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ACD contrata executivos e estuda como

ampliar receita
Por Beth Koike | De São Paulo
João Octaviano Machado Neto (ex-Prodam) é o novo CEO da AACD: “Temos metas e
indicadores a cumprir”

A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) passa a contar com uma
gestão profissionalizada a partir do fim deste mês. A nova equipe, formada por cinco
superintendentes e um CEO, substitui 25 diretores e um presidente que atuaram como
voluntários nos últimos seis anos. É a primeira vez em seus 62 anos de atividades que a
AACD tem no comando executivos contratados.

A principal meta da nova diretoria é tornar a AACD uma entidade totalmente
autossuficiente, sem dependência das doações – que é a base de sua origem. Hoje, 87%
do faturamento de R$ 280 milhões da entidade é proveniente da receita do Hospital
Abreu Sodré e das vendas de produtos ortopédicos, que somaram R$ 15 milhões no ano
passado. Com isso, as doações representam apenas 13% da receita bruta. Deste total,
9% vem das doações obtidas com o programa Teleton e 4% de outros doadores.

“Temos metas e indicadores a cumprir. Caminhamos para ser uma entidade com
orçamento de R$ 300 milhões e precisamos estar bem estruturados”, disse João
Octaviano Machado Neto, CEO da AACD. “Mas não queremos, de forma alguma,
perder o vínculo com os doadores e voluntários que são os responsáveis pelo sucesso da
entidade até hoje”, complementou ele que, anteriormente, era presidente da Prodam,
empresa de tecnologia da Prefeitura de São Paulo. A ideia é que as doações sejam uma
receita complementar.

Machado Neto foi contratado há um ano pelo presidente do conselho Horácio Lafer
Piva (ex-Fiesp), e pelo presidente, Eduardo de Almeida Carneiro. Ambos anteciparam o
fim do seus mandatos que terminaria em dezembro e em junho, respectivamente, para
antecipar o processo de profissionalização.

Para o lugar de Piva foi indicado o nome de Regina Helena Scripilliti Velloso, que há 15
anos é voluntária na entidade e é sobrinha de Antônio Ermírio de Moraes. A Votorantim,
ao lado dos bancos Itaú e Bradesco, é uma das maiores doadoras da AACD. A família
Ermírio de Moraes tem forte tradição na área da saúde. O primogênito José era
voluntário no Hospital do Câncer; seu irmão Antonio, na Beneficência Portuguesa; e o

