filipe lopes:fazer da poesia um

instrumento blimunda antónio
jorge gonçalves: puxar o fio da
vida 3 ao cubo : e nascem tr ê s
bibliotecas ilustradas
mensal n.o 57
fev 2017 funda
ção josé sara
mago

Visita guiada:livros horizonte
josé saramago e a literatura
4– editorial
deixemos à literatura
a necessária e devida
liberdade
5– Leituras
Sara Figueiredo Costa
11– Estante
Sara Figueiredo Costa
Andreia Brites

13– em breve
Ricardo Viel
18– António Jorge
Gonçalves: Puxar o fio
da vida
Sara Figueiredo Costa
29– Filipe Lopes:
fazer da poesia
um instrumento
Ricardo Viel

37– 3 ao cubo: três
bibliotecas ilustradas
Andreia Brites 58– And The winner Is...
Andreia Brites
59– Visita Guiada
Livros Horizonte
Andreia Brites

73– Espelho Meu
Andreia Brites
79– Saramaguiana
José Saramago
e a Literatura 89– Agenda
Deixemos
à literatura
a necessária
Crises humanitárias, populismos despu- leitor possa ter opinião é uma premissa que
dorados, cerceamento de liberdades indi- não pode ser posta em causa. Mas essa opinião
viduais e coletivas, novos puritanismos... deve ser aceite como tal, como uma opinião.
Que papel está reservado à literatura no
mundo em que vivemos? José Saramago e devida A liberdade hoje deve passar por cidadãos
mais informados, por alunos que sejam con-
afirmou em entrevista que «É a literatura frontados com experiências literárias diversas
o que, inevitavelmente, faz pensar. É a
palavra escrita, a que está no livro, a que
liberdade que os afastem de uma formatação nociva
para eles próprios e para a sociedade. Em rea-
faz pensar. E neste momento é a última na ção à polémica levantada sobre o seu livro o
escala dos valores.» Assumindo esta premissa, o livro e a literatura nosso reino, Valter Hugo Mãe afirmou que «Para não o perceber
continuam a funcionar como bastiões de liberdade. São muitas basta não ler». Que alguns pais possam fazer essas leituras, é um
as notícias, das verdadeiras, que nos informam sobre as listas de facto que temos de aceitar. Que por via dessa opinião, a escolha
livros proibidos em certos estados dos Estados Unidos, como, por criteriosa de um livro possa ser posta em causa, deve alertar-nos
exemplo, As Aventuras de Huckleberry Finn, O Triunfo dos Porcos, a todos. Se essa opinião se baseia na presença de algumas pala-
Farehneit 451 ou A Sangue Frio. Pelos mais diversos motivos, os vras ou ideias que podem chocar, esse alerta deve ser redobrado.
livros acabam por carregar, na opinião de alguns censores, semen- Porque, como afirmou Álvaro Laborinho Lúcio na leitura do
tes de subversão, as mesmas que o ensino deve lançar por forma romance realizada na FJS, «Tenho pena de não ter tido nenhuma
a criar cidadãos mais conscientes e preparados para viver num dessas palavras no excerto lido. Gostava tanto de me ter lembra-
mundo com desafios cada vez mais urgentes. E o campo da litera- do do tempo em que era criança».
tura, da palavra, acaba por ser considerado o terreno sobre o qual Lembremo-nos, pois, do tempo em que fomos crianças, deixe-
todos podem opinar, criticar ou censurar. Aceitar que qualquer mos à literatura a necessária e devida liberdade.

3
Blimunda 57
fevereiro 2017
Onde estamos Where to find us
diretor Rua dos Bacalhoeiros, Lisboa
Sérgio Machado Letria
edição e redação
Tel: (351) 218 802 040
Andreia Brites www.josesaramago.org
Ricardo Viel
Sara Figueiredo Costa info.pt@josesaramago.org
revisão
Como chegar Getting here
Rita Pais
design Metro Subway
Jorge Silva/silvadesigners
Terreiro do Paço
(Linha azul Blue Line)
Autocarros Buses
25E, 206, 210, 711, 728, 735,
Casa dos Bicos
Rua dos Bacalhoeiros, 10
746, 759, 774, 781, 782, 783, 794
1100-135 Lisboa – Portugal Segunda a Sábado
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josé saramago
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Saramago
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casa dos
GONÇALO VIANA
bicos
LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

A RODA VIVA DA quem se sinta na obrigação de promover o Uma das respostas mais inesperadas é a de
LITERATURA seu trabalho ainda que não se sinta nada à Leonardo Padura, autor que viaja bastante
vontade no mundo-espetáculo criado em e cujo nome é presença regular em festivais
No mês passado, o suplemento Babelia, torno da literatura, há quem aproveite as literários do mundo inteiro. «Al cubano
do El País, dedicou um longo artigo ao viagens e os hotéis para escrever e quem te- Leonardo Padura los viajes le suponen un
fenómeno dos festivais literários que se nha decidido reduzir o número de convites atrativo extra: el yogur. Cuando regresa a su
multiplicam em muitos países, colocando que aceita para não perder tempo de leitura casa en La Habana después de un viaje por
os escritores numa roda viva de convites, e de escrita. O escritor argentino Rodrigo el extranjero, llega con una maleta carga-
viagens, mesas redondas e estadas em ho- Frésan pertence ao primeiro grupo: «(...) da de yogur, que en Cuba no se consigue.
téis que podem ocupar-lhes mais de meta- que tengas que convertirte en un ser hi- Puede parecer banal, pero salir, ver mundo,
de do ano. «Hoy es posible que un escritor persocial por una vocación por la cual lo cambiar de perspetiva, es, para muchos, un
(sin hablar de la-gama-premio-Nobel o que querías era quedarte solo, es un poco valor intangible, y muy alto, que, además de
del círculo áulico Rushdie-Houellebecq- raro. Creo que la proliferación de festivales la conversación literaria y el contacto con
-etcétera) reciba entre veinte y treinta y ha cambiado, para mal, la percepción del los lectores, otorgan estos festivales.» Diz
cinco invitaciones por año para participar escritor por parte del lector.» Andréa del Padura: «Cuando empecé a publicar y me
en eventos literarios de su país o el extran- Fuego, autora brasileira distinguida com o invitaban a algún sitio fuera de Cuba era
jero. Si las aceptara todas, pasaría más de Prémio José Saramago em 2011, tem uma una fiesta. No viajábamos con libertad y sa-
cien días entre aviones y mesas redondas. relação mais pacificada com os festivais: lir tenía una connotación especial. Además,
Nadie las acepta todas pero, a veces, casi. Si «Tengo simpatía por estos encuentros y si te pagaban algo podías comprar cosas
un escritor es sobre todo alguien que escri- asisto por militancia hacia la lectura. Es que no tenías en Cuba. Pero ahora recibo
be, ¿cuándo lo hace, en medio de ese movi- verdad que, para el autor, el centro gravi- treinta invitaciones por año. Me paso seis
miento? ¿Contribuye o impacta en su oficio tacional es su escritura, y que eso es algo meses fuera, entonces no escribo. Aunque
ese nomadismo intermitente? ¿Qué tensio- íntimo. Pero los eventos son el alma del trabajo, y mucho. Lo llevo bien y mal. Pero
nes se mueven entre circular en público y mercado y los autores siempre volverán a asumo la promoción como parte del traba-
escribir en privado?» As respostas, dadas su intimidad, donde no hay ningún con- jo. Te da visibilidad y eso es importante. Y
por treze escritores, variam muito. Há tacto con los mecanismos de divulgación.» en mi caso especialmente, porque en Cuba

5
LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

tengo muy poca: mis libros se publican de
manera aleatoria, y casi nunca me invitan
a eventos.»

DE ONDE VEM
O QUE COMEMOS

No site Buala, um artigo de Filipe Nunes,
originalmente publicado no jornal Mapa,
dá conta da situação social, económica e
ambiental que se vive atualmente na agri-
cultura portuguesa.
«A evolução dos campos nunca foi tão
rápida e avassaladora como hoje em dia.
Em menos de meio século, a ruralidade
alterou-se completamente e com ela o tra-
balho agrícola. O português abandonou a
terra, fez-se “doutor” e, quanto muito, vol-
ta a ela como “empreendedor”. Os recentes
protestos dos imigrantes da agricultura
alertaram para o que se dizia ter ficado
para trás com o 25 de abril: a exploração
do trabalhador agrícola. Algo que mesmo
quem fez a reforma agrária teima em não
ver, agora que já não existem “rurais”, com
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LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

