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Marcia Tiburi

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Diadorim: biopolítica e gênero na
metafísica do Ser tão
Sertão
Resumo
Resumo: Diadorim é a emblemática personagem da obra de Guimarães Rosa, avatar da
donzela guerreira, símbolo de uma forte renúncia, que podemos afirmar feminista, aquela que
se faz na negação do feminino para viver na liberdade do além-do-sexo. A análise de tal
personagem permite avaliar a relação entre corpo e poder como fundamento da história
conhecida da dominação de gênero. O objetivo deste trabalho é uma leitura feminista que
permita investigar a dupla banda da sexualidade que envolve a figura de Diadorim. Homem e
vivo enquanto vestido, mulher e morta no advento de sua nudez, Diadorim fará parte de uma
história arquetípica, do topos da mulher/morta. Essa mulher morta é, assim, também a “mera
vida” ou a “vida nua” que comparece na análise biopolítica contemporânea. O cruzamento de
feminismo e biopolítica é o método de leitura dessa obra. Ele nos fará ver que a função da
textualidade no patriarcado é tanto gozar sobre o corpo morto de uma mulher quanto devolvê-
la à sua suposta natureza doméstica e antipolítica.
Palavras-chave
Palavras-chave: feminismo; Diadorim; biopolítica; Sertão.

Copyright © 2013 by Revista “... a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar
Estudos Feministas. na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem
diverso do que em primeiro se pensou.”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

Motivos para matar Diadorim
A questão posta por Nicole Loraux em seu livro Façons
tragiques de tuer une femme (1985) acerca das modalidades
da morte de mulheres nas tragédias gregas serve-nos neste
momento para pensar a morte de Diadorim no desfecho
semifinal de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães
Rosa. A morte das mulheres, segundo a análise de Loraux, se
torna visível pela fala de homens. Inscritas no discurso dos
homens e para seu deleite estético, essas mortes dizem tudo
sobre a vida das mulheres.
Louraux declara que na tragédia, por seu evidente
caráter textual, tudo se passa pelas palavras e, sobretudo,
a morte. Morte que deve “começar por ser dita, por ser

Estudos Feministas, Florianópolis, 21(1): 424, janeiro-abril/2013 191

de Lee Chang. 11. p. realidade e imaginário que não deve passar despercebida. como se pode ver na velha Dama do Lago. 4 Edgar Allan POE. Florianópolis. estética e poética. 23. Nas artes visuais abundam as representações de está abandonada. assassinato de mulheres. 1985. O que une a tragédia grega ao romance roseano é o mesmo motivo sobre o qual devemos prestar atenção: a morte narrada é sempre a morte de uma mulher. Chantal e vice-versa.5 Há uma solidariedade entre 5 Eva Alterman BLAY. Inspector Bellamy. de Sam em Grande Sertão: Veredas. não haverá uma ética e. Também ela é a bela morte de uma mulher. A pergunta simples a ser feita diz respeito mulheres mortas. momento coreano Poetry. p. todas levam a pensar no estatuto patriarcal do imaginário presente nos textos. p. como processo de compreensão discursiva e não apenas imagem. imaginário”2 que lhe é próprio. 1985. Se a escritura tem o estatuto de lei sendo ponte Michel o topos se repete. por ser imaginada – visão nascida das palavras 1 Nicole LORAUX. de Robert declaração de Edgar Allan Poe de que “a morte de uma Montgomery (1947). Garantia de sucesso literário (e hoje de tantas obras 3 Do cinema podemos falar de A do cinema e de artes visuais3). O que entre a realidade e a ficção. 21(1): 191-207. a morte das mulheres não as torna heroínas. Mas é curioso à analogia entre texto e lei: se uma mulher pode ser morta que as próprias mulheres traba. e. da morte de Diadorim. apoteótico da narrativa. na literatura de ficção (ou no cinema. p. uma política que lhe subjaz? 192 Estudos Feministas. 9. 1960. e sustentada nos olhos”). a fartura da temática da “mulher coloca em questão o motivo pelo morta” em todos os campos das artes não é simplesmente qual o tema não teria sido supe. mas enquanto ela os faz heróis na transcendência da mera vida. Fale com ela. 506. 2008. à sua “natureza de mulher”. um modo de morrer masculino e um modo de morrer feminino que determinam papéis de gênero. janeiro-abril/2013 . Certo é que a morte dos homens também é narrada. mais. De Artemísia se sua morte é bela e esteticamente viável. mulher é o motivo mais poético de mundo”. Anuschka Blommers.MARCIA TIBURI entendida. realizando sua fenomenal função de assassinato na de Claude Chabrol (2009). Há. Devolvê- las ao lugar de onde saíram. Loraux leva a atenção para o caráter literário e simbólico dessas mortes. é o desfecho da lei à qual Diadorim Dong (2010). Assim. Revolutionary Road. Em que pese a diferença de cada uma das mortes dessas mulheres. por que não Gentileschi (1593-1563) a Cindy seria politicamente aceitável? Toda estética tem sua política. inofensiva no contexto da “constante cultural” que é o rado pelas próprias mulheres. não apenas um espetáculo.4 é o que temos de Pedro Almodovar (2002). e do intenção do gozo estético. a de ser doméstico a viver na penumbra da casa. lhem com o motivo. antes serve para recolocá-las em seu lugar. ou nas artes visuais). segundo a visão de Loraux. Janaína Tschape.1 Interpretando a tragédia como um evento sonoro. A velha tradição textual Mendes (2008). parece ter o mesmo sentido que a morte das mulheres na tragédia. como a audição de uma fina leitura. a morte de Diadorim. eis o papel da morte na tragédia de um modo geral. apresentada pelo discurso de Riobaldo. a meu ver. Se o topos da mulher morta é uma constante imagética. dita e feita no discurso de um homem com o “benefício 2 LORAUX. Diadorim “morta”. Sherman. na interpretação da filósofa helenista.

