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Noções introdutórias sobre a ética

das virtudes aristotélica 3
Introductory notions about the
Aristotelian virtues’s ethics

Idalgo J. Sangali*
Jaqueline Stefani**

Resumo: Não é possível ter pleno desenvolvimento da virtude moral e,
consequentemente, uma boa educação sem entender o uso da razão e dos
recursos metodológicos que orientam à ação moral. A partir de conceitos da
ética aristotélica, seu método e sua finalidade, o objetivo deste estudo é
apontar à necessidade de compreendê-los adequadamente para poder indicar
possíveis contribuições para o debate em torno da necessidade de formação
moral e ética nos ambientes educativos. “Saber viver”, para além do
conhecimento científico e mesmo do conhecimento do bem, significa
desenvolver habilidades de deliberar bem, de escolha acertada no rumo da
vida, visando sempre ao melhor dos bens: a felicidade. Isso exige entender a
estrutura e as funções das partes anímicas responsáveis pelo ato moral da
proposta aristotélica, cuja tarefa da filosofia prática é ensinar a “agir bem” e
tornar os homens bons e virtuosos e, consequentemente, verdadeiros cidadãos.
Palavras-chave: Ética. Virtudes. Sabedoria prática. Método. Educação.

Abstract: It is not possible to have full development of moral virtue and,
consequently, a good education without understanding the use of reason
and methodological resources that guide to moral action. From concepts of
Aristotelian ethics, his method and purpose, the aim of this study points
out to the need to understand them properly in order to indicate possible
contributions to the debate on the need for moral and ethical educational
environments. “Living well” beyond the scientific knowledge and even the
knowledge of good, means developing skills to deliberate well, to choose
wisely on the path of life, always seeking the best of goods: happiness. This

*
Doutor em Filosofia. Professor na Universidade de Caxias do Sul (UCS).
**
Doutora em Filosofia. Professora na Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Conjectura, v. 17, n. 3, p. 49-68, set./dez. 2012 49

requires understanding the structure and functions of the parties responsible
for the psychic of the proposed Aristotelian moral act, whose task is to
teach practical philosophy of “doing well” and make men good and virtuous,
and consequently, true citizens.
Keywords: Ethics. Virtues. Practical wisdom. Method. Education.

Considerações iniciais
Dilema morais e situações manifestas de violência e corrupção causam
diferentes reações nas pessoas. Da ideia superficial de que, no processo
educativo, não se estuda ética, pois é uma mera questão de caráter pessoal e
moral de predomínio familiar ou, então, da constatação de que parece
haver “lacunas” ou desinteresse pela formação ética na proporção inversa ao
enfoque cognoscitivo-epistemológico de assimilação e produção de
conhecimento nos ambientes educacionais, urge a necessidade de que as
questões vinculadas à ação humana sejam abordadas. Tal abordagem, se
feita com certa propriedade e coerência, requer subsídios teóricos e
metodológicos. Nesse sentido, um estudo das diferentes propostas éticas
produzidas por filósofos e que constituíram a história da filosofia torna-se
importante fonte balizadora para tais questionamentos. Por exemplo, a
concepção de viver bem ou ser feliz que figura em modelos éticos do tipo
aristotélico, certamente não se restringe à aquisição de um bom emprego e
dinheiro.
Quando um tema como a ética emerge com força na vida cotidiana,
tornando-se um problema socioeducacional, ele passa a atrair a atenção
tanto dos leigos quanto dos especialistas. A violência, a corrupção, a perda
dos valores, etc. são sintomas de que a esfera da moralidade está doente.
Uma das formas de contribuir para iniciar a possível superação dessa
enfermidade da alma é a reflexão ética.
Quando usamos conceitos como bem, mal, virtude, liberdade, dever,
felicidade, justiça, entre outros, é preciso ter uma adequada reflexão teórica,
através de uma análise crítica dos conteúdos morais, que devem ser
metodologicamente trabalhados e ensinados. Tais conteúdos morais estão
presentes no fazer tanto científico quanto na vida cotidiana. Para fazer uma
reflexão crítica radical, é preciso conhecer ao menos alguns dos modelos
éticos e, principalmente, responder à pergunta: qual concepção de homem
está impregnada em nosso pensamento e qual é a concepção de humano
que almejamos?

