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PROFETAS E LITERATURA PROFÉTICA NA TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ

Estudar os profetas e a literatura profética na tradição judaico-cristã é um assunto complexo de diversos anos de tradição. Nesse sentido, este trabalho apresentará os conceitos e definições essenciais, bem como será contextualizada a literatura profética com sua amplitude no Antigo Oriente Próximo e sua relação com a questão messiânica na tradição judaico-cristã.

O profetismo é um fenômeno religioso presente em muitas culturas do Antigo Oriente Próximo. Por exemplo, havia na antiga Assíria um tipo de profecia estática, exercida por sacerdotisas associadas ao templo de Ishtar; na antiga cidade de Mari na Mesopotâmia, as cartas de Mari mencionam vários tipos de emissários transmissores de oráculos com fórmulas introdutórias semelhanças com as expressões dos profetas veterotestamentários; e o próprio texto bíblico mostra que houve profetas extáticos em Canaã 1Rs 18.26-29 (SCHÖKEL, 1991).

A tradição profética do antigo Israel não permite uma padronização funcional. Em 1Cr 29.29 temos 3 titulações: האֹרֶֽ (rōeh vidente), איבָּנִ֔ (nābî - profeta) e הֶֽזֹח (hōzeh - vidente). Além desses títulos, aparecem םיהלֱֹאָּהִ֑ שׁיאִ֣ (îš ĕlōhîm - Homem de Deus), םיאיִ֔ בְנַה יֵנְ֙ (Beney ha-nebi.im - Filhos dos profetas). Outro título, porém, com significado negativo após o exilio é o םימִ֖ סֹקְ (qōsēm adivinho) (SP, 2015).

O título profetaaté o período da dominação persa (após 538 a.C.) não indica nenhum dos personagens hoje chamados profetas (SCHWANTES, 1982). O profetismo no antigo Israel é multifacetado, com características bastante heterogêneas (RENDTORFF, 2009), Segundo Aune (1991), há quatro tipos de profetas no antigo Israel: Os profetas xamânicos (representados, p.ex., por Samuel, Elias e Eliseu); os profetas cultuais e do templo (representados, p.ex., por Ezequiel e Jeremias); os profetas da corte (representados, p.ex., por Gade e Natã); os profetas livres (representados, p.ex., por Amós e Oséias em Israel e por Miquéias e Isaías em Judá).

Tratando apenas do termo Profeta, é possível realizar uma distinção semântica, a raiz verbal

do título Profeta pode significaranunciare, como substantivo, alguém que foi chamado, nesse

caso, seria alguém que proclama ou anuncia algo (SP, 2015). Como diria Milton Schwantes (1982), “Profetas têm hora e local, sua atuação é concreta e está relacionada a certo momento, a certas pessoas, a certas estruturas. Por isso, o profeta representa a divindade nos confrontos em favor dos fracos jurídica e economicamente, o que confere sentido ao exercício da fé por parte dos seus ouvintes (SP, 2015).

Constatado que a maioria dos oráculos é uma composição de juízo, observamos que no século VII a.C., o profeta Jeremias apresentou o critério para a veridicidade da profecia de forma inegociável: O profeta [nābî] que profetizar para paz se cumprir a palavra o profeta será conhecido como profeta que foi enviado por Javé de verdade” (Jr 28.8-9) (SP, 2015).

Os profetas pré-literários tiveram suas palavras ou oráculos e atividades sociais preservados

em conjuntos redacionais em forma de sagas. Por outro lado, os profetas literáriostiveram seus

anúncios preservados como palavras autônomas, sem método redacional e indicação autoral em suas primeiras formas manuscritas. Se lermos sobre Elias e Eliseu, depararemos com o uso da narração para descrever seus ministérios. No entanto, nos profetas do oitavo século, a narração passa ao segundo plano; usa-se uma coleção de logiareunidas desordenadamente; e a principal característica desses oráculos é a poesia, marcada pelo ritmo e pelo paralelismo (SHWANTES, 1982).

Para Milton Schwantes (1982), a literatura profética é composta de ditos e panfletos. O dito seria uma pequena unidade de sentido, uma perícope. O panfleto seria a formulação literária de agrupamento/coleções de ditos proféticos. Para ele, os agrupamentos das coleções são fenômenos de transição, a fala profética (dito) se transforma em um memorial (ainda oral) para depois se transformar em um panfleto (já escrito) (SHWANTES, 1982).

Um fato importante que irá influenciar é o entendimento do atrito entre os profetas e o Estado. Para Shwantes (1982), a profecia e Estado surgem juntos, conflitam e juntos desaparecem. Então, percebe-se que o projeto messiânico do Reino do Sul, Jerusalém, estará relacionado com a monarquia e o templo, logo o projeto é de um messias guerreiro (Sl 2). Contudo em contramão, o Reino do Norte, em especial Elias, Oséias, Amós, o projeto está vinculado com o êxodo e a unidade das tribos; e no interior de Judá, em que o representante é Miqueias, o messias carrega as características de um pastor e a liderança é movida pelo ideal de paz (SP, 2015). Dessa forma, a tradição judaico-cristã irá beber de fontes distintas para projeção do messias.

É notório que o assunto pode ser aprofundado, além de que diversos temas não foram comtemplados em função do objetivo da atividade: fórmula do mensageiro, profecia e culto, ações simbólicas dos profetas, gênero literário, canonização dos textos proféticos após o exilio, autoconhecimento dos profetas, etc., podemos concluir, que a profecia não é exclusiva do Israel antigo, mas o profeta está vinculado a algum grupo social contra as mazelas da sociedade, o movimento é heterógeno com diversos títulos e sua influência percorre até os nossos dias com hermenêuticas múltiplas.