o abandono e a industrialização do campo. as discriminações e o modo desordenado A BIBLIOTECA DE MARIO
Já não existem sindicatos rurais ativos, mas e ecologicamente insustentável como se VARGAS LLOSA
pelas vilas o cante das conversas é mais organiza a produção agrícola. «Não saber
racista para com a classe de trabalhadores comer o que é da época significou romper Um escritor também se reflete na biblio-
rurais que não fala português. A solida- com práticas culturais milenares e com os teca que guarda e consulta. Por convite
riedade deixou de existir e, nos últimos ciclos vegetais tradicionais de cada terri- de Mario Arce, bibliotecário responsável
tempos, apenas a associação Solidariedade tório: a conquista do consumo em massa, pela biblioteca de Mario Vargas Llosa,
Imigrante, a partir de Lisboa, lhe empresta a vitória da “abundância fora das épocas”. em Arequipa (Peru), a BBC percorreu os
o nome nas suas lutas por “papéis”. Mas o O seu preço foi a destruição da agricultu- quase oito mil volumes que o autor juntou
brado dos imigrantes ecoa forte. O azeite ra familiar, da sabedoria camponesa, dos até agora, parte deles acessíveis ao públi-
do olival intensivo esventrou de vez os pequenos produtores e das zonas agrícolas co. Numa zona reservada encontram-se
solos do nosso futuro, os frutos vermelhos tradicionais num contexto de concorrência os volumes sublinhados e anotados por
das estufas plastificam a nossa paisagem internacional de baixos custos, e uma geo- Vargas Llosa, compondo um fundo mais
e a destruição do território e do nosso grafia global dos alimentos determinada íntimo do percurso de leitura e escrita do
horizonte humano é assumida entre dois pela “mobilidade” da mão de obra barata seu proprietário.
campos separados: as lutas dos imigrantes e pela legislação nas mãos das multinacio- «"Entre ellos están Gabriel García Mar-
e as lutas ambientais contra a imposição nais. Quando a sazonalidade desapareceu quez, Carlos Fuentes, Miguel Ángel As-
da agroindústria devastadora. A urgência dos nossos pratos, desapareceu o campesi- turias, autores de distintas nacionalidades
de olhar de forma abrangente para essas nato, não apenas europeu, mas sobretudo y en varios idiomas", explicó Arce."Son
lutas levou-nos dos olivais de Ferreira do do sul global, provocando as migrações libros que nosotros consideramos patrimo-
Alentejo e Beja às estufas de Odemira e forçadas da mão de obra que a agroin- nio bibliográfico porque el hecho de tener
aos pomares do Algarve.» O texto acom- dústria precisa. Nada menos do que uma anotaciones de puño y letra de Vargas
panha a situação de várias produções “deportação programada”» Llosa con valoraciones críticas de cada una
agrícolas do sul do país, ouvindo testemu-  de estas obras le da un valor específico que
nhos, registando a precariedade laboral, seguramente serán materia de análisis por
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LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

parte de los estudiosos de la obra de Mario trabalho através de bibliotecas móveis que básica impresa, que incluye autores clá-
Vargas Llosa", añadió. procurarão chegar aos pontos geográfi- sicos como Gabriel García Márquez, se
Estos libros, considerados un tesoro de la cos onde se situavam acampamentos da desarrolló de manera mancomunada con
biblioteca, representan casi la mitad de la guerrilha, começando o seu trabalho junto la Oficina del Alto Comisionado para la
totalidad los ejemplares donados por el das comunidades indígenas. Na revista Paz una serie de talleres pedagógicos con
escritor peruano.» O artigo publicado pela Arcadia, um artigo de Christopher Tibble las comunidades y los excombatientes
BBC online, no âmbito do Hay Festival de dá conta dessa trabalho que agora começa: para averiguar ellos qué querían leer. “Nos
Cartagena, inclui uma série de vídeos que «Desplegables en menos de 20 minutos, dimos cuenta de que sobre todo querían
permitem satisfazer a curiosidade biblió- las bibliotecas públicas móviles adquiridas libros relacionados con temas como desar-
fila e andar por algumas das prateleiras de la ONG consisten de cuatro módulos: rollo rural, oficios, empresarismo, género,
desta biblioteca. el administrativo (planta elétrica, compu- historia de Colombia y de América Lati-
 tador del bibliotecario), el de lectura ( 380 na”, dice García.» Espera-se que os livros
libros físicos, más de 200 libros digitales, e a presença das bibliotecas, que não são
OS LIVROS DEPOIS DA un tapete, muebles inflables), el informa- apenas um conjunto de livros, oferecen-
GUERRA tivo (cinco computadores, 17 tabletas, do outras ferramentas essenciais para o
15 diademas) y el audiovisual (televisor, desenvolvimento e a dignidade humana,
Assinado o cessar fogo entre o governo maleta de cine, servidor wi-fi con todos possam ajudar a reconstruir a paz.
colombiano e as FARC, o muito trabalho los contenidos digitales). Así mismo, cada 
que há para fazer na Colômbia inclui a biblioteca contará con una caja didática de
disponibilização de livros e de pontos de Fernando Botero y juegos como ajedrez,
leitura pública junto das populações que rummi-q y dominó. En cuanto a los libros,
há muitos anos não lhes tinham acesso. la selección la hizo un comité conformado
Nos arredores de Bogotá, uma equipa de por el CERLALC, la Biblioteca Nacional
vinte bibliotecários das Bibliotecas Sin y la Red Nacional de Bibliotecas Públicas.
Fronteras prepara-se para iniciar esse Además de incluir los títulos de una lista

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LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

Em Viagem Pela Europa Em 1957, Gabriel García Márquez parte mesmo que se esforce por encontrar indí-
de Leste numa viagem aos territórios que então se cios desses dois elementos (sem sucesso,
Gabriel García Márquez dizia ficarem para lá da cortina de ferro: registe-se, ficando por saber se por causa
Dom Quixote «A “cortina de ferro” não é uma cortina do muito que não viu ou do momento em
Tradução de J. Teixeira de
nem é de ferro. É uma barreira de pau pin- que pôde ver). Nesse equilíbrio, García
Aguilar
tada de vermelho e branco como os anún- Márquez cruza também uma prosa assen-
cios das barbearias.» (pg. 7) Nessa época, te no género jornalístico da reportagem e
Para lá da barreira o autor era jornalista e vivia em Paris, uma deriva narrativa que inclui digressões
iniciando a viagem na companhia de uma pessoais, episódios humorísticos e alguns
francesa, Jacqueline, e um italiano, Franco. percalços, reconhecendo-se o estilo do au-
O resultado dessa viagem foi sendo publi- tor sem que se imponha a necessidade de
cado em fascículos e a D. Quixote reúne retomar a velha discussão sobre as frontei-
agora todos os textos num único volume. ras entre literatura e jornalismo.
As cautelas jornalísticas de García A viagem começa pela Alemanha de
Márquez ao longo destes textos são óbvias Leste, onde os três companheiros de estrada
e dizem tanto sobre a vontade de cumprir se instalam por alguns dias. «Para nós era
deontologias como sobre a indisfarçável incompreensível que o povo da Alemanha
posição do autor no lado mais esquerdo Oriental tivesse tomado o poder, os meios
do espetro político. Essa é uma das linhas de produção, o comércio, a banca, as co-
de força deste livro, equilibrando um jor- municações e, não obstante, fosse um povo
nalista que não quer aceitar visitas enco- triste, o povo mais triste que eu alguma
mendadas à URSS, nem percursos orien- vez tinha visto.» (pg. 31) O percurso se-
tados por controleiros de qualquer um dos guirá pela Checoslováquia, Polónia, URSS,
regimes cujos países visita, e um homem Hungria, revelando diferenças profundas
que não esconde a sua simpatia por países entre cada um destes países, que muitos, no
que afirmam não ter desemprego ou fome, Ocidente, tendiam a apresentar como uma

9
LEITURAS DO MÊS
S A R A F I G U E I R E D O C O S TA

massa homogénea de geografias comunistas
onde tudo era igual e igualmente sórdido.
García Márquez foge de maniqueísmos,
comentando a serenidade que se respira na
Checoslováquia, o «único país socialista onde
as pessoas não parecem sofrer de tensão ner-
vosa e onde não se tem a impressão – falsa ou
verdadeira – de se ser controlado pela polícia
secreta.» (pg.67), a força do cristianismo na
Polónia, onde as igrejas continuam ampla-
mente frequentadas, ou a relativa abertura
que a morte de Estaline parece ter trazido à
URSS, «22.400.000 quilómetros quadrados
sem um único anúncio da Coca-Cola.» (pg.
118) Não se esquece, no entanto, de referir
a censura, a impossibilidade de viajar para o
estrangeiro, a ameaça constante para quem
se lembre de criticar o regime. E também não
deixa de fora a sua maior virtude enquanto
jornalista, a capacidade de encontrar boas
histórias e de dar voz às pessoas que as prota-
gonizam, fugindo do óbvio e das imposições
que a realidade previamente «organizada»
perante os estrangeiros (nomeadamente
em Moscovo) tenta colocar-lhe à frente dos
olhos.

10
(em)breve RICARDO VIEL

A exposição «Meus caros amigos – pôs em homenagem ao amigo e las em que falará sobre o seu per-
Augusto Boal, cartas do exílio», or- que empresta o nome à exposição. curso musical e literário, a autora
ganizada pelo Instituto Moreira Sal- ****************** brasileira fará também uma série
les e mostrada pela primeira vez no ****************** de workshops, um deles sobre li-
Rio de Janeiro no ano passado, via- ******************* teratura voltada para a infância.
jará para Lisboa. Em abril, o museu Em março chega às livrarias por- ******************
do Aljube receberá a mostra com a
correspondência que Augusto Boal,
tuguesas o clássico As veias aber-
tas da América Latina, de Eduardo
*******************
O contista e poeta brasileiro Mar-
o criador do Teatro do Oprimido, Galeano. Com a chancela da An- celino Freire será publicado pela pri-
escreveu durante o seu exílio políti- tígona, o livro publicado original- meira vez em Portugal. Nossos Os-
co (1971 a 1986). A curadoria da ex- mente em 1971 ganha pela primeira sos, romance de 2013, é publicado
posição é do poeta Eucanaã Ferraz. vez uma edição em Portugal. Ainda pela Nova Delphi e será apresenta-
****************** este ano, a editora publicará mais do em março no Festival Literário
****************** um título do escritor uruguaio fale- da Madeira. O prefácio do livro é de
Entre os amigos com quem o dra- cido em 2015: O Livro dos Abraços. *********
Valter Hugo Mãe.
maturgo brasileiro falecido em ****************** *******************
2009 trocou cartas durante os ******************* *******************
seus anos de exílio estão o poeta No dia 22 de fevereiro, tem lu- *******************
Ferreira Gullar, a atriz Fernanda gar na Universidade de Coimbra *******************
Montenegro, e o músico e escritor a primeira das master classes que *******************
Chico Buarque. Numa delas está a Adriana Calcanhotto dará duran- *******************
letra do samba que o carioca com- te este semestre. Além das au- *******************
11
e
s
t Como Fernando Pessoa

