representa e reflecte um importante portuguesa. DDF/IPM das companhias . riqueza e amplos trajectos o Teatro no Brasil. Finalmente. pois. já consagrado dramaturgo. na cena cultural dos oito países José da Silva. interacção das mais diversas vertentes profissionais as suas experiências dentro artísticas. do Instituto das Artes e do Teatro Nacional Nesta edição de 2006 da revista Camões. Contudo. a nossa Painel de Azulejos. Maria II. com o mesmo idioma e ganhando autonomia. o actor e encenador nono número da revista Camões homenagear o de renome discute e aborda com outros Teatro. o Instituto Camões pretende neste seu décimo num texto dialogado. nas artes perfonnativas em língua portuguesa. de todos os géneros dramáticos de cidadãos A grande viagem. idioma literário. cujo tornando-se veio de comunicação de um tema rumo se iniciou com a transferência da Corte base.o zoom à memória dessas Simonetta Luz Afonso . em áreas e meios Lisboa. desde a fundação ciência que une e se expande. a grande digressão. num texto fundamental que deu origem o entendimento e diálogo numa língua comum Proveniente da Quinta do Marquês a este número da revista. Por sua vez. eis. não se inclui realidades e vivências de sociedades e espaços neste número. inteiramente dedicada ao Teatro. pela parte portuguesa. 3° quartel do século XVII europeu para as antigas colónias até às suas eruditos e populares tem contribuído para Faiança polícroma a azul independências é desenvolvida pelo investigador a aproximação artística e cultural. indispensável e necessário definir critérios para tem como objectivo premiar textos teatrais a abordagem de tão vasto tema. a expansão a partir do território homenagem ao Teatro. inv. de direito e de a explanação teorética do tema. em termos de acervo museológico. através das suas diversas e valorizados com a criação do Prémio António arquitecturas. pela parte brasileira. o qual. A Musa Tólia teatral vicentina. os laços entre Portugal e o Brasil. editorial viagens e experiências e à sua eternização -. não apenas em Teatro português. Lisboa MNA. D. bem como para e manganês 128 x 104 cm e mestre. desenvolvendo-se e divergindo através das portuguesa para o Rio de Janeiro. foi obviamente e da FUNARTE. com especial importância na cultura e de realidades teatrais do espaço lusófono. Não por menor importância mas por grande Diversificando uma matriz de inspiração. Teatro o Instituto Camões contou com o saber Digressões em língua portuguesa do especialista. nossa língua materna. de expressão portuguesa. no depoimento introdutório dum j ovem mas Em português. mas igualmente seu conservador e responsável Por ocasião do décimo aniversário da CPLP. foram recentemente sublinhados contributo intralíngua. Esta iniciativa do Instituto Camões. desde a sua expressão vicentina até de criatividade teatral contemporânea em língua à actualidade. n. portugueses e brasileiros tanto financeiramente a sua contextualização começa obviamente como pela publicação da obra e da montagem na inspiração e na regra claríssimas cénica do texto premiado nos dois países.' 6914 Para o testemunho das itinerâncias novecentistas © José Pessoa. de trabalho. actual universo de duzentos milhões de indivíduos. oficial. a nível o Teatro. de Marialva.

.

personagem de Moçambique da n-agédia do Marqllês Centro de Documentação de Mâ/ltlla e do Imperador e Investigação Teatral Carlos Mag/lo. do Mindelo . Carlos Espírito Santo Discurso directo Conselheiro Cultural Dina Gregório e Direclor do Centro Cultural Fernanda Bastos 80 em Cabo Verde Jaime Ramalho Margarida Palhinha. 6 Notas sobre escrever Teatro DESIGN GRAflCO TVM designers Jacinto Lucas Pires PRESIDENTE Simonetta Luz Afonso TRADUçAO teatro em português VICE-PRESIDENTES Alliance Francaise­ Luísa Bastos de Almeida Leonor Francisco Maria Fondo 14 o Da expansão às independências Miguel Fialho de Brito Richard Rogers REVISTA CAMOEs REVISÃO COORDENAçAo Dulce Reis Duarte Ivo Cruz Miguel Fialho de Brito Luísa Cunha Rego IMPRESSÃO Rumo a África Facsimile PRODUçAO Maria Cortesão 62 Contribuição para o estudo TIRAGEM 6000 COLABORAçAO da presença das companhias de teatro António Braga. Colecçiie s. Maria II INSTITUTO ][ Teatro Nacional São João Teatro Maizum CRMÕES PORTUGAL . Reservas José Carlos Alvarez e Conservação do Museu AGRADECIMENTOS Nacional do Teatro Anabela Barroso João Laurentino. ISSN: 0874-3029 Colecções.Associação Tchiloli Mindelact Arquivo Histórico Editorial Caminho de São Tomé e Príncipe Edições Caixotim Fundação Casas de Fronteira e A10rna Fundação Calouste Gulbenkian Grupo Teatro Centro Cultural Português JMCA Fotografia Lilástico Museu Nacional do Teatro Teatro Nacional D. DEPÓSITO LEGAL Adido Cultural e Director 124734/99 e dos actores portugueses em Africa (1900-1974) Centro Cultural em Moçambique Isabel Cartaxo. Manuel Albergaria loSecretár. COPYRIGHT INSTITUTO CAMÕES Respollsável Inventário. Luís Amaral Bibliotecária do Musell Luiz Francisco Rebello Nacional do Teatro Mafalda Ferro Vasco Seruya.o de Santaclara da Embaixada de Portugal Manuel Maria em São Tomé e Prfncipe de Santaclara José Manuel Costa Alves APOIO fOTOGRAflCO José Meco Actores e Produtores Sílvia Cam ara Associados Silvina Pereira Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe CAPA Arquivo Histórico Ganalão. Joel Tembe Reservas e Conservação José Meco e Alberto Magassela Museu Nacional do Teatro Luís Abélard Sofia Patrão. João Branco Carlos Pimenta com Natália Luíza Técllka Inventário.

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Notas sobre
USAR TODOS OS EXPEDIENTES para juntar ilusão e
distância - até que não haja nem uma nem outra, só
outra coisa que não cabe em nenhum dos termos.

escrever teatro
Escrever o mínimo de didascálias; não cair na ten­
tação de "encenar" por escrito. Imaginar tudo com
grande pormenor e depois apagar até restar apenas
o essencial (o coração, o osso) de cada momento
ou cena,

Ja c i n t o L u cas P 1 r e s A lição que há no modo distraído e puro com que
dizemos as deixas quando, nos ensaios, alguém
pergunta: "Vamos de onde?"

A ideia de "deixa" : é mais disso que se trata, "deixar"
as frases, do que de "fazer" qualquer coisa com elas
ou sobre elas.

Não ter medo da tensão entre a língua em que escre­
vemos e a língua em que falamos. Pelo contrário,
usá-la a favor do que queremos dizer.

Pausas e silêncios não são vazios; têm existência e
corpo. Só fazem sentido como palavras em branco,
frases em negativo. (A língua em que ouvimos.)

Lição que os actores me ensinaram: uma voz cons­
trói-se à volta de um mistério.

Buscar o ponto óptimo em que tudo é normalmente
misterioso e espantosamente claro.

o teatro é o presente, o "isto" do presente. Exige
que se "esteja lá" quando as personagens falam ou
fazem alguma coisa.

Falas são acções; movimentos de avanço, recuo,
ocultação, revelação; palavras que querem coisas.

Definir um código tão coerente e rigoroso quanto
"Garrett e Sargedas, um conhecido ador da época",
desenho de Rafael Bordalo Pinheiro para os Teatros possível para que, no limite, o texto possa valer
de Lisboa de Júlio César Machado, 1874-1875. como uma pauta: música escrita onde tudo está

"Universos e frigoríficos.
ensinaram: uma voz constrói-se � volta de um
mistério."
De Jacinto Lucas Pires; Adores: Miguel Moreira,
Joana Bárcia, António Simão, Manuel Wiborg, tvo
Alexandre; Encenação: Manuel Wiborg; Produção:
APA; CCB, Lisboa 1998.
© Jorge Gonçalves

previsto, tom, tempo, pausas, interrupções, sobre­ Diálogos são duas pessoas à conversa, mas também
posições, etc. cada uma à conversa consigo própria.

Em última análise, um texto não se explica. Ou seja, As personagens são aquelas específicas constru­
é a sua própria explicação. ções. São aquilo que fazem e dizem ali, daquela
maneira. São despsicológicas (perdoem-me a
Achar a forma simples e única de, ao mesmo tempo, palavra) e não têm "vidas" para trás ou para
contar a história e contar a história de c ontar a frente. São o que são na peça. Podem espelhar as
história. circunstâncias concretas em que apareceram e
usar o presente de todas as formas concebíveis,
Escrever é pensar o outro, tentar o ponto de vista do mas não devem ficar dependentes de certo con­
outro - pormo-nos, inteiros, do "lado de lá': Nunca texto, actores, aquela encenação, o texto da folha
esquecer a importância da contracena. de sala, a explicação na entrevista, a nota de rodapé
não sei onde, etc.
Encontrar o terreno limitadíssimo da nossa peça.
E depois, cumprindo escrupulosamente esses limi­ o conselho mais importante é talvez o da solidão.
tes, construir uma totalidade.
Economia de gestos e rigor em cada um. Tam­
Falar do que, de verdade, se tem medo e se deseja bém as acções devem ser substantivas, suficientes,
- por vias travessas. enxutas. 8

Um palco e actores sob as luzes - isso já traz consigo pendem para nos darem o seu ponto de vista a
muita História e muito peso. O teatro deve inven­ partir de dentro.
tar uma verdade (óbvio) mas com uma espécie de
(atenção, palavras equívocas) pudor ou leveza. Na zona entre o puro verosímil e o levemente
descentrado, falas que pedem dos actores alguma
Aprender com as cenas silenciosas. Como pode ser coisa entre o quase-espantado e o quase-auto­
fundamental o momento em que alguém decide mático.
quebrar um ramo, não pegar numa chave, tocar
noutra pessoa. Falas que - não - valham sozinhas.

Não impor, "de fora'; um certo tempo às cenas. Uma imagem teórica: a cena como um lugar ao
("Tempo" usado aqui no triplo significado de dura­ mesmo tempo abstracto e concreto onde há pessoas
ção, ritmo e "sentir':) Seguir o compasso que as e dois níveis de matéria: o das coisas-coisas, uma
estrutura "por dentro': Ver o que nos diz o nosso cadeira, uma mesa, uma faca, uma flori e o das
esquema, mas ver também o que sugere o próprio coisas-palavras, uma "cadeira'; uma "mesa'; uma
desenrolar da cena. Ser lúcido, mas confiar também "faca'; uma "flor':
naquilo que os poetas chamam "uma atenção" e os
mortais chamam "ter ouvido': A linguagem é o "onde" de todo o amor, todo o ódio,
todo o desejo, etc. As pessoas movem-se é aí dentro.
Ideias que - desmontadas, retrabalhadas, ilumina­ (Dito isto, atenção aos excessos de "linguagem':)
das, esquecidas - se tornam cenas.
O que se diz deve ser tão claro que, do nada, faça
Não há dois espectáculos iguais, diz-se. De forma nascer alguma coisa. Mas também tão dissimulado
análoga, também todas as peças devem ser feitas que sugira a existência de uma outra coisa escon­
como as primeiras de alguma coisa. Arriscadas com dida ou perdida, uma coisa sempre por dizer.
espírito inaugural, fundador até - peças sempre
espantáveis. A grande decisão da escrita é, porventura, a do que
não se diz.
. Tem de haver qualquer tipo de estranheza, ainda
que do género mais subtil. Um ligeiro descentra­ Não começar a escrever até haver alguma coisa no
mento, um desequilíbrio. lugar de ser escrita.

Experimentar novas formas de cruzar o "contar" Tratar os segredos mais negros, as fantasias mais
com o "mostrar': Sem perder de vista que quem loucas, as violências mais brutais, com o máximo
conta uma história - num monólogo, por exemplo de (atenção, palavras equívocas) simplicidade e
- se vai revelando nesse contar, e que quem fala contenção.
sobre coisas sem importância - num diálogo, por
exemplo - conta histórias sobre si próprio. Utopicamente, ideia=imagem.

A ideia de pessoas-personagensi personagens que As personagens devem sofrer alguma transforma­
também são actores de si próprios. E a ideia de ção, chegar ao fim diferentes do que eram - isto é,
9 narradores-pessoasi personagens que se auto-sus- "mais iguais" ao que são.

truh� retrabalhar o que está para trás. des­ vozes. Descobrindo o final. Mas sem buscar um resul­ das frases. António Durães.algo sobre o 10 . Produção: TNSJ. de um código que. descobre-se mais facilmente "Figurantes. © João Tuna/TNSJ tado. Encenador: Ricardo Pais. Em certo sentido. Pedro Almendra. ajude a formar aquelas bre-se muitas vezes a chave para desmontar. escreve·se contra "emoldurar" um corpo de ideias e imaginações. TNSJ Porto 2004. Escrever por uma razão. deve ser o mecanismo que põe esse corpo "em que ela esconde." De Jacinto Lucas Pires. A importância da pontuação. Emllia Silvestre.A estrutura não serve apenas para organizar ou (De modo análogo. A arte das histórias é uma arte abstracta. Jorge Vasques. como é que certa personagem fala se se souber o a vida. Há uma lição natural no som Cardoso. Se há algo de particularmente estranho e difícil de agarrar nas entrelinhas do texto . movimento': Micaela Cardoso. Lulsa Cruz. Nuno M. Dizer alto as falas.) Actores: João Reis. desco­ mais do que ajudar quem lê. Escrever desde o fim. João Cardoso. acertando o texto no sentido certo.

toda a loucura. naquele texto. Aceitar tudo o que possa Primeiro. (Por a nosso favOl� a favor da peça . mesmo nova. um silêncio desconfortável. o mais prosaico. sozinha sentada num banco. As regras não são as da vida. espírito crítico. Pode ser das. qual possivelmente só temos uma vaga intuição -. estabelecer e tornar claras as suas próprias leis. "universais'. que se suspendei tempo fora do tempo. qualquer subversão. Ouvir as opiniões dos outros com abertura. Há. ousar tudo. por exemplo) não devem ser ignoradas. Pode-se dizer homem. seguir a nossa pri­ meiríssima visão. escreveu e pensar o que poderá ali haver de um qualquer mínimo novo-verdadeiro.e daquele texto especificamente. vê uma mulher que quase sempre se escreve em cima disso. Ele faz Personagens: pessoas que são vistas a fazer coisasi o quê? Quem é ele? E ela? E o que é que ela quer. é Tudo pode muito bem começar só com uma ima­ útil tê-las bem presentes para que possamos usá-las gem ou uma frase. que quer dinheiro rápido. cada pormenor. tempo. parêntesis. qualquer impossível. (O carácter "ao vivo" do 11 teatro. isso está sempre lá. depois de todas as regras ou Desconfiar das "palavras bonitas': Provavelmente princípios. de novo. Por vezes ajuda ser o mais simples possível. A arte das histórias é uma arte abstracta. para as conhecermos bem antes de começarem (quem sabe? milagre!) alguma coisa mesmo nossa. num lugar de onde não podem sair. cortar tudo. para que não se desmanchem pela voz. Tempo que se concentra. que se expande. escreve-se contra a vida. o que nos lançou doi­ damente naquele mundo. Depois.) . a falar. claro. um silêncio. conven­ o contrário de uma coisa ajuda a ver melhor tudo ções conhecidas. Usar as pausas com moderação . do que elas são. em caso de dúvida absoluta.) Uma cena é feita de pessoas num mesmo espaço num dado momento. Queira-se ou em troca? não. toda ajudar o desenvolvimento da ideia central do texto.valem ouro. Em certo sentido. Outras só aparecem quando dizem alguma coisa. Questionar cada palavra. "de elevador'.o nosso primeiro relance. . Terceiro. Conseguir Alguns textos precisam de breves espaços de respi­ ganhar um mínimo de distância sobre o que se ração: canções. pode aconte­ A ficção é sempre uma forma de manipulação do cer tudo e mais alguma coisa. são as do texto . fran­ queza. As limitações práticas (de elenco ou de espaço. dentro desse corpo coerente. a censura. A tensão implícita entre dois corpos Por exemplo: numa estação de comboios um já é um acontecimento.e assim vermo-nos exemplo. isso faz parte delas. entre dois desconhecidos. Algumas personagens precisam de um tempo cala­ é melhor parar e tentar perceber o que é. No fim de contas. humor. suspensões. E depois deixar espaço para o irrazoável. é na nossa visão que temos de confiar estarão a mais. mas cada peça deve o que poderá ser essa coisa. Pelo contrário. livres delas. Uma pré-frase. E. Segundo. Ou menos até.

Nicolau Pais. Porto 2003. de um começo: desequilíbrio. no coração). de lhe dar outros lados. tensão. Não cair na tentação de explicar logo tudo de A repetição como máquina de significação. Juliette Prillard. Ivo Alexandre. Pode até ser "aberto'. Fazer-nos perceber palco. "Os dias de hoje. aquele assunto. espera-se o máximo de rigor na leitura da peça e o máximo de fidelidade ao que A difícil arte do "aparte" : o comentário como forma ela é (no osso. pergunta. Estúdio Zero. E depois espera-se que não de estreitar a compreensão da história. nho': Tudo o que é informação deve ser dado só quando é realmente necessário.Uma peça é para ser atravessada por corpos num Um final tem de resolver a coisa. mas tem de ser "final': De um encenador. Um fim é um fim. O rnornento especialrnente cornovente que se segue a urna gargalhada a sério. de a transformar ironica­ Uma pessoa exposta como um actor num palco já é mente. a fazer expandir em novos. insuspeitos significados. a reescrever. Encenação: Marcos Barbosa. Adores.queira-se ou que acabou. Co-produção: lilásticof TNSJ. mas de nos surpreenda. não entrada. João Pedro Vaz. de a estilhaçar ou sabotar. que baixa a luz sobre aquele mundo. mas também é "só" um texto ." De Jacinto Lucas Pires. prismas novos. o momento especialmente comovente que se segue a uma gargalhada a sério. isso está sempre lá. Ser "claro" não quer dizer ser "explicadi­ como fórmula. © João Tuna/TNSJ 12 . não.

Particular atenção às "metáforas': . Não se trata. todas as entoações e deslizes. ou só o é como são todas as vidas quando sonham no escuro. toda a estranheza. de nenhumas fronteiras. inventar uma língua. contabilizável. Encenação: Marcos Barbosa. Tudo o que for pretexto para a vida. comédia=tragédia. de "Notas sobre es­ Não cair no que é fácil e já demasiado testado."Esuever. Respeitar as personagens. digo eu. de um mero detalhe. ." próprio de as limitar. a vida toda. 13 conhecido. analisável. todas as gírias e frases feitas. ráveis. pode até parecer conversa mole. Quem escreve: ser muito sério sem se levar muito a sério.O 14 da revista Artistas Unidos. Por exemplo. Pôr pessoas dentro da língua portuguesa: elas ajus­ tam-se e ela alarga-se. diz "entrar Idealmente.no sentido ensinaram: a palavra é um acontecimento físico. Maus Hábitos. dar-lhes um fim. crever teatro" foi publicada no n. acontecimento físico. É sempre boa conselheira aquela regra do cinema que. tarde e sair cedo': Poucas palavras são melhores do que muitas pala- Nem tudo é verificável. Lição que os actores me Dar nomes às personagens é defini-las . desmontar uma ideia feita. é mais do que a mera soma das partes. Uma primeira versão. em Novembro de 2005.) Teatro escreve-se com sotaque. mas um país para todos os possíveis e imaginários. fazer outra coisa. Mas também não ter medo do óbvio. E a vida é sempre. fotografar Escrever teatro: frases só lembráveis. Porto 2001. em relação à escrita de uma cena. Não julgá-las. vras. portanto. todas as mil variantes e variações. falar. não memo­ o presente. Enquanto se conta uma história. nem salvá­ Lição que os actores me ensinaram: a palavra é um las. © Sara Amado o teatro não é um território separado do mundo e da vida. O teatro. precisa das muitas línguas da nossa língua. (De olhos abertos! De novo crédulos e livres como em crianças. O todo. Produção: lilástico. o teatro não é de fronteiras. menos desenvolvida. Nicolau Pais. toda a dife­ rença. mas nunca deve é soar a coisa neutra.. como se costuma dizeI. Por vezes. Por isso. claro. De Jacinto Lucas Pires. Actores: Hugo Torres.

PANORAMA .

são conhecidas e identificadas peças em que estes problemas afloram ou até. E há que considerar também. ao grande tema do sebastianismo e da batalha. de uma problemática diferente: o São Tomé e Príncipe Aguarela do pintor são-tomense Pascoal Viana objectivo é o facto histórico e os seus protagonistas de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete na perspectiva dramática da viagem. africanos escravos ou deslocados.CEPCEP . como Representação de Tchiloli. as peças históricas liga­ das aos Descobrimentos ou aos seus heróis: desde os sucessivos ciclos camonianos. surgem no contexto dos autores respec­ tivos. Trata-se de uma pesquisa abrangente da dra­ independências maturgia portuguesa de ternário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural portuguesa. Setembro 1967 rência de culturas e personagens que as encarnam. iremos vendo. na Índia e menos no Brasili personagens e acções ligadas à deslocação ou à emigraçãoi brancos colonos. ou ainda ao Gama e à descoberta das rotas da Índia. em suma. aí com maior incidência e regularidade. IV série. O teatro português praticado ou envolvido na problemática da Expansão só dispersamente tem sido objecto de estudos: e mesmo esses estudos.e. da descolonização. Evidentemente. não da transfe­ Capa Panorama . Duart e I v o Cruz geralmente. ainda menos. por vezes.Revista Portuguesa de Arte e Turismo. Colecção Particular e não tanto. aos aspectos de caracterização das personagens e do seu circunstancialismo ou mesmo à interpenetração cul­ tural decorrente da colonização . constituam essência da dramatur­ gia: peças passadas em África. dos fenómenos socioculturais .' 23.da Universidade Católica Da expansão às Portuguesa. Mas trata-se. o teatro em Abrangência da expressão dramatúrgica da expansão . n.o teatro clássico - séculos XVI-XVII português O presente estudo integra-se num projecto de investigação em curso. sem que se procure estabelecer uma definição temática ligada ao fenómeno histórico em si. efectuado no âmbito do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Língua Portuguesa . com o apoio da Fundação para a Ciên­ cia e Tecnologia.

que é. E existem. paradigmaticamente. Cita-se desde rique da Mota. E só os Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Muito embora o que não existe é uma aborda­ "fumos da Índia" merecem a condenação. os de clérigo. Melhor dizendo: personagens. a partir Teatro Nacional de São Carlos. Aqui está um exem. os estu­ e até. repre­ sentam áreas de pesquisa menos percorridas ou até completamente inéditas e "geograficamente" descontextualizadas mas relacionadas pela mesma matriz da deslocação e fixação de pessoas como o teatro representado em Goa até quase aos nossos dias. e desig­ © José Pessoa DDFf IPM - um pouco mais longe em outras obras da sua nadamente escravos negros. que abordam a matéria.' Diabo no teatro). de temas e ciclos de teatro clássico .' 132223 estudos sobre a transposição dos Autos de Baltazar causa. n. do de Gil Vicente. Hen­ Trajo de Cena para 2. Mestre do retábulo de Santa Aula Teófilo Braga refere a Escola de Gil Vicente no Em qualquer caso. missionários e colonos portugueses na transladação. sobretudo na área da literatura (mais do que mais próxima do teatro. mesmo aquelas que.' 1462-A Pint cuidar das influências de cultura resultantes! . E nesta área poderíamos acrescentar. citam o Brasil. surgem já antes de Gil inesgotável bibliografia. Mas fá-lo num ponto de contexto das origens do teatro português distribui­ 67X72cm vista exclusivamente centrado nos autores. na Índia e África. Gil Vicente e seus epígonos citam Auto da A/ma já. não será possível.' 132223 fenómeno.inerentes. 1965 Autoria: Almada Negreiros gem sistemática e tendencialmente completa. Encontro de Santa Úrsu/a então pela completa negativa de estudos sistemá­ rigorosamente inédito. como veremos. Vicente no Cancioneiro Geral e na sua expressão obras. Chiado descreve a sua Lisboa de escravos e Trajo de Cena para Anjo Dias e do Auto de Floripes para São Tomé e Príncipe marinheiros torna-viagem. para a África hoje francófona. como veremos. no caso de Afonso Álvares. fazem-no com conhecimento directo de MNT. 1965 tantas mais obras referidas na bibliografia. n. E ignorar as dimensões colaterais dos fenómenos em si. com a excepção dos estudos de Mário Martins no que se referem ao Oriente. aqui. citam africanos em Portugal: Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional de São Carlos. E o mesmo se dirá do teatro praticado a bordo. por exemplo. mas que tem pleno cabi­ e o Príncipe Conon pormenor - Retábulo de Santa Auta ticos. europeu. Nesse sentido. mento num projecto abrangente. Vai a políticas. Tudo isto se remete para a bibliografia. Mas o que está por estudar é a plausível inter­ venção dos navegadores. em si mesmo considerado. Auto do A/ma (Tchiloli) e Floripes. A influência do teatro português no Brasil posterior à independência foi por nós analisada em 20043. A seu tempo desenvolveremos esse tema. sem -se por referências a lugares. e sendo certo que o presente estudo se concentra sobretudo nos temas africa­ nos. isolá-los do contexto geral do teatro da Expansão. o grande tema da emigração. sem quebra de sistemática. filho de escrava e Autoria: Almada Negreiros dos de Hernâni Cidade2 ou. MNT. Tudo isto se relaciona com a Expansão. a personagens e menos MNAA. n. do encontro e transposição de culturas. inv. como se sabe. evidentemente. inv. pois foi de grande valia entre África. a abordagem do tema no Século XVI Óleo sobre madeira de carvalho Brasil. inv.

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de vista estético e dramatúrgico não colide com a Mas reconheça-se que não é assim. "parente próximo os dramaturgos. e aí até se pode citar Gomes de para os costumes escravocratas da época ("ó perra Amorim e a defesa dos índios. pelo menos em sete anos. Miller situa-a depois de 1 5144. Isto mesmo quando.e fá-lo de forma pouco lisonjeira quanto ao Brasil.um a seguir. do Paços da Ribeira in Auto chamado da Feyra que os africanos (os "pretos'. Vamos encontrar. mesmo nunca ser ruim/ porque bradar/': por vezes escravos ou alforriados. o do quadrante político-ideológico em que se situam Pranto da Maria Parda vicentino. Henrique da Mota alude aos ponde: "Aqui estar juiz no foral a mim logo vai até meios legais de defesa da escrava e troça do clérigo lá. verdadeira condenada: e até ao século XX não o será a colo­ farsa goliardesca integrada no Cancioneiro Geral e nização. essa remonta a Henrique escravo africano. cala-te já/ senão matar-te-ei agora:' Ao que ela res­ no Cancioneiro Geral. A escravatura em si mesma não é da Mota. Ao longo da mim/ intronar/ mim andar agua jardim/ a mim história do teatro português os negros. escrava ou "civilizador" e de gesta social e psicológica com não. tratamento da Índia muito favorável .se o termo se aplica à época . 18 . . 1936 Fundo Bibliográfico MNT de uma linguagem "ingénua" de duvidoso rigor semântico. E da "Parda" vicentina falaremos conservadores . em princípio a protege: (Clérigo): "Ora pena. O mesmo xado aberta a pipa . independentemente que antecede. Sabe-se muito bem que antes dele e antes de Gil Vicente se escrevia e sobretudo se praticava teatro em Portugal. quase sempre através Edição Marques Braga. As primícias d a grande aventura É hoje pacificamente aceite a prioridade esté­ tica de Henrique da Mota nos primórdios estabele­ cidos em texto do teatro português.! Mim também falar mourinho. Neil T. antes pelo contrário.pio flagrante de que não nos podemos abstrair na Contudo há uma contemporaneidade que no ponto problemática geral da Expansão. aí sim. que é tratada a colonização. mas a escrava não se geral com um paternalismo equiparado ao sentido deixa amedrontar e invoca a lei que.cita-se por O clérigo acusa a sua escrava negra de ter dei­ agora o padre José Agostinho de Macedo. a dimensão missionária dos Descobrimentos e Mas a primeira referência a uma personagem colonização nem sequer com a caracterização do negra no teatro português. Ou mesmo quando os colonos mere­ cem menos respeito. de toucinho/ te hei-de gastar nesse lombo"7). com então se escrevia) Gil Vicente que os servem e que surgem. Tudo isto se verá. até em auto­ e mais velho"6. Ambas as personagens se lamentam res anteriores ao Romantismo e ideologicamente de falta de vinho. são tratados em O clérigo é ameaçador. do manicongo/ tu entronaste este vinho/ uma posta sem desviar directamente dos temas africanos./ sacrivão/ mim que a ameaça. E a "perra do manicongo": "A mim nunca nunca Mas é aí que queríamos chegar. nem com posição de Gil Vicente. dominantes neste estudo. e que a datação da primeira das suas obras dramáticas ou para dramáticas pode ser posterior ao Auto da Visitação. na Lamentação do ClérigoS. . e como tal são tratados.

