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CAPÍTULO I

LIQUEFAÇÃO E INCERTEZA

Passados sessenta e cinco anos que O mal-estar na civilização foi
escrito e publicado, a liberdade individual reina soberana: é o valor
pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e a
referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e
resoluções supra-individuais devem ser medidas. Isso não significa,
porém, que os ideais de beleza, pureza e ordem que conduziram os
homens e mulheres em sua viagem de descoberta moderna tenham
sido abandonados, ou tenham perdido um tanto do brilho original.
Agora, todavia, eles devem ser perseguidos - e realizados - através
da espontaneidade, do desejo e do esforço individuais. Em sua
versão presente e pós-moderna, a modernidade parece ter
encontrado a pedra filosofal que Freud repudiou como uma fantasia
ingênua e perniciosa: ela pretende fundir os metais preciosos da
ordem limpa e da limpeza ordeira diretamente a partir do ouro do
humano, do demasiadamente humano reclamo de prazer, de sempre
mais prazer e sempre mais aprazível prazer - um reclamo outrora
desacreditado como base e condenado como autodestrutivo.
(Zygmunt Bauman)

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Capítulo I: Liquefação e incerteza

A problemática de nosso trabalho se refere à questão da angústia e, como
veremos mais à frente, à questão da liberdade. Poderíamos abordar tal temática a partir de
diversos vieses, o que seguramente já vem sendo feito, dada a importância que esse tema
assume dentro do campo da Psicologia. Por questões de afinidade pessoal e por
identificarmos a sua visão privilegiada, escolhemos o pensamento do filósofo Martin
Heidegger para nos ajudar nessa tarefa.
Em Ser e Tempo, fazendo uma analítica da existencialidade humana, Heidegger
inicia a sua investigação a partir do modo como cotidianamente se dá essa
experiência, no âmbito do “todo mundo”, da indeterminação e da não singularidade, o que
ele chama de impessoal. Utilizaremos semelhante método, ou seja, em um primeiro
momento, que se constitui no capítulo que introduzimos, iremos fazer uma breve
descrição do modo como tem se dado cotidianamente a experiência de sofrimento,
mostrando, mesmo que bastante preliminarmente, como a angústia se apresenta nesse
contexto. Compreenderemos, mais a frente, que esses são modos de manifestação
impessoais da angústia, que ganha, na analítica estabelecida por Heidegger, uma dimensão
privilegiada, conforme teremos a oportunidade de descrever.

Civilização, modernidade e mal estar

Em um texto clássico - O mal estar na civilização -, datado de 1930, Sigmund
Freud se propõe a pensar o advento do processo civilizatório. Para Freud a civilização
nasce de um interdito, é fruto da lei, envolve necessariamente a restrição da liberdade.
Ela limita o desejo, a satisfação dos instintos, da vontade pessoal e dá em troca
previsibilidade, segurança, ordem. De certa forma o que caracteriza o nosso tempo é a
inversão dessa equação, ou seja, o contemporâneo é marcado por um progressivo
aumento da liberdade individual com um decréscimo equivalente da segurança e da
previsibilidade. É com essa proposição que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman
(1998) introduz a sua obra O Mal-estar na Pós-modernidade. Utilizaremo-nos dessa
assertiva como um disparador da presente reflexão e para isso precisamos entendê-la
melhor.

muito especialmente. desejo individual para que o interesse que para Bauman é sinônimo de modernidade (processo civilizatório – Freud = coletivo possa ser contemplado. Esses modelos nos dão segurança. busca refletir sobre o advento do processo civilizatório. Para modernidade – Bauman). a figura da lei é uma forma de coibir o sociedade. eles nos permitem saber onde estamos pisando. da criança. uma sociedade não pode existir em um horizonte em que cada um busca unicamente a satisfação de seus desejos e instintos. Tal restrição é consequência natural da interdição do desejo. ele ressalta que a possibilidade de construção de uma isso. Dentro dessa perspectiva serão consideradas mais “civilizadas” as sociedades que são capazes de garantir o cumprimento perfeito dos interditos. A perda da liberdade. sabemos exatamente como nos portar com os nossos filhos. um mundo em que cada coisa tem o seu lugar específico e previamente estabelecido1. se eles forem legitimados por um sistema “democrático” de direito. Adicionalmente. como forma de coibir o interesse individual. . podemos estar seguros de que uma vez empregados e desde que não cometamos nenhum deslize maior. falsas certezas de termos um maior controle sobre o devir. Os casamentos são para a “vida toda”. temos a exata noção do que cabe ou não cabe para um homem. Em seus pressupostos está implícito um modelo de sociedade marcada pela regulamentação. sendo necessária a figura da lei. vem acompanhada de um ganho. teremos o nosso emprego até a aposentadoria.A construção da 17 sociedade como entendemos depende da interdição do Quando Freud. No campo do trabalho. cujo nosso exemplo maior é a cidade de Brasília. deparamo-nos com saberes imutáveis. É impossível pensarmos em modernidade sem termos esses indicadores como elementos basilares de seu projeto constituidor. No plano do comportamento teremos modelos rígidos . nos conferem um território. do que se pode e do que não se pode esperar de uma mulher. muitas vezes. desejo individual. de forma alguma contradiz a nossa proposição. na constituição do processo civilizatório. do professor. Melhor do que isso. com a valorização da experiência. bem como conosco mesmo. da previsibilidade. do papel do homem. de casamento. nos ditam como devemos lidar com os que nos cercam. existe uma necessária restrição da liberdade individual. do aluno etc. Ou seja. no entanto. envolve a necessidade de interdição do interesse individual.de família. uma vez aprendido o nosso ofício não 1 A arquitetura moderna. que é exatamente o aumento da segurança. conforme a entendemos. da mulher. a fim de que o interesse coletivo possa ser contemplado. da ordem. uma ausência de ambivalências. Fica implícito nessa proposição o fato de que. da disciplina. da capacidade de seguir sem maiores questionamentos os princípios das organizações. A regulamentação restringe a liberdade de construirmos nossas próprias modelagens pessoais. mas nos dá.

que já não tendo mais os modelos que os guiavam. também difíceis de serem seguidas. bem como pela presença do interdito. Obviamente. uma ausência de certezas. na mesma medida que ganhamos em . por dois homens. e mesmo aí existe uma enorme diversidade. chama de desencaixe: os portos seguros já não existem mais e foram substituídos por barcos a deriva. antes sólidas. O mesmo raciocínio podemos utilizar para o papel desempenhado pelo homem e pela mulher. mais importante do que a satisfação do desejo pessoal ou do que a ideia e a valorização da liberdade individual. ou pela obediência aos modelos previamente constituídos. a partir daí. A família. 18 precisamos nos preocupar com reciclagens constantes. afinal o que é ser homem e ser mulher? Utilizamos aí apenas um exemplo. O que marca o contemporâneo é uma desconstrução constante. já não pode ser definida apenas a partir de um modelo patriarcal. em que um homem e uma mulher faziam votos “até que a morte os separasse”. mas se desejarmos nos estender em maiores observações. Pode-se dizer que perdemos em segurança. A histeria surge como protótipo da patologia desse tempo. modos de pensar e de agir. sobre a qual Freud gasta grande parte de seu tempo e de suas reflexões. Vivemos aquilo que Bauman. Os antigos modelos rígidos vão sendo progressivamente substituídos por formas mais imprecisas. que determina comportamentos. muitas vezes. por exemplo. sendo. vemos famílias dirigidas por mulheres. por duas mulheres. Assistimos a uma progressiva dissolução das referências. Sofre-se pelo tédio de uma existência linearmente traçada. temos agora mil possibilidades de sermos no mundo. todos os dias vemos territórios anteriormente exclusivos de um dos sexos ser ocupado pelo outro. No lugar dos modelos rígidos do passado. precisam criar suas próprias referências em um mundo sem referências. parafraseando Giddens. no entanto. executar o aprendido. Nesse horizonte o cumprimento dos deveres estabelecidos pelo todo social. sendo impossível a caracterização a partir de modelos uniformes. que esse não é mais o nosso tempo. tendo que fazê-lo por sua própria conta e risco. pois o fundamental é se saber exatamente como se faz e. Hoje podemos falar de variadas formas de uniões familiares. consequentemente. uma indefinição dos modelos. veremos que em praticamente todas as áreas do comportamento humano semelhante movimento pode ser observado. substituídas que são pela permanente transformação. seja através de regras explícitas. difíceis de serem delineadas e. tem papel de grande relevância. a família patriarcal ainda persiste.

