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ALESSANDRO GARCIA ANDERSON FONSECA ANDRÉ TARTARINI BRUNO AZEVÊDO DANIEL OSIECKI DELFIN DIEGO MENDONÇA IVANA ARRUDA LEITE JD LUCAS MARA CORADELLO MÁRCIA BARBIERI MARIEL REIS ROBERTO DUTRA JR. SIMONE MAGNO YARA CAMILLO

ANO 01 / # 01

REVISTA DE CONTOS

REVISTA DE CONTOS

REVISTA DE CONTOS

© 2014 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2014 COM O TÍTULO FLAUBERT REVISTA DE CONTOS ///

COPYRIGHT DA SELEÇÃO © 2014 FLAUBERT REVISTA DE CONTOS ///

SALOBRO © ALESSANDRO GARCIA // O PRÊMIO © ANDERSON FONSECA // CARNE MOÍDA © ANDRÉ TARTARINI // VÁ PRA CADEIA! © BRUNO AZEVÊDO // MINHA PIETÁ © DANIEL OSIECKI // © DELFIN // NUTRIÇÃO © DIEGO MENDONÇA // ESTELA DALVA © IVANA ARRUDA LEITE // VISITA DE AMIGO © JD LUCAS //

DA UNIFORMIDADE DE ALGUMAS DORES-ÁRVORES © MARA CORADELLO // QUANDO OS MARACUJÁS FLORIREM © MÁRCIA BARBIERI // BOA NOITE, BURROUGHS © MARIEL REIS // A CONTINUIDADE DAS RUAS © ROBERTO DUTRA JR. // TEMPO DEMAIS © SIMONE MAGNO //

© YARA CAMILLO ///

AQUIESCÊNCIA (VEM, ESSÊNCIA, AQUI, ESSÊNCIA

)

os colaboradores asseguram seu direito moral de serem identificados como os autores dessa obra.

Todos os direitos desta edição reservados a

seu direito moral de serem identificados como os autores dessa obra. Todos os direitos desta edição
seu direito moral de serem identificados como os autores dessa obra. Todos os direitos desta edição
NESTA EDIÇÃO: 9 alessandro 13 anderson fonseca 14 andré garcia tartarini Enquanto Nora toma
NESTA EDIÇÃO: 9 alessandro 13 anderson fonseca 14 andré garcia tartarini Enquanto Nora toma

NESTA

EDIÇÃO:

9

alessandro

13 anderson fonseca

14

andré

garcia

tartarini

13 anderson fonseca 14 andré garcia tartarini Enquanto Nora toma banho, ele fecha os olhos e
13 anderson fonseca 14 andré garcia tartarini Enquanto Nora toma banho, ele fecha os olhos e
13 anderson fonseca 14 andré garcia tartarini Enquanto Nora toma banho, ele fecha os olhos e

Enquanto Nora toma banho, ele fecha os olhos e imagina quando poderá dar a ela a cidade que prometeu

Faz seis anos que às quintas-feiras ele vem, entrega os livros e sai. Nunca, em todo este tempo, o convidei para conhecer minha biblioteca.

O Zé estará lá, com as munhequeiras de couro, a careca com a cicatriz no meio, a cara de maluco, pronto para meter a faca.

 
 
 
 

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bruno

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daniel

21

delfin

azevêdo

osiecki

 
20 daniel 21 delfin azevêdo osiecki   A minha diferença pro resto das pessoas é que
20 daniel 21 delfin azevêdo osiecki   A minha diferença pro resto das pessoas é que
20 daniel 21 delfin azevêdo osiecki   A minha diferença pro resto das pessoas é que

A minha diferença pro resto das pessoas é que eu gosto de atropelar os outros e elas atropelam, geralmente, sem gostar.

Você recolhe o seio branco igual a um anjo de Botticelli. Morro. Agonizo. Ser delirante perdendo o juízo.

 

Conversaram sobre o nada, que é sobre o que se conversa quando não se quer falar realmente de assunto algum (

 
   
 
   
   

24 diego mendonça

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ivana arruda leite

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jd

lucas

mendonça 26 ivana arruda leite 27 jd lucas Desligo o celular e vejo uma ligação perdida
mendonça 26 ivana arruda leite 27 jd lucas Desligo o celular e vejo uma ligação perdida
mendonça 26 ivana arruda leite 27 jd lucas Desligo o celular e vejo uma ligação perdida

Desligo o celular e vejo uma ligação perdida de casa. Deve ser minha mãe querendo saber onde estou.

Por isso resolvi contar-lhe a verdade. Deixo a carta sobre a escrivaninha e saio andando pelas ruas até que a fome e a sede me consumam.

Observa-me sorver o líquido com distração fingida; sei que em toda aquela carne extravagante hiberna urso faminto.

   
 
   
 
   

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mara

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márcia

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mariel

coradello

barbieri

reis

29 márcia 31 mariel coradello barbieri reis O enterro eram não-memórias diluídas em meio a uma
29 márcia 31 mariel coradello barbieri reis O enterro eram não-memórias diluídas em meio a uma
29 márcia 31 mariel coradello barbieri reis O enterro eram não-memórias diluídas em meio a uma

O enterro eram não-memórias diluídas em meio a uma dor de fazer o chão sumir. De se lançar ao chão. De querer se enterrar.

Se ele fosse eu ele saberia que a única moça que eu amei na vida morava na casa ao lado, sim

 

Minhas mãos foram mais rápidas. Retiraram do bolso do sobretudo o rolo de fita silvertape.

 

ele saberia (

).

 
   
 
   
   

33 roberto dutra jr.

34

simone

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yara

magno

camillo

dutra jr. 34 simone 39 yara magno camillo Percebi, quase modestamente, que eu o seguia pelas
dutra jr. 34 simone 39 yara magno camillo Percebi, quase modestamente, que eu o seguia pelas
dutra jr. 34 simone 39 yara magno camillo Percebi, quase modestamente, que eu o seguia pelas

Percebi, quase modestamente, que eu o seguia pelas calçadas – impulso agora irresistível – silencioso de meus pensamentos.

 

Isso eu não confessei, nunca. Eu não tinha nenhum pecado, por que não poderia guardar esse segredinho só para mim?

 

Mania deles, ou nossa – não sei quem começou –, isso de sermos lindas como a mãe de Deus.

 
 
 
 
CONTATO REVISTAFLAUBERT@GMAIL.COM /// ISSUU.COM/ REVISTAFLAUBERT /// FACEBOOK.COM/ REVISTAFLAUBERT EXPEDIENTE EDITOR
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EXPEDIENTE

EDITOR MARIEL REIS [MARIELREIS@IG.COM.BR] /// CONSELHO EDITORIAL ANDRÉ TARTARINI [A.TARTARINI@GMAIL.COM] // JD LUCAS [JDLUCAS.CONTATO@GMAIL.COM] ///

EDITORES REGIONAIS RIO GRANDE DO SUL ALESSANDRO GARCIA [SEVEROGARCIA@GMAIL.COM] // CEARÁ ANDERSON FONSECA [AFCONSULTORIAEDITORIAL@OUTLOOK.COM] // RIO DE JANEIRO ANDRÉ TARTARINI, JD LUCAS // MARANHÃO BRUNO AZEVÊDO [BAZVDO@HOTMAIL.COM] // PARANÁ DANIEL OSIECKI [TROOPER_OSIECKI@YAHOO.COM.BR] // SÃO PAULO DELFIN [DELFIN.K@GMAIL.COM] ///

PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO ALESSANDRO GARCIA [COLABORAÇÃO: STUDIO DELREY]

ALESSANDRO GARCIA [COLABORAÇÃO: STUDIO DELREY] os personagens e as situações dos contos aqui publicados

os personagens e as situações dos contos aqui publicados são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opiniões.

da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opiniões.

ano 01 / # 01

BRASIL

2014

EDITORIAL

EDITORIAL 1. A revista flaubert nasce da inveja de inúmeras outras revistas literárias: Machado ; Paralelos

1. A revista flaubert nasce da inveja de inúmeras outras revistas literárias: Machado; Paralelos; Patife e Maria Joaquina.

2. Almeja o congraçamento da arte narrativa formada no país e as

diversas expressões assumidas por ela no transe/trânsito de seus criadores.

3. Intitula-se assim, devido ao clássico do autor francês: Três Contos.

Considera a narrativa curta Um Coração Simples um dos ápices dentro do gênero.

4. É um espaço de recreação, de intercâmbio e de formação cultural,

por constar em suas páginas autores que contribuem para a expansão do que se convencionou chamar de cultura brasileira.

5. É aberta para colaborações de todo o país. As narrativas devem ter no mínimo
5. É aberta para colaborações de todo o país. As narrativas devem ter no
mínimo uma lauda e no máximo dez. A formação desta revista conta
com os seguintes escritores: Alessandro Garcia, Anderson Fonseca,
André Tartarini, Bruno Azevêdo, JD Lucas e Delfin.
6. Estabelece como editores regionais: Anderson Fonseca, no Ceará;
Alessandro Garcia, no Rio Grande do Sul; Bruno Azevêdo, no Maranhão;
Delfin, em São Paulo e Daniel Osiecki, no Paraná. No Rio de Janeiro,
estará a cargo dos escritores JD Lucas e André Tartarini. Exercerá a
função de editor geral Mariel Reis, o criador da revista, reservando-se o
direito da palavra final acerca de impasses da publicação.
7. A periodicidade da flaubert será mensal. O fechamento para
recebimento das narrativas será o dia 28 de cada mês; os endereços
eletrônicos para envio das narrativas constará na ficha técnica ao lado
dos nomes dos editores.
8. Não se responsabiliza sobre casos de plágio ou outrem acerca das
narrativas submetidas aos editores, julgando-as desembaraçadas
legalmente sob qualquer aspecto, recaindo apenas sobre o autor o ônus
de acusações pertinentes e as sanções legais daí derivadas.
9. Um editorial é chato, mas necessário. Sejam bem-vindos. Muito
obrigado ao eventual leitor. Sirva-se.
MARIEL REIS // EDITOR

SALOBRO

ALESSANDRO GARCIA

O ar cheira a ligustros, granitina e excitação pós- púbere. A tateante aranha de dedos de Madison permite-se ficar tempo muito mais do que necessário

exercendo pressão úmida sobre a mão de Ignacio. É como uma luta livre de maciez coroada pelo ir e vir do mindinho, elucidando a intenção daquilo o que já não deixa a menor

dúvida. Na rua, o frio é congelante e a chuvinha fina é só uma irritação a mais, tamborilando na janela do anfiteatro da universidade. Ela se inclinou para mais perto dele, não perto demais mas, sim, perto demais, e é esta proximidade calculada em milimetrismo que permite o tom baixo, ritmo cadenciado pelo ainda ir e vir do mindinho em sua mão, reduzindo a voz ao que é quase sussurro — “mais uma vez, seu argumento foi perfeito”. Ele ainda consegue externar-se ao que vai além da pequena bolha que lhes envolve — na plateia à meia-luz se vê o brilho dos smartphones refletindo na tez lustrosa dos estudantes que restam, ocupados em redigirem espirituosas máximas de cento e quarenta caracteres enquanto aguardam

o carro de alguém que os levará a lugar quente e distante.

Retira sua mão com a desenvoltura de quem só vai apoiar a alça da pasta de maneira mais firme no ombro e diz o que todo professor precisa dizer diante do que é óbvio, o que diz toda vez que, ao fim de uma de suas palestras, uma aluna se detém a segurar sua mão, alisando o próprio cabelo em quantidade muito superior ao comum, suavidade do toque e da voz muito mais intensa do que o comum. “Fico feliz que você tenha gostado, Madison”, Ignacio diz. O toque dele em seu ombro, quando decide ir em frente, sempre que decide ir em frente, é apropriado, ainda que permaneça tempo muito mais do que necessário. E é sempre interrompido pelo gesto de segurar o cartão com o número de telefone que elas lhe alcançam, antes de subirem a escadaria em direção à porta dupla sobre a qual se lê saída de emergência, só um pouco mais apressadas do que o comum.

O berço não era de nenhuma grife famosa de bebês. Foi

comprado depois de uma pesquisa de preços, em um destes sites de pesquisa de preços. Ainda era outra cidade, um lugar de atmosfera seca e pessoas apressadas e irritadiças, quando

a montagem dele, que deveria levar em torno de uma hora,

prolongou-se por mais de cinco. Ficará para sempre em Ig- nacio à imensidão de branco de que era feito o quarto. Sua

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solidão suarenta em meio às paredes brancas. Sua inépcia

em manter a chave sem escapar da fenda, rodeado de ar- mários sob medida brancos. A moldura do espelho, branca. Rodapés: brancos. A mancha no canto superior da porta de um dos armários que passou a tarde inteira tocando em uma lâmpada acesa provocou pequenas bolhas escuras na laca. “É Cybill Shepperd”, ele disse, apontando para a mancha, quando Nora entrou no quarto olhando em volta.

A ordem, só aparente. Lá fora, uma tormenta se aproxima-

va sem ser captada pelos radares das estações meteorológicas, ardilosa como crianças pequenas que se escondem atrás de sofás para assustar tias velhas. Nora se deu ao trabalho só de meio sorriso.

“Menos poluição. Menos pessoas. Trânsito melhor. Em- prego melhor. Claro que foi bom termos voltado.” Ignacio bebe o café preto, passa um dedo pelo buço e des- via os olhos de Toledo para um grupo de alunas que toma con-

ta de uma das mesas de plástico do lado de fora da lanchonete. “Mas você não estava bem colocado lá? Alguma coisa com televisão, não era?”, insiste Toledo. “Produtor de um programa de cultura. Bom, mas um tan- to frustrante. Foi preciso pesar o todo.” Nota o ombro sardento de uma das alunas, ouve sua risa- da misturada à das outras, mas não consegue ver seu rosto. “O todo?” “É. Nora também ficava muito sozinha. Um condomínio imenso, repleto de mães e babás. Você sabe que não se faz amizades de verdade em lugares assim. Eu precisava ficar o tempo todo com ela. Com a chegada do Bento, foi mesmo melhor voltarmos.”

A garota levanta e vai até o balcão. Não é Madison. Tole-

do acompanha a direção de seu olhar, sorrindo quando Igna- cio volta a encará-lo. “Imagino que aqui você consiga ter um pouco mais de liberdade?” “Como é?” “Você sabe. Professor novo, Cultura de Mídia. Disciplina disputada, alunas impressionadas.” “Não sei do que você tá falando, Toledo. De verdade”, diz, enquanto encara as alunas para certificar-se de que não é mesmo quem está pensando.

Das primeiras vezes, o registro é um caderno macilento recendendo à mofo: improviso e sordidez. Uma cortina esvoa- çante que deixava passar iluminação demais. Um pequeno hotel em pleno centro comercial da cidade. O odor úmido impregnando-se às suas narinas como a versão olfativa da cai- xa de fósforo que deixarão no mesmo lugar, sobre o cinzeiro de cerâmica lascada na bancada de falso mármore. Por volta

das dez horas, então velhos de ternos sintéticos pelo caminho,

o olhar enviesado e forçosamente cúmplice do sujeito no bal-

cão antes de lhes estender a chave — “34, terceiro andar”. Ela, ainda rubra pelo calor da jaqueta de gola alta em pleno mar- ço, o sorriso nervoso não disfarçando a excitação, apertando

firme os cadernos sob a bolsa à tiracolo. De um dos vãos da janela fechada à pregos, a rua — embotada de tráfego, ambu- lantes e sujeitos com camisa de futebol apregoando a compra de cabelos —; no banheiro, preservativos informando que seu uso será cobrado ao fim da diária. Escorou o velho Nokia so- bre o que deveria ser uma penteadeira, a câmera já acionada formando retângulo sobre os dois enquanto ainda no semi- breu junto à janela. O recato dela provou-se mentiroso. En- ganara-o todas as vezes em que se demorou, rosto escondido pelos cabelos, recolhendo cadernos quando a turma inteira

já havia deixado a sala. Da última vez, o falso problema com

a porta e o encontrão, seu corpo em marcha ré chocando-se

contra o de Ignacio, só um instante e a certeza do mesmo perfume almiscarado na nuca, aquele também que Nora gos- tava de passar no mesmo lugar. Ignacio vai assistir ao vídeo depois, na tela diminuta do Nokia, enquanto a hora para a próxima turma não chega. Parecerá ainda mais constrangedor que ato flagrado na ja- nela do apartamento vizinho. Mas, enquanto aconteceu, a câmera não foi uma lembrança. Ele pairou sobre o corpo dela com um demônio enlouquecido, domínio assinalado pelas mãos que enroscaram os cabelos, pelo vermelho com que lhe marcou a cintura. Não se preocupou se o ângulo da câmera era errado, flagrando em demasia sua própria car- ne esbatida. Enquanto pairou sobre ela, não pensou nisto. Ocorreu-lhe, sim, se haveria água quente e sabonete líquido no banheiro para retirar o cheiro antes de chegar em casa — é preciso sempre retirar o cheiro. Ocorreu-lhe também se lembraria o nome dela, antes de colocá-la no táxi. Será o mesmo problema com todas as outras.

se aplica à Ignacio. A letra m cortada da mão procura-lhe

por baixo do calção. O que não encontra são os olhos de Ignacio, intimidado por Cybill Shepperd que os observa do alto do armário.

Ventos alísios em uma velocidade estúpida, revirando guarda-chuvas coloridos, trenchcoats de gabardine e capu- zes amarrados em torno de pescoços. As folhas no pátio da universidade são bailarinas fugidias, elaborando uma espé- cie de dança na qual escapam umas das outras num ritmo estranhamente compassado. É época de chuva, do tipo que

muda a intensidade de maneira traiçoeira, virando tempesta- de nos momentos em que ninguém está prestando atenção

e cujas conseqüências só se descobrem no dia seguinte. Em

uma poltrona da sala dos professores, Ignacio está retornan-

do a Lorenzo Arigoni e seu Não Lugar. Presente de Nora, quando revelou-lhe a promoção para professor titular. Por

cima do livro pode ver o professor Aníbal baixando os óculos para analisar a rosca açucarada que pesca na bandeja junto à cafeteira — é ele quem se vira primeiro quando vê a silhueta da aluna que bate na vidraça jateada da porta, entreabrindo

-a e encontrando Ignacio, a quem chama com um sorriso e um menear de cabeça.

bom, pensei se você não quer, sei lá, to-

mar um café e me explicar algumas coisas que não ficaram

muito claras. Sobre mensagem estética e tudo mais.”

A voz de Madison parece menos musical e decidida do

que se lembra. É como se fosse realmente a primeira vez que

a escuta. “Eu gostaria muito”, ele diz, segurando a porta aberta com o ombro, “mas tenho uma aula começando no próximo minuto.” “Não, bem, não precisa ser agora. Na hora que você quiser. Não quero atrapalhar.” Ela parece ansiosa, mordendo o lábio inferior e torcendo um dos pés. “É, Madison, não?”, finge não lembrar. “Sim.” “Não é que você esteja atrapalhando.” “Bom, eu não queria, mas eu fiquei, tipo, pensando, de- pois da sua palestra e ”

Ele espera, olhando seus ombros chamuscados de sardas.