a
S A R A F I G U E I R E D O C O STA
Menina a Caminho
Pode Mudar a Sua Vida Raduan Nassar
Carlos Pittella e Jerónimo Pizarro Companhia das Letras
Tinta da China
Nova edição de um dos três livros de

n
O título parece o de um livro de auto- Raduan Nassar, este volume de contos
ANDREIA BRITES
-ajuda e talvez seja, se pensarmos inclui alguns textos que ainda estavam
na imensidão de temas pelos quais por publicar em Portugal. O conto que
Fernando Pessoa se interessou, dá título ao livro marcou a estreia do
reflectindo sobre eles na sua obra e escritor, na década de sessenta do
nos muitos papéis que deixou, cada um século passado, abrindo caminho para

t
deles uma potencial tábua de salvação uma obra curta mas absolutamente
para quem encontra na leitura um fundamental no panorama da língua
modo de se relacionar com o mundo. portuguesa. Os contos de Menina
Neste livro, muitos desses temas são a Caminho encontrarão eco nos
abordados a partir do espólio do poeta, posteriores Lavoura Arcaica e Um Copo
cujas peças escolhidas são devidamente de Cólera, constituindo uma porta de

e
apresentadas com todas as regras de entrada privilegiada para o trabalho
uma boa edição crítica, compondo um deste autor, galardoado com o Prémio
conjunto de lições de vida que, não nos Camões em 2016. SFC
salvando de nada, sempre ajudam a ver
melhor o mundo. SFC

13
e

s
Vislumbres da Índia El Monarca de las Ema
t Octavio Paz Sombras Maria Teresa Horta
Relógio d'Água Dom Quixote
Javier Cercas
a Random House
No início da década de sessenta, Reedição do romance que Maria
n Octavio Paz estava na Índia, primeiro O último romance de Javier Cercas Teresa Horta publicou pela primeira
trabalhando como funcionário tem como personagem central um vez em 1984. Ema é o nome de todas
t na Embaixada do México, depois jovem falangista (tio-avô do autor) as mulheres de uma certa família e é
cumprindo funções como embaixador. que morreu na Batalha do Ebro, no espaço familiar e doméstico que
e O resultado dessa vivência foi registado uma das mais sangrentas da Guerra a narrativa se desenrola, baseada
pelo escritor, transformando-se num Civil de Espanha. A narrativa cruza em episódios quotidianos, passados
livro que a Relógio d'Água agora inclui o protagonismo de Manuel Mena, o e presentes, mas sobretudo numa
na sua colecção de Literatura de falangista, e a pesquisa em torno do trama psicológica e no muito que se
Viagens. Um excerto: «Sentei-me ao passado, colocando questões sobre o vai passando nos pensamentos da
pé de uma grande árvore, estátua da modo como nos relacionamos com a personagem. Entre o ódio e a paixão,
noite, e tentei fazer um resumo do que memória e até que ponto a sua herança alicerçados em gerações de repressão
tinha visto, ouvido, cheirado e sentido: nos marca. Deste romance disse Javier e imposições de género, uma vingança
enjoo, horror, espanto; assombro, Cercas que talvez seja o desenlace de acaba por impor-se, procurando uma
alegria, entusiasmo, náuseas, Soldados de Salamina, o romance com justiça que não é apenas presente e que
invencível atração.» SFC que o autor se firmou definitivamente não deixa, por isso, de ser trágica. SFC
no panorama da nova narrativa
espanhola, em 2001. SFC
14
e

s

t A Terra de Ana
A História de Stuart Little Animais Mortíferos
E. B. White Jostein Gaarder Nicolas Davies e Neal Layton
a Booksmile Presença Livros Horizonte

n Do clássico literário aos filmes vai É o regresso do autor notabilizado Um livro informativo sobre as armas
uma diferença grande. A história por O Mundo de Sofia às livrarias que os animais têm para se defender
t do rato filho da família Little não portuguesas, desta feita com uma e atacar as suas presas. Pleno de
cede a explicações e o leitor nunca novela de pendor filosófico sobre curiosidades que servem de mote
e as alterações climáticas. O estilo
sabe como lá foi parar. A anormal para informações científicas, o texto
normalidade é potenciada por mantém-se atento aos detalhes recorre muitas vezes a ilustrações
comentários alheios de estranheza descritivos e às oportunidades representativas e que apelam
ou de naturalidade por parte dos informativas enquanto acompanha ao sentido de humor. Apesar de
elementos da família perante Ana, uma adolescente de dezasseis associar a violência animal ao terror,
comportamentos inusitados. Cada anos entre um mundo futuro e desmistifica o valor da dor ou da
breve capítulo relata um episódio a realidade do seu tempo. A sua morte. No final, o índice e o glossário
da vida deste rato, que vive bem angústia é refreada pelo psiquiatra ajudam os mais novos a encontrar e
melhor na sua pele nas páginas desta que não lhe limita o pensamento nem perceber a informação. AB
narrativa. AB o sonho. AB

15
puxar
o fio da
A viagem desenhada

de António Jorge Gonçalves
SA R A
FIGUEIREDO
COSTA
18
pu xar o fi o da vi da

O mais recente trabalho explicando-se ali que
de António Jorge António Jorge Gonçalves
Gonçalves intitula-se teve um problema de
A Minha Casa Não Tem saúde que o colocou entre
Dentro (Abysmo) e é um a vida e a morte: «No dia
livro onde a iminência 22 de fevereiro de 2016 –
da morte reclama a por causa de uma veia que
importância da memória, rebentou no meu estômago
da desordem e do mistério – morri e regressei à vida,
com que nos vamos num acontecimento que
construindo à medida atravessou espaço e tempo
que o tempo passa. O separando e unindo em
gatilho autobiográfico é simultâneo. Descrevê-lo
desvendado pelo autor com desenhos faz parte
numa página prévia, dessa viagem.»
19
pu xar o fi o da vi da

O livro não é uma descrição detalhada e realista mecei a trabalhar nele e em janeiro a prostatite estava
desse momento ou um recordar aliviado do que passou curada, mas o livro não tinha asas, apenas umas pati-
para uso dos que nunca experimentaram tal situação. nhas de réptil. Continuava a sentir a urgência de o fazer,
Será, antes, uma sucessão de reflexões, visões e memó- mas tinha uma primeira versão nas mãos muito insossa.
rias que transformam a matéria que lhe deu origem Em fevereiro fui parar às urgências [do Hospital] de São
num ponto de fuga, ou talvez mais acertadamente José e no primeiro dia que lá fiquei internado iluminou-
numa linha que nunca se cortou e que manteve o autor -se tudo na minha cabeça: era aquilo que faltava, era
sempre agarrado à vida. aquilo que eu tinha de passar para fazer o livro. Embora
À Blimunda, o autor de A Minha Casa Não Tem Den- os médicos me digam que não há relação entre a prosta-
tro explicou como decidiu transformar um acidente tite e a lesão de Dieulafoy [a veia que rebentou no es-
com a sua saúde, momento supostamente privado e tômago], estou convicto que a prostatite e o tal chama-
íntimo, num livro que todos poderiam ler. «Na realida- mento que senti em dezembro foram para me colocar
de, desde que a minha filha nasceu que eu trago den- em posição, disponível para o que iria acontecer – tal
tro uma sensação, uma necessidade de fazer um livro como os pássaros sentem a tempestade à distância.»
confessional/sacrificial – à falta de melhores palavras, É precisamente com uma referência ao papel do dese-
embora não muito satisfeito com estas. Em dezembro nho na formação do narrador que este livro abre. Duas
de 2015 tive uma prostatite que me deitou abaixo e me pranchas, de seis vinhetas cada, apresentam texto ma-
trouxe, enigmaticamente para mim, na altura, a sensa- nuscrito sobre fundo branco, contando o modo como
ção clara de que tinha chegado a altura deste livro. Co- uma professora elogiou os seus desenhos na escola. Nas
2020
2121
pu xar o fi o da vi da

duas pranchas seguintes, um homem e uma menina com a ajuda de Caronte, o caminho descendente para
desenham sentados no chão, numa imagem dominada os círculos do sub-mundo e a revisitação constante do
pelo azul. E nas duas que se seguem, uma ambulância que o cérebro – ou o coração – guarda como essencial.
do INEM entra em cena, com o vermelho a marcar, Cruzar todas estas imagens e referências num trabalho
agora, o tom da cena. A partir daí, a menina assume o que não deixa de ser sobre um episódio pessoal não foi,
protagonismo, iniciando uma espécie de viagem que para António Jorge Gonçalves, algo que necessitasse de
se oferece a muitas leituras. É uma viagem solitária, muita planificação prévia: «Foi tudo muito fácil. O livro
entrecortada por várias imagens que remetem para a mais fácil de fazer de todos os que já fiz. Nas três sema-
memória – hipoteticamente, do narrador primeiro, nas em que estive no hospital tomei notas, daquilo que
dificilmente separável do autor, mesmo que queiramos pensava, mas sobretudo daquilo que via. Que via? Que
cumprir todas as regras da boa exegese. Sempre com habitava? Estava muito por dentro de certas coisas, é
o azul e o vermelho a lembrarem o fluxo sanguíneo difícil encontrar uma palavra justa para definir. Quando
de um corpo, entre artérias e veias, o livro prossegue entrei em convalescença, só queria que chegasse o dia
numa sucessão de composições onde o corpo humano de me sentar à minha mesa com canetas e tintas e ter
e os instrumentos hospitalares que o ajudam a sobre- forças para desenhar aquilo tudo. Tinha imensas via-
viver assumem destaque, para além de fragmentos de gens de espetáculos marcadas para essa altura. Tive de
memórias, por vezes quase reproduções de fotografias, desmarcar tudo. Tive o tempo para mim: para reganhar
mesmo que sem rosto, danças macabras e referências a forças, para cuidar de mim, e todos os dias me sentava
outras descidas ao limbo entre a vida e a morte. Dante e desenhava e pintava. Sem ordem, sem plano, imagens
é aqui uma referência possível, entre o rio que se cruza que a início não eram sequências, mas que a certo mo-
2222
2323
pu xar o fi o da vi da