no sentido de que elas moldam a realidade. no sistema de consumo. 196) Podemos perceber que. mesmo entre autores que. (DESENCAIXE). como segunrança. Como salienta Foucault (1975): “É preciso parar de sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele „exclui‟. produz domínios de objetos e rituais de verdade”. por enquanto.O Contemporâneo 19 é marcado pela liberdade em detrimento da liberdade. seria possível sim. Isso pode ser visto. (p. ele produz real. Poderíamos nos perguntar. tão ao gosto da sociedade contemporânea. dos banheiros. é muito mais miragem do que fato. para Foucault. a nos ensinar que o poder é muito mais produtor do que interditor. porque o sistema não entra em colapso. assim como em atos aparentemente simples e despretensiosos. a constituição de uma realidade através das chamadas práticas do poder. a fim de abordá-lo com maior profundidade. ele „censura‟. por exemplo. pensar em uma sociedade organizada. são entusiastas e crentes nessa liberdade contemporânea. Estaria Freud redondamente enganado em suas asseverações? Ao contrário de suas afirmações. Esse ponto nos parece ser consenso. Se Freud ressalta o papel da lei. através dos ricos insights que teve. Foucault. entretanto cabe-nos afirmar que a noção de uma liberdade irremissível. ele „mascara‟. ele „abstrai‟. as instrumentalizações de poder agem muito mais fortemente produzindo. De fato. ele „reprime‟. onde cada um agisse em conformidade com o seu desejo? Estaríamos enfim livres de todas as sujeições? Teremos que voltar a esse ponto mais a frente. detentores desse grande bem que é nossa liberdade. da proibição. foi um daqueles e. entre feminino e masculino. A liberdade individual passa a ser o grande bem a ser defendido. nos chama a atenção para a produção do real. Essa reflexão nos auxilia a compreender como os processos de assujeitamento foram progressivamente se . estabelecendo processos de assujeitamento. Nenhum comportamento. Passamos a nos perceber como construtores do nosso próprio destino. Todos têm o direito de fazer aquilo que desejam. já nas escolas. do que através das interdições. que cria modos de pensar e agir. os desejos e a própria subjetividade. o poder produz. como a separação. ele „esconde‟. nenhum modo de pensar pode ser imposto ou deve ser previamente estabelecido. que contribui na formação das identidades de gênero. Foucault no conjunto de sua obra. Lipovetsky (2005). no entanto. todos devem ter a “liberdade” para tanto. ele „recalca‟. que nos permite escolher tudo que desejarmos. talvez o mais importante deles.

ao menos da mesma forma. não implica em dizer que não existam mais modelagens. próprios. de forma que os desejos historicamente constituídos. necessita estar presente: a incerteza. grande diferença. é que não há mais imposição. a preocupação com a beleza ou a juventude. singulares. ou seja. além da constituição e internalização dos desejos. subjetividade e que o faz como um exercício de sua liberdade individual. até mesmo em função dessa ilusão da liberdade individual. 20 Focault diz que o poder é muito mais produtor sofisticando. sua singularidade. ao contrário. modos de como pessoais. ela toma esse anseio por ser magra. nos acreditamos livres. ao contrário. algo próprio e pessoal. somos compelidos a nos comportar de mil maneiras. e esse nos parece o ponto que precisamos pensar. em estar sempre magra. que lhe determina que assim deve ser. ele é capaz de mudar associado ao completo desconhecimento desse processo. a mídia etc. de nossa interioridade. ou seja. como um ato característico de individualidade . por moldar o seu corpo. Essa internalização do desejo. Uma pessoa que vive preocupada com a forma física. constituídos são nos dias que vivemos eles não existem mais. De modo idêntico. dificilmente serão associados às modelagens que os constituem. em permanecer com o corpo perfeito. . toma esse desejo como fruto de sua interioridade. do que interditor. e os significados do que são beleza e juventude. ele não o faz porque a isso se sente obrigado. simplesmente. no entanto. acreditando desejos. individualizado. para que os indivíduos possam manter-se ajustados em seu ideário. em um movimento totalmente impessoal. próprios e se comportar e de ser que ganham o escopo de privilegiados ou hegemônicos. Essa internalizados tomando-se afirmação. ou são tomados como pessoais. de casamento etc. A singulares. existiam modelos definidos de família. aos artistas. ou ao agir. ele. Dessa forma. com um desejo pessoal. O indivíduo. Para que todo esse processo se mova. um outro elemento. não o faz por instrumento de imposição. cria-se modos de pensar e O que estamos afirmando é que as interdições deixam de ser necessárias. a medida que as modelagens processos de assujeitamento. faz com que cada um aja nossa realidade. como um Esse assujeitamento exercício da liberdade individual. exatamente como “deve” agir. que é uma das marcas de nosso tempo. passam a ser internalizadas e vividas como uma experiência individualizada. se sofisticou de maneira que os Vamos tentar deixar esse ponto mais claro: no passado. como já afirmamos desejos historicamente anteriormente. mas não percebemos que. só que tomando essas maneiras como produtos de nossos desejos. de trabalho. quer ter o corpo que se assemelhe ao da figura idealizada. de nossa subjetividade. gerando menos tornam-se menos necessárias do que no passado. são internalizados. seja. ao contrário. no entanto.

muitos pontos de interrogação. pais. mas somente possibilidades. de ser trocado. é importante acima de tudo se preocupar com ela. que precisa escolher. definir caminhos. ter um bom papo. como estar certo ou seguro de que os meus investimentos afetivos serão recompensados? Como garantir a presença do parceiro amoroso? Já não se pode mais estar tranquilo com as “gordurinhas” a mais. quando dissemos que a desconstrução dos modelos rígidos acaba por se traduzir em uma dissolução dos portos seguros. ele não tem um objeto claro. Torna-se necessário satisfazê-la sexualmente. E como ser um bom pai ou uma boa mãe? Quais são os critérios em um mundo sem modelos? Como estar seguro da educação que estamos dando? Como era mais fácil no tempo em que bastava mandar e ser obedecido. poucas conclusões. ou se eles seriam ou não felizes. manter-se como alguém sedutor. fazer opções. as perguntas também são inúmeras e a ausência de respostas seguras ainda maiores. francês. sondar as suas aspirações e vontades. E isso tudo dentro de um contexto em que não há caminhos definidos. alemão. O temor nos cerca. ter o corpo “sarado”. ser viril e ao mesmo tempo educado. traçar horizontes. Como era mais tranquilo quando a felicidade dos filhos dependia deles. Mas seguir para onde? E se eu não estiver fazendo o suficiente? E se outro vier e tomar o meu lugar? A incerteza persiste. Da mesma maneira. Em relação ao trabalho. Afinal como ter garantias de que estou no caminho certo? De que terei “sucesso”? E mais. a necessidade de aperfeiçoamento constante. esse temor que não tem um . hoje talvez isso não baste. é preciso um outro idioma. os homens não podem contar com a presença de uma esposa submissa e livre de desejos. que não sejam o de agradá-los. filhos. Se o casamento não é mais para “a vida toda”. ele se anuncia frente ao mundo de possibilidades que se abrem para mim. Fenomenologicamente. quando não havia nenhuma preocupação psicológica: se os filhos iriam “ficar traumatizados”. Ontem era necessário saber o inglês. quem sabe. à medida em que me tomo e me percebo como alguém livre. Mas parece que esse temor não é de algo específico. e não de nós. espanhol. O fato é que não se pode estar parado. substituído. diversos os caminhos. as habilidades valorizáveis pelo mercado em constante mutação. o movimento é imperioso. 21 A presença da incerteza: a manutenção do movimento Esse ponto já foi abordado anteriormente. em um tempo bem próximo. é preciso ter o corpo em forma. o mandarim? Múltiplas são as possibilidades. sob pena de perdê-la. o que é o sucesso? Os lugares são fluidos.

