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GONZAGA, Amarildo Menezes.

A Pesquisa em educação: um desenho metodológico
centrado na abordagem qualitativa. In: PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro;
FRANCO, Maria Amélia Santoro (Orgs.). Pesquisa em educação: alternativas
investigativas com objetos complexos. São Paulo: Edições Loyola, 2006. p. 65-92.

Introdução

A própria cultura acadêmica, desde as séries iniciais, contribui para que não
haja o fomento da pesquisa como parte essencial no processo de formação dos que
freqüentam a escola, pois ainda é visível o culto ao enciclopedismo, que incrementa a
modalidade de ensino-aprendizagem centrada em pseudoleituras que enfatizam a
memorização de informações. (p.65)
Por termos recebido formação daquela natureza em grande proporção, quando
estamos no processo de sistematização das pesquisas que desenvolvemos a preocupação
maior que geralmente norteia aquela trajetória incide na dificuldade em escolher e
legitimar o método a ser adotado. (p.65)
A partir do exposto, apresentamos agora o que consideramos uma engenharia
que construímos para apreender e legitimar a relação que estabelecemos com o objeto
de pesquisa da nossa tese de doutoramento em Educação, (...). (p.66)

1. O desenho básico da pesquisa

(...) Após desenvolvermos diferentes leituras sobre as categorias norteadoras
daquele objeto, construímos o seguinte desenho:

1.1 - O problema;
1.2 - Problematização/questionamentos;
1.3 - Objetivos:
1.3.1 - Geral;
1.3.2 - Objetivos específicos procedimentais;

1.4 - Caracterização dos sujeitos da pesquisa. (p.67-68)

2. O desenho teórico-metodológico referente à pesquisa

Após a construção do desenho clássico da pesquisa, tivemos uma preocupação
em nos embasar com mais precisão no processo de apreensão do objeto a ser
pesquisado. Para isto, redimensionamos o desenho anterior a partir de elementos
caracterizadores da natureza de pesquisa que nos propusemos a adotar (...). (p.69)

2.1 A pesquisa qualitativa

.. os principais estudos da pesquisa qualitativa decorrem das contribuições de Bodgan e Biklen. (. (p.2 Origens e desenvolvimento da pesquisa qualitativa Não é nova a utilização da pesquisa qualitativa na educação. (p. (.. (.69) Escolhemos a pesquisa qualitativa também porque pareceu-nos pertinente o posicionamento de Watson (1985). apresentar contribuições no processo de mudança de determinado grupo e permitir. por parte de Bodgan e Biklen (1982)..71) Bogdan e Biklen (1982) estabelecem quatro fases fundamentais do desenvolvimento da pesquisa qualitativa em educação. como produto de uma interação entre ambos. Ruth Benedict. (p.71) Com o decorrer do tempo.. a pesquisa do tipo qualitativo apresenta como característica peculiar a diversidade metodológica. compreender e classificar processos dinâmicos e experimentos por diferentes grupos sociais. é possível perceber seu emprego desde a época da cultura grega. quando discorre sobre o pesquisador que. Dessa forma. Ralph Linton etc. O primeiro vai do final do século XIX até a década de 1930. de tal maneira que permite extrair dados da realidade com o fim de ser contrastados a partir do prisma do método. Stocking e Vidch e Lyman. eventos.. sugere as perguntas que orientarão a pesquisa. O quarto período.. quando a caracteriza com descrições detalhadas de situações.. Nos séculos XVII. no que se produz um declive no interesse pelo enfoque qualitativo. ao entrar em campo.71) (.).. a entrevista com detalhe ou os documentos pessoais. aparece um enfoque de pesquisa com influência antropológica.). (p. em maior e menor grau de aprofundamento. pessoas. tal e como são expressadas por eles mesmos.70) Ademais.70) Erikson (1977) também dá a sua contribuição na respectiva escolha. Esse saber é considerado.70) 2...). Sua preocupação era captar os vestígios de civilizações que iam desaparecendo. as particularidades dos comportamentos ou atitudes dos indivíduos. geralmente vai com uma orientação teórica consciente das ciências sociais e da teoria pessoal. Margareth Mead.. objetivo e independente das motivações ou crenças das pessoas que o procuram e o sustentam. é visto. angariar informação por meio do processo de triangulação. Um terceiro (.). confiável.) com a necessidade de poder fazer uma descrição da complexidade de uma determinada situação.) década de 1960. gerada a partir de estudos de Franz Boas. o nosso propósito geral nesta pesquisa está relacionado (. (p. (p. chegar a contrastar e validar as informações obtidas por meio de fontes diversas sem perder a flexibilidade..). quando se apresentam os primeiros trabalhos qualitativos. XVIII e XIX florescem as ciências positivas (.. época marcada pela mudança social e pelo ressurgimento dos métodos qualitativos. em suma. Denzin e Lincon. nas obras de Heródoto e Aristóteles. (p.. Um segundo período (.. como a observação participante. Goetz e Lecompte. como a época em que começa a realizar-se a . 1960. interações e comportamentos e reflexos. Possibilita também realizar exames cruzados dos dados obtidos.) 1930 aos anos 1950.