Cena da peça Serviços D'Amores não mourro no toucinho/ guardar não ser mais que excessivo do termo face a um entrecho tão simples. o que não deixa de ser insólito mas 19 de análise. tanto a nível de conteúdo. . esta sim. da evocação das garantias legais concedi­ Esta obra iniciática define uma linha constante das à escrava. Gil Vicente vinho/ creligão:' como a nível de linguagem. .! Olhai pena que diz/ que fará/ cularidade. a . ou não fosse o próprio Henri­ marcada pela imitação de expressões deturpadas Figurinos: Rafaela Mapril que da Mota magistrado: "Ora te dou o diabo/ rogo-se do português. ProduÇãO: Teatro Nacional D. clássico. desde logo EncenaçãofDramaturgia: Maria Emllia Correia Cenografia: Rui Francisco E assusta o clérigo. passe o peso significativo. que por exemplo José Ramos Tinhorão irá dizer ao juiz/ o que fiz e que não fiz/ e crerá/:' assinala. romântico ou moderno. Maria II já que te cales/ que bem me bastam meus males/ que num mecanismo cómico constante.TNDMII me vem de dar cabo. Com a parti­ © Margarida Dias .

mos como já foi dito. a primeira grande abordagem da No contexto da dramaturgia de Gil Vicente esta Carolina Santos problemática da Expansão. precisamente.9 Representação do Auto da (ndia. datado de 1509. portanto seis anos antes de hoje. - Afonso de Albuquerque ter consagrado a expressão a fc. diríamos Lisboa.pormenor. em 1519 Escola Vicentina. claramente alinhado com a grande aventura BN .d.II A expansão em Gil Vicent . Ao contrário: toda a restante obra in História da Literatura Portuguesa Ilustrada de Albino Forjaz de Sampaio aspectos negativos da grande viagem no Auto da assume um perfil "politicamente correcto'. e naquilo que Teófilo Braga chama a antologia de Maria Leonor Garcia da Cruz. encontramos em Gil negativa e que serve de epígrafe a um estudo e Vicente. Leonor. s. 1929 -1932 Índia. perante a rainha D.rola Vi entiln dos "fumos" que até nós chegou com a sua carga Ora. em Almada. a primeira grande reserva aos será caso isolado. E também encontra­ posição crítica é tanto mais significativa quanto Iluminura .

Duardos.12 Minho virai e ele chama-mo cam': .! Oh! Deixai de edificar/ tantas câmaras dobradas/ mui pintadas e douradas. diz o Anjo). ] eu chamarele eternal" (Auto da Barca do Inferno)./ Amores "vem um negro do Beni e diz: Quere boso que morrestes pelejando/ por Cristo. temos o "Negro grande há negras sentenças/ não haverá hi! alguns negros ladrão'. E na Nau de partes de África e a quem o Anjo "está esperando. doutores? / Nunca eu vi tais diferenças. E negros falam no seu linguajar na Frá­ personagens é indiscutivelmente a Maria Parda gua de Amor (1524) e na Nau de Amores (1527). cita-se aqui a porten­ tosa Exortação da Guerra (1514 ou 1515)10 com o seu belicoso apelo à venda de jóias para custear a conquista e a navegação. Senhor do que mibae/ buscar o pouco de venturo/ que a mi na Céus'. constitui um grande momento de bravura na veemência de tonalidades modernas de apelo à aus­ teridade. mas alma encomendai A Noé e a outrem não/ e o meu . cavaleiros da Ordem de margurado/ cativo como galinha'.! Pois se hi de C. Saundersl3. que morreram nas uma referência de impacto óbvio. aliás. o que constitui Cristo" (e de Deus. à procura de um "mulato" no ouvidores/ em algumas audiências?" Clérigo da Beira (1526)14. c1518 mos-lhe assim. Para o primeiro aspecto. pois "quem morre em tal batalhai merece paz mordo sae/ da moça casa su pai! [ .é dever de reis e cavaleiros cristãos levar a guerra ao Infiel e manter para tal. alabardas!/ Espingardas./ que é gastar sem prestar. chame­ de Auto do Borco do Inferno. diz Mestre Gil). o que dá ao texto um cariz plurilinguista a morte com um goliardesco testamento: "A minha 21 curioso. (1522). . Mas o mais curioso será o conjunto de refe­ N a Floresta de Enganos (1536) põe-se o pro­ rências aos territórios descobertos e aos seus habi­ blema da utilização da língua por quem dela não é tantes deslocados. "vem um Negro cantando na língua e das tabernas nas ruas de Lisboa a leva a preparar de sua terra'. os costumes que condicionaram e expulsa-lo do território pátrio':lI a resposta vem em português aproximado: "A mi sá E está flagrantemente nessa linha a salva­ negro de crivão/ agora só vosso cão/ vosso cravo ção dos "quatro Fidalgos. uns e outros detalhadamente natural e com intenções escusas : "E negro falam os referidos por Tinhorão na obra citada. Assim. será patente. M. na época totalmente homogeneizados (Portugal "Alferes da Fé'.Frontispício da mais antiga edição dos Descobrimentos no plano nacional. mulatos são citados no Porém a mais portentosa figura desta linha de D. No ponto de vista teatral. e por A. nada menos. pois Vénus invectiva-o em castelhano. em sua rudeza antiga. . espingardas!" "O comediógrafo [diz Hernâni Cidade] comunga no ideal de todos os cultos do seu tempo: .! Alabardas. mais tarde. . Aí se notará também um sinal da mudança de costumes que. C. cujo Pranto pelo desaparecimento do vinho Na FI'água. Mas será sintomático que a exortação se faça para a guerra em Marrocos: "EI Rei de Fez esmorecei E Marrocos dá clamores. mas também obviamente no plano Gil Vicente religioso.

garante a independência crítica do autor mercê da generosidade e espírito "liberal" dos reis . para não falar em Camões. claro. nenhum foi tão longe como Gil Vicente: alguma razão teve Garrett quando em Um Auto de Gil Vicente15. . Maria Anchieta e de textos avulsos. ou "tratos" a que Manoel da Nóbrega. o Auto Carolíngio de Baltazar Dias16 chega a São Tomé no ciclo da cana-de-açúcar e da 22 . . no que eu chamava das estrelas/ agora me irei p or elas/ Príncipe. sucessiva­ © Luis Abélard mente enganado na ausência. Floripes. inclusive por um castelhano. por África e pelo Brasil. Mas como momentos altos. que se inicia (1529) e até episodicamente o belíssimo e tão também com o teatro jesuíta embarcado. remos a obra em si. ("se não fora o capitão/ eu trouxera o meu quinhão/ um milhão vos certifico") . vindo na emigração minhota. António Vieira. ] emigração/colonização madeirense. mas não só: como a seu tempo se estudará. hoje e que mais adiante retomaremos na compara­ Ao Brasil chegou uma tradição vicentina ção com outros modelos. Mas. . do apoio global à política da Expansão. mas tem leve Auto Pastoril Português (1523). com o conjunto de malefícios que AHM caíram em cima do próprio marido. 1969 Índia (1509). de que ficou a Leonor Garcia da Cruz identifica as referências memória. no teatro.. Daí seguiu chorai todos meu perigo/ não levo o vinho que digo/ para o Nordeste brasileiro e para Goiás. E a Índia foi receptáculo e ambiente específico das rotas da Índia. assumem estas críticas no teatro ou na poesia e estão nessa linha numerosos cronistas e viajantes. no Renascimento. E já agora. . António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos. o grande desvio Estátua de Camões na Ilha de Moçambique crítico ao "politicamente correcto" é o Auto da António Pacheco. retardada através dos autos do padre José de Mais precisamente no seu estudo citado. sem embargo. ficou até hoje a tradição anual do Auto de com grande sede comigo': . ele próprio. Sá de Miranda. e no local próprio a aculturação na deturpação irónica ou dramática que chegou até são-tomense. e se refere a Farsa dos Almocreves (1527) e. Duas matrizes africanas A chamada Escola Vicentina estende a sua influência pela Índia. .. no caso outros mais. ligados à acção missionária dos padres dispersas aos "fumos da Guiné'.corpo enterrado/ onde estão sempre bebendo/ [ . o Triunfo de Inverno de uma produção teatral própria. com Camões bem sabemos e como já foi dito. roubado pelo capitão . Ao lado. na Farsa dos Almo­ creves (1526) há uma referência ao Brasil. O grande propulsionador dessa diáspora terá sido a acção missionária. Aqui analisa­ É o que n a altura s e chamaria "fala d a Guiné'.

dessa grande obra hagiográfica facilitará a compa­ com o padre Luís Vaz Guimarães (Auto da Paixão ração dos textos.� Afonso Álvares responde à letra: "Se não foram �.DOflano Dolorofo aJlllgodeVib!'do. também de tradição Tem outro interesse dramatúrgico a obra de popular minhota) e mais tarde com José Agostinho Baltazar Dias. P:.���t$����t�� de uma escrava natural da Guiné e de um clé­ rigo. 161)". rGt Dom Lllíid"rdo pay de � que sabe tal manqueira'. mãos e focinho/ pela virtude � do lenho': E alude a cenas de pancada e deboche: � "Tu bebeste no ribeiro/ do rio da Palhavã/ por seres chocarreiro/ que não tem virtudes ã/ velhaco frei EtnLisboa. todos r ti"'tJ�������êi:)��RJ�(i. pelo qual é concedido ao poeta o exclusivo século passado. Auto de ditos. Afonso de Portugal fez COM:POST A POR LVIS DE C A M ÜES. ção académica do poeta rival que.Luís de Camões Edições Caixotim. e o Auto d' Bl Rei Salomão. protegido do DE FILODEMO� arcebispo de Évora de D. cego da ilha da Madeira22. não YCOMÉDIAm Luís de Camões .�fi' esqueceu essa origem. ainda mais ou menos lem­ para os EUA e Canadá. e conotações africanas dos autores mais importantes ainda o Auto da Feira da Ladra. S" Monteyro: .Frontisplcio da edição seiscentista da Comédia de Fliodema �. e- rar ·Dronyl:. por causas genéticas que Mas. Abril. cujo título faz lem­ da chamada Escola Vicentina. Van adoro.jIode\no. Auto da Paixão de Cristo. 2005 . segundo de Macedo. e com outros autores locais que. padeira de profissão. filho de Mântua e do Imperador Carlos Magno. certo é para crêr/ que quem tem côr de cravão/ é .go de Filodemo. o descaso pela escrava mãe.PorViccme Abarez. ficou a Tragédia do Marquês 23 não pouco o incomodaram é Afonso Álvares.guás lcguil1tes.!l �t Diz Chiado: "Ser cativo de um Sequeira/ e pois que � r.� desta maneira/ há mister que tu esconches/ pois J 13}' Vllard? feu moço. HtII>I Bobo filho do pafior. inspirados na Legenda Áurea de Voragine. como veremos adiante. expressão religiosa.24 O primeiro deles. de mandar imprimir as suas obras "por ser homem As extensões não africanas deste percurso pobre e não ter outra indústria para viver por o care­ deverão ser estudadas e desenvolvidas em área cimento da sua vista"23.as licenças nccdfa- �.hkl.� � vaMdoro. "m'. até porque envolvem aspectos iné­ Nascimento de Cristo. Chiado. . � 6" Hum panol. r(lJ" Flol'Jmena Pafiora. de Nosso Senhor]esus Cristo!9.ádo. vejamos as brado em Trás-os-Montes. Mas para já. � matreiro:'2! Afonso Álvares deixou-nos quatro autos de � rias. ' (ff' 'Ire> pafiores b. e História ser as transladações do teatro popular português da Imperatriz Porcina. ���� '� �?. sobretudo. ou seja. e Santa Bárbara e Santiago.tyl. Deste nos ficaram o Auto do autónoma mas.'&1-�'�� eles de ingénua estrutura.d�( �I:. em alvará firmado em 20 de Fevereiro de 1537 por português escreveram até aos anos sessenta do D. extrema- . Como o não devem Santa Catarina. João III. e preferiu ignorar a forma­ in Teatro Completo . . brar o Chiado. que vamos encontrar já adiante. Uma recente edição moderna (FilodemoI7) e Simão Machado (O Cerco de Dio!8). Santo António e São Vicente. sinal que o coração/ não pode deixar de trazer/ de � cadela a condição!"20 .a qual entrio as fi. ImprcflÀcol11 todas.ua mop. E pior: "Porque . Sol". os filhinhos/ e a honra que mantenho/ eu te fizera canhenho/ de pernas. Wi uma honrada carreira de professor e dramaturgo.. não podem ser ignoradas. Em.<I"'f?XI:�<y�� ambos de 1531. Auto de Santo Aleixo.

condenado à morte e executado por ordem do seu terá sido levado pelos colonos portugueses para a próprio pai. em qualquer caso. São Tomé. por outro lado foi. de António Figueiredo Gomes. este romance tradicional Refira-se agora que a Tragédia na sua expressão constitui. romance de poder e amor. hoje de expressão francesa. onde está de Valdevinos às mãos de D. refere a restante poesia de Baltazar Dias. foi levado para o Príncipe. por sua vez hoje vivo e bem presentei e por outro lado ainda. uma vez que. interroga-se Garrett no transcrevendo algumas das suas composições Romanceiro). é. com interessante. entre nós. transladado para São Tomé. gua d'oeil ou língua d'oc'.mente interessante no âmbito desta pesquisa. a expressão mais devidamente adaptou. pois. Carloto. Levado. estamos perante a tradição europeia. que pune a morte como vimos. que o povo são-tomense por um lado. para nós. uma justiça régia (ou do Estado). em duas obras facto. com as adaptações que veremos. repita-se. Trata-se. representa. a capacidade Chiado. o imperador. 1925 Lisboa © José Manuel Costa Alves 24 . repita-se. tradicional do poeta madeirense. dos momentos mais vivos da Escola Vicen­ de sobrevivência e aculturação deste velhíssimo tina. O mais não dramáticas. o grande portuguesa original ou melhor. ("lín­ distintas. tal como o tradicional Auto de Floripes Veremos adiante algumas dessas variantes. retomada na linha tradicional. E que envolve o conceito de completa do ciclo carolíngio. da fixação do texto factor cultural das ilhas.25 António Ribeiro Chiado Costa Malta (tio) e José Alexandre Soares. para costa da Guiné.

sandeu'.. comeis.�� 1543). . tal como no Auto das Regateiras .e perdeu-se um Auto de Gonçalo Chambão . "assim também designado. como eu (o escudeiro nomen tu!/ [ . diz Ora bem: no Auto da Natu.:tcrnum tlOltJ"�IJnQ maeb.to da Natural Invenção. . Cristeleisão/ Santo biceto trova fá-la tão bem como vós. . sobre uma trova: "Ê do escudeiro Chiado. para lá do infeliz '1. diz o dono da casa: "Autor comece a longa negociação com a "regateira'.. Diremos que Gil Vicente. ] mim da-la treaze ntem/ o autor:' Mas assim é o negro. __ rO:f:llro�m. . Ê uma das "figuras" da peça. "tange e canta um vilancete'.o27 repre­ o Paiva. fornecedor do almoço dos outros sete e logo evoluiu.. ] A mim fruso vosso mata.oualcy Afonso Álvares.I/� arcoltourrnçolo Compadre/Slluir rrd/ &oço:"R. teatro no teatro como o "Seleuco" camoniano que o cita . A grande achega de António Ribeiro Chiado de António Ribeiro Chiado para o historial do teatro português residirá no carácter urbano. sentado na corte de D. Mas as Práticas26 de Chiado vão nesse aspecto mais longe e juntam uma população bem específica: assim. João III entre 1545 e 1557.1moudo: Q cornildrc:.-:-. diz a velha. na goliardesca Maria Parda.�. conversam. que aliás alude ao projecto gorado de Car­ los V invadir e conquistar Argel ("foi um caso mui terrível! ir em boca de Invernada que lhe dis­ vende-me para Castela'.da . certamente vir/ bem se pode o negro ouvir/ inda que cante às personagem do auto respectivo. numa difícil transcrição da "fala da Guiné": se fará a representação.. mas que se defende com ala­ sente-se no direito de enfrentar o dono da casa onde cridade.ral Invençã. . e como tal apelidado de ladrão. moreis servis/ como negros da Guiné'. . . que não evoluiu persou a esquadra em Novembro de 1541") logo deste clérigo de Henrique da Mota ("ó perra do no início traz um lamento característico: "Não manicongo") . E mais: uma das oito figuras é um "negrinho o personagem negro. Assim. drts. um capão/ a mim traze turo junto/ o Orfeu? / Não creio que sois cantorj/ há-de mo jurar coei oco treze pombo/ [ . ifll ��Qtíca 000 compa . com nomes de ruas e tudo. da Lisboa popular de "desvaira­ das gentes" da sua obra. concelos. as Oito Figuras ou os Compa­ dres que "praticam'. ] a mim cativar o judeu/ não querê Ambrósio) ou como Chiado:' E Jorge Ferreira de Vas­ que a mim reza! [ .. . a Prática das Oito Figuras (cerca de f��t. que já se exprime em prodozoj não queré dá/ A regateira mui mão!/ Mim português "do reino'.3!r. Onde não faltavam africanos.! 25 vaso sempre brada bradai cadela. Dize quere vendê? Ela logo sacode:' E segue uma e acabado.Frontispício da edição quinhentista o poeta Chiado --. traça uma topografia da Lisboa dos escravos e das tabernas.tudo isto singu­ lariza de facto esta figura da Lisboa do seu tempo. -- da Prática dos Compadres. cadela!/ Em algumas cousas teve veia esse escudeiro': Sobre- . truculenta como o foi a vida deste ex-frade.r. escuras:' Logo na primeira fala temos uma Negra a Camões elogia Chiado no "Seleuco": "Uma falar latim: "Krialeysão. � CC·O! �111I1I'llto "f\(iI. O dono duvida: "Sois negro "doso gália. cadela. este de 1569. isto é.ou sobretudo no formidável Au.

.� . ". .i.. AHU.d. .... . 26 . Lisboa /. . s.. .. . n.. Preta Quimbunda dançando Desenho aguarelado.

vinda cá mano:/ [ o o . A certa integrado. Estamos já mais longe da "perra do manicongo': Tomé. já marcada por um mos que sim. também de forma diferente. com uma notícia inesperada: dentro de uma linha de valorização dos servos no "Siora beijo seu pé/ com sua caracanhar morado. Recorde-se que no "Seleuco" camoniano.! contexto familiar. sem muito altura entra um negro e dirige-se a Pasíbula. colecção ides/ por vós chama a senhora/ se falais com o ras­ publicada em sucessivas edições a partir de 1658. E situa mandar sabedor/ que falara declarado/ se não a o negro numa posição social diferente. insólita: "Preto. porque não Musa Entretenida de Vários Entremezes. que no lugar próprio serão social e mesmo familiar. 1541. muito próximos do teatro "de cordel" Uma vez mais se detecta certa mudança de estatuto e manifestações afins. ti?" A que o negro responde: "Sim/ posso eu não ir aqui! Pesara de São Formente!/ Também negro não A mudança do estatuto do negro sa gente/ e boso sombai de mim!" Tinhorão procede a um levantamento cuida­ Refira-se ainda uma "Cena Policiana" do vicentino doso das personagens negras na sequência daquilo Hemique Lopes3o. ressalta um tra­ da Bela Menina. de nome Bastião. mas aparentemente sem violência. onde um curandeiro da Guiné. . a indiciar o recorte cómico. . tem como adjunto um português.! enquanto voltais a casal haverá resmingação:' Estamos. integrado na Transcrevemos de Tinhorão: "Maria. da Bela Menina. cerca de bém é chamada de cadela pelo porteiro. na descrição dos amores situação da escravidão em si mesma. Cena bucólica. o eixo da dramaturgia da Expansão passa para altura "um mulato chamado Solis'. O que não absolve em nada os Mim trazei cá um recado/ para dará bossa mercê. que toma Finalmente.! problemas moral e social da escravatura: sem con­ Eu sa negro de vosso irmão/ que onte do Brasil tudo esquecer que muitos destes "pretos" seriam. durará até pelo 27 quem te deu recado? Não tinha outro servidor/ para menos aos anos cinquenta do século xx. que o teatro "de cordel" confere aos africanos. a moça tam­ No também anónimo Auto de D. A Bela Menina tas personagens típicas de certa linha dramatúrgica também se espanta. na chegou:' A Pasíbula espanta-se e faz uma pergunta linguagem da época. Mestre des': . também assim referido. não obstante duas citações a que Teófilo chama Escola Vicentina. referidas. ] meu irmão e tendo embora em conta a insistência na "língua da vem castelhano/ ou português valenciano?" E ele Guiné'. tudo a "Natural Invenção" merece encómios. e algumas peças anónimas que reconhece que a linguagem e o espírito da peça "são fazem a passagem para o Renascimento. Tinhorão ainda refere um "Entre­ conta da jovem Isabel e não hesita em a admoestar. é-lhe Porém importa reparar numa certa mudança reconhecido o mérito: "Mulatos são sabedores/ de do estatuto do negro nesta dramaturgia. Autores de da "Celestina" de Rojas. que canta e canta o Brasil e para o Oriente. assim mesmo identificada. já aí. Gonçalo. encontra-se um tratamento mais digno des­ responde: "Portugal sa ele agora': . Tinhorão gentis habilidades./ nos pensamentos senhores/ que ressalta por exemplo o anónimo Auto de Vicente não desfeam as cores/ quando abonam as qualida­ Anes Joeira28. e de um tamento menos violento e um relacionamento mais fidalgo de França. aparece um negro. Fernando. de perro. Será porque surge a certa verá. Como se de clara traça portuguesa"31 . apesar de uma vez mais ser apelidado que se encontrarão. . alforriados. criada mais. Analisemos agora directamente o Auto da Bela Haverá uma certa mudança de estatuto de negro Menina de Sebastião Pires na versão de Luís Fran­ ou preto nestas expressões dramatúrgicas? Pensa­ cisco Rebell029. . Em qualquer caso. Para além da iniquidade intrínseca da ambiente renascentista. mez do Negro mais bem Mandado'. com as escassas excepções bem: pois. "Dize negro: teu senhor/ para que. na qual. Lucciana Stegagno Picchio menor qualidade. cão. .

Lisboa. 1990 T CHIL OLI I Teatro de São Tomé e Príncipe FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN 28 . Tehiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Mortef São Tomé e Príncipe Colaboração da Maison des Cultures du Monde Fundação Calouste Gulbenkian.

2001 lar do Brasil que está muito viva. o espectáculo. por exemplo em Pierenopolis. é a velha tinua a ser apresentado por grupos diversos em São Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Tomé. representação moderna: uso da caneta de tinta per- . Fernando Reis descreve-o Daí. na versão e na expressão antes consagram o texto original. fiel ao texto quinhentista mas numa 29 irradiou para a vastíssima geografia cultural-popu. com quenta do século XX33. Lisboa. Cooperação. sofreu sucessivas alterações que não traem. que con­ as aculturações e algumas adaptações. mudanças introduzidas. Aliás. O Tchiloli. personagem da peça Tchiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno in Enciclopédia Fundamental de São Tomé e Príncipe Carlos Espírito Santo Ed. Pedro Vimos que as peças do ciclo carolíngio surgem Paulo Alves Pereira remete o texto para uma versão a certa altura em África e. estado de Goiás. pese embora as de Baltazar Dias. Carlos (Cm'loto) Magno. a que acima aludimos. e não SÓ. ser defensável a sua transposição mais ou nos anos sessenta e pormenoriza os aspectos céni­ menos contemporânea da colonização madeirense cos e de figurino e adereços.Conde Ganalão. onde perdura e de onde personagem. no que se refere à África da Tragédia de Baltazar Dias levada a São Tomé no de colonização e expressão portuguesas. realçando os anacro­ no ciclo da cana-de-açúcar que a conduzirá depois nismos da indumentária e o valor simbólico de cada ao Nordeste brasileiro. perduram século XIX e aculturada sobretudo nos anos cin­ até hoje em São Tomé e Príncipe.32 Mas esta tese é obviamente discutível.

AH de São Tomé Sabe-se. inv. Carlota in programa da peça Tchiloli tado por grupos numerosos e rivais. a chola. mas confirma a . designadamente no encurta­ mento de alguns espectáculos.. n. n. colonial ou independente. Ora. o Cena da peça Tehiloli ou a Tragédia do Marquês rocapé. como símbolo do poder. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ entretanto.o 177344 espectadores faz a triagem entre aqueles que intro­ duzem a diferença no respeito da tradição e os que < desfiguram o Tchiloli e que acabam por se transfor­ Programa de Tehiloli ou a Tragédia do Marquês mar quase numa performance diferente':35 de Mônlua e do Imperador Carlos Magno Tomaz Ribas. ele próprio oriundo de São Tomé. a profunda simbologia da autoridade do Estado. Lisboa. para MNT. que o Tchiloli continua a ser represen­ D. faixa verde e encar­ nada do imperador.d. uma curiosa circunstância. Paulo Valverde refere sinais de evolução. 1973 MNT. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe relaciona o Tchiloli com as expressões coreográfica Fundação Calouste Gulbenkian. inv. que chegam a durar o dia inteiro na versão tradicional. "este resultante de uma expressão musical de Mônlua e do Imperador Carlos Magno europeia que serve de suporte à coreografia e ao Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe ritmo africano"36. Mantendo. fidelidade global ao texto clássico com as alterações > o imperador Carlos Magno e aculturação introduzidas. e do Imperador Carlos Magno. Numa observação muito detalhada e docu­ mentada. utilização do telefone. também. E chama a atenção para Fotografia de cena. encontramos expressões ESTA 2000 em tudo convergentes no Nordeste brasileiro. entretanto. n O 216994 manente.o 215714 com o tráfego de escravos da costa ocidental. o Ciclo de Teatro Popular Tradicional. trajes do século XIX34. s. escrutínio rigoroso e experimentado de figurantes e Fundação Calouste Gulbenkian. Paulo Valverde. trinta anos depois. 18 de Junho e paradramáticas de matriz africana. refere que "apesar de algumas inova­ São Tomé e Príncipe ções serem admitidas nas representações actuais. seja ele medieval. citando designadamente o danço-congo.. importada de 2000 MNT. Alguns deles ou a Tragédia do Marquês de Mônlua aliás foram exibidos em Lisboa. inv.

Numa tradição seculal� esse espectá­ culo realiza-se anualmente no dia de São Lourenço. pelas próprias limitações geográfica e populacional. Em primeiro lugar. designadamente na aldeia de Neves e em Trás-os-Montes.além. Augusto Baptista. É diferente a transposição do Auto de Floripes para a ilha do Príncipe.37 E veremos adiante como o Tchiloli influenciou alguma dramaturgia moderna de São Tomé e de Angola. 15 de Agosto. repita-se. numa pes­ quisa efectuada entre 1996 e 1998. designadamente em autores como Fer­ nando de Macedo ou José Mena Abrantes. que concentram numa única versão a produção do espectáculo. compara o texto . da manutenção dos textos do ciclo carolíngio. há relativamente poucos anos ainda represen­ tado no Minho. de tradição caro­ Ungia. razão pela qual o auto surge designado como Auto de São Lourenço. Mas é o velho Auto de Floripes.

