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BLACK MIRROR: A FICÇÃO ANTAGÔNICA A PIERRE LÉVY E À LITERACIA MIDIÁTICA

Roberta Oliveira para o blog Literacies

A estreia da terceira temporada da série Black Mirror, produzida pela Netflix, no último
dia 21, trouxe de volta as estórias apocalíticas que narram o futuro da sociedade
moderna em relação às novas tecnologias. Apesar de ser uma ficção, os episódios
levantam questões interessantes que refletem sobre política, o uso das redes sociais e
dispositivos de comunicação e suas influências sobre as relações interpessoais. Aliás, a
série possui este nome (O espelho negro, em português), pois seu autor, Charlie
Brooker, percebeu como as telas negras das TVs, smartphones e tablets sugam
completamente a atenção de seus usuários, transportando-os para outro universo, o
ciberespaço. Mas o que isso tem a ver com Pierre Lévy e com Literacia Midiática?

Lèvy aponta o conceito de Inteligência Coletiva que consiste na “inteligência
distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real,
que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (Lévy, 1994, p.28). Seu
objetivo indispensável é o reconhecimento e enriquecimento mútuo das pessoas,
partindo da premissa de que todos possuem conhecimento a ser compartilhado. A
Inteligência Coletiva é um dos componentes do Espaço do saber, que se organiza
conjuntamente em torno do aprendizado recíproco, da sinergia das competências e da
imaginação, de modo a reinventar o laço social entre estas esferas. Lévy sugere a
existência de uma “engenharia do laço social”.

A engenharia do laço social é a “arte de suscitar coletivos inteligentes e valorizar ao
máximo a diversidade das qualidades humanas” (Lévy, 1994, p.32). A existência de
uma mínima qualidade positiva em um coletivo humano tem a capacidade de manter a
existência destas comunidades, ou ainda, evitar sua destruição. A relação deste
conceito com a série Black Mirror está em sua inexistência: nas estórias narradas os
laços sociais são baseados na tecnologia, contrariando o pensamento de Lévy, que
postulava uma perspectiva antropológica.

O episódio intitulado “Queda Livre” (terceira temporada), mostra uma realidade onde
as pessoas são classificadas pelos outros, e são estes “likes” que determinam sua
popularidade, importância e lhe dão acesso a ambientes e serviços, tal como comprar
uma casa ou entrar em um parque. A história é assustadora justamente porque nos
reconhecemos nela, o tema abordado é muito atual. No presente contexto, onde
redes sociais determinam a construção de variadas pseudo-personalidades, o foco se
deslocou do indivíduo para estas imagens criadas e disseminadas no ciberespaço.
Nesse sentido, a história pessoal de cada um, seu conhecimento e competências são
desvalorizados em vista de uma representação distorcida de si mesmo. Nas narrativas

Em contrapartida. que hoje são quase onipresentes. deixar de reconhecer o outro em sua inteligência é recusar-lhe sua verdadeira identidade social. são praticamente nulos. que pautem a diversidade. Constatação que não se . consequentemente. como o caso da mulher espancada até morte por ter sido acusada nas redes sociais de praticar magia negra com crianças (http://g1. 1994. faz esquecer que estes são processos abertos e dinâmicos que influenciam na construção do ciberespaço e da cultura. na tradução para o português) por milhares de usuários na internet. A criação de um Espaço de saber. permitimos que se identifique de um modo novo e positivo. pode ser usada como um motor que acelere o processo de Literacia Midiática. segundo Lévy. quando valorizamos o outro de acordo com o leque variado de seus saberes. estimulado pela Inteligência Coletiva e pelo fortalecimento dos laços sociais. a polícia percebe que pessoas estão sendo assassinadas após seus nomes terem sido associados à tag #DeathTo (Morte a. e apenas compartilharam a tag pela necessidade de reverberar o sentimento de ódio virtual. 1994). não se distancia muito da realidade. por diversos motivos. sua humilhação. A ficção. tal como aponta Lévy. É nesta dimensão que a Literacia Midiática permite a construção de uma consciência crítica sobre esta realidade. pois. o episódio “Odiados pela Nação” (terceira temporada) aborda o tema dos “haters” virtuais. baseados nas crenças de Pierre Lévy. é alimentar seu ressentimento e sua hostilidade. a implicação subjetiva de outras pessoas em projetos coletivos (Lévy. Para isso. Na estória. Para avaliar as novas tecnologias. contribuímos para mobilizá-lo. p. a frustração de onde surge a violência. O ponto mais interessante da história é que os usuários desconhecem o resultado final de sua ação. é de suma importância favorecer instrumentos que favoreçam o desenvolvimento do laço social pelo aprendizado e pela troca do saber.de Black Mirror os laços sociais. visto que se trata de um processo em constante modificação (Lévy.30). para desenvolver nele sentimentos de reconhecimento que facilitarão.globo. Posto que a sociedade seja um organismo vivo que evolui de forma coletiva. Em Black Mirror. é necessário pensar e encorajar dispositivos que contribuam para produção de uma inteligência e imaginação coletivas. são transformadas em inimigos potenciais. infelizmente. As vítimas.html). julgadas no ciberespaço e pagam suas sentenças na vida real. o olhar parcial que recai sobre as novidades técnicas. cuja relação com as tecnologias é tensa e visceral. visto que os casos de ódio na grande rede já culminaram em verdadeiras tragédias.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos- boatos-em-rede-social-morre-em-guaruja-sp. que acabam sendo percebidas como “objetos caídos do céu”. Os episódios de Black Mirror narram os possíveis desdobramentos de uma sociedade futurística. é necessário não perder a noção holística. Na era do conhecimento.

1994. Referência: LÉVY.distancia muito da realidade do século XXI. A inteligência coletiva. Pierre. . São Paulo: Loyola. Basta esperar que as predições apocalípticas da série não se realizem aqui no mundo real. Por uma antologia do ciberespaço.