Prazer estético e erótico entender o que aconteceu. ela mostra pouco. 1994. do amor platônico a um só tempo. Florianópolis. como seu negativo. p. suicidavam-se por seus maridos Figura da androginia e do que Mircea Eliade chamou “o mistério ou eram sacrificadas por motivos religiosos. 133. o mal maligno que Diadorim como uma espécie de emblema por meio do qual destrói sem repor. Diadorim realiza fundamental é que nenhuma das gregas jamais morreu em sua morte num momento muito combate como Diadorim. no parto.7 ela não sai em posição divino do que Riobaldo. da civili- “falocentrismo”. por meio de Diadorim – ela é meio. o falo-logo- fim segundo o primeiro final. e a cangaceira do sertão mineiro. masculino e feminino. por exemplo. é o outro lado que se associa ao Loraux fala de “benefício imaginário” que tais mortes mesmo na maleável Banda de Moebius. que uma mulher morra aparência. anjo tensão política. fonocentrismo vem garantir o caráter prescritivo de uma fala 1986. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO Afirmar que homens escreveram sobre mulheres mortas com intenção de gozo estético não é um exagero. também não dizem muito. Simples atividade orgânica. Urobórica encarnação da dialética. na maneira com que morre Diadorim. Trata-se. pode nos levar mais talvez o que Riobaldo chama longe na intenção de compreender o sentido do próprio “homem humano” e “travessia” ao texto. 21. de pensar a questão biopolítica no sentido do “investimento sobre o corpo vivo. personagem natural”. 77). a leminiscata (Francis ditas causam a um público de cidadãos. finali. A força do topos não elimina a diferença entre as mortas da crise do paradigma sexual e gregas. encarnação da donzela guerreira. 21(1): 191-207. segundo a definição de Foucault6 7 Diadorim é personagem multifa. o princípio de destaque como vencedora ou como heroína. o semifinal do romance (ROSA.8 que definem dade. O fato de ter demoníaco explícito. final do romance.9 Na forma de verdade inquestionável por sua que simboliza a barbárie. distributiva de suas forças”. UTÉZA. p. em que essência e trágicas. princesas e rainhas. além de que o patriarcado seja Riobaldo é. da ordem da mera coincidência. da racionalidade. Fato ção do mundo. 125. a simples apresentação é que aparece o corpo morto de imoralidade. Na posição de narrador 9 DERRIDA. bem como do “fonocentrismo”. do armas. detalhe a meu ver importante. 8 Jacques DERRIDA. princípio da duplicidade que organiza o mundo na unidade tão Escamotear pelo discurso impossível quanto almejada. bem e mal. No entanto. permanece a simetria especial e significativo: junto da dos motivos. 1999. das mulheres por oposição à vida dos homens. Acrescento um da totalidade” (Mircea ELIADE. pois vazio de homem e mulher. ainda que morte de Hermógenes. no deslumbramento diante de seu corpo feito cadáver. que. 422). p. nesta história. da linguagem e que. neste momento. 2006. própria da vida e demônio. 2006. romântico da morte de sua musa (aquela que o leva a Estudos Feministas. o sentido de uma “violência da letra”. Perguntemos. p. mas também é Características da narração de Riobaldo. se as mulheres serviriam de matéria à imaginação zando o romance. Não importa. infinita- mente mais humano e menos em luta de morte com Hermógenes. no terreno da arte e da literatura. A hipótese do “logocentrismo” e do amor. As gregas morriam na cama. numa espécie de ritornello para pode sustentar. perverso e que a questão se esgote na explicação por “coisa tor e o testemunho do laço do de homem”. A semelhança entre discurso e violência não é. Loraux se atém às personagens 1999. p. janeiro-abril/2013 193 . também nos mórbida dos homens. da qual o discurso e a imagem são as mais naturais das cetado. que também morrido enquanto matava o temível Hermógenes é apagado a feriu e que. 531) – é a contraposição que ao se pronunciar estabelece uma espécie de “lei direta a Hermógenes. a “mulher” é finalmente marcada. Fato que não configurava tragédia. O que nos mostra a morte de Diadorim? sugere um método de leitura em Lida com base no gozo estético que só uma cultura patriarcal que é preciso voltar sempre atrás. se associam como num ancestral ritmo de explica. o inven. da ambiguidade. sua valorização e gestão 6 Michel FOUCAULT. então. p.

E em mim a vontade de chegar todo próximo. (UNICAMP-IEL. – própria ao nome de Diadorim – implica que o homem vivo ta nos poemas de Valentim de é. mas também figuração Marcia Tiburi (2008). Nesse sentido há uma significação ocultada que Alceu Wamosy e outros. 2000. Na cena da morte de Diadorim. não só significa a si. de outro. de um lado. a morte de Diadorim oferece uma espécie de perdão heterossexual a Riobaldo.12 Ou seja. Guerra Duval. Se. 1986. Riobaldo pode ficar na indecidibili- dade edipiana. esconde. estamos diante da exposição de um sério desejo homosexual que é confessado e justificado durante toda a narrativa de Riobaldo. p. morta na água. por exemplo. Diadorim é duplo que mostra e poesia simbolista brasileira (2008). 2000. estamos diante das questões metafísicas da oposição e da conjunção. como veremos adiante. concluir que “o nome ‘Diadorim’. Mas não simplesmente. que até então 14 ROSA. “Aquilo que Riobaldo toma como também o anexo com poemas significação do nome não corresponde ao que o nome está ofélicos em diversas línguas designando no secreto. 131. que se alça à posição de escritura. suprassumido na Magalhães.MARCIA TIBURI contar). há algo que 12 João Adolfo HANSEN. Como de Ofélia nas águas: reflexos da personagem de Shakespeare na emblema da duplicidade. 2008). verdade”. de significação essencial. romantismo e simbolismo unem-se no espetáculo da morte das mulheres10 das quais Ofélia. 11 O material crítico sobre Ofélia é É o que nos diz. se mostra e algo que se oculta e as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.13 Certamente. p. feminino seria “irrelevante”. temos a continuação histórica da condenação à morte dada na e pela ficção. janeiro-abril/2013 . p. se debatia com o seu “desejo encoberto”. Aparecendo como mulher e morta. deve ser o seu oposto complementar. Muito mais. em convenientes termos hegelianos. para depois vasto. Riobaldo é mais um dos representantes da necrofilia epistemológica que pesa sobre as mulheres. Neste ponto é preciso propor uma leitura que compreenda a função dessa morte no contexto de um par categorial: escamoteamento/revelação em que a questão da sexualidade vai bem mais longe do que a de um efeito “divertido” no qual a oposição entre sexo masculino e 13 HANSEN. E lei. como homem vivo. quase uma ânsia de sentir o 194 Estudos Feministas. Na linha desta argumenta. O que é ser homem/o que é ser mulher? É a pergunta que surge na forma de uma dupla banda diante da aparição de Diadorim como corpo de mulher morta. Tragédia. Florianópolis. morrendo na seca 10 A propósito. assim. de em Riobaldo: (não)-ser. ausência. 21(1): 191-207. 126. Necrofilia que se eleva à imagem e ao texto. Alphonsus de Guimaraens. é a grande musa. ção sugiro a leitura de “Ofélia na aparência enganosa. Cruz e Sousa. pois a “dia-lética” vivência da imagem de Ofélia mor. a significação ocultada da mulher”. ver a dissertação de do Sertão. E eu mesmo entender não queria. Acho que. João Hansen.11 Diadorim. desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. Mas não. ele desaparece na qual a autora analisa a sobre. Ver Riobaldo não pode ver. “mulher”.14 com aquilo mesmo que eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Aquela meiguice. mas também a irrupção do duplo morta: do discurso à imagem”. 133. mestrado de Ellen Guillhen A morte O corpo exposto de Diadorim é corpo marcado.