50 Conjectura, Caxias do Sul, v. 17, n. 3, p. 49-68, set./dez. 2012

seguindo exemplos e conselhos. também. “fazer” ética tomando consciência dos pressupostos ético-metafísicos. O caráter é construído na convivência familiar e na social. p./dez. na interação com o meio. antropológicos e metodológicos que condicionam o agir moral – além de decidir e escolher com liberdade e autonomia a melhor alternativa de ação na perspectiva do bem comum – passa a ser tarefa discursiva restrita a alguns poucos filósofos. 17. psicológicas ou religiosas que tentam explicar a questão ética. set. levando em conta o tipo de relação existente entre os homens. mas estudar teorias éticas. via senso comum. falta reflexão. produzir textos de caráter didático e de leitura complementar caracteriza-se como uma alternativa positiva que visa a introduzir e auxiliar os estudantes. e as pessoas. refletir. 49-68. ou seja. para uma melhor compreensão das ideias dos clássicos e. n. Infelizmente. para os outros. o tipo de método mais adequado ao seu estudo e a própria estrutura da alma. passando pela experiência cotidiana de tomar decisões com consequências morais. até certo ponto. não têm posição firmada sobre o que é ética e o que é moral e confundem ambas com os códigos de ética profissional ou atitudes moralizantes. deficiente de habilidades argumentativas. Existem muitas abordagens sociológicas. principalmente na esfera ético-política. em geral. em geral. boas e justas na perspectiva da ética aplicada aos diferentes campos das atividades tecnocientíficas necessita de subsídios e orientações conceituais que o discurso ético-filosófico disponibiliza. Usa-se dessa familiaridade e da consciência dessa forma de saber para justificar a premissa de que “qualquer um pode e sabe falar de ética”. De certo modo. aprimorar a reflexão como condição para uma ação mais justa e cidadã em seu cotidiano. destituído de fundamentação teórica. em geral. Uma das características dos estudantes de nosso tempo é a pouca leitura e a ânsia por uma formação meramente técnica. Como sujeitos que constroem o caráter desde a infância (é suficiente recordar aqui do processo de formação da consciência moral explicitado por Piaget e Kohlberg) construímos um tipo de saber prático comum. consequentemente. 3. educadores e estudantes de filosofia. O objetivo geral deste estudo está em explicar e analisar alguns dos principais conceitos e argumentos das propostas éticas do filósofo grego Aristóteles. A própria eficácia de tomar decisões acertadas. A Conjectura. As derivações disso exigem a análise de algumas das principais categorias da ética aristotélica. Por isso. 2012 51 . v. a maioria das pessoas sabe ou ao menos supõe que sabe o que é o bem e o que é o mal para si mesmas e.

Aristóteles caracteriza duas disposições da alma nas quais há um princípio racional: a calculativa.abordagem será limitada em torno de alguns conceitos e passos da reflexão aristotélica. então. sem adentrar no tratado das virtudes morais. a mais perfeita e completa de todas. cuja contemplação se embasa em coisas de causas variáveis. 2012 . (EN VI 3. o que. instigante. conhecer” e que abre a Metafísica aristotélica é. A científica compreende a ciência (epistheme) e a sabedoria filosófica (sophia). o discernimento./dez. Caxias do Sul. A calculativa. compreende a arte (techne) e a sabedoria prática (phrónesis). também chamada de discernimento ou prudência. A ética no quadro geral da reflexão filosófica aristotélica A sentença antropológica: “Todos os seres humanos desejam. A primeira visa à produção de algo. porém não é ela a responsável pela aquisição de tais princípios. Temos. A originalidade de Aristóteles em propor o primeiro tratado sistemático e científico de ética. no pensamento de um pagão como Aristóteles. 1139b. e a segunda tem a ação por finalidade. a ciência. precisamente. set. 2-4). Todavia. Tal estrutura pode ser visualizada na seguinte figura: 52 Conjectura. sem dúvida. focado num ideal de felicidade que é o elemento atrativo para um agir orientado que possibilite conduzir-se bem e ir bem na vida. 49-68. parece sugerir uma leitura diferente do que seja uma vida ativa e política. todo cristão sabe. que “são cinco as disposições em virtude das quais a alma alcança a verdade por meio da afirmação ou da negação: a arte. ou deliberativa. Isso. por natureza. 3. v. Tal sentença é assumida pela tradição e retomada por São Tomás de Aquino como um princípio ontológico essencial cuja ânsia humana pelo saber só poderá atingir a sua plenitude na vida transcendente. A sabedoria filosófica. a sabedoria filosófica e a inteligência”. n. a contemplação de coisas cujas causas são invariáveis. e a científica. A ciência é aquela disposição da alma que nos torna aptos a demonstrar. partindo dos primeiros princípios. 17. p. especialmente quando confrontada com nosso contexto socioeducacional. em geral. que nos são facultados pelo intelecto intuitivo ou inteligência (nous). todos desejam conhecer e como se obtém tal conhecimento? No Livro VI da Ética a Nicômacos (EN). se compõe da junção da ciência com o intelecto intuitivo.

mecânica. p. óptica e harmônica)./dez. e produtivo ou poiético (faz ou produz algo). set. Outra forma canônica de dividir as esferas de conhecimento em Aristóteles é através da tripartição: teórico (busca a verdade). Conjectura. meteorologia. 17. O conhecimento teórico compreende a matemática pura (aritmética e geometria). 49-68. náutica. psicologia. a economia. a medicina e os diversos tipos distintos de trabalhos manuais. ontologia e teoria dos princípios do pensamento). O conhecimento prático compreende a ética. a política. zoologia e botânica) e a filosofia primeira (teologia filosófica. 3. a matemática aplicada (astronomia. 2012 53 . n. a física (cosmologia. v. prático (realiza ações). É o que pode ser visto na figura 2. O conhecimento produtivo compreende a poesia.

