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Teatro o Instituto Camões contou com o saber Digressões em língua portuguesa do especialista. o qual. no depoimento introdutório dum j ovem mas Em português. desde a fundação ciência que une e se expande.' 6914 Para o testemunho das itinerâncias novecentistas © José Pessoa. D. de Marialva. num texto fundamental que deu origem o entendimento e diálogo numa língua comum Proveniente da Quinta do Marquês a este número da revista. idioma literário. de direito e de a explanação teorética do tema. Lisboa MNA. os laços entre Portugal e o Brasil. portugueses e brasileiros tanto financeiramente a sua contextualização começa obviamente como pela publicação da obra e da montagem na inspiração e na regra claríssimas cénica do texto premiado nos dois países. indispensável e necessário definir critérios para tem como objectivo premiar textos teatrais a abordagem de tão vasto tema. Contudo. através das suas diversas e valorizados com a criação do Prémio António arquitecturas. actual universo de duzentos milhões de indivíduos.o zoom à memória dessas Simonetta Luz Afonso . foram recentemente sublinhados contributo intralíngua. A Musa Tólia teatral vicentina. pela parte brasileira. nas artes perfonnativas em língua portuguesa. na cena cultural dos oito países José da Silva. foi obviamente e da FUNARTE. cujo tornando-se veio de comunicação de um tema rumo se iniciou com a transferência da Corte base. desde a sua expressão vicentina até de criatividade teatral contemporânea em língua à actualidade. riqueza e amplos trajectos o Teatro no Brasil. com especial importância na cultura e de realidades teatrais do espaço lusófono. a nossa Painel de Azulejos. em termos de acervo museológico. inv. não apenas em Teatro português. a nível o Teatro. em áreas e meios Lisboa. oficial. mas igualmente seu conservador e responsável Por ocasião do décimo aniversário da CPLP. pois. 3° quartel do século XVII europeu para as antigas colónias até às suas eruditos e populares tem contribuído para Faiança polícroma a azul independências é desenvolvida pelo investigador a aproximação artística e cultural. Esta iniciativa do Instituto Camões. DDF/IPM das companhias . Por sua vez. n. Não por menor importância mas por grande Diversificando uma matriz de inspiração. a grande digressão. nossa língua materna. Finalmente. desenvolvendo-se e divergindo através das portuguesa para o Rio de Janeiro. a expansão a partir do território homenagem ao Teatro. o actor e encenador nono número da revista Camões homenagear o de renome discute e aborda com outros Teatro. editorial viagens e experiências e à sua eternização -. interacção das mais diversas vertentes profissionais as suas experiências dentro artísticas. bem como para e manganês 128 x 104 cm e mestre. representa e reflecte um importante portuguesa. já consagrado dramaturgo. de todos os géneros dramáticos de cidadãos A grande viagem. eis. com o mesmo idioma e ganhando autonomia. inteiramente dedicada ao Teatro. de trabalho. do Instituto das Artes e do Teatro Nacional Nesta edição de 2006 da revista Camões. não se inclui realidades e vivências de sociedades e espaços neste número. pela parte portuguesa. o Instituto Camões pretende neste seu décimo num texto dialogado. Maria II. de expressão portuguesa.

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ISSN: 0874-3029 Colecções. COPYRIGHT INSTITUTO CAMÕES Respollsável Inventário. Reservas José Carlos Alvarez e Conservação do Museu AGRADECIMENTOS Nacional do Teatro Anabela Barroso João Laurentino. do Mindelo . personagem de Moçambique da n-agédia do Marqllês Centro de Documentação de Mâ/ltlla e do Imperador e Investigação Teatral Carlos Mag/lo. Joel Tembe Reservas e Conservação José Meco e Alberto Magassela Museu Nacional do Teatro Luís Abélard Sofia Patrão. João Branco Carlos Pimenta com Natália Luíza Técllka Inventário. Manuel Albergaria loSecretár. Luís Amaral Bibliotecária do Musell Luiz Francisco Rebello Nacional do Teatro Mafalda Ferro Vasco Seruya.Associação Tchiloli Mindelact Arquivo Histórico Editorial Caminho de São Tomé e Príncipe Edições Caixotim Fundação Casas de Fronteira e A10rna Fundação Calouste Gulbenkian Grupo Teatro Centro Cultural Português JMCA Fotografia Lilástico Museu Nacional do Teatro Teatro Nacional D.o de Santaclara da Embaixada de Portugal Manuel Maria em São Tomé e Prfncipe de Santaclara José Manuel Costa Alves APOIO fOTOGRAflCO José Meco Actores e Produtores Sílvia Cam ara Associados Silvina Pereira Arquivo Histórico de São Tomé e Príncipe CAPA Arquivo Histórico Ganalão. Colecçiie s. 6 Notas sobre escrever Teatro DESIGN GRAflCO TVM designers Jacinto Lucas Pires PRESIDENTE Simonetta Luz Afonso TRADUçAO teatro em português VICE-PRESIDENTES Alliance Francaise­ Luísa Bastos de Almeida Leonor Francisco Maria Fondo 14 o Da expansão às independências Miguel Fialho de Brito Richard Rogers REVISTA CAMOEs REVISÃO COORDENAçAo Dulce Reis Duarte Ivo Cruz Miguel Fialho de Brito Luísa Cunha Rego IMPRESSÃO Rumo a África Facsimile PRODUçAO Maria Cortesão 62 Contribuição para o estudo TIRAGEM 6000 COLABORAçAO da presença das companhias de teatro António Braga. Maria II INSTITUTO ][ Teatro Nacional São João Teatro Maizum CRMÕES PORTUGAL . Carlos Espírito Santo Discurso directo Conselheiro Cultural Dina Gregório e Direclor do Centro Cultural Fernanda Bastos 80 em Cabo Verde Jaime Ramalho Margarida Palhinha. DEPÓSITO LEGAL Adido Cultural e Director 124734/99 e dos actores portugueses em Africa (1900-1974) Centro Cultural em Moçambique Isabel Cartaxo.

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Notas sobre
USAR TODOS OS EXPEDIENTES para juntar ilusão e
distância - até que não haja nem uma nem outra, só
outra coisa que não cabe em nenhum dos termos.

escrever teatro
Escrever o mínimo de didascálias; não cair na ten­
tação de "encenar" por escrito. Imaginar tudo com
grande pormenor e depois apagar até restar apenas
o essencial (o coração, o osso) de cada momento
ou cena,

Ja c i n t o L u cas P 1 r e s A lição que há no modo distraído e puro com que
dizemos as deixas quando, nos ensaios, alguém
pergunta: "Vamos de onde?"

A ideia de "deixa" : é mais disso que se trata, "deixar"
as frases, do que de "fazer" qualquer coisa com elas
ou sobre elas.

Não ter medo da tensão entre a língua em que escre­
vemos e a língua em que falamos. Pelo contrário,
usá-la a favor do que queremos dizer.

Pausas e silêncios não são vazios; têm existência e
corpo. Só fazem sentido como palavras em branco,
frases em negativo. (A língua em que ouvimos.)

Lição que os actores me ensinaram: uma voz cons­
trói-se à volta de um mistério.

Buscar o ponto óptimo em que tudo é normalmente
misterioso e espantosamente claro.

o teatro é o presente, o "isto" do presente. Exige
que se "esteja lá" quando as personagens falam ou
fazem alguma coisa.

Falas são acções; movimentos de avanço, recuo,
ocultação, revelação; palavras que querem coisas.

Definir um código tão coerente e rigoroso quanto
"Garrett e Sargedas, um conhecido ador da época",
desenho de Rafael Bordalo Pinheiro para os Teatros possível para que, no limite, o texto possa valer
de Lisboa de Júlio César Machado, 1874-1875. como uma pauta: música escrita onde tudo está

"Universos e frigoríficos.
ensinaram: uma voz constrói-se � volta de um
mistério."
De Jacinto Lucas Pires; Adores: Miguel Moreira,
Joana Bárcia, António Simão, Manuel Wiborg, tvo
Alexandre; Encenação: Manuel Wiborg; Produção:
APA; CCB, Lisboa 1998.
© Jorge Gonçalves

previsto, tom, tempo, pausas, interrupções, sobre­ Diálogos são duas pessoas à conversa, mas também
posições, etc. cada uma à conversa consigo própria.

Em última análise, um texto não se explica. Ou seja, As personagens são aquelas específicas constru­
é a sua própria explicação. ções. São aquilo que fazem e dizem ali, daquela
maneira. São despsicológicas (perdoem-me a
Achar a forma simples e única de, ao mesmo tempo, palavra) e não têm "vidas" para trás ou para
contar a história e contar a história de c ontar a frente. São o que são na peça. Podem espelhar as
história. circunstâncias concretas em que apareceram e
usar o presente de todas as formas concebíveis,
Escrever é pensar o outro, tentar o ponto de vista do mas não devem ficar dependentes de certo con­
outro - pormo-nos, inteiros, do "lado de lá': Nunca texto, actores, aquela encenação, o texto da folha
esquecer a importância da contracena. de sala, a explicação na entrevista, a nota de rodapé
não sei onde, etc.
Encontrar o terreno limitadíssimo da nossa peça.
E depois, cumprindo escrupulosamente esses limi­ o conselho mais importante é talvez o da solidão.
tes, construir uma totalidade.
Economia de gestos e rigor em cada um. Tam­
Falar do que, de verdade, se tem medo e se deseja bém as acções devem ser substantivas, suficientes,
- por vias travessas. enxutas. 8

Um palco e actores sob as luzes - isso já traz consigo pendem para nos darem o seu ponto de vista a
muita História e muito peso. O teatro deve inven­ partir de dentro.
tar uma verdade (óbvio) mas com uma espécie de
(atenção, palavras equívocas) pudor ou leveza. Na zona entre o puro verosímil e o levemente
descentrado, falas que pedem dos actores alguma
Aprender com as cenas silenciosas. Como pode ser coisa entre o quase-espantado e o quase-auto­
fundamental o momento em que alguém decide mático.
quebrar um ramo, não pegar numa chave, tocar
noutra pessoa. Falas que - não - valham sozinhas.

Não impor, "de fora'; um certo tempo às cenas. Uma imagem teórica: a cena como um lugar ao
("Tempo" usado aqui no triplo significado de dura­ mesmo tempo abstracto e concreto onde há pessoas
ção, ritmo e "sentir':) Seguir o compasso que as e dois níveis de matéria: o das coisas-coisas, uma
estrutura "por dentro': Ver o que nos diz o nosso cadeira, uma mesa, uma faca, uma flori e o das
esquema, mas ver também o que sugere o próprio coisas-palavras, uma "cadeira'; uma "mesa'; uma
desenrolar da cena. Ser lúcido, mas confiar também "faca'; uma "flor':
naquilo que os poetas chamam "uma atenção" e os
mortais chamam "ter ouvido': A linguagem é o "onde" de todo o amor, todo o ódio,
todo o desejo, etc. As pessoas movem-se é aí dentro.
Ideias que - desmontadas, retrabalhadas, ilumina­ (Dito isto, atenção aos excessos de "linguagem':)
das, esquecidas - se tornam cenas.
O que se diz deve ser tão claro que, do nada, faça
Não há dois espectáculos iguais, diz-se. De forma nascer alguma coisa. Mas também tão dissimulado
análoga, também todas as peças devem ser feitas que sugira a existência de uma outra coisa escon­
como as primeiras de alguma coisa. Arriscadas com dida ou perdida, uma coisa sempre por dizer.
espírito inaugural, fundador até - peças sempre
espantáveis. A grande decisão da escrita é, porventura, a do que
não se diz.
. Tem de haver qualquer tipo de estranheza, ainda
que do género mais subtil. Um ligeiro descentra­ Não começar a escrever até haver alguma coisa no
mento, um desequilíbrio. lugar de ser escrita.

Experimentar novas formas de cruzar o "contar" Tratar os segredos mais negros, as fantasias mais
com o "mostrar': Sem perder de vista que quem loucas, as violências mais brutais, com o máximo
conta uma história - num monólogo, por exemplo de (atenção, palavras equívocas) simplicidade e
- se vai revelando nesse contar, e que quem fala contenção.
sobre coisas sem importância - num diálogo, por
exemplo - conta histórias sobre si próprio. Utopicamente, ideia=imagem.

A ideia de pessoas-personagensi personagens que As personagens devem sofrer alguma transforma­
também são actores de si próprios. E a ideia de ção, chegar ao fim diferentes do que eram - isto é,
9 narradores-pessoasi personagens que se auto-sus- "mais iguais" ao que são.

Mas sem buscar um resul­ das frases. João Cardoso. Jorge Vasques. Escrever por uma razão. Se há algo de particularmente estranho e difícil de agarrar nas entrelinhas do texto . de um código que.algo sobre o 10 . como é que certa personagem fala se se souber o a vida. descobre-se mais facilmente "Figurantes. acertando o texto no sentido certo. desco­ mais do que ajudar quem lê. des­ vozes. ajude a formar aquelas bre-se muitas vezes a chave para desmontar.) Actores: João Reis. Dizer alto as falas. Emllia Silvestre. Nuno M. António Durães. A arte das histórias é uma arte abstracta.A estrutura não serve apenas para organizar ou (De modo análogo. truh� retrabalhar o que está para trás. Escrever desde o fim. Lulsa Cruz. TNSJ Porto 2004. movimento': Micaela Cardoso." De Jacinto Lucas Pires. Em certo sentido. Há uma lição natural no som Cardoso. Pedro Almendra. Descobrindo o final. Encenador: Ricardo Pais. escreve·se contra "emoldurar" um corpo de ideias e imaginações. © João Tuna/TNSJ tado. A importância da pontuação. Produção: TNSJ. deve ser o mecanismo que põe esse corpo "em que ela esconde.

o nosso primeiro relance. Por vezes ajuda ser o mais simples possível. em caso de dúvida absoluta. "universais'. Uma pré-frase. de novo.) Uma cena é feita de pessoas num mesmo espaço num dado momento. isso faz parte delas. Aceitar tudo o que possa Primeiro. toda a loucura. Conseguir Alguns textos precisam de breves espaços de respi­ ganhar um mínimo de distância sobre o que se ração: canções. conven­ o contrário de uma coisa ajuda a ver melhor tudo ções conhecidas. claro. do que elas são. escreveu e pensar o que poderá ali haver de um qualquer mínimo novo-verdadeiro. Pelo contrário. livres delas. Segundo.) . qual possivelmente só temos uma vaga intuição -. Em certo sentido. As regras não são as da vida. Ouvir as opiniões dos outros com abertura. As limitações práticas (de elenco ou de espaço. (O carácter "ao vivo" do 11 teatro. vê uma mulher que quase sempre se escreve em cima disso. estabelecer e tornar claras as suas próprias leis. tempo. a falar. Usar as pausas com moderação . ousar tudo. toda ajudar o desenvolvimento da ideia central do texto. cortar tudo. Outras só aparecem quando dizem alguma coisa. Pode-se dizer homem. "de elevador'. qualquer subversão. o que nos lançou doi­ damente naquele mundo. mas cada peça deve o que poderá ser essa coisa. são as do texto . é Tudo pode muito bem começar só com uma ima­ útil tê-las bem presentes para que possamos usá-las gem ou uma frase. Algumas personagens precisam de um tempo cala­ é melhor parar e tentar perceber o que é. que quer dinheiro rápido. entre dois desconhecidos. um silêncio.valem ouro. um silêncio desconfortável. E depois deixar espaço para o irrazoável. espírito crítico. No fim de contas. por exemplo) não devem ser ignoradas. a censura. que se suspendei tempo fora do tempo. (Por a nosso favOl� a favor da peça . dentro desse corpo coerente.e daquele texto especificamente. que se expande. Há. num lugar de onde não podem sair. isso está sempre lá. sozinha sentada num banco. Ou menos até. fran­ queza. seguir a nossa pri­ meiríssima visão. . Queira-se ou em troca? não. E.e assim vermo-nos exemplo. escreve-se contra a vida. Depois. Terceiro. para que não se desmanchem pela voz. pode aconte­ A ficção é sempre uma forma de manipulação do cer tudo e mais alguma coisa. o mais prosaico. parêntesis. Ele faz Personagens: pessoas que são vistas a fazer coisasi o quê? Quem é ele? E ela? E o que é que ela quer. é na nossa visão que temos de confiar estarão a mais. Questionar cada palavra. suspensões. naquele texto. depois de todas as regras ou Desconfiar das "palavras bonitas': Provavelmente princípios. A tensão implícita entre dois corpos Por exemplo: numa estação de comboios um já é um acontecimento. humor. para as conhecermos bem antes de começarem (quem sabe? milagre!) alguma coisa mesmo nossa. qualquer impossível. A arte das histórias é uma arte abstracta. mesmo nova. Tempo que se concentra. cada pormenor. Pode ser das.

