Ética e cidadania na

formação do jornalista
Ethics and citizenship in the
journalist’s upbringing

Ética y ciudadanía en la
formación del periodista

GRAÇA CALDAS

Maria das Graças Conde Caldas, mais conhecida como Graça
Caldas, é jornalista desde 1969. Trabalhou nos jornais Diário de
Notícias e TV Globo (Rio de Janeiro), Folha de S. Paulo e Jornal do
Brasil (São Paulo). Tem experiência em assessorias de imprensa
(Prefeitura de Campinas - SP e Unicamp). É especialista em
Comunicação Integrada, pela PUC-MG e pela Fundação D.
Cabral. Foi coordenadora do Curso de Jornalismo e diretora da
Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade
Metodista de São Paulo. Integra o corpo docente do Programa
de Pós-Graduação em Comunicação Social da Umesp. Participa,
como professora convidada, dos cursos de Jornalismo Científico
da Puccamp e do Labjor da Unicamp. Integra o Núcleo de
Pesquisa Comunicação, Cultura e Ambiente, da Metrocamp. E-
mails: gcaldas@unicamp.br e maria@metodista. br.

85

reflexionar sobre la información como instrumento de poder y. o “contador da história imediata” pensar e refletir sobre a infor mação como instrumento de poder e. Maria das Graças Conde.CALDAS. ao mesmo tempo. 44. be urged to ponder on information as a tool for power as well as for social change? How are ethics. na coerência de vida. la moral. para el reportero de la historia inmediata. 85-101. de transformação social? Como discutir ética. los valores en las clases en donde se preparan los profesionales de la comunicación? ¿Cómo es posible replantear el mundo de la comunicación para que dejemos de ser consumidores y nos transformemos en ciudadanos? ¿Zombis culturales o intelectuales del conocimiento? Palabras claves: Comunicación – Educación – Periodismo – Ética – Ciudadanía. Keywords: Communication – Instruction – Journalism – Ethics – Citizenship. Palavras-chave: Comunicação – Formação – Jornalismo – Ética – Cidadania. the everyday historian. de transformación social? ¿Como discutir la ética. 2o. 86 • Comunicação e Sociedade 44 . 27. in the classroom. o “historiador do cotidiano”. Revista Comunicação & Sociedade. sem. valores na sala de aula. con métodos no siempre lícitos? ¿En qué medida es urgente para el periodista. even through illicit methods? Should the journalist. moral. no processo de formação do profissional da mídia? De que forma é possível repensar o mundo da comunicação para que deixemos de ser consumidores e nos transfor memos em cidadãos? Zumbis culturais ou intelectuais do conhecimento? O desafio de formar o comunicador começa com a formação do educador. with synchrony between speech and praxis. São Bernardo do Campo: PósCom-Umesp. com métodos nem sempre lícitos? Em que medida é inadiável o jornalista. with coherence of attitudes. na sala de aula. para el historiador del cotidiano. Resumo Como pensamos o mundo? Qual é o papel do comunicador como sujeito privilegiado na construção do imaginário social? Informação a qualquer custo. Resumen ¿Como pensamos el mundo? ¿Cuál es el rol del comunicador como sujeto privilegiado en la construcción del imaginario social? ¿Información a cualquier precio. 2005. na coerência de atitudes. p. the narrator of immediate history. Abstract How do we think about the world? What is the communicator’s role as a privileged subject in fabricating social imagery? Information at any cost. morals and values to be discussed in the classroom where media professionals are instructed? How can the world of communication be reconceived so that consumers become citizens: cultural zombies or knowledge intellectuals? The challenge of constr ucting the communicator begins with the educator’s upbringing. na sintonia fina entre o discurso e a práxis. n. Ética e cidadania na formação do jornalista. al mismo tiempo. a.