a partir delas. 2012 . (Metafísica./dez. demonstrativo. para aqueles que as 4 Na abertura dos Tópicos. 15). set. Aristóteles não menciona o silogismo retórico.1 semelhante ao dialético. quando parte de premissas que são opiniões reputadas. daquilo que é. “inicialmente. 995a. que “não se deve exigir em todos os casos o rigor matemático”. do fato – aquele que se obtém por sensação. 1094b. e a segunda. aceitas por todos. Várias são as sentenças que corroboram tal ideia de pluralidade aristotélica. Tal menção foi feita levando-se em consideração as demais obras do filósofo. apenas assinalam o fato de ele ser quente”. são incompletos. os instrumentos de conhecimento dos particulares. os silogismos retóricos.” (EN I 3. “Da mesma forma que é insensato aceitar raciocínios apenas provável [sic] de um matemático e exigir de um orador demonstrações rigorosas. pela maioria ou pelos mais sábios. faculdade responsável pela apreensão das essências ou definições que servirão de premissas aos silogismos demonstrativos. para obter uma aceitação e um impacto maior. v. entretanto não nos dizem o porquê de nada: não dizem. por exemplo. A experiência é a responsável por traçar o caminho que conduzirá cada ciência aos primeiros princípios por meio da razão intuitiva. Caxias do Sul. e vários são os livros em que Aristóteles as expõe. outra diferente se deduz. enquanto a arte é conhecimento dos universais”. Pode-se perceber aqui a primeira evidência. por que o fogo é quente. 981b. á 3. são-nos evidentes e claras sobretudo coisas confusas: depois. “a experiência é conhecimento dos particulares. às vezes. “de fato. o raciocínio ou o argumento como algo em que. Aristóteles nomeou “conhecimento do que” – da coisa. por meio de um único método. n. A 1. dialético. por excelência. aos universais. quando parte de premissas verdadeiras e primeiras que geram convicção por si próprias. e outra distinta é saber o porquê de algo. e iii. 10). 3. ii. A primeira diz respeito aos particulares. (Metafísica. 49-68. Aristóteles abre os Tópicos definindo o conhecimento. Há diferentes tipos de conhecimento. da causa da coisa em questão ser o que é – ao conhecimento científico. se as sensações são. em Aristóteles. dentre eles se destacam os conhecimentos: i. estabelecidas certas coisas. 54 Conjectura. porém. 25-28). por observação empírica e “conhecimento do porquê” – da razão. 17. parte de premissas que são prováveis. A 1. 15). 981a. p. acerca do conhecimento e de suas distinções: uma coisa é saber algo.A questão do método na ética O conhecimento não se obtém de um único modo. (Metafísica. ou ainda. retórico.

de a ética ser um tipo de conhecimento universal. sem cair em um relativismo absoluto. a ética é uma ciência apenas esquemática. além de uma intenção prática. por exemplo. en passant. conforme o próprio Aristóteles (EN I 7. Tendo o esboço ou esquema. 1094b. pois estão no âmbito da contingência. 184a. não em si. algumas considerações metodológicas nos três primeiros capítulos do Livro I e as renova no sétimo capítulo (1098a) e no início do Livro II (1104a). ou seja. que trabalha com o nexo causal necessário e universal. embora tenha. Como o pensar começa com o conhecido. em sentido estrito. através dos critérios práticos. isto é. p. (EN I 3. da contingência. em oposição à filosofia teórica. As regras da razão prática são diferentes das regras da razão teórica. não deve pretender alcançar a clareza e a exatidão como nas ciências matemáticas. então. As questões práticas são orientadas pelo princípio de que “nossa discussão será adequada se tiver a clareza compatível com o assunto. No âmbito do dever-ser. Antes de partir para a investigação ética propriamente dita. as causas e os princípios morais forem buscados e apresentados como esquema ou esboço que deve ser completado pela razão prática (phrónesis) na consideração de cada situação específica particular. Aristóteles introduz. 3. 49-68. que Aristóteles faz uma ética como filosofia prática. embora limitada. mas isso não afasta a possibilidade. relativa de exatidão. set. da liberdade. as regras não podem ser rígidas e exatas.discernem. preenchê-lo a partir das situações particulares e concretas. é possível o uso de um tipo de silogismo prático. 11). a possibilidade de um estudo da ética só é possível na medida em que a estrutura./dez. Cabe ressaltar aqui. O comportamento e o agir moral modificam-se. englobando o social e o político. é razoável pensar no agir prático a partir de um pré-saber ou de uma pré- compreensão. v. 21). I. (EN VI 5. Não dá para usar o silogismo teórico como nas ciências. 2012 55 . 1140a. 24-35). Contudo. Esse é o subsolo no qual as raízes da ética se encontram enterradas e sem o qual não é possível compreender o ponto de Conjectura. tornam-se conhecidos os elementos e os princípios”. (Física. Há uma concepção não absoluta. pois não se pode aspirar à mesma precisão em todas as discussões”. mas para nós. 17. n. demonstrar cientificamente. 21). Como filosofia prática. Desse modo. isto é. também um aspecto teórico. 1098a. dentro de sua especificidade e singularidade. A partir de particulares se extrai o universal por meio da razão intuitiva para. necessário e coerente. considerado pelo viés metodológico da analogia. do próprio conhecimento prático cotidiano adquirido mediante uma boa formação. na Ética a Nicômacos. cabe ao agente.

Mas a orientação metodológica assentada na análise e no estudo da experiência pré-filosófica expressa na própria linguagem ordinária e.1095a. 1995. está em condições de discutir os assuntos “referentes à ciência política” e. Caxias do Sul. encontramos um tipo de conhecimento geral ou típico. portanto. ou seja. (EN I 3. talvez. então o critério metodológico deve ser buscado em um tipo de conhecimento advindo da experiência ordinária e de acordo com as opiniões reputadas [endoxai]. 4./dez. set. v.partida e os critérios. dos quais são extraídos os critérios do meio-termo [mesótes] e o da reta razão [orthós logos]. p. 17. apontando para as duas principais candidatas à vida eudaimônica. introduz a tematização do fim último do homem e a sua mais alta virtude mediante a sua função específica. ao movimento. n. Essa mudança. já que não é possível pela dedução do silogismo teórico. nas opiniões reputadas [endoxai]. 1. Nesse caso. ao contingente. que pode ser fundamentado pela argumentação articulada. o que é mais importante. ou princípios. identificados como excelentes ou virtuosos – phrónimos –. na esfera do intelecto ou entendimento. que se distinguem. 2012 . 3. o tipo de vida correspondente à felicidade. que tem como função sublime a contemplação filosófica. Desse modo. que vai caracterizar a maior parte do conteúdo do Livro I e do X. Nas opiniões habituais dos homens instruídos. 1095a. para Aristóteles. 523). 49-68. Parece haver um duplo procedimento metodológico. Como a ação humana está sujeita à transformação. não é a única. 8-30). buscados e trabalhados por Aristóteles. A dificuldade está em saber qual é. agir eticamente e não se restringir ao conhecimento teórico da ética. É a vida da prática das virtudes políticas ou a vida contemplativa ou. pois no sétimo capítulo (1097b e 1098a) Aristóteles parece interromper e abandonar os primeiros passos até aqui sugeridos e adotar um novo ponto de partida metodológico em direção à definição da eudaimonia. quem tem mais experiência e “adquiriu bons hábitos em sua formação” (homem instruído e não o jovem inexperiente ou as pessoas com falta de controle. (DÜRING. “fraqueza da vontade” [akráticas]). a união de ambas numa única concepção de felicidade? 56 Conjectura. é identificada por Aristóteles uma instância normativa nas experiências da vida prática através dos juízos de alguns poucos homens. além de “bom juiz de tais assuntos”. p.