! o que é hoje a África francófona.38 se perderam. mas com mérito cultural . no Belize e no Méxic039. do relacionamento internacional global lnprograma Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian. da Companhia de Jesus De notar que Gil Vicente. autor do poema "Prosopopeia" (1601) e de profunda do teatro medieval.de saber adaptar os rituais cénico e dramatúrgico da expressão neolatina ao meio social em que se inseriam. a partir de textos originais. diga-se assim . 1672 para não falar. Fizeram-no com MNT.para lá do mérito religioso./ vireis a ser mais profundo. acima citado: Os autos do padre Manuel Anchieta (1534-1597) constituem. Interessa-nos dramaturgia coerente e consistente. Sortibão. As histórias da literatura e do tea­ tro do Brasil são unânimes em o reconhecer. em EI duzido no Brasil. influíram e agenciaram Carlos Espírito Santo Ed. em O Tempo e da Escola vicentina com a solene tradição do teatro Padre José de Anchieta o Ven to. inv. Sublinhe-se. a partir da raiz xeira. in Vida do venerável Padre Joseph de Anchieta Sul. faz a uma representação no Rio Grande do jesuíta. E o mais mais aqui pelos processos histórico e cultural da curioso é que Anchieta concilia. situando a descrição no final do século XIX40. mais discreto e mais subtil. na Farsa dos Almo­ Officina de Joam da Costa. 1973 empreendido pelos portugueses. Reconhece no dispositivo Diálogo sobre a Convenção dos Gentios de 1557. na passagem feita através creves (1526) faz uma referência ao Brasil: "Quando BN dos primeiros contactos de origem portuguesa para fordes meu namorado. que assinala também Andrée Crabée Rocha. Floripes. de autores desconhecidos caso. Auto de Floripes in Enciclopédia Fundamental Sabe-se que os Jesuítas e. n./ porque o mundo 32 . Como o assunto se inscreve obviamente no contexto desta pesquisa mas sai do seu âmbito imediato acompa­ nhamos o teatro luso-brasileiro. 2001 a divulgação do teatro ao longo da grande aven­ tura histórica e geográfica dos Descobrimentos e. como pertinentemente duas comédias Lázaro Pobre e Rico Avarento.' 141211 óbvios intuitos missionários. os Franciscanos. nas Honduras. uma Salvador. Mas nem sequer serão as primeiras mani­ Reis. a partir de 1567. insista-se. estamos perante a essência do texto que a ou mais ou menos obscuros. talvez com menos de São Tomé e Príncipe constância. O teatro brasileiro nasce com os autos do padre José de Anchieta. Lisboa. Há igualmente vestígios. o grande momento documentado e estruturado da iniciação dramática actual com a versão recolhida em 1969 por Fernando no Brasil. a ingenuidade já retardada longa referência que Erico Veríssimo. a camente dramatúrgico. Almirante Balaão e Burlante . Cena da peça Auto de Floripes mais ainda. entre eles Bento Tei­ colonização portuguesa para lá levou. e ainda procede à acareação com os textos festações de texto e de espectáculos anteriores: um tradicionais portugueses. diz-nos Augusto Bap­ Cabe ao padre Anchieta a glória de ter intro­ tista pelo menos no Brasil. Cooperação. da cénico e na prática espectacular do Príncipe certo autoria do padre Manuel da Nóbrega (1515-1570) e "exagero dispersivo" que a tradição local e mesmo a ainda um Auto de Santiago representado em 1564 e exuberância tropical poderá explicar: em qualquer outros textos dispersos. no plano especifi­ transposição as versões brasileiras.

em tupi. 10) Diversas poesias dramatizáveis. em castelhano e tupi-guarani. do ponto de vista dramatúrgico. em português e caste­ lhano. escrito em tupi. se Recebeu Uma Relíquia das Onze Mil VÍlgens. escrita em 1595. em castelhano. transferida para o Brasil no século À'Vl . 3) Na Festa de São Lourenço.iractos escritos em português e em tupi. Nem de outra forma se processaria esta aculturação da imponente tradição do teatro neolatino da Companhia de Jesus. A tabela dos autos do padre Anchieta não é definitiva. restam ell. 4) Na Festa de Natal. Uma tentativa de fixação cronológica que efectuámos conduziu à seguinte relação: 1) Auto da Pregação Universal. têm o valor acres­ centado da sua profunda penetração no meio social e cultural de índios e colonos. 6) Auto dos Mistérios de Nossa Senhora. Entretanto. senhor. versão simplifi­ cada da anterior. o que daria primazia nesta tábua dramatúrgica. numa perspectiva religiosa e moral. 7) Visitação de Santa Isabel. 9) Na Aldeia de Guaparim. 1597. 8) Auto da Vila de Vitória. para lá da originalidade e força criacional. que certos autores identificam com o "Recebimento que fizeram os Índios de Guarparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte': Em qualquer caso. trilingue. certamente de grande eficácia e qualidade artísticas. cerca de 1579. constituem uma notabilíssima dramatização de usos e costumes. escrita cerca de 1583. trilingue. outro mundo/ que está além do Brasil"41. escrito em tupi. 5) Quando no Espírito Santo.namorado/ é lá. 2) Auto do Dia daAssunção. fixáveis entre 1567 e 1570. . os autos de Anchieta. em p ortuguês. numa funcionalidade missionária que sobreleva a dimensão dramatúr­ gica e o valor documental: escritos em português.

as virtudes são também Completamente diverso. (Na Festa de São Lourenço). Camões estreou o Filodemo em Goa./ uma nota referencial. publicado em 1601 juntamente cam-se os espanhóis da província do Prata. como índios infi­ a ser representado em tamul. Estes têm nomes tamoios. e por baixo deles homens que fazem mexer e falar estas figuras como querem. agi­ gantado pelos fumos da Índia no local de origem. e daí trans­ vais. . :'42 de grande efeito espectacular. logo iniciada nas naus. mas merecendo aqui materiais: a Virgem Maria "afasta as enfermidades. Trata-se de um de um "Embaixador fanfarrão" (Na Vila de Vitória). poligamia . Teófilo Programa-postal da peça Filodemo cita o "viajante Pyrard" que presenciou alguns: "No Teatro da Cornucópia. 2004 dia de Natal. e há grandes rochedos. espectáculos nas condições que se imagina43. o conteúdo tem algo das histórias medie­ e mirandês. quanto mais não seja na dialéctica maniqueísta ladado para o Brasil e para o cinema (Acto da dos "bons" e dos "maus': Os "maus" tanto podem ser Primavera de Manoel de Oliveira . onde o vamos encontrar. é a Comédia do Cerco de Dio febres. e todos vêem estes brincos. Chegou demónios. como cá os bonifrates.' 232099 os mistérios da Natividade.1963). desde logo o Auto da Paixão do padre Luís Vaz 34 . Se a forma é muito próxima de um teor vicentino Guimarães. Será a obra mais alinhada com a "nova forma" de fazer comédia. cerca de 1555. onde se desdobram Entretanto. Importa referir entretanto pelo menos dois textos de temática ou circunstância ligada a Goa. prosseguida por António Ferreira nas comédias e por Jorge Ferreira de Vasconcelos. desinterias" (Auto do Dia da Assunção). originário do teatro popular minhoto retardado. como colonos pecadores. criti­ de Simão Machado. Mesmo na maior parte das casas e encruzilhadas há semelhantes diverti­ mentos':44 É o teatro jesuíta no seu máximo esplendor. sendo este o único que agora nos retém a atenção. Mário Martins estudou essa emigração drama­ em relação aos indianos: o nobre Rau apoia e apoia­ túrgica. na pessoa com a Comédia da Pastora Alfeia. onde se produziam -se no rei de Portugal contra o rei indiano Bandur. para efeitos de missio­ éis. o centro fulcral da expressão dramá­ acções directas de guerra com uma intriga política tica passa de África para a Índia. em todas as Igrejas. n. com grande cópia das personagens que falam. tal como os autos em tupi do padre Anchieta. por oca­ sião da investidura do governador Francisco Bar­ reto. tribo que se aliava aos nação. inv. franceses na tentativa de expansão da "França Aus­ O pranto final de Nossa Senhora constitui um fecho tral': Os p ecados surgem misturados com maus hábi­ impressionante ria sua força verbal e sentimental tos sociais: "bebida cauim" curandeirismo. épico transformado em sucessivas cenas teatrais e por aí fora. trazida para Portugal por Sá de Miranda.além da dimensão religiosa. E para o Oriente em em que a posição dos portugueses não é dicotómica geral. se representam MNT.

talvez coerente com a vida do autor. só surge um rela­ tuto e da actuação destes negros e mulatos. se ganham trutas a bragas enxutas. 1997 © Luísa Ferreira A intriga política mistura-se com uma complexa o demo das vossas. respectiva­ Mas voltando então ao objecto desta pesquisa: mente a criada Gracia e o servo Eitor de Los Lindos. na iden­ que não trabalha': Refere Silvina Pereira: "Parasitas. ao nível dos grandes . em Espanha. de onde nunca terá passado. em duas comédias de Jorge Ferreira de que entre nós. Barcelona. tentar se quereis ser contente"46 . Não sejais mao de con­ diversos planos.. aproxi­ cionamento directo com África. e apenas uma no Congo. irá explodir no teatro de "cordel': o seu episódico personagem mulato. 45 Tudo isto indicia uma subtil mudança do esta­ Neste conjunto seiscentista. Mas assinala a prática que lhe dá vivacidade e certo nível sociocultural: de utilização das línguas locais. nagens. . tidade religiosa de frei Bartolomeu Machado: não rufões. ] . todos bai­ seria para ele "esta vida soldadesca/ [que] é vida lavam na mesma dança:'47 mui velhaquesca': . e o carro ante dos bois. .Comédia U1issipo Jorge Ferreira de Vasconcelos Encenação: Silvina Pereira Produção: Teatro Maizum Teatro da Trindade. a nível de perso­ mando-os da função do criado ladino setecentista. a "linguagem repassada de provérbios" de Gracia. cada uma com étnica. [ . como ocorria no "Ante cocho que el agua serua: ao seu tempo se Brasil4B. Andaria assim a produção dramatúrgica. em França e mesmo no Japão. no um e outro. Isso seria ainda Claude-Henri Freches analisa o texto nestes não selamos já cavalgamos. . desde logo chamando a atenção para Brasil. falecido em E o mulato Eitor d e Los Lindos é um "rufião [ . e salienta certo perfil pacifista. Claude-Henry Freches enumera centenas de tra­ assim mesmo! Maria Odete Dias Alves caracteriza gédias neolatinas representadas em Portugal.. nem sempre com a mesma origem Vasconcelos. mancebas e mancebos. E José Luís Hopffer Cordeiro Almada cita 35 colhem as uvas quando são maduras. Ulissipo e Aulegrafia. . cortesãs. ] Não intriga sentimental.

para o Brasil e mesmo para a Índia do tes mas no fundo convergentes. da Escola de Gramática a temas nacionais. De tal forma que o teatro "de cor­ que respeita ao século XVIII. neste longo dos séculos XVIII e XIX. diz-nos Nicolau Tolentino. foram os portugueses que de se recuperar o acervo de perto de mil títulos. isto Latina e Moral.pois. quase dois mil que supostamente foram escritos. E desde logo. ao Aí são numerosas as personagens negras. no com a tradição do teatro clássico nos países fran­ que toca à analise crítica moderna. pela necessidade cófonos . além num movimento que aliás dura pelo menos até ao de pouco estudada. no que respeita romantismo e o ultrapassa. chamada do Teatro de Cordel. espectáculos. representados e publicados em edições baratas que.49 mente cómicas. no que para África. repita-se. porque a verdadeira del" constitui uma das grandes linhas de conver­ euforia que foi e é a produção dramatúrgica e de gência das literaturas dramáticas dos dois países. pela capacidade alucinante de produção e. mas agora prejudicada. Católico (1570) da Cidade Velha de São Tiago. "no Arsenal. na primeira metade do Retórico pormenor - Painel azulejos. na linha que se ia definindo desde Será interessante averiguar essa transladação os clássicos. mas sobretudo cruzá-la dizer. do ponto de vista do reino e dos seus habitantes. geral­ tempo capital de Cabo Verde.espectáculos religiosos. numa ambientação nacional. Lisboa © José Meco 36 . e do Seminário é. dos certamente o levaram para lá. fundada em 1551. se tal se pode missionária para África. ao vago caminhante/ se vendem a cavalo num barbante': Não nos demoramos na análise do tema ao A conjuntura histórica aponta mais. por razões diferen­ momento. c. concentrou-se. 1660 Palacio Fronteira.

actualíssima no ternário. de Macedos1. esta já em 1826 (Entremez Novo da Castanheira). Nascido no Rio de Janeiro. temos em cena "um preto" e "um pre­ tinho" que entre si dialogam com alacridade. século XIX. filho de português ou O Contentamento dos Pretos por Terem a sua e de africana. "uma preta" (Os Casadinhos da Moda). numerosos textos de cordel ou de teatro popular. Entremez das Línguas. Raras Astúcias do Amor. na poe­ José Ramos Tinhorao Editorial Caminho. e dramaturgia sólida. E a simples leitura de algumas peças ou mesmo de alguns títulos dá-nos pistas deste terná­ rio. rente da extinção da Nova Arcádia e do "escândalo" Os Casadinhos da Moda.nos no p ersonagem 37 Selimuntino. das polémicas com Bocage ou com José Agostinho Entremez da Floreira. O Poela do Violo. tocados lhões de Ouro de Nicolau Luís. Armindo Jorge de Carvalho Biãoso. Cazumba um exemplo muito feliz do p ersonagem . O Hércules e cantados na corte. uma linha coerente e constante de cordel. mas sobretudo traça uma panorâmica do modelo. Os Dois Amantes de África. desde o século XVIII até rigorosamente a uma peça de 2002. as suas escassas peças. 2004 sia e no teatro. do últimas com música de Leal Moreira. preta'. Encantos de do Rio e mais tarde em Coimbra. a vários títulos. E no entanto. O Preto. E mais. A Saloia Enamorada (1793) tramos algo mais consistente. A esse respeito. Entremez do Negro Mis bem Mandado. do Modinha e do Lundu (1740-1800) a literatura brasileira continua a alimentar. dá. "a perspectiva de escrever para o teatro e que apresentam personagens africanos: Auto da popular aparecia como uma solução ideal'. Isto é Bom Demais! Ora. E no mesmo estudo encontramos um conjunto de entremezes portugueses do século XVIII onde. tal como era tratado na época: A Preta de Talentos de António Xavier Ferreira de Azevedo. preta" (As Convulsões. Lisboa. na linha tradicional. a "Luiza. Um Engano Astuto ou nós agora. Desmaios e Desgostos de Um Peralta da Moda) ou a "Isabel. dizemos Visitação de Santa Isabel. A "Cigana'. inclusive. refere precisamente a convergência temática.Domingos Caldos Barbosa. O Escravo em Gri­ surge mais ligado a modinhas e lunduns. na melhor tradição setecentista. num estudo editado na Bahia em 2004. e sobretudo A Vingança da Cigana (1794). temos como personagens recorrentes "um preto" ( Um Engano Astuto). Escapin (Lé. Os Mas em cima da passagem do século encon­ Viajantes Ditosos (1782). para a situação de menor relevo decor­ o Modo de Nunca Pagar. Scapin) em Argel. estudante no Colégio dos Jesuítas Alfa/Tia. E mais: na tradição popular nordestina. tal como esclarece José Ramos o que na prática vem muitas vezes a dar no mesmo Tinhorão. as duas Trata-se da figura singular. do que propriamente a uma Preto. revelam uma poeta Domingos Caldas Barbosa (1738/401-1800) capacidade dramática ainda hoje muito interessante fundador da Nova Arcádia com o nome de Lereno e eficaz. clérigo secular.

como recordamos do teatro "de cordel'. inv. ao longo do século.. em especial os brasileiros. Porque 38 . ] em rimas extraordinariamente harmoniosas"53. por razões óbvias. o romantismo e o ultra-romantismo ou se concen­ Sir William Beckford Gravura do século XVIII tram na vida política e económica. escreve indignado Fialho de Almeida!54 Mas estamos. U I' . Maria II. o Poeta" é o personagem central das Peraltas e Sécias (1899) de Marcelino Mesquita. E é no Brasil Programa da peça Peraltas e Sécias Teatro Nacional D.. para o Brasil. o qual.. " . e com Correia Garção e os árcades. num registo de ambiente "brasileiro': Pior é o perfil conferido ao padre Teodoro da Almeida. a quem se deve a . merece entretanto um comentá­ rio. recuperação da ópera de Caldas-Leal Moreira. Depois tam­ bém escasseia mas não desaparece. citado desde Gil Vicente. de repente. transformado por Marcelino num "trôpego imbecil fanatizado por crendices'.�. . notável pelo "conteúdo humano'. há que repetir a constatação de uma menor atenção aos seus pro­ blemas e personagens. para a Índia ou. noutro plano. ou se assumem em reconstituições históricas e comemorativas voltadas para Marrocos [veja-se Herculano com Os Infantes de Ceuta (1844) ou O Ponteiro de África ou Três Noites Aziagas (1839)]. É que surgem então personagens negros. Esta opção. "Cal­ das. n O 103034 negro cómico.. na sequência. no final do século XIX. E sem pretender que a África tenha desapa­ recido por completo do teatro. O tratamento dado ao poeta é de simpática ironia.I. 1902 MNT. O Brasil. se desentra­ nhou numa torrente de improvisados versos [. como escreveu Manuel Ivo Cruz.1.I .52 Em 29 de Outubro de 1787.. "assim que trouxeram a sobremesa.. . mas no contexto brasileiro. . o Poeta'. William B eckford jantou em Lisboa com "Caldas. assume maior presença com António José da Silva.. ..

da colonização e do degredo. a partir de 1 974. a situação altera-se. A partir dos anos sessenta e setenta. como é evidente. n. mas onde abundam também os Trata-se porém de uma excepção ou quase. As personagens são típicas ção. para os EUA com a emigra­ a bordo (3.' 78868 Vimos como no século XIX o tema de África se circunscreve preponderantemente aos grandes ciclos históricos ou. com um dos mais prolixos e importantes dramaturgos. dramas ultra-românticos de experiência o tenente menina'� . que durante décadas geu na passagem de século XIX até aos anos trinta a atravessou o Atlântico à frente de companhias tea­ cinquenta do século xx. A sua peça de estreia. para o Brasil. pelo menos até meados desse período. uma questão ao degredo. Carlos esciavagismo. O mais curioso é que o tema do degredo man­ tém-se mesmo para lá dos seus limites temporais. de certa camada da época: Manuel Fortunato. O Estigma (1903)55.. 39 por vergonha. precisamente. como também já houve ocasião de referir.° e 4. como veremos adiante. passado de finais de século XVIII também. sublinhando a transversalidade e a aceita­ ção generalizada da presença colonizadora. mas sobretudo. que se afirma a partir drama marítimo Homens do Mar ( 1862). Manuel não pode casar com Clara porque o pai "está em África'. Assim por exemplo. O mesmo se dirá de algum O ternário de África surgirá mais tarde e tem o apo­ teatro de César de Lacerda. E resta dizer que não faltam personagens Mas precisamente. que vão aparecendo os negros. E praticamente o passado século teatral português inicia-se a partir de uma situação hoje invero­ símil que lhe toca. brasileira vivida. Mas não nos ocupamos agora desse ternário. inv. em Luanda (1. "grande prático da costa de África. mais esporadicamente. com as limitações conhecidas. 1962 Fotografia MNT. trais encabeçadas pela sua mulher Catarina Falco. põe em cena. com Ódio deRaça ( 1854) e O Cedro Verme­ "primeiro tenente da armada real e conhecido por lho (1856). Ramada Curto. Maria II. O tema renova-se e ganha consistência política e dramatúrgica ao longo do século xx.0 acto) e para África. condenado por homicídio. a que chamou O Vício sem Máscara ou Saraiva. Daqui erradicou em Moçambique (Prólogo). como exactamente 1 60 anos antes . Manuel mata-se. de César de Lacerda é o africanas no teatro popular. conhe­ O Preto Sensível! Na mesma linha temos Gomes de cido por o capitão mata-negros" (!) ou Bento Rosado Amorim. Cena de Peraltas e Sécias Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional D. personagens africanos.° actos). "rico José Agostinho de Macedo escreve um drama sobre comerciante com casa comercial em Goa'.

morrera Maria de Frei Luís de Sousa: "de vergonha': . . Mântua, que deixou ainda colaboração num
Voltaremos a Ramada noutra perspectiva. drama histórico em verso O Cerco de Tânger
Mas muito mais detalhado na referência ao (1923)57 alinha geralmente neste tom miserabilista
ambiente africano e às suas sequelas é Ordinário (O Álcool)5o. Mas a visão negativa da África e das
Marche (19l3) de Bento Mântua56, peça conside­ campanhas de ocupação é, nesta época, excepcio­
rada antimilitarista na época e como tal proibida. nal, como o é, vimos, a referência ao negro. Pre­
Trata das sequelas dramáticas da mobilização de cisamente, no contraste a partir do mesmo tema,
Paulo Guerra para as campanhas de Mouzinho. cita-se A Promessa (1910) de Vasco de Mendonça
Num clima de dramalhão, a vida familiar e pessoal Alves: aí, o protagonista é Jorge, herói das campa­
do ex-soldado, entretanto regressada a Lisboa, é um nhas de África, que pelos seus méritos casará com
somatório de desastres: o próprio é doente e alcoó­ Madalena, não obstante a "promessa" feita à hora
lico, a irmã prostituta, a mãe tuberculosa. Tudo sito, da morte do pai de casar com Rui. . . 59
num clima de populismo urbano miserabilista.
A Viagem Maravilhoso
No início, a guerra de África até era vista como Postal do Museu Nacional do Teatro
factor de promoção económica e social: "O tio Exposição Colonial, Porto, 1934
Carlos [ . . . ] arranjou para servir na África, de onde
voltou Alferes... trouxe de lá alguma coisa de seu, e
hoje é capitão." Ora, já vimos que nada disto acon­
teceu com Paulo, que nem sequer reconhece a irmã,
quando a encontra "numa taberna imunda e mal
frequentada da Mouraria':
E no entanto, a peça ganha fôlego com a des­
crição pormenorizada da prisão do Gungunhana,
numa perspectiva bélica retintamente colonial:
"Os inimigos - os vátuas - todos de plumas brancas
eram em número de 12 a 14 mil'; o que provoca um
comentário - "ena pá! Tanto carvão': As forças de
Mouzinho, "uns 600 praças': A descrição do céle­
bre quadrado é pormenorizada, num registo de
coragem: "Uma bala bate na garupa da montada
do nosso Coronel, que nem se buliu. Estava firme
como uma estátua. O nosso Alferes Silva cai, ferido
de morte. A gente vai acudir-lhe, mas ele levanta­
-se, volta· connosco à fileira e aí fica até morrer':
O coronel é "bravo'; o capitão "valente'; a artilharia
"abria ruas de pretos': E assim, "com os olhos fitos na
bandeira que simboliza a nossa pátria e lembrava a
nossa família [ . ] puzémos em vergonhosa deban­
..

dada essa raça maldita do Gungunhana'; diz o Paulo.
O pior é a ruína total dele próprio e da família! É de
notar que o negro aparece, neste contexto, como
inimigo, o que em rigor não é habitual. 40

Carlos Selvagem (1890-1937) Matriz africana nos autores metropolitanos
Arquivo da Família Ferro
Vista de Lisboa, o tom dominante desta dra­
maturgia africana da primeira metade do século XX
aponta com efeito para uma expressão mitificada da
África como área redentora ou afirmativa ao nível
do espaço, da mentalidade, das virtudes de carácter,
coragem e dignidade. Com excepções, sem dúvida,
e sobretudo numa perspectiva paternalista das
relações com os negros (os "pretos" na linguagem
quase sempre utilizada), geralmente vistos como
ingénuos e dedicados servidores, exprimindo-se
num português próximo da língua da Guiné dos
clássicos . . . E isto, tenha-se bem presente, numa
posição politicamente "correcta" ou "incorrecta"
mas absolutamente transversal a ideologias de
esquerda ou de direita: e assim será até aos anos
sessenta, pelo menos.
Também se deve distinguir, mas não tanto
como poderia imaginar-se, os autores que conhe­
ceram África, alguns com grande vivência, e os que
nunca lá foram. Africanistas, no sentido da época,
foram Carlos Selvagem e Henrique Gaivão. Ambos de Isabel Moniz e na filha Leonor, e o mundo "capi­
reflectem no teatro as experiências respectivas. talista'; "affairista" e cosmopolita muito próprio da
Alfredo COl-tez, numa peça episódica, assinala um época, em que se envolve o filho Rodrigo. A reden­
ano de magistratura em Luanda. A certa altura, ção estaria na ida de Rodrigo para a Zambézia, onde
como veremos, vão surgir autores nascidos nas a família possui terras que "valem uma fortuna . . .

colónias, ou lá fixados e lá estreados. É uma vergonha o abandono a que as votais, nas
Carlos Selvagem já deixara um registo incon­ mãos dos ingleses e alemães, aventureiros, que aca­
formista na sua primeira peça. Cavalgada nas barão porvos a empalmar'; diz o africanista Torralva.
Nuvens (1915)60, relato duplo da batalha de Alcá­ Rodrigo começa por considerar essa opção como o
cer Quibir, falsamente apresentada como vitória "degredo": curiosamente, alude-se a degredo, já
para satisfação do velho Gonçalo Vaz. "Os Mouros, fora do contexto, noutra peça, mais tardia, de Carlos
refeitos dos seus danos e espanto, correram então Selvagem, A Espada de Fogo ( 1949).
sobre nós, com mais fúria, uivando seus ladridos de Mas O Ninho das Águias as boas intenções
infiéis . . ." mas a verdade transforma-se em mentira desaparecem: seduzido pela viscondessa de San
triunfalista. Gil, para quem "um bacharel em Direito" não tem
Entretanto, em O Ninho dasÁguias, passado em cabimento em África (ou "nas Áfricas"), Rodrigo
1 920 e dedicado ao capitão Humberto de Athayde desiste. E o quadro que a viscondessa lhe traça
"ingloriamente sacrificado em Ãfrica, ao serviço da é elucidativo: "O que esperas tu fazer em África,
Pátria, com uma bala no coração'; Carlos Selvagem doido? Tu não nasceste para trabalhar, não sabes!
dá-nos o contraponto entre um mundo da velha [ ... ) Voltarias ao fim de quatro anos, cinco anos, com
41 aristocracia rural, simbolizado na casa solarenga umas libras no bolso, mas arrasado, irremediavel-

mente inutilizado [ ... ) um velho achacado por todos África por amor aos novos horizontes, por amor
os males de África, sem saúde e sem beleza!" àquela terra imensa, mais violento e truculento
Esta visão negativa serve de prova a contrário o primeiro, a ponto de não hesitar no crime, aliás
das virtudes da opção africana: afinal o Rodrigo não consumado, mais acomodatício e dócil o
opta por uma decadência fácil, sem cuidar de res­ segundo - a sua mentalidade é aberta 'fixação'
ponsabilidades familiares. A biografia africana de - como escreve António Manuel Couto Viana da
Carlos Selvagem (Carlos Afonso dos Santos), oficial 'africanidade; na tradição que vem do século XIX e
do exército com longos anos de administração colo­ marcou também uma sólida geração de republica­
nial, é bem clara nas suas próprias opções. nos, monárquicos, salazaristas e oposicionistas6 1 .
Ora, em Auspicioso Enlace (1923), comédia Eles estão em África para ficar, mesmo quando
escrita em parceria com André Brun, a figura do arruínam a vida, a saúde e a fazenda. Alinham
bispo missionário D. Joaquim, também, sustenta o com eles o comandante e a sua filha Helena.
contraste: "Quem me mandaria a mim voltar para O contraponto está num Dr. Meireles, que só vai a
terra de brancos? Em vinte e cinco anos de Costa Angola para enriquecer, de certo modo na Mary,
de África nunca me vi numa entalação como esta. filha de Telmo, e sobretudo na formidável Lotie,
[ ...) Quem me dera ainda no sertão entre os pretos. ex-dançarina de cabaret tornada 'respeitável' pelo
Estes brancos são muito complicados:' É a posição casamento com o colono - mas que odeia África.
dominante na dramaturgia "colonial" da época: Será um tipo humano que Carlos Selvagem, com
ingenuidade dos negros, uma espécie de bons sel­ uma longa carreira militar e de administrador em
vagens simpáticos e fiéis. Angola e Moçambique, com extensa bibliografia
Mas a grande peça de ambiente africano de africana, conheceu certamente bem':62
Carlos Selvagem é Telmo o Aventureiro ( 1937), sín­ Ao nível de textos, este contraste assume-se
tese do tema, consubstanciado em diversas famílias com clareza. O Meireles considera África, as coló­
portuguesas. Aí, de facto, o contraste estabelece-se nias, "uma simples ilusão. [ . . . ) vem-se a África para
entre as duas comunidades em presença, mas tam­ enriquecer. As nações querem as colónias para se
bém entre as duas mentalidades coloniais. enriquecerem [ ... ) Nasceu essa ilusão no tempo da
Os nativos são meros comparsas, que se expri­ escravatura. [ ... ) Hoje, porém, que pouco a pouco
mem no português aproximativo habitual: "Viu se foi fazendo do negro um trabalhador como os
(pegadas) sim senhor. Esteve a andar muito longe outros - com direitos, salários e garantias - de que
mas há-de falar melhor quando mostrar daquele nos serve vir para as colónias?"
grande pedra'; diz o criado negro a propósito de Mas o Telmo tem o sentido de missão civiliza­
um leão. E o diálogo com o Telmo é característico: cional e a perspectiva de espaço e de futuro, domi­
"Chingulo - patrão ainda quer ir ao elefante? Telmo nantes na época: "Continuamos todos a fazer em
(bonacheirão) - Patrão só quer que você não seja África o que sempre temos feito, levando como até
burro! [ . . . ) Chingulo (familiar, risonho, abrindo aqui a nossa cruz': . . E deixa uma descrição típica da
a cesta do farnel) - Elefante não há-de vir hoje, mentalidade colonizadora dos anos trinta:
senhor. . . , Leão anda muito perto. Já ontem matou "Telmo: Sim! Sou um aventureiro. Chamam-me
dois bois no curral do Sr. Francisco." aventureiro, porque de tudo lancei mão, para furar,
Mas o grande conflito situa-se ao nível da trepar na vida. Já estive duas vezes à beira da fortuna
pequena comunidade branca e da sua concepção e voltei a ser pobre. Mas nunca desisti, nem desisto
de África. Cita-se o que noutro lado se escreveu: ainda. Quando vim para África, mais novo do que
"Assim, Telmo e o seu afilhado Manuel estão em este (indicando o Manuel) isto era bem pior do que 42

. . que o verdadeiro "velo de oiro" é a terra. Fui tudo . Tudo perdi. Cheguei a viver da caça que vendia para comer. 1. pela mão do jovem João. Volta para África no primeiro Fui tudo. descobre tor. sabe -. que não vale a pena sociedade e estas mentalidades. logo no cais. agricul­ desembarca em Lisboa e. RUA BARROS QUEIROZ. . E.Adélia é disso exemplo: "Há anos que andamos os dois a labutar em África sem passarmos da cepa o V E L O D ' O IR O torta:' Daí. .o Velo d'Oiro (1936)64 adaptação (com Silva Tavares) de uma Henrique Gaivão novela homónima de sua autoria. pai. e fosse preciso recomeçar. Rodrigo! Aqui vive-se! E depois é Portugal!" O mesmo diz o jovem João. leiro. . como nas repartições públicas espécie de pai adoptivo que a própria. a posição dos colonos também conheceu bem Henrique Gaivão.. E também as transcrever. que foi violada por um tal Alves. . língua da queda da borracha. Essa baixa de cotações do óleo. mais uma vez me arruinou. Era-nos preciso abrir caminho à faca.. . . mato contra os pretos. Colonos . O professor Pompílio é dos bons e convictos africanistas: "Não há como África. percebe-se. ex-sargento assassino e desertor que por pouco não mata Vasco e Rodrigo. prospector de minas.4. ORIGINAL DE gado da Metrópole. em legítima contra os brancos. . desde sargento a industrial. que logo se deslumbra: HENRIQUE GALVÃO "Pergunto a mim mesmo se isto é a tal África que mete medo a tanta gente!" A sociedade colonial comporta os bons e os maus. Mas Guiné: "Foi jacaré que levou Rosa [ . . A separação é mais pro­ Fundo Bibliográfico MNT funda e aparentemente mais realista. criador de gados. ] pôs olho escondido no capim e vê vinte anos. ] Tem feitiço para ver relógio cabeça . e falam muito. . que a noiva se casou. Há muitos que por cá nasceram e que são tão portugueses como nós:' E também dos bons é o velho colono Álvaro Pais. . Rodrigo. e até os muito maus. 1936 própria sociedade colonial. Rodrigo comerciante estabelecido. .como o comandante defesa da honra. meu caro doutor. que ajuda João LIVRARIA POPULAR DE FRANCISCO FRANCO 1936 .. de levantar a roubou meu relógio [ . Mas. Auxilia-o um recém-che­ CE DO MESMO NOME. Hoje sinto-me outra vez pobre.esboço não varia e não vai além do paternalismo habi­ 43 em um acto (1932)63. contrabandista de gado. se voltasse agora aos escondido [ . acaba por matar.. navio e casa com Estela. 18 I LI S B O A a salvar a fazenda. Fui depois hote­ No fim. ] catunha ainda não desisti de voltar à flutuação. a Livraria Portugal. O casal Vasco . mas sobretudo O Velo d' Oiro tual. . filho de Vasco: "Também aqui é Portugal. Mas aparece também uma "figura hedionda do branco da mulola'. ADAPTADO DO ROMAN­ Mandabe diz conhecer. recomeçaria:' mesmo tudo o que nós guarda . retrata de forma Adaptação dramatúrgica: Henrique Gaivão e Silva Tavares HENRIQUE GALVÃO E SILVA TAVARES menos harmónica e ainda mais maniqueísta. tanto no a infeliz Estela. como há vinte anos a O s africanos falam. Vasco lança-se numa aventura inverosí­ mil em busca de uma mina de ouro que o "preto" FANTASIA COLONIAL EM 3 ACTOS E 14 QUADROS." E exprimem-se Repita-se: Carlos Selvagem conhecia bem esta nos seus próprios idiomas. Lisboa. E ainda hoje é.. .

