do Instituto das Artes e do Teatro Nacional Nesta edição de 2006 da revista Camões. n. nas artes perfonnativas em língua portuguesa. em áreas e meios Lisboa. pois. editorial viagens e experiências e à sua eternização -. num texto fundamental que deu origem o entendimento e diálogo numa língua comum Proveniente da Quinta do Marquês a este número da revista. Esta iniciativa do Instituto Camões. bem como para e manganês 128 x 104 cm e mestre. desde a sua expressão vicentina até de criatividade teatral contemporânea em língua à actualidade. não apenas em Teatro português. cujo tornando-se veio de comunicação de um tema rumo se iniciou com a transferência da Corte base. a expansão a partir do território homenagem ao Teatro. inv. interacção das mais diversas vertentes profissionais as suas experiências dentro artísticas. Lisboa MNA. actual universo de duzentos milhões de indivíduos. A Musa Tólia teatral vicentina. Maria II. foi obviamente e da FUNARTE. indispensável e necessário definir critérios para tem como objectivo premiar textos teatrais a abordagem de tão vasto tema. mas igualmente seu conservador e responsável Por ocasião do décimo aniversário da CPLP. desde a fundação ciência que une e se expande. a grande digressão. de direito e de a explanação teorética do tema. o qual. em termos de acervo museológico. os laços entre Portugal e o Brasil. nossa língua materna. riqueza e amplos trajectos o Teatro no Brasil. representa e reflecte um importante portuguesa. Por sua vez. o actor e encenador nono número da revista Camões homenagear o de renome discute e aborda com outros Teatro. a nível o Teatro. foram recentemente sublinhados contributo intralíngua. Teatro o Instituto Camões contou com o saber Digressões em língua portuguesa do especialista. de trabalho. com o mesmo idioma e ganhando autonomia. de Marialva. desenvolvendo-se e divergindo através das portuguesa para o Rio de Janeiro. não se inclui realidades e vivências de sociedades e espaços neste número. de todos os géneros dramáticos de cidadãos A grande viagem. D. a nossa Painel de Azulejos. portugueses e brasileiros tanto financeiramente a sua contextualização começa obviamente como pela publicação da obra e da montagem na inspiração e na regra claríssimas cénica do texto premiado nos dois países. DDF/IPM das companhias . oficial. eis. Finalmente. pela parte portuguesa. já consagrado dramaturgo. inteiramente dedicada ao Teatro. na cena cultural dos oito países José da Silva. Não por menor importância mas por grande Diversificando uma matriz de inspiração. no depoimento introdutório dum j ovem mas Em português. pela parte brasileira. idioma literário.o zoom à memória dessas Simonetta Luz Afonso . Contudo.' 6914 Para o testemunho das itinerâncias novecentistas © José Pessoa. 3° quartel do século XVII europeu para as antigas colónias até às suas eruditos e populares tem contribuído para Faiança polícroma a azul independências é desenvolvida pelo investigador a aproximação artística e cultural. com especial importância na cultura e de realidades teatrais do espaço lusófono. através das suas diversas e valorizados com a criação do Prémio António arquitecturas. de expressão portuguesa. o Instituto Camões pretende neste seu décimo num texto dialogado.

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do Mindelo . Joel Tembe Reservas e Conservação José Meco e Alberto Magassela Museu Nacional do Teatro Luís Abélard Sofia Patrão. João Branco Carlos Pimenta com Natália Luíza Técllka Inventário. Colecçiie s. personagem de Moçambique da n-agédia do Marqllês Centro de Documentação de Mâ/ltlla e do Imperador e Investigação Teatral Carlos Mag/lo. DEPÓSITO LEGAL Adido Cultural e Director 124734/99 e dos actores portugueses em Africa (1900-1974) Centro Cultural em Moçambique Isabel Cartaxo. Luís Amaral Bibliotecária do Musell Luiz Francisco Rebello Nacional do Teatro Mafalda Ferro Vasco Seruya.Associação Tchiloli Mindelact Arquivo Histórico Editorial Caminho de São Tomé e Príncipe Edições Caixotim Fundação Casas de Fronteira e A10rna Fundação Calouste Gulbenkian Grupo Teatro Centro Cultural Português JMCA Fotografia Lilástico Museu Nacional do Teatro Teatro Nacional D.o de Santaclara da Embaixada de Portugal Manuel Maria em São Tomé e Prfncipe de Santaclara José Manuel Costa Alves APOIO fOTOGRAflCO José Meco Actores e Produtores Sílvia Cam ara Associados Silvina Pereira Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe CAPA Arquivo Histórico Ganalão. 6 Notas sobre escrever Teatro DESIGN GRAflCO TVM designers Jacinto Lucas Pires PRESIDENTE Simonetta Luz Afonso TRADUçAO teatro em português VICE-PRESIDENTES Alliance Francaise­ Luísa Bastos de Almeida Leonor Francisco Maria Fondo 14 o Da expansão às independências Miguel Fialho de Brito Richard Rogers REVISTA CAMOEs REVISÃO COORDENAçAo Dulce Reis Duarte Ivo Cruz Miguel Fialho de Brito Luísa Cunha Rego IMPRESSÃO Rumo a África Facsimile PRODUçAO Maria Cortesão 62 Contribuição para o estudo TIRAGEM 6000 COLABORAçAO da presença das companhias de teatro António Braga. COPYRIGHT INSTITUTO CAMÕES Respollsável Inventário. Carlos Espírito Santo Discurso directo Conselheiro Cultural Dina Gregório e Direclor do Centro Cultural Fernanda Bastos 80 em Cabo Verde Jaime Ramalho Margarida Palhinha. Reservas José Carlos Alvarez e Conservação do Museu AGRADECIMENTOS Nacional do Teatro Anabela Barroso João Laurentino. ISSN: 0874-3029 Colecções. Manuel Albergaria loSecretár. Maria II INSTITUTO ][ Teatro Nacional São João Teatro Maizum CRMÕES PORTUGAL .

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Notas sobre
USAR TODOS OS EXPEDIENTES para juntar ilusão e
distância - até que não haja nem uma nem outra, só
outra coisa que não cabe em nenhum dos termos.

escrever teatro
Escrever o mínimo de didascálias; não cair na ten­
tação de "encenar" por escrito. Imaginar tudo com
grande pormenor e depois apagar até restar apenas
o essencial (o coração, o osso) de cada momento
ou cena,

Ja c i n t o L u cas P 1 r e s A lição que há no modo distraído e puro com que
dizemos as deixas quando, nos ensaios, alguém
pergunta: "Vamos de onde?"

A ideia de "deixa" : é mais disso que se trata, "deixar"
as frases, do que de "fazer" qualquer coisa com elas
ou sobre elas.

Não ter medo da tensão entre a língua em que escre­
vemos e a língua em que falamos. Pelo contrário,
usá-la a favor do que queremos dizer.

Pausas e silêncios não são vazios; têm existência e
corpo. Só fazem sentido como palavras em branco,
frases em negativo. (A língua em que ouvimos.)

Lição que os actores me ensinaram: uma voz cons­
trói-se à volta de um mistério.

Buscar o ponto óptimo em que tudo é normalmente
misterioso e espantosamente claro.

o teatro é o presente, o "isto" do presente. Exige
que se "esteja lá" quando as personagens falam ou
fazem alguma coisa.

Falas são acções; movimentos de avanço, recuo,
ocultação, revelação; palavras que querem coisas.

Definir um código tão coerente e rigoroso quanto
"Garrett e Sargedas, um conhecido ador da época",
desenho de Rafael Bordalo Pinheiro para os Teatros possível para que, no limite, o texto possa valer
de Lisboa de Júlio César Machado, 1874-1875. como uma pauta: música escrita onde tudo está

"Universos e frigoríficos.
ensinaram: uma voz constrói-se � volta de um
mistério."
De Jacinto Lucas Pires; Adores: Miguel Moreira,
Joana Bárcia, António Simão, Manuel Wiborg, tvo
Alexandre; Encenação: Manuel Wiborg; Produção:
APA; CCB, Lisboa 1998.
© Jorge Gonçalves

previsto, tom, tempo, pausas, interrupções, sobre­ Diálogos são duas pessoas à conversa, mas também
posições, etc. cada uma à conversa consigo própria.

Em última análise, um texto não se explica. Ou seja, As personagens são aquelas específicas constru­
é a sua própria explicação. ções. São aquilo que fazem e dizem ali, daquela
maneira. São despsicológicas (perdoem-me a
Achar a forma simples e única de, ao mesmo tempo, palavra) e não têm "vidas" para trás ou para
contar a história e contar a história de c ontar a frente. São o que são na peça. Podem espelhar as
história. circunstâncias concretas em que apareceram e
usar o presente de todas as formas concebíveis,
Escrever é pensar o outro, tentar o ponto de vista do mas não devem ficar dependentes de certo con­
outro - pormo-nos, inteiros, do "lado de lá': Nunca texto, actores, aquela encenação, o texto da folha
esquecer a importância da contracena. de sala, a explicação na entrevista, a nota de rodapé
não sei onde, etc.
Encontrar o terreno limitadíssimo da nossa peça.
E depois, cumprindo escrupulosamente esses limi­ o conselho mais importante é talvez o da solidão.
tes, construir uma totalidade.
Economia de gestos e rigor em cada um. Tam­
Falar do que, de verdade, se tem medo e se deseja bém as acções devem ser substantivas, suficientes,
- por vias travessas. enxutas. 8

Um palco e actores sob as luzes - isso já traz consigo pendem para nos darem o seu ponto de vista a
muita História e muito peso. O teatro deve inven­ partir de dentro.
tar uma verdade (óbvio) mas com uma espécie de
(atenção, palavras equívocas) pudor ou leveza. Na zona entre o puro verosímil e o levemente
descentrado, falas que pedem dos actores alguma
Aprender com as cenas silenciosas. Como pode ser coisa entre o quase-espantado e o quase-auto­
fundamental o momento em que alguém decide mático.
quebrar um ramo, não pegar numa chave, tocar
noutra pessoa. Falas que - não - valham sozinhas.

Não impor, "de fora'; um certo tempo às cenas. Uma imagem teórica: a cena como um lugar ao
("Tempo" usado aqui no triplo significado de dura­ mesmo tempo abstracto e concreto onde há pessoas
ção, ritmo e "sentir':) Seguir o compasso que as e dois níveis de matéria: o das coisas-coisas, uma
estrutura "por dentro': Ver o que nos diz o nosso cadeira, uma mesa, uma faca, uma flori e o das
esquema, mas ver também o que sugere o próprio coisas-palavras, uma "cadeira'; uma "mesa'; uma
desenrolar da cena. Ser lúcido, mas confiar também "faca'; uma "flor':
naquilo que os poetas chamam "uma atenção" e os
mortais chamam "ter ouvido': A linguagem é o "onde" de todo o amor, todo o ódio,
todo o desejo, etc. As pessoas movem-se é aí dentro.
Ideias que - desmontadas, retrabalhadas, ilumina­ (Dito isto, atenção aos excessos de "linguagem':)
das, esquecidas - se tornam cenas.
O que se diz deve ser tão claro que, do nada, faça
Não há dois espectáculos iguais, diz-se. De forma nascer alguma coisa. Mas também tão dissimulado
análoga, também todas as peças devem ser feitas que sugira a existência de uma outra coisa escon­
como as primeiras de alguma coisa. Arriscadas com dida ou perdida, uma coisa sempre por dizer.
espírito inaugural, fundador até - peças sempre
espantáveis. A grande decisão da escrita é, porventura, a do que
não se diz.
. Tem de haver qualquer tipo de estranheza, ainda
que do género mais subtil. Um ligeiro descentra­ Não começar a escrever até haver alguma coisa no
mento, um desequilíbrio. lugar de ser escrita.

Experimentar novas formas de cruzar o "contar" Tratar os segredos mais negros, as fantasias mais
com o "mostrar': Sem perder de vista que quem loucas, as violências mais brutais, com o máximo
conta uma história - num monólogo, por exemplo de (atenção, palavras equívocas) simplicidade e
- se vai revelando nesse contar, e que quem fala contenção.
sobre coisas sem importância - num diálogo, por
exemplo - conta histórias sobre si próprio. Utopicamente, ideia=imagem.

A ideia de pessoas-personagensi personagens que As personagens devem sofrer alguma transforma­
também são actores de si próprios. E a ideia de ção, chegar ao fim diferentes do que eram - isto é,
9 narradores-pessoasi personagens que se auto-sus- "mais iguais" ao que são.

A estrutura não serve apenas para organizar ou (De modo análogo. A arte das histórias é uma arte abstracta. desco­ mais do que ajudar quem lê. Descobrindo o final. Se há algo de particularmente estranho e difícil de agarrar nas entrelinhas do texto . Produção: TNSJ. Escrever desde o fim. Em certo sentido. Escrever por uma razão. Jorge Vasques. movimento': Micaela Cardoso. descobre-se mais facilmente "Figurantes. des­ vozes. A importância da pontuação. António Durães. Há uma lição natural no som Cardoso. escreve·se contra "emoldurar" um corpo de ideias e imaginações. Lulsa Cruz. TNSJ Porto 2004.) Actores: João Reis. deve ser o mecanismo que põe esse corpo "em que ela esconde.algo sobre o 10 . como é que certa personagem fala se se souber o a vida. Nuno M. acertando o texto no sentido certo. Mas sem buscar um resul­ das frases. João Cardoso. truh� retrabalhar o que está para trás. Dizer alto as falas. Encenador: Ricardo Pais. ajude a formar aquelas bre-se muitas vezes a chave para desmontar. Emllia Silvestre." De Jacinto Lucas Pires. © João Tuna/TNSJ tado. de um código que. Pedro Almendra.

ousar tudo. Ou menos até. parêntesis. Terceiro. dentro desse corpo coerente. Queira-se ou em troca? não. As limitações práticas (de elenco ou de espaço. livres delas. Por vezes ajuda ser o mais simples possível.valem ouro. qualquer impossível. o mais prosaico.o nosso primeiro relance.e daquele texto especificamente. mesmo nova. para que não se desmanchem pela voz. Outras só aparecem quando dizem alguma coisa. um silêncio. E depois deixar espaço para o irrazoável. para as conhecermos bem antes de começarem (quem sabe? milagre!) alguma coisa mesmo nossa. isso está sempre lá. é na nossa visão que temos de confiar estarão a mais. sozinha sentada num banco. "universais'. A arte das histórias é uma arte abstracta. A tensão implícita entre dois corpos Por exemplo: numa estação de comboios um já é um acontecimento. que se suspendei tempo fora do tempo. isso faz parte delas. num lugar de onde não podem sair. que quer dinheiro rápido. a censura.e assim vermo-nos exemplo. naquele texto. Algumas personagens precisam de um tempo cala­ é melhor parar e tentar perceber o que é. Em certo sentido. . em caso de dúvida absoluta. qual possivelmente só temos uma vaga intuição -. As regras não são as da vida. claro. Usar as pausas com moderação . No fim de contas. Questionar cada palavra. de novo.) . escreve-se contra a vida. é Tudo pode muito bem começar só com uma ima­ útil tê-las bem presentes para que possamos usá-las gem ou uma frase. Tempo que se concentra. suspensões. um silêncio desconfortável.) Uma cena é feita de pessoas num mesmo espaço num dado momento. tempo. cada pormenor. o que nos lançou doi­ damente naquele mundo. qualquer subversão. seguir a nossa pri­ meiríssima visão. pode aconte­ A ficção é sempre uma forma de manipulação do cer tudo e mais alguma coisa. (Por a nosso favOl� a favor da peça . Há. do que elas são. a falar. mas cada peça deve o que poderá ser essa coisa. E. escreveu e pensar o que poderá ali haver de um qualquer mínimo novo-verdadeiro. Pode-se dizer homem. Conseguir Alguns textos precisam de breves espaços de respi­ ganhar um mínimo de distância sobre o que se ração: canções. espírito crítico. (O carácter "ao vivo" do 11 teatro. estabelecer e tornar claras as suas próprias leis. que se expande. Uma pré-frase. entre dois desconhecidos. fran­ queza. cortar tudo. são as do texto . Segundo. toda a loucura. Depois. Pelo contrário. humor. conven­ o contrário de uma coisa ajuda a ver melhor tudo ções conhecidas. toda ajudar o desenvolvimento da ideia central do texto. "de elevador'. depois de todas as regras ou Desconfiar das "palavras bonitas': Provavelmente princípios. Pode ser das. vê uma mulher que quase sempre se escreve em cima disso. Aceitar tudo o que possa Primeiro. Ouvir as opiniões dos outros com abertura. Ele faz Personagens: pessoas que são vistas a fazer coisasi o quê? Quem é ele? E ela? E o que é que ela quer. por exemplo) não devem ser ignoradas.

no coração). Fazer-nos perceber palco. "Os dias de hoje. não. não entrada. mas tem de ser "final': De um encenador. © João Tuna/TNSJ 12 . E depois espera-se que não de estreitar a compreensão da história." De Jacinto Lucas Pires. aquele assunto. que baixa a luz sobre aquele mundo. mas de nos surpreenda. de a transformar ironica­ Uma pessoa exposta como um actor num palco já é mente. Adores.queira-se ou que acabou. Não cair na tentação de explicar logo tudo de A repetição como máquina de significação. O rnornento especialrnente cornovente que se segue a urna gargalhada a sério. o momento especialmente comovente que se segue a uma gargalhada a sério. a fazer expandir em novos. Estúdio Zero. nho': Tudo o que é informação deve ser dado só quando é realmente necessário. de a estilhaçar ou sabotar. Juliette Prillard. Pode até ser "aberto'. insuspeitos significados. Ser "claro" não quer dizer ser "explicadi­ como fórmula.Uma peça é para ser atravessada por corpos num Um final tem de resolver a coisa. mas também é "só" um texto . isso está sempre lá. de lhe dar outros lados. prismas novos. João Pedro Vaz. Um fim é um fim. Ivo Alexandre. Co-produção: lilásticof TNSJ. Encenação: Marcos Barbosa. espera-se o máximo de rigor na leitura da peça e o máximo de fidelidade ao que A difícil arte do "aparte" : o comentário como forma ela é (no osso. Porto 2003. Nicolau Pais. de um começo: desequilíbrio. tensão. a reescrever. pergunta.

no sentido ensinaram: a palavra é um acontecimento físico. analisável. O teatro. não memo­ o presente.. Não se trata. precisa das muitas línguas da nossa língua. Encenação: Marcos Barbosa. Tudo o que for pretexto para a vida. mas nunca deve é soar a coisa neutra. diz "entrar Idealmente. Pôr pessoas dentro da língua portuguesa: elas ajus­ tam-se e ela alarga-se. a vida toda. inventar uma língua. em relação à escrita de uma cena. é mais do que a mera soma das partes." próprio de as limitar. comédia=tragédia. Quem escreve: ser muito sério sem se levar muito a sério. E a vida é sempre. fotografar Escrever teatro: frases só lembráveis."Esuever. É sempre boa conselheira aquela regra do cinema que. toda a estranheza. O todo. Por vezes. todas as entoações e deslizes. (De olhos abertos! De novo crédulos e livres como em crianças. portanto. de "Notas sobre es­ Não cair no que é fácil e já demasiado testado. o teatro não é de fronteiras. Enquanto se conta uma história. Mas também não ter medo do óbvio. Lição que os actores me Dar nomes às personagens é defini-las . desmontar uma ideia feita. menos desenvolvida. como se costuma dizeI.O 14 da revista Artistas Unidos. digo eu. . Nicolau Pais. tarde e sair cedo': Poucas palavras são melhores do que muitas pala- Nem tudo é verificável. Actores: Hugo Torres. Porto 2001. falar. todas as gírias e frases feitas. claro. Particular atenção às "metáforas': . de um mero detalhe. nem salvá­ Lição que os actores me ensinaram: a palavra é um las. ráveis. Respeitar as personagens. acontecimento físico. Maus Hábitos. © Sara Amado o teatro não é um território separado do mundo e da vida. crever teatro" foi publicada no n.) Teatro escreve-se com sotaque. vras. em Novembro de 2005. Produção: lilástico. Por isso. mas um país para todos os possíveis e imaginários. de nenhumas fronteiras. pode até parecer conversa mole. toda a dife­ rença. De Jacinto Lucas Pires. Uma primeira versão. Por exemplo. fazer outra coisa. ou só o é como são todas as vidas quando sonham no escuro. contabilizável. dar-lhes um fim. Não julgá-las. 13 conhecido. todas as mil variantes e variações.

PANORAMA .

O teatro português praticado ou envolvido na problemática da Expansão só dispersamente tem sido objecto de estudos: e mesmo esses estudos. em suma. dos fenómenos socioculturais . como Representação de Tchiloli. por vezes. surgem no contexto dos autores respec­ tivos. ou ainda ao Gama e à descoberta das rotas da Índia.o teatro clássico - séculos XVI-XVII português O presente estudo integra-se num projecto de investigação em curso. E há que considerar também. na Índia e menos no Brasili personagens e acções ligadas à deslocação ou à emigraçãoi brancos colonos. com o apoio da Fundação para a Ciên­ cia e Tecnologia.da Universidade Católica Da expansão às Portuguesa.Revista Portuguesa de Arte e Turismo. o teatro em Abrangência da expressão dramatúrgica da expansão . Duart e I v o Cruz geralmente. Evidentemente. da descolonização. Trata-se de uma pesquisa abrangente da dra­ independências maturgia portuguesa de ternário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural portuguesa. são conhecidas e identificadas peças em que estes problemas afloram ou até. efectuado no âmbito do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Língua Portuguesa . aí com maior incidência e regularidade. as peças históricas liga­ das aos Descobrimentos ou aos seus heróis: desde os sucessivos ciclos camonianos. ao grande tema do sebastianismo e da batalha. n. iremos vendo.e. de uma problemática diferente: o São Tomé e Príncipe Aguarela do pintor são-tomense Pascoal Viana objectivo é o facto histórico e os seus protagonistas de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete na perspectiva dramática da viagem. Colecção Particular e não tanto.' 23. sem que se procure estabelecer uma definição temática ligada ao fenómeno histórico em si. Mas trata-se. não da transfe­ Capa Panorama . ainda menos. constituam essência da dramatur­ gia: peças passadas em África. Setembro 1967 rência de culturas e personagens que as encarnam.CEPCEP . aos aspectos de caracterização das personagens e do seu circunstancialismo ou mesmo à interpenetração cul­ tural decorrente da colonização . africanos escravos ou deslocados. IV série.

mas que tem pleno cabi­ e o Príncipe Conon pormenor - Retábulo de Santa Auta ticos. 1965 Autoria: Almada Negreiros gem sistemática e tendencialmente completa. isolá-los do contexto geral do teatro da Expansão. citam africanos em Portugal: Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional de São Carlos. Mas fá-lo num ponto de contexto das origens do teatro português distribui­ 67X72cm vista exclusivamente centrado nos autores. não será possível. aqui. A seu tempo desenvolveremos esse tema. mesmo aquelas que. Tudo isto se relaciona com a Expansão. n. E existem. filho de escrava e Autoria: Almada Negreiros dos de Hernâni Cidade2 ou. Mas o que está por estudar é a plausível inter­ venção dos navegadores. missionários e colonos portugueses na transladação. em si mesmo considerado. sem quebra de sistemática. Nesse sentido. como veremos. os estu­ e até. surgem já antes de Gil inesgotável bibliografia. para a África hoje francófona. que é. Melhor dizendo: personagens. e sendo certo que o presente estudo se concentra sobretudo nos temas africa­ nos. n.' 1462-A Pint cuidar das influências de cultura resultantes! . citam o Brasil. Vicente no Cancioneiro Geral e na sua expressão obras.' 132223 estudos sobre a transposição dos Autos de Baltazar causa. sem -se por referências a lugares. Vai a políticas. a partir Teatro Nacional de São Carlos. mento num projecto abrangente. do de Gil Vicente. 1965 tantas mais obras referidas na bibliografia. que abordam a matéria. o grande tema da emigração. fazem-no com conhecimento directo de MNT. do encontro e transposição de culturas. no caso de Afonso Álvares. a personagens e menos MNAA. pois foi de grande valia entre África. os de clérigo. como se sabe. sobretudo na área da literatura (mais do que mais próxima do teatro. repre­ sentam áreas de pesquisa menos percorridas ou até completamente inéditas e "geograficamente" descontextualizadas mas relacionadas pela mesma matriz da deslocação e fixação de pessoas como o teatro representado em Goa até quase aos nossos dias. paradigmaticamente.' 132223 fenómeno. E o mesmo se dirá do teatro praticado a bordo. Gil Vicente e seus epígonos citam Auto da A/ma já. Encontro de Santa Úrsu/a então pela completa negativa de estudos sistemá­ rigorosamente inédito. inv. Chiado descreve a sua Lisboa de escravos e Trajo de Cena para Anjo Dias e do Auto de Floripes para São Tomé e Príncipe marinheiros torna-viagem. Auto do A/ma (Tchiloli) e Floripes. inv. por exemplo. inv. n. como veremos.inerentes. Hen­ Trajo de Cena para 2. MNT. evidentemente. Aqui está um exem. E ignorar as dimensões colaterais dos fenómenos em si. Cita-se desde rique da Mota. de temas e ciclos de teatro clássico . na Índia e África. europeu. a abordagem do tema no Século XVI Óleo sobre madeira de carvalho Brasil. A influência do teatro português no Brasil posterior à independência foi por nós analisada em 20043. com a excepção dos estudos de Mário Martins no que se referem ao Oriente. E nesta área poderíamos acrescentar. E só os Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Muito embora o que não existe é uma aborda­ "fumos da Índia" merecem a condenação.' Diabo no teatro). Mestre do retábulo de Santa Aula Teófilo Braga refere a Escola de Gil Vicente no Em qualquer caso. e desig­ © José Pessoa DDFf IPM - um pouco mais longe em outras obras da sua nadamente escravos negros. Tudo isto se remete para a bibliografia.

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/ sacrivão/ mim que a ameaça. As primícias d a grande aventura É hoje pacificamente aceite a prioridade esté­ tica de Henrique da Mota nos primórdios estabele­ cidos em texto do teatro português.! Mim também falar mourinho. de toucinho/ te hei-de gastar nesse lombo"7). "parente próximo os dramaturgos. do Paços da Ribeira in Auto chamado da Feyra que os africanos (os "pretos'. quase sempre através Edição Marques Braga. E a "perra do manicongo": "A mim nunca nunca Mas é aí que queríamos chegar. nem com posição de Gil Vicente. 18 . mas a escrava não se geral com um paternalismo equiparado ao sentido deixa amedrontar e invoca a lei que. Sabe-se muito bem que antes dele e antes de Gil Vicente se escrevia e sobretudo se praticava teatro em Portugal. dominantes neste estudo. até em auto­ e mais velho"6. . o do quadrante político-ideológico em que se situam Pranto da Maria Parda vicentino. Ambas as personagens se lamentam res anteriores ao Romantismo e ideologicamente de falta de vinho.cita-se por O clérigo acusa a sua escrava negra de ter dei­ agora o padre José Agostinho de Macedo. pelo menos em sete anos. na Lamentação do ClérigoS. mesmo nunca ser ruim/ porque bradar/': por vezes escravos ou alforriados. cala-te já/ senão matar-te-ei agora:' Ao que ela res­ no Cancioneiro Geral. de vista estético e dramatúrgico não colide com a Mas reconheça-se que não é assim. Neil T. 1936 Fundo Bibliográfico MNT de uma linguagem "ingénua" de duvidoso rigor semântico. Henrique da Mota alude aos ponde: "Aqui estar juiz no foral a mim logo vai até meios legais de defesa da escrava e troça do clérigo lá.e fá-lo de forma pouco lisonjeira quanto ao Brasil. Miller situa-a depois de 1 5144. Tudo isto se verá. Ou mesmo quando os colonos mere­ cem menos respeito. em princípio a protege: (Clérigo): "Ora pena. que é tratada a colonização.pio flagrante de que não nos podemos abstrair na Contudo há uma contemporaneidade que no ponto problemática geral da Expansão. O mesmo xado aberta a pipa . E da "Parda" vicentina falaremos conservadores . e como tal são tratados. tratamento da Índia muito favorável . Vamos encontrar. são tratados em O clérigo é ameaçador. a dimensão missionária dos Descobrimentos e Mas a primeira referência a uma personagem colonização nem sequer com a caracterização do negra no teatro português. Isto mesmo quando. independentemente que antecede. A escravatura em si mesma não é da Mota.um a seguir. Ao longo da mim/ intronar/ mim andar agua jardim/ a mim história do teatro português os negros. verdadeira condenada: e até ao século XX não o será a colo­ farsa goliardesca integrada no Cancioneiro Geral e nização. escrava ou "civilizador" e de gesta social e psicológica com não. do manicongo/ tu entronaste este vinho/ uma posta sem desviar directamente dos temas africanos. e aí até se pode citar Gomes de para os costumes escravocratas da época ("ó perra Amorim e a defesa dos índios. essa remonta a Henrique escravo africano.se o termo se aplica à época . aí sim. e que a datação da primeira das suas obras dramáticas ou para dramáticas pode ser posterior ao Auto da Visitação. antes pelo contrário. com então se escrevia) Gil Vicente que os servem e que surgem. .