Para os modernos talvez o grande desafio fosse o de lidar com o tédio. deve economizar tempo e otimizar resultados. Uma das grandes mudanças instauradas em nossa época refere-se a nossa relação com o tempo. de agilidade. o que faz com que alguns se considerem entediados. buscaremos exatamente uma circunscrição maior dos conceitos. Mantemo-nos. termos tido tão pouco tempo para usufrui-los. o aprisionamento das interdições. traduz-se por uma premência. 22 objeto definido. é feito para não durar. a medida que mantém todos em movimento. a angústia surge como o grande incômodo. tencionamos mostrar como essa sensação acaba servindo ao próprio sistema que a constitui. de um “ainda não”. Para que esse movimento se dê são estabelecidos. em função da falta de velocidade. que é sempre desvelado como um lugar provisório e por isso perfeitamente substituível. nos diálogos. que se apresenta no confronto com as possibilidades que se abrem. ágil. Temos velocidade nos transportes.e ela. reciclagens. um padrão estético diverso. progressivamente. para que não paremos. recebe um nome . observamos nas cenas. pelo receio de perderem o lugar em que se encontram. nunca foi tão frequente. Da mesma forma. com a escusa de deles nos servirmos para facilitar as nossas existências. um certo bucolismo. Tudo precisa ser rápido. entretanto. uma pressão internalizada para que nos mantenhamos em movimento. a ponto de vivermos o paradoxo de termos criado mil recursos tecnológicos. de não conseguir “dar conta” de todas as coisas. essa sensação de provisoriedade. uma ausência de pressa. e nunca. na expressão de Heidegger (1989). necessidades. no território da . saberes. velocidade nas comunicações. A “mudança” constante e a produção de novas e variadas necessidades parecem ser o pano de fundo de todo o processo. Diríamos que a experiência subjetiva contemporânea. a queixa de “falta” de tempo. A vida vai. Tudo. se complexificando. a angústia. Mesmo em épocas muito recentes. As imagens do passado nos sugerem uma certa lentidão. de uma premência constante. Vale salientar que nos utilizamos do termo angústia aqui de um modo ainda um tanto quanto livre. por exemplo. Em nosso próximo capítulo. anuncia-se como nosso mal estar. dos brinquedos aos eletrodomésticos. enquanto sociedade. quando analisamos o cinema. o que nos importa nesse momento é traduzirmos essa inquietação. a todo o instante. Para nós que nos enxergamos como livres. a monotonia dos caminhos definidos.angústia . que invade a experiência contemporânea. que claramente se perderam. temos utensílios que nos dispensam de uma série de esforços físicos.

a angústia mantém-se presente e alimenta o movimento. O sentir-se atendendo a todas essas demandas. impondo aos seus filhos novas necessidades e domínio de habilidades. Esse movimento não se restringe a um grupo específico. a angústia. Na verdade. ele atinge todo o globo e todas as classes sociais. de não estar entre os incluídos. O receio de fracassar. um modo de neutralização da angústia. vão. por outro lado. uma determinação do impessoal. mantendo. Envolvidas em uma série de tarefas extracurriculares. Surgem patologias infantis. o movimento. preparar-nos mais. exatamente em função desse fato. cada vez mais. demonstram de outras formas. não raro elas se queixam. os alcançarão aqueles que foram mais bem preparados para esse sistema competitivo. Em realidade corremos. com isso. em que a busca do novo. progressivamente. continuamente novas necessidades e premências são criadas. É importante ressaltar que a premência e o movimento não são vistos. em geral. As crianças. a medida em que somos preparados para sermos “vitoriosos”. Internaliza-se e habitua-se com a velocidade. já que os louros dessa busca serão sempre para muito poucos e. mais pressa. Mais uma vez o medo e a angústia mantém a necessidade de não parar. existe para a perpetuação da imobilidade. e porque não conseguem vislumbrar alternativas que não sejam a da adequação ao sistema. vivendo em um mundo extremamente competitivo. Entretanto. porém o processo não para aí. alivia. não leva a nenhum lugar específico. trabalhar mais e cada vez “melhor”. de sofrer as penalidades da segregação. Criam-se necessidades. como um problema. como o estresse. não estar conseguindo suportar toda a pressão a que estão sendo submetidas. estudar mais. ou mesmo que não o façam. O processo de internalização da pressa. que anteriormente eram exclusivas do mundo dos adultos. tendo que atender a inúmeras demandas. ao menos por algum tempo. como ratinhos andando em círculos. um cansaço. da busca de eficiência e de resultados ocorre cada vez mais precocemente. mantemo-nos em velocidade com receio de sermos ultrapassados. desde muito cedo já se veem engolfadas nessa dinâmica. a pressa. atenua o medo. a impossibilidade de . 23 curiosidade. Foi-se o tempo em que elas tinham tempo de sobra para fazer atividades que nos acostumamos a ver como próprias da infância. que fazem com que tenhamos que correr mais. no entanto. ela existe unicamente para manter o próprio sistema. faz com que não possamos parar. para não estarmos entre as excluídos. resultando em mais angústia. Os pais de classe média e alta sabem bem disso e. normalmente. eles só são encarados desta forma quando a pressão se torna tão forte que há algo como uma implosão. Obviamente que de forma diferente.

uma viagem cheia de surpresas. fica muito clara. entretanto. é nunca estar em repouso. que nos distanciam de questões existenciais que poderiam tirar o sono como: a possibilidade da morte. acaba por constituir-se em uma busca de propósito e preenchimento do vazio de sentido. que nos apontam para o limite. “conhece” o mundo. por uma luta para aliviar a angústia e neutralizar o medo. Um campo em que todo esse movimento. que só se desfaz quando nos deparamos com algo como um fracasso. uma intempérie. Há uma sensação presente de preenchimento. marcando indistintamente a nossa experiência subjetiva. ele visita o museu do Louvre e presencia uma guerra. é sentir-se vivo. De link em link. as falências afetivas etc. De posse do controle remoto. de certo modo. essa impossibilidade de parar é grande produtora de sentido. o homem moderno exerce o seu poder. Estão aí a internet. uma doença. essa pressa internalizada. quando estamos fisicamente parados. o tempo é o da informação. que nos abre uma janela para mundos e culturas os mais variados. de canal em canal. é na relação com o consumo. imperiosidades. o envelhecimento. Na experiência cotidiana. Esse movimento. a luta por procurar uma posição de destaque. a não ser que o repouso seja o lazer. O importante é estar em movimento. a sacralização subjetiva. ultrapassamos barreiras. como vimos. emoções. Do mesmo modo. move-se. que nos permite cruzar espaços em uma velocidade absolutamente impensável no passado. fortemente tranquilizador. e a televisão. já que confere urgências. A linguagem há muito já não é mais a da narrativa. “forma” opiniões. viaja. que. para a impossibilidade de sermos os “deuses” do projeto pós-moderno. a descartabilidade de ideias que nos impõe um novo constante. O ter sempre um algo a fazer. necessidades. não se dá unicamente quando estamos em mobilidade. escolhe. o estar movido por mil objetivos e projetos é. muitas vezes. a ausência de sentidos metafísicos para a existência. em que o que menos se espera é o repouso de fato. movemo-nos velozmente. . prazeres. o sentir-se diferenciado e especial. 24 corresponder a esses e a todos os outros anseios que recaem sobre o sujeito. Agilmente ele vai de Paris a Tóquio. ao contrário. ele se faz. de propósito. é altamente sedutor.