mento me indicaram ordens possíveis. Alguns desenhos estiga – espécie de narrativa partilhada, quase numa
eram o meu esforço para representar exatamente o que desgarrada, entre dois interlocutores, normalmente
tinha visto, outros começaram por aí mas foram evo- crianças – que continha a frase. Nessa altura, o autor
luindo para outras coisas como se o que eu tivesse visto ainda não sabia que iria vivenciar um episódio de saú-
fosse apenas a ponta de um iceberg. Mais para o fim, de como o que desencadeou este livro, e muito menos
desenhei algumas imagens para completar sequências, que este livro ia nascer, mas a vontade de utilizar a frase
pensando que poderia ser difícil para o leitor digerir num título surgiu logo: «Quando ouvi a gravação da
saltos – temporais, de assunto – tão grandes entre as estiga dita pelo miúdo, “tua casa não tem lá dentro”,
imagens. Já os textos, essas pequenas bandas desenha- aquilo acertou-me no peito. Pensei: “sou eu”. Disse logo
das mudas que entrecortam as passagens, existem há ao Ondjaki que havia de ser título de um livro meu. Faz
muito tempo num pequeno caderno que escrevinho, parte. Faz parte do processo, por vezes misterioso, de
chamado I Went To (inicialmente escrito em inglês – onde vêm as coisas, de como elas nos chegam, de como
tinha acabado de regressar de Londres), onde construo as encontramos, para as juntar mais tarde e dar forma a
pequenas narrativas de peripécias pessoais que têm um objeto que saia das nossas mãos.»
uma reverberação qualquer. A versão inicial do livro, A figura da criança que surge logo no início de A Mi-
pré-hospital, tinha muito mais textos desses.» nha Casa Não Tem Dentro é um dos elementos cuja lei-
Em várias entrevistas concedidas a propósito deste tura se oferece a muitas interpretações, sem que nenhu-
livro, António Jorge Gonçalves contou como o título ma delas se destaque num livro onde a narrativa linear
A Minha Casa Não Tem Dentro lhe foi oferecido pelo tem tanta importância como a sucessão de imagens
escritor angolano Ondjaki, que lhe deu a ouvir uma aparentemente desordenadas, a torrente de pensamen-
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2525
pu xar o fi o da vi da

tos que podemos atribuir ao narrador do início do livro ao mesmo tempo foi ele que construiu uma ponte para
ou à criança, a certeza de que nem todos os momentos os outros. É um paradoxo: como é que um momento de
de uma vida (talvez mesmo quase nenhum) se apresen- tanta intimidade e reserva pode ser a mola para eu vir
tam arrumados e ordenados como numa história pron- a pertencer aos outros?» De certo modo, é esse mesmo
ta a contar. Sobre a criança, diz António Jorge Gonçal- paradoxo que se assume plenamente neste A Minha
ves: «Quando aquela criança apareceu nos desenhos eu Casa Não Tem Dentro, um gesto de entrega que nasce
achei que era a minha filha, mais à frente achei que não, num momento limite e se transforma numa partilha
que era outra coisa. Mas não quero falar muito disso, generosa de memórias, respirações essenciais, fluxos de
para não trair os desenhos. Porque há de lá estar tudo vida a vislumbrarem a sombra de Caronte e a remarem
nos desenhos, aquilo que quis contar. O texto de entra- serenamente no sentido inverso. No fim, duas pranchas
da está colado a esse desenho, ele é de uma memória estruturalmente semelhantes às primeiras fecham o
marcante da construção da minha relação com o mun- círculo da viagem, contando um episódio cuja repeti-
do, não só com o desenho.» Essa relação surge no livro ção ilusoriamente ad aeternum atesta a continuidade da
como um eixo estruturante, uma linha que se inicia nas vida. O narrador conta que levou a filha ao jardim, que
vinhetas de abertura, prosseguindo em referências fre- a filha brincou em vários espaços, que no dia seguinte
quentes ao longo da narrativa. Para o autor, o desenho é quis repetir tudo outra vez. E nas linhas da caligrafia
um gesto essencial na sua relação com o mundo: «Acho da penúltima vinheta, onde se lê «e eu fui com ela»,
que não exagero muito se disser que eu e o desenho adivinha-se o vazio da vinheta seguinte, como se já
somos indissociáveis. O desenho salvou a minha infân- não houvesse motivo para desenhar, pelo menos neste
cia e a minha adolescência, mobilou a minha solidão. E contexto. Difícil não lembrar as Parcas, que com a sua
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2727
pu xar o fi o da vi da

tesoura mitológica tinham o poder de cortar o fio da ator. Era uma dança que já tinha tido o seu esboço com
vida, mas que aqui apenas teriam conseguido contem- o Nuno Artur Silva e o Rui Zink, mas que cresceu com
plar os muitos fios que o gesto de desenhar foi puxando a adrenalina do palco, de estares a fazer não só com os
sem nunca se deixar interromper. Regressando ao dese- teus parceiros de palco, mas com todo o público. Quan-
nho como pedra basilar, diz António Jorge Gonçalves: do estou no palco, em improviso absoluto, não são só
«O desenho já foi um pouco de tudo na minha vida: as pessoas do público que vão tentando adivinhar que
ostra, mapa, objeto de sedução, torturador, megafone, desenho os meus traços estão a construir; eu também
não chegam as palavras. Mas os desenhos do Subway estou a tentar adivinhar. Procuramos juntos. Isto é
Life foram um momento incrível, o de descobrir que uma coisa com que eu nunca tinha sonhado quando
queria desenhar no meio de pessoas, com elas. Foi isso comecei a desenhar, espinha curvada sobre o papel.» A
que me catapultou para o palco, para os espetáculos de mesma espinha curvada do homem que, no início deste
desenho digital, sem rede, improvisando um discurso livro, desenha sentado no chão a criança à sua frente,
desenhado que não é projetual (para os desenhadores como se nesse gesto coubesse o mundo e todas as suas
quase sempre o processo de construção de um desenho órbitas.
é projetual: ideia-esboço-aperfeiçoamento-finalização).
Um discurso coreográfico, da mão e do cérebro, um
lugar para a emoção em tempo real. Um lugar onde não
há tempo para dares um sentido ao que estás a fazer.
E o diálogo com outros artistas, a dança que acontece
quando trabalho com um músico, um bailarino, um
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Filipe Lo-
pes:
Fazer da
poesia um
MANUELA
CORREIA

instrumen-
to
Entrevis-
ta
por Ri-
29
cardo Viel
fazer da p o e si a u m i n st ru m ento

A primeira vez que Filipe Lopes entrou numa prisão Lopes parte de um princípio básico: quanto mais uma
aconteceu há quase quinze anos. Convidado para ler um pessoa lê mais preparada ela está para tomar decisões
texto do concurso de contos das instituições prisionais de durante a vida. Uma visão «utilitária» da literatura, destaca.
Portugal, saiu da cadeia de Sintra convencido de que queria «Só consigo ver a promoção do livro e da leitura dentro
trabalhar com aquelas pessoas. Descobriu que existia um dessa perspetiva. Para mim a literatura deve servir para
protocolo entre as entidades públicas para que atividades fazer as pessoas melhores.»
ligadas à literatura fossem desenvolvidas com a população Tenta incutir na cabeça dos presos que a literatura pode
prisional. E assim nasceu o projeto «A poesia não tem ajudá-los no dia a dia. «Ás vezes precisamos de ser muito
grades», que já visitou dezenas destes estabelecimentos práticos. Faço o desafio aos reclusos de lerem os textos
em Portugal (continental e insular), e que em breve deverá uns para os outros, e algum deles diz: Para quê? O que vou
expandir-se para além das fronteiras do país. ganhar com isto? O que digo é que o facto de lerem em
«O meu objetivo é dar caminhos e pistas às pessoas para voz alta pode ser útil, por exemplo, para quando estiverem
que elas possam aumentar a sua autoestima e, de acordo frente a frente com o juiz que vai decidir se vão sair dali
com o que elas entendam que é o melhor para elas, ajudá- mais cedo ou mais tarde, a forma como olham ou não para
las a serem pessoas melhores, decidam elas o que isso ele, se sabem ou não utilizar as palavras mais corretas, e a
signifique. Não as julgo, porque já foram julgadas por forma como as dizem. Tudo isto se pode trabalhar com a
um juiz, à luz da lei foram considerados culpados, mas as leitura de um poema. Às vezes tens que tocar as pessoas
escolhas continuam a ser uma coisa que elas são livres para através dessas coisas muito concretas», aponta.
fazer, simplesmente têm as suas consequências», explica o O mais procurado pelos reclusos que frequentam as
promotor de leitura que também já desenvolveu trabalhos oficinas literárias são poemas de amor, conta. «Das coisas
em hospitais e com jovens com risco de exclusão. Filipe que mais se leem dentro da prisão são sobretudo livros de
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Tanto levo um texto de um prémio
Nobel como um texto que outro
recluso me deu. O que a mim me
interessa é a forma como consegues
tornar um texto palpável e útil.
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fazer da p o e si a u m i n st ru m ento