"Os dias de hoje. que baixa a luz sobre aquele mundo. pergunta. O rnornento especialrnente cornovente que se segue a urna gargalhada a sério. Ivo Alexandre. de um começo: desequilíbrio. Co-produção: lilásticof TNSJ. não entrada. a reescrever. Juliette Prillard. E depois espera-se que não de estreitar a compreensão da história. de lhe dar outros lados. nho': Tudo o que é informação deve ser dado só quando é realmente necessário. não. Fazer-nos perceber palco. no coração). o momento especialmente comovente que se segue a uma gargalhada a sério. mas tem de ser "final': De um encenador. espera-se o máximo de rigor na leitura da peça e o máximo de fidelidade ao que A difícil arte do "aparte" : o comentário como forma ela é (no osso. tensão. de a transformar ironica­ Uma pessoa exposta como um actor num palco já é mente.queira-se ou que acabou. Pode até ser "aberto'." De Jacinto Lucas Pires. Um fim é um fim. Porto 2003. insuspeitos significados. Encenação: Marcos Barbosa. aquele assunto. Adores. © João Tuna/TNSJ 12 . prismas novos. Ser "claro" não quer dizer ser "explicadi­ como fórmula.Uma peça é para ser atravessada por corpos num Um final tem de resolver a coisa. João Pedro Vaz. a fazer expandir em novos. Não cair na tentação de explicar logo tudo de A repetição como máquina de significação. isso está sempre lá. Nicolau Pais. de a estilhaçar ou sabotar. Estúdio Zero. mas também é "só" um texto . mas de nos surpreenda.

Respeitar as personagens. nem salvá­ Lição que os actores me ensinaram: a palavra é um las. claro. (De olhos abertos! De novo crédulos e livres como em crianças. de "Notas sobre es­ Não cair no que é fácil e já demasiado testado. Nicolau Pais. é mais do que a mera soma das partes. fotografar Escrever teatro: frases só lembráveis. vras. mas um país para todos os possíveis e imaginários. precisa das muitas línguas da nossa língua. de um mero detalhe. Actores: Hugo Torres.no sentido ensinaram: a palavra é um acontecimento físico. Porto 2001. Por isso. dar-lhes um fim. analisável. tarde e sair cedo': Poucas palavras são melhores do que muitas pala- Nem tudo é verificável. Por exemplo. Por vezes. desmontar uma ideia feita. É sempre boa conselheira aquela regra do cinema que. acontecimento físico. mas nunca deve é soar a coisa neutra. O todo. falar. em Novembro de 2005. crever teatro" foi publicada no n. menos desenvolvida. Uma primeira versão. de nenhumas fronteiras..) Teatro escreve-se com sotaque. © Sara Amado o teatro não é um território separado do mundo e da vida. inventar uma língua. . portanto. 13 conhecido. Produção: lilástico. todas as entoações e deslizes. Quem escreve: ser muito sério sem se levar muito a sério. diz "entrar Idealmente. Encenação: Marcos Barbosa. Tudo o que for pretexto para a vida. toda a estranheza. a vida toda. fazer outra coisa. Maus Hábitos. Lição que os actores me Dar nomes às personagens é defini-las ." próprio de as limitar. Particular atenção às "metáforas': . Enquanto se conta uma história. De Jacinto Lucas Pires.O 14 da revista Artistas Unidos. Pôr pessoas dentro da língua portuguesa: elas ajus­ tam-se e ela alarga-se. Mas também não ter medo do óbvio. não memo­ o presente. pode até parecer conversa mole. E a vida é sempre. todas as gírias e frases feitas. digo eu. como se costuma dizeI. toda a dife­ rença. O teatro. todas as mil variantes e variações. contabilizável. comédia=tragédia. ráveis. Não julgá-las."Esuever. o teatro não é de fronteiras. Não se trata. em relação à escrita de uma cena. ou só o é como são todas as vidas quando sonham no escuro.

PANORAMA .

sem que se procure estabelecer uma definição temática ligada ao fenómeno histórico em si. iremos vendo. dos fenómenos socioculturais . com o apoio da Fundação para a Ciên­ cia e Tecnologia. ou ainda ao Gama e à descoberta das rotas da Índia. são conhecidas e identificadas peças em que estes problemas afloram ou até. Mas trata-se. surgem no contexto dos autores respec­ tivos. Evidentemente. constituam essência da dramatur­ gia: peças passadas em África. não da transfe­ Capa Panorama . como Representação de Tchiloli. O teatro português praticado ou envolvido na problemática da Expansão só dispersamente tem sido objecto de estudos: e mesmo esses estudos. as peças históricas liga­ das aos Descobrimentos ou aos seus heróis: desde os sucessivos ciclos camonianos. aí com maior incidência e regularidade. ainda menos.' 23. Duart e I v o Cruz geralmente. na Índia e menos no Brasili personagens e acções ligadas à deslocação ou à emigraçãoi brancos colonos.Revista Portuguesa de Arte e Turismo. africanos escravos ou deslocados. o teatro em Abrangência da expressão dramatúrgica da expansão . Trata-se de uma pesquisa abrangente da dra­ independências maturgia portuguesa de ternário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural portuguesa. Colecção Particular e não tanto.da Universidade Católica Da expansão às Portuguesa. Setembro 1967 rência de culturas e personagens que as encarnam. de uma problemática diferente: o São Tomé e Príncipe Aguarela do pintor são-tomense Pascoal Viana objectivo é o facto histórico e os seus protagonistas de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete na perspectiva dramática da viagem. em suma. por vezes. aos aspectos de caracterização das personagens e do seu circunstancialismo ou mesmo à interpenetração cul­ tural decorrente da colonização . n. da descolonização.e. ao grande tema do sebastianismo e da batalha. IV série. efectuado no âmbito do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Língua Portuguesa .CEPCEP .o teatro clássico - séculos XVI-XVII português O presente estudo integra-se num projecto de investigação em curso. E há que considerar também.

surgem já antes de Gil inesgotável bibliografia. MNT. sem -se por referências a lugares. inv. que é. Hen­ Trajo de Cena para 2. sem quebra de sistemática. os de clérigo. citam o Brasil. Tudo isto se remete para a bibliografia. inv.inerentes. Vicente no Cancioneiro Geral e na sua expressão obras.' 132223 estudos sobre a transposição dos Autos de Baltazar causa. sobretudo na área da literatura (mais do que mais próxima do teatro. a personagens e menos MNAA. E só os Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Muito embora o que não existe é uma aborda­ "fumos da Índia" merecem a condenação. E ignorar as dimensões colaterais dos fenómenos em si. fazem-no com conhecimento directo de MNT. inv.' 1462-A Pint cuidar das influências de cultura resultantes! . como veremos. Encontro de Santa Úrsu/a então pela completa negativa de estudos sistemá­ rigorosamente inédito. evidentemente. Gil Vicente e seus epígonos citam Auto da A/ma já. pois foi de grande valia entre África. com a excepção dos estudos de Mário Martins no que se referem ao Oriente. aqui. os estu­ e até. e sendo certo que o presente estudo se concentra sobretudo nos temas africa­ nos. Tudo isto se relaciona com a Expansão. paradigmaticamente. como veremos. filho de escrava e Autoria: Almada Negreiros dos de Hernâni Cidade2 ou. do de Gil Vicente. para a África hoje francófona. mento num projecto abrangente. E existem. Mestre do retábulo de Santa Aula Teófilo Braga refere a Escola de Gil Vicente no Em qualquer caso. isolá-los do contexto geral do teatro da Expansão.' Diabo no teatro). não será possível. europeu. na Índia e África. a partir Teatro Nacional de São Carlos. n. Mas fá-lo num ponto de contexto das origens do teatro português distribui­ 67X72cm vista exclusivamente centrado nos autores. Aqui está um exem. Melhor dizendo: personagens. A seu tempo desenvolveremos esse tema. 1965 tantas mais obras referidas na bibliografia. em si mesmo considerado. Nesse sentido. do encontro e transposição de culturas. repre­ sentam áreas de pesquisa menos percorridas ou até completamente inéditas e "geograficamente" descontextualizadas mas relacionadas pela mesma matriz da deslocação e fixação de pessoas como o teatro representado em Goa até quase aos nossos dias. E nesta área poderíamos acrescentar. n. como se sabe. E o mesmo se dirá do teatro praticado a bordo. Chiado descreve a sua Lisboa de escravos e Trajo de Cena para Anjo Dias e do Auto de Floripes para São Tomé e Príncipe marinheiros torna-viagem. a abordagem do tema no Século XVI Óleo sobre madeira de carvalho Brasil. A influência do teatro português no Brasil posterior à independência foi por nós analisada em 20043. Mas o que está por estudar é a plausível inter­ venção dos navegadores. Auto do A/ma (Tchiloli) e Floripes. mas que tem pleno cabi­ e o Príncipe Conon pormenor - Retábulo de Santa Auta ticos. por exemplo. que abordam a matéria. missionários e colonos portugueses na transladação. n. o grande tema da emigração. de temas e ciclos de teatro clássico . citam africanos em Portugal: Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional de São Carlos. e desig­ © José Pessoa DDFf IPM - um pouco mais longe em outras obras da sua nadamente escravos negros. Vai a políticas.' 132223 fenómeno. 1965 Autoria: Almada Negreiros gem sistemática e tendencialmente completa. no caso de Afonso Álvares. Cita-se desde rique da Mota. mesmo aquelas que.

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se o termo se aplica à época . aí sim. As primícias d a grande aventura É hoje pacificamente aceite a prioridade esté­ tica de Henrique da Mota nos primórdios estabele­ cidos em texto do teatro português. mesmo nunca ser ruim/ porque bradar/': por vezes escravos ou alforriados. que é tratada a colonização. em princípio a protege: (Clérigo): "Ora pena. a dimensão missionária dos Descobrimentos e Mas a primeira referência a uma personagem colonização nem sequer com a caracterização do negra no teatro português. até em auto­ e mais velho"6. do Paços da Ribeira in Auto chamado da Feyra que os africanos (os "pretos'. Tudo isto se verá. e que a datação da primeira das suas obras dramáticas ou para dramáticas pode ser posterior ao Auto da Visitação./ sacrivão/ mim que a ameaça. com então se escrevia) Gil Vicente que os servem e que surgem. e como tal são tratados. independentemente que antecede. . antes pelo contrário.! Mim também falar mourinho. nem com posição de Gil Vicente. dominantes neste estudo. A escravatura em si mesma não é da Mota. cala-te já/ senão matar-te-ei agora:' Ao que ela res­ no Cancioneiro Geral. Ambas as personagens se lamentam res anteriores ao Romantismo e ideologicamente de falta de vinho.cita-se por O clérigo acusa a sua escrava negra de ter dei­ agora o padre José Agostinho de Macedo. quase sempre através Edição Marques Braga. E da "Parda" vicentina falaremos conservadores . pelo menos em sete anos. 1936 Fundo Bibliográfico MNT de uma linguagem "ingénua" de duvidoso rigor semântico.um a seguir. Henrique da Mota alude aos ponde: "Aqui estar juiz no foral a mim logo vai até meios legais de defesa da escrava e troça do clérigo lá. na Lamentação do ClérigoS. Miller situa-a depois de 1 5144. E a "perra do manicongo": "A mim nunca nunca Mas é aí que queríamos chegar. de vista estético e dramatúrgico não colide com a Mas reconheça-se que não é assim. Ao longo da mim/ intronar/ mim andar agua jardim/ a mim história do teatro português os negros. do manicongo/ tu entronaste este vinho/ uma posta sem desviar directamente dos temas africanos.pio flagrante de que não nos podemos abstrair na Contudo há uma contemporaneidade que no ponto problemática geral da Expansão. e aí até se pode citar Gomes de para os costumes escravocratas da época ("ó perra Amorim e a defesa dos índios.e fá-lo de forma pouco lisonjeira quanto ao Brasil. Ou mesmo quando os colonos mere­ cem menos respeito. o do quadrante político-ideológico em que se situam Pranto da Maria Parda vicentino. Isto mesmo quando. "parente próximo os dramaturgos. Sabe-se muito bem que antes dele e antes de Gil Vicente se escrevia e sobretudo se praticava teatro em Portugal. essa remonta a Henrique escravo africano. O mesmo xado aberta a pipa . Vamos encontrar. de toucinho/ te hei-de gastar nesse lombo"7). escrava ou "civilizador" e de gesta social e psicológica com não. tratamento da Índia muito favorável . mas a escrava não se geral com um paternalismo equiparado ao sentido deixa amedrontar e invoca a lei que. são tratados em O clérigo é ameaçador. verdadeira condenada: e até ao século XX não o será a colo­ farsa goliardesca integrada no Cancioneiro Geral e nização. 18 . . Neil T.

Gil Vicente vinho/ creligão:' como a nível de linguagem. Com a parti­ © Margarida Dias . Maria II já que te cales/ que bem me bastam meus males/ que num mecanismo cómico constante.Cena da peça Serviços D'Amores não mourro no toucinho/ guardar não ser mais que excessivo do termo face a um entrecho tão simples. da evocação das garantias legais concedi­ Esta obra iniciática define uma linha constante das à escrava. que por exemplo José Ramos Tinhorão irá dizer ao juiz/ o que fiz e que não fiz/ e crerá/:' assinala.! Olhai pena que diz/ que fará/ cularidade. passe o peso significativo. . . a .TNDMII me vem de dar cabo. desde logo EncenaçãofDramaturgia: Maria Emllia Correia Cenografia: Rui Francisco E assusta o clérigo. o que não deixa de ser insólito mas 19 de análise. ou não fosse o próprio Henri­ marcada pela imitação de expressões deturpadas Figurinos: Rafaela Mapril que da Mota magistrado: "Ora te dou o diabo/ rogo-se do português. ProduÇãO: Teatro Nacional D. tanto a nível de conteúdo. esta sim. clássico. romântico ou moderno.

s. e naquilo que Teófilo Braga chama a antologia de Maria Leonor Garcia da Cruz. mos como já foi dito. claramente alinhado com a grande aventura BN . encontramos em Gil negativa e que serve de epígrafe a um estudo e Vicente. perante a rainha D. em Almada. em 1519 Escola Vicentina. precisamente. a primeira grande reserva aos será caso isolado.II A expansão em Gil Vicent . Ao contrário: toda a restante obra in História da Literatura Portuguesa Ilustrada de Albino Forjaz de Sampaio aspectos negativos da grande viagem no Auto da assume um perfil "politicamente correcto'.9 Representação do Auto da (ndia.pormenor.d. diríamos Lisboa. Leonor.rola Vi entiln dos "fumos" que até nós chegou com a sua carga Ora. a primeira grande abordagem da No contexto da dramaturgia de Gil Vicente esta Carolina Santos problemática da Expansão. - Afonso de Albuquerque ter consagrado a expressão a fc. 1929 -1932 Índia. E também encontra­ posição crítica é tanto mais significativa quanto Iluminura . datado de 1509. portanto seis anos antes de hoje.