a credibilidade da opinião pública na mídia é cada vez menor. Para o desenvolvimento de um trabalho ético e cidadão do comunicador. pela integração do “aprender a apren- der” de Paulo Freire com o “saber pensar” de Pedro Demo e pelo “aprender fazendo” de Celéstien Freinet. mas não compreendo nada. entender o mundo real. mas de um processo educativo. (Rousseau) Sei tudo. onde a representação da realidade. (Karl Popper) Formar cidadãos não é tarefa para um dia e. para a compreensão do mundo real. é urgente desenvolver. de múltiplos canais de informação. em seus diferentes suportes. porém. Pensar. não podemos prescindir da narrativa jornalística. Como. refletir e agir. no estudante 87 . para contar com eles quando homens. o simulacro do real. Os cidadãos civilizados não são produtos do acaso. Três verbos cujas conjugações não podem mais estar ausentes do sistema de ensino do comunicador em geral e do jornalista em particular. sem história. é preciso instruí-los ainda crianças. se o virtual assume espaço cada vez maior no imaginário popular. no professor. da polifonia de vozes. sem memória? O processo de aprendizagem do educador e do educando passa. (René Daumal) E m tempos de múltiplas versões. Ao mesmo tempo. transforma tudo numa aldeia global mul- timídia. necessariamente.

O cerne da questão está na percepção do poder sobre o discurso midiático. de seu impacto na opinião pública e. É necessário refletir se. as escolas estão formando o profissional da mídia com a respon- sabilidade e a ética que a profissão exige. Resgatar o sentido público da informação e da responsabilidade social do comunicador. É preciso recuperar a ética dos indivíduos. na formação ética e não apenas técnica dos estudantes da área? Inúmeras são as questões que permeiam o mundo complexo. qual a lógica que conduz a prática jornalística? Em que medida a liberdade de imprensa. decifrar o mundo 88 • Comunicação e Sociedade 44 . do professor de comunicação na sala de aula. cliente. cujo comportamento social é muito mais deter minado por sua for mação geral. de montar e desmontar realidades não pode prevalecer. em que o cidadão é visto apenas como consumidor. do cidadão. Afinal. Sem desconhecer a importância de uma formação cultural sólida associada ao domínio das técnicas inerentes ao exercício da profissão. a prática da cidadania para não sermos colonizados pelo “consenso fabricado”. onde as tensões são permanentes. da imagem? Qual a responsabilidade do educador. de expressão é confundida com a liberdade do empresário? Qual o nível de consciência do profissional da mídia sobre as reais diferenças que separam os ideais do proprietário do veículo do operário da palavra.e na instituição de ensino. qual é o compromisso social do jornalista? Na sua atuação profissional em diferentes mídias. Não se trata. seja nas redações ou nas ruas em busca das informações sobre os acontecimentos para ajudar a interpretar. humanística. nas sociedades complexas modernas. a primeiríssima e urgente tarefa dos educadores da área é repensar a formação e o papel do jornalista na sociedade. das instituições. cidadã. na compreensão da informação como bem público e não privado. contraditório e cheio de conflitos do trabalho jornalístico. do que pela legislação vigente. obviamente. dos profissionais. O poder do comu- nicador de fazer e desfazer contextos. de disciplinas deontológicas sobre normas de conduta da categoria. onde os interesses privados prevalecem sobre o público. sobretudo.

de simulacro do real. que terminam por reconstruir sentidos. rediscutir a formação do jornalista como um intelectual na interpretação dos acontecimentos e não apenas um mero relator de fatos com suas múltiplas versões. tempo de desterritorialização. ao mesmo tempo. e quando não há conflito no jornalismo. as fontes selecionadas para seu relato e sua interpretação. a ética só existe porque a comu- nicação social é o lugar de conflito. de mundialização dos hábitos.) A ética jornalística não se resume a uma nor- matização do comportamento de repórteres e editores. na realidade. sem raiz. Nunca o papel do jor- nalista. de encurtamento das distâncias. valores. do comunicador foi tão valorizado e. mas a forma como este conteúdo é repassado. é um recorte frágil e distorcido da realidade. estabelecer um diálogo com a sociedade. de aceleração dos acon- tecimentos.cotidiano. dando a ilusão da informação. Condiciona não por o que informa. porém. sem história. p. de enfraquecimento dos lanços comunitários. (. não é apenas o conteúdo. do conhecimento. de mundo virtual. a ética pergunta.. Destrói a temporalidade da história na construção de fatos fragmentados. Estariam os professores de comunicação discutindo. retomar o curso da história. Aliás. informando. um alarme deve soar. É necessário. na memória individual e coletiva. O que importa. sem contexto. O 89 . fora das telas. 11/12). sem sentido. mas por de que modo informa. na verdade. É preciso rediscutir o papel da imprensa e sua influência na formação das mentalidades. formando os comunicadores para o exercício pleno da cidadania? Como explica Bucci (2000. banalizado. Onde a etiqueta cala. sem nexo. O jornalismo é conflito. encarna valores que só fazem sentido se forem seguidos tanto por empregados da mídia como por empregadores – e se tiverem como seus vigilantes os cidadãos do público. culturas. em que tudo vira presente. Simulacro do real Tempo de pós-modernidade. sem memória. de representação. o mundo real. A mídia.

