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de trabalho. representa e reflecte um importante portuguesa. oficial. 3° quartel do século XVII europeu para as antigas colónias até às suas eruditos e populares tem contribuído para Faiança polícroma a azul independências é desenvolvida pelo investigador a aproximação artística e cultural. foi obviamente e da FUNARTE. pois. pela parte brasileira. Maria II. desde a fundação ciência que une e se expande. desde a sua expressão vicentina até de criatividade teatral contemporânea em língua à actualidade. mas igualmente seu conservador e responsável Por ocasião do décimo aniversário da CPLP. DDF/IPM das companhias . o actor e encenador nono número da revista Camões homenagear o de renome discute e aborda com outros Teatro. em termos de acervo museológico. através das suas diversas e valorizados com a criação do Prémio António arquitecturas. de direito e de a explanação teorética do tema. a grande digressão. Lisboa MNA. interacção das mais diversas vertentes profissionais as suas experiências dentro artísticas. n. idioma literário. o qual. cujo tornando-se veio de comunicação de um tema rumo se iniciou com a transferência da Corte base. de todos os géneros dramáticos de cidadãos A grande viagem. de expressão portuguesa. o Instituto Camões pretende neste seu décimo num texto dialogado. já consagrado dramaturgo. Não por menor importância mas por grande Diversificando uma matriz de inspiração. editorial viagens e experiências e à sua eternização -. eis. Por sua vez. pela parte portuguesa. a expansão a partir do território homenagem ao Teatro. foram recentemente sublinhados contributo intralíngua. A Musa Tólia teatral vicentina. Contudo. Teatro o Instituto Camões contou com o saber Digressões em língua portuguesa do especialista. num texto fundamental que deu origem o entendimento e diálogo numa língua comum Proveniente da Quinta do Marquês a este número da revista. de Marialva.' 6914 Para o testemunho das itinerâncias novecentistas © José Pessoa. nossa língua materna. em áreas e meios Lisboa. com o mesmo idioma e ganhando autonomia. desenvolvendo-se e divergindo através das portuguesa para o Rio de Janeiro. com especial importância na cultura e de realidades teatrais do espaço lusófono. os laços entre Portugal e o Brasil. portugueses e brasileiros tanto financeiramente a sua contextualização começa obviamente como pela publicação da obra e da montagem na inspiração e na regra claríssimas cénica do texto premiado nos dois países. do Instituto das Artes e do Teatro Nacional Nesta edição de 2006 da revista Camões. inv. na cena cultural dos oito países José da Silva. inteiramente dedicada ao Teatro. não apenas em Teatro português. a nível o Teatro. Finalmente. bem como para e manganês 128 x 104 cm e mestre. nas artes perfonnativas em língua portuguesa. riqueza e amplos trajectos o Teatro no Brasil. actual universo de duzentos milhões de indivíduos. Esta iniciativa do Instituto Camões. indispensável e necessário definir critérios para tem como objectivo premiar textos teatrais a abordagem de tão vasto tema. D. no depoimento introdutório dum j ovem mas Em português.o zoom à memória dessas Simonetta Luz Afonso . não se inclui realidades e vivências de sociedades e espaços neste número. a nossa Painel de Azulejos.

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Carlos Espírito Santo Discurso directo Conselheiro Cultural Dina Gregório e Direclor do Centro Cultural Fernanda Bastos 80 em Cabo Verde Jaime Ramalho Margarida Palhinha. Reservas José Carlos Alvarez e Conservação do Museu AGRADECIMENTOS Nacional do Teatro Anabela Barroso João Laurentino. Luís Amaral Bibliotecária do Musell Luiz Francisco Rebello Nacional do Teatro Mafalda Ferro Vasco Seruya. do Mindelo .Associação Tchiloli Mindelact Arquivo Histórico Editorial Caminho de São Tomé e Príncipe Edições Caixotim Fundação Casas de Fronteira e A10rna Fundação Calouste Gulbenkian Grupo Teatro Centro Cultural Português JMCA Fotografia Lilástico Museu Nacional do Teatro Teatro Nacional D. Joel Tembe Reservas e Conservação José Meco e Alberto Magassela Museu Nacional do Teatro Luís Abélard Sofia Patrão.o de Santaclara da Embaixada de Portugal Manuel Maria em São Tomé e Prfncipe de Santaclara José Manuel Costa Alves APOIO fOTOGRAflCO José Meco Actores e Produtores Sílvia Cam ara Associados Silvina Pereira Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe CAPA Arquivo Histórico Ganalão. DEPÓSITO LEGAL Adido Cultural e Director 124734/99 e dos actores portugueses em Africa (1900-1974) Centro Cultural em Moçambique Isabel Cartaxo. COPYRIGHT INSTITUTO CAMÕES Respollsável Inventário. personagem de Moçambique da n-agédia do Marqllês Centro de Documentação de Mâ/ltlla e do Imperador e Investigação Teatral Carlos Mag/lo. ISSN: 0874-3029 Colecções. 6 Notas sobre escrever Teatro DESIGN GRAflCO TVM designers Jacinto Lucas Pires PRESIDENTE Simonetta Luz Afonso TRADUçAO teatro em português VICE-PRESIDENTES Alliance Francaise­ Luísa Bastos de Almeida Leonor Francisco Maria Fondo 14 o Da expansão às independências Miguel Fialho de Brito Richard Rogers REVISTA CAMOEs REVISÃO COORDENAçAo Dulce Reis Duarte Ivo Cruz Miguel Fialho de Brito Luísa Cunha Rego IMPRESSÃO Rumo a África Facsimile PRODUçAO Maria Cortesão 62 Contribuição para o estudo TIRAGEM 6000 COLABORAçAO da presença das companhias de teatro António Braga. Colecçiie s. Maria II INSTITUTO ][ Teatro Nacional São João Teatro Maizum CRMÕES PORTUGAL . Manuel Albergaria loSecretár. João Branco Carlos Pimenta com Natália Luíza Técllka Inventário.

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Notas sobre
USAR TODOS OS EXPEDIENTES para juntar ilusão e
distância - até que não haja nem uma nem outra, só
outra coisa que não cabe em nenhum dos termos.

escrever teatro
Escrever o mínimo de didascálias; não cair na ten­
tação de "encenar" por escrito. Imaginar tudo com
grande pormenor e depois apagar até restar apenas
o essencial (o coração, o osso) de cada momento
ou cena,

Ja c i n t o L u cas P 1 r e s A lição que há no modo distraído e puro com que
dizemos as deixas quando, nos ensaios, alguém
pergunta: "Vamos de onde?"

A ideia de "deixa" : é mais disso que se trata, "deixar"
as frases, do que de "fazer" qualquer coisa com elas
ou sobre elas.

Não ter medo da tensão entre a língua em que escre­
vemos e a língua em que falamos. Pelo contrário,
usá-la a favor do que queremos dizer.

Pausas e silêncios não são vazios; têm existência e
corpo. Só fazem sentido como palavras em branco,
frases em negativo. (A língua em que ouvimos.)

Lição que os actores me ensinaram: uma voz cons­
trói-se à volta de um mistério.

Buscar o ponto óptimo em que tudo é normalmente
misterioso e espantosamente claro.

o teatro é o presente, o "isto" do presente. Exige
que se "esteja lá" quando as personagens falam ou
fazem alguma coisa.

Falas são acções; movimentos de avanço, recuo,
ocultação, revelação; palavras que querem coisas.

Definir um código tão coerente e rigoroso quanto
"Garrett e Sargedas, um conhecido ador da época",
desenho de Rafael Bordalo Pinheiro para os Teatros possível para que, no limite, o texto possa valer
de Lisboa de Júlio César Machado, 1874-1875. como uma pauta: música escrita onde tudo está

"Universos e frigoríficos.
ensinaram: uma voz constrói-se � volta de um
mistério."
De Jacinto Lucas Pires; Adores: Miguel Moreira,
Joana Bárcia, António Simão, Manuel Wiborg, tvo
Alexandre; Encenação: Manuel Wiborg; Produção:
APA; CCB, Lisboa 1998.
© Jorge Gonçalves

previsto, tom, tempo, pausas, interrupções, sobre­ Diálogos são duas pessoas à conversa, mas também
posições, etc. cada uma à conversa consigo própria.

Em última análise, um texto não se explica. Ou seja, As personagens são aquelas específicas constru­
é a sua própria explicação. ções. São aquilo que fazem e dizem ali, daquela
maneira. São despsicológicas (perdoem-me a
Achar a forma simples e única de, ao mesmo tempo, palavra) e não têm "vidas" para trás ou para
contar a história e contar a história de c ontar a frente. São o que são na peça. Podem espelhar as
história. circunstâncias concretas em que apareceram e
usar o presente de todas as formas concebíveis,
Escrever é pensar o outro, tentar o ponto de vista do mas não devem ficar dependentes de certo con­
outro - pormo-nos, inteiros, do "lado de lá': Nunca texto, actores, aquela encenação, o texto da folha
esquecer a importância da contracena. de sala, a explicação na entrevista, a nota de rodapé
não sei onde, etc.
Encontrar o terreno limitadíssimo da nossa peça.
E depois, cumprindo escrupulosamente esses limi­ o conselho mais importante é talvez o da solidão.
tes, construir uma totalidade.
Economia de gestos e rigor em cada um. Tam­
Falar do que, de verdade, se tem medo e se deseja bém as acções devem ser substantivas, suficientes,
- por vias travessas. enxutas. 8

Um palco e actores sob as luzes - isso já traz consigo pendem para nos darem o seu ponto de vista a
muita História e muito peso. O teatro deve inven­ partir de dentro.
tar uma verdade (óbvio) mas com uma espécie de
(atenção, palavras equívocas) pudor ou leveza. Na zona entre o puro verosímil e o levemente
descentrado, falas que pedem dos actores alguma
Aprender com as cenas silenciosas. Como pode ser coisa entre o quase-espantado e o quase-auto­
fundamental o momento em que alguém decide mático.
quebrar um ramo, não pegar numa chave, tocar
noutra pessoa. Falas que - não - valham sozinhas.

Não impor, "de fora'; um certo tempo às cenas. Uma imagem teórica: a cena como um lugar ao
("Tempo" usado aqui no triplo significado de dura­ mesmo tempo abstracto e concreto onde há pessoas
ção, ritmo e "sentir':) Seguir o compasso que as e dois níveis de matéria: o das coisas-coisas, uma
estrutura "por dentro': Ver o que nos diz o nosso cadeira, uma mesa, uma faca, uma flori e o das
esquema, mas ver também o que sugere o próprio coisas-palavras, uma "cadeira'; uma "mesa'; uma
desenrolar da cena. Ser lúcido, mas confiar também "faca'; uma "flor':
naquilo que os poetas chamam "uma atenção" e os
mortais chamam "ter ouvido': A linguagem é o "onde" de todo o amor, todo o ódio,
todo o desejo, etc. As pessoas movem-se é aí dentro.
Ideias que - desmontadas, retrabalhadas, ilumina­ (Dito isto, atenção aos excessos de "linguagem':)
das, esquecidas - se tornam cenas.
O que se diz deve ser tão claro que, do nada, faça
Não há dois espectáculos iguais, diz-se. De forma nascer alguma coisa. Mas também tão dissimulado
análoga, também todas as peças devem ser feitas que sugira a existência de uma outra coisa escon­
como as primeiras de alguma coisa. Arriscadas com dida ou perdida, uma coisa sempre por dizer.
espírito inaugural, fundador até - peças sempre
espantáveis. A grande decisão da escrita é, porventura, a do que
não se diz.
. Tem de haver qualquer tipo de estranheza, ainda
que do género mais subtil. Um ligeiro descentra­ Não começar a escrever até haver alguma coisa no
mento, um desequilíbrio. lugar de ser escrita.

Experimentar novas formas de cruzar o "contar" Tratar os segredos mais negros, as fantasias mais
com o "mostrar': Sem perder de vista que quem loucas, as violências mais brutais, com o máximo
conta uma história - num monólogo, por exemplo de (atenção, palavras equívocas) simplicidade e
- se vai revelando nesse contar, e que quem fala contenção.
sobre coisas sem importância - num diálogo, por
exemplo - conta histórias sobre si próprio. Utopicamente, ideia=imagem.

A ideia de pessoas-personagensi personagens que As personagens devem sofrer alguma transforma­
também são actores de si próprios. E a ideia de ção, chegar ao fim diferentes do que eram - isto é,
9 narradores-pessoasi personagens que se auto-sus- "mais iguais" ao que são.

A estrutura não serve apenas para organizar ou (De modo análogo. truh� retrabalhar o que está para trás. Pedro Almendra. Lulsa Cruz. Se há algo de particularmente estranho e difícil de agarrar nas entrelinhas do texto . Escrever desde o fim." De Jacinto Lucas Pires. Descobrindo o final. Mas sem buscar um resul­ das frases. acertando o texto no sentido certo. A importância da pontuação. Dizer alto as falas. Há uma lição natural no som Cardoso. Encenador: Ricardo Pais. Produção: TNSJ.) Actores: João Reis. Escrever por uma razão. Jorge Vasques. desco­ mais do que ajudar quem lê. António Durães. descobre-se mais facilmente "Figurantes. des­ vozes. © João Tuna/TNSJ tado. como é que certa personagem fala se se souber o a vida. de um código que. Em certo sentido. ajude a formar aquelas bre-se muitas vezes a chave para desmontar. deve ser o mecanismo que põe esse corpo "em que ela esconde. Nuno M. escreve·se contra "emoldurar" um corpo de ideias e imaginações. Emllia Silvestre. movimento': Micaela Cardoso. João Cardoso.algo sobre o 10 . TNSJ Porto 2004. A arte das histórias é uma arte abstracta.

seguir a nossa pri­ meiríssima visão. toda a loucura. qualquer impossível. Conseguir Alguns textos precisam de breves espaços de respi­ ganhar um mínimo de distância sobre o que se ração: canções. Tempo que se concentra. que quer dinheiro rápido. que se suspendei tempo fora do tempo. Depois. um silêncio desconfortável. Algumas personagens precisam de um tempo cala­ é melhor parar e tentar perceber o que é. por exemplo) não devem ser ignoradas. Questionar cada palavra. isso está sempre lá. Ele faz Personagens: pessoas que são vistas a fazer coisasi o quê? Quem é ele? E ela? E o que é que ela quer.o nosso primeiro relance. No fim de contas. Há. dentro desse corpo coerente. toda ajudar o desenvolvimento da ideia central do texto. humor. . num lugar de onde não podem sair. mesmo nova. qualquer subversão. estabelecer e tornar claras as suas próprias leis. Queira-se ou em troca? não. espírito crítico. isso faz parte delas. em caso de dúvida absoluta. Uma pré-frase. do que elas são. pode aconte­ A ficção é sempre uma forma de manipulação do cer tudo e mais alguma coisa. para que não se desmanchem pela voz. escreveu e pensar o que poderá ali haver de um qualquer mínimo novo-verdadeiro. A tensão implícita entre dois corpos Por exemplo: numa estação de comboios um já é um acontecimento.) Uma cena é feita de pessoas num mesmo espaço num dado momento.) . claro. para as conhecermos bem antes de começarem (quem sabe? milagre!) alguma coisa mesmo nossa. Ouvir as opiniões dos outros com abertura. depois de todas as regras ou Desconfiar das "palavras bonitas': Provavelmente princípios. (Por a nosso favOl� a favor da peça . (O carácter "ao vivo" do 11 teatro. Terceiro. Usar as pausas com moderação . a falar. sozinha sentada num banco. a censura.valem ouro. qual possivelmente só temos uma vaga intuição -. "de elevador'. conven­ o contrário de uma coisa ajuda a ver melhor tudo ções conhecidas. o mais prosaico.e assim vermo-nos exemplo. é Tudo pode muito bem começar só com uma ima­ útil tê-las bem presentes para que possamos usá-las gem ou uma frase. fran­ queza. cortar tudo. um silêncio. Pode-se dizer homem. Segundo. suspensões. é na nossa visão que temos de confiar estarão a mais. mas cada peça deve o que poderá ser essa coisa. de novo. Por vezes ajuda ser o mais simples possível. Em certo sentido. naquele texto. E. cada pormenor. vê uma mulher que quase sempre se escreve em cima disso. livres delas.e daquele texto especificamente. E depois deixar espaço para o irrazoável. escreve-se contra a vida. o que nos lançou doi­ damente naquele mundo. As regras não são as da vida. que se expande. Ou menos até. Aceitar tudo o que possa Primeiro. ousar tudo. A arte das histórias é uma arte abstracta. Pode ser das. entre dois desconhecidos. As limitações práticas (de elenco ou de espaço. são as do texto . parêntesis. Pelo contrário. "universais'. tempo. Outras só aparecem quando dizem alguma coisa.

O rnornento especialrnente cornovente que se segue a urna gargalhada a sério. Adores. Fazer-nos perceber palco. tensão. mas de nos surpreenda. Encenação: Marcos Barbosa. isso está sempre lá. Pode até ser "aberto'." De Jacinto Lucas Pires. Um fim é um fim.queira-se ou que acabou. Ivo Alexandre. © João Tuna/TNSJ 12 . Co-produção: lilásticof TNSJ. espera-se o máximo de rigor na leitura da peça e o máximo de fidelidade ao que A difícil arte do "aparte" : o comentário como forma ela é (no osso. no coração). Não cair na tentação de explicar logo tudo de A repetição como máquina de significação. aquele assunto. de a transformar ironica­ Uma pessoa exposta como um actor num palco já é mente. não entrada. que baixa a luz sobre aquele mundo. a reescrever. Nicolau Pais. o momento especialmente comovente que se segue a uma gargalhada a sério. "Os dias de hoje. insuspeitos significados. E depois espera-se que não de estreitar a compreensão da história. mas tem de ser "final': De um encenador. Porto 2003. Estúdio Zero. de um começo: desequilíbrio. pergunta. de lhe dar outros lados. Ser "claro" não quer dizer ser "explicadi­ como fórmula.Uma peça é para ser atravessada por corpos num Um final tem de resolver a coisa. não. de a estilhaçar ou sabotar. mas também é "só" um texto . Juliette Prillard. João Pedro Vaz. a fazer expandir em novos. nho': Tudo o que é informação deve ser dado só quando é realmente necessário. prismas novos.

precisa das muitas línguas da nossa língua. é mais do que a mera soma das partes. mas um país para todos os possíveis e imaginários. O teatro. como se costuma dizeI." próprio de as limitar. Por isso. de nenhumas fronteiras. pode até parecer conversa mole. Particular atenção às "metáforas': . De Jacinto Lucas Pires. diz "entrar Idealmente. Lição que os actores me Dar nomes às personagens é defini-las . Maus Hábitos. © Sara Amado o teatro não é um território separado do mundo e da vida.no sentido ensinaram: a palavra é um acontecimento físico. Encenação: Marcos Barbosa. crever teatro" foi publicada no n. analisável. nem salvá­ Lição que os actores me ensinaram: a palavra é um las. tarde e sair cedo': Poucas palavras são melhores do que muitas pala- Nem tudo é verificável.) Teatro escreve-se com sotaque. claro.. digo eu. Por vezes. Produção: lilástico. acontecimento físico. comédia=tragédia. todas as mil variantes e variações. Tudo o que for pretexto para a vida. inventar uma língua."Esuever. toda a dife­ rença. Enquanto se conta uma história. ou só o é como são todas as vidas quando sonham no escuro. todas as gírias e frases feitas. mas nunca deve é soar a coisa neutra. o teatro não é de fronteiras. Não julgá-las. de um mero detalhe. (De olhos abertos! De novo crédulos e livres como em crianças. Mas também não ter medo do óbvio. Actores: Hugo Torres. a vida toda. portanto. Pôr pessoas dentro da língua portuguesa: elas ajus­ tam-se e ela alarga-se. contabilizável. toda a estranheza. Respeitar as personagens. fazer outra coisa. E a vida é sempre. não memo­ o presente. Uma primeira versão. Quem escreve: ser muito sério sem se levar muito a sério. Não se trata. em relação à escrita de uma cena. todas as entoações e deslizes. É sempre boa conselheira aquela regra do cinema que. ráveis. . dar-lhes um fim. vras. Porto 2001. Nicolau Pais. menos desenvolvida. de "Notas sobre es­ Não cair no que é fácil e já demasiado testado. fotografar Escrever teatro: frases só lembráveis. 13 conhecido.O 14 da revista Artistas Unidos. desmontar uma ideia feita. Por exemplo. em Novembro de 2005. O todo. falar.

PANORAMA .

as peças históricas liga­ das aos Descobrimentos ou aos seus heróis: desde os sucessivos ciclos camonianos. na Índia e menos no Brasili personagens e acções ligadas à deslocação ou à emigraçãoi brancos colonos. como Representação de Tchiloli. iremos vendo.' 23. aí com maior incidência e regularidade.e. o teatro em Abrangência da expressão dramatúrgica da expansão . ou ainda ao Gama e à descoberta das rotas da Índia. da descolonização. O teatro português praticado ou envolvido na problemática da Expansão só dispersamente tem sido objecto de estudos: e mesmo esses estudos. surgem no contexto dos autores respec­ tivos. sem que se procure estabelecer uma definição temática ligada ao fenómeno histórico em si. Duart e I v o Cruz geralmente. com o apoio da Fundação para a Ciên­ cia e Tecnologia.o teatro clássico - séculos XVI-XVII português O presente estudo integra-se num projecto de investigação em curso. ao grande tema do sebastianismo e da batalha. Mas trata-se. efectuado no âmbito do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Língua Portuguesa .CEPCEP .da Universidade Católica Da expansão às Portuguesa. de uma problemática diferente: o São Tomé e Príncipe Aguarela do pintor são-tomense Pascoal Viana objectivo é o facto histórico e os seus protagonistas de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete na perspectiva dramática da viagem. n. IV série. não da transfe­ Capa Panorama . Colecção Particular e não tanto. são conhecidas e identificadas peças em que estes problemas afloram ou até. dos fenómenos socioculturais . Trata-se de uma pesquisa abrangente da dra­ independências maturgia portuguesa de ternário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural portuguesa. E há que considerar também. africanos escravos ou deslocados. em suma. Setembro 1967 rência de culturas e personagens que as encarnam. por vezes. ainda menos. aos aspectos de caracterização das personagens e do seu circunstancialismo ou mesmo à interpenetração cul­ tural decorrente da colonização . constituam essência da dramatur­ gia: peças passadas em África. Evidentemente.Revista Portuguesa de Arte e Turismo.

pois foi de grande valia entre África. no caso de Afonso Álvares. aqui. Mas fá-lo num ponto de contexto das origens do teatro português distribui­ 67X72cm vista exclusivamente centrado nos autores. sobretudo na área da literatura (mais do que mais próxima do teatro. e desig­ © José Pessoa DDFf IPM - um pouco mais longe em outras obras da sua nadamente escravos negros. não será possível. com a excepção dos estudos de Mário Martins no que se referem ao Oriente. E existem.' 132223 fenómeno. repre­ sentam áreas de pesquisa menos percorridas ou até completamente inéditas e "geograficamente" descontextualizadas mas relacionadas pela mesma matriz da deslocação e fixação de pessoas como o teatro representado em Goa até quase aos nossos dias. Vai a políticas. a partir Teatro Nacional de São Carlos.' Diabo no teatro). MNT. fazem-no com conhecimento directo de MNT. Tudo isto se relaciona com a Expansão. Chiado descreve a sua Lisboa de escravos e Trajo de Cena para Anjo Dias e do Auto de Floripes para São Tomé e Príncipe marinheiros torna-viagem. Cita-se desde rique da Mota. E nesta área poderíamos acrescentar. Tudo isto se remete para a bibliografia. paradigmaticamente. Vicente no Cancioneiro Geral e na sua expressão obras. E só os Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Muito embora o que não existe é uma aborda­ "fumos da Índia" merecem a condenação. europeu.' 1462-A Pint cuidar das influências de cultura resultantes! . Melhor dizendo: personagens. que é. 1965 tantas mais obras referidas na bibliografia. como veremos. inv. citam africanos em Portugal: Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional de São Carlos. Hen­ Trajo de Cena para 2. A influência do teatro português no Brasil posterior à independência foi por nós analisada em 20043. como se sabe.' 132223 estudos sobre a transposição dos Autos de Baltazar causa. em si mesmo considerado. n. Gil Vicente e seus epígonos citam Auto da A/ma já. missionários e colonos portugueses na transladação. do de Gil Vicente. por exemplo. o grande tema da emigração. Aqui está um exem. a personagens e menos MNAA. mas que tem pleno cabi­ e o Príncipe Conon pormenor - Retábulo de Santa Auta ticos. evidentemente. mesmo aquelas que. E o mesmo se dirá do teatro praticado a bordo. isolá-los do contexto geral do teatro da Expansão. mento num projecto abrangente. na Índia e África. e sendo certo que o presente estudo se concentra sobretudo nos temas africa­ nos. Mestre do retábulo de Santa Aula Teófilo Braga refere a Escola de Gil Vicente no Em qualquer caso.inerentes. citam o Brasil. E ignorar as dimensões colaterais dos fenómenos em si. sem -se por referências a lugares. 1965 Autoria: Almada Negreiros gem sistemática e tendencialmente completa. n. surgem já antes de Gil inesgotável bibliografia. Auto do A/ma (Tchiloli) e Floripes. Encontro de Santa Úrsu/a então pela completa negativa de estudos sistemá­ rigorosamente inédito. A seu tempo desenvolveremos esse tema. filho de escrava e Autoria: Almada Negreiros dos de Hernâni Cidade2 ou. de temas e ciclos de teatro clássico . sem quebra de sistemática. do encontro e transposição de culturas. os estu­ e até. Nesse sentido. inv. a abordagem do tema no Século XVI Óleo sobre madeira de carvalho Brasil. Mas o que está por estudar é a plausível inter­ venção dos navegadores. como veremos. inv. para a África hoje francófona. n. que abordam a matéria. os de clérigo.

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pelo menos em sete anos. Tudo isto se verá. Sabe-se muito bem que antes dele e antes de Gil Vicente se escrevia e sobretudo se praticava teatro em Portugal. dominantes neste estudo. até em auto­ e mais velho"6. são tratados em O clérigo é ameaçador. verdadeira condenada: e até ao século XX não o será a colo­ farsa goliardesca integrada no Cancioneiro Geral e nização. do Paços da Ribeira in Auto chamado da Feyra que os africanos (os "pretos'. Vamos encontrar.cita-se por O clérigo acusa a sua escrava negra de ter dei­ agora o padre José Agostinho de Macedo. mesmo nunca ser ruim/ porque bradar/': por vezes escravos ou alforriados. e como tal são tratados. escrava ou "civilizador" e de gesta social e psicológica com não.se o termo se aplica à época . . a dimensão missionária dos Descobrimentos e Mas a primeira referência a uma personagem colonização nem sequer com a caracterização do negra no teatro português. A escravatura em si mesma não é da Mota. mas a escrava não se geral com um paternalismo equiparado ao sentido deixa amedrontar e invoca a lei que. com então se escrevia) Gil Vicente que os servem e que surgem.e fá-lo de forma pouco lisonjeira quanto ao Brasil. . E a "perra do manicongo": "A mim nunca nunca Mas é aí que queríamos chegar.um a seguir. E da "Parda" vicentina falaremos conservadores . Ao longo da mim/ intronar/ mim andar agua jardim/ a mim história do teatro português os negros. independentemente que antecede. nem com posição de Gil Vicente. Isto mesmo quando. em princípio a protege: (Clérigo): "Ora pena. de vista estético e dramatúrgico não colide com a Mas reconheça-se que não é assim. na Lamentação do ClérigoS. cala-te já/ senão matar-te-ei agora:' Ao que ela res­ no Cancioneiro Geral. o do quadrante político-ideológico em que se situam Pranto da Maria Parda vicentino. Henrique da Mota alude aos ponde: "Aqui estar juiz no foral a mim logo vai até meios legais de defesa da escrava e troça do clérigo lá./ sacrivão/ mim que a ameaça. quase sempre através Edição Marques Braga.pio flagrante de que não nos podemos abstrair na Contudo há uma contemporaneidade que no ponto problemática geral da Expansão. Neil T. de toucinho/ te hei-de gastar nesse lombo"7). do manicongo/ tu entronaste este vinho/ uma posta sem desviar directamente dos temas africanos. aí sim. Ou mesmo quando os colonos mere­ cem menos respeito. essa remonta a Henrique escravo africano. O mesmo xado aberta a pipa . Ambas as personagens se lamentam res anteriores ao Romantismo e ideologicamente de falta de vinho. que é tratada a colonização. "parente próximo os dramaturgos. e aí até se pode citar Gomes de para os costumes escravocratas da época ("ó perra Amorim e a defesa dos índios. As primícias d a grande aventura É hoje pacificamente aceite a prioridade esté­ tica de Henrique da Mota nos primórdios estabele­ cidos em texto do teatro português. 18 . tratamento da Índia muito favorável . antes pelo contrário. 1936 Fundo Bibliográfico MNT de uma linguagem "ingénua" de duvidoso rigor semântico.! Mim também falar mourinho. e que a datação da primeira das suas obras dramáticas ou para dramáticas pode ser posterior ao Auto da Visitação. Miller situa-a depois de 1 5144.

romântico ou moderno.! Olhai pena que diz/ que fará/ cularidade. que por exemplo José Ramos Tinhorão irá dizer ao juiz/ o que fiz e que não fiz/ e crerá/:' assinala. clássico. . Maria II já que te cales/ que bem me bastam meus males/ que num mecanismo cómico constante. . passe o peso significativo. o que não deixa de ser insólito mas 19 de análise. da evocação das garantias legais concedi­ Esta obra iniciática define uma linha constante das à escrava. desde logo EncenaçãofDramaturgia: Maria Emllia Correia Cenografia: Rui Francisco E assusta o clérigo. Com a parti­ © Margarida Dias .Cena da peça Serviços D'Amores não mourro no toucinho/ guardar não ser mais que excessivo do termo face a um entrecho tão simples. ou não fosse o próprio Henri­ marcada pela imitação de expressões deturpadas Figurinos: Rafaela Mapril que da Mota magistrado: "Ora te dou o diabo/ rogo-se do português. tanto a nível de conteúdo. a . Gil Vicente vinho/ creligão:' como a nível de linguagem. esta sim. ProduÇãO: Teatro Nacional D.TNDMII me vem de dar cabo.

encontramos em Gil negativa e que serve de epígrafe a um estudo e Vicente. precisamente.d. Leonor. claramente alinhado com a grande aventura BN . a primeira grande reserva aos será caso isolado. perante a rainha D. e naquilo que Teófilo Braga chama a antologia de Maria Leonor Garcia da Cruz. portanto seis anos antes de hoje. em Almada.rola Vi entiln dos "fumos" que até nós chegou com a sua carga Ora.9 Representação do Auto da (ndia. 1929 -1932 Índia. diríamos Lisboa.pormenor. - Afonso de Albuquerque ter consagrado a expressão a fc. mos como já foi dito. a primeira grande abordagem da No contexto da dramaturgia de Gil Vicente esta Carolina Santos problemática da Expansão. Ao contrário: toda a restante obra in História da Literatura Portuguesa Ilustrada de Albino Forjaz de Sampaio aspectos negativos da grande viagem no Auto da assume um perfil "politicamente correcto'. em 1519 Escola Vicentina. datado de 1509.II A expansão em Gil Vicent . E também encontra­ posição crítica é tanto mais significativa quanto Iluminura . s.