De resto temos confirmada a lei do patriarcado: quem paga a conta do desejo masculino é o ser heterodenominado pelo patriarcado de “mulher”.18 Diadorim – que não é mulher. O caráter proibido – ainda que confesso – do desejo do narrador. que às vezes adivinhei intensamente – tentação dessa eu 15 ROSA. lembremos. janeiro-abril/2013 195 . 1986. de algo “diabólico”.15 Mesmo que se possa com isso dizer que. 78.16 Se 17 TIBURI. a questão do amor entre os dois jagunços esteja para além da oposição entre os sexos. um afeto “dum jeito condenado”. de Morais “Coração mistura senão quando se revela seu corpo morto – acabaria tendo amores: o desejo deslocado nas veredas do Grande Sertão” (2008). O seu amor quando o percebe homoerotismo (homosexualidade ou homoafetividade) “encoberto de amizade” e retira. ção sexual em nome da homoafetividade se anuncia e é. cai por terra no momento da exposição do corpo morto sacrificado. no instante derradeiro. 111. por outro lado. que a posição romântica de Riobaldo. uma espécie de redenção heterosexual é alcançada com a imagem do corpo morto de Diadorim. É o amor pela mulher/morta que. a análise do moralismo aparece apenas para que possa ser negado. aparece como mulher. espairecia. Florianópolis. 1986. a autora enfrenta a nidade absoluta. vem revelar o que importa em um primeiro momento. heterodenomi- nando com a arma do discurso seu desejo como da ordem 16 ROSA. p. Uma revolu- com que muitas vezes foi tratada. nesse sentido. dos braços. O corpo de Estudos Feministas. levar o homoerotismo questão do desejo remetendo ao até uma tensão que culmina com uma espécie de sacrifício fato de que Riobaldo só assume do objeto cujo caráter tentaremos desvendar. as mulheres tais como Maria Bonita17 teriam sido introduzidas no cangaço real para evitar quaquer desconfiança de 18 Ver o artigo de Márcia Marque homoerotismo. A negação da homosexualidade é paralela à armadilha antifeminista: a isca é o corpo de uma mulher que só pode aparecer como mulher enquanto morta. p. ao mesmo tempo. assim. 21(1): 191-207. que tinha representado até então um ganho crítico do personagem em relação à moral heterossexual. ela é condenada enquanto. no viés de um falocentrismo. dos “vícios desencontrados”. revelando um segredo. É justamente. é um fato emblemático do texto que Diadorim feito mulher/morta redime Riobaldo de seu desejo. Ou de um homem que. Como que julgada durante todo o texto feito lei. negada. p. com o sacrifício daquele mesmo que ele desejou. ao ser morto. lançada no universo da metafísica. na verdade. 2010. uma função dupla: enganar o cangaço de sua masculi- Nesse artigo. 125. escamoteia ao mesmo tempo a homoafetividade de Riobaldo com a qual ele lutou até o fim. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO cheiro do corpo dele. mas. aí rijo comigo renegava. O que pretendo mostrar é que a morte de Diadorim surge como solução de Rosa para dar ganho de causa à tradição: pois que a figura de Diadorim mulher e morta (diremos de agora em diante apenas mulher/ morta) é o emblema que tanto vem revelar o desejo de um homem por uma mulher quanto vem “tapar” o desejo do homem por outro homem.

e não do sujeito do desejo que seria finalmente liberto. O amor não passa. que alguém de quem não sabemos que seja mulher até o fim da leitura. nesse caso. nesse caso. ao mesmo tempo. o livra de assumi-lo. no entanto. Daí que Diadorim apareça como “mulher” apenas quando “morta”. enredando-o para sempre nessa mulher-homem. livre do peso de provar-se. como precisamos ver. A perda maior. p. O amor sinuoso dos personagens é homossexual até render-se numa espécie de “heterossexualidade 19 Judith BUTLER. Libera-o do sexo lançando-o na sexualidade impossível. 21(1): 191-207. mas apenas porque o objeto de seu amor foi desnudado em uma verdade que lhe favorece.MARCIA TIBURI mulher morta é. mas aquilo que lhe cabe enquanto mulher. 8.19 Riobaldo recebe dessa morte a autorização para amar. apenas uma mulher que é morta. mas. pode nos levar ainda mais longe. De fato. não é apenas um meio para que ela volte à casa. é do sujeito feito objeto do patriarcado: Diadorim surge como figura enganadora sendo lograda por sua própria morte ao não dispor de si mesma. o desfecho de uma lei a ser cumprida. ao mesmo tempo confirmando o prévio e autoafirmado amor homossexual. nesse caso. logrado no desejo. Em outras palavras. compulsória”. Florianópolis. só é mulher uma vez que morta. é o corpo morto de mulher que salva o jagunço de seu desejo heterosexual quando. estaria desimcumbida de provar-se. do qual o texto é o lugar comum. no entanto. a inação sexual em potência absoluta da sexualidade. no caso de Diadorim. libera-o também do homem. não se trata apenas do papel da morte para uma mulher (o de fazê-la voltar à casa). Se ele se inscreve nesse curioso topos que é o da mulher/ morta. o ganho é do sujeito patriarcal (sempre moral). Assim. transformando. O corpo de mulher parece para sempre subjugado ao destino – a uma lei ditada pelos homens. mas muito mais o papel da mulher o que está em jogo. tendo sido posta à prova durante todo o livro. a mulher em sua condição de objeto puro. Assim ele ganha o amor enquanto é. nesse homem-mulher. simultaneamente 196 Estudos Feministas. A morte. é a prova mesma do triunfo da heterossexualidade que. Ela tem a função de liberar o desejo enquanto libera do desejo. assim. não é. A revelação da mulher/morta é também a morte do objeto do desejo. Não mais passível de um ato sexual que implicaria a heterosexualidade a ser provada. e esse é o de morrer. A lei que é o próprio patriarcado. da miséria moral autorizada contra o desejo em relação a um objeto proibido. Uma mulher morta é um tipo específico de objeto. é verdade que ao mesmo tempo que o libera da mulher. Mera vida Diadorim. Ao fim. ou seja. não precisaria mais provar a si mesma. janeiro-abril/2013 . 2003.