poesia de amor. Muitos deles estão ali à espera de poderem fazem para chorar dentro da prisão. «Para mim, a coragem
apanhar alguns poemas que sejam interessantes para deles é uma coisa extraordinária. Porque se há um sítio
copiar e mandar nas suas cartas. Eu fico encantado da vida onde tens que manter um certa posição de virilidade é na
que seja assim. Isso é muito interessante, porque às vezes prisão. E eles aceitam trabalhar poesia num contexto com
descobres um determinado escritor por um texto que às aquele.»
vezes pode ser mais comum, mais mainstream digamos São muitas as histórias que guarda destes anos de trabalho
assim, mas que pode levá-los a que tenham vontade de com reclusos. Uma delas: no final de uma sessão um preso
descobrir os outros.» aproximou-se para contar-lhe que dias antes havia saído
O método de trabalho nos estabelecimentos prisionais varia «em precária» (benefício que um preso tem para visitar a
muito, não só dependendo da idade e género do público, família). Ao chegar ao bairro, viu na rua onde costumava
mas também do momento. Filipe Lopes costuma dizer parar as mesmas pessoas de sempre, estacionadas no
que cada sessão é diferente, e que por isso não leva um mesmo sítio como há anos costumavam fazer. Em casa,
guião fechado. Tem na manga dois ou três textos para cada teve que pedir aos familiares para que abandonassem os
assunto que pensa tratar, mas está aberto ao imprevisível. computadores, tablets e telemóveis para conversarem entre
«Tanto levo um texto de um prémio Nobel como um texto eles. Contou isso tudo e perguntou ao formador: «E eu é
que outro recluso me deu. O que a mim me interessa é a que estou preso?». Filipe gosta de recordar essa história e
forma como consegues tornar um texto palpável e útil.» relembra-a com euforia: «Esta reflexão é fantástica!? Ele
Conta que numa sessão na prisão de Ponta Delgada, a chegou lá, chegou lá sozinho! Ele percebeu isso. Quantas
leitura de um poema levou os presos a falarem sobre o ato pessoas é que conseguem fazer essa reflexão? Ele consegue,
de chorar. Deixou de lado os textos que tinha trazido para ele consegue porque ele chegou ao fundo e agarrou-se a
que, durante duas horas, estivessem a conversar sobre como alguma coisa.» Essa coisa é a literatura, esse recluso é um

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A literatura está presente nas nossas vidas
o tempo todo. «Quem é que não gosta de música?
A esmagadora maioria das músicas que ouvimos
tem um texto, esse texto é um poema.
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fazer da p o e si a u m i n st ru m ento

dos mais interessados nas oficinas que Filipe faz, é assíduo texto, esse texto é um poema. Dizer-lhes isso, às vezes, é o
frequentador da biblioteca da prisão, onde lê e arrisca a suficiente para desmistificar a questão», conta.
escrita de uns versos. Vê o seu trabalho como um complemento às aulas de
A confiança que Felipe Lopes tem na literatura como português que são dadas nas cadeias, mas procura um
ferramenta de mudança vem da infância e adolescência, outro enfoque. Deixa de lado aquilo que chama de
quando os livros foram companhia e ajudaram a tomar «autópsia» do poema, a parte mais técnica e teórica, porque
decisões. Há em especial uns versos, de autoria de essa não lhe vê a alma. «Quando vou para uma sessão não
Baudelaire, que lhe serviram de guia. «É um poema que vou ensinar nada, não vou dizer o que um texto significa,
diz que deves andar sempre embriagado com vinho, com o que eu quero é que eles sintam. Muitas vezes a escola não
a poesia ou com a virtude à tua escolha. E, num momento dá tempo para os alunos sentirem, nem os deixa livres para
em que a tua vida está tão cheia da possibilidade de opinarem sem que alguém diga que a resposta deles não
experimentares tudo aquilo que a palavra vinho pode está correta porque não é o que o manual diz.»
querer dizer, ajudou-me a apontar para uma determinada Entre os planos de Filipe Lopes está o de estabelecer
linha e ajudou-me também, muito claramente, a não ir com vínculos com entidades culturais – fundações, grupos
alguns amigos meus por caminhos mais complicados e que de teatros, orquestras filarmónicas, etc – para que os
tinham uma certa dose de irreversibilidade. E a dedicar-me reclusos fiquem a conhecer a existência desses espaços
mais à leitura e aos livros.» e o trabalho que desenvolvem. E para que, no futuro,
Um dos métodos que o formador usa para ultrapassar a quando recuperarem a liberdade, tenham a opção de
eventual resistência dos detidos em relação à poesia é o os frequentarem ou, quem sabe, de ali conseguirem um
de demonstrar que a literatura está presente nas nossas trabalho.
vidas o tempo todo. «Quem é que não gosta de música?
A esmagadora maioria das músicas que ouvimos tem um Fotografias de Vitorino Coragem

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35
ao
e nascem cu-
três bi-
bliote- bo
cas ilustra-
ANDREIA
BRITES

das 37
e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

Camões, Coru- ilustradores cria-
chéus e Orlan- ram imaginários
do Ribeiro são e narrativas pe-
as três bibliote- los espaços, se-
cas da rede Blx guindo propostas
que receberam temáticas dis-
uma interven- tintas. 3 ao Cubo
ção a propósito mostra imagi-
de Lisboa – Capi- nários em que se
tal Ibero-ameri- encontram cul-
cana da Cultu- turas a quatro
ra. Três pares de mãos.
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e n asc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

A botânica invadiu os Coruchéus sem deixar vestígio do traçado prévio impõem-se e nós,
que as vamos ver, resignamo-nos a entrar no seu espaço e a
São cinco da tarde de sábado. Em redor da biblioteca dos sermos por elas arrebatados. Como numa estufa ou numa
Coruchéus as árvores reduzem a força da chuva. Lá dentro floresta. Só quando subimos alguns degraus em direcção ao
espera-nos uma botânica imaginária que nasceu nas paredes andar superior reconhecemos com clareza flores, caules e
do edifício. Assim que entramos, uma planta serve de guia folhas que já havíamos visto em folhas A3 na primeira sala.
para cada espaço. Nas suas folhas leem-se termos em latim, Na sala de leitura do primeiro andar as plantas nascem
seguindo as boas práticas da ciência. junto às janelas e trepam pelas paredes até à mezzanine,
Começamos o percurso pela galeria dos esboços. Ali há contrastando com aquelas que descem junto às escadas.
pessoas a ler, a estudar e a trabalhar. Tentamos não incomo- Há-as com várias formas, umas mais delicadas, outras
dar o silêncio com os nossos passos. Nas paredes estão pen- mais robustas; impera o verde e o vermelho. A curiosida-
duradas as ilustrações que foram dando vida à ideia original de leva-nos a espreitar entre o chão e a parede, para ver
desta exposição: flores e plantas de todo o tipo, umas que melhor as plantas. Os utilizadores que ocupam as mesas
sobem e outras que descem, umas luminosas e outras mi- da mezzanine levantam os olhos para se inteirarem dos
croscópicas, umas organizadas num sistema estelar. Con- nossos movimentos. Rapidamente regressam ao objecto
tornos das figuras, lápis de cor, tintas. Estarão todas estas de leitura. Para vermos as plantas luminosas e as plantas
espécies efectivamente disseminadas pelos dois andares da centauro é preciso abrir duas portas na sala dos computa-
biblioteca? dores. Numa primeira tentativa, a resistência das portas de
A escala altera-nos a perspectiva assim que saímos para madeira quase nos faz desistir mas a curiosidade acaba por
o corredor. Já não alcançamos a totalidade das plantas que vencer e deparamo-nos com uma varanda onde emergem
vão do chão ao tecto. As cores vibrantes que as preenchem braços, bicos, olhos, de vasos de tijolo com plantas verda-

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e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

deiras que foram, como o próprio nome indica, alvo de A proposta que o comissário recebeu foi a de realizar uma
uma metamorfose. exposição em três bibliotecas previamente escolhidas pela
Voltamos a descer e seguimos o som das crianças que autarquia que mostrasse alguma obra de ilustradores por-
brincam com livros e outros jogos na sala infantil. Ali, na tugueses e ibero-americanos. «Eu achei que fazia sentido
sala do conto que se encontra fechada com uma cortina, fazer uma coisa mais arrojada. Aquilo que aconteceu a
estarão as plantas microscópicas. A hora de encerramen- seguir foi olhar para as bibliotecas e usá-las como inspira-
to da biblioteca aproxima-se e os pais alertam os mais ção para a escolha de temas. Decidi então que havendo três
pequenos para a necessidade de arrumar. Mas ainda há bibliotecas, cada uma delas ficaria com uma dupla. Esta foi
tempo para uma menina se colocar em cima da escala que a ordem: primeiro a escolha dos temas, depois a escolha
no chão logo vai avisando para a diminuição de tamanho dos ilustradores portugueses e finalmente a escolha dos
de quem a pisar, e que espreita por entre as pequenas ilustradores estrangeiros.», explica André Letria.
cortinas pretas. Numa primeira visita a cada uma das bibliotecas, o
ilustrador e editor da Pato Lógico procurou elementos que
Na génese, três ideias se destacassem e simultaneamente pudessem servir de
ponto de encontro cultural. A envolvência mais natural da
Neste percurso há mais duas bibliotecas para visitar, ou Biblioteca dos Coruchéus, rodeada de árvores e relva, deu o
não se chamasse esta exposição três ao cubo. Idealizada por mote para o tema da botânica. À do Camões couberam os
André Letria a convite da chefe de divisão de bibliotecas de transeuntes, ideia que resultou da observação da constante
Lisboa, Susana Silvestre, nasce no âmbito da Capital Ibero- circulação de pessoas na zona do Calhariz que foi e conti-
-americana da Cultura, que este ano se assinala em Lisboa. nua a ser lugar de atracção e passagem. Finalmente, para a
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e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