M. Assim. . mais tarde. mas alma encomendai A Noé e a outrem não/ e o meu . doutores? / Nunca eu vi tais diferenças. .! Oh! Deixai de edificar/ tantas câmaras dobradas/ mui pintadas e douradas. No ponto de vista teatral.é dever de reis e cavaleiros cristãos levar a guerra ao Infiel e manter para tal. uns e outros detalhadamente natural e com intenções escusas : "E negro falam os referidos por Tinhorão na obra citada. Duardos. ] eu chamarele eternal" (Auto da Barca do Inferno). mas também obviamente no plano Gil Vicente religioso. cavaleiros da Ordem de margurado/ cativo como galinha'. na época totalmente homogeneizados (Portugal "Alferes da Fé'.Frontispício da mais antiga edição dos Descobrimentos no plano nacional.12 Minho virai e ele chama-mo cam': . Para o primeiro aspecto. Mas será sintomático que a exortação se faça para a guerra em Marrocos: "EI Rei de Fez esmorecei E Marrocos dá clamores. mulatos são citados no Porém a mais portentosa figura desta linha de D. cita-se aqui a porten­ tosa Exortação da Guerra (1514 ou 1515)10 com o seu belicoso apelo à venda de jóias para custear a conquista e a navegação. C. espingardas!" "O comediógrafo [diz Hernâni Cidade] comunga no ideal de todos os cultos do seu tempo: . chame­ de Auto do Borco do Inferno./ que é gastar sem prestar. . será patente.! Alabardas. c1518 mos-lhe assim. os costumes que condicionaram e expulsa-lo do território pátrio':lI a resposta vem em português aproximado: "A mi sá E está flagrantemente nessa linha a salva­ negro de crivão/ agora só vosso cão/ vosso cravo ção dos "quatro Fidalgos. (1522). nada menos. "vem um Negro cantando na língua e das tabernas nas ruas de Lisboa a leva a preparar de sua terra'. o que dá ao texto um cariz plurilinguista a morte com um goliardesco testamento: "A minha 21 curioso. cujo Pranto pelo desaparecimento do vinho Na FI'água. Senhor do que mibae/ buscar o pouco de venturo/ que a mi na Céus'. diz Mestre Gil). à procura de um "mulato" no ouvidores/ em algumas audiências?" Clérigo da Beira (1526)14. E negros falam no seu linguajar na Frá­ personagens é indiscutivelmente a Maria Parda gua de Amor (1524) e na Nau de Amores (1527). E na Nau de partes de África e a quem o Anjo "está esperando. em sua rudeza antiga. que morreram nas uma referência de impacto óbvio. constitui um grande momento de bravura na veemência de tonalidades modernas de apelo à aus­ teridade. aliás. Mas o mais curioso será o conjunto de refe­ N a Floresta de Enganos (1536) põe-se o pro­ rências aos territórios descobertos e aos seus habi­ blema da utilização da língua por quem dela não é tantes deslocados.! Pois se hi de C. e por A. o que constitui Cristo" (e de Deus./ Amores "vem um negro do Beni e diz: Quere boso que morrestes pelejando/ por Cristo. Aí se notará também um sinal da mudança de costumes que. temos o "Negro grande há negras sentenças/ não haverá hi! alguns negros ladrão'. diz o Anjo). pois Vénus invectiva-o em castelhano. alabardas!/ Espingardas. Saundersl3. pois "quem morre em tal batalhai merece paz mordo sae/ da moça casa su pai! [ .

garante a independência crítica do autor mercê da generosidade e espírito "liberal" dos reis . António Vieira. Sá de Miranda. Mas como momentos altos. . no Renascimento. claro. e no local próprio a aculturação na deturpação irónica ou dramática que chegou até são-tomense. ou "tratos" a que Manoel da Nóbrega. assumem estas críticas no teatro ou na poesia e estão nessa linha numerosos cronistas e viajantes.corpo enterrado/ onde estão sempre bebendo/ [ . o Triunfo de Inverno de uma produção teatral própria. Maria Anchieta e de textos avulsos. inclusive por um castelhano. no teatro. ] emigração/colonização madeirense. vindo na emigração minhota. no caso outros mais. no que eu chamava das estrelas/ agora me irei p or elas/ Príncipe.. por África e pelo Brasil. e se refere a Farsa dos Almocreves (1527) e. retardada através dos autos do padre José de Mais precisamente no seu estudo citado. roubado pelo capitão . António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos. na Farsa dos Almo­ creves (1526) há uma referência ao Brasil. . ligados à acção missionária dos padres dispersas aos "fumos da Guiné'. sucessiva­ © Luis Abélard mente enganado na ausência. com o conjunto de malefícios que AHM caíram em cima do próprio marido. mas não só: como a seu tempo se estudará. . remos a obra em si. de que ficou a Leonor Garcia da Cruz identifica as referências memória. do apoio global à política da Expansão. o grande desvio Estátua de Camões na Ilha de Moçambique crítico ao "politicamente correcto" é o Auto da António Pacheco. O grande propulsionador dessa diáspora terá sido a acção missionária. . Duas matrizes africanas A chamada Escola Vicentina estende a sua influência pela Índia. nenhum foi tão longe como Gil Vicente: alguma razão teve Garrett quando em Um Auto de Gil Vicente15. hoje e que mais adiante retomaremos na compara­ Ao Brasil chegou uma tradição vicentina ção com outros modelos. Floripes. . com Camões bem sabemos e como já foi dito. sem embargo. ("se não fora o capitão/ eu trouxera o meu quinhão/ um milhão vos certifico") . para não falar em Camões. mas tem leve Auto Pastoril Português (1523). ele próprio. E já agora.. Mas. Daí seguiu chorai todos meu perigo/ não levo o vinho que digo/ para o Nordeste brasileiro e para Goiás. Ao lado. E a Índia foi receptáculo e ambiente específico das rotas da Índia. ficou até hoje a tradição anual do Auto de com grande sede comigo': . o Auto Carolíngio de Baltazar Dias16 chega a São Tomé no ciclo da cana-de-açúcar e da 22 . que se inicia (1529) e até episodicamente o belíssimo e tão também com o teatro jesuíta embarcado. 1969 Índia (1509). Aqui analisa­ É o que n a altura s e chamaria "fala d a Guiné'.

ImprcflÀcol11 todas. Em. Mas para já. "m'. segundo de Macedo. por causas genéticas que Mas. e História ser as transladações do teatro popular português da Imperatriz Porcina.a qual entrio as fi. ou seja. como veremos adiante. mãos e focinho/ pela virtude � do lenho': E alude a cenas de pancada e deboche: � "Tu bebeste no ribeiro/ do rio da Palhavã/ por seres chocarreiro/ que não tem virtudes ã/ velhaco frei EtnLisboa. expressão religiosa. protegido do DE FILODEMO� arcebispo de Évora de D.�fi' esqueceu essa origem. .guás lcguil1tes. em alvará firmado em 20 de Fevereiro de 1537 por português escreveram até aos anos sessenta do D. E pior: "Porque . Auto da Paixão de Cristo.DOflano Dolorofo aJlllgodeVib!'do. Como o não devem Santa Catarina. e o Auto d' Bl Rei Salomão. Deste nos ficaram o Auto do autónoma mas. certo é para crêr/ que quem tem côr de cravão/ é .. Van adoro. brar o Chiado. todos r ti"'tJ�������êi:)��RJ�(i. cego da ilha da Madeira22. inspirados na Legenda Áurea de Voragine. não YCOMÉDIAm Luís de Camões . r(lJ" Flol'Jmena Pafiora. Auto de Santo Aleixo. João III. ���� '� �?. cujo título faz lem­ da chamada Escola Vicentina. os filhinhos/ e a honra que mantenho/ eu te fizera canhenho/ de pernas. S" Monteyro: .Frontisplcio da edição seiscentista da Comédia de Fliodema �. � 6" Hum panol. ' (ff' 'Ire> pafiores b. rGt Dom Lllíid"rdo pay de � que sabe tal manqueira'. . de mandar imprimir as suas obras "por ser homem As extensões não africanas deste percurso pobre e não ter outra indústria para viver por o care­ deverão ser estudadas e desenvolvidas em área cimento da sua vista"23. Abril.ua mop.hkl.go de Filodemo. Afonso de Portugal fez COM:POST A POR LVIS DE C A M ÜES.� Afonso Álvares responde à letra: "Se não foram �.� desta maneira/ há mister que tu esconches/ pois J 13}' Vllard? feu moço.tyl.ádo. de Nosso Senhor]esus Cristo!9.PorViccme Abarez.� � vaMdoro. e Santa Bárbara e Santiago.Luís de Camões Edições Caixotim. vejamos as brado em Trás-os-Montes. sinal que o coração/ não pode deixar de trazer/ de � cadela a condição!"20 . dessa grande obra hagiográfica facilitará a compa­ com o padre Luís Vaz Guimarães (Auto da Paixão ração dos textos. padeira de profissão. ção académica do poeta rival que. ainda mais ou menos lem­ para os EUA e Canadá. sobretudo. Auto de ditos.'&1-�'�� eles de ingénua estrutura.!l �t Diz Chiado: "Ser cativo de um Sequeira/ e pois que � r. Chiado. Santo António e São Vicente. e conotações africanas dos autores mais importantes ainda o Auto da Feira da Ladra. até porque envolvem aspectos iné­ Nascimento de Cristo. também de tradição Tem outro interesse dramatúrgico a obra de popular minhota) e mais tarde com José Agostinho Baltazar Dias. Uma recente edição moderna (FilodemoI7) e Simão Machado (O Cerco de Dio!8).24 O primeiro deles.as licenças nccdfa- �. ficou a Tragédia do Marquês 23 não pouco o incomodaram é Afonso Álvares. e- rar ·Dronyl:. P:. 161)". filho de Mântua e do Imperador Carlos Magno. o descaso pela escrava mãe.d�( �I:. Sol". 2005 . extrema- .���t$����t�� de uma escrava natural da Guiné e de um clé­ rigo. pelo qual é concedido ao poeta o exclusivo século passado. Wi uma honrada carreira de professor e dramaturgo. e com outros autores locais que.<I"'f?XI:�<y�� ambos de 1531. não podem ser ignoradas. e preferiu ignorar a forma­ in Teatro Completo . HtII>I Bobo filho do pafior. � matreiro:'2! Afonso Álvares deixou-nos quatro autos de � rias. que vamos encontrar já adiante.jIode\no.

o imperador. que o povo são-tomense por um lado. 1925 Lisboa © José Manuel Costa Alves 24 . a expressão mais devidamente adaptou. em duas obras facto. pois.25 António Ribeiro Chiado Costa Malta (tio) e José Alexandre Soares. para costa da Guiné. com as adaptações que veremos. retomada na linha tradicional. por sua vez hoje vivo e bem presentei e por outro lado ainda. que pune a morte como vimos. a capacidade Chiado.mente interessante no âmbito desta pesquisa. para nós. foi levado para o Príncipe. por outro lado foi. hoje de expressão francesa. é. interroga-se Garrett no transcrevendo algumas das suas composições Romanceiro). da fixação do texto factor cultural das ilhas. dos momentos mais vivos da Escola Vicen­ de sobrevivência e aculturação deste velhíssimo tina. ("lín­ distintas. este romance tradicional Refira-se agora que a Tragédia na sua expressão constitui. E que envolve o conceito de completa do ciclo carolíngio. condenado à morte e executado por ordem do seu terá sido levado pelos colonos portugueses para a próprio pai. em qualquer caso. Trata-se. estamos perante a tradição europeia. O mais não dramáticas. tradicional do poeta madeirense. refere a restante poesia de Baltazar Dias. Carloto. São Tomé. transladado para São Tomé. onde está de Valdevinos às mãos de D. romance de poder e amor. com interessante. o grande portuguesa original ou melhor. repita-se. representa. Levado. de António Figueiredo Gomes. gua d'oeil ou língua d'oc'. repita-se. entre nós. uma vez que. tal como o tradicional Auto de Floripes Veremos adiante algumas dessas variantes. uma justiça régia (ou do Estado).

as Oito Figuras ou os Compa­ dres que "praticam'... como eu (o escudeiro nomen tu!/ [ . ] A mim fruso vosso mata. -- da Prática dos Compadres.3!r. sentado na corte de D.e perdeu-se um Auto de Gonçalo Chambão .. isto é. para lá do infeliz '1. diz o dono da casa: "Autor comece a longa negociação com a "regateira'.o27 repre­ o Paiva. da Lisboa popular de "desvaira­ das gentes" da sua obra. na goliardesca Maria Parda. � CC·O! �111I1I'llto "f\(iI. teatro no teatro como o "Seleuco" camoniano que o cita . drts. __ rO:f:llro�m. Cristeleisão/ Santo biceto trova fá-la tão bem como vós. cadela. . diz a velha. fornecedor do almoço dos outros sete e logo evoluiu. que não evoluiu persou a esquadra em Novembro de 1541") logo deste clérigo de Henrique da Mota ("ó perra do no início traz um lamento característico: "Não manicongo") .ou sobretudo no formidável Au. que aliás alude ao projecto gorado de Car­ los V invadir e conquistar Argel ("foi um caso mui terrível! ir em boca de Invernada que lhe dis­ vende-me para Castela'. numa difícil transcrição da "fala da Guiné": se fará a representação. truculenta como o foi a vida deste ex-frade. conversam. Mas as Práticas26 de Chiado vão nesse aspecto mais longe e juntam uma população bem específica: assim. João III entre 1545 e 1557. que já se exprime em prodozoj não queré dá/ A regateira mui mão!/ Mim português "do reino'. O dono duvida: "Sois negro "doso gália. . ] a mim cativar o judeu/ não querê Ambrósio) ou como Chiado:' E Jorge Ferreira de Vas­ que a mim reza! [ . . . sobre uma trova: "Ê do escudeiro Chiado.! 25 vaso sempre brada bradai cadela. certamente vir/ bem se pode o negro ouvir/ inda que cante às personagem do auto respectivo. ] mim da-la treaze ntem/ o autor:' Mas assim é o negro. mas que se defende com ala­ sente-se no direito de enfrentar o dono da casa onde cridade. a Prática das Oito Figuras (cerca de f��t.da . comeis. . Ê uma das "figuras" da peça. Diremos que Gil Vicente. Onde não faltavam africanos.. tal como no Auto das Regateiras . diz Ora bem: no Auto da Natu. com nomes de ruas e tudo.I/� arcoltourrnçolo Compadre/Slluir rrd/ &oço:"R. A grande achega de António Ribeiro Chiado de António Ribeiro Chiado para o historial do teatro português residirá no carácter urbano.tudo isto singu­ lariza de facto esta figura da Lisboa do seu tempo. . um capão/ a mim traze turo junto/ o Orfeu? / Não creio que sois cantorj/ há-de mo jurar coei oco treze pombo/ [ .-:-. este de 1569.�.to da Natural Invenção. "assim também designado. Assim. traça uma topografia da Lisboa dos escravos e das tabernas. "tange e canta um vilancete'. concelos.oualcy Afonso Álvares.�� 1543).r. moreis servis/ como negros da Guiné'. .. e como tal apelidado de ladrão. E mais: uma das oito figuras é um "negrinho o personagem negro. .1moudo: Q cornildrc:.Frontispício da edição quinhentista o poeta Chiado --. Dize quere vendê? Ela logo sacode:' E segue uma e acabado.:tcrnum tlOltJ"�IJnQ maeb. escuras:' Logo na primeira fala temos uma Negra a Camões elogia Chiado no "Seleuco": "Uma falar latim: "Krialeysão. sandeu'. ifll ��Qtíca 000 compa .ral Invençã. cadela!/ Em algumas cousas teve veia esse escudeiro': Sobre- .

..d.... ". 26 . . Lisboa /. . .� .. n.i. . . .. AHU. s. Preta Quimbunda dançando Desenho aguarelado..

a indiciar o recorte cómico. Mestre des': . insólita: "Preto. Em qualquer caso. O que não absolve em nada os Mim trazei cá um recado/ para dará bossa mercê. durará até pelo 27 quem te deu recado? Não tinha outro servidor/ para menos aos anos cinquenta do século xx. Estamos já mais longe da "perra do manicongo': Tomé. aparece um negro. ti?" A que o negro responde: "Sim/ posso eu não ir aqui! Pesara de São Formente!/ Também negro não A mudança do estatuto do negro sa gente/ e boso sombai de mim!" Tinhorão procede a um levantamento cuida­ Refira-se ainda uma "Cena Policiana" do vicentino doso das personagens negras na sequência daquilo Hemique Lopes3o. não obstante duas citações a que Teófilo chama Escola Vicentina. onde um curandeiro da Guiné. tem como adjunto um português. integrado na Transcrevemos de Tinhorão: "Maria. que canta e canta o Brasil e para o Oriente. colecção ides/ por vós chama a senhora/ se falais com o ras­ publicada em sucessivas edições a partir de 1658. A certa integrado. Analisemos agora directamente o Auto da Bela Haverá uma certa mudança de estatuto de negro Menina de Sebastião Pires na versão de Luís Fran­ ou preto nestas expressões dramatúrgicas? Pensa­ cisco Rebell029. . da Bela Menina. Como se de clara traça portuguesa"31 . mez do Negro mais bem Mandado'. assim mesmo identificada. com uma notícia inesperada: dentro de uma linha de valorização dos servos no "Siora beijo seu pé/ com sua caracanhar morado. na chegou:' A Pasíbula espanta-se e faz uma pergunta linguagem da época. também de forma diferente. E situa mandar sabedor/ que falara declarado/ se não a o negro numa posição social diferente. cerca de bém é chamada de cadela pelo porteiro. Para além da iniquidade intrínseca da ambiente renascentista. Cena bucólica. que no lugar próprio serão social e mesmo familiar. que o teatro "de cordel" confere aos africanos. . e de um tamento menos violento e um relacionamento mais fidalgo de França. de nome Bastião. porque não Musa Entretenida de Vários Entremezes. ] meu irmão e tendo embora em conta a insistência na "língua da vem castelhano/ ou português valenciano?" E ele Guiné'. Tinhorão gentis habilidades. . vinda cá mano:/ [ o o . alforriados. 1541. "Dize negro: teu senhor/ para que. e algumas peças anónimas que reconhece que a linguagem e o espírito da peça "são fazem a passagem para o Renascimento. muito próximos do teatro "de cordel" Uma vez mais se detecta certa mudança de estatuto e manifestações afins. já marcada por um mos que sim. Autores de da "Celestina" de Rojas. Lucciana Stegagno Picchio menor qualidade. Será porque surge a certa verá. Fernando. é-lhe Porém importa reparar numa certa mudança reconhecido o mérito: "Mulatos são sabedores/ de do estatuto do negro nesta dramaturgia. cão.! contexto familiar.! enquanto voltais a casal haverá resmingação:' Estamos. na descrição dos amores situação da escravidão em si mesma./ nos pensamentos senhores/ que ressalta por exemplo o anónimo Auto de Vicente não desfeam as cores/ quando abonam as qualida­ Anes Joeira28. com as escassas excepções bem: pois. encontra-se um tratamento mais digno des­ responde: "Portugal sa ele agora': . tudo a "Natural Invenção" merece encómios. ressalta um tra­ da Bela Menina. Recorde-se que no "Seleuco" camoniano. criada mais. já aí. também assim referido. de perro. na qual. apesar de uma vez mais ser apelidado que se encontrarão.! problemas moral e social da escravatura: sem con­ Eu sa negro de vosso irmão/ que onte do Brasil tudo esquecer que muitos destes "pretos" seriam. que toma Finalmente. A Bela Menina tas personagens típicas de certa linha dramatúrgica também se espanta. . Tinhorão ainda refere um "Entre­ conta da jovem Isabel e não hesita em a admoestar. referidas. sem muito altura entra um negro e dirige-se a Pasíbula. o eixo da dramaturgia da Expansão passa para altura "um mulato chamado Solis'. Gonçalo. mas aparentemente sem violência. . a moça tam­ No também anónimo Auto de D.

1990 T CHIL OLI I Teatro de São Tomé e Príncipe FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN 28 . Lisboa. Tehiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Mortef São Tomé e Príncipe Colaboração da Maison des Cultures du Monde Fundação Calouste Gulbenkian.

2001 lar do Brasil que está muito viva. o espectáculo. no que se refere à África da Tragédia de Baltazar Dias levada a São Tomé no de colonização e expressão portuguesas. fiel ao texto quinhentista mas numa 29 irradiou para a vastíssima geografia cultural-popu. ser defensável a sua transposição mais ou nos anos sessenta e pormenoriza os aspectos céni­ menos contemporânea da colonização madeirense cos e de figurino e adereços. onde perdura e de onde personagem. Aliás. estado de Goiás. representação moderna: uso da caneta de tinta per- . sofreu sucessivas alterações que não traem. perduram século XIX e aculturada sobretudo nos anos cin­ até hoje em São Tomé e Príncipe. na versão e na expressão antes consagram o texto original. e não SÓ. Fernando Reis descreve-o Daí. realçando os anacro­ no ciclo da cana-de-açúcar que a conduzirá depois nismos da indumentária e o valor simbólico de cada ao Nordeste brasileiro. por exemplo em Pierenopolis.32 Mas esta tese é obviamente discutível. a que acima aludimos. O Tchiloli. pese embora as de Baltazar Dias. que con­ as aculturações e algumas adaptações. Cooperação. mudanças introduzidas. Lisboa. com quenta do século XX33. Pedro Vimos que as peças do ciclo carolíngio surgem Paulo Alves Pereira remete o texto para uma versão a certa altura em África e. é a velha tinua a ser apresentado por grupos diversos em São Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Tomé. Carlos (Cm'loto) Magno. personagem da peça Tchiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno in Enciclopédia Fundamental de São Tomé e Príncipe Carlos Espírito Santo Ed.Conde Ganalão.

faixa verde e encar­ nada do imperador. trajes do século XIX34. s. Paulo Valverde. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe relaciona o Tchiloli com as expressões coreográfica Fundação Calouste Gulbenkian. inv. Paulo Valverde refere sinais de evolução. como símbolo do poder. a chola. Alguns deles ou a Tragédia do Marquês de Mônlua aliás foram exibidos em Lisboa. E chama a atenção para Fotografia de cena. trinta anos depois. mas confirma a . o Ciclo de Teatro Popular Tradicional. seja ele medieval. o Cena da peça Tehiloli ou a Tragédia do Marquês rocapé. inv.d.o 215714 com o tráfego de escravos da costa ocidental. inv. para MNT. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ entretanto. fidelidade global ao texto clássico com as alterações > o imperador Carlos Magno e aculturação introduzidas. ele próprio oriundo de São Tomé. designadamente no encurta­ mento de alguns espectáculos. n. a profunda simbologia da autoridade do Estado. uma curiosa circunstância. refere que "apesar de algumas inova­ São Tomé e Príncipe ções serem admitidas nas representações actuais. Carlota in programa da peça Tchiloli tado por grupos numerosos e rivais. e do Imperador Carlos Magno. que o Tchiloli continua a ser represen­ D.o 177344 espectadores faz a triagem entre aqueles que intro­ duzem a diferença no respeito da tradição e os que < desfiguram o Tchiloli e que acabam por se transfor­ Programa de Tehiloli ou a Tragédia do Marquês mar quase numa performance diferente':35 de Mônlua e do Imperador Carlos Magno Tomaz Ribas. colonial ou independente. entretanto. Numa observação muito detalhada e docu­ mentada. 18 de Junho e paradramáticas de matriz africana. Mantendo. 1973 MNT. escrutínio rigoroso e experimentado de figurantes e Fundação Calouste Gulbenkian. AH de São Tomé Sabe-se. "este resultante de uma expressão musical de Mônlua e do Imperador Carlos Magno europeia que serve de suporte à coreografia e ao Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe ritmo africano"36. n O 216994 manente. importada de 2000 MNT.. citando designadamente o danço-congo. n. também. encontramos expressões ESTA 2000 em tudo convergentes no Nordeste brasileiro. Ora. que chegam a durar o dia inteiro na versão tradicional.. utilização do telefone. Lisboa.

Augusto Baptista. compara o texto . que concentram numa única versão a produção do espectáculo. É diferente a transposição do Auto de Floripes para a ilha do Príncipe.além. repita-se. pelas próprias limitações geográfica e populacional.37 E veremos adiante como o Tchiloli influenciou alguma dramaturgia moderna de São Tomé e de Angola. de tradição caro­ Ungia. numa pes­ quisa efectuada entre 1996 e 1998. Mas é o velho Auto de Floripes. Numa tradição seculal� esse espectá­ culo realiza-se anualmente no dia de São Lourenço. há relativamente poucos anos ainda represen­ tado no Minho. Em primeiro lugar. da manutenção dos textos do ciclo carolíngio. designadamente na aldeia de Neves e em Trás-os-Montes. designadamente em autores como Fer­ nando de Macedo ou José Mena Abrantes. razão pela qual o auto surge designado como Auto de São Lourenço. 15 de Agosto.

a camente dramatúrgico. do relacionamento internacional global lnprograma Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian.' 141211 óbvios intuitos missionários./ vireis a ser mais profundo. estamos perante a essência do texto que a ou mais ou menos obscuros. Como o assunto se inscreve obviamente no contexto desta pesquisa mas sai do seu âmbito imediato acompa­ nhamos o teatro luso-brasileiro. E o mais mais aqui pelos processos histórico e cultural da curioso é que Anchieta concilia. em O Tempo e da Escola vicentina com a solene tradição do teatro Padre José de Anchieta o Ven to. os Franciscanos. Floripes.para lá do mérito religioso. in Vida do venerável Padre Joseph de Anchieta Sul. diz-nos Augusto Bap­ Cabe ao padre Anchieta a glória de ter intro­ tista pelo menos no Brasil. e ainda procede à acareação com os textos festações de texto e de espectáculos anteriores: um tradicionais portugueses. 2001 a divulgação do teatro ao longo da grande aven­ tura histórica e geográfica dos Descobrimentos e. da cénico e na prática espectacular do Príncipe certo autoria do padre Manuel da Nóbrega (1515-1570) e "exagero dispersivo" que a tradição local e mesmo a ainda um Auto de Santiago representado em 1564 e exuberância tropical poderá explicar: em qualquer outros textos dispersos. influíram e agenciaram Carlos Espírito Santo Ed. entre eles Bento Tei­ colonização portuguesa para lá levou. mas com mérito cultural . acima citado: Os autos do padre Manuel Anchieta (1534-1597) constituem. faz a uma representação no Rio Grande do jesuíta.38 se perderam. a partir de textos originais. a partir de 1567. talvez com menos de São Tomé e Príncipe constância. As histórias da literatura e do tea­ tro do Brasil são unânimes em o reconhecer. situando a descrição no final do século XIX40. no Belize e no Méxic039. Sortibão. que assinala também Andrée Crabée Rocha. O teatro brasileiro nasce com os autos do padre José de Anchieta. de autores desconhecidos caso. 1973 empreendido pelos portugueses. autor do poema "Prosopopeia" (1601) e de profunda do teatro medieval. Interessa-nos dramaturgia coerente e consistente.de saber adaptar os rituais cénico e dramatúrgico da expressão neolatina ao meio social em que se inseriam. em EI duzido no Brasil. Há igualmente vestígios. Cena da peça Auto de Floripes mais ainda. insista-se. o grande momento documentado e estruturado da iniciação dramática actual com a versão recolhida em 1969 por Fernando no Brasil. da Companhia de Jesus De notar que Gil Vicente. Sublinhe-se. Auto de Floripes in Enciclopédia Fundamental Sabe-se que os Jesuítas e. inv./ porque o mundo 32 . Reconhece no dispositivo Diálogo sobre a Convenção dos Gentios de 1557. a ingenuidade já retardada longa referência que Erico Veríssimo. diga-se assim . no plano especifi­ transposição as versões brasileiras. n.! o que é hoje a África francófona. na Farsa dos Almo­ Officina de Joam da Costa. Mas nem sequer serão as primeiras mani­ Reis. a partir da raiz xeira. Almirante Balaão e Burlante . Fizeram-no com MNT. Lisboa. 1672 para não falar. como pertinentemente duas comédias Lázaro Pobre e Rico Avarento. uma Salvador. na passagem feita através creves (1526) faz uma referência ao Brasil: "Quando BN dos primeiros contactos de origem portuguesa para fordes meu namorado. mais discreto e mais subtil. nas Honduras. Cooperação.

