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ojuatMIIsed9 Op edeye apueas V YONY 0d OVIVIND ¥ AVHSCVUS NHOL jeg ACRIACAO DO AMOR Neste livro, John Bradshaw de- senvolve € propée novas for- mas de comportamento em nos- sas relaghes essenciais: com os nossos pais € filhos, com nos sos cénjuges, amigos ¢ colegas de trabalho, com nés mesmos, & com Deus. A partir do conceito de erian- ¢a interior, desenvolvido origi- nalmente no seu livro Volta ao lar, Bradshaw situa nossos pro- blemas na vida, nossos rancores € desafetos, conscientes ou néo, na reprodugio de padrées des- trutivos adquiridos na infinci no seio de familias disfuncio- nais; esse. violento autoritarismo -gera, seja como for, adultos ten- dentes a dependéncias ¢ despre- parados para uma vida caracieri- zada por lacos de amor ¢ com- Preensio, A descoberta desta Crianca interior ferida, que se pode ocultar em cada um de nds, € exatamente 0 ponto de partida para que possamos dar uma ‘nova direcio a nossa existéncia, a que ela se caracterize pela ite criagio do amor e por des de novo tipo em cada da nossa sociabilidade, A CRIACAO DO AMOR COLECAO ARCO DO TEMPO CONSULTORIA DE ALzina M. COHEN ‘MEDITACAO— Pum e Goda Sith VOLTA.AO LAR— Jin Bodshew ‘QUIRON E A JORNADA EM BUSCA DA CURA — Melanie Reihat PAZACADA PASSO —Thich Nat Hash ‘ONOVO DESPERTAR DA DEUSA— ot, ice Nilsen, vrs auoes ASPLANTAS ESUA MAGIA —acques Brose |ANIOS E EXTRATERRESTRES — Kei Thompsmo |AMENTEROLOTROPICA —Siaisss Gro -MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS — Clas Piao sts |AS CARTAS DO CAMINO SAGRADO — Ian Sos PLANETAS DE SOMBRA EDE LUZ — ite Anew 1060S EXTREMOS DO ESPIRITO — Moniz Sosé MISTICA E ESPIRITUALIDADE — Leonardo Boe ei Beto ‘CORPO SEM IDADE, MENTE SEM FRONTEIRAS —Despk Chopa [AS VIDAS DE CHICO XAVIER — Mazel Sot Mai ‘0 LIVRO DO PERDAO — Robin Cain MENSAGEM DO OUTKO LADO DO MUNDO — Maco Morgan [UM MUNDO ESPERANDO PARA NASCER — M. ent eck ‘OVALORDA MULHER — Mariane Wiliamson ACURAE A MENTE — Bil Moyers [RUMO AO FONTO OMEGA —Kenstb Ring (CURA ESPONTANEA—Anirew Wet DONS DA GRACA — Lane Jensen ACRACAO DO AMOR — John Britow SEDE DEPLENITUDE —Cisina Got JOHN BRADSHAW A CRIACAO DO AMOR A grande etapa do crescimento Tradugao de PEDRO RIBEIRO even Rio de Janeiro — 1997 “rt origi CREATING LOVE ‘The ret pent sage a ote Copyright ©1992 by oh Brahe Pubiagio storing ela Batam Dos, son of Bantam Dobedy Del Pubiehing Grove Coprigh texas © 1987 bE Roo Lis isis minis par ngs poragess ‘teerraos com excuse 2 EDITORA ROCCO LTDA. ‘Run Rocio Siva, 2p Saar Habbo ce ae, ‘el: S07 2000 — Fan: 073264 Print Bras pres 0 Bei repaagio de ogni ‘CARLOS NOUGUE CtP-Bnsi. Casogarto-nfone Sinisa Nacional dos Ede de ive, Bradt, Jn Brse - "Aeragio Go umor a grande etapa do cresciment / Jane ‘Brainbwwadego Ge Pai Ribia, Rio de Jaci: Roceo, (ave do tenga) | “Tad de Creating love te nex rea! stage of om Toe bgria 1. Amor 2 Rages Roma Ti. Sei cpp iss sess Duis A minha mae, Norma, cuja alma iluminou todo 0 caminho. Obrigado pela minha vida. Agradecimentos...... 9 Prdlogo.... : u PARTE | AMOR FRUSTRADO 1. Amor mistificado... B 2. As fontes do amor mistificado.. 48 3. Os estdgios da mistificacio.... 90 4. A suprema mistificago — a falsa personalidade......_ 130 PARTE 2 A POSSIBILIDADE DO AMOR 5. Amor de alma plena. a 159 6. Desmistficagao — a imaginagao realista, 132 7. Reimaginando seus pais interiorizados. 208 PARABOLA: A hist6ria de Joe... 241 PARTE3 ACRIACAO DO AMOR Introduga0.... 5 aac ROZAD. 8. O.amor entre pais efi 254 8 9. O amor a Deus 10. Amor-préprio 11. O amor da amizade ... 12. Amor conjugal .. 13. Amore trabalho Epilogo... Bibliografia. Agradecimentos Agradego ao saudoso Ronald Laing pela sua penetrante andli- se da cultura patriarcal moderna e pelo termo mistificagdo. Lio manuscrito do livro Care of the Soul, de Thomas Moore, ¢ ele me comoveu muito. Moore estimulou toda a mi- nha nogao de alma. Estou em débito para com Ron Kurtz, que me mandou 0 manuscrito do livro Trances People Live, de Stephen Wo- linsky. A obra de Wolinsky foi a fonte para a minha concep- a0 do segundo estdgio da mistificago, ¢ lhe agradeco de co- ragao. Estou especialmente grato a todas as pessoas corajosas que confrontaram o patriarcado lutando pela igualdade e pelos direitos dos negros, mulheres, criangas e homossexuais. Muitas outras fontes so citadas no texto e na biblio- grafia, Embora me erga sobre os ombros de gigantes, responsabilizo-me pela interpretagio de todas as fontes que mencionei: Quero agradecer aos seguintes individuos: Sissy Davis, que é minha paixdo, ¢ com quem crio amor. Meu irmao Richard, cujo auxilio continuo me permite cumprir a tarefa, por vezes solitdria, de ser um escritor orientador de workshops. Minha sécia, Karen Fertitta, cujo talento administrativo ‘orna minha vida muito mais fécil Meus colegas Kip Flock e Mike Berman, que garantem qualidade clinica do meu trabalho no Centro John Bradshaw do Hospital Ingleside, em Rosemead, Califérnia, 10 Jom Baostaw Clark Todd e Mike Drobat, da Concept Health, que administra 0 Centro John Bradshaw. Mare Baker, 0 diretor de marketing do Centro John Bradshaw, que me auxilia primorosamente durante minhas excursdes. Meus avs Joseph ¢ Edna, que deixaram claro que eu cera importante. Minha tia Chickie € meu tio J. casamento. Minha enteada, Brenda, que me ama como uma filha. Meu filho, John, que me desafia a amar com minha alma. Minha saudosa tia Millie, que me amava incondicional- mente. ‘Minha irma, Barbara Bradshaw, que passou horas a fio preparando este manuscrito. Freqiientemente consultei seu extenso conhecimento da lingua inglesa para aleangar maior clareza e correcao. Ela foi de grande ajuda. Minha editora, Toni Burbank, que gentilmente guiou a transformagao de um prolixo manuscrito neste livro. Agradeco a toda a equipe da Bantam, a melhor do ramo. . por cinguienta anos de Prélogo No creptisculo da vida, seremos julgados ‘apenas quanto ao amor. SKOJOAO DA CRUZ 6 comprei dois ingressos ridiculamente caros de Miss Saigon para agradar minha namorada, Nao gosto de musicais dramati- cos — ¢ Miss Saigon tem uma fama lacrimogénea. J4 tive bas- tante tristeza na minha vida, e muito do meu trabalho 6 ajudar as pessoas a lamentar seu sofrimento infantil niio-resolvido, Detesto espeticulos tristes, especialmente nas férias. Mas minha namorada queria ir, € fui ao teatro tentando aproveité-lo da melhor maneira possivel. Tinha certeza de uma coisa: no ia chorar! A historia é uma adaptagtio de Madame Butterfly, passa- a durante a guerra do Vietna. No primeiro ato, uma garcone- te vietnamita se apaixona por um fuzileiro. Eles se casam e juram amor eterno. Ele é forgado a deixé-la, mas promete Voltar dos Estados Unidos quando acabar a guerra. Ela é sim- ples, inocente ¢ cativante. © seu amor é intenso e incondicio- nal. Sem que ele saiba, ela dé & luz. uma crianga, um menino. Ela o esconde © 0 protege bravamente enquanto suporta uma vida brutalizante num bordel. No interval, comecei a fantasiar sobre a tristeza que viria em seguida. Imaginei Miss Saigon morrendo enquanto entregava o filho para as autoridades comunistas. Pensei: Posso lidar com isso! Especulei que o fuzileiro viria resgata- la © morreria. Isso tampouco me abala! Nada poderia me comover esta noite. segundo ato apresenta uma agéncia dedicada a encon- 2 Jon Buostaw trar os fuzileiros que engendraram filhos de mes vietnamitas. No desenrolar da hist6ria, nosso fuzileiro casa-se outra ver. Embora sonhe com Miss Saigon, é uma pessoa basicamente feliz. Entdo a agéncia 0 encontra. Ele precisa contar 4 esposa sobre Miss Saigon e a crianga. Ele e a esposa vio ao Vietna para resolver a questo de maneira honrosa. Por acaso, Miss Saigon encontra a esposa do fuzileiro. Ela fica totalmente arrasada. (Estou perdendo o controle! Lagrimas correm pelo meu rosto.) Miss Saigon implora & nova esposa que leve 0 menino e Ihe dé a vida que ela nao pode Ihe oferecer. (Solu- gos! Agora estou tentando conter audiveis solucos.) Na iiltima cena, Miss Saigon veste o filho (a crianca mais adordvel que j4 se viu), preparando-o para ir com o pai e a madrasta. No momento mais temo, beija 0 filho e Ihe diz que ele vai entender depois, e Ihe pede que niio a esquega. (Eu me entreguei a solugos abdominais incontidos.) O filho sai; 0 pai e a madrasta abrem os bragos para ele. Miss Saigon desaparece atrds da cortina. Bang! O estampido de um tiro. Ela se matou; 0 fuzileiro corre e a toma nos bragos, gemendo e lamentando-se. Toda a audiéncia esta chorando profusamente. Estou um caco. Penso que foi bom ela ter se matado. Nao teria suporta- do que ela ficasse no meio da pobreza e degradago enquanto © marido vai embora com o filho. Seu suicidio de certa ma- neira alivia a dor. Subitamente, estou entrando na minha prépria histéria de amor e ddio, 0 casamento desfeito de meus pais, 0 softi- mento da minha infancia. Estou me identificando com a crianga inocente aprisionada pelos tragicos caprichos do amor dos pais. Penso em meus amores apaixonados — a mulher que amei ¢ deixei, aquela que me deixou. Especialmente aquela que me deixou! Recordo-me daquele softimento. Foi como se alguém houvesse martelado um grande prego de fer- ro no meio do meu peito. Por um instante sinto a traumética falta de ar que experimentei durante minha rejeigdo. Lembro- me de como fiquei obcecado por ela, como chorei, senti raiva, fui corroido pelo remorso. Penso em minha mie; como teve de sustentar sozinha, aos vinte e seis anos, trés filhos. Ela trabalhava por uma quantia minima para nos criar, Era uma catdlica devota; sua A.Gaucio 00 Awot 13 £6 nao Ihe permitia voltar a casar. Desde o momento em que meu pai nos deixou, ela nunca tocou outro homem. Que f6 incrivel! Que dedicagao as préprias crengas. Minha mae ¢ humana. Ela tinha uma raiva inconsciente de tudo isso. Muitas vezes descartei o seu amor como sendo gravemente co-dependente. Mas esta noite quero abragd-la e dizer que a amo. Esta noite quero que ela saiba que satido 0 trdgico e herdico sentido da sua vida. Esta noite percebo sua terrivel rotina e aparente trivialidade redimida pela coragem e apaixonada tenacidade do seu compromisso com seus filhos. A pergunta que me fago quando seco meus olhos é: qual € esse misterioso poder do amor € por que ele pode ser tao avassalador? O amor de mae € inato? Se for, por que algumas mies abandonam os filhos diante da porta de alguém, ou sur- ram 0s filhos até a morte, ou os prostituem? Desistir da pro- ptia vida por alguém & sempre um ato de amor? Poderia ser um ato de egofsmo — uma maneira de se elevar as grandiosas alturas da santidade para sentir-se digno de amor? ‘Como podemos saber a diferenga? Seré que o amor pre- isa ser sempre doloroso e um sacrificio para ser considerado amor? Existem tipos diferentes de amor? Sabemos como ‘amar naturalmente ou aprendemos a amar? O que significa amar a Deus? Como saber se Deus nos ama? Por que os relacionamentos que comegam em éxtase tantas vezes terminam em 6dio © num amargo divorcio? Como € possfvel que uma tarde, um feriado, comece to bem ¢ termine em raiva ¢ isolamento? Por que tantas vezes somos completamente: frustrados por um relacionamento? Como podemos pensar tio bem de alguém ¢ admitir no final que mal conhecfamos aquela pes- soa? Por que to poucos parecem encontrar 0 amor que todos ns dizemos querer mais do que qualquer outra coisa? Por que tantas pessoas que se esforcam diligentemente para con- quistar a totalidade e © equilfbrio ainda se sentem frustradas em ter um relacionamento satisfat6rio? Por que tantas pessoas desistiram do amor, dizendo que ele s6 vem para os sortudos u que simplesmente nao vale a pena o esforca? Apenas um més depois daquela noite de Miss Saigon, eu estava sentado, arrasado, num quarto de hotel na Filadélfia i Jon Bransiaw Eu me retirara entre aplausos de pé e assinara aut6grafos no elevador indo para meu quarto. A faxineira trouxe sua cOpia de Volta ao lar para que eu a autografasse. Quando fechei a porta, senti a solidio insidiosa do quarto, Pensei em como isso costumava ser excitante nos primeiros dias de 1985. [sso foi logo depois que On the Family, série da PBS, comegou a atrair interesse. Convites para palestras ¢ workshops chega- vam de todo o pais. Comecei a viajar por toda parte. As pes- soas me reconheciam nos aeroportos. Estava bébado com toda a excitagio. Mas agora, no meu quarto de hotel na Filadélfia, preci- sava encarar 0 fato de que minha namorada me dissera que estava saindo do nosso telacionamento. Ela me contara que precisava cuidar da sua propria vida e de suas necessidades. Eu a admirei por isso. Mas ela estava me abandonando! Eu adorava ligar para ela & noite quando estava viajan- do. Era t&o maravilhoso ter alguém tao especial, que era mais importante do que qualquer coisa. E eu tinha uma pessoa que cra mais importante para mim do que qualquer outra coisa. Percebi que estava deixando que varias coisas fossem mais importantes para mim do que ela. Eu estava recaindo nos meus velhos padres de poder e controle, Pensei que mudara essa maneira de amor falso. Aos qua~ renta ¢ dois anos, despertara para 0 fato de que estava fracas- sando no amor. Eu estava casado naquela época, Tinha um filho e uma enteada. Certo dia, depois de ter gritado com minha enteada por ela nao ter feito suas tarefas, ela me confrontou com meu egoismo e meus modos de manipulagdo. Ela realmente conse- guiu minha atencdo. De alguma maneira, sua coragem ¢ honestidade me forcaram a me ver no espelho. Aquela altura, eu estava sébrio, devido a um programa de doze passos, fazia doze anos. Pensei que estivesse timo porque nao era mais, dependente de substancias quimicas, e me sentia no direito de ter o amor ¢ 0 respeito de todo o mundo porque deixara de me comportar como louco. As vezes eu também me set fundamente deprimido, e até me perguntava se a mente valia a pena. ‘A Ceugho0 AWoR 15 0 confronto com minha enteada me levou a iniciar 0 que agora considero 0 segundo estgio do meu trabalho de recu- peraciio. 'No meu livro Volta ao lar chamei este estagio de “traba- Iho sobre a dor original”. Ele envolve sentimentos que evitei desde a infancia — dor, tristeza, vergonha ¢ raiva. Fazer esse trabalho me ajudou a amar e aceitar a mim mesmo de maneira mais plena. Abracei a mim mesmo na imagem de um meni nho ferido. Ao fazé-lo, abracei meus sentimentos, necessida- des ¢ desejos rejeitados e negados. Isso foi essencial para mim, porque no sabia o que realmente sentia, precisava ou queria num dado momento. Esta era uma das razSes por que eu ndo conseguia realmente ter um relacionamento intimo com ninguém, A minha dor original culminou em um relacionamento mais amoroso ¢ profundo comigo mesmo; mas me deixou com uma grande incerteza quanto a como ser intimo e amoro- so com 08 outros. Reconhego que todo relacionamento que tive foi caracterizado pelo controle e pela represséio emocio- nal. Tive de admitir que, mesmo depois de anos de recupera- ¢40 € trabalho sobre mim mesmo, ainda sentia um frustrante desespero quanto ao amor e realizagao. Recuperar a minha crianca interior foi 0 inicio do apren- dizado do amor, € nao o fim. Descobri que muitas outras pessoas estavam na mesma situagdo. Nos meus workshops, elas chegavam até mim com perguntas e afirmagdes como: +O que é preciso para ter um bom relacionamento? * Depois de todas as mudangas que fiz, como & possivel que meu relacionamento ainda esteja tio complicado? + Tive uma rigida formacao religiosa e agora nao tenho mais nada. © que posso fazer para descobrir meu Poder Superior? + Estou resolvendo minha vida, mas meus garotos esto totalmente pirados. * Meu trabalho est me deixando louco. Estou me recu- perando, mas o meu chefe ndo esta. Ele me envergonha todo dia, 16 Jorn Busan A lista poderia continuar. O mistério nao resolvido da recuperagao tinha a ver com os relacionamentos amorosos. Este livro ¢ fruto da minha luta com estas questdes. Enquanto eu procurava uma resposta, encontrei trés livros que me ofereceram pegas-chave para o quebra-cabeca que eu estava tentando resolver. O primeiro, escrito pelo psi- quiatra Scott Peck, tem 0 titulo, muito apropriado, de The Road Less Traveled (O caminho menos percorrido). Aprendi duas coisas importantes no livro de Peck que confrontaram 0 ‘meu conjunto de ensinamentos originais. Aprendi que o amor ndo pode acontecer a menos que eu esteja disposto a me dedi: car a que isso acontega. E que 0 amor é um processo que exige trabalho duro e coragem. Isso pode nao ser novidade para muitos, mas foi algo revolucionério para mim. Fui criado acreditando que o amor esté enraizado nos relacionamentos familiares. Vocé ama naturalmente qualquer pessoa da sua familia. 0 amor nao é uma escolha. O amor que me ensinaram estava preso ao dever © & obrigagio. A gente nunca poderia nao amar os pais ou parentes, ¢ amé-ios significava que nunca se poderia discor- dar deles ou querer algo que eles desaprovassem. Questionar qualquer um destes ensinamentos era arriscar- se a ser considerado uma “ovelha negra”, ou simplesmente ouco. Ir contra eles causava culpa celular, 0 prego de quebrar uma promessa sagrada que a gente nunca soube que fez. ‘Ao mesmo tempo, 0 amor deveria ser facil. Quando a gente crescesse e 0 tempo certo chegasse, a “pessoa certa”” apareceria. A gente reconheceria essa pessoa imediatamente. E se apaixonaria c naturalmente saberia o que fazer para desenvolver esse amor. Estou grato a Scott Peck por desafiar essas nocdes de ‘amor, mas no culpo minha familia por té-las passado. Minha familia me ensinou as regras e crencas da nossa cultura quanto ao amor. Nos ultimos anos, ficou dbvio para mim que todos os que eu conheci, enquanto crescia, ou foram ctiados por pais que seguiam estas regras culturais, ou por pais que estavam reagindo contra elas. Neste livro, terei ‘A.Cascon0 AnoR 7 muito mais a dizer sobre a cultura que formou nossas fami- lias. Sugerirei que estas regras culturais criaram uma forma deficiente de amor, e que mesmo com as melhores intengées nossos pais muitas vezes confundiram 0 amor com o que hoje em dia chamariamos de abuso. ‘Acabei chamando este amor defeituoso de mistificagdo Tirei esta palavra de um dos meus herdis da faculdade, o psi- quiatra existencialista Ronald Laing. Laing passou a vida expondo a destrutiva confusdo de identidade resultante do fato de que s6 nos tomamos aceitaveis para os outros quando negamos nossa prépria verdade. Ele chamou essa confusaio de identidade de mistificagdo. Enquanto desenvolyia minha nogdo de mistificacao, outro livro importante chegou a mim ainda manuscrito, antes da publicago. Chama-se Trances People Live (Transes em que as Pessoas Vivem), de Stephen Wolinsky, e ele me ajudou a entender exatamente como a mistificagdo ocorre ¢ porque ela € to poderosa. O livro de Wolinsky é uma sintese fasci- nante da moderna hipnoterapia, inspirada na filosofia oriental Ele mostra como criamos estados de transe protetores em resposta a experiéncias dolorosas da infancia, e como mais tarde continuamos a usar estes transes para nos proteger, mesmo quando no so mais necessdrios. “Transe” € uma maneira maravilhosa de descrever 0 estado congelado e alie- nado do amor mistificado. Existe também um elemento espe- rangoso na tese de Wolinsky, Se realmente criamos nossos proprios transes na infancia — mesmo que nao recordemos isto —, podemos aprender a nos libertar dos nossos transes na maturidade. Em outras palavras, podemos nos desmistificar, Ainda precisava de um modo de descrever © estado de ser que estimula o amor saudével. Primeiro pensei em chamar os relacionamentos amorosos saudaveis de “realistas”, para contrasté-los com os relacionamentos mistificados. Isso nao parecia funcionar. De certa forma, “realista” parece ter a conotagdo de uma vida sern magia ou paixdo. Eu nao gostaria de um amor assim. Certo dia recebi outro manuscrito, intitulado Care of the Soul (Cuidando da Alma), de Thomas Moore. Moore teve 8 Join Bosiaw uma formagio semelhante a minha, € suas palavras me toca- vam profundamente. O seu livro esquematizava uma nova abordagem para dar valor e profundidade & vida comum. Ele chamou a sua abordagem de restauragao da plenitude da alma. Aqui estava a expressao que eu procurava! A medida que se desenvolvia, a minha nogao de plenitude da alma foi se tomando bastante diferente da de Moore, mas es- tava muito grato a ele por me dar um modo de falar sobre o saudavel amor humano. A minha nogo de amor de alma flui do potencial nato de todas as criancas. As criangas so por na- tureza maravilhosas — sempre se maravilham e estéio curiosas Esse encantamento ¢ curiosidade as leva a explorar ¢ investigar tudo © que estd no seu campo de percepedo. Elas fazem isto com grande coragem, flexibilidade ¢ imaginagao. Essas carac- teristicas de encantamento, alegria, curiosidade, exploracao, exuberincia, coragem, imaginacgo e flexibilidade costumam ser consideradas infantis e ser abandonadas quando nos toma- mos racionais ¢ adultos, Mas na verdade so caracteristicas hhumanas bésicas, e formam o micleo da alma. Ea plenitude da alma é a fonte do verdadeiro e duradouro amor humano. livro do Génese descreve a queda da humanidade em termos de quatro relacionamentos rompidos. A histéria nos conta que Adao e Eva, que simbolizam nossos primeiros pais, receberam todos os recursos de que precisavam para uma vida feliz no Eden. Eram um so com Deus, um com 0 outro, com eles mesmos, e com 0 mundo. Este delicioso estado de felicidade sofria uma nica restrigfio: nfo deviam “comer 0 fruto da arvore do conhecimento do bem e do mal”. Adio e Eva violaram esta limitagio, e a queda de ambos cortou o relacionamento deles com Deus, com o préprio eu, de um com 0 outro e com 0 mundo. Conflito, vergonha unico nasceram, O parto tornou-se um tormento; o trabalho se transformou numa perpétua luta cotidiana. E os seus filhos herdaram sua dor. Essa historia, como todos os grandes mitos teoldgicos, deve ser personalizada. A Queda ocorre psicologicamente no ‘momento em que nascemos. O nosso estado de totalidade nao ‘A Caaciona Awok 19 dura. Quanto mais feridos forem nossos pais, mais probabili- dades teremos de crescer mistificados. Essa mistificagao se estende a todos os relacionamentos nas nossas vidas. A hist6ria do Génese também me diz que os relaciona- mentos humanos sempre serdo imperfeitos, uma mistura de plenitude da alma e de mistificagao. Mas podemos crescer na plenitude, podemos nos tornar mais completos ¢ criar um amor mais humano e satisfatério em todos 0s nossos relacio- namentos. No texto que vem em seguida, considerarei a criagao do amor nas quatro areas descritas no Génese: 1.0 seu relacionamento com um poder mais elevado — comegando com os relacionamentos entre pais ¢ filhos e se estendendo até Deus, como quer que se entenda Deus. 1. seu relacionamento com vocé mesmo. Ao contem- plar as faces de suas figuras-fonte, voc nasceu psi- cologicamente. A sua unidade original com vocé mesmo ou foi refletida e validada, ou rejeitada e invalidada. Se os seus relacionamentos-fonte foram plenos, o seu relacionamento com vocé mesmo se toma pleno, Se os seus responsiveis primArios foram criangas adultas magoadas exprimindo a sua sonam- bula mistificagao, o seu relacionamento com vocé mesmo se torna mistificado. IIL Os seus relacionamentos com amantes, amigos e, se vocé for (ou foi) casado, com seu cOnjuge ou ex- cOnjuge. Se 0 seu relacionamento com vocé mesmo € mistificado, seus amores, casamentos ¢ amizades se basearo no amor mistificado, Se o seu relaciona- mento com vocé mesmo for pleno, vocé criara rela- cionamentos de alma plena com amigos, amantes © cOnjuge. IV. Seu lugar no mundo. O trabalho de nossa vida pode ser mistificado ou pleno, ¢ 0 mesmo acontece com nosso relacionamento com a prépria terra. » Jor Bansiaw A medida que vocé for lendo as pAginas seguintes, espe- ro que seja estimulado nas profundezas da sua alma. Esteja cOnscio de que voc’ € livre, Escolha amar a si mesmo. Vooé pode lutar com o amor mistificado. Eu certamente luto, mas 0 transe que vocé criou salvou a sua parte mais vulnerdvel de ser violada, Ame a si mesmo por ter criado o seu transe. Ame a si mesmo por estar disposto a ver como vocé o criou, ¢ ‘como 0 pode ainda estar criando. Pode deixar de fazé-lo agora. O perigo passou. Vocé impediu que uma crianga mor- resse. Vocé salvou a si mesmo! ‘Ame a si mesmo pela esperanga que vocé tem. Voc® no se esforcaria para mudar se no tivesse esperanca. PARTE 1 AMOR FRUSTRADO Quando vocé interage com outra pessoa, a ilusto faz parte dessa dinamica. Essa ilusio permite ‘que cada alma perceba o que precisa entender para poder curar-se GARY ZUKAV CAPITULO 1 Amor mistificado Pois 0 bem que desejo fazer nfo fago, mas pratico © mesmo mal que ‘io desejo fazer. ROMANOS 7:19 ‘A maior parte da humanidade vive em silencioso desespero, HENRY DAVID THOREAU da minha adolescéncia, trabalhei numa mercearia, a Butera’s Food Market, em Houston, Texas. Como a maioria dos rapazes da minha idade, eu estava obcecado por sexo. Uma das minhas tarefas oficiosas no Butera’s era estar atento a exemplos de formosura feminina, Quando uma bela garota aparecia na mercearia, eu apertava uma campainha para aler- tar Leon no departamento de produtos, e Bubba ¢ Phil no agougue, para que viessem dar uma olhada. Naturalmente, seguiam-se cenas de machismo ¢ chauvinismo explicitos. Cresci com isto, mas nfo é este o ponto da hist6ria, © que acabou acontecendo, para o nosso espanto, foi que uma formosa dama estava acompanhada de um parceiro