Direito à informação. que é a comu- nidade mais perfeita e maior”. retrato fiel da realidade. Conforme diz Aristóteles (1992. esse direito é subtraído ou limitado pelos interesses políticos e econômicos. ao redor de dois eixos básicos: a democratização dos meios de comunicação. Não raras são as vezes em que somos lembrados desses direitos básicos previstos mesmo na Constituição e em códigos de ética que envolvem profissionais da imprensa e os proprietários das empresas de comunicação. Ética e imprensa A dimensão ética do trabalho da imprensa vem sendo constantemente apregoada em função de sua importância na construção da narrativa jornalística. Mas a edu- cação é possível somente no viver comum. como observa Karam (1997. “o começo da ética tem muito semelhança com o da política: o motivo de toda ação é o bem. do homem como ser político. considerada a princípio verdadeira. deve-se circular. que associa o direito social à informação à democratização dos meios de comunicação. 90 • Comunicação e Sociedade 44 . a dimensão ética da vida. 17 e 22).cidadão comum precisa ter acesso à informação plural para adquirir o conhecimento necessário ao desenvolvimento de suas reflexões para a tomada de decisões. ampliando tanto a pluralidade e diversidade de fontes quanto de propriedade – incluindo a segmentação e regionalização da produção – e a mudança da noção ética da profissão. Assim. o homem é um ser moral justamente porque é um ser político. para garantir o efetivo direito social à informação. para alcançar o sumo bem existe o Estado. Para o filósofo grego. 26/27). com freqüência. “o homem é capaz de moralidade porque capaz da educação. que envolve um compromisso moral radical do profissional jornalista específico com sua atividade. ao afirmar que. ao conhecimento. mesmo na estrutura informativa atual. ao menos. toda comunidade se criou tendo em vista qualquer bem. E é um ser político precisamente pela sua própria natureza humana”. p. Para isso é inadiável recuperar a dimensão ética da imprensa. p. Entretanto.

onde os meios de comunicação. confundimos a ética profissional (normas de conduta) com a ética do cidadão. precede a ética da imprensa. contribuindo para a visão de mundo das pessoas. de montar e desmontar realidades. A ética do indivíduo. do cidadão. porém. internet. sim. discurso e práxis que precisam caminhar juntos. pelo poder que eles detêm ao veicula na mídia. Ao se arvorar ora como justiceira. que deve ser moldada pelas ações individuais e coletivas da sociedade na qual está inserida. mas que nem sempre coloca em prática. de destruir e construir a temporalidade. independentemente do suporte (rádio. jornal ou revista). recuperar o papel ético e de responsabilidade social que a imprensa defende em seus princípios. sejam eles massivos ou segmentados. para que possamos. ora como manipuladora das informações. como assimilamos os fatos e suas múltiplas versões que influenciam cotidianamente nossas relações sociais. de fato. portanto. É imprescindível. esta. à produção 91 . Ao apreender o papel fundamental que a mídia exerce na sociedade moderna. misturando ficção com realidade. Para compreender o papel ético da mídia e dos profis- sionais da área é imperioso. os profissionais da imprensa precisam entender melhor a força dos veículos que têm em mãos para usá-los com maior respon- sabilidade. tv. o processo de desinformação se instaura e o desserviço da imprensa é imensurável. ao estilo do texto. assumem o papel da educação infor- mal. normalmente está atrelada à precisão da informação. A busca pela qualidade da comunicação. Rotineiramente. capazes de se tornarem sujeitos de sua própria história. observar como pensamos o mundo. O exercício crítico sobre o processo de produção na mídia e sua repercussão na formação ou defor mação da opinião pública deve pautar o cotidiano dos profissionais da mídia e pesquisadores de comunicação. qualquer infor- mação ou comentário. formar cidadãos críticos. ao confundir o imaginário popular. A ética é também um discurso. de intervir no curso da história. Elucidar o poder da mídia de fazer e desfazer contextos. é que deve permear desde sempre o comportamento de todos os indivíduos e principalmente dos jornalistas.