6) Auto dos Mistérios de Nossa Senhora. 8) Auto da Vila de Vitória. escrito em tupi. numa perspectiva religiosa e moral. em p ortuguês. do ponto de vista dramatúrgico.iractos escritos em português e em tupi. escrita em 1595. o que daria primazia nesta tábua dramatúrgica. 2) Auto do Dia daAssunção. 5) Quando no Espírito Santo. cerca de 1579.namorado/ é lá. em castelhano e tupi-guarani. trilingue. Nem de outra forma se processaria esta aculturação da imponente tradição do teatro neolatino da Companhia de Jesus. . senhor. 10) Diversas poesias dramatizáveis. 4) Na Festa de Natal. versão simplifi­ cada da anterior. Uma tentativa de fixação cronológica que efectuámos conduziu à seguinte relação: 1) Auto da Pregação Universal. certamente de grande eficácia e qualidade artísticas. para lá da originalidade e força criacional. 3) Na Festa de São Lourenço. têm o valor acres­ centado da sua profunda penetração no meio social e cultural de índios e colonos. os autos de Anchieta. escrita cerca de 1583. transferida para o Brasil no século À'Vl . em tupi. escrito em tupi. constituem uma notabilíssima dramatização de usos e costumes. 1597. em castelhano. fixáveis entre 1567 e 1570. Entretanto. 7) Visitação de Santa Isabel. 9) Na Aldeia de Guaparim. se Recebeu Uma Relíquia das Onze Mil VÍlgens. numa funcionalidade missionária que sobreleva a dimensão dramatúr­ gica e o valor documental: escritos em português. restam ell. A tabela dos autos do padre Anchieta não é definitiva. trilingue. outro mundo/ que está além do Brasil"41. em português e caste­ lhano. que certos autores identificam com o "Recebimento que fizeram os Índios de Guarparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte': Em qualquer caso.

n. como colonos pecadores. . prosseguida por António Ferreira nas comédias e por Jorge Ferreira de Vasconcelos. Importa referir entretanto pelo menos dois textos de temática ou circunstância ligada a Goa. e todos vêem estes brincos.além da dimensão religiosa. desde logo o Auto da Paixão do padre Luís Vaz 34 . como índios infi­ a ser representado em tamul. Será a obra mais alinhada com a "nova forma" de fazer comédia. tribo que se aliava aos nação. logo iniciada nas naus. Mário Martins estudou essa emigração drama­ em relação aos indianos: o nobre Rau apoia e apoia­ túrgica. e daí trans­ vais. Estes têm nomes tamoios. franceses na tentativa de expansão da "França Aus­ O pranto final de Nossa Senhora constitui um fecho tral': Os p ecados surgem misturados com maus hábi­ impressionante ria sua força verbal e sentimental tos sociais: "bebida cauim" curandeirismo. originário do teatro popular minhoto retardado. publicado em 1601 juntamente cam-se os espanhóis da província do Prata. por oca­ sião da investidura do governador Francisco Bar­ reto. espectáculos nas condições que se imagina43. e há grandes rochedos.' 232099 os mistérios da Natividade. com grande cópia das personagens que falam.1963). como cá os bonifrates. criti­ de Simão Machado. o centro fulcral da expressão dramá­ acções directas de guerra com uma intriga política tica passa de África para a Índia. o conteúdo tem algo das histórias medie­ e mirandês. desinterias" (Auto do Dia da Assunção). Mesmo na maior parte das casas e encruzilhadas há semelhantes diverti­ mentos':44 É o teatro jesuíta no seu máximo esplendor. trazida para Portugal por Sá de Miranda. E para o Oriente em em que a posição dos portugueses não é dicotómica geral. (Na Festa de São Lourenço). quanto mais não seja na dialéctica maniqueísta ladado para o Brasil e para o cinema (Acto da dos "bons" e dos "maus': Os "maus" tanto podem ser Primavera de Manoel de Oliveira . :'42 de grande efeito espectacular. Trata-se de um de um "Embaixador fanfarrão" (Na Vila de Vitória). sendo este o único que agora nos retém a atenção. e por baixo deles homens que fazem mexer e falar estas figuras como querem. inv. Se a forma é muito próxima de um teor vicentino Guimarães. onde se produziam -se no rei de Portugal contra o rei indiano Bandur. as virtudes são também Completamente diverso. em todas as Igrejas. poligamia . para efeitos de missio­ éis. Teófilo Programa-postal da peça Filodemo cita o "viajante Pyrard" que presenciou alguns: "No Teatro da Cornucópia. se representam MNT. Camões estreou o Filodemo em Goa. é a Comédia do Cerco de Dio febres. onde o vamos encontrar. 2004 dia de Natal. mas merecendo aqui materiais: a Virgem Maria "afasta as enfermidades. agi­ gantado pelos fumos da Índia no local de origem. onde se desdobram Entretanto. Chegou demónios. na pessoa com a Comédia da Pastora Alfeia./ uma nota referencial. cerca de 1555. tal como os autos em tupi do padre Anchieta. épico transformado em sucessivas cenas teatrais e por aí fora.

tidade religiosa de frei Bartolomeu Machado: não rufões. em França e mesmo no Japão. talvez coerente com a vida do autor. no um e outro. como ocorria no "Ante cocho que el agua serua: ao seu tempo se Brasil4B. cortesãs. . ] . Isso seria ainda Claude-Henri Freches analisa o texto nestes não selamos já cavalgamos. 45 Tudo isto indicia uma subtil mudança do esta­ Neste conjunto seiscentista. a "linguagem repassada de provérbios" de Gracia. . E José Luís Hopffer Cordeiro Almada cita 35 colhem as uvas quando são maduras. Claude-Henry Freches enumera centenas de tra­ assim mesmo! Maria Odete Dias Alves caracteriza gédias neolatinas representadas em Portugal. falecido em E o mulato Eitor d e Los Lindos é um "rufião [ . irá explodir no teatro de "cordel': o seu episódico personagem mulato. respectiva­ Mas voltando então ao objecto desta pesquisa: mente a criada Gracia e o servo Eitor de Los Lindos. Ulissipo e Aulegrafia. em Espanha. . Não sejais mao de con­ diversos planos. Barcelona. mancebas e mancebos. desde logo chamando a atenção para Brasil. em duas comédias de Jorge Ferreira de que entre nós. de onde nunca terá passado. Mas assinala a prática que lhe dá vivacidade e certo nível sociocultural: de utilização das línguas locais.. aproxi­ cionamento directo com África. ao nível dos grandes .. ] Não intriga sentimental. nem sempre com a mesma origem Vasconcelos. na iden­ que não trabalha': Refere Silvina Pereira: "Parasitas.Comédia U1issipo Jorge Ferreira de Vasconcelos Encenação: Silvina Pereira Produção: Teatro Maizum Teatro da Trindade. e o carro ante dos bois. nagens. e apenas uma no Congo. só surge um rela­ tuto e da actuação destes negros e mulatos. . Andaria assim a produção dramatúrgica. todos bai­ seria para ele "esta vida soldadesca/ [que] é vida lavam na mesma dança:'47 mui velhaquesca': . [ . cada uma com étnica. a nível de perso­ mando-os da função do criado ladino setecentista. se ganham trutas a bragas enxutas. 1997 © Luísa Ferreira A intriga política mistura-se com uma complexa o demo das vossas. tentar se quereis ser contente"46 . e salienta certo perfil pacifista.

Católico (1570) da Cidade Velha de São Tiago. concentrou-se. na linha que se ia definindo desde Será interessante averiguar essa transladação os clássicos. isto Latina e Moral.49 mente cómicas. porque a verdadeira del" constitui uma das grandes linhas de conver­ euforia que foi e é a produção dramatúrgica e de gência das literaturas dramáticas dos dois países. no que respeita romantismo e o ultrapassa. neste longo dos séculos XVIII e XIX. Lisboa © José Meco 36 . numa ambientação nacional. foram os portugueses que de se recuperar o acervo de perto de mil títulos. dos certamente o levaram para lá. espectáculos. E desde logo.espectáculos religiosos. além num movimento que aliás dura pelo menos até ao de pouco estudada. fundada em 1551. repita-se. quase dois mil que supostamente foram escritos. representados e publicados em edições baratas que. por razões diferen­ momento. De tal forma que o teatro "de cor­ que respeita ao século XVIII. pela capacidade alucinante de produção e. ao vago caminhante/ se vendem a cavalo num barbante': Não nos demoramos na análise do tema ao A conjuntura histórica aponta mais. "no Arsenal. no com a tradição do teatro clássico nos países fran­ que toca à analise crítica moderna. no que para África. mas agora prejudicada. pela necessidade cófonos . 1660 Palacio Fronteira. e do Seminário é. se tal se pode missionária para África. da Escola de Gramática a temas nacionais. c. na primeira metade do Retórico pormenor - Painel azulejos. para o Brasil e mesmo para a Índia do tes mas no fundo convergentes. do ponto de vista do reino e dos seus habitantes.pois. ao Aí são numerosas as personagens negras. diz-nos Nicolau Tolentino. chamada do Teatro de Cordel. geral­ tempo capital de Cabo Verde. mas sobretudo cruzá-la dizer.

Escapin (Lé. filho de português ou O Contentamento dos Pretos por Terem a sua e de africana. E no mesmo estudo encontramos um conjunto de entremezes portugueses do século XVIII onde. "uma preta" (Os Casadinhos da Moda). num estudo editado na Bahia em 2004. O Poela do Violo. preta'. E mais. século XIX. clérigo secular. preta" (As Convulsões. A Saloia Enamorada (1793) tramos algo mais consistente. as duas Trata-se da figura singular. Desmaios e Desgostos de Um Peralta da Moda) ou a "Isabel. 2004 sia e no teatro. do Modinha e do Lundu (1740-1800) a literatura brasileira continua a alimentar. Entremez das Línguas. uma linha coerente e constante de cordel. as suas escassas peças. E mais: na tradição popular nordestina. Isto é Bom Demais! Ora. Raras Astúcias do Amor. dizemos Visitação de Santa Isabel. Cazumba um exemplo muito feliz do p ersonagem . inclusive. Os Dois Amantes de África. Scapin) em Argel. E no entanto. Armindo Jorge de Carvalho Biãoso.nos no p ersonagem 37 Selimuntino. Lisboa. temos em cena "um preto" e "um pre­ tinho" que entre si dialogam com alacridade. na poe­ José Ramos Tinhorao Editorial Caminho. desde o século XVIII até rigorosamente a uma peça de 2002. a "Luiza. revelam uma poeta Domingos Caldas Barbosa (1738/401-1800) capacidade dramática ainda hoje muito interessante fundador da Nova Arcádia com o nome de Lereno e eficaz. temos como personagens recorrentes "um preto" ( Um Engano Astuto). a vários títulos. para a situação de menor relevo decor­ o Modo de Nunca Pagar. do últimas com música de Leal Moreira. tal como esclarece José Ramos o que na prática vem muitas vezes a dar no mesmo Tinhorão. rente da extinção da Nova Arcádia e do "escândalo" Os Casadinhos da Moda. e dramaturgia sólida. na linha tradicional. e sobretudo A Vingança da Cigana (1794). E a simples leitura de algumas peças ou mesmo de alguns títulos dá-nos pistas deste terná­ rio. numerosos textos de cordel ou de teatro popular. refere precisamente a convergência temática. actualíssima no ternário. Os Mas em cima da passagem do século encon­ Viajantes Ditosos (1782). A "Cigana'. Um Engano Astuto ou nós agora. O Hércules e cantados na corte. dá. mas sobretudo traça uma panorâmica do modelo. "a perspectiva de escrever para o teatro e que apresentam personagens africanos: Auto da popular aparecia como uma solução ideal'.Domingos Caldos Barbosa. estudante no Colégio dos Jesuítas Alfa/Tia. esta já em 1826 (Entremez Novo da Castanheira). de Macedos1. na melhor tradição setecentista. tal como era tratado na época: A Preta de Talentos de António Xavier Ferreira de Azevedo. tocados lhões de Ouro de Nicolau Luís. das polémicas com Bocage ou com José Agostinho Entremez da Floreira. Encantos de do Rio e mais tarde em Coimbra. do que propriamente a uma Preto. A esse respeito. O Escravo em Gri­ surge mais ligado a modinhas e lunduns. O Preto. Nascido no Rio de Janeiro. Entremez do Negro Mis bem Mandado.

num registo de ambiente "brasileiro': Pior é o perfil conferido ao padre Teodoro da Almeida. ao longo do século. o Poeta" é o personagem central das Peraltas e Sécias (1899) de Marcelino Mesquita. a quem se deve a .. .52 Em 29 de Outubro de 1787.. no final do século XIX.. como escreveu Manuel Ivo Cruz.I. E é no Brasil Programa da peça Peraltas e Sécias Teatro Nacional D.1. E sem pretender que a África tenha desapa­ recido por completo do teatro. e com Correia Garção e os árcades. ou se assumem em reconstituições históricas e comemorativas voltadas para Marrocos [veja-se Herculano com Os Infantes de Ceuta (1844) ou O Ponteiro de África ou Três Noites Aziagas (1839)]. Maria II. "Cal­ das. transformado por Marcelino num "trôpego imbecil fanatizado por crendices'. . como recordamos do teatro "de cordel'.. U I' . em especial os brasileiros. O Brasil. É que surgem então personagens negros. merece entretanto um comentá­ rio. escreve indignado Fialho de Almeida!54 Mas estamos. para o Brasil. . Esta opção. recuperação da ópera de Caldas-Leal Moreira. há que repetir a constatação de uma menor atenção aos seus pro­ blemas e personagens.I .. de repente. o romantismo e o ultra-romantismo ou se concen­ Sir William Beckford Gravura do século XVIII tram na vida política e económica..�. " . O tratamento dado ao poeta é de simpática ironia. n O 103034 negro cómico.. mas no contexto brasileiro. assume maior presença com António José da Silva. 1902 MNT. notável pelo "conteúdo humano'. William B eckford jantou em Lisboa com "Caldas. o qual. por razões óbvias.. noutro plano. citado desde Gil Vicente. "assim que trouxeram a sobremesa. Porque 38 . o Poeta'. para a Índia ou. . inv. se desentra­ nhou numa torrente de improvisados versos [. na sequência. ] em rimas extraordinariamente harmoniosas"53. Depois tam­ bém escasseia mas não desaparece.

como exactamente 1 60 anos antes . condenado por homicídio.° actos). personagens africanos. Cena de Peraltas e Sécias Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional D. Carlos esciavagismo. passado de finais de século XVIII também. como veremos adiante. Manuel não pode casar com Clara porque o pai "está em África'. Assim por exemplo. que durante décadas geu na passagem de século XIX até aos anos trinta a atravessou o Atlântico à frente de companhias tea­ cinquenta do século xx. "rico José Agostinho de Macedo escreve um drama sobre comerciante com casa comercial em Goa'. Manuel mata-se. para o Brasil. "grande prático da costa de África. O mais curioso é que o tema do degredo man­ tém-se mesmo para lá dos seus limites temporais. com as limitações conhecidas. uma questão ao degredo. em Luanda (1. de certa camada da época: Manuel Fortunato. A sua peça de estreia. com Ódio deRaça ( 1854) e O Cedro Verme­ "primeiro tenente da armada real e conhecido por lho (1856).. O Estigma (1903)55. A partir dos anos sessenta e setenta. de César de Lacerda é o africanas no teatro popular. a que chamou O Vício sem Máscara ou Saraiva. que vão aparecendo os negros. 1962 Fotografia MNT. Ramada Curto. E resta dizer que não faltam personagens Mas precisamente. E praticamente o passado século teatral português inicia-se a partir de uma situação hoje invero­ símil que lhe toca. põe em cena. O mesmo se dirá de algum O ternário de África surgirá mais tarde e tem o apo­ teatro de César de Lacerda. para os EUA com a emigra­ a bordo (3. mas onde abundam também os Trata-se porém de uma excepção ou quase. com um dos mais prolixos e importantes dramaturgos. As personagens são típicas ção. a situação altera-se. sublinhando a transversalidade e a aceita­ ção generalizada da presença colonizadora. precisamente. que se afirma a partir drama marítimo Homens do Mar ( 1862). Daqui erradicou em Moçambique (Prólogo). pelo menos até meados desse período. Maria II. mas sobretudo. inv.' 78868 Vimos como no século XIX o tema de África se circunscreve preponderantemente aos grandes ciclos históricos ou. mais esporadicamente. brasileira vivida. da colonização e do degredo. a partir de 1 974. como também já houve ocasião de referir. trais encabeçadas pela sua mulher Catarina Falco. conhe­ O Preto Sensível! Na mesma linha temos Gomes de cido por o capitão mata-negros" (!) ou Bento Rosado Amorim. 39 por vergonha.° e 4. Mas não nos ocupamos agora desse ternário. como é evidente.0 acto) e para África. dramas ultra-românticos de experiência o tenente menina'� . n. O tema renova-se e ganha consistência política e dramatúrgica ao longo do século xx.

morrera Maria de Frei Luís de Sousa: "de vergonha': . . Mântua, que deixou ainda colaboração num
Voltaremos a Ramada noutra perspectiva. drama histórico em verso O Cerco de Tânger
Mas muito mais detalhado na referência ao (1923)57 alinha geralmente neste tom miserabilista
ambiente africano e às suas sequelas é Ordinário (O Álcool)5o. Mas a visão negativa da África e das
Marche (19l3) de Bento Mântua56, peça conside­ campanhas de ocupação é, nesta época, excepcio­
rada antimilitarista na época e como tal proibida. nal, como o é, vimos, a referência ao negro. Pre­
Trata das sequelas dramáticas da mobilização de cisamente, no contraste a partir do mesmo tema,
Paulo Guerra para as campanhas de Mouzinho. cita-se A Promessa (1910) de Vasco de Mendonça
Num clima de dramalhão, a vida familiar e pessoal Alves: aí, o protagonista é Jorge, herói das campa­
do ex-soldado, entretanto regressada a Lisboa, é um nhas de África, que pelos seus méritos casará com
somatório de desastres: o próprio é doente e alcoó­ Madalena, não obstante a "promessa" feita à hora
lico, a irmã prostituta, a mãe tuberculosa. Tudo sito, da morte do pai de casar com Rui. . . 59
num clima de populismo urbano miserabilista.
A Viagem Maravilhoso
No início, a guerra de África até era vista como Postal do Museu Nacional do Teatro
factor de promoção económica e social: "O tio Exposição Colonial, Porto, 1934
Carlos [ . . . ] arranjou para servir na África, de onde
voltou Alferes... trouxe de lá alguma coisa de seu, e
hoje é capitão." Ora, já vimos que nada disto acon­
teceu com Paulo, que nem sequer reconhece a irmã,
quando a encontra "numa taberna imunda e mal
frequentada da Mouraria':
E no entanto, a peça ganha fôlego com a des­
crição pormenorizada da prisão do Gungunhana,
numa perspectiva bélica retintamente colonial:
"Os inimigos - os vátuas - todos de plumas brancas
eram em número de 12 a 14 mil'; o que provoca um
comentário - "ena pá! Tanto carvão': As forças de
Mouzinho, "uns 600 praças': A descrição do céle­
bre quadrado é pormenorizada, num registo de
coragem: "Uma bala bate na garupa da montada
do nosso Coronel, que nem se buliu. Estava firme
como uma estátua. O nosso Alferes Silva cai, ferido
de morte. A gente vai acudir-lhe, mas ele levanta­
-se, volta· connosco à fileira e aí fica até morrer':
O coronel é "bravo'; o capitão "valente'; a artilharia
"abria ruas de pretos': E assim, "com os olhos fitos na
bandeira que simboliza a nossa pátria e lembrava a
nossa família [ . ] puzémos em vergonhosa deban­
..

dada essa raça maldita do Gungunhana'; diz o Paulo.
O pior é a ruína total dele próprio e da família! É de
notar que o negro aparece, neste contexto, como
inimigo, o que em rigor não é habitual. 40

Carlos Selvagem (1890-1937) Matriz africana nos autores metropolitanos
Arquivo da Família Ferro
Vista de Lisboa, o tom dominante desta dra­
maturgia africana da primeira metade do século XX
aponta com efeito para uma expressão mitificada da
África como área redentora ou afirmativa ao nível
do espaço, da mentalidade, das virtudes de carácter,
coragem e dignidade. Com excepções, sem dúvida,
e sobretudo numa perspectiva paternalista das
relações com os negros (os "pretos" na linguagem
quase sempre utilizada), geralmente vistos como
ingénuos e dedicados servidores, exprimindo-se
num português próximo da língua da Guiné dos
clássicos . . . E isto, tenha-se bem presente, numa
posição politicamente "correcta" ou "incorrecta"
mas absolutamente transversal a ideologias de
esquerda ou de direita: e assim será até aos anos
sessenta, pelo menos.
Também se deve distinguir, mas não tanto
como poderia imaginar-se, os autores que conhe­
ceram África, alguns com grande vivência, e os que
nunca lá foram. Africanistas, no sentido da época,
foram Carlos Selvagem e Henrique Gaivão. Ambos de Isabel Moniz e na filha Leonor, e o mundo "capi­
reflectem no teatro as experiências respectivas. talista'; "affairista" e cosmopolita muito próprio da
Alfredo COl-tez, numa peça episódica, assinala um época, em que se envolve o filho Rodrigo. A reden­
ano de magistratura em Luanda. A certa altura, ção estaria na ida de Rodrigo para a Zambézia, onde
como veremos, vão surgir autores nascidos nas a família possui terras que "valem uma fortuna . . .

colónias, ou lá fixados e lá estreados. É uma vergonha o abandono a que as votais, nas
Carlos Selvagem já deixara um registo incon­ mãos dos ingleses e alemães, aventureiros, que aca­
formista na sua primeira peça. Cavalgada nas barão porvos a empalmar'; diz o africanista Torralva.
Nuvens (1915)60, relato duplo da batalha de Alcá­ Rodrigo começa por considerar essa opção como o
cer Quibir, falsamente apresentada como vitória "degredo": curiosamente, alude-se a degredo, já
para satisfação do velho Gonçalo Vaz. "Os Mouros, fora do contexto, noutra peça, mais tardia, de Carlos
refeitos dos seus danos e espanto, correram então Selvagem, A Espada de Fogo ( 1949).
sobre nós, com mais fúria, uivando seus ladridos de Mas O Ninho das Águias as boas intenções
infiéis . . ." mas a verdade transforma-se em mentira desaparecem: seduzido pela viscondessa de San
triunfalista. Gil, para quem "um bacharel em Direito" não tem
Entretanto, em O Ninho dasÁguias, passado em cabimento em África (ou "nas Áfricas"), Rodrigo
1 920 e dedicado ao capitão Humberto de Athayde desiste. E o quadro que a viscondessa lhe traça
"ingloriamente sacrificado em Ãfrica, ao serviço da é elucidativo: "O que esperas tu fazer em África,
Pátria, com uma bala no coração'; Carlos Selvagem doido? Tu não nasceste para trabalhar, não sabes!
dá-nos o contraponto entre um mundo da velha [ ... ) Voltarias ao fim de quatro anos, cinco anos, com
41 aristocracia rural, simbolizado na casa solarenga umas libras no bolso, mas arrasado, irremediavel-

mente inutilizado [ ... ) um velho achacado por todos África por amor aos novos horizontes, por amor
os males de África, sem saúde e sem beleza!" àquela terra imensa, mais violento e truculento
Esta visão negativa serve de prova a contrário o primeiro, a ponto de não hesitar no crime, aliás
das virtudes da opção africana: afinal o Rodrigo não consumado, mais acomodatício e dócil o
opta por uma decadência fácil, sem cuidar de res­ segundo - a sua mentalidade é aberta 'fixação'
ponsabilidades familiares. A biografia africana de - como escreve António Manuel Couto Viana da
Carlos Selvagem (Carlos Afonso dos Santos), oficial 'africanidade; na tradição que vem do século XIX e
do exército com longos anos de administração colo­ marcou também uma sólida geração de republica­
nial, é bem clara nas suas próprias opções. nos, monárquicos, salazaristas e oposicionistas6 1 .
Ora, em Auspicioso Enlace (1923), comédia Eles estão em África para ficar, mesmo quando
escrita em parceria com André Brun, a figura do arruínam a vida, a saúde e a fazenda. Alinham
bispo missionário D. Joaquim, também, sustenta o com eles o comandante e a sua filha Helena.
contraste: "Quem me mandaria a mim voltar para O contraponto está num Dr. Meireles, que só vai a
terra de brancos? Em vinte e cinco anos de Costa Angola para enriquecer, de certo modo na Mary,
de África nunca me vi numa entalação como esta. filha de Telmo, e sobretudo na formidável Lotie,
[ ...) Quem me dera ainda no sertão entre os pretos. ex-dançarina de cabaret tornada 'respeitável' pelo
Estes brancos são muito complicados:' É a posição casamento com o colono - mas que odeia África.
dominante na dramaturgia "colonial" da época: Será um tipo humano que Carlos Selvagem, com
ingenuidade dos negros, uma espécie de bons sel­ uma longa carreira militar e de administrador em
vagens simpáticos e fiéis. Angola e Moçambique, com extensa bibliografia
Mas a grande peça de ambiente africano de africana, conheceu certamente bem':62
Carlos Selvagem é Telmo o Aventureiro ( 1937), sín­ Ao nível de textos, este contraste assume-se
tese do tema, consubstanciado em diversas famílias com clareza. O Meireles considera África, as coló­
portuguesas. Aí, de facto, o contraste estabelece-se nias, "uma simples ilusão. [ . . . ) vem-se a África para
entre as duas comunidades em presença, mas tam­ enriquecer. As nações querem as colónias para se
bém entre as duas mentalidades coloniais. enriquecerem [ ... ) Nasceu essa ilusão no tempo da
Os nativos são meros comparsas, que se expri­ escravatura. [ ... ) Hoje, porém, que pouco a pouco
mem no português aproximativo habitual: "Viu se foi fazendo do negro um trabalhador como os
(pegadas) sim senhor. Esteve a andar muito longe outros - com direitos, salários e garantias - de que
mas há-de falar melhor quando mostrar daquele nos serve vir para as colónias?"
grande pedra'; diz o criado negro a propósito de Mas o Telmo tem o sentido de missão civiliza­
um leão. E o diálogo com o Telmo é característico: cional e a perspectiva de espaço e de futuro, domi­
"Chingulo - patrão ainda quer ir ao elefante? Telmo nantes na época: "Continuamos todos a fazer em
(bonacheirão) - Patrão só quer que você não seja África o que sempre temos feito, levando como até
burro! [ . . . ) Chingulo (familiar, risonho, abrindo aqui a nossa cruz': . . E deixa uma descrição típica da
a cesta do farnel) - Elefante não há-de vir hoje, mentalidade colonizadora dos anos trinta:
senhor. . . , Leão anda muito perto. Já ontem matou "Telmo: Sim! Sou um aventureiro. Chamam-me
dois bois no curral do Sr. Francisco." aventureiro, porque de tudo lancei mão, para furar,
Mas o grande conflito situa-se ao nível da trepar na vida. Já estive duas vezes à beira da fortuna
pequena comunidade branca e da sua concepção e voltei a ser pobre. Mas nunca desisti, nem desisto
de África. Cita-se o que noutro lado se escreveu: ainda. Quando vim para África, mais novo do que
"Assim, Telmo e o seu afilhado Manuel estão em este (indicando o Manuel) isto era bem pior do que 42