grifos nossos. prostitutas. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO mulher e morta. A pergunta pelo motivo da morte de Diadorim é primeiramente banal e dissipar-se- ia elegendo o direito do autor em contruir seu personagem trágico. Alguém que pretendia parecer homem. como mulher/ morta. neste ponto. simples 23 ROSA. Segundo o autor. Diadorim não vivia”. entre tantas outras. Florianópolis. 1986. ao que chamarei de “emblema os símbolos que configuram a ordem da barbárie. O texto falocêntrico é sua arma simbólica. e mais do que 24 Leonardo Vieira de ALMEIDA.23 Desse modo. tensão que se estabelece entre definido em sua vestimenta. “emblema jagunço”24 no ato de sua morte. dois monstros não forem acabados”. 1986. agindo. Passemos a analisá- la por meio de tal viés. p. seguindo a interpretação da biopolítica em Agamben e expandindo-a para uma interpretação do patriarcado. 16. o “emblema trágico” que se sobrepõe ao 2011. adúlteras. o que ele não tem é sua “mera vida” de mulher? Diadorim é personagem trágico. nu”. enquanto todas as demais personagens do livro de Rosa mantêm-se vivas. p. janeiro-abril/2013 197 . surge como que “castigado” no ato mesmo de ser “devolvido” ou “abandonado” à sua natureza. 2002. natureza morta. “O emble. Sua morte tem ma trágico se compõe a partir da caráter de transfiguração: ela passa do “emblema jagunço”. porquanto são emblemas de papéis femininos: moças casadoiras. 2002.20 A mera vida 21 AGAMBEN. chamando de “mera vida” ou “vida nua”. mera vida seria o elemento que governa secretamente as ideologias da modernidade fundadoras de campos de concentração e dos genocídios que fazem a história da política como história da morte perpetrada pelo ser humano contra o ser humano. grifos nossos. 21. o que significa que. que o corpo morto de Diadorim é uma figura fundamental do que as teorias políticas do século XX (de Karl Shmitt e Walter Benjamin a Giorgio Agamben) vêm 20 Giorgio AGAMBEN. 12. A tese a ser considerada nesse caso. 21(1): 191-207. enquanto aqueles 22 ROSA. considerando que. a lei jagunça. qual a vida vivida por Diadorim? Que vida não era vivida? Em função de sua vida de jagunço. p. 21. mais do que desvelamento. Diadorim. Estudos Feministas. é uma e o corpo que não deixa de reve. Núcleo originário do poder soberano (aquele que decide sobre a vida). sua “pele” de jagunço. personagem. outra vestimenta que vem lhe definir desde que ela retirou lar e esconder os traços da philía”. nem minha mera vida mesma. Diga-se de passagem. Diadorim mesmo é quem dá a pista sobre sua condição de “mera vida”: “Não posso ter alegria nenhuma. é de que esse se confunde com os Arcana Imperii elegendo a mulher como figura da matabilidade. falando como homem. Mas por que Diadorim pertence à tragédia e não ao drama no qual o herói supera a si mesmo ensinando algo a seus leitores/espectadores? É preciso colocar em cena. é confirmação desse paradigma político. p. Diadorim é emblema da mera vida para então compreender a necessidade de sua matabilidade. vestindo-se. A propósito.22 O que se confirma em Riobaldo: “Enquanto os dois monstros vivessem. natural sujeita à “matabilidade”21 pelo poder.