“saber pensar com lógica” para que a informação faça algum sentido. além de tudo. negligência. sob a influência conjugada das leis do mercado. patrimônio de todos. escrever com elegância e informar com clareza e isenção sobre a verdade dos fatos. e a liberdade de imprensa. própria somente de alguns. adverte Di Franco (1996. não são conquistas fáceis em razão da aceleração da produção midiática e da precária for- mação cultural dos profissionais da área. p. da velocidade da informação. d) a espe- tacularização da informação que privilegia certos aspectos da realidade como método para manter os níveis de audiência e o número de leitores. Dependência. c) a confusão entre a liberdade de expressão. p. O futuro está perfilando um profissional que saiba pensar com lógica. 15-16) define o que considera as cinco zonas críticas da informação: a) A frágil dependência dos jornalistas em suas relações com os diversos poderes: b) as negligências na cerificação das informações. É necessário. fortalecer as redações (descobrir talentos e favorecer um clima de formação permanente). escapar dessas armadilhas e recuperar a dignidade profissional? É possível desenvolver um jornalismo ético. além da ausência de ética na captura dos dados.42). Essas. pela violação da presunção de inocência (grifos meus). São palavras que definem com acurácia as contradições presentes no cotidiano dos profissionais da mídia. É necessário criar a cultura do trabalho bem feito e estabelecer mecanismos eficazes de controle da qualidade ética da informação. espetacularização e danos.das imagens. no entanto. porém. Cornu (1998. e) os danos causados às pessoas pela ex- ploração da violência. confusão. pelo desrespeito à privacidade. investigar sem preconceitos. Como. da eficiências dos comunicadores profissionais. É preciso. por isso. Zonas críticas O poder da imprensa convive lado a lado com sua fra- gilidade face às contradições que envolvem o trabalho do profissional da mídia. competente e 92 • Comunicação e Sociedade 44 .

Cornu (1998. Este processo de aprendizagem varia de acordo com o universo social da criança. questionam os autores. Como explicam Braga e Calazans (2001. Mídia e educação O papel da mídia na construção dos saberes tem sido objeto de vários estudos que estabelecem as intrincadas relações entre a mídia e a educação. os saberes mediatizados não são selecionados nem organizados da mesma maneira que nos sistemas escolares estabelecidos. pela classe social a que pertence e pelo grupo familiar. esclarece: A definição de uma ética global da mídia passa por uma cons- cientização omum e não exclusiva dos agentes de informação. Em que medida. Não há então inserção de cada saber (conhecimento. a um “princípio de responsabilidade”: uma responsabilidade geral e solidária.. a liberdade de comunicação como bem comum da sociedade. pela participação de cada personagem.cidadão? Em sua concepção global sobre ética da informação. das crenças e das representações. opinião. p. ao recuperar o papel privilegiado da escola como mantenedora da hegemonia. a interação com a mídia contribui para a dimensão reflexiva necessária à escola? Belloni (2001) fornece algumas pistas sobre esta relação mídia-escola. reforçada pelo impacto da indústria cultural objeto de pouca reflexão na escola. atitude. O processo de socialização é o espaço privilegiado da transmissão social dos sistemas de valores. 99-100). em matéria de informação. organizado em uma lógica estruturadora própria ao tema ou em uma lógica progressiva de apresentação. dos modos de vida. Enquanto 93 .) em um conjunto com pretensão de coerência. que busca firmar. dos responsáveis pela mídia. dos papéis sociais e dos modelos de com- portamento.. 185).183. cujos caminhos estão definitivamente cruzados. definida pela sociedade onde ela vive. objetivamente definir o que poderia equivaler. p. comportamento. porém. do público e dos Estados.