“Oi, eu pensei

 

O

top que ela usa é brilhante, talvez não do tipo que se espe-

Nora é da cor do tronco de pessegueiro. Pele de veludo, cabelo de pluma. Nora, coxas de acroba-

ra

ver na universidade, mas o que entende ele sobre moda? “Claro. Quem sabe marcamos esta conversa, este café,

ta. Nora, panturrilhas de patinadora. Sua risada é um desa- fio, a boca coberta como se tivesse que esconder os dentes. Uma cicatriz na palma da mão quer destruir a letra m. Nora, conciliadora. Ainda há intimidade entre os dois, necessária como estampada nas revistas femininas. O que não há é

quero dizer, fora daqui? Fora da universidade?” Ela faz e desfaz o rabo de cavalo, mostrando o caminho de sardas que continua nuca acima. Morde novamente o lábio. “Parece ótimo. Você me liga?” “Ainda tenho seu cartão.”

a

explosão de então: agora tudo é praticamente agendado,

intervalos garantidos pelo respirar que é feito de abruptos e preocupantes resfolegares do pequeno no berço. A cidade, desprovida de umidade. Sábado, pode-se ouvir a cantilena

sonora de uma peça de metal chocando-se contra uma qui- na. No canto do quarto, descansa o aparelho que borrifa o ar com a mesma lentidão e meticulosidade com que Nora

O caminho de volta para casa parece mais repleto de ou-

tdoors mentirosos do que de costume. nora (casa) pisca, in-

termitente, na tela do celular silencioso no banco do carona.

O ar tem o cheiro que se sente quando uma tempestade se

aproxima. Se for uma emergência, Nora ligará novamente.

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Logo que chegam na outra cidade, transam todas as ma- nhãs. Por trás e sem se beijarem, evitando o gosto e o cheiro que cada um ainda leva na boca. É uma espécie de combi- nação silenciosa, mesmo que nenhum deles admita a som- bra que lhes cobre a cada dia que passa. Aquilo os aproxima, Ignacio pensa toda vez que a vê levantando, ainda sem olhar para ele, e se dirigir ao banheiro. Enquanto Nora toma ba- nho, ele fecha os olhos e imagina quando poderá dar a ela

a cidade que prometeu. Tudo ali é cinzento e pesado, como

se blocos de fuligem se alojassem em seus pulmões todas as manhãs em que precisam enfrentar o metrô. “Você está bem?”, ele pergunta vendo-a escovar com exa-

gerada força os cabelos molhados que deslizam fácil pelo pente. “Muita gente nesta cidade. Chego cansada no trabalho antes mesmo de dizer bom dia.” Ele percebe que a cidade ia incomodá-la, cedo ou tarde. Concordou em acompanhá-lo como concordava com tudo o

que dizia, antes mesmo que terminasse qualquer frase. Ela sempre foi enclausurada em si mesmo, sempre satisfeita com

o miúdo. O que ia achar ali, naquela cidade mastodôntica?

Nora, imperatriz da pequenice. Muito delicada, muito arre-

dia. Não podia deixar que a cidade acabasse com ela.

Ignacio se masturba no banho pela manhã, antes de ir para a universidade. Compreende o cansaço de Nora. Com- preende sua inadequação com o corpo pós-gravidez. Com- preende as exigências que Bento lhe faz. Compreende que nada será mágico, só por que voltaram para sua cidade. Só compreende assim, porque evita os clichês: do marido impa- ciente diante do estado irritadiço da mulher; do tédio diante do armário repleto apenas de leite em pó; do irmão mais novo bradando em todo churrasco de domingo “Agora sua vida acabou.” Há clichês demais no caminho, mas todos evi- táveis. Antes de sair em silêncio, observa o pequeno no ber- ço, aquele pequeno milagre que chora um sem-número de vezes por noite. Respira em sintonia com Nora, na cama ao lado. Não consegue imaginar um dia em que a amará mais do que naquele segundo.

Sua voz será firme, um exagero de demonstração de au- toconfiança quando comparado às vezes em que a ouviu, de verdade. Usará um vestido de noite na medida do intento:

curto o suficiente para aguçar-lhe expectativas, comprido o

bastante para confundir-lhe as pretensões. Terá a pele luzi- dia de uma mistura de creme hidrante e resquícios de algum óleo pós-banho; as mãos em unhas recém-feitas, impecáveis; quando rir será de forma um tanto meticulosa, preocupada que estará em não borrar os dentes de batom. Certamente, ainda que do outro lado da mesa – já sabe onde a levará? —, irá se comportar como quando na palestra: sustentando

e devolvendo o olhar, sem titubear, fitando-o bem no centro

nos olhos. Ouvirá muito atenta às alusões que ele fará a um ou outro mais obscuro, Žižek ou Giroux, talvez, seu sorriso impassível não estendendo a citação, e não terá habilidade suficiente para esconder a satisfação quando identificar Der-

rida ou Deleuze em uma frase sua, citando um artigo mais conhecido ou emendando uma espertice qualquer, como uma menção a Foster Wallace ou algo do tipo, remixado por alguém de fora da academia. Ela terá destreza admirável para relacionar àquilo a alguma fonte de interesse seu, e a outra depois desta e mais alguma — uma míriade de temas que demonstrarão todo seu ecletismo na zona limítrofe entre o esnobe o casual (o name dropping cessará antes que cruze o território do pedantismo, mas que garota que morde a azei- tona do Manhattan pode ser acusada de pedante?). Ela irá mencionar talvez uma teoria, mais próxima à piada interna dela e das outras colegas frequentadores da primeira fila de platéias, algo empacotando coisificação da mulher, Top Gun, ethos reaganista e Walter Benjamin. Se ele mostrar interesse, ela irá deleitar-se por minutos à fios com sua própria sagacida- de, emitindo reconhecíveis códigos de abertura em sequência — cruzando e descruzando as pernas, tocando-o um sem-nú- mero de vezes no antebraço, jogando o cabelo de um lado a outro — enquanto acrescenta camadas de explicação à já compreendida teoria. Não é demais?, ela dirá, embalada pelos Manhattan em sequência. O modo como a mulher é tratada como objeto, um prêmio. Não que às vezes eu não goste de ser objeto, mas, ela replicará, riso malicioso. Ignacio concor- dará com a cabeça, muitos degraus abaixo no entusiasmo, resultado direto da água tônica que acompanhará o jantar, ciente da sobriedade necessária para o que deverá vir depois. Após teoria, silêncio. E um olhar que dirá mais do que seria preciso. Porque se viram na palestra de Ignacio. Porque ela o procurou depois disto. Porque deveriam estar falando sobre mensagem estética, mas só há uma mensagem sendo passada com aquele jantar, luz pequena em abajur minimalista em mesa de fundo em bairro distante. A risada dela em excesso antecederá a maciez de veludo, pés descalços por baixo da mesa sobre o volume na calça de Ignácio. Ele já terá traçado na mente o caminho mais curto: com hidromassagem, dis- creto, só a alguns minutos dali. O garçom virá imediatamente com a conta quando menear a cabeça e não lhe chamará atenção tudo parecer tão certo, tão sincronizado.

Seu vulto é visível mesmo que banhado pelo fraco ama- relo da iluminária do canto. Ignacio continua o movimento de abrir e fechar a porta em câmera lenta, surpreendido por vê-la acordada ainda àquela hora. “Bento finalmente dormiu”, ela diz, sem se virar. “Que bom. E você conseguiu ” “É. Fazia bastante tempo que não assistia a nenhum epi- sódio. Você já viu este?” Ele olha menos para a televisão do que para o copo com gelo ao lado do sofá. “Não. Não vi”, ele responde, a pasta de couro ainda na mão. “Senta aqui”, Nora pede. “Não vai ficar a noite toda aí, de pé.” Ignacio larga a pasta e desaba ao seu lado. Nora aconche- ga-se a ele, roupão cheirando a talco. “Lembra quando víamos esta série e toda vez tínhamos que pausar e ”

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“Lembro. Lembro, sim.” “Eu achava engraçado você ficar daquele jeito, mas de- pois eu também passei a ” “Ficar excitada?”, ele completa, “É claro que eu lembro bem disto.” Ela aconchega-se ainda mais. Além de talco, há leite e óleo de amêndoas. “O que você estava bebendo?” Ela olha para ele sem responder. Quando se aproxima, ao invés do beijo, morde seu lábio inferior. “O que você acha? Que cheiro tem?” “Suco de laranja?”

“Você continua bom”, ela sentencia, séria. “A gente sem- pre teve isto em comum. E você?” Nora afunda o rosto no seu pescoço.

“Chanel? Não, peraí

Ignacio não responde, olhos fixos na televisão. “Pelo menos tem bom gosto. Mas tome um banho antes

Gucci?”

de deitar.”

Uma lembrança: três anos de casados, talvez. O sujeito é grosseiro, do tipo com boné de tela enterrado sobre o cabelo molhado. Ignora a presença de Ignacio. Diz “sua gostosa” com a mesma naturalidade com que termina de tirar o Mar- lboro do bolso de trás da calça jeans. Com o mesmo automa- tismo da cusparada. Outra: Ignacio, talvez nove, espetando o ombro do garoto com um lápis. Nervoso, chorou mais que o colega. Quando acontece, depois que o sujeito diz “sua gostosa”, é muito diferente de então. Ainda não sabe se o polegar devia ficar para dentro ou para fora, mas a memória do canino do sujeito, cravando em seus dedos,é nítida. E o cheiro do sangue. O soco foi como um martelo, desajeitado, rebentando a mão que depois Nora seguraria embaixo da sua, mergulhadas na água morna.

Ele realmente mencionou Žižek e Giroux. Encaixou uma piada acadêmica muito popular logo depois. Um jogo de pa- lavras com Derrida e Deleuze. Ela riu, não de forma meticu- losa, já que não estava de batom. Não houve muito cuidado com os gestos e movimentos: ela vestia um macacão e aquela mancha violácea devia ser tinta, não uma estampa. Ficou quieta a maior parte do tempo — silêncio entremeado por olhadelas para a televisão sem som, um daqueles programas vespertinos de brigas familiares. Não houve teoria qualquer sendo explicada, nenhuma menção a filmes ou escritores

contemporâneos. A pele dela era luzidia, e ela falava sobre como gostava das aulas, sorriso franco de quem rememora a infância. Eram só os dois dentro do apartamento. A colega

de

quarto tinha uma prova naquela tarde. Um alarme de car-

ro

ressoava lá fora. Crianças gritavam num parque bem pró-

ximo. Ela tocava sua coxa como se não soubesse o que fazer.

O ar cheirava a odorizador de banheiro. A mesa de centro

estava repleta de Cosmopolitan e revistas de dieta. Uma mu-

lher loira anunciava um vaporizador na TV. Ela parecia estar tremendo enquanto abria seu zíper. O recato dela provou-

se verdadeiro. Ele lembrou que ainda nem sentira o gosto

da boca de Madison. Visto de cima, não parecia certo vê-la ajoelhada. No andar de baixo, alguém escutava um cantor português. Madison parecia realmente não saber o que fazer. Segurou seu pênis flácido como se fosse um filhote. Bem mais tarde, ele explicou ter ouvido vozes na escada. Disse ter pensado ser sua colega. Quando puxou de volta a calça, não se importou com as moedas que caíram no chão. Madison ainda continuou um bom tempo ajoelhada, mesmo quando a beijou, sentindo o gosto salobro. Bem mais tarde, ele terá sempre a impressão de que ela ainda estava assim enquanto ele saía pela porta. Bem mais tarde ele terá certeza de que não eram vozes, era um choro, que parecia mais e mais pró- ximo e incomodamente familiar.

ALESSANDRO GARCIA é autor de A Sordidez das Pequenas Coisas, finalista do Prêmio Jabuti e segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional. Tem contos traduzidos para o espanhol e inglês. Foi colunista do Digestivo Cultural. Colabora para Rascunho, Musa Rara e é colunista da Last Call for Beer. É editor regional da flaubert. Prepara o lançamento do livro infantil Números São Muitos Mundos e do romance A Zona da Invisibilidade. www. alessandrogarcia.com

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O PRêmIO

ANDERSON FONSECA

Q uando o carteiro vem à minha casa é para entregar livros, raro ser outra coisa. Felicita-me as entregas, e, a cada possibilidade nova, aguardo ansioso ele

aparecer. Ora, sou um crítico rigoroso, embora en- tusiasta da nova literatura; porém meu rigor e fama abarro- tam-me de livros para ler e resenhar. Assino o fim da página, abaixo da nota de aprovação ou desaprovação. Sinceramente, esta é uma experiência asquerosa. Só a exerço porque sou preguiçoso e preciso viver; noutra profissão eu seria um fias- co. O que me salva nestes tempos asquerosos e deste exercí- cio nauseante é a visita semanal do carteiro. Quatro visitas no mês e às quintas-feiras.

Antes dele surgir a minha porta, visto minha calça de al- godão listrada em azul claro e branco, enfio-me numa blusa de manga longa, sento-me próximo à entrada, fico a ler filo-

sofia (nos últimos dias, dedico-me à leitura do pensamento de Bergson), com os ouvidos atentos ao toque da campanhia. So- litário que sou, sem mulher e filhos, nem bicho (tenho horror

a animais), o carteiro é o único que preenche minha solidão.

Somos amigos sem dizer um ao outro. Ele, mais velho que eu,

é calado, às vezes sorri, quando fala levanta as sobrancelhas e tem os olhos roxos como beterraba. Não sei seu nome e me envergonho disso, por que ele sabe o meu. Quando me saú- da, “Bom dia, senhor Antônio”, eu respondo com um singelo “Bom dia”. Vejo, como reação às minhas palavras, um sem- blante desanimado. Era mais bem nada dizer, penso depois.

Faz seis anos que às quintas-feiras ele vem, entrega os li- vros e sai. Nunca, em todo este tempo, o convidei para co- nhecer minha biblioteca. Refletindo sobre esse descuido, decidi convidá-lo. Primeiro desculpei-me por jamais ter-lhe perguntado o nome. Ele abaixou a cabeça, retraiu os lábios, e disse que homens como eu, preocupados tanto com o saber, não tinham tempo para reparar em homens como ele. Eu o interrompi dizendo: “Não há justificativa para o que fiz. Re- provo minha conduta. Perdoe-me. Não é assim que um ho- mem deve se portar”. Depois, acrescentei: “Por favor, entre. Quero mostrar a você a recompensa de seu trabalho.” Ele hesitou. “Não iremos demorar”, eu disse. O carteiro entrou pisando suave no assoalho. Atravessamos a sala, chegamos à cozinha e lhe ofereci um café. Ele disse: “O senhor acertou no gosto, minha esposa não consegue”. Perguntei: “E você

bebe ainda sim?”. “Para não perder a mulher”, respondeu.

Rimos. Dali fomos para a biblioteca. Parei-o diante da porta

e disse: “Contemple a recompensa de seu trabalho!”

“Está vazio. Não vejo os livros. Onde estão?” “Aproxime-se, de tão longe é impossível avistar o galardão. É pequeno, mas está aqui, em cada prateleira. Olhe bem.” “Agora vejo. Como é insignificante minha recompensa. Só há papéis. O que isso quer dizer? Não compreendo.” “Cada folha é o túmulo de um livro que morreu. Hah-

aha

a hora que recebi o livro, a hora que conclui a leitura, e a hora em que o lancei ao fogo. Sou crítico, acredita que os livros

que recebo me agradam? Nenhum é Camões, ou Flaubert, nem sequer Hemingway, ou mesmo Drummond. São bons, dá pra engolir. Até hoje aguardo angustiado a obra que me ar- rebatará tal como Fausto por Mefisto. Não vi nenhuma alma

possessa pelo anjo da loucura. Por isso os lancei nas chamas.” “Você me chama para ver que meu trabalho é vão?” “Não. O seu e o meu. Somos dois trabalhadores ansiosos por nosso prêmio. No fim só há uma estante vazia. Nada, é

o que recebemos.” “Saio daqui atormentado.” “Vá, mas deixe sua tormenta. Sou eu quem recebeu pro- messas todo esse tempo, promessas entregues por suas mãos. As suas estão vazias, mas as minhas, estão cheias de sonhos que não se realizaram. O tempo foi injusto comigo. Você viu

e não compreendeu. Sua recompensa, carteiro, é o fogo, mas

Esclareço, cada pequena folha que vê contém gravada

as cinzas são minhas.” “Eu vou, mas jamais voltarei aqui, senhor Antônio.” “Quando você bater a porta, Emílio, abrirei este livro que me trouxe; farei minha leitura; assinarei a crítica, e depois, com um gatilho darei fim às palavras.”

Sem nada dizer, ele saiu. Então me sentei à escrivaninha

e fiz a última leitura.

ANDERSON FONSECA é escritor, crítico literário e editor regional da flaubert. É autor de Sr. Bergier e outras histórias (Rubra Cartoneira).

13

cARNE mOíDA

ANDRÉ TARTARINI

A maneira tranquila com que Bernardo caminha não transmite seu real estado de espírito. Isso é um pou- co estranho, já que não se esperaria essa capacida-

de de dissimulação de um garoto de sete anos. E ele sabe que, mesmo tentando parecer calmo, a única coisa que po- derá acabar com sua ansiedade é comprar de uma vez no

açougue um quilo de patinho bem limpo, moído na hora

e

duas vezes.

O andar estudado e calmo é uma tentativa de enganar a

si

próprio, ele talvez não se dê conta disso – talvez se dê–,

certo é que ainda não tem autoconhecimento suficiente –

talvez nunca venha a ter – a ponto de isso estar claro na sua cabeça, e acho que ele nem quer que a ideia fique tão clara. Por isso mesmo, repete em silêncio as especificações da carne que a mãe mandou buscar. O Zé estará lá, com as munhequeiras de couro, a careca com a cicatriz no meio, a cara de maluco, pronto para meter a faca. Qualquer palavra mal empregada pode ser fatal, e sua tarefa não se resume apenas a pagar e receber. É preciso pedir que o açougueiro limpe bem o patinho, que tire as partes brancas, que moa

a carne na sua frente e que moa duas vezes. Duas vezes, a

mãe repetiu. Bernardo não sabe se terá coragem de fazer todas essas exigências quando estiver frente a frente com a cara de maluco do Zé, cuja fama pode ser mentira, como a mãe sempre diz, mas não é ele – Bernardo – que se arriscará para saber. Melhor manter-se alerta. E a mãe parece querer

jogá-lo aos leões a todo instante, vá no açougue comprar isso, vá no açougue comprar aquilo, passe no açougue e leve isso, peça aquilo no açougue. E então tem que enfrentar sozinho o Zé com as munhequeitartartariniras de couro e

a cicatriz no meio da careca. Como se não bastasse, Boca

Roxa atravessou a rua correndo porque avistou o amigo, se aproxima e pergunta se ele quer ir ver a perna. E quan- do Bernardo responde que não pode ir ver a perna porque tem que ir ao açougue, o sorriso do outro parece dizer que ele talvez esteja com medo. E é por isso que então diz que

sim, quer ver a perna sim, mas antes tem que ir ao açougue.