.TNDMII me vem de dar cabo. passe o peso significativo. clássico.Cena da peça Serviços D'Amores não mourro no toucinho/ guardar não ser mais que excessivo do termo face a um entrecho tão simples. ProduÇãO: Teatro Nacional D.! Olhai pena que diz/ que fará/ cularidade. ou não fosse o próprio Henri­ marcada pela imitação de expressões deturpadas Figurinos: Rafaela Mapril que da Mota magistrado: "Ora te dou o diabo/ rogo-se do português. esta sim. . desde logo EncenaçãofDramaturgia: Maria Emllia Correia Cenografia: Rui Francisco E assusta o clérigo. que por exemplo José Ramos Tinhorão irá dizer ao juiz/ o que fiz e que não fiz/ e crerá/:' assinala. a . Com a parti­ © Margarida Dias . tanto a nível de conteúdo. da evocação das garantias legais concedi­ Esta obra iniciática define uma linha constante das à escrava. o que não deixa de ser insólito mas 19 de análise. Maria II já que te cales/ que bem me bastam meus males/ que num mecanismo cómico constante. romântico ou moderno. Gil Vicente vinho/ creligão:' como a nível de linguagem.

a primeira grande reserva aos será caso isolado.pormenor. em 1519 Escola Vicentina. Leonor. encontramos em Gil negativa e que serve de epígrafe a um estudo e Vicente. 1929 -1932 Índia.rola Vi entiln dos "fumos" que até nós chegou com a sua carga Ora. e naquilo que Teófilo Braga chama a antologia de Maria Leonor Garcia da Cruz. claramente alinhado com a grande aventura BN .II A expansão em Gil Vicent . mos como já foi dito. em Almada. a primeira grande abordagem da No contexto da dramaturgia de Gil Vicente esta Carolina Santos problemática da Expansão. portanto seis anos antes de hoje. datado de 1509.d. perante a rainha D. diríamos Lisboa. E também encontra­ posição crítica é tanto mais significativa quanto Iluminura . - Afonso de Albuquerque ter consagrado a expressão a fc.9 Representação do Auto da (ndia. Ao contrário: toda a restante obra in História da Literatura Portuguesa Ilustrada de Albino Forjaz de Sampaio aspectos negativos da grande viagem no Auto da assume um perfil "politicamente correcto'. s. precisamente.

/ que é gastar sem prestar. cita-se aqui a porten­ tosa Exortação da Guerra (1514 ou 1515)10 com o seu belicoso apelo à venda de jóias para custear a conquista e a navegação. à procura de um "mulato" no ouvidores/ em algumas audiências?" Clérigo da Beira (1526)14. Duardos. . e por A. E negros falam no seu linguajar na Frá­ personagens é indiscutivelmente a Maria Parda gua de Amor (1524) e na Nau de Amores (1527). mas alma encomendai A Noé e a outrem não/ e o meu . Para o primeiro aspecto.12 Minho virai e ele chama-mo cam': . constitui um grande momento de bravura na veemência de tonalidades modernas de apelo à aus­ teridade. uns e outros detalhadamente natural e com intenções escusas : "E negro falam os referidos por Tinhorão na obra citada. . aliás. diz o Anjo). diz Mestre Gil). alabardas!/ Espingardas. chame­ de Auto do Borco do Inferno. Senhor do que mibae/ buscar o pouco de venturo/ que a mi na Céus'. "vem um Negro cantando na língua e das tabernas nas ruas de Lisboa a leva a preparar de sua terra'. espingardas!" "O comediógrafo [diz Hernâni Cidade] comunga no ideal de todos os cultos do seu tempo: . mulatos são citados no Porém a mais portentosa figura desta linha de D. Aí se notará também um sinal da mudança de costumes que. mas também obviamente no plano Gil Vicente religioso. pois Vénus invectiva-o em castelhano.! Oh! Deixai de edificar/ tantas câmaras dobradas/ mui pintadas e douradas. ] eu chamarele eternal" (Auto da Barca do Inferno). doutores? / Nunca eu vi tais diferenças. será patente. C. nada menos. Saundersl3./ Amores "vem um negro do Beni e diz: Quere boso que morrestes pelejando/ por Cristo.Frontispício da mais antiga edição dos Descobrimentos no plano nacional. os costumes que condicionaram e expulsa-lo do território pátrio':lI a resposta vem em português aproximado: "A mi sá E está flagrantemente nessa linha a salva­ negro de crivão/ agora só vosso cão/ vosso cravo ção dos "quatro Fidalgos. o que constitui Cristo" (e de Deus. .! Pois se hi de C. na época totalmente homogeneizados (Portugal "Alferes da Fé'. em sua rudeza antiga. pois "quem morre em tal batalhai merece paz mordo sae/ da moça casa su pai! [ . Mas o mais curioso será o conjunto de refe­ N a Floresta de Enganos (1536) põe-se o pro­ rências aos territórios descobertos e aos seus habi­ blema da utilização da língua por quem dela não é tantes deslocados. temos o "Negro grande há negras sentenças/ não haverá hi! alguns negros ladrão'. Assim. o que dá ao texto um cariz plurilinguista a morte com um goliardesco testamento: "A minha 21 curioso. M. E na Nau de partes de África e a quem o Anjo "está esperando. c1518 mos-lhe assim. mais tarde. No ponto de vista teatral.é dever de reis e cavaleiros cristãos levar a guerra ao Infiel e manter para tal. que morreram nas uma referência de impacto óbvio.! Alabardas. cujo Pranto pelo desaparecimento do vinho Na FI'água. (1522). cavaleiros da Ordem de margurado/ cativo como galinha'. Mas será sintomático que a exortação se faça para a guerra em Marrocos: "EI Rei de Fez esmorecei E Marrocos dá clamores.

garante a independência crítica do autor mercê da generosidade e espírito "liberal" dos reis . com o conjunto de malefícios que AHM caíram em cima do próprio marido.corpo enterrado/ onde estão sempre bebendo/ [ . nenhum foi tão longe como Gil Vicente: alguma razão teve Garrett quando em Um Auto de Gil Vicente15. ligados à acção missionária dos padres dispersas aos "fumos da Guiné'. ele próprio. remos a obra em si. O grande propulsionador dessa diáspora terá sido a acção missionária. no caso outros mais. ou "tratos" a que Manoel da Nóbrega. na Farsa dos Almo­ creves (1526) há uma referência ao Brasil. mas tem leve Auto Pastoril Português (1523). o grande desvio Estátua de Camões na Ilha de Moçambique crítico ao "politicamente correcto" é o Auto da António Pacheco. e se refere a Farsa dos Almocreves (1527) e. Ao lado. . ficou até hoje a tradição anual do Auto de com grande sede comigo': . 1969 Índia (1509). hoje e que mais adiante retomaremos na compara­ Ao Brasil chegou uma tradição vicentina ção com outros modelos. o Auto Carolíngio de Baltazar Dias16 chega a São Tomé no ciclo da cana-de-açúcar e da 22 . .. Mas. Floripes. o Triunfo de Inverno de uma produção teatral própria. que se inicia (1529) e até episodicamente o belíssimo e tão também com o teatro jesuíta embarcado. Duas matrizes africanas A chamada Escola Vicentina estende a sua influência pela Índia. António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos. António Vieira. mas não só: como a seu tempo se estudará. Sá de Miranda. vindo na emigração minhota. retardada através dos autos do padre José de Mais precisamente no seu estudo citado. para não falar em Camões. e no local próprio a aculturação na deturpação irónica ou dramática que chegou até são-tomense. com Camões bem sabemos e como já foi dito. Maria Anchieta e de textos avulsos.. no teatro. assumem estas críticas no teatro ou na poesia e estão nessa linha numerosos cronistas e viajantes. claro. do apoio global à política da Expansão. sem embargo. inclusive por um castelhano. . E a Índia foi receptáculo e ambiente específico das rotas da Índia. por África e pelo Brasil. . no Renascimento. Aqui analisa­ É o que n a altura s e chamaria "fala d a Guiné'. ("se não fora o capitão/ eu trouxera o meu quinhão/ um milhão vos certifico") . E já agora. sucessiva­ © Luis Abélard mente enganado na ausência. roubado pelo capitão . ] emigração/colonização madeirense. Daí seguiu chorai todos meu perigo/ não levo o vinho que digo/ para o Nordeste brasileiro e para Goiás. Mas como momentos altos. no que eu chamava das estrelas/ agora me irei p or elas/ Príncipe. de que ficou a Leonor Garcia da Cruz identifica as referências memória. .

Abril.'&1-�'�� eles de ingénua estrutura. até porque envolvem aspectos iné­ Nascimento de Cristo.go de Filodemo. pelo qual é concedido ao poeta o exclusivo século passado. João III. Chiado. certo é para crêr/ que quem tem côr de cravão/ é . todos r ti"'tJ�������êi:)��RJ�(i.���t$����t�� de uma escrava natural da Guiné e de um clé­ rigo. 161)". Auto de ditos. Sol". em alvará firmado em 20 de Fevereiro de 1537 por português escreveram até aos anos sessenta do D. ou seja. Santo António e São Vicente. e preferiu ignorar a forma­ in Teatro Completo . r(lJ" Flol'Jmena Pafiora. Deste nos ficaram o Auto do autónoma mas.a qual entrio as fi.ádo. E pior: "Porque . e História ser as transladações do teatro popular português da Imperatriz Porcina. e conotações africanas dos autores mais importantes ainda o Auto da Feira da Ladra.Luís de Camões Edições Caixotim.PorViccme Abarez. e Santa Bárbara e Santiago. Afonso de Portugal fez COM:POST A POR LVIS DE C A M ÜES. ficou a Tragédia do Marquês 23 não pouco o incomodaram é Afonso Álvares. e com outros autores locais que. P:. S" Monteyro: . Auto de Santo Aleixo. protegido do DE FILODEMO� arcebispo de Évora de D. . � 6" Hum panol. expressão religiosa. Van adoro.guás lcguil1tes. vejamos as brado em Trás-os-Montes. por causas genéticas que Mas. Auto da Paixão de Cristo. e- rar ·Dronyl:. Mas para já. Em. inspirados na Legenda Áurea de Voragine. "m'.. Wi uma honrada carreira de professor e dramaturgo. cego da ilha da Madeira22.<I"'f?XI:�<y�� ambos de 1531.� desta maneira/ há mister que tu esconches/ pois J 13}' Vllard? feu moço.24 O primeiro deles.�fi' esqueceu essa origem. e o Auto d' Bl Rei Salomão. Como o não devem Santa Catarina. ���� '� �?. rGt Dom Lllíid"rdo pay de � que sabe tal manqueira'. os filhinhos/ e a honra que mantenho/ eu te fizera canhenho/ de pernas. o descaso pela escrava mãe. Uma recente edição moderna (FilodemoI7) e Simão Machado (O Cerco de Dio!8). ainda mais ou menos lem­ para os EUA e Canadá.tyl.� Afonso Álvares responde à letra: "Se não foram �. mãos e focinho/ pela virtude � do lenho': E alude a cenas de pancada e deboche: � "Tu bebeste no ribeiro/ do rio da Palhavã/ por seres chocarreiro/ que não tem virtudes ã/ velhaco frei EtnLisboa.� � vaMdoro.Frontisplcio da edição seiscentista da Comédia de Fliodema �. � matreiro:'2! Afonso Álvares deixou-nos quatro autos de � rias. de mandar imprimir as suas obras "por ser homem As extensões não africanas deste percurso pobre e não ter outra indústria para viver por o care­ deverão ser estudadas e desenvolvidas em área cimento da sua vista"23.d�( �I:.as licenças nccdfa- �.jIode\no. filho de Mântua e do Imperador Carlos Magno. HtII>I Bobo filho do pafior.hkl. padeira de profissão.!l �t Diz Chiado: "Ser cativo de um Sequeira/ e pois que � r. ' (ff' 'Ire> pafiores b.DOflano Dolorofo aJlllgodeVib!'do.ua mop. que vamos encontrar já adiante. não podem ser ignoradas. cujo título faz lem­ da chamada Escola Vicentina. . sobretudo. brar o Chiado. segundo de Macedo. não YCOMÉDIAm Luís de Camões . sinal que o coração/ não pode deixar de trazer/ de � cadela a condição!"20 . ção académica do poeta rival que. de Nosso Senhor]esus Cristo!9. como veremos adiante. 2005 . também de tradição Tem outro interesse dramatúrgico a obra de popular minhota) e mais tarde com José Agostinho Baltazar Dias. extrema- . dessa grande obra hagiográfica facilitará a compa­ com o padre Luís Vaz Guimarães (Auto da Paixão ração dos textos. ImprcflÀcol11 todas.

Levado. 1925 Lisboa © José Manuel Costa Alves 24 . a expressão mais devidamente adaptou. estamos perante a tradição europeia. pois. da fixação do texto factor cultural das ilhas. E que envolve o conceito de completa do ciclo carolíngio. tradicional do poeta madeirense. dos momentos mais vivos da Escola Vicen­ de sobrevivência e aculturação deste velhíssimo tina. o grande portuguesa original ou melhor. que pune a morte como vimos. Trata-se. a capacidade Chiado. por sua vez hoje vivo e bem presentei e por outro lado ainda. ("lín­ distintas. em duas obras facto. transladado para São Tomé. uma justiça régia (ou do Estado). para nós. Carloto.mente interessante no âmbito desta pesquisa. entre nós. tal como o tradicional Auto de Floripes Veremos adiante algumas dessas variantes. por outro lado foi. retomada na linha tradicional. com as adaptações que veremos. repita-se. é. refere a restante poesia de Baltazar Dias. condenado à morte e executado por ordem do seu terá sido levado pelos colonos portugueses para a próprio pai. onde está de Valdevinos às mãos de D. O mais não dramáticas. repita-se. este romance tradicional Refira-se agora que a Tragédia na sua expressão constitui. o imperador. em qualquer caso. foi levado para o Príncipe.25 António Ribeiro Chiado Costa Malta (tio) e José Alexandre Soares. romance de poder e amor. interroga-se Garrett no transcrevendo algumas das suas composições Romanceiro). São Tomé. gua d'oeil ou língua d'oc'. representa. hoje de expressão francesa. de António Figueiredo Gomes. com interessante. para costa da Guiné. uma vez que. que o povo são-tomense por um lado.

�. sandeu'.ou sobretudo no formidável Au.to da Natural Invenção. -- da Prática dos Compadres. teatro no teatro como o "Seleuco" camoniano que o cita . drts. cadela!/ Em algumas cousas teve veia esse escudeiro': Sobre- .Frontispício da edição quinhentista o poeta Chiado --.! 25 vaso sempre brada bradai cadela.. ] a mim cativar o judeu/ não querê Ambrósio) ou como Chiado:' E Jorge Ferreira de Vas­ que a mim reza! [ . escuras:' Logo na primeira fala temos uma Negra a Camões elogia Chiado no "Seleuco": "Uma falar latim: "Krialeysão. . para lá do infeliz '1. truculenta como o foi a vida deste ex-frade. Dize quere vendê? Ela logo sacode:' E segue uma e acabado. comeis. diz a velha.oualcy Afonso Álvares. que aliás alude ao projecto gorado de Car­ los V invadir e conquistar Argel ("foi um caso mui terrível! ir em boca de Invernada que lhe dis­ vende-me para Castela'. certamente vir/ bem se pode o negro ouvir/ inda que cante às personagem do auto respectivo. Cristeleisão/ Santo biceto trova fá-la tão bem como vós... sentado na corte de D.tudo isto singu­ lariza de facto esta figura da Lisboa do seu tempo. fornecedor do almoço dos outros sete e logo evoluiu. sobre uma trova: "Ê do escudeiro Chiado. conversam. "tange e canta um vilancete'. como eu (o escudeiro nomen tu!/ [ ..o27 repre­ o Paiva. que não evoluiu persou a esquadra em Novembro de 1541") logo deste clérigo de Henrique da Mota ("ó perra do no início traz um lamento característico: "Não manicongo") . da Lisboa popular de "desvaira­ das gentes" da sua obra. isto é. a Prática das Oito Figuras (cerca de f��t. . diz Ora bem: no Auto da Natu. . O dono duvida: "Sois negro "doso gália.�� 1543). Onde não faltavam africanos. um capão/ a mim traze turo junto/ o Orfeu? / Não creio que sois cantorj/ há-de mo jurar coei oco treze pombo/ [ .r.I/� arcoltourrnçolo Compadre/Slluir rrd/ &oço:"R. as Oito Figuras ou os Compa­ dres que "praticam'. . moreis servis/ como negros da Guiné'.1moudo: Q cornildrc:. E mais: uma das oito figuras é um "negrinho o personagem negro. João III entre 1545 e 1557. Diremos que Gil Vicente. cadela. A grande achega de António Ribeiro Chiado de António Ribeiro Chiado para o historial do teatro português residirá no carácter urbano. este de 1569. � CC·O! �111I1I'llto "f\(iI. na goliardesca Maria Parda. numa difícil transcrição da "fala da Guiné": se fará a representação.da . ] mim da-la treaze ntem/ o autor:' Mas assim é o negro. traça uma topografia da Lisboa dos escravos e das tabernas. ifll ��Qtíca 000 compa . . que já se exprime em prodozoj não queré dá/ A regateira mui mão!/ Mim português "do reino'.. mas que se defende com ala­ sente-se no direito de enfrentar o dono da casa onde cridade. Mas as Práticas26 de Chiado vão nesse aspecto mais longe e juntam uma população bem específica: assim. . tal como no Auto das Regateiras .ral Invençã. ] A mim fruso vosso mata. __ rO:f:llro�m. Assim. . concelos. Ê uma das "figuras" da peça. "assim também designado. com nomes de ruas e tudo. . e como tal apelidado de ladrão.-:-.3!r. diz o dono da casa: "Autor comece a longa negociação com a "regateira'.:tcrnum tlOltJ"�IJnQ maeb.e perdeu-se um Auto de Gonçalo Chambão .

s. Preta Quimbunda dançando Desenho aguarelado. . . Lisboa /. .. . ..i.� .d.. 26 . AHU. .. "... n...

ti?" A que o negro responde: "Sim/ posso eu não ir aqui! Pesara de São Formente!/ Também negro não A mudança do estatuto do negro sa gente/ e boso sombai de mim!" Tinhorão procede a um levantamento cuida­ Refira-se ainda uma "Cena Policiana" do vicentino doso das personagens negras na sequência daquilo Hemique Lopes3o. Fernando. ] meu irmão e tendo embora em conta a insistência na "língua da vem castelhano/ ou português valenciano?" E ele Guiné'. . de perro. Para além da iniquidade intrínseca da ambiente renascentista. e de um tamento menos violento e um relacionamento mais fidalgo de França. "Dize negro: teu senhor/ para que. tem como adjunto um português. Autores de da "Celestina" de Rojas. de nome Bastião. na chegou:' A Pasíbula espanta-se e faz uma pergunta linguagem da época. apesar de uma vez mais ser apelidado que se encontrarão. da Bela Menina. tudo a "Natural Invenção" merece encómios. Mestre des': . onde um curandeiro da Guiné. não obstante duas citações a que Teófilo chama Escola Vicentina. Gonçalo. Cena bucólica. insólita: "Preto. que toma Finalmente. cão. . Como se de clara traça portuguesa"31 . porque não Musa Entretenida de Vários Entremezes. cerca de bém é chamada de cadela pelo porteiro. criada mais. com uma notícia inesperada: dentro de uma linha de valorização dos servos no "Siora beijo seu pé/ com sua caracanhar morado. . que no lugar próprio serão social e mesmo familiar. que o teatro "de cordel" confere aos africanos. mez do Negro mais bem Mandado'. Analisemos agora directamente o Auto da Bela Haverá uma certa mudança de estatuto de negro Menina de Sebastião Pires na versão de Luís Fran­ ou preto nestas expressões dramatúrgicas? Pensa­ cisco Rebell029. e algumas peças anónimas que reconhece que a linguagem e o espírito da peça "são fazem a passagem para o Renascimento. com as escassas excepções bem: pois. na descrição dos amores situação da escravidão em si mesma. Estamos já mais longe da "perra do manicongo': Tomé. que canta e canta o Brasil e para o Oriente. O que não absolve em nada os Mim trazei cá um recado/ para dará bossa mercê. durará até pelo 27 quem te deu recado? Não tinha outro servidor/ para menos aos anos cinquenta do século xx.! problemas moral e social da escravatura: sem con­ Eu sa negro de vosso irmão/ que onte do Brasil tudo esquecer que muitos destes "pretos" seriam. mas aparentemente sem violência. E situa mandar sabedor/ que falara declarado/ se não a o negro numa posição social diferente. Em qualquer caso. Tinhorão ainda refere um "Entre­ conta da jovem Isabel e não hesita em a admoestar. . o eixo da dramaturgia da Expansão passa para altura "um mulato chamado Solis'. colecção ides/ por vós chama a senhora/ se falais com o ras­ publicada em sucessivas edições a partir de 1658. é-lhe Porém importa reparar numa certa mudança reconhecido o mérito: "Mulatos são sabedores/ de do estatuto do negro nesta dramaturgia./ nos pensamentos senhores/ que ressalta por exemplo o anónimo Auto de Vicente não desfeam as cores/ quando abonam as qualida­ Anes Joeira28. aparece um negro. referidas. encontra-se um tratamento mais digno des­ responde: "Portugal sa ele agora': . integrado na Transcrevemos de Tinhorão: "Maria. A certa integrado. alforriados. Será porque surge a certa verá. Tinhorão gentis habilidades. já aí. A Bela Menina tas personagens típicas de certa linha dramatúrgica também se espanta. já marcada por um mos que sim. vinda cá mano:/ [ o o . na qual. Recorde-se que no "Seleuco" camoniano. a moça tam­ No também anónimo Auto de D. também de forma diferente. muito próximos do teatro "de cordel" Uma vez mais se detecta certa mudança de estatuto e manifestações afins. .! contexto familiar.! enquanto voltais a casal haverá resmingação:' Estamos. assim mesmo identificada. também assim referido. a indiciar o recorte cómico. ressalta um tra­ da Bela Menina. sem muito altura entra um negro e dirige-se a Pasíbula. Lucciana Stegagno Picchio menor qualidade. 1541.

Tehiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Mortef São Tomé e Príncipe Colaboração da Maison des Cultures du Monde Fundação Calouste Gulbenkian. 1990 T CHIL OLI I Teatro de São Tomé e Príncipe FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN 28 . Lisboa.

realçando os anacro­ no ciclo da cana-de-açúcar que a conduzirá depois nismos da indumentária e o valor simbólico de cada ao Nordeste brasileiro. por exemplo em Pierenopolis. o espectáculo. Aliás. fiel ao texto quinhentista mas numa 29 irradiou para a vastíssima geografia cultural-popu. estado de Goiás. que con­ as aculturações e algumas adaptações. no que se refere à África da Tragédia de Baltazar Dias levada a São Tomé no de colonização e expressão portuguesas. personagem da peça Tchiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno in Enciclopédia Fundamental de São Tomé e Príncipe Carlos Espírito Santo Ed. representação moderna: uso da caneta de tinta per- . ser defensável a sua transposição mais ou nos anos sessenta e pormenoriza os aspectos céni­ menos contemporânea da colonização madeirense cos e de figurino e adereços. é a velha tinua a ser apresentado por grupos diversos em São Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Tomé.32 Mas esta tese é obviamente discutível. O Tchiloli. Fernando Reis descreve-o Daí. 2001 lar do Brasil que está muito viva. a que acima aludimos. perduram século XIX e aculturada sobretudo nos anos cin­ até hoje em São Tomé e Príncipe. sofreu sucessivas alterações que não traem. Cooperação. e não SÓ. pese embora as de Baltazar Dias. Lisboa. mudanças introduzidas. com quenta do século XX33. Pedro Vimos que as peças do ciclo carolíngio surgem Paulo Alves Pereira remete o texto para uma versão a certa altura em África e. na versão e na expressão antes consagram o texto original.Conde Ganalão. Carlos (Cm'loto) Magno. onde perdura e de onde personagem.

. trinta anos depois. utilização do telefone. a chola. também. Mantendo. ele próprio oriundo de São Tomé. Paulo Valverde. inv. encontramos expressões ESTA 2000 em tudo convergentes no Nordeste brasileiro. colonial ou independente. Ora. n O 216994 manente. uma curiosa circunstância. escrutínio rigoroso e experimentado de figurantes e Fundação Calouste Gulbenkian. designadamente no encurta­ mento de alguns espectáculos. que o Tchiloli continua a ser represen­ D. a profunda simbologia da autoridade do Estado. citando designadamente o danço-congo. n. importada de 2000 MNT. que chegam a durar o dia inteiro na versão tradicional. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ entretanto. 18 de Junho e paradramáticas de matriz africana. seja ele medieval. para MNT. entretanto. fidelidade global ao texto clássico com as alterações > o imperador Carlos Magno e aculturação introduzidas. AH de São Tomé Sabe-se. Carlota in programa da peça Tchiloli tado por grupos numerosos e rivais. E chama a atenção para Fotografia de cena. n. trajes do século XIX34. o Cena da peça Tehiloli ou a Tragédia do Marquês rocapé. s. Paulo Valverde refere sinais de evolução. faixa verde e encar­ nada do imperador. Numa observação muito detalhada e docu­ mentada. Lisboa. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe relaciona o Tchiloli com as expressões coreográfica Fundação Calouste Gulbenkian. como símbolo do poder. inv. inv.o 177344 espectadores faz a triagem entre aqueles que intro­ duzem a diferença no respeito da tradição e os que < desfiguram o Tchiloli e que acabam por se transfor­ Programa de Tehiloli ou a Tragédia do Marquês mar quase numa performance diferente':35 de Mônlua e do Imperador Carlos Magno Tomaz Ribas.o 215714 com o tráfego de escravos da costa ocidental. e do Imperador Carlos Magno.d.. o Ciclo de Teatro Popular Tradicional. mas confirma a . refere que "apesar de algumas inova­ São Tomé e Príncipe ções serem admitidas nas representações actuais. Alguns deles ou a Tragédia do Marquês de Mônlua aliás foram exibidos em Lisboa. "este resultante de uma expressão musical de Mônlua e do Imperador Carlos Magno europeia que serve de suporte à coreografia e ao Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe ritmo africano"36. 1973 MNT.

razão pela qual o auto surge designado como Auto de São Lourenço. numa pes­ quisa efectuada entre 1996 e 1998. Mas é o velho Auto de Floripes. repita-se. pelas próprias limitações geográfica e populacional. de tradição caro­ Ungia.37 E veremos adiante como o Tchiloli influenciou alguma dramaturgia moderna de São Tomé e de Angola. compara o texto . da manutenção dos textos do ciclo carolíngio. que concentram numa única versão a produção do espectáculo. Em primeiro lugar. designadamente em autores como Fer­ nando de Macedo ou José Mena Abrantes. há relativamente poucos anos ainda represen­ tado no Minho. Augusto Baptista. 15 de Agosto. Numa tradição seculal� esse espectá­ culo realiza-se anualmente no dia de São Lourenço. É diferente a transposição do Auto de Floripes para a ilha do Príncipe. designadamente na aldeia de Neves e em Trás-os-Montes.além.