No ano passado. 13/04/2012 abr/2012] AACD contrata executivos e estuda como ampliar receita .cunhado Clóvis Scripilliti (marido de Maria Helena). por exemplo. “Estamos estudando várias possibilidades de investimento. o Lar Escola São Francisco enfrentava problemas financeiros. “Hoje. Queremos deixar de ser o braço e nos tornar o cérebro”. há uma consciência social maior. as entidades beneficentes vêm tendo mais dificuldade para obter doações de pessoas jurídicas. Outro fator que motivou essa decisão é que a entidade operava em 2006 com um déficit de quase de R$ 4 milhões para um orçamento de R$ 150 milhões. Carneiro e Piva assumiram seus mandatos há seis anos já com o intuito de profissionalizar a gestão. mas há também uma maior competição por recursos. a AACD adquiriu no fim de março a Lar Escola São Francisco. Fonte: Beth Koike. a AACD reverteu o resultado e fechou com superávit de R$ 18 milhões e uma receita bruta de R$ 280 milhões. disse Carneiro. ou a construção de uma faculdade de fisioterapia nesse imóvel (que pertencia ao Lar Escola São Francisco) e a ampliação do hospital Abreu Sodré. A AACD também está estudando outras formas de captação de recursos. A terceira geração tem acompanhado essa tradição de ações sociais em saúde. na AACD. que paga uma parcela pequena dos procedimentos médicos. Nos últimos anos. 50% dos atendimentos são de pacientes do SUS e a outra metade. estão a venda de um terreno de 1. disse Carneiro.5 mil m2 na Vila Mariana. Muitas empresas. Outra ideia na mesa dos conselheiros e executivos da AACD é a criação de um centro de pesquisa para tratamento e busca da cura de algumas deficiências motoras em parceria com universidades e institutos de estudos locais e internacionais. Isso porque muitas companhias e bancos criaram suas próprias instituições de responsabilidade social e se tornaram mais exigentes quanto à destinação de recursos. explicou Machado Neto. em São Paulo. “Hoje. Diante desse cenário. Já como parte do plano de crescer 10% em 2012 e atingir a autossuficiência nos próximos anos. que preside a AACD até o dia 23. com um prejuízo de aproximadamente R$ 3 milhões em 2011 – resultado que a nova administração pretende reverter. No Hospital Abreu Sodré. de pessoas com plano de saúde. Valor Econômico. A estratégia da AACD de não depender tanto das doações não é à toa. Entre elas. A busca por maior rentabilidade visa cobrir o déficit do SUS. investem em ações sociais nas regiões em que estão construindo fábricas”. O maior déficit vem do centro de reabilitação da AACD em que 99% dos atendimentos são gratuitos e acarretam um prejuízo anual de R$ 20 milhões. Com uma gestão familiar. entramos em uma nova fase do terceiro setor em que é possível ter investimentos com fins lucrativos com retorno todo revertido para a AACD”. já apoiamos muitas pesquisas e temos pessoal extremamente qualificado. entidade que também é referência no tratamento de portadores de deficiência física e adicionará um faturamento anual de R$ 22 milhões à AACD. Agora.

anteriormente. 87% do faturamento de R$ 280 milhões da entidade é proveniente da receita do Hospital Abreu Sodré e das vendas de produtos ortopédicos. Machado Neto foi contratado há um ano pelo presidente do conselho Horácio Lafer Piva (ex-Fiesp). complementou ele que. É a primeira vez em seus 62 anos de atividades que a AACD tem no comando executivos contratados. A principal meta da nova diretoria é tornar a AACD uma entidade totalmente autossuficiente. A nova equipe. para antecipar o processo de profissionalização. por exemplo. disse João Octaviano Machado Neto. Caminhamos para ser uma entidade com orçamento de R$ 300 milhões e precisamos estar bem estruturados". A família Ermírio de Moraes tem forte tradição na área da saúde.13/04/2012 . ao lado dos bancos Itaú e Bradesco. formada por cinco superintendentes e um CEO. que há 15 anos é voluntária na entidade e é sobrinha de Antônio Ermírio de Moraes. e o cunhado Clóvis Scripilliti (marido de Maria Helena). disse Carneiro. Nos últimos anos. Muitas empresas. investem em ações sociais nas regiões em que estão construindo fábricas". Carneiro e Piva assumiram seus mandatos há seis anos já com o intuito de profissionalizar a gestão. empresa de tecnologia da Prefeitura de São Paulo. há uma consciência social maior. Diante desse cenário. Deste total. Ambos anteciparam o fim do seus mandatos que terminaria em dezembro e em junho. Isso porque muitas companhias e bancos criaram suas próprias instituições de responsabilidade social e se tornaram mais exigentes quanto à destinação de recursos. substitui 25 diretores e um presidente que atuaram como voluntários nos últimos seis anos. Hoje. "Temos metas e indicadores a cumprir.que é a base de sua origem. respectivamente. A terceira geração tem acompanhado essa tradição de ações sociais em saúde. na Beneficência Portuguesa. O primogênito José era voluntário no Hospital do Câncer. CEO da AACD. é uma das maiores doadoras da AACD. Outro fator que motivou essa decisão é que a . de forma alguma. seu irmão Antonio. perder o vínculo com os doadores e voluntários que são os responsáveis pelo sucesso da entidade até hoje". que somaram R$ 15 milhões no ano passado. Com isso. A ideia é que as doações sejam uma receita complementar. A estratégia da AACD de não depender tanto das doações não é à toa. as entidades beneficentes vêm tendo mais dificuldade para obter doações de pessoas jurídicas. 9% vem das doações obtidas com o programa Teleton e 4% de outros doadores.Valor Econômico Jornalista: Beth Koike A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) passa a contar com uma gestão profissionalizada a partir do fim deste mês. mas há também uma maior competição por recursos. as doações representam apenas 13% da receita bruta. era presidente da Prodam. A Votorantim. e pelo presidente. sem dependência das doações . "Mas não queremos. "Hoje. que preside a AACD até o dia 23. Eduardo de Almeida Carneiro. na AACD. Para o lugar de Piva foi indicado o nome de Regina Helena Scripilliti Velloso.