! Pois se hi de C. o que dá ao texto um cariz plurilinguista a morte com um goliardesco testamento: "A minha 21 curioso. os costumes que condicionaram e expulsa-lo do território pátrio':lI a resposta vem em português aproximado: "A mi sá E está flagrantemente nessa linha a salva­ negro de crivão/ agora só vosso cão/ vosso cravo ção dos "quatro Fidalgos. Aí se notará também um sinal da mudança de costumes que. alabardas!/ Espingardas. Para o primeiro aspecto. espingardas!" "O comediógrafo [diz Hernâni Cidade] comunga no ideal de todos os cultos do seu tempo: . (1522). constitui um grande momento de bravura na veemência de tonalidades modernas de apelo à aus­ teridade. Duardos. cujo Pranto pelo desaparecimento do vinho Na FI'água. pois "quem morre em tal batalhai merece paz mordo sae/ da moça casa su pai! [ . doutores? / Nunca eu vi tais diferenças. . No ponto de vista teatral. .! Alabardas. à procura de um "mulato" no ouvidores/ em algumas audiências?" Clérigo da Beira (1526)14. mais tarde.é dever de reis e cavaleiros cristãos levar a guerra ao Infiel e manter para tal./ Amores "vem um negro do Beni e diz: Quere boso que morrestes pelejando/ por Cristo. Mas será sintomático que a exortação se faça para a guerra em Marrocos: "EI Rei de Fez esmorecei E Marrocos dá clamores. e por A. C. Senhor do que mibae/ buscar o pouco de venturo/ que a mi na Céus'.Frontispício da mais antiga edição dos Descobrimentos no plano nacional. será patente. M. mulatos são citados no Porém a mais portentosa figura desta linha de D. Mas o mais curioso será o conjunto de refe­ N a Floresta de Enganos (1536) põe-se o pro­ rências aos territórios descobertos e aos seus habi­ blema da utilização da língua por quem dela não é tantes deslocados.12 Minho virai e ele chama-mo cam': . pois Vénus invectiva-o em castelhano. Assim. uns e outros detalhadamente natural e com intenções escusas : "E negro falam os referidos por Tinhorão na obra citada./ que é gastar sem prestar. E negros falam no seu linguajar na Frá­ personagens é indiscutivelmente a Maria Parda gua de Amor (1524) e na Nau de Amores (1527). chame­ de Auto do Borco do Inferno. o que constitui Cristo" (e de Deus. cavaleiros da Ordem de margurado/ cativo como galinha'. "vem um Negro cantando na língua e das tabernas nas ruas de Lisboa a leva a preparar de sua terra'. temos o "Negro grande há negras sentenças/ não haverá hi! alguns negros ladrão'. diz o Anjo). que morreram nas uma referência de impacto óbvio. ] eu chamarele eternal" (Auto da Barca do Inferno). aliás. cita-se aqui a porten­ tosa Exortação da Guerra (1514 ou 1515)10 com o seu belicoso apelo à venda de jóias para custear a conquista e a navegação. diz Mestre Gil). Saundersl3. em sua rudeza antiga.! Oh! Deixai de edificar/ tantas câmaras dobradas/ mui pintadas e douradas. nada menos. . mas também obviamente no plano Gil Vicente religioso. E na Nau de partes de África e a quem o Anjo "está esperando. na época totalmente homogeneizados (Portugal "Alferes da Fé'. c1518 mos-lhe assim. mas alma encomendai A Noé e a outrem não/ e o meu .

sem embargo. Ao lado. no que eu chamava das estrelas/ agora me irei p or elas/ Príncipe.. . Daí seguiu chorai todos meu perigo/ não levo o vinho que digo/ para o Nordeste brasileiro e para Goiás. remos a obra em si. o Auto Carolíngio de Baltazar Dias16 chega a São Tomé no ciclo da cana-de-açúcar e da 22 . inclusive por um castelhano. Sá de Miranda. ficou até hoje a tradição anual do Auto de com grande sede comigo': . no teatro. que se inicia (1529) e até episodicamente o belíssimo e tão também com o teatro jesuíta embarcado. mas não só: como a seu tempo se estudará. de que ficou a Leonor Garcia da Cruz identifica as referências memória. António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos. no Renascimento. ("se não fora o capitão/ eu trouxera o meu quinhão/ um milhão vos certifico") . ] emigração/colonização madeirense. garante a independência crítica do autor mercê da generosidade e espírito "liberal" dos reis . ligados à acção missionária dos padres dispersas aos "fumos da Guiné'. na Farsa dos Almo­ creves (1526) há uma referência ao Brasil. e se refere a Farsa dos Almocreves (1527) e. o Triunfo de Inverno de uma produção teatral própria. Maria Anchieta e de textos avulsos. 1969 Índia (1509). claro. assumem estas críticas no teatro ou na poesia e estão nessa linha numerosos cronistas e viajantes. o grande desvio Estátua de Camões na Ilha de Moçambique crítico ao "politicamente correcto" é o Auto da António Pacheco. . ele próprio. hoje e que mais adiante retomaremos na compara­ Ao Brasil chegou uma tradição vicentina ção com outros modelos. do apoio global à política da Expansão. Mas. sucessiva­ © Luis Abélard mente enganado na ausência. mas tem leve Auto Pastoril Português (1523). E já agora. no caso outros mais. para não falar em Camões. Duas matrizes africanas A chamada Escola Vicentina estende a sua influência pela Índia. . nenhum foi tão longe como Gil Vicente: alguma razão teve Garrett quando em Um Auto de Gil Vicente15. Mas como momentos altos. e no local próprio a aculturação na deturpação irónica ou dramática que chegou até são-tomense. vindo na emigração minhota. Aqui analisa­ É o que n a altura s e chamaria "fala d a Guiné'.corpo enterrado/ onde estão sempre bebendo/ [ .. com Camões bem sabemos e como já foi dito. E a Índia foi receptáculo e ambiente específico das rotas da Índia. O grande propulsionador dessa diáspora terá sido a acção missionária. . roubado pelo capitão . Floripes. por África e pelo Brasil. . retardada através dos autos do padre José de Mais precisamente no seu estudo citado. ou "tratos" a que Manoel da Nóbrega. com o conjunto de malefícios que AHM caíram em cima do próprio marido. António Vieira.

certo é para crêr/ que quem tem côr de cravão/ é . vejamos as brado em Trás-os-Montes. por causas genéticas que Mas.hkl. Em.Luís de Camões Edições Caixotim. ou seja. não YCOMÉDIAm Luís de Camões . Auto de Santo Aleixo. ficou a Tragédia do Marquês 23 não pouco o incomodaram é Afonso Álvares. expressão religiosa. ainda mais ou menos lem­ para os EUA e Canadá.guás lcguil1tes. ���� '� �?. não podem ser ignoradas. Uma recente edição moderna (FilodemoI7) e Simão Machado (O Cerco de Dio!8). de Nosso Senhor]esus Cristo!9.� desta maneira/ há mister que tu esconches/ pois J 13}' Vllard? feu moço. P:. e Santa Bárbara e Santiago. e o Auto d' Bl Rei Salomão. os filhinhos/ e a honra que mantenho/ eu te fizera canhenho/ de pernas..���t$����t�� de uma escrava natural da Guiné e de um clé­ rigo. sinal que o coração/ não pode deixar de trazer/ de � cadela a condição!"20 . "m'. ção académica do poeta rival que. e preferiu ignorar a forma­ in Teatro Completo . dessa grande obra hagiográfica facilitará a compa­ com o padre Luís Vaz Guimarães (Auto da Paixão ração dos textos. Como o não devem Santa Catarina. Chiado. ' (ff' 'Ire> pafiores b. Auto de ditos. Santo António e São Vicente.� Afonso Álvares responde à letra: "Se não foram �.ádo. padeira de profissão. sobretudo. brar o Chiado.go de Filodemo. Abril. todos r ti"'tJ�������êi:)��RJ�(i.ua mop. mãos e focinho/ pela virtude � do lenho': E alude a cenas de pancada e deboche: � "Tu bebeste no ribeiro/ do rio da Palhavã/ por seres chocarreiro/ que não tem virtudes ã/ velhaco frei EtnLisboa. r(lJ" Flol'Jmena Pafiora. e com outros autores locais que. rGt Dom Lllíid"rdo pay de � que sabe tal manqueira'. em alvará firmado em 20 de Fevereiro de 1537 por português escreveram até aos anos sessenta do D. filho de Mântua e do Imperador Carlos Magno. e conotações africanas dos autores mais importantes ainda o Auto da Feira da Ladra. S" Monteyro: . e- rar ·Dronyl:.tyl. segundo de Macedo. Wi uma honrada carreira de professor e dramaturgo.PorViccme Abarez. protegido do DE FILODEMO� arcebispo de Évora de D. Sol". HtII>I Bobo filho do pafior. extrema- .jIode\no.� � vaMdoro.DOflano Dolorofo aJlllgodeVib!'do. cego da ilha da Madeira22. também de tradição Tem outro interesse dramatúrgico a obra de popular minhota) e mais tarde com José Agostinho Baltazar Dias. Mas para já. que vamos encontrar já adiante.24 O primeiro deles.a qual entrio as fi.!l �t Diz Chiado: "Ser cativo de um Sequeira/ e pois que � r. inspirados na Legenda Áurea de Voragine.as licenças nccdfa- �. Deste nos ficaram o Auto do autónoma mas. João III. E pior: "Porque . de mandar imprimir as suas obras "por ser homem As extensões não africanas deste percurso pobre e não ter outra indústria para viver por o care­ deverão ser estudadas e desenvolvidas em área cimento da sua vista"23. 161)". 2005 . e História ser as transladações do teatro popular português da Imperatriz Porcina. cujo título faz lem­ da chamada Escola Vicentina. ImprcflÀcol11 todas. pelo qual é concedido ao poeta o exclusivo século passado. como veremos adiante. o descaso pela escrava mãe. .Frontisplcio da edição seiscentista da Comédia de Fliodema �. � 6" Hum panol.<I"'f?XI:�<y�� ambos de 1531. Afonso de Portugal fez COM:POST A POR LVIS DE C A M ÜES.�fi' esqueceu essa origem.'&1-�'�� eles de ingénua estrutura. � matreiro:'2! Afonso Álvares deixou-nos quatro autos de � rias. até porque envolvem aspectos iné­ Nascimento de Cristo.d�( �I:. . Van adoro. Auto da Paixão de Cristo.

E que envolve o conceito de completa do ciclo carolíngio. representa. onde está de Valdevinos às mãos de D. da fixação do texto factor cultural das ilhas. para costa da Guiné. este romance tradicional Refira-se agora que a Tragédia na sua expressão constitui. pois. romance de poder e amor. hoje de expressão francesa. entre nós. transladado para São Tomé. em duas obras facto. Levado. para nós. com interessante. condenado à morte e executado por ordem do seu terá sido levado pelos colonos portugueses para a próprio pai. Trata-se. que pune a morte como vimos. em qualquer caso. interroga-se Garrett no transcrevendo algumas das suas composições Romanceiro). estamos perante a tradição europeia. dos momentos mais vivos da Escola Vicen­ de sobrevivência e aculturação deste velhíssimo tina. de António Figueiredo Gomes. Carloto. é. tal como o tradicional Auto de Floripes Veremos adiante algumas dessas variantes. a capacidade Chiado. O mais não dramáticas. São Tomé. com as adaptações que veremos. que o povo são-tomense por um lado. uma justiça régia (ou do Estado). foi levado para o Príncipe. o grande portuguesa original ou melhor. o imperador. gua d'oeil ou língua d'oc'. 1925 Lisboa © José Manuel Costa Alves 24 . repita-se. por sua vez hoje vivo e bem presentei e por outro lado ainda. uma vez que. ("lín­ distintas. repita-se. por outro lado foi. refere a restante poesia de Baltazar Dias. tradicional do poeta madeirense.mente interessante no âmbito desta pesquisa. retomada na linha tradicional. a expressão mais devidamente adaptou.25 António Ribeiro Chiado Costa Malta (tio) e José Alexandre Soares.

"assim também designado. numa difícil transcrição da "fala da Guiné": se fará a representação..da .to da Natural Invenção.r. as Oito Figuras ou os Compa­ dres que "praticam'.. fornecedor do almoço dos outros sete e logo evoluiu. na goliardesca Maria Parda.. . comeis. sandeu'. . da Lisboa popular de "desvaira­ das gentes" da sua obra. "tange e canta um vilancete'.ou sobretudo no formidável Au. . tal como no Auto das Regateiras . escuras:' Logo na primeira fala temos uma Negra a Camões elogia Chiado no "Seleuco": "Uma falar latim: "Krialeysão.oualcy Afonso Álvares. Onde não faltavam africanos. ifll ��Qtíca 000 compa . Cristeleisão/ Santo biceto trova fá-la tão bem como vós. teatro no teatro como o "Seleuco" camoniano que o cita . ] A mim fruso vosso mata.. diz a velha. � CC·O! �111I1I'llto "f\(iI. __ rO:f:llro�m. Dize quere vendê? Ela logo sacode:' E segue uma e acabado. que não evoluiu persou a esquadra em Novembro de 1541") logo deste clérigo de Henrique da Mota ("ó perra do no início traz um lamento característico: "Não manicongo") . E mais: uma das oito figuras é um "negrinho o personagem negro. A grande achega de António Ribeiro Chiado de António Ribeiro Chiado para o historial do teatro português residirá no carácter urbano. . isto é. com nomes de ruas e tudo. .. sentado na corte de D. O dono duvida: "Sois negro "doso gália.tudo isto singu­ lariza de facto esta figura da Lisboa do seu tempo. João III entre 1545 e 1557. ] mim da-la treaze ntem/ o autor:' Mas assim é o negro.1moudo: Q cornildrc:. certamente vir/ bem se pode o negro ouvir/ inda que cante às personagem do auto respectivo.-:-. este de 1569.�. moreis servis/ como negros da Guiné'. um capão/ a mim traze turo junto/ o Orfeu? / Não creio que sois cantorj/ há-de mo jurar coei oco treze pombo/ [ . traça uma topografia da Lisboa dos escravos e das tabernas. .! 25 vaso sempre brada bradai cadela. Assim. Diremos que Gil Vicente. drts.3!r.o27 repre­ o Paiva. cadela. truculenta como o foi a vida deste ex-frade. cadela!/ Em algumas cousas teve veia esse escudeiro': Sobre- . como eu (o escudeiro nomen tu!/ [ . conversam. sobre uma trova: "Ê do escudeiro Chiado. diz Ora bem: no Auto da Natu. diz o dono da casa: "Autor comece a longa negociação com a "regateira'.�� 1543). concelos. mas que se defende com ala­ sente-se no direito de enfrentar o dono da casa onde cridade. que já se exprime em prodozoj não queré dá/ A regateira mui mão!/ Mim português "do reino'. -- da Prática dos Compadres. ] a mim cativar o judeu/ não querê Ambrósio) ou como Chiado:' E Jorge Ferreira de Vas­ que a mim reza! [ . e como tal apelidado de ladrão.Frontispício da edição quinhentista o poeta Chiado --. .:tcrnum tlOltJ"�IJnQ maeb. para lá do infeliz '1. .e perdeu-se um Auto de Gonçalo Chambão . a Prática das Oito Figuras (cerca de f��t.I/� arcoltourrnçolo Compadre/Slluir rrd/ &oço:"R. que aliás alude ao projecto gorado de Car­ los V invadir e conquistar Argel ("foi um caso mui terrível! ir em boca de Invernada que lhe dis­ vende-me para Castela'. Ê uma das "figuras" da peça. Mas as Práticas26 de Chiado vão nesse aspecto mais longe e juntam uma população bem específica: assim.ral Invençã.