Florianópolis. como é preciso levar em conta desde que essa roupa fora véu (e o fim do livro não acaba exatamente em sua morte. Assim faria sentido a ideia de que Diadorim é “operador metalin- 25 HANSEN. na inevitável leitura retroativa que o livro nos impõe. janeiro-abril/2013 . já que é de homem/jagunço que ele se disfarça. segundo Hansen. que “Diadorim era o corpo de uma mulher.. mas uma enganação nada gratuíta. ou pensar que o significante revela-se em sua condição de escritura. no entanto. senão ao final e. ou. p. tão identificado com a sua condição de homem (Riobaldo se refere a ele sempre como “ele” ou simplesmente Diadorim). o que também nos convida a continuar a pensar.25 Um operador. diz 26 ROSA. moça perfeita”. güístico”.26 198 Estudos Feministas. 131.MARCIA TIBURI Pode-se dizer que é vestido de uma nudez de mulher na cena final. Isso nos permite pensar que Diadorim é tão homem. Fato é também que ele só estaria enganando ao ser “mulher” como não poderia deixar de ser segundo a linha de demarcação dos atributos femininos na história das represetntações de mulheres.). se camufla para poder viver como homem. quando. 21(1): 191-207. que se estabelece pelos jogos de sentido em que se expressa a passagem da designação à significação. p. como mulher-morta. que se sabe também por retroação que Diadorim é “travestido” de jagunço. mesmo assim. É como se Diadorim estivesse vestido de uma enganação. Fato é que seu corpo morto aparece como epifania e apoteose. precisamos redobrar a atenção ao discurso de Riobaldo. Esta leitura. que podemos falar que ele se torna mulher apenas por um instante quando aparece morto. o que. Duas hipóteses. ele mesmo emblema.. implica quebrar o pacto patriarcal rumo a uma leitura feminista sempre atenta ao modo como se representa uma mulher. revelação em si mesmo – o corpo morto é mulher revelada enquanto devir de um homem que. na prática. nesse caso. ao ver o corpo morto. devem ser consideradas: ou bem Diadorim é mulher e seu travestimento de jagunço é engano e sua nudez é verdade. em seu devir significante. como que transformado em não-ser. então. 530. 1986. O que implica que mulher revelada é tão verdade quanto o homem até então mostrado. 2000. ele mesmo escritura. sob o signo da perplexidade e da sutileza. Diadorim é. não deixa de ser homem ao longo do texto. E. Diadorim não foi mulher durante todo o texto narrado. Diadorim não é exatamente mulher e sua roupa de jagunço coube-lhe muito bem. Riobaldo. Que sua aparição convoca ao cancelamento de qualquer pergunta como se uma resposta estivesse dogmaticamente em cena na equação que une morte/nudez/verdade: podemos assumir que um significante novo – o corpo de mulher morta – trouxe-nos um outro significado – o que era homem era falso e o que é muher é verdadeiro – e mantém a leitura patriarcal/logo/fono/falocêntrica que apaga o significante em nome de um significado.

grifo nosso. p. é desfeita. 1986. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO Nessa primeira frase ele trata de Diadorim como “o corpo de uma mulher”. 1986. 87. 21(1): 191-207... sabe o senhor quem. 157. Ao voltar à condição de mulher. outra nenhuma. não escolha. percebe-se que a questão quanto ao fato de que Diadorim fosse “mulher” seria bem menos importante do que a questão de sua “desemelhança” (“Ele. naquele momento. A pergunta “o que é ser homem?” cabe à relação Riobaldo–Diadorim. p. com sua vida de jagunço. à qual Diadorim não serve de resposta simples. 118. Riobaldo segue em sentenças tão explicativas quanto marcadas pela surpresa: “Ela era”. é emblema da diferença. É como se a dúvida (a “duvidação”) não cessasse até que fosse preciso assumir esse fato cuja torção. assassinar. Diadorim. emblema da identidade à qual ele é devolvida na forma de mulher morta. estar condenada à sua zoé..31 De sua “diferença”: “Sou diferente de todo o mundo. Morta.28 “O moço. Percebendo a finura dessas declinações. por oposição a seu corpo morto. 1986.. de qualquer modo. com a testa alta e os olhos aos- 28 ROSA. Riobaldo demarca. ele sabia ser homem terrível.32 33 ROSA. o menino. 1986. por princípio. janeiro-abril/2013 199 . a pista: a distância entre Diadorim que ele conheceu como jagunço 27 ROSA1986. muito diferente”. ela não existe senão como corpo morto. pai disse que eu careço de ser diferente. era dessemelhante. claro. depois macho: “Eh. devoradora da diferença. e destino é. grandes verdes”. Meu 32 ROSA. ele mesmo.33 Diadorim vestido de homem. p. p. mas quem. ela encarna a impossibilidade de que uma mulher exista no mundo masculino. mesmo? Era o Menino!”. objetivando uma característica de seu amigo. pois 29 ROSA. Constrói heteronomamente a essência da mulher que Diadorim mostra em sua inteira verdade de zoé. A razão patriarcal é. 1986.”)27 e esse corpo revelado até que possa afirmar com certeza “Diadorim era mulher”. Essa mulher/morta é como que a vítima da racionalidade identificatória. Suspa!”. mera vida que aparece em sua matabilidade.29 E 30 ROSA. não havia minúcia de pessoa 31 ROSA. “Diadorim era uma mulher”. tão variado e vistoso. [. 86. p.. própria do padrão patriarcal. A constatação vem na hesitação que opera o tempo da torção na própria ideia. já disse. A esquizofrenia da razão está sempre lançada sobre Diadorim em todo o discurso de Riobaldo. proibida de participar da vida qualificada dos homens. do bíos. (“Meu corpo gostava do corpo dele.. 134. e não é apenas análoga à pergunta “o que é ser mulher?”. para uma mulher. p. 136. 1986. pigmaliônica: constrói modelos de mulheres para amar e odiar e. Florianópolis. “Diadorim era mulher como o sol não acende a água do Urucuia.”.] Eu queria que ele gostasse de mim”. Tal é o que chamaremos de destino. 92. Durante todo o romance Diadorim é menino e moço: “era um menino bonito.30 Desse modo. De seu caráter “singular”. Estudos Feministas. era. mas entre elas há uma relação de copertencimento. p.