Entre elas. Agora. entramos em uma nova fase do terceiro setor em que é possível ter investimentos com fins lucrativos com retorno todo revertido para a AACD". que paga uma parcela pequena dos procedimentos médicos. entidade que também é referência no tratamento de portadores de deficiência física e adicionará um faturamento anual de R$ 22 milhões à AACD. a AACD adquiriu no fim de março a Lar Escola São Francisco. em São Paulo. ou a construção de uma faculdade de fisioterapia nesse imóvel (que pertencia ao Lar Escola São Francisco) e a ampliação do hospital Abreu Sodré. No Hospital Abreu Sodré.resultado que a nova administração pretende reverter. A busca por maior rentabilidade visa cobrir o déficit do SUS. 50% dos atendimentos são de pacientes do SUS e a outra metade. de pessoas com plano de saúde. Home » Hospital » Assistência » AACD | governança corporativa | João Octaviano Neto por Thaia Duó | Revista FH Estratégia | 5 de dezembro de 2012 AACD implementa novo modelo de governança corporativa   .entidade operava em 2006 com um déficit de quase de R$ 4 milhões para um orçamento de R$ 150 milhões. explicou Machado Neto. o Lar Escola São Francisco enfrentava problemas financeiros. "Estamos estudando várias possibilidades de investimento. estão a venda de um terreno de 1.5 mil m2 na Vila Mariana. Com uma gestão familiar. Já como parte do plano de crescer 10% em 2012 e atingir a autossuficiência nos próximos anos. Outra ideia na mesa dos conselheiros e executivos da AACD é a criação de um centro de pesquisa para tratamento e busca da cura de algumas deficiências motoras em parceria com universidades e institutos de estudos locais e internacionais. já apoiamos muitas pesquisas e temos pessoal extremamente qualificado. A AACD também está estudando outras formas de captação de recursos. a AACD reverteu o resultado e fechou com superávit de R$ 18 milhões e uma receita bruta de R$ 280 milhões. Queremos deixar de ser o braço e nos tornar o cérebro". O maior déficit vem do centro de reabilitação da AACD em que 99% dos atendimentos são gratuitos e acarretam um prejuízo anual de R$ 20 milhões. com um prejuízo de aproximadamente R$ 3 milhões em 2011 . No ano passado. disse Carneiro. "Hoje.

da AACD: Governança corporativa ajuda a angariar recursos Sábado.Em uma virada histórica. a AACD foca na profissionalização da gestão e em governança corporativa para obter mais recursos para sua operação 1 estrela2 estrela3 estrela4 estrela5 estrela Rating 0 (0 votaram) Leia Também  Saúde Business Forum 2013 Governança Corporativa aumenta preocupação com ética nas empresas  Região Sul Especialistas discutem governança corporativa em saúde  Entrevista Governança Corporativa e sua relação com a gestão de risco crédito: Divulgação João Octaviano Neto. vários artistas fazem shows e pedem doações do público em um encontro transmitido pelo SBT durante 24 horas. 10 de novembro. O grande evento é o Teleton. que há mais de uma década contribui para a receita da Associação de . No palco.