não tem nenhum sentido. um ponto de chegada. mas como assinala Bauman. enxergarmo-nos como consumidores. através do acesso a um determinado bem. mas que são sugeridos e introjetados como “necessários”. mais “moderno”. o pelo que trabalhar mais e mais. trazer prazeres e satisfações nunca antes pensadas. julgando que a aquisição propiciará “satisfação”. como em uma miragem. O consumidor quer o próprio desejo. mantendo a estrutura produtiva. A própria riqueza apresenta-se de forma diversa: enquanto para os produtores o valor estava no acúmulo puro e simples. Surge um sentimento de insuficiência. confere propósito. O desejo. Em realidade o sistema produtivo alimenta-se da insatisfação. Também o consumidor não quer a neutralização de seu desejo. 25 Somos todos consumidores Ser consumidor é estar em movimento. ele aspira ter urgências e necessidades. as pretensas necessidades. quer viver emoções novas. um ainda não. ele alimenta-se e move-se por ele. Entretanto. que distingam aqueles que podem consumir dos que não podem. O consumidor ideal vive em busca. mas não somente por parte dela. ocorre por um período curto. é manter-se no campo do desejo. no entanto. Portanto a satisfação é tudo que não se quer por parte da estrutura de consumo. de insatisfação. do que nos pensarmos enquanto consumidores. da espera por um algo novo. muito provavelmente. algo que venha surpreender os sentidos. jamais serão utilizados. ele sugere que. em pouco tempo será lançado um outro produto. não existe e não interessa a ninguém. teoricamente. de fato. distinguindo-a da que nos precedeu . Esse estado. com “botões” e controles que. a diferença está na ênfase. no fato de que já não podemos pensar em nós mesmos sem. conseguiremos um estado de espírito em que a necessidade será neutralizada. Obviamente o homem sempre consumiu. um objetivo a ser alcançado. é viver sempre uma inquietação. Isso.uma sociedade de produtores. ele quer ser “surpreendido”. o conceito de satisfação é absolutamente falacioso. Sabiamente. a satisfação. Bauman (1999) classifica a nossa sociedade como uma sociedade de consumo. experimentar . Talvez. o ter o que comprar. Compra-se. de alguma forma. por exemplo. é grande produtor de sentido. que. na mesma medida em que nos promete a satisfação. ao contrário. entretanto. Há sempre assinalado. traria o apaziguamento dos sentidos. um carro novo ou um eletrodoméstico. que gera o desejo de novamente consumir. nada caracterize tão fortemente a experiência subjetiva do contemporâneo. na sociedade de consumo o acúmulo sem a ostentação de símbolos e marcas.

não é sinônimo de mal-estar. Eles irão falar de subjetividades extremamente angustiadas. Já os que estão na posição dos excluídos. também são interpelados no sentido de se enxergarem enquanto consumidores. (p. fazendo e sendo o que devem ser. isso acaba por lhes garantir a segurança de estarem no lugar certo. Provocados que somos todos nós a nos compreendermos enquanto consumidores. Os que estão entre estes “eleitos” vivem dois movimentos distintos: por um lado. Bauman. tem realmente condições de sê-lo. não encontrar ou. necessariamente. o simples desejo do consumo não se traduz. O homem-consumidor estabelece com a vida uma relação absolutamente estética. já que o esforço. de estarem inseridos nesse contexto em que o valor pessoal é determinado pela possibilidade ou não de consumir. de serem destituídos da condição especial em que acreditam se encontrar.os turistas e os vagabundos . Como afirma Bauman (1999): “Para os consumidores da sociedade de consumo. Seu tipo de viagem esperançosa faz da chegada uma maldição”. enquanto existem premências e lugares a serem conquistados. uma modelagem a ser desejada por todos. Pensando essa questão. mas promessa de bem aventurança. em que a descartabilidade e o prazer. tem papel central. os sentidos surgem como óbvios. vivem o desejo de fazê-lo. seja ela real . 26 sensações variadas. em uma possibilidade real. sinaliza-nos que nos movemos divididos. um sujeito volátil. como é absolutamente óbvio. precisam apresentar o seu modo de vida como ideal. colecionador de sensações. colocado em questão. buscar. o foco. mais precisamente não encontrar ainda . somente uma parcela restrita do grupo social. estar em movimento . de se tornarem um como todo mundo. Veremos no “turista”. Bauman descreve dois modos de subjetivação do contemporâneo . habitualmente. mas não o podem. em última análise. ou seja.91) Enquanto o movimento se mantém. é dirigido para a possibilidade de se colocarem na posição de incluídos. o que não os impede de aspirar tais condições. bem como pelo acesso ou não ao consumo. que só não é maior porque o sistema não é. Por outro lado. como a própria manutenção do sistema. talvez a própria bem-aventurança. Naturalmente. que é o personagem perfeitamente integrado à lógica do consumo das proposições neo-liberais.que se diferenciam em função do grau de mobilidade. vivem a angústia de perderem esse lugar. no entanto. que se estabelece aí uma tensão.procurar. que tem na possibilidade de mobilidade. muito embora eles se traduzam.

que nada mais é do que o sujeito contemporâneo globalizado. Podemos observar no “turista” . que estando dentro de uma mesma construção social. esta esperança. Sinteticamente. na qual ele é apenas uma pequena peça. quanto ao futuro. De forma diversa do homem típico da modernidade e do capitalismo em suas fases iniciais. é por demais aterrorizante. De outro gênero de angústia padecem os “vagabundos”. como cantos da sereia. 27 ou virtual. com a diferença de que a eles é negada toda possibilidade. aos valores e às verdades. conforme já explicitamos anteriormente. não que a sua vida seja assim tão maravilhosa. a angústia do “vagabundo” é pela possibilidade de não poder e pela fantasia que é criada frente aos que podem. se dá pelo receio sempre constante. que é continuamente fortalecido pelas “verdades” difundidas pela nova estrutura social globalizada. que tinha como norma o adiamento do prazer e a constituição de uma existência ascética. de tornar-se um “vagabundo” e não poder mais usufruir de todos os benefícios que a vida de “turista” lhe traz. pelo menos da busca.tornar-se um “vagabundo” . vive sob permanente angústia: sua fonte mais óbvia. envolvem o nosso personagem contemporâneo. ajustado à ética do trabalho descrita por Weber. tanto em relação à integridade física. Busca-se o consumo para aliviar a angústia. mas a presença constante do “vagabundo” está sempre a lhe lembrar que a única alternativa possível . se não de satisfação. O “turista” serve com perfeição a uma grande engrenagem. onde passado e futuro não são mais importantes. um grande bem. O que observamos são sujeitos tonteados frente às possibilidades de consumo. suas . ao mesmo tempo que mais angústia precisa ser produzida e instrumentalizada para manter de pé a máquina produtiva. iludido por uma noção de valor. de ter garantido o seu direito de consumidor e todas as outras máximas que. confrontado com todas as incertezas do nosso tempo. ao mesmo tempo. já explicitamos anteriormente. inebriados pelas novas e variadas sensações. o que o “turista” pretende é eternizar o instante e usufruir o máximo de sensações que ele puder trazer. Estes revestem sua vida de uma aura tão brilhante. muitas vezes de sua própria existência. Vive sob a égide de um eterno presente.a busca do consumo como forma de escape do desconforto gerado pela angústia. alimentando-se de idêntica produção de valores. esperançosos por uma realização que jamais virá e ao mesmo tempo tendo como sentido. É necessário que se conserve a incerteza e a insegurança. de liberdade de escolha.(ou a única alternativa que ele consegue enxergar como possível). os anseios dos “vagabundos” não são assim tão diversos dos “turistas”. por que esta ninguém parece ter. angustiado frente à impermanência e à fragmentação . de vir a perder o seu espaço.