p. antecipando em sua “matabilidade” da “mera vida” contra a qual ela tinha se interpretação o saber sobre sua colocado ao ser “outro” que apenas mulher. o fato de que ela se torne personagens (Nhorinhá. na transgressão das regras. conforme falaremos mais adiante. Daniel Lins. antes do encontro final. Noutro sentido. Florianópolis. seja 34 Cleusa Passos. oferece mais um aspecto que devemos trazer para a compreensão da imagem de Diadorim. seja o de noiva. “encontro marcado com a morte”36 com o qual podemos pensar a luta de Diadorim com o próprio Hermógenes.37 Lins coloca em cena a questão da “territorialidade masculina. de res. a Dia da Lua” (2008). A autora rastreia comportamento. p. última cumplicidade”. fora do alcance das mulheres” 200 Estudos Feministas. analisa de ser mulher. só pode vivê-lo ao ocultar-se da heterodeterminação à qual será destinada e sacrificada. Analisando o que ele chama o aspecto “western americano” do duelo do filme O cangaceiro. À mulher cabe a morte. janeiro-abril/2013 . 1985. condição de “donzela” e. de certo modo. permanece em outra chave. Ao fato de que ousou sair do seu papel de gênero. em “Diadorim: o de prostituta. Que a revelação de sua condição de mulher se dê no instante de sua morte coloca em cena esse significante histórico que desde Aristóteles divide a política em dois territórios: ao homem cabe a vida. 21(1): 191-207. é a chance.MARCIA TIBURI sendo a própria leminiscata. na queda na hybris que caracteriza o herói trágico sempre vitimado pelo destino que as mulheres de GSV não ousam combater: permanecem no papel que lhes concerne. praticar a diferença em sua ação. com M maiúsculo. diz Loraux. de Lima Barreto. p. vestido de guerreiro lutando pela liberdade o homem é a vida qua- lificada que os gregos chamavam de bios e que se relacio- nava à experiência da pólis. Otacília) visível. comparando-a às demais A encenação da morte. interpretando o cangaço. o que vale especialmente para o caso de pensar a feminina por um homem. mera vida. o de esposa.34 Essa regra. 1997. momentos: vida qualificada (homem e vestida) e vida desqualificada (mulher e morta). como 37 LINS. 129. 12. Trata-se do 36 Daniel LINS. assim. do face a face entre os homens. o motivo pelo qual Diadorim será morta está ligado à insubmissão às regras da identidade. assim. por isso. A morte de Diadorim justifica-se. 35 LORAUX. 1997. sua condição matável. Diadorim usou outra roupa e agiu de outro no texto os sinais de feminilidade modo transcendendo o papel a que tinha sido destinada (discurso e comportamento) de por certa anatomia. a imobilidade da mera vida que os gregos chamavam de zoé e que diz respeito à experiência do Oikos ao qual também Diadorim é devolvida quando morta e encomendada pela curiosa figura da mulher de Hermógenes que Rosa grafa como a Mulher. na Diadorim. envolve um papel: uma vestimenta. teve que pagar com a vida. no caso diferença sexual em Diadorim cuja vida é dividida em dois Riobaldo. um Diadorim de um ponto de vista bem diferente. 129.35 de pensar a diferença dos numa prefiguração da disputa sexos. Em termos ético-políticos. a nudez. ele cria a tese de que “a conquista do feminino só pode terminar com o encontro marcado com a morte” como “tributo a pagar. é a duplicidade que se recusa a estancar seu processo no ser “mulher” e.

1997. o mesmo que separa corpo e alma e que sustenta tanto o caráter da escritura quanto a leitura simbólica e metafisica da obra de Rosa. não conquistou o feminino. p. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO que deve aqui ser considerada na interpretação da neces- sidade de matar Diadorim. como toda a tradição patriarcal. Tal segredo é a redução de uma mulher ao seu corpo – e esse corpo a cadáver. ele foi apenas a forma com que ele pode ser mulher. Diadorim. janeiro-abril/2013 201 . cangaço mudou o destino de algumas sertanejas. Homo sacer: travestimento e indisponibilidade do corpo Que não se permita engano e se repita a pergunta: que motivo há para se matar essa mulher além de salva- guardar a tragédia como relação humana com a morte. Emblema da matabilidade da mera vida. 21(1): 191-207. momento em que se faz objeto total. Que o segredo de Diadorim esteja marcado em seu corpo e que essa marca seja sua condição de mulher – em que o sexo é marca – é o que o final do livro. p. Se a entrada da mulher no 38 LINS. Diadorim não protagonizou sua própria história senão pela vontade da fala de Riobaldo. como um objeto cuja característica é não chegar a uma forma definitiva. não será parte dessa revolução. eis a tríade que revela a verdade da cena que estamos tentando entender. sempre dependente do final infeliz na catástrofe do percurso de seus heróis? Tal pergunta acoberta outra mais curiosa e capaz de nos oferecer soluções menos superficiais: por que a morte de uma pessoa como Diadorim se dá como espetáculo de seu corpo? Por que seu segredo – no caso. “neblina”. Diadorim é a vítima daquilo que Loraux entendeu como reposição do papel feminino ao seu posto de coisa doméstica. podendo pertencer a ele apenas na figura do “guerreiro” ocultando sua condição de mulher. 16. Pois na luta com Hermógenes Diadorim ainda é homem. contudo. Florianópolis. Reposição que se dá por meio da revelação de um segredo – feito verdade – capaz de refazer o sentido inteiro da história. Na condição de 39 ROSA. 1986. um segredo sexual e corporal – é dito apenas na morte que culmina com sua nudez? Morte/nudez/mulher. nesse caso. o corpo-cadáver que interessou ao paradigma racionalista da ciência moderna baseada na relação sujeito–objeto. A mulher/morta é a mulher-objeto que. não deixa de referendar. 38 se Lampião subverteu a ordem ao “ignorar a tradição” promovendo uma “revolução feminina” do cangaço. Diadorim. ou de representar Diadorim como mulher apenas quando morta. Objeto que escapa enquanto objeto e que só será capturado quando imagem de um corpo morto. 67. Estudos Feministas. no senso comum.39 ela é ofuscamento. há muito virou piada.