A história de Octaviano Neto com a AACD também não começou agora. Há 12 anos na instituição. E não é só. que foi financiado pela Brava. ao longo de dois mandatos de três anos. “O novo modelo de Governança Corporativa foi desenhado com conselho de administração e. explica Octaviano Neto. administração e finanças e superintendência clínica. o presidente do conselho com seis vice-presidentes. a instituição de 62 anos hoje é um conglomerado que reúne seis fábricas. Este ano. atingindo R$ 30. João Octaviano Neto. Afinal. E é para garantir essa expansão que o modelo de governança corporativa vem sendo tão trabalhado. Essa é a primeira vez que a instituição tem profissionais contratados em seu corpo diretivo. ao lado do Silvio Santos. em que se deixa de ter diretoria voluntária e passa-se a ter como órgão gestor um conselho com 105 membros”. Quem está lá. a arrecadação superou a cifra de 2011. e o montante já corresponde a 10% da receita da entidade. acrescentando que o modelo foi desenhado durante os mandatos de Horácio Lafer Piva e Eduardo Carneiro. com o trabalho de consultoria do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG).8 milhões. com um grupo de mais cinco contratados nas áreas de marketing e captação. ela começou a presidir o conselho administrativo da instituição.Assistência à Criança Deficiente (AACD). um dos executivos contratados para tocar o dia a dia na entidade. jurídico. O começo dessa mudança ocorreu há seis anos. dentro dele. em um momento de busca por profissionalização e desenvolvimento das práticas de governança corporativa. Imã de recursos De caráter voluntário. nomeação. A guinada rumo às melhores práticas significa profissionalizar a gestão. o executivo já passou por diversos cargos de forma voluntária e agora está à frente da operação.1 milhões. de R$ 26. Na estrutura atual há comitês coordenados por conselheiros que se relacionam diretamente com a presidente: planejamento e finanças. já com os recursos do Teleton. que são da diretoria voluntária”. institucional. Clóvis Scripiliti. “A Regina assume num momento inovador. comprou o Teleton. A executiva é voluntária na instituição há 12 anos e tem sua história totalmente ligada à AACD: seu pai. mas também funciona como vitrine de atração de recursos para uma organização que tem em sua origem a filantropia e o voluntariado. se a transparência na prestação de contas é importante . onde são produzidas as órteses e próteses e cerca de 65 mil itens por ano. explica o CEO. O modelo substitui 25 diretores e um presidente que atuavam como voluntários até então. A pretensão é chegar a 16 unidades de reabilitação até o final de 2012. mais os outros vice-presidentes natos. médico e auditoria. é Regina Helena Scripilliti Velloso. Mas voltemos ao palco. operações. Este ano.

Os outros 70% são receitas geradas por cirurgias particulares e doações. “O que procuramos é que. quanto na oficina de órteses e próteses e no hospital. E é justamente no recebimento dos repasses que Octaviano Neto enfatiza a importância da transparência e qualidade na prestação de contas. há necessidade de complementar essa receita.gmp_4131862. Segundo ele. “Otimizamos os atendimentos do sistema público para recebermos o máximo possível do enquadramento SUS.com. com a governança corporativa. o conhecimento ajuda a entender os mecanismos e as estruturas internas do governo e os trâmites burocráticos.para qualquer entidade. explica. localizado na capital paulista e mantido pela AACD. em grande medida. quando se trata de uma organização que depende de doações e. se tenha a maior autossustentabilidade possível. credibilidade. Isso faz com que se diminua muito o processo de perda no repasse SUS.br/34101/aacd-implementa-novo-modelo-de- governanca-corporativa/? goback=. e aconselha: “as entidades precisam se adequar ao regramento do SUS de forma muito mais coerente e convergente com as tabelas e o modelo. é um desses exemplos. Tanto no centro de reabilitação. “E é aí que a AACD complementa e entra o caráter filantrópico. Porque sempre precisaremos de bons doadores – frequentes permanentes e fidelizados. mas nem sempre”. Entre 30% e 35% dos recursos são provenientes do SUS. que ajudam a nossa associação no ponto de vista do equilíbrio orçamentário”.” Neto traz a experiência de quem trabalhou no governo como secretário municipal de Serviços e Obras. explica o executivo. http://saudeweb. diz o CEO. ou seja. Em alguns casos o SUS cobre 100% das receitas. portanto. O Hospital Abreu Sodré. as boas práticas se tornam questão de sobrevivência. que se possa gerar recursos e participar de leis de incentivo e toda a mecânica de financiamento do terceiro setor. porque às vezes erramos no enquadramento e recebemos menos”. um dos requisitos da governança implantada.gde_4131862_member_193334901#! Terceiro setor acelera profissionalização João Octaviano é CEO da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) . Todos os pacientes dos centros de reabilitação são custeados com os recursos do sistema público e cerca de um terço das cirurgias tem parte do custo coberto pelo SUS.