. . ".d. .� ... .i. s. .. 26 .. Lisboa /. Preta Quimbunda dançando Desenho aguarelado.. AHU. n.. ...

que canta e canta o Brasil e para o Oriente. Será porque surge a certa verá. porque não Musa Entretenida de Vários Entremezes.! enquanto voltais a casal haverá resmingação:' Estamos. na descrição dos amores situação da escravidão em si mesma. A certa integrado. também assim referido. Como se de clara traça portuguesa"31 . Tinhorão gentis habilidades. Cena bucólica.! contexto familiar. ] meu irmão e tendo embora em conta a insistência na "língua da vem castelhano/ ou português valenciano?" E ele Guiné'. mez do Negro mais bem Mandado'. o eixo da dramaturgia da Expansão passa para altura "um mulato chamado Solis'. da Bela Menina. já aí. e de um tamento menos violento e um relacionamento mais fidalgo de França. . é-lhe Porém importa reparar numa certa mudança reconhecido o mérito: "Mulatos são sabedores/ de do estatuto do negro nesta dramaturgia. tudo a "Natural Invenção" merece encómios. assim mesmo identificada. a moça tam­ No também anónimo Auto de D. Em qualquer caso. Mestre des': . onde um curandeiro da Guiné. Estamos já mais longe da "perra do manicongo': Tomé. referidas. criada mais. colecção ides/ por vós chama a senhora/ se falais com o ras­ publicada em sucessivas edições a partir de 1658. Para além da iniquidade intrínseca da ambiente renascentista. vinda cá mano:/ [ o o . aparece um negro./ nos pensamentos senhores/ que ressalta por exemplo o anónimo Auto de Vicente não desfeam as cores/ quando abonam as qualida­ Anes Joeira28. apesar de uma vez mais ser apelidado que se encontrarão. muito próximos do teatro "de cordel" Uma vez mais se detecta certa mudança de estatuto e manifestações afins. também de forma diferente. alforriados. na chegou:' A Pasíbula espanta-se e faz uma pergunta linguagem da época. Fernando. que toma Finalmente. insólita: "Preto. tem como adjunto um português. já marcada por um mos que sim. e algumas peças anónimas que reconhece que a linguagem e o espírito da peça "são fazem a passagem para o Renascimento. cão. a indiciar o recorte cómico. Recorde-se que no "Seleuco" camoniano. que no lugar próprio serão social e mesmo familiar. que o teatro "de cordel" confere aos africanos. "Dize negro: teu senhor/ para que. sem muito altura entra um negro e dirige-se a Pasíbula. Lucciana Stegagno Picchio menor qualidade. com uma notícia inesperada: dentro de uma linha de valorização dos servos no "Siora beijo seu pé/ com sua caracanhar morado. mas aparentemente sem violência. ressalta um tra­ da Bela Menina. ti?" A que o negro responde: "Sim/ posso eu não ir aqui! Pesara de São Formente!/ Também negro não A mudança do estatuto do negro sa gente/ e boso sombai de mim!" Tinhorão procede a um levantamento cuida­ Refira-se ainda uma "Cena Policiana" do vicentino doso das personagens negras na sequência daquilo Hemique Lopes3o. Autores de da "Celestina" de Rojas. não obstante duas citações a que Teófilo chama Escola Vicentina. de nome Bastião. encontra-se um tratamento mais digno des­ responde: "Portugal sa ele agora': . Analisemos agora directamente o Auto da Bela Haverá uma certa mudança de estatuto de negro Menina de Sebastião Pires na versão de Luís Fran­ ou preto nestas expressões dramatúrgicas? Pensa­ cisco Rebell029. durará até pelo 27 quem te deu recado? Não tinha outro servidor/ para menos aos anos cinquenta do século xx. 1541. . O que não absolve em nada os Mim trazei cá um recado/ para dará bossa mercê. Tinhorão ainda refere um "Entre­ conta da jovem Isabel e não hesita em a admoestar. E situa mandar sabedor/ que falara declarado/ se não a o negro numa posição social diferente. cerca de bém é chamada de cadela pelo porteiro. na qual. integrado na Transcrevemos de Tinhorão: "Maria. . A Bela Menina tas personagens típicas de certa linha dramatúrgica também se espanta. . de perro.! problemas moral e social da escravatura: sem con­ Eu sa negro de vosso irmão/ que onte do Brasil tudo esquecer que muitos destes "pretos" seriam. . Gonçalo. com as escassas excepções bem: pois.

Lisboa. 1990 T CHIL OLI I Teatro de São Tomé e Príncipe FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN 28 . Tehiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Mortef São Tomé e Príncipe Colaboração da Maison des Cultures du Monde Fundação Calouste Gulbenkian.

realçando os anacro­ no ciclo da cana-de-açúcar que a conduzirá depois nismos da indumentária e o valor simbólico de cada ao Nordeste brasileiro. mudanças introduzidas. fiel ao texto quinhentista mas numa 29 irradiou para a vastíssima geografia cultural-popu. Fernando Reis descreve-o Daí. na versão e na expressão antes consagram o texto original. onde perdura e de onde personagem.Conde Ganalão. a que acima aludimos. ser defensável a sua transposição mais ou nos anos sessenta e pormenoriza os aspectos céni­ menos contemporânea da colonização madeirense cos e de figurino e adereços. no que se refere à África da Tragédia de Baltazar Dias levada a São Tomé no de colonização e expressão portuguesas. o espectáculo. Aliás. O Tchiloli. sofreu sucessivas alterações que não traem. Lisboa. com quenta do século XX33. é a velha tinua a ser apresentado por grupos diversos em São Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Tomé. Pedro Vimos que as peças do ciclo carolíngio surgem Paulo Alves Pereira remete o texto para uma versão a certa altura em África e. por exemplo em Pierenopolis. Cooperação.32 Mas esta tese é obviamente discutível. representação moderna: uso da caneta de tinta per- . perduram século XIX e aculturada sobretudo nos anos cin­ até hoje em São Tomé e Príncipe. personagem da peça Tchiloli ou a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno in Enciclopédia Fundamental de São Tomé e Príncipe Carlos Espírito Santo Ed. pese embora as de Baltazar Dias. 2001 lar do Brasil que está muito viva. e não SÓ. estado de Goiás. Carlos (Cm'loto) Magno. que con­ as aculturações e algumas adaptações.

o Ciclo de Teatro Popular Tradicional. fidelidade global ao texto clássico com as alterações > o imperador Carlos Magno e aculturação introduzidas. n. mas confirma a .d. inv. inv. entretanto. para MNT.. Carlota in programa da peça Tchiloli tado por grupos numerosos e rivais. refere que "apesar de algumas inova­ São Tomé e Príncipe ções serem admitidas nas representações actuais. E chama a atenção para Fotografia de cena. trinta anos depois. Ora. como símbolo do poder. a profunda simbologia da autoridade do Estado. o Cena da peça Tehiloli ou a Tragédia do Marquês rocapé. Mantendo. utilização do telefone.o 177344 espectadores faz a triagem entre aqueles que intro­ duzem a diferença no respeito da tradição e os que < desfiguram o Tchiloli e que acabam por se transfor­ Programa de Tehiloli ou a Tragédia do Marquês mar quase numa performance diferente':35 de Mônlua e do Imperador Carlos Magno Tomaz Ribas. que o Tchiloli continua a ser represen­ D. faixa verde e encar­ nada do imperador. colonial ou independente.o 215714 com o tráfego de escravos da costa ocidental. que chegam a durar o dia inteiro na versão tradicional. uma curiosa circunstância. Paulo Valverde refere sinais de evolução. Lisboa. 1973 MNT. escrutínio rigoroso e experimentado de figurantes e Fundação Calouste Gulbenkian. encontramos expressões ESTA 2000 em tudo convergentes no Nordeste brasileiro. "este resultante de uma expressão musical de Mônlua e do Imperador Carlos Magno europeia que serve de suporte à coreografia e ao Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe ritmo africano"36.. Alguns deles ou a Tragédia do Marquês de Mônlua aliás foram exibidos em Lisboa. Numa observação muito detalhada e docu­ mentada. designadamente no encurta­ mento de alguns espectáculos. a chola. Paulo Valverde. e do Imperador Carlos Magno. AH de São Tomé Sabe-se. 18 de Junho e paradramáticas de matriz africana. s. inv. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ São Tomé e Príncipe relaciona o Tchiloli com as expressões coreográfica Fundação Calouste Gulbenkian. n. trajes do século XIX34. importada de 2000 MNT. n O 216994 manente. também. ele próprio oriundo de São Tomé. seja ele medieval. citando designadamente o danço-congo. Companhia Tragédia da Formiguinha da Boa Morte/ entretanto.

compara o texto . Augusto Baptista. Em primeiro lugar.além. que concentram numa única versão a produção do espectáculo. É diferente a transposição do Auto de Floripes para a ilha do Príncipe. razão pela qual o auto surge designado como Auto de São Lourenço. de tradição caro­ Ungia. numa pes­ quisa efectuada entre 1996 e 1998. designadamente na aldeia de Neves e em Trás-os-Montes. Numa tradição seculal� esse espectá­ culo realiza-se anualmente no dia de São Lourenço. designadamente em autores como Fer­ nando de Macedo ou José Mena Abrantes. 15 de Agosto. da manutenção dos textos do ciclo carolíngio. Mas é o velho Auto de Floripes.37 E veremos adiante como o Tchiloli influenciou alguma dramaturgia moderna de São Tomé e de Angola. pelas próprias limitações geográfica e populacional. repita-se. há relativamente poucos anos ainda represen­ tado no Minho.

2001 a divulgação do teatro ao longo da grande aven­ tura histórica e geográfica dos Descobrimentos e. inv. Reconhece no dispositivo Diálogo sobre a Convenção dos Gentios de 1557. do relacionamento internacional global lnprograma Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian. diz-nos Augusto Bap­ Cabe ao padre Anchieta a glória de ter intro­ tista pelo menos no Brasil. Auto de Floripes in Enciclopédia Fundamental Sabe-se que os Jesuítas e.38 se perderam. como pertinentemente duas comédias Lázaro Pobre e Rico Avarento. em EI duzido no Brasil. acima citado: Os autos do padre Manuel Anchieta (1534-1597) constituem. Lisboa. o grande momento documentado e estruturado da iniciação dramática actual com a versão recolhida em 1969 por Fernando no Brasil. situando a descrição no final do século XIX40. diga-se assim . a partir de 1567. Floripes. faz a uma representação no Rio Grande do jesuíta. Interessa-nos dramaturgia coerente e consistente. entre eles Bento Tei­ colonização portuguesa para lá levou. in Vida do venerável Padre Joseph de Anchieta Sul. 1672 para não falar. Almirante Balaão e Burlante . a ingenuidade já retardada longa referência que Erico Veríssimo. a camente dramatúrgico. na Farsa dos Almo­ Officina de Joam da Costa. os Franciscanos. a partir da raiz xeira. 1973 empreendido pelos portugueses. da cénico e na prática espectacular do Príncipe certo autoria do padre Manuel da Nóbrega (1515-1570) e "exagero dispersivo" que a tradição local e mesmo a ainda um Auto de Santiago representado em 1564 e exuberância tropical poderá explicar: em qualquer outros textos dispersos. E o mais mais aqui pelos processos histórico e cultural da curioso é que Anchieta concilia. e ainda procede à acareação com os textos festações de texto e de espectáculos anteriores: um tradicionais portugueses. em O Tempo e da Escola vicentina com a solene tradição do teatro Padre José de Anchieta o Ven to. Há igualmente vestígios. uma Salvador. Cooperação. a partir de textos originais. estamos perante a essência do texto que a ou mais ou menos obscuros. talvez com menos de São Tomé e Príncipe constância./ vireis a ser mais profundo. Mas nem sequer serão as primeiras mani­ Reis. influíram e agenciaram Carlos Espírito Santo Ed. O teatro brasileiro nasce com os autos do padre José de Anchieta. autor do poema "Prosopopeia" (1601) e de profunda do teatro medieval. Sublinhe-se.de saber adaptar os rituais cénico e dramatúrgico da expressão neolatina ao meio social em que se inseriam. mais discreto e mais subtil. no plano especifi­ transposição as versões brasileiras.para lá do mérito religioso. da Companhia de Jesus De notar que Gil Vicente.' 141211 óbvios intuitos missionários. Sortibão. que assinala também Andrée Crabée Rocha. Cena da peça Auto de Floripes mais ainda. insista-se. mas com mérito cultural . na passagem feita através creves (1526) faz uma referência ao Brasil: "Quando BN dos primeiros contactos de origem portuguesa para fordes meu namorado. Como o assunto se inscreve obviamente no contexto desta pesquisa mas sai do seu âmbito imediato acompa­ nhamos o teatro luso-brasileiro. nas Honduras./ porque o mundo 32 . de autores desconhecidos caso. Fizeram-no com MNT. As histórias da literatura e do tea­ tro do Brasil são unânimes em o reconhecer.! o que é hoje a África francófona. n. no Belize e no Méxic039.

em português e caste­ lhano. Entretanto. 4) Na Festa de Natal. os autos de Anchieta. certamente de grande eficácia e qualidade artísticas. têm o valor acres­ centado da sua profunda penetração no meio social e cultural de índios e colonos. 5) Quando no Espírito Santo. 9) Na Aldeia de Guaparim. 3) Na Festa de São Lourenço. Nem de outra forma se processaria esta aculturação da imponente tradição do teatro neolatino da Companhia de Jesus. em castelhano. fixáveis entre 1567 e 1570. restam ell. transferida para o Brasil no século À'Vl . do ponto de vista dramatúrgico. o que daria primazia nesta tábua dramatúrgica. em castelhano e tupi-guarani. 7) Visitação de Santa Isabel. trilingue. versão simplifi­ cada da anterior. numa funcionalidade missionária que sobreleva a dimensão dramatúr­ gica e o valor documental: escritos em português. que certos autores identificam com o "Recebimento que fizeram os Índios de Guarparim ao Padre Provincial Marçal Beliarte': Em qualquer caso. em tupi. constituem uma notabilíssima dramatização de usos e costumes. outro mundo/ que está além do Brasil"41. Uma tentativa de fixação cronológica que efectuámos conduziu à seguinte relação: 1) Auto da Pregação Universal. senhor. escrita cerca de 1583. 2) Auto do Dia daAssunção. escrito em tupi.namorado/ é lá. numa perspectiva religiosa e moral. 10) Diversas poesias dramatizáveis. se Recebeu Uma Relíquia das Onze Mil VÍlgens. . trilingue. escrito em tupi. 6) Auto dos Mistérios de Nossa Senhora.iractos escritos em português e em tupi. para lá da originalidade e força criacional. em p ortuguês. 1597. escrita em 1595. A tabela dos autos do padre Anchieta não é definitiva. 8) Auto da Vila de Vitória. cerca de 1579.