masculina” que cabe bem à figura Mircea Eliade.. começa a verificar.] a pensar e imaginar a divin- 44 Conceito desenvolvido por Nicolaus Cusanus a partir de uma dade em termos de experiência imediata”. 41 Walnice Nogueira GALVÃO. Galvão fala de nua” não permite. não devemos filosofia desde seu nascedouro. 139-144). Utéza. Em outras palavras. mera vida matável que ousou transgredir uma regra.40 trar a inversão do sentido da pro. p. emblema da “vida nua”. pelo qual a alma de Riobaldo é liberada de sua condenação. Mas é possível pensar 1998. janeiro-abril/2013 . Para isso é preciso levantar o elemento como Eliade. lica. 77. p. baseada nas correntes esotéricas pre- sistemática do pensamento”.. e a ainda não tinha sido filtrado pelo morte de Diadorim poderia ser pensada em termos de sacrifício logos racionalizante. Tal realidade última à qual podemos nos referir. sentes em Grande Sertão. ainda um pouco mais sobre essa armadura que oculta seu 42 O capítulo “O par escamoteado” corpo de mulher: travestida de jagunço.45 Se Diadorim é vasta tradição que envolve a realmente uma apresentação da coincidentia. que se analise a fase pré. enquanto faz delas o realidade última. é alçado à abstração meta-histórica. ou seja. fazer “bando” com eles e participar assim da te inscrever Diadorim na linhagem vida política que sua condição de “mera vida” ou “vida de Palas Atena. a androginia de “Banhos de sangue femininos: Diadorim corresponde ao homoerotismo de Riobaldo do reflexões sobre um topos”.MARCIA TIBURI Na prática. como totalidade. leitura interessantíssima. O corpo morto seria essa “alma”. mais do que mero corpo. ele não deixa de ser esse corpo que 46 UTÉZA. qual ele é rendido no ato mesmo da devolução de Diadorim à casa e à condição de mulher pela morte. “uma imaginária partenogênese Antes. 1994. o caminho por onde a aliança entre gênero e natureza se refaz para alguém que. 1999. por meio dela. a inten- enquanto mistério e paradoxo” ção desta leitura é determinar que assim como Diadorim é (ELIADE. 1999. de um pai que. ou seja. devemos nos ater a um aspecto. 367. ela é oposição a um homem-sujeito. O par Riobaldo/Diadorim é o par sujeito/objeto. 1999. assim. pelo termo alemão da mera “matabilidade” no lugar de um “sacrifício” da vida nua Grund é “discernível unicamente presente no viés profano da obra.44 aspecto Diadorim. Mas é preciso pensar que essa leitura. 1999. A texto de Maria Cecília de Miranda questão da vestimenta relaciona-se à androginia. Florianópolis. esca- gicas. Tal conceito de mulher-objeto é explicativo de uma longa história de gênero que a literatura tanto ajuda a construir como. vê na morte de Diadorim a revelação histórica do princípio quando da alma de Riobaldo. p. 47 ELIADE. nesse é. a coincidentia oppositorum moteia na direção de entender o caráter biopolítico – e. 82). 124. Na tentativa de compreender a necessidade da dução simbólica em que mulhe- res matam homens aparece no morte de Diadorim. A morte é.46 cuja que ele chama uma “fase pré. “ensinam (ver p. na imagem da mulher/morta. ela mesma. É o que faz. for- nece-nos o argumento que permi- dos jagunços. aos homens que a melhor via para se aprender Deus ou a 43 ELIADE. 82. gico que filosófico. a “Donzela do livro A donzela-guerreira. 21(1): 191-207. segundo ele. entra no mundo transcendental47 enquanto morre para a história.43 trata da coincidentia oppositorum. Nogueira Coelho. em Mefistófeles e o andrógino ou o mistério da de Diadorim. intitulado Observada de um ponto de vista político. p. a tentativa da sentido. de Guerreira”41 – Atena aviltada42 – poderá entrar no bando Walnice Nogueira Galvão. 202 Estudos Feministas. observamo-lo sob certos ângulos. realidade última é renunciar [. no entanto. p. nesse caso. 45 ELIADE. apenas 40 Uma visão nova que vem mos. precisa ser incluso no lugar da vítima. patriarcal – da própria literatura enquanto também totalidade que seria a forma da ela é cálculo sobre a vida das mulheres. por exemplo. Mais teoló. mas o símbolo de alguma propõe que se a pense a partir do coisa transcendente. ou filosófico no lugar onde a razão se ocupa da fé Minha intenção não é simplesmente descartar a leitura simbó- e suas manifestações antropoló. filha de um pai sem mãe. aparece morto e. aparece como virgem presente em todos os mitos e ritos que. tardiamente. ver nela apenas a mulher morta.

49 ou seja. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO Diadorim é sagrada tanto no sentido de que é intocável em vida (enquanto jagunço) quanto intocável quando morta justamente porque morta. como afirma Nancy: “abandona-se sempre 2002. Assim é que a representação da morte de Diadorim pode ser interpretada como questão do autoconhecimento de Riobaldo. janeiro-abril/2013 203 . duplicidade do sexo e da própria vida. 21(1): 191-207. ao mesmo tempo que permite sua participação no “bando” dos jagunços (e não pertencer a homem nenhum). 79-81. tendo sido banidos. O disfarce de androginia de Diadorim evita ao longo do texto que ele seja tocado. Ele não pôde entrar como mulher na vida dos jagunços enquanto esteve sempre dele incluída enquanto excluída. embora seja mera vida em relação ao governo e à polícia. condenado ao banimento (a ser abandonado) do direito romano. a uma lei”. A liberdade pela qual Diadorim desejava lutar foi a mesma que faltou às mulheres para que pudessem historicamente dispor de seu corpo. a vestimenta relaciona-se à vida e à participação no bando enquanto ele é a vida qualificada em relação à mulheres. Bando. por sua vez. é a condição biopolítica daqueles que. A indisponibilidade do corpo. nesse sentido. mas por outro ponto de vista é apenas derrota de Diadorim. Justamente o que foi possível a Diadorim enquanto jagunço e homem. Se a morte se justapõe à nudez e define a sacralização (mera vida). jamais tem a si mesma. lançada para fora de qualquer rela- ção): ser matável por qualquer um. tornando-se intangível pela lei e ao mesmo tempo submetido à lei de exceção (à lei fora da lei à qual é abandonado: Diadorim é 49 NANCY citado por AGAMBEN. é o que vem definir o lugar de uma mulher: só tem a si mesma quando morta. sob a forma de uma lei soberana que ele dá – enquanto não sabemos que ele é ela – a si mesmo. Diadorim restou como o camponês do conto Diante da Lei. contudo. ele é excluído pela lei masculina que ele mesmo usou para ocultar seu corpo de mulher – o emblema masculino do jagunço com o qual fez pacto.48 Sacer é aquele que é “sacralizado”. Num contexto patriarcal sua morte se dá justamente no âmbito em que ela não podia sequer identificar-se a si mesma. ao mesmo tempo encontraram um lugar. Florianópolis. que jamais pôde dispor de si mesma. p. Lei que é disfarçada de destino a ser cumprido e que impõe que Diadorim seja vítima de sua própria “soberania”. no entanto. 66. p. 2002. Figura do bando. Como mulher. o que explica bem a condição de Diadorim. Diadorim é. Estudos Feministas. de Kafka. “abandonada”. Dele dependia a saída da vida (enquanto zoé) e participação da vida da pólis. A sacralização de Diadorim tem o sentido do homo sacer – a figura do 48 AGAMBEN. De jagunço vestido a cadáver. enquanto revelação da lei enquanto “estado de exceção”. ou seja. são incluídos pela exclusão.