dis- forme e, na nossa opinido, desinteressante. “Puxa, mas que vergonha”, murmurava Leon. “Que pena que eu sou s6 isto.” (Com dois dentes da frente a menos — perdidos numa briga —, Leon tampouco ganharia algum concurso de beleza.) Tam- 2 Jon Buosiaw bém me impressionava ver como muitos homens bonitos en- travam com parceiras de aparéncia bastante mediocre. Este é um exemplo bastante rude, fisico, quase primiti- vo, mas foi a minha primeira impress4o daquilo que chamo de frustrago do amor. Nao parecia nada I6gico para minha cabega de 16 anos e meio. Quando comecei a sair com meninas, muitas vezes me aturdia com as reviravoltas que podiam ocorrer durante uma noite, Recordo-me de ter comegado um encontro cheio de vitalidade e excitacio, e de terminé-lo com palavras duras e batendo portas. Por mais que tentasse reconstruir a seqiiéncia de eventos, nao conseguia nenhum esclarecimento. Sempre me sentia confuso, triste e solitério, ‘Anos depois, percebi que os seres humanos vivem o drama de suas vidas relacionais motivados por sentimentos € desejos, e ndo apreciagdes Idgicas. Quando o assunto é 0 amor, a razo ndo pode nos orientar. Em mais de vinte anos de consultoria matrimonial, dificilmente vi um casamento em que os parceiros poderiam ter sido previstos. O amor nao é ogico; este € um dos motivos da nossa frustragao, Em quase todos os casos em que trabalhei, os cénjuges haviam tomado a decisdo aparentemente ilégica de se casar com alguém que possufa os tragos de cardter de um de scus pais, ou de ambos. Estavam repetindo os relacionamentos destrutivos que haviam tido na infancia. Outro aspecto frustrante do amor € nossa maneira odiosa de agir com entes queridos. Muitas vezes fui odioso € mes- quinho com as pessoas que mais amo. Depois de casar, lembro-me de dirigir para casa, jurando ser sempre doce amoroso, ¢ entdo entrar em casa € imedia- tamente dizer alguma coisa critica. Depois eu me sentiria pés- 10 pelo que havia dito ou feito; passada uma semana, aca- baria fazendo a mesma coisa. A.Cuatio00 Avior, Bb A FRUSTRAGAO DA “PAIXAO” Lembro-me do dia em que Jack ¢ Jill s¢ casaram. Que ocasiao alegre! Os brindes no jantar da noite anterior, as belas damas de honra, © noivo, as flores, Jill no seit vestido etéreo. Eu os aconselhara durante 0 ano de seu noivado. Tinha algumas sérias reservas sobre seu casamento, mas nunca vi duas pes- soas mais apaixonadas, pensei. ] Todo 0 comportamento de Jack mudou nos primeiros dias a dois. Ele comegou a fazer exercicios, comia refeigdes nutritivas e saiu totalmente da depressaio em que estivera. Jill estava radiante; comegara terapia ¢ fazia tudo com a excita- 0 de uma crianga explorando © mundo, Jack e Jill afirma- ram que nunca haviam sido tdo felizes. Eles pareciam felizes. Depois de dois anos intensamente dramaticos de confli- tos e uma tentativa frustrada de anulapao do easamento, Jack ¢ Jill se divorciaram. Um filme com a\tela dividida para mos- trar 0 namoro e inicio do casamento, de um lado, ¢ as amar- gas brigas e divércio, do outro, ofereceria um contraste espantoso, quase inacreditével. Lembro-me de como Jill estava confusa no final, de como Jack estava frustrado quando me perguntou: “O que aconteceu? O que aconteceu? Como isto pode acontecer?” Este foi o segundo casamento de Jack que acompanhei; ainda haveria um terceiro, depois da minha partida, A FRUSTRAGAO DO AMOR COMO RESIGNAGAO Para algumas pessoas, a histéria triste nunca termina. Lembro-me de outra cliente minha; vamos chamé-la de sta. G. Bla estava casada fazia trinta e oito anos. O seu mari do era um vendedor de primeira linha: também fora um gran- de atleta, celebrado pela imprensa, popular. Ele era 0 Cara % JON Busia Legal para todo o mundo — menos para a sra. G. Em casa era mesquinho, malicioso egofsta. A sra. G me contou 0 que para mim jé era uma hist6ria familiar. Eles haviam namorado na faculdade. Ele era 0 astro do futebol, e ela era a lider da torcida e a garota mais popular. Depois do seu casamento, 0 pesadelo dela comegou. Em seis anos ela teve quatro filhos, que criou praticamente sozinha, jé que ele viajava a maior parte do tempo. A sua empresa Ihe dava carta branca para despesas. Ele entretinha os clientes, levando-os a festas, jan- tando com eles nos lugares mais caros, A sra, G recebia uma ‘mesada, como ela dizia, Sempre que gastava algum dinheiro consigo mesma, 0 scu marido a vituperava por querer deixd- lo na rua da amargura, Quando nao estava viajando, © marido exigia sexo dia- tiamente. A sra. G raramente alcancava 0 orgasmo. Ela afir- ‘mou apreciar a sensagfo de intimidade que sentia quando faziam amor. No entanto, segundo ela mesma, ele niio a beija- va fazia vinte anos. Os filhos jé estavam crescidos quando me procurou, ¢ ela estava terrivelmente solitéria. Passava a maior parte do tempo jogando ténis, lanchando com as amigas, fazendo servigos voluntérios no hospital e preparando as refeicoes do mariclo. Ele raramente estava em casa; quando no estava trabalhando, Passava a maior parte do tempo no clube da empresa. Certo dia, num momento em que baixou a guarda, ela confessou que realmente detestava o marido; disse que, se ele fosse um mendigo morrendo de sede, ela no the daria um gole d’dgua. “Por que vocé fica com ele?”, perguntei “Porque 0 amo”, replicou ‘Como isso poderia ser amor?”, pensei com meus botes. Pensei em algumas pessoas que conhecia e que esta- vam casadas havia muito tempo. Recordei-me de como mem- bros da minha familia costumavam apontar esses casamentos como exemplos do verdadeiro amor conjugal, e me lembro de pensar como tal e tal casal costumava parecer infeliz e solita- rio. Na verdade, parecia que tudo o que importava era a resig- nagao. O verdadeiro amor significa resignacdo. A sra. G esta- va infeliz, frustrada e totalmente insatisfeita. Por incrivel que ACawGio no Awe 2 parega, o marido também estava assim, embora s6 tenha ido a duas sessGes de aconselhamento, “Nunca houve um divércio na nossa familia”, declarou, “e nao quero ser o primeiro a fazé-lo. Além disso, apesar de todas as suas irritantes manias e captichos, eu a amo.” deleite e as promessas dos dias da faculdade termina- ram com dois estranhos ligados pelos terrores da solidio. Novamente nos perguntamos: o que aconteceu? MISTIFICAGAO, A nossa frustrago com o amor deriva de comportamentos en- raizados naquilo que chamarei de mistificagdo. Vi este termo ser usado pela primeira vez pelo psiquiatra pioneiro Ronald Laing. Ele falava sobre pais que mistificavam os filhos; tam- bém observou que a propria terapia podia repetir a mistifica- Go patea. Ele me contou a histéria de um adolescente que foi levado & terapia pela raiva intensa que sentia do pai. De acordo com Laing, esse rapaz tinha motivos para estar zanga- do. O pai era cronicamente exigente, intrometido e controla- dor. Mas o terapeuta trabalhou para reduzir a raiva do rapaz, assumindo a posi¢do de que havia algo errado com ele por sentir tanta raiva. Laing observou que a raiva do garoto foi invatidada pelo terapeuta, assim como seus outros sentimen- tos, necessidades ¢ desejos haviam sido invalidados pelo pai. Quando 0 rapaz percebeu que 0 psiquiatra achava que havia algo errado com ele devido & sua raiva, comecou a sentir-se envergonhado e confuso. Sua raiva fora invalidada: fora transformado num invdlido. Isto simplesmente reforgou a fonte da sua raiva original. Uma crianga cujos sentimentos, Pensamentos € desejos esto sendo controlados e medidos aprende que s6 interessa ao pai quando néo é ela mesma. Isto acarreta confusito; neste estado de confusdo, a crianga inevita velmente tem outro pensamento: s6 gostam de mim quande ndo sou eu mesmo. Este pensamento gera uma raiva autode fensiva. 2 Jon Buosaw A raiva nos dé a energia e a forga necessérias para nos protegermos. No entanto, sentir raiva de um dos pais é quase sempre ameagador para uma crianga. Assim, para dispersar essa ameaca, a maioria das criangas cria uma falsa identidade para agradar a seus pais. As criangas mais fortes, no entanto, rebelam-se e intensificam sua raiva, Este era 0 caso do exem- plo de Laing. Sua raiva evidenciava sua coragem e integrida- de interior. Quando o terapeuta terminou o tratamento, ele foi mais uma vez levado a confusio. Esta confusao é a maneira mais geral de expressar 0 conceito de mistificagao. Descreverei mais tarde 0 estado mistificado em maiores detalhes. Por enquanto, vou definir a mistificago como um estado alterado de consciéncia em que uma pessoa sente e acredita que ha algo de errado com ela tal como ela é, ¢ cria uma falsa identidade para ser aceita pelos pais e por outras figuras cruciais para sua sobrevivéncia, Uma vez que comecemos a acreditar que somos esta falsa identidade, ndo sabemos que ndo sabemos quem somos. Para a maioria de nés, a confusdo da falsa personalidade ocor- eu durante o jardim-de-infancia, Uma vez que a falsa perso- nalidade tenha sido criada, a personalidade auténtica & conge- Jada no tempo passado. No meu livro Volta ao lar, chamei esta personalidade congelada de crianga interior ferida. A crianga interior ferida esta sempre mistificada até certo ponto. O grau de mistificagao depende da natureza do abuso que a crianca sofreu, da constancia do abuso e de se havia ou nfo alguém que valorizasse a crianga pelo que realmente ela era. Acreditar que s6 merecemos amor quando nao estamos sendo n6s mesmos € 0 resultado do que chamo de vergonha t6xica. (Ver meu livro Healing the Shame That Binds You.) A vergonha toxica diz que o seu modo de ser no est certo, que hd algo errado com sua propria esséncia. Quando est congelado no passado, o individuo sente falta da sensagdo de presenga. A maioria de nés jé teve a experigncia de estar com alguém que esté fisicamente presen- te, mas que ndo esté realmente ali, Muitos também ja passa- ram pela experiéncia de reagir exageradamente a algo que 4 Cancio v0 Avot 2» outta pessoa nos disse ou fez. Reagdes exageradas so um bom exemplo da falta de presenga. Nao vemos ou ouvimos 0 que esta realmente sendo feito ou dito; vemos ou ouvimos algo do passado. Pode ser 0 som da voz de alguém ou a expresso do seu rosto o que nos leva a algum incidente do nosso préprio passado. Agimos da maneira como agimos naquelé momento, em vez. de responder apropriadamente a0 que estd acontecendo agora. ‘A falta de presenca e a falsa personalidade baseada na vergonha sao os pilares do estado alterado de existéncia que chamo de mistificagao. ‘Vamos olhar mais detalhadamente 0 caso de Jack e Jill. Jack foi uma crianga timida e desajeitada, Foi ridicularizado provocado desde cedo. A sua mae 0 abandonou com um pai aleodlatra que o usava da maneira mais cruel. Quando tinha cinco anos, seu pai o fez. vender jornais numa esquina. Mais tarde, Jack queimou-se seriamente num incéndio que come- ou quando o pai, bébado, fumava na cama. Ele passou por \Vérios implantes de pele no rosto. Estava com cerca de cin- Quenta anos e divorciado quando conheceu Jill. Para Jack, foi © méximo que uma bela jovem o desejasse. A sua crianca ferida sentia-se totalmente indesejada e sem amor. Ble tam- bém poderia ser um pai amoroso e generoso para Jill, como queria que o seu pai o tivesse amado. Jill crescera numa cidadezinha do Sul onde sua familia era considerada gentalha. Quando Jill tinha trés anos, seu pai abandonou sua mie. A mie teve uma série de amantes: ela era uma mulher jovem com cinco filhos, ¢ precisava de apoio masculino na sua vida, Desde cedo Jill sentiu que havia algo de etrado com ela. O seu irmAo mais velho e dois dos aman- tes de sua mae abusaram sexualmente dela. Ela procurava esesperadamente um pai que a amasse. Jack representava 0 Pai perfeito — generoso, gentil e bondoso. A sua crianga inte- ‘lor queria desesperadamente ser protegida. Quando Jack ¢ Jill se casaram, foi como se dois garotos de us anos estivessem para comecar uma vida a dois. Cada 20 JOHN Buosaw um deles era uma crianga carente. Nenhum dos dois satisfize- ra suas verdadeiras necessidades de dependéncia. Depois do casamento, a necessidade de Jill foi demais para 0 garotinho carente de Jack. Ele comegou a atacé-la com a raiva que realmente se dirigia ao seu pai. Jill puniu Jack tendo um caso com umi homem mais jovem. Ela o fez quase diante dos seus olhos. Pouco depois do divércio, Jill confes- sou que ja havia se casado trés vezes anteriormente, cada vez com um rico homem mais velho. Todos os trés casamentos haviam terminado com ela tendo um caso com um homem da sua propria idade. Ela estava humilhando o seu marido ¢ se vingando do pai; projetou o rosto do pai sobre a face de todos ‘5 maridos. Ao puni-los, punia 0 pai ‘Quando soube mais sobre os Gs, ficou claro que ambos recriaram aspectos-chave do casamento e da vida sexual de seus pais. A sta. G era a imagem da mae, que suportara um casamento de quarenta e cinco anos com um homem anti- social ¢ recluso. Quando a sta. G se casou, sua mie Ihe con- tou que nunca tivera um orgasmo. Ela ensinou a filha que, ‘como boa catélica, sexo era uma obrigagao, e no uma esco- tha, © pai do senhor G cra um machio, que basicamente controlava sua esposa através do dinheiro. O st. G ¢ seu pai compartilhavam suas conquistas esportivas, ¢ passavam um bom tempo juntos, cagando e pescando. O st. G vira o pai en- ganando a mae, mas 0 pai deixou claro que o divércio nunca seria uma opeao. “E contra a lei de Deus. Se vocé nao gosta disso, precisa agiientar. Eo que um homem faz.” Os Gs cram como sondmbulos repetindo atos familiares. Ambos estavam mistificados. FORMAS DE AMOR MISTIFICADO © amor mistificado causa tanta frustragdo porque o que a crianga mistificada acredita ser amor ndo é amor. Crengas ACRAGIODO AMOR 31 governam nossas vidas. O que as pessoas aprendem sobre 0 amor vem da sua cultura tal como foi incorporada nos seus pais ou em outras figuras de sobrevivéncia, Chamo estes de relacionamentos-fonte, porque so os modelos de todos os demais relacionamentos das nossas vidas, até mesmo fora da familia. Se estamos mistificados, os padrées estabelecidos nos nossos relacionamentos-fonte podem se manifestar de um surpreendente nimero de maneiras. Podemos: + Criar uma imagem idealizada ou degradada do que deve ser um parceiro num relacionamento. + Agir segundo a nogo de amor rom&ntico da nossa cul- tura. + Repetir como escravos as crengas de nossa mae e/ou de nosso pai sobre amor € relacionamentos + Recriar as estratégias defensivas que usamos para sobreviver ao relacionamento com um progenitor abu- sivo + Recriar nosso papel no sistema familiar original. + Sabotar continuamente nossa felicidade em todas as reas da vida para sermos leais a nossa figura-fonte infeliz, + Encontrar pessoas que sejam o oposto das nossas figuras-fonte, e criar um casamento ou relacionamento de comprometimento que seja 0 oposto dos nossos, relacionamentos-fonte. Aqui temos alguns exemplos de mistificagao que eneon- tei na minha experiéncia de consultor. Criar uma imagem idealizada Afrodite era a menina dos olhos do pai; ele a tratava como uma princesa. Ele antecipava suas necessidades e muitas vezes lhe dava coisas de que ela ndo precisava. Jom Beostaw Quando cla tinha doze anos, ele morreu subitamente devido a um ataque cardfaco. Afrodite ficou arrasada, e guém a ajudou a lamentar sua perda. Sua mae ocultou sua prdpria dor através de uma atividade frenética. Ela voltou a se casar oito meses depois da morte do marido. Afrodite odiava © padrasto. Ele sentiti sua rejeico e passou a abusar dela. Ela sonhava com o pai e desejava casar-se com um homem igual a ele, mas homem algum parecia chegar aos seus pés. Fui seu terapeuta quando ela estava com cinquenta e muitos anos. Ela recebera diizias de propostas de casamento, mas nunca se casara Tornou-se muito religiosa ¢ ia & igreja todos os dias. Disse-me que agora tinha 0 Pai do Céu, e que algum dia esta- ria com o pai no paraiso. Embora ela tenha me procurado porque disse que queria se casar, cu sabia que isto nao poderia acontecer a no ser que cla desmistificasse a imagem idealizada do pai morto. Criar uma imagem degradada © pai de Anita era um patriarca cruel. Batia em Anita e na sua mac. Quando a mae estava menstruada, Anita era forcada a servir ao pai sexualmente. Ela o odiava. Anita se casou na adolescéncia, levada por um jovem forte e romantico que Ihe prometera uma vida melhor. Depois do casamento, ele comegou a bater nela e a usé-la sexualmen- te de modo muito exigente ¢ insensivel. Pouco depois de terem um filho, 0 matido de Anita morreu num acidente de automével. Anita amava Tony, seu filho. Mas ele sempre fora dificil de lidar, e ela morria de medo que, sem a disciplina paterna, 0 filho seguisse um mau caminho. Ela costumava surré-lo sentia-se muito frustrada quando 0 seu comportamento s6 piorava. Quando ela veio me procurar, tinha sessenta ¢ um anos de idade. Acabara de assumir a custédia do neto, pois Tony estava preso por bater na esposa e no filho! ‘A.Gaack000 AWOR 2 Repetir como escravos as crencas de nossos relacionamentos-fonte sobre o amor como dever e obrigagio Quando Hilliel me procurou, disse-me que achava que estava enlouquecendo. Ele sonhara recentemente, em varias oca- sides, que estrangulava a esposa até a morte e que sufocava 0s filhos. Hilliel crescera numa familia mugulmana religiosa. Embora houvesse passado por uma rebeliao adolescente e um perfodo intelectual agnéstico na universidade, voltou & sua fé quando se casou. Sua esposa era rigidamente ortodoxa; era passivamente controladora, moralista e tomada pela ansieda- de, Ela seguia ao pé da letra cada aspecto das obrigagdes con- Jugais prescritas pela religiao. Um ano depois de se casar, Hilliel decidiu desistir da sua segunda carreira, a misica. Tocar e praticar o afastava da esposa, que agora estava gravida. Hilliel prometia como musico. Adorava musica e tocava desde os nove anos. Desistir de sua mtisica foi muito doloroso. No entanto, ele sabia que os votos conjugais traziam novas situagdes e per- tenciam a uma ordem superior de valores. A medida que sua vida conjugal progredia, ele desistia mais e mais dos seus prazeres ¢ alegrias pessoais. Com o pas- sar dos anos, sua esposa teve varios outros filhos. Hilliel pre- cisava trabalhar por longas horas para sustentar a familia. Ele tinha tempo livre uma vez por semana, mas geralmente passa- ‘a esse perfodo na mesquita. Os sonhos de Hilliel ocorreram pela primeira vez dois anos depois do nascimento do quinto filho, Todas as formas de controle de natalidade, exceto a abs- tinéncia, eram estritamente proibidas, Durante os 18 meses anteriores, Hilliel e a esposa se haviam abstido de qualquer forma de contato fisico. Sugeri que ele efetivamente eliminara qualquer forma de exuberdncia na sua vida; disse-Ihe que estava criando uma situagdo desumana. Apontei como a musica era importante para ele. Ble me respondeu com uma série de devas € tenhos. Disse que o amor pela esposa e pela familia era um grande u JomvBuooiw dever, s6 abaixo do amor a Deus. Observei que os seus sonhos estavam Ihe dizendo outra coisa; que 0 seu incons- ciente era uma expressdo da forga vital, mais poderoso do que ‘0 seu senso consciente de dever. Recordel-o das passagens no Cordo em que a mensagem direta de Deus vinha através de sonhos. Nada disso adiantou, Depois de trés sessdes ele me deixou, murmurando que tinha de viver com as obrigagdes do amor ¢ que eu nunca poderia realmente entender porque era um ocidental. Eu certamente entendia. Eu também me envolvera total- mente com uma comunidade orientada para a obediéncia, Liamos um longo e tedioso livro de regras quatro vezes por ano. Ensinavam-nos que poderfamos amar a Deus perfeita- mente se segufssemos essas regras ao pé da letra. Muitas vezes liamos as vidas dos santos, cujas agdes poderiam ser totalmente explicadas pelas regras de suas ordens. Os santos, aprendemos, sempre fariam o que a regra dizia que deviam fazer. O amor se realizava cumprindo-se o dever e seguindo as suas obrigagdes. Essa compreensao da vida é muito estreita e rigida. Este amor despreza a vida e cria a estagnagao, O que poderia ser desejével num amor que faz isto? As compensag6es do amor resignado Eve esté casada hd trinta e um anos. Seu marido € um alco6- latra mulherengo. Ela 0 pegou na cama com outra mulher em duas ocasides. Ele jé lhe disse que no a ama, que s6 fica com ela porque nao pode pagar um divércio. Perguntei-Ihe por que continuava com ele. Ela respondeu: “Porque 0 amo.” Eve esté iludida. Ela realmente acredita que 0 ama. Para demonstrar sua ilusdo, digo-Ihe que o que ela chama de amor nao é amor. Meu trabalho € desmistificé-la, fazer ruir uma crenga magica que jé fez o bastante para matd- la psicologicamente. E uma crenca perigosa. Ela a aprendeu na famflia e na igreja. Amar significa desistir das suas pro- prias necessidades, sentimentos e desejos. O amor é a com- ACHAGAODO AVOR as pleta autonegagao e sacrificio. Eve viu essa crenga modelada pela av, pela mde e por duas tias. Elas lhe mostraram como uma boa mulher crista amorosa deve se comportar: afirmaram que este era um papel na vida especialmente feminino, e que Deus da as mulheres um lugar especial no céu por cumprirem seu dever feminino. O que se tornou gradualmente dbvio para mim foi que a sua nogo de amor tinha uma porgdio de compensagdes; por isso era t2o dificil abandoné-la. Para comegar, seu marido era rico. Eve preferia nao ter empregados; ao fazer todas as tarefas de casa, ela podia esca- par temporariamente da tristeza, da raiva e da solidao. Ela usava 0 trabalho doméstico como uma atividade de alteragio de humor. O casamento também a impedia de ter de lidar com os “terrores da solidao”. E, jé que Eve realmente nfo possufa uma personalidade auténtica, esses terrores foram ampliados, Eve nfo teve muitos encontros no segundo grau Conheceu o marido na faculdade; ele foi seu primeiro aman- te. Ela estava gravida quando se casaram. Ele era charmoso, bonito e desejado por todas as garotas. Na tinica vez em que 6s vi juntos, eles pareciam totalmente incompativeis. A apa- Xéncia mediocre e a obesidade dela formavam. um profundo contraste com a beleza e boa forma dele. Esta era outra ébvia compensagao de ficar com ele: ela nem mesmo se permitia pensar 0 que seria divorciar-se dele e se arriscar a sair nova- mente com homens. Acima de tudo, a nogao de amor de Eve tinha compen- sages emocionais. Eve era elogiada e apoiada em sua auto- Negacdo e perseveranca no sofrimento pelo pastor ¢ pelos outros membros da igreja. O pastor varias vezes Ihe disse ue, quanto mais sofrimento surgisse no seu caminho, mais Deus a amaria; afirmou que 0 seu terrivel casamento Ihe ofe- recia o tipo de matéria-prima de que os santos eram feitos. Os Scus filhos a chamavam de santa. Ser um santo é maximo que alguém pode ambi A humilhagao e o rebaixamento de Eve criaram um tipo de Srandiosidade inversa. A sua vida de martirio Ihe trouxe a % Joon Busia admirago € recursos narcis{sticos que Ihe haviam faltado na infancia. Tudo 0 que Eve estava fazendo se destinava a aumentar sua prépria auto-estima. Ela tinha comportamentos de auto- engrandecimento ¢ de altera¢ao emocional para evitar as escolhas dolorosas que teria de fazer se se entregasse a dor a solidao da sua vida. Para mim, esta era a dor, 0 sofrimento verdadeiro e legitimo que poderia realmente The oferecer a redengao. Encarar a dor, a solidfo e a raiva a levaria a alguma aco. Eve também precisa do édio que sente por si mesma. Esta € a ferida mais profunda que carrega. Todos os seus comportamentos viciosos encobrem essa moléstia central, Se Eve amasse a si mesma, no se permitiria suportar essa vida horrivel. Ela parece paralisada com o desespero. O desespero € a antitese direta da fé vibrante que Eve professa com tanta humildade. Recriar estratégias defensivas usadas para sobreviver a abusos paternos Larmark, mais do que qualquer outra pessoa que conheco, tentou fazer amizades. Apesar de todos os seus esforgos, cle basicamente ndo tem amigos. Quando conversamos sobre suas amizades, ele comega a se contradizer; fala como se tivesse um bando de amigos, mas, quando Ihe pergunto sobre a qualidade de uma amizade em particular, ele admite que no € uma amizade verdadeira. As vezes ele comega a chorar, dizendo que nao entende por que nao consegue sustentar uma amizade. “O que ha de errado comigo?”, pergunta, “Eu me arrebento para fazer ¢ manter amizades, mas ninguém gosta de mim de verdade.” O fato é que 0 comportamento de Larmark era ofensivo; cle freqiientemente se irritava ¢ era critico e altamente intro- metido. Ele interrompia, interrogava e dava ligdes de moral. Fregiientemente fazia perguntas que violavam os limites dos outros. ‘ACegHO00 AMOR a Por exemplo, durante sua segunda sesso comigo, ele comegou a criticar afirmagdes que eu fizera numa palestra publica, quase bravo comigo e me dizendo que achava que eu nao havia terminado minha propria terapia. Ele terminou este monélogo com uma piscadela do olho direito, sugerindo que “estava por dentro”. Lembro-me de ter me sentido desconec- tado ¢ defensivo. Mais tarde percebi que 0 scu comportamen- to tina como meta me colocar na defensiva. Suspeitei que, se ele fazia isso comigo, devia estar fazendo com todo 0 mundo 2 que nao precisarfamos ir muito fundo para saber por que suas amizades nfo duravam. Larmark tinha uma necessidade desesperada de contro- lar outras pessoas. Ele exibia um comportamento chamado de hipermnésia. Descreverei isto com mais detalhes no capitulo 3, mas basicamente se trata de um estado de atengio amplia- da, em