como já salientamos anteriormente. Já agora na sociedade de consumo. sua vida e suas conquistas. que poderíamos considerar desmedidas. dessa constante busca pelo novo e o consequente movimento em que estamos inseridos. sendo convertido em hábito - mudar passa a ser a regra primeira a ser seguida. afinal ele parece ser a única garantia contra todas as incertezas. parecem sempre opacas quando comparadas às daqueles. a fluidez que caracteriza a experiência contemporânea. qual o papel da angústia nesse contexto? Angústia e incerteza: instrumentos de movimento ou de imobilidade? Quando comparamos a modernidade com a chamada pós-modernidade. o progresso precisa continuar. dos utensílios. ela é o que permite que as coisas prossigam do mesmo modo. em verdade elas continuam a atravessar os anseios pós-modernos. a tal ponto que. Cabe-nos pensar. XII e XIII) O novo perde o seu poder de estranhamento. uma ausência de certezas e de convites constantes a uma busca permanente . “modernidade líquida”2. a capacidade de disposição e de planejamento os tornará cada vez menos „novos‟. Este processo se dá. a cultura é a da urgência .” (Vattimo. com a excelência. mais do que isso. ou como Bauman (2000) posteriormente passou a nomear. enquanto novos resultados sempre se tornarão alcançáveis. pp. 28 existências surgem como tão perfeitas e felizes que toda produção do “vagabundo”. para que as coisas permaneçam no mesmo lugar. no entanto. uma ampliação das possibilidades apresentadas. para que nada mude. Por outro lado. mas sim de uma transição que talvez seja mais aparente do que real. através de um apelo constante à “liberdade individual”. mesmo que sob a roupagem da transformação.se estabelece uma necessidade de aprimoramento contínuo e uma preocupação. Forma-se um 2 O termo modernidade líquida expressa bem. . ou melhor. a nosso ver. a novidade nada tem de „revolucionário‟ e perturbador. Não estamos tratando de uma ruptura. contrapondo-se a “solidez” das épocas passadas. a contínua renovação (das roupas. não podemos afirmar que as velhas expectativas modernas foram definitivamente afastadas. e continuam intensificando-se. utilizar-se dela. 1996. dos edifícios) é fisiologicamente requerida para a pura e simples sobrevivência do sistema. precisa-se fabricar a angústia. qual o sentido de toda essa “mudança”.não se pode estagnar. Até que ponto mudar tudo o tempo todo não é uma nova maneira de não mudar nada de fato? A esse respeito Arnold Gehlen (conforme citado por Gianni Vattimo) escreve: “as capacidades humanas de dispor tecnicamente da natureza se intensificaram.

ou seja. hoje é convocado à “reciclagem constante”. o que não se tematiza é a própria necessidade de manutenção desse sistema e a urgência de nos ajustarmos a ele. mas também por um apelo ao consumo como forma de realização pessoal. para se manter entre aqueles que têm a possibilidade de escolher (que na sociedade pós-moderna são os que consomem) é preciso permanecer sempre atento. elas apenas se sofisticaram.” (p. pensa esta questão em relação ao gerenciamento empresarial no que ela chama de “paradoxo do progresso permanente” - as empresas se veem na necessidade de um constante progresso sob pena de não terem mais um espaço no mercado. ou mesmo modernidade tardia (Giddens). instrumentos de manutenção da imobilidade. conduzirá a morte também : “Se nós não acelerarmos. andar mais e mais rápido acabará por se tornar destrutivo. aguardando nele manter-se até a aposentadoria. são mais . pois não há qualquer garantia. Já não é mais possível parar. Aquele que antes com um título universitário sentia-se seguro em um emprego “estável”. que por sua vez. 29 círculo vicioso em que a abertura às possibilidades (tanto as possibilidades de êxito quanto as de fracasso) produz angústia. A simples escolha de um objeto de consumo torna-se angustiante. ganharam uma cunhagem diferente. Muito embora deparemo-nos na chamada pós-modernidade. não só pelo medo constante de perder o espaço alcançado. são os convites à liberdade e às possibilidades. Parece não haver alternativas. morrem. é mais angústia. porém. à “qualidade total”. Nicole Aubert (1999). se não progredirem. Em realidade. à não-imobilidade. a busca sem tréguas pela excelência . morremos também. já que inúmeros são os artigos e variadas as formas de aquisição. Entretanto. a imperiosidade do progresso exige mais e mais rapidez por parte delas. naquilo que fundamentalmente caracteriza os projetos de homem e de sociedade modernos e pós- modernos. Elas estão convencidas de que. como forma de buscar alguma segurança frente à incerteza. ou modernidade líquida. Nos dias atuais. por outro lado. em essência. morremos. com um convite constante a fragmentação e a mudança. não somos assim tão diferentes. na era da fragmentação e do questionamento de todas as verdades. da mudança e é a angústia o combustível que mantém este sistema funcionando. Surge a necessidade imperiosa do constante aprimoramento. mantém a necessidade de não parar. uma verdade reina soberana: o “progresso” é necessário e inexorável.96) O que não se coloca em questão. as pretensões são muito semelhantes. que vem travestida do novo. O resultado que temos. mas se aceleramos mais. ajuste-se a ele ou perecerá.

reificam-se. aprimoramento em determinados pontos. pronta pra ser substituída quando necessário. o que nos dá a ideia de estarmos lidando com algo sempre novo. esvaziando sua multiplicidade de formas e conexões. répteis. mas não um outro caminho. uma dificuldade particular. bem como a dificuldade de questionamento destes. só fortalece tal proposição. colocarei em questão o próprio sistema. o público e o privado se dicotomizam em antagônicos espaços. A partir daí. tenderei a ver o problema como meu. uma outra forma que divirja essencialmente da que existe. Existem algumas miragens que tornam esse processo possível. destituí-la da história das práticas humanas. quando estamos nele inseridos. perceber que não estamos “dando conta”. a despeito das modificações estabelecidas em sua aparência. pode-se até aventar suavizações no sistema. essencialmente. Como répteis. por exemplo. Dificilmente. na mesma medida que o desejo é internalizado. primeiro não há outras alternativas. Ou seja. que me dispõe como uma peça de uma grande engrenagem. a serem. conforme já explicitado anteriormente. outros são vitoriosos. modificações pontuais. Talvez uma das mais fortes entre essas miragens seja exatamente a noção de um progresso permanente. O movimento e a necessidade constante de “mudanças”. Podemos. Do ponto de vista econômico e político. que muito embora tenham um grande poder de adaptação e de mudança. como Baptista (1999). e um eficaz aprisionamento efetua-se em lugares universalmente chamados de interiores. nesse momento cabe-nos aprofundá-lo um pouco mais. Esse processo de culpabilização é filho dileto do movimento de intimização. se eu não consigo. Todo o sistema em que vivemos é baseado na noção difundida. Progresso: miragem ou possibilidade? Já tocamos nesse ponto anteriormente. o fracasso também o será. Interiores que se expressam em solitários e herméticos inconscientes ou personalidades. nos chamam a atenção: “Intimizar a vida quer dizer colocá-la para dentro. tem maior mobilidade e poder de escapar a apreensão. a que muitos autores. já que outros conseguem. que é difícil atender a todas as demandas. acabou por dar ainda maiores fundamentos para os defensores e formuladores dessas proposições. explícita ou implicitamente. o colapso das economias ditas socialistas. mas. continuam. . que mantém todos a ele assujeitados. normalmente. outros podem. de que. 30 fluidas.