substantivando-a como “A Mulher”) de Hermógenes – ela mesma uma figura da enganação –. p. mundana e profana que vem revelar a Vênus Urânia sempre representada nua e que. o princípio da beleza-verdade ideal sob as vestes reais: a carne. alegoria da crise da 204 Estudos Feministas. Ela venceu como jagunço. A casa é campo de 51 TIBURI e VALLE. Como o ladrão que rouba o ladrão. A Mulher que dela cuida vem abrandar essa violência e operar a revelação. após um grande exílio na pólis.51 Ainda que Diadorim possa ser interpretada em seu caráter mítico. que operava a enganação do marido. Diadorim representa uma espécie de retorno do feminino ao feminino. a roupa. território dos machos. Sua morte não é como a morte de qualquer jagunço. do feminino ao lar. Florianópolis. pois a narrativa deixa ver que ela morre para os jagunços homens que. O que se estabelece entre as personagens é um ato de comparação. senão sob a inevitável violência da qual ela é vítima.50 53. ao útero. Mulher derrotada em sua luta para ser homem (afinal. 50 vissem Branca de Neve e chorassem a morte da donzela. como morta. em sua aparição iniciática. ao estar vestida. Diadorim teria sido assim encantado na forma de uma mulher. e nessa morte tem toda a sua história de luta – ainda que vença o Hermógenes – finalizada como uma derrota que permanece dialética. a que morre. p. na verdade. 53. Diadorim é. Os jagunços a veem morta como anões que TIBURI e Bárbara VALLE.MARCIA TIBURI O romance é marcado por um impossível que foi experimentado e é narrado por Riobaldo. Réquiem para um jagunço transformado em mulher/morta A aparição do corpo morto de mulher poderia ser lida como algo fantástico. e a guerra que nele se realiza. 21(1): 191-207. imbuídos da sua condição de homens. ou seja. concentração ao qual a “mera vida” é sempre confinada. vem desenganar a outra enganadora. afinal. engana. 2008. janeiro-abril/2013 . que lava e veste seu corpo morto no interior da casa (onde ela mesma esteve escondida e enganando ao próprio marido ao declarar que não gostava dele). o fato de que ela encerre sob suas vestes um segredo não pode sugerir apenas a Vênus Urânia (a nua) que se esconde na Vênus Pândemos (a vestida). Porém. ao oikos. Mas também aquela. Diadorim não decidiu mostrar sua nudez e dispor dela) e mulher que foi revelada. mas esse segredo não é revelado por ela mesma. a veem morta. para além da brincadeira. mas perdeu – e duplamente – como mulher. vivendo em grupo. A Mulher do Hermógenes representa a própria Vênus Pândemos. à sua revelia. É algo da ordem de um segredo que a revela mulher. Diadorim é. Abandonada à Mulher (Rosa escreve essa mulher com M maiúsculo. 2008. a Mulher.

a revelação que obriga a retornar e reler o romance. escamoteamento da verdade que se dá a ver como num susto em que “às 52 HANSEN. Diadorim. Nesse caso. Essa que lhe permitia justamente ter outro tipo de vida do que aquele que “caberia” a uma mulher.52 Como tal. p. homem-travestido-vivo por oposição à mulher-nua-morta. exposto na fala explícita de Riobaldo. DIADORIM: BIOPOLÍTICA E GÊNERO NA METAFÍSICA DO SERTÃO identidade dos sexos em que o feminino aparece apenas como negativo. no tempo da morte. na verdade. Falamos aqui de conceitos. como homem que foi. assim. Porque uma mulher se torna homem – ser que vive livremente na vida pública – ao negar-se como mulher. janeiro-abril/2013 205 . nem mulher. Em termos patriarcais. ou seja. mulher que – ao se revelar morta – se revela também a enganação como potência da mulher e a negação de sua corporeidade de mulher. mas não no sentido de uma mulher viva vestida de jagunço. objeto no sentido de coisa dessubjetivada. mas porque o próprio desejo homosexual uma vez reconhecido. na hora de sua morte. morta. Eis que então a mulher é morta mesmo que ela tenha sido sempre um homem. pode mesmo valer como verdade em um nível metalinguístico e simbólico. 131. 2000. claras dá-se o oposto”. Dentro de casa. a mulher como aparição – corpo morto. posto debaixo de nossos olhos de leitores. e sim de um jagunço que ocultava uma mulher enquanto revelava uma não-mulher. 21(1): 191-207. mas antes não- mulher enquanto homem e não-homem enquanto mulher. Diadorim mesmo não é esse negativo senão por ser objeto da fala de Riobaldo e. A negação é simbolicamente uma morte. Ainda que. E que essa morte é só o desfecho de uma vida em que Diadorim mesmo se negou como mulher. Na experiência de sua vida espelhada na ordem à qual busca pertencer. A vida pública é “coisa de homem” e implica a morte da mulher. a morte é sempre “coisa de mulher”. Diadorim seria posta em crise da sexualidade. por sua vez. posto que a mulher/morta é já a mulher negada. sua disponibilidade sobre si mesmo. Diadorim é. sua autonomia. fantasma de um passado não revelado. se uma mulher estiver ali na condição de heroína é. nesse aspecto. não poderia jamais ter sido realizado. De quem perdeu sua potência de sujeito. Florianópolis. de repente. ao final. seja. a mulher aparecida de entre as vestes do homem é o que assusta não apenas porque um desejo estaria agora autorizado a ter se realizado no passado. nem homem. De Diadorim também podemos dizer que ele tanto se torna mulher quando está morta quanto é negado como mulher ao estar morta. mais cedo Estudos Feministas. foi ao mesmo tempo sempre uma mulher negada e. como corpo-cadáver. Diadorim como mulher estaria morta desde o começo: o emblema da mulher/morta. para começo de conversa. é no texto que uma mulher tem que morrer. sem apego a qualquer ideia de natureza revelada.

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