agi­ gantado pelos fumos da Índia no local de origem. épico transformado em sucessivas cenas teatrais e por aí fora. originário do teatro popular minhoto retardado. desinterias" (Auto do Dia da Assunção). o centro fulcral da expressão dramá­ acções directas de guerra com uma intriga política tica passa de África para a Índia. onde se produziam -se no rei de Portugal contra o rei indiano Bandur. Chegou demónios. em todas as Igrejas. Estes têm nomes tamoios. por oca­ sião da investidura do governador Francisco Bar­ reto. onde se desdobram Entretanto. mas merecendo aqui materiais: a Virgem Maria "afasta as enfermidades. ./ uma nota referencial. logo iniciada nas naus. as virtudes são também Completamente diverso. 2004 dia de Natal. e por baixo deles homens que fazem mexer e falar estas figuras como querem.' 232099 os mistérios da Natividade. Trata-se de um de um "Embaixador fanfarrão" (Na Vila de Vitória). como cá os bonifrates. poligamia . e daí trans­ vais. publicado em 1601 juntamente cam-se os espanhóis da província do Prata. sendo este o único que agora nos retém a atenção. :'42 de grande efeito espectacular. prosseguida por António Ferreira nas comédias e por Jorge Ferreira de Vasconcelos.além da dimensão religiosa. se representam MNT. desde logo o Auto da Paixão do padre Luís Vaz 34 . franceses na tentativa de expansão da "França Aus­ O pranto final de Nossa Senhora constitui um fecho tral': Os p ecados surgem misturados com maus hábi­ impressionante ria sua força verbal e sentimental tos sociais: "bebida cauim" curandeirismo. e todos vêem estes brincos. tal como os autos em tupi do padre Anchieta. o conteúdo tem algo das histórias medie­ e mirandês.1963). E para o Oriente em em que a posição dos portugueses não é dicotómica geral. para efeitos de missio­ éis. inv. n. e há grandes rochedos. criti­ de Simão Machado. trazida para Portugal por Sá de Miranda. Se a forma é muito próxima de um teor vicentino Guimarães. Camões estreou o Filodemo em Goa. é a Comédia do Cerco de Dio febres. quanto mais não seja na dialéctica maniqueísta ladado para o Brasil e para o cinema (Acto da dos "bons" e dos "maus': Os "maus" tanto podem ser Primavera de Manoel de Oliveira . Mesmo na maior parte das casas e encruzilhadas há semelhantes diverti­ mentos':44 É o teatro jesuíta no seu máximo esplendor. Importa referir entretanto pelo menos dois textos de temática ou circunstância ligada a Goa. como colonos pecadores. Será a obra mais alinhada com a "nova forma" de fazer comédia. Mário Martins estudou essa emigração drama­ em relação aos indianos: o nobre Rau apoia e apoia­ túrgica. com grande cópia das personagens que falam. cerca de 1555. (Na Festa de São Lourenço). como índios infi­ a ser representado em tamul. espectáculos nas condições que se imagina43. onde o vamos encontrar. tribo que se aliava aos nação. na pessoa com a Comédia da Pastora Alfeia. Teófilo Programa-postal da peça Filodemo cita o "viajante Pyrard" que presenciou alguns: "No Teatro da Cornucópia.

só surge um rela­ tuto e da actuação destes negros e mulatos. falecido em E o mulato Eitor d e Los Lindos é um "rufião [ . a nível de perso­ mando-os da função do criado ladino setecentista. nem sempre com a mesma origem Vasconcelos. Isso seria ainda Claude-Henri Freches analisa o texto nestes não selamos já cavalgamos. 45 Tudo isto indicia uma subtil mudança do esta­ Neste conjunto seiscentista. Ulissipo e Aulegrafia. E José Luís Hopffer Cordeiro Almada cita 35 colhem as uvas quando são maduras. tentar se quereis ser contente"46 . Claude-Henry Freches enumera centenas de tra­ assim mesmo! Maria Odete Dias Alves caracteriza gédias neolatinas representadas em Portugal. 1997 © Luísa Ferreira A intriga política mistura-se com uma complexa o demo das vossas. Barcelona. talvez coerente com a vida do autor. todos bai­ seria para ele "esta vida soldadesca/ [que] é vida lavam na mesma dança:'47 mui velhaquesca': . cada uma com étnica. . e o carro ante dos bois. em duas comédias de Jorge Ferreira de que entre nós.Comédia U1issipo Jorge Ferreira de Vasconcelos Encenação: Silvina Pereira Produção: Teatro Maizum Teatro da Trindade. Andaria assim a produção dramatúrgica. Mas assinala a prática que lhe dá vivacidade e certo nível sociocultural: de utilização das línguas locais. desde logo chamando a atenção para Brasil. cortesãs. . mancebas e mancebos. como ocorria no "Ante cocho que el agua serua: ao seu tempo se Brasil4B. Não sejais mao de con­ diversos planos. [ .. em França e mesmo no Japão. ao nível dos grandes . aproxi­ cionamento directo com África. se ganham trutas a bragas enxutas. e salienta certo perfil pacifista. de onde nunca terá passado. no um e outro. respectiva­ Mas voltando então ao objecto desta pesquisa: mente a criada Gracia e o servo Eitor de Los Lindos. e apenas uma no Congo. ] . nagens. irá explodir no teatro de "cordel': o seu episódico personagem mulato. tidade religiosa de frei Bartolomeu Machado: não rufões. . em Espanha. na iden­ que não trabalha': Refere Silvina Pereira: "Parasitas.. ] Não intriga sentimental. a "linguagem repassada de provérbios" de Gracia. .

De tal forma que o teatro "de cor­ que respeita ao século XVIII. diz-nos Nicolau Tolentino. pela capacidade alucinante de produção e. Católico (1570) da Cidade Velha de São Tiago. Lisboa © José Meco 36 . E desde logo. porque a verdadeira del" constitui uma das grandes linhas de conver­ euforia que foi e é a produção dramatúrgica e de gência das literaturas dramáticas dos dois países.pois. ao Aí são numerosas as personagens negras. representados e publicados em edições baratas que. da Escola de Gramática a temas nacionais. dos certamente o levaram para lá. quase dois mil que supostamente foram escritos. mas sobretudo cruzá-la dizer. ao vago caminhante/ se vendem a cavalo num barbante': Não nos demoramos na análise do tema ao A conjuntura histórica aponta mais. do ponto de vista do reino e dos seus habitantes. chamada do Teatro de Cordel. espectáculos. numa ambientação nacional. por razões diferen­ momento. na linha que se ia definindo desde Será interessante averiguar essa transladação os clássicos. 1660 Palacio Fronteira. e do Seminário é. para o Brasil e mesmo para a Índia do tes mas no fundo convergentes. se tal se pode missionária para África. na primeira metade do Retórico pormenor - Painel azulejos. repita-se.49 mente cómicas. concentrou-se. no com a tradição do teatro clássico nos países fran­ que toca à analise crítica moderna. fundada em 1551. além num movimento que aliás dura pelo menos até ao de pouco estudada. neste longo dos séculos XVIII e XIX. pela necessidade cófonos .espectáculos religiosos. no que respeita romantismo e o ultrapassa. geral­ tempo capital de Cabo Verde. foram os portugueses que de se recuperar o acervo de perto de mil títulos. no que para África. c. isto Latina e Moral. mas agora prejudicada. "no Arsenal.

Lisboa. "a perspectiva de escrever para o teatro e que apresentam personagens africanos: Auto da popular aparecia como uma solução ideal'.nos no p ersonagem 37 Selimuntino. Escapin (Lé. e sobretudo A Vingança da Cigana (1794). tal como era tratado na época: A Preta de Talentos de António Xavier Ferreira de Azevedo. a "Luiza. Nascido no Rio de Janeiro. na melhor tradição setecentista. de Macedos1. numerosos textos de cordel ou de teatro popular. rente da extinção da Nova Arcádia e do "escândalo" Os Casadinhos da Moda. clérigo secular. Um Engano Astuto ou nós agora. temos como personagens recorrentes "um preto" ( Um Engano Astuto). do que propriamente a uma Preto. tal como esclarece José Ramos o que na prática vem muitas vezes a dar no mesmo Tinhorão. Entremez das Línguas. preta'. e dramaturgia sólida. estudante no Colégio dos Jesuítas Alfa/Tia. E mais: na tradição popular nordestina. 2004 sia e no teatro. a vários títulos. desde o século XVIII até rigorosamente a uma peça de 2002. Entremez do Negro Mis bem Mandado. refere precisamente a convergência temática. inclusive. Isto é Bom Demais! Ora. Scapin) em Argel. E no entanto. mas sobretudo traça uma panorâmica do modelo. Os Mas em cima da passagem do século encon­ Viajantes Ditosos (1782). Desmaios e Desgostos de Um Peralta da Moda) ou a "Isabel. tocados lhões de Ouro de Nicolau Luís. para a situação de menor relevo decor­ o Modo de Nunca Pagar. na poe­ José Ramos Tinhorao Editorial Caminho. O Hércules e cantados na corte. Cazumba um exemplo muito feliz do p ersonagem . O Preto. uma linha coerente e constante de cordel. O Poela do Violo. dá. filho de português ou O Contentamento dos Pretos por Terem a sua e de africana. A Saloia Enamorada (1793) tramos algo mais consistente. temos em cena "um preto" e "um pre­ tinho" que entre si dialogam com alacridade. "uma preta" (Os Casadinhos da Moda). E a simples leitura de algumas peças ou mesmo de alguns títulos dá-nos pistas deste terná­ rio. num estudo editado na Bahia em 2004. as suas escassas peças. do Modinha e do Lundu (1740-1800) a literatura brasileira continua a alimentar. dizemos Visitação de Santa Isabel. E mais. Armindo Jorge de Carvalho Biãoso. E no mesmo estudo encontramos um conjunto de entremezes portugueses do século XVIII onde.Domingos Caldos Barbosa. A "Cigana'. na linha tradicional. século XIX. preta" (As Convulsões. esta já em 1826 (Entremez Novo da Castanheira). Raras Astúcias do Amor. as duas Trata-se da figura singular. O Escravo em Gri­ surge mais ligado a modinhas e lunduns. do últimas com música de Leal Moreira. Os Dois Amantes de África. A esse respeito. das polémicas com Bocage ou com José Agostinho Entremez da Floreira. Encantos de do Rio e mais tarde em Coimbra. revelam uma poeta Domingos Caldas Barbosa (1738/401-1800) capacidade dramática ainda hoje muito interessante fundador da Nova Arcádia com o nome de Lereno e eficaz. actualíssima no ternário.

recuperação da ópera de Caldas-Leal Moreira. na sequência. ou se assumem em reconstituições históricas e comemorativas voltadas para Marrocos [veja-se Herculano com Os Infantes de Ceuta (1844) ou O Ponteiro de África ou Três Noites Aziagas (1839)]. E é no Brasil Programa da peça Peraltas e Sécias Teatro Nacional D. de repente. O Brasil. há que repetir a constatação de uma menor atenção aos seus pro­ blemas e personagens. o Poeta'. assume maior presença com António José da Silva. se desentra­ nhou numa torrente de improvisados versos [. "Cal­ das.. . citado desde Gil Vicente. n O 103034 negro cómico. . como recordamos do teatro "de cordel'. O tratamento dado ao poeta é de simpática ironia. ] em rimas extraordinariamente harmoniosas"53.. em especial os brasileiros. como escreveu Manuel Ivo Cruz. E sem pretender que a África tenha desapa­ recido por completo do teatro. William B eckford jantou em Lisboa com "Caldas. inv. e com Correia Garção e os árcades. 1902 MNT. Esta opção. "assim que trouxeram a sobremesa. a quem se deve a . noutro plano. " .. notável pelo "conteúdo humano'. ao longo do século.I . transformado por Marcelino num "trôpego imbecil fanatizado por crendices'. num registo de ambiente "brasileiro': Pior é o perfil conferido ao padre Teodoro da Almeida..�. Depois tam­ bém escasseia mas não desaparece. . o romantismo e o ultra-romantismo ou se concen­ Sir William Beckford Gravura do século XVIII tram na vida política e económica. U I' . no final do século XIX. para o Brasil. Maria II. para a Índia ou.1. Porque 38 . mas no contexto brasileiro.. . o qual.52 Em 29 de Outubro de 1787..I. É que surgem então personagens negros.. merece entretanto um comentá­ rio.. escreve indignado Fialho de Almeida!54 Mas estamos. o Poeta" é o personagem central das Peraltas e Sécias (1899) de Marcelino Mesquita. por razões óbvias.

Assim por exemplo. mas onde abundam também os Trata-se porém de uma excepção ou quase. Mas não nos ocupamos agora desse ternário.. O mais curioso é que o tema do degredo man­ tém-se mesmo para lá dos seus limites temporais. Manuel mata-se. E praticamente o passado século teatral português inicia-se a partir de uma situação hoje invero­ símil que lhe toca. O mesmo se dirá de algum O ternário de África surgirá mais tarde e tem o apo­ teatro de César de Lacerda. precisamente. n. como exactamente 1 60 anos antes . A partir dos anos sessenta e setenta. mas sobretudo. brasileira vivida. para o Brasil. Ramada Curto. "grande prático da costa de África. para os EUA com a emigra­ a bordo (3. que durante décadas geu na passagem de século XIX até aos anos trinta a atravessou o Atlântico à frente de companhias tea­ cinquenta do século xx. em Luanda (1. Manuel não pode casar com Clara porque o pai "está em África'. condenado por homicídio. sublinhando a transversalidade e a aceita­ ção generalizada da presença colonizadora. Cena de Peraltas e Sécias Companhia Rey Colaço Robles Monteiro Teatro Nacional D. com um dos mais prolixos e importantes dramaturgos. dramas ultra-românticos de experiência o tenente menina'� . A sua peça de estreia. uma questão ao degredo. E resta dizer que não faltam personagens Mas precisamente. 39 por vergonha. a partir de 1 974. conhe­ O Preto Sensível! Na mesma linha temos Gomes de cido por o capitão mata-negros" (!) ou Bento Rosado Amorim. personagens africanos. a que chamou O Vício sem Máscara ou Saraiva. com Ódio deRaça ( 1854) e O Cedro Verme­ "primeiro tenente da armada real e conhecido por lho (1856). como veremos adiante. que se afirma a partir drama marítimo Homens do Mar ( 1862). Carlos esciavagismo. passado de finais de século XVIII também. 1962 Fotografia MNT. que vão aparecendo os negros. da colonização e do degredo. de César de Lacerda é o africanas no teatro popular.° e 4. trais encabeçadas pela sua mulher Catarina Falco. O Estigma (1903)55. inv. O tema renova-se e ganha consistência política e dramatúrgica ao longo do século xx. como é evidente. As personagens são típicas ção. como também já houve ocasião de referir. mais esporadicamente.° actos). de certa camada da época: Manuel Fortunato. Maria II. "rico José Agostinho de Macedo escreve um drama sobre comerciante com casa comercial em Goa'. Daqui erradicou em Moçambique (Prólogo).' 78868 Vimos como no século XIX o tema de África se circunscreve preponderantemente aos grandes ciclos históricos ou.0 acto) e para África. com as limitações conhecidas. a situação altera-se. pelo menos até meados desse período. põe em cena.