O casal Vasco . . Auxilia-o um recém-che­ CE DO MESMO NOME. logo no cais. a posição dos colonos também conheceu bem Henrique Gaivão.. . que ajuda João LIVRARIA POPULAR DE FRANCISCO FRANCO 1936 . Cheguei a viver da caça que vendia para comer. Mas Guiné: "Foi jacaré que levou Rosa [ . . Fui depois hote­ No fim. Lisboa. que a noiva se casou. meu caro doutor. Volta para África no primeiro Fui tudo. . . 1936 própria sociedade colonial. Fui tudo . criador de gados. se voltasse agora aos escondido [ . em legítima contra os brancos. . pela mão do jovem João. desde sargento a industrial. ADAPTADO DO ROMAN­ Mandabe diz conhecer. . de levantar a roubou meu relógio [ . Rodrigo! Aqui vive-se! E depois é Portugal!" O mesmo diz o jovem João. recomeçaria:' mesmo tudo o que nós guarda . mais uma vez me arruinou. Rodrigo comerciante estabelecido. a Livraria Portugal.. como há vinte anos a O s africanos falam. E também as transcrever. que o verdadeiro "velo de oiro" é a terra. percebe-se.. . E ainda hoje é. ex-sargento assassino e desertor que por pouco não mata Vasco e Rodrigo. Há muitos que por cá nasceram e que são tão portugueses como nós:' E também dos bons é o velho colono Álvaro Pais. tanto no a infeliz Estela. E. pai. . navio e casa com Estela. descobre tor. Colonos . que não vale a pena sociedade e estas mentalidades. Hoje sinto-me outra vez pobre.esboço não varia e não vai além do paternalismo habi­ 43 em um acto (1932)63.como o comandante defesa da honra. ORIGINAL DE gado da Metrópole. como nas repartições públicas espécie de pai adoptivo que a própria. que foi violada por um tal Alves. RUA BARROS QUEIROZ. ] pôs olho escondido no capim e vê vinte anos. língua da queda da borracha. e falam muito.. O professor Pompílio é dos bons e convictos africanistas: "Não há como África. . agricul­ desembarca em Lisboa e. e até os muito maus. 1. e fosse preciso recomeçar. Tudo perdi. Essa baixa de cotações do óleo. . sabe -. retrata de forma Adaptação dramatúrgica: Henrique Gaivão e Silva Tavares HENRIQUE GALVÃO E SILVA TAVARES menos harmónica e ainda mais maniqueísta. 18 I LI S B O A a salvar a fazenda. acaba por matar.Adélia é disso exemplo: "Há anos que andamos os dois a labutar em África sem passarmos da cepa o V E L O D ' O IR O torta:' Daí.o Velo d'Oiro (1936)64 adaptação (com Silva Tavares) de uma Henrique Gaivão novela homónima de sua autoria." E exprimem-se Repita-se: Carlos Selvagem conhecia bem esta nos seus próprios idiomas. mas sobretudo O Velo d' Oiro tual. Era-nos preciso abrir caminho à faca. Vasco lança-se numa aventura inverosí­ mil em busca de uma mina de ouro que o "preto" FANTASIA COLONIAL EM 3 ACTOS E 14 QUADROS. contrabandista de gado. Mas. . ] catunha ainda não desisti de voltar à flutuação. . . Rodrigo. que logo se deslumbra: HENRIQUE GALVÃO "Pergunto a mim mesmo se isto é a tal África que mete medo a tanta gente!" A sociedade colonial comporta os bons e os maus. prospector de minas. Mas aparece também uma "figura hedionda do branco da mulola'. mato contra os pretos. filho de Vasco: "Também aqui é Portugal.. . A separação é mais pro­ Fundo Bibliográfico MNT funda e aparentemente mais realista.4. leiro. ] Tem feitiço para ver relógio cabeça .

como se vê. lá por essas durante cerca de um ano funções judiciais em África e nunca me viu dar parte de fraco!" Luanda. Maria II. Lisboa formas de unidade da sua variedade criacional. E./o a solidez de carácter que a vivência africana impõe Em cima. autor. mas com "uma inglesa linda como ela era. não com "alguma preta'. É aliás um ttiro. cujo valor principal. �. enquanto outro assume o preconceito "de que a Transcreve-se o que dela noutro lado se escreveu: África seja uma terra doentia'� . vale ( 1908)66. ao menos no ano em que a peça foi escrita.líI(o c l. desgosto de amor. os costumes e mentalidade dos povos quimbundos de Angola. é o descritivo das situações. a fadiga'.ou pelo menos as sua em tudo" e não "só de pretos'. paisagens terística através de dois curiosos personagens de e ambientes. o padre Francisco. Nada de semelhante. detalhadamente referidos em didas­ Demónio (1928)67. repita-se.. :' Ouve-se "o batuque na sanzala'� E a "orquestra acom­ E mais: em conversa com o major. cm lKlixo.. O lIamem filie Se! ""/UI­ arrepio dos quadros políticos já na altura dominan­ ja/l ( 1918) tes na sua área tradicional." 1'0111 I�ohhs :\1011- a quem a sabe compreender e assimilar. "Essas Africas" serão para o Valdez e para o tiva inicial. O espectáculo. descrevendo a sua à morte designando-a como "A Negra" numa frase selvajaria'� . o u ligados ambiente exótico. Trata-se às colónias em geral. Trouxe de lá um pequeno acto.1 caso flagrante de adesão a uma mística colonial ao ( J9l6) . O Cuo do /). residirá na objectividade segura da expressão um missionário. quanto a menos se espera: até Mário de Sá-Carneiro recupera nós. diz um comparsa. melhores peças. em O Vencido Ramada Curto e cena da peça de sua autoria estética e nas virtualidades cénicas.. surgem nesta fase de onde de 1 acto apenas. enquanto "os brancos rouquejam Marques. Moema E em O Homem Que se Arranjou (1928) o (1940)65. A variedade nasce do ineditismo do meio e ambientações. assim mesmo! que até é equívoca: "Não poucas vezes tivemos a Já vimos que Alfredo Cortez desempenhou Negra diante dos olhos em rapazes. . teve apoio musical. o O major é um personagem pitoresco: colecciona autor não se coíbe. e surge como uma das mais eloquentes Nada mais remoto e abstracto para Sá-Carneiro! Ed. "Moema traz sobretudo a curiosidade do seu Os tipos humanos d e africanistas. aliás uma das suas melhores cálias desenvolvidas. perfeitamente ímpar.eunor d' Eç. mas as referências na sua vasta obra apontam para o consagrado sentido redentor e para �/Iilada. o Valdez alude panha fora de cena o batuque. que em rigor não acompanha a esplendo­ protagonista vem de África. no Teatro Nacional de major a solução de todos os defeitos da sociedade. o último dos quais em Lourenço a sede. faz questão de Água! Água! (e)os pretos imploram Oméha! Oméha!'� dizer. que transcrevem a narra­ peças. . É uma cena de expressão africana que nos mostra. D. e também aí. Amélia Hcy-Cc.d. em O Homem que se arranjou ( 1928) in Teatro Português a integração plausível no conjunto da dramaturgia A Alma (1913)69: mas o referencial desse é Timor! Luiz Francisco Rebelo do seu autor. o que distingue Gaivão. e um oficial da Armada. terra que é "uma mina rosa obra deste dramaturgo . o Ricardo.. com grande alacridade do colorido. mais ainda do que Ramada aborda o tema de forma muito carac­ Selvagem. "A orquestra descreve o deserto. s. na obra de Cortez e quase nada no conjunto do nosso teatro:'66 Quem também nunca esteve em África foi Ramada Curto.

os que aqui vêm para sugar um bocado de oiro. e todos os covardes. são esses. Alcançou um notável sucesso no Teatro Nacional Quem também nunca esteve em África foi de D.vida. Manuel. casa com o Cena de Degredados i n Virgínia Vidorino e a vocação do teatro: "sólido e franco" colono Manuel da Silva e muda-se / \ o percursa de um sucesso para África. Envolve-se sentimentalmente com um Júlia Lello Ed.. diz que "na África. em 1938..' 220063 fazer nada ou a fazer o mal. n.. os que lá e cá vivem sem MNT. Cine-Teatro Virgí­ gais que quase redundam em adultério. ] despertava por cá uma adesão mais ou menos bem urdido de colonos com o título ambíguo de unânime':71 Degredados ( 1 930)1°. ] todos nós somos aqui. todos esses desertores da .. O que não a impediu de escre­ Lello recorda que "a temática patriótico-colonialista ver e fazer representar com sucesso um drama [ . 2004 antigo namorado. são só esses . talvez eu diga a esta gente . mas este con­ segue preservar a posição na colónia. Estava a Fotografia-postal. e ir digeri-lo onde se divirtam.. envolvidos em conflitos familiares e conju­ passa a denominar-se.os degredados! Isto. Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora. não se sente em terra sua [ . Com tudo isto.Virgínia Vidorino E Manuel: "Não! Não! Tem razão. Júlia Virgínia Vitorino. A ambiguidade do título resulta das diferentes posições face à colonização e a África. a certa altura. . apenas isto . senhor 45 Manuel da Silva! Não o diz por si").. Fernando Cabral. que fogem ao que ela tem de duro. o coração dos por­ tugueses. se o nojo me não amarrar a garganta!" Para não variar. e todos os inúteis. a peça é bem dialogada e bem armada em termos de cena e literatura dramáticas. Arma-se uma intriga política contra Manuel.. 1916 mentir-lhe! Os outros. em duas ou três réplicas que mal passam do "Si siô': . e todos os perversos. Também aqui a dicotomia Certamente por isso. Joaninha. os outros. Maria II.. os negócios e o casamento.... o velho Teatro Africano se implanta entre os escassos personagens portu­ da Cidade da Praia (Cabo Verde) fundado em 1867. gueses. degredados!" Mas logo se emenda. à invectiva do padre Augusto ("isso não. inv. o criado negro Sebastião dá uma imagem de ingenuidade. para chafurdarem na miséria e na lama. com sucessivas reposições. que a autora classifica como modelo de "futilidade e cinismo': ! [3< Fundo Bibliográfico do MNT Em África tem a companhia do padre Augusto e da mãe e de uma tia pouco consistentes. nia Vitorino!72 para salvar a família da bancarrota.

Aliás recíproca e piroleira [ . . . uma impressionante solidariedade inter-racial. onde aliás na epígrafe da edição assume as dúvidas e angústias da fase de transição para a independência (Natal de 1 974 "este Natal que não sabemos se de Incerteza - se de Esperança") . o que sucessivas (Machamba e Latitude Sul. que com ele alinha cantada. em 1959. denominada Três Setas Apontadas não gosto de pretos metidos nas conversas de bran­ para o Futuro73. sobre proposto em 1917 ao Teatro Nacional.. se bem que algo enternecida da "cidade em total solidariedade e amizade. t966 nagem branca vem por anúncio directamente da © FAHM Mouraria . Entre a agressividade de Aleixo Luna de Oliveira. Um dos primeiros será sociedade colonial.estamos em 1951). fez representar em Lourenço Marques e (esteve em Cabo Verde cinco anos: mas não há em Lisboa um drama que assumiu denominações a certeza "donde eu vinha e onde estivera'. tirando um singelo e muito bem escrito Auto de Nata(14. procura uma conciliação entre o teatro . . o machismo ("um bom par de galhetas a Teatro Gil Vicente Lourenço Marques. a cor­ © FAHM rupção (engenheiro Saul Pedro). ] uma seta de esperança': Orlando de Albuquerque nasceu em Moçambi­ que e viveu em Angola.espectá­ culo tradicional local e certa construção de matriz mais ocidentalizada. uma peça subsidiária do Este é maltratado por Aleixo ("seu negro [ . ]" . não só de âmbito racial. . repita-se. 46 . . em que. ] terra gira e tudo" e da sua população de envolvendo a família. mas tão grande ou quase como entre o dito Aleixo Afonso Ribeiro estreou e ambientou em Lou­ e o criado negro do café. que. E outros sinais críticos surgem na peça: por todos. Herodes e o lvIenino75. cos [ . portanto. Com as limitações óbvias da época. para alunos do ensino secundário.nas restantes peças. Mas também.(e as citações não acabam) mas é irmã­ o texto consegue passar uma visão muito desen­ mente reconhecido pelo poeta. des clivagens. mas também no contexto da própria pela sua actividade teatral. não tão agressivo se chamar singelamente África (1951). que contrasta com o racismo: "Ele adora-o só porque lhe apertou a mão': Não haverá denúncia mais contundente e talvez por isso na poesia deve ser uma seta apontada ao futuro [ . e de diversas o qual impende uma subtil ambiguidade política comédias. a colonização como o recurso (a segunda mulher de uma perso­ Teatro Varietá Lourenço Marques. A sua dramaturgia compõe­ se de peças breves. Teatros de colonos colonos e de negros urbanizados. renço Marques.. t912 tempo numa mulher resolve muita coisa"). depois de um Infante Santo e a vida economicamente difícil do "poeta'. Apresenta gran­ A partir de certa altura aparecem dramaturgos. acabando por inculca o Tarrafal) há um fosso. ] neo-realismo. essas muito ou nascidos nas colónias ou directamente ligados marcadas. .

O sob a enfrenta o fei­ que mais realça o ambiente erótico do conflito. usando um relógio de pulso. mas Descolonização falando um p ortuguês correcto. . a terra. pois. "num aldeamento de cheiro do dem-dem. o seu imenso circunstancial dramático. . ainda que contextuali­ mas não menos clara: "Os teus assuntos são só zada na história: "O ódio do nosso povo aos nossos nossos. A começar pelo contraste tem feitiço. . pelo isso não desenvolvemos a análise. beba. mas viveu em sacrifício ritual do filho. ] " que o despojamento de objectos e evocações afri­ Muito mais próximo d o teatro tradicional. de Fernando Dacosta78. impressiona: África "é a guerra. o que deixa antever sequer a guerra colonial em si. ] de que vale ser soba. ] mas o branco não bebe. " [ . e a caça de casa" de "aspecto civilizado. em Portugal são como "os negros em África': podia dançar. "onde nenhum objecto deve referenciar África'. . ticeiro Kaluango. um conflito calor': E tudo isto ao som de um batuque africano. não tenha passa-se numa "sanzala. Eles sabem africano. ]. E refere-se a "África . a fruta. inclusive pelo traje da protagonista. é Filho de Zambi contrário. Soba. de todos nós [ . . o cheiro do capim e do caça . e um deles mata um grupo de ciganos. há mortes no aldeamento. com um distanciamento de 1 5 lá no Puto': E a cena como que retroage para uma anos. . Quem pagava era Tem entretanto muito interesse referir África Tchindulo": então e a borracha? (1990) de Isabel Medina8o. Mas o que se passa é uma evocação poética "em que incisivamente dá expressão dramática de um branco falecido.. . Zambi leva o filho do soba. e curiosamente pelo detalhe. e E finalmente: "Os brancos também fazem a segunda na mesma sala mas com um ambiente cachipombo [ . podia beber. com algumas excep­ ser o seu proprietário pessoa de algumas posses e ções assinaláveis. ( 1969)77 que põe em cena. e um grupo de negros descalços. Quatro antigos mesmo" . sobretudo na medida Em qualquer caso. Por isso seu chefe não quer que preto rina. pergunta a Catarina. que possa ser esquecido. . o que represente É de estranhar que a descolonização. . logo de início.. e não pagava nada. Cata­ que faz mal. o Tchindulo era "soba grande em que retrata. trajando à europeia" voltou . "espingarda dele nunca guerra. . A cena. pois trocava a "água do Puto" por bor­ soldados deixam-se envolver pelas recordações da racha. que os pretos aos traumas desencadeados pela guerra colonial'.cubatas toscamente construídas'. o Tchindulo. Grande caçador. recordam com saudade algo ambígua: "Era bom escreveu Luís Francisco Rebell079. . a s situações e o s dramas dos retornados e situação de feitiçaria: "Deus castiga aquele que acre­ da própria guerra. Luciano fez a guerra em Angola: "Somos do sacrificado tentam evitar o crime: mas a caça uma geração marcada': "Mataste? Violaste mulhe­ 47 desapareceu. a evocação de África. res?'. . Os sobas afinal são opressores [os romanos] é demasiado grande para iguais aos outros homens [ . Toda a gente sabe que tem obivando': das cenas. entretanto. sendo a primeira passada numa sala O que revela nova ambiguidade intencional. com todo uma certa evolução intencional. errava'." quando a vontade de sob a está contra nós?" Obivando ( 1968)16 põe em confronto um "dono Enfim. num envolvimento teatral de dita no feitiço:' Ora o dono da casa não acredita "mas muito boa qualidade. Seu padre também não [ . "velho trapaceiro" que lhe exige o Porque Catarina é de Moçambique. ligado a práticas de feitiçaria. a mais relevante delas Um Jeep evolução': em Segunda Mão (1979). ] toda a gente podia comer. e por canas são propositados. Mas mesmo Herodes contém uma mensagem E há também uma subtil mensagem aculturada de claro anticolonialismo. junto a uma cubata mati­ sido objecto de tratamento teatral à altura. . Mas não obstante se esclarecer. O escravo do soba e a mãe Angola. . Nem cada com alpendre e janelas.

] o amor corrompido por África" . Era nova demais. tudo branco. ] esquece África'� Mas afinal João foi denunciado por um companheiro.. ] Saí quando devia ter ficado. um berço negro [ . Eu nunca retornei. "Foi assim que levaste o João ao suicídio. Armando Nascimento Rosa deixa vestígios da presença africana em algumas das suas peças e desde logo. Vergonha porque saí."um berço húmido.. . tudo tão limpo .. ] palmeiras.. o outro personagem masculino. a auto-responsabilização pela morte de João. :' É a ideia de espaço libertador que surge... O céu é azul que só ali existe .. . João suicidou-se. vergonha porque voltei. . . Mas há outro drama de guerra: numa situação confusa de deserção. também. E também em Audição com Daisy ao Vivo (2002)82... A história nasce na oferta à pequena Leonor "de um boneco articulado vindo de África. Tudo tão vasto. Retornada . no texto infanto-juvenil Leonor no País sem Pilhas (2000)81 . E é Catarina que o diz: o seu coração está em África. p or quem Catarina se apaixonou. eu jurava que não era de lá.branca. E não volta porque a "vergonha não (a) deixa. [ . ao longo de toda a temática e aqui sublinhada pela música e pelo ambiente evocativo... tão imenso. o Tóli'� As referências a Angola e Guiné estabilizam numa poderosa evoca­ ção das inundações em Moçambique. como temos visto. É vergonha o que sinto. que acusa Catarina da tragédia. campos de café. Porque a verdadeira chave da peça estará - e é singular na nossa dramaturgia . ] Todas as vezes que me chamavam retornada. Eu não nasci aqui.na desambien­ tação existencial dos retornados. uma narrativa .. . . [ . Ou pelo menos assim julga Simão. Catarina substitui "o vazio de África pelo jogo" e jogo de vida ou morte.. vergonha por­ que a neguei...:' Aí. pensas que podes fazer o mesmo comigo? A guerra de África já não me toca [ . envergonhada [ . numa situação equívoca de paixão que lhe vota Luís.. com uma afirmação dramaturgica­ mente muito interessante.

tal como aliás justamente assinala tem em vista. contingências inerentes. na medida em que certos casos. aliás. em períodos de guerrilha. Ainda mais recente (2005) estreou Equador Refira-se. Em qualquer caso. Com da mentalidade e da técnica teatral adoptada pelas excelente qualidade Homem Branco. de exposição ideológica e política. como tal. Ed.o em edições muito circuns­ Equador de Miguel Sousa Tavares87? Este diz que tanciais e de difícil acesso. primordialmente. que aqui se procurará conciliar. em Politicamente incorrectíssima. opinião. tendo embora em que já vimos. Ulmeiro. este estudo segundo lugar. o qual. militante História recente. E em Como foi oportunamente referido. com as limitações e compraz em slogans. assume o contraste entre nos de expressão portuguesa. pensa-se. com as excepções e complementações dências segue-se uma visão abrangente das diversas caso a caso assinaláveis. o teatro constitui. os textos Sinde Filipe84. tico dizem qu'e não. vinha sendo já utilizado pelos autores desmancha estereótipos de uma ideologia que se africanos no período colonial. global. de que há notícia. o teatro de expres. que muitas peças escritas e Passa em São Tomé e Príncipe. o Bocage de recolha respectiva. estando em execução permanente a de Pedro Lusitano de Norberto Ávila83. ainda. Ou o caso de certas peças e autores e de certas raízes sociais. um meio privilegiado numa troca de situações hábil e muito interessante. Luís de Camões de Eduardo Damas86. foram já identificadas para cima de peças contemporâneas. ainda. à expressão dramática literaturas e práticas dramatúrgicas. theid na África do Sul. como mesmo que a pouco e pouco dramaticamente se revela. essa transversalidade. uma solidíssima abordagem da ideologia. como diversos territórios no contexto anterior às indepen- também. significativos da matéria em análise e constituem. a integração do negro nascido em Portugal e sem Assinale-se. 1982 Fundo Bibliográfico do MNT jovem Fernando Pessoa em Durban. Em primeiro lugal� o teatro não constitui o núcleo duro das novas literaturas de expressão portuguesa. Mas diga-se que. . entre outras. em parte fruto em si. que a seguir se analisam são.Um Jeep em Segunda Mão dramática situa o problema do racismo e do apar­ Acresce que a lista de peças agora apresentadas não Fernando Dacosta. situação que se procura sim e sem autorização: os autores do texto dramá. os mais CentenoB5. tanto no perío­ anti-racista mas eivado de um racismo profundo do imediato das independências. Duas peças recentes tocam o tema África. Lisboa. Homem Negro modernas literaturas dramáticas dos países africa­ (2004). colmatar. pese embora a sua instrumentalidade histórica e política. de Jaime Rocha. também acima referida. à estandardização política dos são portuguesa tanto no que se refere ao texto. tificação transversal9o. Importa ainda ressaltar dois aspectos da ques­ tão. na nossa ções historicamente consolidadas como é o caso. As Três Cidras do Amor de Ivette K. do Tchiloli88 e do Auto de Floripes89 vista as perspectivas específicas das peças históricas são-tomenses. que no ponto de vista da qualquer tipo de problema e a do branco. ao nível de títulos e de notícia de Finalmente surgem personagens negras em espectáculos. ou nunca foram abriu controvérsia: é ou não adaptada do romance editadas ou foram-p. O que significa um tratamento muito menos da "unidade de acção dos vários movimentos de exaustivo das aculturações de teatro tradicional independência" o que conduz a uma natural iden- africano e de origem étnica com excepção das situa. António Loja Neves. reportando ainda à estada do é obviamente exaustiva. em relação à qual se representadas. por exemplo As Viagens cem peças. não impede uma visão 49 aqui citados na perspectiva da matriz ocidental. Entretanto.

. brancos [ . O que dá credibili­ -se uma visão dura da sociedade angolana do século dade ao substrato dos conteúdos respectivos.e José do Telhado. depois capitão de milícias ao serviço do plicidades entre colonizadores e colonizados. ou mesmo dominante. sendo certo que o tom dominante é a conde­ definidor de um conteúdo crítico . com fortes perspectivas históricas directas. D. que o auxilia nas guerras contra os ridades tradicionais no fornecimento de escravos poderes locais e na captura de escravos. evocado num pectiva problemática e das teses em presença. Zé e os Escravos (1980).AnaJoaquina. São citados textos do bispo colonialismo. Cândido tamento dada à missionação: mas reconheça-se que Furtado ( 1864)93. .. de guerras interétnicas ou de auto­ Empacasseiro. XIX: a hipocrisia quase blasfema do clero e da Tudo isto. . realidade histórica das solidariedades e das cum­ degredado. Ana Joaquina com o Mas. um autor extremamente rele­ dade moderna.. é José Mena Abrantes O fundo ideológico é por isso dominante. de J. . Uma matriz não maniqueísta As situações históricas directas Estamos então no quadro de um teatro pre­ É pois interessante começar a análise pelas ponderantemente político e social. Em qualquer caso. .] davam tecidos e missangas .mas desenvolvida na contra o poder português . respectivas alianças políticas e de poder. ] mas não para os escravos Por outro lado. Dois perso­ muitíssimas vezes assumido com grande clareza nagens centrais definem a problemática histórica: . prólogo algo poético e algo idílico do período da mesmo no contexto pós-independências. vante. António Tomás da Silva Lopes e Castro ( 1892)92 Nesse aspecto. Seguindo a classificação e ordenamento Mas o mais importante e de certo modo rele­ cronológico proposto pelo própri09 1 . também não é escamoteada a de D. e de outros. isto entre 1862 e 1875. que mantém o regime escravocrata­ os autores respectivos. agora a partir de o criticismo das situações pós-independências é 1836. o mais interessante é a frontali­ escravo que ela própria chicoteou. (Angola)." . marfim e escravos. repita-se.. e sobre­ ano da sua morte.o que nem sempre terá sido cómodo e fácil para D. o de tribalismo. Quer chegada dos portugueses a África. assume também relevância o tra­ mas também da própria D. e reverte O limite pessoal dessa cumplicidade surge no sobretudo para aspectos políticos e não religiosos. diz a própria .também é certo que peça com muita qualidade teatral. ano da aboliçao da escravatura. numa base rei branco" pelo seu cúmplice africano (negro). mitificado como "o grande e bom tudo a intervenção dos poderes locais. Logo aqui e noutras colaborações activas e recíprocas (cola­ a dicotomia colonizador/colonizado se esbate ou boracionismo. de cada país. diríamos hoje . que um dos meus colegas no Brasil chamou a pre. envolvimento sexual de D. . Joaquina. em Ana. Ana Joaquina'. Pediam ou a demonstração de sinais seculares de rebeldia ouro. . 50 . as Governo de Angola e do reino. derivas históricas mas sempre voltado para a reali­ Nesse aspecto. E também nem sempre esse mani­ em si mesma e fundamentada em documenta­ queísmo constitui condenação cega e absoluta do ção referida na peça. encontramos vante no contexto da pesquisa é o carácter não desde logo. Haverá aqui um dade com que muitas destas peças encaram e criti­ eco da brasileira Chica da Silva? cam a situação política e social dos respectivos países. a partir deste quadro traça­ no contexto pós-independência. "a escravatura acabou [ . ."os homens nação histórica ou mais imediata do colonialismo. com as causalidades que diante missionação ("acreditar. . esse tratamento não é globalmente favorável. por vezes quotidiana. e desde logo dizer. acreditar apenas naquilo iremos ver. ) entre colonizador pelo menos assume uma cumplicidade histórica e colonizado. um maniqueísta e politicamente incorrecto da res­ notável quadro da situação colonial.

e cobre a primeira peças.. precisamente. e no tráfego de escravos.. mas recua no tempo. . Há um forte contraste com a tosquidão castrense do Pai e com a dimen­ são épica das batalhas e das estratégias militares . principais reinos de Angola [oo."já rechaçámos várias vezes. ame­ S ó entram cascos d e azeite com água doce'. diz a síntese do tação biográfica a colaborar na repressão violenta e autor. vemo-lo com plausível fundamen­ fase da colonização. como na altura se trajectória de um mulato filho de escrava que. símbolo da magia africana. Trata-se. Mas o tema do racismo concentra-se na mestiçagem do protagonista: "Desde quando é que os mulatos têm quereres?" E a matéria é retomada. tino ("no embarque da carga está tudo em ordem . num plano actual. . nos ensaios da própria peça. O tom ( ca r ro realista da peça. é corrigido pelo ambiente onírico e simbolizante da Mãe e da pedra escura. Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios cinema e no teatro: esta peça. com a cumplicidade ao ajudar a destruir em pleno século XVII os três interesseira e desapiedada. Coimbra. o campo está cheio de cadáveres [ . : ' capitão do navio negro). dizia. num bem conseguido registo pirandelliano: "Não podemos arranjar maneira de mostrar como ele já 51 compreendia as contradições raciais da época dele? . pelo debate entre os actores que. no Sequeira. Não deixou de socorrer a pobreza torno da figura de José do Telhado. numa ZÉ DO TE LHA DO verdadeira guerra civil. diz o drontar-me um preto. depois de ter encarado de frente tanto branco. por mais retinto que seja . na Fundo Bibliográfico do MNT cumplicidade das chefias e dos povos locais. cita amplamente (1992)96 retoma esta análise histórica de Mena o Zé do Telhado de Hélder Costa94. O tema religioso é tratado uma vez mais num registo anticlerical que toca a blasfémia. ] Eles têm os ferozes mascicongos e arcabuzeiros mestiços . Mas em 1875 José do Telhado é considerado O contraponto desta situação desenvolve-se em "o bom rei branco. discutem o enredo e as soluções..] não sabia (?) ainda que preparava já a existência futura de uma Zé do Telhado Nação': A perspectiva histórica assume assim uma Hélder Costa Ed. dominante mesmo nas falas dos CENTELH A personagens negros. a borracha e o marfim do interior"). gação com a espada e a vara de ferro" o apego de E a í realça-se o lado violento d a colonização: José comerciantes e colonos à escravidão ("quem nos vai do Telhado "ainda há-de ser um bom mata-negro!': trazer a cera." Mas os portugueses têm nELD ER C O S T A o apoio escravocrata de potentados locais. . . da "atormentada trágica e desconcertante sanguinária das revoltas indígenas. portanto. Teatro Centelha. e dos próprios africanos. cuja dimensão e proteger os fracos':95 histórica tem sido objecto recorrente na ficção. a E assim é: "Arrasamos tudo como nos ordenou': E o hipocrisia das autoridades face ao tráfego clandes­ racismo do próprio José do Telhado: "Teria que ver. Em ambas as Abrantes. aliás. 1 978 preponderância que se reflecte.