E novamente o sorriso de Boca Roxa deixa transparecer a

ideia de que Bernardo també, talvez, esteja com medo de ir ao açougue.

Vai comigo no açougue? Depois a gente vai ver a perna.

Boca Roxa, surpreendido pelo convite, deixou sua reação denunciar o medo que ele também sente do Zé. A réplica inte- ligente e rápida do mais novo o surpreendeu – é preciso tomar cuidado com Bernardo, pensou –, o desafio de levar o amigo para ver a perna agora depende de sua coragem para encarar o açougueiro. Avaliou por poucos segundos, tentou inventar al- guma desculpa minimamente plausível, mas a mera hesitação já o faria perder pontos. Aceitou o convite no reflexo e agora já não pode voltar atrás. Seguem em silêncio. A mim, parece que buscam alguma coisa a dizer, algo que provoque o outro de maneira sutil, mas nada lhes ocorre, e o desafio se limita a apressar o passo, para que fique claro que ninguém ali está de moleza, com medo de encarar o Zé. Nem a perna.

Quando entram no açougue, ele está sentado do lado de dentro do balcão e mexe sozinho em um tabuleiro de xadrez. Com uma das mãos, move a rainha preta e com a outra, gira lentamente a faca vermelha, de um sangue fresco que pinga lento no chão.

Fala.

É ele. E Boca Roxa aponta para o outro.

Um quilo.

Um quilo de quê?

Bernardo esqueceu. Veio repetindo para si mesmo du- rante boa parte do percurso, mas não consegue lembrar. O nome da carne não vem à memória, apenas as exigências (bem limpo, moído na hora e duas vezes) e uma saída lhe pa- rece duplamente conveniente: voltar para casa, fugir, mesmo que momentaneamente, da vista do Zé e talvez se livrar do amigo (e da obrigação de, depois, ir ver a perna).

Tenho que perguntar à minha mãe. Vou lá em casa e já volto.

Vira-se de costas para correr, mas o Zé o interrompe. Você não é filho da Janete?

14

Sou.

O açougueiro ri um riso de maluco, ou de mau, e gesticu-

la com a mão que segura a faca.

Vamos ali dentro que tem um telefone. Liga daqui e pergunta.

O Zé, sorrindo, conduz Bernardo através de um corredor

na parte de dentro do balcão e os dois entram por uma porta. Do lado de fora do balcão, Boca Roxa está apreensivo. Não

sabe se a fama do Zé é verdadeira, mas ele, como todos os ou- tros garotos, espalha histórias das coisas que o açougueiro faz com meninos no terreno baldio que fica atrás do açougue, e pode ser que agora mesmo, neste exato momento, o Zé esteja fazendo alguma coisa com Bernardo, e o amigo até cogitou

a possibilidade de atravessar os limites do balcão para ajudar

o outro, ou apenas matar a curiosidade e ver o que eles estão fazendo. Vontade rápida. Boca Roxa se mantém no mesmo lugar, nervoso, apenas esperando, porque está com medo.

Na saleta, há um frigobar velho e uma mesa com um tele- fone em cima. Na parede, um calendário de anos atrás com foto de mulher pelada e uma janela gradeada de onde Ber- nardo vê um terreno com uma árvore seca no meio. Nada mais.

O telefone da Janete eu sei de cabeça.

Senta-se na mesa, e disca com um sorriso besta na cara.

Alô, Janete? Qual é a carne que você quer? É. Ele tá aqui, sim. Esqueceu o nome da carne. Um quilo? Tchau.

O Zé desliga o telefone, abre a geladeira, pega um saco plástico com uma carne não muito vermelha, entrega a Ber- nardo e fica esperando o dinheiro com cara de má vontade. Não há a menor condição de pedir para moer na hora, nem duas vezes, nem nada. A carne já estava no saco. E voltam os dois pelo corredor, o Zé com a faca numa mão, o dinheiro na outra, o garoto sem coragem de pedir o troco – a mãe deixou explicito que era para esperar o troco. Mas o Zé não vai entre-

gar o troco, e os garotos vão sair sem olhar para trás, os dois se cagando de medo, um sem querer demonstrar isso ao outro, em silêncio, passos apressados, e saem dali. Bernardo deixa ”

escapar um “Puta que pariu

não consegue vestir armaduras com o medo que sente e, de qualquer maneira, sempre se pode se valer disso mais tarde. Por ora é melhor manter as armas baixadas, estão os dois no mesmo barco, o mais velho riu relaxado, e emendou sem dar tempo para o amigo respirar: agora vamos lá ver a perna? Ber- nardo percebeu o momento de erguer as armas novamente. Vamos. E enquanto dão a volta no quarteirão para chegar ao terreno baldio, Boca Roxa fala da perna, tentando tratar o epi- sódio do açougue como coisa banal, que já estava esquecido, apesar de suas pernas ainda não estarem firmes.

e o outro ri amistoso, porque

Quando encontrou a perna, passou mal. Chorou. Isso ele não conta a ninguém. A perna fedia. Mas agora, mesmo fedendo ainda mais, não lhe causa mais espanto. Jogou um

15

plástico preto em cima dela e um pouco de mato em cima

do plástico. Leva os amigos até lá, um por um. Enquanto

o amigo se assusta com o membro em estado inicial de de-

composição, ele se mantém calmo, sorrindo até. Isso vem lhe garantindo mais respeito entre os outros garotos, e foi por essa

razão que levou Bernardo até a perna, no fundo do terreno baldio, mesmo apesar do lusco-fusco do fim de tarde, que não permitiria aos dois observar com clareza o pedaço do cor- po de alguém que tinha sido largado ali, sabe-se lá por quê.

Quando Boca Roxa tira o plástico de cima da per- na, uma nuvem de moscas levanta voo. Bernardo está ten- so, Boca Roxa percebe, e parece que começa finalmente a vencer a disputa que se iniciou quando se encontraram, uns quarenta minutos antes, a caminho do açougue. A cara do mais novo deixa claro que a imagem da perna, meio rosada, cheia de moscas em cima, mexeu com ele. O que Boca Roxa

ainda não percebeu é que o espanto no rosto do amigo não é

só por causa da perna, meio dobrada, com uma ferida estra-

nha na panturrilha, onde se vê uma carne não muito verme-

lha. Bernardo reconheceu a árvore e a janelinha com grades do muro dos fundos do terreno baldio. Do lado de dentro da janela, a luz está acesa e o telefone em cima da mesa toca.

O Zé aparece para atender. Boca Roxa agora também se dá

conta de que o terreno baldio onde eles estão é o mesmo em que o Zé supostamente faz as coisas com os garotos. Os dois não precisam trocar palavras sobre isso.

Por um instante, os dois tem a impressão de que o açou- gueiro os viu mexendo na perna, e isso faz com que desem- bestem numa carreira desesperada, Bernardo tropeça, o saco

com a carne cai no chão e se abre. Ele empurra mais ou menos a massa amolecida e meio rosada para dentro do saco,

e isso gera um mal estar instantâneo, um enjoo azedo. Le-

vanta-se rápido, o amigo já está lá na frente e se esqueceu de cobrir a perna com o plástico – mas só se dará conta disso mais tarde.

Estão correndo de volta para suas casas e quando pas- sam em frente ao açougue, o Zé grita chamando os dois.

De início, fingem que não perceberam, indecisos, sem saber

se olham para trás ou continuam correndo. Quando se dão

conta, o açougueiro está correndo atrás, gritando, chaman- do, e continuar correndo agora seria fazê-lo perceber que estão descaradamente fugindo dele. Param. O açougueiro também para de correr e vem andando com a faca na mão. Sangue pinga da faca.

Vamos ali no açougue rapidinho.

Só ele? Boca Roxa tentando fugir.

Não. Pode ser os dois.

Bernardo tentou escapar, mas o Zé estava andando atrás, com a faca – pingando sangue – na mão. A sua mãe tá preo- cupada com você. Ligou para o açougue te procurando. Pode entrar. E levanta o balcão para o garoto passar.

Só ele? Boca Roxa tentando fugir de novo.

Os dois, responde de má vontade.

Da saleta, os amigos mal veem a árvore seca lá fora, está quase tudo escuro, olham um para o outro ao mesmo tempo

e não comentam nada. O açougueiro pega um saco de carne

no frigobar e entrega a Bernardo. Entrega mais esse saco a sua mãe. Fala que é cortesia da casa. O teu troco. O mesmo sorriso besta de antes. Enfia a mão no bolso e pega uma nota de cinco.

Eles não têm mais pressa, Boca Roxa diz que o amigo não precisa ter medo da perna, e que se ele chorar, os outros vão saber e ele vai levar porrada.

Você não pode falar disso com ninguém.

Vai à merda, Boca Roxa.

É preciso tomar cuidado com Bernardo, ele pensa outra

vez, sem saber como responder ao que o outro acabou de

dizer.

A mãe está de guarda no muro esperando, nitidamente

contrariada. Faz questão que o filho perceba. As razões são

várias. Já está escuro (e não era para ele estar fora de casa) e

e Bernardo tem ordens explícitas para não andar mais com o amigo, porque ele é mau elemento.

Entra em casa sem se despedir do outro e finge não perce-

ber o olhar reprovador que o espreita. Entrega a carne à mãe

e segue andando.

Que carne é essa?

A que a senhora falou.

Ele moeu na sua frente?

Moeu.

Eu vou perguntar mais uma vez: ele moeu essa carne na sua frente?

Moeu, mãe.

E esse outro saco?

Ele disse que é cortesia da casa.

Janete permanece séria. Vai até o telefone e percebe que

o filho a observa enquanto disca.

Vai pro teu quarto.

Bernardo está no quarto, tentando ouvir a conversa da mãe no telefone, mas só ouve suas risadas.

Boca Roxa entra em casa sem que a mãe o recrimine por chegar tarde, e isso o incomoda. Lembra-se de que deixou a perna descoberta.

A perna ficou lá, cheia de mosca em cima.

ANDRÉ TARTARINI é escritor, agitador cultural e editor regional da flaubert. Escreveu Mormaço Também Queima.

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vá PRA cADEIA!

(Inspirado no álbum Carlos Alexandre (vol 02), de Carlos Alexandre)

BRUNO AZEVÊDO

P orque é um século novo e como a minha mãe dizia, nada vai ser assim pra sempre. Minha mãe entendia pouco das coisas, porque o nada é de maneira algu-

ma. Mas a minha mulher era mais esperta. Disse, na minha cara, que tudo ia mudar. Não sei quem é mais abrangente, mas ao contrário do que vocês estão pensando, isso não tem nada a ver com o que eu faço. É que eu gosto de atropelar mulheres. Essa da mãe e da mulher foi pra dar um fundo psicológi- co. Tem gente que gosta de sexo, gente que gosta de estourar

balões de festa e gente que gosta, sei lá, de assistir ao Jornal Nacional. Porra, eu atropelo gente! Mulheres. Fêmeas. Antes que me chamem de plagiário, eu li o conto do Ru- bem Fonseca, mas não tem nada a ver com aquilo. Aquilo

é literatura e fodam-se. Eu não tenho um opalão, não tenho

uísque em casa e às vezes acho que tudo que tenho é essa ân- sia assassina por sainhas esmagando seus quadris. O Rubem

Fonseca também foi pra dar um fundo intelectual. Ajuda. Te dá um certo crédito com a moçada. Mas isso não é arte, não tem nada a ver com arte. Eu não as levo pra jantar, não as pesquiso, não faço nada além de apertar o acelerador e administrar o baque, pra não acabar tão amassado num poste quanto a vagaba amassada no chão. Não me programo. Olhei. Foi. Pum! Não sei o nome de nenhuma delas, nunca voltei e parei pra

olhar. Nunca li os jornais, não ouço no rádio, não acompanho

o enterro. Gosto de ser essa imagem anônima na cidade, que

faz as mocinhas pensarem duas vezes na autoridade da cor vermelha ou na proteção das faixas brancas. O retrato falado deu mesmo, é meio distinto, dá um fundo de mistério. Bate um frisson louco, quando o pára-choque atinge a ca- nela. Algumas caem pra frente e levam as mãos ao capô, ro- lando por cima do carro e caindo atrás dele. Deixando uma mancha vermelha que lembra um moicano ou o fusquinha do filme. Só que é vermelho e eu deixo o fusquinha numa esquina qualquer. Outras caem pra trás (é mais legal) e o carro passa por cima. Às vezes emperra e eu tenho que engatar a ré pra des-

viar e seguir à frente. Não gosto de reatropelar mocinhas,

não é justo. Se não funcionar da primeira vez, paciência. É o destino. Na cadeira elétrica, se o cara sobreviver ao choque, dei- xam ele ir. Pegou sei lá quantos volts na cuca e não morreu:

é macho! Acho justo. Por que eu teria de inventar moda?

A minha diferença pro resto das pessoas é que eu gosto de

atropelar os outros e elas atropelam, geralmente, sem gostar. Quase sempre é de dia. Acho melhor. O atropelamento é

um crime que não causa lá muita coisa e hoje (só pra vocês verem aonde chegamos) se pensa mais em socorrer o atro- pelado que pegar o atropelador. Se você não tiver apego ao carro, pode sair andando tranquilamente. O atropelamento

é meio que uma forma de matar legalizada. Se você fizer outra merda, se meter em briga em um bar ou alguma coisa, você se fode. Se você envenena alguém, eles te pegam. Se contratar um fulano, ele acaba te dedu- rando por alguém que tem mais grana. O atropelamento foi criado pra preencher essa brecha no mundo. E eu uso. Não tem muito a ver com as mulheres, mas elas dão um tom meio maníaco que eu gosto.

Sinal.

Quando muita gente passa, fica complicado. Não por-

que seja muita gente, mas porque têm homens. Eu só atrope-

lo mulher.

Qual o problema? Jack o estripador só matava mulher, dá um fundo tra- dicional, como diria a minha mãe.

O maníaco do parque só matava mulher. Grande par-

te dos bons assassinos mata exclusivamente mulheres. Uns

estrangulam, uns estupram. Eu atropelo. Não me pergunte

por quê. É mais legal, só isso. Meu lance é só passar com o carro por cima (ou por

baixo), não tenho essa coisa de fritar seios, enfiar baratas em bocetas, jogar corações em panelas de pressão, acho isso muito démodé. O carro é o instrumento perfeito pro assassi- nato numa sociedade perfeita pra se assassinar: eu fico aqui

dentro, elas sofrem lá fora

Convenhamos, é melhor do que

o contrário. Não fui eu, foi aquele pedaço de ferro de 2 toneladas, feito pra quebrar em 3 anos.

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Têm mais deles do que gente hoje. E encontrar um carro

rado? Acho que muita coisa hoje parece errada, nesse lado

Mentira.

 

que atropelou alguém é só um dos passos pra encontrar a

É sim.

pessoa que o estava dirigindo quando este atropelou alguém,

E

legalmente

o que se faz quando alguém invade um

compreende? Nenhum dos carros é meu. Nem carteira de motorista eu tenho. Você já viu uma mulher ao volante? Já? Não parece er-

de mulher. O atropelamento devolve a elas essa fragilidade

domicílio? Se chama a polícia. Chama! Também se pode matar. Se alguém invade a tua casa tu pode matar a pessoa.

Vá em frente. Que horas são? Três da tarde. Taí. Manda.

que é delas e que parecem querer tirar. Se eu atropelasse po- liciais haveria um monte de policiais no meio da rua só pra atirar em mim, se eu atropelasse políticos eles chamariam a imprensa e se eu atropelasse jornalistas parava o mundo; se fossem advogados eles usariam isso pra ganhar uma grana do Estado. Fazer o quê? As mulheres só levam o baque.

Pra

Agora é táxi? Não vou cobrar. É favor. Qual é teu nome? Ford Fordinaldo? Não mente pra mim. Tu vai pra onde. Fala!

onde que tu quer ir?

A

multidão que cruza o sinal, nos dois sentidos, me ener-

Vou com você.

va e quando vejo a desgraçada ela já tá sentada ao meu lado.

Abriu, ela diz.

E os carros atrás dizem o mesmo.

Eu nunca buzino. O pé no acelerador é o dela. Desvio de um último pedestre, homem, que ainda passava e o pneu frita o asfalto. Quando ela tira o pé, tenho que ser rápido pro carro não morrer. Carro morre, Carro bebe, Carro engasga e essa cretina não tem o mínimo direito de pisar no meu acelerador!

Meu não, do carro.

Merda!

Carro bate, Carro afoga, Carro fica cego no farol e eu cada vez mais confundo essas coisas que são minhas com as coisas que são do carro e

é por isso que eu digo pra ela que se ela não sair da porra do carro agora eu vou

Melhor não. Ela tá dentro do carro. Tem essa sensação uterina, tudo te envolve e pela pressão

da embreagem, pelos sons e pelo cheiro você sabe se é gripe ou se o pneu tá murcho, o carro é essa mulher que se pode confiar. Cada mulher tem um par de peitos e uma forma de lidar com eles, mas o carro tem sempre os mesmos faróis e eles sempre servem pra iluminar, entende? Isso aqui não é táxi.

É por isso que muita gente, ao invés de ter mulher, tem

carro. Eu não tenho carro, mas também não tenho mulher

e ela diz:

Eu sei. Isso é legalmente considerado invasão de domicílio, digo. Nem sei se é, mas tem lógica. Em alguns lugares as pessoas moram mais tempo nos carros que nas suas próprias casas. Um amigo tinha um fogãozinho de duas bocas e foi um des- ses que pediu pra acabarem com a Voz do Brasil.

Eu paro. Cheguei, digo. Não seja infantil. Eu? Dirige.

Eu dirijo. Se você tiver sempre o carro de outra pessoa,

você não existe. Quer desgraçar alguém é só copiar a placa do carro dele e sair por aí fazendo merda. Seu carro é você e não tem pronde correr do que ele fizer mesmo quando você não estiver dentro dele. Esse aqui tava num shopping. E o tanque não tem lá mui- ta coisa, preciso trocar. Pronde você acha que eu tô indo?

Pra lugar nenhum. Teu negócio é ir.

Sou funcionário do banco do Brasil. Pode até ser. Olha aquela ali.

Ela aponta pruma mulher, das que pedem, das que saí-

ram de casa pra não voltar, das que saem de casa, pensando num motivo pro noivo a amar pra sempre. Das que usam o salto alto na esperança de alguém achar um pé e procurar

por ela o resto da vida, das que acordam pra se redimir. Um certo tom Encaixotando Helena no ar. Quando não dá enterro deve dar casório e ela vira o volan- te e enfia o pé no acelerador.