a etnografia dos outros cidadãos.).72) (. análise do discurso.). etnometodologia. análise de conteúdo...). etnociência.  A pesquisa qualitativa é uma arte. todas as perspectivas são valiosas. (p. a etnografia do índio americano. pesquisa descritiva...  Para o pesquisador qualitativo... estudos “delphi”.....). (p..72-75) Centrando-nos no posicionamento de Serrano (1998) sobre a temática em questão. procura um entendimento detalhado das perspectivas de outras pessoas.).75) 2. estudos sobre a etnicidade e a assimilação e o momento atual. interacionismo simbólico etc.. investigação dialógica. estudos sobre biografias ou histórias de vida. investigação-ação. criticismo educativo.  Os métodos qualitativos são humanistas.).  Os pesquisadores qualitativos dão ênfase à validez em sua pesquisa..3 .. os gêneros imprecisos (1970-1986). Entre eles podemos mencionar: estudos de casos. e não por sociólogos.  O pesquisador qualitativo suspende ou afasta suas próprias crenças. levada a cabo pela antropologia no final do XIX e começo do XX. (. XVIII e XIX... consideraremos o aspecto de que a pesquisa de caráter qualitativo é muito ampla e que nela tem cabido uma variedade de métodos. vê as coisas como se estivessem ocorrendo pela primeira vez. consideram as seguintes etapas em sua evolução: a etnografia primitiva. a crise da representação (1986-1990) e a pós- modernidade (1990 até o momento atual).).):  A pesquisa qualitativa é indutiva (. investigação heurística.A etnografia holística . (. estudo de documentos... (. análise conversacional. em que se destaca o labor dos exploradores dos séculos XVII. (p. avaliação qualitativa. ao analisarem a história da pesquisa qualitativa a partir da antropologia e da sociologia.).. (. o pesquisador vê o cenário e as pessoas a partir de uma perspectiva holística (. avaliação interpretativa. (p.pesquisa qualitativa pelos pesquisadores da área da educação.). todos os contextos e pessoas são dignos de estudo.) mencionaremos algumas das principais características da pesquisa qualitativa (.. (. pesquisa direta.. (p. pesquisa participante. perspectivas e predisposições. como tinha sido o normal até o momento. na qual tem lugar a descoberta do outro.72) Vidich e Lyman (1994). antropologia cognitiva.  Para o pesquisador qualitativo. psicologia ecológica. o modernista ou idade de ouro (1950-1970).  Na pesquisa qualitativa. (. etnografia da comunicação.).. estudos de comunidades e as etnografias sobre os imigrantes americanos. a etnografia colonial. hermenêutica. etnografia educativa.. investigação intensiva. caracterizado pela mudança da pós-modernidade..  Os pesquisadores qualitativos são sensíveis aos efeitos que eles mesmos causam sobre as pessoas que são objeto de seus estudos (. (.  Os pesquisadores qualitativos tratam de compreender as pessoas dentro do marco de referência delas mesmas.72) Denzin e Lincoln (1994) estabelecem cinco períodos na trajetória da pesquisa qualitativa: o tradicional (1900-1950).