Biblioteca Orlando Ribeiro, André elegeu a geografia, em bem como linguagem associada à descrição de coisas geo-
relação directa com aquele que dá nome ao espaço. gráficas, mapas, cartografia. Ele tem muitos objectos tridi-
Depois de escolhidos os temas, avaliaram-se os espaços. mensionais, muitos étnicos. Isso podia funcionar bem com
Era preciso saber onde os ilustradores poderiam intervir, que aquela abrangência, para o tipo de abordagem que querí-
áreas estavam disponíveis, condicionadas ou vedadas, quais amos para o tema.” Foi então em conjunto que se decidiu
as restrições arquitectónicas e de funcionamento. Recolhe- quem faria dupla com cada um dos três. André Letria tinha
ram-se imagens, mapearam-se as salas, mediram-se paredes. algumas ideias mas era fundamental que os portugueses se
A intenção do curador era ter já definidos os locais a utilizar sentissem à vontade com a escolha. Catarina Sobral conhe-
quando apresentasse a proposta aos ilustradores, o que acon- cia superficialmente a brasileira Mariana Zanetti mas, mais
teceu em seguida. importante do que isso foi o facto de se identificar com
o seu trabalho. Já Maria Remédio não conhecia a catalã
Os ilustradores encontram-se Martina Manyà mas encontrou diversos pontos de contac-
to com a sua obra. André da Loba viu o chileno Cristóbal
O critério foi simples: cada ilustrador foi escolhido de Schmal como parceiro imediato, tendo em conta a expe-
acordo com o tema e a relação com a sua obra, não espe- riência de ambos ao nível da arte urbana. O objectivo do
cificamente do ponto de vista da representação mas sobre- curador era apresentar uma intervenção conjunta, e não
tudo da abordagem conceptual e plástica. Assim se chegou uma mostra de dois ilustradores em cada biblioteca. “Suge-
aos nomes dos três ilustradores portugueses: Catarina rimos que não se pressentisse a diferença entre quem ilus-
Sobral para os Coruchéus, Maria Remédio para a Camões trava. A ideia era que isto fosse um trabalho a quatro mãos.
e André da Loba para a Orlando Ribeiro. “Do que conhe- E não se consegue de facto perceber quem fez o quê. Por
cíamos do trabalho dele, achámos que podia funcionar exemplo, o André [da Loba] estava a pintar um boneco e

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Bi bl i ote ca dos Coruch éus
Bi bl i ote ca dos Coruch éus
Bi bl i ote ca dos Coruch éus
Bi bl i ote ca dos Coruch éus
Bi bl i ote ca Camõ e s
Bi bl i ote ca Camõ e s
Bi bl i ote ca Camõ e s
Bi bl i ote ca Camõ e s
Bi bl i ote ca Orl an do R i b ei ro
Bi bl i ote ca Orl an do R i b ei ro
Bi bl i ote ca Orl an do R i b ei ro
Bi bl i ote ca Orl an do R i b ei ro
e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

lembrava-se de outra coisa e ia-se embora. Vinha o Cristó- em todas as paredes, do chão ao tecto, por uma narrativa
bal [Schmal] e completava o boneco do André. Era isso que cosmogónica impressionante. É aliás a única biblioteca
estava combinado entre eles e era o que nós queriamos: que onde não se podem ver os estudos para o trabalho final.
houvesse esta partilha. Na Orlando Ribeiro há dois murais No entanto, tendo em conta a abordagem ao tema das
e num deles a ideia é de um e a realização é do outro.” geografias e o mapeamento dos próprios espaços, desde
os murais da galeria até ao mural da sala infantojuvenil,
Work in Progress passando pela escada e a derivação do vulcão no topo, os
esboços não fazem tanta falta. Já no caso dos Coruchéus
Tudo foi previamente discutido e apresentado em e da Camões, a possibilidade de ver as plantas e as figuras
maquetes, para evitar derrapagens de orçamento e tempo. humanas desenvolverem-se, destacando-se umas, desapa-
Os ilustradores estavam na posse do espaço e do tema e recendo outras, ganhando cor e dimensão, seja ela maior,
foram cruzando propostas com o curador. A partir daí, e como na Botânica Imaginária ou menor, como em Tran-
tendo como pano de fundo o encontro de culturas, cada seuntes como nós, aclara o sentido dos temas e da sua
par trabalhou livremente. Os métodos de trabalho foram concretização final. Tempo e espaço foram os principais
diversos e também isso se pressente nas exposições. Ape- agentes condicionadores do trabalho das duplas. André
sar de todas terem paredes intervencionadas, a Bibliote- da Loba e Cristóbal Schmal estiveram juntos fisicamente
ca Camões é aquela cujo programa é mais organizado e apenas uma semana antes da inauguração e mudaram-se
explícito, incluindo até ilustrações de cada uma das ar- para a Biblioteca Orlando Ribeiro onde pintaram directa-
tistas, devidamente identificadas. Já na Orlando Ribeiro, mente as paredes. Para além disso, André da Loba tratou
a galeria onde deveriam constar os esboços está ocupada dos materiais para os objectos tridimensionais e transpor-
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e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

tou-os para o espaço. Já Catarina Sobral criou quase tudo tido a oportunidade de assistir e participar em processos
num armazém alugado junto à Pato Lógico, contando tão distintos.
com a ajuda dos elementos da editora para aspectos de
produção. “Fui eu e a Catarina ao Aki comprar materiais Et voilá!
porque havia alguma incerteza acerca de quais seriam
melhores para determinadas peças.” recorda André Le- Cada biblioteca tem uma identidade e uma dinâmi-
tria. Mariana chegou cerca de duas semanas antes, mas ca própria, sendo condicionada pelo espaço, pelo tipo de
tinha estado em Lisboa no início do projeto numa ponte público e, obviamente pelas rotinas semanais e de fim de
aérea entre Berlim, onde vive, e São Paulo. Isso permitiu semana. Das três é a Camões aquela que logo se afigura
que conhecesse fisicamente os espaços e que pudesse logo mais confusa, basta entrar para o perceber. A configuração
conversar com Catarina. Martina Manyà vivera em Lisboa das salas e a sobrelotação do espaço cria uma sensação de
o que lhe dava uma perspetiva muito mais familiar.Veio caos. Por outro lado, arrebata qualquer utilizador com a
uma ou duas vezes durante o desenvolvimento da ideia e vista que proporciona sobre o Tejo. Para a exposição, dedi-
da ilustração e depois chegou cedo, para poderem traba- cada às pessoas, foram destinadas três salas vazias, outras
lhar com tempo na Camões, onde asseguraram tudo. Na duas de leitura, uma infantil e outra de adultos e ainda dois
fase final, a da pintura das paredes, os ilustradores con- corredores. Maria Remédio e Martina Manyà perspectiva-
taram com a preciosa ajuda de voluntários. Um grupo de ram a ideia dos outros a partir do tempo, que é universal. O
estudantes de ilustração da AR.CO ajudou. Sob a orienta- tempo humano, do desenvolvimento e da experiência. Por
ção dos profissionais, os alunos foram pintando formas já isso, a sala pintada acompanha as fases da infância, adoles-
desenhadas e alguns, que puderam trabalhar com os três cência, idade adulta e velhice ao longo das paredes. Depois
pares, mostraram-se muito satisfeitos no final, por terem descobriremos essas figuras numa espécie de bulício de
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e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

movimento, entre outras que não mereceram lugar de des- Atlas, o Gigante repousa na parede de uma das salas infan-
taque. Se há algo que marque esta exposição é por um lado tojuvenis. A técnica Rute Teixeira partilha com a Blimunda
a pequena dimensão das pessoas, excepto na fase da infân- o estranhamento das crianças. “Quando olham, pensam
cia, e por outro uma permanente sensação de movimento. que o homem é o mar, porque é azul. Só depois distinguem
Os diapositivos reclamam ainda mais essa ideia de trânsito. um homem deitado e quando reparam nos nomes e nas
Como se o tempo da vida e o tempo do caminho tivessem linhas que vão de uns para os outros identificam o mapa.”
uma equivalência, e se a diminuta dimensão das figuras as A reacção tem sido excelente, não apenas pelo espanto das
tornasse parte de um todo muito maior. O contraste com crianças mas também pela perfeita integração do mural nas
a intervenção na Orlando Ribeiro é enorme. A escala de actividades diversas que ali se realizam com grupos infan-
André da Loba e Cristóbal Schmal é outra. Toda a galeria é tis.
um mundo de elementos que se conjugam em referências As palavras são parte integrante desta geografia: indica-
geográficas imaginárias que remetem para o diálogo entre ções, nomes ou frases que se conjugam em português e es-
os dois autores. Extravaza uma narrativa fantástica sem panhol como língua contígua. Apesar de as reconhecermos
ordem definida, que se constrói à medida que nos detemos e até sustentarem cenas ou lugares, a verdade é que nunca
em cada elemento e rapidamente nos lançamos na obser- ultrapassam a fronteira da criação para a comunicação. Ao
vação de outro e mais outro. A natureza eclode na sua força invés, contribuem para uma poética da imagem. O ilus-
primitiva tanto quanto o homem, nas suas metamorfoses. trador André da Loba justifica a sua necessidade: “As fra-
Há morte, esquecimento, rito. E aviões, deuses, mapas ses servem de referências geográficas e temporais. Temos
delineados em corpos, labirintos. Naquelas quatro paredes português, latim, espanhol e quechua. Foi um trabalho que
mora uma história do mundo. Depois do desfiladeiro do começou com muitas palavras e acabou em silêncio, nas
vulcão e da ala dos muertos outro momento de espanto: vinhetas das pedras, no vulcão ou no homem-mapa.”
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e nasc em t rê s bi bl i ote c as i l u st radas