Ter esses quatro pés de borracha me faz sentir seguro. Fir-

me. Gente não derrapa, gente não freia, gente não frita o asfalto, não enguiça. Carro não dá volta, faz curva.

Mas como eu não faço, essa vai por cima. Sinto o cotovelo

bater a 40 centímetros da minha cabeça e o meu pé no freio faz o carro ficar com cara de tuberculose.

São três da tarde, mas ninguém liga. Ela pisa no acelera-

dor de novo, mas não acontece nada. Morri, tenho que dar partida.

Tu é doido!!? Quer que peguem a gente?

Ela dá partida e me puxa pro lado. Fico bamboleando na

pista e meu pé no freio, com o dela no acelerador, me fazem

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dar pulinhos na rua. Como se eu fosse um daqueles grandes, com pneus largos e loiras peitudas dentro. Ela não é loira e não é peituda e me tomou de mim.

Você é um imbecil! Ela fala. Pelo retrovisor ainda vejo a mulher. Casório Tusso um ar pesado e carbônico. Ela diz que vai parar e abastecer e que é melhor eu não dizer nada.

Ela sai, volta. Eu passo o cinto. Um dia peguei um desses carros pra paralíticos. Deve ter vários tipos deles (dos paralíticos) porque só o que não tinha mesmo eram os pedais. Não gostei. A sensação de descer o pé, de fazer a parte orgânica de um movimento é muito diferente da do botãozinho no volante. Minha vida não é uma cópia barata de Carmageddon e joguei a porra do carro do paralí- tico numa praia, virgem, sem passar por cima de ninguém.

Ela me dá uma cerveja e eu não aceito. Eu não bebo quando dirijo. Ela me lembra que eu não estou dirigindo.

É

Bebo, mas não gosto. Me bate uma sensação de traição,

que não vou poder voltar pro volante.

mesmo.

Quem vai ser? Não respondo.

Quem vai ser que a gente vai atropelar agora. Viu aquela? Cadela!

É melhor não.

Melhor não? Que porra é essa de melhor não? Melhor sim! Você aponta, eu acelero; você manda, eu aponto. Ainda não são nem quatro. Quem é você, afinal? Eu já te atropelei? Quê? Eu já atropelei você? Quero saber. Claro que não, mas que idéia idiota, onde tu já viu atrope- lado querer atropelar. Isso é horrível. Aquela? Ainda não. Me diz quando for. Quer que eu ligue o som? Quer um cigarro? Eu atravesso sinais vermelhos e fico com medo de alguém bater em mim, alguém outro carro. Não gosto de ver batidas. As pessoas retorcidas na rua. Tudo parado. As buzinas. Pessoas passando pelas calçadas. Gente não engulha, gente não buzina, gente não tem radiador.

Eu só quero passar a tarde com você. Só isso. Não precisa ficar assim. Ela passa a mão na minha perna pra me acalmar. Só porque eu sou mulher tu tá com medo? Acaba a latinha. Até que ela dirige bem. A primeira vítima do automóvel foi uma mulher: Mary Ward, ela era uma cientista e caiu num motor a vapor, ficou toda fatiada. Deve ser daí aquele lance de mulher no volante,

perigo constante. Mulher não deve mesmo fazer coisa desse tipo. Pra elas têm lugar e pra gente tem lugar e cada macaco no seu galho e eu sei que tô nervoso quando começo a falar por ditados. Antes tarde do que nunca. Qual era o nome do cara que inventou o motor? Ela per- gunta. Não sei. Pois é. Não precisa se preocupar, não vou te fazer nada. Eu gosto do seu trabalho e quis ver como era, mas acho que você é um cagão, viu. Um cagão. Aquela.

Aquela?

Sim. Espera. Pára, deixa ela chegar mais.

Agora?

Não. Deixa chegar mais. Tu já ouviu falar de Bruce Lee?

Aquele cara que era ninja? Pode ser. Ele tinha um negócio chamado de soco de meia polegada. Ele colocava a mão a meio dedo do adversário e, sem recuar, quebrava o cara com um soco. Entendi.

A minha mão do peito dela não sai. Desgraçada.

Pé na embreagem, ronco. Não preciso falar. Meia polega-

da, ela sabe.

Pum!

Continua leve, para nos sinais. Uma viatura ao nosso lado

e a desgraçada faz gracinha com os guardas. Deve ter uma mancha do tamanho do mundo na frente, mas eles só olham

pros peitos dela. Não lembro que horas tirei a mão dos peitos dela, que buzina pros guardas e vira à esquerda. Eu quero ir pra casa. Cansei. Me deixa lá. Onde é? Em tal lugar. Tá. Tal lugar. Vâmo.

É longe e já passa das sete quando a gente chega. Ermo.

Umas árvores altas e aquela cara de criancinhas brincando de esconde-esconde. Ela desce. Obrigado. Volta. Escuta, você me pega amanhã? Acho que gostei.

E aqui sou eu de novo, apesar da porrada. Não sabia se

a proposta era séria, essa coisa de ter um comparsa, ou se é como essa coisa de mulher que te chama de cagão de ma- neira sutil. Quando você chegar no meio da rua, vou passar por cima de você, falo.

É como se eu tivesse no peito um daqueles acendedores

de cigarro. Como aquilo faz fogo quando se coloca um cigar- ro e eletricidade quando se coloca um telefone, por exemplo, como é que o carro sabe? Deve ter um sensor, desses que só quem tem são as mulheres. Vou ficando no volante.

BRUNO AZEVÊDO é escritor. Lançou Breganejo Blues, O Monstro Souza, Isabel Comics, A intrusa e Baratão 66. Publicou prosa, ensaios e quadrinhos em diversas revistas e sites. É editor regional da flaubert e coedita a revista Pitomba. Em 2009 fundou a Pitomba! livros e discos.

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mINhA PIETá

DANIEL OSIECKI

L arga o menino, minha Pietà debutante. Larga o me-

nino! Ser sem vida que lhe esconde o seio, que me

mata. Você não lamenta sua morte; dá-lhe vida. Lar-

ga o menino, minha Pietà às avessas. Chama-me depravado? Herege? Iconoclasta? Asperge-lhe com leite o seio farto, suga- lhe o bico em riste. Depravado? Antes apaixonado. Antes de- voto. Quero sorver-lhe o leite visceral, alimentar-me de ti. Oh, minha Pietà. Causa-me dor. Agonizo, deleito-me em prazer.

Observo seus movimentos de longe. Quero que me perceba, quero que me veja. Muita gente no ônibus, tenho que me controlar. Não quero que os outros me percebam, só você. Mais um movimento seu, mais uma troca de posição e vislumbro mais uma vez essa fonte lúbrica de desejo. Por um segundo admiro o bico rosado que me mata de prazer. Lar- ga o menino, minha Pietà surreal. Larga o menino! Por um segundo você me olha. Ajeita o bico com a mão livre e entro novamente em transe. Em estado de alerta. Quero que admi- re o Colosso de Rodes. Seu Hélio suplicante assim deseja.

Devidamente alimentado, o pequeno nefelibata dor- me nas nuvens. Você recolhe o seio branco igual a um anjo de Botticelli. Morro. Agonizo. Ser delirante perdendo o juí- zo. Sem sutiã, os seios fartos apontam seus bicos rosados acu- sadores pra mim. Piedade! Piedade! Piedade! Pietà! Pietà! Pietà! Vejo os bicos grandes através da roupa branca. Quero sentir seu gosto tenro, úmido e doce. Quero banhar-me em sua fonte ancestral. Espera por mim.

Na roupa branca, na altura do seio esquerdo, há marca de umidade. A fonte ainda não secou completamente, e o bico rosado evidencia-se imponente, duro, em alto relevo sob a camisa branca. Queria tocar-lhe, minha Pietà ontológica, musa abissal deste teu servo errante. Minha língua passeia alegre ao redor desses bicos suaves e entumecidos e, sentindo sua doçura, deleito-me em tremores delirantes, em estertores.

A chegada ao terminal e a parada do ônibus me tiram do transe. Morfeu me abandona e volto à realidade. Triste realidade. O pequeno ainda dorme. Arrisco uma aproxima- ção, mas não tenho coragem. Parece que a qualquer movi- mento você pode sumir. Musa onírica. Desvanece na pe- numbra de meus sonhos torpes. Abre os olhos, menino. Abre

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os olhos e grita faminto, exige o que é teu de direito. Grita o mais alto que puder, grita por tua existência. Grita por nossa existência, meu menino. Suga tua fonte, bebe do teu sorve- douro, do meu sorvedouro.

Não acorda. Dorme tranquilo, sem preocupações, alheio a tudo. Minha Pietà predadora. Devora meu peito ar- fante. Me joga aos leões, cospe em meu rosto, me afoga em teu veneno. Não levante, não me prive de tua imagem. Eu deliro, não ordeno meus pensamentos. Sob a égide da ino- cência o nefelibata reclama seu afeto. Que também é meu. Compadeço-me. Gritando por mais, abocanha-lhe o seio far- to que salta em minha frente. Novamente procurando uma posição mais confortável, leva o bico rosado à sua boca. Que também é minha.

Minha Pietà, larga o menino!

DANIEL OSIECKI é escritor, crítico literário, editor regional da flaubert e professor de literatura. Nasceu vive em Curitiba. Publicou Abismo (2009, Contos) e mantém o blog Távola Redonda. É colunista do jornal literário Relevo.

DELFIN

J úlia insistiu com as amigas que aquele era um bom dia para ir à praia. O tempo estava nublado, as ondas que- brando muito mais do que o normal, o vento mais frio

que o de costume. Elas preferiram ficar na casa da Amanda, perdendo tempo com um jogo de tabuleiro. Júlia, não. Sempre foi a mais ousada das quatro. Aquela que mistu-

rava doce com azedo, rosa-choque com laranja fluorescente, até cinco esmaltes diferentes na mesma mão. Ela não tinha motivo para desistir de sua ideia.

No ônibus, sentiu que o clima era de feriado antecipado.

Quem tinha que ir trabalhar, já foi. Quem tinha que ir para

a escola, também. A sua era uma escola municipal e estava

em greve havia semanas. Culpa do governo, dizia a mãe da Raíssa, que era diretora de uma dessas escolas e, muito tem- po atrás, já tinha tomado coice da cavalaria da polícia. A quem mesmo a polícia serve? Júlia divaga enquanto o ônibus quase vazio não chega à orla.

Desce assim que passam pelo Pino do Judas. Aquele poste enorme no meio da praça só servia mesmo como ponto de referência. Era grotesco, com aquele cubo na ponta e o mas-

tro cheio de espinhos. Para lembrar da dor dos que resistiram

à ditadura, como ela leu, no começo do ano, no caderno

especial de aniversário da cidade. O jornal daquele dia foi distribuído de graça. Não é todo dia que se completa 300 anos de história.

Júlia gosta de andar pelo calçadão, sempre do mesmo jeito, com chinelo, canga, bolsinha, biquíni e óculos escu- ros. Era bom mesmo que suas amigas não tivessem vindo, ela pensou enquanto caminhava. Sobra mais pra mim. O egoísmo era um de seus piores defeitos, que suas amigas tentavam ignorar solenemente. Ai de alguém que pedisse um gole de seu suco, um drops, um punhado de pipoca no cinema. Mas Júlia era uma boa amiga e questões mesqui- nhas como essa logo eram esquecidas. Todo mundo tem defeitos, como o Lino gostava de dizer. Júlia olha para a praia deserta, com um ou outro vendedor de água e mate, algum velho fazendo exercícios e um par de esteiras com velhas fofoqueiras. O céu estava muito escuro, parecia que ia cair um dilúvio. Bem que o Lino podia estar aqui, ela imaginou.

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Mas não podia ligar para ninguém. O celular ficou sem bateria e ela o deixou com a Amanda. Depois pegaria. Se bem que, naquele lugar, parecia que não ia mesmo conhecer nenhum carinha. Porque é assim, sempre tem um carinha.

Quando elas andam em grupo é mais fácil e são sempre elas,

e não eles, que escolhem com quem elas vão ficar, se fica-

rem. Ajuda muito o fato das quatro serem magras, apesar da

Corina não ser assim tão bonita. Mas ela não tem dificul- dade alguma em ficar com alguém. Todas elas tem 15, para

elas tudo é onda e, se não rolar, sempre tem a próxima festa,

a próxima praia, a próxima viagem.

Júlia se dá conta de que venta, faz frio, está sozinha e até os quiosques estão fechados, mesmo ainda sendo três da tarde. Resolve parar o menino do mate e compra uma garra- finha de água. Teimosa, resolve se sentar na areia, perto da ressaca, e ficar admirando as ondas enquanto remexia, com um palito de sorvete jogado por ali, a areia já um pouco úmi- da. Gostava do som das ondas, do cheiro do mar e da fome que ele dava. Quando era criança, vinha praticamente todos os finais de semana mais ou menos àquele ponto da praia. Brincava com seu pai, cavava a areia com sua pá e ameaçava sempre pular na água para ir até o horizonte, apenas para que ele a pegasse. Um dia, aconteceu deles falharem um final de semana. As falhas começaram a ficar frequentes e, de repente, seu pai nunca mais foi à praia com ela. Sempre desconversava do assunto. E de outros, também. A vida de Júlia era repleta de questões nunca respondidas.

Enquanto seu pensamento viajava, sua garrafinha de água aberta tombou e o líquido começou a escorrer pela areia. Júlia percebeu quando quase todo o conteúdo já havia es- capado. Fechou, chutou o chão com os pés e levantou um tufo de pó que quase voou em seu rosto. Fincou a garrafa na areia, para prender a canga, deixou os óculos e a bolsinha por cima, junto com os chinelos, e foi cair na água, mesmo com as bandeiras vermelhas tremulando pela orla. Nem per- cebeu as bolhas de ar junto à água empoçada que escorrera de sua garrafa.

Ficou uns 10 minutos dentro d’água. Resolveu sair quan- do percebeu as primeiras gotas caindo do céu. Olhou para a margem e viu que, como sempre, a correnteza a puxara para

um dos lados. Ou isso ou um ladrão impossível tinha rouba- do as suas coisas. Quando conseguiu alcançar novamente a areia, percebeu que suas coisas tinham ficado uns cem me- tros para a direita. Mas também percebeu uma silhueta, um garoto, sentado perto de suas coisas. A chuva caía fina e dava toda a pinta de que seria chata a tarde inteira.

— Oi.

— Oi. Você é a dona dessas coisas?

— Sou, sim.

— Eu tava tomando conta pra você.

O garoto era esquisito. Tinha o corpo sujo de areia, ves- tia apenas um calção azul, e tinha no rosto traços que Júlia nunca vira antes. Mas parecia educado e, de fato, não tinha mexido em nenhuma de suas coisas, principalmente na bol- sinha, que deixara encaixada de modo estratégico junto aos chinelos.

—Eu ia cobrir tudo com a canga, mas ela é tão fina que não ia adiantar nada.

Ele era gatinho e bom papo o suficiente para que Júlia esquecesse a chuva e se sentasse ali mesmo, na praia defi- nitivamente vazia. Podiam ir para um lugar coberto, mas o frio que ela sentia passou, depois que ela entrou no mar. Ele também não parecia incomodado, muito ao contrário.

— Como é que você se chama?

— Os outros me chamam de Isidro.

—Ah, sua mãe errou no cartório, foi isso?

— Como assim?

— Ah, é que o nome do meu avô é Isidoro. Quando sua

mãe ou o seu pai foram registrar você no cartório, deve ter

acontecido um erro de digitação e, pronto, nasceu o Isidro!

Ela disse isso com um sorriso tão honesto no rosto que Isi- dro não teve saída e sorriu também. Com a boca fechada, sem os dentes à mostra. Júlia achou bonito aquele sorriso e deu por certo que aquela ida à praia, afinal, não tinha sido perdida.

Conversaram sobre o nada, que é sobre o que se conversa quando não se quer falar realmente de assunto algum e, sim, apenas continuar por perto, aproveitando a companhia. Júlia sabia muito bem como falar de coisa alguma e continuar conversando por horas. E sua voz tinha um timbre bonito, Isidro reconhecia. Ele tinha pena por ela. Ficaram ali por algumas horas. Nesse meio tempo, o frio passou um pouco, a chuva praticamente parou e perceberiam, se pudessem ver por trás das nuvens, que o céu já se encontrava estrelado.

—Vamos caminhar um pouco?

— Eu queria ficar por aqui. É meio escondido dos outros.

— Eu sei. Eu gosto de vir aqui por causa disso. Meu pai

dizia que era o nosso esconderijo, para que os carros que

passam não vejam a gente.

— Não deve funcionar muito bem quando a praia está cheia e o quiosque está funcionando.

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— É baixa temporada. Ninguém vem pra cá na baixa temporada.

— Então a praia é só nossa.

Nessa hora, Isidro fez menção de dar um beijo em Júlia. Mas ainda era muito cedo, ela pensou. Queria saber mais so- bre este garoto que, até onde ela sabia, poderia ser qualquer coisa. É só assistir a um desses programas policiais de final de tarde para saber que ela está na situação perfeita para ser mais uma vítima de um marginal qualquer. Os piores tem mais ou menos a mesma idade que ela, certeza de impu- nidade legal. Mas Júlia era esperta. Durante esse papo, ela recolheu suas coisas, trocou de lugar com ele, remexeu na areia como quem brincasse, mas na verdade procurava al- gum objeto que ele tivesse escondido, como um revólver ou uma faca. Mas não havia nada. Era só ele, Isidro à milanesa. Gostou do repentino pensamento de comê-lo e, então, pen- sou que deveria ter dado aquele beijo. Mas queria conhecer melhor o garoto.

— A gente falou, falou, e você não disse de onde é.

— Ah, eu sou do interior.

— Muito longe daqui?

— Muito longe. Não é nem neste estado.

— E sua família, veio para cá por quê?

— Ela não veio. Acho que não virá. Faz muito tempo que

eu não vejo ninguém.

— Nossa, você não sente saudades?

— Sinto falta deles, dos meus amigos. Mas faz tanto tem-

po que, às vezes, eu não consigo nem mensurar o quanto.

— Mas você deve ter amigos por aqui.

— Não tenho, não. Você é a primeira pessoa que eu vejo

em muito tempo. Júlia achou graça nesse elogio estranho e abriu um sorriso comprometedor, de quem abria a guarda em cheio. Isidro estava certo de que ela não compreendeu o que ele disse.

— É sério. Só estou aqui por sua causa.

— Eu sou mesmo irresistível, não sou?

Fez caras e bocas e, então, Isidro resolveu contar a ela. Se- ria justo que soubesse. Ninguém deve morrer na ignorância, foi o que ouviu de uma mulher muito má, há muito tempo, no princípio.

— Quis dizer que você me trouxe para cá.

— Como assim?

— Quando derrubou água em mim.

— Hã?

— Esta garrafinha aqui. Você derrubou água bem ali,

lembra?

— Nossa, você tava enterrado ali e eu nem percebi! Nos-

sa, mas por que fez isso? Alguém podia ter pisado em você. Se bem que isso explica você estar coberto de areia até o cabelo.