de que será uma questão de tempo. a medida em que nos fornecem como alternativa. poderíamos pensar nesse refugo como toda a massa de excluídos. Em verdade todo o sistema. a incerteza. Mas. as verdades aceitas. simplesmente. o sucesso e todos os demais ícones que passam a ser os valores maiores a serem alcançados por nossos contemporâneos. não se deseja que haja tal inclusão. e não nos referimos aqui meramente ao sistema econômico. quanto comparados à pobreza. Essa talvez seja uma das maiores falácias. A intimização e a culpabilização. pois bem. Sendo o sistema essencialmente baseado na exclusão. . que é exatamente tudo aquilo que não têm condições de enquadrar-se em seu modelo organizador. acabam por se constituir em fortes elementos imobilizadores. Além da máxima de que não há alternativas. Do ponto de vista subjetivo. não há lugar para todos e nem se deseja que haja. A riqueza. a beleza. ao fracasso etc. somente tem sentido. 34). (p. o refugo poderia ser evidenciado na figura daqueles que não conseguem se adequar as demandas do sistema. na produção de refugo. não suportam a angústia. até que todos estejam nele inseridos. no fundo. que é o que mais fortemente nos interessa no momento. do sistema em que vivemos. todo esse sistema baseia-se exatamente na exclusão. a pressa e acabam por se verem “doentes”. associadas à internalização dos desejos e a noção de um progresso permanente. porque é economicamente inviável imaginarmos que poderemos difundir os níveis atuais de consumo e de utilização dos recursos naturais dos chamados “incluídos”. personificados anteriormente pelos “vagabundos”. qual seja a ideia de que o progresso é inclusivo. mas sim na separação e destaque frente aos que nos cercam. unicamente. um assujeitamento mais perfeito ou mais bem sucedido aos sistema de coisas a que estamos vinculados. à feiura. Do ponto de vista econômico. Não há lugar para todos. se não for a maior. para o conjunto da população. a noção do progresso baseia-se em um outro elemento basilar. mas mais do que isso ao conjunto de valores e sentidos. ao modo enfim como a realidade é desvelada aos nossos olhos. pois o sistema é baseado em uma visão individualizante do homem em que a sua satisfação e felicidade serão baseadas não na comunhão. O progresso jamais será para todos porque. 31 tornando a vida privada uma conquista individual à margem da história. ele está sempre a produzir um refugo. ao mesmo tempo.

então pelo menos foram consideravelmente enfraquecidas. no conjunto social. cumpre-nos evidenciar como a ideia de um progresso permanente. onde o “si mesmo” é reificado. ele fala de uma perda das chamadas “redes de segurança”. Quando esse se faz muito evidente. Além da desregulamentação. por exemplo. p. isolado na necessidade de dar conta de suas angústias e seus anseios. a culpabilização. não prometem a concessão nem a aquisição de direitos e obrigações. ele acaba por ser neutralizado ou enfraquecido através da internalização da responsabilidade.. que acaba por destruir. A pragmática em mudança das relações interpessoais (. 1998. que é progressivamente substituída pela “interioridade”. em que o problema passa a ser pessoal.). os modelos rígidos do passado. esconde em seu bojo.). . ou seja. Vai ficando claro que todo esse processo só se faz possível a partir de uma visão muito particular do homem.. 35). O individualismo como marca do nosso tempo Muitos autores têm chamado à atenção para essa característica do contemporâneo. um fracasso e uma fraqueza daquele que o vive. 32 Voltaremos a essa questão em um momento posterior. na polis. Vejamos como ele trata do assunto: “As outras redes de segurança. como já salientamos. o fato de estarmos cada vez mais deixando de buscar os nossos sentidos e as soluções de nossos problemas.” (Bauman. Os laços que ela gera. acompanhada da noção de que estamos em um caminho óbvio e sem alternativas. dispondo do outro como a fonte potencial de experiência agradável (. reflete sobre alguns movimentos que contribuem para a perpetuação do clima reinante. têm cláusulas embutidas até segunda ordem e passíveis de retirada unilateral. pelos territórios individualizantes. exatamente a figura da ambivalência e do refugo. onde uma pessoa podia retirar-se para curar as contusões deixadas pelas escaramuças do local de trabalho . Gostaríamos de ressaltar dois elementos que surgem da citação de Bauman: por um lado aquilo que estamos chamando de individualismo. quando se propõe a pensar a incerteza em que vivemos...se elas não se desintegraram. um homem apartado do conjunto social. Bauman. a fim de se legitimarem. agora permeada pelo dominante espírito do consumismo e. essa segunda linha de trincheiras outrora oferecida pela vizinhança ou pela família. desse modo. em profusão. por ora. ou seja. tecidas e sustentadas pessoalmente.

de levarmos as nossas experiências de espanto e estranheza para o campo coletivo. Para pensar a questão.” O autor estabelece alguns questionamentos e busca respondê-los. trazendo em seu escopo as contradições que lhe são próprias. que envolvida e determinada a sepultar o corpo de seu irmão Polinices. uma “coisa” que devia ser desvinculada da imagem idealizada do irmão. desse modo.. heroína grega de Sófocles. De qualquer maneira. leva-o para o campo da polis.)” (Silva. e é importante que . numa “(.) nostalgia de um passado que nunca existiu (. o de mostrar que cada época. do romance de Kafka “A Metamoforse”. Essa figura é contrastada com a de Antígona. fora convertido em “isso”. mesmo entre autores que são mais entusiastas do tempo presente.. O nosso objetivo é. ao contrário. tornando a sua inquietação algo coletivo. de tentar manter entre as paredes do “lar” o incômodo capaz de trazer vergonha. Enquanto Igor ia sendo progressivamente metamorfoseado em barata. irmã de Igor. Baptista se utiliza das reflexões do filósofo tcheco Karel Kosik. como Lipovestky (2004) a sinalização da presença da incerteza e da angústia como elementos significativos de nossa era.. A pergunta central parece ser o porquê de estarmos perdendo progressivamente a capacidade de insurgência. cada articulação histórica tem os seus modos de experimentação do real. que vê como figura emblemática do nosso tempo Grete Samsa. Não se trata aqui de tiranizar o presente e glamourizar os períodos que nos antecederam. não reduz o problema a uma questão do privado. Igor já não era mais o seu irmão. Ao mesmo tempo. já não devia ser considerado como tal. em uma verdadeira marca de nosso tempo. O individualismo constituiu-se. para o território da luta e do combate. ao contrário deste. no decorrer do seu trabalho. podemos observar. 33 Baptista (2000) tem um texto muito interessante sobre essa questão intitulado “Sujeitos e subjetividade na contemporaneidade: reflexões sobre o anestesiante espetáculo da diferença. que poderão se traduzir por modos diversos de estar “doente”. enfrentando as determinações do poder. o esforço de Samsa era feito no sentido de esconder. 2005). ela buscava o esquecimento. Essa incerteza..