O que se segue lectivo, André Letria gostava que acontecesse ainda este
ano, depois das férias da Páscoa, ainda no âmbito da Ca-
O projecto de curadoria de André Letria, co-produzido pital Ibero-americana da Cultura. Espera poder inaugurar
pela Pato Lógico não fica por aqui. Assim, foram convi- cada uma delas com a presença do ilustrador português
dados dois agrupamentos de escolas – Passos Manuel e respectivo e assim estabelecer um contacto entre estudantes
Francisco Arruda – para que os seus alunos, de acordo com e artistas. Posteriormente, e contando com o envolvimento
a escolha interna dos professores, concebessem uma expo- de outras escolas no futuro, a Pato Lógico põe a hipótese de
sição com base nos mesmos temas. Para isso, André reuniu editar um livro a partir das exposições dos alunos. “Ideias
com os directores dos agrupamentos e fez com eles uma vi- não faltam. E era giro aproveitar isto para envolver a comu-
sita às exposições. A sua intenção é a de que a intervenção nidade e as escolas.”, partilha André. A única garantia que
nos espaços seja fonte de inspiração para a criação de obras tem, neste momento, é que as três exposições permanece-
que possam extravasar o modelo tradicional de desenho ou rão nas bibliotecas até ao final da Capital Ibero-americana.
pintura em folha ou tela. Inclusivamente o curador consi- Mas há a hipótese de permanecerem, o que, se vier a con-
dera que seria muito interessante que os alunos ocupassem cretizar-se materializa a intenção original das exposições:
espaços ainda vazios nas bibliotecas, complementando a marcar e transformar o espaço das bibliotecas.
criação dos ilustradores profissionais. Neste momento há
algumas incógnitas acerca da concretização desta experiên-
cia na medida em que as escolas, embora tenham acolhido
a ideia com muito entusiasmo, ainda não deram resposta
sobre o estado em que se encontra o projeto em cada uma
delas. Apesar desta etapa poder decorrer no próximo ano Fotografias de Joana Berrones
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AND and the winner is...
Newbery Medal
The girl who drank the moon, Kelly Barnhill,
Algonquin Young Readers
É uma narrativa de pendor maravilhoso, com
uma cadência onírica e poética que vale a Kelly
Barnhill a principal distinção atribuída pela
American Library Association a escritores de
literatura infantojuvenil. A história de uma
menina que acidentalmente é alimentada pelo
luar por uma bruxa bem intencionada explora
a ideia do autoconhecimento e dos juízos dos
outros. Os três livros com menções honrosas têm
em comum o facto de escolherem momentos
históricos passados como pano de fundo.

Caldecott Medall
Radiant Child: the Story of Young Artist
Jean-Michel Basquiat, Javaka Steptoe,
Little, Brown and Company
A biografia do artista plástico que se destacou
em Nova Iorque nos anos 1980 é delineada a

Kelly Barnhill
partir de uma visão da arte no quotidiano pelo
ilustrador que segue algumas técnicas próximas
do biografado e que resultam num mosaico
vibrante de cor, forma e textura. De entre as
menções honrosas, duas delas foram atribuídas
a álbuns que também se encontram editados em

Javaka Steptoe
Portugal: Ké Iz Tuk?, pela Orfeu Negro, e Todos
viram um gato, pela Edicare.

58
Livros
o V I S I TA
GUIADA
ANDREIA
BRITES

59
rizo
zo
V I S I TA G U I A DA : L I V RO S H O R I Z O N T E

Uma editora com uma biblioteca dentro

Quando chegamos ao primeiro andar do n.º 17 A nossa sorte foi conhecermos a senhora de lá e
da Rua das Chagas, somos recebidos por Martina entrarmos.» Conceição conhece o catálogo como
Ricci, assistente editorial da Livros Horizonte. A ninguém. Quando nos voltamos para a estante
visita começa e logo para, na primeira porta à da entrada, onde estão todos os livros infantis que
direita do corredor, onde está Conceição Ribeiro. ainda não foram descontinuados, é com facili-
Ela é o último reduto da história passada da edito- dade que reconhece os primeiros publicados em
ra, e com Helena, que partilha a sala, as resisten- formato álbum. Adivinha, Adivinha, de Luísa Ducla
tes da administração de Rogério Moura. A equipa Soares foi o primeiro de um autor português, e é o
actual é pequena, cinco mulheres que trabalham sétimo da colecção. E recorda ainda que foi Ro-
ali, e um homem no armazém. Conceição, que gério Moura quem editou em primeiro lugar livros
começou a trabalhar ali, naquele mesmo andar, sobre desporto e sobre a cidade de Lisboa. Actu-
em Março de 1974, recorda a Revolução do 25 almente, Conceição e Helena tratam das vendas e
de Abril. «O doutor emprestou-nos uma telefonia dos direitos de autor.
e disse-nos: "Vão para casa." Mas nós não fomos. Continuando pelo corredor, depois da sala de
Então estava a acontecer uma coisa daquelas e reuniões, está Alexandra Cayolla, a responsável
não íamos ver? Havia PIDEs escondidos nas igrejas. pela comunicação. Segue-se a sala que Martina
Ali no Camões íamos sendo apanhadas por um partilha com Rosa Machado,também assisten-
estilhaço. Junto ao edifício onde era a Sá da Costa. te editorial. Nas estantes está o catálogo editado

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V I S I TA G U I A DA : B RUA Á

Um catálogo com mais de sessenta anos

pela nova equipa: volumes de história, ensaio, bio- mente organizada. É a biblioteca da Livros Hori-
grafias, ciência e religião, áreas caras à identida- zonte, que a equipa faz questão de preservar e da
de da Horizonte. Os infantis também têm o seu qual se orgulha. Desde livros censurados, como é
lugar garantido. Ambas as assistentes editoriais o caso de O Parto sem Dor, o quarto título editado
trabalham a totalidade do catálogo, recorrendo pela Horizonte, às colecções académicas sobre
a especialistas para a revisão científica no caso literatura e educação, todos os títulos descontinu-
dos títulos para adultos. Os livros estrangeiros que ados de um catálogo com mais de sessenta anos
chegam para apreciação ocupam outra parede se encontram ali. Na colecção de poesia, o título
e ainda há espaço para originais e relíquias do inaugural é Provavelmente Alegria, de José Sara-
passado. Na sala seguinte somos apresentados ao mago, que data de 1970. Há também espaço para
administrador, Luciano Patrão, que comprou a edi- o infantil: Matilde Rosa Araújo, Leonel Neves, José
tora em finais de 2014 e reitera a aposta no livro Barata Moura, Luisa Ducla Soares, António Torrado,
infantil, nomeadamente de autores portugueses, António Mota são apenas alguns dos nomes da lite-
que constituem 50% da edição anual na área. Pa- ratura portuguesa que integram a notável colecção
rece que chegamos ao fim, mas Martina reservou- Pássaro Livre. Naquelas prateleiras poderia facil-
nos uma surpresa. É um tesouro escondido em mente começar outra visita, guiada pelo tempo.
prateleiras e um armário numa sala interior: mais
de meio século de edição em vias de ser devida- FOTOGRAFIAS DE JORGE SILVA
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ANDREIA BRITES Há classes sociais / As Mulheres e os Homens

ESPELHO MEU Equipo Plantel, Joan Negrescolor / Luci Guttiérrez, Orfeu Negro

Datado de 1978, Há Classes Sociais explica num lhe ao nível dos tipos de trabalho, pouco ou nada se
discurso marcadamente ideológico como está alterou. A ilustração, por sua vez, actualiza o texto.
estruturada a sociedade de classes (alta, média e Telemóveis, call centers e computadores fazem parte
classe trabalhadora) e o poder financeiro que as dos quadros representativos de uma população di-
distancia. Atenta nos valores e nos conflitos, so- versificada, representada a laranja, amarelo, verde e
bretudo na desigualdade. Contudo, não se corre o preto.
risco de cristalização. Apesar da descrição da classe Em As Mulheres e os Homens há algumas dife-
média ser demasiado estanque para a realidade renças que o tempo, em certos países, atenuou. Há
deste início de século XXI, as suas característi- muito mais mulheres em lugares de chefia e a im-
cas essenciais parecem constituir uma espécie de portância de estudar é neste momento equivalente
esqueleto ao qual cada momento histórico pode para umas e outros. Todavia, a matriz da educação
vestir o que melhor lhe servir. Aquilo que poderia mantém-se, apesar de ser menos evidente. As ilus-
à época consistir em radicalismo ideológico em trações de Luci Guttiérrez atuam como as de Joan
relação ao poder (o texto afirma que os patrões Negrescolor, apresentando situações que levam o
têm poder não apenas sobre os trabalhadores mas leitor a criar narrativas e contextos a partir e para
igualmente sobre as decisões políticas, jurídicas e além do que é dito. Um exemplo claro é o das ja-
judiciais), hoje é uma constatação linear e quase comummente nelas, quando se explica a relevância do sexo numa relação,
aceite como uma inevitabilidade pelos adultos. Todavia, como e se apresentam vários pares, desde dois gatos, duas crianças,
lerão os mais novos estes textos programáticos? Na introdução um homem e uma mulher, dois homens, e duas mulheres. A
a cada um dos volumes a editora portuguesa explica a origem mensagem de ambos os livros é poderosa com textos diretos e
da coleção na Espanha em transição democrática. O desafio ilustrações sugestivas. No panorama da edição infantojuvenil,
que propõe, nessa mesma nota, é o de identificar nos textos são necessários. Porém, muitos adultos desejariam que já não
aquilo que ainda se mantém atual. E, salvo um ou outro deta- fossem mais que um testemunho do passado.