— Isso só parece cabelo.

— Como assim?

— Júlia, eu sou um garoto feito de pó.

E ela riu. Riu bastante, porque era mesmo engraçado para ela. As nuvens se abriam um pouco, mas o tempo con- tinuava encoberto. Não chovia mais e, pelo barulho, poucos carros estavam na avenida à beira-mar.

— Eu falo sério. Sua garrafinha começou a me reidratar. E a chuva completou o serviço.

— Deixa de bobagem.

— Então passa a mão no meu cabelo.

Júlia fez isso. Quando a mão encostou nos cabelos ondu- lados de Isidro, estes se desfizeram em sua mão, que ficou cheia de uma areia estranha, diferente da normal.

— Nossa.

— Pois é. Mas agora eu estou aqui. Graças a você.

— Então eu fui a sua salvadora?

— Ainda não. Se a chuva continuasse, ou fosse mais forte, tudo seria mais fácil.

— Por quê?

— Porque eu preciso me hidratar mais. Senão, eu vou me desfazer de novo.

— Ué, pula na água! Tem um mar enorme na sua frente.

—Não dá certo. Eu tentei, mas é água salgada. Eu vim de longe até aqui, pensando que seria a solução perfeita. Mas foi pular no mar e eu comecei a me dissolver. Acho que é o sal. Só pode ser o sal.

— Mas a água mineral funciona.

—A de chuva também. Mas você deve ter percebido, fazia

tempo que não chovia.

Era verdade. Não chovia já havia uns bons seis meses por lá. Na alta temporada, isso foi a alegria de todo o co- mércio. Isso certamente explicava o bom grado das pessoas em ficarem em casa, deixando a praia à mercê de dois jo- vens como eles.

— Mas eu acho que vai chover de novo.

— E se não chover mais? Eu vou acabar me dissolvendo de novo. Eu não quero me dissolver de novo.

— Isso não vai acontecer.

— Eu preciso de você. Entende agora?

O que Júlia entendia era diferente. Ela entendia que en- contrado um garoto esperto, bonito e fantástico. Acreditava que podia fazer algo de bom por ele e estava, sinceramente, atraída por Isidro. Então, a resposta de Júlia não se traduziu em palavras, mas num ato de paixão, num primeiro beijo intenso, como costumam ser os primeiros beijos que signifi- cam realmente algo.

Isidro sabe que ela não entendeu, senão ela teria fugido de lá. Mas era do beijo dela que ele precisava. Do contato físico com seus fluidos. O beijo era um dos meios mais rápi- dos. Eles se beijaram longamente, por quase cinco minutos. Júlia ficava sem ar. Também ficava sem qualquer nutrien- te no corpo, sem proteínas, sem sais. Secava a olhos vistos, mas Isidro não detinha o beijo, mesmo sabendo o que já

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havia acontecido. Ao final dos cinco minutos, ela estava seca

e morta. Ele lhe deu um último abraço, forte e apertado.

Ela explodiu em minúsculas partículas de poeira fina, que o vento se encarregou de espalhar pela areia.

Ele choraria se pudesse. Se ainda sentisse algo de verda- de. Mas sabia que, agora e por algum tempo, ele estaria livre de sua maldição. Então, pegou a canga de Júlia, limpou a areia de seu corpo reconstituído, calçou os chinelos, pegou

o dinheiro da bolsinha e os óculos escuros. E caminhou em

direção do calçadão da Orla, pronto para continuar sua bus- ca. Seguindo as pistas que lhe deram. Para encontrar a bruxa que o havia amaldiçoado e, enfim, deixar de ser um assassino.

DELFIN é editor regional da flaubert. Trabalha como editor, escritor e jornalista. Dirige o Studio DelRey de produção editorial, finalista do Prêmio Jabuti. Sua cor é 42, seu signo é laranja e sua pedra às vezes é nos rins.

NuTRIÇÃO

DIEGO MENDONÇA

E ntrei no trem correndo. Devia ter quebrado a cara daquela piranha. Na correria uma velha caiu e ninguém se importou. Escorando-se no chão ela

ainda tentou erguer a fronte pra ver se comovia alguém.

É uruca

daquela diaba

Chegava mais cedo para ver aquela cara.

Pagava almoço. Trazia lanchinhos. Agora me apronta uma dessas

Samu chega e leva a velhinha. O trem vai atrasar

Este número encontra-se fora da área ou desligado.

Todos estão espremidos. Rosto com rosto. Em pé a desgra- ça aumenta. Quem conseguiu um lugar para sentar sacanea quem está em pé.

O trem foi avariado. Correria de novo. Quem estava sentado agora vai em pé. Em alguma sala reservada, os di- rigentes devem estar as gargalhadas diante da correria do populacho. Fumam charutos e são massageados por loiras turbinadas.

Não tive gana para pegar um lugar. Vou em pé até Cam- po Grande. Num vagão lento, apertado e fedorento.

Em São Cristóvão entra mais gente. O grupo de normalis- tas cheirosas pula o meu vagão dando espaço para um bando de peões de obras. Agora bloqueiam a janelinha que venti- lava meu rosto e torram minha paciência com sua conversa mole.

Em São Francisco Xavier entrou um vendedor de amen- doim torrado que queimou a perna da mulher que lia a Bí- blia. Ela esbravejou todas as pragas ao pobre.

Mais aperto. Trem negreiro. Um vendedor de cerveja. Os que compraram seguram a lata com uma das mãos e com a outra se esforçam para não caírem com o balanço do trem. Dão uma bicada rápida sem saborear. Desisto da cerveja. Débora ensinou-me bons modos.

É possível que a gente converse na segunda. Beijos. Não

Mensagem não enviada; tente no-

paro de pensar em você vamente.

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Apago o número dela como se estivesse excluindo-a da minha vida. Ainda tenho o número de cabeça. Sai de mim coisa ruim!

Cego entra com sacola na mão. Tem gente pior do que eu. Fixo naqueles olhos trêmulos e imagino a sorte de al- guém chegar à idade adulta sem ter topado com uma mulher feito Débora. Uma morena com olhos de tormenta que até hoje me deixou de ressaca.

Vamos dar um tempo. Tempo de quê?Tivemos uma história muito bonita, mas é melhor cada um ir para seu lado.

Mania de assistir telenovelas!

Fui otário na sua mão. Está com outro não é?

Ficava mais puto com aquela cara de pensadora dela do que com a própria situação. Mandei-a para todos os lugares.

Em Senador Camará protejo meu rosto com as pedras que costumam tacar nos trens. Uma chega a bater na janela fazendo um barulho de tiro. É a deixa para que cada um conte como o lugar em que moram está violento.

Finalmente em Campo Grande nem preciso me mexer, sou jogado pra fora do trem com a maioria que desce ensan- decida. A escada da estação é curta. Estou com fome. Mais adiante a dona dos espetinhos está lá com sua cara suja e mal encarada, como se fizesse um favor em vender aquela ração de fim de tarde. Meu pedaço tem mais gordura do que carne boa. A cadelinha madalena é quem iria gostar. Acabo jogando boa parte no chão. Uma coroa vestindo uma roupa de rapazinho me dá um prospecto com um bunda enorme dizendo venha relaxar. Tive nojo quando ela me tocou pe- las costas apontando é por ali, vai! Uma escada de madeira antiga com fumaça avermelhada. Desligo o celular e vejo uma ligação perdida de casa. Deve ser minha mãe querendo saber onde estou. Vai falar muito na minha cabeça quando souber que terminei com Débora. Acha que por ela ser cren- te é alguém que preste.

O tal clube parece mais um botequim. Algumas mulhe- res rebolam. São feias, mas gostosas. Uma pega no meu ce- lular e faz aquela piadinha manjada. Tomamos uma cerveja

e tudo vai ficando engraçado. Chega mais gente, a música aumenta.

Quando dei por mim estava sem camisa e um cheiro de vômito no quarto. Minha carteira tinha sido revirada so- brando cinco reais. Vou descendo a escada e parece que está todo mundo olhando pra mim. O vento da noite incomoda. Fizeram da minha camisa um pano de chão do meu próprio vômito.

Andei umas duas quadras até chegar à minha rua e só reconheci a casa pelos latidos de madalena. Passo pelo quintal e dou um chega pra lá na cadela. Ela se encolhe toda e faz a cara que Débora fez antes de terminar comigo. Enquanto atravesso a sala me distraio com a idéia de mu- dar o nome da cachorra. Minha mãe dorme. Ou finge que. Quando demoro a voltar do trabalho ela se esconde no sono. Deixou um prato em cima do fogão coberto com um pano de prato. Costela com aipim. Que cheiro! Nem parece sobra de almoço. Pego meu prato e levo até o quintal. Madalena

me espera. Coloco o prato no chão e vejo a cachorra devorar

a comida em dois tempos. Ela aproxima-se de mim e debru-

ça suas patinhas sobre minhas pernas. Adormecemos juntos.

DIEGO MENDONÇA vive no Rio de Janeiro e atua como profissional de saúde. É contista bissexto.

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Adormecemos juntos. DIEGO MENDONÇA vive no Rio de Janeiro e atua como profissional de saúde. É

ESTELA

DALvA

IVANA ARRUDA LEITE

E is aí toda a verdade. Talvez ela diminua seu sofrimen- to. Talvez aumente.

Mal terminei de escrever a primeira frase e o relógio da parede, quieto e morto há muitos anos, estatelou-se no chão. Interpretei como um aviso.

Nunca tive coragem de contar a verdade ao Beto. Es- pera mais um pouco, espera mais um pouco. De ponde- ração em ponderação, acabei dando por encerrada uma conversa que nunca existiu. Mas hoje, vendo-o sofrer des- se jeito, resolvi contar-lhe tudo por escrito. Foi quando veio o aviso.

Tentei me agarrar na mão segura do bom senso: a queda do relógio deveu-se tão somente ao fato de o planeta estar em movimento, desta casa estar em movimento; eu, o Beto, a vizinhança, estamos todos girando ao redor do sol, que, por sua vez, gira ao redor de outros sóis. Em meio a tanto rodopio, nada mais natural que, de vez em quando, caia alguma coisa de algum lugar, afinal, a vida é um carrossel.

A verdade é muito simples e ocupa pouco espaço. A carta era quase um bilhete.

Eu e o Beto nunca brigamos. Ele adivinha meus desejos e cuida de atendê-los um a um. Mas houve época em que isto não bastava. Por mais que ele fizesse, eu queria mais. Foi quando comecei a transitar por outras constelações atrás do que me faltava. Primeiro pelos cinemas do bairro, depois pelos drive-in, até chegar aos motéis mais distantes da via láctea. Não demorou e eu engravidei. O Beto chorou de emoção ao saber da notícia. Fiz e refiz as contas e não havia a menor dúvida: o filho não era dele, embora, sinceramente, também eu não soubesse de quem era.

Depois do nascimento do Júnior, tornei-me a esposa exem- plar que o Beto sempre mereceu. Fazia as lições domésticas com esmero e cuidava do menino com zelo e dedicação. Ele continuou para sempre nosso único filho.

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Júnior cresceu cercado de mimos, mas, por mais que nos esforçássemos, ele sempre queria mais. Não demorou e sua insatisfação virou vício.

Quantas noites, ao ver o Beto andando de lá pra cá a espera do filho, procurando por ele nas delegacias e pronto- socorros, tive vontade de dizer: esquece esse filho da puta, expulse-o de casa. E expulse a mim também, não merece- mos tanto amor e preocupação. Nunca tive coragem.

Ontem o corpo de Júnior foi encontrado num mata- gal. Meu único filho acabara de fazer dezoito anos. Vendo o Beto desse jeito, deitado no sofá com os olhos grudados no teto, esperando pelo filho que não volta mais, minha vontade é arrancar-lhe do peito essa dor e comê-la inteira até morrer envenenada e ir arder no quinto dos infernos. Por isso resolvi contar-lhe a verdade. Deixo a carta sobre a escrivaninha e saio andando pelas ruas até que a fome e a sede me consu- mam. O Beto não terá nem a chance de me perdoar.

Daqui onde estou posso ver seus pés, imóveis, apon- tando para o céu. Meu bem, você está aí? Ele me pergunta lá da sala. Estou amor, respondo como sempre, só um ins- tantinho. Calço os sapatos e, sem querer, piso no relógio que caiu no chão. Embrulho os cacos na carta que escrevi e jogo tudo no lixo. Talvez o Beto queira um café.

IVANA ARRUDA LEITE nasceu em Araçatuba (SP). Publicou três livros de contos, uma novela e os romances Hotel Novo Mundo, finalista do prêmio São Paulo e Alameda Santos. Participou de importantes antologias, como 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. É autora de livros infantis e infantojuvenis.

vISITA DE AmIGO

JD LUCAS

—A fonso não está. Por que não bebe alguma coisa?

Volta com o copo cheio em uma das mãos. Na outra, a garrafa pela metade. Observa-me sorver o líquido com dis- tração fingida; sei que em toda aquela carne extravagante hiberna urso faminto.

— Não precisa tirar o sapato, sente-se aí.

Da cadeira de vime, o olho estrábico do bisavô inútil.

— Esse aí já não fala, mal caminha arrastando os pés. Sobra pra mim, a coitada, cuidar.

Tão grande que ocupa lugar e meio na poltrona. Dedos grossos e pequenos tremelicando no estofado.

— Como vai de livros?

Reclame do bisavô ela conhece bem.

Some por trás da parede, reaparece instantes depois com o banco e o ventilador. Ao alcance da mão, o generoso po- tinho improvisado de guardar bala Juquinha e bombom Serenata.

— Vai um?

Em conversa sobre o irmão, sorri no intervalo entre mor- discada no terceiro bombom e piadinha antiga:

— Afonso diz cada coisa das. Danadinho!

Sei que é de muitas namora-

Mal percebo, a mão oleosa no meu joelho esquerdo.

— Desculpe. Bem à vontade. Em casa, sabe como é

Arrepio na nuca — medo do irmão brotar ou pretexto do antigo recurso da sedução? — Outra vez a atenção no bisavô.

— Deus me livre ficar velha. Morro antes dos sessenta!

Convida a ver o disquinho na estante, artimanha de fê- mea que conheço bem. E não é que, ao levantar o braço pra apanhar o favorito, a pele exala odor antisséptico? Com o suor a blusa transparece os seios eriçados: duas pitangas graúdas enfeitando o mar de opulência.

— Você. Devia se cuidar mais, muito magrinho — des-

culpa de alisar a barriga — Por que não come um bombom?

Agora veja, logo eu, mestre na arte, cair em armadilha

tão antiga

bonzinho, meia hora depois, ouviria no auge do amor que

sou homem para a noite toda, enquanto repousava sobre o meu peito aquela cabeça que devia ter o peso do mundo? Ai senhor, tem pena de mim!

Poderia imaginar que com um simples bom-

À maneira de Dalton, para Luiz Fernando Brites.

JD LUCAS nasceu em São João de Meriti, 1985. É escritor e editor. Autor de José (Móbile Editorial, 2013) e da série Novelas Extraordinárias. Editor regional da flaubert, ministra cursos e palestras sobre Mitologia e Simbolismo, publica material a esse respeito em monomito.org.

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DA uNIFORmIDADE DE ALGumAS DORES‑áRvORES

MARA CORADELLO

N ão era um bosque ou uma floresta. Não era um parque. Era o arvoredo de árvores eucalyptus que ela achava triste desde criança. O desinteresse que

lhe causava a estática das coisas perfeitas, iguais e repetitivas. Ordenadas. Ao contrário dela, o filho gostava da floresta de eucaliptos no caminho até a praia. Foi viajando para essa

mesma praia que ele se acidentou. A notícia chegou em pe- daços. Pequenos compartimentos da notícia em um telefone- ma da amiga mais próxima. Em mais um telefonema do pai.

E outro da mãe, que veio dizer o derradeiro. O menino de

19 anos. Era tão absolutamente uma curva essa idade. Ainda não era vinte. Era rapaz, mas não exatamente. Era menino. Com carteira de motorista, com título eleitoral. Com possibi- lidade de dizer “você não manda mais em mim”, em grande parte devido ao novo emprego como garçom, mas também por ser uma idade precipício. Do que precipita. E do que cai.

Grandes pedaços da dor foram violentados e se transfor- maram em frases para cuidar da sua mãe e do seu pai: avós do menino.

— Mãe, ele foi chamado logo, porque Deus escolhe antes

os bons.

— Pai, ele foi feliz a vida toda, ele viveu a vida toda.

Já reparou que “avós” é um dos poucos plurais que fica no gênero feminino? A avó precisava tanto de seu suporte de fi- lha, mesmo sendo mãe de um filho morto, era também uma filha. Sua filha. Uma mãe que precisou tanto dessa mesma

avó. Esse caracol a que se assemelham as relações familiares, um contido dentro do outro, o interior mole e complacente

lá no fundo, à vista de ninguém.

Sim, os remédios ajudaram. Aqueles primeiros dias eram uma lembrança pastosa. O enterro eram não-memórias di- luídas em meio a uma dor de fazer o chão sumir. De se lan- çar ao chão. De querer se enterrar. Ela agora voltaria a ser somente filha? Uma mãe que perde um filho fica pra sempre sendo a mãe de uma morte. De algo interrompido. De uma interrogação. “Ela fracassou”, diz o olhar de todos, depois que passa o período inicial de grande comoção. Ela o deixou viajar sozinho, naquele veículo temerário. Mas nem isso sig-

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nificava algo pra ela. Nada significava nada pra ela. Ela pen- sava apenas no que poderia ser. E se ele visse esse filme? E se ele soubesse que o cantor favorito dele se tornaria gospel? E se ele tivesse mesmo terminado seu curso, sofreria ao saber que não mais seria necessário o diploma? E se ele tivesse tido um filho, como seria esse filho do filho dela? E se.

Uma caminhada até seu quarto era tocar na dor, uma dor que ocupava esse quarto todo. O que era estranhamente re- confortante era imaginar a dor lá dentro, do quarto do filho. Se separar em parte dessa dor, ao sair de casa. E levar uma vida tentando colocar essa dor toda lá dentro. Entre objetos dos quais não conseguiria desfazer-se jamais. A dor era um ba- lão imenso, invisível a outros olhos, guardado no quarto dele. Apenas anos depois, claro. Antes ela sequer habitara essa casa, quanto mais entrar no quarto. Agora, se ela entrasse lá, sorve- ria do ar maléfico desse balão. Mas era só sair e ao longo dos dias, tentando não pensar no filho, a dor aumentava. O balão crescia, para que ela entrasse lá novamente, e chorando, aos berros talvez, ela sorvesse entre soluços o ar. E diminuiria no- vamente o balão, para crescer, no entanto, a cada respiração.

Pensa que ela não pensou na morte?