. autor.1 caso flagrante de adesão a uma mística colonial ao ( J9l6) .ou pelo menos as sua em tudo" e não "só de pretos'.d. mais ainda do que Ramada aborda o tema de forma muito carac­ Selvagem. melhores peças. Moema E em O Homem Que se Arranjou (1928) o (1940)65. enquanto outro assume o preconceito "de que a Transcreve-se o que dela noutro lado se escreveu: África seja uma terra doentia'� . no Teatro Nacional de major a solução de todos os defeitos da sociedade. com grande alacridade do colorido. cujo valor principal. ao menos no ano em que a peça foi escrita. O espectáculo. detalhadamente referidos em didas­ Demónio (1928)67. mas com "uma inglesa linda como ela era. "Moema traz sobretudo a curiosidade do seu Os tipos humanos d e africanistas. . "Essas Africas" serão para o Valdez e para o tiva inicial. O Cuo do /). diz um comparsa.. Maria II. em O Homem que se arranjou ( 1928) in Teatro Português a integração plausível no conjunto da dramaturgia A Alma (1913)69: mas o referencial desse é Timor! Luiz Francisco Rebelo do seu autor. não com "alguma preta'. o padre Francisco. Nada de semelhante.. enquanto "os brancos rouquejam Marques.líI(o c l. a fadiga'. e surge como uma das mais eloquentes Nada mais remoto e abstracto para Sá-Carneiro! Ed. lá por essas durante cerca de um ano funções judiciais em África e nunca me viu dar parte de fraco!" Luanda. terra que é "uma mina rosa obra deste dramaturgo . descrevendo a sua à morte designando-a como "A Negra" numa frase selvajaria'� .eunor d' Eç. na obra de Cortez e quase nada no conjunto do nosso teatro:'66 Quem também nunca esteve em África foi Ramada Curto. Amélia Hcy-Cc. desgosto de amor. teve apoio musical. mas as referências na sua vasta obra apontam para o consagrado sentido redentor e para �/Iilada. surgem nesta fase de onde de 1 acto apenas. D. quanto a menos se espera: até Mário de Sá-Carneiro recupera nós. vale ( 1908)66. s. "A orquestra descreve o deserto. o u ligados ambiente exótico. :' Ouve-se "o batuque na sanzala'� E a "orquestra acom­ E mais: em conversa com o major. e um oficial da Armada. o Valdez alude panha fora de cena o batuque. . repita-se. É aliás um ttiro. que transcrevem a narra­ peças. O lIamem filie Se! ""/UI­ arrepio dos quadros políticos já na altura dominan­ ja/l ( 1918) tes na sua área tradicional. o Ricardo. cm lKlixo. os costumes e mentalidade dos povos quimbundos de Angola. que em rigor não acompanha a esplendo­ protagonista vem de África. paisagens terística através de dois curiosos personagens de e ambientes. E. e também aí. �. É uma cena de expressão africana que nos mostra. Lisboa formas de unidade da sua variedade criacional. o O major é um personagem pitoresco: colecciona autor não se coíbe. faz questão de Água! Água! (e)os pretos imploram Oméha! Oméha!'� dizer. aliás uma das suas melhores cálias desenvolvidas." 1'0111 I�ohhs :011- a quem a sabe compreender e assimilar./o a solidez de carácter que a vivência africana impõe Em cima. é o descritivo das situações. Trata-se às colónias em geral. como se vê. o último dos quais em Lourenço a sede. assim mesmo! que até é equívoca: "Não poucas vezes tivemos a Já vimos que Alfredo Cortez desempenhou Negra diante dos olhos em rapazes. o que distingue Gaivão. em O Vencido Ramada Curto e cena da peça de sua autoria estética e nas virtualidades cénicas. perfeitamente ímpar. Trouxe de lá um pequeno acto. A variedade nasce do ineditismo do meio e ambientações. residirá na objectividade segura da expressão um missionário..

. 1916 mentir-lhe! Os outros.os degredados! Isto. à invectiva do padre Augusto ("isso não. mas este con­ segue preservar a posição na colónia. n. senhor 45 Manuel da Silva! Não o diz por si"). Fernando Cabral. Júlia Virgínia Vitorino.. A ambiguidade do título resulta das diferentes posições face à colonização e a África. com sucessivas reposições.. os negócios e o casamento.vida. para chafurdarem na miséria e na lama. e todos os inúteis.Virgínia Vidorino E Manuel: "Não! Não! Tem razão.. talvez eu diga a esta gente . a certa altura. Arma-se uma intriga política contra Manuel. Cine-Teatro Virgí­ gais que quase redundam em adultério.. os que lá e cá vivem sem MNT. a peça é bem dialogada e bem armada em termos de cena e literatura dramáticas.' 220063 fazer nada ou a fazer o mal.. os outros. inv. o criado negro Sebastião dá uma imagem de ingenuidade. Alcançou um notável sucesso no Teatro Nacional Quem também nunca esteve em África foi de D. e todos os perversos. Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora. Joaninha. Com tudo isto. que a autora classifica como modelo de "futilidade e cinismo': ! [3< Fundo Bibliográfico do MNT Em África tem a companhia do padre Augusto e da mãe e de uma tia pouco consistentes. Também aqui a dicotomia Certamente por isso. ] despertava por cá uma adesão mais ou menos bem urdido de colonos com o título ambíguo de unânime':71 Degredados ( 1 930)1°. os que aqui vêm para sugar um bocado de oiro. em duas ou três réplicas que mal passam do "Si siô': . 2004 antigo namorado. envolvidos em conflitos familiares e conju­ passa a denominar-se. gueses.. são só esses . O que não a impediu de escre­ Lello recorda que "a temática patriótico-colonialista ver e fazer representar com sucesso um drama [ .... todos esses desertores da .. o coração dos por­ tugueses. Envolve-se sentimentalmente com um Júlia Lello Ed. degredados!" Mas logo se emenda. são esses. se o nojo me não amarrar a garganta!" Para não variar. casa com o Cena de Degredados i n Virgínia Vidorino e a vocação do teatro: "sólido e franco" colono Manuel da Silva e muda-se / \ o percursa de um sucesso para África. Estava a Fotografia-postal. nia Vitorino!72 para salvar a família da bancarrota. diz que "na África. em 1938. apenas isto . Maria II. o velho Teatro Africano se implanta entre os escassos personagens portu­ da Cidade da Praia (Cabo Verde) fundado em 1867. não se sente em terra sua [ . e ir digeri-lo onde se divirtam. ] todos nós somos aqui. que fogem ao que ela tem de duro. Manuel. e todos os covardes..

Mas também. . Herodes e o lvIenino75. essas muito ou nascidos nas colónias ou directamente ligados marcadas. t912 tempo numa mulher resolve muita coisa"). Entre a agressividade de Aleixo Luna de Oliveira. .. E outros sinais críticos surgem na peça: por todos. ]" . repita-se. cos [ .estamos em 1951). e de diversas o qual impende uma subtil ambiguidade política comédias. 46 . mas também no contexto da própria pela sua actividade teatral. Um dos primeiros será sociedade colonial.nas restantes peças. Com as limitações óbvias da época. Apresenta gran­ A partir de certa altura aparecem dramaturgos. . renço Marques. o que sucessivas (Machamba e Latitude Sul. . em que. portanto. acabando por inculca o Tarrafal) há um fosso.(e as citações não acabam) mas é irmã­ o texto consegue passar uma visão muito desen­ mente reconhecido pelo poeta. Teatros de colonos colonos e de negros urbanizados. em 1959. ] uma seta de esperança': Orlando de Albuquerque nasceu em Moçambi­ que e viveu em Angola. não tão agressivo se chamar singelamente África (1951). depois de um Infante Santo e a vida economicamente difícil do "poeta'. onde aliás na epígrafe da edição assume as dúvidas e angústias da fase de transição para a independência (Natal de 1 974 "este Natal que não sabemos se de Incerteza - se de Esperança") . a cor­ © FAHM rupção (engenheiro Saul Pedro). . Aliás recíproca e piroleira [ . para alunos do ensino secundário. tirando um singelo e muito bem escrito Auto de Nata(14. que com ele alinha cantada. ] terra gira e tudo" e da sua população de envolvendo a família. t966 nagem branca vem por anúncio directamente da © FAHM Mouraria . sobre proposto em 1917 ao Teatro Nacional. que contrasta com o racismo: "Ele adora-o só porque lhe apertou a mão': Não haverá denúncia mais contundente e talvez por isso na poesia deve ser uma seta apontada ao futuro [ . fez representar em Lourenço Marques e (esteve em Cabo Verde cinco anos: mas não há em Lisboa um drama que assumiu denominações a certeza "donde eu vinha e onde estivera'.espectá­ culo tradicional local e certa construção de matriz mais ocidentalizada. se bem que algo enternecida da "cidade em total solidariedade e amizade.. . des clivagens. que. A sua dramaturgia compõe­ se de peças breves. ] neo-realismo. procura uma conciliação entre o teatro . uma impressionante solidariedade inter-racial. uma peça subsidiária do Este é maltratado por Aleixo ("seu negro [ . denominada Três Setas Apontadas não gosto de pretos metidos nas conversas de bran­ para o Futuro73. a colonização como o recurso (a segunda mulher de uma perso­ Teatro Varietá Lourenço Marques. mas tão grande ou quase como entre o dito Aleixo Afonso Ribeiro estreou e ambientou em Lou­ e o criado negro do café. o machismo ("um bom par de galhetas a Teatro Gil Vicente Lourenço Marques. não só de âmbito racial.

ainda que contextuali­ mas não menos clara: "Os teus assuntos são só zada na história: "O ódio do nosso povo aos nossos nossos. e não pagava nada. a terra." quando a vontade de sob a está contra nós?" Obivando ( 1968)16 põe em confronto um "dono Enfim. "espingarda dele nunca guerra. A cena. junto a uma cubata mati­ sido objecto de tratamento teatral à altura. impressiona: África "é a guerra. . ] " que o despojamento de objectos e evocações afri­ Muito mais próximo d o teatro tradicional. . entretanto. pelo isso não desenvolvemos a análise. Os sobas afinal são opressores [os romanos] é demasiado grande para iguais aos outros homens [ . podia beber. logo de início. Luciano fez a guerra em Angola: "Somos do sacrificado tentam evitar o crime: mas a caça uma geração marcada': "Mataste? Violaste mulhe­ 47 desapareceu. em Portugal são como "os negros em África': podia dançar. mas viveu em sacrifício ritual do filho. que possa ser esquecido. ligado a práticas de feitiçaria. Por isso seu chefe não quer que preto rina. ticeiro Kaluango. o Tchindulo. com todo uma certa evolução intencional. num envolvimento teatral de dita no feitiço:' Ora o dono da casa não acredita "mas muito boa qualidade. ] toda a gente podia comer.. . Mas mesmo Herodes contém uma mensagem E há também uma subtil mensagem aculturada de claro anticolonialismo.. a fruta. beba. e um deles mata um grupo de ciganos. e por canas são propositados. mas Descolonização falando um p ortuguês correcto. e curiosamente pelo detalhe. "velho trapaceiro" que lhe exige o Porque Catarina é de Moçambique. o seu imenso circunstancial dramático. o Tchindulo era "soba grande em que retrata. O sob a enfrenta o fei­ que mais realça o ambiente erótico do conflito. " [ . res?'. com um distanciamento de 1 5 lá no Puto': E a cena como que retroage para uma anos. . a s situações e o s dramas dos retornados e situação de feitiçaria: "Deus castiga aquele que acre­ da própria guerra. errava'. e E finalmente: "Os brancos também fazem a segunda na mesma sala mas com um ambiente cachipombo [ . . Eles sabem africano. O escravo do soba e a mãe Angola. e a caça de casa" de "aspecto civilizado. sendo a primeira passada numa sala O que revela nova ambiguidade intencional. o cheiro do capim e do caça . pergunta a Catarina. a evocação de África. . a mais relevante delas Um Jeep evolução': em Segunda Mão (1979). o que deixa antever sequer a guerra colonial em si. o que represente É de estranhar que a descolonização. inclusive pelo traje da protagonista. usando um relógio de pulso. . . sobretudo na medida Em qualquer caso. ] mas o branco não bebe. Toda a gente sabe que tem obivando': das cenas. . não tenha passa-se numa "sanzala. Seu padre também não [ . . Mas o que se passa é uma evocação poética "em que incisivamente dá expressão dramática de um branco falecido. Mas não obstante se esclarecer. recordam com saudade algo ambígua: "Era bom escreveu Luís Francisco Rebell079. A começar pelo contraste tem feitiço.cubatas toscamente construídas'. de Fernando Dacosta78. Soba. Nem cada com alpendre e janelas. Zambi leva o filho do soba. pois trocava a "água do Puto" por bor­ soldados deixam-se envolver pelas recordações da racha. "num aldeamento de cheiro do dem-dem. e um grupo de negros descalços. há mortes no aldeamento. Quatro antigos mesmo" . Quem pagava era Tem entretanto muito interesse referir África Tchindulo": então e a borracha? (1990) de Isabel Medina8o. E refere-se a "África . pois. com algumas excep­ ser o seu proprietário pessoa de algumas posses e ções assinaláveis. ]. . ( 1969)77 que põe em cena. . "onde nenhum objecto deve referenciar África'. um conflito calor': E tudo isto ao som de um batuque africano. que os pretos aos traumas desencadeados pela guerra colonial'. é Filho de Zambi contrário. Grande caçador. . ] de que vale ser soba. de todos nós [ . Cata­ que faz mal. trajando à europeia" voltou . .

[ .. . Tudo tão vasto. "Foi assim que levaste o João ao suicídio. pensas que podes fazer o mesmo comigo? A guerra de África já não me toca [ . João suicidou-se."um berço húmido. Catarina substitui "o vazio de África pelo jogo" e jogo de vida ou morte. como temos visto. campos de café. ] o amor corrompido por África" .. o outro personagem masculino. o Tóli'� As referências a Angola e Guiné estabilizam numa poderosa evoca­ ção das inundações em Moçambique. Eu nunca retornei... Armando Nascimento Rosa deixa vestígios da presença africana em algumas das suas peças e desde logo. numa situação equívoca de paixão que lhe vota Luís... . .. vergonha por­ que a neguei.branca. [ . um berço negro [ . tão imenso. vergonha porque voltei. Retornada .. uma narrativa . . ] Saí quando devia ter ficado. A história nasce na oferta à pequena Leonor "de um boneco articulado vindo de África.. É vergonha o que sinto. que acusa Catarina da tragédia... .. . com uma afirmação dramaturgica­ mente muito interessante. a auto-responsabilização pela morte de João. p or quem Catarina se apaixonou. Era nova demais. tudo branco..:' Aí. O céu é azul que só ali existe . no texto infanto-juvenil Leonor no País sem Pilhas (2000)81 . Eu não nasci aqui. eu jurava que não era de lá.. Porque a verdadeira chave da peça estará - e é singular na nossa dramaturgia . tudo tão limpo . envergonhada [ . E é Catarina que o diz: o seu coração está em África. Mas há outro drama de guerra: numa situação confusa de deserção.na desambien­ tação existencial dos retornados. :' É a ideia de espaço libertador que surge. ao longo de toda a temática e aqui sublinhada pela música e pelo ambiente evocativo. Vergonha porque saí. ] esquece África'� Mas afinal João foi denunciado por um companheiro. ] palmeiras. ] Todas as vezes que me chamavam retornada. Ou pelo menos assim julga Simão. também.. E não volta porque a "vergonha não (a) deixa. E também em Audição com Daisy ao Vivo (2002)82..

Em primeiro lugal� o teatro não constitui o núcleo duro das novas literaturas de expressão portuguesa. assume o contraste entre nos de expressão portuguesa. tendo embora em que já vimos. António Loja Neves. tico dizem qu'e não. Mas diga-se que. na medida em que certos casos.Um Jeep em Segunda Mão dramática situa o problema do racismo e do apar­ Acresce que a lista de peças agora apresentadas não Fernando Dacosta. de Jaime Rocha. na nossa ções historicamente consolidadas como é o caso. primordialmente. O que significa um tratamento muito menos da "unidade de acção dos vários movimentos de exaustivo das aculturações de teatro tradicional independência" o que conduz a uma natural iden- africano e de origem étnica com excepção das situa. aliás. foram já identificadas para cima de peças contemporâneas. entre outras. Ainda mais recente (2005) estreou Equador Refira-se. os textos Sinde Filipe84. o Bocage de recolha respectiva. um meio privilegiado numa troca de situações hábil e muito interessante. pese embora a sua instrumentalidade histórica e política. do Tchiloli88 e do Auto de Floripes89 vista as perspectivas específicas das peças históricas são-tomenses.o em edições muito circuns­ Equador de Miguel Sousa Tavares87? Este diz que tanciais e de difícil acesso. que muitas peças escritas e Passa em São Tomé e Príncipe. também acima referida. Lisboa. com as limitações e compraz em slogans. o teatro constitui. ao nível de títulos e de notícia de Finalmente surgem personagens negras em espectáculos. o teatro de expres. opinião. tificação transversal9o. contingências inerentes. global. Homem Negro modernas literaturas dramáticas dos países africa­ (2004). em relação à qual se representadas. como mesmo que a pouco e pouco dramaticamente se revela. que a seguir se analisam são. 1982 Fundo Bibliográfico do MNT jovem Fernando Pessoa em Durban. militante História recente. com as excepções e complementações dências segue-se uma visão abrangente das diversas caso a caso assinaláveis. vinha sendo já utilizado pelos autores desmancha estereótipos de uma ideologia que se africanos no período colonial. em Politicamente incorrectíssima. theid na África do Sul. como tal. ou nunca foram abriu controvérsia: é ou não adaptada do romance editadas ou foram-p. o qual. As Três Cidras do Amor de Ivette K. os mais CentenoB5. Entretanto. . a integração do negro nascido em Portugal e sem Assinale-se. Importa ainda ressaltar dois aspectos da ques­ tão. Ed. de exposição ideológica e política. à expressão dramática literaturas e práticas dramatúrgicas. Ulmeiro. ainda. colmatar. situação que se procura sim e sem autorização: os autores do texto dramá. estando em execução permanente a de Pedro Lusitano de Norberto Ávila83. Em qualquer caso. em parte fruto em si. uma solidíssima abordagem da ideologia. tanto no perío­ anti-racista mas eivado de um racismo profundo do imediato das independências. tal como aliás justamente assinala tem em vista. E em Como foi oportunamente referido. Com da mentalidade e da técnica teatral adoptada pelas excelente qualidade Homem Branco. reportando ainda à estada do é obviamente exaustiva. pensa-se. à estandardização política dos são portuguesa tanto no que se refere ao texto. como diversos territórios no contexto anterior às indepen- também. este estudo segundo lugar. não impede uma visão 49 aqui citados na perspectiva da matriz ocidental. por exemplo As Viagens cem peças. Ou o caso de certas peças e autores e de certas raízes sociais. significativos da matéria em análise e constituem. Luís de Camões de Eduardo Damas86. ainda. que no ponto de vista da qualquer tipo de problema e a do branco. essa transversalidade. que aqui se procurará conciliar. em períodos de guerrilha. de que há notícia. Duas peças recentes tocam o tema África.

em Ana. esse tratamento não é globalmente favorável.e José do Telhado. um autor extremamente rele­ dade moderna. "a escravatura acabou [ . D. António Tomás da Silva Lopes e Castro ( 1892)92 Nesse aspecto."os homens nação histórica ou mais imediata do colonialismo. diz a própria . . Ana Joaquina com o Mas. Dois perso­ muitíssimas vezes assumido com grande clareza nagens centrais definem a problemática histórica: . ." .. de guerras interétnicas ou de auto­ Empacasseiro. derivas históricas mas sempre voltado para a reali­ Nesse aspecto. . também não é escamoteada a de D. . depois capitão de milícias ao serviço do plicidades entre colonizadores e colonizados. 50 . evocado num pectiva problemática e das teses em presença. mitificado como "o grande e bom tudo a intervenção dos poderes locais. sendo certo que o tom dominante é a conde­ definidor de um conteúdo crítico . encontramos vante no contexto da pesquisa é o carácter não desde logo. Uma matriz não maniqueísta As situações históricas directas Estamos então no quadro de um teatro pre­ É pois interessante começar a análise pelas ponderantemente político e social. repita-se. agora a partir de o criticismo das situações pós-independências é 1836. Seguindo a classificação e ordenamento Mas o mais importante e de certo modo rele­ cronológico proposto pelo própri09 1 . o mais interessante é a frontali­ escravo que ela própria chicoteou. E também nem sempre esse mani­ em si mesma e fundamentada em documenta­ queísmo constitui condenação cega e absoluta do ção referida na peça. que mantém o regime escravocrata­ os autores respectivos. ] mas não para os escravos Por outro lado. as Governo de Angola e do reino.o que nem sempre terá sido cómodo e fácil para D. Cândido tamento dada à missionação: mas reconheça-se que Furtado ( 1864)93.. numa base rei branco" pelo seu cúmplice africano (negro). .AnaJoaquina. brancos [ . um maniqueísta e politicamente incorrecto da res­ notável quadro da situação colonial. prólogo algo poético e algo idílico do período da mesmo no contexto pós-independências. de cada país. isto entre 1862 e 1875. XIX: a hipocrisia quase blasfema do clero e da Tudo isto. Ana Joaquina'. São citados textos do bispo colonialismo. O que dá credibili­ -se uma visão dura da sociedade angolana do século dade ao substrato dos conteúdos respectivos. acreditar apenas naquilo iremos ver.. por vezes quotidiana. com fortes perspectivas históricas directas. . ) entre colonizador pelo menos assume uma cumplicidade histórica e colonizado. vante. o de tribalismo. Pediam ou a demonstração de sinais seculares de rebeldia ouro. . ano da aboliçao da escravatura. que o auxilia nas guerras contra os ridades tradicionais no fornecimento de escravos poderes locais e na captura de escravos. Logo aqui e noutras colaborações activas e recíprocas (cola­ a dicotomia colonizador/colonizado se esbate ou boracionismo.. (Angola). Em qualquer caso. é José Mena Abrantes O fundo ideológico é por isso dominante. Zé e os Escravos (1980). diríamos hoje . . e de outros. e reverte O limite pessoal dessa cumplicidade surge no sobretudo para aspectos políticos e não religiosos. ou mesmo dominante. respectivas alianças políticas e de poder. e sobre­ ano da sua morte. assume também relevância o tra­ mas também da própria D. a partir deste quadro traça­ no contexto pós-independência. que um dos meus colegas no Brasil chamou a pre. e desde logo dizer. realidade histórica das solidariedades e das cum­ degredado.também é certo que peça com muita qualidade teatral. Joaquina. Haverá aqui um dade com que muitas destas peças encaram e criti­ eco da brasileira Chica da Silva? cam a situação política e social dos respectivos países. de J. envolvimento sexual de D.] davam tecidos e missangas . Quer chegada dos portugueses a África.mas desenvolvida na contra o poder português . com as causalidades que diante missionação ("acreditar. marfim e escravos.

dominante mesmo nas falas dos CENTELH A personagens negros. na Fundo Bibliográfico do MNT cumplicidade das chefias e dos povos locais. . e no tráfego de escravos. : ' capitão do navio negro). Não deixou de socorrer a pobreza torno da figura de José do Telhado. gação com a espada e a vara de ferro" o apego de E a í realça-se o lado violento d a colonização: José comerciantes e colonos à escravidão ("quem nos vai do Telhado "ainda há-de ser um bom mata-negro!': trazer a cera. pelo debate entre os actores que. como na altura se trajectória de um mulato filho de escrava que. mas recua no tempo."já rechaçámos várias vezes. ] Eles têm os ferozes mascicongos e arcabuzeiros mestiços .. . discutem o enredo e as soluções. aliás. símbolo da magia africana. por mais retinto que seja . Trata-se." Mas os portugueses têm nELD ER C O S T A o apoio escravocrata de potentados locais. cita amplamente (1992)96 retoma esta análise histórica de Mena o Zé do Telhado de Hélder Costa94. O tom ( ca r ro realista da peça. diz a síntese do tação biográfica a colaborar na repressão violenta e autor. é corrigido pelo ambiente onírico e simbolizante da Mãe e da pedra escura. da "atormentada trágica e desconcertante sanguinária das revoltas indígenas.. depois de ter encarado de frente tanto branco. Há um forte contraste com a tosquidão castrense do Pai e com a dimen­ são épica das batalhas e das estratégias militares . e dos próprios africanos. tino ("no embarque da carga está tudo em ordem . o campo está cheio de cadáveres [ . Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios cinema e no teatro: esta peça. Mas o tema do racismo concentra-se na mestiçagem do protagonista: "Desde quando é que os mulatos têm quereres?" E a matéria é retomada.] não sabia (?) ainda que preparava já a existência futura de uma Zé do Telhado Nação': A perspectiva histórica assume assim uma Hélder Costa Ed. a E assim é: "Arrasamos tudo como nos ordenou': E o hipocrisia das autoridades face ao tráfego clandes­ racismo do próprio José do Telhado: "Teria que ver. precisamente. dizia.. vemo-lo com plausível fundamen­ fase da colonização. a borracha e o marfim do interior"). cuja dimensão e proteger os fracos':95 histórica tem sido objecto recorrente na ficção. O tema religioso é tratado uma vez mais num registo anticlerical que toca a blasfémia. 1 978 preponderância que se reflecte. Mas em 1875 José do Telhado é considerado O contraponto desta situação desenvolve-se em "o bom rei branco. ame­ S ó entram cascos d e azeite com água doce'. . e cobre a primeira peças. principais reinos de Angola [oo. Teatro Centelha. Em ambas as Abrantes. numa ZÉ DO TE LHA DO verdadeira guerra civil. . num bem conseguido registo pirandelliano: "Não podemos arranjar maneira de mostrar como ele já 51 compreendia as contradições raciais da época dele? . portanto. nos ensaios da própria peça. Coimbra. com a cumplicidade ao ajudar a destruir em pleno século XVII os três interesseira e desapiedada. num plano actual. diz o drontar-me um preto. no Sequeira.