morrera Maria de Frei Luís de Sousa: "de vergonha': . . Mântua, que deixou ainda colaboração num
Voltaremos a Ramada noutra perspectiva. drama histórico em verso O Cerco de Tânger
Mas muito mais detalhado na referência ao (1923)57 alinha geralmente neste tom miserabilista
ambiente africano e às suas sequelas é Ordinário (O Álcool)5o. Mas a visão negativa da África e das
Marche (19l3) de Bento Mântua56, peça conside­ campanhas de ocupação é, nesta época, excepcio­
rada antimilitarista na época e como tal proibida. nal, como o é, vimos, a referência ao negro. Pre­
Trata das sequelas dramáticas da mobilização de cisamente, no contraste a partir do mesmo tema,
Paulo Guerra para as campanhas de Mouzinho. cita-se A Promessa (1910) de Vasco de Mendonça
Num clima de dramalhão, a vida familiar e pessoal Alves: aí, o protagonista é Jorge, herói das campa­
do ex-soldado, entretanto regressada a Lisboa, é um nhas de África, que pelos seus méritos casará com
somatório de desastres: o próprio é doente e alcoó­ Madalena, não obstante a "promessa" feita à hora
lico, a irmã prostituta, a mãe tuberculosa. Tudo sito, da morte do pai de casar com Rui. . . 59
num clima de populismo urbano miserabilista.
A Viagem Maravilhoso
No início, a guerra de África até era vista como Postal do Museu Nacional do Teatro
factor de promoção económica e social: "O tio Exposição Colonial, Porto, 1934
Carlos [ . . . ] arranjou para servir na África, de onde
voltou Alferes... trouxe de lá alguma coisa de seu, e
hoje é capitão." Ora, já vimos que nada disto acon­
teceu com Paulo, que nem sequer reconhece a irmã,
quando a encontra "numa taberna imunda e mal
frequentada da Mouraria':
E no entanto, a peça ganha fôlego com a des­
crição pormenorizada da prisão do Gungunhana,
numa perspectiva bélica retintamente colonial:
"Os inimigos - os vátuas - todos de plumas brancas
eram em número de 12 a 14 mil'; o que provoca um
comentário - "ena pá! Tanto carvão': As forças de
Mouzinho, "uns 600 praças': A descrição do céle­
bre quadrado é pormenorizada, num registo de
coragem: "Uma bala bate na garupa da montada
do nosso Coronel, que nem se buliu. Estava firme
como uma estátua. O nosso Alferes Silva cai, ferido
de morte. A gente vai acudir-lhe, mas ele levanta­
-se, volta· connosco à fileira e aí fica até morrer':
O coronel é "bravo'; o capitão "valente'; a artilharia
"abria ruas de pretos': E assim, "com os olhos fitos na
bandeira que simboliza a nossa pátria e lembrava a
nossa família [ . ] puzémos em vergonhosa deban­
..

dada essa raça maldita do Gungunhana'; diz o Paulo.
O pior é a ruína total dele próprio e da família! É de
notar que o negro aparece, neste contexto, como
inimigo, o que em rigor não é habitual. 40

Carlos Selvagem (1890-1937) Matriz africana nos autores metropolitanos
Arquivo da Família Ferro
Vista de Lisboa, o tom dominante desta dra­
maturgia africana da primeira metade do século XX
aponta com efeito para uma expressão mitificada da
África como área redentora ou afirmativa ao nível
do espaço, da mentalidade, das virtudes de carácter,
coragem e dignidade. Com excepções, sem dúvida,
e sobretudo numa perspectiva paternalista das
relações com os negros (os "pretos" na linguagem
quase sempre utilizada), geralmente vistos como
ingénuos e dedicados servidores, exprimindo-se
num português próximo da língua da Guiné dos
clássicos . . . E isto, tenha-se bem presente, numa
posição politicamente "correcta" ou "incorrecta"
mas absolutamente transversal a ideologias de
esquerda ou de direita: e assim será até aos anos
sessenta, pelo menos.
Também se deve distinguir, mas não tanto
como poderia imaginar-se, os autores que conhe­
ceram África, alguns com grande vivência, e os que
nunca lá foram. Africanistas, no sentido da época,
foram Carlos Selvagem e Henrique Gaivão. Ambos de Isabel Moniz e na filha Leonor, e o mundo "capi­
reflectem no teatro as experiências respectivas. talista'; "affairista" e cosmopolita muito próprio da
Alfredo COl-tez, numa peça episódica, assinala um época, em que se envolve o filho Rodrigo. A reden­
ano de magistratura em Luanda. A certa altura, ção estaria na ida de Rodrigo para a Zambézia, onde
como veremos, vão surgir autores nascidos nas a família possui terras que "valem uma fortuna . . .

colónias, ou lá fixados e lá estreados. É uma vergonha o abandono a que as votais, nas
Carlos Selvagem já deixara um registo incon­ mãos dos ingleses e alemães, aventureiros, que aca­
formista na sua primeira peça. Cavalgada nas barão porvos a empalmar'; diz o africanista Torralva.
Nuvens (1915)60, relato duplo da batalha de Alcá­ Rodrigo começa por considerar essa opção como o
cer Quibir, falsamente apresentada como vitória "degredo": curiosamente, alude-se a degredo, já
para satisfação do velho Gonçalo Vaz. "Os Mouros, fora do contexto, noutra peça, mais tardia, de Carlos
refeitos dos seus danos e espanto, correram então Selvagem, A Espada de Fogo ( 1949).
sobre nós, com mais fúria, uivando seus ladridos de Mas O Ninho das Águias as boas intenções
infiéis . . ." mas a verdade transforma-se em mentira desaparecem: seduzido pela viscondessa de San
triunfalista. Gil, para quem "um bacharel em Direito" não tem
Entretanto, em O Ninho dasÁguias, passado em cabimento em África (ou "nas Áfricas"), Rodrigo
1 920 e dedicado ao capitão Humberto de Athayde desiste. E o quadro que a viscondessa lhe traça
"ingloriamente sacrificado em Ãfrica, ao serviço da é elucidativo: "O que esperas tu fazer em África,
Pátria, com uma bala no coração'; Carlos Selvagem doido? Tu não nasceste para trabalhar, não sabes!
dá-nos o contraponto entre um mundo da velha [ ... ) Voltarias ao fim de quatro anos, cinco anos, com
41 aristocracia rural, simbolizado na casa solarenga umas libras no bolso, mas arrasado, irremediavel-

mente inutilizado [ ... ) um velho achacado por todos África por amor aos novos horizontes, por amor
os males de África, sem saúde e sem beleza!" àquela terra imensa, mais violento e truculento
Esta visão negativa serve de prova a contrário o primeiro, a ponto de não hesitar no crime, aliás
das virtudes da opção africana: afinal o Rodrigo não consumado, mais acomodatício e dócil o
opta por uma decadência fácil, sem cuidar de res­ segundo - a sua mentalidade é aberta 'fixação'
ponsabilidades familiares. A biografia africana de - como escreve António Manuel Couto Viana da
Carlos Selvagem (Carlos Afonso dos Santos), oficial 'africanidade; na tradição que vem do século XIX e
do exército com longos anos de administração colo­ marcou também uma sólida geração de republica­
nial, é bem clara nas suas próprias opções. nos, monárquicos, salazaristas e oposicionistas6 1 .
Ora, em Auspicioso Enlace (1923), comédia Eles estão em África para ficar, mesmo quando
escrita em parceria com André Brun, a figura do arruínam a vida, a saúde e a fazenda. Alinham
bispo missionário D. Joaquim, também, sustenta o com eles o comandante e a sua filha Helena.
contraste: "Quem me mandaria a mim voltar para O contraponto está num Dr. Meireles, que só vai a
terra de brancos? Em vinte e cinco anos de Costa Angola para enriquecer, de certo modo na Mary,
de África nunca me vi numa entalação como esta. filha de Telmo, e sobretudo na formidável Lotie,
[ ...) Quem me dera ainda no sertão entre os pretos. ex-dançarina de cabaret tornada 'respeitável' pelo
Estes brancos são muito complicados:' É a posição casamento com o colono - mas que odeia África.
dominante na dramaturgia "colonial" da época: Será um tipo humano que Carlos Selvagem, com
ingenuidade dos negros, uma espécie de bons sel­ uma longa carreira militar e de administrador em
vagens simpáticos e fiéis. Angola e Moçambique, com extensa bibliografia
Mas a grande peça de ambiente africano de africana, conheceu certamente bem':62
Carlos Selvagem é Telmo o Aventureiro ( 1937), sín­ Ao nível de textos, este contraste assume-se
tese do tema, consubstanciado em diversas famílias com clareza. O Meireles considera África, as coló­
portuguesas. Aí, de facto, o contraste estabelece-se nias, "uma simples ilusão. [ . . . ) vem-se a África para
entre as duas comunidades em presença, mas tam­ enriquecer. As nações querem as colónias para se
bém entre as duas mentalidades coloniais. enriquecerem [ ... ) Nasceu essa ilusão no tempo da
Os nativos são meros comparsas, que se expri­ escravatura. [ ... ) Hoje, porém, que pouco a pouco
mem no português aproximativo habitual: "Viu se foi fazendo do negro um trabalhador como os
(pegadas) sim senhor. Esteve a andar muito longe outros - com direitos, salários e garantias - de que
mas há-de falar melhor quando mostrar daquele nos serve vir para as colónias?"
grande pedra'; diz o criado negro a propósito de Mas o Telmo tem o sentido de missão civiliza­
um leão. E o diálogo com o Telmo é característico: cional e a perspectiva de espaço e de futuro, domi­
"Chingulo - patrão ainda quer ir ao elefante? Telmo nantes na época: "Continuamos todos a fazer em
(bonacheirão) - Patrão só quer que você não seja África o que sempre temos feito, levando como até
burro! [ . . . ) Chingulo (familiar, risonho, abrindo aqui a nossa cruz': . . E deixa uma descrição típica da
a cesta do farnel) - Elefante não há-de vir hoje, mentalidade colonizadora dos anos trinta:
senhor. . . , Leão anda muito perto. Já ontem matou "Telmo: Sim! Sou um aventureiro. Chamam-me
dois bois no curral do Sr. Francisco." aventureiro, porque de tudo lancei mão, para furar,
Mas o grande conflito situa-se ao nível da trepar na vida. Já estive duas vezes à beira da fortuna
pequena comunidade branca e da sua concepção e voltei a ser pobre. Mas nunca desisti, nem desisto
de África. Cita-se o que noutro lado se escreveu: ainda. Quando vim para África, mais novo do que
"Assim, Telmo e o seu afilhado Manuel estão em este (indicando o Manuel) isto era bem pior do que 42

retrata de forma Adaptação dramatúrgica: Henrique Gaivão e Silva Tavares HENRIQUE GALVÃO E SILVA TAVARES menos harmónica e ainda mais maniqueísta. . leiro. . de levantar a roubou meu relógio [ . E ainda hoje é. . O casal Vasco . prospector de minas. como nas repartições públicas espécie de pai adoptivo que a própria. Fui tudo . Tudo perdi. agricul­ desembarca em Lisboa e. mas sobretudo O Velo d' Oiro tual.o Velo d'Oiro (1936)64 adaptação (com Silva Tavares) de uma Henrique Gaivão novela homónima de sua autoria." E exprimem-se Repita-se: Carlos Selvagem conhecia bem esta nos seus próprios idiomas. ex-sargento assassino e desertor que por pouco não mata Vasco e Rodrigo. ] catunha ainda não desisti de voltar à flutuação.esboço não varia e não vai além do paternalismo habi­ 43 em um acto (1932)63.. . Mas. mais uma vez me arruinou. ] pôs olho escondido no capim e vê vinte anos.. . desde sargento a industrial. 1. logo no cais. Fui depois hote­ No fim. . . em legítima contra os brancos. Hoje sinto-me outra vez pobre. . contrabandista de gado. Mas Guiné: "Foi jacaré que levou Rosa [ . a Livraria Portugal.. que logo se deslumbra: HENRIQUE GALVÃO "Pergunto a mim mesmo se isto é a tal África que mete medo a tanta gente!" A sociedade colonial comporta os bons e os maus.. Cheguei a viver da caça que vendia para comer. Colonos . Rodrigo. Lisboa. E. tanto no a infeliz Estela.. a posição dos colonos também conheceu bem Henrique Gaivão. Vasco lança-se numa aventura inverosí­ mil em busca de uma mina de ouro que o "preto" FANTASIA COLONIAL EM 3 ACTOS E 14 QUADROS. . e falam muito. que a noiva se casou. . como há vinte anos a O s africanos falam. se voltasse agora aos escondido [ . . recomeçaria:' mesmo tudo o que nós guarda . sabe -. navio e casa com Estela. pela mão do jovem João. criador de gados. Essa baixa de cotações do óleo. Era-nos preciso abrir caminho à faca. Mas aparece também uma "figura hedionda do branco da mulola'. percebe-se. e até os muito maus.como o comandante defesa da honra. ORIGINAL DE gado da Metrópole. 18 I LI S B O A a salvar a fazenda. que foi violada por um tal Alves. mato contra os pretos. Rodrigo comerciante estabelecido. O professor Pompílio é dos bons e convictos africanistas: "Não há como África. RUA BARROS QUEIROZ. . . que ajuda João LIVRARIA POPULAR DE FRANCISCO FRANCO 1936 . acaba por matar. Há muitos que por cá nasceram e que são tão portugueses como nós:' E também dos bons é o velho colono Álvaro Pais. Rodrigo! Aqui vive-se! E depois é Portugal!" O mesmo diz o jovem João.Adélia é disso exemplo: "Há anos que andamos os dois a labutar em África sem passarmos da cepa o V E L O D ' O IR O torta:' Daí. Volta para África no primeiro Fui tudo.4. 1936 própria sociedade colonial. que o verdadeiro "velo de oiro" é a terra. filho de Vasco: "Também aqui é Portugal. . ] Tem feitiço para ver relógio cabeça . A separação é mais pro­ Fundo Bibliográfico MNT funda e aparentemente mais realista. e fosse preciso recomeçar. Auxilia-o um recém-che­ CE DO MESMO NOME. E também as transcrever. língua da queda da borracha. ADAPTADO DO ROMAN­ Mandabe diz conhecer. descobre tor. que não vale a pena sociedade e estas mentalidades. pai. meu caro doutor. .