Era como um divertimento. Mas era ateia e cética de- mais para pensar que a morte pudesse ser um alívio, ou um reencontro. Na verdade, mesmo, só não se matava por achar que a morte a afastaria ainda mais do filho. Ela seria ossos e uma uniformidade de resíduos. Como os eucaliptos. E não mais se lembraria do amor de ter esse menino, esse Pedro, esse garoto, essa dor, aqueles cabelos cacheadinhos aquela gargalhada a primeira vez que ficou em pé a primeira vez que amamentou a primeira palavra, a primeira dor que ela não conseguiu suportar e entender e até a fez acreditar nova- mente em Deus, só pra ter a quem culpar.

MARA CORADELLO é escritora. Foi publicada em algumas antologias: 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Prosas cariocas - Uma Nova Cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra) e Paralelos - 17 Contos da Nova Literatura Brasileira (AGIR). Em 2013, lançou Histórias de amor recolhidas ao acaso. Vive em Vitória/ES.

quANDO OS mARAcujáS FLORIREm

MÁRCIA BARBIERI

M eu caro, não, meu querido, não, meu esposo, não, meu companheiro, não, melhor poupar designa- ções, tudo que nomeio me compromete e não

diz nada, talvez por isso as letras me interessem tanto, sim, pela sua incrível ineficácia. Melhor eu começar assim, es- crevendo assim, do início, sem remetente, uma carta nunca deve ser lida por apenas um leitor, uma carta tem segredos que dizem respeito a quase todos, pequenas banalidades e deslizes que muitos cometem. Também não colocarei data, as coisas foram acontecendo assim, ao longo de tantos anos que colocar um número exato daria uma impressão errada dos acontecimentos e parecerá que um dia preciso nos de- sentendemos e resolvemos desembaraçar e você sabe, não foi bem assim, as tragédias acontecem um pouco a cada dia. Primeiro um hematoma perto da virilha, um tombo peque- no, uma ralada no joelho, depois uma queda e um braço quebrado, depois uma escada e uma fratura exposta, depois as varizes que estouram de repente e inundam a sala de um sangue vermelho e grosso. Não, também não foi assim, acho que primeiro foram os cachos, as uvas em cima da frutei- ra, sim, aquelas brilhantes, feita de plástico. Não sei bem, nunca fui muito ligada a métodos e números cardinais. Não, foi ainda antes disso, desde muito cedo me apaixonei pelas parreiras e nem sei ao certo o porquê elas me causavam tal encanto, eu poderia passar tardes inteiras olhando os cami- nhos que seus ramos percorriam e ao anoitecer já não me recordava das trilhas e era necessário pela manhã recomeçar meu trabalho de catalogação. O primeiro ramo a nascer se estendia em direção ao telhado se furtando do compromis- so de seguir o estaleiro-quadrilátero que compomos quando trouxemos as minúsculas mudas. Essas mudas não irão pra frente, veja, estão tão fraquinhas, se eu fosse você eu planta- ria maracujás, você já viu como são bonitas as flores do ma- racujá¿ Ou quem sabe aquelas margaridas miudinhas, elas dão em qualquer lugar. Sim, eu compreendia e sim ele não era eu, de forma que se fosse, ele jamais plantaria maracujás e se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não supor- to os maribondos que perseguem as florações e nem qual- quer outro tipo de inseto voador. Não, ele não era eu, caso fosse saberia que minha infância inteira eu vi os maracujás penderem da cerca que separava minha casa da casa vizi- nha. Se ele fosse eu ele saberia que não suportava lembrar a brutalidade que minha mãe arrancava os frutos ainda verdes

do pé para que a mulher da casa ao lado não tocasse suas

mãos sujas no fruto. Se ele fosse eu ele saberia que a única moça que eu amei na vida morava na casa ao lado, sim ele saberia e sim ele não me chamaria de lésbica quando con- to essa história, não diria que no tempo dele mulheres que amavam mulheres morriam solteiras, não ele não diria, ele não diria que no bairro, ele e seus amigos comiam mulheres que gostavam de mulheres. Sim, ele saberia que as mulheres se camuflam de homens muito melhores que os homens. Ah, se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não me empenharia em cuidar de flores miúdas que dão em qual- quer matagal, que eu não me abaixaria, não tocaria minha bunda na terra e não tiraria os capins que cobrem as flores pequenas e se ele fosse eu ele saberia que eu só cuidaria em

vida das parreiras, só delas e de mais ninguém

nem passava perto do que eu era e nas raras vezes em que pedi para que ele se colocasse no meu lugar, ele se levantava do sofá e dizia que não ligava a mínima, e de baboseira e pontos de vista e referência já bastavam as aulas de geografia e que elas tinham ficado para trás faz tempo, se eu quisesse mesmo que ele se colocasse no meu lugar que lhe arranjas- se uma buceta, só assim saberia ser mulher e pensar com a futilidade de uma mulher. Falava e espirrava pequenos jatos de água com a boca. Então, eu tinha certeza, ele jamais seria capaz de ter uma buceta e nessas horas eu tinha fé, Deus não teria colocado um buraco no meio das pernas dos homens, não mesmo, até mesmo o cu duvido que seja coisa de Deus. Passei muitas noites acordada pensando em uma maneira de me vingar, se tivéssemos filhos poderia levá-los para longe e proibir suas visitas, mas ele nunca quis ter filhos, dizia que a próxima geração seria de pervertidos e ele não se arriscaria, podíamos ter gatos e cachorros e uma tartaruga, se quisesse ser mais exótica. Não, eu não era exótica, exceto pelas parrei- ras. Às vezes, durante a noite, eu escutava sua barriga fazer barulhos terríveis e então, pensava, ele podia ter uma úlcera incurável, no entanto, logo depois você arrotava alto e dizia, puxei minha mãe, tenho estomago de avestruz, eu desanima- va com minhas pequenas vinganças invisíveis, não seria tão fácil te perder. Maquinava em minha cabeça diversas formas de machucá-lo, fazer com que não voltasse mais, enquanto isso, eu via cachos verdes em miniatura despencando da par- reira, logo as uvas poderiam ser colhidas, no começo do ano talvez. Uma noite escrevi uma novela de duzentas páginas

Mas sim, ele

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inspiradas em você, foi inútil, você dizia que detestava litera- tura, era tudo uma balela e que aquelas páginas só serviriam mesmo para limpar a bunda. Esquece, literatura não serve para nada mesmo, é como disse, as letras me interessam pela sua ineficácia. Agora não haveria erro, minha vingança não tinha como falhar, você não teria como escapar, você estava preso no estaleiro-quadrilátero que compomos. Esqueci de perguntar ao meu pai sobre as pragas que atingem as parrei- ras, depois resolvo isso. Sim, o mais importante agora era a minha vingança. Sim, o estaleiro parecia forte, sim, você era bom com as construções. Cinquenta e dois quilos, sim, era um bom peso. Como fazia todas as tardes, coloquei a cadeira embaixo e fiquei admirando os ramos e agora também admi- rava o espetáculo dos primeiros frutos. Amarrei a corda, subi na cadeira e depois o chute. Ainda sinto o cheiro das flores de maracujá e o gosto do beijo de Estela e da surra e da bri- ga eterna entre meus pais e a vizinha-vadia-mãe-solteira que não sabia dar educação para filha, a filha que tinha gostos exóticos. Sim, você tinha razão, devíamos ter escolhido os maracujás ou as margaridas ordinárias. Não, não se preocu- pe, o capim não está tão alto, peça um pouco de mata-mato para meu irmão, vamos você deveria saber que os cachos demoram para crescer, sim, melhor eram as margaridas or- dinárias.

MÁRCIA BARBIERI é paulista, mestranda em Filosofia e formada em Letras. Tem textos publicados nas principais revistas literárias e participou de algumas antologias. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (2009) e As mãos mirradas de Deus (2011) e o romance Mosaico de rancores (2013), que será lançado em 2014 na Alemanha pela Clandestino Publikationen.

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(2011) e o romance Mosaico de rancores (2013), que será lançado em 2014 na Alemanha pela

BOA NOITE, BuRROuGhS

MARIEL REIS

R omeu, o cafetão, me quebra um galho vez por outra. A droga no parapeito da minha janela não aparece por acaso, nem a nota de cinqüenta paus que escor-

rego para ele é um milagre. É um sujeito silencioso. Fala o necessário. Outra vez, a mecha de cabelo negro caída na cara, perguntou se eu tinha umas seringas para emprestar. Olhei fundo na cara dele, não parecia intimidado. Levei a mão ao bolso da calça, retirando meu estojo com meu jogo de agulhas, seringas e garrotes. Tirei dele uma velha seringa com o êmbolo danificado. É só o que tenho, disse.

Ele pareceu satisfeito. Saiu apressado, sentando-se mais

a frente. Arregaçou a manga da japona, retirando do inte-

rior do vestuário o estojo parecido com o meu, amarrando o garrote ao braço. Preparou o pico e o injetou rapidamente. Lançou a cabeça para trás em êxtase, os olhos faiscaram -, em segundos ele não estaria mais ali. Deitou-se na escadaria do edifício, inutilizado, o rosto abobalhado mirando o céu alaranjado da tarde. As primeiras estrelas estraladas como ovos fritos nos seus olhos. Enterrei mais o chapéu, ajeitei os óculos, fechei o sobretudo : ventava frio. Saí da ruazinha, atingindo a avenida principal e estendi a mão para um táxi.

O motorista me olhou de cara feia, perguntou para onde era a corrida. Queria ver o dinheiro, não levaria um sujeito com cara de vagabundo para o outro lado da cidade, arris- cando-se a voltar de mãos abanando. Eu tinha a grana. O

, indiquei o ca-

minho. Imaginava a vida do motorista: um sujeito gordo, em

Deveria ser imigrante,

estar ilegal, ter cinco ou seis filhos e morar na parte pobre da cidade - em um lugar pior do que o meu -, embora minha aparente distinção o tivesse impressionado. Durante todo o trajeto fez uma única pergunta: o Sr. é inglês? Não, disse a ele. Pareço inglês? Ele trancou-se em si mesmo, ligou o apa- relho de rádio numa estação popular. Tocava country.

mangas de camisa, barba por fazer

taxista me deixou entrar. Próximo a ponte

A noite vertiginosa sobre os prédios. A demência das ruas

e os homens, estragados por ela, vendiam todo tipo de coi-

sas. Os letreiros luminosos das casas noturnas, as vedetes, as prostitutas, os michês e os drogados, à meia luz, negocia- vam expedientes conhecidos. A polícia revistava os negros. Pago a corrida. Salto do carro. Entro em um dos inúmeros

inferninhos da avenida. Aqui não é lar para idosos, diz o segurança. Vai se fuder, rosno. Romeu deve estar voltando a si. É um lindo rapaz. A heroína o torna ainda mais atraen- te. É violento com as suas garotas. Viados, na verdade. Bem montados, bonitos. Todos apaixonados por ele. Romeu não amava a ninguém.

O inferninho lotado. As mesas todas ocupadas. As mu- lheres seminuas rebolando no poste sob a fraca iluminação avermelhada. No balcão, o bartender Vai querer o quê vovô? Ele está com a mão espalmada sobre a fórmica. Retiro de minha gravata o grampo e o espeto no impertinente, “Vovô é o caralho! Quero um martini”. Recomponho-me, prenden- do-o de volta à gravata. O bartender enrola a mão na toalha que estava sobre o ombro, cospe uns palavrões e pede a outro para me servir.

Uma bonequinha desvencilha-se de um grupo, apóia-se ao balcão e pede gim tônica. Que homem elegante, ela diz. Está sozinho, bonitão? Para alguém de sua idade, você está conservado, emenda. É de graça? A minha voz antipática e os meus olhos pequenos e maldosos percorrem o corpo da

mulher. Pode ser

Me paga uma bebida?

Ela abre caminho na multidão. Dirige-se para os fundos do estabelecimento, sobe uma escada. Está escuro. Saímos num corredor de muitas portas, Por aqui, ela segura a minha mão, Por aqui. Romeu gostaria de estar aqui comigo. É um sujeito silencioso, perigoso. Talvez seja uma boa companhia. Tenha boas histórias, caso se animasse a contá-las. É um ra- paz bonito. Meus amigos várias vezes o confundiram com um michê. Pagariam seu peso em ouro para sodomizá-lo. Ele é um moralista: não deve dar o cu, nem chupar pau. Deve ser um garoto mimado, morar em apartamento limpo, fora do chiqueiro do meu quarteirão.

Ela pára diante de uma porta, retira do sutiã a chave e a introduz na fechadura. Aperta o comutador de luz. O quarto com banheiro é estreito: cama, banqueta, penteadeira, cabi- deiro e frigobar. Ela tirou a roupa depressa. O que vai querer fazer? Quero que fique quieta. Qual é, cara? Fique quieti- nha. Deite-se de bruços na cama. Ela obedeceu. Desafivelei meu cinto. Encostei minhas mãos e meu rosto em suas ná-

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degas, Você gosta disso, minha querida? Pedi que estendes-

se as mãos, e em hipótese nenhuma interferisse no que iria

acontecer. Ela estranhou. Mantenha os olhos fechados, disse

com voz suave.

Romeu, o orgulhoso Romeu pagaria uma fortuna para açoitar a sua pele. Quem, meu bem? Romeu? Sim, Romeu

ele daria tudo para estar no meu lugar. Ela tentou abrir os olhos. Minhas mãos foram mais rápidas. Retiraram do bolso

do sobretudo o rolo de fita silvertape. Improvisei uma venda.

Você é maluco, vovô? Amarrei seus braços à cabeceira da cama. Corri a língua em toda a sua coluna. Ela arqueou-se. Não, não sou maluco. Prendi suas pernas. Você gosta de um joguinho, né, vovô? Não respondi. Enfiei os dedos na buceta

e no cu. Vai vovô, vai, faz mais. Implorava. Vovô é o caralho! Ergui a correia no ar e desci com violência.

A música alta não permitia a ninguém ouvi-la. Meu bra-

ço doía. Retirei o estojo da calça, abri-o sobre a penteadeira.

Dobrei as mangas do sobretudo, preparei o pico e amarrei o garrote. Servi-me como a um rei. Ela arfava. Recomecei com

os meus dedos, abri meu zíper e disse Mama o vovô, mama.

Outras cintadas. Preparei um novo pico. Não era para mim. Procurei a veia de uma das pernas. Ela relutou. Logo estaria tranqüila. Retirei-lhe a venda para ver seus olhos. Romeu, Romeu, eu suspirava. Agora ele deve estar tomando a sopi- nha da vovó, perto da lareira. Fecho a porta, desço. Ela deve dormir ou sonhar com algum lugar maravilhoso. Atravesso todo o lugar novamente até a saída. Na rua, estico a mão para um táxi.

O motorista quer ver a cor do dinheiro, sem ele nada feito.

O que um senhor de idade faz em um lugar desses? Não é

interessa, rapaz. Toca o carro. Desço, pago a corrida. Olho para a escadaria, não vejo Romeu, nem as suas bonecas. A ronda noturna deve ter terminado mais cedo. Não há nin- guém na rua. Subo as escadarias do meu prédio, acendo um

cigarro, tiro o chapéu, verifico o forro. Entro em casa. Meu gato roça em minhas pernas. É um bichano esperto, este meu bichano. Romeu, Romeu, chamo. Ele salta para o meu colo. Sento-me na poltrona, perto da janela da rua. Romeu

é tão vadio e inconstante feito o meu gato. Os meus dedos longos e ossudos correm os seus pêlos.

MARIEL REIS é escritor, crítico literário e editor geral da flaubert. É autor de Bordel de Bolso, que será lançado no primeiro semestre de 2014 pela editora Oitava Rima.

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da flaubert. É autor de Bordel de Bolso , que será lançado no primeiro semestre de

A cONTINuIDADE DAS RuAS

ROBERTO DUTRA JR.

H oje vi meu pai. Caminhava com a gravidade de costume atravessando a rua. Nada nele chamava a atenção. Vestia-se modestamente com jeans e sapa-

tos sem brilho. A camisa para fora da calça e cuidadosamente mal-ajambrada depunha contra a sua atitude de sobriedade acumulada pelos anos de estudo. Passava na frente dos car- ros, insinuando descuido. Sorte ou destino, ter identificado sua silhueta dentre os demais? Misturou-se entre os passan- tes e observava vitrines com certo desdém, típico de homens de terno. Meu pai não.

Nunca havia gostado de longos passeios pelo centro da cidade ou dessa ou aquela conversa com o grupinho do bar ou do trabalho. Dizia que era coisa de desocupado, que fa- ria depois de morto. Acho que ele na verdade queria dizer aposentado de uma maneira sarcástica, quando falava assim. Ia direto ao estabelecimento e como uma flecha encontrava o que queria, sem perguntas. Todos o diziam fechado, eu mesmo não gostava do seu jeito de poucas palavras e mui- tos olhares com que organizava tudo em sua volta. Onde todos viam um homem estranho eu apenas o sabia reser- vado. Sim, eu havia escolhido cuidadosamente essa palavra para ele. Meu pai é um homem reservado com seus afaze- res pessoais, eu dizia quando solicitado. Era meu momento quando menino, de soar como seu secretário. Hoje porém, percebia nele algo diferente, algo além do silêncio entre nós, algo intangível. Talvez fosse o fato dele não ter me visto ou ainda minha sensação de segredo por observar tudo como faria um detetive dos filmes que assistíamos na madrugada da sala. Havia nele um certo ar indizível, como se olhasse tudo em volta pela primeira vez. A primeira vez que vi meu pai caminhando livre na cidade.

Vez ou outra parava como que surdo e murmurava algo imperceptível abaixo do bigode. Tenho certeza de tê-lo visto entrar de bar em bar por um cafézinho que fosse fresco. To - das as vezes ele levantou o braço pra cumprimentar o dono ou o balconista. Percebi, quase modestamente, que eu o se- guia pelas calçadas – impulso agora irresistível – silencio- so de meus pensamentos. Não reparou nas outras pessoas e parecia como que invisível para elas. Certas vezes tomava pausas médias em seu curso, eu assumia essas pausas para mim o que garantia uma distância segura entre nós. Cada

um se repetindo, um eco na distância, a geração do outro. O homem é sua continuidade nas ruas. Há sempre um outro homem, capítulo do primeiro. Andamos, resolutos, desco- nhecidos, alheios.

O ritmo do passeio fez com que eu o entendesse por va- gante. Parou para olhar as árvores. Cedeu a vez. Adiantou-se por vezes em certas portas e olhava tudo como quem nada vê. Figura estranha, essa distância que nos separava era tam- bém uma presença. Quase brincou com uma criança, mas foi-se, ido entre si. Cães latiam sem que ele se comovesse. Tomando assim, conta da tarde que só eu via avançar. Alter- nou-se entre lugares e cantos, vistas e becos até a tarde findar e ele também numa fumaça pálida.

Nada mais fiz naquela tarde. Não me aproximei ou lhe falei que o acompanhava de longe. Mas o que eu lhe diria, que ainda não tivesse dito em vida?

ROBERTO DUTRA JR. é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Mestre em Letras, tem um livro publicado e diversos artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente.