mostrando a . à medida que o individualismo progride. frente ao espaço social. Vive-se uma hipervalorização da experiência do psicológico. pela aquisição de recursos limitados. Vendo a mim mesmo como alguém essencialmente desvinculado do todo coletivo. assim como também em Baptista. surge mais uma vez a incerteza. acabo por perceber o outro ou como um aliado circunstancial. que estão circunstancialmente envolvidos em um todo social. a busca da “intimidade” entre os íntimos. sendo percebidas como experiências de prazer. em função do medo natural que a entrega produz. tendo sentido enquanto me “dão prazer”. O inventário pessoal. que surge da citação que anteriormente fizemos de Bauman. ou me são úteis de alguma forma. como forma de resgatar a segurança e. tendo necessidade de competir e lutar por um lugar. surge exatamente em um tempo em que a dimensão coletiva é desvalorizada em favor de uma compreensão do homem enquanto uma individualidade apartada do mundo. agora interpretado como indomável e perigoso. sinalizando para a liquefação e impermanência que caracteriza as relações contemporâneas. é a mudança no modo como as nossas relações se constroem. ou como um obstáculo para os meus objetivos. O outro elemento. As relações baseadas na pragmática. Nos dois autores. a importância das motivações interiores. a necessidade de manter os laços afrouxados. originando relações marcadas pela ambivalência. nas quais. As relações passam a ser naturalmente descartáveis. ou seja. tem ele que dar conta de seu próprio destino. Perdendo as referências e suportes do coletivo. existe a necessidade da entrega. conforme apontado por Coimbra (1995) e também por Sennett (1999). o fato de nos identificarmos como indivíduos auto-encapsulados. acaba por um gerar um conflito natural. 34 isso fique suficientemente claro. evidencia-se a importância que se passa a dar ao núcleo familiar. As relações pragmáticas ou contratuais são fundadas naquilo que Guignon (1999) chama de “individualismo ontológico”. Nessa obra. Em “Comunidade” Bauman retoma ao tema por um caminho diverso. No primeiro. que torna-se um local de proteção frente à fragmentação do mundo. deixando de ter sentido quando esse sai de cena. por um lado. fruto da ausência de territórios seguros. por outro. passam a ser um acordo em que a fidelidade e a permanência inexistem. ganha-se por um lado e perde- se por outro. ele pensa mais diretamente essa questão. na mesma medida do afastamento daqueles que são considerados estranhos. são algumas marcas desse movimento. Mais uma vez. Bauman retorna a essa temática em dois outros livros: Amor líquido (2004) e Comunidade (2003).

é motivado por uma grande miragem. tanto quanto a segurança sem liberdade. Ele começa nos mostrando como o ideal de uma vida ascética. Em suas próprias palavras: “Dados os atributos desagradáveis com que a liberdade sem segurança é sobrecarregada. da angústia e da falta de segurança. de “dar conta” da incerteza. Nessa obra. consubstancia muitos dos ideais modernos de felicidade. A euforia perpétua Em um livro muito interessante. de pertencimento. conquistamo-la. vivemos a angústia e passamos a desejar os laços sociais. perdemos em segurança. a preocupação prioritária com a “salvação da alma”. conforme a . 2003. a volta a existência comunitária. 35 necessidade. se estar em comunidade implica em segurança. o que resistimos a ceder. mas também jamais encontraremos em qualquer comunidade autoproclamada os prazeres que imaginamos em nossos sonhos. a expectativa e o sonho da felicidade. experimentada por muitos. claramente se sobrepõe. algo como nosso Santo Graal: a felicidade. parece que nunca deixamos de sonhar com a comunidade. a fim de se encontrar a felicidade no mundo em que estamos. marcado pelo profundo individualismo. encontrando-a. Por outro lado. Para Bauman parece haver uma recorrência da questão: aspiramos à liberdade. ele mais uma vez se detém na questão da liberdade. 10). ao mesmo tempo. vai progressivamente se convertendo em um esforço. mas que devem ser construídos no aqui e no agora. Bruckner (2002) nos traz algumas contribuições que consideramos importantes. só que essa sempre nos pedirá em troca um pouco de nossa liberdade. que já não podem mais ser transferidos para um local remoto e evanescente. ou ao menos buscando-a no consumo. a assertiva de Voltaire “O paraíso terrestre é onde estou”. sendo um questionamento e uma inquietação que ainda nos cabe dar conta. Podemos perceber que não há. Para Bruckner. que anseia pela liberdade.” (Bauman. promessa de satisfação eterna. através de inserção em um grupo que seja constituidor de sentidos. o comprometimento em suas estruturas resulta inevitavelmente numa perda de liberdade. na obra de Bauman. De qualquer forma. uma solução para esse problema. um elemento fortemente mobilizador. intitulado “A euforia perpétua: ensaio sobre o dever da felicidade”. mostrando que. Esse projeto de sujeito individualizado. o anseio de liberdade. p.

é agora exaltada e glorificada. passar a estar cada vez mais presente. Ela mantém.“o alinhamento com os prazeres da maioria”. a pergunta surge de forma recorrente: o . anuncia-se como o fiel companheiro. uma taça que o distingue dos demais -. que são nivelados ao do “todo mundo”. uma lei natural. como bem salienta Bruckner. seja por um ideal religioso. O que significa ser feliz? Que lugar é esse? Como saber se o encontramos ou não? Afinal. ao mesmo tempo. ao contrário. do privado. Bruckner. escapa à mensuração. A vida. uma virtual fonte de prazer. algo que não nos cabe não desejar. que revestem as suas vidas de uma áurea de felicidade e perfeição. Naturalmente não temos como estar certos de que o outro . A felicidade passa a ser algo da esfera do íntimo. mas. entendido como adversário. já tratamos desses pontos. de quem nos cabe cuidar e proteger. A felicidade passa a ser uma imposição. buscá-la passa a ser o sentido óbvio. antes vista como penitência ou um fardo. à medida que é abstrata. O segundo ponto foi abordado quando nos referimos aos turistas. levando a um conformismo e a uma equalização de nossos projetos e desejos. O primeiro deles. que são compreendidos como óbvios. sobre o qual se devia manter controle. nem pode ser alcançada por uma fórmula específica. bem como do ideal de progresso. seja por um compromisso com o grupo social. tanto o conformismo .aquele que exibe a sua felicidade como um modelo a ser seguido. vai fazendo cada vez menos sentido. felicidade não é um algo. é realmente feliz.“a atração pelos eleitos que o acaso parece ter favorecido”. convertendo-se em símbolos a serem invejados e seguidos. à medida que o heroísmo feudal vai cedendo terreno. em favor de uma busca de felicidade na esfera do eu. ela favorece a sua perpetuação enquanto ideal. 36 entendemos. O corpo. quando nos referimos à impossibilidade de questionamento da ordem vigente. Em verdade um projeto de vida baseado no sacrifício pessoal. no entanto chama-nos a atenção para três paradoxos. quanto a inveja . Aliás. Sua abstração é fonte de angústia. O que temos é um retraimento dos investimentos coletivos. local onde se afirma continuamente que ela se encontra. Na verdade. relacionados a esse projeto e mesmo imposição de ser feliz: em primeiro lugar a imprecisão.