testado quando diz que "esta ilha era nossa [ . a resistência dos povos são­ A tese histórica. num quadro ramente existe e nos faz existir [ . [ . A viúva numa perspectiva crítica A Revolta na Casa dos Ído­ do governador Cerveira Pereira fica em Angola : "Eu los (1980 Angola) de Pepetela 1 0l.] é o Teatro!': que nos faz lembrar o Zumbi e os Palmares de Na mesma perspectiva histórica situa-se ainda. ] A minha filhinha há­ antes A Corda102• A partir de uma certa aproximação de crescel� casar-se e quiçá ter descendência nesta ao teatro épico-narrativo. que ilustra as primeiras dobras. da crítica ao clero [ . diz-se no texto... ] nossa do colaboracionismo. que já escrevera - por mim vou ficar por cá. ]" Lido . ] que verdadei­ histórico. :. .. mas também do esclavagismo.. casamento com colonos portugueses. com muito boa não ser branco:' qualidade dramática. tais famosas mulatas de Benguela[ . aqui.. situa -se na própria unidade política de Angola. Reino ou o Azar da Cidade de S. Portugal (como) escravos. Depois do desastre de Alcácer Quibir a nossa força com o Fundador que lhe tocou em Sorte (1997). Mas subsiste também uma bárbaros'. tíco Rei Amador. retoma. .. das oscilações e traições dos de quem? Dos que vivem do suor dos escravos?': governantes e dos colonos.Pelo menos devia sentir-se um pouco à margem por especial O Rei do Obó. 52 . e cumplicidades em povos e autoridades indígenas: hoje. a peça mergulha numa terra[ . .. tituição epocal da revolta percursora.sou português!': Mas é con­ altura se repartiu. ] Vai na mesma linha de reconstituição histórica mas com um factor positivo da colonização. os "brancos queriam era Mudemos então de país. (1991)97 que evoca a transferência para Angola designadamente Teatro Julgamento implantado por . plano da reminiscência histórica. . Numa mistura de condena: "Da próxima vez será muito mais para nos linguagem popular portuguesa e de aculturação oprimir'. E quando per­ alegoria política das guerras angolanas no plano guntou a João de Pina se é "castelhano ou quê'. ele interno dos diversos reinos em que o território nessa responde "com orgulho . factor de fixação de populações europeias "nessas mas "os fujões são cada vez mais': regiões povoadas de seres incultos e de instintos O registo é cómico. ] Uns partiam. na sua infinita mise­ nia numa descrição da situação no Reino do Kongo ricórdia.. aqui. João Branco assinala a mesma de Mena Abrantes. O certo é que. e em ancestrais. diz Frei Afonso. Alfredo Boa199• Aliás. numa linguagem que oscila entre envolvem-se cenas de actualidade e uma recons­ o simplismo profético e certo expressionismo..e também para o Brasil e para Goa . ]" E mais: admite-se uma situação inter­ visão muito crítica mas com traços de grande iro­ racial: "Quem sabe se Deus. E vimos no Tchiloli influências recolhidas em conventos e encaminhadas para o são-tomenses em textos de Mena Abrantes. o monólogo A Ólfã do Rei influência em iniciativas de teatro cabo-verdiano. . dessas .1514 a partir de um conflito que conta com apoios . Filipe de Benguela. aspecto muito interessante.. no plano E no final.. é mais bem tratada: o Frei começa em 1593 e funcionou efectivamente como Afonso acaba por proteger os escravos foragidos. O sistema A missionação.. da independência do país. "o único prodígio [ . aliás uma vez mais documen­ -tomenses de S. não a ajudará a parir no futuro a primeira . João dos Angolares e do semimi­ tada. através de um processo de colonização que o autor papel-moeda da independência. os O Teatro do Imaginário Angolar de São Tomé padres ficaram': Mas é preciso voltar aos costumes e Príncipe (2000) de Fernando de Macedo90. mas mantendo o sobretudo homens para levarem para a terra deles.. [ . terá de certo um significado adequado e nesse é como sabemos um tema recorrente.de órfãs Horácio Santos 100. moral caiu muito . diz a Mãe. dimensão histórica e patriótica da matriz do colo­ E não está fora deste registo Sem Heróis nem nizador: "A Fé dos nossos anda muito por baixo.

'lU oIe U�b ·iut':I"'IU� � ...$ das pessoas': Ora. poderosamente afirmado. 1948 REVISTA DO UlliA/. dfto<<:>Io J .o}:.!'tJiCO: .oe . n"U"" p..<.d.n«"'�· r<i· ...\"...... A estrada é historicamente exacto. . com repercussões da Guerra Civil """'i<:.«. .>!­ ..Lé:t .:. <"Ij _ .... taa­ ...l<!o hih !'ll l<fru .. N�" �. <Of'Od. E a autoridade local portuguesa aos comerciantes portugueses [.21<11lt_".rfO do.....I"..t. r.uo>r.to _...Io!o::o...o P:Ól". 1 .<hoo.i". lUto ltl..�I'O 6 .."FftI.. . •�. ..}<.><. cWio di'<df...t ..u '" u>!..tlo raoJo. l r. � o ''''' ''''4r .''' .o(d� 1j"i. O "... "..l.. �T�'" pI. �.... ... uLu .. '{Ot.Ui"..j.O """ ·�='1"' oq. • ••.>t �'>t.. o lZIol.a c!c .iJÍ<> _ ..«or. d. tugueses": ele e o sobrinho D....MJ. Iii _ '1�' o.!d!�·d�·������� la. . � r . � I-!... li>U d<a p..n<.'Jo..• � d.o d.i.. �dI<J.�. n r�� C.h I"'�" F.o...�:.r"i .UI u>!:� r..!':��:.. ÔI....G'" :�� I .I O .I..l<urioJ<.".i':..."..o <4 • .�==�.I..lu= .10" 1'-> • • local..lI. c:IO�.? . .. .PnH. ...!.. n . 'u tulr<I J..:.. . .u..".. .tlllridoSo.""ul.�:": :nlf��.. "... o rei do Kongo "permitiu a entrada dos por­ (2000) 104 do moçambicano Leite de Vasconcelos. I.se...:t:l..�.JUI<� d.i..i.. . __�<>k. o racismo aflora no comportamento dos a força [ .) � .....lli.-. ... I" � nJO. �..u d1.u s.u.'" . r-o< . •... .uUf'·"'" . ..& .J..... ��:':i�. do I...:..qu ll-od..u .1" p..tor "'-"".. .u..Jou. I'� f''''II.w... o "'-.. . p. . � 'c..u... crítica peças de temática histórica moderna.6.t. .. Auu Ah. ' <'.m _ lu... . .Õ<i:lin cr.<I..:...lu\r�h rN"� UI� t'> 1�.>t 1l.. ü.o� �..d... ... .e..P...... ���u:jE���f?::f � ... Ir"....i. fU p.:MG<bto. u•••�d�� <OIIIj>I• Achada Grande do Tarrafal (1979)103 de Franco pon. .. rsr. Somos nós que temos toda escravos". cJ....:....Iu....... .t�'....«<. o!...ta lu".(O l lu '!"' ...'� �.!!:. No. 10 1"'" UI.. .» .!.. u..\nu " ••b ..... Mas são homens como nós... .l. [ UN'''''' ""' U�h'''' luu.o d.. p.....U:o"" ' 'I'''' ".. . .l .e<hf.. �6o. u....rlo..�..U.r � M.o 1.lu t·"" l n.. .h�... f<>i . : a .<k _ A história moderna e a crítica da situação �.. ec.. . ç. IUI I.".. . i!uc....1... .!o AlmtiJ. "...hJ....<t". ��Í(" ...rU.� ••bo-. elo:.�lu ..bk� oe ..IvoI..... �.""i.. .l.::· .dt:.Ic'. deve ir para os que "trabalham com as mãos'...ko uk.k de Sousa (Cabo Verde) é uma dura evocação do !t. r..f .' 3. z.=r...o..a . É tudo o que os portugueses querem... � 1.·l<ol>:>l� " f"""·..Jo (4r..�I.� r�.. ptiftlbo... .lro � de Espanha e ainda das relações com a população \'...oç . �J.0.I.�. .Jo ...(..1...m ..."""l<>Ihd f. toMit&t .k I". quadro histórico.:':�""�7M::::N.... . c. t r u I LOURENÇO MARQUf.. .. . qC• •= I•...... • .� . ::...1M entidades locais. ".k:t=>:o..u .� -r.. ..IoJI� de fundo a peças de Pepetela passadas nos nossos <N-� .duo _ 20 do Abril & �.. "'.. ".W _ . .....s.] os artesãos [ .ftoJ. �.. o povo...!.iho. mais acen­ O problema complica-se com a intervenção tua a crítica à rede de complexidades que o autor dos missionários.o c.ui .&o bu.*....�.t.f"dkY...� ..� r.""w..lI...o li· N.. U. ... relativamente à r�' '''.l. r!e...-." . desde os administrativos à PIDE.r"_I� 'lU .' J.... ."""" o <.o de 1. O::' I'<<<b � "'''. como habitualmente muito mal­ obviamente condena: mas a solução do crime fica tratados.... O rei vende escravos aos para a Rodésia servirá para enviar "contratados" portugueses: "A maior parte para o Rei': Mas "tem pelo Lucas Mateus "praticamente um traficante de medo de nós... enIo ck .. ..k• . dias e já depois da independência.. .alr. r!t\..�üJ.. .. " . n... c . ..x.t1Uu • -.l<> .. . .. � • •\u".J.... •• """. li. o que aliás vergentes e uma vez mais ambivalentes. ...o Tutrol'ou<. tiu • 4>LWiJ• •�hI... Mas "o que pode mudar as coisas é o desejo P a :n o r n :lI1 1'l1 T e D..i.. quadro da transição para a independência.odoo _ <»rÃ. niais...t:�� . ." o =<...:u.1o .. o que brancos ("vocês fartam-se de dizer que os pretos não é historicamente exacto no século XVI..tIJ. ""'tl-ou!.U ..t poç. 29 O conflito religioso. . campo prisional.h d.'.. .:�IOo. .d.. l . a venalidade dos pares e a destrui­ ção dos ídolos constituem aliás a síntese conflitual da situação...ô .. Revista do Ultramar..<:>f .."il. ] os escravos e (Gomes) não sai assim tão mal..pn: é '•• rkil sociedade e à política do Estado angolano. .I'" 1 . �r....'P.. l cco .al>i.. Afonso subvertem a onde a temática política se assume em planos con­ ordem tradicional e aliam-se a Portugal.. "" C<.. "O padre só diz aquilo que interessar em suspenso..w. kc:o Tt.. �''' I'':".. Maio... n-h? 1<'..n<:>"o• . "!4 n ... n. J..ut.� �:.. A io... mas depois da está na raiva do povo (e) os interesses do Kongo são independência as novas autoridades "trataram os apenas os interesses do povo do Kongo:' E o poder régulos sem grande cerimónia")...? ... f.. n..:/""- . 'la . ch. """. �.. veremos adiante que este mesmo :-. serve TNs.l.. """ · i." . d." nível: já num nível acima a situação torna-se mais O capitão e o padre usam e abusam de uma lingua­ crítica. �. tiQ F. �..� �.. .... . I»tlil:ri. gem blasfema...o.. ÚV.!�'..:. ..u(. lo la..n. no ':C:.� . ..i-p>� ecepuM �bl'OO'll 1.... .. " Entram nesta perspectiva e nesta problemática tl<.�·��-:!·� f'lno..I\ob �.t:�r��: ��:f1:: J.� do> ..oa. ...u ..:oo ". >h� .. U. f.. Ik-..dor ti...._ • ..r.� � -Ae d' '-''i�I&. pelo menos a esse o marfim.u . .�:. .�".b ..... .L. .I •• "U UI· -E po. . •• S.. I.. . j A Ulp"""" <elud.14ico.. c.1«......o.... ] os camponeses': . política antes e depois das independências .q_ pol<a.oci<&&l &t 1........-o. mas nem querem ouvir falar é politicamente correcto nos nossos dias: "A força em eles serem tratados como gente".. • I"'" t. "p><. u Tt..'. ." .�.a o -u.. U& eo d.. . VAI A ANGOLA o Tealro dOI Elludlnles di Unlversldad." lU . numa A evocação do ambiente das autoridades colo­ visão de proletariado descontextualizado...I. .. fU. É também o caso da muito bem armada trama 53 política e policial de As Mortes de Lucas Mateus . do plblko q �olcs �.ie' b'" . ..o T...q . "'l>1..v.ch d. . Ild..d.. 1<U.. a cumplicidade dos manis..rtt. IId.h k41.p!.

A Última Viagem do dura da realidade angolana. Pior. um dia gabou-se disso': que é o colono. Mas isso também tem o tempo O apresentador bem tenta desculpar-se: "Era dele acabar!'. temos A Pele do Diabo (1977)106 do Angola. . ] " nessa nossa cidade de Luanda. Intelectualista! Isso é contrá­ pelo menos na sua primeira parte. 54 .] está bem identifi­ policial a partir de tipos correntes da população cado o inimigo da classe. destaca-se como condenação directa "o vício do intelectualismo': O principal crime do do colonialismo. certo tom absurdo no segundo texto. Século sibilino'. respondem-lhe tinos encerrados num contentor. E a respectiva problemática. que trata Como testemunho indirecto da luta pela inde­ a situação dramática dos retornados do Zaire a pendência. Essa originalidade de ir à escola . _ RegressadoslO9 é um texto realista. Quando p ergunta se "é crime que põe em cena a situação real de três clandes­ fazer uma apresentação original'.. . O primeiro. O Cão e os Calundas107. ." pedir esmola: "Mas na terra do colono. Os textos dramáticos Príncipe Pelfeito (1989) 110 constitui uma alegoria da intitulam-se O Elogio da Ignorância e Regressados. ] foi à guerra neste navio". "A Vala Comum'. como álibi ("cumpri ordens"). .] o problema é depois sítio onde com­ Vietname. pessoal e angolano Manuel dos Santos Lima. . . curiosamente social.. . . um "belga duas dramatizações autónomas. constitui um violento libelo con­ à guerrilha que o repudiou. diz a Mamã Luzia. de "O Suicidiota'. Paga uma grade de cerveja': da PIDE assume valor simbólico. onde integrou zairense. ] " o tom expressionista do terceiro. de macaco para ali[ . "A escravatura já acabou há muito Escola. . . O Sr. e ter um paizinho que pagou os estudos [. . é vício de O apresentador é pois "condenado à pena cidade:' E a promiscuidade sexual do chefe Sabrino máxima. prar comida. "As cenas que se que tinha a oficina" só tratava os empregados "de vão narrar passaram-se no ano de 1980 e seguintes. com citações de Fernando Pessoa. matou sem convicção tra o colectivismo intelectual e artístico. Não é culpa minha [oo. com veteranos da Guerra do é o dinheiro [oo. No Liceu . Abrantes. Certos desvios que "já confessou o crime [oo. escreveu o autor em 2002. toda a gente tem um só dono. descrita em tom objectivo: "O problema não ambientado nos EUA. a mediocridade e a prepotência. A revolução de 25 de Abril e a guerra O primeiro. O segundo actor também tem pendências. António é um obrigado a estudar. .] Esta fuga constante surrealistas. O racismo perdura: no Zaire. "O Contentor'. tentou juntar-se grupo de actores. Esses que andaram na da sociedade. África. descolonização. . Hoje em dia. E designadamente dois trípticos de exce­ O conjunto contém de facto uma visão crítica muito lente linguagem. Tudo isto num texto de excelente qualidade O apresentador é condenado pelo colectivo de acto­ com ressaibos pirandellianos no último episódio. res por ter desviado "o rumo da peça pela sua intro­ O outro tríptico é O Pássaro e a Morte (1994). tempo. No Século passado. O Panfleto ( 1986) 105 de Domingos apresentador é saber lel� o que representa "uma Van Dunen (Angola) que retrata uma situação fuga constante ao colectivo [oo. . rio à nossa linha!"IOB. Noutro plano ainda s e situa a obra d e Mena portanto. ao colectivo.] como degredado: "Até parece que é o único condenado se um colectivo de ignorantes não fosse capaz de que veio em Angola:' O colono trouxe "o vício" de encenar uma peça sobre a ignorância. pois não há supermercados:' O médico Pepetela publicou em 1985 um curiosíssimo não consegue que lhe reconheçam o diploma texto em prosa. Nesta temática em que se aborda a história e a Mas parece que não é s ó o apresentador que política imediatamente antes ou depois das inde­ está a ser original. fez o quinto ano do liceu. cena de construção e ensaio de colonial são evocadas pelos dois lados: "O clandes­ uma peça de teatro pelo apresentador e por um tino [ . dução individualista. macaco para aqui. Esteve exilado e tenta voltar a para a ignorância.

. E a alegoria transfere-se para o processo de descolonização e a independência surge num contexto de repressão violenta. . Grupo Cénico Korda Kaoberdi. que através dos ("fuzilar um homem duas vezes é ser desumano"). Cabo Verde. surge em Mena Abrantes na poderosa alegoria de O Grande Dramatização da vida quotidiana Circo Autêntico ( 1977. que todos conheciam por so-minas fica a plicidades históricas e políticas e da permanência partir de agora a chamar-se so-minhas. que o seu fuzilamento des­ aliás os outros temas e subtemas analisados ao mentiu.. o que envolve uma interpene­ de leopardos ascendeu .. como um modesto tratador vezes sobrepostos. na alegoria do Palhaço Rico e do Palhaço Pobre. " Os leopardos actuam com ferocidade contra o coro. passa a ser cerco. o Amansar Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo das Feras é a definição do poder político. E muito de situações de afronta à liberdade. 1982 Centro de Documentação e a morte do líder popular. na perspectiva das cum­ minas. Ao abordarmos agora e por vontade alheia. [ . a dono do circo': a retratação dramatúrgica do quotidiano. a última Farsa. tal como de Patrice Lumunba.1978) 1 1 1 . . O esquema é mais com­ Investigação Teatral do Mindelo plexo. ] o Circo deixa de ser circo e saro e a morte servem de ligação. 1953 Grande Circo é o fim do poder colonial. o Grande Circo As Troianas Autêntico é a ditadura do novo poder. num fundo de questão religiosa. ao 55 ponto de o Líder Popular reconhecer que "trans- . Cabo Verde. . aliás não O texto abre com um "esquema geral" que Mindelo à Tona orienta o leitor no seu didactismo alegórico: o Grupo Cénico Amarante. ]" E por aí em diante! sinal contrário depois da independência. a Ameaça contra o Circo é a independência. filho na vala comum ("eu preciso de ser a mãe de E a fala afinal mostra um enorme desencanto todos os mortos") .tudo isto atira para a passagem por parte do autor.. ] A sociedade das minhas nização/descolonização. mas aqui diz bastante do criticismo corajoso da alegoria: e a situação no ex-Zaire não exclui as generalizações.. Diz com efeito o tratador: "Agora do realismo para o ambiente mágico em que o pás­ que isto tudo é meu [ . .sem qualquer escrúpulo tração de temas e situações. Com uma epígrafe Importa referir que a vida quotidiana. ] conta. ou quase. não destroem a unidade crítica: o confronto com formaram a independência numa j aula para nos a polícia na África do Sul ("os polícias dispararam observar do exterior': O Novo Líder Popular acaba à toa sobre nós . meio a longo desta pesquisa são convergentes e muitas sério meio a brincai.") ou a intervenção dos militares por passar a acção ao tratador. por sua vez. . . esta "farsa tragicómica [ . chicoteia à esquerda e à direita com vigor:' Mas o poder colo­ nial (o domador) alia-se aos novos poderes. Mercenários e dos Leopardos levam ao fim do ou ainda a situação pungente da mãe à procura do Circo. que exprime melhor a realidade Mas a mais dura crítica ao processo de colo­ dos que estão cá dentro.. .. Toda a primeira parte retrata uma colaboração entre colonizador e colonizado. mesmo de minhas! [ . enquanto o domador.

aliás. os namo­ escassez de teatro em Cabo Verde. não se Os Dois Irmãos preocupam com o teatro. Mostram um quotidiano desencantado de homens e mulhe- res sofridos num meio urbano pequeno e pobre (o Lombo "zona labiríntica" do Mindelo). seus problemas. Jorge Tolentino). e até as de teatro tradi­ lado. © João Branco e Descarado de Donaldo Macedoll4.Argumento para bailado folclórico (1946) © João Branco de Jaime de Figueiredoll2. Osório. 1 1 5 © João Barbosa António Aurélio Gonçalves e Cândido Ferreira propõem entretanto uma adaptação da novela do primeiro. da "Certeza" e do "Suplemento Cultural'. as alegrias e tristezas. Uma situação algo insólita prende-se com a as irmãs Titã e Zé. Ano Noho. na rados e os polícias quase humanizam o substrato obra citada. Manuel Ferreira. e por outro adiante encontraremos. reconhece-o: "Uma das formas menos expressivas Cabo Verde. Guilherme Ernesto. Artur Vieira. para citar só estas referências. Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Flávio José. E cita as peças Gervásio (1977) de O. género irrompeu em língua nacional com força Cabo Verde. 56 . dúvidas e esperanças: as amigas de vida agitada. e não poderia "Vocês são todos meus filhos. que a realidade cabo­ -verdiana largamente justifica: "Viver é com luz:' Mena Abrantes. em Calanga. O que não impede a mamã Luzia de dizer: espectáculos do que peças originais. Verde. também não fogem. o pequeno comércio de sobrevivência. os vizinhos e os amigos. 2004 Jaime Figueiredo.muito numerosa. teremos presente que. O Panfleto de Van Dunen é transversalidade. os embarcadiços nacionais e estrangeiros. Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ IC. Cabo Luís Hopffer Cordeiro Almada (Eugénio Tavares. 1999 mobilizadora e com função essencialmente forma­ Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo tiva" 1 I3. Os poderosos movimentos barriga aqui! Ninguém é afilhado e enteado:' da "Claridade'. 1999 desta literatura é a área do teatro:' E só cita Terra de Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Sôdade . por um As expressões de teatro popular. As Virgens Loucas (199 6)116. A família da mamã Luzia. muitas vezes. disso exemplo flagrante. a esta também o quotidiano. Os mesmos e Preto no Bronco ainda alguns autores esparsos são referidos por José Grupo de Teatro Juventude em Marcha. algumas das peças já referidas enquadram cional. A Doida dos Cahoios ( 1987) 1 1 7 adapta à cena um romance de António Assis Júnior O Segredo da Morta (19 29) 118 . como a bem armada dramatização cénica traçam uma panorâmica da sociedade popular da cidade. documenta muito mais a produção de político. as festas. Tanto o conto. ao afirmar que "após a independência esse Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ Ie. Saíram da mesma ser de outra forma. nelas subjaz a situação política. João Branco. Mais optimista será Brito Os Dois Irmãos Semedo. que mais lado. amores e desamores e a esperança.

mas sem quebra de autonomia criacional.. 2002 Centro de Documentaçào e de inspiração. não obstante não analisarmos o Chaka122 de Léopold Sédar Senghor." Expressões poéticas E finalmente: dentro dos critérios já largamente definidos. será altura de referir que as expressões poéticas desta dramaturgia assumem maioritaria­ mente as formas do teatro e do espectáculo tradi­ cionais: o que não significa uma completa ausência de conotações políticas e sociais.Satan de Macedo. O carácter fantástico da intervenção de © Joào Branco "méssê Damião'. do curandeiro. mas não se sublinhado e simbolizado na "cobra dos meus infor­ escusa a um claro pacifismo e apelos à expressão túnios e mensageira das minhas desgraças'. de São João de Angolares. ] combater a intriga e cura da Calanga. pela sua especificidade. É como se estivesse no exílio. oscilando entra o realismo e o fantástico.. redunda numa cena de marionetas em que os míti­ cos rei Amador e Andreza são evocados. É o caso de No Velho Ninguém Toca (1 978) 1 21 As datas dizem muito acerca do ternário obviamente do angolano Costa Andrade. vente mas enérgica na sua dimensão política. Mas também pertenço a esta grande família que é fermento do nosso povo. fazemos referência a E citamos ainda três textos não analisados mas 57 Cloçon San ( 1 997) 120. Sobre dade/ calcar as preferências/ despir a vaidade/ des­ ele escreveu Pires Laranjeira que "vale sobre­ mobilizar o comodismo/ descalçar os santuários" tudo pela especificidade da representação social pois "autocrítica é o que se pede'� Cita-se entretanto e espacial" 1 l9. num contexto que traça Diz-se por exemplo que "é necessário iluminar bem a sociedade da época. Mas a par do realismo. numa situação que gira à volta de Madalena. que nos fez dramatização que aqui assinalámos. as sobras/ Em nome dos olhos que vejo/ abater a E o mesmo se dirá da dramatização da lou­ demagogia e o calculismo [ . tanto mais interessante quando a divisão tribal! [ . ] sepultar o racismo/ abrir a ver­ . se relaciona com a época do romance. num símile com o mítico Jika. lembrar. do são-tomense Fernando relevantes pelo peso literário e político: A Esperança . a cargo do Forasteiro: "Venho de uma terra muito longe. da memória dos náufragos e da pro­ fecia do "filho que será o novo guia do nosso povo. da sociedade Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/I(. a toda uma Investigação Teatral do Mindelo literatura. De uma poética envol­ ligado à sociedade colonial. Clara Pederneira. uma vez mais. que pelos vistos serve Cabo Verde. o que corresponde à perspectiva da o Che. um rei de todos ignorado crescerá do teu ventre" . E finalmente. aqui o teatro tradicional. Trata-se. a mulher de vir­ tude. atinge surge pelo menos na cena um certo expressionismo em primeiro lugar o regime colonial.tudo isto. Com uma nota política. diz a democrática popular à volta do mito do "velho'� velha D.. da "Santificada'.

Pedro Andrade. e Amirá. e A Montanha da Água Lilás - personagens entre pessoas."fábula para todas as idades" expressão poética está bem presente. o que não é atingem uma expressão poética dominante.. a Tartaruga e Miúdos ao sol! não matam ninguém.. ] trabalhavam muito e eram sérios". Interessante a adaptação enquanto amor de Luarmina e de Zeca Perpétuo. autor do conto e co-autor da adaptação Filha do Sol e da Lua (1989) 1 25. como está no . Trata-se de uma "estória" de seres míticos. filha de um marinheiro grego.. . diz o romance. é "mulata'. ] devolve tanta alma como a lágrima deslizando': . diferentes de todos os outros da terra'. dentro da baleia:' Mas se calhar "( .. A (2005) 1 26 romance ..lírico diálogo de rico-coloniais. [ . fábula para quarenta (2001 Moçambique). os lupis "cor de laranja. Zeca lamenta o facto de a "vizinha Editorial Caminho e eu não nos simetricamos já'. A Luarmina "para os devidos efeitos (não) é branca'. Natá­ habitual. 1 27 belo Monólogo para duas vozes Amêsa ou a Canção Vejamos a primeira. "O Padre português [ . e Sagrada Espe­ ("Lá vai a nau arrogante/ com muito para contar rançal23 de Agostinho Neto." E "nenhuma carícia [ . ]/ Olha a triste viuvinha/ que anda na roda a cho­ Referimos as dramatizações de Fernando rar"). de tamanho desmedido." o Gigante (1989) 124 constitui um caso interessante E há peças que assumidamente procuram e de passagem de um país para outro. artistas... Mena ainda deve ser citado em textos de lia Luiza surge assim ligada à teatralização dos poética tradicional. como Na Azuá. Mas o final pode permitir uma interpretação Macedo e de Mena Abrantes próximas do Tchiloli. e os j acalupis. animais e mitos. "mais lentos [ . .. . "muito pregui­ çosos" e prepotentes. a mulher de Zeca © José Frade "rebolinha de prazer'� 128 E a nota política também está presente no con­ texto onírico. Outro tom assume A Montanha da Água Lilásl29. . . A Estória da Galinha e do aculturação de poemas tradicionais portugueses Ouro (1984) de Luandino Vieira. 58 . significativo pranto de sofri­ onírica de amor e morte. ] educou( -a) em pre­ ceito de Deus e o livro'� A certa altura fala-se de um "país capitalista (que) estava a abastecer os bandidos e as armas vinham pelo caminho do mar.de Pepetela (2000). os lupões. ou como belíssimos textos em prosa: Mar me quer de Mia o Prodigioso Filho de Kimanaueze se casou com a Couto. a partir do sonho-reali­ mento que já não é específico das situações histó­ dade do Avô Celestino e do pícaro . De salientar a invenção ou utilização insólita de neologismos: os Mia Couto pés "icebergam'. esperançosa: "Pingos de chuva/ já molham o chão/ Neste último caso.(1982) de Óscar Ribas. a) baleia vinha era dos países socialistas'� Nada disto supera porém o teor poético da lin­ guagem: "Os olhos de quem amamos são um barco. Assume uma linguagem do Desespero (1991).