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TEmPO

DEmAIS

SIMONE MAGNO

N os últimos três meses antes da morte do Vicente, comecei a perder a paciência. Engraçado eu me lembrar disso hoje, logo hoje que ninguém apare-

ceu, nem para o almoço. Nenhuma das meninas passou aqui

e deixou as sacolas, para passear de mãos livres no shopping.

Vai ver estão de carro. Vai ver está chovendo. Ou é o come- ço de mês e, com salário no bolso, preferiram pedir comida pelo telefone. Na certa foram jantar fora. Todas juntas. Pode ser que me tragam alguma coisa, uma sobra do pedido.

O que eu sei é que vou ter que tomar os remédios sozinha.

Também, nem sei se vou tomar aquele monte de comprimi- dos. Pra quê? Não vai mudar nada mesmo. Até parece que eu vou ficar boa. Até parece que eu vou ficar curada. Tantos

anos e tudo continua igual. O Vicente se foi e a medicina

não inventou nada que dê jeito. A gente vai chegando ao fim

e tem que conviver com isso. Então pra que tomar tantos

remédios?

Se eu morrer vai ser até melhor, ninguém vai precisar mais vir aqui, se chatear. Vão até gostar, e depois ficar aí se engalfinhando por causa disso aqui. Problema deles. Já disse que a cristaleira é da minha neta Cristiana. O telefone já passei para o nome da Stella. Mas ainda assim é capaz de ter briga. Quando o Vicente era vivo todo mundo era mais uni- do. Não é à toa que, brincando, me chamavam de Madrasta. Acho que nunca soube mesmo juntar todo mundo. Como o Vicente, ninguém. Ele tinha um jeito diferente de manter as coisas no lugar.

E eu que pensei que não ia conseguir viver sem ele. Mas

missas já fui? Deixa eu ver, umas duas mil. Dez mil. 500. Sei lá. Umas 50 por ano, fora os casamentos, as bodas, as missas de sétimo dia, os batizados, primeiras comunhões. Eu sei

é que já acumulei bastante. Vou morrer e ainda vou deixar troco para a Igreja.

Claro que não vou contar isso pro padre, não sou besta. Nem que quando mais jovem fiz um aborto. Um, não. Um monte. Isso eu não confessei, nunca. Eu não tinha nenhum pecado, por que não poderia guardar esse segredinho só para mim? Mas ia ser engraçado se ele soubesse. Dona Tereza!, ele ia dizer, horrorizado. A senhora! Quantas penitências ele me daria?

Acho que fiz bem. Não em ter escondido, mas em ter feito

os abortos. Já pensou? Mais gente para brigar pela baixela de

prata, pelos lençóis do meu casamento, pela estola de raposa. Não, a estola a Cristiana já levou, ainda bem. Isso e mais um monte de coisas. Foi bem dado, deixa pra lá. Embora nos últimos meses a Cristiana tenha sido impiedosa comigo. Eu sei que ela me ama e entendo, porque não é todo mundo que consegue conviver com uma pessoa nesse estado de depen-

dência, principalmente ela, criada por mim em meus melho- res dias. Deve ser difícil aceitar me ver dessa forma. Deve ser muito chato. Eu sei, porque também perdi a paciência com

o Vicente nos dias em que ele mais precisou de mim. Acho

que o amor é assim mesmo, você não suporta ver a fraqueza do outro.

Será que a Cristiana também pediu comida pelo telefone?

Só chega tarde em casa. Nunca vi. Daqui a pouco o marido

aqueles três meses mudaram tudo. Acho que foi ali que eu

se

cansa e vai embora. Pra quem já fez isso uma vez. Nunca

fiquei doente de novo, não é possível que eu me tornasse

vi

marido que fica sozinho em casa esperando pela mulher.

assim tão severa, para não dizer até cruel, de uma hora para

Marido não gosta de ficar sozinho em casa, requentando o

outra. Ou será que eu sempre fui assim e nunca percebi? Mas era mais forte que eu e eu não conseguia nem olhar pro

prato no micro-ondas. Daqui a pouco arruma outra casa.

Vicente. Uma vontade de sumir. E ainda tinha que limpar aquelas feridas, todas horrorosas, que eu prefiro nem lembrar

Esse negócio de só pedir pelo telefone não vai ser bom. Mas também a Stella estava sempre em casa com a comida

porque me dá tantas náuseas

Mas não me culpo.

Que sentimento ruim para uma católica como eu. Tam- bém, não tenho nem mais vontade de ir à missa. Missa é muito chato. Não me sinto mais na obrigação. A quantas

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e o Jorge arranjou outra. Homem é assim, se bem que hoje

em dia as mulheres nem se importam quando o marido vai embora. Também arranjam outro. É fácil arranjar outro para elas também. É fácil para todo mundo. Até eu, se quisesse, tinha ido embora com o Renato. Quantas vezes ele me im-

plorou para largar tudo e sumir no mundo. Será que se eu tivesse ido ia estar assim hoje? Bom, com certeza tudo isso já estaria dividido há muito tempo.

Nossa, nem me lembrava mais daquela histó-

ria. Quanto tempo? Deixa ver. Foi um pouco depois dos 15 anos da Stella. Horas depois, para ser mais certa, na porta de casa. Eu ia fechando o portão quando ele apareceu para buscar a filha, como era o nome dela? Branca, eu acho. É, Branca. Amiguinha da Glória. Ele era lindo. Será que ainda está vivo? Renato

O Renato

O telefone tocou e precisei anotar um recado. Ficou tudo

meio torto. Não sei o que acontece com a minha letra, ela nunca foi bonita, a bem da verdade. Nunca como a do Vi- cente. Também, naquela época professor não era como hoje, nem existe mais caderno de caligrafia. No meu tempo havia mais capricho em tudo. Até a minha letra era melhor. Hoje é esse borrão envergonhado, tremido. Às vezes nem eu mesma consigo identificar os números.

Por que, além de ficar velha, a gente tem que ficar doente, com tudo dando errado? Mal consigo vestir minha blusa. Puxar as meias até as canelas é um sacrifício. O pior é na hora do banho. Deus me livre alguém ter que me lavar, mas só ele sabe o quanto é difícil me ensaboar e ficar de pé ao mesmo tempo. E ainda por cima enfrentar esse rosto careca no espelho na hora de escovar os dentes que me restam.

Acho que perdi o medo de morrer. Depois de um certo tempo, cansa ficar aqui esperando, diante da televisão. Sem- pre digo que meu maior medo é de um deles chegar aqui

e me pegar caída no chão, inerte. Principalmente se for a

Stella. É capaz de ela correr para debaixo da cama, feito fazia quando era pequena. Sempre escondida do mundo.

Quando minha sogra morreu, ela se escondeu dentro da mala de um carro, porque debaixo da cama já era conheci- do, todo mundo ia procurá-la lá. Ficamos horas atrás dela, até que o Álvaro, meu filho, passou perto e escutou ela fa- lando sozinha. Veio feito um louco, chorava tanto e gagueja- va que a gente pensou que a Stella estava debaixo do carro, também morta.

Na morte do Vicente, ela sumiu. Não estava no trabalho, não estava em casa. Todo mundo preocupado, ela chegou já sabendo que ele havia partido e até hoje ninguém sabe

onde ela se meteu. Fico pensando onde será que ela vai se esconder dessa vez. Se bem que acho que ela já está até bem preparada, e eu sei até que vai ser um alívio pra ela, coitada, que tem me dado tanta atenção. Apesar de brigar comigo, porque ela acha sempre que eu estou exagerando,

e fica uma fera quando eu passo o dia todo aqui vendo tevê,

sem querer caminhar pela casa. Vê só se eu vou ficar feito uma maluca andando pra lá e pra cá por essa sala. Quando

a fisioterapeuta vem, ainda vá, porque aí tem outra maluca

pra ficar passeando comigo entre os móveis, mas sozinha,

francamente!

Sempre me lembro do Vicente quando vejo o Sidney Poitier. Ele adorava aquele filme, acho que ficava lembran- do dos tempos em que dava aula, quando dava aula para a minha nora, Rita. Como ela gosta de ficar lembrando do colégio. Eu acho engraçado, não tem como não rir, mas na verdade só finjo, cansei de ouvir essas mesmas histórias umas duzentas vezes e sempre do mesmo jeito. E toda vez que ela vem aqui conta de novo que a amiga dela foi substitui-la na prova oral e levou 8, porque se fosse ela própria tirava o 10.

Meu mestre com carinho. Nesse mês me lembro tanto dele. Me lembro todo mês, mas agora vai chegar o aniversá- rio de morte. Esquisito isso de chamar aniversário de mor- te, aniversário devia ser só de vida, só de coisas alegres, de celebração mesmo. Acho que é porque deve ter gente que gosta de celebrar a morte. Mas nesse filme, o Sidney Poitier, coitado, além de desvendar um crime está à beira de virar estatística. Como é que pode, nos Estados Unidos, um lugar de gente tão esclarecida, ficar esse negócio de perseguição aos negros. Nem mesmo no bar o pobre pode ser atendido.

Ainda bem que esse tempo já passou. Se bem que dizem que lá todo mundo é racista; preto casa com preto e branco casa com branco. Aqui no Brasil não tem esse negócio. Todo mundo se mistura com todo mundo. Vai ver é por isso que vem tanto estrangeiro pra cá, porque aqui eles podem até passear de mãos dadas com as mulatas. Lá fora é capaz de serem presos ou levarem uma surra. Aquela gente de lá é muito esquisita. O Renato mesmo, que aqui é branco, lá se passou por negro.

Como teriam sido os meninos se eu tivesse me casado com o Renato? Que besteira, a gente se conheceu nos 15 anos da Stella, já eram todos nascidos. Aquele vestido de zi- beline, não me esqueço nunca, a Natália quis um igual ao da mãe e a Laís foi fazer, imagina, uma costureirinha como a Laís tentando fazer um vestido igual aos da Elza.

Coitada da Natália. O vestido ficou tão mirradinho, pare- cia até daqueles que se compra pronto nessas lojas de noiva, tudo parecido, feio, com umas rendinhas baratas. Falei tanto para ela usar o véu da Stella, aquele véu maravilhoso, todo bordado pela Elza, mas ela é muito teimosa. Se tivesse colo- cado o véu, e não aquele arranjinho chinfrim, tinha valori- zado o vestido. Na verdade, esconderia aquele trapo. Coisa horrorosa.

Meu pai não queria que eu me casasse com o Vicente.

Acho que ele se arrepen-

deu um pouco dos absurdos que me disse quando o Vicente veio se apresentar e dizer que gostaria de vir aqui para me ver. Imagine meu pai, com aquela pose de lorde inglês, ven- do um homem bem mais velho do que eu, meu professor e ainda por cima preto. Preto, não, hoje em dia não se pode mais falar assim. Negro. A Cristiana disse que assim é o certo

Depois eles ficaram tão amigos

mas eu li que lá fora nem assim pode. Dizem que vai até pre- so se disser que fulano é negro. Meu pai dizia que o Vicente era de cor. Como se alguém não fosse de cor aqui nesse país.

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Acho que o que fez meu pai ter respeito pelo Vicente foi mesmo o trabalho. O caráter de uma pessoa que trabalha pra mudar o mundo. Meu pai mudou o mundo lá do jeito dele, plantando na roça para dar comida para as pessoas. Uma vez ele fez a pé um percurso de mais de 60 quilômetros pela es- trada em uma gincana. Ele já tinha mais de 50 anos, foi ina- creditável, saiu até no jornal, mas isso nos anos 40 tinha cara de coisa de maluco. Se fosse hoje era capaz até de ele apare- cer na televisão, dar entrevista em programa de auditório e ar- ranjar um patrocinador para inventar outros feitos desse tipo.

Posso dizer que apesar de tudo eu fui feliz. Apesar de sa- ber que algum louco um dia disse que no ano 2000 ninguém mais morreria de doença. Contrariando todas as previsões

científicas, ainda se morre muito dessa forma, e eu li outro dia que a maioria das mulheres de meia idade vai embo- ra com a minha doença. Mas não precisava ser hereditária. Além da baixela de prata e dos lençóis do meu casamento,

é isso que eu vou ter que deixar pras minhas filhas, netas e

bisnetas. Não acredito que um dia ainda vá se curar isso com um comprimido, ou melhor, prevenir com uma vacina.

Depois de tanto evitar, fugir, esconder essa doença horrí- vel e ouvir há 30 anos que eu tinha três meses de vida pela frente, Deus me deu o mesmo diagnóstico na minha filha.

Foi pior do que desmaiar na rua e passar pela vergonha dian- te de toda a família, após tantos anos vivendo feito uma cri- minosa. Eu quis dar minha vida pela da Glória, mas essas coisas ainda não são possíveis. Alguma coisa bem feia que

a gente vive faz com que as coisas se repitam dessa forma.

Gostaria que meus três meses de vida tivessem dado conta de mim, afinal, em três meses eu resolvi mesmo tudo o que havia para ser feito naquela época.

Também não pensei que um dia fosse ter mais netos e

bisnetos. Não posso reclamar. Para quem estava com o pé na cova, ver a Cristiana dando seus primeiros passinhos estava suficiente. O Vicente era novo, podia ainda se casar nova- mente, quem sabe arranjar uma mocinha que se dispusesse

a ir morar com ele em frente à praia como ele queria. Uma

que não tivesse sido obrigada a se mutilar por teimosia.

Não vou me culpar não. Naquela época, eu era mesmo muito desinformada. Era uma ignorante. Hoje, nem que a

gente queira, não dá para fugir porque o mundo, as novidades,

a tecnologia entram na casa da gente. Antigamente eu mal

sabia ligar e desligar a vitrola. Mesmo não entendendo bem como é que a voz sai no rádio, aceito tudo e até já vi como fun-

ciona o computador. Por isso tudo acho impossível que não encontrem a cura para tanta doença. Dizem que é melhor assim, porque todo mundo ganha dinheiro: os médicos, as clí- nicas, os planos de saúde, as farmácias, o governo. Com uma vacina, já pensou? Vacina em posto de saúde é de graça.

O duro é gastar tanto dinheiro pra nada. No meu caso, acho até que conseguiram tirar algum lucro. Afinal, são 30 anos enganando os médicos. Mas e a Glória? Foi até aos Es- tados Unidos. O Vicente durou seis meses, ninguém acredi-

tava. Um homem que não ficava nem gripado, era de se es- perar que ainda me enterrasse. Mas quem vai entender essas células? Elas ficam feito umas doidas, se multiplicando até nos exaurir.

Eu fico me perguntando se elas já não estão se multi- plicando assim desde que a gente nasce. A Glória, coitada, achava que ainda ia superar muitas fases, mas hoje eu acho que ela não tinha essa vontade toda de lutar. Até eu, na mi- nha ignorância, quando precisava ir ao supermercado para poder vomitar sem que ninguém de casa desconfiasse, estava de um jeito torto lutando para sobreviver. Deus não só não me privou de ajudar a criar a Cristiana como hoje sei que ela entende a avó de uma forma diferente. A Stella é para minha bisneta o que eu pude ser para a Cristiana. Vivemos tantas coisas. Eu queria tanto morrer muito velha. Se eu pudesse, não morria nunca. Era assim que eu pensava naquela época, quando ainda era uma quarentona gostosa.

Mas depois que a Glória me mostrou o resultado do exa- me e caímos juntas no chão da cozinha de tanto chorar, eu quis seriamente deixar tudo pra lá, e dar a ela os muitos anos que eu não sabia mas ainda me restavam. Foram os piores dias e noites da minha vida. Porque quando fui internada, me operei logo e fui para casa, viver meus “últimos” meses. Sempre rio quando me lembro disso.

Com o Vicente, foram seis meses de consultas, exames, remédios em horários rigorosos e noites sem dormir, porque ele não reclamava de nada, de dor, de angústia, de sofrimen- to, de medo, mas passava os dias sentado na poltrona olhan- do o vazio e as noites em claro, deitado na cama mirando o teto. Eu não podia virar pra lá e dormir. Depois de tantos anos juntos, era minha obrigação ficar acordada, não só por causa do juramento na Igreja, mas porque havíamos vivido tantas coisas maravilhosas que era meu dever. Não podia dei- xá-lo sozinho. Seria desprezar toda a nossa vida.

Eu fiquei muito cansada, e confesso que se ele vivesse mais 15 dias eu teria ido embora com ele. Quando a Glória estava internada e um dia os médicos nos disseram que não havia mais o que fazer, só aguardar um milagre, e três dias depois ela acordou querendo fazer as unhas, comecei a acre- ditar que a cura fosse realmente possível. Mas ela não durou mais do que dois meses.

Nós estávamos na serra, em um desses finais de semana em que fazíamos maratona de biriba, eu nem tirava a cami- sola e já começava a jogar com o café ainda sobre a mesa, quando o Vicente inventou uma daquelas comidas, alguma coisa que sobrava para eu fazer, sempre para um bando de gente, e eu acabei indo junto às compras. Estava distraída com a Luiza num canto da delicatessen quando vi o Renato na minha frente. Eu queria morrer e a Luiza não entendeu nada, porque fiquei tentando me esconder atrás de um saco de pão e com cara de pavor. Acho que ele não me viu, ho- mem não é tão discreto, era capaz de derrubar uma pratelei- ra. Mas a Luiza passou todo o fim de semana arranjando um

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jeito de estar sozinha comigo e me espremer. Eu nunca quis jogar tanto, porque assim ficávamos os quatro juntos, eu, o Vicente, a Luiza e o Angelo, e eu estava livre.

Parece que eu nunca mais fiquei livre na minha

vida. Todas as pessoas, todas as coisas têm o seu lado escu-

ro. Mas por que é assim, a gente tem um deslize e tem que pagar até o fim dos dias? Não consegui nunca esquecer essa

história, e se tiver mesmo vida após a morte é bem capaz de

o Renato me atormentar lá também. Se eu tivesse contado

isso pra alguém talvez me tirasse um pouco esse peso dos ombros, mas nunca tive coragem. Talvez a Cristiana fosse entender, ela largou tudo por um grande amor, mas ela era tão apaixonada pelo Vicente, muito mais do que por mim, acho que não ia me perdoar nunca.

Livre

Hoje aqueles almoços de sábado fazem parte de um pas- sado distante. Também depois que o Vicente morreu eu cansei. Não sou empregada de ninguém. Fazia tudo sozi- nha. O Álvaro nunca fez questão de manter a tradição do pai. Isso é dever do homem, e ele nunca se interessou. Até

os natais eram mais divertidos e bonitos, com a mesa que eu sempre fotografava, os arranjos feitos pela Glória. Sem ela, quem vai arrumar a mesa? A Cristiana não sabe nem esticar

o lençol da própria cama. Hoje em dia, mulher se casa sem saber fritar ovo.

Nunca quis sair daqui. A Cristiana diz que eu sou muito retrógrada. Fico imaginando hoje, se eu tivesse ido morar na praia naquela época, quando a Glória também queria ficar mais perto das amigas. Tudo teria sido diferente, talvez ela ainda estivesse aqui hoje. Também ela não teria conhecido

É, seria tudo muito mu-

o João, a Natália não teria nascido dado.

