sex toys – brinquedos sexu- ais; acessórios vendidos por lojas especializadas, chamadas sex shops.

As quatro paredes dos

http://www.flickr.com/photos/victornuno/429759418/sizes/o/

No verão rubro

As ondas submergindo

O mundo todo

As folhas mortas

Levadas pelas águas

No outono mortal

Gelo profundo

Cobriu toda a Terra

Outra era glacial

No âmago do

Planeta a vida ainda

deixou sua raiz

Recomeço

36 36

SAMIZDAT julho de 2010

Poesia

Ciclo

Fatima Romani
Fatima Romani
âmago do Planeta a vida ainda deixou sua raiz Recomeço 36 36 SAMIZDAT julho de 2010
Poesia fim? Marcia Szajnbok do silêncio de donde veio jamais retornará o pó das palavras
Poesia
fim?
Marcia Szajnbok
do silêncio de donde veio
jamais retornará
o
pó das palavras
não se assopra
não se limpa
espalha tanto
deixa marcas
deixa rimas
deixa sonhos divididos
emoções compartilhadas
forja rastros
faz amigos
um ponto que, de final, faz-se vírgula
pois a linha da escrita
é
como o tempo
infinita
obrigada, amigos, por toda a partilha
que tivemos aqui!
http://www.flickr.com/photos/lunadirimmel/347588179/sizes/o/in/set-72157594456811573/

Poesia

Caio Rudá de Oliveira
Caio Rudá de Oliveira

testamento

http://www.flickr.com/photos/mezone/73876655/sizes/l/

Eu quero morrer louco

são nem um pouco

doido de pedra

demente, decadente

sem mente, sim

completamente doente.

Eu quero morrer assim

para não fechar meus olhos

ciente de que é o fim.

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39 39

Poesia

orvalhinho

40

40 40

SAMIZDAT julho de 2010

SAMIZDAT junho de 2010

SAMIZDAT julho de 2010

de 2010 SAMIZDAT junho de 2010 SAMIZDAT julho de 2010 Wellington Souza És a gota que
de 2010 SAMIZDAT junho de 2010 SAMIZDAT julho de 2010 Wellington Souza És a gota que
Wellington Souza
Wellington Souza

Wellington Souza

És a gota

que vence

o

incêndio.

e

depois queda

esbaforida

na calma

sobre o meu peito.

Orvalho na folha salva.

http://www.flickr.com/photos/maubrowncow/565391508/sizes/o/

http://www.flickr.com/photos/maubrowncow/565391508/sizes/o/ da mulher Wellington Souza Jardineira que se pinta as rosas

da mulher

da mulher Wellington Souza Jardineira que se pinta as rosas de rosa,
da mulher Wellington Souza Jardineira que se pinta as rosas de rosa,
Wellington Souza
Wellington Souza

Wellington Souza

Jardineira que se pinta as rosas

de rosa, branco, grená.

Se poda os galhos,

afia os espinhos,

unta as folhas

com essências

e fantasias.

mas suas raízes

irrigam

um bonsai de carvalho.

e fantasias. mas suas raízes irrigam um bonsai de carvalho. www.revistasamizdat.com www.revistasamizdat.com 41 41

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41 41

Poesia

dois poemas desvairados

Maria de Fátima Santos
Maria de Fátima Santos
Poesia dois poemas desvairados Maria de Fátima Santos guerras estavam quatro homens debaixo da janela do

guerras

estavam quatro homens debaixo da janela do meu quarto

quatro

quatro soldados armados de espingarda

quatro homens fardados

pendurada na parede do meu quarto havia uma aguarela

um desenho pintado de um gato siamês

cada soldado disparou uma bala

quatro

caiu a aguarela da parede

caiu esfacelado o gato com dois olhos verdes

entro no quarto e vejo a última bala

uma bala a dançar em redor do que sobrou do gato

viagens

Eu gostava de ter um barco

Que rumasse a norte

Um barco e um mapa

Eu gostava de ser comandante

De uma frota

Vários barcos e o meu adian- te

Andar com bandeirinhas

Acenando

“Olá! Como foi o almoço”

E responder-me uma dama

No barco lá ao fundo

“ Vomitei tudo!”

Um barco para andar

De vento em popa

A passar ao largo

Algarismos, cotas, ramais

As letras e os números

Um barco que fosse

De uma a outra costa

Atravessando o mapa

A desfilar na tinta

Poesia Etapas Maristela Deves Cada fim é um recomeço um novo início (um pouco do
Poesia
Etapas
Maristela Deves
Cada fim
é
um recomeço
um novo início
(um pouco do avesso).
Desafios vão,
desafios vêm
o
sonho, no entanto,
se mantém.
Samizdat termina,
deixa saudade
Uma literatura
de verdade.
http://www.flickr.com/photos/m2digital/3541739600/sizes/l/

SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT

Edição, diagramação e capa Henry alfred Bugalho Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Edição, diagramação e capa
Henry alfred Bugalho
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor
de quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores
da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia
Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em
Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachor-
rinha.
henrybugalho@gmail.com
www.maosdevaca.com
Revisão maria de Fátima Brisola romani Nasceu em SP em 1957 mas mudou-se para Salvador
Revisão
maria de Fátima Brisola romani
Nasceu em SP em 1957 mas mudou-se para Salvador
em 1984 onde reside até hoje. É arquiteta e artista plás-
tica, além de tradutora (inglês e italiano) e revisora de
textos. Escreve poesias esporadicamente desde adoles-
cente e há cerca de um ano começou a escrever contos.
Pretende concorrer ao mestrado em Artes Cênicas na
Escola de Teatro da Ufba.
Colaboração maria de Fátima Santos Nasceu em Lagos, Algarve, Portugla em 1948. Vi- veu a
Colaboração
maria de Fátima Santos
Nasceu em Lagos, Algarve, Portugla em 1948. Vi-
veu a adolescência em Angola e reside em Lagos.
Licenciada em Física, é aposentada de professora do
Ensino Secundário. Já participou na SAMIZDAT e por
afazeres de vida afastou-se. Tem poemas em diversas
antologias, e publicou em Janeiro de 2009 um livri-
nho com pequenas histórias, aquelas que lhe voam
no teclado: Papoilas de Janeiro é o título, com ilus-
trações de TCA do blogue http://abstractoconcreto.
blogspot.com/ Muito material está publicado nos
blogues e www.intervalos.blogspot.com e http://tris-
teabsurda.blogspot.com/ Escreve pelo gosto de deixar
que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
maristela deves Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, co- meçou a sonhar em ser
maristela deves
Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, co-
meçou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu
a ler. Escreve principalmente nos contos nos gêneros
mistério, suspense e terror, além de crônicas. Man-
tém ainda o blog Palavra Escrita, sobre livros e litera-
tura (www.pioneiro.com/palavraescrita).
Léo Borges Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura.
Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor
público e amante da literatura. Formado em Comu-
nicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
“Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

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Joaquim Bispo Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor ama- dor, licenciado recente em História da
Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor ama-
dor, licenciado recente em História da Arte, experi-
menta agora o prazer da escrita, em Lisboa.
episcopum@hotmail.com
Wellington Souza Paulistano, mas morou também em Ribeirão Preto, onde cursou economia na Universidade de
Wellington Souza
Paulistano, mas morou também em Ribeirão
Preto, onde cursou economia na Universidade de São
Paulo. Hoje, reside novamente no bairro em que nas-
ceu. Participou das antologias do concurso Nacional
de Contos da Cidade de Porto Seguro e do Poetas
de Gaveta/USP. Escreve poemas, contos, crônicas e
ensaios literáios em um blog (Hiper-link), na revista
digital SAMIZDAT e no portal Sociedade Literária.
“Escrever é um modo de ser outro ser”.
Caio rudá Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda Psicologia na Universidade Federal da
Caio rudá
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda
Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera
um dia entender o ser humano. Enquanto isso não
acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enig-
ma da existência. Não tem livro publicado, prêmio,
reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas
como consolo, um potencial asseverado pela mãe.
marcia Szajnbok Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como
marcia Szajnbok
Médica formada pela Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra
e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas
estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de es-
crever de vez em quando. Paulistana convicta, vive
desde sempre em São Paulo.
46 SAMIZDAT julho de 2010

http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg

Jú Blasina Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar a vida em números (idade,
Jú Blasina
Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar
a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não
se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afir-
mam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e
etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto fi-
nal. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre
uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como
estudante de letras, de onde obterá mais papéis para
aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher
(Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualiza-
do seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas
virtuais, além de projetos secretos sustentados à base
de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.
José Guilherme Vereza Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido, pai, filho, cunhado, tio, sobrinho,
José Guilherme Vereza
Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido,
pai, filho, cunhado, tio, sobrinho, genro, sogro, amigo, bota-
foguense, tijucano, lebloniano, neopaulistano, escritor, leitor,
eleitor, metido a cozinheiro, guloso, nem gordo nem magro,
motorista categoria B, pedestre, caminhante, viajante, seden-
tário, telespectador, pilhado, zen, carnívoro, beatlemaníaco,
cinemeiro, desafinado, sinfônico, acústico, capricorniano,
calorento, alérgico a ditaduras, sonhador, delirante, insone,
objetivo, subjetivo, pragmático, enérgico, banana, introspec-
tivo, extrovertido, goleiro, blogueiro, colunista do Bolsa de
Mulher, colaborador do Mundo Mundano, tem livro publi-
cado, conto premiado, teve texto encenado no teatro, fez ro-
teiros para televisão, criou uma infinidade de comerciais e
aprendeu que aproveitar a vida intensamente é ser de tudo
um muito. Samizdat é seu mais recente energético
Cirilo S. Lemos Nasceu em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, em 1982, nove anos antes do
Cirilo S. Lemos
Nasceu em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense,
em 1982, nove anos antes do antológico Ten, do
Pearl Jam. Foi ajudante de marceneiro, de pedreiro,
de sorveteiro, de marmorista e mais um monte de
coisas. Fritou hambúrgueres, vendeu flores, criou
peixes briguentos. Chorou pela avó, chorou por seus
cachorros. Então cansou dessa vida e foi estudar
História. Desde então se dedica a escrever, trabalhar
como voluntário numa escola municipal e fazer feliz
a moça ingênua que aceitou ser mãe dos seus filhos.

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