visando à qualificação plena do profissional não apenas competente. inteligente. buscando formar o receptor crítico. ativo. em que a mídia assume papel preponderante. às vezes. pela troca simbólica que estabelece. 35). ao lado da família e da escola. assim. A escola e a mídia desempenham o papel de guardiãs e difusoras de uma espécie de síntese dos valores hegemônicos que formam o consenso indispensável à vida social. a sua emancipação? Apesar das redes que se estabelecem de forma acrítica entre a educação e a mídia. a educação para a mídia. p. elas podem ser consideradas como instâncias repro- dutoras das estruturas dominantes na sociedade e como pro- dutoras de hegemonia (Belloni. mas responsável. o bairro e. o caminho para a construção da cidadania pós-moderna e garantir. é o locus natural de socialização. os caminhos a serem trilhados são dois: A capacidade de a sociedade controlar o poder massificador e controlador da mídia – especialmente a televisão na esfera política – passa necessariamente por dois caminhos. a família. com todos os seus mecanismos de produção simbólica. Dessa forma. a escola e a mídia funcionam como fatores de unificação – o objetivo é o consenso – difundindo os valores e as normas consideradas comuns a todos em uma sociedade. de outro lado. 1995. construção de hábitos e costumes. capaz de distanciar- se da mensagem midiática e exercer sobre ela seu poder de análise e crítica. A indústria cultural. 33). na formação de valores. a classe social. assim como eu. Neste sentido. a autora. 94 • Comunicação e Sociedade 44 . p. interfere diretamente. Como formar o cidadão frente à influência avassaladora da mídia e no quadro de uma cultura pós-moderna fragmentada e fragmentadora? Qual o papel da escola neste processo? Quem mais uma vez educará os educadores? E quem forma os comu- nicadores? Qual seria. Segundo Belloni (1995. a religião são fatores de diferenciação das crianças. então. a formação do comunicador. capaz de distanciar-se do imediatismo típico da mensagem midiática e de exercer sobre ela uma influência esclarecedora. realmente informativa – ética – escapando das armadilhas da manipulação fácil. ambos relacionados com a educação: de um lado. não acredita em saída fora da interação entre mídia e escola.

o jornalista atua como o historiador do cotidiano. esclarece apenas um aspecto do problema. afinal. Quando o jornalista adquire a percepção de ator no pro- cesso de construção da história. reduzindo assim sua dependência aos documentos oficiais. Mas. O jornalista é menos aquele que trabalha com pressa do que aquele que manipula poucos fatos. sinais de bruma de uma sociedade alucinada por informações e no direito de exigir inteligibilidade histórica próxima”. 216- 240).. p 237/238). A referência ao tempo não é vã. jornalista e historiador. que pode ser objeto de pesquisa no futuro para recuperar a história do cotidiano. de sua época. descobre que sua investigação pode ter um sentido muito maior. para a grande glória deste ou vergonha daquela.) É essa imediação da comunicação que impõe o desenvolvimento da história imediata. que foi ele próprio um grande jornalista a que todo historiador do início da IV República deve se referir. daí a sua imensa responsabilidade na representação do imaginário indi- vidual e coletivo. casos.. Os veículos de comunicação descobriram o potencial da mídia na escola para a formação de novos leitores e desenvolvem projetos que mostram o processo de produção e circulação da informação. o que é o papel do jornalista historiador atuando como historiador do presente? Lacouture (1990. Mas o que faz a imperfeição do jornalista é menos a precipitação de sua pesquisa do que a mo- dicidade de suas fontes e a raridade dos cruzamentos a que pode proceder. de confundir história com jornalismo. observações. (. a história do tempo presente. Como observa Lacouture (1990. Albert Camus. Ao qualificar o jornalista como “historiador do instante”. esclarece: Não se trata aqui. Da mesma forma. o discurso jornalístico contribui para a reconstrução da história atuando como uma fonte aliada dos pesquisadores. “a história imediata é uma projeção de nosso século convulsionado. p.Historiador do cotidiano História imediata? Na construção da narrativa do presente. Cada vez mais a mídia tem uma interferência direta na formação do 95 .