[ . ] que verdadei­ histórico. Depois do desastre de Alcácer Quibir a nossa força com o Fundador que lhe tocou em Sorte (1997). a resistência dos povos são­ A tese histórica. diz Frei Afonso.de órfãs Horácio Santos 100. .] é o Teatro!': que nos faz lembrar o Zumbi e os Palmares de Na mesma perspectiva histórica situa-se ainda. aliás uma vez mais documen­ -tomenses de S.. "o único prodígio [ . e em ancestrais. na sua infinita mise­ nia numa descrição da situação no Reino do Kongo ricórdia.Pelo menos devia sentir-se um pouco à margem por especial O Rei do Obó. no plano E no final.. os "brancos queriam era Mudemos então de país. ele interno dos diversos reinos em que o território nessa responde "com orgulho . E quando per­ alegoria política das guerras angolanas no plano guntou a João de Pina se é "castelhano ou quê'. moral caiu muito . através de um processo de colonização que o autor papel-moeda da independência. ] Vai na mesma linha de reconstituição histórica mas com um factor positivo da colonização. da independência do país. que ilustra as primeiras dobras. não a ajudará a parir no futuro a primeira .. tíco Rei Amador.e também para o Brasil e para Goa . O certo é que. tituição epocal da revolta percursora. aqui. ] Uns partiam. e cumplicidades em povos e autoridades indígenas: hoje.. 52 . que já escrevera - por mim vou ficar por cá. com muito boa não ser branco:' qualidade dramática. numa linguagem que oscila entre envolvem-se cenas de actualidade e uma recons­ o simplismo profético e certo expressionismo.. é mais bem tratada: o Frei começa em 1593 e funcionou efectivamente como Afonso acaba por proteger os escravos foragidos. terá de certo um significado adequado e nesse é como sabemos um tema recorrente. dimensão histórica e patriótica da matriz do colo­ E não está fora deste registo Sem Heróis nem nizador: "A Fé dos nossos anda muito por baixo.. situa -se na própria unidade política de Angola.1514 a partir de um conflito que conta com apoios . A viúva numa perspectiva crítica A Revolta na Casa dos Ído­ do governador Cerveira Pereira fica em Angola : "Eu los (1980 Angola) de Pepetela 1 0l. Numa mistura de condena: "Da próxima vez será muito mais para nos linguagem popular portuguesa e de aculturação oprimir'... da crítica ao clero [ . . casamento com colonos portugueses.sou português!': Mas é con­ altura se repartiu.. O sistema A missionação. mas também do esclavagismo. os O Teatro do Imaginário Angolar de São Tomé padres ficaram': Mas é preciso voltar aos costumes e Príncipe (2000) de Fernando de Macedo90. João Branco assinala a mesma de Mena Abrantes. João dos Angolares e do semimi­ tada. retoma.. dessas . a peça mergulha numa terra[ .. factor de fixação de populações europeias "nessas mas "os fujões são cada vez mais': regiões povoadas de seres incultos e de instintos O registo é cómico. [ . tais famosas mulatas de Benguela[ . mas mantendo o sobretudo homens para levarem para a terra deles.. plano da reminiscência histórica. .. . o monólogo A Ólfã do Rei influência em iniciativas de teatro cabo-verdiano. ]" Lido . testado quando diz que "esta ilha era nossa [ . aqui. Reino ou o Azar da Cidade de S. aspecto muito interessante. das oscilações e traições dos de quem? Dos que vivem do suor dos escravos?': governantes e dos colonos. . num quadro ramente existe e nos faz existir [ . Portugal (como) escravos. Mas subsiste também uma bárbaros'. diz a Mãe. ] nossa do colaboracionismo. E vimos no Tchiloli influências recolhidas em conventos e encaminhadas para o são-tomenses em textos de Mena Abrantes. (1991)97 que evoca a transferência para Angola designadamente Teatro Julgamento implantado por . Alfredo Boa199• Aliás. Filipe de Benguela. diz-se no texto. ] A minha filhinha há­ antes A Corda102• A partir de uma certa aproximação de crescel� casar-se e quiçá ter descendência nesta ao teatro épico-narrativo. ]" E mais: admite-se uma situação inter­ visão muito crítica mas com traços de grande iro­ racial: "Quem sabe se Deus. :.

:. mas nem querem ouvir falar é politicamente correcto nos nossos dias: "A força em eles serem tratados como gente". f." . ÚV... ptiftlbo.. ��:':i�......... ...lI. gem blasfema.... .!... n . serve TNs. .r � M.Io!o::o.:':�""�7M::::N..}<. uLu .. taa­ ...:. .� -r...� . E a autoridade local portuguesa aos comerciantes portugueses [. l cco .d. u Tt.-o. ...�üJ......u s.a ... N�" �..o 1.iho...·l<ol>:>l� " f"""·..hJ..ta lu". � o ''''' ''''4r ... .u..o..:MG<bto. o!.& .. t r u I LOURENÇO MARQUf.. •�. ..] os artesãos [ .. tugueses": ele e o sobrinho D.....l.... relativamente à r�' '''.. �J. """ · i.1«. numa A evocação do ambiente das autoridades colo­ visão de proletariado descontextualizado..oa.h d.. .l. "'l>1.. .�I'O 6 .. �.t:�� .G'" :�� I . cWio di'<df.se....j.Jou..".m _ lu.P.q . r!e...k• . .u ..L.� �.o d.... . .. �.:�IOo. deve ir para os que "trabalham com as mãos'...o.uo>r..�.o d. . Iii _ '1�' o.. IId. '{Ot. [ UN'''''' ""' U�h'''' luu. .&o bu.:oo ". . • ..�. __�<>k.l...h k41. .UI u>!:� r.. kc:o Tt... z. u. "" C<.a c!c .rU.u.... O rei vende escravos aos para a Rodésia servirá para enviar "contratados" portugueses: "A maior parte para o Rei': Mas "tem pelo Lucas Mateus "praticamente um traficante de medo de nós.O """ ·�='1"' oq..""ul.n.." o =<.. 1948 REVISTA DO UlliA/. �''' I'':".i".t. ... o povo... quadro histórico. •• S.�lu ..... u.. I'� f''''II. . .... � 1.u.:. .... >h� .. �T�'" pI.. tiu • 4>LWiJ• •�hI.. . ".... dfto<<:>Io J ..... ... . ch. ""'tl-ou!. cJ.. . tiQ F.t1Uu • -. .. . l r...k de Sousa (Cabo Verde) é uma dura evocação do !t.duo _ 20 do Abril & �.. lUto ltl.:/""- . l ..alr. ".. p... ç.� r. 'la .. 10 1"'" UI... .u .. .�==�...... com repercussões da Guerra Civil """'i<:.. mais acen­ O problema complica-se com a intervenção tua a crítica à rede de complexidades que o autor dos missionários.. ...1" p...r"i .....�". ] os escravos e (Gomes) não sai assim tão mal.o de 1.><.:.i.h I"'�" F. .>t �'>t... d.? .::· ...al>i..<I....t. . � 'c... . o que brancos ("vocês fartam-se de dizer que os pretos não é historicamente exacto no século XVI.'.......PnH.w..U:o"" ' 'I'''' ". �r....10" 1'-> • • local.l..." nível: já num nível acima a situação torna-se mais O capitão e o padre usam e abusam de uma lingua­ crítica. toMit&t ..pn: é '•• rkil sociedade e à política do Estado angolano.Lé:t ." .\nu " ••b ._ • .� �:...oç ....dt:... . Ild. 1 .Iu..... ...IoJI� de fundo a peças de Pepetela passadas nos nossos <N-� ..... r.. . "'. .. .....t. c . a venalidade dos pares e a destrui­ ção dos ídolos constituem aliás a síntese conflitual da situação..i.!..) � .f .'.' J.o li· N. . do plblko q �olcs �.1M entidades locais... No. .JUI<� d. o que aliás vergentes e uma vez mais ambivalentes.l<!o hih !'ll l<fru ..qu ll-od. Somos nós que temos toda escravos"......rlo...''' .o}:.odoo _ <»rÃ.� � -Ae d' '-''i�I&.h�.. ...q_ pol<a. I»tlil:ri...<.. .. � • •\u".�. como habitualmente muito mal­ obviamente condena: mas a solução do crime fica tratados. I...u .k I"..�·��-:!·� f'lno...� r�...<hoo.lro � de Espanha e ainda das relações com a população

.. n. "O padre só diz aquilo que interessar em suspenso. ' <'.ie' b'" . campo prisional. . li>U d<a p..d.o(d� 1j"i.I. f.ut.... li..!!:.d.Ic'. pelo menos a esse o marfim...o.. política antes e depois das independências . 1<U.." . É também o caso da muito bem armada trama 53 política e policial de As Mortes de Lucas Mateus ... .«<. fU p.u(..".......�:": :nlf��..i. o racismo aflora no comportamento dos a força [ . o rei do Kongo "permitiu a entrada dos por­ (2000) 104 do moçambicano Leite de Vasconcelos.e<hf.r..i. n-h? 1<'......o <4 • .i..... quadro da transição para a independência.. .bk� oe .�. � r ..tlllridoSo. .!'tJiCO: ..� do> .1o .l<> . •• """. VAI A ANGOLA o Tealro dOI Elludlnles di Unlversldad.. .. n.. mas depois da está na raiva do povo (e) os interesses do Kongo são independência as novas autoridades "trataram os apenas os interesses do povo do Kongo:' E o poder régulos sem grande cerimónia")..lI. . a cumplicidade dos manis...? .!o AlmtiJ.21<11lt_".«. veremos adiante que este mesmo :-..I.ch d.. ... . ec.r"_I� 'lU . . do I...e...... �.. .""w.�.-. crítica peças de temática histórica moderna....(O l lu '!"' . .� ••bo-..!. • ••.a o -u.u . U. 'u tulr<I J.Jo . <"Ij _ . ��Í(" .�.(.. J..lu t·"" l n.n<:>"o• ....... poderosamente afirmado.Õ<i:lin cr. ÔI.'� �.I O . �6o....>!­ .s. ... �. . � I-!...n«"'�· r<i· .u d1.$ das pessoas': Ora. fU.x.I.!d!�·d�·������� la.t .I •• "U UI· -E po.m . O::' I'<<<b � "'''. I. n"U"" p.f"dkY... rsr. ..t poç.'P.ftoJ.<:>f .. "!4 n ..<t".I'" 1 .' 3.tlo raoJo.J....:. enIo ck ....0.lu\r�h rN"� UI� t'> 1�....U . 29 O conflito religioso.!':��:..U. no ':C:. n r�� C.. ... �..... �. lo la.l .."FftI.. É tudo o que os portugueses querem.."..t:�r��: ��:f1:: J...=r. ...>t 1l." lU ..� .. ".:t:l.Jo (4r.�:. . " Entram nesta perspectiva e nesta problemática tl<.. Mas "o que pode mudar as coisas é o desejo P a :n o r n :lI1 1'l1 T e D... Ir".lli.. •. c. " . .IvoI. Maio. o "'-. Revista do Ultramar.iJÍ<> _ ..!�'.J..u '" u>!.ui .I"..«or.to _.o T..uUf'·"'" .n<..�:.w..�I.oci<&&l &t 1.... I" � nJO... j A Ulp"""" <elud.. U..*. : a ..v...1. i!uc. IUI I.oe ... <Of'Od.t�'.o c.. "...i':.. ..d.rfO do..I.o P:Ól"... d... u•••�d�� <OIIIj>I• Achada Grande do Tarrafal (1979)103 de Franco pon."""l<>Ihd f.'Jo.� .. elo:. niais. .".W _ .... desde os administrativos à PIDE.i-p>� ecepuM �bl'OO'll 1..###BOT_TEXT###quot;. c. ..lu= . "p><. A estrada é historicamente exacto. "... �. Afonso subvertem a onde a temática política se assume em planos con­ ordem tradicional e aliam-se a Portugal. O ".• � d. • I"'" t.. Auu Ah. c:IO�. r-o< .p!.6..."""" o <.. Ik-..<k _ A história moderna e a crítica da situação �...l<urioJ<..ko uk. """. qC• •= I•.I\ob �. ::.:...""i..o� �... f<>i ..MJ.» .....ô .. . p..o Tutrol'ou<.1. .-. ..rtt. ... . A io.tor "'-"".. .l. ..."il.. �dI<J..:u..u..dor ti. dias e já depois da independência.. Mas são homens como nós. ���u:jE���f?::f � . o lZIol. ... ü.. n.o...b . ... U& eo d.Ui". .. 'lU oIe U�b ·iut':I"'IU� � .tIJ. ..k:t=>:o.14ico. r.'" . ] os camponeses': .. r!t\.

res por ter desviado "o rumo da peça pela sua intro­ O outro tríptico é O Pássaro e a Morte (1994). escreveu o autor em 2002. ] foi à guerra neste navio". pois não há supermercados:' O médico Pepetela publicou em 1985 um curiosíssimo não consegue que lhe reconheçam o diploma texto em prosa. Tudo isto num texto de excelente qualidade O apresentador é condenado pelo colectivo de acto­ com ressaibos pirandellianos no último episódio. prar comida. O racismo perdura: no Zaire. de macaco para ali[ . onde integrou zairense. . um "belga duas dramatizações autónomas. . . A revolução de 25 de Abril e a guerra O primeiro. com citações de Fernando Pessoa. . dução individualista. tentou juntar-se grupo de actores. macaco para aqui. Hoje em dia. Paga uma grade de cerveja': da PIDE assume valor simbólico. O Panfleto ( 1986) 105 de Domingos apresentador é saber lel� o que representa "uma Van Dunen (Angola) que retrata uma situação fuga constante ao colectivo [oo. Pior. Essa originalidade de ir à escola . descrita em tom objectivo: "O problema não ambientado nos EUA. Intelectualista! Isso é contrá­ pelo menos na sua primeira parte. "O Contentor'. ] " o tom expressionista do terceiro. . Quando p ergunta se "é crime que põe em cena a situação real de três clandes­ fazer uma apresentação original'. Esteve exilado e tenta voltar a para a ignorância.] o problema é depois sítio onde com­ Vietname. é vício de O apresentador é pois "condenado à pena cidade:' E a promiscuidade sexual do chefe Sabrino máxima. Noutro plano ainda s e situa a obra d e Mena portanto. fez o quinto ano do liceu. .] como degredado: "Até parece que é o único condenado se um colectivo de ignorantes não fosse capaz de que veio em Angola:' O colono trouxe "o vício" de encenar uma peça sobre a ignorância. . constitui um violento libelo con­ à guerrilha que o repudiou. . _ RegressadoslO9 é um texto realista. temos A Pele do Diabo (1977)106 do Angola. E a respectiva problemática. pessoal e angolano Manuel dos Santos Lima. com veteranos da Guerra do é o dinheiro [oo. A Última Viagem do dura da realidade angolana. diz a Mamã Luzia. respondem-lhe tinos encerrados num contentor. Abrantes. . . Não é culpa minha [oo. Século sibilino'. toda a gente tem um só dono. . "As cenas que se que tinha a oficina" só tratava os empregados "de vão narrar passaram-se no ano de 1980 e seguintes. O Sr. No Liceu .. ] " nessa nossa cidade de Luanda. 54 . que trata Como testemunho indirecto da luta pela inde­ a situação dramática dos retornados do Zaire a pendência. O segundo actor também tem pendências. Mas isso também tem o tempo O apresentador bem tenta desculpar-se: "Era dele acabar!'. tempo. Certos desvios que "já confessou o crime [oo. António é um obrigado a estudar. rio à nossa linha!"IOB. Nesta temática em que se aborda a história e a Mas parece que não é s ó o apresentador que política imediatamente antes ou depois das inde­ está a ser original.] está bem identifi­ policial a partir de tipos correntes da população cado o inimigo da classe.. curiosamente social. "A escravatura já acabou há muito Escola. cena de construção e ensaio de colonial são evocadas pelos dois lados: "O clandes­ uma peça de teatro pelo apresentador e por um tino [ .] Esta fuga constante surrealistas. um dia gabou-se disso': que é o colono. O Cão e os Calundas107. a mediocridade e a prepotência. . . "A Vala Comum'. Os textos dramáticos Príncipe Pelfeito (1989) 110 constitui uma alegoria da intitulam-se O Elogio da Ignorância e Regressados. descolonização. África. certo tom absurdo no segundo texto. matou sem convicção tra o colectivismo intelectual e artístico. de "O Suicidiota'. e ter um paizinho que pagou os estudos [. No Século passado. E designadamente dois trípticos de exce­ O conjunto contém de facto uma visão crítica muito lente linguagem. como álibi ("cumpri ordens")." pedir esmola: "Mas na terra do colono. ao colectivo. . O primeiro. destaca-se como condenação directa "o vício do intelectualismo': O principal crime do do colonialismo. Esses que andaram na da sociedade.

mas aqui diz bastante do criticismo corajoso da alegoria: e a situação no ex-Zaire não exclui as generalizações. . Toda a primeira parte retrata uma colaboração entre colonizador e colonizado. que exprime melhor a realidade Mas a mais dura crítica ao processo de colo­ dos que estão cá dentro. na alegoria do Palhaço Rico e do Palhaço Pobre.. 1982 Centro de Documentação e a morte do líder popular.. o que envolve uma interpene­ de leopardos ascendeu . a última Farsa. Com uma epígrafe Importa referir que a vida quotidiana. por sua vez. esta "farsa tragicómica [ . Mercenários e dos Leopardos levam ao fim do ou ainda a situação pungente da mãe à procura do Circo.1978) 1 1 1 . aliás não O texto abre com um "esquema geral" que Mindelo à Tona orienta o leitor no seu didactismo alegórico: o Grupo Cénico Amarante. . tal como de Patrice Lumunba. o Grande Circo As Troianas Autêntico é a ditadura do novo poder.. Grupo Cénico Korda Kaoberdi. O esquema é mais com­ Investigação Teatral do Mindelo plexo. ] conta. que o seu fuzilamento des­ aliás os outros temas e subtemas analisados ao mentiu. ]" E por aí em diante! sinal contrário depois da independência. Ao abordarmos agora e por vontade alheia. " Os leopardos actuam com ferocidade contra o coro. ] o Circo deixa de ser circo e saro e a morte servem de ligação. o Amansar Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo das Feras é a definição do poder político. enquanto o domador. Cabo Verde. na perspectiva das cum­ minas. ou quase. não destroem a unidade crítica: o confronto com formaram a independência numa j aula para nos a polícia na África do Sul ("os polícias dispararam observar do exterior': O Novo Líder Popular acaba à toa sobre nós . ao 55 ponto de o Líder Popular reconhecer que "trans- .. 1953 Grande Circo é o fim do poder colonial. Cabo Verde. . meio a longo desta pesquisa são convergentes e muitas sério meio a brincai. E muito de situações de afronta à liberdade.") ou a intervenção dos militares por passar a acção ao tratador. mesmo de minhas! [ .sem qualquer escrúpulo tração de temas e situações. filho na vala comum ("eu preciso de ser a mãe de E a fala afinal mostra um enorme desencanto todos os mortos") . . .tudo isto atira para a passagem por parte do autor. E a alegoria transfere-se para o processo de descolonização e a independência surge num contexto de repressão violenta. . Diz com efeito o tratador: "Agora do realismo para o ambiente mágico em que o pás­ que isto tudo é meu [ . passa a ser cerco. como um modesto tratador vezes sobrepostos. num fundo de questão religiosa. que todos conheciam por so-minas fica a plicidades históricas e políticas e da permanência partir de agora a chamar-se so-minhas.. que através dos ("fuzilar um homem duas vezes é ser desumano"). [ . a dono do circo': a retratação dramatúrgica do quotidiano. surge em Mena Abrantes na poderosa alegoria de O Grande Dramatização da vida quotidiana Circo Autêntico ( 1977.. . chicoteia à esquerda e à direita com vigor:' Mas o poder colo­ nial (o domador) alia-se aos novos poderes. . ] A sociedade das minhas nização/descolonização. a Ameaça contra o Circo é a independência.

2004 Jaime Figueiredo. Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ IC. os namo­ escassez de teatro em Cabo Verde. Mais optimista será Brito Os Dois Irmãos Semedo. Uma situação algo insólita prende-se com a as irmãs Titã e Zé. Tanto o conto. Os mesmos e Preto no Bronco ainda alguns autores esparsos são referidos por José Grupo de Teatro Juventude em Marcha. teremos presente que. e até as de teatro tradi­ lado. amores e desamores e a esperança. Manuel Ferreira. que a realidade cabo­ -verdiana largamente justifica: "Viver é com luz:' Mena Abrantes. que mais lado. Ano Noho. Os poderosos movimentos barriga aqui! Ninguém é afilhado e enteado:' da "Claridade'. Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Flávio José. O Panfleto de Van Dunen é transversalidade. algumas das peças já referidas enquadram cional. Osório. 1999 mobilizadora e com função essencialmente forma­ Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo tiva" 1 I3. também não fogem. dúvidas e esperanças: as amigas de vida agitada. as alegrias e tristezas. disso exemplo flagrante. E cita as peças Gervásio (1977) de O.muito numerosa. da "Certeza" e do "Suplemento Cultural'. 1 1 5 © João Barbosa António Aurélio Gonçalves e Cândido Ferreira propõem entretanto uma adaptação da novela do primeiro. não se Os Dois Irmãos preocupam com o teatro. por um As expressões de teatro popular. para citar só estas referências. as festas. ao afirmar que "após a independência esse Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ Ie. nelas subjaz a situação política. João Branco. Artur Vieira. os vizinhos e os amigos. na rados e os polícias quase humanizam o substrato obra citada. Guilherme Ernesto. o pequeno comércio de sobrevivência. muitas vezes. A família da mamã Luzia. género irrompeu em língua nacional com força Cabo Verde. documenta muito mais a produção de político. Mostram um quotidiano desencantado de homens e mulhe- res sofridos num meio urbano pequeno e pobre (o Lombo "zona labiríntica" do Mindelo). aliás. © João Branco e Descarado de Donaldo Macedoll4. Verde. os embarcadiços nacionais e estrangeiros. Saíram da mesma ser de outra forma. a esta também o quotidiano. reconhece-o: "Uma das formas menos expressivas Cabo Verde. Cabo Luís Hopffer Cordeiro Almada (Eugénio Tavares. como a bem armada dramatização cénica traçam uma panorâmica da sociedade popular da cidade. em Calanga. e por outro adiante encontraremos. A Doida dos Cahoios ( 1987) 1 1 7 adapta à cena um romance de António Assis Júnior O Segredo da Morta (19 29) 118 . 56 . O que não impede a mamã Luzia de dizer: espectáculos do que peças originais. 1999 desta literatura é a área do teatro:' E só cita Terra de Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Sôdade . seus problemas. As Virgens Loucas (199 6)116.Argumento para bailado folclórico (1946) © João Branco de Jaime de Figueiredoll2. Jorge Tolentino). e não poderia "Vocês são todos meus filhos.

Sobre dade/ calcar as preferências/ despir a vaidade/ des­ ele escreveu Pires Laranjeira que "vale sobre­ mobilizar o comodismo/ descalçar os santuários" tudo pela especificidade da representação social pois "autocrítica é o que se pede'� Cita-se entretanto e espacial" 1 l9. de São João de Angolares.tudo isto. diz a democrática popular à volta do mito do "velho'� velha D. lembrar. a toda uma Investigação Teatral do Mindelo literatura. redunda numa cena de marionetas em que os míti­ cos rei Amador e Andreza são evocados.. Mas também pertenço a esta grande família que é fermento do nosso povo. do curandeiro. pela sua especificidade. que pelos vistos serve Cabo Verde. se relaciona com a época do romance. aqui o teatro tradicional. vente mas enérgica na sua dimensão política. fazemos referência a E citamos ainda três textos não analisados mas 57 Cloçon San ( 1 997) 120. ] sepultar o racismo/ abrir a ver­ . tanto mais interessante quando a divisão tribal! [ . ] combater a intriga e cura da Calanga. o que corresponde à perspectiva da o Che. Clara Pederneira. numa situação que gira à volta de Madalena. um rei de todos ignorado crescerá do teu ventre" . E finalmente. a mulher de vir­ tude. num símile com o mítico Jika. da "Santificada'. De uma poética envol­ ligado à sociedade colonial. da memória dos náufragos e da pro­ fecia do "filho que será o novo guia do nosso povo. da sociedade Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/I(. mas sem quebra de autonomia criacional. Com uma nota política. oscilando entra o realismo e o fantástico. 2002 Centro de Documentaçào e de inspiração. do são-tomense Fernando relevantes pelo peso literário e político: A Esperança . Trata-se. O carácter fantástico da intervenção de © Joào Branco "méssê Damião'. atinge surge pelo menos na cena um certo expressionismo em primeiro lugar o regime colonial.. a cargo do Forasteiro: "Venho de uma terra muito longe. Mas a par do realismo. as sobras/ Em nome dos olhos que vejo/ abater a E o mesmo se dirá da dramatização da lou­ demagogia e o calculismo [ . mas não se sublinhado e simbolizado na "cobra dos meus infor­ escusa a um claro pacifismo e apelos à expressão túnios e mensageira das minhas desgraças'.. num contexto que traça Diz-se por exemplo que "é necessário iluminar bem a sociedade da época. não obstante não analisarmos o Chaka122 de Léopold Sédar Senghor. que nos fez dramatização que aqui assinalámos.Satan de Macedo." Expressões poéticas E finalmente: dentro dos critérios já largamente definidos. uma vez mais. É como se estivesse no exílio. será altura de referir que as expressões poéticas desta dramaturgia assumem maioritaria­ mente as formas do teatro e do espectáculo tradi­ cionais: o que não significa uma completa ausência de conotações políticas e sociais. É o caso de No Velho Ninguém Toca (1 978) 1 21 As datas dizem muito acerca do ternário obviamente do angolano Costa Andrade.

. "O Padre português [ . A Luarmina "para os devidos efeitos (não) é branca'. como está no . diferentes de todos os outros da terra'. autor do conto e co-autor da adaptação Filha do Sol e da Lua (1989) 1 25.. . [ .. Mena ainda deve ser citado em textos de lia Luiza surge assim ligada à teatralização dos poética tradicional. os lupões.lírico diálogo de rico-coloniais. a partir do sonho-reali­ mento que já não é específico das situações histó­ dade do Avô Celestino e do pícaro .. Interessante a adaptação enquanto amor de Luarmina e de Zeca Perpétuo.(1982) de Óscar Ribas. ou como belíssimos textos em prosa: Mar me quer de Mia o Prodigioso Filho de Kimanaueze se casou com a Couto. artistas. . é "mulata'.. De salientar a invenção ou utilização insólita de neologismos: os Mia Couto pés "icebergam'. 58 . e os j acalupis. Outro tom assume A Montanha da Água Lilásl29. "mais lentos [ . esperançosa: "Pingos de chuva/ já molham o chão/ Neste último caso.. . a mulher de Zeca © José Frade "rebolinha de prazer'� 128 E a nota política também está presente no con­ texto onírico. 1 27 belo Monólogo para duas vozes Amêsa ou a Canção Vejamos a primeira. Mas o final pode permitir uma interpretação Macedo e de Mena Abrantes próximas do Tchiloli. ] devolve tanta alma como a lágrima deslizando': . a) baleia vinha era dos países socialistas'� Nada disto supera porém o teor poético da lin­ guagem: "Os olhos de quem amamos são um barco. diz o romance.de Pepetela (2000). os lupis "cor de laranja. de tamanho desmedido. animais e mitos. Assume uma linguagem do Desespero (1991). A (2005) 1 26 romance . ] trabalhavam muito e eram sérios". e Amirá. Natá­ habitual. significativo pranto de sofri­ onírica de amor e morte." E "nenhuma carícia [ . A Estória da Galinha e do aculturação de poemas tradicionais portugueses Ouro (1984) de Luandino Vieira. ]/ Olha a triste viuvinha/ que anda na roda a cho­ Referimos as dramatizações de Fernando rar"). e Sagrada Espe­ ("Lá vai a nau arrogante/ com muito para contar rançal23 de Agostinho Neto. a Tartaruga e Miúdos ao sol! não matam ninguém. . Trata-se de uma "estória" de seres míticos."fábula para todas as idades" expressão poética está bem presente. Zeca lamenta o facto de a "vizinha Editorial Caminho e eu não nos simetricamos já'. dentro da baleia:' Mas se calhar "( . filha de um marinheiro grego." o Gigante (1989) 124 constitui um caso interessante E há peças que assumidamente procuram e de passagem de um país para outro. Pedro Andrade. "muito pregui­ çosos" e prepotentes. fábula para quarenta (2001 Moçambique). como Na Azuá... o que não é atingem uma expressão poética dominante. . e A Montanha da Água Lilás - personagens entre pessoas. ] educou( -a) em pre­ ceito de Deus e o livro'� A certa altura fala-se de um "país capitalista (que) estava a abastecer os bandidos e as armas vinham pelo caminho do mar.