surgem nesta fase de onde de 1 acto apenas. é o descritivo das situações. D.1 caso flagrante de adesão a uma mística colonial ao ( J9l6) . Nada de semelhante. cm lKlixo. É uma cena de expressão africana que nos mostra. detalhadamente referidos em didas­ Demónio (1928)67.líI(o c l." 1'0111 I�ohhs :\1011- a quem a sabe compreender e assimilar. A variedade nasce do ineditismo do meio e ambientações. que em rigor não acompanha a esplendo­ protagonista vem de África. Maria II. É aliás um ttiro. mas com "uma inglesa linda como ela era. na obra de Cortez e quase nada no conjunto do nosso teatro:'66 Quem também nunca esteve em África foi Ramada Curto. o Valdez alude panha fora de cena o batuque. autor. aliás uma das suas melhores cálias desenvolvidas.. com grande alacridade do colorido. s. teve apoio musical. Trouxe de lá um pequeno acto. enquanto outro assume o preconceito "de que a Transcreve-se o que dela noutro lado se escreveu: África seja uma terra doentia'� . "Moema traz sobretudo a curiosidade do seu Os tipos humanos d e africanistas. e também aí. Amélia Hcy-Cc. diz um comparsa. melhores peças. mas as referências na sua vasta obra apontam para o consagrado sentido redentor e para �/Iilada. vale ( 1908)66. ao menos no ano em que a peça foi escrita.. e um oficial da Armada. no Teatro Nacional de major a solução de todos os defeitos da sociedade. .. não com "alguma preta'. "A orquestra descreve o deserto. E. em O Homem que se arranjou ( 1928) in Teatro Português a integração plausível no conjunto da dramaturgia A Alma (1913)69: mas o referencial desse é Timor! Luiz Francisco Rebelo do seu autor. mais ainda do que Ramada aborda o tema de forma muito carac­ Selvagem. O lIamem filie Se! ""/UI­ arrepio dos quadros políticos já na altura dominan­ ja/l ( 1918) tes na sua área tradicional. perfeitamente ímpar. "Essas Africas" serão para o Valdez e para o tiva inicial. Lisboa formas de unidade da sua variedade criacional.eunor d' Eç. quanto a menos se espera: até Mário de Sá-Carneiro recupera nós. lá por essas durante cerca de um ano funções judiciais em África e nunca me viu dar parte de fraco!" Luanda. paisagens terística através de dois curiosos personagens de e ambientes. enquanto "os brancos rouquejam Marques. o O major é um personagem pitoresco: colecciona autor não se coíbe. . :' Ouve-se "o batuque na sanzala'� E a "orquestra acom­ E mais: em conversa com o major. e surge como uma das mais eloquentes Nada mais remoto e abstracto para Sá-Carneiro! Ed. em O Vencido Ramada Curto e cena da peça de sua autoria estética e nas virtualidades cénicas. o que distingue Gaivão. Trata-se às colónias em geral. os costumes e mentalidade dos povos quimbundos de Angola.d. a fadiga'. desgosto de amor. o Ricardo. faz questão de Água! Água! (e)os pretos imploram Oméha! Oméha!'� dizer. descrevendo a sua à morte designando-a como "A Negra" numa frase selvajaria'� . assim mesmo! que até é equívoca: "Não poucas vezes tivemos a Já vimos que Alfredo Cortez desempenhou Negra diante dos olhos em rapazes. que transcrevem a narra­ peças. cujo valor principal. O espectáculo. o último dos quais em Lourenço a sede. �. repita-se. residirá na objectividade segura da expressão um missionário. O Cuo do /). o u ligados ambiente exótico..ou pelo menos as sua em tudo" e não "só de pretos'. Moema E em O Homem Que se Arranjou (1928) o (1940)65./o a solidez de carácter que a vivência africana impõe Em cima. como se vê. terra que é "uma mina rosa obra deste dramaturgo . o padre Francisco.

] todos nós somos aqui. casa com o Cena de Degredados i n Virgínia Vidorino e a vocação do teatro: "sólido e franco" colono Manuel da Silva e muda-se / \ o percursa de um sucesso para África. Manuel. Fernando Cabral. e todos os inúteis. os que lá e cá vivem sem MNT. O que não a impediu de escre­ Lello recorda que "a temática patriótico-colonialista ver e fazer representar com sucesso um drama [ . em duas ou três réplicas que mal passam do "Si siô': . com sucessivas reposições.. e todos os covardes. Com tudo isto. Estava a Fotografia-postal.... os negócios e o casamento.. nia Vitorino!72 para salvar a família da bancarrota. apenas isto . em 1938. a certa altura. Envolve-se sentimentalmente com um Júlia Lello Ed. todos esses desertores da . A ambiguidade do título resulta das diferentes posições face à colonização e a África. inv.. 1916 mentir-lhe! Os outros.Virgínia Vidorino E Manuel: "Não! Não! Tem razão. . o coração dos por­ tugueses. não se sente em terra sua [ . à invectiva do padre Augusto ("isso não. gueses.. senhor 45 Manuel da Silva! Não o diz por si").. 2004 antigo namorado.. são esses. diz que "na África.' 220063 fazer nada ou a fazer o mal.os degredados! Isto. Joaninha. Também aqui a dicotomia Certamente por isso. para chafurdarem na miséria e na lama. a peça é bem dialogada e bem armada em termos de cena e literatura dramáticas. que a autora classifica como modelo de "futilidade e cinismo': ! [3< Fundo Bibliográfico do MNT Em África tem a companhia do padre Augusto e da mãe e de uma tia pouco consistentes. os que aqui vêm para sugar um bocado de oiro. se o nojo me não amarrar a garganta!" Para não variar. Arma-se uma intriga política contra Manuel. Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora. talvez eu diga a esta gente . Cine-Teatro Virgí­ gais que quase redundam em adultério.. que fogem ao que ela tem de duro. Maria II. o criado negro Sebastião dá uma imagem de ingenuidade. Alcançou um notável sucesso no Teatro Nacional Quem também nunca esteve em África foi de D. e ir digeri-lo onde se divirtam.vida. os outros. envolvidos em conflitos familiares e conju­ passa a denominar-se. ] despertava por cá uma adesão mais ou menos bem urdido de colonos com o título ambíguo de unânime':71 Degredados ( 1 930)1°. n. o velho Teatro Africano se implanta entre os escassos personagens portu­ da Cidade da Praia (Cabo Verde) fundado em 1867. e todos os perversos. degredados!" Mas logo se emenda.. mas este con­ segue preservar a posição na colónia. são só esses . Júlia Virgínia Vitorino.

e de diversas o qual impende uma subtil ambiguidade política comédias. para alunos do ensino secundário. mas também no contexto da própria pela sua actividade teatral. .. t912 tempo numa mulher resolve muita coisa"). acabando por inculca o Tarrafal) há um fosso. o que sucessivas (Machamba e Latitude Sul. cos [ . . Teatros de colonos colonos e de negros urbanizados. mas tão grande ou quase como entre o dito Aleixo Afonso Ribeiro estreou e ambientou em Lou­ e o criado negro do café. que. onde aliás na epígrafe da edição assume as dúvidas e angústias da fase de transição para a independência (Natal de 1 974 "este Natal que não sabemos se de Incerteza - se de Esperança") . a cor­ © FAHM rupção (engenheiro Saul Pedro). ]" . não só de âmbito racial. Mas também. se bem que algo enternecida da "cidade em total solidariedade e amizade. . ] neo-realismo. que com ele alinha cantada. . que contrasta com o racismo: "Ele adora-o só porque lhe apertou a mão': Não haverá denúncia mais contundente e talvez por isso na poesia deve ser uma seta apontada ao futuro [ . em que. . Um dos primeiros será sociedade colonial. essas muito ou nascidos nas colónias ou directamente ligados marcadas. Entre a agressividade de Aleixo Luna de Oliveira. em 1959. o machismo ("um bom par de galhetas a Teatro Gil Vicente Lourenço Marques. repita-se. portanto. 46 . t966 nagem branca vem por anúncio directamente da © FAHM Mouraria . renço Marques. denominada Três Setas Apontadas não gosto de pretos metidos nas conversas de bran­ para o Futuro73. ] terra gira e tudo" e da sua população de envolvendo a família. depois de um Infante Santo e a vida economicamente difícil do "poeta'. Herodes e o lvIenino75. A sua dramaturgia compõe­ se de peças breves.(e as citações não acabam) mas é irmã­ o texto consegue passar uma visão muito desen­ mente reconhecido pelo poeta.. ] uma seta de esperança': Orlando de Albuquerque nasceu em Moçambi­ que e viveu em Angola.nas restantes peças.estamos em 1951). Com as limitações óbvias da época. procura uma conciliação entre o teatro .espectá­ culo tradicional local e certa construção de matriz mais ocidentalizada. uma peça subsidiária do Este é maltratado por Aleixo ("seu negro [ . des clivagens. sobre proposto em 1917 ao Teatro Nacional. tirando um singelo e muito bem escrito Auto de Nata(14. Apresenta gran­ A partir de certa altura aparecem dramaturgos. fez representar em Lourenço Marques e (esteve em Cabo Verde cinco anos: mas não há em Lisboa um drama que assumiu denominações a certeza "donde eu vinha e onde estivera'. E outros sinais críticos surgem na peça: por todos. não tão agressivo se chamar singelamente África (1951). uma impressionante solidariedade inter-racial. . a colonização como o recurso (a segunda mulher de uma perso­ Teatro Varietá Lourenço Marques. Aliás recíproca e piroleira [ .

. . ] " que o despojamento de objectos e evocações afri­ Muito mais próximo d o teatro tradicional. res?'. pelo isso não desenvolvemos a análise. . "espingarda dele nunca guerra. ]. Nem cada com alpendre e janelas. e um grupo de negros descalços. Luciano fez a guerra em Angola: "Somos do sacrificado tentam evitar o crime: mas a caça uma geração marcada': "Mataste? Violaste mulhe­ 47 desapareceu. é Filho de Zambi contrário. Eles sabem africano. Toda a gente sabe que tem obivando': das cenas.. Quatro antigos mesmo" . há mortes no aldeamento. sendo a primeira passada numa sala O que revela nova ambiguidade intencional. . recordam com saudade algo ambígua: "Era bom escreveu Luís Francisco Rebell079. E refere-se a "África . Soba. mas viveu em sacrifício ritual do filho. "onde nenhum objecto deve referenciar África'. a terra. o Tchindulo. "num aldeamento de cheiro do dem-dem. que os pretos aos traumas desencadeados pela guerra colonial'. podia beber. que possa ser esquecido. o que deixa antever sequer a guerra colonial em si. beba. pergunta a Catarina. de todos nós [ . Os sobas afinal são opressores [os romanos] é demasiado grande para iguais aos outros homens [ . trajando à europeia" voltou . . Mas mesmo Herodes contém uma mensagem E há também uma subtil mensagem aculturada de claro anticolonialismo. a fruta. com todo uma certa evolução intencional. pois trocava a "água do Puto" por bor­ soldados deixam-se envolver pelas recordações da racha. sobretudo na medida Em qualquer caso. Mas o que se passa é uma evocação poética "em que incisivamente dá expressão dramática de um branco falecido. o cheiro do capim e do caça . . Cata­ que faz mal. de Fernando Dacosta78. ainda que contextuali­ mas não menos clara: "Os teus assuntos são só zada na história: "O ódio do nosso povo aos nossos nossos. Seu padre também não [ . "velho trapaceiro" que lhe exige o Porque Catarina é de Moçambique. usando um relógio de pulso. um conflito calor': E tudo isto ao som de um batuque africano. a evocação de África. o seu imenso circunstancial dramático. o que represente É de estranhar que a descolonização. Zambi leva o filho do soba. a s situações e o s dramas dos retornados e situação de feitiçaria: "Deus castiga aquele que acre­ da própria guerra. impressiona: África "é a guerra. num envolvimento teatral de dita no feitiço:' Ora o dono da casa não acredita "mas muito boa qualidade. A começar pelo contraste tem feitiço. não tenha passa-se numa "sanzala. Mas não obstante se esclarecer. e um deles mata um grupo de ciganos. o Tchindulo era "soba grande em que retrata. a mais relevante delas Um Jeep evolução': em Segunda Mão (1979). ." quando a vontade de sob a está contra nós?" Obivando ( 1968)16 põe em confronto um "dono Enfim. em Portugal são como "os negros em África': podia dançar. junto a uma cubata mati­ sido objecto de tratamento teatral à altura. . ticeiro Kaluango. Quem pagava era Tem entretanto muito interesse referir África Tchindulo": então e a borracha? (1990) de Isabel Medina8o. e a caça de casa" de "aspecto civilizado. . " [ . e não pagava nada. . pois. A cena. entretanto. mas Descolonização falando um p ortuguês correcto. e E finalmente: "Os brancos também fazem a segunda na mesma sala mas com um ambiente cachipombo [ . . com um distanciamento de 1 5 lá no Puto': E a cena como que retroage para uma anos. . . inclusive pelo traje da protagonista. e curiosamente pelo detalhe. O sob a enfrenta o fei­ que mais realça o ambiente erótico do conflito. ligado a práticas de feitiçaria. . . ] mas o branco não bebe. ] toda a gente podia comer. com algumas excep­ ser o seu proprietário pessoa de algumas posses e ções assinaláveis. e por canas são propositados. errava'.cubatas toscamente construídas'. O escravo do soba e a mãe Angola. Grande caçador. ( 1969)77 que põe em cena. Por isso seu chefe não quer que preto rina. ] de que vale ser soba. logo de início.

também... numa situação equívoca de paixão que lhe vota Luís. E não volta porque a "vergonha não (a) deixa. Retornada .. vergonha porque voltei. Ou pelo menos assim julga Simão. que acusa Catarina da tragédia..:' Aí. a auto-responsabilização pela morte de João. [ . no texto infanto-juvenil Leonor no País sem Pilhas (2000)81 .. João suicidou-se. o outro personagem masculino. .. tão imenso. como temos visto. Eu não nasci aqui.. Armando Nascimento Rosa deixa vestígios da presença africana em algumas das suas peças e desde logo. uma narrativa . Era nova demais. ao longo de toda a temática e aqui sublinhada pela música e pelo ambiente evocativo. um berço negro [ . .. E também em Audição com Daisy ao Vivo (2002)82.. com uma afirmação dramaturgica­ mente muito interessante. :' É a ideia de espaço libertador que surge. Catarina substitui "o vazio de África pelo jogo" e jogo de vida ou morte. O céu é azul que só ali existe ... tudo branco. . [ .branca. "Foi assim que levaste o João ao suicídio. o Tóli'� As referências a Angola e Guiné estabilizam numa poderosa evoca­ ção das inundações em Moçambique. Vergonha porque saí. Eu nunca retornei. pensas que podes fazer o mesmo comigo? A guerra de África já não me toca [ . ] palmeiras. tudo tão limpo .. Tudo tão vasto. É vergonha o que sinto. E é Catarina que o diz: o seu coração está em África.. ] Saí quando devia ter ficado. . ] Todas as vezes que me chamavam retornada. Porque a verdadeira chave da peça estará - e é singular na nossa dramaturgia .. eu jurava que não era de lá. A história nasce na oferta à pequena Leonor "de um boneco articulado vindo de África. Mas há outro drama de guerra: numa situação confusa de deserção. vergonha por­ que a neguei.na desambien­ tação existencial dos retornados. envergonhada [ . . . ] o amor corrompido por África" . ] esquece África'� Mas afinal João foi denunciado por um companheiro.. campos de café. p or quem Catarina se apaixonou.."um berço húmido.