que o individuo tem uma habilidade anormal de se recordar de detalhes. E uma estratégia defensiva comum desenvolvida por vitimas de controle, inconsciéncia ¢ abuso paternos. O pai de Larmark era um homem raivoso e fisicamente violento. Na infancia, Larmark viu o pai bater na mae e nos dois irmaos mais velhos. O pai nunca The bateu, mas qualquer um que testemunhe atos de violencia é uma vitima da violén- cia, Larmark desenvolveu sua hipermnésia para se proteger o comportamento do pai, ele esperava aprender a detectar exatamente que gatilho o detonava, Vivia num constante esta- do de alerta. Larmark foi casado trés vezes e basicamente deixou lou- ‘cas as esposas questionando de maneira intrusiva e vigiando cada detalhe do seu comportamento. A mesma obsessio esta- a afastando amigos em potencial. Repetir a familia do papel original AS criangas muitas vezes so preparadas para cuidar da dor os pais. Sao ensinadas ou realmente doutrinadas, na crenca 3 Jon Baosaw de que o verdadeiro amor é desistir da sua personalidade. O seu papel na familia € o do zelador,e muitas vezes continuam zelando pela familia o resto da vida. Quanto mais disfuncional for uma familia, mais rigidos se tornam os papéis familiares. Numa familia envergonhada pela pobreza, uma crianga pode assumir o papel de estrela, heréi ou herotna familiar para dar & familia um senso de dig nidade. Quando os pais sao irresponsdveis, uma crianga mais velha muitas vezes se torna 0 pequeno pai ou mée para os irmios e irmas. Minerva era 0 que se chama de crianca perdida no tra- balho com sistemas familiares. Uma crianga perdida é uma crianga que nao foi planejada ou desejada. Uma crianga per- dida muitas vezes sofre ressentimentos. Ela costuma se adap- tar a ser imperceptivel, isolada e silenciosa. Garotos perdidos freqiientemente se tornam “o bom filho/filha” na familia, conformando-se e néo incomodando ninguém. Na infancia, Minerva sempre se comportou de maneira perfeita; cla sempre fez a coisa certa, Minerva foi o resultado de uma gravidez acidental; seus pais ainda eram adolescentes quando ela nasceu: A infancia de Minerva nao teve nenhuma protego ou amor paterno, Seu pai era um alcodlatra. Minerva se lembra dele amaldigoando-a e dizendo que queria que cla nunca hou- vesse nascido. Nunca estava por perto e, no inicio da sua ado- lescéncia, jé a havia abandonado. A mie de Minerva sempre a culpou secretamente pelo seu casamento prematuro e pelo fardo do comportamento irresponsdvel do marido alcodlatra. Minerva deixou 0 lar assim que se formou no segundo grau e comegou uma longa e opressiva carreira profissional. Embora ela fosse o que qualquer empresa chamaria de funciondria-modelo, sofria muito no trabalho. Nos seus trinta € cinco anos como secretéria executiva, s6 tivera trés chefes, € descreveu todos os trés como vaidosos, insensiveis e sem consideragao. Quando procurou a terapia, sua vida profissional estava pior. Uma empresa em que trabalhara durante quinze anos se ACRAGLO.DO ANOR » fundiu a outra maior. Ela foi rebaixada e teve o salério reduzi- do, e seu proprio emprego estava ameacado. O novo chefe era yinte anos mais jovem que ela, arrogante e estiipido. Durante anos ela se levantara as 5 da manha, pegara um Onibus para.o trabalho e voltara para casa as 6 da tarde. Praticamente no tinha vida particular, ¢ agora a sua vida profissional era de constante presso. Percebera que a nova empresa queria se livrar dos empregados “mais antigos” Nao pude deixar de pensar na sua vida em termos do mito de Sisifo — a hist6ria do homem condenado a empurrar morro acima uma pedra todo dia, sabendo que, quando che- sasse perto do topo, ela simplesmente rolaria de novo e ele teria de comecar tudo de novo, dia apés dia, ano aps ano. Minerva nunca soube que tinha outras escolhas. Ela estava perdida num relacionamento mistificado com os che- fees, que eram substitutos paternos no trabalho, Ao sempre tentar fazer a coisa certa e agradar aos chefes, ela estava re vendo 0 relacionamento original com o pai insensfvel e dis- tante, Muitas pessoas revivem seus relacionamentos-fonte mistificados no trabalho. Seus escritérios se tornam réplicas de suas familias de origem, Falarei mais sobre isto depois. Sabotar a felicidade por lealdade a figuras-fonte Muitas pessoas sabotam suas proprias chances de serem feli Zes ou de terem sucesso no exato momento em que elas esto 0 seu alcance, Esse comportamento aparentemente il6gico se deve & culpa t6xica da crianga interior. A culpa saudavel € necessaria; é a nossa consciéncia Moral. Mas a culpa t6xica € um conjunto de vozes na nossa cabega dizendo-nos que ndo temos direito a uma vida propria, nenhum direito de sermos mais felizes do que nossas figuras- fonte. Essas vozes podem nos levar a sabotar repetidas vezes 4 nossa felicidade. Joe nao consegue se arriscar. Varias vezes Ihe oferece- Tam trabalhos novos que © ajudariam a subir na vida. Bem no a Jorn Branstaw momento da decisdo, ele era levado & néusea pela ansiedade. E sempre desistia do novo emprego. O pai de Joe trabalhara na mesma usina de ago por trinta € cinco anos. Ele constantemente reclamava do emprego dizia que s6 mantinha porque a familia precisava dos bene- ficios. Em casa ele cra raivoso ¢ infantil quando no conse- guia 0 que queria. Um dos seus ditos favoritos era: “Pelo menos nao sou um sucesso de araque.” Em outras ocasides, levava Joe para um canto e the fazia longos e tediosos ser- moes sobre como estar atento a novas oportunidades e como tirar vantagem delas. Gretel continuamente acusou o marido de ter casos, embora suas acusages nao se bascassem nos fatos. Se ligasse para 0 marido no trabalho e ele nao atendesse imediatamente, cla interpretava 0 atraso como causado por alguma forma de safadeza. Se ouvisse uma mulher rindo ao fundo, ela gritava com ele pelo telefone. Depois de dez anos deste comporta- mento por parte de Gretel, o marido pediu o divércio, De coragao partido, ela admitiu que ele fora um marido fiel. Mas sua mée Ihe dissera vérias e varias vezes que nenhum homem Pode ser fic!. “Simplesmente nao é a natureza deles”, dizia a mae. “Eles no podem evitar, Assim, é melhor se preparar para o pior.” Ela provocara 0 marido a provar que a mde estava certa. Gretel acabou vivendo com a mie, compartilhando sua solidao e isolamento. Ela garantiu que nunca seria mais feliz que a mae. Encontrarmos pessoas que so 0 oposto de uma figura-fonte... e terminarmos exatamente como a figura-fonte que detestamos Maco veio me procurar porque se sentia um covarde no casa- mento. No inicio ele gostava do fato de sua esposa, Guinevere, ser um “pedago de mau camino”. Ela exibia 0 corpo e adorava os olhares liibricos dos homens. No inicio isto excitou Maco, mas com o tempo seus sentimentos muda- ‘A.CaAGIONO Avon a ram. Comegou a sentir-se envergonhado e incapaz. A medida que explorava os relacionamentos-fonte, eu soube que a espo- sa de Maco era uma vitima de incesto sem tratamento; quan- do crianga, o pai a bolinara em vérias ocasiGes. Mas ela se recusou a aceitar minha forte convicedo de que esta era uma forma de incesto. Como qualquer vitima de incesto, ela tinha um profundo sentimento de vergonha. Também morria de medo do abandono. Seu pai era um alcoGlatra expansivo que costumava fazer investidas sexuais. Ela testemunhou um dos casos do pai. Além disso, ela era a confidente e protetora da mie. Sua mae morria de medo de ser abandonada pelo mari- do, ¢ Guinevere herdou este terror. pai de Maco era um tirano, viciado em ataques de raiva e um fanatico religioso, A mae de Maco era passiva e submissa. Maco se identificou com a mi ‘resceu como um zaroto desajeitado e quieto. Ele era extremamente fechado emocionalmente e terrivelmente timido. Quando se conheceram na faculdade, Maco nao podia acreditar que Guinevere estivesse interessada nele. Na verda- de, ele era exatamente o que ela queria, Se ela era 0 exato oposto da submissa mae dele, ele era 0 exato oposto do pai dela. Ele a adorava, ¢ ela podia jogar com sua sensualidade com a certeza de que ele nunca se afastaria. Ao se casarem, Maco € a esposa criaram 0 exato oposto dos casamentos de seus pais. Paradoxalmente, a esposa de Maco era aleodlatra e esta- va tendo casos exatamente como seu pai. Observei freqtiente- mente este padrdo em casais que pareciam ter casamentos que eram 0 exato oposto dos casamentos de seus pais: um ou ambos os parceiros agiriam como 0 progenitor de que menos gostavam. Neste caso, a esposa de Maco estava agindo exata- mente como o pai que ela conscientemente desprezava, € Maco estava agindo como a mde com quem era ligado, mas de quem secretamente tinha pena e ndo gostava. ‘Todos estes frustrantes comportamentos amorosos esto enraizados na mistificagao. JON Buosiaw QUESTIONARIO DA MISTIFICAGAO, Acredito que todos nés somos mistificados até certo ponto. Ninguém responde inteiramente ao convite da vida. Ainda assim, parece que as vidas mais plenas séio as menos mistifi- cadas. Qual o seu grau de resposta & vida? Cheque o seu nivel de mistificagao marcando um X na linha apropriada, Amor ¢ relacionamento em geral 1, Amar significa doar-se e desistir de suas necessidades pelo outro. ie Nunca 2. Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4. —— Quase sempre. 2. A pessoa “certa” aparecerd se voce estiver disposto a espe- rar. 1. Nunca 2. —— Ocasionalmente 3.—< Freqtientemente 4. Quase sempre 3. Meu amor pode mudar o comportamento de outra pessoa. 1 Nunca 2. — Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4. —— Quase sempre 4, Eu “me apaixono” rapidamente por potenciais amantes. ie Nunca 2, — Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4, —- Quase sempre 5. Eu permanego nos relacionamentos muito tempo depois de (ja nao haver qualquer crescimento. 1 Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Freqtientemente 4. —“— Quase sempre A CRACLODO ANoR i 6. Fui molestado por alguém que amo (abusos incluem aban- dono e negligéncia).. Nunca 2. —— Ocasionalmente 4. —— Quase sempre 1 3. —— Freqtientemente 7, 14 molestei alguém que amo. 1.——Nunea 2, — Ocasionalmente 3.——Freqlientemente 4. Quase sempre Paternidade 8.0 compromisso com os filhos é mais importante do que 0 compromisso com 0 cOnjuge ou amigo. 2. —— Ocasionalmente ‘Quase sempre 1.—Nunea 3.——Freqlientemente 4, 9, Deve-se amar os pais mais do que qualquer outra pessoa na vida, 1 3.——Freqtientemente 4. Nunca 2. —— Ocasionalmente Quase sempre 10. Ja fui acusado/a de ser excessivamente controladora com ‘meus filhos. 1 Nunca 3 Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4, —— Quase sempre Personalidade 11, Acho que sou um fracasso quando meus relacionamentos no dao certo. ! Nunea_ 2, Ocasionalmente 3. —— Freqiientemente 4. —< Quase sempre a Jor Besosiaw 12. Comparo-me as outras pessoas. qe Nunca 2 Ocasionalmente 3.___Freqiientemente 4. Quase sempre Amizade 13. Tenho dificuldades de estabelecer boas amizades. i Nunca 2. 3. Freqientemente 4, Ocasionalmente Quase sempre 14. Tenho dificuldades em manter relacionamentos. Ly Nunca a 3. Freqiientemente 4. —_Ocasionalmente Quase sempre 15. Amizades estio no fundo da minha escala de valores de relacionamentos pessoais. (Ao responder, observe 0 seu ‘comportamento atual.) ae Nunca 3. Ds Ocasionalmente Freqlentemente 4, ‘Quase sempre Amor conjugal Isto inclui quaisquer relacionamentos de compromisso (ho- mossexual, viver junto, casamento legal). 16. Meu parceiro me acusou de ser controlador demais, 1 3: Nunca 2.__= Ocasionalmente Freqiientemente 4. ‘Quase sempre ACaaciono Avo 5 177. J4 tive relacionamentos de compromisso sem conflitos. 1; ‘Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Fregiientemente 4. Quase sempre 18. Guardo “segredos” (coisas de que tenho vergonha, por exemplo: fantasias sexuais) do meu parceiro/a. 1 Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Frequentemente 4, —— Quase sempre 19. A “lua-de-mel” pode durar para sempre se voc se esfor- gar. Nunca 2.—— Ocasionalmente Freqilentemente 4, Quase sempre 1 3 Deus 20, Vocé pode saber qual é a vontade de Deus com relagao a vocé mesmo. 1. —— Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4. —— Quase sempre 2. Deus nos castiga por nossos fracassos no amor. 1, Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4, —— Quase sempre Mundo 22. 0 trabalho € mais importante do que qualquer outro rela- cionamento. (Quem nao trabalha nao come.) 1 Nunca 2 3.——Fregiientemente 4. Ocasionalmente Quase sempre 6 Jor Beosiaw 23. A ago politica é uma perda de tempo. (Pense sobre o seu comportamento real neste aspecto. Quanto tempo voce realmente dé para a politica?) 1 Nunca 2. Ocasionalmente 3.—— Freqlientemente 4. —— Quase sempre 24. A terra e suas riquezas esto aqui para o uso ¢ prazer dos seres humanos. 1,— Nunca 2. 3.——Freqiientemente 4. Ocasionalmente Quase sempre 25. Depois de Deus, 0 patriotismo € 0 nosso valor mais alto. 1. Nunca 2, —— Ocasionalmente 3.——Freqiientemente 4, Quase sempre Para contar os pontos deste teste, olhe para os nimeros Junto da sua opgao. Some os vinte e cinco nimeros checados. Nivel de mistificagdo. Se vocé marcou: 25-35 Nao-mistificado 36-55 Leve 56-70 Alguma intensidade \ 71-90. Intenso 91-100 Grave Este teste no é cientifico, Baseia-se apenas na minha experiéncia e nas minhas crengas quanto ao amor ¢ aos rela- cionamentos mistificados. Se concorda com minhas crengas, vocé pode levar este teste muito a sério. Niveis altos (intenso a grave) de mistificagdo significam que vocé esté num transe, vivendo a sua vida presente com uma parte sua congelada no ‘A Cuackooo AvioR a passado. A sua vida é uma reciclagem de problemas da infan- cia, Se nao fizer alguma coisa quanto & sua mistificagio, voce pode ir para o timulo sem nunca ter sabido quem realmente é, Pode viver a vida toda sem nunca ter nascido. Nao conhego tragédia maior. CAPITULO 2 As fontes do amor mistificado Neohum problema social é 120 universal quanto 2 opressio infantil. Nenhum {seravo jd foi tanto propriedade do seu senhor quanto a crianga & do progenitor... Nunca os direitos humanos foram fo deseonsiderados quanto no caso da ctianga MARIA MONTESSORI (seu pai s6 Ihe dava uma aceitagao condicionall — e a condigao era que cla realizasse afantasia que ele fazia a respeito dela, Ela descobriu, para sua afligfo, que $6 se sentia amada quando nio eslava sendo ela thesma. JOEL CoviTZ, Certo dia, Wayne Kritzberg, um pioneiro no trabalho com criangas adultas, e eu estévamos caminhando no estaciona- mento do Grand Hotel em Houston, Texas. Estévamos con- versando animadamente sobre os métodos de cura da crianca interior quando um grande saco de lixo caiu do céu no pavi- mento A nossa dircita. Provavelmente veio do terceiro ou quarto andar da garagem, mas foi como se viesse de parte alguma. Passei por ele andando, continuando a falar sem Parar um segundo. Wayne se deteve e com alguma irritagao exclamou: “De onde veio isso?” Naquele momento me acor- reu que sacos de lixo simplesmente ndo caem do nada. A res- posta de Wayne foi muito mais apropriada do que a minha. Ento percebi que, em termos das minhas primeiras experién- cias de vida numa familia de alcoslatras, sacos de lixo des- Pencando misteriosamente do céu eram café-pequeno! Nem chegavam a quebrar a cadéncia da fala! ACtacion0 ANOR #9 E uma boa ilustracdo do poder hipnético da nossa fami- lia original. Aquilo com que crescemos passa a ser visto como normal, A nossa infancia € como o ar que respiramos — esquecemo-nos dela. Como os peixes, que ndo sabem que vivem na 4gua até serem retirados dela, ndo temos conscién- cia do nosso ambiente de infancia. A analogia trépega, mas 4 para passar a idéia. Os ambientes nos cercam a tal ponto, que nos esquecemos deles. Sé podemos compreendé-los quando estamos fora deles. Podemos ver o impacto pleno da nossa familia de ori- ‘gem apenas quando estamos longe o bastante para vé-la obje~ tivamente. Existem muitas maneiras de deixar a familia de origem, i em a feererns nal Forme eet or ipso for muito apegada emocionalmente, pode ser a menos signi cativa, Outras formas incluem desistir do rfgido papel na famf- lia de origem ou quebrar as regras da familia. Discutiremos os papéis e regras familiares neste capitulo. ‘A maneira mais poderosa e dramética de abandonar a familia de origem ¢ fazer o que foi chamado de trabalho sobre dor original. A dor original se refere aos sentimentos do ini- cio da infancia que 6 individuo teve de reprimir, ou devido & severidade do trauma, ou porque expressar esses scntimentos era perigoso. Essas emogées teprimidas nos mantém presos ao clima emocional da familia, que € composto basicamente das emogdes de nossos pai e mae. Mas, se podemos sentir nossa propria magoa e raiva, reconciliamo-nos com nds mes- ‘mos. Sentir nossos prOprios sentimentos € a maneira de rom- Permos com o clima emocional da nossa familia. O estagio mais recente no meu proprio crescimento Scorteu depois de varios anos de trabalho sobre a dor origi- nal. Enquanto me distanciava do clima emocional da minha familia, comecei a ver claramente que muito do que eu via como amor na minha familia de origem nao era realmente amor. Isso nao significa que meus av6s, pais © parentes nao amassem. Do ponto de vista subjetivo, muitos membros da 0 Jot Baosiaw minha familia amavam de maneira apaixonada e desinteressa- da. Eu jd descrevi o poder do amor da minha mae. O que vim a entender foi que, falando objetivamente, o que eles chama- vam de amor era uma forma parcial e defeituosa de amar. Na verdade, agora acredito que muitos aspectos das regras nor- ‘mais que-a maioria dos pais respons4veis seguia, quando eu era crianga, eram abusivos, Na infaincia nunca questionei as erengas ¢ comportamen- tos relacionados com o amor que serviram de modelo para mim; eles formavam a gramética a partir da qual construi minha linguagem do amor. Quando essa linguagem falhava (0 que quase sempre acontecia), eu pensava que havia algo de errado comigo. Eu jé estava profundamente atolado na vergo- nha t6xica, Assim, nunca me ocorreu que toda a minha nogao de amor estava mistificada. Acho que a maioria das pessoas tem um conceito de amor que nunca questionou. Pessoas cuja vida emocional seja muito pobre so muito eloqientes quanto A natureza do amor. Parecem acreditar que sabem 0 que é 0 amor. As pessoas raramente pensam que a razdo dos seus fracassos no amor é o fato de julgarem ser amor o que ndo é realmente amor. MISTIFICACAO CULTURAL Durante a maior parte da sua histéria, a psicoterapia operou como se os problemas emocionais se originassem da psique de uma pessoa. As pessoas certamente experimentam a misti- ficagao e a vergonha téxica operando dentro de si. Mas a mis- ficagao © a vergonha toxica sao 0 resultado do que eram ori- ginalmente transagdes interpessoais. A vergonha t6xica se origina de fora da psique da pessoa, nos primeiros relaciona- mentos. Inicialmente, aprendi as regras do amor com a minha familia, mas a maioria das regras da minha familia se basea- ‘vam nos ensinamentos da nossa cultura patriarcal. ACRAGAO DO AMOR As regras do patriarcado © dicionsrio define “patriarcado” como uma “organizagdo social marcada pela supremacia do pai nas fungdes domésti- cas ¢ religiosas do cla ou familia”. O termo “patriarca” vem dos pais do judaico-cristianismo, Abraio, Isaac ¢ Jacé, © cos- tuma ser usado para se referir ao fundador de uma religiao, cla ou raga, Um rei também é um patriarca. O patriarcado se caracteriza pelo dominio ¢ poder masculinos. Nos sistemas patriarcais as mulheres e criangas ndo tém direitos legais. A maior parte da histéria humana foi dominada pelo patriarca- do. patriarcado funcionava no passado, quando a vida era inais dificil ¢ a seguranca basica era a preocupagao de todos. ‘A unido baseada nos lagos de sangue garantia a sobrevivén- cia. No passado as familias também procuravam a protegao de poderosos reis ou donos de terra. A sua sobrevivéncia dependia do rei, e, portanto, era essencial a obediéncia e leal- dade ao rei, Duzentos anos atrés, as Revolugdes Francesa € Americana comegaram a nos despertar do nosso transe patriarcal coletivo. Mas as regras patriarcais ainda governam a maioria das religides, sistemas escolares ¢ sistemas familia- res do mundo. As regras mais nocivas so: + Obediéncia cega. Deve-se obedecer independente do contetido do comando, porque o prdprio ato de obede- cer € virtuoso. A obediéncia cega é 0 fundamento do patriarcado. Na tradigZo judaico-crista, Abrago leva 0 filho para a montanha para maté-lo em obediéncia a Deus. Num patriarcado puro, 0 ato de obedecer, mesmo que signifique matar 0 proprio filho,€ virtuoso. Este € 0 ponto crucial da obediéncia cega. Nenhum rei Pode querer um sistema de dominio ou planejar um sistema melhor para fazer com que seus stiditos se con- formem as suas regras. Nos contextos religiosos ¢ Paternais, os individuos stio encorajados a obedecer Cegamente as regras ¢ A autoridade dos lideres. E uma 82 Jorn Braosiaw das regras é nunca desobedecer as regras. O mero questionamento de uma regra € considerado desobe- digncia. +A repressiio de todas as emogdes, exceto 0 medo. A raiva € especialmente repreensivel. Uma vez que tenhamos perdido nossa capacidade de sentir raiva, tornamo-nos capachos obsequiosos; tornamo-nos to bonzinhos, que nao temos mais a paixdo de lutar pelas coisas em que acreditamos. +A destruicao da vontade individual. O patriarcado detesta criangas voluntariosas e exuberantes: slo difi- ceis de controlar. A destruigio da vontade de uma crianga deixa-a com duas escolhas: conformar-se ou rebelar-se. Esse estado polarizado a questao nuclear para todas as criangas adultas, * A represstio do pensamento quando foge da mancira de pensar da autoridade. De maneira estranha e paradoxal, essas regras perdura- vam mesmo que a democracia politica estivesse avangando Ninguém parecia notar que, enquanto as estruturas democriti- cas estavam sendo criadas em outras areas, a infancia ainda era um regime autocratico. Um grande avango na consciéneia ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial, Considero os julgamentos de Nuremberg como um ponto-chave de mudanga na historia humana. Os criminosos de guerra nazistas escutaram que nao poderiam dizer-se inocentes porque deviam obediéncia & autoridade do Estado. Ficou claro que os homens em julga- mento nao se consideravam maus. Em muitos casos, haviam sido ensinados a ter uma rigida obediéncia crista. Haviam crescido obedecendo & vontade da autoridade; haviam cresci- do sendo fisicamente punidos. Eram perfeitos espécimes do puro patriarcado. O fenémeno nazista sublinhou o perigo inerente as regras de criagdo patriarcais. Enquanto estas regras forem a ‘A Cragio.D0 Awot 3 forma dominante de educagio infantil, sempre seré possivel o surgimento de um sistema social totalitario. Erik Erikson sugere que “o fantasma de Hitler esta contando com isso”. A partir da sua propria criagao patriarcal, meus pais € parentes aprenderam que o amor se baseava em poder, con- trole, segredo, vergonha, repressdo das emoges e conformi dade da vontade do individuo & vontade de outro e dos pensa- mentos do individuo aos pensamentos de outro. Essas no so as bases para um amor humano saudavel. ‘Quero deixar claro que o patriarcado nao é sé 0 dominio maseulino; regras patriarcais podem ser administradas por mulheres. Muitas mulheres criadas em familias patriarcais sGo tio controladoras € repressoras quanto seus modelos mas- culinos, Meninos criados por essas mulheres podem sofrer sétios danos no seu senso de masculinidade, patriarcado nao é sempre bom para os homens, exceto para aqueles no topo da estrutura patriarcal. Os pais patriar- cais so especialmente duros para a personalidade dos filhos. Mas, acima de tudo, o patriarcado viola as mulheres Todos os papéis masculinos e femininos com que cresci foram formados por crengas patriarcais. © meu avé era gentil © generoso, mas seu conhecimento era bastante limitado. Ninguém na nossa familia desafiava abertamente seu ponto de vista, mesmo que discordasse dele, Eu nunca expressava um sentimento se fosse contrério ao que ele esperava de mim. Minha mée foi criada para ser uma dona-de-casa, Ela sentiu-se diminufda como mulher quando foi forgada a traba- thar, A razo de ela nao conseguir um sustento decente foi a estrutura patriarcal do mundo do trabalho. Lembro-me de uma cliente que fora severamente opri- mida por ser mulher. O seu pai queria um menino. Quando cla tinha trés anos de idade, os pais tiveram gémeos. Os gémeos eram os favoritos da familia; recebiam toda a aten- £80. O seu pai achava que a educag&o era uma perda de fempo para as mulheres, e deixou claro para minha cliente ue as mulheres eram inferiores. Ele a fez trabalhar na ado- lesc8ncia para ajudar os gémeos a terem uma educagéo supe- tor. Mais tarde minha cliente conseguiu se formar numa s Jom Bupsiaw escola noturna. Quando comegou sua carreira, encontrou mui- tos obstaculos causados pelo machismo. Sofreu investidas sexuais e perdeu uma promogdo porque se recusou a ir para a cama com o patrao. Essa mulher recebia estas mensagens: Do pai: Ha algo de errado com o seu sexo. Eu a amaria mais se vocé nao fosse mulher. Da cultura: Os homens so mais importantes do que as mulheres. Os homens valem mais do que elas. As mulheres s6 so valiosas quando satisfazem as necessidades dos homens. Mesmo sem o seu pai patriarcal controlador, esta cliente teria experimentado mistificagdo em virtude de ser mulher. Todos herdam algum grau de mistificagao cultural. De que outra mancira poderia