ao mesmo tempo em que consegue estruturar sua carreira. CanalRh: Quais os atrativos do setor em relação aos benefícios oferecidos pela iniciativa privada? Octaviano: A realização profissional no terceiro setor é diferenciada porque permite aliar a alta performance empresarial exigida em uma companhia à visão de olhar o outro e o mundo. aumentar sua atratividade frente à iniciativa privada são apenas algumas delas. descreve os perfis de profissionais que atendem às necessidades do segmento e concede um tom otimista para o futuro. CanalRh: E da AACD? Octaviano: A AACD tem metas e objetivos. por exemplo. com 16 unidades e duas escolas conveniadas. mas o meu trabalho na gestão da entidade vai além deles: trata-se de contribuir. Dar continuidade ao processo de profissionalização do segmento e. CanalRh: Qual o perfil do profissional que busca fazer carreira no terceiro setor? Octaviano: Em sua maioria. veremos que ela está presente em oito estados. o engenheiro civil João Octaviano enxerga um mundo de possibilidades no terceiro setor. Confira: CanalRh: Quais são hoje os maiores desafios do terceiro setor? João Octaviano: Implantar práticas de gestão da iniciativa privada para organizar as entidades e aumentar a sinergia entre o segmento e as companhias que possuem fins lucrativos específicos. que já foi secretário municipal de Gestão e secretário municipal de Serviços e Obras. Se pegarmos a AACD. para que as pessoas fiquem melhor e se sintam incluídas na sociedade. seis oficinas de fabricação de órteses [aparelhos de destinados a alinhar. fala de seus principais gargalos. além de uma robusta equipe na área administrativa. E é justamente esse desafio que faz meu cotidiano gratificante. que é a razão da existência de uma entidade como a AACD. Somam-se a isso as atividades do nosso hospital. totalizando 18 endereços. e atualmente também é professor da Escola de Engenharia Mauá. Uma estrutura dessa envergadura exige uma grande quantidade de mão de obra com qualificação. de uma forma mais estruturada. todos os dias. esse profissional é caracterizado por levar as práticas da iniciativa privada para organizar as entidades sem fins lucrativos. . Octaviano. como as empresas privadas. prevenir ou corrigir deformidades do corpo] e próteses [peças que substituem algum membro do corpo] e um centro de diagnóstico por imagem. com uma dimensão ainda maior. assim. o que permite a ele atuar com um senso de voluntariado.21 de Fevereiro de 2013 por Ana Paula Martins Atual CEO da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). CanalRh: A questão da mão de obra é um gargalo? Octaviano: A demanda por profissionais qualificados que atendam às especificações de entidades assistenciais é tão grande quanto a da iniciativa privada e isso acontece devido ao crescimento desse segmento. discorre sobre o cenário do terceiro setor no Brasil. Em entrevista ao CanalRh.