1986. mais precisamente. set. tal é o melhor dos bens. n. Independentemente de ser a prática das virtudes políticas ou a vida dedicada à investigação teorética dos primeiros princípios e das causas do ser como ser e das coisas divinas. desse modo. ele parece oscilar entre as duas formas de vida. o sumo bem. e outros são as próprias atividades. v. 17. A partir dos modelos ideais de felicidade existentes em seu tempo. ou ainda. entre os bens. avaliar o próprio papel do processo educativo. são decisivos para compreender os critérios do agir moral. nos próprios hábitos morais. A vida dos prazeres é rapidamente descartada em sua compreensão do que é a felicidade ou vida boa [eudaimonia]. a prosperidade [eudaimonia]. de virtude e de felicidade Após Aristóteles definir as estratégias metodológicas. 165). Restam duas formas de vida ou dois caminhos possíveis de se realizar nessa busca pela eudaimonia: a prática das virtudes políticas do cidadão na cidade-Estado [pólis] e o exercer contemplativo direcionado às coisas mais excelentes e divinas possíveis ao saber teorético humano. É a descoberta do verdadeiro objeto da ética. três candidatas para serem a vida feliz são consideradas e analisadas por Aristóteles. isto é. 3. mas não deixa dúvidas de que quem escolhe a vida política em vista das honras não pode ser levado a sério como homem feliz. no âmbito das virtudes morais. isto é. Todavia. nesse ponto. 49-68. o discernimento [phrónesis] pode tornar o homem feliz? No que propriamente consiste a vida virtuosa na Ética a Nicômacos? A prática ou o exercício habitual das virtudes morais é suficiente para ser virtuoso e feliz? A pergunta básica é: o que eu devo fazer para viver uma vida bem-sucedida. Aristóteles introduz o conceito de agathón [bem] ou [bom] nas chamadas virtudes éticas [ethois aretaí]. (ARANGUREN. o alcance da proposta ética aristotélica e a própria ideia de vida feliz e. o fim que é desejado por si mesmo. o filósofo inicia expondo que todas as coisas visam a um bem. e esse é identificado por todos como sendo a felicidade ou vida boa. a grande questão é de que modo a sabedoria prática ou prudência. No passo seguinte. p. 2012 57 . os fins são diferentes: alguns são produtos das atividades. Se considerarmos o texto da Ética a Nicômacos. atestando que. O filósofo busca. Aristóteles afirma que Conjectura. Aristóteles definirá em que consiste tal tipo de vida. e que o bem é aquilo para o qual todas as coisas tendem. o homem busca o bem supremo./dez.Em busca da definição de bem. ou ainda. melhor dos bens e virtude com o bem. Ainda no Livro I. bem. ele vincula os conceitos de fim. p. feliz? Entender essas questões e perceber em que medida a parte racional da alma participa da parte irracional.

A felicidade é descrita como: i. o primeiro princípio da sabedora prática. do tipo aristocrático. é necessário considerar a ligação estreita entre o conceito de virtude [areté] e o conceito de bem ou bom [agathón] inseridos na estrutura ontológica tripla da dimensão ética humana que visa a bens objetivamente identificáveis: a tendência desejante ou almejante. Ela é uma disposição habitual. os atos nobres. n. v. Sempre lembrando que o télos que motiva todo e qualquer tipo de busca é a felicidade [eudaimonia]. areté não tinha uma conotação moral. o melhor]. divergem sobre o que ela é. mas uma disposição [diáthesis] que se consolida no agente moral pelo desenvolvimento de uma capacidade [dinamis] e pelo exercício. A felicidade é buscada por si mesma e não no interesse de outra coisa. Por outro lado. uma atividade da alma conforme a virtude. isto é. Depois. Para melhor entender a proposta aristotélica da prática das virtudes na pólis. virtudes como a honra e o prazer só são desejadas tendo em vista a felicidade. p. qualidade de ações ou resultados de ações e funções específicas da essência natural de cada ato. como atividade [enérgeia]. dos dez livros do texto da Ética a Nicômacos.todos os homens concordam que o sumo bem é a felicidade. Em outras palavras: o desejo humano pela felicidade é uma tendência natural e racional e que deve ser exercida pela função própria do homem. implica um ato de deliberação [bouleusis] e de escolha deliberada [proaíresis] dos meios mais adequados para chegar a um fim [télos] posto pelo desejo [epitumía/boulesis]. ii. heroicos. mais virtuoso] e áristos [excelente. ente. excelência. 2012 . como descrito em Hesíodo. autossuficiente e como finalidade da ação./dez. dessa mesma capacidade. racionalmente. 49-68. Embora o tema principal da abordagem aristotélica seja a felicidade. 58 Conjectura. A virtude estava atrelada à prática de certas atividades humanas consideradas excelências. Etimologicamente. iii. ou produzido pelo homem pelo seu próprio esforço e trabalho. um hábito [éksis] voluntário. (EN II 5. passa a significar bondade. entretanto. Define que a virtude [areté] não é emoção ou faculdade. e um homem pleno e feliz era entendido como o perfeito exercitar de todas as suas capacidades humanas. como a valentia do guerreiro. isto é. Caxias do Sul. 3. a tendência natural e a tendência racional. o objetivo e o fim ao qual a boa deliberação visa. set. 1105b). No seu sentido primário. algo absoluto. 17. mais de dois terços da obra tratam das virtudes humanas. areté tem parentesco com o comparativo e o superlativo de agathós (bem ou bom) que é ameínon [melhor. herdados da tradição homérica.

