De Galileu e Euclides

Eu disse num determinado artigo que depois de Galileu

todos quiseram elaborar ciências que dessem conta de

tudo.Fundar uma ciência era tudo e a partir deste modelo

tudo era explicável,tornando-se de mais fácil

compreensão.

De uma certa maneira se nós observarmos bem este tipo

de postura não está em Galileu que (bem como em

Copérnico,Kepler)que ressaltava muito o papel da

experimentação(contra Aristóteles e a Filosofia).

Quem,na verdade,cria este noção de modelo universal,de

criação de uma ciência(definitiva[quiçá])é Newton,que é

uma figura da ciência ,mas da religião também(e da

alquimia)coisas que para nós não têm importância

seletiva,mas que jogavam um papel muito forte na sua
vida e para compreender o seu tempo e ele mesmo(e as

suas concepções científicas)é preciso admitir e estudar.

Acontece que fomos acostumados a pensar que as leis

imutáveis da natureza tinham apenas que ser

descobertas,desveladas e que isto não sofria influência de

concepções religiosas,erros de julgamento,preconceitos

pessoais e assim sucessivamente,mas sofre sim.

A concepção newtoniana de tempo e espaço absolutos

foi influenciada por sua visão religiosa,que ficaria

abalada,se não fosse possível admitir a existência de um

Deus que comanda a natureza.

Admitir,como na época mesmo de Newton,através da fala

de seu grande inimigo(ateu?),Leibnitz,que o tempo e o

espaço se relacionam,era admitir mais ainda que a

natureza corria com suas próprias pernas e leis,como
estava ficando cada vez mais evidente para os estudiosos

do século XVIII.E o princípio newtoniano da unidade da

natureza,pelo qual o que acontece no plano acontece em

todo o universo, foi derrubado progressivamente por

uma geometria não euclidiana(o grego)que serviu à

relatividade de Einstein.

Tem um peso muito grande também o

jusnaturalismo,que preconizava os padrões imutáveis da

natureza,como modelos do estudo da sociedade,que era

incipiente.

Foi sempre um grande problema para a humanidade o

constituir um modelo definitivo para a compreensão do

mundo e do comportamento social,que sempre se agitou.

As abstrações feitas por Galileu e Newton servem como

meios de apreensão de eventos excessivos,na medida do
avanço da ciência,mas por outro lado não se pode dizer

que aquilo que é inessencial é desimportante.

Os critérios de Santo Tomás de Aquino,tirados de

Aristóteles,afirmam que a essência humana é a razão,mas

o ser humano se reduz a isto? E aquele que não detém

razão,como o louco ,não pertence à humanidade?

Eu penso que este é um dos grandes problemas da

filosofia de Heidegger,na medida em que coloca o sentido

como esta essência humana,frente,inclusive aos ataques

da tecnologia.E os que não constróem sentidos ,como

ficam?Não será isto uma base racional excludente ,que

fundamenta a adesão deste filósofo ao nazismo?Não é

uma outra excludência?A razão ,sozinha,não seria

excludente?E a Filosofia não teria um ponto cego ,onde

ela não pode(-rá)ver nunca?
É neste sentido que eu vejo como problemáticas as

abstrações de “O Capital” de Marx.Ele não padeceria

desta dependência do modelo natural,mediatizado pelo

dogma da abstração?Não faltaria a história,o

cotidiano,para indicar a complexidade não maniqueísta

das relações de exploração?

Nem se fale em Levi Strauss e o estruturalismo em

geral,que se originam no Capital,mas que objetalizam os

sujeitos sociais ,anti-humanizam a humanidade,buscando

uma autoridade nas categorias, maior do que a das

pessoas,como um psicólogo do século XIX (ou de hoje

mesmo)faz com seu paciente,interpondo entre o analista

e o analisado algo que desumaniza os dois,pois um

explica e o outro compreende.
Esta visão ideológica(como consciência falsa) da

ciência,de que tratei acima, cria outro dogma,segundo o

qual o cientista não erra,porque a natureza não erra nas

suas leis,mas ela é complexa demais para uma linguagem

racional dar conta e estabelecer limites

instransponíveis,sob pena de erro contra a autoridade da

ciência.

Quando eu,em artigo anterior ,recuperei o significado de

Euclides da Cunha,foi porque me parece que ,sem

conhecer a sociologia compreensiva de Weber,ele chegou

a uma metodologia semelhante e válida,contra a

abstração e a favor de uma narrativa metódica não só

artística,mas científica também.

A caracterização de Antonio Conselheiro,a narrativa de

suas ações não são os critérios de fundamentação do
salvacionismo?Da existência do salvacionismo?Este

complexo em torno deste personagem não cristaliza de

fato uma categoria?

Se fizéssemos como a ciência e a abstração o essencial do

salvacionismo seria o quê?A pura relação com seus

seguidores?Seria suficiente para descortinar bem o

fenômeno?

Costuma-se reduzir a contribuição de Gilberto Freyre ao

fato de ter mostrado os brasileiros como são

racialmente:mestiços,mas eu acho mais do que isto a sua

contribuição,pois ele repete o “ método” de Euclides

fazendo sociologia científica através de uma narrativa do

cotidiano,em que as categorias aparecem

claramente,sem objetalizar os sujeitos sociais e

apreendendo sentidos tanto históricos quanto
cotidianos,porque ambos estão relacionados.O dogma da

abstração,da ciência é que os separou,os alienou no

tempo(num lapso de tempo).

Muitos tradicionalistas me objetariam que reduzir-se a

esta narrativa é voltar aos tempos míticos ,em que a

linguagem de pura colagem de elementos heterogêneos

cria,em si ,um sentido.

Para usar as expressões de Heidegger:o Ser-do-

ente,aquele que se coloca à maneira de algo,para

designar o homem.O que isto significa?O louco,que fica

de quatro,como Nabucodonosor,constrói um

sentido?Então Heidegger tem salvação?Não

sei(ainda),mas sei que ,nos mitos,os elementos

heterogêneos guardam um sentido,para além dos

ditames da razão.Se não fosse assim, que sentido teria
discutir o mito de Dédalo e Ícaro e admitir a proximidade

com o sol?

Uma nova concepção de ciência,de saber,une estes dois

períodos da humanidade,do primitivo e o da

razão,tornando esta última uma dama mais

comportada,menos autoritária.

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