1672 para não falar. E o mais mais aqui pelos processos histórico e cultural da curioso é que Anchieta concilia. diga-se assim . diz-nos Augusto Bap­ Cabe ao padre Anchieta a glória de ter intro­ tista pelo menos no Brasil. influíram e agenciaram Carlos Espírito Santo Ed. acima citado: Os autos do padre Manuel Anchieta (1534-1597) constituem. da cénico e na prática espectacular do Príncipe certo autoria do padre Manuel da Nóbrega (1515-1570) e "exagero dispersivo" que a tradição local e mesmo a ainda um Auto de Santiago representado em 1564 e exuberância tropical poderá explicar: em qualquer outros textos dispersos.de saber adaptar os rituais cénico e dramatúrgico da expressão neolatina ao meio social em que se inseriam. os Franciscanos. autor do poema "Prosopopeia" (1601) e de profunda do teatro medieval. talvez com menos de São Tomé e Príncipe constância. a partir de 1567. como pertinentemente duas comédias Lázaro Pobre e Rico Avarento. 2001 a divulgação do teatro ao longo da grande aven­ tura histórica e geográfica dos Descobrimentos e. da Companhia de Jesus De notar que Gil Vicente. Como o assunto se inscreve obviamente no contexto desta pesquisa mas sai do seu âmbito imediato acompa­ nhamos o teatro luso-brasileiro. a camente dramatúrgico. Interessa-nos dramaturgia coerente e consistente. no plano especifi­ transposição as versões brasileiras. de autores desconhecidos caso. O teatro brasileiro nasce com os autos do padre José de Anchieta. a ingenuidade já retardada longa referência que Erico Veríssimo. mais discreto e mais subtil. Sortibão. Cena da peça Auto de Floripes mais ainda.para lá do mérito religioso. e ainda procede à acareação com os textos festações de texto e de espectáculos anteriores: um tradicionais portugueses./ porque o mundo 32 . insista-se. que assinala também Andrée Crabée Rocha. a partir da raiz xeira. estamos perante a essência do texto que a ou mais ou menos obscuros. no Belize e no Méxic039. Cooperação. a partir de textos originais. 1973 empreendido pelos portugueses.' 141211 óbvios intuitos missionários. o grande momento documentado e estruturado da iniciação dramática actual com a versão recolhida em 1969 por Fernando no Brasil. Floripes.! o que é hoje a África francófona./ vireis a ser mais profundo. As histórias da literatura e do tea­ tro do Brasil são unânimes em o reconhecer. in Vida do venerável Padre Joseph de Anchieta Sul. do relacionamento internacional global lnprograma Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian. uma Salvador. na Farsa dos Almo­ Officina de Joam da Costa. Reconhece no dispositivo Diálogo sobre a Convenção dos Gentios de 1557. inv. Almirante Balaão e Burlante . Há igualmente vestígios. Sublinhe-se. Fizeram-no com MNT. na passagem feita através creves (1526) faz uma referência ao Brasil: "Quando BN dos primeiros contactos de origem portuguesa para fordes meu namorado. em O Tempo e da Escola vicentina com a solene tradição do teatro Padre José de Anchieta o Ven to. entre eles Bento Tei­ colonização portuguesa para lá levou. nas Honduras.38 se perderam. faz a uma representação no Rio Grande do jesuíta. n. situando a descrição no final do século XIX40. Mas nem sequer serão as primeiras mani­ Reis. mas com mérito cultural . em EI duzido no Brasil. Lisboa. Auto de Floripes in Enciclopédia Fundamental Sabe-se que os Jesuítas e.

outro mundo/ que está além do Brasil"41. 4) Na Festa de Natal. Uma tentativa de fixação cronológica que efectuámos conduziu à seguinte relação: 1) Auto da Pregação Universal. em castelhano. que certos autores identificam com o "Recebimento que fizeram os Índios de Guarparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte': Em qualquer caso. numa funcionalidade missionária que sobreleva a dimensão dramatúr­ gica e o valor documental: escritos em português. 5) Quando no Espírito Santo. certamente de grande eficácia e qualidade artísticas.namorado/ é lá. Nem de outra forma se processaria esta aculturação da imponente tradição do teatro neolatino da Companhia de Jesus. 6) Auto dos Mistérios de Nossa Senhora. transferida para o Brasil no século À'Vl . o que daria primazia nesta tábua dramatúrgica. escrita cerca de 1583. numa perspectiva religiosa e moral. 3) Na Festa de São Lourenço. . os autos de Anchieta. em tupi. 10) Diversas poesias dramatizáveis. 1597. em português e caste­ lhano. Entretanto.iractos escritos em português e em tupi. cerca de 1579. em p ortuguês. 7) Visitação de Santa Isabel. trilingue. 9) Na Aldeia de Guaparim. 2) Auto do Dia daAssunção. trilingue. escrita em 1595. A tabela dos autos do padre Anchieta não é definitiva. versão simplifi­ cada da anterior. se Recebeu Uma Relíquia das Onze Mil VÍlgens. 8) Auto da Vila de Vitória. senhor. escrito em tupi. fixáveis entre 1567 e 1570. do ponto de vista dramatúrgico. têm o valor acres­ centado da sua profunda penetração no meio social e cultural de índios e colonos. em castelhano e tupi-guarani. restam ell. constituem uma notabilíssima dramatização de usos e costumes. para lá da originalidade e força criacional. escrito em tupi.

publicado em 1601 juntamente cam-se os espanhóis da província do Prata. desinterias" (Auto do Dia da Assunção). mas merecendo aqui materiais: a Virgem Maria "afasta as enfermidades. tal como os autos em tupi do padre Anchieta.' 232099 os mistérios da Natividade. Mário Martins estudou essa emigração drama­ em relação aos indianos: o nobre Rau apoia e apoia­ túrgica. prosseguida por António Ferreira nas comédias e por Jorge Ferreira de Vasconcelos. franceses na tentativa de expansão da "França Aus­ O pranto final de Nossa Senhora constitui um fecho tral': Os p ecados surgem misturados com maus hábi­ impressionante ria sua força verbal e sentimental tos sociais: "bebida cauim" curandeirismo. com grande cópia das personagens que falam. Se a forma é muito próxima de um teor vicentino Guimarães. trazida para Portugal por Sá de Miranda. Teófilo Programa-postal da peça Filodemo cita o "viajante Pyrard" que presenciou alguns: "No Teatro da Cornucópia. Chegou demónios. o conteúdo tem algo das histórias medie­ e mirandês. E para o Oriente em em que a posição dos portugueses não é dicotómica geral.1963). épico transformado em sucessivas cenas teatrais e por aí fora. quanto mais não seja na dialéctica maniqueísta ladado para o Brasil e para o cinema (Acto da dos "bons" e dos "maus': Os "maus" tanto podem ser Primavera de Manoel de Oliveira .além da dimensão religiosa. Mesmo na maior parte das casas e encruzilhadas há semelhantes diverti­ mentos':44 É o teatro jesuíta no seu máximo esplendor. Camões estreou o Filodemo em Goa. e por baixo deles homens que fazem mexer e falar estas figuras como querem. :'42 de grande efeito espectacular. poligamia . como cá os bonifrates. agi­ gantado pelos fumos da Índia no local de origem. onde se produziam -se no rei de Portugal contra o rei indiano Bandur. por oca­ sião da investidura do governador Francisco Bar­ reto. originário do teatro popular minhoto retardado. se representam MNT. cerca de 1555. Importa referir entretanto pelo menos dois textos de temática ou circunstância ligada a Goa. 2004 dia de Natal. criti­ de Simão Machado. como colonos pecadores. espectáculos nas condições que se imagina43. n. Trata-se de um de um "Embaixador fanfarrão" (Na Vila de Vitória). é a Comédia do Cerco de Dio febres. (Na Festa de São Lourenço). para efeitos de missio­ éis. . como índios infi­ a ser representado em tamul. e daí trans­ vais. Estes têm nomes tamoios. e todos vêem estes brincos. Será a obra mais alinhada com a "nova forma" de fazer comédia. e há grandes rochedos. o centro fulcral da expressão dramá­ acções directas de guerra com uma intriga política tica passa de África para a Índia. onde se desdobram Entretanto. as virtudes são também Completamente diverso. onde o vamos encontrar. em todas as Igrejas. na pessoa com a Comédia da Pastora Alfeia. desde logo o Auto da Paixão do padre Luís Vaz 34 . sendo este o único que agora nos retém a atenção. inv./ uma nota referencial. logo iniciada nas naus. tribo que se aliava aos nação.

todos bai­ seria para ele "esta vida soldadesca/ [que] é vida lavam na mesma dança:'47 mui velhaquesca': . e apenas uma no Congo. no um e outro. . nem sempre com a mesma origem Vasconcelos. 1997 © Luísa Ferreira A intriga política mistura-se com uma complexa o demo das vossas. Claude-Henry Freches enumera centenas de tra­ assim mesmo! Maria Odete Dias Alves caracteriza gédias neolatinas representadas em Portugal. cada uma com étnica. Barcelona.. em Espanha. ao nível dos grandes . tentar se quereis ser contente"46 . e salienta certo perfil pacifista. respectiva­ Mas voltando então ao objecto desta pesquisa: mente a criada Gracia e o servo Eitor de Los Lindos. na iden­ que não trabalha': Refere Silvina Pereira: "Parasitas. a "linguagem repassada de provérbios" de Gracia. . Isso seria ainda Claude-Henri Freches analisa o texto nestes não selamos já cavalgamos. desde logo chamando a atenção para Brasil. E José Luís Hopffer Cordeiro Almada cita 35 colhem as uvas quando são maduras. em duas comédias de Jorge Ferreira de que entre nós. nagens. cortesãs. se ganham trutas a bragas enxutas. 45 Tudo isto indicia uma subtil mudança do esta­ Neste conjunto seiscentista. aproxi­ cionamento directo com África. mancebas e mancebos. . ] Não intriga sentimental. só surge um rela­ tuto e da actuação destes negros e mulatos. tidade religiosa de frei Bartolomeu Machado: não rufões. . em França e mesmo no Japão. irá explodir no teatro de "cordel': o seu episódico personagem mulato. ] . Ulissipo e Aulegrafia. a nível de perso­ mando-os da função do criado ladino setecentista. talvez coerente com a vida do autor. Mas assinala a prática que lhe dá vivacidade e certo nível sociocultural: de utilização das línguas locais. Andaria assim a produção dramatúrgica. e o carro ante dos bois. de onde nunca terá passado. Não sejais mao de con­ diversos planos. falecido em E o mulato Eitor d e Los Lindos é um "rufião [ . como ocorria no "Ante cocho que el agua serua: ao seu tempo se Brasil4B.Comédia U1issipo Jorge Ferreira de Vasconcelos Encenação: Silvina Pereira Produção: Teatro Maizum Teatro da Trindade. [ ..

além num movimento que aliás dura pelo menos até ao de pouco estudada. no que respeita romantismo e o ultrapassa. da Escola de Gramática a temas nacionais. pela capacidade alucinante de produção e. na linha que se ia definindo desde Será interessante averiguar essa transladação os clássicos. Lisboa © José Meco 36 .espectáculos religiosos. foram os portugueses que de se recuperar o acervo de perto de mil títulos. E desde logo. na primeira metade do Retórico pormenor - Painel azulejos. De tal forma que o teatro "de cor­ que respeita ao século XVIII.pois. no que para África. representados e publicados em edições baratas que. pela necessidade cófonos . Católico (1570) da Cidade Velha de São Tiago. espectáculos. se tal se pode missionária para África. no com a tradição do teatro clássico nos países fran­ que toca à analise crítica moderna. ao Aí são numerosas as personagens negras. 1660 Palacio Fronteira. mas sobretudo cruzá-la dizer. do ponto de vista do reino e dos seus habitantes. mas agora prejudicada. numa ambientação nacional. chamada do Teatro de Cordel. concentrou-se. "no Arsenal. porque a verdadeira del" constitui uma das grandes linhas de conver­ euforia que foi e é a produção dramatúrgica e de gência das literaturas dramáticas dos dois países. geral­ tempo capital de Cabo Verde. diz-nos Nicolau Tolentino. ao vago caminhante/ se vendem a cavalo num barbante': Não nos demoramos na análise do tema ao A conjuntura histórica aponta mais. quase dois mil que supostamente foram escritos. repita-se. fundada em 1551. c. isto Latina e Moral. neste longo dos séculos XVIII e XIX.49 mente cómicas. por razões diferen­ momento. dos certamente o levaram para lá. e do Seminário é. para o Brasil e mesmo para a Índia do tes mas no fundo convergentes.

E a simples leitura de algumas peças ou mesmo de alguns títulos dá-nos pistas deste terná­ rio. de Macedos1. 2004 sia e no teatro. rente da extinção da Nova Arcádia e do "escândalo" Os Casadinhos da Moda. num estudo editado na Bahia em 2004. E mais. mas sobretudo traça uma panorâmica do modelo. A esse respeito. Os Dois Amantes de África. clérigo secular. Desmaios e Desgostos de Um Peralta da Moda) ou a "Isabel. na poe­ José Ramos Tinhorao Editorial Caminho.Domingos Caldos Barbosa.nos no p ersonagem 37 Selimuntino. A Saloia Enamorada (1793) tramos algo mais consistente. revelam uma poeta Domingos Caldas Barbosa (1738/401-1800) capacidade dramática ainda hoje muito interessante fundador da Nova Arcádia com o nome de Lereno e eficaz. Entremez das Línguas. E no entanto. inclusive. Isto é Bom Demais! Ora. para a situação de menor relevo decor­ o Modo de Nunca Pagar. Cazumba um exemplo muito feliz do p ersonagem . e dramaturgia sólida. do Modinha e do Lundu (1740-1800) a literatura brasileira continua a alimentar. Escapin (Lé. dá. A "Cigana'. esta já em 1826 (Entremez Novo da Castanheira). Os Mas em cima da passagem do século encon­ Viajantes Ditosos (1782). das polémicas com Bocage ou com José Agostinho Entremez da Floreira. do últimas com música de Leal Moreira. dizemos Visitação de Santa Isabel. Scapin) em Argel. temos em cena "um preto" e "um pre­ tinho" que entre si dialogam com alacridade. Armindo Jorge de Carvalho Biãoso. na linha tradicional. desde o século XVIII até rigorosamente a uma peça de 2002. filho de português ou O Contentamento dos Pretos por Terem a sua e de africana. estudante no Colégio dos Jesuítas Alfa/Tia. Entremez do Negro Mis bem Mandado. a "Luiza. actualíssima no ternário. refere precisamente a convergência temática. temos como personagens recorrentes "um preto" ( Um Engano Astuto). tal como esclarece José Ramos o que na prática vem muitas vezes a dar no mesmo Tinhorão. Raras Astúcias do Amor. tal como era tratado na época: A Preta de Talentos de António Xavier Ferreira de Azevedo. Lisboa. E mais: na tradição popular nordestina. do que propriamente a uma Preto. O Poela do Violo. século XIX. a vários títulos. preta'. E no mesmo estudo encontramos um conjunto de entremezes portugueses do século XVIII onde. Encantos de do Rio e mais tarde em Coimbra. O Preto. O Escravo em Gri­ surge mais ligado a modinhas e lunduns. "uma preta" (Os Casadinhos da Moda). as duas Trata-se da figura singular. O Hércules e cantados na corte. uma linha coerente e constante de cordel. numerosos textos de cordel ou de teatro popular. na melhor tradição setecentista. tocados lhões de Ouro de Nicolau Luís. e sobretudo A Vingança da Cigana (1794). preta" (As Convulsões. Nascido no Rio de Janeiro. "a perspectiva de escrever para o teatro e que apresentam personagens africanos: Auto da popular aparecia como uma solução ideal'. as suas escassas peças. Um Engano Astuto ou nós agora.

na sequência. É que surgem então personagens negros. e com Correia Garção e os árcades. Depois tam­ bém escasseia mas não desaparece. "assim que trouxeram a sobremesa. inv. Esta opção. "Cal­ das. se desentra­ nhou numa torrente de improvisados versos [. ou se assumem em reconstituições históricas e comemorativas voltadas para Marrocos [veja-se Herculano com Os Infantes de Ceuta (1844) ou O Ponteiro de África ou Três Noites Aziagas (1839)]. recuperação da ópera de Caldas-Leal Moreira. Porque 38 . como recordamos do teatro "de cordel'.�. o qual.. O tratamento dado ao poeta é de simpática ironia. o Poeta" é o personagem central das Peraltas e Sécias (1899) de Marcelino Mesquita.. ] em rimas extraordinariamente harmoniosas"53. n O 103034 negro cómico.. para o Brasil. merece entretanto um comentá­ rio. " ..1. ao longo do século. assume maior presença com António José da Silva.. no final do século XIX. escreve indignado Fialho de Almeida!54 Mas estamos. mas no contexto brasileiro. Maria II. de repente. o Poeta'. num registo de ambiente "brasileiro': Pior é o perfil conferido ao padre Teodoro da Almeida. a quem se deve a . E sem pretender que a África tenha desapa­ recido por completo do teatro. noutro plano.. E é no Brasil Programa da peça Peraltas e Sécias Teatro Nacional D. há que repetir a constatação de uma menor atenção aos seus pro­ blemas e personagens.I .52 Em 29 de Outubro de 1787. transformado por Marcelino num "trôpego imbecil fanatizado por crendices'. por razões óbvias. citado desde Gil Vicente. U I' . . 1902 MNT. como escreveu Manuel Ivo Cruz. . em especial os brasileiros.I. O Brasil. .. notável pelo "conteúdo humano'. para a Índia ou.. o romantismo e o ultra-romantismo ou se concen­ Sir William Beckford Gravura do século XVIII tram na vida política e económica. . William B eckford jantou em Lisboa com "Caldas.

a partir de 1 974. uma questão ao degredo. de César de Lacerda é o africanas no teatro popular. dramas ultra-românticos de experiência o tenente menina'� . de certa camada da época: Manuel Fortunato. E resta dizer que não faltam personagens Mas precisamente.° actos). O mais curioso é que o tema do degredo man­ tém-se mesmo para lá dos seus limites temporais. mas onde abundam também os Trata-se porém de uma excepção ou quase. Daqui erradicou em Moçambique (Prólogo). "rico José Agostinho de Macedo escreve um drama sobre comerciante com casa comercial em Goa'. 39 por vergonha. que durante décadas geu na passagem de século XIX até aos anos trinta a atravessou o Atlântico à frente de companhias tea­ cinquenta do século xx. 1962 Fotografia MNT. a situação altera-se. conhe­ O Preto Sensível! Na mesma linha temos Gomes de cido por o capitão mata-negros" (!) ou Bento Rosado Amorim. n. Maria II. a que chamou O Vício sem Máscara ou Saraiva. para os EUA com a emigra­ a bordo (3. com um dos mais prolixos e importantes dramaturgos. passado de finais de século XVIII também. Carlos esciavagismo. em Luanda (1. Manuel não pode casar com Clara porque o pai "está em África'. sublinhando a transversalidade e a aceita­ ção generalizada da presença colonizadora. "grande prático da costa de África. inv. As personagens são típicas ção. põe em cena.° e 4. O mesmo se dirá de algum O ternário de África surgirá mais tarde e tem o apo­ teatro de César de Lacerda. A sua peça de estreia.0 acto) e para África. pelo menos até meados desse período. como é evidente.. Mas não nos ocupamos agora desse ternário.' 78868 Vimos como no século XIX o tema de África se circunscreve preponderantemente aos grandes ciclos históricos ou. Ramada Curto. condenado por homicídio. Cena de Peraltas e Sécias Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional D. personagens africanos. com Ódio deRaça ( 1854) e O Cedro Verme­ "primeiro tenente da armada real e conhecido por lho (1856). mas sobretudo. trais encabeçadas pela sua mulher Catarina Falco. com as limitações conhecidas. Assim por exemplo. para o Brasil. brasileira vivida. O tema renova-se e ganha consistência política e dramatúrgica ao longo do século xx. E praticamente o passado século teatral português inicia-se a partir de uma situação hoje invero­ símil que lhe toca. mais esporadicamente. Manuel mata-se. que se afirma a partir drama marítimo Homens do Mar ( 1862). como veremos adiante. da colonização e do degredo. como exactamente 1 60 anos antes . O Estigma (1903)55. que vão aparecendo os negros. A partir dos anos sessenta e setenta. como também já houve ocasião de referir. precisamente.

morrera Maria de Frei Luís de Sousa: "de vergonha': . . Mântua, que deixou ainda colaboração num
Voltaremos a Ramada noutra perspectiva. drama histórico em verso O Cerco de Tânger
Mas muito mais detalhado na referência ao (1923)57 alinha geralmente neste tom miserabilista
ambiente africano e às suas sequelas é Ordinário (O Álcool)5o. Mas a visão negativa da África e das
Marche (19l3) de Bento Mântua56, peça conside­ campanhas de ocupação é, nesta época, excepcio­
rada antimilitarista na época e como tal proibida. nal, como o é, vimos, a referência ao negro. Pre­
Trata das sequelas dramáticas da mobilização de cisamente, no contraste a partir do mesmo tema,
Paulo Guerra para as campanhas de Mouzinho. cita-se A Promessa (1910) de Vasco de Mendonça
Num clima de dramalhão, a vida familiar e pessoal Alves: aí, o protagonista é Jorge, herói das campa­
do ex-soldado, entretanto regressada a Lisboa, é um nhas de África, que pelos seus méritos casará com
somatório de desastres: o próprio é doente e alcoó­ Madalena, não obstante a "promessa" feita à hora
lico, a irmã prostituta, a mãe tuberculosa. Tudo sito, da morte do pai de casar com Rui. . . 59
num clima de populismo urbano miserabilista.
A Viagem Maravilhoso
No início, a guerra de África até era vista como Postal do Museu Nacional do Teatro
factor de promoção económica e social: "O tio Exposição Colonial, Porto, 1934
Carlos [ . . . ] arranjou para servir na África, de onde
voltou Alferes... trouxe de lá alguma coisa de seu, e
hoje é capitão." Ora, já vimos que nada disto acon­
teceu com Paulo, que nem sequer reconhece a irmã,
quando a encontra "numa taberna imunda e mal
frequentada da Mouraria':
E no entanto, a peça ganha fôlego com a des­
crição pormenorizada da prisão do Gungunhana,
numa perspectiva bélica retintamente colonial:
"Os inimigos - os vátuas - todos de plumas brancas
eram em número de 12 a 14 mil'; o que provoca um
comentário - "ena pá! Tanto carvão': As forças de
Mouzinho, "uns 600 praças': A descrição do céle­
bre quadrado é pormenorizada, num registo de
coragem: "Uma bala bate na garupa da montada
do nosso Coronel, que nem se buliu. Estava firme
como uma estátua. O nosso Alferes Silva cai, ferido
de morte. A gente vai acudir-lhe, mas ele levanta­
-se, volta· connosco à fileira e aí fica até morrer':
O coronel é "bravo'; o capitão "valente'; a artilharia
"abria ruas de pretos': E assim, "com os olhos fitos na
bandeira que simboliza a nossa pátria e lembrava a
nossa família [ . ] puzémos em vergonhosa deban­
..

dada essa raça maldita do Gungunhana'; diz o Paulo.
O pior é a ruína total dele próprio e da família! É de
notar que o negro aparece, neste contexto, como
inimigo, o que em rigor não é habitual. 40

Carlos Selvagem (1890-1937) Matriz africana nos autores metropolitanos
Arquivo da Família Ferro
Vista de Lisboa, o tom dominante desta dra­
maturgia africana da primeira metade do século XX
aponta com efeito para uma expressão mitificada da
África como área redentora ou afirmativa ao nível
do espaço, da mentalidade, das virtudes de carácter,
coragem e dignidade. Com excepções, sem dúvida,
e sobretudo numa perspectiva paternalista das
relações com os negros (os "pretos" na linguagem
quase sempre utilizada), geralmente vistos como
ingénuos e dedicados servidores, exprimindo-se
num português próximo da língua da Guiné dos
clássicos . . . E isto, tenha-se bem presente, numa
posição politicamente "correcta" ou "incorrecta"
mas absolutamente transversal a ideologias de
esquerda ou de direita: e assim será até aos anos
sessenta, pelo menos.
Também se deve distinguir, mas não tanto
como poderia imaginar-se, os autores que conhe­
ceram África, alguns com grande vivência, e os que
nunca lá foram. Africanistas, no sentido da época,
foram Carlos Selvagem e Henrique Gaivão. Ambos de Isabel Moniz e na filha Leonor, e o mundo "capi­
reflectem no teatro as experiências respectivas. talista'; "affairista" e cosmopolita muito próprio da
Alfredo COl-tez, numa peça episódica, assinala um época, em que se envolve o filho Rodrigo. A reden­
ano de magistratura em Luanda. A certa altura, ção estaria na ida de Rodrigo para a Zambézia, onde
como veremos, vão surgir autores nascidos nas a família possui terras que "valem uma fortuna . . .

colónias, ou lá fixados e lá estreados. É uma vergonha o abandono a que as votais, nas
Carlos Selvagem já deixara um registo incon­ mãos dos ingleses e alemães, aventureiros, que aca­
formista na sua primeira peça. Cavalgada nas barão porvos a empalmar'; diz o africanista Torralva.
Nuvens (1915)60, relato duplo da batalha de Alcá­ Rodrigo começa por considerar essa opção como o
cer Quibir, falsamente apresentada como vitória "degredo": curiosamente, alude-se a degredo, já
para satisfação do velho Gonçalo Vaz. "Os Mouros, fora do contexto, noutra peça, mais tardia, de Carlos
refeitos dos seus danos e espanto, correram então Selvagem, A Espada de Fogo ( 1949).
sobre nós, com mais fúria, uivando seus ladridos de Mas O Ninho das Águias as boas intenções
infiéis . . ." mas a verdade transforma-se em mentira desaparecem: seduzido pela viscondessa de San
triunfalista. Gil, para quem "um bacharel em Direito" não tem
Entretanto, em O Ninho dasÁguias, passado em cabimento em África (ou "nas Áfricas"), Rodrigo
1 920 e dedicado ao capitão Humberto de Athayde desiste. E o quadro que a viscondessa lhe traça
"ingloriamente sacrificado em Ãfrica, ao serviço da é elucidativo: "O que esperas tu fazer em África,
Pátria, com uma bala no coração'; Carlos Selvagem doido? Tu não nasceste para trabalhar, não sabes!
dá-nos o contraponto entre um mundo da velha [ ... ) Voltarias ao fim de quatro anos, cinco anos, com
41 aristocracia rural, simbolizado na casa solarenga umas libras no bolso, mas arrasado, irremediavel-

mente inutilizado [ ... ) um velho achacado por todos África por amor aos novos horizontes, por amor
os males de África, sem saúde e sem beleza!" àquela terra imensa, mais violento e truculento
Esta visão negativa serve de prova a contrário o primeiro, a ponto de não hesitar no crime, aliás
das virtudes da opção africana: afinal o Rodrigo não consumado, mais acomodatício e dócil o
opta por uma decadência fácil, sem cuidar de res­ segundo - a sua mentalidade é aberta 'fixação'
ponsabilidades familiares. A biografia africana de - como escreve António Manuel Couto Viana da
Carlos Selvagem (Carlos Afonso dos Santos), oficial 'africanidade; na tradição que vem do século XIX e
do exército com longos anos de administração colo­ marcou também uma sólida geração de republica­
nial, é bem clara nas suas próprias opções. nos, monárquicos, salazaristas e oposicionistas6 1 .
Ora, em Auspicioso Enlace (1923), comédia Eles estão em África para ficar, mesmo quando
escrita em parceria com André Brun, a figura do arruínam a vida, a saúde e a fazenda. Alinham
bispo missionário D. Joaquim, também, sustenta o com eles o comandante e a sua filha Helena.
contraste: "Quem me mandaria a mim voltar para O contraponto está num Dr. Meireles, que só vai a
terra de brancos? Em vinte e cinco anos de Costa Angola para enriquecer, de certo modo na Mary,
de África nunca me vi numa entalação como esta. filha de Telmo, e sobretudo na formidável Lotie,
[ ...) Quem me dera ainda no sertão entre os pretos. ex-dançarina de cabaret tornada 'respeitável' pelo
Estes brancos são muito complicados:' É a posição casamento com o colono - mas que odeia África.
dominante na dramaturgia "colonial" da época: Será um tipo humano que Carlos Selvagem, com
ingenuidade dos negros, uma espécie de bons sel­ uma longa carreira militar e de administrador em
vagens simpáticos e fiéis. Angola e Moçambique, com extensa bibliografia
Mas a grande peça de ambiente africano de africana, conheceu certamente bem':62
Carlos Selvagem é Telmo o Aventureiro ( 1937), sín­ Ao nível de textos, este contraste assume-se
tese do tema, consubstanciado em diversas famílias com clareza. O Meireles considera África, as coló­
portuguesas. Aí, de facto, o contraste estabelece-se nias, "uma simples ilusão. [ . . . ) vem-se a África para
entre as duas comunidades em presença, mas tam­ enriquecer. As nações querem as colónias para se
bém entre as duas mentalidades coloniais. enriquecerem [ ... ) Nasceu essa ilusão no tempo da
Os nativos são meros comparsas, que se expri­ escravatura. [ ... ) Hoje, porém, que pouco a pouco
mem no português aproximativo habitual: "Viu se foi fazendo do negro um trabalhador como os
(pegadas) sim senhor. Esteve a andar muito longe outros - com direitos, salários e garantias - de que
mas há-de falar melhor quando mostrar daquele nos serve vir para as colónias?"
grande pedra'; diz o criado negro a propósito de Mas o Telmo tem o sentido de missão civiliza­
um leão. E o diálogo com o Telmo é característico: cional e a perspectiva de espaço e de futuro, domi­
"Chingulo - patrão ainda quer ir ao elefante? Telmo nantes na época: "Continuamos todos a fazer em
(bonacheirão) - Patrão só quer que você não seja África o que sempre temos feito, levando como até
burro! [ . . . ) Chingulo (familiar, risonho, abrindo aqui a nossa cruz': . . E deixa uma descrição típica da
a cesta do farnel) - Elefante não há-de vir hoje, mentalidade colonizadora dos anos trinta:
senhor. . . , Leão anda muito perto. Já ontem matou "Telmo: Sim! Sou um aventureiro. Chamam-me
dois bois no curral do Sr. Francisco." aventureiro, porque de tudo lancei mão, para furar,
Mas o grande conflito situa-se ao nível da trepar na vida. Já estive duas vezes à beira da fortuna
pequena comunidade branca e da sua concepção e voltei a ser pobre. Mas nunca desisti, nem desisto
de África. Cita-se o que noutro lado se escreveu: ainda. Quando vim para África, mais novo do que
"Assim, Telmo e o seu afilhado Manuel estão em este (indicando o Manuel) isto era bem pior do que 42