Grande coisa aquele João, nunca fui mesmo com a cara dele, sempre cínico, só mesmo a Glória para engolir tanta desculpa esfarrapada. Até hoje não entendi o dia em que ele chegou de ambulância e cinco minutos depois estava ótimo, tomando até cerveja. A Glória acreditou. Eu não. Não acredi- tei nem quando ele disse que se acidentou, chegou em casa todo engessado e ficava o dia inteiro vendo televisão. Por que ele nunca mostrou a radiografia? Nunca vi uma pessoa se quebrar toda de carro e não ter uma radiografia. Se eu tivesse me mudado a Glória teria se livrado de uma boa bisca.

Ela dizia que aqui não tinha nada para se fazer e lá tinha

o calçadão, um comércio bom. Besteira. Aqui sempre teve

de tudo o que precisávamos. Hoje tem até shopping, tudo tão diferente, é esse negócio de mundo globalizado, fica todo mundo pra lá e pra cá, fuçando na internet. Antigamente cada um vivia no seu bairro, na sua cidade, no seu país. Hoje tem que viajar pra conhecer o mundo. Eu ainda acredito que vai voltar o dia em que vamos dar mais valor ao nosso lugar, quem sabe, cada um em seu bairro. Daí as pessoas vão se conscientizar mais de suas vidas. No meu tempo todo mundo pensava pequeno e cuidava mais das pessoas que amavam. Tínhamos amigos de verdade,

estávamos sempre juntos, eu, o Vicente, a Luiza, o Angelo. Hoje a Luiza, coitada, vive pros filhos, o safado do Angelo fica passeando por aí com a outra, já o viram até no supermercado, todo sorridente, empurrando carrinho pra amante, o carrinho cheio de produtos importados, e pagando a conta, claro.

A Luiza, aposto, sempre fez compras sozinha. Vive sozi- nha, faz tudo sozinha, porque nem os filhos ela tem mais, já fazem faculdade, têm namorada, não vão querer ficar sain- do com uma mãe toda rancorosa. Também quem mandou aceitar essa situação. Pegou o marido no flagra com a outra parado dentro do carro, na esquina da rua, e não fez nada. Acreditou quando ele disse que ela era uma colega de traba- lho, chorando por ter sido abandonada pelo marido.

Se fosse antigamente, ele não teria tanta cara-de-pau. Hoje nem os maridos, quando arranjam amante, se preocu- pam em preservar a família. Se a bandalha começa dentro de casa, como é que vão querer que as pessoas joguem papel na lata de lixo da rua? Já ouvi dizer até que vão colocar o Cristo Redentor numa base giratória, como alegoria de esco- la de samba.

Apesar de tudo, tenho tanta saudade da casa em que mo- rávamos quando a Stella conheceu o Jorge e a Glória conhe- ceu o João. Não só por ser uma casa. Me lembro como se estivesse nela. Bem menor do que esse apartamento. Naque- la época vivíamos com mais dificuldades. Tinha uma varan- dinha, de onde eu vigiava as meninas, quando estavam na rua brincando. Foi nessa varanda também que a Stella e o Jorge começaram a flertar. Ela era uma menina que gostava de pular muros

Fizemos tantos amigos por lá, gente com quem até hoje mantemos contato. Até hoje é modo de dizer, porque hoje em dia ninguém mais liga pra ninguém, as pessoas só se veem nos enterros. Antigamente ainda se encontravam nos casamentos, mas como hoje todo mundo se junta, e os pou- cos que se casam fazem festa só para os mais íntimos, são raros os casamentos que viram reencontros. O próximo en- contro deve ser no meu enterro mesmo. Pena que eu não vou poder ver toda essa gente; não acredito nem um pouco nessa coisa de filme, que o corpo vai e a gente já vai ficar flutuando, vendo tudo o que se passa.

Aquela foi uma boa época, fizemos festas na rua, festa junina, réveillon. Isso não acontece mais, é impossível fazer festa só para os moradores como fazíamos, hoje os motoris- tas vão reclamar porque a rua está fechada, é bem capaz de passarem com os carros por cima, fora o perigo de ser assal- tado. Quando a gente veio morar aqui também teve uma fase boa, o Jorge e a Stella eram noivos, os vizinhos eram muito amigos, mas hoje em dia não tem mais isso. Os vizinhos só querem brigar, ninguém respeita o outro, as pessoas colo- cam o som alto, têm cachorros assassinos, sujam o corredor Quando eu vim para cá a única confusão que tinha eram as crianças brincando no elevador. Não existia o videogame para aplacar essa sede de apertar botões.

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Depois passamos por aquela fase difícil em que quase per- demos esse apartamento. Foi logo depois da minha interna- ção. É sempre assim, quando acontece uma desgraça, vem outra junto. Fico imaginando se fosse hoje, como seria, não existem mais amigos como naquela época para ajudar. Eu ia ter que entregar tudo e ir morar com a Stella. Isso eu não gosto nem de imaginar.

Sinto saudades da música. Eu devia ouvir mais música. Música tira aquela dureza que a vida põe no nosso coração. Não essas que parecem estar sendo inventadas na hora. Tem tanta coisa bonita e a gente nem se dá conta. Quando eu era pequena, tocava piano, mas depois que casei nunca mais tive vontade. Esqueci. O Vicente não ligava, ele até cochilava, mas bem que eu tocava direitinho.

Quem será que vai comprar esse apartamento? Quem vai morar aqui, no lugar onde eu vivi tantos anos com o meu marido, com a minha família? Onde eu vi meus netos nasce- rem, meus bisnetos? Isso aqui vazio vai ficar tão esquisito. A última vez que eu o vi vazio, quando nos mudamos para cá, não tinha esse papel de parede. Acho que eles vão levar tudo mesmo, não vão deixar nem os copos de geleia. Será que a Stella vai se lembrar de dar uma pinturinha antes de pôr o anúncio no jornal? Tem aquela marca horrorosa no teto, do aniversário do Álvaro, quando ele estourou o champanhe e o líquido se espalhou com tanta força

Estou tão cansada. Sinto saudades dos almoços que fazía-

mos, a casa cheia, eu na cozinha estressada com aquela pa- nela entulhada de caranguejos, o Jorge vestido de noiva para

a festa junina. Não, isso foi na serra, na festa que fizemos

para inaugurar a piscina e que tinha quase 150 pessoas. Eu

era nadadora quando adolescente. Adorava nadar, adorava, mas naquela época ninguém dizia que era adolescente. Essa

é mais uma invenção moderna.

Eu deveria ter feito Educação Física, o Vicente nem se incomodaria se eu continuasse a estudar, se eu trabalhasse. Mas por que eu fui ouvir as ideias da minha mãe? Mãe é muito bom, tem grandes ensinamentos, mas a gente não tem que seguir tudo que ela pensa. Tenho saudades do Renato, do que poderia ter acontecido se eu tivesse ido embora com ele. Mas eu tinha tanto medo, medo dele, medo de o Vicente ficar sozinho, medo da minha mãe, medo da Stella debaixo da cama, medo da Glória com o João, medo de pegar aquele avião e não chegar. Muito medo do avião. Alguém disse que

a estatística é voos que chegam e voos que não chegam e eu concordo.

Eu ia fazer tanta gente sofrer que acho que eu não mere- ceria chegar a lugar nenhum com o Renato. Depois de ter vivido tantos bons momentos naquela cidade com o Vicente, seria muito esquisito rever tudo com outro homem. Ter as mesmas lembranças com dois homens diferentes? Não quero pensar nisso agora. Só quero descansar. Quem sabe o Álvaro chega para o jantar.

SIMONE MAGNO é autora de um livro de contos, A lua depois do gravador (Grua), outro de poesia, Avelã pirata (KBR), e um infantil, A menina que não gostava de meias (Oficina Raquel). Integra as antologias Brasil-Haiti. 101 histórias. Uma esperança. e Antologia da nova poesia brasileira. É comentarista de livros na rádio CBN.

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AquIEScêNcIA

[Vem, essência, aqui, essência

]

YARA CAMILLO

C omadre, não adianta virar o rosto, olhar de lado, dis- cordar calada, porque a senhora não tem coragem de dizer não, nem a mim nem a ninguém, mas esse

já é outro caso, conversa para depois. Por ora, repito quantas vezes for preciso: não existe amor sem interesse. Diga o que quiser, comadre, que daqui não me arredo.

O quê? Amor de mãe com filho? Pois quer mostra de in- teresse maior? Não digo que sejam todas e todos, mas sei de muita mãe que ama o filho como a um rabicho, prolonga- mento de si mesma, coitado dele que terá de fazer, bem, o que ela não fez nem mal.

Pai? É qualidade outra de oportunista, e também aí não digo que sejam todos. Mas há pai que exibe filho como pro- va de virilidade, isso há, fossem outros os tempos e andariam todos eles por aí, com a macheza ao vento, balançando. Falo errado?

Irmão? Irmão se descarta de cara: é paixão recolhida, amor, o primeiro, proibido. Por isso tem mais gosto. Por isso dá mais gana. Não há irmão nem irmã nesse mundo que não tenha sonhado esse amor… Melhor sonhar, mesmo, se- não vira tragédia? Não sei. Veja Abel e Caim. Resolvessem o caso lá entre os dois, com o genuíno interesse… E não te- riam corrompido o destino. Tem coisa que vira morte quan- do se esquiva a virar vida ou, ao menos, pecado. Quer coisa mais viva do que pecado? Quer o que mais queime, senão uma chaga de prazer e culpa? Mas, veja. Mande outro amor, que eu rebato. É tome lá, dê cá.

Amor de amigo? Este se complica em quintessências mil. Está certo que se abre em leque, a amizade, em se- quência de perdas e um que outro dano. Paixão que não chega a um termo. Medo de topar com um amante inó- cuo, no lugar do amigo mais caro. Bonde de um desejo que passa sem aviso, e os amigos ali, relutando no ponto, deixando escapar as linhas. Mas, ainda assim, interesse há, sempre há.

Bom-caratismo é sinal de inteligência, de espírito? Pode bem ser. Mas o interesse não fica lá muito atrás. Já dizia um amante dos mais adoráveis, interesseiro-mor que passou por

este mundo: “Amar o outro como a si mesmo.” Quer esperte- za mais ancha, quer espírito que enxergue mais longe?

Eu? Ah, comadre, a senhora pensa errado um tanto que, mais dia menos dia, acaba dobrando a esquina e topando com o certo. Pensa que eu condeno o interesse? Pensa que julgo os interesses todos, em suas roupagens várias?

Dois errados somam um certo?

Pensa que não tenho meu interesse, também? Mas, ora! Com filhos? Irmãos, amigos? Contudo, com todos.

Não se ama sem querência de nada em retorno. Cada um corre atrás do que quer ou pensa querer.

Meu interesse, o mais puro, ainda mora nos homens.

Trabalho demais que eles dão. E nós a eles, mas culpa nossa que nos achem tontas. Não sei por que escondemos

o frágil atrás do fútil. Sei, comadre, a senhora dirá que, se a gente se mostra, aí sim que os homens acabam de nos mon- tar… Mas seria mesmo pior? Essa fantasia aí do fútil serve para quê? Imprime respeito? Que eu saiba, nada. E a boni- teza, então! Mania deles, ou nossa – não sei quem começou –, isso de sermos lindas como a mãe de Deus. Imaculadas? Mas se tudo o que fazemos com eles e por eles é pela santa mácula que nos há de livrar das torpezas desta vida!

Eu quero dos homens, dos que tive e ainda terei, o melhor. Riqueza, a mais genuína. Quem gosta de roupa e perfume é mocinha de romance. Quem gosta de banquete e cinema é putinha de novela. Eu quero mais.

Quero o que sobrevive, quando a paixão se esvai.

Quero o que se mantém, muito depois do adeus.

Quero a essência que homem algum jamais daria, não fossem lá minhas manhas. Isto, sim, é interesse, do puro:

quero o melhor dele, deles que passam por este bar de beira de estrada e por minhas mãos, como se fosse eu o entreposto,

e vai ver sou mesmo.

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Não há jeito de uma vida ficar menos pobre, senão jun- tando o que há de mais caro. Mas, neste mundo de cegos, cada um só vê o que quer. Ou o que acredita. O que a gente não crê, não existe. Por isso a senhora me acha sem juízo, não é? Quase quarenta anos nas costas e sem juízo.

Que seja. Mas, pobre, não sou. Guardo dos homens, de cada um, seu ouro. E olhe que esse ouro não é coisa que eles possam dar a outra (esta, a melhor parte). Eles, que não são nunca meus, que têm sempre uma mulher direita à espera (sou torta, por morar neste desvio da estrada?), com aquele bando de meninos que às vezes nem deles são! Lembra aque- la anedota, comadre? O marido entra em casa, encontra a mulher com outro, pega o revólver, ela implora por clemên- cia e ele berra: “Me dê um motivo, um só motivo para que eu não mate este desgraçado!” E a mulher: “Pelo amor de Deus, este é o pai dos teus filhos!”

Ruivinho que, mal nasceu, já partiu, como o pai,

que passou uma noite só, por aqui. Parecia um passarinho,

o pai, inquieto, alma de bicho-carpinteiro, não pousava em canto nenhum, me disse ele, quando pedi que amanheces- se comigo. Que nada, voou quando era ainda madrugada,

e mesmo assim me deixou o filho, mas foi presente fugaz,

menino que viveu só uma semana, gosto de pensar que ele voou atrás do pai, é um jeito meio tonto, mas manso, de me agradar, me iludir, que doçura desse tipo muito barato cus- ta. É, me falta um assim, e decerto não será o que trago aqui dentro, porque o pai deste tem cabelo duro, cabeça mais dura ainda e uns olhos cor de breu, tanto que eu mal via as meninas, pretas no preto daqueles olhos que ele bem pode deixar comigo, olhos que quero meus no filho que me virá deste ventre que agora pega a estufar, pega-a-crescer-até-o- nascer. Esse um, o mais recente dos namorados meus, tem nome de anjo abreviado:

esquilo

Os idiotas contam isso aqui no bar e morrem de rir. Pen-

Bié — me disse ele, caindo de bêbado. — Meu nome

sam, quem sabe, que jamais serão esse coitado, que nunca

é

Bié.

terão filhos de outros homens?

Mas isso é lá nome de gente? — perguntei, só por pro- vocar, que eu gostei do jeito dele, desde o começo.

Eu não quero saber. Não tenho a generosidade de cui-

dar da vida dos outros. Mal dou conta da minha, da vida de meus filhos, cada um mais lindo, essência pura de cada um dos homens que também foram um pouco meus, um pou- co filhos, quando depois do amor em mim se enroscavam

e dormiam até o amanhecer, alguns com o dedo na boca.

Porque a senhora sabe, comadre, meninos e homens chega uma hora em que viram um só. Não há lugar melhor para se ver essa verdade, senão entre as cobertas, quando tudo se mostra.

A senhora, e outras amigas que tenho por aí, não sabem desfrutar dessa hora. Primeira coisa que pensam: o perigo de se pôr mais um desgraçadinho neste mundo. Pois tudo que é penso é torto, minha gente.

Para mim não há graça maior do que ganhar, de um homem, sua grandeza: um filho. Não que eu não acei- te presentes. Sou besta? Sonsa? Aceito o que for, mas não abro mão da minha mais-valia de cada namoro, de cada homem-lugar que visito. Pois quando a gente vai passear, não traz uma canequinha, um chaveiro que seja, “estive em tal cidade, lembrei-me de você”? Isso para não esquecer, para guardar um pouco, reter entre os dedos uma beleza, uma paisagem, uma luz que se foi. Quando acaba a viagem, quando tudo envelhece, quando meu homem da vez se vai,

quando meus homens se vão, olho em volta e não me sinto pobre. Ali estão os filhos que me deixaram: uma escadinha, cada um mais lindo e diferente: louro de olhos gateados, moreno de olhos ciganos, cafuzo de cabelos cor de assum

e olhos da cor do canavial onde o pai dele se possuiu em

mim… E a caçula, essa meninazinha de olhos como os da Calu que o pai dela cantava no violão, olhos cor-de-promes- sa. Minhas crianças, minhas canequinhas e chaveiros que levei dos homens por onde andei e me andaram. Vejo que falta um ruivo, daqueles com sardas de ferrugem e olhos de

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— De gente, não! De anjo! Gabriel, ao seu dispor, com

asa e tudo. —Você nem sabe onde pôr os pés, vai lá saber o que fazer das suas penas?

Foi uma farra. Gostei do jeito meio bobo dele, sabe, tem

homem que fica bem, de bobo

não é não? Tem parentesco lá com os santos, meio patetas e

muito bons.

E todo anjo é meio bobo,

Ria, comadre, que mais me ri eu, naquela noite em que Bié se perdeu e se achou nos meus braços. Lá pelas tantas, quando pensei que a graça tinha acabado, veio ele me rezar uma ladainha, dizer que ia me contar um segredo… Adivi- nhe qual? Que tinha conversado uma noite quase inteira, de Natal, com a Mãe de Deus, imagine só!

Heresia? Não, só visagem, viagem de alma, que alma não falta àquele bobo e não faltará a esse bobinho que vou geran- do, com a graça de Deus.

outro filho? — me diz a senhora. — Que gastu-

ra, por que não evitou? Como vai ser agora, com esse bando

de meninos e a vida tão difícil?

— Mas

Nem respondo mais, comadre. Adianta explicar o quê?

Penso em minha coleção de meninos, o mel de cada ho- mem que por mim passou, o botim desta vida que às vezes

parece guerra. (E eles, coitados, achando, quem sabe, que

Tomara tenham feito mesmo bom

de mim se aproveitaram

proveito e lambido os beiços!) De minha parte, tenho nada

a reclamar. Fui, vi, colhi o que buscava. Por isso, nem me

felicito, nem lamento. Vivo. Isso é pouco? Cada um procura

o que lhe basta. Eu não rezo regras a ninguém. E tampouco

me aborreço com seus cuidados, comadre. Sei que é de co-

ração. Sei que é limpa a intenção. Dizem que o caminho do inferno lotou de bem-intencionados. Eu não acredito. Apos- to que Deus lê certo nas linhas tortas da gente. Para mim, o motivo de um voto, um querer, um desejo, chega a ter mais valia que a ação. Deus não pode deixar de ver uma coisa dessas. Para isso ele é Deus. Para isso existe: para não largar a gente à míngua, para nos ler e querer bem. Amém. Vá com Deus a senhora também.

YARA CAMILLO nasceu em São Paulo, em 1957. Formada em Cinema, é autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Tem trabalhos para teatro, traduções, coordenação de oficinas de teatro e oficinas literárias, além de participação em sites literários e vários contos premiados.

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de oficinas de teatro e oficinas literárias, além de participação em sites literários e vários contos

CONTOSDEREVISTA