ser? Somos avaliados desde o nosso nascimento, e é melhor que correspondamos &s expec- tativas. Ser avaliado e néio corresponder é experimentar a si mesmo como defeituoso — imperfeito de maneira essencial. Este profundo senso de deficiéncia é uma ferida existencial. Ewa chamo de vergonha tdxica: ninguém escapa dela inteira- mente. MISTIFICACAO FAMILIAR Nossos pais nos passaram os valores da nossa cultura, mas no sabfamos nada disso no princfpio, Nosso pai e nossa mie foram nossa primeira experiéncia de poderes superiores, Eles eram deuses; sabiam de tudo. Nao tinhamos por que descon- fiar deles, pelo menos no infcio. Nascemos com um senso inconsciente de nossa propria imtegridade e unidade, Nao havia divisio dentro ou fora de nés. Est4vamos unidos conosco e com o mundo. AChackovo AOR 55 ‘Ainda unidos com a fonte materna, éramos inconscien- tes. Precis4vamos conhecer conscientemente a nés mesmos, € para fazer isso carecfamos do rosto refletor da mae. Precisdvamos ser aceitos ¢ refletidos exatamente como éra-~ ‘mos, porque o que quer que tenha sido refletido pelo rosto da nossa mae se tornou nossa personalidade primeva; ¢ assim rejeitamos qualquer parte nossa que ela tenha rejeitado. Se ela nos réjeitou inteiramente, se ndo nos quis, rejeitamo-nos totalmente. Sentimo-nos vazios e sem valor. Mont psicolégica ‘iquanto crescfamos, tivemos muitas outras necessidades de dependéncia de desenvolvimento. Precisamos ser tocados abragados, alimentados e vestidos. Precisamos ser curiosos, experimentar todos os nossos sentimentos, necessidades e desejos. Precisamos ser afirmados e encorajados. Precisamos de uma estrutura segura para podermos crescer e aprender. Aquilo de que precisamos acima de tudo foi a permissao de ser distinto, de ser diferente das nossas figuras-fonte. A sepa- rag nos permitiu a individualizagao e a auto-realizaco. Sem a separagfo, nunca poderiamos ter conseguido nosso segundo nascimento, ou nascimento psicol6gico. O fra- asso na separago, na quebra da ligag4o com nossa fonte materna, significaria a morte psicolégica. A morte psicol6gi- caé muito comum. David Cooper, o psiquiatra existencialista, escreveu: Algumas pessoas, na verdade muitas pessoas, nunca nasceram, ou, que € mais comum, seus nascimentos foram apenas um evento nebuloso, e suas vidas repre- sentam apenas uma forma marginal de existéncia. Chamo as pessoas que nunca nasceram psicologicamen- ‘e de maneira total de mistificadas. O fracasso de alcangar 0 Segundo nascimento é 0 primeiro e mais profundo nivel de Mistificagdo, 5 JOHN Basia Existem graus desta derrota. Algumas se separam, mas 86 condicionalmente. A mensagem que receberam foi: voce pode se separar se me honrar e agradar sempre. Ou vocé pode Se scparar para se tornar aquilo que eu quero que seja. Ou vocé pode se separar se cuidar da minha dor. Algumas pessoas ndo conseguem se separar; foram feri- das fisica, sexual ou emocionalmente com tanta gravidade, ~que-confundem sua personalidade auténtica com a personali dade do motestador, Isto € mais comum a pessoas de carter abusivo. Elas costumam molestar 0s outros exatamente do modo como foram molestadas. Perderam sua personalidade com o abuso e se identificaram com seus algozes Confundiram-se com o molestador. Muitos de nés nunca desistimos completamente da nossa verdadeira personalidade, mas nos escondemos. Descobrimos que s6 somos amados e valorizados quando ndo somos nds mesmos. Joel Covitz, no seu poderoso livro Emo- tional Child Abuse (Abuso Emocional Infantil), descreve uma_ mulher que passava de um relacionamento destrutivo ¢ sub- misso com um homem para outro, Quando finalmente procu- rou ajuda, ela tragou seus problemas até seu pai, rigidamente autoritério. Ele decidiu como seria a sua vida antes que cla nascesse. Covitz escreveu: “Ela aprendeu, para seu horror, que s0'se sentia amada quando ndo era ela mesma.” Engoli em seco no momento em que li a parte grifada desta citagio. Fu sabia exatamente o que queria dizer. E sus- Peito que voc também saiba. Muitos de nds conhecem esse falso amor, condicional ¢ danoso para o espirito. O nosso pré- prio. amor mistificado esta enraizado nele. Esse é 0 segundo nivel de mistificagio — sentir e achar que s6.é digno-de amor se vocé ndo é vocé mesmo. Esta ferida nao é tio profun- da quanto nao nascer psicologicamente, mas 6 profunda o bastante. E 0 suficiente para encolher a nossa vida de modo a nos fazer viver apenas “uma forma marginal de existéncia”. ‘A CaACHO D0 ANOR a OITO BLOQUEIOS NO ENTENDIMENTO DA MISTIFICACAO impossivel compreender as fontes da mistificago da nossa crianga interior ferida de uma s6 vez. Peco que se mantenha a mente aberta. Existem pelo menos oito bloqueios para 0 reco- nhecimento da verdade: 1. Todos somos mistificados até certo ponto — ainda dormindo no nosso transe original, vivendo o papel de que o nosso sistema familiar precisava para manter 0 equilibrio e 0 controle. . As regras patriarcais com que fomos criados esmaga- ram nossa forca de vontade. Aprendemos que deve- ‘mos obedecer a qualquer adulto, simplesmente porque eram adultos, ¢ que o ato de obedecer era virtuoso por si s6. Ou acreditévamos em nossos pais como escra- vos € desistiamos das nossas vontades para nos con- formarmos, ou nos tomavamos rebeldes compulsivos viciados em desafiar as regras e a autoridade. Desde a idade mais tenra, os nossos sentimentos — curiosidade, excitagio, alegria, medo, tristeza e espe- cialmente a raiva autoprotetora — foram envergonha- dos. Para nos defendermos do doloroso sentimento da vergonha, aprendemos a entorpecer nossos sentimen- tos. A medida que nos entorpecemos, mais e mais nao sabemos 0 que sentimos ou quem somos, . Aprendemos desde cedo a nao pensar por nés mes- ‘mos. Nossas prOprias idéias opinides foram desvalo- rizadas e/ou envergonhadas. Como resultado, nao confiamos mais nelas. . Nossas necessidades foram humilhadas, especialmen- te nossa necessidade de poder. Também humilhavam nossa necessidade de sentir tristeza. A tristeza é 0 sen- timento da cura. Como nio podfamos sentir tristeza, nao conseguimos realmente saber 0 que estava acon- tecendo conosco. 8 Joss Buosiaw 6. A humilhago dos nossos desejos, sentimentos, pensa- mentos e necessidades nos conduziu a confusio e & morte psicolégicas. Sem os nossos poderes humanos, naturais, no podemos realmente saber 0 que aconte- ‘ceu conosco. 7, Ensinaram-nos que desonrarfamos nossos pais se pen- séssemos de maneira critica sobre suas maneiras de agir. Ensinaram-nos a suprema regra paterna — nunca questione as regras paternas. 8. Fomos preparados para cuidar das vidas ndo-vividas de nossos pais. Como fomos envolvidos nos seus abu- sos, desapontamentos e vazio nfo-resolvidos, no temos como nos separar deles ¢ nenhum tempo para desenvolver nosso proprio potencial emergente, Cada um destes bloqueios seré um fator de maior ou menor importéncia, dependendo do seu grau de mistificago, A FAMILIA COMO UM SISTEMA SOCIAL LIMITADO POR REGRAS Surgiu um novo conhecimento nos iiltimos quarenta anos que ‘nos mostra como podemos continuar inconscientes da mistifi- cago cultural que a nossa familia passa para nés. Esse novo conhecimento também pode nos ajudar a entender como nossa familia, como um sistema social limitado por regras, cria uma “mente grupal” semelhante a um transe que bloqueia ‘© nosso entendimento da mistificacdo. As familias sio sistemas onde cada individuo é impacta- do por todos 0s outros. O todo, poderiamos dizer, é maior (tem mais impacto) do que qualquer combinagao das partes Qualquer desordem no relacionamento matrimonial primério afetard a capacidade dos demais membros da familia de satis- fazer suas necessidades. A desordem pode se relacionar a A Cencio.0 Avo 9 vicio, pobreza, doenga, doenca mental, suicidio, morte ou qualquer outra tragédia. Qualquer fator que cause perturba- Ges em um membro da familia afetaré todo o sistema fami- liar. Quanto mais severa a perturbagao, mais obcecard os familiares. A perturbagao induz transe, porque causa a fixa- ¢do mental ¢ diminui a possibilidade de escotha. Quamto maior a perturbagdo, maiores as possibilidades de transe. Familias funcionais Uma maneira de entender 0 que constitui a funcionalidade numa familia € dividir a palavra responsabilidade em inglés: response-ability — habilidade ou capacidade de resposta. Ser capaz. de responder € uma habilidade. As familias funcionais sfio criadas por pessoas funcionais. As pessoas funcionais tém capacidade para responder entre si aos sentimentos, necessi- dades e desejos. Nas familias funcionais, todos os membros podem exprimir o que sentem, pensam, precisam ou desejam. Os problemas so enfrentados de maneira aberta e eficaz. Uma vez. conheci um pastor cuja familia me ilustrou vividamente a funcionalidade. Um dos trés filhos dessa far lia morreu num tragico acidente aos seis anos. Ele tocou num fio desencapado deixado por uma equipe de reparos e foi ele- trocutado enquanto o resto da familia assistia, impotente. Os filhos restantes, na época uma menina de trés anos ¢ um menino de quatro, foram profundamente abalados pela morte do irmao. O pastor e a esposa ficaram arrasados. Conheci esse homem e a esposa num workshop para Pastores e suas mulheres. Eles me contaram sua hist6ria depois, numa viagem de carro de duas horas até o aeroporto. Disseram que a familia toda foi se tratar. O pai e a mae entra- Tam num grupo de apoio para pais abalados, e os filhos, em erupos apropriados para suas idades. Foram ajudados a atra- essar os varios estigios da tristeza, Estavam comegando 0 Seu rerceiro ano desse tipo de trabalho. 0 Join Braosiaw A familia inteira se encontrava de tempos em tempos ¢ se escutava mutuamente. Os sentimentos de cada membro eram valorizados e pensados; as necessidades de cada mem- bro eram levadas em consideragdo. A filha mais nova se expressava melhor representando seus sentimentos com bone- cas. Como tinha trés anos na época do acidente, ela ndo podia compreender a finalidade da morte; ficou zangada porque 0 irmfo recebia muita atengao e porque ele ndo estava mais 1d para brincar com ela. O filho mais velho estava confuso e assustado. Estava mais adiantado na capacidade de com- preender a finalidade da morte; precisou de muito apoio social e de calor paterno, O pastor e sua esposa também passaram algum tempo expressando seus sentimentos e escutando-se um 20 outro. Precisavam lidar com seu sentimento de culpa, com seu medo de terem sido de alguma maneira negligentes na supervisio da crianga. Contaram como, no inicio, se culparam um ao ‘outro, como haviam culpado a si mesmos Fiquei profundamente impressionado, Uma familia em que cada membro estava sendo apoiado para conseguir res- Ponder ao evento trégico que afetara suas vidas, Apesar da grande perda, eram verdadeiramente funcionais. Familias disfuncionais Lembro-me de outra familia que teve de enfrentar a morte de uma crianga, Minha cliente tinha onze anos quando seu irméo adolescente — que ela idolatrava — cometeu suicidio. A familia pertencia a alta sociedade e era muito consciente de sua imagem. Eles sentiram vergonha do suicidio ¢ fizeram tudo 0 que foi possfvel para abafé-lo. A minha cliente nao pode nem mesmo ir ao funeral. Ninguém conversou com ela sobre o irmao ou sua morte Mais tarde ela se casou com um homem muito religioso, que cla idolatrava. No entanto, eles nunca conversavam sobre A Cascio DO AWOR 6 qualquer questéo pessoal verdadeiramente importante. Ele citava as Escrituras e filosofava sobre as coisas. Tinham uma filha esquizofrénica que causava grande preocupagao a minha cliente. Quando ela tentou discutir a filha com o marido, ele ficou calado e sugeriu que rezassem por ela, Ele se recusou a vir para a terapia. Ele foi contra o tratamento da esposa, asseverando-Ihe que Jesus era a resposta para o problema da filha e que todos os seus problemas podiam ser resolvidos pela leitura da Biblia. ‘A minha cliente estava muito solitéria. A sua vida adulta a estava confundindo, tal como sua infancia a confundira. Quando garota, a sua familia ignorara a tragédia do suicidio, criando um segredo que todos tinham de suportar. Na maturi- dade ela encontrou um marido que usava a teligido como um tipo de droga e evitava tudo 0 que fosse desagradavel citando as Escrituras ou indo a igreja. Ela ia & igreja com ele. Pareciam uma familia feliz, mas na verdade eram uma familia altamente disfuncional. Nao estavam respondendo aos seus problemas; nao estavam lidan- do com seus sentimentos e necessidades. Esse tipo de disfun- ao € encoberta. Tudo parece bem do lado de fora, mas por dentro nada est sendo trabalhado. Os problemas nao sio resolvidos. Vergonha natural ou saudavel As familias funcionais so criadas por pais que esto em con- tato com sua vergonha saudavel. A vergonha é uma emogio humana inata, A sua fungdo é assinalar nossos limites huma- nos — nossa finitude. Nossa humanidade esta enraizada nos limites. Ser humano é cometer erros, precisar de ajuda e saber {que existe alguma coisa maior do que nés mesmos — algum Poder mais elevado. A vergonha saudavel é um componente essencial da Rossa humanidade. A consciéncia dos limites & necesséria a0 2 Jon Buosiaw nosso equilibrio psicolégico. A vergonha € 0 nosso limite humano primério. Quando perdemos 0 nosso senso saudavel de vergonha, perdemos nossos limites e nossa vergonha se toma t6xica, Entao tentamos ser mais do que humanos (desa- vergonhados) ou menos que humanos (envergonhados). ‘Agimos de maneira mais-que-humana; agindo como se fossemos perfeitos; procurando controlar tudo ¢ todos & nossa volta; procurando o poder obsessivamente; sendo condescen- dentes; criticando, culpando e julgando moralmente os ou- tros; agindo de maneira farisaica; sendo levados a tentar reali- zar demais; agindo como se féssemos superiores a todos os outros, Agimos de maneira menos-que-humana: assumindo a fentidade de um fracasso; permitindo-nos a continua perda do controle, através de um vicio, por exemplo; bancando os inde- fesos ¢ fracos como uma maneira de conseguir poder; usando a estupidez como uma maneira de obrigar 0s outros a fazer 0 que nés mesmos podemos fazer; cronicamente criticando © culpando a nés mesmos; continuamente escolhendo comporta- mentos degradantes; recusando-nos a usar nossas habilidades conhecidas; e tornando-nos cronicamente inferiores A vergonha saudavel é crucial para a funcionalidade. E, ‘como veremos, a vergonha sauddvel € 0 micleo do amor de alma plena. MENOS-QUE-HUMANO- MAIS-QUE-HUMANO, ENVERGONHADO DESAVERGONHADO FRACASSO PERFEITO DESCONTROLADO CONTROLADOR IMPOTENTE E FRACO PODEROSO EstopiD0 PATERNALISTA Aurocefrico Crinco AUTO-ACUSATORIO ‘MORALISTA DEGRADADO. FARISAICO ABAIXO DO SEU POTENCIAL OBCECADO, MUITO ATIVO. INFERIOR ‘SUPERIOR ‘xcaucko0 vox Papéis e regras ‘Todas as familias precisam da estrutura oferecida pelos papéis e regras. Nos casamentos tradicionais, o pai ganha dinheiro, a mie cuida da casa, ¢ os garotos tém tarefas e vaio a escola. Estes sto os papéis familiares. Se a familia € funcional, os papéis s4o flextveis. Quando os tempos mudam e a mde resolve trabalhar, o pai ndo tem um ataque. Um filho nao faz sempre as mesmas tarefas. Ninguém € escolhido para ser bode expiatério, e os papéis tradicionais podem ser invertidos. Nas familias disfuncionais, os papéis so rigidos e infle- x{veis, O sistema patriarcal criou 0 casamento tradicional. Conhego muitos homens patriarcais que se sentem ameacados se as esposas tém carreiras. Uma pessoa é designada como bode expiatério. Pode ser aquele que esté continuamente doente ou que esta sempre se metendo em enrascadas. Eles ocupam a atencdo da familia, abafam os problemas familia res, encobrindo a falta de intimidade e de uniao. Nas familias funcionais, as regras sao flexiveis e nego- cidveis. Nas famflias disfuncionais, as regras sdo rigidas ¢ cadticas. Quanto mais rigidas e inflexiveis forem as regras, mais 0 sistema se torna fechado e fixado. Quanto mais as regras forem técitas e implicitas, mais confundiréo os membros da familia e mais mistificagéo causario. As regras implicitas costumam resultar de uma incon- gruéncia entre o que os pais dizem ¢ o que fazem. Pais que disciplinam. severamente os filhos, mas que so indisciplina- dos, causam muita confusio nos filhos. As familias criam todo o tipo de regras. As familias Pobres tém regras sobre a pobreza. Na minha familia original, a Fegra suprema era: ‘Nao temos o basiante”, Chamo-a de regra da escassez. Todo dia eu escutava: “Nao podemos pagar isso”, ©U"Voeé nao pode ir porque nao temos dinheiro nenhum”. Havia uma regra complementar que dizia: “Nunca seja extravagante”. Ninguém pensaria em gastar dinheiro de Maneira frivola, 6 Jor Buosia Lembro-me de um episédio traumAtico quando cu e minha irma fomos 4 Coston’s Drug Store. Estévamos reali- zando uma tarefa para minha mae, ¢ decidimos comprar-Ihe uma barra de chocolate de presente. Também compramos uma para nés. Eu tinha seis anos, e minha irma, sete Bem, chegamos a casa, e a m. foi jogada no ventilador! Posso sentit © medo ¢ a vergonha neste momento. Nés tinha- mos desperdicado dinheiro; éramos maus. A regra da escassez cra reforgada por outra regra, a regra das criangas famintas no mundo. Cada familia tem sua propria versio dela. Sempre que houvesse um momento de fartura, uma voz paterna recordaria: “Lembrem-se de que existem criangas passando fome na América Latina (Attica, India etc.)." Isso nos traria de volta & “escassez”! Ainda escu- to esta voz quando estou me divertindo, ‘Com os anos, as vozes paternas sao interiorizadas e fun- cionam como vozes internas. No inicio havia um contexto especifico para esta voz; mais tarde, ela se generaliza a todas as éreas da experiéncia. A minha regra familiar sobre dinheiro se tornou uma voz interior que me dizia: “Nao vai haver bastante amor, ami- gos, comida etc.” A regra se estende a tudo. TIPOS DE FAMILIAS DISFUNCIONAIS Acho itil dividir as familias baseadas na vergonha em trés tipos — a cultual, a caética ea corrupta. Cada uma delas se baseia na vergonha & sua propria maneira. As familias cul- tuais encobrem sua vergonha t6xica agindo de maneira mais, que humana e, portanto, desavergonhada. As familias caéticas lidam com sua vergonha t6xica agindo de maneira menos que humana e, conseqiientemente, envergonhada. As familias cor- Tuptas nao conseguem desenvolver qualquer senso de vergo- nha. Sao desavergonhadas, ndo como um disfarce, mas por- que nao desenvolveram um senso de limites. A.caachonO ANCE 65 Cultual, caética ou corrupta — cada tipo tem muitos subtipos dependendo de fatores culturais, econémicos, étni- cos, religiosos e idiossinerésicos. Cada tipo também possui muitos graus de disfungdo. Independente do tipo, todos os membros séio mistifica~ dos em algum grau. As familias casticas negam sua dor ¢ evi- tam seus problemas. As familias cultuais ¢ as corruptas se ilu- dem. Flas sinceramente acreditam que nao tém problemas e minimizam sua dor. Os trés tipos estimulam o amor mistificado. Ha sempre uma regra implicita para 0 amor e a fidelidade, todos os membros devem segui-la, Em cada tipo a regra assume uma forma particular: Familia cultual: “Para merecer meu amor, vocé deve me obedecer sem perguntas.” Familia cadtica: “Preciso que vocé me ame; amarei voce se voc8 me amar.” Fanilia corrupta: “Temos de amar ¢ ficar juntos e men- tir uns pelos outros.’ ‘Todos os tipos de familias disfuncionais so mantidas juntas por um “pensamento grupal”, um estado de conscién- ia semelhante ao transe. O feitigo familiar é langado sobre cada filho de alguma maneira. Os esquemas que comecam na pagina 69 sumarizam os elementos principais de cada tipo. E importante notar que, na vida real, estes tipos nao estdo hecessariamente separados. Muitas familias disfuncionais Possuem elementos de todos os trés tipos. Familias cultuais Um culto foi definido como um sistema fechado que exerce Controle absoluto sobre os pensamentos, sentimentos ¢ dese~ 498 de seus membros. O sistema todo se baseia numa rigida cy JomBunsay ideologia que é considerada sagrada. O sistema, com sua ideologia, é mais importante do que qualquer membro indivi- dual do culto. culto exige pureza de envolvimento e estimula a des- confianga entre seus membros, criando rituais habituais de con- fissdo. O lider manipula o ambiente do culto ¢ estabelece limi- tes rigidos. Todos esses elementos dos cultos podem ser encon- trados nas familias perfeccionistas bascadas na vergonha. ‘A pureza da doutrina pode ser relacionada & f€ religiosa da familia, Os filhos muitas vezes escutam que a sua f€ reli- giosa é a Gnica fé verdadeira; que nunca devem questionar a 6, que o proprio ato de questionar seria um sinal de deseren- a. Em tais familias, a prosperidade muitas vezes é interpreta- da como um sinal do amor especial de Deus. Mas a doutrina familiar nao é necessariamente religiosa; pode ser 0 que mae e pai sustentam como verdadeiro. Os pais cultuais muitas vezes dizem coisas como: “Faga com que eu me orgulhe de vocé”. A implicagio é: se vocé nao for tal como eu quero, ndo vou mais amar vocé. ‘A pureza da doutrina, com a sua exigéncia de obediéncia cega, leva a um fendmeno chamado de “encaixe”. Os psic6lo- gos Flo Conway e Jim Siegelman descrevem 0 “encaixe” como “o processo de fechar a mente, de nio pensar”. O pro- cesso deixa as pessoas dormentes para seus proprios senti- mentos € para 0 mundo ao seu redor. Quando vocé se “encai- xa”, transforma-se numa parte nfo-pensante de uma familia cultual. As familias cultuais exigem obediéncia cega; tentam controlar ambiente o tempo todo. Decidem com quem a crianca pode se associar; escolhem os amigos dos filhos. As regras dos pais séo a Doutrina Sagrada. Os comportamentos so considerados certos ou errados, bons ou maus — nao hé meio-termo. Uma vez que os filhos se encaixem, sao “transe-forma- dos” e repetem as palavras da familia como membros fiéis. Certas palavras ou frases podem ser repetidas vérias vezes. ‘Todos cuidam para que ninguém viole a Doutrina Sagrada. ‘A Ceackono Auak a Irmaos ¢ irms se denunciam sempre que o outro quebra uma regra. "Nas familias funcionais, irmaos aprendem a comparti- Ihar e cooperar uns com os outros. Aprendem a dar e receber, ¢ a fazer acordos; aprendem lealdade e fidelidade. Nas famf- lias disfuncionais cultuais, 0 sistema fraterno € cortado. Irmdos so freqtientemente langados uns contra os outros. Emerge um vigilante olhar familiar indiferenciado (como 0 Grande Irmo). Cada filho se torna uma extensio dos pais. Eu fui patriarca para meu irm&o. Eu o envergonhei e 0 culpei pelos seus erros. Familias cultuais podem ser coercivas, cruéis € puniti vas. Podem ser obcecadas com boas maneiras, ensinando continuamente seus membros a serem cotretos e polidos e a dar a impressao correta. Podem ser obcecadas com rituais; os rituais muitas vezes dizem respeito a hébitos alimentares, reli- gido © comportamento sexual. Nos casos mais extremos, podem até mesmo envolver tortura e satanismo. Perfeccionismo e culpa As regras dominantes nas familias cultuais so 0 perfeccio- nismo ea culpa, A tegra do perfeccionismo € talvez a mais danosa mis- tificadora. © perfeccionismo das familias disfuncionais mais um contexto do que um contevido. Ser perfeito tem a ver com aquilo em que a familia acredita com um fervor rigido. As rigidas crengas familiares criam um contexto para a culpa. Seas coisas vdo mal, é sempre culpa de alguém. O perfeccionismo e a culpa sdo coberturas para lidar com a vergonha téxica. Mas como a vergonha, que se tenta ©Sconder, 0 perfeccionismo e a culpa no tém limites. Voce Runca consegue fazer a coisa direito. Nao importa o que faca, Runca é bom o bastante. © perfeccionismo sempre nos leva a ‘Mais vergonha t6xica. Controle O medo da exposigzo esté no coragdo tomado pela vergonha téxica. O controle nao € um modo de lidar com este medo. Se eu controlo voes, vocé nao pode me expor. O controle nas familias baseadas na vergonha pode se basear no poder ou na fraqueza. O controle nas familias cultuais se baseia no poder. Nas familias casticas os membros aprendem cedo que a fra- queza (e até a loucura) é uma maneira de manipular e contro- lar as pessoas 20 redor. Limites Familias cultuais possuem limites rigidos tanto dentro como fora da familia. Espera-se que os membros lutem por uma perfeita realizagao da Doutrina Sagrada da familia, Isto geral- mente exige auitonegacio e um rigido controle das préprias emogies. Os papéis familiares se baseiam numa hierarquia de poder ¢ numa rigidez patriarcal. As pessoas fora da familia sio consideradas estranhas sem esclarecimento. Sao converti- das em potencial. (Tendo crescido catélico, eu podia certa- mente tentar converter meus amigos no-catdlicos. Mas eu nunca deveria entrar numa igreja ndo-cat6lica, templo ou sinagoga. Fazé-lo seria um pecado.) Membros da familia so. treinados no “gerenciamento das impress6es”, aprendendo a “agir” de maneira correta. Nunca devem falar sobre a familia. para estranhos, Motivagoes © empurrao motivacional mais dominante nas familias cul- tuais € trabalhar duro e cumprit com o dever. As regras esto 14, e uma pessoa amorosa simplesmente faz o que tem de fa- Zer, no importa como ela se sinta. ‘A forma mais comum de amor mistificado nas familias cultuais € 0 amor definido como dever, obrigacdo, auto- ‘Acncko00 AYOR 8 CULTUAL — “DESAVERGONHADA” REGRAS DOMINANTES PODER CONTROLE PERFECCIONISMO CULPA PADRAO DE AMOR MISTIFICADO DEVER OBRIGAGAO AUTO-SACRIFICIO LIMITES RIGIDOS POR DENTROE FOR FORA MOTIVAGOES ‘TRABALHE DURO NAO SINTA CAGTICA — “ENVERGONHADA” REGRA DOMINANTE INCONSISTENCIA PADRAO DE AMOR MISTIFICADO- PROTECAO DEPENDENCIA AMOROSA LIMITES ENREDAMENTO MOTIVACOES ESFORCE-SE a DEIXE-ME CONTENTE 7 Joan Beaosiay ‘ceuciooo Avot n sacrificio e autonegagao. O amor paterno € medido pelas lon-_ [A inconsisténcia € piorada pelo divércio, freqilente nas gas horas que ele trabalha pela familia. © amor da mae est familias cadticas, e por uma série de novos parceiros conju- seu auto-sacrificio, ou seja, em cuidar das criangas. As crianga nis, sejam meros freqilentadores, sejam padrastos. mostram seu amor cumprindo tarefas ou indo trabalhar © mais Bee No entanto, outro tipo de familia caética é a de “duplo cedo possivel. J4 que o sistema familiar € muito mais impor: vyineulo”. Uma regra cria um duplo vinculo, se transmite men- fante do que qualquer individuo dentro dele,ns eriangas apred sagens contradit6rias. Por exemplo, uma regra como “Voces dem que amar significa desistir dos seus proprios desejos. deviam ser mais espontaneos, garotos” cria um duplo vinculo. Se voce é espontdneo porque o exigem, entZio voce no esta realmente sendo espontaneo! E uma situagdo de “se correr 0 bicho pega, se ficar o bicho come”. Isto € um duplo vinculo. Em todos os tipos de familias cadticas, os filhos ficam realmente confusos. Familias caéticas Existem muitas espécies de familias caéticas. Um tipo nao Possui regra nenhuma. Quando nao existem regras, a mensa gem para a crianga é: vocé nao me é importante o bastante ara que cu a eduque estabelecendo limites para vocé. Os pais Situagées inacabadas podem ser criancas adultas cuja crianga interior ferida queira 3 que seus préprios filhos os amem como seus pais nunca ama: Outra questo implicita nas familias caéticas so as situagdes ram, Quando € este 9 caso, nao ha ninguém 1d para o filho. Os inacabadas, Alguns problemas atravessam geragdes sem Pais estéo vivendo no passado, esto tentando satisfazer suas encontrar solugéo. O diélogo seguinte € comum nas familias prdprias necessidades narcisistas. alcodlatras. Agora entendo que criei uma familia castica a0 me rebe- lar contra minha formaggo patriarcal. Em certas dreas, fui Crianga adulta n® 1: “Como esté o problema da mamae extremo oposto e evitei colocar qualquer estrutura nas vid com a bebida?” (Mamie bebe ha trinta anos.) de meus filhos. Varios pais nos anos 60 € no inicio dos Crianca adulta n® 2: “Bem, ela estava indo bem. Deixou fizeram isto. (Algumas pessoas também revertem o processo. de beber na Quaresma, mas voltou no Domingo de Elas crescem numa familia cadtica, ¢ entio estabelecem Pascoa.” (Mamie deixa de beber na Quaresma e reco- Tegras muito rigidas e perfeccionistas no seu proprio lar, mega no Domingo de Pascoa hé trinta anos.) Tornam-se cultuais na tentativa de fugir do caos.) Outro tipo de familia caGtica possui regras rigidas, mi Esta conversa foi repetida durante anos. Nenhuma des- inconsistentes. Os pais podem disciplinar os filhos um boca- sas duas criangas adultas realmente entende a situagao: do, mas serem indisciplinados na sua propria vida. Pais mist mamae ¢ uma alcodlatra doente e precisa de uma intervenc3o ficados muitas vezes sao adultos em um minuto e crianga ‘que enfrente seu grave problema e a leve para os AA e/ou a carentes no outro. Isto € muito confuso para uma crianga. um centro de tratamento, Certo dia ela derrama o leite e 0 pai é paciente e generoso. Esse mesmo didlogo pode ocorrer com o pai, que pode ‘Uma semana depois, derrama o leite ¢ ele fica louco de raiva. S¢F Viciado em sexo, trabalho ou jogo, ou com a mie, que A crianga nunca sabe 0 que vai detond-lo em seguida. Nao ode ser viciada em compras, comida ou pflulas, para men- sfio precisos muitos incidentes desses para que a crianga perca Slonar apenas algumas possibilidades. Como o problema é totalmente a confianga. Regado ou minimizado, nunca é resolvido. A regra das situa- n JON Buosiaw ¢6es inacabadas & um dos principais motivos de a disfungdo familiar atravessar geragdes. Limites Hié limites misturados nas familias ca6ticas. Os limites gera- cionais entre pais e filhos so violados de varias maneiras, que descreverei ainda neste capitulo sob o titulo de “Enredamento”. enredamento & um estado de confuso em que a pes- soa nao sabe onde termina e onde comeca o outro. Os filhos ficam confusos quanto aos seus sentimentos, pensamentos e desejos porque estes nao so validados pelos modelos paternos. Os limites fisicos so violados — as criangas dormem ‘com os pais, membros da familia vao ao banheiro enquanto voc® est tomando banho, seu irmao ou irma usa suas coisas € veste suas roupas. Motivagoes Q impulso motivador nas familias caéticas 6 aprender a agra- dar. O amor se bascia na caréncia e na fome emocional. As criangas so “mimadas” ou ensinadas a cuidar dos pais, ou a ambas as coisas. Acontecem muitos fracassos nas familias caéticas. As pessoas tentam muito, mas nunca conseguem realmente. Tentar é um tipo de comportamento magico. Nas familias ca6ticas, os filhos aprendem que, se vocé tentar 0 bastante, ndo precisa fazer. Os filhos de familias casticas muitas vezes so criados para tomar conta das necessidades da familia, cuidar do casa- mento dos pais e/ou cuidar de um dos pais. J4 que os pais muitas vezes sdo-imaturos ou infantis, eles esperam que 0 filhos os tornem felizes. As criangas aprendem que so mais amadas quando cuidam dos pais — ou quando fazem com que qualquer outra pessoa se sinta bem. ‘A.cRAcHO00 ANOR a As vezes os pais das familias caéticas querem tanto 0 amor dos filhos, que se transformam em escravos dos filhos. ‘As criangas possuem todo 0 poder e muitas vezes se tornam mimadas ¢ exigentes. Podem mais tarde usar 0 amor como um analgésicd. Apaixonar-se ¢ ser admirado € a forma mais familiar de amor. A dependéncia amorosa também pode resultar da privaco; é, entdo, uma tentativa de preencher 0 bburaco que sentimos dentro de nés. Familias corruptas Nas familias corruptas, os pais nao desenvolveram uma cons- ciéneia, muitas vezes porque nfo conseguiram desenvolver um senso de vergonha. So verdadeiramente desavergonha- dos, a0 contrério dos pais nas familias cultuais, cujo perfec- cionismo desavergonhado € uma cobertura. Muitos dos crimi- nosos com quem me correspondi vém de familias corruptas. ‘Suas maes foram prostitutas ou traficantes; seus pais os aban- donaram ou faziam suas proprias leis, tratando-os com vio- lencia ¢ crueldade. Alguns eram filhos de criminosos; muitos eram surrados ou sofriam abusos sexuais de maneira quase aleatéria. A regra implicita nas familias corruptas é: “Faga o que puder sem ser apanhado.” Nao existem limites morais. E nés contra eles, c vale tudo. Ninguém & importante, exceto a familia. A lealdade a familia é a forma mais elevada de amor. Essa lealdade familiar pode exigir que ‘vocé trapaceie, minta, surre ou até mesmo mate outros. Os pais nas familias corruptas podem ser sociopAticos e/ou psieéticos; podem ensinar € inspirar a corrupedo. Lem- bro-me de um cliente que defendia veementemente seu direi- to de roubar. Ele achava que estava tudo bem se vocé nao fos- Se pego. Eu vira o seu filho numa consulta anterior porque a Mae estava Preocupada com 0 habito de roubar do filho. Ela falou dos furtos do marido, mas o defendeu logo em seguida. Era Obvio que o filho deles tinha um modelo muito corrupto, Muitos dos meus correspondentes da priséo descrevem Suas primeiras memérias como repletas da humilhagaio de mm Jos Bracshaw suas emogGes e necessidades. Eles aprenderam a ser violentos devido a essa vergonha precoce, Foram humilhados antes de desenvolver a habilidade verbal necesséria para se exprimir. Foram privados, portanto, dos meios humanos normais de expresso. Para lidar com essa impoténcia pré-verbal, desen- volveram raivas irracionais como um sistema de defesa. Essa raiva era aprovada, contanto que fosse direcionada para fora da familia. Se ocorresse dentro da familia, era punida, geral- mente com graves abusos fisicos. A raiva irracional néo tinha nenhum lugar para ir, exceto para o subterraneo, onde se tor- naya um vuleao fumegante esperando para irromper violenta- mente para o mundo exterior. A sua violéncia era lancada sobre os indefesos ¢ os inocentes, os “otdrios” ou “idiotas” que atravessavam seu caminho. ‘Com uma nova consciéncia e linguagem para se expres- sarem, essas pessoas agora podem ver que a sua raiva era mal direcionada. Agora sabem que “acertavam” os inocentes exa- tamente da mesma maneira como acontecera com eles na infancia, Limites Nas familias corruptas existem limites rigidos e absolutos em relagiio &s pessoas fora da familia, e geralmente nenhum limi- te no relacionamento dos pais com os filhos. Coloco todas as familias de molestadores sexuais na categoria das familias corruptas, Os limites da crianga so gravemente violados no abuso sexual. A crianga assume a vergonha e a culpa que os pais psicdticos nao sentem. As familias incestuosas geralmen- te tém limites rigidos em relagio ao mundo exterior. Muito poucas informagées podem entrar, e a crianga vitimada mui: tas vezes é mantida como prisioneira durante anos. Tive uma cliente cujo pai a estuprava e surrava. Manteve-a vivendo com ele durante vinte e oito anos; ameagava-a com uma espingarda de cano duplo quando ela dizia que ia embora. ACaacKon0 ANoR 75 CORRUPTA IESAVERGONHADA’ REGRAS DOMINANTES PODER PUNICAO, CONTROLE PADRAO DE AMOR MISTIFICADO PUNICAO E ABUSO COMO AMOR DDESORDENS DE CARATER EU MEREGO AMOR EU TENHO DIREITO LIMITES, RIGIDOS FORA DA FAMILIA MOTIVACGAO SEJA FORTE (DURAO) NAO TENHA SENTIMENTOS OU NECESSIDADES Motivagoes © impulso motivador nas familias corruptas é: “Seja forte © duro” e “nao sinta”. E nés contra eles, e nés nunca podemos baixar a guarda, padrao de amor mistificado mais dominante para este grupo € 0 amor como punigao e abuso. As criancas também aprendem um tipo de amor molestador que diz: “Eu tenho direito @ amar. Estou acima de todos os outros.” As familias corruptas também podem gerar tipos de amor sadomasoquistas. AS LICOES DA VIOLENCIA FAMILIAR No corac&o do amor mistificado mora a violéncia. Esta vio- éncia vai muito além dos atos que aparecem nos jornais. A Violéncia que induz & mistificagao muitas vezes € mais implf- ita, oculta, sutil e tortuosa. Considero uma violéncia qualquer coisa que viole 0 Senso de identidade de uma pessoa. Esse ato pode ndo ser % Jon Besaw diretamente fisico ou sexual, embora costume ser. Na minha definigdo, a violéncia ocorre quando uma pessoa mais pode- rosa ¢ informada destrdi a liberdade de uma pessoa menos poderosa para quem ele ou ela seja significativo(a). Nao 6 preciso dizer que é uma violéncia trazer criancas ao mundo expé-las a incesto, surras, tortura, cativeiro, fome ou corrup- 40 moral. Outras formas de violéncia nao sao tao dbvias. E uma violéncia escolher dar & luz criangas e: + negligenciar sua satide; + abandoné-las emocionalmente; ‘+ espancé-las, atingi-las, empurré-tas, sufocé-las, sacudi- las, belised-las, puxar o seu cabelo, atingi-las com um objeto ou ameacar bater nelas; + fazer com que testemunhem qualquer forma de violén- cia fisica; ‘+ no protegé-las de irmaos mais velhos ou de valentées da escola ou da vizinhanca; * zombar dos seus corpos; * exigir delas coisas que nfo seria razoaivel esperar de ‘uma crianga; * recusar-se a estabelecer limites; + ser irresponsdvel quanto as informagées sexuais de que precisam; * fornecer modelos de comportamento sexual impréprio, © que inclui ter um relacionamento roméntico com elas, olhé-las de maneira sedutora e voyeurista, expd- las a uma nudez imprépria, beijé-las sedutoramente; * tocar seus 6rgios genitais de qualquer maneira sexual ‘ou fazer com que toquem drgios genitais de outrem, de qualquer maneira sexual; + fazer com que-assistam a qualquer forma de comporta- ‘mento sexual de adultos ou de irmaos mais velhos; *banhé-las, massageé-las, abracé-las, beijé-las, dancar ‘ou dormir com elas como uma forma de excitagéo sexual; ‘A.CRACIONO AMOR 7 + usé-las para satisfazer sua propria necessidade de ser admirado e respeitado; + usé-las para afastar seu proprio desapontamento ¢ tri teza, exigindo que interpretem papéis, vencam na vida, sejam lindas, atléticas, espertas etc.; + usé-las para manter 0 Seu casamento; + usé-las como bode expiat6rio para sua raiva e vergo- nha; + recusar-se a resolver suas prOprias ¢ ndo-resolvidas questdes do passado. Esta lista poderia continuar. Hé o bastante aqui para ilus- ‘rar como a violéncia contra a crianga pode se dar de muitas maneiras, Sempre que uma crianga ndo € amada e valorizada como criatura tinica, ela é violada. A violagao diz: “O seu modo de ser esté errado. O seu direito ¢ a sua necessidade de ser vood esto errados, O que voeé sente, quer, precisa, imagi- nae pensa esté errado.” Abuso sexual Todos os relacionamentos abusivos ensinam uma forma de amor. O abuso sexual viola proprio nticleo do ser. Ele trans- mite a mensagem de que vocé sé € desejavel e digno de amor pela sua sexualidade. Muitas vitimas de abusos sexuais acre- ditam que tém de ser sexualmente atraentes para serem valo- tizadas e amadas. Sobreviventes de abuso sexual muitas vezes se destacam no ato sexual. Nao é nenhuma surpresa as Pessoas que sentem que s6 através da sexualidade podem ser Verdadeiramente importantes para alguém torarem-se espe- ialistas em sexo. Outro resultado comum & 0 exato oposto. Um sobrevivente pode achar: “Na verdade, no sou muito atraente ou desejavel sexualmente; portanto, ndo sou impor- fante e nunca serei importante para ninguém.” Essa pessoa Pode ficar obesa. Na nossa sociedade, ser gordo € a antitese Ge ser “nota 10”. A obesidade pode ser usada como um limite a Joi Bansiaw para esconder a distingZo sexual da pessoa. Quanto mais gor- dura, mais ela pode se esconder. Sobreviventes de abusos sexuais aprendem algumas coi- sas muito danosas sobre relacionamentos. Considere 0 seguinte cenério: Mae e pai esto discutindo de maneira exaltada. Eles estavam bebendo muito. A certa altura, a mae entra no quarto do filho(a) mais velho(a) e vai para a cama da crianga. A crianga esté chorosa e se agarra A mae. A mie a abraca por algum tempo. Lentamente ela pega a mao da crianga e faz com que a toque num lugar que a crianga sabe ser {ntimo, Entéo a mae toca também a crianga. A crianga tem medo, mas sabe que a mae ndo quer perguntas. E também jé sabe que no deve falar sobre qualquer emocao desagradavel como o medo. Ela nunca teve essas sensagdes; sio extremamente prazerosas, mas também sdo assustadoras. Esta cena se repetird muitas vvezes em circunstancias similares. A crianga é confundida por ela, Mas nao hé ninguém com que a crianga possa falar. A crianga também sente vergonha; de algum modo sabe que aquilo é errado. No entanto, 0 amor e a atengiio da mae sf0 maravilhosos. Fazem com que a crianga se sinta especial — aquecida e intima. A crianga divide um segredo especial com amie. Essa mde esté ensinando ao filho(a) algumas sérias ligdes sobre poder, sentimentos, amor ¢ relacionamentos. Ela sabe que a crianga no repelira os seus avangos; sabe que a crianga ira obedecer e aceitar sua autoridade. Sabe que a crianga nao sabe que tem o direito de repelir seus avangos. A mie est exercendo o seu conhecimento, poder e controle superiores. A crianga quer 0 amor da mie mais do que qualquer coisa. No entanto, de algum modo sabe que est sendo usada pela mae como um objeto, como um instrumento de consolo. A ctianga pensa: s6 posso ser importante para minha mie através da sexualidade. A necessidade da crianga de ter todo © seu ser reconhecido e valorizado sera inevitavelmente reprimida. Além da repressio, a crianga pode desenvolver ‘A.CRACIODO ANOR 2p uma série de estratégias para ajudar a aliviar a dor. A crianga aprende a evitar 0 que existe e a criar uma série de fantasias. Criard uma mae de fantasia para se relacionar. Sera uma mae maravilhosa e,carinhosa, que ama a crianga de maneira muito especial. A iealidade por tras do relacionamento é o abuso. ‘Ao criar um elo fantasioso com a mae, a crianga efetivamente confunde abuso com amor. Abuso fisico ‘Uma grande conseqiiéncia do abuso fisico é viver com medo. Quando 0 abuso € crénico, o medo se transforma em terror. A resposta de medo/terror pode ser (Zo intensa, que ¢ capaz. de gerat um desequilfbrio permanente na quimica cerebral. 0 exemplar de 18 de junho de 1990 do The New York Times abor- dou um estudo do Centro Nacional de Estudos da Desordem de Estresse Pés-traumético (DEPT). Este estudo concluiu que ima experiéncia catastréfica em que o individuo esté impossi- bilitado de se proteger € o bastante para alterar a quimica cere- bral”. A maneira como a quimica cerebral é alterada se relacio- na com o sistema defensivo natural do corpo. Quando uma pessoa depara com uma grave ameaga, o eérebro libera certos horm@nios chamados catecolaminas. Esses horménios aumen- tam a fora do corpo, preparando-o para lutar ou fugir. Esse aeréscimo hormonal & 0 nticleo da raiva e do medo. Essas so ‘as emogdes que nos dao a energia da autopreservacdo. AS criangas que sofrem abusos traumdticos de suas figu- ras de sobrevivéncia nao tém para onde fugir. (Mais tarde podem literalmente fugir de casa.) Incapazes de fugir ou lutar, as criangas podem “congelar-se”. Quando se congelam, entram num estado de transe, onde permanecem hipervigilan- tes. O botdo do reostato que controla o fluxo das catecolami- nas fica preso, e 0 cérebro continua liberando os horménios mesino depois da ameaga priméria ter passado. Esse estado é comumente descrito como de hipervigilancia, ataques de Pico, reagdes exageradas ou preocupagdo excessiva. ‘Uma erianga com traumas nao resolvidos est4 congelada 80 Jor Beaosiaw no tempo. Quando ocorre qualquer nova experiéncia seme- Ihante ao velho trauma, este € ativado. Ela experimenta a velha ameaga em todo o seu temfvel potencial. Reage de maneira exagerada, respondendo como se a antiga ameaca estivesse realmente ali. ‘As pessoas que foram continuamente traumatizadas dis- torcem os fatos da realidade presente. Precisaram distorcer 03 fatos do trauma original para sobreviver a ele. O abuso cria uum tipo de feitigo. A DEPT se caracteriza por este estado congelado de trauma ndo-lamentado. Criangas molestadas fisicamente tém muitas das mesmas caracterfsticas das viti- mas de DEPT. Na verdade, qualquer forma de violacao cria alguma dessas caracteristicas. Sao hipervigilantes, reagem exageradamente e se espantam facilmente. Estes so os com- ponentes principais do estado mistificado. Impacto sobre relacionamentos posteriores Existem quatro maneiras principais de as vitimas responde- tem a0 abuso. A primeira e pior conseqiiéncia de abusos fisi- os e sexuais é que a vitima muitas vezes cresce e se torna um molestador, fazendo a outros — principalmente com seus filhos — exatamente 0 que foi feito a eles. Sobreviventes de abusos fisicos © sexuais muitas vezes se tornam espancadores de criangas e molestadores. A segunda maneira é tornar-se um molestador de si mesmo, tratando a si mesmo da maneira como 0 seu ofensor tratou. A terceira e a quarta respostas resultam do fato de o abuso quebrar a ponte interpessoal com os pais. A crianga no pode mais confiar no pai e/ou constréi muralhas de isolamen- to, inconscientemente escolhendo nunca se aproximar de nin- guém, ou continua a ser uma vitima e age como uma vitima 0 resto da vida. Quanto mais as criangas so molestadas, mais envergonhadas se sentem. Quanto mais envergonhadas se sentem, menores so suas expectativas de amor ¢ educaco. De fato, a crianga conclui: “E melhor eu ficar com o que eu ACRACHODO AMOR 81 conseguir, sou to indigna de amor que terei sorte se conse- ‘guir qualquer coisa de qualquer um.” ‘© que uma vitima de abusos infantis aprende & que os relacionamentos se baseiam em poder, controle, segredo, ‘medo, vergonha, isolamento ¢ distanciamento. Ja que as figu- ras de sobrevivéncia so amadas e divinas para uma crianca, os filhos assumem a vergonha dos pais como se fosse deles. “© abuso deve ser culpa minha”, raciocina a crianga. “Meus divinos pais, que sabem tudo, devem estar certos.” Uma crianga precisa pensar assim para sobreviver. “Sem esses pais divinos”, pensa a crianga, “o que aconteceré comigo? Preciso manter uma fantasia de bons pais, ou entio serei abandonada ¢ morrerei,” Robert Firestone chama este proceso de pensa- mento de “ligagao fantasiosa”. A fantasia de “papai é bom, eu sou ruim” é uma imagem autoprotetora defensiva que permite Acrianca sobreviver ao abuso. Em muitas ocasiGes, o impacto do abuso ensina & crian- ¢a"‘como ser molestada”. No ato do abuso, em vez. de apren- der a se proteger, aprende que ndo pode se proteger. Posteriormente, na vida adulta, ela ird ignorar perigos que os outros achariam Gbvios. Muitas vitimas de abusos fisicos e sexuais nao sabem 0 que fazer, a nd ser esperar que o perigo termine. Abusos emocionais Abusos emocionais so a forma mais comum de abuso infantil. Abusos fisicos ¢ sexuais também sao, naturalmente, abusos emocionais. Além disso, os abusos emocionais incluem a hhumithago de todas as emogées, ofensas, rotulos, julgamentos € provocagées sédicas. Duas das formas mais mistificadoras de abuso emocional so 0 uso narcisista e 0 duplo vinculo. As pessoas cujos pais no satisfizeram suas necessida- Ges de afeigio © admiragao muitas vezes irdo usar seus filhos Como fonte principal de gratificagao narcisista. Incutem desde Gedo um senso de dever ¢ gratidao exagerado nos proprios filhos. As criangas sentiro que devem tudo aos pais. Terdo me Jorn Besoin um senso t6xico € insidioso de vergonha sempre que parece- rem mais felizes ou melhores financeiramente do que os pais. Este sentimento de culpa se baseia numa lealdade superde- pendente. Com o duplo vinculo, 0 proceso ¢ contetido de uma comunicagao séo incongruentes. A mie sempre diz: “Quero que voc® cresca para ser independente.” Mas as pistas ndo- verbais do seu corpo dizem: “Por favor, nunca me abandone Vocé precisa tomar conta de mim sempre, tadinha de mim.” Ou ela fala de maneira abstrata sobre o dever filial; ou conta © sacrificio de sua prépria mde e como se sente em divida para com ela, O enredamento é a forma mais danosa de abuso emocio- nal. Nenhuma forma de abuso nos confunde tanto em relagzo a0 amor quanto os Varios tipos de enredamento que descreve- rei a seguir. No relacionamento enredado, uma pessoa ou grupo de pessoas (0 sistema social) usa outra pessoa (que possui menos forga ou conhecimento) para fornecer algo de que precisa ou carece. As criancas esto mais do que dispostas a servir de fonte de fomecimento em troca do amor ¢ da atengdo espe- ciais que parecem receber por isso. Uma crianca tem a neces- sidade basica de ser importante para os pais. Quando o enre- damento paterno ocorre, a crianga acha que € 0 filho(a) mais especial dos pais. Ela nao pode saber que esté sendo usada pelos pais e que uso é abuso, O enredamento é um abuso encoberto, ¢ 0 abuso encoberto € mais enlouquecedor do que abuso explicito, Enredamento no sistema familiar Em um sistema familiar, todo 0 sistema funciona como se fosse um individuo. E, como um individuo, um sistema fami- liar possui necessidades que nao estdo sendo satisfeitas. Nesses casos, um ou mais membros familiares ficam enreda- dos no sistema, fornecendo aquilo que falta para a familia. Eu usei um mébile na minha série da PBS sobre a familia para ‘A. CHAGIO DO AMOR 83 ijustrar a necessidade de equilibrio do sistema. Eu tocava 0 mobile freqlientemente para mostrar como tocar em uma parte afetaria todas as outras partes. Eu também deixava claro {que 0 mobile sempre volta a um estado de descanso ou equil- Pros fermos concretos eespecificos, 0 sistema familiar ‘io tem alegria, um ou mais membros da familia podem ado- tar uma fachada de Mariazinha Sorridente. Se a familia nao tem um ganha-pio, um ou mais filhos podem deixar a escola para ir trabalhar. Se no hd um pai presente, o membro da familia mais disponivel se tornard um marido substituto para 4 esposa, um pai substituto para os irmaos mais jovens. Esses papéis so prescritos pelas necessidades do sistema familiar. (Os membros individuais so sacrificados pelas necessidades do sistema familiar Enredamento conjugal Muitas vezes digo que toda familia precisa de distancia entre as geragdes, Quando mae e pai tém conflitos niio-resol vidos & surge um vacuo de intimidade, a disténcia entre as geracdes pode ser perdida. Mae e pai usam os problemas do filho/a para ficarem intimos, “triangulando” assim a crianga dentro do seu casamento. O tridingulo serve para aliviar a tensao. Vejo isto acontecer muito, no meu trabalho de aconse- Ihamento familiar. Recordo-me de uma crianga gravemente deprimida que suportava a solidao e a tristeza do casamento dos pais, A depresséo do menino foi tratada com drogas. Este tratamento se baseava na crenga de que a depressdo era “endégena’ (originava-se na propria crianga). Pude mudar a maneira de o menino ver o mundo trabalhando apenas sobre 0 casamento. Os pais eram as pessoas “mais simpiticas” que ‘Yocé poderia encontrar. Mas nunca lidavam realmente com Seus conflitos ou com a raiva que esses conflitos causavam. 44 que nunca comunicavam sua raiva, nunca faziam realmen- te contato. Cada um estava muito isolado e solitario. A crian- fa cra uma metafora da sua solidao, tristeza e raiva. 