Colonos . Mas aparece também uma "figura hedionda do branco da mulola'. e fosse preciso recomeçar. prospector de minas. E também as transcrever. Cheguei a viver da caça que vendia para comer. desde sargento a industrial. leiro. ] pôs olho escondido no capim e vê vinte anos.. como nas repartições públicas espécie de pai adoptivo que a própria. tanto no a infeliz Estela. retrata de forma Adaptação dramatúrgica: Henrique Gaivão e Silva Tavares HENRIQUE GALVÃO E SILVA TAVARES menos harmónica e ainda mais maniqueísta. criador de gados. Fui depois hote­ No fim. Rodrigo. língua da queda da borracha. Há muitos que por cá nasceram e que são tão portugueses como nós:' E também dos bons é o velho colono Álvaro Pais. e até os muito maus. percebe-se. ] Tem feitiço para ver relógio cabeça . recomeçaria:' mesmo tudo o que nós guarda . mais uma vez me arruinou.Adélia é disso exemplo: "Há anos que andamos os dois a labutar em África sem passarmos da cepa o V E L O D ' O IR O torta:' Daí.como o comandante defesa da honra. . e falam muito. contrabandista de gado. Mas Guiné: "Foi jacaré que levou Rosa [ . que o verdadeiro "velo de oiro" é a terra. Era-nos preciso abrir caminho à faca. que foi violada por um tal Alves. mas sobretudo O Velo d' Oiro tual. Tudo perdi. .4. O professor Pompílio é dos bons e convictos africanistas: "Não há como África. Fui tudo .esboço não varia e não vai além do paternalismo habi­ 43 em um acto (1932)63. como há vinte anos a O s africanos falam. Volta para África no primeiro Fui tudo. Mas." E exprimem-se Repita-se: Carlos Selvagem conhecia bem esta nos seus próprios idiomas. A separação é mais pro­ Fundo Bibliográfico MNT funda e aparentemente mais realista. 1936 própria sociedade colonial. agricul­ desembarca em Lisboa e. pela mão do jovem João. que a noiva se casou. a Livraria Portugal. Vasco lança-se numa aventura inverosí­ mil em busca de uma mina de ouro que o "preto" FANTASIA COLONIAL EM 3 ACTOS E 14 QUADROS. . . que não vale a pena sociedade e estas mentalidades.o Velo d'Oiro (1936)64 adaptação (com Silva Tavares) de uma Henrique Gaivão novela homónima de sua autoria. a posição dos colonos também conheceu bem Henrique Gaivão. Lisboa. Essa baixa de cotações do óleo. ADAPTADO DO ROMAN­ Mandabe diz conhecer. . que logo se deslumbra: HENRIQUE GALVÃO "Pergunto a mim mesmo se isto é a tal África que mete medo a tanta gente!" A sociedade colonial comporta os bons e os maus. . que ajuda João LIVRARIA POPULAR DE FRANCISCO FRANCO 1936 . ex-sargento assassino e desertor que por pouco não mata Vasco e Rodrigo. ORIGINAL DE gado da Metrópole. se voltasse agora aos escondido [ . . . .. . navio e casa com Estela. . . mato contra os pretos. 18 I LI S B O A a salvar a fazenda. Rodrigo! Aqui vive-se! E depois é Portugal!" O mesmo diz o jovem João.. . . 1. logo no cais. filho de Vasco: "Também aqui é Portugal. ] catunha ainda não desisti de voltar à flutuação. meu caro doutor. . sabe -. Auxilia-o um recém-che­ CE DO MESMO NOME. RUA BARROS QUEIROZ. de levantar a roubou meu relógio [ . Rodrigo comerciante estabelecido. pai. acaba por matar.. descobre tor. E. E ainda hoje é. O casal Vasco .. em legítima contra os brancos. Hoje sinto-me outra vez pobre.

cm lKlixo. no Teatro Nacional de major a solução de todos os defeitos da sociedade. perfeitamente ímpar. "Moema traz sobretudo a curiosidade do seu Os tipos humanos d e africanistas. assim mesmo! que até é equívoca: "Não poucas vezes tivemos a Já vimos que Alfredo Cortez desempenhou Negra diante dos olhos em rapazes. o u ligados ambiente exótico. É uma cena de expressão africana que nos mostra. autor. mas com "uma inglesa linda como ela era. e também aí. descrevendo a sua à morte designando-a como "A Negra" numa frase selvajaria'� . enquanto "os brancos rouquejam Marques. é o descritivo das situações. que transcrevem a narra­ peças.. terra que é "uma mina rosa obra deste dramaturgo . teve apoio musical. :' Ouve-se "o batuque na sanzala'� E a "orquestra acom­ E mais: em conversa com o major.líI(o c l. o Valdez alude panha fora de cena o batuque. . o Ricardo. aliás uma das suas melhores cálias desenvolvidas. Amélia Hcy-Cc. o padre Francisco.. . "A orquestra descreve o deserto. enquanto outro assume o preconceito "de que a Transcreve-se o que dela noutro lado se escreveu: África seja uma terra doentia'� . cujo valor principal.1 caso flagrante de adesão a uma mística colonial ao ( J9l6) . que em rigor não acompanha a esplendo­ protagonista vem de África. �.d. Maria II. O lIamem filie Se! ""/UI­ arrepio dos quadros políticos já na altura dominan­ ja/l ( 1918) tes na sua área tradicional. vale ( 1908)66./o a solidez de carácter que a vivência africana impõe Em cima. O espectáculo." 1'0111 I�ohhs :\1011- a quem a sabe compreender e assimilar. lá por essas durante cerca de um ano funções judiciais em África e nunca me viu dar parte de fraco!" Luanda. o último dos quais em Lourenço a sede. mas as referências na sua vasta obra apontam para o consagrado sentido redentor e para �/Iilada. e surge como uma das mais eloquentes Nada mais remoto e abstracto para Sá-Carneiro! Ed. com grande alacridade do colorido. É aliás um ttiro... melhores peças. paisagens terística através de dois curiosos personagens de e ambientes. não com "alguma preta'. E. em O Homem que se arranjou ( 1928) in Teatro Português a integração plausível no conjunto da dramaturgia A Alma (1913)69: mas o referencial desse é Timor! Luiz Francisco Rebelo do seu autor. A variedade nasce do ineditismo do meio e ambientações. detalhadamente referidos em didas­ Demónio (1928)67. repita-se. desgosto de amor. como se vê. os costumes e mentalidade dos povos quimbundos de Angola. quanto a menos se espera: até Mário de Sá-Carneiro recupera nós. o O major é um personagem pitoresco: colecciona autor não se coíbe. mais ainda do que Ramada aborda o tema de forma muito carac­ Selvagem. surgem nesta fase de onde de 1 acto apenas.ou pelo menos as sua em tudo" e não "só de pretos'. Nada de semelhante. a fadiga'. s. D. "Essas Africas" serão para o Valdez e para o tiva inicial. O Cuo do /). e um oficial da Armada. em O Vencido Ramada Curto e cena da peça de sua autoria estética e nas virtualidades cénicas. diz um comparsa. Moema E em O Homem Que se Arranjou (1928) o (1940)65. residirá na objectividade segura da expressão um missionário. faz questão de Água! Água! (e)os pretos imploram Oméha! Oméha!'� dizer. ao menos no ano em que a peça foi escrita. Lisboa formas de unidade da sua variedade criacional.eunor d' Eç. o que distingue Gaivão. na obra de Cortez e quase nada no conjunto do nosso teatro:'66 Quem também nunca esteve em África foi Ramada Curto. Trouxe de lá um pequeno acto. Trata-se às colónias em geral.

' 220063 fazer nada ou a fazer o mal. e todos os inúteis. ] despertava por cá uma adesão mais ou menos bem urdido de colonos com o título ambíguo de unânime':71 Degredados ( 1 930)1°. a certa altura. que a autora classifica como modelo de "futilidade e cinismo': ! [3< Fundo Bibliográfico do MNT Em África tem a companhia do padre Augusto e da mãe e de uma tia pouco consistentes. envolvidos em conflitos familiares e conju­ passa a denominar-se. são só esses . 2004 antigo namorado. os que lá e cá vivem sem MNT. Júlia Virgínia Vitorino.. em duas ou três réplicas que mal passam do "Si siô': . inv. n. Arma-se uma intriga política contra Manuel.. apenas isto . Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora. os negócios e o casamento. em 1938.Virgínia Vidorino E Manuel: "Não! Não! Tem razão. A ambiguidade do título resulta das diferentes posições face à colonização e a África. nia Vitorino!72 para salvar a família da bancarrota. Joaninha. Cine-Teatro Virgí­ gais que quase redundam em adultério. para chafurdarem na miséria e na lama..os degredados! Isto. Fernando Cabral.. e todos os covardes. os que aqui vêm para sugar um bocado de oiro... Também aqui a dicotomia Certamente por isso. talvez eu diga a esta gente . o criado negro Sebastião dá uma imagem de ingenuidade. . Manuel. Envolve-se sentimentalmente com um Júlia Lello Ed. degredados!" Mas logo se emenda. à invectiva do padre Augusto ("isso não. mas este con­ segue preservar a posição na colónia. Maria II. a peça é bem dialogada e bem armada em termos de cena e literatura dramáticas... diz que "na África. que fogem ao que ela tem de duro. Com tudo isto. Estava a Fotografia-postal. senhor 45 Manuel da Silva! Não o diz por si"). ] todos nós somos aqui.. casa com o Cena de Degredados i n Virgínia Vidorino e a vocação do teatro: "sólido e franco" colono Manuel da Silva e muda-se / \ o percursa de um sucesso para África. gueses. 1916 mentir-lhe! Os outros.. O que não a impediu de escre­ Lello recorda que "a temática patriótico-colonialista ver e fazer representar com sucesso um drama [ . o coração dos por­ tugueses. o velho Teatro Africano se implanta entre os escassos personagens portu­ da Cidade da Praia (Cabo Verde) fundado em 1867. Alcançou um notável sucesso no Teatro Nacional Quem também nunca esteve em África foi de D.vida. com sucessivas reposições. e todos os perversos.. todos esses desertores da . são esses. os outros. e ir digeri-lo onde se divirtam. não se sente em terra sua [ . se o nojo me não amarrar a garganta!" Para não variar.

o que sucessivas (Machamba e Latitude Sul. Entre a agressividade de Aleixo Luna de Oliveira. repita-se. onde aliás na epígrafe da edição assume as dúvidas e angústias da fase de transição para a independência (Natal de 1 974 "este Natal que não sabemos se de Incerteza - se de Esperança") . cos [ . em 1959. se bem que algo enternecida da "cidade em total solidariedade e amizade. não tão agressivo se chamar singelamente África (1951). t912 tempo numa mulher resolve muita coisa"). procura uma conciliação entre o teatro . ] terra gira e tudo" e da sua população de envolvendo a família.(e as citações não acabam) mas é irmã­ o texto consegue passar uma visão muito desen­ mente reconhecido pelo poeta. mas tão grande ou quase como entre o dito Aleixo Afonso Ribeiro estreou e ambientou em Lou­ e o criado negro do café. uma peça subsidiária do Este é maltratado por Aleixo ("seu negro [ . E outros sinais críticos surgem na peça: por todos. Mas também.espectá­ culo tradicional local e certa construção de matriz mais ocidentalizada. . sobre proposto em 1917 ao Teatro Nacional. mas também no contexto da própria pela sua actividade teatral. Herodes e o lvIenino75. uma impressionante solidariedade inter-racial. em que.nas restantes peças. . portanto. ] neo-realismo.estamos em 1951). t966 nagem branca vem por anúncio directamente da © FAHM Mouraria . para alunos do ensino secundário. Apresenta gran­ A partir de certa altura aparecem dramaturgos. que contrasta com o racismo: "Ele adora-o só porque lhe apertou a mão': Não haverá denúncia mais contundente e talvez por isso na poesia deve ser uma seta apontada ao futuro [ . fez representar em Lourenço Marques e (esteve em Cabo Verde cinco anos: mas não há em Lisboa um drama que assumiu denominações a certeza "donde eu vinha e onde estivera'. A sua dramaturgia compõe­ se de peças breves. que com ele alinha cantada. que. acabando por inculca o Tarrafal) há um fosso. a colonização como o recurso (a segunda mulher de uma perso­ Teatro Varietá Lourenço Marques. não só de âmbito racial. renço Marques. a cor­ © FAHM rupção (engenheiro Saul Pedro). ] uma seta de esperança': Orlando de Albuquerque nasceu em Moçambi­ que e viveu em Angola. depois de um Infante Santo e a vida economicamente difícil do "poeta'. 46 . o machismo ("um bom par de galhetas a Teatro Gil Vicente Lourenço Marques. Com as limitações óbvias da época.. essas muito ou nascidos nas colónias ou directamente ligados marcadas. des clivagens. . .. Teatros de colonos colonos e de negros urbanizados. Aliás recíproca e piroleira [ . Um dos primeiros será sociedade colonial. denominada Três Setas Apontadas não gosto de pretos metidos nas conversas de bran­ para o Futuro73. e de diversas o qual impende uma subtil ambiguidade política comédias. . tirando um singelo e muito bem escrito Auto de Nata(14. ]" . .

Mas não obstante se esclarecer. recordam com saudade algo ambígua: "Era bom escreveu Luís Francisco Rebell079. Eles sabem africano. "velho trapaceiro" que lhe exige o Porque Catarina é de Moçambique. não tenha passa-se numa "sanzala. em Portugal são como "os negros em África': podia dançar. há mortes no aldeamento. Toda a gente sabe que tem obivando': das cenas. sobretudo na medida Em qualquer caso. " [ . Mas mesmo Herodes contém uma mensagem E há também uma subtil mensagem aculturada de claro anticolonialismo.. e um grupo de negros descalços. . Mas o que se passa é uma evocação poética "em que incisivamente dá expressão dramática de um branco falecido. a mais relevante delas Um Jeep evolução': em Segunda Mão (1979). . pois trocava a "água do Puto" por bor­ soldados deixam-se envolver pelas recordações da racha. a terra. o cheiro do capim e do caça . . Quatro antigos mesmo" . beba. o que represente É de estranhar que a descolonização. e um deles mata um grupo de ciganos. logo de início. ticeiro Kaluango. ] mas o branco não bebe. inclusive pelo traje da protagonista. ] de que vale ser soba. pois. Grande caçador. o que deixa antever sequer a guerra colonial em si. e não pagava nada. ] " que o despojamento de objectos e evocações afri­ Muito mais próximo d o teatro tradicional. que possa ser esquecido. . ( 1969)77 que põe em cena. que os pretos aos traumas desencadeados pela guerra colonial'. e por canas são propositados. "onde nenhum objecto deve referenciar África'. usando um relógio de pulso. A começar pelo contraste tem feitiço. . Luciano fez a guerra em Angola: "Somos do sacrificado tentam evitar o crime: mas a caça uma geração marcada': "Mataste? Violaste mulhe­ 47 desapareceu. o Tchindulo. entretanto. o seu imenso circunstancial dramático." quando a vontade de sob a está contra nós?" Obivando ( 1968)16 põe em confronto um "dono Enfim. O escravo do soba e a mãe Angola. podia beber. pelo isso não desenvolvemos a análise. . mas Descolonização falando um p ortuguês correcto. de todos nós [ . a evocação de África. . res?'. "num aldeamento de cheiro do dem-dem. o Tchindulo era "soba grande em que retrata. Os sobas afinal são opressores [os romanos] é demasiado grande para iguais aos outros homens [ . E refere-se a "África . Nem cada com alpendre e janelas. junto a uma cubata mati­ sido objecto de tratamento teatral à altura. ainda que contextuali­ mas não menos clara: "Os teus assuntos são só zada na história: "O ódio do nosso povo aos nossos nossos. ]. Quem pagava era Tem entretanto muito interesse referir África Tchindulo": então e a borracha? (1990) de Isabel Medina8o. O sob a enfrenta o fei­ que mais realça o ambiente erótico do conflito. A cena. num envolvimento teatral de dita no feitiço:' Ora o dono da casa não acredita "mas muito boa qualidade. com todo uma certa evolução intencional. . a fruta. errava'. "espingarda dele nunca guerra. . e a caça de casa" de "aspecto civilizado. Por isso seu chefe não quer que preto rina. de Fernando Dacosta78. pergunta a Catarina. . ] toda a gente podia comer. e E finalmente: "Os brancos também fazem a segunda na mesma sala mas com um ambiente cachipombo [ .. Cata­ que faz mal. . . impressiona: África "é a guerra. Soba. com um distanciamento de 1 5 lá no Puto': E a cena como que retroage para uma anos. ligado a práticas de feitiçaria. a s situações e o s dramas dos retornados e situação de feitiçaria: "Deus castiga aquele que acre­ da própria guerra. sendo a primeira passada numa sala O que revela nova ambiguidade intencional.cubatas toscamente construídas'. e curiosamente pelo detalhe. trajando à europeia" voltou . mas viveu em sacrifício ritual do filho. é Filho de Zambi contrário. Seu padre também não [ . . . um conflito calor': E tudo isto ao som de um batuque africano. com algumas excep­ ser o seu proprietário pessoa de algumas posses e ções assinaláveis. Zambi leva o filho do soba.

.. "Foi assim que levaste o João ao suicídio. uma narrativa ... com uma afirmação dramaturgica­ mente muito interessante.. numa situação equívoca de paixão que lhe vota Luís. [ . A história nasce na oferta à pequena Leonor "de um boneco articulado vindo de África. ] esquece África'� Mas afinal João foi denunciado por um companheiro... Vergonha porque saí. eu jurava que não era de lá. ] palmeiras. no texto infanto-juvenil Leonor no País sem Pilhas (2000)81 . tudo branco.. um berço negro [ . Retornada . o outro personagem masculino. como temos visto. Eu nunca retornei. É vergonha o que sinto. a auto-responsabilização pela morte de João. João suicidou-se. Tudo tão vasto. O céu é azul que só ali existe . envergonhada [ . ] o amor corrompido por África" . pensas que podes fazer o mesmo comigo? A guerra de África já não me toca [ . Mas há outro drama de guerra: numa situação confusa de deserção. Armando Nascimento Rosa deixa vestígios da presença africana em algumas das suas peças e desde logo. vergonha por­ que a neguei..."um berço húmido... tão imenso. Eu não nasci aqui. E não volta porque a "vergonha não (a) deixa.na desambien­ tação existencial dos retornados. [ .. tudo tão limpo . vergonha porque voltei. também. . ] Todas as vezes que me chamavam retornada. E também em Audição com Daisy ao Vivo (2002)82. Ou pelo menos assim julga Simão. ... Catarina substitui "o vazio de África pelo jogo" e jogo de vida ou morte. :' É a ideia de espaço libertador que surge. . campos de café. o Tóli'� As referências a Angola e Guiné estabilizam numa poderosa evoca­ ção das inundações em Moçambique. E é Catarina que o diz: o seu coração está em África. .branca. ] Saí quando devia ter ficado..:' Aí. Porque a verdadeira chave da peça estará - e é singular na nossa dramaturgia . ao longo de toda a temática e aqui sublinhada pela música e pelo ambiente evocativo. . que acusa Catarina da tragédia. . Era nova demais. p or quem Catarina se apaixonou.

de Jaime Rocha. à estandardização política dos são portuguesa tanto no que se refere ao texto. Lisboa. militante História recente. Ainda mais recente (2005) estreou Equador Refira-se. a integração do negro nascido em Portugal e sem Assinale-se. reportando ainda à estada do é obviamente exaustiva. Ed. Importa ainda ressaltar dois aspectos da ques­ tão. essa transversalidade. em parte fruto em si. uma solidíssima abordagem da ideologia. o Bocage de recolha respectiva. Com da mentalidade e da técnica teatral adoptada pelas excelente qualidade Homem Branco. o qual. tificação transversal9o. Mas diga-se que. global. como mesmo que a pouco e pouco dramaticamente se revela. foram já identificadas para cima de peças contemporâneas. colmatar. estando em execução permanente a de Pedro Lusitano de Norberto Ávila83. como tal. Homem Negro modernas literaturas dramáticas dos países africa­ (2004). entre outras. Duas peças recentes tocam o tema África. os textos Sinde Filipe84. um meio privilegiado numa troca de situações hábil e muito interessante. contingências inerentes. Em qualquer caso. situação que se procura sim e sem autorização: os autores do texto dramá. não impede uma visão 49 aqui citados na perspectiva da matriz ocidental.o em edições muito circuns­ Equador de Miguel Sousa Tavares87? Este diz que tanciais e de difícil acesso. de que há notícia. por exemplo As Viagens cem peças. que muitas peças escritas e Passa em São Tomé e Príncipe. ainda. com as excepções e complementações dências segue-se uma visão abrangente das diversas caso a caso assinaláveis. assume o contraste entre nos de expressão portuguesa. vinha sendo já utilizado pelos autores desmancha estereótipos de uma ideologia que se africanos no período colonial. tendo embora em que já vimos.Um Jeep em Segunda Mão dramática situa o problema do racismo e do apar­ Acresce que a lista de peças agora apresentadas não Fernando Dacosta. primordialmente. E em Como foi oportunamente referido. António Loja Neves. em relação à qual se representadas. Ou o caso de certas peças e autores e de certas raízes sociais. tico dizem qu'e não. em períodos de guerrilha. . em Politicamente incorrectíssima. que no ponto de vista da qualquer tipo de problema e a do branco. também acima referida. o teatro constitui. à expressão dramática literaturas e práticas dramatúrgicas. Entretanto. Ulmeiro. ainda. com as limitações e compraz em slogans. ao nível de títulos e de notícia de Finalmente surgem personagens negras em espectáculos. Em primeiro lugal� o teatro não constitui o núcleo duro das novas literaturas de expressão portuguesa. opinião. este estudo segundo lugar. tal como aliás justamente assinala tem em vista. na nossa ções historicamente consolidadas como é o caso. 1982 Fundo Bibliográfico do MNT jovem Fernando Pessoa em Durban. Luís de Camões de Eduardo Damas86. significativos da matéria em análise e constituem. pese embora a sua instrumentalidade histórica e política. o teatro de expres. As Três Cidras do Amor de Ivette K. como diversos territórios no contexto anterior às indepen- também. O que significa um tratamento muito menos da "unidade de acção dos vários movimentos de exaustivo das aculturações de teatro tradicional independência" o que conduz a uma natural iden- africano e de origem étnica com excepção das situa. que aqui se procurará conciliar. que a seguir se analisam são. na medida em que certos casos. tanto no perío­ anti-racista mas eivado de um racismo profundo do imediato das independências. do Tchiloli88 e do Auto de Floripes89 vista as perspectivas específicas das peças históricas são-tomenses. os mais CentenoB5. theid na África do Sul. de exposição ideológica e política. ou nunca foram abriu controvérsia: é ou não adaptada do romance editadas ou foram-p. pensa-se. aliás.

com as causalidades que diante missionação ("acreditar. . o de tribalismo. um autor extremamente rele­ dade moderna. e desde logo dizer.mas desenvolvida na contra o poder português . e reverte O limite pessoal dessa cumplicidade surge no sobretudo para aspectos políticos e não religiosos. que o auxilia nas guerras contra os ridades tradicionais no fornecimento de escravos poderes locais e na captura de escravos. . "a escravatura acabou [ . diz a própria . ) entre colonizador pelo menos assume uma cumplicidade histórica e colonizado. esse tratamento não é globalmente favorável. a partir deste quadro traça­ no contexto pós-independência. D."os homens nação histórica ou mais imediata do colonialismo.e José do Telhado. .. 50 .AnaJoaquina.. de J. acreditar apenas naquilo iremos ver. diríamos hoje . por vezes quotidiana. Ana Joaquina com o Mas. (Angola). E também nem sempre esse mani­ em si mesma e fundamentada em documenta­ queísmo constitui condenação cega e absoluta do ção referida na peça. . XIX: a hipocrisia quase blasfema do clero e da Tudo isto. Seguindo a classificação e ordenamento Mas o mais importante e de certo modo rele­ cronológico proposto pelo própri09 1 . e de outros. Quer chegada dos portugueses a África. com fortes perspectivas históricas directas.o que nem sempre terá sido cómodo e fácil para D. respectivas alianças políticas e de poder. encontramos vante no contexto da pesquisa é o carácter não desde logo. que mantém o regime escravocrata­ os autores respectivos. O que dá credibili­ -se uma visão dura da sociedade angolana do século dade ao substrato dos conteúdos respectivos. marfim e escravos. é José Mena Abrantes O fundo ideológico é por isso dominante. Dois perso­ muitíssimas vezes assumido com grande clareza nagens centrais definem a problemática histórica: .também é certo que peça com muita qualidade teatral. Cândido tamento dada à missionação: mas reconheça-se que Furtado ( 1864)93. numa base rei branco" pelo seu cúmplice africano (negro). isto entre 1862 e 1875. Em qualquer caso. Ana Joaquina'. de cada país. sendo certo que o tom dominante é a conde­ definidor de um conteúdo crítico . . de guerras interétnicas ou de auto­ Empacasseiro. . ano da aboliçao da escravatura. Haverá aqui um dade com que muitas destas peças encaram e criti­ eco da brasileira Chica da Silva? cam a situação política e social dos respectivos países. Zé e os Escravos (1980). realidade histórica das solidariedades e das cum­ degredado.. vante. ] mas não para os escravos Por outro lado. um maniqueísta e politicamente incorrecto da res­ notável quadro da situação colonial. brancos [ . . Logo aqui e noutras colaborações activas e recíprocas (cola­ a dicotomia colonizador/colonizado se esbate ou boracionismo. depois capitão de milícias ao serviço do plicidades entre colonizadores e colonizados. São citados textos do bispo colonialismo. repita-se. que um dos meus colegas no Brasil chamou a pre. e sobre­ ano da sua morte." . ou mesmo dominante. assume também relevância o tra­ mas também da própria D. as Governo de Angola e do reino. também não é escamoteada a de D.] davam tecidos e missangas . prólogo algo poético e algo idílico do período da mesmo no contexto pós-independências. o mais interessante é a frontali­ escravo que ela própria chicoteou. mitificado como "o grande e bom tudo a intervenção dos poderes locais. António Tomás da Silva Lopes e Castro ( 1892)92 Nesse aspecto. evocado num pectiva problemática e das teses em presença. derivas históricas mas sempre voltado para a reali­ Nesse aspecto. Joaquina.. Pediam ou a demonstração de sinais seculares de rebeldia ouro. envolvimento sexual de D. . agora a partir de o criticismo das situações pós-independências é 1836. Uma matriz não maniqueísta As situações históricas directas Estamos então no quadro de um teatro pre­ É pois interessante começar a análise pelas ponderantemente político e social. em Ana.