disposição esta consistente num meio termo (o meio termo relativo a nós) determinado pela razão (a razão graças à qual um homem dotado de discernimento o determinaria). para controlar nossas paixões [pathé]. Logo. 1-7). mas não é uma medida exata equidistante entre os extremos e. n. II 5. O ato de evitar os vícios ocorre na medida em “que devemos tornar-nos justos. na concretização habitual de um agir moralmente orientado. O indivíduo reconhece o fim mediante a indução e a educação. 49-68. que “em grande parte [. 15) sobre a parte apetitiva da alma. 24).. Conjectura. 1109b). O costume e as normas sociais estabelecidas na comunidade fornecem o material para formalizar os conteúdos a serem louvados ou censurados na perspectiva moral. 1106ª. As tendências da parte apetitiva da alma. por parte dos indivíduos inseridos na comunidade estamental. Aristóteles é claro ao definir que virtude/excelência é uma disposição da alma relacionada com a escolha de ações e emoções. (EN II 1. (EN I 12. isto é. Há uma ordenação hierárquica dos fins e das virtudes morais. 1101b. a excelência moral é um meio termo. a definição que expressa a sua essência. “nem por natureza nem contrariamente à natureza a excelência moral é engendrada em nós. moderados. A possibilidade de vida das virtudes políticas está diretamente ligada à realização das virtudes intelectuais. 1103a. tanto em nível individual como em nível social. Trata-se de um estado intermediário. enquanto a excelência moral encontra e prefere o meio termo. (EN II 6. a respeito do que ela é. dependendo do caso e das circunstâncias. set. ou seja. mas a natureza nos dá a capacidade de recebê-la e esta capacidade se aperfeiçoa com o hábito”. porque nas várias formas de deficiência moral há falta ou excesso do que é conveniente tanto nas emoções quanto nas ações./dez. 3.. (EN II 4. 14). mas com referência ao que é melhor e conforme ao bem ela é um extremo. na atualização das virtudes morais. Para Aristóteles. 17.] deve tanto o seu nascimento quanto o seu crescimento à instrução (por isto ela requer experiência e tempo)” (EN II 1. praticando atos justos e. III 1. 1103a. que participa de certa forma da razão. para o prazer/dor devem ser moldadas e não suprimidas. 1106b. v. 2012 59 . Cada virtude está no meio de dois vícios. enquanto ele se exercita no cumprimento de boas ações. p. a virtude [areté] é definida como certa propriedade disposicional humana atualizada pelo hábito de praticar ações boas. praticando atos moderados”. aquilo que deve ser feito e o correto pode estar mais próximo de um dos extremos. 1105b. assim como a subordinação do corpo aos ditames da alma racional. o hábito formador do caráter. Nesse sentido.

. isto é. justa e moralmente. também. 17. Aristóteles distingue duas espécies de excelência. 2012 . 8-16). [. ou virtude: as intelectuais (ou dianoéticas). 1144b. Lembrando que é a sabedoria prática [phrónesis] que delibera. O que deve ser observado aqui é que as virtudes morais. [. e esta última pressupõe discernimento. 49-68. e essa capacidade se aperfeiçoa com o hábito. ou seja. pois sabe. Elas não existem em si. que são a excelência moral natural e a excelência moral em sentido estrito. e as morais (ou éticas). Caxias do Sul. e a disposição que antes tinha apenas a aparência de excelência moral passa a ser excelência moral em sentido estrito. 1103a. na medida em que temos naturalmente a capacidade de ser virtuosos e de aperfeiçoar essa capacidade natural pelo exercitar habitual... na parte moral também há dois tipos. que dependem do hábito e são disposições de nossas emoções que nos ajudam a responder corretamente a situações práticas. n. adquirimo-las por havê-las efetivamente praticado”. não são qualidades inatas.. mas sem a razão elas podem evidentemente ser nocivas. A distinção entre esses dois modos de ser virtuoso. set. (EN II 1. 3. o que é bom e justo. o outro indivíduo age. Portanto./dez. [. É o que Aristóteles afirma no fim do Livro VI: De fato. que dependem da instrução (experiência e tempo) e permitem conhecer a verdade.] Mas se uma pessoa de boa disposição natural dispõe de inteligência passa a ter excelência em termos de conduta. na prática. até as crianças e os animais selvagens possuem as disposições naturais. da mesma forma que na parte de nossa alma que forma opiniões há dois tipos de qualidades. só se constituem em nós pelo hábito. enquanto um indivíduo age moral e justamente conforme o hábito ou costume de fazer aquilo que deve ser feito.] mas a natureza nos dá a capacidade de recebê-la. a virtude moral proveniente do simples hábito e a virtude moral adquirida por hábito e guiada pela razão. Ficam evidentes os dois modos de virtude moral. p. (EN VI 13. Assim. independentes do homem e. que são o talento e o discernimento. também. é que. 18).] todavia. embora possamos falar de uma capacidade recipiente em potência e de diferentes modos de sermos virtuosos. v. diante da possibilidade de serem tomadas como naturais. porém com a efetiva participação da virtude intelectual prática. de certo modo. como virtude moral natural ou virtude moral própria ou em sentido estrito.. calcula a partir 60 Conjectura. “nenhuma das várias formas de excelência moral se constitui em nós por natureza..