84 Jon Basia Ja vi este mesmo tipo de triangulago nas familias em que a crianga é problematica na escola ou em familias com filhos anoréxicos ¢ viciados. Em cada caso, o problema da crianga usado para aliviar tensOes no casamento dos pais. O sucesso de um filho pode ser usado da mesma maneira. As vezes um filho astro, estrela, herdi ou heroina serve para cui- dar do casamento dos pais. Mae e pai ficam to envolvidos com os talentos, realizagdes etc. da crianga, que podem evitar Ver seus proprios sofrimentos ¢ conflitos, Em todos os casos de enredamento, a crianga esté sendo usada. Uso é abuso. Nenhum de nés quer ser usado num rela- cionamento. Quando somos usados, sentimos uma raiva intensa. As criangas ndo podem saber que esto sendo usadas; ‘mas sentem a raiva mesmo assim. Essa raiva vaza para outros relacionamentos e causa sérios problemas. Enredamento diddico Parceiros de casamentos ndo-realizados muitas vezes se vol- tam para os filhos para satisfazer suas necessidades. Carl Jung disse: “A coisa mais nociva para qualquer familia so as vidas ndo-vividas dos pais.” As vidas dos pais podem nao ser vividas por uma série de razdes, incluindo abusos nao resolvi- dos, desapontamento devido a sonhos nao realizados e senti- mentos de vazio e solidao, Digamos que um pai foi violado sexualmente pela sua madrasta. Ele pode ter muita raiva nfo-resolvida, que joga sobre suas filhas. Elas podem experimentar a desconfianga € desprezo que ele sente pelas mulheres em geral. Muito embo- ra ele nfo o diga explicitamente, elas terdo a impressio que 0 seu sexo € ruim ou inferior. O pai pode modelar esse desprezo NO seu comportamento com a mae. Seus filhos podem captar sua raiva é levé-la para os seus relacionamentos. Ou podem ficar do lado da mae e assumir sua vitimaco como responsa- bilidade especial deles. Podem até se juntar a cla de um modo to enredado, que nao conseguem deixé-la. Os pais que tém questées nao resolvidas de abusos fisi- ‘Acanck000 AVOR 85 cos podem usar seus filhos para se vingar dos préprios pais. sees pais podem sujeitar as criangas a punigbes excessivas ou irracionais; podem estabelecer um relacionamento em que 6s filhos se tornem seus escravos, servindo-os de todas as mane fiferativamente, o abuso fisioo ndo-resolvido pode ser expresso como uma necessidade de seguranga, conforto ¢ cui- dads fisicos. O filho pode ser estimulado a dormir com o pai ‘ou a mide, aquecendo o progenitor ¢ cuidando da sua necessida- de de toque e calor. O filo pode ser estimulado a cuidar dos “sentimentos somatizados” de um progenitor, que so expres- sos na forma de uma doenga constante, A crianga pode ser liga- da a0 progenitor de tal maneira, que ache que é sua obrigagao servir como enfermeira, fazer massagens e preparar refeigGes. (Os pais que tém sonhos e expectativas irrealizadas mui- tas vezes transformam os filhos em extensées de si mesmos. ‘través deste enredamento diddico, eles usam os filhos para realizar 0s seus proprios sonhos. O resultado é uma grande confusio e mistificagdo para as criangas, que se sentem obri gadas 2 agradar 20s pais devido ao amor excessivo e especial que os pais esto dando. No entanto, isto ndo é realmen- te amor. E puro egoismo exibindo-se como amor. Como uma ctianga poderia descobrir tudo isso? As criangas estiio tao ‘ocupacas em realizar as expectativas dos pais, que nfo podem realmente desenvolver sua propria realidade. Varios anos atrés, recebi uma carta e um poema de um homem chamado Craig Sanchez. Gostaria de compartilhar 0 seu poema com voc8. Ele exemplifica o tipo de enredamento diddico que estou discutindo. Lendo o poema de Craig, imagine quantos garotos foram usados como extensdes da desapontada crianga interior de pais que nunca conseguiram sucesso nos esportes. Entre No corago deste garotinho € experimente 0 que est4 aconte- cendo com ele, Ele esta aprendendo a confundir abuso com amor. O seu pai est Ihe dando o que todos os garotos dese- Jam — tempo e atengdo especial. Nao hd como ele saber que tal demonstragao de amor nfo tem nada a ver com ele. % Jon Baostaw ‘ACeagio0 AMOR 7 Certamente ele sera mistificado por ela e suportard as corren- eles juram que nunca se encontraram antes, tes de culpa e obrigacdo do pai por toda a vida, estes artelhos, este asfalto. Nao posso decepcionar meu pai. ‘ E Vou agarré-la. ESTA QUESTAO MEIO RESOLVIDA NO SEU CORACAO Vou, sim. Ai esté meu pai! Mas no posso vé-la. a Ele est esperando por mim I4 fora, Daqui a dois anos vou finalmente conseguir querendo jogar na larga calcada, uns éculos, que corre silenciosamente ao longo da nossa casa de mas hoje a noite tudo 0 que posso fazer esquina, é forgar a vista no escuro. a casa onde tijolos cor-de-abdbora Serd que ela vai descer algum dia, espiam por tras dos buracos no estuco branco. bate 0 meu corago? ‘Vaga-lumes comegam a girar e dangar pela terra de ninguém da tarde de verdo. Nai posso ver nada, Ha siléncio. mas sinto 0 cheiro de alguma coisa. E como sea noite inspirasse fundo Posso sentir 0 liso couro novo ¢ prendesse a respiracdo. da minha nova luva de beisebol laranja Ele tem uma bola de beisebol na mao. enquanto escorrega pela minha mao. Ele a soca na sua luva Ela tem vida propria. de novo e de novo. E uma luva de gente grande, profissional, Ela faz. um som claro e stibito porque meu papai quer que cu me acostume A coisa ‘como uma chicotada, mesmo, Subitamente ele recua desde 0 inicio — e langa a bola direto sem luvas de pelica para mim. no escurecer. Oh, nao! Allto, alto, cada vez mais alto, Ele é um pai legal por consegui-la para mim. acima do poste, Ele até disse isso. veloz entre os fios ‘Tenho cinco anos. de telefone e galhos, Preciso espremer todos os quatro dedos ais alto que o prédio 10 buraco do indicador de trés andares que fica ao lado. 36 para impedi-la de cair. Serd que vai acertar um passaro? Meu polegar esta perdido em algum lugar num buraco negro, “Pegue! Pegue! Pegue!”, ele berra. a caverna do Pequeno Polegar, acho. Otho para cima curvando 0 maximo possivel meu pescogo. Corto em cfrculos Meus pés subitamente estranhos para 0 solo; esperando que de alguma maneira — 88 Jorn Bunsiaw talvez por estar em movimento perpétuo — escutarei a bola quando ela descer © que serei capaz de pegd-la no tiltimo segundo. Nao posso decepeionar meu pai. Nem uma s6 vez. Sou seu garotao. Ele quer que eu seja um jogador de beisebol como ele teria sido ndo fosse aquela fratura. (Doeu, papai, a fratura?) Ele vai fazer um sacrificio © certificar-se de que eu vou entrar nas grandes ligas. Que pai! A bola desce e me acerta bem na cabeca. Nao ha um buraco para mim, pequenino do jeito que sou, ‘em que eu possa me esconder? “Voce devia ser uma menina. Meu pai nunca jogou comigo. Por que gastei todo aquele dinheiro comprando a luva para voce? Voc’ € tio fresco, devia ter trazido uma sai Luto contra as vergonhosas Igrimas trémulas. Por que tenho de chorar logo agora! Posso sentir a dor do galo na minha cabega até 0 meu coracdio. “Papai, sinto muito muito mesmo. Me da outra cliance, papai. Por favor. Nao vou fazer de novo, prometo. Por favor, papai. Por favor.” ‘A Gainsk0 00 ANOR ““Esté bem, est bem, mais uma chance”, dizele, um sorriso surgindo no seu rosto. “Mas concentte-se desta vez. Nao me decepcione.” Mais uma vez.a bola voa no vazio. Fujam dela, passaros. Nao sejam atingidos, ‘Usem suas asas brancas para se abrigar. Tenho tanta sorte de fer uma segunda chance! Que pai! { ‘Ainda no posso vér a bola, mas vou pegé-la de alguma maneira, | Preciso pegé-la. \ Quando crescemos mistificados, passamos a vida toda tentando pegar uma bola qhe ndo podemos ver. CAPITULO 3 Os estagios da mistificagaio ‘© que pensamos ¢ menos do qué 0 que sabemos; (que sabemos é menos do.qus o que amamos;, (© que amamos & muito menos da}que o que existe, «nesta precisa proporgdo, somos muitg menos do que somos. R.D.LAING (gies ds pettoas eso um modo d vida embotnd antl las deixaram de querer o que dizem querer porque a verdadeira gatificagdo € as verdadeiras realizagdes ameagam o proceso de autonutrigao pela fantasia. RICHARD W. FIRESTONE Uma crianga geralmente ndo se torna mistificada do dia para a noite, O processo leva tempo e envolve varios estagios. Naturalmente, existem excegdes. Graves abusos sexuais e fisi- cos podem ter um impacto imediato e perpétuo. Antes de apresentar os varios estgios do processo de mistificagao, deixe-me dizer que a mistificagao poderia ser evi- tada. Nao existem traumas de infancia que nfo possam ser resolvidos ¢ integrados. Temos uma capacidade tinica de resol- ver nossa dor emocional: a capacidade de lamentar. A lamenta- ‘s40 € um tipo de trabalho psiquico. Ela envolve varios estégios, sendo 0 mais importante a tristeza profunda (choro) ¢ 0 estado. da raiva apaixonada. Examinaremos todos esses estgios em detalhe no capitulo 7, onde apresentarei alguns exercicios para ajudé-lo a se separar das suas figuras-fonte interiorizadas. A Caackon0 AVOR te Como criangas, precisamos chorar ¢ expressar raiva. Quando somos forgados a reprimir nossa tristeza e raiva, dei- Xamos nossas mAgoas impressas no nosso sistema neurol6gi- co. Temos respostas autométicas para nos protegermos. Essas respostas so as defesas que nos permitiram sobreviver. Infelizmente, tais defesas nos deixam congelados no passado. estado de mégoa congelada ¢ ndo-resolvida é 0 estégio da mistificagao. ESTAGIO UM: VINCULOS DA VERGONHA ‘A mistificagio comega com o que jé foi chamado de vinculos da vergonha. Como mostrei em Healing the Shame that Binds You (Curando a Vergonha que Prende Voc8), todas as nossas capacidades humanas podem ser envergonhadas. Cada tipo de abuso que descrevi aprisiona pela vergonha um ou mais dos nossos poderes. Esses vinculos da vergonha sio 0 estdgio um da mistificagao. Nossos poderes humanos incluem nossas capacidades perceptivas, imaginativas, intelectuais (pensamento), emocio- nais (sentimento) e volitivas (vontade). Nosso corpo abriga todos os nossos poderes. E o fundamento do nosso ser ¢ a nossa maneira de existir no mundo. ‘Além dos nossos poderes, temos impulsos (sexo e fome) © necessidades. As necessidades infantis se relacionam com a dependéncia e nfio podem ser satisfeitas sem que dependamos de alguém. ‘Othe para a figura na pagina 99. Mostra ali toda a gama dos vineulos da vergonha, S6 nas familias mais abusivas Poderfamos encontrar todos eles. A maioria de nés, porém, Pode se identificar com alguns desses vinculos Para mim esté claro que o comportamento abusivo nao é natural. Nao € fruto espontneo da nossa natureza humana. A Pessoa abusiva ou aprendeu a confundir abuso com amor, ou std se vingando do seu préprio molestador. Os proprios 25 Joos Besngiaw molestadores so mistificados; esto fixados mentalmente, sem uma viséo das alternativas. Essa estreiteza do abuso representa uma perda de consciéncia de si mesmo ¢ das pré- prias escolhas. O molestador perdeu liberdade. E 0 abuso infligido diminuira muito a liberdade da vitima. A liberdade vem de dentro, flui do mticteo do nosso poder pessoal. Uma ‘Vez que 0 nosso corpo € os nossos impulsos, nécessidades & poderes tenham sido envergonhados, teremos perdido todo 0 contato com nossos recursos interiores, A nossa escolha é abandonada. Corpo © nosso corpo é a maneira de a nossa alma estar no mundo. Isso n&o significa que sejamos dois seres, corpo e alma. Nossa alma toda esta em cada célula do nosso corpo. O nosso corpo, no entanto, nao € nossa alma. Como disse uma vez 0 grande tedlogo Tomés de Aquino: “Somos os tipos de seres espirituais que precisam, para serem espirituais, de um corpo.” Todo abuso fisico, como jé disse, cria uma vergonha corporal. Quando somos atingidos varias vezes e sem aviso, 0 nosso limite corporal € violado. Sentimo-nos como se estivés- semos desprotegidos. A mensagem que recebemos é que qualquer adulto tem o direito de nos tocar, bater ou humilhar. Provocagdes quanto ao tamanho, & forma ou a qualquer aspecto do corpo da crianga também criam vinculos de vergo- nha. Criangas altas demais ou baixas demais, gordas demais ou magras demais, criancas desajeitadas, com deformidades de qualquer tipo, criancas bem-dotadas genitalmente ou nao, ccriangas bonitas ou feias, todas podem ser sujeitas 2 vergonha familiar disfuncional. O continuo foco nelas através do ridf- culo, de provocacao ou até mesmo da discussio costuma ser extremamente doloroso e vergonhoso. Criangas muito bonitas fisicamente costumam ser usa- das pelos pais para aumentar o seu proprio sentimento de valot. Lembro-me de uma mulher que tratei por dependéncia ‘AGiucio0 ANOR 2 sexval. Ela era muito bonita. Aos 11 anos, jé era desenvolvida sexualmente ¢ extremamente atraente. Sua mie € seu pai cos- tumavam levé-la a lugares como shopping centers ¢ fazer ‘com que caminhasse na frente deles, para que pudessem ver os homens olhé-la. “Eles me usavam como um pedago de cate para aumentar seu proprio sentimento de valor. Minha mie adorava quando o homem que olhava para mim Ihe dizia que sua filha era uma beleza!” c Dos trés anos em diante, as criangas precisam de priva- cidade para os seus corps; precisam de um lugar para esta- rem sozinhas quando tomam banho € se vestem. Precisam de pais com limites respeitosos. Os pais também precisam prote- ger as criangas mais jovens dos irmaos mais velhos. Muitos dos meus clientes foram abusados sexual, fisica ou emocio- nalmente por irmdos mais velhos. Foram provocados ¢ ator- mentados,e alguns foram mesmo torturados. Quando 0 nosso corpo € violado, nosso espfrito também © €. Quando nosso corpo é envergonhado, experimentamos dor no niicleo do nosso ser. Somos alguém e nao ninguém. Envergonhar 0 nosso corpo € nos envergonhar. Percepgées As criangas muitas vezes se sentem envergonhadas pelo que véem e escutam. Elas comegam a desconfiar das suas pré- brias percepgdes sensoriais. A mie esté chorando. Seu filho vai até ela. “O que aconteceu, mée?", pergunta ele. “Nada”, responde a mae enxugando os olhos, “v4 brincar Ié fora.” A crianga vai embora mistificada; ela sente medo. “Poderia Jurar que a vi e ouvi chorando”, pensa. “Deve haver algo de errado comigo.” Sentimentos Membros de familias disfuncionais so mistificados, e parte a sua mistificagiio é uma lealdade as regras familiares de 94 Joi Brain ndo sentir, ndo falar. A crianga escuta repetidas vezes: voce no est realmente sentindo o que diz que sente, Lembro-me de um garotinho esperando no consult6rio do dentista. Ele estava morrendo de medo. Seu pai ficava repetindo: “Vocé é um caubdi?” O garotinho tinha uma arma de brinquedo num coldre em seu cinto, estava usando botas de caub6i, Quando o pai perguntava se ele era um caubéi, 0 menino respondia: “Sim, senhor.” Entao 0 replicava: “Bem, caubéis de verdade nao tém medo!” O garotinho ficava con- fuso ¢ ainda mais assustado. Embora fosse Sbvio que o pai estava tentando ajudé-lo a vencer © medo, ele estava invali- dando os sentimentos do filho. A conseqiiéneia da invalidacao € a mistificago. A crian- a mistificada agora se sente duplamente assustada porque estd com medo. Se ele pudesse expressar-se, poderia dizer: “Tem algo errado comigo, eu sei que estou com medo, mas meu divino progenitor disse que nfo ha nada a temer. Talvez eu esteja louco. Talvez eu nem mesmo esteja com medo! Mas sinto medo. Alguma coisa est muito errada comigo.” Costumo dizer, brincando, as pessoas que, se na minha familia alguém tivesse um sentimento, disparava um alarme! Entdo soava uma voz. no alto-falante dizendo: “Ha um senti- mento na sala de jantar.” Toda a familia corria para a sala esmagava o otério! Isso era considerado a coisa certa. Os sen- timentos eram considerados fraquezas. “Nao seja tio emocio- nal” era uma frase corriqueira. Quando todas as emogdes S30 cenvergonhadas, ficamos entorpecidos. O estado entorpecido & uma preparagdo para o vicio. Uma vez que a pessoa esteja entorpecida, a sinica maneira possivel de sentir se da através do vicio, Necessidades de dependéncia Quando recém-nascidos, somos indefesos e impotentes. Precisamos depender de nossas figuras-fonte. Precisamos que elas nos abracem, toquem e nos reflitam. Precisamos ser ali- mentados, vestidos e abrigados por elas; precisamos que ci Aciagiono Nok 9 dem da nossa nutrigdo e sade. Precisamos nos identificar com elas € nos separar delas. Mais que tudo, precisamos que nos fortalecam e afirmem, S40 essas as necessidades que no podemos satisfazer sem um outro que nos proteja. Sao as necessidades de dependéncia do desenvolvimento. Quando qualquer uma, algumas ou todas essas necessi- dades sao envergonhadas, 0 lago fundamental com nossa figura-fonte € quebrado. A ponte interpessoal necesséria para 1a individualizagdo e crescimento € quebrada, ¢ sentimos que rio podemos confiar em ninguém, Essa é a ferida mais cruel da vergonha t6xica. A crenga de que ndo temos 0 direito de confiar em ninguém nos prepara ou para o isolamento, ou para o enredamento. Se escolhemos o isolamento, construf- os uma falsa personalidade que serve de muralha para afas- tar os outros. Se escolhemos 0 enredamento, construimos uma falsa personalidade baseada no que as nossas figuras- fonte parecem querer de nds. Muitos oscilam entre essas duas, falsas personalidades. Paradoxalmente, os vinculos de vergonha da dependén- cia criam um novo tipo de aprisionamento nos nossos relacionamentos-fonte. J4 que nunca tivemos permissio para nos separar e estabelecer a nossa propria identidade, nao temos uma personalidade auténtica. E continuamos a buscar 0 amor de nossa figura-fonte. Esse tipo de elo costuma se repe- tir por toda a vida. Vontade A energia vital da crianga também pode ser envergonhada. A €Xuberincia assustava minhas pessoas-fonte; suas criancas interiores mistificadas morriam de medo da vida, Muitas ‘exes disse que fui criado por terroristas. Como a exuberan- ia, a curiosidade e a vontade emergentes da crianga também Sdo expresses da forca vital. A vontade, que é a forga motriz da personalidade a Mais profunda energia do amor, envergonhada desde o ini- lo da infancia. A crianca voluntariosa ¢ teimosa foi ¢ ainda é % Jon Buosaw © alvo principal do patriarcado. O que um rei quer so stiditos ‘obedientes; os reis querem que seu povo se conforme. Assim, a forca de vontade da crianca deve ser esmagada desde cedo, Muitas vezes me espanto quando as pessoas se mostram per- plexas com a enorme quantidade de vicios na nossa cultura, ‘Acusam os viciados de falta de vontade, mas acredito que os treinamos sistematicamente para a dependéncia. Certamente existem fatores genéticos em muitos vicios, e aprecio 08 novos estudos que provam isto clinicamente. Mas na maiotia dos casos a genética sé aponta o tipo de vicio que o individuo, tera se for treinado para ser um viciado. O treinamento para 0 vicio vem do abandono, do abuso e do enredamento. Cada um destes fatores causa a vergonha toxica, O abuso ¢ 0 enre- damento destroem a forca de vontade da crianga, e sem forga de vontade ela & preparada para o vicio. patriarcado nos pede que destruamos a forga de vonta- de de nossos filhos desde cedo, Ele trata as primeiras tentati vas de autonomia deles como uma evidéncia da depravacdo inata do pecado original. Aos dois anos uma crianga dir “no”, “nao vou” e “é meu” to inevitavelmente como a noite se segue ao dia. A crianga est nascendo psicologicamente. Esta comegando a desenvolver uma personalidade — um senso de que € diferente de mamée e papai. Ser diferente & a maneira de a crianca nascer psicologicamente. Ter sua propria vontade equivale a ter sua prdpria personalidade. A forca de vontade € forca pessoal. A forga de vontade também € 0 inicio da construgo de limites. Um limite € uma fronteira, uma definigao. Ele nos protege dos outros ¢ é o fundamento da disciplina. Até que compreendamos nossos préprios direitos, nao temos como entender os direitos dos outros. Sem limites, nao ha barreiras. E por isso que a crianga também deve desenvolver um saudé- vel senso de vergonha. Com a vergonha saudavel, sabemos que somos limitados: ela estabelece limites para a nossa forga. de vontade e tempera o senso natural de onipoténcia que toda ctianga possui, Uma vez que a nossa vontade tenha sido aprisionada em vergonha t6xica, no entanto, nfo somos mais capazes de nos _ ‘ACRAGHODO AMOR w desenvolver. Conformamo-nos ou rebelamo-nos, ou oscila- sos entre a rebelidio e a conformidade. Nao temos como nos proteger. Se somos envergonhados toda vez: que expressamos hossa taiva, se ndo podemos dizer ndo ou separar que é ‘nosso, entdo Nos tornamos capachos ou rebeldes, sem nenhu- rma escolha real. Deixamos de saber o que realmente quere- mos. Comecamos a desafiar tudo (contradependéncia) ou a transformar as sugest0es dos outros em ordens a serem obe- decidas (co-dependéncia). Perder a forga de vontade & perder nossa LIBERDADE. Uma vez que tenhamos perdido nossa liberdade, 0 amor auténtico é impossivel. Vinculos de vergonha da vontade nos preparam para a mistificagao. Impulsos A fome & um impulso natural. As criangas sabem quando estio com fome e quando ndo esto. Os pais nao precisam fazer da mesa de jantar um estabulo da pristio do marqués de Sade. No entanto, j4 ouvi algumas hist6rias sobre fome, comida ¢ a mesa de jantar mais horriveis do que os livros de Stephen King i Em uma das minhas aparigdes no show de Oprah Winfrey, um homem na audiéncia falou sobre o seu pai, que fez com que ele se sentasse na mesa de jantar durante quatro horas até comer todo o jantar. O garoto odiava a comida, abé- bora e berinjela. Ele finalmente comeu, vomitando em segui- O pai o fez comer 0 vémito. Tudo em nome da disciplina do treinamento! Certamente criangas nao so nutricionistas, ¢ precisam Se orientagao nesta drea. Mas elas sabe se gostam ou ndo de alguma coisa. Forgar a alimentagdo e envergonhar o impulso 2 fome sempre criam desordens alimentares € destroem o Senso de autoconexio da crianga. © impulso sexual & envergonhado universalmente, geral- Mente mesmo antes de as criancas estarem conscientes dele. AS criancas sio recompensadas por achar e dar nomes as par- 8 Jon Buca tes do seu corpo, isto é, até encontrarem seuis Grgdos genitais af comeca 0 inferno! Imagine como é mistificador para u crianga que foi recompensada e elogiada por achar e dar not a0 seu queixo, brago, mo, cotovelo e assim por diante act sua vagina, Posso imaginar a sua mentezinha dizendo: “Se queixo, 0 cotovelo etc. os interessaram, isso aqui vai arrasar! S6 para descobrir que a vagina causa um furor, e que os pais, tiram da sala (onde ela estava mostrando-a para a avé) mai rapido do que 0 diabo fugindo da cruz. O rosto do pai faz co} que ela perceba que ha algo de vergonhoso nessa parte corpo. Ela é expulsa do Jardim do Eden! A sua nudez é aceit vel, exceto por essa parte muito intima. Tem alguma coi: muito ruim nessa parte. E claro que a garotinha vai ficar conft sa! Mais tarde ela descobre que essa parte € to ruim que nit guém a menciona. No inicio da puberdade, ela ficard apavor da ao descobrir que est4 sangrando desse lugar misterioso. A consegiiéncia disso tudo é que, sempre que ela sentir desej sexual ou for sensual, terd uma sensagdio de pecado e vergonl Pensamento Nas familias cultuais e nas corruptas, os pais exigem que mente e a vontade das criangas se fundam s suas. As cris as perdem contato com seus préprios pensamentos, fantasi e opinides. A medida que os seus pensamentos e idéi: ‘espontéineas so eliminados, elas mais e mais entram na fi ‘so mental do transe familiar. Sempre que as criancas suas préprias idéias, sio envergonhadas com frases c “De onde vocé tirou essa idéia? Vocé deve estar andando esses garotos protestantes (judeus, catdlicos, budistas ete. novamente,” Qu: “Nao quero ouvir vocé dizendo isso out vez.” A mensagem é: Sua maneira de pensar no estd cot Novamente a crianga conclui: Deve haver algo de er comigo. Eu nem mesmo penso direito. Sou digna de amor quando nao tenho meus préprios pensamentos ou minhas prias crengas. Uma crianga chega verdadeiramente & concll so de que sua maneira de ser é defeituosa. ‘Acaacio vo Ave ” Um pai pode dizer: “Ew sei que vocé realmente nfo acha {que seu irmao € chato. Eu sei que vocé realmente o ama.” Ou quando a crianga expressa uma objecdo a algo que um proge- nitor diz, © pai ou mae pode responder: “Quem esté falando? Eu sei que ndo é realmente o meu garotinho.” Ou, como minha sogra costumava dizer para o meu filho: “Bernardo Bronquinha esta aqui. John se foi.” E impossivel receber uma mistificacio mais vigorosa do que esta, Ela estava dizendo ao meu filho que quando ele expressa um pensamento negativo nfo est4 nem mesmo sendo quem realmente é; € outra pessoa. Caramba! Estégio um da mistificagao VINCULOS DA VERGONHA ‘A mistitieagiocomega como ua "ransago interpessoal figura Ton bpersonlidade scta,/3 familias caéticas confundem muito devido a incon- Sisténcia dos pais. Imagine a filha de uma mde alcodlatra que Yolta da escola e escuta: “Va brincar Id fora e deixe de me {comodar.” Isso acontece antes da mae tomar um drinque. indo a garota volta mais tarde, a mae j4 tomou trés drin- GES: beija a filha de maneira desleixada e Ihe promete uma icicleta de dez marchas. Naquela noite a mie perde os senti- 100 Jost Beansiay ‘a caatio00 AvoR 101 dos, e na manha seguinte, quando a filha menciona a bicicl ta, ela pergunta: “De onde vocé tirou essa idéia maluca?” A criangas em familias cadticas muitas vezes passam o testo de suas Vidas tentando encontrar significados ocultos e entendet a coisas. Uma vez que a capacidade de raciocinio de uma crian tenha sido fechada, 0 isolamento mental certamente vird em seguida. A fixagdo mental impede que a pessoa experimente vivida realidade atual que est diante dela; a fixagdo ment diminui a