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Este trabalho destina-se à apresentação do pensamento de Aristóteles sobre a ​phantasia e

à exposição de uma hipótese de resolução do problema sobre o estabelecimento do lugar
da phantasia, principalmente em relação ao pensamento, pois A. não parece distinguir
totalmente o lugar de ambos, no entanto parece-me possível, a partir do texto de A. fazer tal
distinção. Tomo em conta, principalmente, o artigo de Malcom Schofield ​In Confinio
Intellectus et Sensus,1 para a a segunda parte do trabalho onde, tendo em conta algumas
das suas ideias, tentarei mostrar como no ​ De Anima, temos margem para distintamente
distinguirmos todas as faculdades​ da p
​ syche, ao contrário do que parece indicar.

É no capítulo 3 do Livro III do ​De anima que Aristóteles reserva toda a sua atenção
para a phantasia. Apesar de que chegamos ao fim e as conclusões possam não ser
imediatas, i.e., Aristóteles durante toda a análise está mais concentrado em dizer o que não
​ é a ​phantasia do que propriamente o que ela propriamente é.
Aristóteles usa como critério fundamental a possibilidade de erro para fazer as
principais distinções entre as várias faculdades que enumera. Primeiramente faz a distinção
entre as percepções que temos dos objectos sensíveis (ton idion) que são sempre
verdadeiras2 em contraposição com o pensar (noein). Incluídos no noein temos, em relação
ao sua relação à sua certeza, o saber (episteme), o saber prático (phronein), a opinião,
sendo que todas estas faculdades (dynamis) da alma estão incluídas na nossa suposição
(hypolepsis), aquilo que tomamos como verdade, i.e., o nosso banco de saber que usamos
para entender o que se nos apresenta.
A diferença entre o noein e a hypolepsis é que enquanto a última faz parte aquilo
sobre o qual foi feito um juízo, i.e., tem um valor de verdade ou falsidade, no noein isso não
existe, podemos pensar em tudo o que conseguirmos sem a barreira daquilo que é
verdadeiro ou falso. [A segunda parte deste artigo irá consistir no desenvolvimento desta
ideia pois Aristóteles por um lado afirma que a phantasia é diferente do noein/dianoia mas
não funda a asserção e logo a seguir diz que o noein é diferente da hypolepsis pela razões
que acima referi.] Diz também que a diferença consiste em que quando ajuizamos que algo
é terrível somos imediatamente afectados enquanto que se ​apenas pensarmos em algo que
é terrível e esse pensamento for acompanhado de imagens da phantasia é como se
estivéssemos a ver uma pintura.

1
III. In Confinio Intellectus et Sensus, Malcom Schofield; in Essays on Aristotle’s De Anima, pag.278
2
Cota.

como Aristóteles lhe chama. por exemplo.. desde que a sensação esteja presente e que dos outros dois tipos de sensação. a hypolepsis. podemos pensar que se apenas tivéssemos sensação (e até memória) a única coisa que teríamos seria o ​instante (sem extensão) actual e memória de outros desconexos entre eles. i. Isto significa que dizer que x é branco ou dizer que x tem certo tamanho ou está em certo movimento são juízos que não podem provir da sensação mas têm que necessariamente provir de quem faz tal juízo.” .. 3 427b14-16 4 428a1-4 5 Cf.e. ela é fundamental para a hypolepsis3 porque é em virtude da phantasia que ajuízamos 4.. i. INCM -------------------------- 6 428a14 7 Por isto não me parecem compreensíveis as críticas de Dorothea Frede a Aristóteles. dizemos que algo é verdadeiro ou falso. “Aristotle seems here to display the untidy-genius syndrome to an unusual degree. Assim sendo podemos perceber claramente que a ​phantasia necessita do sensível. e que após essa aquisição não só fica independente dos sentidos. fazendo-o perdurar ao longo do tempo para que assim possamos ajuizar sobre ele e que assim faça parte do nosso fundo de verdade. i. Este movimento... Devido ao carácter daquilo que chamamos presente. país etc.7 Aristóteles no final do capítulo expõe a sua tese final sobre a phantasia dizendo que esta enquanto proveniente dos sensíveis especiais (ton idion) é sempre verdadeira. XI Confissões.e.”. A ​phantasia então é aquela capacidade que temos de fazer perdurar aquilo que já não está dado. que estamos em certa cidade. i. Cap. Ora o papel da ​phantasia é o de fazer perdurar estes instantes para que se possa criar uma imagem conjunta. no que toca a certa percepção. Santo Agostinho. seria impossível constituir qualquer experiência..e. sabemos que não desapareceu. No entanto. i. but then it is subsumed under noein and regarded as the counterpart of hupolēpsis or supposition (427b27). i.e. como é esse material adquirido que vai ser usado para fazer um juízo. nomeadamente acidentais (que x é branco) e comuns (sobre o movimento ou extensão) já são mais dispostos ao erro. uma rede de suposições que juntas criam toda a teia de saber que envolve a nossa experiência. nem a aisthesis e está ligada ao pensamento porque de ambos temos a capacidade de pensarmos e phantasiarmos o que quisermos sem restrições. pois mesmo não estando a percecionar nada do que se encontra atrás de nós. dos instantes sem extensão. inicialmente. que a sensação já não está a captar. o facto de não ter extensão 5 ​ . Para percebermos isto basta pensarmos o que foi anteriormente dito. pois o que é percecionado é que é o seu objecto. “Phantasia is initially separated from both sense-perception and thought (427b14).e.e. As sensações enquanto tais só poderão provir do presente. Para que se perceba melhor. Até aqui vimos que a phantasia não pode ser nem a hypolepsis. deve ser semelhante à sensação que o causou6 .