a ação moral passa a ser plenamente conduzida pela razão prática. porém. sendo condição de possibilidade do ato moral. conforme apresentadas por Aristóteles no fim do Livro I da Ética a Nicômacos e explicada no Livro VI e. de argumentos e princípios práticos. A parte racional e a parte emocional. 28). melhor perceber suas funções e o tipo de relação entre elas. são diferentes partes de nossa alma e. Nesse caso. diz o Estagirita. v. Esse domínio ou comando racional sobre as emoções revela a habilidade e a função da sabedoria prática que permite identificar e saber o modo correto e justo de nos comportarmos. Conjectura. pela sabedoria prática ou prudência. há plena consciência ou saber no escolher deliberado sobre aquilo que se está fazendo. Quem pratica um ato moralmente virtuoso e. 2012 61 . 1105b. portanto. especialmente a phrónesis. através da persuasão. em terceiro lugar sua ação deve provir de uma disposição moral firme e imutável. em sentido estrito. São necessários alguns pré-requisitos para praticar a virtude moral propriamente dita. através da cooperação das demais virtudes intelectuais./dez. set. estão na forma ou no modo de agir. O movimento restringe-se ao âmbito da ação moral. dos motivos. Aristóteles introduz o conceito de persuasão para estabelecer o nexo causal entre as duas partes da alma. com a pretensão de persuadir nossa faculdade apetitiva através das razões da sabedoria prática [phrónesis]. Mas a virtude intelectual da sabedoria prática atua. É possível representar graficamente (figura 1) a estrutura da alma e suas partes. assim. garantido pelo caráter moldado para o bem que só visa ao melhor dos bens. deve estar em certas condições quando as pratica. não se sobrepõem. emotiva. em segundo lugar ele deve agir deliberadamente. A diferença e a passagem de um agir virtuoso natural para um agir propriamente moral. 17. com a parte irracional (apetitiva e sensitiva). ou sensitiva. voluntário e com conhecimento de causa. 3. em primeiro lugar ele deve agir conscientemente. (EN II 4. n. em geral.de razões. 49-68. p. a atualizar a virtude moral em sentido estrito. Essa visa. e ele deve deliberar em função dos próprios atos. a virtude perfeita. sobre a parte irracional. isto é. dos porquês de tal ato. Ao dar conta das razões. como virtudes.

Figura 1 – Estrutura da alma e suas partes 62 Conjectura. 17. p./dez. set. n. 3. 49-68. Caxias do Sul. v. 2012 .

Quando Aristóteles fala da excelência moral como disposição relacionada com a reta razão. O hábito de praticar boas ações vai constituindo nosso caráter moral que. que. Nesse caso. 2012 63 . ocorre a relação entre a sabedoria prática (5). por sua vez. entendido como virtude não pode ser concebido na perspectiva dos desejos. 17. a deliberação e a decisão para o bem. 3. receber e ouvir bons conselhos racionais sobre a vida que deve buscar realizar. Na escolha e na decisão moral. vão constituindo nossas personalidades na medida em que somos educados e que fazemos nossas escolhas e ações ao longo da vida. 24-26). 1144b. Como a parte racional atua sobre a irracional? Aristóteles responde que é por persuasão. “pois a excelência moral não é apenas a disposição consentânea com a reta razão. ele insiste que não é apenas uma relação disposicional racional conforme o discernimento./dez. o homem é possuidor de um desejo mal-orientado sem uma dimensão estética e ética. (EN VI 13. n. ela é a disposição em que está presente a reta razão. desde o nascimento. e o discernimento é a reta razão relativa à conduta”. Para Aristóteles. e a parte apetitiva. que pertence a faculdade prática “calculativa”. Resume sua posição contrária a Sócrates ao Conjectura. O agir voluntariamente. Há algo mais: os elementos irracionais devem estar sob o domínio do racional. pela força do hábito bem-conduzido e orientado no seu exercitar. set. a partir desse desejo deliberado. poder decidir adequadamente e. não havendo abertura para a prática de boas ações. 49-68. deverá expressar sob as orientações da razão as escolhas e respostas emocionais corretas e justas para alcançar uma vida boa e feliz. moderando seus desejos. É preciso agir com razoável conhecimento das circunstâncias para. que pertence à parte irracional da alma. tornando-se um incontinente. assim. só é bem-sucedida naquele que tem uma pré-disposição bem- orientada para o bem. O papel da virtude intelectual da sabedoria prática [phrónesis] é justamente a de atuar sobre essa parte da alma visando a orientar a escolha. boas razões. É um tipo de desejo bem- orientado. torna-se continente. Porém essa relação de dominação interna via argumentos. A responsabilidade pelas ações e decisões está diretamente ligada à questão da vontade racional. poder agir de modo correto e justo. a atuação por persuasão não é eficaz naquele homem que teve desde a infância uma formação de modo vicioso de sua sensibilidade. p. Tem que haver uma abertura às virtudes de caráter que. das intenções ou das decisões improvisadas e momentâneas. O desejo corretamente orientado é fruto da prática habitual das virtudes morais. v. desejante (a).