atualmente. assim com outras instituições assistenciais. Por isso. Afinal. do Governo Federal. Começamos. em 2006.CanalRh: Hoje é possível falar de uma profissionalização maior do setor? Octaviano: O terceiro setor passou a contratar e implantar nos seus quadros de recrutados pessoas qualificadas e dispostas a participar do cotidiano de entidades assistenciais que objetivam ajudar o próximo. sobretudo. Seguindo este caminho. já demos um grande passo e. então. está mudando há algum tempo. a transparência da prestação de contas e. estabelecendo os mecanismos de controle. à fiscalização e à transparência das entidades. aporte financeiro e repasses de recursos ao setor precisam estar associadas à regulamentação. atuar com marcos regulatórios claros. além de um orçamento sustentável. para evitar que se tenha um desvio de finalidade das ações relativas à área e. CanalRh: Como é a atuação do Brasil nesse setor frente aos demais países? Octaviano: O projeto Viver Sem Limite. Essa visão. com papéis ativos. o alinhamento com as políticas públicas. CanalRh: Existe algum tipo de preconceito contra as pessoas que optam por atuar no terceiro setor? Octaviano: As pessoas ainda têm uma visão de que o terceiro setor é uma ação entre amigos. iniciou um processo de trabalho com métricas empresariais. É importante ter em mente que o segmento tem uma estrutura consolidada. o País tem uma visão clara de como é ter uma política pública que possua sinergia com parceiros privados como forma de financiamento das ações. comparado a outros países. a AACD. é fundamental que o setor entre no espaço onde os governos possam cumprir suas políticas e. CanalRh: Como o senhor enxerga o futuro do terceiro setor no Brasil? Octaviano: Esse é um setor que tem muito a crescer já que estamos iniciando uma nova fase de regulamentação e de financiamento de projetos. CanalRh: Qual a importância do terceiro setor para a sociedade? Octaviano: É fundamental estabelecer um marco regulatório para o terceiro setor pelo seu papel complementar à atuação do Estado. com um conjunto de metas e indicadores. CanalRh: E no que precisamos melhorar? Octaviano: O próximo passo é melhorar as questões do marco regulatório e a desoneração do investimento social. que nos permite trabalhar o equilíbrio entre despesa e receita. assim. Graças a ele. que precisa estar alinhado aos desafios que a sociedade impõe. de alguma maneira. a transformação de uma organização estritamente voluntária para uma entidade que recebe um comando estratégico de um grupo de voluntários. É possível investir nessas políticas públicas e ser um grande braço da sociedade na diminuição das diferenças. de alguma forma. mas que tem uma execução profissional contratada. são excluídas do processo de inclusão social. ajudando a construir espaços mais igualitários e oferecendo oportunidades melhores para as pessoas que. ele acaba sendo um articulador da realização das políticas públicas. com isso. no entanto. ligada a um conceito de governança e a uma gestão profissional. acabe atrapalhando a . algo não profissionalizado. forneceu uma estrutura para que o setor passasse a atuar com maior foco nas pessoas com deficiência. Todas as iniciativas que implicam.

grisalho e bem vestido conversa com uma garota sorridente numa das mesas no meio do salão do Gero Caffé. de 7. no Gero do Iguatemi. tem 7 anos e nasceu sem o antebraço direito. o homem que fez a AACD dar lucro As estratégias do voluntário que transformou a gestão da ONG sem depender só de doações – e o que ele faz para ensinar a sociedade a conviver melhor com os deficientes Vida Urbana .eduardo duarte zanelato • fotos daniela toviansky - 27/12/2011 ALMOÇO DE TRABALHO Eduardo de Almeida Carneiro.canalrh. A menina se chama Maria Clara da Costa. http://www. restaurante do Grupo Fasano que funciona dentro do Shopping Iguatemi. mas estamos muito melhores hoje do que estivemos no passado. hora do almoço. onde ele reserva uma mesa central para almoçar a cada semana com uma criança atendida pela ONG É sexta-feira. de 58 anos. Embora ela não pareça .asp?o={7E7B8E87-EEF7-413B- B9B9-CD8EA720C6A5} Eduardo de Almeida Carneiro. Um homem barbado. com Maria Clara Silveira da Costa.execução das iniciativas que vieram complementar as políticas públicas. Já evoluímos bastante e ainda temos muito a crescer.br/mobile/artigo.com.