4 .248) conceituam a etnografia como uma forma de investigação social que se identifica pelas características a seguir: a. ávido por entender seu mundo de origem.) (p. (.). Uma forte ênfase na exploração da natureza de um fenômeno social concreto. economia. caracterizando-o como o método de investigação pelo que se aprende o modo de vida de uma unidade social concreta. mas também as definições dadas por pessoas.. Sua meta principal é estudar a cultura dos grupos com a intenção de descrevê-la e analisá-la.) Gómez (1999. formas de vida e estrutura social do grupo pesquisado. rituais...78) 2. educação. antes que se possa comprovar hipóteses sobre o mesmo.). grupos ou organizações. (p.. b. (p.53). que retrata todo o conjunto da experiência vivida. por acaso. que. p. política. pretende-se mostrar o depoimento subjetivo de uma pessoa quando são recolhidos tanto os acontecimentos como as valorações que essa pessoa faz de sua própria existência. referimo-nos ao produto do processo de investigação: um escrito etnográfico ou retrato do modo de vida de uma unidade social.As histórias de vida (. mas com profundidade.. (p..44).77) Nessa modalidade etnográfica.. (p. (p. Uma tendência a trabalhar com dados não-estruturados (. sua principal função é retratar experiências vividas. e a história de vida tópica.). Através da etnografia se persegue a descrição ou reconstrução analítica de caráter interpretativo da cultura. os fundamentos estão localizados em certos aspectos da cultura.78) .. c.. d. desenvolveu diversas pesquisas sobre os esforços que fazemos dentro e contra esse mundo. religião. Tem como âmbito o estudo da cultura empírica.. escolhemos a etnografia holística (. Segundo Minayo (1999.. por meio do método biográfico. (p.). sendo expressas por meio de descrições e explicações verbais e adquirindo a análise estatística de um plano secundário. no entendimento da vida humana em todas as sociedades. A pesquisa de um pequeno número de casos.. que trata do estudo etnográfico. Pode ser escrita ou verbalizada e compreende os seguintes tipos: a história de vida completa. Mas também. quiçá um só.76) Outro autor a quem demos especial atenção (. incluindo a organização social. quando começou a pesquisar. sob o conceito de etnografia. padrões de aculturação e comportamentos cerimoniais. que focaliza uma etapa num determinado setor da experiência em questão.76) Atkinson e Hammersley (1994. estrutura familiar. p. p. como educador e pessoa inquieta. o que se materializa numa história de vida (.) foi Peter Woods (1998). Por uma análise de dados que implica a interpretação dos significados e funções das atuações humanas.77) De maneira mais específica..78) (..