BRAGA. o lupi-sábio. Alberto. XXIV-XXV. Lisboa. cit. 328-349. INCM. Ed. sd. e certamente o que 23 Cit.. Um Auto de Gil Vicel/te. Obras do amplamente se justifica no contexto das indepen­ Poeta Chiado. TINHORÃO. animais. do Brasil 29 "Auto da Bela Menina'. 136-139 e pp. Alberto E. dadeiro combate entre os três grupos e os restantes 4 Cf. pp. 1973. em especial o prefácio. ob. ed. Editora. Ed. Cf. cit. Lisboa. prossegue num trabalhos permanente de investi­ 16 Cfr. fac-similada. VaI.cit. O teatro nos países africanos de língua por­ Lisboa. loco cit.. linguística e cultural comuns. Prefácio e Notas de Marques Braga. o lupi-diplomata. garante uma qualidade téc­ s..e. Prefácio Será que "as gerações vindouras [oo. o lupi-pensador. cit in REBELLO. 42 e segs. p.. Neil T. 1961. Há inúmeras edições bibliográficas sistemáticas. pp. cit. II. S9 rão com a estória"? 13 1 Lysia. Editora Sá da ceou e Natália Luiza dramatizou em belíssimas Costa. Ed.. Arménio Amado. 12 Gil Vicente. 80. História Social dos Escravos Para lá deste estudo Libertos em Portugal. que aliás 15 GARRETT. uma narrativa do Avô Bento. micas e morais. 398 e seguintes. 91 e para uma preponderância inicial pelo menos de segs. s. Ed. sd. Prelo Ed.l. GOMES.. loco cit. VaI. para o Dicionário de Autores de Literaturas Afri­ 18 Cfr. e REBELLO. cenas e diálogos. Prelo.. CRUZ. 7 Ob. Alberto E . A . 30 Cfr. Escola de Gil Vicente e o Desenvolvimento do Teatro Nacional.. 14 Todas as citações na edição de Marques Braga. lupi-azarado.M. Teófilo. 24 Cfr.. 472. Trata de um ver­ Ed.e esse combate 6 Cit. sd.Baltazar Dias. cimento dos avós dos nossos avós" sob a forma de Lisboa. "História'. in CRUZ. José Ramos. p. de Coimbra Martins. . se continuará a estudar. 57-59. LuÍz Francisco. E de todo o Mundo ligado à cultura teatral. Duarte Ivo. 1. A Literatura Portuguesa e a Expansão lupi-poeta. s. de C.e também a de Portugal..l. tro Português . José Ramos. tivas culturas . PIMENTEL.. cit. Lisboa. 2 Vais. p. Teófilo. Teófilo. com as componentes de desacordos e Idem. lN CM.] aprende­ de Hernâni Cidade e Notas de José V. e PIMENTEL. 2004. 1982. o 2 Cf. adiante citada. Sá da Costa Ed. Lisboa. pp. LuÍz Francisco. loco cit. Lisboa. ob. 11 CIDADE. apontam em certa medida Português . res 1/0 século XVI .o que 21 Cit. "Tea­ e de Timor. Esta sociedade tipifica-se em funções distintas: Cf. E entram em conflito por causa da 3 CRUZ. ob. 46-47 Mas o que acima se deixa. nas suas vertentes políticas. 26 Cfr. e CRUZ. Lisboa.. Funchal. Editora Cosmos. formas de expressão dramática tradicional . pp. 20 Cit. nos seus aspectos Verbo. Obras de Henrique da Mota. Maria Leonor Garcia da. 1998. p. Prelo. cit. a edição moderna de LuÍz Francisco Rebello. História do Teatro Português. op. Poesia e Dramatlllgia Popula­ concilia com qualquer tema e qualquer ideologia. in "Teatro Fernando Cavacasl30. que se 25 GOMES. Lisboa. ICLP. s. 32. 223-233.. BRAGA. de Aldónio Gomes e 19 Cfr. as respec­ Origens ao Ronlantismo'. cit.. cit. BRAGA. A análise dos textos disponíveis e das fontes 17 Publicado pela primeira vez em 1587. citado. reflecte a sociedade humana. O Essencial sobre Teatro Luso-Brasileiro. GOMES. 1971. 270 e segs. rivalidades entre os próprios lupis . dências. Alberto E. "Autos e Comédias Portuguesas'. Acto I. MILLER. 270. Lisboa.. utilização da milagrosa água lilás. p. p. Hernâni. tuguesa vai mais para lá deste estudo. 1961. 27 Idem. mas também o jacalupi capitão ou o Ultramarina.. econó­ 8 Cf. pp. ID. p. Coimbra. s. gação. ob. Duarte Ivo. bons e maus. ed. pp.' Ed. Lisboa.. Alberto. op. 397 e segs.. canas de Língua Portuguesa. C . que Pepetela roman­ 10 As citações de Gil Vicente são feitas a partir da edição de Obras Completas. Hernâni. Alberto E . Lisboa. 1889. Funchal.e. Os Fumos da Índia .d. 1983. Liv.. Teófilo. pp. CIDADE. pp.. Os Negros em Portugal.. Duarte Ivo. 1898. com destaque ainda modernas. e que dá testemunho de uma utilização da herança IX-LXIII. I.Uma Os poemas do lupi-poeta "chegaram ao conhe­ Leitura Crítica da Expansão Portuguesa. nica e literária de teatro de matriz ocidental.Das Origens ao Romantismo'. pp. BRAGA. 28 TINHORÃO. 22 Cfr. 1963. Autos e Trovas de Baltazar Dias. 1977. Autos e Trovas de Baltazar Dias. in GOMES. in "Teatro Português .Das Enriquece as respectivas literaturas. Editora Caminho. Cena XV.Das Origens ao Romantismo'. a edição fac-similada de "O Mundo do Livro'. 2001. op. 82 13 SAUNDERS.

"Amizade'. 136 e 143.163. 2000. e outros.1986. 41 e segs. 48 Cf. E ainda VALBERT. SCTEB. Coimbra. Lisboa. Coimbra. Ed. Lisboa. Ed. Duarte Ivo. Lisboa. Lisboa. 73 Edição A. 35 VALVERDE. A. 1975. in "Teatro Completo" de Marcelino 32 SIQUEIRA.Lon. de Coimbra. p. IBNL. Vol. Mato e Morte. I. Lisboa. Júlia. Maria Odete Dias. Teófilo. "Teatro Medieval em São Tomé e Príncipe'. fac-similada. Lisboa. ed. Christian. 559 e segs. Duarte Ivo. Ed. Miguel Sousa. SPA. Lisboa. Lisboa. 72 Cf. 1997. Nação Teatro . 77 Ed. Ed. A. Celta. BRAGA. 59 ALVES. . Vera Lopes de. "Teatro Escolhido'. 1925. 162. Mário de. Capricórnio. Lobito 1973. Fernando. Lisboa. Verão de 1965. sd. Ed. Vol. comunicação pp. 1969. 1971. ed. Maria II em 1936. Casa do Sul. Manuel Ivo. Paris. 1997. "Teatro de Cordel na Bahia 80 Ed. p. 75 Edição Capricórnio.a ed. M. J. Parceria A. pp. Vasco de Mendonça A Promessa. 337. Kelps. E d . Introdução de Manuela Brasil. 1990. 42 Cf. Príncipe'. prefácio e notas de CRUZ. e CRUZ.. Marques. Ed. Comédias Porhlguesas Feitas pelo 71 LELLO. policopiada. Tomé'. V. Vol. INCM. 76 Ed. p. Livraria Brasileira. in Espiral. São Paulo. Lucciana Stegagno. Lisboa. CRUZ. Ed. INCM. 86 Ed. Sobre a identificação de "Caldas o 87 TAVARES. Brotéria. Liv. 202. edição de "Teatro Escolhido" de CURTO. Campo das Letras. Lisboa. 1966. Teatro Maizum. SPA. sd. Armando Jorge de Carvalho. Ed. 331 e segs. 2005. 54 Fialho de Almeida. gal. O Vencido. Duarte Ivo. pp. p. Mário. Verde" in Revista Cullllral. SPA. peça em 1 acto. 47-49.O 1 . Brotéria. Nizet. Lisboa.. Também do mesmo autor. de Tânger. Universidade Editora. Ed.. Ulmeiro. 37 Crr. 1913. 1 1 1 . I. Lisboa. Coimbra 2001. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. pp. Lobito 1974. Oficina do Poeta'. Floripes Negra. Personagens das Comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos. sd. p. Nordeste'. lI. Ed. INCM. 39 BAPTISTA. O Tempo e o Vento. CRUZ. 52 CRUZ. 58 MÂNTUA. 36. cit. Ed. 219 Livro.31 PICCHIO. Ed. 62. Ed. 1971. Claude-Henry. e em Lisboa'. pp. Lisboa. Colegial deLetrase Lembran- Oeiras. idem. José Luís Hopffer Cordeiro. Bento. História do Teatro Português.. 83 Ed. 81 Ed. Frankfurt am Main . 1931. Livros do 68 SÁ-CARNEIRO. Teatro Quinhentista da Índia e do A1medina. André e Crabée Rocha. "Mário de Sá-Carneiro e a Génese da Amizade'. A1medina. p. Ed. pp. 1979. I. 1971. sd. VASCONCELOS. Ed. cit. 50 BIÃO. túrgico em Portugal e nas Ilhas de São Tomé e Príncipe'. Livraria Ed. CURTO. Augusto. Ed. 1992. Cotovia. Cena Lusófona.Teatro Completo. Equador (romance). BRANCO. p. 2003. in Alves. BAREOSA FILHO.. As Avenhlras de Anfitrião. Luíz Francisco. Ed. Lisboa. 89-90. p. p. Brasília. Lisboa. Ed. FCG. Mesquita. 1936. 65 A peça permaneceu inédita até ser publicada por Duarte Ivo Machado. do Livro'. João. Teatro PopularPorhlguês. Évora. 1923. Capricórnio. 339 e segs. Introdução. Iko Verlag füI ção. Artes Gráficas. 1973. António. Domingos Caldas Barbosa. 2005. Cabo Verde'. Degredados. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. cit. "História" cit. Ramada. Pereira. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. 60 Cfr. 1915. 67 Cfr. Duarte Ivo. 61 VIANA. João Maria. 33 e segs. A Linguagem das 74 Edição Capricórnio. Clássica Ed. proferida a 6 de Dezembro de 2003 no Pequeno Auditório 57 MÂNTUA. pes- Livraria A1medina. 94-95. Virgínia Victorino. 1995. Teatro Popu.. Lisboa. Ordinário Marche!. 64 Representado no Teatro Nacional de D.. 70 VICTORINO. 1968. Lisboa. Leite de e GUERREIRO. lN CM. Lisboa. Erico. pp. cfr. 55 Cfr. 86. 51 TINHORÃO. Lisboa. O Cerco ESTC. Ed. "O Tchiloli ou as Tragédias de São Tomé e 62 Cf. 1982. 1964. 69. Virgínia. p. Livraria Brasileira. Ed. ANDRÉ. Salvador 2005. Setembro 1967. 36 RIBAS. Coimbra 1989. "Das Tchiloli von São Tomé'. p. 49 ALMADA. Alfredo Cortez . 100 Anos de Teatro POrhlguês. 1927. J . 2002. Interkulturelle Kommunikation. Lisboa. 45 FRECHES.. 69 SÁ-CARNEIRO. BN. 45. Lisboa. Ed. 2000. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. "Espectáculos populares do 63 "Colonos'. Le Tlleatre Neo-Latin au Porhl. "Baltazar Dias e as Metamorfoses do Discurso Drama. Prefácio aA Vingança da Cigana. Lisboa. Duarte Ivo. in François Castex. CRUZ. O Álcool. in Panorama. lar Mirandês. pes- 34 REIS. 60 . Universidade Cruz na revista Contravento. 6. 21. Lobito. e KALEWSKA. "O Mundo ESTC. Excelente Poeta Simão Machado.o Tchiloli de São Tomé'. 41 Crr.. Lisboa. 53 Cfr. 85 Ed. 38 BAPTISTA. Buriti. 2004. Ed. 2. António Manuel Couto. Ed. Caminho. ed. Cidade da Praia 2004. Introdução. p. Vol. "Tradições Pirenes'. Ed. Universo Carolíngio . Silvina. Lisboa. Paulo. Panorama . 74. Setembro 2001. Bento e SACRAMENTO JÚNIOR. Cit. Bento.. 66 CRUZ. p. Lisboa. Ed. Ed. 2003. Coimbra INCM.SNI. ças. da Universidade de Varsóvia. Lisboa. 1988. Brasília Ed. Livraria Popular Francisco Franco. pp. Ed. selec- 33 PEREIRA. 1995. n. 108. don. 1989. 47 PEREIRA. Vol. INCM. Claude-Henry. 2 Vols. Ramada. Hermilo. Duarte Ivo. Lisboa. "Caminhos do 56 MÂNTUA. "Le Tchiloli de S. 2004. Actores e Autores. 1997. Lisboa. Ed. Comédia Ulissipo. 1939. R . "O Teatro em Cabo 79 REBELLO. Pedro. Lisboa. Japão. 84 Ed. "Diário de William Beckford em Espanha e Portugal'. Livraria Aillau e Bertrand. Ed. 40 VERfSSIMO. 1991. Lisboa. 78 Ed.. pp. Teatro Quinhentista nas Naus da Índia."História do Teatro em 46 Idem. 82 Ed. INCM. Lourenço Marques. 44 BRAGA. 2 Vols. Máscara. 43 MARTINS. Mário de. 2004. Lisboa. pp. 1983. FRECHES. Lisboa. op. em Lisboa (manuscrito). Anna. Lisboa Portugália Ed. Goiânia. Textos de Cariz Profano. 1989. Tomaz. Lisboa. 1959. a Vocação d e Teatro. Nogueira e Nota de Maria A1iete Galhoz.. O Essencial do Teatro Brasileiro. Cfr. ibidem. 2002. Lisboa.

2002. 128 Mia Couto e Natália Luiza. op. 103 Acllada Grande do Tarrafal.. Ed. Ed. in 113 O. das em São Tomé. pp. Ed. 1980. Ed. M. 1978. Cena Lusó­ 104 As Mortes de Lucas Mateus. BRANCO. Costa No Velho Ninguém Toca. 223-262. Coimbra 1999. Aldónio. Ed. 1979. in Poemes. sd. 1975. O Elogio da Ignorância. José Mena. 243. "O teatro em Cabo Verde'. J. Fernando de "Teatro do Imaginário Angolar de São 121 ANDRADE. Publicações Dom 129 Pepetela. 131 PEPETELA. p. 102 Idem. 1979. Centelha. as Luzes e as Sombras'. Biblioteca do Com. Dicionário de Lite­ 108 Idem. Luanda. p. pp. 2005. Publicações Dom Quixote. especial "História de Angola'.. 2000. 94 COSTA. 1999. António Loja. Lisboa. 13-56. "O teatro em Cabo 92 Remete-se a bibliografia histórica citada em "Teatro 1'. A Montallha da Água Lilás. Junho. 89 Cfr. Fernanda e GOMES. cit. p. "Técnicas Latino Americanas de Tean'o 122 SENGHOR. Lisboa. 98 MACEDO. 91 ABRANTES. Sá da Costa.. 115 Almada. pp. Popular'. 97-136. José Mena. 1977.. 1 1 8 ASSIS JUNIOR. Mia e LillZA. Ed. p. cit. 114 D O NALDO. 50. Vol. Augusto. 120 Cloçon San. llO "Teatro 1'. crónicas. cit. 96 ABRANTES.. "Teatro II'. BAPTISTA. Brito. Lisboa. 201-222. 162-316. pp. Regressados. Coimbra. Vol I. pp. M. 1995. Cena Lusófona. António O Segredo da Morta. 201. 155-200. "Teatro 1'. 126 COUTO. 162. Tomé e Príncipe'. Lisboa.. cit. 90 NEVES. 127 PEPETELA. c . Remete-se para a bibliografia no capítulo 112 Jaime de Figueiredo cit. romance. "A produção literária Revista Camões. "Teatro 1'. 117 Calanga.O 1. ICLP. BOAL. 101 PEPETELA. Augusto. Ed. 65-74. Lisboa. A Revolta na Casa dos ídolos. Brito. Osório cit. 99 Cfr. 2002. Coimbra. A Montanlw da Água Lilás cit. Universidade Aberta. Cena Lusófona. cit. A Montanlla da Água Lilás . Ed... n. 1998. Natália. 2000. João.. Luanda. cit. in Revista Cultura. 1988. Lisboa. 1997.' ed. "Teatro 1'. Junho. "Teatro II" cit. Nzila. Centelha. África Editora. Zé do Telllado. l l l-120. 93 ABRANTES. 277 e segs. cito 107 O Cão e os Call1lldas . "O Teatro em Angola'. p. 1. 1977. M. ob. romance. M.a Ed. ABRANTES. in SEMEDO. Alfaómega. Lisboa. bra. Prov. in SEMEDO. 4. in ob. Ed. Edições 70. fona. Ed. Coimbra. pp. Cena Lusófona. Leopol Sédar "Chaka'. Ed. em Verde'. 106 A Pele do Diabo. pp. 100 Cf. cabo-verdiana após a independência" in Revista Cultura. pp. 119 Cf. Hélder. Literaturas Africanas de Expressão 27-84. 5. LARANJEIRA. Ed. Ed. "Teatro I" cit. Mar me quer. sd. 109 Idem. Setembro 2001. 1998. . Literaturas supra. Paris. Africallas de Expressão Portuguesa. Ed. 97 ABRANTES. Coimbra. cit. Luanda. 1978. A Corda. pp. Manuel. Coimbra. 1964. 95 ABRANTES. J. ob. 1977. Macedo.. pp. Ed. J. Lisboa. 1999. J. José Mena. Pires. 88 Não há texto publicado das numerosas versões representa­ 1 1 1 "O Grande Circo Autêntico'. 2000. 1998. Luanda'. Lisboa. EUA... Lisboa. 68. Luanda. L. 60 e segs. Coimbra. in "Teatro I" oh. ob. Coim­ pp. cit. Cena Lusófona. Luanda. Editora Afrontamento. in "Teatro 1'. Cena Lusófona. cit. Ed. 125 ABRANTES. cit. 179-219. in Revista Cultura. J. pp. du Seuil. pp. raturasAfricallas de Língua Portuguesa. CEA. 1 1 6 As Virgells Loucas. iII FERREIRA. cito 61 . "Os Teatros. 130 CAVACAS. 70. Portuguesa. Ed. a Doida dos Ca/lOios. 85-100. 105 O Panfleto. EUA. Ed. José Mena. Quixote. e Júlio de Castro Lopo "Uma Rica Dona de p. 124 ABRANTES. Caminho. 123 Cfr.

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como Eduardo Brasão (185 1 .. um lúcido e oportuno artigo intitulado "Rumo a África'.1943). teatro e actualidades Espectáculo. como era seu hábito. Carlos Leal fazia uma espécie de síntese do que acontecera nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX quanto a opções (hoje diríamos estratégias) de digressão e circulação das principais companhias teatrais por­ tuguesas e dos seus actores. numa prosa rebuscadíssima. em tom de apelo e portugueses em África desafio.. Não aparece um arrojado empresário que arrisque uns contos de reis num giro de experiência pelo Império Colonial? [ . nem mesmo como meio de arranjar colocação (1 900.1964). escrevia o ilus­ tre actor Carlos Leal ( 1 877. As idas [às vezes sem volta.1 974) para alguns desempregados? . neste artigo. Maria Matos ( 1886-1952). alguns deles fazendo mesmo uma parte significativa da sua carreira entre cá e lá. António Pinheiro ( 1867. Chaby Paquete Uíge ao largo do golfo da Guiné. as nossas melhores companhias e os nossos mais populares e famosos actores e actrizes . Lucinda Simões (1850. tal era a quantidade de barcos de carreiras regulares que transportavam nos seus camarotes. e num Contribuição para o estudo português exemplar.1 925). ] . mas sempre inteligente. onde seus pais se encontravam. Beatriz Costa (1907- . a viver]. nas páginas do semanário de cinema.1928) e sua filha Lucília Simões [(1879-1962) tendo até nascido no Rio de Janeiro. utilizando a linguagem da época) teatrais de companhias e actores portugueses às suas colónias de teatro e dos actores africanas. 1969 Pinheiro (1873-1933). "morreram todas as tentativas de organiza­ ção de tournées às Colónias? Ninguém mais pensa nisso. Rumo a África EM 1 936. nessa data. Questionava então o actor. © Manuel Maria de Santa clara Vasco Santana (1898-1958). levando até a que alguém poeticamente (ou teatralmente) apelide esse permanente vaivém como um grande palco sobre o oceano Atlântico.praticamente todos foram actuar ao Brasil. da presença das companhias a propósito da inexistência de digressões (ou tour­ nées. como são os casos de Ester Leão ( 1895-1971) ou Maria Júdice da Costa (1870-1960)] ao Brasil são constantes. E arriscavam tudo com as tournées ao Brasil!" De Jo s é Car l o s A i V ar e Z facto. entre Portugal e o Brasil.

nome adaptado a um cinema.' 92 895 1996) ou Carlos Leal. parece-me interessante referir um outro das Ciências Sociais. s. a Hortense Luz (1900-1984) e Maria Matos]. normalmente pouco ou menores dimensão e qualidade. o colónias'. do século xx. a impossibilidade de permutas. entre muitos e muitos outros. para além das dis­ conh'aste encontra. Aliás. o autor. sobretudo. em 1924. com uma fachada muito semelhante à do plo um episódio recente que envolveu artistas de Teatro Paliteama de Lisboa. inv. Intitulado nas principais cidades das colónias africanas (são ''A triste odysseia de alguns dos nossos artistas nas excepção os dois teatros de Lourenço Marques. já desaparecido . também não são alheias.' 791 143 Maria Matos Fotografia. por artigo escrito por A. Victor Machado. n. MNT. MNT. uns bons anos outro. Escreve ele 64 . n. até aos anos quarenta na actual capital moçambicana) que. as deslocações de figuras de peso inundam o Brasil (e quase toda a América Latina). ao contrário. e do qual apenas resta o primeiro plano da vida teatral de então. por um lado. depois de dar notícia da falta de Varietá . inv. no primeiro número do quinzená­ a quase inexistência de verdadeiros teatros à italiana rio Correio dos Teatros por ele dirigido.um teah'o mandado construir por um ita­ escrúpulos de um qualquer empresário de momento liano e que era preferencialmente frequentado pelos que pretende contratar artistas para trabalharem nas estrangeiros aí residentes. fortes justificações tâncias e das condições de transporte.d. a este e explicações cientificamente tratadas no âmbito propósito. Se este flagrante nada profissionais em África. sendo falta de técnicos. como antes. dá como exem­ Vicente. s. pelas então designadas trupes ou companhias de as condições empresariais. ainda em actividade Já para África são raras. Carlos Leal Fotografia. a as poucas digressões normalmente asseguradas inexistência de uma dramaturgia local e.e o Gil colónias sem quaisquer garantias.d. algumas situações mais de raiz teatral. do nosso teatro [são excepções as actrizes bem como a carência de público qualificado.

que os actores "lá foram. campanha de Chaimite e a derrota. volta. por certo. o qual. por certo. vestígios. que apesar destas notícias con­ é um objecto que nada tem que ver. Ora. dos seus lares. nas peças e documentos que que "é preciso que se convençam de vez que ir a constituem as suas colecções.. através das colecções vavelmente) por aquele chefe indígena e por ele existentes no acervo do Museu Nacional do Teatro oferecido ao actor António Cardoso ( 1 860. 65 (MNT). auferindo uns Como já ficou claro. o número quatro do mesmo as companhias profissionais que desde o final do quinzenário. Portugal. e Os Gera/dos:' documentos e memórias de praticamente todas Curiosamente. encontraram-se riamente. em 1938. Afonso de Matos.. melhor ainda. ao longo dessas décadas. no acervo daquele Museu. pelo menos. vilipendiados. foram desligados. para além do enigma que representa. directamente. obviamente. preservação da memória da História do Teatro em que faziam parte da companhia. não tem. em contraste absoluto com o que se passava xador de artistas a preços reduzidos� Tudo por lá se com o Brasil e até. uma mas que. depois de "terem percorrido todas as regiões onde a língua portuguesa era Lubango. a um dos episódios colo­ ticamente. Longe das suas terras. dá século XIX até aos nossos dias por cá foram cria­ conta. traditórias e dos contratempos que terão. numa pequena notícia. tina. nele incluindo. onde. acabados actuaram nos diferentes palcos espalhados por de serem recebidos em Huambo onde "agrada­ todo o território nacional ou. onde alcançaram dominante. a instituição de referência no nosso país quanto à Romualdo de Figueiredo. em alguns períodos. com o teatro (ou. e Gabriel Lopes) por terras de Angola. e consequente Vem tudo isto a propósito da intenção e da detenção (1895) e extradição para Portugal con­ origem deste texto: fazer um roteiro e traçar um tinental do régulo moçambicano Reynaldo Gun­ percurso da presença de companhias e actores gunhana (?.fiados nas promessas cynicas do 'engra­ tente. por ram sobremaneira'. com a criação teatral) atingido esta sua digressão. essa presença foi sempre vencimentos ridículos .1906). por exemplo. aconselhando exaustiva e completa. todo feito à mão (pro­ como Angola e Moçambique). Mossamedes e Lobito. simbolicamente. um extraordinário êxito'� O vestígio mais antigo à guarda daquele Museu Maria Matos. demonstrado que na África só um pequeno grupo No entanto. ) de abarcar de forma próxima época de verão:' E continua. pode equilibrar-se. Tina Vale e Maria Helena. como niais da nossa história imperial mais conhecidos: a é descrito no seu livro de memórias. todos os períodos e África não é o mesmo que ir a qualquer das nossas todos os elementos que constituem essa vastíssima províncias. publicado poucas semanas depois. degredados. quanto é certo que está absolutamente História.1917). é alvo de inúmeras homenagens. Trata-se de um pequeno cesto. pelo menos. como então se desig­ de notável equilíbrio estético e marcadamente de nava) na África colonial (entendida aqui. recebida apoteo­ ligado. pretensões (poderá Vêm a caminho desiludidos e sem trabalho para a ter esse "utópico" desejo. o acervo do Museu Nacional do de artistas. Maria Matos.o suficiente para morrerem extremamente diminuta. portugueses (ou da Metrópole. apesar de um dia para o outro a braços com o Destino que de ser um museu nacional e de se assumir como lhes foi bem adverso. um dos comediantes mais populares e queridos do . influência cultural africana. apenas. bem como duma muito substancial parte dos Maria Matos (a grande actriz mais Afonso de Matos actores e actrizes que. clara e necessa­ os infelizes artistas. com repertório leve. quando não quase inexis­ de fome . a trupe de Thomaz Vieiral mil espécies. da digressão do Trio das. esta situação reflecte-se. está vez mais a África. com a Argen­ desmembrou. Teatro é actualmente constituído por mais de 250 Os Temos.

MNT. Duas coisas são. n. continha no seu Cartão manuscrito por Reynaldo Gungunhana. inv. inv.· 80 296 século xx . um cartão-de-visita do referido actor. contudo. n" 20 709 30-8-902'. Cesto executado manualmente público lisboeta do final do século XIX e inícios do por Reynaldo Gungunhana MNT. familiar directa do actor. com os dize­ Actor Cardoso res: "Esta cestinha é destinada ao actor Cardoso. cujo valor simbólico e afectivo parece evidente? São tudo questões para as quais não conhecemos resposta. com os nomes "António da Silva Pratas Godide" e "Roberto Frederico Zixaxa" manuscritos no verso e um pequeno recorte de jornal com a notícia "Com 120 anos morreu a viúva do régulo Zixaxa': Qual a relação que tudo isto tem com aquele actor? O que terá levado Gungunhana a lhe oferecer tal objecto. pelo que ficou também 66 . n" 80 296 pelo próprio Reynaldo Gungunhana. inv. 1902 interior um pequeno cartão manuscrito e assinado MNT. Fotografia s. uma grande parte da sua carreira sempre no mesmo teatro.d. absolutas certezas: o actor António Cardoso nunca terá viajado pro­ fissionalmente para as colónias. aliás. permanecendo a relação e o "encontro" daquele régulo moçambicano com um dos actores mais populares da vida teatral portuguesa daquele período como uma incógnita. fazendo. doado ao Museu por D. Ester Cardoso. Este cesto. o Ginásio.