liberdade, porque destr6i a possibilidade. “Obedegs ou dé 0 fora” — isso limita o indivfduo a seguir a maneira de ser da figura de autoridade ou a ir embora. Uma criancinha a partida como a morte. Assim, a escolha de ir embora nao realmente uma escolha. O aprisionamento do pensamento pela vergonha efetivamente impede uma crianca de saber 0 que aconteceu com ela desde cedo. E por isso que toda pesso que vem de uma familia disfuncional precisa ser interrogadi ela precisa tomar real seu abuso, precisa desmistificar set pais, Fritz Perls costuma dizer: “Nada muda até ser o que 6. Devido ao nosso estado de espirito estreito e hipnético, podemos ver o todo. Nao sabemos 0 que aconteceu conosco no podemos saber a verdade da nossa infancia, madas no infeio da infancia, quando somos mais impotentes Somos especialmente impotentes diante dos vinculos da ver- gonha. E importante sublinhar 0 sentimento de exposi¢dio que esta no coragao da experiéncia humilhante. Os vinculos da vergonha sempre ocorrem com alguém que nos é importante ¢ mais poderoso que nés. A infancia é obviamente © perfodo em que existe a maior possibilidade de sermos envergonha- ddos. A vergonha é experimentada quando as expectativas da crianga so subitamente rompidas. Durante essa ruptura as criangas se sentem expostas © acham que néo tém nenhum poder sobre sua experiéncia. Sao os sentimentos de impotén- cia e exposigo que dio A experiéncia humilhante o seu efeito de vinculo. A resposta interna a uma experiéncia humilhante & sentir-se paralisado ou encurralado. Vocé nao tem para onde fugir nem onde se esconder. Quer cavar um buraco e entrar nele; precisa de alivio e o deseja imediatamente. O estagio dois da mistificacao ocorre precisamente devi- do aos transes profundos, que s40 maneiras imediatas de fugit da dor, Durante uma experiéncia traumdtica ou dolorosa de vergonha, a crianga usa © poder natural de auto-hipnose para lidar com a ameaga avassaladora contra a sua realidade. Wolinsky escreveu: “Todos os fenémenos de transe profundo sio criados por uma série de interagdes personalizadas (pro- genitor para crianga), que so eventualmente internalizadas como comunicagGes interpessoais (personalidade para perso- nalidade).” Os fenémenos de transe profundo podem ser criados Para proteger a crianga de um elemento ameagador no seu ambiente. Desastres como fogo, a morte de um progenitor, um terrivel acidente de automével ou uma grave doenca infantil podem disparar a criagio de transes defensivos ime- Gatos © naturais. Com a ajuda adequada, estes podem ser Fesolvidos sem resultar em fendmenos de transe profundo. A Ajuda adequada seria abrir-se (falar sobre 0 que aconteceu € xpressar plenamente os sentimentos). E precisamente isso Que as familias baseadas na vergonha impedem a crianga de fazer. Assim, os transes defensivos continuam paralisados. O tipo de transe ou combinagao de transes defensivos ESTAGIO DOIS: FENOMENO DE TRANSE PROFUNDO Mencionei antes a obra do dr. Stephen Wolinsky sobre 0 fen6meno do transe profundo, Wolinsky nao usa a palavi “mistificagao”, e assumo total responsabilidade por mi interpretacao do scu trabalho. Recomendo a leitura do li Trances People Live. & uma obra pioneira ¢ altamente criati va. Devo a Wolinsky a discussio desta segio. (Os fenémenos do transe profundo sio uma maneira dife: rente de entender o que Freud chamava de defesas do ¢g0, 'N6s, humanos, temos capacidade para nos defender de expe rigncias dolorosas demais. Estas defesas geralmente so fo Lt sow Acuhone Avo 109 dependerd da experiéncia particular da pessoa, além de outros fatores relacionados com praticidade e sobrevivénci Durante determinado perfodo, certo transe defensivo pode ser bastante eficiente. Uma vez que ele tenha sido escolhido usado repetidamente, comeca a funcionar automaticamente, “A consciéncia intencional do individuo”, afirma Wolins! “nao € mais necessdria para iniciar 0 transe defensivo.” Ui vez que a pessoa tenha adotado um conjunto de eficazes def sas pelo transe profundo, elas se tornam a estrutura bésica do estado de mistificagaio daquela pessoa. amorosos de alma plena, Parte do trabalho sera desmistificar 6 iranse de amor mistificado em que muitos de nés vivemos. Se pudermos compreender que criamos o transe em primeiro Jugar e descobrirmos como continuamos a crid-lo agora, sjeremos deixar de produzi-lo ¢ comecar a criar o amor que desejamos, Transe hipndtico De acordo com Erickson, o transe hipnético possui trés earac- teristicas basicas: A natureza do transe 1) ele se caracteriza por um estreitamento e encolhimen- to ou fixaglio da atengao; 2) costuma ser mais experi mentado como acontecendo a uma pessoa; 3) caracteriza-se pela emergéncia de varios fendmenos hip- néticos, Antes de continuarmos, gostaria de descrever o fenémeno dd transe em geral. Talvez a maior autoridade sobre o transe tenha sido psiquiatra chamado Milton Erickson. Todos os te6rico ‘modernos, incluindo Wolinsky, devem muito a ele, Erickson afirmou que o transe é um fendmeno que ocorre naturalt te. Os transes nao ocorrem apenas como defesa contra ut ameaga, Entramos e saimos de transes todos os dias, as veze em repetidas ocasides. Sonhamos acordados, perdemo-nos em pensamentos, concentramo-nos tanto em alguma coi: que perdemos a nogao de tempo. Podemos experimentar sensagao de fome e entio ficarmos to distrafdos devido uma pequena crise, que bloqueamos nossa fome © nos cons centramos em pensar em como responder & crise. Esses transes naturais muitas vezes so caracterizado Por um estado alterado de consciéncia, pela distorgio tempo ral (uma hora pode parecer cinco minutos e vice-versa) e p dissociagao de fungdes corporais. A diferenca entre esses transes naturais ¢ um transe hi notico esté no grau de escolha consciente. Se vocé sai de devaneio, sabe que 0 induziu. Mas se sai de um estado hipnt tico, acha que ele aconteceu a vocé. q Grifei “aconteceu a vocé” porque 6 uma questio cruci Na parte 2 discutiremos maneiras de criar relacionament0s Para entender como funciona, é itil contemplar 0 pro- cesso de inducdo de transe que ocorre entre um hipnotizador © um paciente, A indugao hipnética caracteriza-se por um profundo sentimento no paciente de que est sendo controla- do pelo hipnotizador. Este nfo € realmente o caso. Ninguém Pode coloca-lo num transe a menos que coopere com ele. No entanto, a indug&o hipnética funciona porque os Pacientes acreditam que as sugestdes do hipnotizador estejam Tealmente fazendo com que acontecam coisas além do contro- le deles. Um bom hipnotizador pode estar usando um entre Varios métodos para dar aos pacientes essa sensagio de estar Sendo controlado. Transe ja existente Ohipnotizador pode despertar um estado de transe jé existen- - Por exemplo, certas palavras podem recordar alguma “XPetiéncia passada associada a elas. Se eu, como hipnotiza- dor, sei que vocé tinha muitos problemas com seu pai auto tario, posso falar sobre uma cruel figura autoritéria, dando detalhes sensoriais, e © meu discurso vai levi-lo de volta suas experiéncias com seu pai. Dessa maneira posso induzit em vocé um estado de regressio etaria. Se vocé tem muita experiéncias traumaticas nio-resolvidas, elas continuam con= gcladas dentro de vocé e podem ser despertadas por alguem que fale de experiéncias similares as suas. Nao sou um hipnoterapeuta, mas, se eu quisesse induzi um estado de transe infantil, poderia dizer o seguinte: “Enquanto vocé senta relaxadamente na sua cadeira, pode deixar sua mente voltar as muitas ocasides relaxantes qu teve na infancia. Vocé pode se recordar de brincar na areia, descer por um escorrega, ou balancar num balango, ou talv uma ocasiio em que vocé tenha se metido em apuros por pros yocar 0 seu irmAo ou rir na igreja, ou talvez, até mesmo a experiéncia assustadora de esperar que seu pai voltasse p. casa, quando sabia que ia apanhar...” Essa seqiigncia seme: Ihante a um cardapio tem como finalidade deixé-lo descobrit a memoria apropriada para fazé-lo entrar em transe profundo, © hipnoterapeuta pode apenas precisar observar como cliente se coloca no transe preexistente. Milton Erickson gos tava de contar aos seus pupilos que os seus clientes Ihe dariam todos 0s dados de que precisavam, O que ele quer dizer era que o cliente estava recriando 0 transe em que estar va @ medida que descrevia seu problema. O hipnotizador q observa como o paciente cria este estado aut utilizar © mesmo proceso para induzir © mesmo transe mai tarde. Indugdo de transe cléssica A indugao de transe hipnético mais familiar envolve paciente olhando para um objeto (um péndulo balangando ot lum spot na parede). A fixagao ocular é um elemento importan= te na inducdo de transe classica. A razio do uso da fixaga ocular na indugao de transe é que, jd que os misculos ocul 105 ‘ceo AVR sdo muito fracos, uma resposta de “piscadela” necessariamen- te ocorre quando 0 paciente fita 0 objeto. Por exemplo, uma hipnotizadora pode dizer: “Olhe para o objeto que est na minha mo.” Quando ela vé que o paciente esté piscando, con- tinua: “Voc8 pode piscar.” Isso € chamado espelhar. Sempre gue Vé ou sabe 0 que vai acontecer, ela o diz numa supestio verbal. O olhar vai ficar cansado muito répido; entao a hipno- tizadora costuma dizer: “Os seus olhos podem estar ficando pesados, vocé pode querer fechar seus olhos... Simplesmente deixe-os fechar, e vocé apreciaré 0 célido sentimento de des- caiiso que lhe vai chegar & medida que voc® relaxar.” ‘A hipnotizadora pode dar o ritmo para o paciente bai- xando o tom de voz.e falando lentamente. O paciente nao esta realmente oferecendo nenhuma evidéncia sensorial de estar apreciando um célido sentimento de descanso e relaxamento. ‘A hipnotizadora agora 0 esta conduzindo para que sinta esses estados pela sugestiio. Ela pode dizer ento: “Agora que seus, olhos estao fechados, role-os para cima € sinta-os encaixando-se, de modo que quanto mais vocé tente abrir os seus olhos, mais eles fiquem fechados.” Novamente, a hipno- tizadora sabe que, quando voce rola os olhos para cima, eles realmente se fixam e ndo podem ser abertos, O paciente fixa © olhos ao rolé-los para cima. Mas, no fluxo do espelhamen- to e do ritmo, comega a parecer que € a hipnotizadora que 0 faz. Depois de algum tempo, o paciente realmente acredita que a hipnotizadora esta realmente fazendo com que esses Comportamentos acontegam. Um paciente hipnético precisa confiar no hipnotizador. A ponte interpessoal entre os dois 6 crucial. O relacionamento de confianga cria um contexto em que © paciente acredita no hipnotizador. Com a confianga estabelecida, os processos de spelhamento, ritmo e sugestao completam o transe. ___ Pessoas mistificadas foram, com efeito, hipnotizadas na Infancia, Portanto, elas so bastante crédulas e suscetiveis de Serem hipnotizadas na maturidade. Hipnotizadores de teatro, ue sao completos estranhos, dependem dessa confianga, IMgenuidade e credulidade. 106 JOHN Branstiaw: Criangas como pacientes hipnéticos Se considerarmos as circunstancias da infancia, ficaré claro que as criangas so pacientes hipndticos perfeitos. So pro= fundamenie confiantes. As criangas se apegam aos pais e pos- suem uma necessidade de sobrevivéncia de acreditar que 0s seus respons4veis so boa gente. As criangas so egocéntri- cas, 0 que significa que personalizam tudo. Se uma figura importante grita com elas, o motivo sio elas, ¢ ndo a dor de cabega da figura importante. As palavras que as criangas escutam tém um profundo impacto sobre elas; continuam a soar nas suas cabegas e se tornam vozes auto-suficientes ou vozes que culpam, criticam, comparam e expressam despre- zo. As crianeas internalizam o pior lado dos pais. Quando os pais estio gritando, vociferando, batendo ou violando sexual- mente uma crianga, a seguranca desta é extremamente amea- ada. E por isso que as cenas traumdticas so impressas de maneira muito mais vivida que outras cenas. Nés recordamos mais claramente aquilo que ameacou nossas vidas O estado hipnético € de extrema suscetibilidade a suges- tes. Milton Erickson usou o estado de transe para instalar vozes positivas que utilizavam os recursos interiores dos seus pacientes. Ele também fez sugestdes positivas sobre o futuro € mandou que os pacientes as esquecessem assim que desper= tassem do transe. Ele deu estas instrugdes porque queria que as mensagens positivas operassem diretamente sobre a mente inconsciente dos pacientes. As sugestées futuras séio chama- das de “sugestdes p6s-hipnéticas”. As vozes traumaticas dos pais so como sugestoes pés- hipnéticas que ficam soando dentro das nossas cabegas, NOs freqiientemente pensamos que essas vozes 80 nossos pro- prios didlogos mentais, mas nao o so. Sao impressdes auditi- vas, as vozes interiorizadas de nossas figuras-fonte. Sem uma Tesolucao, as vozes continuam soando na nossa vida adulta. Cada vez que as escutamos, o transe original é induzido e mantém o nosso estado mistificado de existéncia. ‘ACraciovo AvoR 107 FENOMENOS DE TRANSE PROFUNDO 0s fendémenos de transe profundo se distinguem dos do transe ordindrio em virtude da sua profundidade ow intensidade Esses fendmenos ocorrem ou devido a fendmenos ameacado- res ¢ traumaticos, ou a inducdo hipnética, No caso de indugéo hipnética, geralmente so necessérias muitas ¢ muitas horas até alcangar esses estados. : i F Ha excecdes. Algumas pessoas séo muito mais susceti- veis que outras, e podem chegar a estados de transe profundo muito rapidamente. No caso de experiéncias catastréficas, 0 transe pode ser induzido imediatamente porque a pessoa esté intensamente assustada. Darei abaixo uma breve descricdo e alguns exemplos de varios fendmenos de transe profundo. Estagio dois da mistificagio FENOMENOS DE TRANSE PROFUNDO -REGRESSAOQ/PROGRESSAO DA IDADE pec | Sees Auta | DISTORGAO SENSORIAL | ‘SUGESTAO POS-HIPNOTICA Dissociacao DIsToRCAO TEMPORAL Sugestdo pés-hipnética Acabei de descrever como as vozes de nossas fi So internalizadas na forma de impresses auditivas, que so ‘ativadas por qualquer experiéncia similar a qualquer parte das Nossas primeiras experiéncias. Na inféncia eu costumava ser censurado sempre que 108 Jom Baosiaw expressava orgulho de mim mesmo ou de minhas realizagies. “Nao fique de cabega inchada”, alguém dizia. Ou eu poderia ouvir: “Cuidado. O orgulho vem antes da queda.” Aprendi que a yerdadeira humildade consiste em munca falar sobre si, nunca pensar sobre seus préprios poderes e nunca expressar a apreciacao dos seus proprios talentos. Agora, jé adulto, sempre que estou em contato com minhas realizacées ou estou me sentindo bem pelo que conse- gui, escuto essas vores. Dois dos meus livros — Healing the Shame that Binds You ¢ Homecoming: Reclaiming and Championing Your Inner Child — estiveram na lista dos mais vendidos do The New York Times por cinglienta e duas sema- nas, vinte © trés em primeiro lugar. (Uma voz. acaba de me dizer que estou puxando a brasa para a minha sardinha ¢ que ndo deveria dar o nome desses livros.) Quando os livros entraram na lista, fui bombardeado por vozes que me aconse- Ihavam a ser humilde. Uma delas me disse que eu s6 tinha sorte. Qutra me disse que isso nao podia durar. Trabalhei duro para reconhecer que essas vozes so estranhas & minha verdadeira personalidade. Tento pensar nelas como alguém poderia pensar que esta possuido, Respondo a elas ¢ as substituo por novas vozes, que me nutrem e me permitem ter confianga e apreciar meu sucesso. Regressao etaria ‘A maioria das pessoas experimenta a regressdo etéria com bastante frequiéncia. Um memorando do chefe pedindo que voc v4 ao escrit6rio dele pode despertar uma cena anterior em que voeé ia ao escrit6rio do diretor da escola ou ao quarto do seu pai para ser punido. Vocé provavelmente nem mesmo estard consciente da cena evocada, mas sente algo daquele velho panico. O cénjuge que age de maneira indefesa pode estar regredindo até uma cena onde a mie dava um jeito em tudo se vocé agisse de maneira indefesa. Erickson definiu a regressdo etdria como “a tendéncia da parte da personalidade a reverter a algum método ou forma de expresso pertencente ‘Acauaciono ANCE 109 ‘a uma fase anterior do desenvolvimento da personalidade”. Criangas adultas regridem freqiientemente e de maneira apa- rentemente automética. Um adulto que se comporta como ‘uma crianga estd regredindo em idade. E a qualidade de paralisag4o temporal da regressio etd- ria a responsavel pelo fato de 0 comportamento mistificado ser repetitivo. A compulsdo a repetir pode ser explicada pela atividade de uma experiéneia em um tempo anterior. L fadulto pode, em qualquer situagao problemética, regredir a uma maneira de pensar e de se comportar que usou em uma idade ¢ um estégio de desenvolvimento anteriores. Na infan- cia, aprendi a fazer beicinho ¢ a me recolher para atrair aten- ¢40. Ja adulto, peguei-me tendo o mesmo comportamento em relacionamentos adultos e até mesmo com meus filhos. Quando faco beicinho e me recolho, estou regredindo em rr. Um idade. ‘A regressfo etéria solapa e impede o funcionamento adulto, Regressdes de idade erdnicas marcam os lugares onde © proceso de desenvolvimento de uma pessoa foi paralisado. Acho que exemplos farao com que isso seja compreendido com mais facilidade. Na pagina seguinte, voc vera minha representagiio de dois adultos com suas criangas feridas misti- ficadas. Um adulto esté perguntando a uma adulta por que esté Zangada. A pessoa fazendo a pergunta est iniciando um con- {ato adulto. Mas a crianga interior do outro adulto responde: “Nada.” Fregiientemente a pessoa que fala a partir da crianga interior realmente assume a aparéncia de uma crianga. Qualquer relacionamento pode confundir quando o adul- foe a crianca de idade regredida esto funcionando ao mesmo Tempo. Muitos relacionamentos que so aparentemente esco- Ihidos por adultos so na verdade escolhidos por suas crian- 85 de idade regredida, © palco esta montado para a regressdo etéria quando ma crianca é incapaz de entender ou resolver a interagao ‘Com suas figuras-fonte. Wolinsky escreveu: “Para no inte- Srar uma experiéncia — em esséncia para resistir a ela — a Stianca paralisa seu corpo tensionando os misculos ¢ pren- uo Jon Basiay Por que vocd esta zongade? Vamos Neda (uma voz baixa) ¢ zangada) dendo a respiragao. Esse padrao psicolégico pode ento se tornar a base somética para uma resposta automdtica — um transe intrapessoal de si para si que resiste décadas a fio’ ‘Na minha propria vida, 0 efeito mais danoso da regres- sfo etéria se relaciona com a vergonha e com a raiva reprimi- da. Aprendi que a raiva era um dos sete pecados mortais. A raiva € um pecado mortal que pode mandar vocé para o infe no. Aprendi desde cedo a prender a respiragdo, apertar o quei xo € tensionar os mtisculos quando sentia raiva. Nao me lem= bro das primeiras cenas de raiva reprimida, mas sei que com ‘© tempo fiquei morrendo de medo da raiva, literalmente para- lisado. 4 Carl Jung disse certa vez que qualquer parte de nés mes- Mos que nao amemos incondicionalmente se separa € se tora mais primitiva. Com o passar dos anos, minha raiva reprimida cresceu em intensidade. Na vida adulta, a minha raiva dé idade regredida saa através de reagdes desproporcionais co Felago ao que a despertava. Minha raiva muitas vezes se expressava de maneira primitiva, um ataque de crianga com a voz € 0 corpo de um homem. Esse tipo de regresso € devas- tador para relacionamentos. ‘Aceucion0 ANOR m Progressao etéria ‘A finalidade da progressio etéria € projetar o individuo num futuro em que as coisas sejam mais seguras e agradaveis. Nos usamos muitas vezes a progressio etdria para nos distrair de interagdes ameagadoras no presente. Criando uma imagem futura muito diferente dos eventos deprimentes da minha infancia, pude seguir adiante em muitos dias dificeis. Naturalmente, a progressdo etéria pode ser usada de manera positiva. A capacidade de criar um tempo futuro uma parte importante da criatividade humana. Nossa imagi- ago pode nos mostrar 0 caminho para uma vida melhor. Posso apontar muitas coisas que fiz que se basearam em visOes infantis. © perigo da progressdo da idade esté no que eu chamo de imaginagdo fantéstica. A imaginagdo fantistica cria véos fantasiosos em que distorcemos a realidade. Tive um amigo que falava continuamente de ser um miliondrio, Afirmava que era s6 uma questo de tempo antes de 0 conseguir. No entan- to, nao fazia nada na vida para transformar a fantasia em rea- lidade. Deixou passar muitas oportunidades que Ihe teriam permitido avangar em sua posicao financeira. Meu amigo erescera com um pai alco6latra. Esse pai era um homem frio € repressor, que limitara muito as atividades do filho. Diante dos limites deprimentes que o pai impunha, meu amigo aprendeu desde cedo a progredir em idade. Com 0 tempo, ele desenvolveu uma habitual vida fantasiosa. O seu transe intra- Pessoal se transformou num lugar psfquico secreto que fun- Cionava automaticamente. Como todos os transes defensivos habituais, esse transe podia ser iniciado sem a intencionalida- de consciente. Meu amigo constantemente usava a progressao dde idade como uma maneira de evitar a realidade. Em vez de prender como usar essa energia consciente para criar um luro realista, ele estava preso no espago psiquico que © pro- fegera na infancia. Passei muitos dos meus anos de alcoolismo ativo senta- em bares escuros e malcheirosos escutando “perdedores” 8 gabarem das grandes coisas que iam acontecer com eles no nz Join Bucsiay futuro, Posso me lembrar de trés homens, todos mortos antes dos 45 anos. Vitimas de violagdes infantis, aprenderam desde cedo a ser sonhadores. Nunca ultrapassaram o reino da fanta- sia das suas infancias. Como todos os transes defensivos, a progressio de idade ajuda o individuo a sobreviver & infancia, mas, se néo for modificada, pode ser a causa de nossos fra- cassos na vida adulta. Esse € 0 paradoxo das defesas da infan- cia — elas salvam a vida da pessoa na infancia, mas causam_ graves problemas na maturidade. Amnésia Milton Erickson sugere que a amnésia € uma consequéncia natural do estado alterado de consciéneia que constitui o tran= se hipnético. A amnésia, ov esquecimento, 6 uma das experiéncias humanas mais comuns. Como Stephen Wolinsky aponta, esquecemos 0 horério do nosso compromisso com 0 médico, Esquecemos a festa de negécios que tememos, Esquecemos 0 aniversario do nosso sogro. $6 quando experimentamos 0 esquecimento como uma parte crénica de nossas vidas é que ele se torna problematico. E, quando 0 esquecimento é pro- blemdtico, ele realmente se transforma em estado de transe. Todas as criancas de familias disfuncionais aprenderam a usar o fenémeno do transe como amnésia. Como Wolinsky observou, um termo mais comum para a amnésia € “nega- 0". A negacao é o elemento principal da disfuncdo familiar, ‘A negagio € 0 que impede os membros da familia de lidarem com suas emogGes e problemas, As familias inconsciente- mente concordam em esquecer 0 que viram ¢ escutaram. Q pai pode ficar bébado todo Natal hé vinte anos. De algum modo, todos tém esperanca de que esse ano seré diferente. Nao ha uma base na realidade para essa esperanga, Estados de amnésia crénica s40 métodos intensos de manter 0 equilfbrio da familia ou do individuo. Se uma crian= ga pode esquecer as coisas nojentas que o pai esté fazendo com ela, entdo 0 equilibrio familiar podera ser mantido. Se a ‘Aqui 00 AWOR 13 crianga se lembra ¢ fala sobre isso, causaré dor tanto a si mesma quanto a familia atts i ‘A negaco na forma de amnésia € comum nas familias disfuncionais devido a lei do equilibrio dos sistemas familia- res. O sistema pressiona os individuos a que se conformem Quanto mais incompleto © vazio for cada membro, mais a familia se junta, formando 0 que © pioneiro estudioso dos sis- temas familiares, Murray Bowen, chamava de “massa egsica indiferenciada”. Vitimas de violagao sexual e fisica sentem poderosas press6es para manter o segredo e esquecer 0 que aconteceu com eles. Durante abusos graves, a personalidade € tio violada ue desaparece ea vitima se funde com o agressor, A imagem do molestador é impressa no sistema neurolégico da vitima. A amnésia é uma conseqiéncia natural de se perder no ato do abuso. trauma serd recordado apenas quando a pessoa voltar ao estado alterado de consciéncia que a acompanhou emt pri- meiro lugar. Uma pessoa que sobreviveu a um grave acidente geralmente tem dificuldade de lembrar-se dos eventos que a levaram até ele, porque voltou ao seu estado normal de cons- iéncia, Se um evento similar ao estado original é experimen- tado, digamos, num filme, a pessoa pode voltar ao estado trau- matico. O mesmo acontece a sobreviventes de incesto ou a vitimas de desordem do estresse pés-traumético, Uma cena ou ‘ultra forte impressdo similar a original pode ativar o trauma. Hipermnésia A hipermnésia significa ter uma memsria extremamente apu- Fada. Isso parece ser apenas o oposto da amnésia, que signifi- £4 ter uma perda total ou parcial da memoria. Mas, como Pontou Wolinsky, os dois tipos de transe s4o muito similares, 44 que alteram o funcionamento normal da meméria. A crian- £2 geralmente desenvolve uma ou outra, dependendo de qual Tora mais protetora, Mas estas também se podem superpor. A hipermnésia é criada devido ao medo de no ser vigi- ue JornBeanuw Jante, Ela costuma ocorrer em familias disfuncionais em que haja inconsisténcia. Geralmente, a inconsisténcia se relaciona com a punicéo — ou repreensdes verbais raivosas, ou abuso fisico. Mas qualquer inconsisténcia comportamental pode ati- Var esse estado de transe. No capitulo 1, contei a hist6ria de Larmark, que viu a mie ¢ os dois irmaos mais velhos seem surrados pelo pai alcodlatra. Ao vigiar todos os movimentos que seu pai fazia, Larmark se tornou consciente dos sinais que precediam og surtos de violéncia dele. Havia certo tom de voz, cettos sorti« sos desdenhosos movimentos dos labios. Quando Larmark. via esses padres emergirem, ou ele ficava muito quieto polido, ou ia para o quarto e fingia dormir. Ele nunca era sur- tado. Na idade adulta, porém, esse tipo de vigilincia detalha- da causou grandes problemas nos relacionamentos de Larmark. A hipermnésia é um importante transe defensivo para pessoas que foram violadas. Conheco muitos sobreviventes de violacées infantis que podem dizer se um estranho € um molestador em potencial, porque possuem uma atengao extraordinariamente aguda para detalhes, especialmente deta= Ihes nao-verbais. O lado ruim da hipermnésia € a atitude desconfiada em que ela se baseia. Esse transe permite que as pessoas vejam s espinhos, mas nao as rosas, o buraco, € ndo a rosquinha, ‘Sempre em guarda, a pessoa nao esté livre para considerar toda a gama de alternativas disponiveis. Paradoxalmente, os hipermnésicos perdem muito das boas informagdes ao seu redor. A visio em tiinel da hiper- mnésia limita seriamente o escopo da sua percepeao. Prepara @ pessoa para uma visio de mundo parandica. Como nestes exemplos, a hipermnésia muitas vezes se manifesta numa dise fungao intima e num temperamento excessivamente critico. Ela também pode estar por trés de uma desordem compul- siva-obsessiva e em outras desordens que envolvem viver numa tensio vigilante e temerosa. } caiono Mtoe is Alucinagées positivas ‘Alucinagdes positivas envolvem ver, escutar ou sentir algo que ndo estd aqui. Nos seus extremos mais bizarros, essas alucinagdes so chamadas de “psicsticas”. Mas ha muitas for- mas de alucinagSes positivas. Qualquer um que teve um amigo imagindrio na infancia se entretinha com alucinacées positivas. Nos casos mais benignos, qualquer um que fantasie estar num relacionamento com outra pessoa ou que fantasie ser bom no golfe ou no esqui esté alucinando positivamente. Quando era garoto, eu me via como herdi de jogos de futebol americano e vencedor de toreios de golfe. Fantasiat é uma parte normal de um proceso imaginativo saudével, contanto que desejemos nés mesmos criar a fantasia e pare- mos de crid-la. No momento em que a nossa vida fantasiosa comega a funcionar sozinha ela se torna problemdtica. Quando a alucinagao positiva é automética e crénica, é um fenémeno de transe criado na infncia para sobreviver & violapdo. Quanto mais severa a violago, mais poderosas ten- derdo a ser as alucinagbes positivas. Maxmillian teve pais verbalmente abusivos. Nao impor- two que fizesse, nada parecia estar bom para eles. “Voc sem- pre pode fazer melhor”, dizia seu pai. O sistema familiar era cultual no sentido que descrevi. Na maturidade, quando Maxmillian vai para um ambiente grupal, ele sempre imagina Que as pessoas ou ndo gostam dele, ou esto falando dele. Maxmillian fantasia olhares criticos nos seus rostos ¢ se con- ence de que o esto julgando de maneira critica. : O citime € outra forma comum de alucinago positiva. Jack acusou Jill de ter um caso muito antes de isso realmente ‘Scorrer. Quando garoto, Jack era deixado sozinho por longos Perfodos de tempo. Para aliviar seus sentimentos de is olamen- 10, Jack criou um amigo imagindrio. Aprendeu a alucinar posi- tivamente como maneira de sobreviver. Sempre que Jill estava alando com outro homem. Jack via coisas que ndo estavam Gcontecendo, Lembro-me dele dizendo: “Podia ver como voce ficou excitada com aquele cara; vocé estava sorrindo e respi- ‘Fando pesadamente.” Jill no estava nem mesmo sorrindo. 