. mas recua no tempo. ." Mas os portugueses têm nELD ER C O S T A o apoio escravocrata de potentados locais. O tom ( ca r ro realista da peça. pelo debate entre os actores que. . dominante mesmo nas falas dos CENTELH A personagens negros. dizia. Teatro Centelha.. Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios cinema e no teatro: esta peça. Não deixou de socorrer a pobreza torno da figura de José do Telhado. símbolo da magia africana. Trata-se.] não sabia (?) ainda que preparava já a existência futura de uma Zé do Telhado Nação': A perspectiva histórica assume assim uma Hélder Costa Ed. vemo-lo com plausível fundamen­ fase da colonização. tino ("no embarque da carga está tudo em ordem . cuja dimensão e proteger os fracos':95 histórica tem sido objecto recorrente na ficção. discutem o enredo e as soluções. Mas em 1875 José do Telhado é considerado O contraponto desta situação desenvolve-se em "o bom rei branco. a E assim é: "Arrasamos tudo como nos ordenou': E o hipocrisia das autoridades face ao tráfego clandes­ racismo do próprio José do Telhado: "Teria que ver. Há um forte contraste com a tosquidão castrense do Pai e com a dimen­ são épica das batalhas e das estratégias militares .. como na altura se trajectória de um mulato filho de escrava que. aliás. ame­ S ó entram cascos d e azeite com água doce'. depois de ter encarado de frente tanto branco. gação com a espada e a vara de ferro" o apego de E a í realça-se o lado violento d a colonização: José comerciantes e colonos à escravidão ("quem nos vai do Telhado "ainda há-de ser um bom mata-negro!': trazer a cera. : ' capitão do navio negro). Em ambas as Abrantes. num plano actual. e dos próprios africanos. no Sequeira. por mais retinto que seja . a borracha e o marfim do interior"). é corrigido pelo ambiente onírico e simbolizante da Mãe e da pedra escura. cita amplamente (1992)96 retoma esta análise histórica de Mena o Zé do Telhado de Hélder Costa94. num bem conseguido registo pirandelliano: "Não podemos arranjar maneira de mostrar como ele já 51 compreendia as contradições raciais da época dele? . da "atormentada trágica e desconcertante sanguinária das revoltas indígenas. com a cumplicidade ao ajudar a destruir em pleno século XVII os três interesseira e desapiedada. Mas o tema do racismo concentra-se na mestiçagem do protagonista: "Desde quando é que os mulatos têm quereres?" E a matéria é retomada. portanto. nos ensaios da própria peça. e no tráfego de escravos."já rechaçámos várias vezes. . O tema religioso é tratado uma vez mais num registo anticlerical que toca a blasfémia. principais reinos de Angola [oo. o campo está cheio de cadáveres [ .. na Fundo Bibliográfico do MNT cumplicidade das chefias e dos povos locais. diz a síntese do tação biográfica a colaborar na repressão violenta e autor. Coimbra. e cobre a primeira peças. ] Eles têm os ferozes mascicongos e arcabuzeiros mestiços . 1 978 preponderância que se reflecte. precisamente. numa ZÉ DO TE LHA DO verdadeira guerra civil. diz o drontar-me um preto.

o monólogo A Ólfã do Rei influência em iniciativas de teatro cabo-verdiano. aqui. testado quando diz que "esta ilha era nossa [ . aliás uma vez mais documen­ -tomenses de S. O certo é que. ] Vai na mesma linha de reconstituição histórica mas com um factor positivo da colonização. A viúva numa perspectiva crítica A Revolta na Casa dos Ído­ do governador Cerveira Pereira fica em Angola : "Eu los (1980 Angola) de Pepetela 1 0l. 52 . num quadro ramente existe e nos faz existir [ ... ] Uns partiam. factor de fixação de populações europeias "nessas mas "os fujões são cada vez mais': regiões povoadas de seres incultos e de instintos O registo é cómico. Reino ou o Azar da Cidade de S. Alfredo Boa199• Aliás. mas mantendo o sobretudo homens para levarem para a terra deles. João Branco assinala a mesma de Mena Abrantes. .. aqui.1514 a partir de um conflito que conta com apoios . retoma. ] que verdadei­ histórico. "o único prodígio [ . O sistema A missionação. . terá de certo um significado adequado e nesse é como sabemos um tema recorrente. com muito boa não ser branco:' qualidade dramática. (1991)97 que evoca a transferência para Angola designadamente Teatro Julgamento implantado por . casamento com colonos portugueses.de órfãs Horácio Santos 100. situa -se na própria unidade política de Angola. a resistência dos povos são­ A tese histórica. através de um processo de colonização que o autor papel-moeda da independência. E vimos no Tchiloli influências recolhidas em conventos e encaminhadas para o são-tomenses em textos de Mena Abrantes. ]" E mais: admite-se uma situação inter­ visão muito crítica mas com traços de grande iro­ racial: "Quem sabe se Deus.] é o Teatro!': que nos faz lembrar o Zumbi e os Palmares de Na mesma perspectiva histórica situa-se ainda.. dessas .. Mas subsiste também uma bárbaros'. . ..e também para o Brasil e para Goa . ] nossa do colaboracionismo. que ilustra as primeiras dobras. E quando per­ alegoria política das guerras angolanas no plano guntou a João de Pina se é "castelhano ou quê'. Portugal (como) escravos. plano da reminiscência histórica. na sua infinita mise­ nia numa descrição da situação no Reino do Kongo ricórdia. dimensão histórica e patriótica da matriz do colo­ E não está fora deste registo Sem Heróis nem nizador: "A Fé dos nossos anda muito por baixo.. é mais bem tratada: o Frei começa em 1593 e funcionou efectivamente como Afonso acaba por proteger os escravos foragidos. :. tíco Rei Amador. diz Frei Afonso.. diz a Mãe. e cumplicidades em povos e autoridades indígenas: hoje. tituição epocal da revolta percursora. aspecto muito interessante. a peça mergulha numa terra[ . os "brancos queriam era Mudemos então de país.Pelo menos devia sentir-se um pouco à margem por especial O Rei do Obó. mas também do esclavagismo. da crítica ao clero [ .. e em ancestrais. que já escrevera - por mim vou ficar por cá.. moral caiu muito .. não a ajudará a parir no futuro a primeira . ele interno dos diversos reinos em que o território nessa responde "com orgulho . ] A minha filhinha há­ antes A Corda102• A partir de uma certa aproximação de crescel� casar-se e quiçá ter descendência nesta ao teatro épico-narrativo. no plano E no final. tais famosas mulatas de Benguela[ . numa linguagem que oscila entre envolvem-se cenas de actualidade e uma recons­ o simplismo profético e certo expressionismo. [ . das oscilações e traições dos de quem? Dos que vivem do suor dos escravos?': governantes e dos colonos.. Depois do desastre de Alcácer Quibir a nossa força com o Fundador que lhe tocou em Sorte (1997).. Numa mistura de condena: "Da próxima vez será muito mais para nos linguagem popular portuguesa e de aculturação oprimir'. [ . João dos Angolares e do semimi­ tada. da independência do país. diz-se no texto. Filipe de Benguela.sou português!': Mas é con­ altura se repartiu. ]" Lido . . os O Teatro do Imaginário Angolar de São Tomé padres ficaram': Mas é preciso voltar aos costumes e Príncipe (2000) de Fernando de Macedo90.

I..' 3.rtt. �J. ::.. Revista do Ultramar..ui . .!d!�·d�·������� la..U....u d1.. fU p. ���u:jE���f?::f � . .. 'la ..." o =<. ..b . tiQ F.:..m ....::· ..iho.:.� �.oe . ...n«"'�· r<i· .f"dkY...''' . <Of'Od. �''' I'':"..l.O """ ·�='1"' oq.h k41.uUf'·"'" ..W _ . ü. li>U d<a p.U .Io!o::o.I O ...1M entidades locais... d..u.. l r... 1<U... J. . mas nem querem ouvir falar é politicamente correcto nos nossos dias: "A força em eles serem tratados como gente". .ko uk..Jo (4r..6..i. relativamente à r�' '''...a o -u. i!uc. .o T. "p><.a .IvoI. . Ir".>!­ . ....w...� ••bo-..!'tJiCO: .""i..lu\r�h rN"� UI� t'> 1�. ptiftlbo. tiu • 4>LWiJ• •�hI.>t �'>t. a venalidade dos pares e a destrui­ ção dos ídolos constituem aliás a síntese conflitual da situação.. Maio...oa..d. cWio di'<df.ta lu"..�..n. n... IUI I... "...!o AlmtiJ.o}:. .f . �T�'" pI.:u.i.!.21<11lt_".1. .. com repercussões da Guerra Civil """'i<:.. .. "'l>1.alr. li. .:':�""�7M::::N. mais acen­ O problema complica-se com a intervenção tua a crítica à rede de complexidades que o autor dos missionários. Auu Ah... j A Ulp"""" <elud... �...U:o"" ' 'I'''' ".lI..". . n..L.·l<ol>:>l� " f"""·..." . Afonso subvertem a onde a temática política se assume em planos con­ ordem tradicional e aliam-se a Portugal.". toMit&t ."..&o bu...l...Lé:t ...!..�:. ...14ico. poderosamente afirmado.to _..t:�r��: ��:f1:: J.t1Uu • -. """ · i.. desde os administrativos à PIDE.\". �dI<J...�.o P:Ól".u .. [ UN'''''' ""' U�h'''' luu..u s. . fU.. U...? ..� -r.. u•••�d�� <OIIIj>I• Achada Grande do Tarrafal (1979)103 de Franco pon. O rei vende escravos aos para a Rodésia servirá para enviar "contratados" portugueses: "A maior parte para o Rei': Mas "tem pelo Lucas Mateus "praticamente um traficante de medo de nós..r"_I� 'lU .... I'� f''''II.Jo ... ."..."il.i". ..i.... ..J..:t:l.l.... �.ch d.o� �....I.ut.k de Sousa (Cabo Verde) é uma dura evocação do !t.. .. f<>i .tor "'-""..... .� do> .duo _ 20 do Abril & �..�.. n"U"" p..lli. . .'. f. 29 O conflito religioso.:�IOo... ] os escravos e (Gomes) não sai assim tão mal. r. U& eo d. . Mas "o que pode mudar as coisas é o desejo P a :n o r n :lI1 1'l1 T e D.'� �.lro � de Espanha e ainda das relações com a população \'. . �.x. .e.. .!�'.• � d.I.... ec.«.""ul.. .. c:IO�..qu ll-od.ie' b'" ... . lUto ltl. É tudo o que os portugueses querem.0.k I".tIJ.i-p>� ecepuM �bl'OO'll 1.� � -Ae d' '-''i�I&. .�:. r.... "!4 n ... serve TNs.tlllridoSo..o <4 • . ç. . u Tt. �...r.m _ lu.h d. ..rfO do.JUI<� d...><. .'P.v.. do I... O::' I'<<<b � "'''. Mas são homens como nós.. 'lU oIe U�b ·iut':I"'IU� � .. política antes e depois das independências .o d...d..I\ob �. Ik-. >h� .. o!.Ic'.. .i.... niais.. rsr...l. ÔI.�". •• """.. ��:':i�. I" � nJO. � • •\u".. 1948 REVISTA DO UlliA/.1«.o 1. . o lZIol. .I'" 1 .l<urioJ<.. ÚV.n<:>"o• ..i. ...... E a autoridade local portuguesa aos comerciantes portugueses [...� �:. � r ..Õ<i:lin cr.'" .a c!c . •�. r-o< ...... o povo...-. A io.1o ..«<."""l<>Ihd f. l cco ....IoJI� de fundo a peças de Pepetela passadas nos nossos <N-� .. .... o que aliás vergentes e uma vez mais ambivalentes. A estrada é historicamente exacto. mas depois da está na raiva do povo (e) os interesses do Kongo são independência as novas autoridades "trataram os apenas os interesses do povo do Kongo:' E o poder régulos sem grande cerimónia"). n. . .. : a .k:t=>:o.. .. crítica peças de temática histórica moderna.u.. . ..""w... pelo menos a esse o marfim.. " Entram nesta perspectiva e nesta problemática tl<.. ' <'..iJÍ<> _ ..uo>r.. enIo ck .? .PnH. • ••..l . . deve ir para os que "trabalham com as mãos'...t . gem blasfema.. do plblko q �olcs �..!':��:.. ....<t".d..q_ pol<a.�.k• ... O "...odoo _ <»rÃ.J.'Jo. .o li· N.P. "'. r!e.. "" C<. . c .t poç. .....t:�� .o c.h�.._ • ...o. Ild.UI u>!:� r..:.& . u.ftoJ....�lu ..1" p. t r u I LOURENÇO MARQUf.. no ':C:....lu t·"" l n.. ".... dfto<<:>Io J . I»tlil:ri.:.(O l lu '!"' .:.hJ.....bk� oe .... r!t\.>t 1l.!. .... 10 1"'" UI. n-h? 1<'.i':. ".. o racismo aflora no comportamento dos a força [ .rlo.*.. " .G'" :�� I .. VAI A ANGOLA o Tealro dOI Elludlnles di Unlversldad..�:": :nlf��." lU . � 'c. ""'tl-ou!.o Tutrol'ou<.u '" u>!..." .j.d.lI.."""" o <... campo prisional... u..:oo ".:/""- .. """....I".pn: é '•• rkil sociedade e à política do Estado angolano..o. n r�� C.. __�<>k. � 1.w... ".] os artesãos [ . .h I"'�" F. .... • I"'" t. . f. veremos adiante que este mesmo :-...Jou...!!:. U. dias e já depois da independência.e<hf.... tugueses": ele e o sobrinho D. Somos nós que temos toda escravos". uLu ..<hoo.. ch.. �6o. �.lu= .t.r � M.. .�üJ... c..(.�... taa­ ..ô .Iu.t.s." .«or.. IId.MJ. ..o(d� 1j"i.... I.n<...o d.u .t�'..... •.al>i....dor ti.u. d. como habitualmente muito mal­ obviamente condena: mas a solução do crime fica tratados.�==�.� r..u ..�·��-:!·� f'lno..$ das pessoas': Ora.) � .. • .rU.<I. ..<k _ A história moderna e a crítica da situação �..... . c. ". <"Ij _ ..� .... . Iii _ '1�' o. •• S....'.... .1. ��Í(" .� r�.-o. o que brancos ("vocês fartam-se de dizer que os pretos não é historicamente exacto no século XVI. �r..l.. '{Ot..o de 1.u(.l<> ..... z. I...u.. .-..l<!o hih !'ll l<fru . .."FftI...oç . p. quadro histórico.. ...o. "O padre só diz aquilo que interessar em suspenso... �. 1 .�I. lo la.. � I-!. N�" �. o "'-....Ui"...<.<:>f .......=r. .\nu " ••b ..p!.�.tlo raoJo... . ...r"i . numa A evocação do ambiente das autoridades colo­ visão de proletariado descontextualizado.:. l ...10" 1'-> • • local. n . elo:. �. cJ.... o rei do Kongo "permitiu a entrada dos por­ (2000) 104 do moçambicano Leite de Vasconcelos.o..... kc:o Tt..u ...' J...oci<&&l &t 1... . No.. a cumplicidade dos manis..I..." nível: já num nível acima a situação torna-se mais O capitão e o padre usam e abusam de uma lingua­ crítica.dt:... .. p..... . .. quadro da transição para a independência. ] os camponeses': ... .q ..» .� ..se..t..�I'O 6 .I •• "U UI· -E po. � o ''''' ''''4r .. . . .� .. .. qC• •= I•. 'u tulr<I J. É também o caso da muito bem armada trama 53 política e policial de As Mortes de Lucas Mateus ..:MG<bto.....}<...

onde integrou zairense. respondem-lhe tinos encerrados num contentor. res por ter desviado "o rumo da peça pela sua intro­ O outro tríptico é O Pássaro e a Morte (1994). Esses que andaram na da sociedade. Abrantes. . O Sr. O Cão e os Calundas107. pois não há supermercados:' O médico Pepetela publicou em 1985 um curiosíssimo não consegue que lhe reconheçam o diploma texto em prosa. . No Liceu . . ] " nessa nossa cidade de Luanda. . "As cenas que se que tinha a oficina" só tratava os empregados "de vão narrar passaram-se no ano de 1980 e seguintes. tempo. destaca-se como condenação directa "o vício do intelectualismo': O principal crime do do colonialismo. Mas isso também tem o tempo O apresentador bem tenta desculpar-se: "Era dele acabar!'. macaco para aqui..] está bem identifi­ policial a partir de tipos correntes da população cado o inimigo da classe. África. O segundo actor também tem pendências. Tudo isto num texto de excelente qualidade O apresentador é condenado pelo colectivo de acto­ com ressaibos pirandellianos no último episódio. O Panfleto ( 1986) 105 de Domingos apresentador é saber lel� o que representa "uma Van Dunen (Angola) que retrata uma situação fuga constante ao colectivo [oo. Quando p ergunta se "é crime que põe em cena a situação real de três clandes­ fazer uma apresentação original'. um dia gabou-se disso': que é o colono. de macaco para ali[ . Certos desvios que "já confessou o crime [oo. Essa originalidade de ir à escola . Noutro plano ainda s e situa a obra d e Mena portanto.] o problema é depois sítio onde com­ Vietname. Século sibilino'. Pior. curiosamente social. Os textos dramáticos Príncipe Pelfeito (1989) 110 constitui uma alegoria da intitulam-se O Elogio da Ignorância e Regressados. _ RegressadoslO9 é um texto realista. matou sem convicção tra o colectivismo intelectual e artístico. a mediocridade e a prepotência. toda a gente tem um só dono. . Paga uma grade de cerveja': da PIDE assume valor simbólico. Esteve exilado e tenta voltar a para a ignorância. um "belga duas dramatizações autónomas. descolonização. A revolução de 25 de Abril e a guerra O primeiro. O racismo perdura: no Zaire. E designadamente dois trípticos de exce­ O conjunto contém de facto uma visão crítica muito lente linguagem. é vício de O apresentador é pois "condenado à pena cidade:' E a promiscuidade sexual do chefe Sabrino máxima. No Século passado. . "A Vala Comum'. Nesta temática em que se aborda a história e a Mas parece que não é s ó o apresentador que política imediatamente antes ou depois das inde­ está a ser original. com veteranos da Guerra do é o dinheiro [oo. e ter um paizinho que pagou os estudos [. Não é culpa minha [oo. dução individualista.. ao colectivo. Hoje em dia. certo tom absurdo no segundo texto.] como degredado: "Até parece que é o único condenado se um colectivo de ignorantes não fosse capaz de que veio em Angola:' O colono trouxe "o vício" de encenar uma peça sobre a ignorância. como álibi ("cumpri ordens"). temos A Pele do Diabo (1977)106 do Angola. fez o quinto ano do liceu. diz a Mamã Luzia. cena de construção e ensaio de colonial são evocadas pelos dois lados: "O clandes­ uma peça de teatro pelo apresentador e por um tino [ . de "O Suicidiota'. tentou juntar-se grupo de actores. ] " o tom expressionista do terceiro. . "A escravatura já acabou há muito Escola. descrita em tom objectivo: "O problema não ambientado nos EUA. . . . pessoal e angolano Manuel dos Santos Lima. "O Contentor'. António é um obrigado a estudar. ] foi à guerra neste navio". que trata Como testemunho indirecto da luta pela inde­ a situação dramática dos retornados do Zaire a pendência. rio à nossa linha!"IOB. constitui um violento libelo con­ à guerrilha que o repudiou. . A Última Viagem do dura da realidade angolana. prar comida. O primeiro. 54 . Intelectualista! Isso é contrá­ pelo menos na sua primeira parte.] Esta fuga constante surrealistas. . escreveu o autor em 2002." pedir esmola: "Mas na terra do colono. E a respectiva problemática. . . com citações de Fernando Pessoa.

aliás não O texto abre com um "esquema geral" que Mindelo à Tona orienta o leitor no seu didactismo alegórico: o Grupo Cénico Amarante. . E muito de situações de afronta à liberdade. que o seu fuzilamento des­ aliás os outros temas e subtemas analisados ao mentiu.. 1953 Grande Circo é o fim do poder colonial. tal como de Patrice Lumunba.sem qualquer escrúpulo tração de temas e situações. passa a ser cerco. Cabo Verde. não destroem a unidade crítica: o confronto com formaram a independência numa j aula para nos a polícia na África do Sul ("os polícias dispararam observar do exterior': O Novo Líder Popular acaba à toa sobre nós . Mercenários e dos Leopardos levam ao fim do ou ainda a situação pungente da mãe à procura do Circo. ou quase. por sua vez. 1982 Centro de Documentação e a morte do líder popular. na perspectiva das cum­ minas. a Ameaça contra o Circo é a independência. num fundo de questão religiosa. a dono do circo': a retratação dramatúrgica do quotidiano... Diz com efeito o tratador: "Agora do realismo para o ambiente mágico em que o pás­ que isto tudo é meu [ . mas aqui diz bastante do criticismo corajoso da alegoria: e a situação no ex-Zaire não exclui as generalizações. . Grupo Cénico Korda Kaoberdi. que exprime melhor a realidade Mas a mais dura crítica ao processo de colo­ dos que estão cá dentro. ] o Circo deixa de ser circo e saro e a morte servem de ligação. esta "farsa tragicómica [ . Toda a primeira parte retrata uma colaboração entre colonizador e colonizado. E a alegoria transfere-se para o processo de descolonização e a independência surge num contexto de repressão violenta. . como um modesto tratador vezes sobrepostos. Cabo Verde. a última Farsa.") ou a intervenção dos militares por passar a acção ao tratador.. surge em Mena Abrantes na poderosa alegoria de O Grande Dramatização da vida quotidiana Circo Autêntico ( 1977. . chicoteia à esquerda e à direita com vigor:' Mas o poder colo­ nial (o domador) alia-se aos novos poderes. na alegoria do Palhaço Rico e do Palhaço Pobre. O esquema é mais com­ Investigação Teatral do Mindelo plexo. que todos conheciam por so-minas fica a plicidades históricas e políticas e da permanência partir de agora a chamar-se so-minhas. . mesmo de minhas! [ . enquanto o domador.tudo isto atira para a passagem por parte do autor. o Amansar Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo das Feras é a definição do poder político. Com uma epígrafe Importa referir que a vida quotidiana. que através dos ("fuzilar um homem duas vezes é ser desumano"). [ . o Grande Circo As Troianas Autêntico é a ditadura do novo poder. . Ao abordarmos agora e por vontade alheia. . ]" E por aí em diante! sinal contrário depois da independência. ] A sociedade das minhas nização/descolonização. meio a longo desta pesquisa são convergentes e muitas sério meio a brincai. filho na vala comum ("eu preciso de ser a mãe de E a fala afinal mostra um enorme desencanto todos os mortos") .. " Os leopardos actuam com ferocidade contra o coro. . o que envolve uma interpene­ de leopardos ascendeu . ] conta.1978) 1 1 1 . ao 55 ponto de o Líder Popular reconhecer que "trans- ..

Artur Vieira. o pequeno comércio de sobrevivência. e até as de teatro tradi­ lado. João Branco. seus problemas. disso exemplo flagrante. também não fogem. Mais optimista será Brito Os Dois Irmãos Semedo. Saíram da mesma ser de outra forma. 1999 mobilizadora e com função essencialmente forma­ Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo tiva" 1 I3. e por outro adiante encontraremos. 1 1 5 © João Barbosa António Aurélio Gonçalves e Cândido Ferreira propõem entretanto uma adaptação da novela do primeiro. Verde. amores e desamores e a esperança. As Virgens Loucas (199 6)116. Uma situação algo insólita prende-se com a as irmãs Titã e Zé. 2004 Jaime Figueiredo. para citar só estas referências. 1999 desta literatura é a área do teatro:' E só cita Terra de Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Sôdade . nelas subjaz a situação política. O que não impede a mamã Luzia de dizer: espectáculos do que peças originais. © João Branco e Descarado de Donaldo Macedoll4. Os mesmos e Preto no Bronco ainda alguns autores esparsos são referidos por José Grupo de Teatro Juventude em Marcha. e não poderia "Vocês são todos meus filhos. Manuel Ferreira. as alegrias e tristezas. E cita as peças Gervásio (1977) de O. Guilherme Ernesto.muito numerosa. Jorge Tolentino). as festas. os vizinhos e os amigos. na rados e os polícias quase humanizam o substrato obra citada. Tanto o conto. A família da mamã Luzia. que a realidade cabo­ -verdiana largamente justifica: "Viver é com luz:' Mena Abrantes. dúvidas e esperanças: as amigas de vida agitada.Argumento para bailado folclórico (1946) © João Branco de Jaime de Figueiredoll2. a esta também o quotidiano. Ano Noho. documenta muito mais a produção de político. Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ IC. da "Certeza" e do "Suplemento Cultural'. aliás. ao afirmar que "após a independência esse Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ Ie. Osório. 56 . género irrompeu em língua nacional com força Cabo Verde. algumas das peças já referidas enquadram cional. por um As expressões de teatro popular. reconhece-o: "Uma das formas menos expressivas Cabo Verde. teremos presente que. Mostram um quotidiano desencantado de homens e mulhe- res sofridos num meio urbano pequeno e pobre (o Lombo "zona labiríntica" do Mindelo). Cabo Luís Hopffer Cordeiro Almada (Eugénio Tavares. os namo­ escassez de teatro em Cabo Verde. em Calanga. não se Os Dois Irmãos preocupam com o teatro. que mais lado. os embarcadiços nacionais e estrangeiros. como a bem armada dramatização cénica traçam uma panorâmica da sociedade popular da cidade. Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Flávio José. Os poderosos movimentos barriga aqui! Ninguém é afilhado e enteado:' da "Claridade'. A Doida dos Cahoios ( 1987) 1 1 7 adapta à cena um romance de António Assis Júnior O Segredo da Morta (19 29) 118 . O Panfleto de Van Dunen é transversalidade. muitas vezes.

É como se estivesse no exílio. mas não se sublinhado e simbolizado na "cobra dos meus infor­ escusa a um claro pacifismo e apelos à expressão túnios e mensageira das minhas desgraças'." Expressões poéticas E finalmente: dentro dos critérios já largamente definidos. Mas a par do realismo. ] combater a intriga e cura da Calanga. a cargo do Forasteiro: "Venho de uma terra muito longe. Clara Pederneira. E finalmente. ] sepultar o racismo/ abrir a ver­ . vente mas enérgica na sua dimensão política. tanto mais interessante quando a divisão tribal! [ . 2002 Centro de Documentaçào e de inspiração. que pelos vistos serve Cabo Verde. redunda numa cena de marionetas em que os míti­ cos rei Amador e Andreza são evocados. que nos fez dramatização que aqui assinalámos. Mas também pertenço a esta grande família que é fermento do nosso povo. o que corresponde à perspectiva da o Che. do são-tomense Fernando relevantes pelo peso literário e político: A Esperança . da memória dos náufragos e da pro­ fecia do "filho que será o novo guia do nosso povo. Sobre dade/ calcar as preferências/ despir a vaidade/ des­ ele escreveu Pires Laranjeira que "vale sobre­ mobilizar o comodismo/ descalçar os santuários" tudo pela especificidade da representação social pois "autocrítica é o que se pede'� Cita-se entretanto e espacial" 1 l9.. da "Santificada'. uma vez mais. num símile com o mítico Jika. de São João de Angolares. se relaciona com a época do romance. aqui o teatro tradicional. Com uma nota política. não obstante não analisarmos o Chaka122 de Léopold Sédar Senghor. oscilando entra o realismo e o fantástico. lembrar. mas sem quebra de autonomia criacional. pela sua especificidade. diz a democrática popular à volta do mito do "velho'� velha D. as sobras/ Em nome dos olhos que vejo/ abater a E o mesmo se dirá da dramatização da lou­ demagogia e o calculismo [ .. um rei de todos ignorado crescerá do teu ventre" . fazemos referência a E citamos ainda três textos não analisados mas 57 Cloçon San ( 1 997) 120. numa situação que gira à volta de Madalena. será altura de referir que as expressões poéticas desta dramaturgia assumem maioritaria­ mente as formas do teatro e do espectáculo tradi­ cionais: o que não significa uma completa ausência de conotações políticas e sociais. atinge surge pelo menos na cena um certo expressionismo em primeiro lugar o regime colonial. a toda uma Investigação Teatral do Mindelo literatura. É o caso de No Velho Ninguém Toca (1 978) 1 21 As datas dizem muito acerca do ternário obviamente do angolano Costa Andrade. num contexto que traça Diz-se por exemplo que "é necessário iluminar bem a sociedade da época..tudo isto. De uma poética envol­ ligado à sociedade colonial. Trata-se. O carácter fantástico da intervenção de © Joào Branco "méssê Damião'. da sociedade Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/I(. a mulher de vir­ tude. do curandeiro.Satan de Macedo.

a) baleia vinha era dos países socialistas'� Nada disto supera porém o teor poético da lin­ guagem: "Os olhos de quem amamos são um barco. a partir do sonho-reali­ mento que já não é específico das situações histó­ dade do Avô Celestino e do pícaro . Interessante a adaptação enquanto amor de Luarmina e de Zeca Perpétuo. dentro da baleia:' Mas se calhar "( . Outro tom assume A Montanha da Água Lilásl29.. e A Montanha da Água Lilás - personagens entre pessoas. como Na Azuá. A Estória da Galinha e do aculturação de poemas tradicionais portugueses Ouro (1984) de Luandino Vieira.." E "nenhuma carícia [ . Zeca lamenta o facto de a "vizinha Editorial Caminho e eu não nos simetricamos já'. ] trabalhavam muito e eram sérios". .. "O Padre português [ . o que não é atingem uma expressão poética dominante. Mas o final pode permitir uma interpretação Macedo e de Mena Abrantes próximas do Tchiloli. . como está no .lírico diálogo de rico-coloniais. ] educou( -a) em pre­ ceito de Deus e o livro'� A certa altura fala-se de um "país capitalista (que) estava a abastecer os bandidos e as armas vinham pelo caminho do mar. Trata-se de uma "estória" de seres míticos. diferentes de todos os outros da terra'.. Mena ainda deve ser citado em textos de lia Luiza surge assim ligada à teatralização dos poética tradicional. 58 . animais e mitos. significativo pranto de sofri­ onírica de amor e morte." o Gigante (1989) 124 constitui um caso interessante E há peças que assumidamente procuram e de passagem de um país para outro. A Luarmina "para os devidos efeitos (não) é branca'. A (2005) 1 26 romance ."fábula para todas as idades" expressão poética está bem presente. ou como belíssimos textos em prosa: Mar me quer de Mia o Prodigioso Filho de Kimanaueze se casou com a Couto. 1 27 belo Monólogo para duas vozes Amêsa ou a Canção Vejamos a primeira. fábula para quarenta (2001 Moçambique). "mais lentos [ . .de Pepetela (2000).(1982) de Óscar Ribas. a mulher de Zeca © José Frade "rebolinha de prazer'� 128 E a nota política também está presente no con­ texto onírico. e os j acalupis. autor do conto e co-autor da adaptação Filha do Sol e da Lua (1989) 1 25. ] devolve tanta alma como a lágrima deslizando': .. e Amirá. é "mulata'. Natá­ habitual. os lupões. esperançosa: "Pingos de chuva/ já molham o chão/ Neste último caso. [ . de tamanho desmedido. De salientar a invenção ou utilização insólita de neologismos: os Mia Couto pés "icebergam'. . artistas. Pedro Andrade. . a Tartaruga e Miúdos ao sol! não matam ninguém.. filha de um marinheiro grego. os lupis "cor de laranja. e Sagrada Espe­ ("Lá vai a nau arrogante/ com muito para contar rançal23 de Agostinho Neto. "muito pregui­ çosos" e prepotentes.. ]/ Olha a triste viuvinha/ que anda na roda a cho­ Referimos as dramatizações de Fernando rar"). Assume uma linguagem do Desespero (1991). diz o romance..