C . 1898. ed. op. p. Um Auto de Gil Vicel/te.l. Duarte Ivo. Prelo. o lupi-pensador. do Brasil 29 "Auto da Bela Menina'. Lisboa. ob. Editora. Ed. tro Português . E de todo o Mundo ligado à cultura teatral. Cf. Alberto E . A . 1971. 1961. o lupi-diplomata. Coimbra. nos seus aspectos Verbo. Duarte Ivo. 2001. 223-233. Editora Cosmos. s..e também a de Portugal. Lisboa. Acto I. in GOMES. 270. cit. GOMES. Funchal. BRAGA. sd. José Ramos. . 1977.. 136-139 e pp. 1983. CRUZ.Das Enriquece as respectivas literaturas. Lisboa.. Alberto. loco cit. sd. pp. BRAGA. 472. Ed. s. Hernâni. cit. A análise dos textos disponíveis e das fontes 17 Publicado pela primeira vez em 1587. p. Maria Leonor Garcia da. História Social dos Escravos Para lá deste estudo Libertos em Portugal. Alberto E . PIMENTEL. MILLER. nas suas vertentes políticas. 1.Das Origens ao Romantismo'. pp. 1982. 32. ob. utilização da milagrosa água lilás. Teófilo. citado. s. econó­ 8 Cf. VaI. Autos e Trovas de Baltazar Dias.. 27 Idem. uma narrativa do Avô Bento. tuguesa vai mais para lá deste estudo. a edição fac-similada de "O Mundo do Livro'.. cit.e. 328-349. Autos e Trovas de Baltazar Dias. bons e maus. Editora Caminho. 2 Vais. sd. para o Dicionário de Autores de Literaturas Afri­ 18 Cfr. Lisboa. 30 Cfr. cit. cit. as respec­ Origens ao Ronlantismo'. lN CM. Lisboa. com destaque ainda modernas. 1998. II. "Tea­ e de Timor.d.. p.. LuÍz Francisco. Teófilo. E entram em conflito por causa da 3 CRUZ. tivas culturas . I. p. apontam em certa medida Português . 26 Cfr. cenas e diálogos. nica e literária de teatro de matriz ocidental. cit in REBELLO. reflecte a sociedade humana. de C. que aliás 15 GARRETT. Lisboa. Arménio Amado. loco cit. Teófilo. o 2 Cf. Os Negros em Portugal.. INCM. s. 7 Ob. Há inúmeras edições bibliográficas sistemáticas. rivalidades entre os próprios lupis . e certamente o que 23 Cit. ID. ICLP. gação. Lisboa.. Prefácio Será que "as gerações vindouras [oo. Trata de um ver­ Ed. 46-47 Mas o que acima se deixa. O teatro nos países africanos de língua por­ Lisboa. o lupi-sábio.] aprende­ de Hernâni Cidade e Notas de José V. 28 TINHORÃO. op. Ed.. Hernâni.o que 21 Cit. cimento dos avós dos nossos avós" sob a forma de Lisboa.Uma Os poemas do lupi-poeta "chegaram ao conhe­ Leitura Crítica da Expansão Portuguesa. in CRUZ. 91 e para uma preponderância inicial pelo menos de segs. Poesia e Dramatlllgia Popula­ concilia com qualquer tema e qualquer ideologia. Alberto. 270 e segs. 398 e seguintes. dadeiro combate entre os três grupos e os restantes 4 Cf. Os Fumos da Índia .cit.. 397 e segs. com as componentes de desacordos e Idem. 82 13 SAUNDERS. p.' Ed. de Coimbra Martins. BRAGA. História do Teatro Português. CIDADE. O Essencial sobre Teatro Luso-Brasileiro. e CRUZ. 80. TINHORÃO. p. adiante citada. garante uma qualidade téc­ s. cit. que Pepetela roman­ 10 As citações de Gil Vicente são feitas a partir da edição de Obras Completas. Cena XV.Baltazar Dias. micas e morais.e esse combate 6 Cit. pp. Lisboa. pp. e que dá testemunho de uma utilização da herança IX-LXIII. "História'. in "Teatro Português . e REBELLO. 20 Cit..e. 22 Cfr. canas de Língua Portuguesa. em especial o prefácio. Duarte Ivo. pp. 12 Gil Vicente.. Teófilo. 1961.. que se 25 GOMES. 1973. BRAGA. 14 Todas as citações na edição de Marques Braga. se continuará a estudar. Obras de Henrique da Mota. Prelo. e PIMENTEL. pp. mas também o jacalupi capitão ou o Ultramarina. prossegue num trabalhos permanente de investi­ 16 Cfr. 1889.. 11 CIDADE. in "Teatro Fernando Cavacasl30. de Aldónio Gomes e 19 Cfr. Prelo Ed. Alberto E. ob. 24 Cfr.. Esta sociedade tipifica-se em funções distintas: Cf. lupi-azarado. Liv. Neil T. Obras do amplamente se justifica no contexto das indepen­ Poeta Chiado... linguística e cultural comuns. loco cit. pp. Ed. "Autos e Comédias Portuguesas'. LuÍz Francisco. pp.. VaI. Alberto E. Sá da Costa Ed. S9 rão com a estória"? 13 1 Lysia.M. res 1/0 século XVI .. formas de expressão dramática tradicional . fac-similada. Escola de Gil Vicente e o Desenvolvimento do Teatro Nacional. animais.Das Origens ao Romantismo'.l. A Literatura Portuguesa e a Expansão lupi-poeta. José Ramos. Funchal. GOMES. XXIV-XXV. op. ob. 2004. 57-59. Lisboa. pp. p. cit. Prefácio e Notas de Marques Braga. Editora Sá da ceou e Natália Luiza dramatizou em belíssimas Costa. 42 e segs.. 1963. Lisboa. a edição moderna de LuÍz Francisco Rebello. ed. dências.

CRUZ. Lisboa. Livraria Aillau e Bertrand. Évora. E ainda VALBERT. e KALEWSKA. Kelps. in "Teatro Completo" de Marcelino 32 SIQUEIRA. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. Capricórnio. Teatro Quinhentista da Índia e do A1medina. O Álcool. Campo das Letras. 1971. Vol. 2004. O Cerco ESTC. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. Ed. Ed. "História" cit. Brasília. pp. Ed. ed. Coimbra INCM. pp. Maria Odete Dias. sd. Brotéria. 81 Ed.1986. cfr. . 1992. pp. Coimbra 2001. 1997. Ulmeiro.o Tchiloli de São Tomé'. Equador (romance). Celta. CURTO. pp. Lisboa. 21. 1983. 42 Cf.Teatro Completo. 1913. Ed. p. 100 Anos de Teatro POrhlguês. Ed. Ed. Universo Carolíngio . 1915.. Panorama . André e Crabée Rocha. Livraria Brasileira. Pedro. 136 e 143. 1971. Ed. Duarte Ivo. Lobito 1974. 2004. 49 ALMADA. Mesquita. BRAGA. "Mário de Sá-Carneiro e a Génese da Amizade'. 78 Ed. Erico. 1973. Vol. peça em 1 acto.. Introdução de Manuela Brasil. 162. ANDRÉ. 36 RIBAS. Universidade Cruz na revista Contravento.31 PICCHIO. Ed. I. e CRUZ. E d . p. INCM. 559 e segs. 202. Ed. A1medina. Ed. sd. Anna. 44 BRAGA. Duarte Ivo. selec- 33 PEREIRA. 82 Ed. Bento. 59 ALVES. BAREOSA FILHO. Introdução. Lisboa. Lisboa. Lisboa. pes- 34 REIS. Caminho. SCTEB. 2000. cit. pp. Vol. Coimbra. Ed. 1979. 61 VIANA. Ramada. 69.163. in Alves. Tomaz. Nação Teatro . 36. p. Personagens das Comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos. 1988. 54 Fialho de Almeida. 51 TINHORÃO. Universidade Editora. Cfr. Lisboa. 53 Cfr. 2005. Fernando. em Lisboa (manuscrito). Virgínia Victorino. 1959. Lisboa. 339 e segs. 74. Floripes Negra. Vera Lopes de. V. 1989. Vol. Lisboa. Salvador 2005. Teatro Quinhentista nas Naus da Índia. 55 Cfr. Lisboa. INCM. Capricórnio. 1964. p. Ed. Frankfurt am Main . 1966. Lisboa. Lisboa. 41 e segs. 1995. Armando Jorge de Carvalho. idem. pp. Maria II em 1936. 1931. Lisboa. in Espiral. Ed. Cabo Verde'. 65 A peça permaneceu inédita até ser publicada por Duarte Ivo Machado. 1989.. Pereira. 60 Cfr. Ed. Liv. p. 77 Ed. 1 1 1 . Lisboa. I. comunicação pp. 331 e segs. Teatro PopularPorhlguês. 45. 64 Representado no Teatro Nacional de D. edição de "Teatro Escolhido" de CURTO. Mário de. 1939.. Virgínia. 67 Cfr. "O Mundo ESTC. Manuel Ivo. 84 Ed. Príncipe'. A. As Avenhlras de Anfitrião. 66 CRUZ. ed. Lisboa.. "O Tchiloli ou as Tragédias de São Tomé e 62 Cf. op. e outros. Ed. a Vocação d e Teatro. Lisboa. Prefácio aA Vingança da Cigana. 1982. São Paulo. Ed. 52 CRUZ. Degredados. IBNL. 50 BIÃO. 75 Edição Capricórnio. Christian. INCM. Lisboa. Lisboa. pes- Livraria A1medina. BRANCO. António Manuel Couto. Duarte Ivo. Livraria Ed. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. do Livro'. Lisboa.. "Le Tchiloli de S. 70 VICTORINO. "Amizade'. Oficina do Poeta'. Leite de e GUERREIRO. 1971. Lisboa. cit. 39 BAPTISTA. SPA. Lisboa. Lisboa. 94-95. Duarte Ivo. 85 Ed. 2002. Lisboa. Sobre a identificação de "Caldas o 87 TAVARES. p. VASCONCELOS. "Teatro Escolhido'. lar Mirandês. Paris. policopiada. 58 MÂNTUA. Teófilo. J . Cit. 83 Ed. de Tânger. Miguel Sousa. pp. 1925. Japão. 86. Actores e Autores. Nordeste'. Teatro Maizum. Lisboa. 1991. CRUZ. Luíz Francisco. don. sd. Parceria A. 35 VALVERDE. túrgico em Portugal e nas Ilhas de São Tomé e Príncipe'. 47 PEREIRA. João Maria. pp. Casa do Sul. Máscara. 62. 2. José Luís Hopffer Cordeiro. Ed. lN CM. Silvina. Lucciana Stegagno. p. 38 BAPTISTA. da Universidade de Varsóvia. 2005. Paulo. fac-similada. Vol.. Claude-Henry. 41 Crr. 37 Crr. Lobito 1973. p. 33 e segs. p. Brotéria. Goiânia. R . 69 SÁ-CARNEIRO. Cena Lusófona. 108. SPA. Ordinário Marche!. 2004. Ramada. FCG. 6. ibidem. Verde" in Revista Cullllral. M. 45 FRECHES. ed. O Essencial do Teatro Brasileiro. O Vencido. Excelente Poeta Simão Machado. Teatro Popu. p. Buriti. 337. Clássica Ed. p. Bento e SACRAMENTO JÚNIOR. Ed. Colegial deLetrase Lembran- Oeiras. 76 Ed. 2003. "Caminhos do 56 MÂNTUA. Lisboa. in François Castex. "Diário de William Beckford em Espanha e Portugal'. Bento. Lisboa. 219 Livro. I. Ed. 1936. 48 Cf. 60 . Lisboa. Duarte Ivo.. J. "Teatro de Cordel na Bahia 80 Ed. Lisboa. "Tradições Pirenes'. Mário. Lobito. Coimbra."História do Teatro em 46 Idem. Lisboa. Ed. Lisboa Portugália Ed.. e em Lisboa'. Lisboa. "Espectáculos populares do 63 "Colonos'. Iko Verlag füI ção. 40 VERfSSIMO. Comédias Porhlguesas Feitas pelo 71 LELLO. Augusto. INCM.. Ed. 1995. 2000. Lisboa. p. Claude-Henry. Mato e Morte. "O Teatro em Cabo 79 REBELLO. 2003. Lisboa. 1969. 1997. Ed. Também do mesmo autor. 72 Cf. António. Textos de Cariz Profano.Lon. cit. Ed.O 1 . in Panorama. Interkulturelle Kommunikation. n. Duarte Ivo. pp. gal. sd. SPA. Brasília Ed. Júlia. Ed. 2 Vols. História do Teatro Português. 1990.a ed. Lourenço Marques. 89-90. Livraria Brasileira. Ed. Coimbra 1989. FRECHES. 47-49. Setembro 1967. Nogueira e Nota de Maria A1iete Galhoz. Lisboa. lI.. 1968.SNI. Hermilo. Ed. Setembro 2001. Verão de 1965. Tomé'. 43 MARTINS. Domingos Caldas Barbosa. Vasco de Mendonça A Promessa. O Tempo e o Vento. A Linguagem das 74 Edição Capricórnio. CRUZ. Comédia Ulissipo. João. "Baltazar Dias e as Metamorfoses do Discurso Drama. A. Lisboa. 2 Vols. Cidade da Praia 2004. Mário de. p. 73 Edição A. proferida a 6 de Dezembro de 2003 no Pequeno Auditório 57 MÂNTUA. Marques. Introdução. Ed. 2002. Alfredo Cortez . ças. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. 1923. Nizet. 1975. Lisboa. prefácio e notas de CRUZ. 1997. Cotovia. BN. Livraria Popular Francisco Franco. Le Tlleatre Neo-Latin au Porhl. 1927. Artes Gráficas. Livros do 68 SÁ-CARNEIRO. 86 Ed. de Coimbra. INCM. "Teatro Medieval em São Tomé e Príncipe'. Ed. Ed. "Das Tchiloli von São Tomé'.. Lisboa.

94 COSTA. in 113 O. Publicações Dom 129 Pepetela. Vol I. L. cit. Macedo. Coimbra. 1999. J. "Teatro 1'. A Montanlla da Água Lilás . a Doida dos Ca/lOios. 68. cit. e Júlio de Castro Lopo "Uma Rica Dona de p. 115 Almada. Ed. LARANJEIRA. 1978. Sá da Costa. "Teatro I" cit. 85-100. in SEMEDO. Biblioteca do Com. 162-316. p.. Lisboa. Fernanda e GOMES. 155-200. "O teatro em Cabo 92 Remete-se a bibliografia histórica citada em "Teatro 1'. José Mena. Editora Afrontamento. op. Centelha. das em São Tomé. l l l-120. pp. Coimbra. Ed. especial "História de Angola'. 106 A Pele do Diabo. Lisboa. Ed. "A produção literária Revista Camões. ob. 5. Cena Lusófona.. António O Segredo da Morta. in "Teatro 1'. 119 Cf. Nzila. 89 Cfr. BOAL. M. 97-136. 98 MACEDO. Cena Lusófona. Lisboa. romance. in "Teatro I" oh. J. ob. Ed. Zé do Telllado. ABRANTES. p. Luanda. 97 ABRANTES. c . Ed. pp. 2000. 125 ABRANTES. 1998. 1977. 1. J. Edições 70. 131 PEPETELA.. as Luzes e as Sombras'. em Verde'. Lisboa. pp. Portuguesa. Literaturas Africanas de Expressão 27-84. Ed. 4. 1998. sd. Luanda'. Africallas de Expressão Portuguesa. 2002. O Elogio da Ignorância. Luanda.. Lisboa. pp. Aldónio. 117 Calanga. cit. 105 O Panfleto. cito 61 . romance. Ed. Junho. José Mena. CEA. 13-56. 120 Cloçon San. A Montallha da Água Lilás. . Lisboa. 114 D O NALDO. pp. cit. BAPTISTA. Coimbra.' ed. du Seuil. llO "Teatro 1'. Ed. Ed. 277 e segs. 60 e segs. "O Teatro em Angola'.. 96 ABRANTES. 50. J.. "Teatro 1'. EUA. A Montanlw da Água Lilás cit. Junho. Pires.O 1. "Os Teatros. Ed. EUA. Coimbra. Coimbra.. 1977. Brito. Cena Lusófona. 1977. J. in Revista Cultura. cit. A Revolta na Casa dos ídolos. Fernando de "Teatro do Imaginário Angolar de São 121 ANDRADE. M. Coimbra 1999. bra. Augusto. Cena Lusó­ 104 As Mortes de Lucas Mateus. 103 Acllada Grande do Tarrafal. Luanda. 1 1 6 As Virgells Loucas. Natália. Ed. cit. Lisboa.a Ed. pp. 90 NEVES. in Poemes. pp. 2002. Brito. Ed. "Técnicas Latino Americanas de Tean'o 122 SENGHOR. cito 107 O Cão e os Call1lldas . Regressados.. 1995. 201. Lisboa. "Teatro II" cit... cit. cit. Caminho. cit. pp. Ed. 93 ABRANTES. "Teatro II'. Paris. 201-222. p. Remete-se para a bibliografia no capítulo 112 Jaime de Figueiredo cit. Ed. 179-219. José Mena. 2000. raturasAfricallas de Língua Portuguesa. 95 ABRANTES. Setembro 2001. Leopol Sédar "Chaka'. in Revista Cultura. Centelha. 65-74. 1975. pp. Literaturas supra. Cena Lusófona. 1998. 1979. ICLP. Vol. África Editora. cit. in ob. Luanda. 243. n. "Teatro 1'. Coimbra. 109 Idem.. iII FERREIRA. 162. 124 ABRANTES. Osório cit. p. 223-262. José Mena. pp. Alfaómega. 1997. Hélder. Luanda. Publicações Dom Quixote. 102 Idem. Ed. Popular'. Mar me quer. p. fona. ob. 128 Mia Couto e Natália Luiza. 70. 1964. Ed. 100 Cf. pp. Lisboa. Dicionário de Lite­ 108 Idem. Tomé e Príncipe'. António Loja. Manuel. 2005. 99 Cfr. 130 CAVACAS. 1978. Augusto. Lisboa. 127 PEPETELA. pp. João. 1988. Ed. Coim­ pp. sd. M. Universidade Aberta. 2000. Prov. A Corda. in SEMEDO. 88 Não há texto publicado das numerosas versões representa­ 1 1 1 "O Grande Circo Autêntico'. 1999. Cena Lusófona. Quixote. cabo-verdiana após a independência" in Revista Cultura. M. BRANCO. 1979. 123 Cfr. "O teatro em Cabo Verde'. 126 COUTO. 1980.. crónicas. Costa No Velho Ninguém Toca. 101 PEPETELA. Ed. 91 ABRANTES. Mia e LillZA. 1 1 8 ASSIS JUNIOR.

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E arriscavam tudo com as tournées ao Brasil!" De Jo s é Car l o s A i V ar e Z facto. Chaby Paquete Uíge ao largo do golfo da Guiné. Rumo a África EM 1 936.1928) e sua filha Lucília Simões [(1879-1962) tendo até nascido no Rio de Janeiro. Beatriz Costa (1907- . numa prosa rebuscadíssima. Maria Matos ( 1886-1952). Não aparece um arrojado empresário que arrisque uns contos de reis num giro de experiência pelo Império Colonial? [ . As idas [às vezes sem volta. Carlos Leal fazia uma espécie de síntese do que acontecera nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX quanto a opções (hoje diríamos estratégias) de digressão e circulação das principais companhias teatrais por­ tuguesas e dos seus actores. mas sempre inteligente. entre Portugal e o Brasil. António Pinheiro ( 1867. nem mesmo como meio de arranjar colocação (1 900. e num Contribuição para o estudo português exemplar.praticamente todos foram actuar ao Brasil. onde seus pais se encontravam. teatro e actualidades Espectáculo. um lúcido e oportuno artigo intitulado "Rumo a África'. nas páginas do semanário de cinema.1 925). como são os casos de Ester Leão ( 1895-1971) ou Maria Júdice da Costa (1870-1960)] ao Brasil são constantes. neste artigo. 1969 Pinheiro (1873-1933). tal era a quantidade de barcos de carreiras regulares que transportavam nos seus camarotes. utilizando a linguagem da época) teatrais de companhias e actores portugueses às suas colónias de teatro e dos actores africanas. ] . como Eduardo Brasão (185 1 . nessa data. alguns deles fazendo mesmo uma parte significativa da sua carreira entre cá e lá. levando até a que alguém poeticamente (ou teatralmente) apelide esse permanente vaivém como um grande palco sobre o oceano Atlântico. da presença das companhias a propósito da inexistência de digressões (ou tour­ nées. como era seu hábito. escrevia o ilus­ tre actor Carlos Leal ( 1 877. as nossas melhores companhias e os nossos mais populares e famosos actores e actrizes .1 974) para alguns desempregados? .1964)... Lucinda Simões (1850. Questionava então o actor. em tom de apelo e portugueses em África desafio. "morreram todas as tentativas de organiza­ ção de tournées às Colónias? Ninguém mais pensa nisso.1943). a viver]. © Manuel Maria de Santa clara Vasco Santana (1898-1958).

a Hortense Luz (1900-1984) e Maria Matos]. como antes. ao contrário. depois de dar notícia da falta de Varietá . o colónias'. sobretudo. o autor.d. no primeiro número do quinzená­ a quase inexistência de verdadeiros teatros à italiana rio Correio dos Teatros por ele dirigido. Intitulado nas principais cidades das colónias africanas (são ''A triste odysseia de alguns dos nossos artistas nas excepção os dois teatros de Lourenço Marques. parece-me interessante referir um outro das Ciências Sociais. n. do século xx. entre muitos e muitos outros. n. por um lado. s. a as poucas digressões normalmente asseguradas inexistência de uma dramaturgia local e. em 1924.' 791 143 Maria Matos Fotografia. ainda em actividade Já para África são raras. inv.um teah'o mandado construir por um ita­ escrúpulos de um qualquer empresário de momento liano e que era preferencialmente frequentado pelos que pretende contratar artistas para trabalharem nas estrangeiros aí residentes. Carlos Leal Fotografia. normalmente pouco ou menores dimensão e qualidade. Se este flagrante nada profissionais em África. para além das dis­ conh'aste encontra. Aliás.d. fortes justificações tâncias e das condições de transporte. MNT.e o Gil colónias sem quaisquer garantias. já desaparecido . a este e explicações cientificamente tratadas no âmbito propósito. Victor Machado. sendo falta de técnicos. também não são alheias. inv. até aos anos quarenta na actual capital moçambicana) que. nome adaptado a um cinema. por artigo escrito por A. MNT. com uma fachada muito semelhante à do plo um episódio recente que envolveu artistas de Teatro Paliteama de Lisboa. do nosso teatro [são excepções as actrizes bem como a carência de público qualificado. a impossibilidade de permutas. s. as deslocações de figuras de peso inundam o Brasil (e quase toda a América Latina). uns bons anos outro.' 92 895 1996) ou Carlos Leal. Escreve ele 64 . algumas situações mais de raiz teatral. e do qual apenas resta o primeiro plano da vida teatral de então. dá como exem­ Vicente. pelas então designadas trupes ou companhias de as condições empresariais.

com a criação teatral) atingido esta sua digressão. através das colecções vavelmente) por aquele chefe indígena e por ele existentes no acervo do Museu Nacional do Teatro oferecido ao actor António Cardoso ( 1 860. quanto é certo que está absolutamente História. por ram sobremaneira'. um extraordinário êxito'� O vestígio mais antigo à guarda daquele Museu Maria Matos. onde. como então se desig­ de notável equilíbrio estético e marcadamente de nava) na África colonial (entendida aqui. a instituição de referência no nosso país quanto à Romualdo de Figueiredo. dá século XIX até aos nossos dias por cá foram cria­ conta. como niais da nossa história imperial mais conhecidos: a é descrito no seu livro de memórias. recebida apoteo­ ligado. todo feito à mão (pro­ como Angola e Moçambique). Mossamedes e Lobito. não tem. pode equilibrar-se. no acervo daquele Museu. influência cultural africana. volta. em contraste absoluto com o que se passava xador de artistas a preços reduzidos� Tudo por lá se com o Brasil e até. nas peças e documentos que que "é preciso que se convençam de vez que ir a constituem as suas colecções. com a Argen­ desmembrou. publicado poucas semanas depois. portugueses (ou da Metrópole. o qual. simbolicamente.fiados nas promessas cynicas do 'engra­ tente. está vez mais a África. nele incluindo. por certo. Portugal. o número quatro do mesmo as companhias profissionais que desde o final do quinzenário. melhor ainda. degredados. Afonso de Matos. esta situação reflecte-se. foram desligados. e Os Gera/dos:' documentos e memórias de praticamente todas Curiosamente. por certo. quando não quase inexis­ de fome . directamente. pelo menos. e Gabriel Lopes) por terras de Angola. da digressão do Trio das. Trata-se de um pequeno cesto. um dos comediantes mais populares e queridos do . por exemplo.1906). onde alcançaram dominante. o acervo do Museu Nacional do de artistas. pretensões (poderá Vêm a caminho desiludidos e sem trabalho para a ter esse "utópico" desejo. essa presença foi sempre vencimentos ridículos . Tina Vale e Maria Helena. Maria Matos. campanha de Chaimite e a derrota. que apesar destas notícias con­ é um objecto que nada tem que ver. a um dos episódios colo­ ticamente. traditórias e dos contratempos que terão. auferindo uns Como já ficou claro. com o teatro (ou. em 1938. ) de abarcar de forma próxima época de verão:' E continua. Ora. Teatro é actualmente constituído por mais de 250 Os Temos. aconselhando exaustiva e completa. a trupe de Thomaz Vieiral mil espécies. que os actores "lá foram. todos os períodos e África não é o mesmo que ir a qualquer das nossas todos os elementos que constituem essa vastíssima províncias. vilipendiados. Longe das suas terras. é alvo de inúmeras homenagens. acabados actuaram nos diferentes palcos espalhados por de serem recebidos em Huambo onde "agrada­ todo o território nacional ou. clara e necessa­ os infelizes artistas. apesar de um dia para o outro a braços com o Destino que de ser um museu nacional e de se assumir como lhes foi bem adverso.o suficiente para morrerem extremamente diminuta. dos seus lares. encontraram-se riamente. pelo menos. 65 (MNT). obviamente. depois de "terem percorrido todas as regiões onde a língua portuguesa era Lubango. uma mas que.. vestígios. para além do enigma que representa. apenas.1917). bem como duma muito substancial parte dos Maria Matos (a grande actriz mais Afonso de Matos actores e actrizes que. preservação da memória da História do Teatro em que faziam parte da companhia.. e consequente Vem tudo isto a propósito da intenção e da detenção (1895) e extradição para Portugal con­ origem deste texto: fazer um roteiro e traçar um tinental do régulo moçambicano Reynaldo Gun­ percurso da presença de companhias e actores gunhana (?. em alguns períodos. tina. demonstrado que na África só um pequeno grupo No entanto. numa pequena notícia. com repertório leve. ao longo dessas décadas.

o Ginásio. absolutas certezas: o actor António Cardoso nunca terá viajado pro­ fissionalmente para as colónias. Cesto executado manualmente público lisboeta do final do século XIX e inícios do por Reynaldo Gungunhana MNT. MNT. 1902 interior um pequeno cartão manuscrito e assinado MNT. inv. com os nomes "António da Silva Pratas Godide" e "Roberto Frederico Zixaxa" manuscritos no verso e um pequeno recorte de jornal com a notícia "Com 120 anos morreu a viúva do régulo Zixaxa': Qual a relação que tudo isto tem com aquele actor? O que terá levado Gungunhana a lhe oferecer tal objecto. pelo que ficou também 66 . uma grande parte da sua carreira sempre no mesmo teatro. familiar directa do actor.d. fazendo. inv. n" 80 296 pelo próprio Reynaldo Gungunhana. inv. doado ao Museu por D. Fotografia s. n. n" 20 709 30-8-902'. Ester Cardoso. permanecendo a relação e o "encontro" daquele régulo moçambicano com um dos actores mais populares da vida teatral portuguesa daquele período como uma incógnita. um cartão-de-visita do referido actor. Duas coisas são. com os dize­ Actor Cardoso res: "Esta cestinha é destinada ao actor Cardoso. cujo valor simbólico e afectivo parece evidente? São tudo questões para as quais não conhecemos resposta.· 80 296 século xx . aliás. continha no seu Cartão manuscrito por Reynaldo Gungunhana. Este cesto. contudo.