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ANDREIA BRITES Faz-de-Conta

ESPELHO MEU Clara Cunha, Rachel Caiano, Livros Horizonte

Esta é a terceira narrativa de Clara Cunha, que se na sua possibilidade. É através da ilustração que
estreou em 2008 com O Cuquedo. Contrariando o este livro ilustrado recupera a ambiguidade. Rachel
ritmo acumulativo e o elemento surpresa que vem Caiano recorre, como é comum no seu trabalho,
a desvendar-se num clímax poderoso, a presente à disposição de elementos avulsos num contexto
narrativa assenta num pressuposto onírico apresen- espacial. Os destaques conjugam-se com os deta-
tado logo no início. A protagonista declara, quando lhes e ambos concorrem para o mistério. Tendo
a mãe a vai acordar, que quer brincar ao jogo do em conta que a menina traça um itinerário que
faz-de-conta. O título ilumina-se imediatamente e começa no seu quarto e termina quando sai da
ganha o seu significado sem ambiguidades. escola, no regresso a casa, aquela mesa é a da cozi-
Tendo em conta que o desafio proposto pela me- nha e aqueles passos seguem as ruas para chegar à
nina a si própria e ao leitor implica uma capacidade de cons- escola? Algo não bate inteiramente certo e esse é o segredo da
truir e acreditar numa realidade paralela, a estrutura narrativa ilustração. Até onde leva a menina o jogo do faz de conta? A
não precisa de outras camadas de sentido. certa altura, entre leitura e releitura, reconhecem-se elementos
Assim, o desenrolar das situações do quotidiano, do acordar reciclados, que já foram reis e rainhas e agora podem ser cole-
até ao regresso da escola, sucedem-se respeitando uma ordem gas de escola, ou jarros que se transformam em foguetões. A
sequencial que por sua vez deriva precisamente de uma line- perspetiva do espaço nunca é completa, pelo que a linearida-
aridade temporal. Há episódios mais surpreendentes, como de dos acontecimentos poderia fazer-se acompanhar de uma
o aparecimento do urso, e outros mais divertidos, quando se contiguidade espacial. Ou não. A partir da recomposição e da
trata da relação entre o urso e os colegas da escola e a profes- perspetiva, o faz de conta ganha uma outra dimensão tempo-
sora. A naturalidade com que a protagonista descreve o insóli- ral paralela. O tempo dentro do faz de conta pode ser imen-
to credibiliza a fantasia e o pacto que o leitor estabelece com o so e o tempo que dura o faz de conta pode ser muito curto.
propósito da narrativa: participar no faz-de-conta acreditando Quem é que não sabe isso?
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77
SOMOS BIBLIOTECAS
PÚBLICAS. MUNICIPAIS. DE TODOS.
CAMPANHA DE PROMOÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS

www.somosbibliotecas.pt
facebook.com/somosbibliotecas twitter.com/somosbiblio
José
Sara-
mago e
a lite-
In José Saramago nas suas Palavras
Organização e edição de
Fernando Gómez Aguilera

saramaguiana

ratura 79
José Saramago e a Literatura

Se a literatura nesta terra ainda
serve para alguma coisa, isto é,
se for mais do que alguns estarem
ainda a escrever para alguns
estarem ainda a ler, torna-se
urgente recuperá-la, já que a nossa
sociedade corre o risco, devido
aos audiovisuais, de emudecer, ou
seja, de haver cada vez mais uma
minoria com grande capacidade
para falar e uma maioria crescente
limitada a ouvir, não entendendo
sequer muito bem o que escuta.
80
José Saramago e a Literatura

creio, e não estou a ser nada original, achar excelente não
ser possível catalogar os livros consoante os géneros a que
supostamente devam pertencer. é como se entre os géneros não
houvesse fronteiras tão rígidas como as que separam as nações.
olhamos o mapa e vêmo-lo dividido em riscos ou cores. é muito
bom que hoje seja difícil catalogar os géneros. se cada um puder
aproveitar a riqueza dos outros, acho óptimo. não sei se daqui a
uns anos, não poderemos fundir todos os géneros para depois os
tornarmos a dividir, num fenómeno de concentração e expansão
semelhante ao que existe nas galaxias. neste momento, creio que
cada um dos géneros literários se expande em relação a todos
os outros. Às vezes dizem-me: «Você devia fazer poesia», e eu
respondo: «Procurem-na nas páginas dos meus romances.»
81
José Saramago e a Literatura

Há que reconhecer que a literatura não transforma
socialmente o mundo, e que é o mundo que vai
transformando, e não só socialmente, a literatura.
É ingénuo incluir a literatura entre os agentes da
transformação social. Reconheçamos que as obras
dos grandes criadores do passado não parecem
ter dado origem, em sentido pleno, a nenhuma
transformação social efectiva, mesmo quando
tiveram uma forte influência em comportamentos
individuais e de geração. A humanidade seria
hoje exactamente tal como é mesmo que Goethe
não tivesse nascido. A literatura é irresponsável,
porque não se lhe pode imputar nem o bem nem o
mal da humanidade. Pelo contrário, actua como
um reflexo mais ou menos imediato do estado das
sociedades e das suas sucessivas transformações.
82
José Saramago e a Literatura

numa das horas de pessimismo
agudo cheguei a afirmar que, se cervantes
ou shakespeare não tivessem nascido, o
mundo seria o que é. em todo o caso, a
literatura poderá exercer uma influência
pessoal, mas não social. além disso, temos
de ter em conta que os escritores nunca
estiveram de acordo com o que deve ser uma
mudança: cada um tem a sua percepção da
sociedade, a sua consciência do mundo.
83
José Saramago e a Literatura

Andamos há séculos a perguntar-nos uns aos
outros para que serve a literatura, e o facto
de não haver uma resposta não irá desanimar
os futuros perguntadores. Não existe uma
resposta possível. Ou então há infinitas: a
literatura serve para entrar numa livraria e
para nos sentarmos em casa, por exemplo. Ou
para ajudar a pensar. Ou para nada. Porquê
esse sentido utilitário das coisas? Se temos de
procurar o sentido da música, da filosofia, de
uma rosa, é porque não estamos a entender
nada. Um garfo tem uma função. A literatura
não tem uma função. Embora possa consolar
uma pessoa. Embora nos possa fazer rir. Para
piorar a literatura basta deixar de respeitar
a língua. Por aí se começa e por aí se acaba.
84
José Saramago e a Literatura

É a literatura o que,
inevitavelmente, faz
pensar. É a palavra
escrita, a que está
no livro, a que faz
pensar. E neste
momento é a última
na escala dos valores.
85
Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote?

A Casa José Saramago
Aberta de segunda a sábado, das 10 às 14h. Última visita às 13h30.
Abierto de lunes a sábado de 10 a 14h. Última visita a las 13h30 h.
Open from monday to saturday, from 10 am to 14 pm. Last entrance at 13.30 pm.

Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias, Islas Canarias, Canary Islands – www.acasajosesaramago.com
Fotografia de João Francisco Vilhena
fevereiroDones La ciudad en
viñetas. Carla
Almada
Negreiros:
Modernidades Surrealistes Berrocal Uma maneira
Fotográficas, Até 1 abr Até 2 abr de ser
1940-1964
Exposição que reúne
duas dezenas de
Inserido no programa
«La ciudad en viñetas», moderno
Até 26 fev
obras de mulheres
cujo trabalho passou,
do CentroCentro,
um mural em banda
Até 5 jun
Primeira exposição
Com trabalhos dos em algum momento, desenhada assinado
retrospetiva da obra
fotógrafos brasileiros
José Medeiros,
Pablo Picasso: pelo surrealismo e pela
Catalunha. Barcelona,
por Carla Berrocal,
com narrativas em
de Almada Negreiros

Más allá de la
em 25 anos. São mais
Thomaz Farkas, Marcel Galeria Mayoral. torno de Madrid e dos
de quatrocentas
 seus recantos. Madrid,
Gautherot e Hans
Gunter Flieg, esta semejanza CentroCentro.
obras organizadas em
núcleos temáticos que
exposição acompanha
um período crucial Até 28 fev 
dão a ver o percurso
de um dos mais
para a formação da Exposição de desenhos
importantes artistas
fotografia moderna no de Picasso criados
portugueses do século
Brasil. Rio de Janeiro, entre 1897 e 1972,
XX. Lisboa, Fundação
Instituto Moreira Sales. percorrendo quase
Calouste Gulbenkian.
 toda a sua carreira

artística. Buenos
Aires, Museo de Arte
Moderno.

José de
Correntes
d'Escritas
fevereiro
A Máquina de A Cabeza do
Rota das
Letras
21 a 25 fev Emaranhar A Constituição Dragón 4 a 19 mar
Celebrando os 18
anos, o maior e mais
Paisagens 3 mar 3 a 5 mar Sexta edição do festival
literário de Macau,
antigo festival literário
português volta a
23 a 26 fev Integrado numa
tetralogia dedicada
As Producións Teatrais
Excéntricas levam
reunindo autores
de várias paragens,
Dinarte Branco encena
reunir na Póvoa de à reflexão em torno ao palco a primeira com destaque para a
e interpreta esta peça,
Varzim escritores das questões políticas, peça que Ramón de expressão portuguesa
composta a partir de
oriundos de países de filosóficas e públicas, Valle-Inclán escreveu e chinesa. Macau,
textos de Herberto
língua portuguesa e este espetáculo coloca em galego, uma farsa Edifício do Antigo
Helder. A música,
espanhola. Póvoa de 4 atores perante a que cruza a tradição Tribunal.
original e interpretada
Varzim, Cine-teatro tarefa de escrever uma teatral europeia com 
ao vivo, é de Cristóvão
Garrett. nova constituição. alguma influência
Campos. Porto, Teatro
 Viseu, Teatro Viriato. japonesa. Santiago de
Carlos Alberto.
 Compostela, Teatro

Principal.

90
Embora nós não sejamos detentores da verdade, porque isso não existe, somos os que
dizemos a palavra não. O sim é rotineiro, está sempre ali. É sempre necessário
introduzir um não para enfrentar o sim que é o consenso hipócrita em que mais ou
menos estamos a viver.

In José Saramago nas suas Palavras

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