de R$ 80 milhões para R$ 220 milhões. em 2001. E teve o orçamento quase triplicado. mais devemos ajudar os outros. “Comecei a ver as coisas de uma outra forma”.” De volta ao Brasil. “Quero que as pessoas os vejam com naturalidade”. assusta um pouco alguns setores”. a ONG fundada há 61 anos começou a dar lucro. Recentemente. assumindo a presidência cinco anos depois. presidente voluntário da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). o de gestão. do ponto de vista da cultura hierárquica. presidente do conselho da AACD. “Se a deficiência não é um problema para a criança. afirma. afirma Horacio Lafer Piva. “De vez em quando ele atropela determinadas práticas. a AACD atendeu 280 mil pessoas por ano em sua sede e o orçamento cresceu de R$ 80 milhões para R$ 220 milhões . Entre 2006 e 2011. “Mas ao longo do tempo conseguiu atingir os objetivos e todo mundo aprendeu a conviver com as idiossincrasias dele. “Cheguei à conclusão de que quanto mais braços temos. a organização atendeu 280 mil pessoas por ano apenas em sua sede. Sua estrutura lembra a de grandes corporações. de 54 anos. ele passou três dias em cativeiro até conseguir fugir. diz. O homem que a acompanha é Eduardo de Almeida Carneiro. com um CEO e oito vice-presidentes abaixo de Carneiro. A reestruturação proposta por ele foi acatada pelos 119 membros do conselho administrativo. há quase seis anos. O engajamento social entrou em sua vida após uma traumática experiência em 1998. O episódio o fez mudar para Miami. dono da incorporadora imobiliária Almeida Carneiro Comércio e Participações e. 58 anos. ele almoça semanalmente no Gero Caffé com um dos jovens assistidos pela ONG. começou a participar como voluntário na AACD. Vítima de sequestro. onde viveu por dois anos com a mulher e os três filhos.sentir falta do membro. Desde 2010. que o empresário implantou na entidade. por que haveria de ser para os outros?” Esse esforço de conscientização por meio de atitudes chocantes se assemelha a outro choque. Os resultados não decepcionaram. formado em sua maioria por líderes de grandes grupos empresariais. a ausência dele desperta olhares de piedade e desconforto em parte da clientela à sua volta.” Entre 2006 e 2011. e isso.

na Zona Norte. de 14 anos. Há ainda a sede na Vila Clementino. Ele acredita que assim ajuda as pessoas a aceitar melhor os deficientes Descentralização Em janeiro de 2012. Com o aumento de consultas particulares. e outra em Campo Grande. na Zona Sul. o processo de descentralização que tornou possível o aumento do número de atendidos será reforçado. com próteses nas pernas.PASSEIO PÚBLICO Carneiro anda pelo shopping com Yezza Sousa. Num processo incomum entre ONGs. Elas se somam às já existentes na Mooca (aberta em 1972) e em Osasco (inaugurada em 2003). o presidente voluntário passou a analisar o desempenho de cada uma das áreas como se fossem unidades de negócio – todas com a obrigação de dar lucro ao fim de cada ano. localizado junto à sede na Vila Clementino. ou de no mínimo bancar os próprios gastos. Em novembro. com a inauguração de duas novas unidades regionais: uma em Santana. a entidade ampliou sua atuação para a Vila Mariana. A fusão foi idealizada e conduzida ao longo de dois anos por Carneiro. cujo argumento central é o fato de ambas estarem próximas uma da outra e prestando serviços parecidos. A estabilidade financeira que permitiu à AACD absorver outra instituição se deve em parte ao atual modelo pragmático de gestão.8 mil pacientes todos os dias. o . Foi o que ocorreu com o Hospital Abreu Sodré. na Zona Sul. por onde passam 1. Após assumir o cargo. o Lar Escola São Francisco deixou de existir para ser incorporado pela AACD – esta herdou as dívidas e agora cuida dos 500 pessoas que antes se tratavam naquele centro de reabilitação.