no cuidado com a redação do texto. a apuração dos fatos e contextos. desumano. o estudante de jornalismo tiver a percepção de que é um historiador do presente. poderá elaborar um texto de melhor qualidade. mas também o professor para que não repasse a informação veiculada como verdade do acontecido e desenvolva a necessária leitura crítica da mídia. Está também dentro da escola. Se o jornalista. Não existe o profissional desconectado de sua ética individual. o jornalista tem de assumir. Dois dias antes da “façanha” da repórter. sua condição de cidadão. porque terá consciência da importância e o sentido de seu trabalho para a compreensão da informação em lugar de provocar um desvio da história. com o argumento de “pro- fissionalismo”. mas a que custo? Faltou ética. A pauta pre- tendia comprovar a falta de segurança da instituição. com mais competência. Sua responsabilidade social é imensurável na for- mação do imaginário coletivo. que deve ser pautado sempre a partir do interesse público. Jornalismo cidadão Para ilustrar a questão ética e sua relação com o jornalismo. Antes de ser profissional. razão pela qual a ética não pode estar dissociada de sua prática individual e profissional na produção da notícia. É necessário. plenamente. havia ocorrido um registro real de roubo de criança. O jornalista é um ator social essencial para a sociedade. ele terá maior rigor e responsabilidade na apuração da notícia. que adotou um comportamento antiético. sem pensar nas conseqüências. não ir atrás da informação a qualquer custo. Se for capaz de realizar a investigação. Paulo. porém. E o que é ser cidadão? Ser cidadão é ser ético. lembro o caso de uma repórter de O Estado de S.cidadão. A repórter desnudou a fragilidade do hospital. profissionalismo. bom 96 • Comunicação e Sociedade 44 . na medida em que atua como mediador e intérprete dos acon- tecimentos. Por isso é passível de ques- tionamento quando se atribui o desenvolvimento de trabalhos que contrariem a ética humana. formar não só o aluno. de sua prática da cidadania. ao roubar uma criança de um berçário de um hospital paulista.

97 . a elaborarem questões sobre o mundo em que vivem. saber repassar conceitos. aético. de princípios. mercadológico. com os alunos. burocratizado. Isto significa que o professor revela. É tudo uma questão de caráter. “havendo cidadania. somos cidadãos e educadores. desumano. sentido do limite no trabalho profissional. É necessário. de projeto de vida. Como afirma Peruzzo (2003. por onde circulamos.senso. O discurso da ética precisa estar associado à práxis. com aquilo que somos. contextualizar os fatos. nos seus múltiplos sentidos e di- mensões. É muito difícil ser professor. A sociedade forma cidadãos com uma visão crítica do mundo a partir de informações veiculadas pela indústria cultural e pela mídia em particular. Apenas os que têm uma pers - pectiva política da vida e se entendem como um ser político são capazes de pensar o mundo com justiça social. éticos. a técnica. Antes de sermos professores ou jorna- listas. que refletem um jornalismo meramente industrial. mas sobretudo ajudar os alunos a refletirem. p. 256). É necessário. O que importa não é apenas dominar o conteúdo. como indivíduo nas suas relações sociais. incluído a cidadania cultural. Compor- tamentos desta natureza. com quem andamos. não deveriam ser tolerados. haverá desenvolvimento social. A visão de jornalismo em uma perspectiva histórica. de como nos formamos. portanto. ideo- lógica e ética tem a ver com a formação de cada um de nós. portanto. se a própria imprensa não age em consonância com os princípios éticos que apregoa?. indignação diante das mazelas sociais para uma atuação transformadora. que perpassa à liberdade de expressão”. O jornalismo não pode a brir mão de sua função educativa para formar cidadãos de forma ética. interligar o presente com o passado para ter uma visão prospectiva do futuro. Tem a ver com a educação que cada um recebeu. na sala de aula. despertando a necessária curiosidade. Como formar cidadãos conscientes. aquilo que é como ser humano. promover uma verdadeira revolução cultural nas escolas e nas redações. Cidadania quer dizer participação.