” (EN VI 13.dizer que as várias formas de excelência moral pressupõem a manifestação da razão e conclui que sem o discernimento não é possível ser bom no sentido próprio da palavra. 20). Caxias do Sul. por sua vez. em última análise. set. pois a virtude é. Isto é bastante para determinar que a situação intermediária deve ser louvada em todas as circunstâncias. porque ele emite ordens acerca de todos os assuntos da cidade. pois assim atingiremos mais facilmente o meio termo e o que é certo. e a virtude é o ato de fazer o ato bom. antecipando o conteúdo do Livro X da Ética a Nicômacos. a mera tradição não pode ser o critério para o bem e o mal. tende a ser um critério vazio e relativista. Existe um critério para orientar a escolha e a decisão à ação moral? Na teoria aristotélica. nem é possível ter discernimento sem a excelência moral.. (EN VI 13. é possível encontrar vários critérios. [. O meio-termo deve ser uma medida moral. p. porque provém da virtude. da mesma forma que não o será sem a excelência moral. o segundo apresenta-se como circular. fazer o que é conveniente. o de ser prudente. 2012 . sobre a parte mais elevada de nosso intelecto” e justifica dizendo: “Sustentar o primado do discernimento equivaleria a dizer que a ciência política comanda até os deuses. 1144b. A solução do meio-termo equidistante dos extremos também não convence Aristóteles. pois o ato é bom. afirma: Mas não é fácil determinar racionalmente até onde e em que medida uma pessoa pode desviar-se antes de tornar-se censurável (de fato. No primeiro. para determinar o que é um ato virtuoso ou vicioso. nada que é percebido pelos sentidos é fácil de definir). justa e boa. pois o discernimento determina o objetivo e a excelência moral nos faz praticar as ações que levam ao objetivo determinado. alerta que “o discernimento não tem o primado sobre a sabedoria filosófica. 1109b. Por exemplo. tanto a sabedoria prática [phrónesis] quanto a virtude [areté] revelam-se insuficientes. No entanto. e a decisão depende da percepção. Nos assuntos de moral. Logo. e às vezes no sentido da falta. 55). n. usar um critério quantitativo não é adequado. e. 17./dez. v. 49-68. 31-49).] A escolha não será acertada sem o discernimento. No fim do Livro II.. mas que às vezes devemos inclinar-nos no sentido do excesso. 1144b. isto é. 64 Conjectura. 3. tais coisas dependem de circunstâncias específicas. (EN II 9. isto é.

181s).. conforme os juízos de homens prudentes. as razões apresentadas.] As virtudes.. enquanto hábitos de escolher adequadamente o medido.. mas para os homens em geral. ou seja. Quer dizer. isto é.. v. p. isto é. É a repetida distinção entre saber teórico e saber prático e suas respectivas virtudes. Por outro lado. p. E isso é algo fundamentalmente humano. um homem prudente e sensato [phrónimos spoudaios] ajuizando em conformidade com a reta razão e a sua experiência [peira]. ele deve estar. são para Aristóteles a realização prática da norma. no mínimo. (EN VI 5. 17. adquirido e deliberado. não como único e mero princípio formal isolado ou uma simples regra. Em última análise. set. que são aqueles que sabem julgar o que é bom não só para si próprios. a areté é uma disposição para escolher. universalmente. conjuntamente. mas como uma atividade e uma qualidade intelectual conjuntamente atuando com os demais princípios formais especulativos (phrónesis – areté – mesótes). (EN II 6. Esses princípios são extraídos da determinação fática.] a norma aparecerá como o aspecto teórico da prática corporificada nos costumes (éthos). n. familiarizado com as normas sociais. nas quais a tarefa de cada parte é Conjectura. a que constitui o caráter central da noção aristotélica de virtude. que se concretiza enquanto é justo meio tomado em relação a nós de modo tal como o determinaria um bom juiz. em efeito. Também são os que consideram os diferentes bens parciais e estabelecem e levam em conta. 2012 65 . 1114b). para que o homem possa exercitar-se habitualmente nas virtudes. [. (1992. 49-68. Na concepção de Aristóteles. III 5. a possível harmonia entre esses bens./dez. embora não tenha clara consciência (conhecimento certo e verdadeiro. 1106b. o critério último parece ser a reta razão. 1140b). Esta estreita conexão entre terminologia moral. [. Resume Guariglia que a compreensão da virtude está indissoluvelmente unida à sua aprendizagem mediante a prática correspondente. um hábito voluntário. norma implícita e ação efetivamente existente como manifestação de um costume no interior de uma comunidade. produto da experiência e do pensar criativo do homem: a reta razão. os argumentos. 3. pois deve deliberar acerca do meio mais adequado para conseguir alcançar o fim e o bem para o homem. escolhendo deliberadamente e agindo conforme os critérios racionais. a episteme) das mesmas.