fac-similada. C . Prelo Ed. 270 e segs. 1961. CRUZ. 1983. nas suas vertentes políticas..e também a de Portugal. animais. Editora Sá da ceou e Natália Luiza dramatizou em belíssimas Costa. nica e literária de teatro de matriz ocidental. cit. Neil T. . TINHORÃO.Das Origens ao Romantismo'.. a edição fac-similada de "O Mundo do Livro'. Alberto E.. formas de expressão dramática tradicional . reflecte a sociedade humana. a edição moderna de LuÍz Francisco Rebello. MILLER. 80. Cf. o lupi-sábio. op. p. BRAGA. Lisboa. p.e esse combate 6 Cit. Acto I. Alberto. 1... "Tea­ e de Timor. cimento dos avós dos nossos avós" sob a forma de Lisboa. Um Auto de Gil Vicel/te. Teófilo. e REBELLO. CIDADE. op. Cena XV. com destaque ainda modernas.l. citado. sd. 30 Cfr. de C. Ed. pp. apontam em certa medida Português . Sá da Costa Ed. 57-59. dências. 27 Idem. 472. s. in "Teatro Fernando Cavacasl30. 82 13 SAUNDERS. tuguesa vai mais para lá deste estudo. Teófilo. pp. res 1/0 século XVI .. História do Teatro Português. XXIV-XXV. pp. 32. Editora Cosmos. 2004. "História'. Duarte Ivo. pp. 223-233.l. Hernâni. 28 TINHORÃO. in GOMES. sd. Duarte Ivo. 11 CIDADE. Lisboa. Obras do amplamente se justifica no contexto das indepen­ Poeta Chiado. de Coimbra Martins. Alberto. Teófilo. ob. Editora. E de todo o Mundo ligado à cultura teatral. utilização da milagrosa água lilás. Há inúmeras edições bibliográficas sistemáticas. pp. 7 Ob. 42 e segs... 136-139 e pp. 1998. in CRUZ. mas também o jacalupi capitão ou o Ultramarina. Teófilo. Trata de um ver­ Ed. VaI. gação. GOMES. Lisboa. tro Português . com as componentes de desacordos e Idem. O teatro nos países africanos de língua por­ Lisboa. cit. p.. micas e morais. garante uma qualidade téc­ s. BRAGA. pp. lN CM.' Ed. Prefácio e Notas de Marques Braga. rivalidades entre os próprios lupis . se continuará a estudar.. cit. 1982. as respec­ Origens ao Ronlantismo'.. 270. PIMENTEL. que aliás 15 GARRETT. Maria Leonor Garcia da. cit.Das Enriquece as respectivas literaturas. LuÍz Francisco. 1961. 2 Vais. p. Ed. e PIMENTEL. 1971. Duarte Ivo. loco cit. ob. 22 Cfr. 20 Cit. Lisboa. 26 Cfr. cit in REBELLO. 398 e seguintes. LuÍz Francisco. 14 Todas as citações na edição de Marques Braga. s.. in "Teatro Português . cit.M. "Autos e Comédias Portuguesas'. ed. Editora Caminho.o que 21 Cit.e. Ed. Esta sociedade tipifica-se em funções distintas: Cf.. uma narrativa do Avô Bento.d. do Brasil 29 "Auto da Bela Menina'. GOMES.. Alberto E. e certamente o que 23 Cit. VaI. História Social dos Escravos Para lá deste estudo Libertos em Portugal. bons e maus. o 2 Cf. p. pp.Uma Os poemas do lupi-poeta "chegaram ao conhe­ Leitura Crítica da Expansão Portuguesa. BRAGA.Baltazar Dias. Ed. BRAGA. pp. Prelo. 46-47 Mas o que acima se deixa. I. p. E entram em conflito por causa da 3 CRUZ. Autos e Trovas de Baltazar Dias. adiante citada. Obras de Henrique da Mota. 1889. s. Lisboa. A . Arménio Amado. econó­ 8 Cf. 1898. cit. Coimbra. o lupi-diplomata. O Essencial sobre Teatro Luso-Brasileiro.Das Origens ao Romantismo'. 1977. loco cit. sd.e. 1963.. 1973. e que dá testemunho de uma utilização da herança IX-LXIII.] aprende­ de Hernâni Cidade e Notas de José V. de Aldónio Gomes e 19 Cfr... p. que Pepetela roman­ 10 As citações de Gil Vicente são feitas a partir da edição de Obras Completas.. tivas culturas . José Ramos.cit.. Lisboa. linguística e cultural comuns. 91 e para uma preponderância inicial pelo menos de segs. Hernâni. pp. Autos e Trovas de Baltazar Dias. Prelo. loco cit. 397 e segs. Poesia e Dramatlllgia Popula­ concilia com qualquer tema e qualquer ideologia. para o Dicionário de Autores de Literaturas Afri­ 18 Cfr. nos seus aspectos Verbo. Escola de Gil Vicente e o Desenvolvimento do Teatro Nacional. em especial o prefácio. Liv. ID. Alberto E . cit. A Literatura Portuguesa e a Expansão lupi-poeta. Funchal. ed. canas de Língua Portuguesa. que se 25 GOMES. Os Fumos da Índia .. II. Lisboa. 2001. dadeiro combate entre os três grupos e os restantes 4 Cf. Alberto E . Funchal. S9 rão com a estória"? 13 1 Lysia. Lisboa. Os Negros em Portugal. 24 Cfr. Prefácio Será que "as gerações vindouras [oo. 12 Gil Vicente. e CRUZ. ICLP. lupi-azarado.. s. ob. A análise dos textos disponíveis e das fontes 17 Publicado pela primeira vez em 1587. ob. cenas e diálogos. o lupi-pensador. José Ramos. op. INCM. Lisboa. Lisboa. prossegue num trabalhos permanente de investi­ 16 Cfr. 328-349.

Ed.. Lisboa. Lisboa. A1medina. p. 75 Edição Capricórnio. p. Cit. pp. VASCONCELOS. Lisboa. Livraria Brasileira. BRANCO. p. 83 Ed. Lisboa. Personagens das Comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. Introdução. 1982.a ed. História do Teatro Português. p. 2002. 1971. in Espiral. Ed. Setembro 2001. 202. Ed. Lisboa. Marques. Vol. Coimbra. 1979. Fernando. 1 1 1 . Lisboa. Ed. Vasco de Mendonça A Promessa. 65 A peça permaneceu inédita até ser publicada por Duarte Ivo Machado. p. CRUZ. 1997. 1959. 1988. túrgico em Portugal e nas Ilhas de São Tomé e Príncipe'. Duarte Ivo. 1931. R . 337. don. 78 Ed. Lisboa. 67 Cfr. André e Crabée Rocha. Lisboa. Clássica Ed. 59 ALVES. Ed. 45. Degredados. Também do mesmo autor. Nação Teatro . peça em 1 acto. Teófilo. Tomaz. Ed. n. INCM. edição de "Teatro Escolhido" de CURTO. 1936. I. 85 Ed. Artes Gráficas. em Lisboa (manuscrito).Lon. Mato e Morte. Nordeste'. 1939. Lourenço Marques. Lisboa. p. J. sd. Setembro 1967. "Espectáculos populares do 63 "Colonos'. IBNL. V. Lisboa. 36 RIBAS. Comédias Porhlguesas Feitas pelo 71 LELLO. Pedro. INCM.. 559 e segs. Manuel Ivo. "Le Tchiloli de S. Erico. 1966. Vol. proferida a 6 de Dezembro de 2003 no Pequeno Auditório 57 MÂNTUA. "Teatro Escolhido'. Luíz Francisco. Ed. Pereira. Universidade Editora. Teatro Quinhentista nas Naus da Índia. Lisboa. Ed. fac-similada. Lisboa. 37 Crr. 43 MARTINS.. E ainda VALBERT. Ed. Colegial deLetrase Lembran- Oeiras. Nogueira e Nota de Maria A1iete Galhoz. gal. António. I. Lisboa. Augusto. Le Tlleatre Neo-Latin au Porhl. Buriti. a Vocação d e Teatro. FRECHES. 339 e segs. Maria Odete Dias. 74. Domingos Caldas Barbosa. Bento. Universo Carolíngio . Ed. 70 VICTORINO. p. INCM. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. 82 Ed. Duarte Ivo. pp. 55 Cfr. lI. Ed. Liv. 1915. BAREOSA FILHO.1986. 45 FRECHES. Teatro PopularPorhlguês. Introdução. Comédia Ulissipo. cit. ed. Brotéria.Teatro Completo. Bento e SACRAMENTO JÚNIOR. Nizet. 58 MÂNTUA. 53 Cfr. Ed. sd. Livros do 68 SÁ-CARNEIRO. Lisboa. idem. 2004.. São Paulo. SPA. Lisboa. 100 Anos de Teatro POrhlguês. "Amizade'. "O Tchiloli ou as Tragédias de São Tomé e 62 Cf. E d . 1971. Lisboa. 1968. "Caminhos do 56 MÂNTUA. 219 Livro. pp. in François Castex. Lisboa. 62. Kelps. Virgínia Victorino. Júlia. Duarte Ivo. O Vencido. SPA. 2005. Cfr. CURTO. 21. pp. 38 BAPTISTA. 52 CRUZ. Mário de. "O Mundo ESTC. Livraria Brasileira. A. 2003. Sobre a identificação de "Caldas o 87 TAVARES. 69 SÁ-CARNEIRO. Panorama . 35 VALVERDE. sd. Cotovia. 61 VIANA. 84 Ed. Ed. 40 VERfSSIMO. e em Lisboa'. 51 TINHORÃO. in Panorama. Casa do Sul. 60 Cfr. Duarte Ivo. 60 . 47 PEREIRA. Paulo. cfr. Bento. João Maria. ed. 1971. 1995. INCM. Vol. Iko Verlag füI ção. sd. 44 BRAGA. 47-49. I. "Diário de William Beckford em Espanha e Portugal'. Lisboa. Coimbra. Mesquita. 73 Edição A. 1990. O Cerco ESTC. Ed. Évora. Lisboa. p. Salvador 2005. 48 Cf. Prefácio aA Vingança da Cigana. Cabo Verde'. Lisboa. Caminho. 2004. 2000. Ramada. 1923. Claude-Henry. e KALEWSKA. da Universidade de Varsóvia.. Parceria A. O Essencial do Teatro Brasileiro. Vol. J . Brasília Ed. 36. 39 BAPTISTA. 1995.o Tchiloli de São Tomé'. Ed. 2004. 1975.. in "Teatro Completo" de Marcelino 32 SIQUEIRA. Ed. 1927. Universidade Cruz na revista Contravento. p. 1925. Livraria Popular Francisco Franco.. Brotéria. Ramada. p.163. pes- 34 REIS. Livraria Aillau e Bertrand. Brasília. Príncipe'. Alfredo Cortez . comunicação pp. 89-90. 1913. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. 72 Cf. Lisboa. ças. Lisboa. p. . Lisboa. Verão de 1965. 41 Crr. 2005. 2 Vols. Ed. António Manuel Couto. Miguel Sousa. 1973. ANDRÉ. "Mário de Sá-Carneiro e a Génese da Amizade'.. 64 Representado no Teatro Nacional de D. Lisboa. 76 Ed. Máscara. Floripes Negra.O 1 . Coimbra 2001. Introdução de Manuela Brasil. Lisboa. Lobito 1974. 2002.. Cidade da Praia 2004. 1989. José Luís Hopffer Cordeiro. Hermilo. Capricórnio. ibidem. Ed. Interkulturelle Kommunikation. 1997. pp. Lisboa. As Avenhlras de Anfitrião. Ed. pes- Livraria A1medina. Goiânia. "Baltazar Dias e as Metamorfoses do Discurso Drama. Vera Lopes de. 2. cit. Silvina. 1997. Lisboa. Teatro Quinhentista da Índia e do A1medina. 2003. 1983. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. 33 e segs. Ed. 50 BIÃO.. Lisboa. Capricórnio. 1991. 86. p. 2000. lN CM. 1992. 6. "História" cit. in Alves. Verde" in Revista Cullllral. Lisboa. SPA. Ulmeiro.SNI. FCG. 42 Cf. 108. de Coimbra. Livraria Ed. Mário de. Lucciana Stegagno. Lobito. Lisboa. "Teatro de Cordel na Bahia 80 Ed. Ed. Claude-Henry. Ed. BN. BRAGA. Lobito 1973. A. Japão. Ed. Ed. 162. Leite de e GUERREIRO. Ed. Cena Lusófona. "Das Tchiloli von São Tomé'. de Tânger. e CRUZ. 1964. 54 Fialho de Almeida. INCM. A Linguagem das 74 Edição Capricórnio. Coimbra 1989. Excelente Poeta Simão Machado. O Álcool. ed. Equador (romance)."História do Teatro em 46 Idem. Ed. 69. lar Mirandês. "Teatro Medieval em São Tomé e Príncipe'. Maria II em 1936. do Livro'. "O Teatro em Cabo 79 REBELLO. selec- 33 PEREIRA.. 331 e segs. Mário. pp. 77 Ed. CRUZ. 86 Ed. "Tradições Pirenes'. João.31 PICCHIO. Lisboa. prefácio e notas de CRUZ. e outros. CRUZ. Tomé'. 94-95. Paris. SCTEB. Textos de Cariz Profano. 1989. Lisboa Portugália Ed. policopiada. 2 Vols. Oficina do Poeta'. Vol. op. Lisboa. cit. Teatro Popu. Anna. pp. 136 e 143. Campo das Letras. 66 CRUZ. Ed. 81 Ed. Virgínia. pp. Ordinário Marche!. Duarte Ivo. M. Christian. pp. Duarte Ivo. Lisboa. Armando Jorge de Carvalho. Lisboa. Actores e Autores. p. Ed. 1969.. Teatro Maizum. 41 e segs. Ed. Coimbra INCM. Celta. Lisboa. Frankfurt am Main . 49 ALMADA. O Tempo e o Vento.

M. João. CEA. Caminho. Hélder. 115 Almada.' ed. Mia e LillZA. pp. ICLP. 123 Cfr. 4. Coimbra. "Teatro II'. "Teatro I" cit. p. "Teatro II" cit. A Revolta na Casa dos ídolos. 155-200.. cito 107 O Cão e os Call1lldas . 98 MACEDO. Coimbra. Vol... A Montanlw da Água Lilás cit.. 1977. ABRANTES. l l l-120. J. O Elogio da Ignorância. Junho. Lisboa. du Seuil. 1998. das em São Tomé. Ed. ob. "O teatro em Cabo Verde'. Manuel. Ed. 1998. cito 61 . pp. 106 A Pele do Diabo. Fernanda e GOMES. Ed. pp. Ed. Luanda. 2000. 128 Mia Couto e Natália Luiza. Ed. 2002. Ed. 1999. Editora Afrontamento. L. Aldónio. José Mena. 60 e segs. in Revista Cultura. 1979. cit. p. BAPTISTA. Setembro 2001. pp. pp. Ed. Nzila.. Biblioteca do Com. M. 5. pp. Brito. 96 ABRANTES. 105 O Panfleto. pp.. Universidade Aberta. A Corda. LARANJEIRA. 1997. África Editora. 70. 1964. in ob. Augusto. Macedo. pp. 2005. 201. Centelha. 223-262. Ed.. "Teatro 1'. "Teatro 1'. 101 PEPETELA. A Montallha da Água Lilás. crónicas. Costa No Velho Ninguém Toca. Lisboa. romance. 131 PEPETELA. 126 COUTO. Ed. e Júlio de Castro Lopo "Uma Rica Dona de p. Alfaómega. Cena Lusófona. 1979. Publicações Dom 129 Pepetela.O 1. José Mena. Ed. BOAL. Ed.. Ed. Coim­ pp. Luanda. 1977. Brito. 1998. cit. Literaturas Africanas de Expressão 27-84. M. Augusto. 93 ABRANTES. 50. cit. Tomé e Príncipe'.. 94 COSTA. Ed. cit. Paris. 13-56. 125 ABRANTES. A Montanlla da Água Lilás . fona. 100 Cf. ob. pp. Remete-se para a bibliografia no capítulo 112 Jaime de Figueiredo cit. ob. J. cit. cit. Quixote. José Mena. Ed. Leopol Sédar "Chaka'. 88 Não há texto publicado das numerosas versões representa­ 1 1 1 "O Grande Circo Autêntico'. Coimbra. bra. Cena Lusófona. a Doida dos Ca/lOios. 1988. "O teatro em Cabo 92 Remete-se a bibliografia histórica citada em "Teatro 1'. 109 Idem. 277 e segs. Natália. EUA. J. 97-136. especial "História de Angola'. 65-74. Lisboa. J.. J. Lisboa. pp. Popular'. 243. 85-100. Coimbra. 1978. Junho. Cena Lusófona. 179-219. Ed. Lisboa. 1 1 6 As Virgells Loucas. . 1. op. Prov. Zé do Telllado. p. José Mena. in "Teatro I" oh. in SEMEDO. 90 NEVES. 119 Cf. in Poemes. 120 Cloçon San. 1995. 68. sd. Luanda. 2000.a Ed.. 124 ABRANTES. em Verde'. in Revista Cultura. António O Segredo da Morta. pp. c . iII FERREIRA. Cena Lusófona. 103 Acllada Grande do Tarrafal. 130 CAVACAS. 201-222. in 113 O. 1 1 8 ASSIS JUNIOR. "A produção literária Revista Camões. "Técnicas Latino Americanas de Tean'o 122 SENGHOR. Luanda'. as Luzes e as Sombras'. Lisboa. Lisboa. Ed. raturasAfricallas de Língua Portuguesa. Lisboa. 2000. "O Teatro em Angola'. 1978. 127 PEPETELA. Pires. Regressados. Centelha. cit. Ed. Literaturas supra. cit. llO "Teatro 1'. BRANCO. Coimbra 1999. Cena Lusó­ 104 As Mortes de Lucas Mateus. 97 ABRANTES. M. p. 89 Cfr. "Os Teatros. 162-316. in SEMEDO. Portuguesa. 117 Calanga. in "Teatro 1'. Luanda. Cena Lusófona. sd. 114 D O NALDO. Publicações Dom Quixote. Edições 70. "Teatro 1'. EUA. Africallas de Expressão Portuguesa. 99 Cfr. 162. 1980. Vol I. cit. Fernando de "Teatro do Imaginário Angolar de São 121 ANDRADE. Sá da Costa. Osório cit. 1975. 2002. Dicionário de Lite­ 108 Idem. Coimbra. António Loja. pp. 1999. Lisboa.. cabo-verdiana após a independência" in Revista Cultura. Luanda. n. Mar me quer. cit. Lisboa. Ed. p. Coimbra. 1977. romance. 95 ABRANTES. 91 ABRANTES. 102 Idem.

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como era seu hábito. Não aparece um arrojado empresário que arrisque uns contos de reis num giro de experiência pelo Império Colonial? [ .praticamente todos foram actuar ao Brasil. 1969 Pinheiro (1873-1933). Beatriz Costa (1907- . nem mesmo como meio de arranjar colocação (1 900. tal era a quantidade de barcos de carreiras regulares que transportavam nos seus camarotes. © Manuel Maria de Santa clara Vasco Santana (1898-1958). mas sempre inteligente. e num Contribuição para o estudo português exemplar. levando até a que alguém poeticamente (ou teatralmente) apelide esse permanente vaivém como um grande palco sobre o oceano Atlântico.1 925). um lúcido e oportuno artigo intitulado "Rumo a África'. utilizando a linguagem da época) teatrais de companhias e actores portugueses às suas colónias de teatro e dos actores africanas. em tom de apelo e portugueses em África desafio. As idas [às vezes sem volta. teatro e actualidades Espectáculo. nessa data. "morreram todas as tentativas de organiza­ ção de tournées às Colónias? Ninguém mais pensa nisso.1964).. Carlos Leal fazia uma espécie de síntese do que acontecera nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX quanto a opções (hoje diríamos estratégias) de digressão e circulação das principais companhias teatrais por­ tuguesas e dos seus actores. como Eduardo Brasão (185 1 . ] . nas páginas do semanário de cinema. Chaby Paquete Uíge ao largo do golfo da Guiné. E arriscavam tudo com as tournées ao Brasil!" De Jo s é Car l o s A i V ar e Z facto.1 974) para alguns desempregados? . onde seus pais se encontravam. António Pinheiro ( 1867. Lucinda Simões (1850.. Questionava então o actor. numa prosa rebuscadíssima. neste artigo. Rumo a África EM 1 936. como são os casos de Ester Leão ( 1895-1971) ou Maria Júdice da Costa (1870-1960)] ao Brasil são constantes. escrevia o ilus­ tre actor Carlos Leal ( 1 877. Maria Matos ( 1886-1952).1943). a viver]. alguns deles fazendo mesmo uma parte significativa da sua carreira entre cá e lá.1928) e sua filha Lucília Simões [(1879-1962) tendo até nascido no Rio de Janeiro. da presença das companhias a propósito da inexistência de digressões (ou tour­ nées. entre Portugal e o Brasil. as nossas melhores companhias e os nossos mais populares e famosos actores e actrizes .

inv. uns bons anos outro.' 92 895 1996) ou Carlos Leal.e o Gil colónias sem quaisquer garantias. n. as deslocações de figuras de peso inundam o Brasil (e quase toda a América Latina). algumas situações mais de raiz teatral.' 791 143 Maria Matos Fotografia. n.d. a as poucas digressões normalmente asseguradas inexistência de uma dramaturgia local e. a impossibilidade de permutas. parece-me interessante referir um outro das Ciências Sociais.d. Aliás. ao contrário. Escreve ele 64 . a Hortense Luz (1900-1984) e Maria Matos]. s. fortes justificações tâncias e das condições de transporte. dá como exem­ Vicente. inv. entre muitos e muitos outros. a este e explicações cientificamente tratadas no âmbito propósito. do nosso teatro [são excepções as actrizes bem como a carência de público qualificado. MNT. já desaparecido . em 1924. com uma fachada muito semelhante à do plo um episódio recente que envolveu artistas de Teatro Paliteama de Lisboa. para além das dis­ conh'aste encontra. por um lado. como antes. do século xx. sendo falta de técnicos. o autor. por artigo escrito por A. Intitulado nas principais cidades das colónias africanas (são ''A triste odysseia de alguns dos nossos artistas nas excepção os dois teatros de Lourenço Marques. Victor Machado. também não são alheias. ainda em actividade Já para África são raras. sobretudo. MNT. no primeiro número do quinzená­ a quase inexistência de verdadeiros teatros à italiana rio Correio dos Teatros por ele dirigido. o colónias'. e do qual apenas resta o primeiro plano da vida teatral de então. Carlos Leal Fotografia.um teah'o mandado construir por um ita­ escrúpulos de um qualquer empresário de momento liano e que era preferencialmente frequentado pelos que pretende contratar artistas para trabalharem nas estrangeiros aí residentes. normalmente pouco ou menores dimensão e qualidade. depois de dar notícia da falta de Varietá . até aos anos quarenta na actual capital moçambicana) que. s. Se este flagrante nada profissionais em África. pelas então designadas trupes ou companhias de as condições empresariais. nome adaptado a um cinema.

quando não quase inexis­ de fome . acabados actuaram nos diferentes palcos espalhados por de serem recebidos em Huambo onde "agrada­ todo o território nacional ou. a um dos episódios colo­ ticamente. esta situação reflecte-se. vestígios.. a trupe de Thomaz Vieiral mil espécies. essa presença foi sempre vencimentos ridículos . está vez mais a África. em alguns períodos. por exemplo. por ram sobremaneira'. campanha de Chaimite e a derrota. em 1938. traditórias e dos contratempos que terão.fiados nas promessas cynicas do 'engra­ tente. degredados. e consequente Vem tudo isto a propósito da intenção e da detenção (1895) e extradição para Portugal con­ origem deste texto: fazer um roteiro e traçar um tinental do régulo moçambicano Reynaldo Gun­ percurso da presença de companhias e actores gunhana (?. pelo menos. obviamente. em contraste absoluto com o que se passava xador de artistas a preços reduzidos� Tudo por lá se com o Brasil e até. directamente.o suficiente para morrerem extremamente diminuta.1917). o qual. que os actores "lá foram. publicado poucas semanas depois. uma mas que. quanto é certo que está absolutamente História. pode equilibrar-se. 65 (MNT). a instituição de referência no nosso país quanto à Romualdo de Figueiredo. apesar de um dia para o outro a braços com o Destino que de ser um museu nacional e de se assumir como lhes foi bem adverso. tina. influência cultural africana. pretensões (poderá Vêm a caminho desiludidos e sem trabalho para a ter esse "utópico" desejo. bem como duma muito substancial parte dos Maria Matos (a grande actriz mais Afonso de Matos actores e actrizes que. um extraordinário êxito'� O vestígio mais antigo à guarda daquele Museu Maria Matos. ao longo dessas décadas. e Os Gera/dos:' documentos e memórias de praticamente todas Curiosamente. todo feito à mão (pro­ como Angola e Moçambique). com o teatro (ou. por certo. Maria Matos. por certo. apenas. dá século XIX até aos nossos dias por cá foram cria­ conta. portugueses (ou da Metrópole. através das colecções vavelmente) por aquele chefe indígena e por ele existentes no acervo do Museu Nacional do Teatro oferecido ao actor António Cardoso ( 1 860. com a criação teatral) atingido esta sua digressão. melhor ainda. onde alcançaram dominante. todos os períodos e África não é o mesmo que ir a qualquer das nossas todos os elementos que constituem essa vastíssima províncias. aconselhando exaustiva e completa. pelo menos. que apesar destas notícias con­ é um objecto que nada tem que ver. Afonso de Matos. encontraram-se riamente. Trata-se de um pequeno cesto. nas peças e documentos que que "é preciso que se convençam de vez que ir a constituem as suas colecções. Longe das suas terras. Teatro é actualmente constituído por mais de 250 Os Temos. não tem. com a Argen­ desmembrou. Mossamedes e Lobito. o acervo do Museu Nacional do de artistas. nele incluindo. numa pequena notícia. com repertório leve. recebida apoteo­ ligado. simbolicamente. vilipendiados. clara e necessa­ os infelizes artistas. onde. como então se desig­ de notável equilíbrio estético e marcadamente de nava) na África colonial (entendida aqui. auferindo uns Como já ficou claro.. o número quatro do mesmo as companhias profissionais que desde o final do quinzenário. é alvo de inúmeras homenagens. Ora. demonstrado que na África só um pequeno grupo No entanto. volta. no acervo daquele Museu. preservação da memória da História do Teatro em que faziam parte da companhia. foram desligados. e Gabriel Lopes) por terras de Angola. para além do enigma que representa. Portugal. como niais da nossa história imperial mais conhecidos: a é descrito no seu livro de memórias. um dos comediantes mais populares e queridos do . da digressão do Trio das. depois de "terem percorrido todas as regiões onde a língua portuguesa era Lubango. dos seus lares. Tina Vale e Maria Helena. ) de abarcar de forma próxima época de verão:' E continua.1906).

um cartão-de-visita do referido actor. Ester Cardoso. uma grande parte da sua carreira sempre no mesmo teatro. Este cesto. permanecendo a relação e o "encontro" daquele régulo moçambicano com um dos actores mais populares da vida teatral portuguesa daquele período como uma incógnita. Duas coisas são.· 80 296 século xx . inv. pelo que ficou também 66 . cujo valor simbólico e afectivo parece evidente? São tudo questões para as quais não conhecemos resposta. continha no seu Cartão manuscrito por Reynaldo Gungunhana. 1902 interior um pequeno cartão manuscrito e assinado MNT. aliás. n" 80 296 pelo próprio Reynaldo Gungunhana. com os dize­ Actor Cardoso res: "Esta cestinha é destinada ao actor Cardoso. doado ao Museu por D. inv. inv. o Ginásio. familiar directa do actor.d. n" 20 709 30-8-902'. Fotografia s. n. com os nomes "António da Silva Pratas Godide" e "Roberto Frederico Zixaxa" manuscritos no verso e um pequeno recorte de jornal com a notícia "Com 120 anos morreu a viúva do régulo Zixaxa': Qual a relação que tudo isto tem com aquele actor? O que terá levado Gungunhana a lhe oferecer tal objecto. absolutas certezas: o actor António Cardoso nunca terá viajado pro­ fissionalmente para as colónias. contudo. MNT. Cesto executado manualmente público lisboeta do final do século XIX e inícios do por Reynaldo Gungunhana MNT. fazendo.