1931 MNT. inv. o---<:>--mn:ru G do empresário Mário Pombeiro. tinha como principal Companhia Filomena Lima'Adelina Fernandes figura a popularíssima actriz H0l1ense Luz (que lhe dava o nome) e era integrada por outros actores que Direcção Musical do maestro Tomás Jorge fizeram história no nosso teatro como Henrique Alves (1873-1934). o seu máximo exemplo. "ampliada com números novos e fados e guitarra" por Adelina Fernandes (1896-1983). e por lá permanecendo em cartaz durante algu­ mas semanas. conhecido p elo "Cardoso do Ginásio". 67 actriz e fadista muito querida do público lisboeta. Nós íamos às mati­ nées para uma frisa acompanhados pela governanta.. e o ainda jovem Eugénio Salvador (1908-1992). . anunciando a presença da Companhia Filomena Lima·Adelina Fernandes. Meu irmão Augusto. no mesmo Teatro Varietá. este bastante completo e graficamente muito trabalhado) e uma notável descrição constante no Dedicada à ilustre Imprensa livro Memórias Ultramarinas de Virgínia Cabral Fer­ de Lourenço Marques. 1916). 28 DE NOVEMBRO DE 1925 trabalhando sempre como notável compere de revista.' 135 059 criar no imaginário colectivo de muitas gerações de portugueses do século xx. Lourenço Marques. '* . ] por essa altura foi a Lourenço Marques a Companhia de Teatro e Revistas de Hortense Luz. o régulo A revista tinha bons actores. quer a partir dos manuais escolares até ao cinema "oficia\'. 3> cado' O Grão deBico. de Jorge Brum do Canto. primitivo e de tanga. em 1925. tendo no filme Chaimite (1953). que só há bem poucos anos nos deixou. de Lourenço Marques. n. inv. que a propaganda Programa da Companhia Hortense Luz do Estado Novo colonial durante décadas tentou Teatro Varietá.. principalmente os cómi­ Reynaldo Gungunhana não era o perigoso sel­ cos e os bailarinos. SfleI\DO. estreando­ -se. �� I\s 9 HORI\S DI\ NOITE = até à sua m0l1e. . Lourenço Marques. Alberto Ghira (1888-1971) ou Alfredo Ruas (1890-1966). Escreve esta autora que ''(. .. nandes (n. Desta presença em Moçambique restam dois programas (um para o 'melodrama musi­ Récita da ac!ris . Foi um sucesso! O velho Teatro Varietá estava sempre cheio. em 1931. 1925 MNT. esta Companhia.. e outro para o vaudevil/e O JO/ge c( " '* s> I1 DELlNI1 fERNI1NDES Cadete. actuava pela primeira vez em Lourenço Mar­ Teatro Varietá.'IJ alcançado grandes êxitos em Lisboa. n. Tendo já �la�R«1) !iftIHJiU . numa digressão a Fernandes África. com a revista Rez-Vez.Programa da Companhia Filomena Lima-Adelina Anos mais tarde.' 66 712 ques a célebre Companhia Hortense Luz. A primeira referência propriamente teatral exis­ tente no acervo do Museu Nacional do Teatro é um bonito Programa do Teatro Varietá. mais novo do vagem..

1932 MNT.) '' Gine Teatro Barbara Volckart BEI'IGUELA 22 de Dezembro de 1931 que eu. em Benguela. batendo com um dos punhos com força no parapeito da frisa. na inauguração do Nacional Cine-Teatro de Luanda.' 135 091 GOIIPÂNIII. coronel DA - Pereira Cabral: "O guarda-roupa era espectacular. . inv. de outros espec­ L O A N D A. HORTENSE LUZ Desta mesma Companhia há ainda notícia. muitas lantejoulas e . Infelizmente. n. Luanda. muitas pernas ao \. DE = léu das bailarinas. inv. . integrados na mesma digressão: na capital angolana. são muito raras as memonas Programa da Companhia Hortense Luz (quer descritivas. ria-se perdidamente. segundo as más línguas. 1931 MNT. O corpo de baile era formado por jeitosas raparigas que. filha do então governador-geral de Moçambique. n. Muitas plumas. Alfredo Ruas era o seu preferido:' E conclui Virgínia Cabral Fernandes. Benguela. em 1 de Janeiro de 1932. N a c i o n a l C i ne-Teatro através dos respectivos programas.' 135 054 táculos e dos ambientes que proporcionavam. F [<:til . com a revista Zabumba. 93::2 táculos em África. também levado à cena ainda em Dezembro de 1931 no Cine-Teatro Barbara Volckart2 (não se encontrou qualquer infor­ mação sobre este teatro). deram a volta à cabeça de muitos homens e lhes esvaziaram as carteiras:' 68 .-\ -\ I tT í ST r ( ' _-\ o que dava muito realce à representação. no mesmo teatro em finais do mesmo mês com Revista das Revistas (uma selecção dos melhores números de 12 outras revistas aplaudidas em vários teatros de Lisboa) e com o já referido O Grão de Bico. 2'7 de Janeiro üe 1. Programa da Companhia Hortense Luz Cine-Teatro Barbara Volckart. bem C O M PA N H I A como dos teatros onde tudo se passava.\ IIORWiSR LUZ . quer iconográficas) destes espec­ Nacional Cine-Teatro.

Programa da digressão por Angola de Ling-Chong. de Luanda) sobre um espectáculo de Angola e Moçambique a Companhia Embaixada extraordinário em homenagem ao Cruzeiro de da Saudade com a revista e "um dos maiores suces­ Férias às Colónias no qual. a leitura do programa leva a colocar forte­ man'.1951). que tão notável êxito Octávio Mattos (1901. n. parte "no ecran" com diversos documentários cine­ que actuou em Luanda no Club Transmontano de matográficos (como foi hábito em todos os cinemas Angola. "o nosso 1.1988) e Berta Monteiro ( 1898-1960) e o tenor à apresentação única de um recital pelo "grande portuense Morgado Maurício (1908-?).1964). Nesta companhia. depois de uma primeira sos de Lisboa" Iscas com Elas.' 103 424 �) \ NAS COLÓ N IAS PORT U G U ESAS De Setembro de 1935 é um programa para Em plena II Grande Guerra. pai do actor Octávio de alcançaram em Portugal e no Brasil': Matos (1939). que "enquanto passava a galope a quadriga dos . em 1941. se poderá assistir (1899. 1 1941 MNT. destacavam-se as actrizes Cremilda Torres até aos anos setenta do século xx). um dos actuais resistentes da revista Sem existir qualquer indicação segura sobre a à portuguesa e um dos mais populares cómicos origem da presença de tão notável actor em terras das nossas televisões. em Ling-Chong "the devil de África..0 actor excêntrico que poderia mente a hipótese de que Estêvão Amarante seria um ser um dos maiores actores do teatro português" 69 dos passageiros em férias naquele cruzeiro. inv.. "o ídolo da Ainda de 1941 é um exótico programa refe­ cena portuguesa nas suas mais gloriosas criações rente a uma digressão por terras de África do actor das revistas e vaudevilles. actor" Estêvão Amarante ( 1889. empre­ o Nacional (deverá ser o atrás referido Cine-Tea­ ende uma tournéeteatral pelas colónias portuguesas tro Nacional.

bem como todo o material avaliado no valor de 400. numa peça infantil (o que não deixa de ser. Mello e Alvim. durante algum tempo. abandona o surto Programa da Companhia de Revistas Carlos Coelho glorioso da sua carreira artística para. 70 . da português nesta arte difícil. (com uma Dando corpo à já referida imagem do oceano carreira desigual e hoje lembrada. prematura­ português. esses magos construtores 8a ssa g e Jll do 8 q u a d o r de maravilhas': e Octávio Mattos (que ficou. recentemente desaparecido e um dos mais de cena. depois do êxito no Coliseu dos Recreios de Lisboa "este artista se esforça por apresentar-vos de igual maneira. no Cine-Parque de Luanda. como MNT. pois em 1948 foi cabeça de verdadeiros palcos flutuantes. mas também já. integrando o elenco da digres.000$00': Mas já em 1924. Canto e Castro (1930- Moçambique. da qual restam inúmeras fotografias 2005). Jaime San­ 1955. "e tão alto se guindou que o Estado não hesitou em subsidiar a sua digressão a África. as colónias africanas. demonstrando grandes nomes do teatro português. tinha estado já em décadas. em Abril de Adelina ( 1930). aparecer no palco como ilusionista'. inv.gloriosos por convencionalismo. Brasil ou. vestindo um Festa da passagem do Equador Paquete Uíge. Mariamélia ( 1908-?). a caminho de uma digressão por Angola e tos (1914-1966) e. muito novo ainda. em África. como a sua uma forte ligação a África. neste caso. com "ensenação de Ling-Chong" que. conhecido na vida social e teatral lisboeta 8speclácu[o de "cMusic-8eall" como Fumanchú) apresentava nesta digressão o pelo c o m p a n h i a d e espectáculo Parada de Ilusões.· 6/1767 assinado pelo Dr. lê-se ainda naquele texto.1 979). para que nestas p aragens des t a s i longínquas do Império se saiba que um artista . Da companhia deste excelente actor de notáveis e versáteis actores portugueses das últimas revista. sobretudo pelos Atlântico como um imenso palco ou dos paquetes seus magníficos retratos pintados e esculpidos que constantemente o cruzam entre Portugal e o pelo seu irmão Júlio de Sousa. onde regressaria novamente em 1949 "Music-Hall" pela Companhia de Revista Carlos integrada no elenco de uma outra revista. n. sobretudo. n O I 034 024 PAQUETE "UIGE" Viagem se pode ler no texto introdutório daquele programa. Luís Horta (1919-1991). "E vemos Lisboa e Porto consagrá-lo nesta nova modalidade'. Maria Coelho ( 1923-2000) no paquete Uíge. como veterana. que. 1955 kimone. mente falecida. Ainda no mesmo ano actuam no Teatro 1935 em Angola. é o Programa das cartaz da tournée da opereta Zé do Telhado àquele Festas da Passagem do Equador e Espectáculo de continente. Varietá. igualou os nomes dos ' Changs ' e ' Fumanchus '. a revista-fantasia Sonho de são da revista Olha o Balão!. faziam parte outros Pierrot. malgré tout. Octávio Mattos surgia como cabeça de cartaz do espectáculo de beneficência da Troupe Violetas. um misto entre a Revistas Carlos Coelho arte do ilusionismo e a revista à portuguesa.. rara no meio teatral mulher Helena Tavares ( 1932.

inv. 2690 I ElEF.d.:l doe pelas • L-.. a quase totalidade da programação artística das diversas digressões a África até então. Costinha e Lulsa Durão. os actores Augusto Costa escala no então Congo belga. foge ao habitual formato de revista -fan­ tasia . a participar transporte de longo curso e uma brutal redução numa digressão a Moçambique. redu­ zindo-se o repertório à comédia O DI: Juiz de André Ferdinand. 3310 LUANDA f) �(lConjttutota 71 . 601 L U A N o A T o l e r. sua mulher Luísa Durão prenunciando. por certo.. que Fotografia s.-eçoe r'edu::r. Programa da Companhia Berta de Bivar-Alves da Cunha Cine-Teatro Restauração. STUDIO DE PUBLICIDADE ARTlsTICA . 1954 MNT.. no tempo de viagem para aquelas zonas do globo.. c. P. MNT.. male . com um magnífico De 7. "Costinha" (1891-1976)..' 56 684 apresenta duas grandes novidades: a primeira. l n h _ .aplda. De 1954 é um programa para o moderno e numa peça infantil espaçoso Cine-Teatro Restauração de Luanda. com também. inv. vizinho de Angola.mágica . uma completa revolução no (1899-1977) e Maria D omingas (192 1). assim. a segunda novidade é a página de publicidade à companhia aérea belga SABENA que.vaudeville que representava. uma novidade). n. ( I N E-T E A T R O DO � ( C.' 59 056 � 11 . P. Luanda.Maria Domingas. anunciava voos regulares para Luanda (para onde a nossa TAP voava também já desde 1947). 3028 � -----�--_·�--�----·- I REST Çà O I 9C 1 NÃO SE A SABENA C O M P R O M E T A S E M C O NS U L T A R 1 PAIl�ARD@ COM O ' D(l/iJ«� PROJECTOR Representantes GeraIs p. n.

A partir do final da década de cinquenta. Esta companhia. sobretudo. um casal de dois enormes actores do nosso século xx.1992). apesar das longas viagens "teatrais" continuarem. Resta dizer que esta comédia era levada à cena pela notável Companhia Berta de Bívar ( 1889-1964) .t963 influentes e activos empresários teatrais daquela esta situação um conjunto de alterações políticas e MNT.' 223 388 década e da que se lhe seguiu (obviamente até à sociais. percorreu uma parte do território angolano. inv. no que respeita à vida teatral e cultural (e não só. de resto. cidade onde acabariam por embarcar no paquete Pátria para regresso ante­ cipado a Portugal.Alves da Cunha (1889-1956). levando à anulação da prevista continuação da digressão a Moçambique. entrando-se agora. mas sem consequências de maior). n. ainda durante alguns anos.A título de exemplo. na programação anual das diversas companhias de teatro comercial existentes em Lis­ boa (à semelhança. ) numa . das quais o início da guerra colonial será a descolonização): José Miguel e. que partiu de Lisboa no paquete Império (exac­ tamente no mesmo dia em que este barco sofreu uma enorme explosão. como é óbvio. sempre com grande êxito. 72 . por doença súbita de Alves da Cunha. Por outro lado. em Malange. com o que acontecia seppe Bastos e Vasco Morgado. a ser feitas preferencialmente nos paquetes da CNN (Companhia Nacional de Navegação). o que. Empresa Giuseppe Bastos Digressão a África com todo o país). Carlos José Teixeira ( 1920-1977) e a esplêndida Cecília Guimarães (1927). as "digressões ao Ultramar" entram.. fruto da vontade dos três mais contribui também directa ou indirectamente para Fotografia. em definitivo. mais evidente. Ricardo Alberty (1919. o que poderia signi­ ficar também uma terceira novidade. hoje ainda em grande actividade teatral. Benguela e Lobito.. fazendo-se a mesma distân­ cia de avião em apenas três dias (com tendência para ir sempre encurtando esse tempo). e consti­ tuída ainda por outros actores "históricos" e ines­ quecíveis do teatro português como Maria Schulze 1912-?). Giu. José Amaro (1915-1975). podia alterar claramente a organização e a pro­ gramação das digressões. uma viagem de barco (só ida) poderia demorar até um mês (estamos a falar de Angola e Moçambique). nova fase de relacionamento com as colónias. actuando. Calulo.

pelo menos até 1970 faz quatro digressões a África -2002). GIUSEPPE BASTOS aprasenl. Eugénio anual. "Na sequência de uma assiduidade que se Salvador (tantos anos depois . LeóniaMendes (1922-2000).A Programa da Companhia Teatro Alegre.. Costinha. car os referentes à Companhia Teatro Alegre. 7. e. Óscar como formatos quase exclusivos. Isabel Ferreira e Luis Horta . volta a Angola e Moçambique desta feita de braço . de desta­ regresso ou à passagem por terras africanas (alguns. 1967 AO ULTR AR MNT. duções próprias ou êxitos recentemente levados Dos vários programas e fotografias existentes à cena em Lisboa e no Porto. Isabel de Castro (1931 -2005). S RIQUE SANTANA M/ 17 a nos 1962 -====1. inv.1990). 1962 MNT. Humberto Madeira estreitou através de mais de uma dezena de anos (1921.1971). Bastos.d. ). VASCO MORGADO Fotografia s. assistimos assim Acúrsio (1916.. que Isidro (1907. n.1984). Lígia Teles (1937).1995). ao no MNT que documentam estes factos.1 993).1========. António Anjos (1936. através delas. em que as suas companhias teatrais actuaram em Camilo de Oliveira (1924). Mariema (1943).o 174 660 ao D1GRESSÃO 3. MNT.. à deslocação periódica e organizada de grandes Maria Dulce ( 1936). António Montez (1941). o produtor Giuseppe Bastos 73 -1995) (natural de Angola). que em 1963 vai já na sua oitava digressão Luísa Durão. Manuela Maria (1935). Henrique Santos (1913-2000). Nicolau Breyner (1940).< Palmira Ferreira. Maria Helena Matos ( 19 1 1 . n O 55 654 APRESENTA -'--A� l > a a sua d i g ressão Programa da Empresa Giuseppe Bastos . Lia companhias daqueles géneros teatrais com pro­ Gama (1945) ou a brasileira Berta Lóran (1928). terras ultramarinas. Armando (o número da digressão era indicado nos progra­ Cortez (1928-2002). uma bem mais que uma vez) de uma quantidade ímpar companhia de comédias dirigida por Henrique de grandes nomes do nosso teatro como Irene Santana e "empresariada" por Vasco Morgado. Fran­ mas). Luísa Durão. == UMA MENSAGEM DE ALEGRIA Mantendo o teatro de revista e a comédia ligeira Maria Domingas.' digressão ao Ultramar. n.o 54 615 COM A com tom an�ia Teatro Ale�re SOB A ECÇÃO ARTíSTICA -fjfiIlZ DE r l'E IRI�'VI[l §li Ji. e os da Companhia de Revistas de Giuseppe cisco Ribeiro "Ribeirinho" (191 1 . Henrique Santana (1922. inv. inv. Irene Isidro.

Florbela Queirós são.. do cinema e da rádio portugueses de então. um ponto alto na sua acti­ vidade teatral. inv. Laura dado com o mais dinâmico dos empresários seus Alves! Laura Alves (há muito aguardada vem pela colegas. Plorbela Queirós (1943). Óscar Acúrsio ou Maria de Lurdes Rezende (canço­ netista). Vasco Morgado. ao ar livre em palcos improvisados ou mesmo na "caixa aberta" dos célebres camiões Berliet/TramagaP. ] foi mercê da iniciativa sempre actuante de Vasco Morgado.d. A digressão actual marca.' 106 974 (192 1 . lê-se na segunda página do p rograma Era com esta pompa e circunstância que este que anuncia a fusão entre estes dois empresários empresário. n. quer também nas mais remotas povoações ou aquartelamentos. na sua contracapa.d. apresentava a primeira digressão desta Companhia de Revistas': Grande curiosidade deste programa é o anúncio. também marido de Laura Alves ( 1922- na digressão Ultramar 66. dos pró­ Laura Alves Fotografia s. Leónia Mendes.1986) à frente da sua notável Companhia" (só irá três anos depois). uma digressão intitulada Vedetas Shaw. porém. n. no entanto. E S P E C T Á C U L O S DE Num texto constante num programa referente LAURA ALVES VASCO MORGADO a (mais) uma digressão a África apresentada por 74 . em espec­ táculos destinados aos soldados portugueses que PELA PRIMEIRA VEZ NO ULTRAMAR então combatem na guerra colonial. Helena Tavares e Leónia Mendes. ximos espectáculos no Ultramar de "Laura Alves MNT. que integrava alguns dos nomes mais popu­ lares do teatro. que desde 1 960 várias digressões de comédia têm sulcado os mares em demanda das Províncias de Angola e Moçambique. Artur Semedo ( 1924-2001). como (uma vez mais) Carlos Coelho. o dinamismo e a vontade férrea de bem servir os MNT. em 1969.. e ainda da "extraordinária Companhia do Teatro Nacional D. pode ler-se: "Esta digres­ Octávio de Matos. também já aureolado primeira vez ao Ultramal� com a sua Companhia. por mais afastados que se encontrem da Capital. Octávio de Matos (filho). Maria II Rey Coiaço Robles Monteiro': Em 1967. com a sua "Fabulosa .1 986).' 37 922 frequentadores de teatro. Vasco Morgado. porque tem a honra de apresentar aos portugueses radicados nestas paragens a actriz mais popular e mais querida do público. tem um significado especial a marcar e Artur Semedo Fotografia s. com temporadas brilhantes da sua Companhia de pela mão de Vasco Morgado:' Teatro Alegre'. inv. do 'Lar comum dos portu­ gueses: [ . percorre e actua quer nas principais cidades de Angola e Moçambique.

"tinha várias finalidades: trazer ao público o teatro autêntico (não o subproduto) que tem relação. por onde já teria andado em digressão. aplaudidos no Teatro Monumental de Lisboa. onde Mentiroso de Jerome Kilty. João Mota Nicolau Gogol. do Fundo Nacional de Teatro e . Mas é no início da década de setenta que se dá a primeira grande ruptura. a África. inv. com encenação de Jorge Listopad. de Eunice Muiioz (1928) e José de Castro (1931. com um curto amada pelo grande público do teatro comercial e elenco constituído pelo próprio Jacinto Ramos. Canto e Castro. quer estética. muito provavelmente. não só pelos actores que movimentaram mas. com o tempo português em que vivemos'. poucos anos A Rainha do Ferro-Velho. dos Governos-Gerais daquelas então 75 duas províncias. refiro­ -me agora a duas históricas digressões. O Com­ antes. sobretudo. leva roso (sem a sua participação). criado pelo actor e encenador Jacinto Ramos ( 19 17-2004). Laura Alves rodeou­ um repertório de peso. pelos repertórios que envolveram e por todo o trabalho técnico (tradução. para esta digressão. Este grupo. de um elenco de luxo. (1942). em Angola. outros momentos existiram.1977). por Laura Soveral nadamente. à data a mais popular e mais da Fundação Calouste Gulbenldan. e estamos a falar apenas no teatro "de cá p ara lá'. O TNT .Teatro do Nosso Tempo e a digressão Somos Dois. patrocinada pelo Ministério do MNT. deslocou-se a Angola e Moçambique. na ligeiro português. O Jovem Menti­ Alberto Vilar e Luís Pinhão (19 19-). n. numa encenação de pontificavam Rui de Carvalho (1927) (também Luís de Sttau Monteiro. quatro grandes êxitos sucessivamente (curiosamente natural de Benguela. Contudo. alter­ qualidade de actor e director. cenografia. como se podia ler no Programa preparado para esta digressão africana. próximo do trabalho teatral mais experimental e dos grupos do chamado teatro independente. A Idiota e. com subsídios do Ministério do Ultramar. O Diário de Um Louco de director da Companhia). quer ambas ao mesmo tempo.) que as prece­ deu: a "primeira digressão ao Ultramar" do TNT . Tomás de Macedo (1917-1980).Teatro do Nosso Tempo. Manuela Cartaz da digressão a África do projecto Somos Dois Maria ou Carlos José Teixeira. ainda. Representando. nas habituais digressões de tendência revisteira e comédia ligeira. Se. entre outros. extraordinária actriz. apresentando Adorável -se. etc. nesta Década de 1970 marcante digressão. prador de Horas. com o Grupo de Teatro Fernando Pessoa).' 5108 Ultramar e pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo. A Flor do Cacto. quer humana.

com encenação da pró­ pria Eunice. a partir de textos Programa da Companhia Teatro do Nosso Tempo música de Jorge Peixinho e cenário de Sá Nogueira (TNT) e O Porteiro de Harold Pinter. a Conferência Ilus­ trada de Luiz Francisco Rebello. também com ence­ Digressão a África nação de Jorge Listopad e cenário de João Vieira. e artístico e na velha tradição teatral da carroça Eunice Muiioz e José de Castro de Therpis. Nos diferentes palcos onde actuaram apresentaram as peças Dois num Baloiço de William Gibson. Faziam ainda parte deste excepcional conjunto de espectáculos um Recital de Poesia. Para o actor de declamação este alargamento tem um limite geográfico traçado nitidamente pelas fronteiras territoriais em que o seu idioma é enten­ dido. não admira que Eunice Munoz e José de Castro. entre outros. A Oração de Fernando Arrabal. Os Dactilógrafos de Murray Schisgal. desprezando outras situações profissionais mais cómodas. com encenação de Carlos Avilez e a A Voz Humana de Jean Cocteau. inv. dois dos maiores actores portugueses do século xx. Em relação ao projecto Somos Dois tinha como "razão de ser" o toda a gente saber que "a princi­ pal função do artista é comunicar. e exactamente porque é essa a sua principal função torna-se o seu maior prazer fazê-lo em toda a parte em que lhe for possível alargando os seus auditórios cada vez mais. 1970 onde a sua arte possa ser entendida': É com este Fotografia MNT. com encenação de Francisco Russo e cenário de Victor André. iniciam. em Março de 1970.' 97 877 todos já anteriormente levados à cena em Lisboa e no Porto com óptima recepção. Tendo em consideração estas verdades funda­ mentais. uma histórica digressão a Angola e Moçambique. quer da crítica quer do público. António Maria Lisboa ou Herberto Hélder. para muitos. n O 4652 "desprendimento" e regulados por estes princípios de prática artística que estes dois notáveis artistas. MNT. e apesar da morte prematura de José de Castro. inv. com poemas de Mário Cesariny. ence­ nada por Costa Ferreira. tenham constituído um repertório PRIMEIRA D I G RESSÃO AO U L TRAMAR que consideram actual e de bom nível intelectual 76 . n. procurando plateias mais longínquas Peça Dois num Baloiço Digressão Somos Dois.