pelo regurgitar de informações. de compartilhar conhecimento. ter paixão pelo que faz. São auto-suficientes. A experiência. O que é ser um bom jornalista? É saber fazer “leituras” da realidade. O respeito profissional do professor-educador se adquire não apenas pelo conhecimento. em razão do alcance do veículo. estabelecer prioridades na organização do texto. leitura do mundo. das nuances. sem sentido. revistas. mas estar ligado. novos saberes é uma experiência cotidiana fascinante. não só de livros. 38% são analfabetos funcionais. da redação do texto. então. por internet. Não adianta a informação fragmentada. Acontece que. com todos os acontecimentos. É preciso. daí a relevância do papel da mídia na construção da memória individual e coletiva. Fazer jornalismo por telefone. não está atenta a novos aprendizados. A maioria da população do País informa-se basicamente pela televisão. de trocar. porém. Leitura. Essa vontade de aprender. é saber pensar. Fazer jornalismo é ter consciência social do papel de formador de opinião pública.Nem tudo está nos livros Muita gente não tem tempo. obtidas pela observação direta que possibilita um texto analítico e reflexivo. contextualizar o tempo todo. escrever melhor. será sempre um relato do relato do outro e não mais uma observação direta dos fatos. de ensinar. pela erudição de citações. jornais. O que faz um bom jornalista. antes de tudo. O que interessa não é a ferramenta. saber pensar. criatividade e estilo próprio na hora de escrever. 98 • Comunicação e Sociedade 44 . Não é a tecnologia que vai fazer alguém pensar melhor. No caso de telejornal. associações. Acham que já sabem tudo. Dos 180 milhões de brasileiros. o contato direto. É preciso. antenado. mas principalmente pela capacidade de estabelecer conexões entre os fatos e procurar estimular e desenvolver o pensamento crítico. o olhar nos olhos é essen- cial. estar aberto para a enriquecedora reflexão conjunta. por mais facilidade que esses instrumentos ofereçam. muita leitura. não tem paciência para ouvir o outro. saber concatenar as idéias. independentemente do veículo em que se atue. determinar a qualidade da apuração. nem tudo está nos livros. a coisa é bem mais séria. relatar um acontecimento ou discorrer sobre idéias.

p. mas não da globalização da reflexão. filosofia. linguagem. política. caminhos a serem perseguidos ou não. Ser educador é. Para decifrar os símbolos e artefatos produzidos pela indústria cultural. para isso. se exercida com seriedade. colocar na cabeça do aluno que ele tem que aprender a pensar e que a escola não vai dar tudo. A formação crítica do profissional da imprensa é funda- mental para que no mercado. antropologia. (…) A informação nasce de nosso diálogo com o mundo e nele sempre surgem acontecimentos que a teoria não tinha previsto. História. e tampouco os jornalistas. Todos eles são necessários para uma reflexão acurada dos meios de comu- nicação. Neste sentido. Vivemos na época do pensamento complexo da globa- lização da informação. de um certo ângulo. 27). ter uma visão política do conhecimento. as informações para poder relacionar os fatos. ciência e tantos outros saberes que se entrecruzam. Eis então uma teoria interessante que busca lidar com a incerteza. contextualizar e. Vivemos numa época em que a comunicação. Estamos num universo entregue ao ruído e num mundo que contém acontecimentos que somos incapazes de decifrar. competência. a mídia. Como ensina Morin (1999. consciência e responsabilidade social. seja como repórter. é uma das mais difíceis do mundo. como a resolução de uma incerteza. a teoria da informação tem de interessante o fato de que o conceito de informação pode ser definido. editor ou 99 . a indústria cultural influencia diretamente a formação das pessoas. reduzir as incertezas é preciso recorrer às múltiplas áreas do conhecimento. mas oferecer pistas. fundamentalmente. para se estabelecer um diálogo crítico com a sociedade. A profissão de jornalista. A estrada da vida só pode ser trilhada a partir de escolhas individuais. é preciso estar com os olhos abertos para o mundo. O mais importante é orientar o aluno a buscar o conhecimento. o campo da Comunicação não pode prescindir das outras áreas do conhecimento para desenvolver uma reflexão competente do setor. ensinar a refletir sobre os dados.