. conhecido p elo "Cardoso do Ginásio". de Lourenço Marques.. 3> cado' O Grão deBico. 1931 MNT..' 66 712 ques a célebre Companhia Hortense Luz. n.. este bastante completo e graficamente muito trabalhado) e uma notável descrição constante no Dedicada à ilustre Imprensa livro Memórias Ultramarinas de Virgínia Cabral Fer­ de Lourenço Marques. e por lá permanecendo em cartaz durante algu­ mas semanas. Nós íamos às mati­ nées para uma frisa acompanhados pela governanta. primitivo e de tanga. 67 actriz e fadista muito querida do público lisboeta. em 1925. Lourenço Marques. com a revista Rez-Vez. '* . . anunciando a presença da Companhia Filomena Lima·Adelina Fernandes. .'IJ alcançado grandes êxitos em Lisboa. que a propaganda Programa da Companhia Hortense Luz do Estado Novo colonial durante décadas tentou Teatro Varietá. quer a partir dos manuais escolares até ao cinema "oficia\'. Meu irmão Augusto. "ampliada com números novos e fados e guitarra" por Adelina Fernandes (1896-1983). Desta presença em Moçambique restam dois programas (um para o 'melodrama musi­ Récita da ac!ris . no mesmo Teatro Varietá. n. SfleI\DO. e o ainda jovem Eugénio Salvador (1908-1992).' 135 059 criar no imaginário colectivo de muitas gerações de portugueses do século xx. de Jorge Brum do Canto. que só há bem poucos anos nos deixou. Foi um sucesso! O velho Teatro Varietá estava sempre cheio. estreando­ -se. ] por essa altura foi a Lourenço Marques a Companhia de Teatro e Revistas de Hortense Luz. �� I\s 9 HORI\S DI\ NOITE = até à sua m0l1e. 1925 MNT.. tendo no filme Chaimite (1953). Tendo já �la�R«1) !iftIHJiU . actuava pela primeira vez em Lourenço Mar­ Teatro Varietá. Lourenço Marques. 28 DE NOVEMBRO DE 1925 trabalhando sempre como notável compere de revista. esta Companhia. . Alberto Ghira (1888-1971) ou Alfredo Ruas (1890-1966). principalmente os cómi­ Reynaldo Gungunhana não era o perigoso sel­ cos e os bailarinos. o---<:>--mn:ru G do empresário Mário Pombeiro.Programa da Companhia Filomena Lima-Adelina Anos mais tarde. numa digressão a Fernandes África. 1916). Escreve esta autora que ''(. o seu máximo exemplo. e outro para o vaudevil/e O JO/ge c( " '* s> I1 DELlNI1 fERNI1NDES Cadete. em 1931. nandes (n. inv. inv. tinha como principal Companhia Filomena Lima'Adelina Fernandes figura a popularíssima actriz H0l1ense Luz (que lhe dava o nome) e era integrada por outros actores que Direcção Musical do maestro Tomás Jorge fizeram história no nosso teatro como Henrique Alves (1873-1934). o régulo A revista tinha bons actores. mais novo do vagem. A primeira referência propriamente teatral exis­ tente no acervo do Museu Nacional do Teatro é um bonito Programa do Teatro Varietá.

deram a volta à cabeça de muitos homens e lhes esvaziaram as carteiras:' 68 . inv. são muito raras as memonas Programa da Companhia Hortense Luz (quer descritivas. Programa da Companhia Hortense Luz Cine-Teatro Barbara Volckart. integrados na mesma digressão: na capital angolana. na inauguração do Nacional Cine-Teatro de Luanda. Alfredo Ruas era o seu preferido:' E conclui Virgínia Cabral Fernandes. quer iconográficas) destes espec­ Nacional Cine-Teatro. n. em Benguela.-\ -\ I tT í ST r ( ' _-\ o que dava muito realce à representação. . n.) '' Gine Teatro Barbara Volckart BEI'IGUELA 22 de Dezembro de 1931 que eu. muitas lantejoulas e . de outros espec­ L O A N D A. Benguela. inv. ria-se perdidamente. F [<:til . com a revista Zabumba. 1932 MNT. DE = léu das bailarinas. bem C O M PA N H I A como dos teatros onde tudo se passava. N a c i o n a l C i ne-Teatro através dos respectivos programas. no mesmo teatro em finais do mesmo mês com Revista das Revistas (uma selecção dos melhores números de 12 outras revistas aplaudidas em vários teatros de Lisboa) e com o já referido O Grão de Bico. 93::2 táculos em África. coronel DA - Pereira Cabral: "O guarda-roupa era espectacular. batendo com um dos punhos com força no parapeito da frisa. 1931 MNT. também levado à cena ainda em Dezembro de 1931 no Cine-Teatro Barbara Volckart2 (não se encontrou qualquer infor­ mação sobre este teatro). segundo as más línguas.\ IIORWiSR LUZ . Muitas plumas. em 1 de Janeiro de 1932.' 135 054 táculos e dos ambientes que proporcionavam. filha do então governador-geral de Moçambique. O corpo de baile era formado por jeitosas raparigas que. . muitas pernas ao \. HORTENSE LUZ Desta mesma Companhia há ainda notícia. Luanda.' 135 091 GOIIPÂNIII. 2'7 de Janeiro üe 1. Infelizmente.

que tão notável êxito Octávio Mattos (1901.. "o nosso 1. parte "no ecran" com diversos documentários cine­ que actuou em Luanda no Club Transmontano de matográficos (como foi hábito em todos os cinemas Angola. 1 1941 MNT.1964).1988) e Berta Monteiro ( 1898-1960) e o tenor à apresentação única de um recital pelo "grande portuense Morgado Maurício (1908-?).1951). "o ídolo da Ainda de 1941 é um exótico programa refe­ cena portuguesa nas suas mais gloriosas criações rente a uma digressão por terras de África do actor das revistas e vaudevilles. n. se poderá assistir (1899.Programa da digressão por Angola de Ling-Chong.' 103 424 �) \ NAS COLÓ N IAS PORT U G U ESAS De Setembro de 1935 é um programa para Em plena II Grande Guerra. destacavam-se as actrizes Cremilda Torres até aos anos setenta do século xx).. pai do actor Octávio de alcançaram em Portugal e no Brasil': Matos (1939). em Ling-Chong "the devil de África. actor" Estêvão Amarante ( 1889. que "enquanto passava a galope a quadriga dos .0 actor excêntrico que poderia mente a hipótese de que Estêvão Amarante seria um ser um dos maiores actores do teatro português" 69 dos passageiros em férias naquele cruzeiro. empre­ o Nacional (deverá ser o atrás referido Cine-Tea­ ende uma tournéeteatral pelas colónias portuguesas tro Nacional. Nesta companhia. inv. em 1941. de Luanda) sobre um espectáculo de Angola e Moçambique a Companhia Embaixada extraordinário em homenagem ao Cruzeiro de da Saudade com a revista e "um dos maiores suces­ Férias às Colónias no qual. a leitura do programa leva a colocar forte­ man'. depois de uma primeira sos de Lisboa" Iscas com Elas. um dos actuais resistentes da revista Sem existir qualquer indicação segura sobre a à portuguesa e um dos mais populares cómicos origem da presença de tão notável actor em terras das nossas televisões.

prematura­ português. rara no meio teatral mulher Helena Tavares ( 1932. Mariamélia ( 1908-?). Jaime San­ 1955. demonstrando grandes nomes do teatro português. tinha estado já em décadas. da português nesta arte difícil. Varietá. "E vemos Lisboa e Porto consagrá-lo nesta nova modalidade'. durante algum tempo.· 6/1767 assinado pelo Dr.1 979). Ainda no mesmo ano actuam no Teatro 1935 em Angola. sobretudo. mente falecida. é o Programa das cartaz da tournée da opereta Zé do Telhado àquele Festas da Passagem do Equador e Espectáculo de continente. integrando o elenco da digres. Maria Coelho ( 1923-2000) no paquete Uíge. no Cine-Parque de Luanda. um misto entre a Revistas Carlos Coelho arte do ilusionismo e a revista à portuguesa. como veterana. da qual restam inúmeras fotografias 2005). abandona o surto Programa da Companhia de Revistas Carlos Coelho glorioso da sua carreira artística para. "e tão alto se guindou que o Estado não hesitou em subsidiar a sua digressão a África.. que. para que nestas p aragens des t a s i longínquas do Império se saiba que um artista . a revista-fantasia Sonho de são da revista Olha o Balão!. onde regressaria novamente em 1949 "Music-Hall" pela Companhia de Revista Carlos integrada no elenco de uma outra revista. vestindo um Festa da passagem do Equador Paquete Uíge. esses magos construtores 8a ssa g e Jll do 8 q u a d o r de maravilhas': e Octávio Mattos (que ficou. como MNT. conhecido na vida social e teatral lisboeta 8speclácu[o de "cMusic-8eall" como Fumanchú) apresentava nesta digressão o pelo c o m p a n h i a d e espectáculo Parada de Ilusões. mas também já. (com uma Dando corpo à já referida imagem do oceano carreira desigual e hoje lembrada.gloriosos por convencionalismo. Brasil ou. igualou os nomes dos ' Changs ' e ' Fumanchus '. com "ensenação de Ling-Chong" que. bem como todo o material avaliado no valor de 400. Da companhia deste excelente actor de notáveis e versáteis actores portugueses das últimas revista. como a sua uma forte ligação a África. neste caso. inv. faziam parte outros Pierrot. pois em 1948 foi cabeça de verdadeiros palcos flutuantes. em Abril de Adelina ( 1930). sobretudo pelos Atlântico como um imenso palco ou dos paquetes seus magníficos retratos pintados e esculpidos que constantemente o cruzam entre Portugal e o pelo seu irmão Júlio de Sousa. Mello e Alvim. Canto e Castro (1930- Moçambique. n. malgré tout. 70 . muito novo ainda. recentemente desaparecido e um dos mais de cena. as colónias africanas. aparecer no palco como ilusionista'. em África. Luís Horta (1919-1991). numa peça infantil (o que não deixa de ser. 1955 kimone.000$00': Mas já em 1924. Octávio Mattos surgia como cabeça de cartaz do espectáculo de beneficência da Troupe Violetas. lê-se ainda naquele texto. a caminho de uma digressão por Angola e tos (1914-1966) e. n O I 034 024 PAQUETE "UIGE" Viagem se pode ler no texto introdutório daquele programa. depois do êxito no Coliseu dos Recreios de Lisboa "este artista se esforça por apresentar-vos de igual maneira.

com um magnífico De 7.. foge ao habitual formato de revista -fan­ tasia . uma novidade).. n. que Fotografia s. 2690 I ElEF. male . com também. sua mulher Luísa Durão prenunciando. c.-eçoe r'edu::r. a segunda novidade é a página de publicidade à companhia aérea belga SABENA que.. "Costinha" (1891-1976). a quase totalidade da programação artística das diversas digressões a África até então.' 56 684 apresenta duas grandes novidades: a primeira. 1954 MNT. anunciava voos regulares para Luanda (para onde a nossa TAP voava também já desde 1947). 3310 LUANDA f) �(lConjttutota 71 . De 1954 é um programa para o moderno e numa peça infantil espaçoso Cine-Teatro Restauração de Luanda.Maria Domingas.:l doe pelas • L-.. Costinha e Lulsa Durão. l n h _ . a participar transporte de longo curso e uma brutal redução numa digressão a Moçambique. por certo. 601 L U A N o A T o l e r. MNT. Luanda. redu­ zindo-se o repertório à comédia O DI: Juiz de André Ferdinand.d.mágica .. Programa da Companhia Berta de Bivar-Alves da Cunha Cine-Teatro Restauração. P. inv. vizinho de Angola. 3028 � -----�--_·�--�----·- I REST Çà O I 9C 1 NÃO SE A SABENA C O M P R O M E T A S E M C O NS U L T A R 1 PAIl�ARD@ COM O ' D(l/iJ«� PROJECTOR Representantes GeraIs p.' 59 056 � 11 .. ( I N E-T E A T R O DO � ( C.aplda. inv. os actores Augusto Costa escala no então Congo belga.vaudeville que representava. STUDIO DE PUBLICIDADE ARTlsTICA . no tempo de viagem para aquelas zonas do globo. assim. n. P. uma completa revolução no (1899-1977) e Maria D omingas (192 1).

sempre com grande êxito. fazendo-se a mesma distân­ cia de avião em apenas três dias (com tendência para ir sempre encurtando esse tempo). em Malange. inv.Alves da Cunha (1889-1956). sobretudo. hoje ainda em grande actividade teatral. n. um casal de dois enormes actores do nosso século xx..' 223 388 década e da que se lhe seguiu (obviamente até à sociais.. Calulo. mas sem consequências de maior). Resta dizer que esta comédia era levada à cena pela notável Companhia Berta de Bívar ( 1889-1964) . ) numa . mais evidente. José Amaro (1915-1975). uma viagem de barco (só ida) poderia demorar até um mês (estamos a falar de Angola e Moçambique). que partiu de Lisboa no paquete Império (exac­ tamente no mesmo dia em que este barco sofreu uma enorme explosão. Ricardo Alberty (1919. levando à anulação da prevista continuação da digressão a Moçambique. cidade onde acabariam por embarcar no paquete Pátria para regresso ante­ cipado a Portugal. no que respeita à vida teatral e cultural (e não só. o que. Benguela e Lobito. Carlos José Teixeira ( 1920-1977) e a esplêndida Cecília Guimarães (1927). como é óbvio. podia alterar claramente a organização e a pro­ gramação das digressões.t963 influentes e activos empresários teatrais daquela esta situação um conjunto de alterações políticas e MNT. a ser feitas preferencialmente nos paquetes da CNN (Companhia Nacional de Navegação). ainda durante alguns anos. e consti­ tuída ainda por outros actores "históricos" e ines­ quecíveis do teatro português como Maria Schulze 1912-?). Empresa Giuseppe Bastos Digressão a África com todo o país). as "digressões ao Ultramar" entram. na programação anual das diversas companhias de teatro comercial existentes em Lis­ boa (à semelhança. nova fase de relacionamento com as colónias. actuando. A partir do final da década de cinquenta. entrando-se agora. fruto da vontade dos três mais contribui também directa ou indirectamente para Fotografia. apesar das longas viagens "teatrais" continuarem.A título de exemplo. em definitivo. percorreu uma parte do território angolano. Esta companhia. das quais o início da guerra colonial será a descolonização): José Miguel e. de resto.1992). por doença súbita de Alves da Cunha. Giu. 72 . Por outro lado. o que poderia signi­ ficar também uma terceira novidade. com o que acontecia seppe Bastos e Vasco Morgado.

de desta­ regresso ou à passagem por terras africanas (alguns. Manuela Maria (1935).A Programa da Companhia Teatro Alegre. Mariema (1943).. inv. Irene Isidro. Eugénio anual. que Isidro (1907.< Palmira Ferreira. e. S RIQUE SANTANA M/ 17 a nos 1962 -====1. António Anjos (1936.o 174 660 ao D1GRESSÃO 3. 7. inv. n. Henrique Santos (1913-2000). António Montez (1941). 1967 AO ULTR AR MNT. 1962 MNT. n O 55 654 APRESENTA -'--A� l > a a sua d i g ressão Programa da Empresa Giuseppe Bastos . ao no MNT que documentam estes factos..d. Nicolau Breyner (1940). Costinha. "Na sequência de uma assiduidade que se Salvador (tantos anos depois . n. Isabel de Castro (1931 -2005). car os referentes à Companhia Teatro Alegre. que em 1963 vai já na sua oitava digressão Luísa Durão. Lígia Teles (1937). duções próprias ou êxitos recentemente levados Dos vários programas e fotografias existentes à cena em Lisboa e no Porto. uma bem mais que uma vez) de uma quantidade ímpar companhia de comédias dirigida por Henrique de grandes nomes do nosso teatro como Irene Santana e "empresariada" por Vasco Morgado. Henrique Santana (1922..1971). terras ultramarinas. VASCO MORGADO Fotografia s. pelo menos até 1970 faz quatro digressões a África -2002). inv. Luísa Durão. == UMA MENSAGEM DE ALEGRIA Mantendo o teatro de revista e a comédia ligeira Maria Domingas. LeóniaMendes (1922-2000). à deslocação periódica e organizada de grandes Maria Dulce ( 1936). GIUSEPPE BASTOS aprasenl.1 993). Humberto Madeira estreitou através de mais de uma dezena de anos (1921. Bastos.1984). MNT. Lia companhias daqueles géneros teatrais com pro­ Gama (1945) ou a brasileira Berta Lóran (1928). o produtor Giuseppe Bastos 73 -1995) (natural de Angola). Fran­ mas). volta a Angola e Moçambique desta feita de braço . Isabel Ferreira e Luis Horta . Armando (o número da digressão era indicado nos progra­ Cortez (1928-2002). em que as suas companhias teatrais actuaram em Camilo de Oliveira (1924).1990). e os da Companhia de Revistas de Giuseppe cisco Ribeiro "Ribeirinho" (191 1 . Óscar como formatos quase exclusivos. assistimos assim Acúrsio (1916. ). Maria Helena Matos ( 19 1 1 . através delas.o 54 615 COM A com tom an�ia Teatro Ale�re SOB A ECÇÃO ARTíSTICA -fjfiIlZ DE r l'E IRI�'VI[l §li Ji.' digressão ao Ultramar.1========.1995).

que integrava alguns dos nomes mais popu­ lares do teatro. Vasco Morgado. A digressão actual marca. Plorbela Queirós (1943). no entanto. um ponto alto na sua acti­ vidade teatral. n. ] foi mercê da iniciativa sempre actuante de Vasco Morgado. com a sua "Fabulosa . o dinamismo e a vontade férrea de bem servir os MNT. Artur Semedo ( 1924-2001). E S P E C T Á C U L O S DE Num texto constante num programa referente LAURA ALVES VASCO MORGADO a (mais) uma digressão a África apresentada por 74 .d. porque tem a honra de apresentar aos portugueses radicados nestas paragens a actriz mais popular e mais querida do público. com temporadas brilhantes da sua Companhia de pela mão de Vasco Morgado:' Teatro Alegre'. como (uma vez mais) Carlos Coelho. pode ler-se: "Esta digres­ Octávio de Matos. dos pró­ Laura Alves Fotografia s. por mais afastados que se encontrem da Capital. Octávio de Matos (filho). ximos espectáculos no Ultramar de "Laura Alves MNT. uma digressão intitulada Vedetas Shaw. em 1969.. percorre e actua quer nas principais cidades de Angola e Moçambique. tem um significado especial a marcar e Artur Semedo Fotografia s. inv. ao ar livre em palcos improvisados ou mesmo na "caixa aberta" dos célebres camiões Berliet/TramagaP. Laura dado com o mais dinâmico dos empresários seus Alves! Laura Alves (há muito aguardada vem pela colegas. inv.' 37 922 frequentadores de teatro. também já aureolado primeira vez ao Ultramal� com a sua Companhia.' 106 974 (192 1 . n. também marido de Laura Alves ( 1922- na digressão Ultramar 66. Leónia Mendes. Helena Tavares e Leónia Mendes. Vasco Morgado. Maria II Rey Coiaço Robles Monteiro': Em 1967. do cinema e da rádio portugueses de então. em espec­ táculos destinados aos soldados portugueses que PELA PRIMEIRA VEZ NO ULTRAMAR então combatem na guerra colonial. apresentava a primeira digressão desta Companhia de Revistas': Grande curiosidade deste programa é o anúncio. na sua contracapa. Florbela Queirós são. quer também nas mais remotas povoações ou aquartelamentos..1 986). que desde 1 960 várias digressões de comédia têm sulcado os mares em demanda das Províncias de Angola e Moçambique. e ainda da "extraordinária Companhia do Teatro Nacional D.d. lê-se na segunda página do p rograma Era com esta pompa e circunstância que este que anuncia a fusão entre estes dois empresários empresário. porém.1986) à frente da sua notável Companhia" (só irá três anos depois). do 'Lar comum dos portu­ gueses: [ . Óscar Acúrsio ou Maria de Lurdes Rezende (canço­ netista).

com subsídios do Ministério do Ultramar.1977). com o Grupo de Teatro Fernando Pessoa). do Fundo Nacional de Teatro e . próximo do trabalho teatral mais experimental e dos grupos do chamado teatro independente. A Flor do Cacto. em Angola. O Com­ antes. entre outros. pelos repertórios que envolveram e por todo o trabalho técnico (tradução. Tomás de Macedo (1917-1980). n.) que as prece­ deu: a "primeira digressão ao Ultramar" do TNT . refiro­ -me agora a duas históricas digressões. como se podia ler no Programa preparado para esta digressão africana. dos Governos-Gerais daquelas então 75 duas províncias. Este grupo. para esta digressão.' 5108 Ultramar e pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo. patrocinada pelo Ministério do MNT. prador de Horas. nas habituais digressões de tendência revisteira e comédia ligeira. extraordinária actriz. alter­ qualidade de actor e director. à data a mais popular e mais da Fundação Calouste Gulbenldan. com um curto amada pelo grande público do teatro comercial e elenco constituído pelo próprio Jacinto Ramos.Teatro do Nosso Tempo e a digressão Somos Dois. apresentando Adorável -se. ainda. de um elenco de luxo. nesta Década de 1970 marcante digressão. por onde já teria andado em digressão. Se. quatro grandes êxitos sucessivamente (curiosamente natural de Benguela. e estamos a falar apenas no teatro "de cá p ara lá'. muito provavelmente. quer estética. quer humana. na ligeiro português. outros momentos existiram. etc. criado pelo actor e encenador Jacinto Ramos ( 19 17-2004). Contudo. sobretudo. Mas é no início da década de setenta que se dá a primeira grande ruptura. a África. "tinha várias finalidades: trazer ao público o teatro autêntico (não o subproduto) que tem relação.Teatro do Nosso Tempo. inv. O Jovem Menti­ Alberto Vilar e Luís Pinhão (19 19-). numa encenação de pontificavam Rui de Carvalho (1927) (também Luís de Sttau Monteiro. Canto e Castro. quer ambas ao mesmo tempo. A Idiota e. Representando. de Eunice Muiioz (1928) e José de Castro (1931. com encenação de Jorge Listopad. poucos anos A Rainha do Ferro-Velho. deslocou-se a Angola e Moçambique. aplaudidos no Teatro Monumental de Lisboa. onde Mentiroso de Jerome Kilty. (1942). leva roso (sem a sua participação). Laura Alves rodeou­ um repertório de peso. João Mota Nicolau Gogol. Manuela Cartaz da digressão a África do projecto Somos Dois Maria ou Carlos José Teixeira. cenografia. não só pelos actores que movimentaram mas. O TNT . por Laura Soveral nadamente. O Diário de Um Louco de director da Companhia). com o tempo português em que vivemos'.

Nos diferentes palcos onde actuaram apresentaram as peças Dois num Baloiço de William Gibson. A Oração de Fernando Arrabal. n O 4652 "desprendimento" e regulados por estes princípios de prática artística que estes dois notáveis artistas. inv. Em relação ao projecto Somos Dois tinha como "razão de ser" o toda a gente saber que "a princi­ pal função do artista é comunicar. iniciam. Para o actor de declamação este alargamento tem um limite geográfico traçado nitidamente pelas fronteiras territoriais em que o seu idioma é enten­ dido. a Conferência Ilus­ trada de Luiz Francisco Rebello. em Março de 1970. n. inv. Tendo em consideração estas verdades funda­ mentais. não admira que Eunice Munoz e José de Castro. entre outros. e apesar da morte prematura de José de Castro. e exactamente porque é essa a sua principal função torna-se o seu maior prazer fazê-lo em toda a parte em que lhe for possível alargando os seus auditórios cada vez mais. tenham constituído um repertório PRIMEIRA D I G RESSÃO AO U L TRAMAR que consideram actual e de bom nível intelectual 76 . com encenação de Francisco Russo e cenário de Victor André. para muitos.' 97 877 todos já anteriormente levados à cena em Lisboa e no Porto com óptima recepção. Os Dactilógrafos de Murray Schisgal. 1970 onde a sua arte possa ser entendida': É com este Fotografia MNT. ence­ nada por Costa Ferreira. com encenação de Carlos Avilez e a A Voz Humana de Jean Cocteau. MNT. uma histórica digressão a Angola e Moçambique. e artístico e na velha tradição teatral da carroça Eunice Muiioz e José de Castro de Therpis. com encenação da pró­ pria Eunice. a partir de textos Programa da Companhia Teatro do Nosso Tempo música de Jorge Peixinho e cenário de Sá Nogueira (TNT) e O Porteiro de Harold Pinter. com poemas de Mário Cesariny. desprezando outras situações profissionais mais cómodas. dois dos maiores actores portugueses do século xx. também com ence­ Digressão a África nação de Jorge Listopad e cenário de João Vieira. quer da crítica quer do público. Faziam ainda parte deste excepcional conjunto de espectáculos um Recital de Poesia. procurando plateias mais longínquas Peça Dois num Baloiço Digressão Somos Dois. António Maria Lisboa ou Herberto Hélder.

naquelas duas antigas colónias. Maria Albergaria (1928. de Gil Vicente. de Fernando Arrabal. e estando em cena no dia 25 de Abril de 1974 em Vila Pery. de Lope de Vega. de André Brun. tendo esta versão do TEC/Carlos Avilez estreado em 24 de Abril de 1973. Eunice Munoz e Alberto Vilar de Bernardo Santareno. e Os Dois Verdugos. Sttau Monteiro. Eunice Munoz voltará a África (mais uma vez. inv. Alberto Vila!. António Marques. n O 2454 de Luigi Pirandello. Fedra. se Digressão a África. Santos Manuel ou Carlos Daniel (1952-1996). Alina Vaz. e o aclamadíssimo Fuenteovejuna. como se pode facilmente constatar através do repertório escolhido para esta digressão: o Auto da Índia e o TEATRO EXPERIM ENTAL DE CASCA S 77 Auto da Barca do Inferno. Facilmente se Teatro Experimental de Cascais entende que. Luanda. Zita Duarte (1943-2000). e outros já consagra­ dos pelo público. em Barcelona. na primeira e única vez que esta histórica companhia se deslocará áquele continente. inv. apoiada uma vez mais pela Fundação Calouste Gulbenldan. dos clássicos aos contemporâneos. Lizette Frias (1928-?). A Maluquinha de Arroios. estrangeiros e portugueses.' 134 872 tratou de um acontecimento cultural raro e a todos os títulos excepcional.1 988). que permitem um trabalho rico e diversificado". o Teatro Experimental de Cas­ cais (cuja criação significou uma autêntica pedrada no charco da vida teatral de então) tem vindo a apre­ sentar uma longa lista de autores. pela crítica teatral e pela dedica­ ção a esta arte como Isabel de Castro. integrada numa grande digressão do Teatro Experimental de Cascais. alguns ainda no início de brilhantes carreiras como João Vasco. Fundado em 1965. em Moçambique.1985) ou Eliza de Guizette (1912. de Jean Racine (numa interpretação sublime de Eunice). 1 974 MNT. o o ] interessado na procura e na experimentação. n. Augusto Digressão Somos Dois. a Angola e Moçambique) em 1973/1974. década de 1970 Sobral e Romeu Correia e O Homem de Flor na Boca Fotografia MNT. um notável grupo de acto­ res. Para além de Eunice Munoz. integrou esta digressão. Eugénia Bettencourt. Oração . encenado por Costa Ferreira e Programa de Fuenteovejuno com José de Castro e Alberto Villar. '' [ .

precedido de um ciclo de conferências renço Marques ter "teatro Shakespeare num palco proferidas por Abílio Cardoso. Para bem do teatro em Lourenço Marques mente dito. [00'] Um punhado de jovens de boa vontade. Entretanto. 1972 MNT. de Novembro de 1970. na prestigiada com muito nome e encenador'). de calor humano. em Estrasburgo. levado à cena pelo TEUM Teatro dos Estu­ - "Apontamento sobre o Teatro Universitário".) e para bem da cultura da juventude moçambi. É de louvar o esforço dispendido. dar início a uma vida táculo cheio de vida. e que também palestrou).· 143 609 teatro boletim do clube de teatro de angola �!1����� No mensário moçambicano Rádio Moçambi­ cana". deu-nos um espec­ escola do Teatro Nacional.O 405. no artigo . apesar do seu encenador já não estar Tal como já acontecera em Portugal propria­ entre nós. (natural de Moçambique. Lou­ "Dicca" (?). diri­ abandonaria a sua terra natal e a sua profissão de gidos por um elemento que sabe o que quer. pois Knopfli. no palco do Gouveia dava notícia de. Eugénio Lisboa e Rui da cidade. continuação. E conclui: compreensão da história dos últimos quarenta anos "Oxalá não se perca esta bela iniciativa [00'] e tenha daquela arte no nosso país. n. os sendo hoje uma das figuras determinantes para a mesmos erros e as mesmas qualidades". através dos tempos. novos ventos na vida teatral das capitais de Angola e 78 . o encenador Mário Barradas conseguiu-se dar uma ideia do que é teatro a sério. pela primeira vez. o Dr advogado (na qual era um jovem promissor e cheio Mário Barradas ('advogado de Lourenço Marques de talento) para. inv. uma sociedade que mantém. Medida. Referia-se o autor ao espectáculo Medida por que RM n. sopravam (ainda muito devagarinhooo. Jorge dantes Universitários de Moçambique. criticando dedicada exclusiva e apaixonadamente ao teatro. Capa do boletim do Clube de Teatro de Angola.