Sttau Monteiro. a Angola e Moçambique) em 1973/1974. Alberto Vila!. Eugénia Bettencourt. Facilmente se Teatro Experimental de Cascais entende que. Luanda. e outros já consagra­ dos pelo público. em Moçambique. de André Brun. n. como se pode facilmente constatar através do repertório escolhido para esta digressão: o Auto da Índia e o TEATRO EXPERIM ENTAL DE CASCA S 77 Auto da Barca do Inferno. n O 2454 de Luigi Pirandello. Eunice Munoz e Alberto Vilar de Bernardo Santareno.' 134 872 tratou de um acontecimento cultural raro e a todos os títulos excepcional. estrangeiros e portugueses. encenado por Costa Ferreira e Programa de Fuenteovejuno com José de Castro e Alberto Villar. e Os Dois Verdugos. inv. o Teatro Experimental de Cas­ cais (cuja criação significou uma autêntica pedrada no charco da vida teatral de então) tem vindo a apre­ sentar uma longa lista de autores. 1 974 MNT. integrada numa grande digressão do Teatro Experimental de Cascais. que permitem um trabalho rico e diversificado". dos clássicos aos contemporâneos. Para além de Eunice Munoz. alguns ainda no início de brilhantes carreiras como João Vasco. o o ] interessado na procura e na experimentação.1 988). António Marques. Lizette Frias (1928-?). apoiada uma vez mais pela Fundação Calouste Gulbenldan. Maria Albergaria (1928. Fedra. de Jean Racine (numa interpretação sublime de Eunice). em Barcelona. um notável grupo de acto­ res. de Fernando Arrabal. A Maluquinha de Arroios. na primeira e única vez que esta histórica companhia se deslocará áquele continente. de Gil Vicente. naquelas duas antigas colónias. década de 1970 Sobral e Romeu Correia e O Homem de Flor na Boca Fotografia MNT. tendo esta versão do TEC/Carlos Avilez estreado em 24 de Abril de 1973. pela crítica teatral e pela dedica­ ção a esta arte como Isabel de Castro. Santos Manuel ou Carlos Daniel (1952-1996).1985) ou Eliza de Guizette (1912. Alina Vaz. Eunice Munoz voltará a África (mais uma vez. integrou esta digressão. inv. Fundado em 1965. e o aclamadíssimo Fuenteovejuna. e estando em cena no dia 25 de Abril de 1974 em Vila Pery. de Lope de Vega. Zita Duarte (1943-2000). Augusto Digressão Somos Dois. '' [ . se Digressão a África. Oração .

criticando dedicada exclusiva e apaixonadamente ao teatro. diri­ abandonaria a sua terra natal e a sua profissão de gidos por um elemento que sabe o que quer. deu-nos um espec­ escola do Teatro Nacional. 1972 MNT. Para bem do teatro em Lourenço Marques mente dito.O 405. novos ventos na vida teatral das capitais de Angola e 78 . os sendo hoje uma das figuras determinantes para a mesmos erros e as mesmas qualidades". sopravam (ainda muito devagarinhooo. Capa do boletim do Clube de Teatro de Angola. dar início a uma vida táculo cheio de vida. através dos tempos. (natural de Moçambique. Referia-se o autor ao espectáculo Medida por que RM n. Jorge dantes Universitários de Moçambique. inv. Eugénio Lisboa e Rui da cidade. n. [00'] Um punhado de jovens de boa vontade. no artigo . de Novembro de 1970. o encenador Mário Barradas conseguiu-se dar uma ideia do que é teatro a sério. levado à cena pelo TEUM Teatro dos Estu­ - "Apontamento sobre o Teatro Universitário". pela primeira vez. pois Knopfli. É de louvar o esforço dispendido. em Estrasburgo. na prestigiada com muito nome e encenador'). e que também palestrou). de calor humano. continuação. apesar do seu encenador já não estar Tal como já acontecera em Portugal propria­ entre nós. Medida. o Dr advogado (na qual era um jovem promissor e cheio Mário Barradas ('advogado de Lourenço Marques de talento) para. Entretanto.· 143 609 teatro boletim do clube de teatro de angola �!1����� No mensário moçambicano Rádio Moçambi­ cana". no palco do Gouveia dava notícia de. Lou­ "Dicca" (?).) e para bem da cultura da juventude moçambi. precedido de um ciclo de conferências renço Marques ter "teatro Shakespeare num palco proferidas por Abílio Cardoso. E conclui: compreensão da história dos últimos quarenta anos "Oxalá não se perca esta bela iniciativa [00'] e tenha daquela arte no nosso país. uma sociedade que mantém.

onde então residia a sua famOia mais próxima. um dos Ícones e um dos equipamentos mais utilizados pelo Exército português durante 79 a Guerra Colonial. vivendo em Lisboa. também um dos nossos um esforço que deve ser feito. Nasceu em Lisboa e faleceu em Benguela. ao bique. parcialmente fabricados na já desaparecida fábrica do Tramagal. e outros. estética e política) ao marasmo. acho que é raízes em Moçambique. em Luanda é sobretudo fácil.O 417. Rogério Paulo prenun­ da revista Rádio Moçambique. no teatro universi­ dada ao n. por bons e maus nl0tivos. . natural de Angola e com fortes com uma escola de teatro própria. . e com o fortíssimo pensei muitas vezes ir a Moçambique. a que se dedicou na primeira fase da sua vida activa. tornaram­ -se. com quase três anos de antecedência. Paulo (1927 . às ideias. sem feitos pelos empresários. "importada'. nas suas próprias raízes culturais e sociais a construção de uma dramaturgia de uma linguagem própria e verdadeiramente autónoma. Criar os grupos lá. à pouca qualidade então piores do Continente. Vítor Rogério Paulo na capa Machado e de Carlos Leal. livre e finalmente. ir ao Ultramar. duma metrópole onde o tamente desclassificadas e que não têm qualquer velho Império Colonial e o anacrónico Estado Novo interesse. para além desta sua actividade como actor. 197\ ciava. um texto antropológico de um observador atento da sociedade do seu tempo': 2 Barbara Volckart (1848-1935) foi uma das mais brilhantes actrizes portuguesas do seu tempo. durante mais de 35 anos. as companhias lá. que vão chamar o pior dos instintos que agonizavam os seus últimos dias. brejeiro mandam para lá companhias com peças comple­ e do sucesso comercial. Moçambique: se em Lourenço Marques este movi­ passagens duma interessante entrevista por ele mento assenta. sobretudo.] Temos é de acabar vão criando pequenos núcleos de verdadeira resis­ com o facto de só se ver teatro em Angola e Moçam­ tência (social. o fim do MNT Império Colonial e a possibilidade (e o esforço) dos novos países africanos poderem. do mesmo tário (de estudantes e independente) e germina com mensário Rádio Moçambique RM: "É claro que - a criação do TEUM e do TALM. de Novembro de 1971. aos 53 anos virou-se para a difusão do cinema e criou em Moçambique a primeira companhia de cinema ambulante. e com o excelente problemas que se põem pelo meio! Problemas de Boletim que durante alguns anos editou. mercê de negócios dominante na maioria desta arte. percorrendo com um carro caravana (mais tarde b aptizado QlIO \lndis) todas as cidades e sertões do interior daquela colónia. Em 1967 publica um livro de memórias." grandes actores do século xx. buscando. . as pessoas têm e fazer enorme confusão acerca do Sem querer ser tão "excessivo" como Rogério que é o teatro. que se ordem económica. termino com duas Dando continuidade. "Autêntico testemwlho de vida. Fazem esse negócio e qualquer critério para além do riso fácil. à crítica e às propostas de A. 3 Estes camiões pesados para transporte de tropas. ) lá vão. [ . Thomaz Vieira (1878-1979).1993). escolher e organizar a sua vida e a sua história tea­ tral. umas dezenas de anos depois. sua. quando as companhias Ce quase sempre as cinzentismo e. principalmente. Mas não é apoio de Mário Barradas. Há tantos com o Clube de Teatro de Angola. . .

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adoptando em cada um deles. somos Capa do programa da peça Aulo de Floripes estes:' Em 2004 encena Geração W. 1973 ardo Agualusa. encenadora e autora. Natália Luiza. Em 2003. e fala de pessoas que conhecem África por vias não directas. Alguns de nós. Discurso SENDO EXAUSTIVA e exemplarmente abordada nesta revista por Duarte Ivo Cruz a questão das dra­ maturgias portuguesas de temário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural d irecto portuguesa. actriz. adaptou para esta companhia . fala de África. e no ano seguinte adapta e encena MNT. João. optámos . funcionamentos estru­ turais e sociais diferentes..' 141211 A Montanha da Água Lilás. escreve e encena Mundau. pareceu-nos importante complemen­ tar essa abordagem dando voz a dois activos inter­ venientes na cena teatral portuguesa nascidos em Moçambique. Assim. deu os primeiros passos no teatro trabalhando com os mais activos grupos de Maputo. das influências. estreado em 2002. . actor e encenador. procurámos e A l b e rt o M a g a s s e l a num mesmo contexto cultural a exposição de inte­ resses e práticas artísticas diversas que acentuam a multiplicidade dos pontos de vista. tem dedicado grande parte do seu trabalho às temáticas africanas. fala de africanos a viverem fora de África.Mar me Quer. Alberto Magassela. Na impossibilidade de estender a enunciada complementaridade a todos os países objecto do Car l o s P i m e n ta estudo efectuado por Duarte Ivo Cruz. dos objectivos artísticos e das motivações pessoais e profissionais. por necessidade. um texto que '� . aqui numa conceptualização mais abrangente: a de pes­ soas que convivem em simultâneo com culturas e normas de mundos distintos. inv. alguns dos quais ajudou a fundar. de José Edu­ Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian.em conjunto com Mia Couto . A partir de 1995 estabelece-se na cidade do Porto. Co-directora artística do Teatro Meridio­ nal.fundamentalmente no Teatro Nacional de S. de Pepetela. desenvolvendo intensa actividade como actor . Fala sobretudo de mulatos. n. por centrar estas duas entrevistas a personalidades c o m Nat á l i a L u l Z a com raízes num mesmo país.

na cena teatral de uma mesma língua.-��. . . são os agentes culturais que. gências socioeconómicas que se constituem. possibilitará. . tem determinado o estabelecimento Definidas as fronteiras políticas e geográficas de cumplicidades que aproximam as diferentes assistimos. de uma forma directa da multiplicidade e qualidade dos con­ realista.--. como condicionantes dessa efectiva ções dedicadas a acções de intercâmbio e formação. �. considerar as ainda persistentes contin­ tactos. - 82 . Devemos. tendo em conta a especificidade de Não obstante o significativo peso dessa herança cada situação concreta. cada vez mais.embora em que nos caracteriza enquanto comunidade falante muito menor escala . trabalhando cionantes e a valorização e desenvolvimento dos no terreno. a superação dessas condi­ comum. artistas e organizações no terreno históricos. . numa comunidade artística tem sido reveladora de um relacionamento cultural com sólidos hábitos de cooperação. integração. constituem hoje as correias de trans­ laços culturais que historicamente têm prevalecido missão de atitudes e comportamentos nos quais nos mais adversos contextos. ---=- =.timorense. Alberto Magassela em Arranha-Céus de Jacinto Lucas Pires Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1999 - © João Tuna . ---�-. A presença de actores.TNSJ -. organiza­ guns casos. encenadores. . No entanto. autores podemos ler de uma forma activa e orgânica aquilo de origem africana e brasileira ou . portuguesa. a articulação e comunicacional sustentado em indeléveis laços entre instituições. . -. ao estabelecimento de culturas e contribuem decisivamente para uma uma cartografia cultural na qual cada parte integra miscigenação cujos contornos evoluem na razão de pleno direito o todo. nal­ A existência de festivais temáticos.

tendo trabalhar a convite do Governo sueco. Nesse mesmo Apresentei nessa ocasião a peça Os Malefícios ano prescrevi no segundo ano da faculdade onde do Tabaco. A maior parte das peças eram fei­ no sentido de dar acompanhamento ao trabalho tas a partir do nada. A partir da ligação do Henning Couto assistia. o grupo tinha crescido muito mas não o suficiente para as minhas exigências na altura. M'Beu e Mutumbela GÔ-Gô. João senti que. A de Agosto. que a nível pessoal Aurora. que foi para lá Fazíamos então trabalho de campo. a organização fez questão morte prematura do meu pai. como objectivo a exploração destas temáticas. que a Solveig Nordlund ocidentais e aos grandes temas africanos. entre 1984 e 1994. trabalhei oportunidade para alargar os meus horizontes. experiência muito traumatizante. Eu neste último que adquiri uma experiência que foi fiz teatro em Moçambique numa altura em que muito enriquecedora. Quase todos os anos. sentia que estava no Mutumbela Gô-Gô há já muito tempo. Apesar de te teres flXado em POl'tugal continuas a ir com regularidade a Moçambique? Por que razão vieste para Portugal em 1 99 5 e Sim. Depois desta que reunia boas condições em termos de disciplina pesquisa fazíamos improvisações às quais o Mia e organização. começámos a trabalhar do texto. Todo este trabalho deu origem à peça outro tipo de temas mais ligados às dramaturgias Os meninos de ninguém. do escritor russo Anton Tchekov. Também tando o texto à realidade moçambicana. para além de poder contribuir nessa fase inicial do teu percurso artístico? com a minha experiência. as dramaturgias ocidentais? Quando foi realizada a primeira edição do Festival Vim para Portugal por diversas razões. realizando-se improvisações artístico que era feito no terreno. mas tam­ Em Moçambique os meus primeiros contactos bém pelo desfazer dos casamentos. A Descoberta. do encenador Henning Mankell. na altura. Compreendi também. E Nós. partindo depois para a elaboração Mankell ao Mutumbela. o que conduzia com o repertório ocidental foram por intermédio os jovens a situações de marginalidade. . acabou por passar ao cinema com o título Comédia Infantil. este dramaturgo fora enviado para Moçambique Na preparação desse trabalho cheguei a dormir para trabalhar no Ministério da Cultura com todos quatro noites com os miúdos na rua. com os grupos Nkarianga. área teatral. Como foram os teus primeiros contactos com Quando se me deparou a possibilidade de vir para o teatro em Moçambique e quais os processos Portugal integrar o projecto do Teatro Nacional de de trabalho e as temáticas que el'am abordadas S. Procuro manter um como surgiram os teus primeiros contactos com intercâmbio profissional que me parece importante. mas acabou Mercado Central. para viver de perto o mesmo por optar pelo Mutumbela pois era o único grupo tipo de dificuldades que eles tinham. com Mia Couto. adap­ 83 seguia o curso de Matemática e Física. situação provocada não só pela guerra. que constituiu uma em que eu estivesse presente. em Maputo. Então vim para em função do tema que queríamos abordar. dado que me permitiu um não havia investimento nenhum. De facto. existia aí uma excelente Em Moçambique. Lem­ Portugal com o objectivo de evoluir tecnicamente bro-me que um desses temas tinha que ver com o e de poder melhorar os meus conhecimentos na aumento do número de crianças desamparadas. frente ao os grupos de teatro existentes no país. Não havia polí­ contacto directo e um trabalho muito partilhado ticas definidas a nível do Ministério da Cultura. Todavia foi o meu futuro em Moçambique estava limitado.

O facto de teres vindo para conferência.campo no qual trabalhavas com está condicionado pela mulher e que dá aquela o Mutumbela GÔ-Gô. são induzidas do exterior? 84 . texto à realidade moçambicana? Por desconhe­ No entanto.TNSJ Porque é que sentiste necessidade de adaptar o culturais não se modificam de um dia para o outro. Eu entendi que esta trabalho. levas situação poderia ser um choque interessante. uma vez que o espectáculo Na cultura moçambicana não existe a possi­ subvertia todos esses valores. por questões cul­ dental em Moçambique isso já significa um afas­ turais. Mas. Sentes que que traz sinais culturais completamente diferentes. Alberto Magassela e Ângela Marques em A hora em que nada sabíamos uns das outras de Peter Handke Encenação: José Wallenstein Produção: Teatro Nacional São João 2001 - © João Tuna . periodicamente. seguramente. o confronto com outras realidades cimento deste tipo de dramaturgia ou pela inexis­ culturais pode dar um contributo significativo e daí tência de referências culturais que permitissem a necessidade de adaptação da peça ao contexto a sua leitura? cultural moçambicano. no fundo. existe receptividade para outras formas culturais Apesar de existir alguma evolução. apesar de ser um fumador inveterado. as tradições que. Portugal afastou-te. é ao homem que é reconhecida a chefia. bilidade de ser a mulher a comandar os destinos de uma família. Ao regressares. Embora na prática seja a mulher Ao apresentares uma peça do repertório oci­ quem organiza e controla. tamento do tipo de trabalho sobre a realidade Nos Malefícios do Tabaco temos um indivíduo que social do país . dado outros conceitos e outras práticas. desse tipo de por imposição da mulher.

para a manifes­ para discutir todos os temas e todas as dramaturgias. fazer essa procura. Mesmo um formada e uma maior abertura. enquanto no Teatro Avenida havia um Quais os grandes temas que são mais relevan­ viveiro. Neste sociais? momento. Só que não um viveiro do teatro em Moçambique. havia o M'Beu do qual podiam sair actores tes neste momento? Continuam a ser os temas para o Mutumbela ou para outros grupos. tação do público. clássico tem que ser perspectivado dessa forma. É frequente o público aplaudir a É necessário desenvolver a formação artística. A Casa existem propostas em número suficiente para satis­ Velha também deu um contributo neste sector. Em Moçambique não há nenhuma escola tive que adaptar também o espectáculo em função de teatro. A maior parte dos actores moçambicanos No entanto. existe apenas uma escola de belas-artes. Exis­ meio dos espectáculos ou fazer comentários e dar tem poucas referências quanto às linguagens técnicas a sua opinião. dessa realidade. em termos gerais. No caso de Os Malefícios do Tabaco essenciais. mas formava essencialmente profissionais "para uso interno'. Na Mas para a continuação deste desenvolvimento o fase de ensaios nós contamos com essa participação intercâmbio é fundamental. O país está a crescer. Sinto que há espaço e damos espaços. a realidade do teatro em Maputo está Alberto Magassela e Isabel Lopes em Combote de negro e de cães de Bernard-Marie Koltés Encenação: Fernando Mora Ramos Produção: Teatro Nacional São João . entre as réplicas.TNSJ 85 . o tipo de teatro que se faz em Moçambique Nem por isso. que tem sido abertura a outras realidades culturais. Houve inves­ tem que ser sempre perspectivado em função do timentos na formação. Há já uma opinião pública público e da participação desse público. eu sinto que existe uma grande foram formados no Teatro Avenida. 1999 © João Tuna .

Tendo a referência dos dois universos aspectos e interesses de natureza económica. para nós. passa com os meus colegas que vêm para cá estudar Nesse aspecto o Mutumbela Gô-Gô foi também ou trabalhar na área do teatro. Até que ponto Passado o período colonial e o período da inde­ procuras.muito referenciada ao Mutumbela Gô-Gô.todos balho em que são privilegiadas as competências têm a mesma origem ou motivação. a nossa tendência inicial é a da cooperação me torna cada vez mais rico. termos teatrais. no domínio técnico influenciou. uma ponte para sentando novas propostas dramatúrgicas. Um artista tem que estar aberto a a compreensão dos seus universos.que é da dramaturgia mundial e com métodos de tra­ hoje o grande concorrente do Mutumbela . Vicente quando cheguei a Portugal. logo a seguir à foi um enorme desafio pessoal porque apesar da independência. No entanto. tal permite-me fazer um cruzamento que entanto. existência de uma língua comum era importante a que se calhar é normal em todas as revoluções. Esteve o ano passado em Portugal uma compa­ nhia moçambicanal a apresentar um espectáculo Mas. João. nas tuas idas recorrentes a Moçambi­ pendência como vês hoje o relacionamento. Uma A cultura moçambicana tem uma grande decorre do passado histórico e cultural dos dois riqueza porque não está ainda descolada da terra. ção política e social dos dois países. de um patriotismo exacerbado. em que e nas acções de formação que aí desenvolves. Eles próprios e colonizador. No culturais. que apresentava canções revolucionárias e coreo­ o facto de teres vindo para Portugal e teres traba­ grafias a partir de canções revolucionárias do género lhado fundamentalmente no Teatro Nacional de "colonialismo nunca mais" ou "a luta continua': 86 . Este factor determinante propícia uma o "étnico" que deve prevalecer. com Portugal? Com a estabiliza­ transportar essas aprendizagens e influenciar. existe uma por sua vez. a possibilidade e acabou por limitar as possibilidades artísticas na da abordagem à sua obra na mesma língua facilita sua abrangência. países e reflecte-se na utilização de uma língua Mas também temos a consciência de que não é só comum. Sendo um entanto. A outra tem que ver com o abdicar das minhas raízes. posso enriquecê-las condicionamento desta aproximação por diversos através de outro tipo de informação cultural que vou factores relacionados essencialmente com alguns adquirindo. desde s. A língua e a cultura muito importante na formação dos públicos. O mesmo se diferentes propostas e a novos desafios. no caso do teatro. altura o grupo polivalente dos Caminhos-de-Ferro. sem aproximação natural. tomando contacto com os grandes textos os grupos da periferia da cidade ao Gungu . Apesar da histórica relação entre colonizado balho que aqui tenho desenvolvido. seguramente. apre­ portuguesas constituem. a tua maneira de encarar o teatro. isso determinou todos os comportamentos autor da dramaturgia portuguesa. No consideração das suas diversas nuances. as pessoas com as quais trabalhas e aproximação efectiva? Em que pontos se centra que não têm acesso à prática artística que desen­ essa aproximação? volves em Portugal? Temos que encarar duas realidades. uma das minhas maiores alegrias sentiram essa necessidade de abertura a outras profissionais foi ter começado por trabalhar Gil formas culturais. Existia na as outras culturas ocidentais. Para mim Nós passámos por uma fase. absoluta com a maior naturalidade. quais são os temas comuns que realizaram com o Manuel Wiborg e aquilo que nos quais é possível encontrar afinidades? me pediram foi precisamente que lhes facultasse O grande tema é o do fortalecimento da rela­ todo o material que tem servido de base ao tra­ ção.

O público moçambicano era na altura. Têm sido também apresentados espectá­ tanto há que ter cuidado com aquilo que é apresen­ culos de teatro-dança. porque também não nos interessava criar Têm participado grupos de diversos países um vazio. qual é o tipo de maturgia muito forte. público por via da língua. choque cultural que possa conduzir a uma rejeição.TNSJ Quando o Mutumbela começou a pegar em Muito variado. Tivemos que participação do maior número de grupos do que no encontrar motivações para uma aproximação desse estabelecimento de critérios de programação. A organização está mais interessada na distanciamento por parte do público. africanos e europeus. com textos de Mia Couto ou mais do que agora. Desde Shakespeare até Sergi obras literárias. O festival não tem uma política definida de "actualidade patriótica em vigor" sentimos um reportório. que é uma ini­ ao lado a África do Sul que é um país com uma dra­ ciativa relativamente recente. que constituem um género tado e como é apresentado para não provocar um muito forte nas companhias teatrais africanas. porque Existe alguma circulação mais evidente do reper­ compreendemos a necessidade de fazer essa apro­ tório lusófono'? ximação.por uma questão de proxi- . Por necessidade de aproximação ao tados e a fazer reposições a pedido do público. acabámos com espectáculos sempre esgo­ Sim. Nós começámos com pouco público mas.Alberto Magassela e Adelaide João em A Tragicomédia de D. Eu acredito que Moçambique 87 repertório que é apresentado'? investiria muito mais . um público em formação. Duardas de Gil Vicente Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1996 - © João Tuna . público. Mas não nos esqueçamos que temos mesmo ali No caso do Festival de Agosto. Por­ Pepetela. que não tinham que ver com a Belbel.

No entanto. como sabemos. 2002. Giorgio Barbe­ rio Corsetti. de Luigi Pirandello. tais como: Rogério de Car­ valho. baseado no romance A Varanda de Frangipani. há uma tendência para Antes e durante a sua formação como docente tratar os países e as culturas africanas como se toda co-fundou e integrou vários grupos de teatro ama­ a África subsariana fosse constituída por um único dor. de Mia Couto. constatar factos omissos e desconhecidos. 88 . baseado em três contos de Mia Couto. atália luíza: como há um défice de traduções e de tradutores de palav as que nos unem teatro em Moçambique. Fernando Moreira. no Instituto Médio Outras há que são ainda feridas abertas mas que Pedagógico de Maputo em 1989.na dramaturgia sul-africana. serena­ leccionado estas duas cadeiras em várias escolas de mente. de François Servet. altura em que integrou o elenco © Patrícia Poção e Rui Mateus da peça . 1 998. Os Sonâmbulos. José Wallenstein. Nuno Cardoso e Francisco Alves. Miguel Seabra.C de Primeira. outro lado. miscigenações. cana num contexto de aproximação cultural'? Entendo que existem muitas estórias que não foram Alberto Magassela nasceu em Maputo/Moçam­ ainda contadas. apesar nas e a dramaturgia portuguesa de temática afri­ de tal só se verificar nos grandes centros urbanos. baseado na peça Tarai.midade . Desde então trabalhou com vários encenadores.A Tragicomédia de Dom DUal'dos. Foi. M'Beu e depois no grupo Mutumbela GÔ-Gô. José Caldas. Participou. João e encenada por Ricardo Pais. Nuno Carinhas. de Anton Tchekov. Os Malefícios do Tabaco. Josina Machel. Primeiro no grupo sidade cultural feita de especificidades próprias. 1 999. tais como: 25 de Junho. Paulo Castro. em diversos trabalhos para cinema e televi­ são. Por cisco Manyanga e Escola Secundária de Lhanguene. como Professor . de Gil Vicente. Maputo. embora haja cada vez Como se enquadram hoje as dramaturgias africa­ mais pessoas a falar inglês em Moçambique. Vive no Produção: Teatro Meridional 2003 - Porto desde 1995. produzida pelo Teatro Nacional de S. Formou-se em Matemática e Física comuns. Fran­ sem o recurso à acusação ou desculpabilização. tendo de seguida é necessário começarem a ser contadas. a língua inglesa é um obstá­ culo à sua maior propagação. Fernando Moura Ramos. Não Tenho Culpa. Pedro Barbeitos e Alberto Magassela em Mundau de Natália Luíza Abreu. Manuela Soeiro e Henning Mankell e con­ Encenação: Natália Luíza tactou pela primeira vez com Mia Couto. Estórias da história de vivências bique em 1966. Neste último trabalhou com os encenadores Evaristo Daniel Martinho. 2001. tanto em Portugal como em Moçam­ bique. no Teatro Avenida em Maputo modelo de expressão cultural e não por uma diver­ que a sua carreira se solidificou. Natália Luíza. 2002. Assinou as seguintes encenações: Au Théâtre Comme Au Théâtre. no entanto. contaminações culturais. Minha Conto.

determinante no estabelecimento de uma relação. Encontro aí uma espécie de expressão uma dinâmica e uma sinergia em termos de comu­ primordial dos afectos e um entendimento do nicação que é de enorme importância.ou somente . São somos ainda profundamente ignorantes -. dade e as especificidades literárias dos autores que A língua portuguesa é também um factor temos escolhido. transversal. é naturalmente relevante a quali­ ainda tem voz. ponto de vista dos seus conteúdos de comunicação.e das culturas africanas situamos no mundo e na relação com os outros. mas sobretudo pelo facto de elas comportarem Como se algumas estórias nos trouxessem o eco da matéria universal. da devolução de um mundo no qual a natureza Por outro lado. afectiva e racional do relação das personagens com o ambiente e a terra. e de ela ser ainda uma reactualização textos e linguagens que me permitem uma reflexão constante de um mesmo legado oral e escrito cria partilhada. desejando dar a conhecer wn mundo entendimento dos conceitos mais complexos e em que houve tanto tempo de partilha comum onde está sempre subjacente a questão de como nos entre gentes e culturas .pelo e económica com que nos deparamos. É como 89 mundo que. nos permi­ propósito de divulgar as dramaturgias africanas ou tem também uma reavaliação do nosso posiciona­ as dramaturgias portuguesas com temáticas africa­ mento como indivíduos cada vez mais globalizados. Quando avanço na leitura de alguns autores O facto de nela nos podermos perceber e comunicar africanos encontro-me perante personagens. não é tanto . nas.Ângelo Torres e João Ricardo em A Varando do Frangipani de Mia Couto Encenação: Miguel Seabra e Álvaro Lavín Co-produção: Teatro Meridional! Teatro Nacional São João/ Ponti 1999 - © Henrique Delgado No entanto. quando estórias que nos permitem outro tipo de "focagem" me coloco perante as estórias e sinto a urgência e em que pelas condições da natureza da vida social de as comunicar. permite o se através da palavra nos fosse dado olhar uma . con­ mutuamente. indo directo ao coração.

São. para além do espaço. únicos e específicos. Ficamos cénica com a especificidade de trabalho e rigor que a compreender que o mundo é novo. teatro. certamente. Referir especificidades de cada um destes Mas. e as outra relação com a finitude. Daniel Martinho e Luis Gaspar em Geração W de José Eduardo Agualusa Encenação: Natália Luiza Co-produçào: Teatro Meridional! Cena Lusófona -2004 © Patricia Poçào e Rui Mateus 90 . Elas parecem ter mais tempo.o tempo das personagens. há ainda o tempo autores seria tão extenso como exaustivo e extra­ . no pressa de vertigem. Patricia Galiano Abreu. tornando-a posteriormente escrita renascida noutro tempo. de cada escrita. andando pelos o Teatro Meridional procura nos seus projectos de mesmos caminhos. a procura de cada Co-produção: Teatro Meridional! Culturgest 2002 - © Pedro Serra Nunes um destes autores e da escolha de algumas das suas obras para programação do Teatro Meridio­ nal. com outras cores. suas obras também. que aplacam a nossa pola. Laurinda Chiungue. e entanto. o âmbito destas linhas. Qual a especificidade de cada uma das drama­ Cucha Carvalheiro e Daniel Martinho turgias que tens trabalhado (Pepetela. respondem a diferentes momentos de uma urgência de comunicação em que encontrámos nas palavras de cada um destes autores a resposta para essa vontade de contal� procurando depois responder e interpretar as necessárias exigências paisagem redescoberta noutras subjectividades. autores diversos. Agualusa em Mar me quer de Mia Couto Adaptação: Mia Couto e Natália Luiza e Mia Couto)? Direcção Cénica: Miguel Seabra Como referi anteriormente.

e licenciada pela Escola e especificidades várias .. Carla Maciel. O que caracteriza cada autor não é a sua refle­ I Trata-se da Associação Cultural Mugachi.Curso de Formação de rárias .. Não diria sequer de cada país. lite­ Superior de Teatro e Cinema . Tem dividido a sua Agualusa e/ou Luandino em conjunto? actividade como encenadora.Romeu Costa. da cidade da Matola. na qual a língua comum é somente facilitadora da difusão? Natália Luíza nasceu em Moçambique em 1960. o espectáculo América. em co-produção com a APA com o seu tempo histórico e o seu percurso pelo (Actores. escritora sérvia Bijana Srbljanovic. Parece-me uma injustiça confundir autores gia e Ciências da Educação. Se é tão distinta a escrita de Saramago e de Actores.pessoais. de cada país. da 91 mundo? A relevância e a qualidade da obra justi. Carla Gaivão e Carla Chambel em A Montanha da Agua Lilós de Pepetela Adaptação e encenação: Natália Luíza Produção: Teatro Meridional . xão/expressão poética na relação que estabelece que apresentou em Lisboa e Porto. É co-directora artística do Teatro Meridional. porquê categorizar-se Pepetela e em Estudos Africanos no ISCTE.actor/encenador. Associados). As dramaturgias africanas estão condicionadas As entrevistas a Alberto Magassela e Natália LuÍza foram pelos contextos da sua relação histórica ou aquilo conduzidas por Carlos Pimenta . independentemente dos devemos enquadrá-la como expressão própria contextos históricos em que é realizada. temáticas. mas de cada Bacharel em Psicologia na Faculdade de Psicolo­ autor. formadora e actriz.2005 © Patrícia Poção e Rui Mateus Podemos falar de uma dramaturgia lusófona ou ficam a sua perenidade. Produtores. Encontra-se actualmente a fazer o mestrado Lobo Antunes. consultor que se sobrepõe é a "expressão poética"? do Instituto Camões para a área do teatro. .