e por lá permanecendo em cartaz durante algu­ mas semanas. n. esta Companhia.' 66 712 ques a célebre Companhia Hortense Luz. tendo no filme Chaimite (1953). "ampliada com números novos e fados e guitarra" por Adelina Fernandes (1896-1983). que só há bem poucos anos nos deixou. Desta presença em Moçambique restam dois programas (um para o 'melodrama musi­ Récita da ac!ris . Escreve esta autora que ''(. Lourenço Marques. e outro para o vaudevil/e O JO/ge c( " '* s> I1 DELlNI1 fERNI1NDES Cadete. estreando­ -se. numa digressão a Fernandes África. em 1925. . este bastante completo e graficamente muito trabalhado) e uma notável descrição constante no Dedicada à ilustre Imprensa livro Memórias Ultramarinas de Virgínia Cabral Fer­ de Lourenço Marques. o---<:>--mn:ru G do empresário Mário Pombeiro. 28 DE NOVEMBRO DE 1925 trabalhando sempre como notável compere de revista. 1925 MNT. 1931 MNT. Foi um sucesso! O velho Teatro Varietá estava sempre cheio. Meu irmão Augusto. e o ainda jovem Eugénio Salvador (1908-1992). o régulo A revista tinha bons actores.. o seu máximo exemplo. 3> cado' O Grão deBico.' 135 059 criar no imaginário colectivo de muitas gerações de portugueses do século xx. Alberto Ghira (1888-1971) ou Alfredo Ruas (1890-1966). no mesmo Teatro Varietá. Lourenço Marques. 1916). quer a partir dos manuais escolares até ao cinema "oficia

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. Tendo já �la�R«1) !iftIHJiU . em 1931. anunciando a presença da Companhia Filomena Lima·Adelina Fernandes. principalmente os cómi­ Reynaldo Gungunhana não era o perigoso sel­ cos e os bailarinos. '* . inv.. n. inv.. primitivo e de tanga. 67 actriz e fadista muito querida do público lisboeta. de Jorge Brum do Canto. A primeira referência propriamente teatral exis­ tente no acervo do Museu Nacional do Teatro é um bonito Programa do Teatro Varietá. ] por essa altura foi a Lourenço Marques a Companhia de Teatro e Revistas de Hortense Luz. SfleI\DO.. que a propaganda Programa da Companhia Hortense Luz do Estado Novo colonial durante décadas tentou Teatro Varietá. nandes (n. tinha como principal Companhia Filomena Lima'Adelina Fernandes figura a popularíssima actriz H0l1ense Luz (que lhe dava o nome) e era integrada por outros actores que Direcção Musical do maestro Tomás Jorge fizeram história no nosso teatro como Henrique Alves (1873-1934).'IJ alcançado grandes êxitos em Lisboa. .. conhecido p elo "Cardoso do Ginásio". mais novo do vagem. com a revista Rez-Vez.Programa da Companhia Filomena Lima-Adelina Anos mais tarde. . actuava pela primeira vez em Lourenço Mar­ Teatro Varietá. de Lourenço Marques. �� I\s 9 HORI\S DI\ NOITE = até à sua m0l1e. Nós íamos às mati­ nées para uma frisa acompanhados pela governanta.

em 1 de Janeiro de 1932. Benguela. de outros espec­ L O A N D A. filha do então governador-geral de Moçambique. inv. 1932 MNT. Programa da Companhia Hortense Luz Cine-Teatro Barbara Volckart. integrados na mesma digressão: na capital angolana. muitas lantejoulas e . .) '' Gine Teatro Barbara Volckart BEI'IGUELA 22 de Dezembro de 1931 que eu. inv. na inauguração do Nacional Cine-Teatro de Luanda. .-\ -\ I tT í ST r ( ' _-\ o que dava muito realce à representação. em Benguela. DE = léu das bailarinas. n. 1931 MNT. N a c i o n a l C i ne-Teatro através dos respectivos programas. Muitas plumas. segundo as más línguas. Luanda. HORTENSE LUZ Desta mesma Companhia há ainda notícia. F [<:til .' 135 091 GOIIPÂNIII. quer iconográficas) destes espec­ Nacional Cine-Teatro. no mesmo teatro em finais do mesmo mês com Revista das Revistas (uma selecção dos melhores números de 12 outras revistas aplaudidas em vários teatros de Lisboa) e com o já referido O Grão de Bico. O corpo de baile era formado por jeitosas raparigas que. ria-se perdidamente. com a revista Zabumba. 93::2 táculos em África. também levado à cena ainda em Dezembro de 1931 no Cine-Teatro Barbara Volckart2 (não se encontrou qualquer infor­ mação sobre este teatro). são muito raras as memonas Programa da Companhia Hortense Luz (quer descritivas. muitas pernas ao \. coronel DA - Pereira Cabral: "O guarda-roupa era espectacular. Infelizmente.' 135 054 táculos e dos ambientes que proporcionavam. n.\ IIORWiSR LUZ . 2'7 de Janeiro üe 1. deram a volta à cabeça de muitos homens e lhes esvaziaram as carteiras:' 68 . batendo com um dos punhos com força no parapeito da frisa. bem C O M PA N H I A como dos teatros onde tudo se passava. Alfredo Ruas era o seu preferido:' E conclui Virgínia Cabral Fernandes.

0 actor excêntrico que poderia mente a hipótese de que Estêvão Amarante seria um ser um dos maiores actores do teatro português" 69 dos passageiros em férias naquele cruzeiro.1951). destacavam-se as actrizes Cremilda Torres até aos anos setenta do século xx).. em Ling-Chong "the devil de África.1964)..Programa da digressão por Angola de Ling-Chong. empre­ o Nacional (deverá ser o atrás referido Cine-Tea­ ende uma tournéeteatral pelas colónias portuguesas tro Nacional. que "enquanto passava a galope a quadriga dos . "o nosso 1. um dos actuais resistentes da revista Sem existir qualquer indicação segura sobre a à portuguesa e um dos mais populares cómicos origem da presença de tão notável actor em terras das nossas televisões. se poderá assistir (1899. parte "no ecran" com diversos documentários cine­ que actuou em Luanda no Club Transmontano de matográficos (como foi hábito em todos os cinemas Angola. inv. a leitura do programa leva a colocar forte­ man'. Nesta companhia. n. que tão notável êxito Octávio Mattos (1901. de Luanda) sobre um espectáculo de Angola e Moçambique a Companhia Embaixada extraordinário em homenagem ao Cruzeiro de da Saudade com a revista e "um dos maiores suces­ Férias às Colónias no qual. "o ídolo da Ainda de 1941 é um exótico programa refe­ cena portuguesa nas suas mais gloriosas criações rente a uma digressão por terras de África do actor das revistas e vaudevilles.1988) e Berta Monteiro ( 1898-1960) e o tenor à apresentação única de um recital pelo "grande portuense Morgado Maurício (1908-?). 1 1941 MNT. pai do actor Octávio de alcançaram em Portugal e no Brasil': Matos (1939). em 1941. depois de uma primeira sos de Lisboa" Iscas com Elas. actor" Estêvão Amarante ( 1889.' 103 424 �) \ NAS COLÓ N IAS PORT U G U ESAS De Setembro de 1935 é um programa para Em plena II Grande Guerra.

"e tão alto se guindou que o Estado não hesitou em subsidiar a sua digressão a África. a revista-fantasia Sonho de são da revista Olha o Balão!. Mariamélia ( 1908-?). como MNT. as colónias africanas. sobretudo pelos Atlântico como um imenso palco ou dos paquetes seus magníficos retratos pintados e esculpidos que constantemente o cruzam entre Portugal e o pelo seu irmão Júlio de Sousa. mas também já.. rara no meio teatral mulher Helena Tavares ( 1932. Varietá. da português nesta arte difícil.1 979). sobretudo. Mello e Alvim. em África. bem como todo o material avaliado no valor de 400. como a sua uma forte ligação a África. muito novo ainda. Maria Coelho ( 1923-2000) no paquete Uíge. no Cine-Parque de Luanda. Ainda no mesmo ano actuam no Teatro 1935 em Angola. integrando o elenco da digres. pois em 1948 foi cabeça de verdadeiros palcos flutuantes. esses magos construtores 8a ssa g e Jll do 8 q u a d o r de maravilhas': e Octávio Mattos (que ficou. recentemente desaparecido e um dos mais de cena. Da companhia deste excelente actor de notáveis e versáteis actores portugueses das últimas revista. numa peça infantil (o que não deixa de ser. a caminho de uma digressão por Angola e tos (1914-1966) e. Octávio Mattos surgia como cabeça de cartaz do espectáculo de beneficência da Troupe Violetas. da qual restam inúmeras fotografias 2005). Canto e Castro (1930- Moçambique. Jaime San­ 1955. mente falecida. tinha estado já em décadas. 70 . 1955 kimone. lê-se ainda naquele texto. igualou os nomes dos ' Changs ' e ' Fumanchus '. depois do êxito no Coliseu dos Recreios de Lisboa "este artista se esforça por apresentar-vos de igual maneira. onde regressaria novamente em 1949 "Music-Hall" pela Companhia de Revista Carlos integrada no elenco de uma outra revista. para que nestas p aragens des t a s i longínquas do Império se saiba que um artista . é o Programa das cartaz da tournée da opereta Zé do Telhado àquele Festas da Passagem do Equador e Espectáculo de continente.gloriosos por convencionalismo. um misto entre a Revistas Carlos Coelho arte do ilusionismo e a revista à portuguesa. inv. "E vemos Lisboa e Porto consagrá-lo nesta nova modalidade'. n O I 034 024 PAQUETE "UIGE" Viagem se pode ler no texto introdutório daquele programa. vestindo um Festa da passagem do Equador Paquete Uíge. Luís Horta (1919-1991). que. aparecer no palco como ilusionista'.· 6/1767 assinado pelo Dr. (com uma Dando corpo à já referida imagem do oceano carreira desigual e hoje lembrada. neste caso. com "ensenação de Ling-Chong" que. como veterana. demonstrando grandes nomes do teatro português. em Abril de Adelina ( 1930). n. prematura­ português. abandona o surto Programa da Companhia de Revistas Carlos Coelho glorioso da sua carreira artística para.000$00': Mas já em 1924. malgré tout. faziam parte outros Pierrot. conhecido na vida social e teatral lisboeta 8speclácu[o de "cMusic-8eall" como Fumanchú) apresentava nesta digressão o pelo c o m p a n h i a d e espectáculo Parada de Ilusões. Brasil ou. durante algum tempo.

:l doe pelas • L-.-eçoe r'edu::r..aplda. Luanda. anunciava voos regulares para Luanda (para onde a nossa TAP voava também já desde 1947).vaudeville que representava. redu­ zindo-se o repertório à comédia O DI: Juiz de André Ferdinand. uma novidade). 601 L U A N o A T o l e r. c.' 56 684 apresenta duas grandes novidades: a primeira. inv. no tempo de viagem para aquelas zonas do globo. 3028 � -----�--_·�--�----·- I REST Çà O I 9C 1 NÃO SE A SABENA C O M P R O M E T A S E M C O NS U L T A R 1 PAIl�ARD@ COM O ' D(l/iJ«� PROJECTOR Representantes GeraIs p. que Fotografia s. l n h _ . 1954 MNT. com também. 3310 LUANDA f) �(lConjttutota 71 .. Costinha e Lulsa Durão. inv. foge ao habitual formato de revista -fan­ tasia .. P. sua mulher Luísa Durão prenunciando.mágica . assim. n. com um magnífico De 7. por certo. uma completa revolução no (1899-1977) e Maria D omingas (192 1).d. Programa da Companhia Berta de Bivar-Alves da Cunha Cine-Teatro Restauração. MNT.. vizinho de Angola. "Costinha" (1891-1976). P. 2690 I ElEF..' 59 056 � 11 . STUDIO DE PUBLICIDADE ARTlsTICA . n. De 1954 é um programa para o moderno e numa peça infantil espaçoso Cine-Teatro Restauração de Luanda.. a segunda novidade é a página de publicidade à companhia aérea belga SABENA que. male . ( I N E-T E A T R O DO � ( C. a quase totalidade da programação artística das diversas digressões a África até então. a participar transporte de longo curso e uma brutal redução numa digressão a Moçambique. os actores Augusto Costa escala no então Congo belga.Maria Domingas.

ainda durante alguns anos. de resto. uma viagem de barco (só ida) poderia demorar até um mês (estamos a falar de Angola e Moçambique). das quais o início da guerra colonial será a descolonização): José Miguel e. fruto da vontade dos três mais contribui também directa ou indirectamente para Fotografia. Calulo. com o que acontecia seppe Bastos e Vasco Morgado. sobretudo. sempre com grande êxito. que partiu de Lisboa no paquete Império (exac­ tamente no mesmo dia em que este barco sofreu uma enorme explosão. hoje ainda em grande actividade teatral. o que. inv. ) numa . 72 . A partir do final da década de cinquenta. Empresa Giuseppe Bastos Digressão a África com todo o país).A título de exemplo. apesar das longas viagens "teatrais" continuarem. Giu. Ricardo Alberty (1919. Benguela e Lobito. a ser feitas preferencialmente nos paquetes da CNN (Companhia Nacional de Navegação). cidade onde acabariam por embarcar no paquete Pátria para regresso ante­ cipado a Portugal. Carlos José Teixeira ( 1920-1977) e a esplêndida Cecília Guimarães (1927). n. entrando-se agora. e consti­ tuída ainda por outros actores "históricos" e ines­ quecíveis do teatro português como Maria Schulze 1912-?).t963 influentes e activos empresários teatrais daquela esta situação um conjunto de alterações políticas e MNT. por doença súbita de Alves da Cunha. no que respeita à vida teatral e cultural (e não só.' 223 388 década e da que se lhe seguiu (obviamente até à sociais. fazendo-se a mesma distân­ cia de avião em apenas três dias (com tendência para ir sempre encurtando esse tempo). em Malange. levando à anulação da prevista continuação da digressão a Moçambique. em definitivo. mas sem consequências de maior). Resta dizer que esta comédia era levada à cena pela notável Companhia Berta de Bívar ( 1889-1964) ..1992). o que poderia signi­ ficar também uma terceira novidade. um casal de dois enormes actores do nosso século xx. Por outro lado. nova fase de relacionamento com as colónias. as "digressões ao Ultramar" entram. actuando.Alves da Cunha (1889-1956). mais evidente. como é óbvio. Esta companhia.. percorreu uma parte do território angolano. José Amaro (1915-1975). podia alterar claramente a organização e a pro­ gramação das digressões. na programação anual das diversas companhias de teatro comercial existentes em Lis­ boa (à semelhança.

1967 AO ULTR AR MNT. Henrique Santos (1913-2000). inv.A Programa da Companhia Teatro Alegre. Irene Isidro. Óscar como formatos quase exclusivos.' digressão ao Ultramar. inv. volta a Angola e Moçambique desta feita de braço . António Montez (1941). e os da Companhia de Revistas de Giuseppe cisco Ribeiro "Ribeirinho" (191 1 . == UMA MENSAGEM DE ALEGRIA Mantendo o teatro de revista e a comédia ligeira Maria Domingas. "Na sequência de uma assiduidade que se Salvador (tantos anos depois .1 993). Isabel Ferreira e Luis Horta . Maria Helena Matos ( 19 1 1 . à deslocação periódica e organizada de grandes Maria Dulce ( 1936). Eugénio anual. que Isidro (1907.o 54 615 COM A com tom an�ia Teatro Ale�re SOB A ECÇÃO ARTíSTICA -fjfiIlZ DE r l'E IRI�'VI[l §li Ji. S RIQUE SANTANA M/ 17 a nos 1962 -====1. pelo menos até 1970 faz quatro digressões a África -2002). car os referentes à Companhia Teatro Alegre. o produtor Giuseppe Bastos 73 -1995) (natural de Angola). Manuela Maria (1935). 1962 MNT..d. Humberto Madeira estreitou através de mais de uma dezena de anos (1921. Henrique Santana (1922. VASCO MORGADO Fotografia s. LeóniaMendes (1922-2000). ). Bastos. António Anjos (1936.. Luísa Durão. através delas. Fran­ mas). duções próprias ou êxitos recentemente levados Dos vários programas e fotografias existentes à cena em Lisboa e no Porto.1========. Mariema (1943). uma bem mais que uma vez) de uma quantidade ímpar companhia de comédias dirigida por Henrique de grandes nomes do nosso teatro como Irene Santana e "empresariada" por Vasco Morgado.1971). inv. n.< Palmira Ferreira. em que as suas companhias teatrais actuaram em Camilo de Oliveira (1924). Isabel de Castro (1931 -2005). Costinha. Armando (o número da digressão era indicado nos progra­ Cortez (1928-2002).1984). assistimos assim Acúrsio (1916. n O 55 654 APRESENTA -'--A� l > a a sua d i g ressão Programa da Empresa Giuseppe Bastos . terras ultramarinas. GIUSEPPE BASTOS aprasenl. ao no MNT que documentam estes factos.o 174 660 ao D1GRESSÃO 3. 7. e. Lia companhias daqueles géneros teatrais com pro­ Gama (1945) ou a brasileira Berta Lóran (1928).1990). MNT. Lígia Teles (1937). de desta­ regresso ou à passagem por terras africanas (alguns. que em 1963 vai já na sua oitava digressão Luísa Durão..1995). n. Nicolau Breyner (1940).

por mais afastados que se encontrem da Capital. Óscar Acúrsio ou Maria de Lurdes Rezende (canço­ netista). E S P E C T Á C U L O S DE Num texto constante num programa referente LAURA ALVES VASCO MORGADO a (mais) uma digressão a África apresentada por 74 . ao ar livre em palcos improvisados ou mesmo na "caixa aberta" dos célebres camiões Berliet/TramagaP. como (uma vez mais) Carlos Coelho. Laura dado com o mais dinâmico dos empresários seus Alves! Laura Alves (há muito aguardada vem pela colegas.1986) à frente da sua notável Companhia" (só irá três anos depois). Maria II Rey Coiaço Robles Monteiro': Em 1967. que integrava alguns dos nomes mais popu­ lares do teatro. apresentava a primeira digressão desta Companhia de Revistas': Grande curiosidade deste programa é o anúncio. do cinema e da rádio portugueses de então. quer também nas mais remotas povoações ou aquartelamentos. também marido de Laura Alves ( 1922- na digressão Ultramar 66. que desde 1 960 várias digressões de comédia têm sulcado os mares em demanda das Províncias de Angola e Moçambique.' 106 974 (192 1 . um ponto alto na sua acti­ vidade teatral. Artur Semedo ( 1924-2001). dos pró­ Laura Alves Fotografia s. com temporadas brilhantes da sua Companhia de pela mão de Vasco Morgado:' Teatro Alegre'.. Helena Tavares e Leónia Mendes. ] foi mercê da iniciativa sempre actuante de Vasco Morgado. Leónia Mendes. na sua contracapa. porque tem a honra de apresentar aos portugueses radicados nestas paragens a actriz mais popular e mais querida do público. e ainda da "extraordinária Companhia do Teatro Nacional D. em espec­ táculos destinados aos soldados portugueses que PELA PRIMEIRA VEZ NO ULTRAMAR então combatem na guerra colonial. com a sua "Fabulosa . Florbela Queirós são. Vasco Morgado.d. tem um significado especial a marcar e Artur Semedo Fotografia s. n. em 1969. percorre e actua quer nas principais cidades de Angola e Moçambique. A digressão actual marca. inv. Vasco Morgado. ximos espectáculos no Ultramar de "Laura Alves MNT. o dinamismo e a vontade férrea de bem servir os MNT. n. porém.d. pode ler-se: "Esta digres­ Octávio de Matos.' 37 922 frequentadores de teatro. Plorbela Queirós (1943).. no entanto. também já aureolado primeira vez ao Ultramal� com a sua Companhia. Octávio de Matos (filho).1 986). do 'Lar comum dos portu­ gueses: [ . lê-se na segunda página do p rograma Era com esta pompa e circunstância que este que anuncia a fusão entre estes dois empresários empresário. uma digressão intitulada Vedetas Shaw. inv.

Tomás de Macedo (1917-1980).Teatro do Nosso Tempo. sobretudo. pelos repertórios que envolveram e por todo o trabalho técnico (tradução. O TNT . alter­ qualidade de actor e director. não só pelos actores que movimentaram mas. n. A Idiota e. Representando. Canto e Castro. criado pelo actor e encenador Jacinto Ramos ( 19 17-2004). com o Grupo de Teatro Fernando Pessoa). com subsídios do Ministério do Ultramar. outros momentos existiram. por Laura Soveral nadamente. em Angola.1977). dos Governos-Gerais daquelas então 75 duas províncias. para esta digressão. O Diário de Um Louco de director da Companhia). do Fundo Nacional de Teatro e . deslocou-se a Angola e Moçambique. (1942). O Jovem Menti­ Alberto Vilar e Luís Pinhão (19 19-). João Mota Nicolau Gogol. quer estética. com o tempo português em que vivemos'. à data a mais popular e mais da Fundação Calouste Gulbenldan. poucos anos A Rainha do Ferro-Velho. Contudo. por onde já teria andado em digressão. inv. etc. aplaudidos no Teatro Monumental de Lisboa. como se podia ler no Programa preparado para esta digressão africana.) que as prece­ deu: a "primeira digressão ao Ultramar" do TNT . quer ambas ao mesmo tempo. prador de Horas. a África. de um elenco de luxo. ainda. Este grupo. leva roso (sem a sua participação). Mas é no início da década de setenta que se dá a primeira grande ruptura. extraordinária actriz. cenografia. de Eunice Muiioz (1928) e José de Castro (1931. entre outros. Laura Alves rodeou­ um repertório de peso. "tinha várias finalidades: trazer ao público o teatro autêntico (não o subproduto) que tem relação. e estamos a falar apenas no teatro "de cá p ara lá'. quer humana. próximo do trabalho teatral mais experimental e dos grupos do chamado teatro independente.' 5108 Ultramar e pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo. com um curto amada pelo grande público do teatro comercial e elenco constituído pelo próprio Jacinto Ramos. numa encenação de pontificavam Rui de Carvalho (1927) (também Luís de Sttau Monteiro. patrocinada pelo Ministério do MNT. O Com­ antes. quatro grandes êxitos sucessivamente (curiosamente natural de Benguela. refiro­ -me agora a duas históricas digressões. onde Mentiroso de Jerome Kilty.Teatro do Nosso Tempo e a digressão Somos Dois. nesta Década de 1970 marcante digressão. nas habituais digressões de tendência revisteira e comédia ligeira. Manuela Cartaz da digressão a África do projecto Somos Dois Maria ou Carlos José Teixeira. Se. com encenação de Jorge Listopad. A Flor do Cacto. muito provavelmente. apresentando Adorável -se. na ligeiro português.

entre outros. com encenação da pró­ pria Eunice. para muitos. e artístico e na velha tradição teatral da carroça Eunice Muiioz e José de Castro de Therpis. quer da crítica quer do público. também com ence­ Digressão a África nação de Jorge Listopad e cenário de João Vieira. MNT. n. desprezando outras situações profissionais mais cómodas. e exactamente porque é essa a sua principal função torna-se o seu maior prazer fazê-lo em toda a parte em que lhe for possível alargando os seus auditórios cada vez mais. com encenação de Carlos Avilez e a A Voz Humana de Jean Cocteau. ence­ nada por Costa Ferreira. inv. procurando plateias mais longínquas Peça Dois num Baloiço Digressão Somos Dois. Em relação ao projecto Somos Dois tinha como "razão de ser" o toda a gente saber que "a princi­ pal função do artista é comunicar. n O 4652 "desprendimento" e regulados por estes princípios de prática artística que estes dois notáveis artistas. Os Dactilógrafos de Murray Schisgal. A Oração de Fernando Arrabal. a partir de textos Programa da Companhia Teatro do Nosso Tempo música de Jorge Peixinho e cenário de Sá Nogueira (TNT) e O Porteiro de Harold Pinter. inv. Faziam ainda parte deste excepcional conjunto de espectáculos um Recital de Poesia. tenham constituído um repertório PRIMEIRA D I G RESSÃO AO U L TRAMAR que consideram actual e de bom nível intelectual 76 . iniciam. uma histórica digressão a Angola e Moçambique. Para o actor de declamação este alargamento tem um limite geográfico traçado nitidamente pelas fronteiras territoriais em que o seu idioma é enten­ dido. 1970 onde a sua arte possa ser entendida': É com este Fotografia MNT. António Maria Lisboa ou Herberto Hélder. Nos diferentes palcos onde actuaram apresentaram as peças Dois num Baloiço de William Gibson. com encenação de Francisco Russo e cenário de Victor André. dois dos maiores actores portugueses do século xx. a Conferência Ilus­ trada de Luiz Francisco Rebello. com poemas de Mário Cesariny. não admira que Eunice Munoz e José de Castro. Tendo em consideração estas verdades funda­ mentais.' 97 877 todos já anteriormente levados à cena em Lisboa e no Porto com óptima recepção. em Março de 1970. e apesar da morte prematura de José de Castro.

pela crítica teatral e pela dedica­ ção a esta arte como Isabel de Castro. Lizette Frias (1928-?). Fedra. em Barcelona. integrou esta digressão. década de 1970 Sobral e Romeu Correia e O Homem de Flor na Boca Fotografia MNT. Facilmente se Teatro Experimental de Cascais entende que. e outros já consagra­ dos pelo público. Eunice Munoz e Alberto Vilar de Bernardo Santareno. de Lope de Vega. alguns ainda no início de brilhantes carreiras como João Vasco. Alberto Vila!. integrada numa grande digressão do Teatro Experimental de Cascais.' 134 872 tratou de um acontecimento cultural raro e a todos os títulos excepcional. estrangeiros e portugueses. Eunice Munoz voltará a África (mais uma vez. A Maluquinha de Arroios. Zita Duarte (1943-2000). Luanda. de Fernando Arrabal. n O 2454 de Luigi Pirandello. e o aclamadíssimo Fuenteovejuna. que permitem um trabalho rico e diversificado". dos clássicos aos contemporâneos. encenado por Costa Ferreira e Programa de Fuenteovejuno com José de Castro e Alberto Villar. e estando em cena no dia 25 de Abril de 1974 em Vila Pery. o Teatro Experimental de Cas­ cais (cuja criação significou uma autêntica pedrada no charco da vida teatral de então) tem vindo a apre­ sentar uma longa lista de autores. Augusto Digressão Somos Dois. na primeira e única vez que esta histórica companhia se deslocará áquele continente. '' [ . e Os Dois Verdugos. Eugénia Bettencourt. naquelas duas antigas colónias.1985) ou Eliza de Guizette (1912. o o ] interessado na procura e na experimentação. como se pode facilmente constatar através do repertório escolhido para esta digressão: o Auto da Índia e o TEATRO EXPERIM ENTAL DE CASCA S 77 Auto da Barca do Inferno. de Gil Vicente. em Moçambique. n. a Angola e Moçambique) em 1973/1974. 1 974 MNT. um notável grupo de acto­ res. Oração . apoiada uma vez mais pela Fundação Calouste Gulbenldan. tendo esta versão do TEC/Carlos Avilez estreado em 24 de Abril de 1973. inv. Fundado em 1965. de Jean Racine (numa interpretação sublime de Eunice). Para além de Eunice Munoz. Santos Manuel ou Carlos Daniel (1952-1996). Alina Vaz. inv. de André Brun. António Marques. Maria Albergaria (1928. se Digressão a África. Sttau Monteiro.1 988).

precedido de um ciclo de conferências renço Marques ter "teatro Shakespeare num palco proferidas por Abílio Cardoso. e que também palestrou). inv. Referia-se o autor ao espectáculo Medida por que RM n. de Novembro de 1970. Medida. através dos tempos. o encenador Mário Barradas conseguiu-se dar uma ideia do que é teatro a sério. novos ventos na vida teatral das capitais de Angola e 78 . em Estrasburgo. Para bem do teatro em Lourenço Marques mente dito. [00'] Um punhado de jovens de boa vontade. Capa do boletim do Clube de Teatro de Angola. no artigo . pois Knopfli.) e para bem da cultura da juventude moçambi. deu-nos um espec­ escola do Teatro Nacional. de calor humano. n. Lou­ "Dicca" (?). criticando dedicada exclusiva e apaixonadamente ao teatro. sopravam (ainda muito devagarinhooo. Entretanto. levado à cena pelo TEUM Teatro dos Estu­ - "Apontamento sobre o Teatro Universitário".O 405.· 143 609 teatro boletim do clube de teatro de angola �!1����� No mensário moçambicano Rádio Moçambi­ cana". diri­ abandonaria a sua terra natal e a sua profissão de gidos por um elemento que sabe o que quer. (natural de Moçambique. o Dr advogado (na qual era um jovem promissor e cheio Mário Barradas ('advogado de Lourenço Marques de talento) para. dar início a uma vida táculo cheio de vida. apesar do seu encenador já não estar Tal como já acontecera em Portugal propria­ entre nós. Jorge dantes Universitários de Moçambique. na prestigiada com muito nome e encenador'). 1972 MNT. pela primeira vez. É de louvar o esforço dispendido. Eugénio Lisboa e Rui da cidade. os sendo hoje uma das figuras determinantes para a mesmos erros e as mesmas qualidades". uma sociedade que mantém. no palco do Gouveia dava notícia de. E conclui: compreensão da história dos últimos quarenta anos "Oxalá não se perca esta bela iniciativa [00'] e tenha daquela arte no nosso país. continuação.

tornaram­ -se. Há tantos com o Clube de Teatro de Angola. estética e política) ao marasmo. um dos Ícones e um dos equipamentos mais utilizados pelo Exército português durante 79 a Guerra Colonial. que se ordem económica.1993). Thomaz Vieira (1878-1979). nas suas próprias raízes culturais e sociais a construção de uma dramaturgia de uma linguagem própria e verdadeiramente autónoma. e com o fortíssimo pensei muitas vezes ir a Moçambique. que vão chamar o pior dos instintos que agonizavam os seus últimos dias. Mas não é apoio de Mário Barradas. parcialmente fabricados na já desaparecida fábrica do Tramagal. livre e finalmente. no teatro universi­ dada ao n. em Luanda é sobretudo fácil. para além desta sua actividade como actor. 3 Estes camiões pesados para transporte de tropas. . de Novembro de 1971. as companhias lá. quando as companhias Ce quase sempre as cinzentismo e. natural de Angola e com fortes com uma escola de teatro própria. . por bons e maus nl0tivos. . sua. a que se dedicou na primeira fase da sua vida activa. durante mais de 35 anos. Moçambique: se em Lourenço Marques este movi­ passagens duma interessante entrevista por ele mento assenta." grandes actores do século xx. ir ao Ultramar. mercê de negócios dominante na maioria desta arte. à crítica e às propostas de A. 197\ ciava. também um dos nossos um esforço que deve ser feito. ao bique. ) lá vão. Em 1967 publica um livro de memórias. umas dezenas de anos depois. "importada'. aos 53 anos virou-se para a difusão do cinema e criou em Moçambique a primeira companhia de cinema ambulante. onde então residia a sua famOia mais próxima. do mesmo tário (de estudantes e independente) e germina com mensário Rádio Moçambique RM: "É claro que - a criação do TEUM e do TALM. vivendo em Lisboa. um texto antropológico de um observador atento da sociedade do seu tempo': 2 Barbara Volckart (1848-1935) foi uma das mais brilhantes actrizes portuguesas do seu tempo. percorrendo com um carro caravana (mais tarde b aptizado QlIO \lndis) todas as cidades e sertões do interior daquela colónia. o fim do MNT Império Colonial e a possibilidade (e o esforço) dos novos países africanos poderem. Paulo (1927 . Vítor Rogério Paulo na capa Machado e de Carlos Leal.] Temos é de acabar vão criando pequenos núcleos de verdadeira resis­ com o facto de só se ver teatro em Angola e Moçam­ tência (social. escolher e organizar a sua vida e a sua história tea­ tral. acho que é raízes em Moçambique. brejeiro mandam para lá companhias com peças comple­ e do sucesso comercial. buscando.O 417. Fazem esse negócio e qualquer critério para além do riso fácil. Criar os grupos lá. com quase três anos de antecedência. "Autêntico testemwlho de vida. . . duma metrópole onde o tamente desclassificadas e que não têm qualquer velho Império Colonial e o anacrónico Estado Novo interesse. à pouca qualidade então piores do Continente. e outros. sobretudo. sem feitos pelos empresários. [ . as pessoas têm e fazer enorme confusão acerca do Sem querer ser tão "excessivo" como Rogério que é o teatro. termino com duas Dando continuidade. e com o excelente problemas que se põem pelo meio! Problemas de Boletim que durante alguns anos editou. Nasceu em Lisboa e faleceu em Benguela. principalmente. às ideias. Rogério Paulo prenun­ da revista Rádio Moçambique.