79-80) (. (p.) elas permitem obter um retrato completo dos fatos que sequenciam a vida das pessoas...) a história de vida tem variadas denominações entre diferentes estudiosos.. da solicitação para que o narrador faça comentários sobre determinados aspectos de sua vida. (p. Lang (1995) faz a conceituação da história oral como um trabalho de pesquisa que se baseia em fontes orais..82-83) 2. ou ao mesmo tempo como método e técnica (. com a finalidade de obter seus respectivos perfis ao longo do tempo. de maneira que dá prioridade às explicações individuais das ações mais do que aos métodos que filtram e ordenam as respostas em categorias conceituais predeterminadas. Faz uma distinção entre histórias orais de vida. O primeiro resulta do fato de que o narrador faz o relato de sua experiência ao longo do tempo.83-84) . (.2 Procedimentos para a construção do imaginário coletivo (..4.. recolhidas em situação de entrevista..) (.  Registro e transcrição das histórias de vida.80-81) 2. como uma parte constitutiva do método biográfico.. observamos uma por uma as vinte histórias de vida e retiramos fragmentos que tinham relação com os aspectos estabelecidos.). por meio do qual o sentido da experiência humana se revela em relatos pessoais. ou a participação em instituições que se queira estudar.. (p. (. (p...  Captar a visão subjetiva com a qual um mesmo ser vê a si e ao mundo. (p.). apenas como uma técnica para recolher relatos orais..1 Passos utilizados para estruturar as histórias de vida  A etapa inicial. (p. Roteiro da construção das histórias de vida.).. (.) a história oral de vida é considerada como método ou técnica.80) Ruiz (1989) apresenta alguns objetivos que justificam o uso das histórias de vida como um procedimento de pesquisa. de forma que criamos uma visão geral do processo que procuramos legitimar nesse trabalho de pesquisa. desde a infância até o momento presente.  As descobertas em Manaus.. (p. O segundo.. como interpreta sua conduta e a dos demais. procura obter dados informativos e atuais do entrevistado sobre sua vida em determinadas situações..  Captar a ambigüidade e a mudança.. (p..).. como atribui méritos e impugna responsabilidades a si mesmo e aos outros. no tempo e no espaço. e por isso não pode ser mal interpretada...80) (.) em uma ordem lógica.).. relatos orais de vida e relatos orais.  O momento da migração. (.  Descobrir as claves de interpretação de muitos fenômenos sociais de âmbito geral e histórico que só encontram explicação adequada na experiência pessoal dos indivíduos concretos.83) O roteiro é o seguinte:  Como viviam em seu contexto de origem. (. que são:  Captar a totalidade de uma experiência biográfica. a partir de um eixo temático. por sua vez.4. A metodologia de histórias de vida oferece um marco interpretativo.). O terceiro.80) (.

depois de compará-las e contrastá-las..4. (p.). (p.).). (p.).3 O tipo de análise adotado nas histórias de vida 2. Implica também que os dados sejam recolhidos a partir de pontos de vista diferentes e implica realizar comparações múltiplas de um fenômeno único de um grupo -.) Como uma forma de deixar mais evidente a resposta das conjecturas que perseguimos.84) (.)..... nossa intenção foi levar os observadores a perceber as mudanças pelas quais passaram (interpretativo)... utilizando perspectivas diversas e múltiplos procedimentos..86) Kemmis (1992) a define a partir da condição de um controle cruzado entre diferentes fontes de dados (. essa prática também nos vem ajudando a perceber que é possível fazer pesquisa qualitativa na busca de caminhos capazes de conduzir o ser humano a descobrir-se ainda mais na condição de humano..87) Conclusão (.84) Depois das histórias de vida. resolvemos cruzar elementos do método empírico e o interpretativo. e detectando três tipos de triangulação:  A triangulação metodológica (. há uma série de níveis de análises que permitem estabelecer características comuns a essa diversidade de enfoques e tendências. (p. por sua vez.4. (p. (p.4 Validação dos dados por meio a triangulação A triangulação (.88) .  A triangulação temporária de momentos (..85) 2. a define como um procedimento que incide na combinação de metodologias no estudo de um mesmo fenômeno...  A triangulação de informantes e sujeitos (..4.86) Denzin (1979).1 O enfoque da análise das histórias de vida De acordo com Guba e Lincoln (1992) e Ângelo (1995). a triangulação implica reunir uma variedade de dados e métodos para referi-los ao mesmo tema ou problema. primando pelo protagonismo de sua própria história e da história dos seus contextos..). (p. a partir de uma variedade de ângulos ou perspectivas.3.86) Gómez (1999) a define considerando o objeto.86) Elliot (1990) indica que o princípio básico subjacente na idéia de triangulação é o de recolher observações e apreciações de uma situação ou algum aspecto dela. (p. 2. (p.