Carneiro planeja minuciosamente o futuro. Sua jornada de trabalho sempre começa por uma vistoria de 45 minutos às dependências da organização. cobrou novamente o responsável pela área de manutenção. Deverá ser alcançado em 2016 e. em O mágico de Oz”. “No começo. o conselho criou um fundo de endowment (dinheiro da instituição aplicado para gerar rendimentos destinados ao seu próprio orçamento). Como forma de aplacar a ansiedade que lhe é peculiar. Quer conferir pessoalmente se o prédio está bem conservado e se o atendimento flui bem. Hoje. diz. A seis meses do término de seu mandato. assim. Santana e Alto de Pinheiros. ligeiramente alterado: “Mas não tem de pedir. A princípio. Resignadas. por causa do personagem que acreditava não ter coração. quando Carneiro decidiu fechar a escola dos pacientes que funcionava junto à sede. os muros da ONG amanheceram pichados: “O presidente da AACD quer colocar nossas crianças na rua”.5 milhão. Desde outubro. Desligou sem se despedir e seguiu seu trajeto.” O pulso firme e o perfeccionismo de Carneiro ficam evidentes no dia a dia. Os alunos foram deslocados para três escolas da rede pública nos bairros da Mooca. Mal ouviu a justificativa e retrucou. Assim. uma segunda-feira em que Época SÃO PAULO o acompanhou. usando a experiência de seus especialistas.hospital saiu do prejuízo (R$ 1. segregadas da sociedade”. ele se irritou com a falta da letra “j” no painel Sejam Bem- Vindos – um reparo que já havia sido pedido uma semana antes. a autossuficiência financeira da organização estará assegurada. alega não ter tempo para pensar no .6 milhões. se reduz a dependência do Teleton. Em protesto. quer trazer uma faculdade para a sede da entidade e criar ali um polo de formação de médicos fisiatras e fisioterapeutas. “Não queria nossas crianças estudando num ambiente com macas. campanha do SBT que gera uma média de R$ 25 milhões em donativos a cada edição. Numa reunião para acalmar os ânimos. A fim de viabilizar planos como esses. O atual presidente fez questão de incluir na agenda de seu sucessor alguns objetivos nada modestos. O momento mais tenso se deu no início de 2006. propiciar que a espera por procedimentos mais complexos comece a cair gradativamente. E almeja ainda criar um centro de pesquisa médica e outro de reabilitação para esportistas. em 2005) e deve fechar 2011 com lucro de R$ 9. o modelo empresarial encontrou resistência entre as mães dos assistidos. Para consolidar a ONG como referência na recuperação de deficientes. É esse o sonho mais ambicioso de Carneiro. “Mas quem já leu o livro sabe que ele tem coração sim. elas entenderam o recado. fui apelidado de ‘Homem de Lata’. ele ainda ouve nos corredores histórias de pacientes que esperaram mais de dois anos por uma cirurgia corretiva. Quando houver R$ 250 milhões investidos nele. tem de mandar”. No dia 3 de outubro. ele foi mais direto que conciliador: sugeriu que as mães insatisfeitas levassem seus filhos dali. Por telefone. diz. a consultoria Avention trabalha para estabelecer prioridades de investimento e definir metas da AACD até 2016.

Por ora. em abril de 2012. Ele diminuiu a dependência das doações e quer garantir a autossuficiência da ONG até 2016 http://epocasaopaulo. há sempre uma letra fora de lugar – ou uma criança esperando mais tempo do que deveria para ser atendida. na Vila Clementino.globo.com/vida-urbana/eduardo-de-almeida-carneiro- o-homem-que-fez-a-aacd-dar-lucro/ . com obrigação de dar lucro ou no mínimo bancar os próprios gastos ALÉM DO TELETON O presidente voluntário numa sala de fisioterapia na sede da AACD.que fará depois de deixar a presidência. Cada área da ONG é vista como se fosse uma unidade de negócio.