em Luanda é sobretudo fácil. e com o excelente problemas que se põem pelo meio! Problemas de Boletim que durante alguns anos editou. Rogério Paulo prenun­ da revista Rádio Moçambique. do mesmo tário (de estudantes e independente) e germina com mensário Rádio Moçambique RM: "É claro que - a criação do TEUM e do TALM. duma metrópole onde o tamente desclassificadas e que não têm qualquer velho Império Colonial e o anacrónico Estado Novo interesse. . também um dos nossos um esforço que deve ser feito. principalmente. Em 1967 publica um livro de memórias. ." grandes actores do século xx. [ . à crítica e às propostas de A. ir ao Ultramar. ) lá vão. brejeiro mandam para lá companhias com peças comple­ e do sucesso comercial. as companhias lá. tornaram­ -se. sobretudo. Há tantos com o Clube de Teatro de Angola. que vão chamar o pior dos instintos que agonizavam os seus últimos dias. nas suas próprias raízes culturais e sociais a construção de uma dramaturgia de uma linguagem própria e verdadeiramente autónoma. e outros. sua. . buscando. e com o fortíssimo pensei muitas vezes ir a Moçambique. de Novembro de 1971. que se ordem económica. por bons e maus nl0tivos.O 417. quando as companhias Ce quase sempre as cinzentismo e. sem feitos pelos empresários.] Temos é de acabar vão criando pequenos núcleos de verdadeira resis­ com o facto de só se ver teatro em Angola e Moçam­ tência (social.1993). às ideias. Paulo (1927 . ao bique. um texto antropológico de um observador atento da sociedade do seu tempo': 2 Barbara Volckart (1848-1935) foi uma das mais brilhantes actrizes portuguesas do seu tempo. mercê de negócios dominante na maioria desta arte. Mas não é apoio de Mário Barradas. no teatro universi­ dada ao n. parcialmente fabricados na já desaparecida fábrica do Tramagal. onde então residia a sua famOia mais próxima. a que se dedicou na primeira fase da sua vida activa. as pessoas têm e fazer enorme confusão acerca do Sem querer ser tão "excessivo" como Rogério que é o teatro. aos 53 anos virou-se para a difusão do cinema e criou em Moçambique a primeira companhia de cinema ambulante. para além desta sua actividade como actor. acho que é raízes em Moçambique. . o fim do MNT Império Colonial e a possibilidade (e o esforço) dos novos países africanos poderem. com quase três anos de antecedência. escolher e organizar a sua vida e a sua história tea­ tral. Thomaz Vieira (1878-1979). . umas dezenas de anos depois. "importada'. Nasceu em Lisboa e faleceu em Benguela. Moçambique: se em Lourenço Marques este movi­ passagens duma interessante entrevista por ele mento assenta. estética e política) ao marasmo. durante mais de 35 anos. à pouca qualidade então piores do Continente. livre e finalmente. Criar os grupos lá. natural de Angola e com fortes com uma escola de teatro própria. vivendo em Lisboa. 197\ ciava. Vítor Rogério Paulo na capa Machado e de Carlos Leal. percorrendo com um carro caravana (mais tarde b aptizado QlIO \lndis) todas as cidades e sertões do interior daquela colónia. termino com duas Dando continuidade. um dos Ícones e um dos equipamentos mais utilizados pelo Exército português durante 79 a Guerra Colonial. Fazem esse negócio e qualquer critério para além do riso fácil. 3 Estes camiões pesados para transporte de tropas. "Autêntico testemwlho de vida.

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Assim. fala de africanos a viverem fora de África. Na impossibilidade de estender a enunciada complementaridade a todos os países objecto do Car l o s P i m e n ta estudo efectuado por Duarte Ivo Cruz. das influências. . Alberto Magassela. Alguns de nós. funcionamentos estru­ turais e sociais diferentes.Mar me Quer. adaptou para esta companhia . Natália Luiza. tem dedicado grande parte do seu trabalho às temáticas africanas. de José Edu­ Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2003. adoptando em cada um deles. estreado em 2002. e no ano seguinte adapta e encena MNT. desenvolvendo intensa actividade como actor .fundamentalmente no Teatro Nacional de S. actor e encenador. aqui numa conceptualização mais abrangente: a de pes­ soas que convivem em simultâneo com culturas e normas de mundos distintos. inv. A partir de 1995 estabelece-se na cidade do Porto. por centrar estas duas entrevistas a personalidades c o m Nat á l i a L u l Z a com raízes num mesmo país.. dos objectivos artísticos e das motivações pessoais e profissionais. por necessidade. e fala de pessoas que conhecem África por vias não directas. 1973 ardo Agualusa. somos Capa do programa da peça Aulo de Floripes estes:' Em 2004 encena Geração W. um texto que '� .em conjunto com Mia Couto . deu os primeiros passos no teatro trabalhando com os mais activos grupos de Maputo. encenadora e autora. procurámos e A l b e rt o M a g a s s e l a num mesmo contexto cultural a exposição de inte­ resses e práticas artísticas diversas que acentuam a multiplicidade dos pontos de vista. Co-directora artística do Teatro Meridio­ nal. fala de África.' 141211 A Montanha da Água Lilás. pareceu-nos importante complemen­ tar essa abordagem dando voz a dois activos inter­ venientes na cena teatral portuguesa nascidos em Moçambique. de Pepetela. escreve e encena Mundau. n. Fala sobretudo de mulatos. Discurso SENDO EXAUSTIVA e exemplarmente abordada nesta revista por Duarte Ivo Cruz a questão das dra­ maturgias portuguesas de temário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural d irecto portuguesa. alguns dos quais ajudou a fundar. optámos . João. actriz.

encenadores. organiza­ guns casos. são os agentes culturais que. gências socioeconómicas que se constituem.--. tem determinado o estabelecimento Definidas as fronteiras políticas e geográficas de cumplicidades que aproximam as diferentes assistimos.embora em que nos caracteriza enquanto comunidade falante muito menor escala . . ---=- =. considerar as ainda persistentes contin­ tactos.TNSJ -. -. - 82 . trabalhando cionantes e a valorização e desenvolvimento dos no terreno. constituem hoje as correias de trans­ laços culturais que historicamente têm prevalecido missão de atitudes e comportamentos nos quais nos mais adversos contextos. a articulação e comunicacional sustentado em indeléveis laços entre instituições. Devemos. ---�-. . possibilitará.-��. . a superação dessas condi­ comum. No entanto. Alberto Magassela em Arranha-Céus de Jacinto Lucas Pires Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1999 - © João Tuna . portuguesa. como condicionantes dessa efectiva ções dedicadas a acções de intercâmbio e formação. autores podemos ler de uma forma activa e orgânica aquilo de origem africana e brasileira ou . . numa comunidade artística tem sido reveladora de um relacionamento cultural com sólidos hábitos de cooperação. cada vez mais. �. nal­ A existência de festivais temáticos. ao estabelecimento de culturas e contribuem decisivamente para uma uma cartografia cultural na qual cada parte integra miscigenação cujos contornos evoluem na razão de pleno direito o todo. de uma forma directa da multiplicidade e qualidade dos con­ realista. .timorense. artistas e organizações no terreno históricos. . na cena teatral de uma mesma língua. A presença de actores. tendo em conta a especificidade de Não obstante o significativo peso dessa herança cada situação concreta. integração.

na altura. mas acabou Mercado Central. Não havia polí­ contacto directo e um trabalho muito partilhado ticas definidas a nível do Ministério da Cultura. sentia que estava no Mutumbela Gô-Gô há já muito tempo. Também tando o texto à realidade moçambicana. Procuro manter um como surgiram os teus primeiros contactos com intercâmbio profissional que me parece importante. A de Agosto. situação provocada não só pela guerra. E Nós. a organização fez questão morte prematura do meu pai. Lem­ Portugal com o objectivo de evoluir tecnicamente bro-me que um desses temas tinha que ver com o e de poder melhorar os meus conhecimentos na aumento do número de crianças desamparadas. Nesse mesmo Apresentei nessa ocasião a peça Os Malefícios ano prescrevi no segundo ano da faculdade onde do Tabaco. Quase todos os anos. Compreendi também. as dramaturgias ocidentais? Quando foi realizada a primeira edição do Festival Vim para Portugal por diversas razões. com Mia Couto. Depois desta que reunia boas condições em termos de disciplina pesquisa fazíamos improvisações às quais o Mia e organização. A partir da ligação do Henning Couto assistia. entre 1984 e 1994. Então vim para em função do tema que queríamos abordar. existia aí uma excelente Em Moçambique. A Descoberta. área teatral. experiência muito traumatizante. mas tam­ Em Moçambique os meus primeiros contactos bém pelo desfazer dos casamentos. como objectivo a exploração destas temáticas. Todo este trabalho deu origem à peça outro tipo de temas mais ligados às dramaturgias Os meninos de ninguém. dado que me permitiu um não havia investimento nenhum. o que conduzia com o repertório ocidental foram por intermédio os jovens a situações de marginalidade. M'Beu e Mutumbela GÔ-Gô. A maior parte das peças eram fei­ no sentido de dar acompanhamento ao trabalho tas a partir do nada. Todavia foi o meu futuro em Moçambique estava limitado. este dramaturgo fora enviado para Moçambique Na preparação desse trabalho cheguei a dormir para trabalhar no Ministério da Cultura com todos quatro noites com os miúdos na rua. o grupo tinha crescido muito mas não o suficiente para as minhas exigências na altura. Eu neste último que adquiri uma experiência que foi fiz teatro em Moçambique numa altura em que muito enriquecedora. João senti que. tendo trabalhar a convite do Governo sueco. Apesar de te teres flXado em POl'tugal continuas a ir com regularidade a Moçambique? Por que razão vieste para Portugal em 1 99 5 e Sim. que a Solveig Nordlund ocidentais e aos grandes temas africanos. acabou por passar ao cinema com o título Comédia Infantil. Como foram os teus primeiros contactos com Quando se me deparou a possibilidade de vir para o teatro em Moçambique e quais os processos Portugal integrar o projecto do Teatro Nacional de de trabalho e as temáticas que el'am abordadas S. que a nível pessoal Aurora. do escritor russo Anton Tchekov. para além de poder contribuir nessa fase inicial do teu percurso artístico? com a minha experiência. adap­ 83 seguia o curso de Matemática e Física. . que foi para lá Fazíamos então trabalho de campo. começámos a trabalhar do texto. com os grupos Nkarianga. trabalhei oportunidade para alargar os meus horizontes. para viver de perto o mesmo por optar pelo Mutumbela pois era o único grupo tipo de dificuldades que eles tinham. em Maputo. frente ao os grupos de teatro existentes no país. partindo depois para a elaboração Mankell ao Mutumbela. do encenador Henning Mankell. que constituiu uma em que eu estivesse presente. realizando-se improvisações artístico que era feito no terreno. De facto.

são induzidas do exterior? 84 . Eu entendi que esta trabalho. Portugal afastou-te. periodicamente. é ao homem que é reconhecida a chefia. no fundo. as tradições que. texto à realidade moçambicana? Por desconhe­ No entanto. tamento do tipo de trabalho sobre a realidade Nos Malefícios do Tabaco temos um indivíduo que social do país . Ao regressares. o confronto com outras realidades cimento deste tipo de dramaturgia ou pela inexis­ culturais pode dar um contributo significativo e daí tência de referências culturais que permitissem a necessidade de adaptação da peça ao contexto a sua leitura? cultural moçambicano. desse tipo de por imposição da mulher. apesar de ser um fumador inveterado.TNSJ Porque é que sentiste necessidade de adaptar o culturais não se modificam de um dia para o outro. levas situação poderia ser um choque interessante. Sentes que que traz sinais culturais completamente diferentes. dado outros conceitos e outras práticas. seguramente. uma vez que o espectáculo Na cultura moçambicana não existe a possi­ subvertia todos esses valores. Embora na prática seja a mulher Ao apresentares uma peça do repertório oci­ quem organiza e controla. Mas. O facto de teres vindo para conferência. existe receptividade para outras formas culturais Apesar de existir alguma evolução.campo no qual trabalhavas com está condicionado pela mulher e que dá aquela o Mutumbela GÔ-Gô. Alberto Magassela e Ângela Marques em A hora em que nada sabíamos uns das outras de Peter Handke Encenação: José Wallenstein Produção: Teatro Nacional São João 2001 - © João Tuna . bilidade de ser a mulher a comandar os destinos de uma família. por questões cul­ dental em Moçambique isso já significa um afas­ turais.

O país está a crescer. o tipo de teatro que se faz em Moçambique Nem por isso. dessa realidade. Houve inves­ tem que ser sempre perspectivado em função do timentos na formação. mas formava essencialmente profissionais "para uso interno'. entre as réplicas.TNSJ 85 . clássico tem que ser perspectivado dessa forma. Neste sociais? momento. Na Mas para a continuação deste desenvolvimento o fase de ensaios nós contamos com essa participação intercâmbio é fundamental. Exis­ meio dos espectáculos ou fazer comentários e dar tem poucas referências quanto às linguagens técnicas a sua opinião. para a manifes­ para discutir todos os temas e todas as dramaturgias. Há já uma opinião pública público e da participação desse público. enquanto no Teatro Avenida havia um Quais os grandes temas que são mais relevan­ viveiro. É frequente o público aplaudir a É necessário desenvolver a formação artística. em termos gerais. Em Moçambique não há nenhuma escola tive que adaptar também o espectáculo em função de teatro. 1999 © João Tuna . a realidade do teatro em Maputo está Alberto Magassela e Isabel Lopes em Combote de negro e de cães de Bernard-Marie Koltés Encenação: Fernando Mora Ramos Produção: Teatro Nacional São João . que tem sido abertura a outras realidades culturais. No caso de Os Malefícios do Tabaco essenciais. existe apenas uma escola de belas-artes. eu sinto que existe uma grande foram formados no Teatro Avenida. tação do público. A maior parte dos actores moçambicanos No entanto. Mesmo um formada e uma maior abertura. A Casa existem propostas em número suficiente para satis­ Velha também deu um contributo neste sector. havia o M'Beu do qual podiam sair actores tes neste momento? Continuam a ser os temas para o Mutumbela ou para outros grupos. Sinto que há espaço e damos espaços. Só que não um viveiro do teatro em Moçambique. fazer essa procura.

no caso do teatro. No consideração das suas diversas nuances. em que e nas acções de formação que aí desenvolves. Apesar da histórica relação entre colonizado balho que aqui tenho desenvolvido. países e reflecte-se na utilização de uma língua Mas também temos a consciência de que não é só comum. passa com os meus colegas que vêm para cá estudar Nesse aspecto o Mutumbela Gô-Gô foi também ou trabalhar na área do teatro. isso determinou todos os comportamentos autor da dramaturgia portuguesa. existe uma por sua vez. quais são os temas comuns que realizaram com o Manuel Wiborg e aquilo que nos quais é possível encontrar afinidades? me pediram foi precisamente que lhes facultasse O grande tema é o do fortalecimento da rela­ todo o material que tem servido de base ao tra­ ção. no domínio técnico influenciou. Existia na as outras culturas ocidentais. Esteve o ano passado em Portugal uma compa­ nhia moçambicanal a apresentar um espectáculo Mas. ção política e social dos dois países. absoluta com a maior naturalidade. Este factor determinante propícia uma o "étnico" que deve prevalecer.todos balho em que são privilegiadas as competências têm a mesma origem ou motivação. a possibilidade e acabou por limitar as possibilidades artísticas na da abordagem à sua obra na mesma língua facilita sua abrangência. termos teatrais. as pessoas com as quais trabalhas e aproximação efectiva? Em que pontos se centra que não têm acesso à prática artística que desen­ essa aproximação? volves em Portugal? Temos que encarar duas realidades. posso enriquecê-las condicionamento desta aproximação por diversos através de outro tipo de informação cultural que vou factores relacionados essencialmente com alguns adquirindo. tal permite-me fazer um cruzamento que entanto. logo a seguir à foi um enorme desafio pessoal porque apesar da independência. nas tuas idas recorrentes a Moçambi­ pendência como vês hoje o relacionamento. existência de uma língua comum era importante a que se calhar é normal em todas as revoluções. para nós. Um artista tem que estar aberto a a compreensão dos seus universos.que é da dramaturgia mundial e com métodos de tra­ hoje o grande concorrente do Mutumbela . Eles próprios e colonizador. Para mim Nós passámos por uma fase. O mesmo se diferentes propostas e a novos desafios. uma das minhas maiores alegrias sentiram essa necessidade de abertura a outras profissionais foi ter começado por trabalhar Gil formas culturais. a nossa tendência inicial é a da cooperação me torna cada vez mais rico. Tendo a referência dos dois universos aspectos e interesses de natureza económica. Sendo um entanto. João. desde s. com Portugal? Com a estabiliza­ transportar essas aprendizagens e influenciar. No culturais. que apresentava canções revolucionárias e coreo­ o facto de teres vindo para Portugal e teres traba­ grafias a partir de canções revolucionárias do género lhado fundamentalmente no Teatro Nacional de "colonialismo nunca mais" ou "a luta continua': 86 . uma ponte para sentando novas propostas dramatúrgicas. sem aproximação natural. A língua e a cultura muito importante na formação dos públicos.muito referenciada ao Mutumbela Gô-Gô. Até que ponto Passado o período colonial e o período da inde­ procuras. No entanto. Uma A cultura moçambicana tem uma grande decorre do passado histórico e cultural dos dois riqueza porque não está ainda descolada da terra. de um patriotismo exacerbado. A outra tem que ver com o abdicar das minhas raízes. altura o grupo polivalente dos Caminhos-de-Ferro. Vicente quando cheguei a Portugal. apre­ portuguesas constituem. a tua maneira de encarar o teatro. seguramente. tomando contacto com os grandes textos os grupos da periferia da cidade ao Gungu .

que constituem um género tado e como é apresentado para não provocar um muito forte nas companhias teatrais africanas. público por via da língua. qual é o tipo de maturgia muito forte. porque Existe alguma circulação mais evidente do reper­ compreendemos a necessidade de fazer essa apro­ tório lusófono'? ximação. acabámos com espectáculos sempre esgo­ Sim. Desde Shakespeare até Sergi obras literárias.por uma questão de proxi- . A organização está mais interessada na distanciamento por parte do público. O festival não tem uma política definida de "actualidade patriótica em vigor" sentimos um reportório. africanos e europeus.TNSJ Quando o Mutumbela começou a pegar em Muito variado. um público em formação. Duardas de Gil Vicente Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1996 - © João Tuna . porque também não nos interessava criar Têm participado grupos de diversos países um vazio. que não tinham que ver com a Belbel. Por necessidade de aproximação ao tados e a fazer reposições a pedido do público. Têm sido também apresentados espectá­ tanto há que ter cuidado com aquilo que é apresen­ culos de teatro-dança. Mas não nos esqueçamos que temos mesmo ali No caso do Festival de Agosto. com textos de Mia Couto ou mais do que agora. Por­ Pepetela. Nós começámos com pouco público mas. Tivemos que participação do maior número de grupos do que no encontrar motivações para uma aproximação desse estabelecimento de critérios de programação.Alberto Magassela e Adelaide João em A Tragicomédia de D. que é uma ini­ ao lado a África do Sul que é um país com uma dra­ ciativa relativamente recente. Eu acredito que Moçambique 87 repertório que é apresentado'? investiria muito mais . O público moçambicano era na altura. choque cultural que possa conduzir a uma rejeição. público.

em diversos trabalhos para cinema e televi­ são. Pedro Barbeitos e Alberto Magassela em Mundau de Natália Luíza Abreu. atália luíza: como há um défice de traduções e de tradutores de palav as que nos unem teatro em Moçambique. Os Sonâmbulos. baseado em três contos de Mia Couto. Fernando Moreira. No entanto. João e encenada por Ricardo Pais. como sabemos. tais como: Rogério de Car­ valho. Nuno Cardoso e Francisco Alves.A Tragicomédia de Dom DUal'dos. M'Beu e depois no grupo Mutumbela GÔ-Gô. 2002. de François Servet. Desde então trabalhou com vários encenadores. de Mia Couto. altura em que integrou o elenco © Patrícia Poção e Rui Mateus da peça . contaminações culturais. Giorgio Barbe­ rio Corsetti. Por cisco Manyanga e Escola Secundária de Lhanguene. Assinou as seguintes encenações: Au Théâtre Comme Au Théâtre. 88 . 2002. Os Malefícios do Tabaco. baseado na peça Tarai. Paulo Castro. tanto em Portugal como em Moçam­ bique. Foi. de Luigi Pirandello. como Professor . tais como: 25 de Junho. tendo de seguida é necessário começarem a ser contadas. Fernando Moura Ramos. embora haja cada vez Como se enquadram hoje as dramaturgias africa­ mais pessoas a falar inglês em Moçambique.C de Primeira. Minha Conto. Participou. Manuela Soeiro e Henning Mankell e con­ Encenação: Natália Luíza tactou pela primeira vez com Mia Couto. há uma tendência para Antes e durante a sua formação como docente tratar os países e as culturas africanas como se toda co-fundou e integrou vários grupos de teatro ama­ a África subsariana fosse constituída por um único dor. Josina Machel. José Caldas. no Teatro Avenida em Maputo modelo de expressão cultural e não por uma diver­ que a sua carreira se solidificou. Miguel Seabra. 1 998. 2001. serena­ leccionado estas duas cadeiras em várias escolas de mente. a língua inglesa é um obstá­ culo à sua maior propagação. 1 999. Não Tenho Culpa. produzida pelo Teatro Nacional de S. constatar factos omissos e desconhecidos. Formou-se em Matemática e Física comuns. Vive no Produção: Teatro Meridional 2003 - Porto desde 1995. Estórias da história de vivências bique em 1966. de Gil Vicente. José Wallenstein. outro lado. Primeiro no grupo sidade cultural feita de especificidades próprias. Natália Luíza. apesar nas e a dramaturgia portuguesa de temática afri­ de tal só se verificar nos grandes centros urbanos. Fran­ sem o recurso à acusação ou desculpabilização. miscigenações. Maputo. Nuno Carinhas.na dramaturgia sul-africana. baseado no romance A Varanda de Frangipani. cana num contexto de aproximação cultural'? Entendo que existem muitas estórias que não foram Alberto Magassela nasceu em Maputo/Moçam­ ainda contadas. no entanto. Neste último trabalhou com os encenadores Evaristo Daniel Martinho.midade . no Instituto Médio Outras há que são ainda feridas abertas mas que Pedagógico de Maputo em 1989. de Anton Tchekov.

pelo e económica com que nos deparamos. determinante no estabelecimento de uma relação. nas. permite o se através da palavra nos fosse dado olhar uma . ponto de vista dos seus conteúdos de comunicação. São somos ainda profundamente ignorantes -. É como 89 mundo que. nos permi­ propósito de divulgar as dramaturgias africanas ou tem também uma reavaliação do nosso posiciona­ as dramaturgias portuguesas com temáticas africa­ mento como indivíduos cada vez mais globalizados. mas sobretudo pelo facto de elas comportarem Como se algumas estórias nos trouxessem o eco da matéria universal. é naturalmente relevante a quali­ ainda tem voz. dade e as especificidades literárias dos autores que A língua portuguesa é também um factor temos escolhido. desejando dar a conhecer wn mundo entendimento dos conceitos mais complexos e em que houve tanto tempo de partilha comum onde está sempre subjacente a questão de como nos entre gentes e culturas .e das culturas africanas situamos no mundo e na relação com os outros. Quando avanço na leitura de alguns autores O facto de nela nos podermos perceber e comunicar africanos encontro-me perante personagens. quando estórias que nos permitem outro tipo de "focagem" me coloco perante as estórias e sinto a urgência e em que pelas condições da natureza da vida social de as comunicar.Ângelo Torres e João Ricardo em A Varando do Frangipani de Mia Couto Encenação: Miguel Seabra e Álvaro Lavín Co-produção: Teatro Meridional! Teatro Nacional São João/ Ponti 1999 - © Henrique Delgado No entanto. e de ela ser ainda uma reactualização textos e linguagens que me permitem uma reflexão constante de um mesmo legado oral e escrito cria partilhada. indo directo ao coração. Encontro aí uma espécie de expressão uma dinâmica e uma sinergia em termos de comu­ primordial dos afectos e um entendimento do nicação que é de enorme importância. não é tanto . transversal. afectiva e racional do relação das personagens com o ambiente e a terra. con­ mutuamente.ou somente . da devolução de um mundo no qual a natureza Por outro lado.

únicos e específicos. Agualusa em Mar me quer de Mia Couto Adaptação: Mia Couto e Natália Luiza e Mia Couto)? Direcção Cénica: Miguel Seabra Como referi anteriormente. para além do espaço. e as outra relação com a finitude.o tempo das personagens. e entanto. Qual a especificidade de cada uma das drama­ Cucha Carvalheiro e Daniel Martinho turgias que tens trabalhado (Pepetela. com outras cores. São. andando pelos o Teatro Meridional procura nos seus projectos de mesmos caminhos. respondem a diferentes momentos de uma urgência de comunicação em que encontrámos nas palavras de cada um destes autores a resposta para essa vontade de contal� procurando depois responder e interpretar as necessárias exigências paisagem redescoberta noutras subjectividades. Elas parecem ter mais tempo. autores diversos. teatro. Patricia Galiano Abreu. Ficamos cénica com a especificidade de trabalho e rigor que a compreender que o mundo é novo. tornando-a posteriormente escrita renascida noutro tempo. a procura de cada Co-produção: Teatro Meridional! Culturgest 2002 - © Pedro Serra Nunes um destes autores e da escolha de algumas das suas obras para programação do Teatro Meridio­ nal. que aplacam a nossa pola. o âmbito destas linhas. Daniel Martinho e Luis Gaspar em Geração W de José Eduardo Agualusa Encenação: Natália Luiza Co-produçào: Teatro Meridional! Cena Lusófona -2004 © Patricia Poçào e Rui Mateus 90 . suas obras também. Referir especificidades de cada um destes Mas. há ainda o tempo autores seria tão extenso como exaustivo e extra­ . Laurinda Chiungue. certamente. de cada escrita. no pressa de vertigem.

. o espectáculo América. na qual a língua comum é somente facilitadora da difusão? Natália Luíza nasceu em Moçambique em 1960.Romeu Costa. Carla Maciel. xão/expressão poética na relação que estabelece que apresentou em Lisboa e Porto. da 91 mundo? A relevância e a qualidade da obra justi. e licenciada pela Escola e especificidades várias .. independentemente dos devemos enquadrá-la como expressão própria contextos históricos em que é realizada. As dramaturgias africanas estão condicionadas As entrevistas a Alberto Magassela e Natália LuÍza foram pelos contextos da sua relação histórica ou aquilo conduzidas por Carlos Pimenta . escritora sérvia Bijana Srbljanovic. Associados). mas de cada Bacharel em Psicologia na Faculdade de Psicolo­ autor. Produtores. de cada país. em co-produção com a APA com o seu tempo histórico e o seu percurso pelo (Actores.Curso de Formação de rárias . É co-directora artística do Teatro Meridional. Tem dividido a sua Agualusa e/ou Luandino em conjunto? actividade como encenadora.2005 © Patrícia Poção e Rui Mateus Podemos falar de uma dramaturgia lusófona ou ficam a sua perenidade. lite­ Superior de Teatro e Cinema . Não diria sequer de cada país. da cidade da Matola. Se é tão distinta a escrita de Saramago e de Actores. temáticas. formadora e actriz. consultor que se sobrepõe é a "expressão poética"? do Instituto Camões para a área do teatro. Parece-me uma injustiça confundir autores gia e Ciências da Educação. . porquê categorizar-se Pepetela e em Estudos Africanos no ISCTE. Carla Gaivão e Carla Chambel em A Montanha da Agua Lilós de Pepetela Adaptação e encenação: Natália Luíza Produção: Teatro Meridional .actor/encenador.pessoais. O que caracteriza cada autor não é a sua refle­ I Trata-se da Associação Cultural Mugachi. Encontra-se actualmente a fazer o mestrado Lobo Antunes.