8 Jon Bosiaw E comum falar na terapia de casal de alguém projetando © rosto do pai/mae ou do ex-parceiro sobre 0 novo parceiro, N6s freqiientemente vemos no rosto do novo parceiro ou escutamos na sua voz semelhangas negativas com nossa figuras-fonte. Qualquer terapeuta que trabalhe com aconse- Ihamento de casais ja foi sacudido pelas respostas exageradas dos parceiros. Essas respostas muitas vezes envolvem aluci= nagdes positivas — retratos ou vozes do passado superpostos no presente, Alucinagées negativas Uma alucinagao negativa, como uma alucinagao positiva, & uum fenémeno de transe que altera nossa percepeao. A palavra ‘negativa” nao é um julgamento de valor. S6 significa que ‘ndo vemos, escutamos ou sentimos o que esti presente. ‘Temos experiéncias digrias de alucinagées negativas. Estou escrevendo na minha mesa e nfo posso ver a régua que estava usando. Todos nés jé tivemos a experiéncia de procu= rar algo que estava bem diante dos nossos olhos. Estou assis tindo a um jogo de futebol do Notre Dame ¢ no escuto mew filho me dar o recado para ligar para meu amigo Johnny. Durante o jogo perco totalmente o contato com a dor no ‘ombro, causada por trabalhar to intensamente a semana toda: Mais problemético ¢ deixarmos de perceber totalmente 0 olhar triste no rosto do parceiro. Podemos nao escutar um pedido que nos seja feito diretamente. Podemos no sentir a raiva no nosso peito. Vi isto repetidas vezes no aconselhamento. A esposa que se recusa a ver que 0 marido é um alco6latra. Ou 0 marido que se recusa a ver que a esposa est4 tendo um caso com 0 seu s6cio quando todo 0 mundo ja sabe disso. Ou a esposa cujo marido the diz varias vezes durante as sessGes de terapia que ela precisa ajudé-lo no seu trabalho. Seis meses depois, a questdo vem & tona, ¢ ela jura que ele nunca pediu auxilio. O estado de transe das alucinagées negativas comeca no inicio da infancia, Muitas coisas podem ser dolorosas demais ‘ncauckovo Mok u7 ya serem vistas ou ouvidas. Uma crianga desenvolve 0 hdbito de no enxergar, escutar ou sentir. Mais tarde, a crian- ga vira uma crianca adulta ¢ repete esse habito em seguidos relacionamentos interpessoais. Alucinagdes negativas exercem um papel em quase todos os outros fendmenos de transe profundo, Por exemplo, na regressao etéria, a pessoa nao deve ver o real contexto interpessoal em que esta inserida; ela precisa parar de estar presente no agora para estar presente no antes. A. progresso de idade requer uma alucinag4o negativa semethante, Para ver ‘o futuro, a pessoa nflo deve mais ver o presente. ‘Muitos dos meus clientes usaram comigo tanto as alu nagOes positivas quanto as negativas. Isso costumava aconte- cer quando descreviam comportamentos que consideravam vergonhosos. Na maioria das vezes, eu me mantinha comple- tamente neutro durante essas descrig6es. Eu poderia dizer algo como: “Isso & muito tipico de uma pessoa que foi maltra- tada na infiincia, como vocé.” No entanto, 0 meu cliente res- pondia: “Eu sei que vocs acha que sou horrivel” ou “Posso ver que voce acha que sou estipido por agit assim”. Em esséncia, eles estavam vendo e escutando coisas que eu nao estava dizendo e nao viam e escutavam 0 que eu dizia. As pessoas muito entrincheiradas no papel de vitima sam copiosamente tanto as alucinagSes negativas quanto as Positivas. No capftulo 1, descrevi a situago de Minerva, a ‘ianga perdida que assumiu o papel de vitima desde cedo. J4 Adulta, cla sentia-se usada e abusada por um patrdo apés 0 Sutro. Quando comegou a ir fundo na terapia, porém, Minerva lembrou que um desses chefes se oferecera para Mandé-la para a faculdade com seu proprio dinheiro, Outro, @dmitiu depois, era um bom sujeito. No entanto, mesmo na ferapia, cla continuou a ver e escutar ofensas e desprezo onde Ma verdade nao existiam. Fregtientemente, as vitimas de abusos sexuais criam es durante o abuso, em que deixam de ver e ouvir 0 que “std acontecendo. Mais tarde se tornam disfuncionais. 14 ndo lem ver ou ouvir 0 verdadeiro parceiro; em vez. disso, © escutam a pessoa que as violentou, Usam tanto aluci- Pages positi vas quanto negativas. a Jom ‘ncwuciov0 AVR ng Distorgaio sensorial — elas querem acabar com aquele ato sujo rapidamente. A ripida explosio significa que a pessoa nao consegue experi- nentar a sensacdo por muito tempo. ‘Algumas pessoas que esto presas a vinculos de vergo- nha expressam seus sentimentos com muita energia, las tm explosdes emocionais. Novamente, a expresso intensa das suas emoges € uma maneira de nao senti-las realmente. A explostio emocional acaba com os sentimentos rapidamente AA distorgo sensorial é um estado de transe em que a expe- rincia sensorial da pessoa é amortecida ou exagerada. A posta sensorial 6 alterada para que a erianga possa sobrevive ela nao sente mais a experincia sensorial pura. Em vez. diss ‘ou ndo sente nada, ou se torna hipersensivel, ampliando to. 8 estimulos. © abuso fisico muitas vezes 6 combatido com 0 transe do entorpecimento sensorial. As criangas espancadas com fre! guiéncia aprendem certas respostas, como tensionar os misc los e respirar de maneira superficial, o que permite que dei xem de sentir suas emogdes. Elas vo para um lugar onde s distraem da dor fisica e aprendem a anestesié-la totalmente. dor e © assalto fisico reais sdo alterados fisiologicamente po meio do transe. Uma vez que isso tena se tornado um hdbito, a crianca poderd ficar entorpecida espontaneamente diante d qualquer perigo. Muitas vezes as desordens alimentares derivam do ento pecimento usado para combater o abuso fisico ou sexual. pessoa perde contato com suas sensagdes corporais. Ela lite: ralmente ndo sabe mais se esté ou nao fisicamente faminta. Na distorgao hipersensorial, os estimulos sensoriais ampliados. Por exemplo, algumas pessoas ficam excessiv mente estimuladas pela presenga de outras. Lembro-me de Infancia ter sentido medo, sempre que minha me me avisav {que C. W. ia visitar nossa casa. C. W. ficava tio excitado com a visita que muitas vezes corria e me mordia! Sim, ndo estou exagerando — 0 garoto estava supercarregado! A energia dé CC. W. eta tdo ativada que 0 atropelava e as pessoas 20 redor. Esse tipo de distorgao sensorial muitas vezes resulta de pais excessivamente possessivos ¢ estimulantes. Eles violam : 6s limites dos filhos de tal maneira, que os filhos explodem pietas, que o corpo fisico da pessoa realmente passa por num esforgo para se proteger. A ences Mensuraveis enquanto as distintas personalidades Sentimentos excessivamente intensificados so, na ve font £,¥39. Por exemplo, alergias, tamanho dos sapatos ¢ dade, uma maneira de evitar 0 sentimento. A ejaculagao ores dos olhos podem ser diferentes em cada personalidade. ccoce € um exemplo. Uma pessoa cujo desejo sexual foi lado a vergonha pode responder com uma ejaculagao pi Dissociagao ‘A maioria das vitimas de incesto usa a dissociagao para so- breviver na infancia. Uma crianga vitimada sexualmente aprende a lidar com uma pessoa ameacadora “viajando”, indo a outro lugar” ou “flutuando fora do corpo”. Wolinsky distingue trés tipos de dissociagao: + dissociago de um sentimento ou sensagao interna; + dissociagao de uma parte do corpo (genitdlia, mem- bros, voz, misculos); + dissociagdo de estimulos externos. Todos sabemos como “viajar”, nés o fazemos quase todos os dias. Podemos nos distrair e nos afastar das coisas desagradé- Veis ou de situagdes que nos ameacem. Jé 0 estado de transe da dissociagao funciona automati- camente, O Ambito desse estado é enorme, indo da dissocia- ‘¢20 de um sentimento até a capacidade de ter varias persona- Ndades distintas vivendo dentro de um corpo. No caso das Miiltiplas personalidades, as dissociagdes podem ser tio com- Estagio dois da mistificagao A REDE DEFENSIVA Algumas criancas espancadas aprendem a se dissocia de seus corpos ¢ a deixar de experimentar os sentimentos dor e tristeza, Nesse caso, a dissociagao € a forma suprema_ embotamento sensorial. A dissociagdo permite que a crianga deixe de sentir afligao, 0 medo, a dor e a raiva presentes na familia. Api a me dissociar dos meus sentimentos quando tinha nove ani Na adolescéncia usei as bebidas e as drogas para sent exuberante ¢ para encobrir meu medo ¢ tristeza, Estava amortecido, que s6 podia sentir através de produtos quimi Como ji mencionei, a dissociago pelo “abandono” ambiente externo é comum nas nossas vidas. Criangas dei de ouvir os pais reclamando; estudantes sentados numa fazem de conta que esto em outro lugar. Esses so os us normais da dissociagaio. Mas algumas criangas deixam s ambiente para entrar num tipo de sono desperto. Elas diss ciam toda a sua presenca emocional e psicoldgica da vi familiar. Tive a experiéncia aflitiva de trabalhar com crianj adultas que estavam dissociadas de suas proprias vozes. El 121 Acuacioto AOR dizem as palavras permitidas pela familia. Mas essas palavras nao so realmente suas. Formam um vocabuldrio de papa- gaio. Esses adultos parecem bonecos de ventriloquos. Distorgao temporal Através da distorgZio temporal, experimentamos a passagem do tempo mais lenta ou mais rapidamente. Se escutamos uma palestra magante, parece que o tempo se arrasta; se a palestra interessante, o tempo parece voar. O tempo também parece ser muito afetado pela nossa resisténcia ao que estamos expe- rimentando. A obsesstio com “quanto ainda preciso andar” faz.com que o tempo fique mais lento. Uma crianca apavorada que tenta bloquear 0 choro da mae durante uma briga conjugal automaticamente comega a tomar a respirago mais superficial e a tensionar os misculos. Essa resposta automdtica na verdade aumenta a duragio do tempo, Wolinsky sugere que “o corpo, nesse estado tenso & contido, realmente torna mais lenta a experiéncia subjetiva de tempo; prender a respiragdo cria uma experiéneia ‘paralisada’ que “prende’ os sentimentos ¢ impede o fluxo externo das emogGes”. A contenda familiar que leve vinte minutos pode Parecer durar quatro horas. Nas familias disfuncionais, eventos aflitivos ocupam muito tempo e parecem ocupar muito mais. Mas, mesmo nas familias que sao relativamente funcionais, um evento traumé- tico pode criar a distorgdo do tempo. As vidas de muitas pes- Soas so ditigidas por uns poucos eventos dolorosos. JA vi casais com anos de felicidade permitir que um ou outro even- to doloroso destrua seu relacionamento. A rede de defesa Na figura da pagina 120, associo os fendmenos de transe com 6S Vinculos da vergonha contra aqueles que ajudam a crianca * se defender. Mostro as alucinag&es positivas e negativas e Bnsaw cuctor 3 12 Jon ‘A.caacioco ANOR 123 os fen6menos de transe usados para lidar com vinculos de ESTAGIO TRES: AS CENAS DOMINANTES vergonha perceptivos, a distoreao sensorial como fenémeno usado para encobrir os vinculos de vergonha corporais, ¢ assim por diante. A confuso que situo como oposta aos vinculos de ver- gonha do pensamento é um estado de transe que irei descrever mais detalhadamente adiante. A confusio acaba se tornando: um estado generalizado que resulta de todos os vinculos da ergonha, e no s6 os vinculos associados ao pensamento. Na verdade, os pares na figura sao transferiveis; qual- quer fendmeno de transe pode ser associado a qualquer vin- culo da vergonha. Por exemplo, uma pessoa pode usar disso- ciagdo em vez de distorgdo sensorial para lidar com vinculos de vergonha corporais. A escolha inconsciente de cada indivi« duo cria um padrao e uma combinagio de defesas distintos. A figura apenas pretende mostrar como 0 estigio um (vinculos da vergonha) e o estigio dois (fendmenos de transe) do pro- cesso da mistificagdo se relacionam. ‘Na infancia, todos esses fenémenos Profundos se coagu- Jam para formar uma rede de defesas. Embora essa rede ofe- Tega protecao e diminua nossa dor e afligao, cla também & 0 fundamento da nossa. mistificagdo. Nao somos mais nés mes- Mos; nao estamos mais vivendo como nés mesmos, Nossos corpos foram entorpecidios ou excessivamente sensibilizados, bem como nossos pensamentos, sentimentos e desejos, Estamos fora de contato com nossas necessidades basicas. Embora nos defendam dos vinculos da vergonha, os fendme-_ nos de transe nos impedem de resolvé-los e Quanto mais grave e humilhante a cena original, mais inten- samente ela € impressa. Gershan Kaufman, 0 psicdlogo pio- neiro no estudo da vergonha, escreveu: Estigio trés da mistificagio CENAS DOMINANTES IMPRESSOES NEUROLOGICAS DE CENAS HUMILHANTES ORIGINAIS SE FUNDEM ‘COM FRAGMENTOS DE CENAS SUBSEQUENTES COM AFETOS SIMILARES, CBCRED O afeto (sentimento) imprime as cenas, ¢ a presenga de afetos idénticos em duas cenas diferentes aumenta a pro- babilidade das cenas se interconectarem, sendo fundidas diretamente. Esse processo de ampliagao psicolégica leva ao surgimento de familias de cenas. Durante nossa infancia, as cenas dos vinculos da vergo- nha se coagulam ¢ gradualmente emergem como familias inteiras de cenas. Tornam-se cenas dominantes. Essas cenas Cominantes formam grupos de vergonhas de ordem superior. Kaufman distingue vergonha corporal, vergonha de compe- tencia e vergonha de relacionamento. A minha experiéncia da Vergonha toxica é que todas as primeiras experiéncias de ver- Senha acabam se unindo e formando reservatérios de vergo- tha tio profundos, que todo.o meu ser sente vergonha. A ver- Bonha ndo conhece limites; permeia-me completamente, Originalmente, as cenas de vinculos da vergonha so Tetidas inteiramente, como cenas separadas. Entao, pedacos raiva deixa as cenas humilhantes originais impressas nos nos- sos sistemas neurolégicos. Essas cenas impressas formam a base para o terceiro estdgio da mistificagao. aa Jorn Bansiaw de novas cenas sio adicionadas até que exista uma colagem de imagens interconectadas. Essas colagens sao as cenas dominantes que mantém a vergonha t6xica. Cada colagem € como um buraco negro no espaco, cheio de poderosa energia, atraindo qualquer sentimento de vergonha para si. Uma vez que qualquer parte de uma cena dominante tenha sido ativada, toda a colagem é ativada. Isso € chamado de “espiral de vergonha”, e qualquer um que a ‘tenha eXperimentado sabe exatamente como é a sensagao. 5 como se um cordao de fogos de artificio estivesse estourando, Um fogo acende 0 outro, que detona o seguinte, e assim por diante. Um pensamento envergonhado detona uma imagem, que acende outra imagem, ¢ assim por diante, cada imagem ampliando e intensificando o sentimento de vergonha. Quan- do vocé est numa espiral dessas, sente-se sobrepujado © im Potente; acha que nao tem escolha nenhuma. Na verdade, vocé tem uma escolha. Discutiremos isso mais tarde. Considere a espiral de vergonha de uma pessoa que foi provocada ¢ ridicularizada na infancia devido ao seu corpo. Ela teré imagens poderosas — tanto visuais (rostos) quant auditivas (vozes) — da vergonha. Sempre que enconti alguém que lembre sua fonte de humilhacao original, as de vergonha profunda quanto a seu corpo sero ativadas. Essas cenas podem ser ativadas automaticamente por qual- quer estimulo externo que recorde de algum modo a experién- ia original de sua humilhagao. As cenas podem ser ativa até mesmo sem estimulo externo. Um pensamento, um pot de discurso interior ou uma meméria podem ativar uma espi- tal de vergonha. Comparar seu corpo com o de outra pess também pode ser 0 estopim. 4 J4 que a imagem da pessoa que nos envergonhou pel primeira vez também esté gravada na meméria neurolégi uma resposta ofensiva & espiral de vergonha também é seme pre possivel. As pessoas freqlientemente envergonham ‘outros da maneira como foram envergonhadas. Isso ajuda explicar como uma pessoa que foi humilhada ou espancada na infncia pode humilhar ou espancar os préprios filhios. Como 0 exemplo seguinte mostra, as cenas de vincul ‘acacion0 AWE 15 da vergonha e os estopins podem envolver 0 corpo, as percep- oes ou qualquer uma das nossas capacidades. Wolinsky conta a hist6ria de uma mulher que costumava fitar os cabelos grisalhos do pai sempre que ele a acariciava sexualmente. Ela achava essa experiéncia prazerosa, embora se sentisse Suja quando pensava nisso. Mais tarde ela a repri miu completamente, No entanto, j4 adulta, uma das suas fan- tasias masturbatorias favoritas era imaginar ser tomada de maneira gentil, mas vigorosa, por um homem de cabelos gri- salhos, Ela também se dissociava freqlientemente quando olhava para cabelos grisalhos. Embora Joe adorasse comer, ele sentia enjGo e vergonha sempre que sentia 0 cheiro de peru no dia de Agao de Gracas (0 seu problema de obesidade comecou quando tinha quatro anos. Ele era freqtientemente punido por maus modos na mesa de jantar. Joe pesa cingiienta quilos a mais do que deve- ria. Durante varias sessGes de regressio etaria, recordou-se de ser derrubado da cadeira na mesa de jantar. Ele estava comen- do rapido demais para 0 pai bébado e zangado. Ainda no chi, 0 pai enfiou peru na sua boca! Sibley gosta de comer rapido e em movimento. Ele come em pé; come enquanto dirige. Na infancia, Sibley foi forgado a sentar-se & mesa durante longas horas até limpar 0 Prato, Sentar-se a mesa Ihe traz. de volta os sentimentos de isolamento vergonha que sentiu na infancia, Os vinculos da vergonha so mantidos em nossos cor- Pos. Sempre que sentimos as emogdes que foram envergonha- das, sentimos vergonha. A vergonha ja foi chamada de €moeao-mestra; esta é a razdo. Muitas vezes, quando Bill sente medo, ele vé a imagem > Pai com um ar de repugndncia. As vezes escuta a voz do Pai dizendo: “Seu grande maricas. Vocé devia ter sido uma Menina.” Em vez de senti medo, ele sente vergonha. Bill fommesou a beber como maneira de encobrir os seus medos. A ebida funcionow bem, embora ele precisasse, com 0 passat o tempo, de mais e mais para acabar com o medo. inalmente, num centro de tratamento para alcoolismo, brit que © medo é uma emogaio humana normal; apren- 126 JOHN BRuDshAW. deu a expressar seu medo e percebeu que sua vulnerabilidade © aproximou dos outros. © envergonhamento interpessoal das necessidades de dependéncia cria cenas dominantes que podem ser desperta- das por todo tipo de interagdo interpessoal, Eu mesmo servi rei de exemplo, Na minha formagao patriarcal as criangas no diziam no para nenhum adulto. Os adultos podiam dizer nao para uma crianga, simplesmente porque eram adultos. J4 adulto, era muito dificil para mim dizer nao, Quando dizia ndo, tinha memérias de uma colagem de rostos olhando para mim com desdém ¢ desaprovacio. Minha voz. tremia, e eu ficava aflito. Ou entao precisaria ficar zanga- do primeiro para dizer nao. Eu também me senti assustado quando comecei a arriscar a expressar a raiva legitima, Toda a minha vida manipulado pela raiva de outras pessoas. Eu faria qualqu coisa para que alguém deixasse de sentir raiva de mim. E ndo podia expressar raiva a menos que tivesse colecion: tantas injusticas © mAgoas, que ninguém poderia possivel: ‘mente objetar. Certo dia, meu terapeuta fez. com que eu fechasse o: olhos © imaginasse que estava lidando com a raiva da mil esposa. Subitamente descobri uma meméria de uma cena minha mie. Ela estava me deixando. Ela nfo disse nada, estava me rejeitando. Para uma crianga de trés anos, a Go 6 a morte. Percebi que 0 meu modo fobico da raiva enraizava nesta e em outras cenas com minha mae. © envergonhamento das nossas necessidades de d déncia é um golpe mortal para a nossa capacidade de es lecer uma dependéncia equilibrada na vida posterior. cenas de vergonha com nossas pessoas significativas fi marcadas na nossa psique. Mais tarde, enquanto atravess: 08 estgios para um novo relacionamento, essas velhas ce tocam como discos quebrados. Essas cenas dominantes congeladas contaminam ni vida relacional. As cenas so congeladas porque n&o resolvidas. A sua ndo-resolugdo se deve as defesas que truimos para evitar sentir a dor que a humilhagdo causa. 7 A.CRACKO 90 AOR estratégias defensivas também permanecem. Elas so as varias maneiras que temos de sair do vivido momento presen- te. Quando criangas, elas eram nossa salyacao, Quando adul- tos, elas nos mantém congelados no passado. ESTAGIO QUATRO: CONFUSAO GENERALIZADA Uma vez que estejamos presos pela vergonha, com nossas defesas no lugar, ¢ a vergonha esteja sendo mantida por cenas cdominantes, chegamos a um estado generalizado de desorien- tagio e confusao. “Confusiio”, no sentido que estou dando, € um fendmeno de transe profundo. Ela pode ser um transe defensivo por si s6 ou pode ser 0 “eixo da roda do transe”, ‘como disse Wolinsky. Uma crianca muitas vezes entraré num, estado de desorientagaio e confusao ao se encontrar diante de uma ameaga. A confusfo funciona nesse caso como um tran- se defensivo. Como 0 “eixo da roda do transe”, a confusio acompanha todos os fendmenos de transe profundo. Em outras palavras, todas as estratégias de transes profundos defensivos envolvem alguma desorientagio e confusdo. A medida que entramos mais e mais em transe, ficamos mais e mais confusos. Confusos quanto a qué? Ficamos mais © mais confusos quanto a quem realmente somos e quanto 20 Que esté acontecendo & nossa volta. No inicio das nossas Vidas, nio sabemos nada. Somos totalmente dependentes das hossas figuras de sobrevivéncia, dos seus ensinamentos € Orientagio. Na infancia precisamos de muita seguranga para ue possamos aprender sobre nds mesmos e sobre nosso Mundo, Precisamos de um ambiente seguro e confidvel. O Papel basico de uma crianga é ser curiosa, explorar e apren- «r. E uma tarefa muito dificil quando se vive num estado de Constante preocupacao e ameaga. Quando o ambiente de uma ‘anca € perigoso, ela precisa estar constantemente em guar- a. Nao pote explorar e descobrir quem ela é. S6 pode espe- Far defender-se e sobreviver.

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