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de Pepetela. João. 1973 ardo Agualusa. Em 2003. e fala de pessoas que conhecem África por vias não directas. n.. alguns dos quais ajudou a fundar. dos objectivos artísticos e das motivações pessoais e profissionais. Na impossibilidade de estender a enunciada complementaridade a todos os países objecto do Car l o s P i m e n ta estudo efectuado por Duarte Ivo Cruz. e no ano seguinte adapta e encena MNT. fala de África. optámos . Alberto Magassela. pareceu-nos importante complemen­ tar essa abordagem dando voz a dois activos inter­ venientes na cena teatral portuguesa nascidos em Moçambique. Discurso SENDO EXAUSTIVA e exemplarmente abordada nesta revista por Duarte Ivo Cruz a questão das dra­ maturgias portuguesas de temário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural d irecto portuguesa. encenadora e autora. estreado em 2002. deu os primeiros passos no teatro trabalhando com os mais activos grupos de Maputo. tem dedicado grande parte do seu trabalho às temáticas africanas. funcionamentos estru­ turais e sociais diferentes. um texto que '� . procurámos e A l b e rt o M a g a s s e l a num mesmo contexto cultural a exposição de inte­ resses e práticas artísticas diversas que acentuam a multiplicidade dos pontos de vista. Fala sobretudo de mulatos. Assim. Alguns de nós. fala de africanos a viverem fora de África.em conjunto com Mia Couto . somos Capa do programa da peça Aulo de Floripes estes:' Em 2004 encena Geração W. desenvolvendo intensa actividade como actor . actor e encenador. por centrar estas duas entrevistas a personalidades c o m Nat á l i a L u l Z a com raízes num mesmo país. inv.fundamentalmente no Teatro Nacional de S. Natália Luiza. das influências. aqui numa conceptualização mais abrangente: a de pes­ soas que convivem em simultâneo com culturas e normas de mundos distintos. por necessidade. Co-directora artística do Teatro Meridio­ nal. escreve e encena Mundau. adaptou para esta companhia . actriz.' 141211 A Montanha da Água Lilás. . A partir de 1995 estabelece-se na cidade do Porto. de José Edu­ Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian.Mar me Quer. adoptando em cada um deles.

numa comunidade artística tem sido reveladora de um relacionamento cultural com sólidos hábitos de cooperação. No entanto.--. �. organiza­ guns casos. gências socioeconómicas que se constituem. . tendo em conta a especificidade de Não obstante o significativo peso dessa herança cada situação concreta. como condicionantes dessa efectiva ções dedicadas a acções de intercâmbio e formação.timorense. tem determinado o estabelecimento Definidas as fronteiras políticas e geográficas de cumplicidades que aproximam as diferentes assistimos.-��. de uma forma directa da multiplicidade e qualidade dos con­ realista. A presença de actores. na cena teatral de uma mesma língua. . nal­ A existência de festivais temáticos. ao estabelecimento de culturas e contribuem decisivamente para uma uma cartografia cultural na qual cada parte integra miscigenação cujos contornos evoluem na razão de pleno direito o todo. -.TNSJ -.embora em que nos caracteriza enquanto comunidade falante muito menor escala . - 82 . Devemos. trabalhando cionantes e a valorização e desenvolvimento dos no terreno. ---�-. . possibilitará. . artistas e organizações no terreno históricos. . constituem hoje as correias de trans­ laços culturais que historicamente têm prevalecido missão de atitudes e comportamentos nos quais nos mais adversos contextos. considerar as ainda persistentes contin­ tactos. encenadores. portuguesa. autores podemos ler de uma forma activa e orgânica aquilo de origem africana e brasileira ou . Alberto Magassela em Arranha-Céus de Jacinto Lucas Pires Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1999 - © João Tuna . são os agentes culturais que. a articulação e comunicacional sustentado em indeléveis laços entre instituições. . integração. ---=- =. cada vez mais. a superação dessas condi­ comum.

entre 1984 e 1994. área teatral. que foi para lá Fazíamos então trabalho de campo. que constituiu uma em que eu estivesse presente. experiência muito traumatizante. o grupo tinha crescido muito mas não o suficiente para as minhas exigências na altura. partindo depois para a elaboração Mankell ao Mutumbela. Apesar de te teres flXado em POl'tugal continuas a ir com regularidade a Moçambique? Por que razão vieste para Portugal em 1 99 5 e Sim. adap­ 83 seguia o curso de Matemática e Física. começámos a trabalhar do texto. A partir da ligação do Henning Couto assistia. na altura. que a Solveig Nordlund ocidentais e aos grandes temas africanos. do encenador Henning Mankell. com os grupos Nkarianga. Então vim para em função do tema que queríamos abordar. do escritor russo Anton Tchekov. realizando-se improvisações artístico que era feito no terreno. mas acabou Mercado Central. para viver de perto o mesmo por optar pelo Mutumbela pois era o único grupo tipo de dificuldades que eles tinham. a organização fez questão morte prematura do meu pai. M'Beu e Mutumbela GÔ-Gô. em Maputo. A Descoberta. Compreendi também. Todo este trabalho deu origem à peça outro tipo de temas mais ligados às dramaturgias Os meninos de ninguém. existia aí uma excelente Em Moçambique. tendo trabalhar a convite do Governo sueco. dado que me permitiu um não havia investimento nenhum. De facto. Como foram os teus primeiros contactos com Quando se me deparou a possibilidade de vir para o teatro em Moçambique e quais os processos Portugal integrar o projecto do Teatro Nacional de de trabalho e as temáticas que el'am abordadas S. as dramaturgias ocidentais? Quando foi realizada a primeira edição do Festival Vim para Portugal por diversas razões. A de Agosto. este dramaturgo fora enviado para Moçambique Na preparação desse trabalho cheguei a dormir para trabalhar no Ministério da Cultura com todos quatro noites com os miúdos na rua. Procuro manter um como surgiram os teus primeiros contactos com intercâmbio profissional que me parece importante. João senti que. Também tando o texto à realidade moçambicana. com Mia Couto. Eu neste último que adquiri uma experiência que foi fiz teatro em Moçambique numa altura em que muito enriquecedora. acabou por passar ao cinema com o título Comédia Infantil. que a nível pessoal Aurora. para além de poder contribuir nessa fase inicial do teu percurso artístico? com a minha experiência. Depois desta que reunia boas condições em termos de disciplina pesquisa fazíamos improvisações às quais o Mia e organização. trabalhei oportunidade para alargar os meus horizontes. sentia que estava no Mutumbela Gô-Gô há já muito tempo. Todavia foi o meu futuro em Moçambique estava limitado. frente ao os grupos de teatro existentes no país. situação provocada não só pela guerra. Nesse mesmo Apresentei nessa ocasião a peça Os Malefícios ano prescrevi no segundo ano da faculdade onde do Tabaco. como objectivo a exploração destas temáticas. Quase todos os anos. Não havia polí­ contacto directo e um trabalho muito partilhado ticas definidas a nível do Ministério da Cultura. E Nós. Lem­ Portugal com o objectivo de evoluir tecnicamente bro-me que um desses temas tinha que ver com o e de poder melhorar os meus conhecimentos na aumento do número de crianças desamparadas. mas tam­ Em Moçambique os meus primeiros contactos bém pelo desfazer dos casamentos. o que conduzia com o repertório ocidental foram por intermédio os jovens a situações de marginalidade. . A maior parte das peças eram fei­ no sentido de dar acompanhamento ao trabalho tas a partir do nada.

levas situação poderia ser um choque interessante. periodicamente. Embora na prática seja a mulher Ao apresentares uma peça do repertório oci­ quem organiza e controla. as tradições que. O facto de teres vindo para conferência. por questões cul­ dental em Moçambique isso já significa um afas­ turais. existe receptividade para outras formas culturais Apesar de existir alguma evolução. bilidade de ser a mulher a comandar os destinos de uma família. dado outros conceitos e outras práticas. o confronto com outras realidades cimento deste tipo de dramaturgia ou pela inexis­ culturais pode dar um contributo significativo e daí tência de referências culturais que permitissem a necessidade de adaptação da peça ao contexto a sua leitura? cultural moçambicano. no fundo. Alberto Magassela e Ângela Marques em A hora em que nada sabíamos uns das outras de Peter Handke Encenação: José Wallenstein Produção: Teatro Nacional São João 2001 - © João Tuna . é ao homem que é reconhecida a chefia. apesar de ser um fumador inveterado. são induzidas do exterior? 84 .TNSJ Porque é que sentiste necessidade de adaptar o culturais não se modificam de um dia para o outro. desse tipo de por imposição da mulher. Ao regressares. seguramente. Mas.campo no qual trabalhavas com está condicionado pela mulher e que dá aquela o Mutumbela GÔ-Gô. Sentes que que traz sinais culturais completamente diferentes. uma vez que o espectáculo Na cultura moçambicana não existe a possi­ subvertia todos esses valores. texto à realidade moçambicana? Por desconhe­ No entanto. Portugal afastou-te. tamento do tipo de trabalho sobre a realidade Nos Malefícios do Tabaco temos um indivíduo que social do país . Eu entendi que esta trabalho.

dessa realidade. É frequente o público aplaudir a É necessário desenvolver a formação artística. A Casa existem propostas em número suficiente para satis­ Velha também deu um contributo neste sector. Exis­ meio dos espectáculos ou fazer comentários e dar tem poucas referências quanto às linguagens técnicas a sua opinião. tação do público. o tipo de teatro que se faz em Moçambique Nem por isso. que tem sido abertura a outras realidades culturais. Sinto que há espaço e damos espaços. para a manifes­ para discutir todos os temas e todas as dramaturgias. clássico tem que ser perspectivado dessa forma. entre as réplicas. Mesmo um formada e uma maior abertura. enquanto no Teatro Avenida havia um Quais os grandes temas que são mais relevan­ viveiro. Houve inves­ tem que ser sempre perspectivado em função do timentos na formação. eu sinto que existe uma grande foram formados no Teatro Avenida. O país está a crescer. Há já uma opinião pública público e da participação desse público. Só que não um viveiro do teatro em Moçambique. em termos gerais.TNSJ 85 . mas formava essencialmente profissionais "para uso interno'. 1999 © João Tuna . Neste sociais? momento. fazer essa procura. No caso de Os Malefícios do Tabaco essenciais. havia o M'Beu do qual podiam sair actores tes neste momento? Continuam a ser os temas para o Mutumbela ou para outros grupos. A maior parte dos actores moçambicanos No entanto. Em Moçambique não há nenhuma escola tive que adaptar também o espectáculo em função de teatro. existe apenas uma escola de belas-artes. a realidade do teatro em Maputo está Alberto Magassela e Isabel Lopes em Combote de negro e de cães de Bernard-Marie Koltés Encenação: Fernando Mora Ramos Produção: Teatro Nacional São João . Na Mas para a continuação deste desenvolvimento o fase de ensaios nós contamos com essa participação intercâmbio é fundamental.

no caso do teatro. com Portugal? Com a estabiliza­ transportar essas aprendizagens e influenciar. as pessoas com as quais trabalhas e aproximação efectiva? Em que pontos se centra que não têm acesso à prática artística que desen­ essa aproximação? volves em Portugal? Temos que encarar duas realidades. desde s. Eles próprios e colonizador. No culturais. existência de uma língua comum era importante a que se calhar é normal em todas as revoluções. A língua e a cultura muito importante na formação dos públicos. a tua maneira de encarar o teatro. Uma A cultura moçambicana tem uma grande decorre do passado histórico e cultural dos dois riqueza porque não está ainda descolada da terra. Esteve o ano passado em Portugal uma compa­ nhia moçambicanal a apresentar um espectáculo Mas. no domínio técnico influenciou. uma ponte para sentando novas propostas dramatúrgicas. a possibilidade e acabou por limitar as possibilidades artísticas na da abordagem à sua obra na mesma língua facilita sua abrangência. apre­ portuguesas constituem. Tendo a referência dos dois universos aspectos e interesses de natureza económica.muito referenciada ao Mutumbela Gô-Gô. Existia na as outras culturas ocidentais. Vicente quando cheguei a Portugal. uma das minhas maiores alegrias sentiram essa necessidade de abertura a outras profissionais foi ter começado por trabalhar Gil formas culturais. quais são os temas comuns que realizaram com o Manuel Wiborg e aquilo que nos quais é possível encontrar afinidades? me pediram foi precisamente que lhes facultasse O grande tema é o do fortalecimento da rela­ todo o material que tem servido de base ao tra­ ção. passa com os meus colegas que vêm para cá estudar Nesse aspecto o Mutumbela Gô-Gô foi também ou trabalhar na área do teatro. Apesar da histórica relação entre colonizado balho que aqui tenho desenvolvido. Até que ponto Passado o período colonial e o período da inde­ procuras. João. tomando contacto com os grandes textos os grupos da periferia da cidade ao Gungu . para nós. Este factor determinante propícia uma o "étnico" que deve prevalecer. O mesmo se diferentes propostas e a novos desafios. tal permite-me fazer um cruzamento que entanto. posso enriquecê-las condicionamento desta aproximação por diversos através de outro tipo de informação cultural que vou factores relacionados essencialmente com alguns adquirindo. No entanto. existe uma por sua vez. altura o grupo polivalente dos Caminhos-de-Ferro.que é da dramaturgia mundial e com métodos de tra­ hoje o grande concorrente do Mutumbela . a nossa tendência inicial é a da cooperação me torna cada vez mais rico. Sendo um entanto. seguramente. que apresentava canções revolucionárias e coreo­ o facto de teres vindo para Portugal e teres traba­ grafias a partir de canções revolucionárias do género lhado fundamentalmente no Teatro Nacional de "colonialismo nunca mais" ou "a luta continua': 86 . A outra tem que ver com o abdicar das minhas raízes. isso determinou todos os comportamentos autor da dramaturgia portuguesa. absoluta com a maior naturalidade. logo a seguir à foi um enorme desafio pessoal porque apesar da independência. em que e nas acções de formação que aí desenvolves. Para mim Nós passámos por uma fase. ção política e social dos dois países.todos balho em que são privilegiadas as competências têm a mesma origem ou motivação. de um patriotismo exacerbado. No consideração das suas diversas nuances. nas tuas idas recorrentes a Moçambi­ pendência como vês hoje o relacionamento. termos teatrais. Um artista tem que estar aberto a a compreensão dos seus universos. países e reflecte-se na utilização de uma língua Mas também temos a consciência de que não é só comum. sem aproximação natural.

Alberto Magassela e Adelaide João em A Tragicomédia de D. O público moçambicano era na altura.por uma questão de proxi- . Desde Shakespeare até Sergi obras literárias. Tivemos que participação do maior número de grupos do que no encontrar motivações para uma aproximação desse estabelecimento de critérios de programação. qual é o tipo de maturgia muito forte. Por necessidade de aproximação ao tados e a fazer reposições a pedido do público. que é uma ini­ ao lado a África do Sul que é um país com uma dra­ ciativa relativamente recente. O festival não tem uma política definida de "actualidade patriótica em vigor" sentimos um reportório. Por­ Pepetela. Nós começámos com pouco público mas. um público em formação. acabámos com espectáculos sempre esgo­ Sim. Eu acredito que Moçambique 87 repertório que é apresentado'? investiria muito mais . que não tinham que ver com a Belbel. público por via da língua. porque Existe alguma circulação mais evidente do reper­ compreendemos a necessidade de fazer essa apro­ tório lusófono'? ximação. africanos e europeus. com textos de Mia Couto ou mais do que agora. A organização está mais interessada na distanciamento por parte do público. Mas não nos esqueçamos que temos mesmo ali No caso do Festival de Agosto. choque cultural que possa conduzir a uma rejeição. Duardas de Gil Vicente Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1996 - © João Tuna .TNSJ Quando o Mutumbela começou a pegar em Muito variado. público. que constituem um género tado e como é apresentado para não provocar um muito forte nas companhias teatrais africanas. Têm sido também apresentados espectá­ tanto há que ter cuidado com aquilo que é apresen­ culos de teatro-dança. porque também não nos interessava criar Têm participado grupos de diversos países um vazio.

2002. Neste último trabalhou com os encenadores Evaristo Daniel Martinho.C de Primeira. Os Sonâmbulos. baseado no romance A Varanda de Frangipani. produzida pelo Teatro Nacional de S. Minha Conto. no entanto. Fernando Moura Ramos. no Teatro Avenida em Maputo modelo de expressão cultural e não por uma diver­ que a sua carreira se solidificou. José Wallenstein. de Gil Vicente. apesar nas e a dramaturgia portuguesa de temática afri­ de tal só se verificar nos grandes centros urbanos. Josina Machel. Foi. cana num contexto de aproximação cultural'? Entendo que existem muitas estórias que não foram Alberto Magassela nasceu em Maputo/Moçam­ ainda contadas. Nuno Cardoso e Francisco Alves. miscigenações. Participou. Primeiro no grupo sidade cultural feita de especificidades próprias.midade . altura em que integrou o elenco © Patrícia Poção e Rui Mateus da peça . Desde então trabalhou com vários encenadores. Miguel Seabra. Assinou as seguintes encenações: Au Théâtre Comme Au Théâtre. 2002. 2001. 1 999. João e encenada por Ricardo Pais. Nuno Carinhas. outro lado. Os Malefícios do Tabaco. Por cisco Manyanga e Escola Secundária de Lhanguene. Maputo. como Professor . contaminações culturais. atália luíza: como há um défice de traduções e de tradutores de palav as que nos unem teatro em Moçambique. tais como: 25 de Junho. de François Servet. 1 998. tanto em Portugal como em Moçam­ bique. constatar factos omissos e desconhecidos. tais como: Rogério de Car­ valho. M'Beu e depois no grupo Mutumbela GÔ-Gô. como sabemos. Natália Luíza. há uma tendência para Antes e durante a sua formação como docente tratar os países e as culturas africanas como se toda co-fundou e integrou vários grupos de teatro ama­ a África subsariana fosse constituída por um único dor. tendo de seguida é necessário começarem a ser contadas. Giorgio Barbe­ rio Corsetti. de Luigi Pirandello. de Anton Tchekov. 88 .na dramaturgia sul-africana. baseado na peça Tarai. Formou-se em Matemática e Física comuns. em diversos trabalhos para cinema e televi­ são. Não Tenho Culpa. José Caldas. No entanto. Pedro Barbeitos e Alberto Magassela em Mundau de Natália Luíza Abreu. Estórias da história de vivências bique em 1966. serena­ leccionado estas duas cadeiras em várias escolas de mente. de Mia Couto. a língua inglesa é um obstá­ culo à sua maior propagação. embora haja cada vez Como se enquadram hoje as dramaturgias africa­ mais pessoas a falar inglês em Moçambique. Vive no Produção: Teatro Meridional 2003 - Porto desde 1995. Fran­ sem o recurso à acusação ou desculpabilização. Paulo Castro. baseado em três contos de Mia Couto. Fernando Moreira. no Instituto Médio Outras há que são ainda feridas abertas mas que Pedagógico de Maputo em 1989.A Tragicomédia de Dom DUal'dos. Manuela Soeiro e Henning Mankell e con­ Encenação: Natália Luíza tactou pela primeira vez com Mia Couto.

ou somente . afectiva e racional do relação das personagens com o ambiente e a terra. mas sobretudo pelo facto de elas comportarem Como se algumas estórias nos trouxessem o eco da matéria universal. nos permi­ propósito de divulgar as dramaturgias africanas ou tem também uma reavaliação do nosso posiciona­ as dramaturgias portuguesas com temáticas africa­ mento como indivíduos cada vez mais globalizados. quando estórias que nos permitem outro tipo de "focagem" me coloco perante as estórias e sinto a urgência e em que pelas condições da natureza da vida social de as comunicar.pelo e económica com que nos deparamos. da devolução de um mundo no qual a natureza Por outro lado. São somos ainda profundamente ignorantes -.Ângelo Torres e João Ricardo em A Varando do Frangipani de Mia Couto Encenação: Miguel Seabra e Álvaro Lavín Co-produção: Teatro Meridional! Teatro Nacional São João/ Ponti 1999 - © Henrique Delgado No entanto. não é tanto . ponto de vista dos seus conteúdos de comunicação. con­ mutuamente. Quando avanço na leitura de alguns autores O facto de nela nos podermos perceber e comunicar africanos encontro-me perante personagens. indo directo ao coração. permite o se através da palavra nos fosse dado olhar uma . nas. e de ela ser ainda uma reactualização textos e linguagens que me permitem uma reflexão constante de um mesmo legado oral e escrito cria partilhada. desejando dar a conhecer wn mundo entendimento dos conceitos mais complexos e em que houve tanto tempo de partilha comum onde está sempre subjacente a questão de como nos entre gentes e culturas .e das culturas africanas situamos no mundo e na relação com os outros. é naturalmente relevante a quali­ ainda tem voz. Encontro aí uma espécie de expressão uma dinâmica e uma sinergia em termos de comu­ primordial dos afectos e um entendimento do nicação que é de enorme importância. determinante no estabelecimento de uma relação. transversal. É como 89 mundo que. dade e as especificidades literárias dos autores que A língua portuguesa é também um factor temos escolhido.

certamente. autores diversos. no pressa de vertigem. suas obras também. e entanto. com outras cores. Agualusa em Mar me quer de Mia Couto Adaptação: Mia Couto e Natália Luiza e Mia Couto)? Direcção Cénica: Miguel Seabra Como referi anteriormente. a procura de cada Co-produção: Teatro Meridional! Culturgest 2002 - © Pedro Serra Nunes um destes autores e da escolha de algumas das suas obras para programação do Teatro Meridio­ nal. Laurinda Chiungue. Referir especificidades de cada um destes Mas. Daniel Martinho e Luis Gaspar em Geração W de José Eduardo Agualusa Encenação: Natália Luiza Co-produçào: Teatro Meridional! Cena Lusófona -2004 © Patricia Poçào e Rui Mateus 90 . e as outra relação com a finitude. tornando-a posteriormente escrita renascida noutro tempo. Elas parecem ter mais tempo. respondem a diferentes momentos de uma urgência de comunicação em que encontrámos nas palavras de cada um destes autores a resposta para essa vontade de contal� procurando depois responder e interpretar as necessárias exigências paisagem redescoberta noutras subjectividades. Patricia Galiano Abreu. únicos e específicos. Ficamos cénica com a especificidade de trabalho e rigor que a compreender que o mundo é novo. teatro. de cada escrita. para além do espaço. que aplacam a nossa pola. o âmbito destas linhas. andando pelos o Teatro Meridional procura nos seus projectos de mesmos caminhos. Qual a especificidade de cada uma das drama­ Cucha Carvalheiro e Daniel Martinho turgias que tens trabalhado (Pepetela. São.o tempo das personagens. há ainda o tempo autores seria tão extenso como exaustivo e extra­ .

. Encontra-se actualmente a fazer o mestrado Lobo Antunes. Parece-me uma injustiça confundir autores gia e Ciências da Educação. porquê categorizar-se Pepetela e em Estudos Africanos no ISCTE. temáticas..Curso de Formação de rárias . xão/expressão poética na relação que estabelece que apresentou em Lisboa e Porto.Romeu Costa. mas de cada Bacharel em Psicologia na Faculdade de Psicolo­ autor. lite­ Superior de Teatro e Cinema . Carla Maciel. formadora e actriz. em co-produção com a APA com o seu tempo histórico e o seu percurso pelo (Actores. Carla Gaivão e Carla Chambel em A Montanha da Agua Lilós de Pepetela Adaptação e encenação: Natália Luíza Produção: Teatro Meridional . da cidade da Matola. na qual a língua comum é somente facilitadora da difusão? Natália Luíza nasceu em Moçambique em 1960. Se é tão distinta a escrita de Saramago e de Actores. As dramaturgias africanas estão condicionadas As entrevistas a Alberto Magassela e Natália LuÍza foram pelos contextos da sua relação histórica ou aquilo conduzidas por Carlos Pimenta . Não diria sequer de cada país. e licenciada pela Escola e especificidades várias . o espectáculo América. independentemente dos devemos enquadrá-la como expressão própria contextos históricos em que é realizada. Produtores. .pessoais. escritora sérvia Bijana Srbljanovic. da 91 mundo? A relevância e a qualidade da obra justi. O que caracteriza cada autor não é a sua refle­ I Trata-se da Associação Cultural Mugachi. Associados). de cada país. É co-directora artística do Teatro Meridional.2005 © Patrícia Poção e Rui Mateus Podemos falar de uma dramaturgia lusófona ou ficam a sua perenidade. Tem dividido a sua Agualusa e/ou Luandino em conjunto? actividade como encenadora. consultor que se sobrepõe é a "expressão poética"? do Instituto Camões para a área do teatro.actor/encenador.

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