eles poderiam supor. entendida como gozo e prazer. o alcançamos. de algum modo. de insuficiência e. passamos a não tolerar nenhuma forma de dor. acaba se convertendo em falta de sentido. beleza. Em geral o projeto de felicidade que desejamos. O dever e o sacrifício perdem o sentido. a felicidade. a fim conquistá-la? E se eu acreditar que sou feliz. Para se manter. quando apenas estou me conformando com uma existência medíocre? Ora. Para Brukner: . vivemos em busca de analgésicos do corpo e da alma. chamado felicidade. 37 que é felicidade? Como ter segurança de que estamos no caminho correto. é. neutralizar e manter distante o sofrimento. relacionamentos que nos sejam agradáveis. alia os dois elementos acima. acabamos por necessitar encontrar algumas referências que possam nos dar um território seguro. como a família. entendida tão fortemente a partir dos ideais do homem individualizado e intimizado.os turistas necessitam dos vagabundos. quando estamos falando de algo tão impreciso. onde existe a promessa implícita de que ela – a angústia . A morte do desejo. realização profissional. muito mais do que. fluido. Nesse contexto. pedras a serem removidas. recaindo no ponto que anteriormente tratamos. uma vez alcançada. é exatamente em função da angústia que precisamos nos mover. ou onde ela poderá ser definitivamente aplacada. sendo considerados como elementos obstaculizantes. de premência. A sensação de “ainda não”. Para Bruckner. mais facilmente a felicidade pode ser “vendida” como um algo. ela habitualmente se confunde com prazer. Será? O segundo paradoxo refere-se exatamente a essa questão. a primeira vista. se converte em tédio ou apatia. tudo o que retarda ou dificulta de algum modo esse projeto passa a ser vivido como contrariedade e como fracasso. Na experiência do prazer. a busca em si e as inquietações por ela geradas. como bens de consumo. como já salientamos antes. Em uma sociedade em que a felicidade. nos manter em busca desse lugar idílico. Cada um desses lugares. O terceiro paradoxo refere-se ao papel da felicidade de disfarçar. portanto. são tão ou mais importantes do que a própria satisfação. essa felicidade intimizada necessita de contraste. dinheiro etc. de fato. a saciedade. Buscamo-la em experiências capazes de trazer prazer ou destaque. o casamento estável. de variedade. De qualquer forma. de angústia persiste. que confere propósito e movimento. passa a ser o maior dos bens. ou então.não estará mais presente. o que impossibilita que se possa estar certos de que. ela não se sustenta sem a presença do refugo . em instâncias que nos sugerem acolhimento e proteção. Isso porque. a segurança material. a partir de um conjunto de valores que ganham o contorno de hegemônicos. a ausência da angústia.

que solicitam provas tangíveis de sua paixão. p. 64) De idêntica forma. se é ele o responsável por seu destino. que se constrói a partir da visão de um sujeito onipotente.. Para responder a essa pergunta ele escolhe um caminho interessante. da doença. sempre sorrateira. perseguida pelo medo da morte. baseada na plena satisfação desse sujeito onipotente. se não é possível uma juventude eterna. tornando-a uma questão de ordem médica. adicionalmente. testam seu casamento ou união. o nome de sofrimento: a sociedade da felicidade proclamada torna-se pouco a pouco uma sociedade obcecada pelo desgosto. à satisfação dos sentidos. 49) Mais uma vez. Combinações do modelo escolar com o gastronômico: a boa receita conduz à boa nota. identificamos a presença da incerteza e da angústia. se propõe a perguntar porque ou como. nos condenará inevitavelmente ao fracasso. em arroubos exibicionistas. evidenciando a contradição de um projeto de felicidade sem máculas. O sexo passa a ser uma experiência de cálculo. vive-se uma verdadeira obsessão com a saúde. é também ele o único responsável por sua felicidade. dever. Sob uma máscara sorridente. um algo que. ela não pode mais ser creditada a forças religiosas ou sociais. os amantes fazem o exame da felicidade e se perguntam: estamos à altura? É à sua sexualidade. estabelecem balanços de prazeres. acabou se convertendo em uma lei. de quem é exigida a satisfação sexual e afetiva. como a espreitar. procurando assim se assegurar do estado de seus sentimentos. se não alcançado. de perversões a frissons. do envelhecimento. Os alimentos são agora avaliados a partir de seu potencial calórico e lipídico. que. pois. a quem a doença passa a ser um interdito. fundado numa experiência estética de prazer. Nesse contexto não é tão importante o tipo de vida que se leva. a morte um fracasso. Constrói-se então uma ética do prazer. passa a ser o construtor de seu próprio destino. livre das influências e determinações religiosas. ela é intimizada. 38 “Tudo o que resiste ao claro poder do entendimento. convertendo-se em remédios ou venenos.) “ a portas fechadas. toma. o de pensar a felicidade como uma experiência de domínio. (2002. De carícias a posições. Nas palavras de Brukner: (. que não deve mais adoecer. Aqueles que conseguem mascarar as impressões do tempo. rivalizam com outros casais em demonstrações sonoras. Ora. deflagrado por todo o movimento iluminista. . fareja em toda parte o odor irrespirável do desastre”. à propagação do progresso. novo oráculo. passam a ser vistos como vitoriosos. atribuem-se prêmios de excelência ou menções de „sofrível‟. A felicidade deixa de ser um acaso que acontece frente à monotonia dos dias e se converte em destino. um termômetro para se medir a realização e a felicidade pessoal e conjugal.” (2002. algo que foi conquistado como um direito. p.. Brukner. o fundamental é poder prolongá-la o mais indefinidamente quanto possível.

manter-se as atividades físicas regulares. Obviamente que esse elevado nível de expectativa. 39 é preciso. conforme já explicitado. o desejo de procriação ou questões de natureza econômica e passa a ser a ser entendido como um caminho fundamental para a auto-satisfação. Todo esse movimento. a felicidade passa a ser fonte óbvia de angústia . o centro originador de sentidos e propósitos para a existência. se transforma no objetivo por si mesmo. p. 77) A angústia surge pelo medo de não estarmos fazendo o suficiente. Vividas como uma experiência singular. Elas se fazem presentes nos ideais de felicidade. Tira-se da saúde. considerado nas sociedades tradicionais. muitas vezes. uma base sobre a qual as questões maiores da existência se construiriam. é um elemento basilar na determinação de que vida vale ou não a pena ser vivida. convertendo-se. ao contrário. alimentar-se conforme o devido. Fowers. O casamento. internalizadas como anseios que nos são próprios. torna-se grande fomentador de angústia. como já deixamos claro anteriormente. porque o casamento. . acaba por influenciar de modo determinante as relações. acaba por se traduzir numa diminuição da tolerância às contrariedades próprias à vida conjugal. no sentido de uma satisfação estética do sujeito. associado à noção de que a auto- realização. da vida conjugal etc..“(. por outro lado. dos relacionamentos. passam a ser condições para a felicidade. Transformada em dever. em verdadeiros fantasmas. no entanto. Faz-se necessário eliminar todo o sinal de fraqueza. por exemplo. ao menos. deixa de ser uma instituição que tem como sentido uma obrigação social. Guignon & Richardson (1999) nos chamam a atenção para o fato de que o aumento do individualismo. mas são. Será exatamente a angústia o fenômeno sobre o qual desejamos estabelecer as nossas interrogações. aquilo que ela tem de mais rico.” ( Brukner. não provém de modelos rígidos e impositivos. As expectativas se tornam ainda maiores. 2002. qual seja a despreocupação com a doença. deve-se sempre se manter alerta. Essas expectativas. mimetizar a juventude tanto quanto possível.) nós constituímos provavelmente as primeiras sociedades da história a tornar as pessoas infelizes por não ser felizes. de não correspondermos as expectativas e acabarmos por fracassar.. tal como a necessidade de segurança.