É função do profissional da imprensa ajudar as pessoas a pensarem sobre os fatos que estão acontecendo. Precisamos formar jornalistas que sejam cidadãos do mundo. A coerência de atitudes. exigência dos tempos 100 • Comunicação e Sociedade 44 . É também formação e reflexão. o professor estará exercendo seu papel social. o telespectador ou o rádio-ouvinte a fazer o seu próprio julgamento. Pesquisa a serviço da formação e não o inverso. de hábitos. de culturas. como se não tivesse a opção de interferir no processo de produção da notícia. Num mundo em que as relações entre jornalismo e publicidade são extremamente delicadas e tênues. de modos de vida. Para que os jornalistas possam se trans- formar em historiadores do cotidiano. legi- timando sua função na relação educador-educando. cidadão e não meramente mercadológico. como pro- fissional de comunicação.diretor de redação. mas não apenas. ele exerça os conhecimentos adquiridos numa perspectiva de jornalismo cívico. de integração entre o discurso e a práxis é indispensável para a formação ética do profissional da mídia. é preciso saber exercer com clareza a função jornalística para não sucumbir aos ditames da notícia-mercadoria. Se con- seguir mostrar ao estudante de jornalismo que ele. É obrigação do jornalista passar informações com diferentes abordagens para ajudar o leitor. que reflitam criticamente sobre o fato social a ser relatado para que sejam sujeitos ativos da história que estão ajudando a construir. possibilitando assim um exercício mais ético e crítico da profissão. O jornalismo romântico e ético do passado pode e deve conviver com o jornalismo industrial e ágil. a pesquisa deve ser parte integrante dos currículos de graduação. Pesquisas que podem e devem ser desenvolvidas de forma integrada por alunos e professores de graduação com alunos e professores da pós- graduação. A universidade é o locus natural de reflexão da sociedade e não apenas sua reprodução. Jornalismo é serviço. como uma peça na engrenagem. Trata-se de profissionalizar cada vez mais os cursos de graduação naquilo que a técnica e a formação geral têm de melhor e utilizar a pesquisa da sociedade real para a reflexão sobre a teoria e a prática jornalística. será um agente fundamental nesse processo de construção do conhecimento do cidadão comum sobre a diversidade de idéias.

Francisco José. Fernando Ferreira de (orgs. Comunicação e educação: questões delicadas na interface. L. da era da globalização. Comunicação para a Cidadania. tal como vem “embrulhado”.L. In: BEZZON. Campinas: Autores Associados. Jor nalismo. São Paulo: Summus Editorial. Petrópolis: Vozes. O que é mídia-educação. O importante é não sermos vencidos pelo vírus do comodismo. das Letras. Puccamp: v. 2000. Leitura crítica da mídia. e CALAZANS. 1995. de aceitar tudo. Krohling e ALMEIDA. CALDAS. Revista Comunicarte. 2001. po- deremos exercitar a nossa sensibilidade no exercício pleno da atividade jornalística. 1997. mas nunca sucumbir a elas. 25. 1962. Graça. KARAM. A ética. A principal arma de um profissional da mídia é entender as regras do jogo. São Paulo: Edusc. ética e qualidade. Chega de jornalismo meramente declara- tório. Precisamos estar alertas para não deixarmos que a ideologia do consenso fabricado deturpe as nossas mentes e os nossos ideais. J. garra. p. Eugênio. 2002. interpretativo e cidadão. 2001. analítico. Referências bibliográficas ARISTÓTELES. São Paulo: Atenta Editora. Salvador: Uneb. Carlos Alberto. Ética da informação. 2005. PERUZZO. 1998. Lara Crivelaro (org. BRAGA. DI FRANCO. São Paulo: Hacker. M. a reflexão é essencial. Mídia e memória: a construção coletiva da história e o papel do jornalista como historiador do cotidiano. Sobre ética e imprensa. 1995. n. política e sociedade. p. 133-144. Campinas: Alínea.137-150. ___________. CORNU. R. BUCCI. Com criatividade. A espetacularização da política e a educação para a cidadania. competência e seriedade profissional. 101 .modernos. São Paulo: Perspectiva. BELLONI. 19. Jornalismo.). Comunicação. É inadiável o jornalismo crítico. São Paulo: Intercom.). O questionamento permanente. ___________. São Paulo: Cia. 2003. Cicília M. ética e liberdade. Daniel.