though we do not make any use of the fact that the size of the triangle is determinate. but thinks of it not as having a size.11 Ora M.S. não só na citação acima referida. Passo a citar um passo que se encontra no ​De Memoria8 que exemplifica o que foi dito: “It is not possible to think without phantasma. 9 pag.. i. some of the inconsistencies of Aristotle's account seem more than merely apparent. For the same effect occurs in thinking as in drawing a diagram. Aristóteles. num movimento do exterior para o interior. parece não perceber 8 De Memoria (449b31-450a5) _-------------------------------edição ano pagina etc. ele afirma “que a imaginação não é contudo a mesma coisa que [o pensamento]. Yet it does not follow (as he evidently thinks) that phantasia is not sometimes a sort of hupolēpsis closer to belief than to knowledge or practical understanding. i. são uma condição ​sine qua non do noein e por isso recebe algumas críticas quanto à sua falta de acuidade no tratamento distinto de ambas. Malcom Schofield parece estar em dificuldades em perceber o que é phantasia e até certo ponto com alguma legitimidade pois. Doubtless the fact that in belief. onde compreendemos e ajuizamos sobre o exterior.e. 278 10 11 427b14-16 . For in the latter case. “Moreover. places something with a size before his eyes. vindas da phantasia. ​isso é evidente​".S. como também propriamente no ​De Anima. nem que a suposição. And similarly someone who is thinking.e. não explicita a distinção entre noein e phantasia. mas também na direcção contrária.”9 Apesar de Aristóteles não explicar o porquê. we none the less draw it with a determinate size. unlike phantasia. Pelo o que foi dito podemos afirmar que a phantasia é uma faculdade de síntese da sensação que contribui para a hypolepsis. Claramente à primeira vista Aristóteles não parece fazer grande distinção entre noein e phantasia. even if he is not thinking of something with a size. como podemos ver. Aristóteles parece dizer que as aparições (phantasmata).10 Afirma também que sem phantasia não existe hypolepsis. one necessarily takes something truly or falsely (cf. 427b20-1) does serve to differentiate phantasia and belief..” Após ter exposto as ideias principais de Aristóteles sobre a phantasia. Passo a citar um excerto da parte final do artigo de M. pretendo analisar algumas críticas feitas a Aristóteles que sustentam a falta de evidência entre o noein e a phantasia. para que possamos a partir dele tentar entender a legitimidade ou não do que afirma. o de pensar juntamente com imagens para intervirmos no exterior a nós.

Para tentar esclarecer a diferença entre noein e phantasia.” pag. apesar de. a eles não corresponde nenhuma imagem. i. como por exemplo o maior de todos os números ou um polígono de mil lados. criando ideias cada vezes mais complexas. aponta para que existam alguma suposição que evolua para além da sua constituição original. à primeira vista. mas sem a fixação de verdade que à hypolepsis está inerente. Mas a grande diferença é que foi associada à ideia original de sol outra ideia. nomeadamente phantasia que provêm da sensação (phantasia aisthetike) e aquela que provêm das nossas capacidades de raciocinar (phantasia logistike). i. na primeira participam apenas aqueles que têm sentidos enquanto a última resulta de quem possui logos e por isso é capaz de unir mais do que uma projecção para projectar a sua vontade.. phantasia is much more like perception (one might think of its as misperception) than thought. pois esta.. pensamentos vazios. ideias. Por não considerar a phantasia como algo distinto de tudo o resto M..e.e. Como também no exemplo do Sol. Pois o facto de estarmos inconscientemente a associar ideias que não são acompanhadas de imagens faz com que tenhamos. a de que os objectos que estão mais longe são visto mais pequenos. Ora. porque podemos pensar o que quisermos. então a única coisa que se altera (sem que tenhamos consciência disso) é a suposição que dela temos. por vezes.. se todos os nossos pensamentos provêm do nosso fundo de saber. 12 ​“Here. . fazer sentido. e com isso estabelecer distintamente o lugar dos dois.e. 276 13 434a5 ss. a nossa ideia de sol inevitavelmente foi provocada por diferentes phantasmata onde estes são necessariamente provenientes dos sentidos. um pensamento. não quer dizer que os dois coincidam. mas meramente um noein.13 O ponto que nos interessa focar é o de que quem possui logos é capaz de “produzir uma única imagem a partir de várias” e por isso seria natural pensar que ao longo da nossa vida essas imagens fossem sintetizadas com outras.que só porque que para termos x precisamos de y.S fica preso às associações com as outras faculdades 12 . evidently. começemos por fazer a distinção entre dois tipos de phantasia explícitos no De A. a hypolepsis. como já foi dito. A união dessas ideias não resulta que a imagem que acompanha essa ideia se altere. i. só pode provir dos sentidos. Por isso não se trata de alguma inconsistência dizer que a phantasia é diferente da hypolepsis e que no entanto a última necessite da primeira. o facto de termos uma suposição sobre ele diferente da sensação que temos dele. percebemos como é que o noein é diferente da phantasia.

M. p. D. Oxford University Press Inc. R.. Journal of Ancient Philosophy (English edition). v. 19-48. São Paulo. Martha C. Cambridge University Press. 2013. introduction and notes. S. Hicks. C. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.7. Aristóteles.Bibliografia ● Sobre a Alma. .. Papacrhistou.. 2010 ● Aristotle De Anima with translation.1. n. 1995 ● Three kinds or Grades of Phantasia in Aristotle's De Anima. 1907 ● Essays on Aristotle’s De Anima. Nussbaum and Amélie Oksenberg Rorty. A.

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