3. isto é. A plena participação política. o cultivo e a manutenção do bom caráter e a boa atuação segundo a virtude. os benefícios e as finalidades dos demais indivíduos envolvidos. enquanto somos animal racional que. uma vez que a justiça tem a tarefa do equilíbrio e da equidade no plano coletivo da comunidade social e culmina na identificação da ética com a justiça. ele precisará estar pré-disposto. 49-68. atinge a sua plena realização atualizando a sua natureza de ser social. Caxias do Sul. portanto. como animal político e. Em relação ao saber prático. como tal. Ela só pode ser completada ao se reconhecer. Convém lembrar a importância da virtude da justiça (Livro V) na ética aristotélica. que convive harmoniosa e amistosamente na pólis. Pertencer à pólis e participar de uma comunidade de política “desempenham uma função instrumental necessária” para o desenvolvimento e a manutenção do bom caráter. o indivíduo também. sem impedimentos. (NUSSBAUM. não é suficiente. 434-437). na idade da razão e não como adolescente inexperiente. a atividade pública e um meio político com condições apropriadas são requisitos instrumentais necessários para o descobrimento. p. a virtude da justiça que encerra todas as demais virtudes. 1995. é preciso que o agente tome consciência de que certas coisas são tidas socialmente como ruins de serem praticadas em determinadas situações e que também tenha a percepção adequada sobre o que é relevante em relação à sua posição diante de um fato a exigir uma decisão e ação. o controle das virtudes do caráter. n. set. p. Também 66 Conjectura. no topo hierárquico das virtudes morais. De qualquer modo. no interior do indivíduo deve procurar o equilíbrio. obstáculos e mau funcionamento da pólis são condições indispensáveis para a prática das virtudes morais e da vida eudaimônica. como cidadão. p. considera./dez. conforme sustenta Nussbaum (1995. 17. as virtudes morais como meio-termo definido pela reta norma da sabedoria prática prudencial. É no suado esforço de moldar o caráter. para o agente moral superar a fraqueza moral e se tornar virtuoso. Nessa direção. como um homem continente [egkratés] que. 437). Considerações finais A busca da plenitude. participa da razão enquanto a ouve e a obedece. controlar ou dominar as paixões que o homem se educa para uma vida boa na sociedade. acima dos sentimentos individuais imediatos de prazer/dor. sem esquecer que para tal a companhia dos verdadeiros amigos está entre as principais virtudes morais que são condições de felicidade. v. Enfim.diferente. 2012 . encontramos.

1101a./dez. também. pois ele estará sempre. com os favores da fortuna. para alguém ser justo. portanto. seja na pública. A prática de todas essas virtudes morais visa ao mesmo fim. engajado na prática ou na contemplação do que é conforme a excelência. No entanto. o controle sobre as paixões e emoções é alcançado pelo exercício repetido desde a infância e ao longo de toda a vida. é preciso observar os passos metodológicos utilizados pelo próprio Aristóteles para compreender o alcance da sua teoria ética. portanto. p. 2012 67 . v. seja na esfera pessoal. praticando atos morais considerados virtuosos. isto é. 11). mas de hábito adquirido no ambiente familiar e social bem-ordenado. na prática das virtudes morais na pólis. Por sua vez. Conjectura. 17. Para adquirir e desenvolver tais capacidades ou disposições (virtudes morais e intelectuais). Como os seres humanos são animais racionais capazes de escolhas voluntárias e livres. que deve contar. mas é condição necessária.” (EN I 10. deverá possuir o atributo em questão [permanência] e será feliz por toda a sua vida. então a educação moral do caráter pelo hábito não pode ser algo do tipo “adestramento”. A formação do caráter. de escolha acertada e de correção na decisão e no rumo da vida. Diz o filósofo: “O homem feliz. para estudar esse assunto e ter conhecimento de causa. está ao nosso alcance e é possível desenvolver habilidades de deliberar bem.o longo tratamento dado por Aristóteles à amizade (Livros VIII e IX) sugere a importante função da mesma na convivência e. isto é. ou pelo menos freqüentemente. 3. de cálculo racional adequado. é indispensável uma boa educação. Ao desenvolver o hábito de praticar ações boas e justas. 1100b. 49-68. amável. no caminho do ensino formal. corajoso não é uma questão de instrução ou ensino formal. o caráter é moldado na virtude. chegar à definição sobre os conceitos éticos estruturantes. portanto. set. Para Aristóteles. as virtudes intelectuais são atividades próprias da razão e necessitam. n. para se desenvolver. visando sempre ao bem mais elevado possível a um ser humano. mas não tornar a busca da riqueza e a vida de rico como o fim último do homem. se aprende a usar a razão e o raciocínio práticos para aperfeiçoar as escolhas e decisões morais. estar “suficientemente aquinhoado com bens exteriores” (EN I 10. do ensino formal. e. 18). Na perspectiva aristotélica.

set. da Unicamp. p. 68 Conjectura. 2 v. Prefácio. de Mário da Gama Cury. introdução e comentário de Lucas Angioni. Ética. 1995. ed. de América Latina. NUSSBAUM. Recebido em 10 de julho de 2012. DÜRING. de Antonio Ballesteros. 2009. Aristotele. ARISTÓTELES. Madrid: Visor. 1992. 2. 1995. Trad. Trad.Referências ARANGUREN. SANGALLI. Brasília: Ed. 17. Ética y política según Aristóteles. Caxias do Sul. Trad. O fim último do homem: da eudaimonia aristotélica à beatitudo agostiniana. Martha C. Milano: Mursia. São Paulo: Ed. tradução. Texto grego com tradução e comentário de Giovanni Reale. São Paulo: Loyola. 1986./dez. 49-68. ______. Ingemar. ed. La fragilidad del bien. n. Metafísica: ensaio introdutório. Física I e II. Trad. GUARIGLIA. Aprovado em 26 de julho de 2012. ______. Ética a Nicômacos. Madrid: Aliança. 1998. ed. José Luis L. de Marcelo Perine. Porto Alegre: Edipucrs. 1992. de Pierluigi Donini. v. Buenos Aires: Centro de Ed. v. da UnB. 2. 3. Idalgo J. 2. 2012 . 5. Osvaldo. 2005.