Homem Negro modernas literaturas dramáticas dos países africa­ (2004). Lisboa. militante História recente. António Loja Neves. situação que se procura sim e sem autorização: os autores do texto dramá. de exposição ideológica e política. em Politicamente incorrectíssima. este estudo segundo lugar. tal como aliás justamente assinala tem em vista. entre outras. O que significa um tratamento muito menos da "unidade de acção dos vários movimentos de exaustivo das aculturações de teatro tradicional independência" o que conduz a uma natural iden- africano e de origem étnica com excepção das situa. à estandardização política dos são portuguesa tanto no que se refere ao texto. 1982 Fundo Bibliográfico do MNT jovem Fernando Pessoa em Durban. Duas peças recentes tocam o tema África. como mesmo que a pouco e pouco dramaticamente se revela. Luís de Camões de Eduardo Damas86. Importa ainda ressaltar dois aspectos da ques­ tão. os mais CentenoB5. colmatar. Em qualquer caso. um meio privilegiado numa troca de situações hábil e muito interessante. Com da mentalidade e da técnica teatral adoptada pelas excelente qualidade Homem Branco. tificação transversal9o. o qual. também acima referida. com as limitações e compraz em slogans. opinião. pese embora a sua instrumentalidade histórica e política. . Em primeiro lugal� o teatro não constitui o núcleo duro das novas literaturas de expressão portuguesa. Entretanto. ou nunca foram abriu controvérsia: é ou não adaptada do romance editadas ou foram-p. com as excepções e complementações dências segue-se uma visão abrangente das diversas caso a caso assinaláveis. os textos Sinde Filipe84. o teatro de expres. à expressão dramática literaturas e práticas dramatúrgicas. que no ponto de vista da qualquer tipo de problema e a do branco. o Bocage de recolha respectiva. significativos da matéria em análise e constituem. essa transversalidade. ainda. como tal. em parte fruto em si. na nossa ções historicamente consolidadas como é o caso. em períodos de guerrilha. não impede uma visão 49 aqui citados na perspectiva da matriz ocidental. estando em execução permanente a de Pedro Lusitano de Norberto Ávila83. por exemplo As Viagens cem peças.o em edições muito circuns­ Equador de Miguel Sousa Tavares87? Este diz que tanciais e de difícil acesso. a integração do negro nascido em Portugal e sem Assinale-se. o teatro constitui. Ainda mais recente (2005) estreou Equador Refira-se. Ou o caso de certas peças e autores e de certas raízes sociais. em relação à qual se representadas. Ed. contingências inerentes. do Tchiloli88 e do Auto de Floripes89 vista as perspectivas específicas das peças históricas são-tomenses. primordialmente. como diversos territórios no contexto anterior às indepen- também. de Jaime Rocha. aliás. Mas diga-se que. reportando ainda à estada do é obviamente exaustiva.Um Jeep em Segunda Mão dramática situa o problema do racismo e do apar­ Acresce que a lista de peças agora apresentadas não Fernando Dacosta. Ulmeiro. pensa-se. E em Como foi oportunamente referido. de que há notícia. que a seguir se analisam são. vinha sendo já utilizado pelos autores desmancha estereótipos de uma ideologia que se africanos no período colonial. tendo embora em que já vimos. tico dizem qu'e não. uma solidíssima abordagem da ideologia. foram já identificadas para cima de peças contemporâneas. As Três Cidras do Amor de Ivette K. que muitas peças escritas e Passa em São Tomé e Príncipe. global. tanto no perío­ anti-racista mas eivado de um racismo profundo do imediato das independências. na medida em que certos casos. assume o contraste entre nos de expressão portuguesa. theid na África do Sul. ao nível de títulos e de notícia de Finalmente surgem personagens negras em espectáculos. que aqui se procurará conciliar. ainda.

o de tribalismo. com fortes perspectivas históricas directas. por vezes quotidiana. Cândido tamento dada à missionação: mas reconheça-se que Furtado ( 1864)93. sendo certo que o tom dominante é a conde­ definidor de um conteúdo crítico ."os homens nação histórica ou mais imediata do colonialismo.mas desenvolvida na contra o poder português . a partir deste quadro traça­ no contexto pós-independência. Logo aqui e noutras colaborações activas e recíprocas (cola­ a dicotomia colonizador/colonizado se esbate ou boracionismo. . . Quer chegada dos portugueses a África. . o mais interessante é a frontali­ escravo que ela própria chicoteou. Ana Joaquina com o Mas. . 50 . .. São citados textos do bispo colonialismo." .AnaJoaquina.] davam tecidos e missangas . repita-se. e desde logo dizer. com as causalidades que diante missionação ("acreditar. Uma matriz não maniqueísta As situações históricas directas Estamos então no quadro de um teatro pre­ É pois interessante começar a análise pelas ponderantemente político e social. de guerras interétnicas ou de auto­ Empacasseiro. marfim e escravos. agora a partir de o criticismo das situações pós-independências é 1836. Haverá aqui um dade com que muitas destas peças encaram e criti­ eco da brasileira Chica da Silva? cam a situação política e social dos respectivos países. . de J. "a escravatura acabou [ . também não é escamoteada a de D. e reverte O limite pessoal dessa cumplicidade surge no sobretudo para aspectos políticos e não religiosos. Ana Joaquina'. esse tratamento não é globalmente favorável. E também nem sempre esse mani­ em si mesma e fundamentada em documenta­ queísmo constitui condenação cega e absoluta do ção referida na peça. que mantém o regime escravocrata­ os autores respectivos. e sobre­ ano da sua morte. (Angola). que um dos meus colegas no Brasil chamou a pre. António Tomás da Silva Lopes e Castro ( 1892)92 Nesse aspecto. numa base rei branco" pelo seu cúmplice africano (negro). um autor extremamente rele­ dade moderna. ) entre colonizador pelo menos assume uma cumplicidade histórica e colonizado. realidade histórica das solidariedades e das cum­ degredado. Joaquina. envolvimento sexual de D. e de outros. respectivas alianças políticas e de poder.. Seguindo a classificação e ordenamento Mas o mais importante e de certo modo rele­ cronológico proposto pelo própri09 1 . as Governo de Angola e do reino.. prólogo algo poético e algo idílico do período da mesmo no contexto pós-independências. isto entre 1862 e 1875. ] mas não para os escravos Por outro lado. que o auxilia nas guerras contra os ridades tradicionais no fornecimento de escravos poderes locais e na captura de escravos. é José Mena Abrantes O fundo ideológico é por isso dominante. assume também relevância o tra­ mas também da própria D. de cada país. diríamos hoje . Pediam ou a demonstração de sinais seculares de rebeldia ouro. derivas históricas mas sempre voltado para a reali­ Nesse aspecto. diz a própria . Dois perso­ muitíssimas vezes assumido com grande clareza nagens centrais definem a problemática histórica: . mitificado como "o grande e bom tudo a intervenção dos poderes locais.o que nem sempre terá sido cómodo e fácil para D. brancos [ . D.também é certo que peça com muita qualidade teatral. vante. um maniqueísta e politicamente incorrecto da res­ notável quadro da situação colonial.e José do Telhado. Zé e os Escravos (1980). ano da aboliçao da escravatura. . encontramos vante no contexto da pesquisa é o carácter não desde logo. . depois capitão de milícias ao serviço do plicidades entre colonizadores e colonizados.. ou mesmo dominante. evocado num pectiva problemática e das teses em presença. O que dá credibili­ -se uma visão dura da sociedade angolana do século dade ao substrato dos conteúdos respectivos. Em qualquer caso. XIX: a hipocrisia quase blasfema do clero e da Tudo isto. em Ana. acreditar apenas naquilo iremos ver.

Trata-se. : ' capitão do navio negro). a borracha e o marfim do interior"). ame­ S ó entram cascos d e azeite com água doce'.. dizia. gação com a espada e a vara de ferro" o apego de E a í realça-se o lado violento d a colonização: José comerciantes e colonos à escravidão ("quem nos vai do Telhado "ainda há-de ser um bom mata-negro!': trazer a cera. é corrigido pelo ambiente onírico e simbolizante da Mãe e da pedra escura. 1 978 preponderância que se reflecte. . aliás. . numa ZÉ DO TE LHA DO verdadeira guerra civil. O tema religioso é tratado uma vez mais num registo anticlerical que toca a blasfémia. na Fundo Bibliográfico do MNT cumplicidade das chefias e dos povos locais. símbolo da magia africana. Teatro Centelha. ] Eles têm os ferozes mascicongos e arcabuzeiros mestiços . num plano actual. diz o drontar-me um preto. . Há um forte contraste com a tosquidão castrense do Pai e com a dimen­ são épica das batalhas e das estratégias militares . cuja dimensão e proteger os fracos':95 histórica tem sido objecto recorrente na ficção. no Sequeira. e cobre a primeira peças. cita amplamente (1992)96 retoma esta análise histórica de Mena o Zé do Telhado de Hélder Costa94. . o campo está cheio de cadáveres [ . depois de ter encarado de frente tanto branco. e dos próprios africanos. O tom ( ca r ro realista da peça. portanto. com a cumplicidade ao ajudar a destruir em pleno século XVII os três interesseira e desapiedada. mas recua no tempo." Mas os portugueses têm nELD ER C O S T A o apoio escravocrata de potentados locais. dominante mesmo nas falas dos CENTELH A personagens negros. principais reinos de Angola [oo. Coimbra. Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios cinema e no teatro: esta peça. da "atormentada trágica e desconcertante sanguinária das revoltas indígenas. a E assim é: "Arrasamos tudo como nos ordenou': E o hipocrisia das autoridades face ao tráfego clandes­ racismo do próprio José do Telhado: "Teria que ver.. Em ambas as Abrantes. e no tráfego de escravos. vemo-lo com plausível fundamen­ fase da colonização. discutem o enredo e as soluções. pelo debate entre os actores que. Mas o tema do racismo concentra-se na mestiçagem do protagonista: "Desde quando é que os mulatos têm quereres?" E a matéria é retomada. Mas em 1875 José do Telhado é considerado O contraponto desta situação desenvolve-se em "o bom rei branco. nos ensaios da própria peça.. num bem conseguido registo pirandelliano: "Não podemos arranjar maneira de mostrar como ele já 51 compreendia as contradições raciais da época dele? ."já rechaçámos várias vezes. tino ("no embarque da carga está tudo em ordem . por mais retinto que seja .] não sabia (?) ainda que preparava já a existência futura de uma Zé do Telhado Nação': A perspectiva histórica assume assim uma Hélder Costa Ed. Não deixou de socorrer a pobreza torno da figura de José do Telhado. como na altura se trajectória de um mulato filho de escrava que. precisamente. diz a síntese do tação biográfica a colaborar na repressão violenta e autor.

factor de fixação de populações europeias "nessas mas "os fujões são cada vez mais': regiões povoadas de seres incultos e de instintos O registo é cómico.de órfãs Horácio Santos 100.. diz a Mãe. os O Teatro do Imaginário Angolar de São Tomé padres ficaram': Mas é preciso voltar aos costumes e Príncipe (2000) de Fernando de Macedo90. [ . a peça mergulha numa terra[ . e em ancestrais. :. ele interno dos diversos reinos em que o território nessa responde "com orgulho . "o único prodígio [ .] é o Teatro!': que nos faz lembrar o Zumbi e os Palmares de Na mesma perspectiva histórica situa-se ainda. ] A minha filhinha há­ antes A Corda102• A partir de uma certa aproximação de crescel� casar-se e quiçá ter descendência nesta ao teatro épico-narrativo. Alfredo Boa199• Aliás. . O sistema A missionação. . diz Frei Afonso. é mais bem tratada: o Frei começa em 1593 e funcionou efectivamente como Afonso acaba por proteger os escravos foragidos.Pelo menos devia sentir-se um pouco à margem por especial O Rei do Obó. . [ .sou português!': Mas é con­ altura se repartiu. E quando per­ alegoria política das guerras angolanas no plano guntou a João de Pina se é "castelhano ou quê'. mas também do esclavagismo. aliás uma vez mais documen­ -tomenses de S. ] Uns partiam. (1991)97 que evoca a transferência para Angola designadamente Teatro Julgamento implantado por . da independência do país. num quadro ramente existe e nos faz existir [ . tituição epocal da revolta percursora. na sua infinita mise­ nia numa descrição da situação no Reino do Kongo ricórdia. através de um processo de colonização que o autor papel-moeda da independência. Portugal (como) escravos. retoma.. no plano E no final. casamento com colonos portugueses.e também para o Brasil e para Goa .. diz-se no texto. situa -se na própria unidade política de Angola. das oscilações e traições dos de quem? Dos que vivem do suor dos escravos?': governantes e dos colonos. os "brancos queriam era Mudemos então de país.. aqui.. Mas subsiste também uma bárbaros'. João Branco assinala a mesma de Mena Abrantes. ] que verdadei­ histórico. ] nossa do colaboracionismo. e cumplicidades em povos e autoridades indígenas: hoje. Depois do desastre de Alcácer Quibir a nossa força com o Fundador que lhe tocou em Sorte (1997). ]" E mais: admite-se uma situação inter­ visão muito crítica mas com traços de grande iro­ racial: "Quem sabe se Deus. Reino ou o Azar da Cidade de S.. mas mantendo o sobretudo homens para levarem para a terra deles. o monólogo A Ólfã do Rei influência em iniciativas de teatro cabo-verdiano. .. da crítica ao clero [ .. E vimos no Tchiloli influências recolhidas em conventos e encaminhadas para o são-tomenses em textos de Mena Abrantes. que ilustra as primeiras dobras. a resistência dos povos são­ A tese histórica. Filipe de Benguela. A viúva numa perspectiva crítica A Revolta na Casa dos Ído­ do governador Cerveira Pereira fica em Angola : "Eu los (1980 Angola) de Pepetela 1 0l. plano da reminiscência histórica. moral caiu muito . O certo é que..1514 a partir de um conflito que conta com apoios . aspecto muito interessante. tíco Rei Amador. aqui. .. terá de certo um significado adequado e nesse é como sabemos um tema recorrente... não a ajudará a parir no futuro a primeira . Numa mistura de condena: "Da próxima vez será muito mais para nos linguagem popular portuguesa e de aculturação oprimir'. tais famosas mulatas de Benguela[ . dessas . João dos Angolares e do semimi­ tada. que já escrevera - por mim vou ficar por cá. com muito boa não ser branco:' qualidade dramática. testado quando diz que "esta ilha era nossa [ . 52 .. numa linguagem que oscila entre envolvem-se cenas de actualidade e uma recons­ o simplismo profético e certo expressionismo. ]" Lido . ] Vai na mesma linha de reconstituição histórica mas com um factor positivo da colonização. dimensão histórica e patriótica da matriz do colo­ E não está fora deste registo Sem Heróis nem nizador: "A Fé dos nossos anda muito por baixo.

�.o li· N...t..Ui".(...1«.�üJ. .1... >h� .}<.!.Io!o::o.�==�. numa A evocação do ambiente das autoridades colo­ visão de proletariado descontextualizado. d.. . mas depois da está na raiva do povo (e) os interesses do Kongo são independência as novas autoridades "trataram os apenas os interesses do povo do Kongo:' E o poder régulos sem grande cerimónia").. n... ." . ... .IvoI. dias e já depois da independência.. "O padre só diz aquilo que interessar em suspenso.I •• "U UI· -E po. . toMit&t .... ��:':i�..o Tutrol'ou<.�:. . ... o "'-.&o bu..P...ie' b'" .... rsr.. n... pelo menos a esse o marfim. . IId.-o.=r.lu t·"" l n. lo la.>t �'>t."il.O """ ·�='1"' oq.. .. ..... taa­ . poderosamente afirmado. ..".""i.. Revista do Ultramar.JUI<� d.14ico... ec..l....l<urioJ<.o.I.. . elo:.'" .. " ....u .. . • . E a autoridade local portuguesa aos comerciantes portugueses [.1M entidades locais.::· .-...''' . " Entram nesta perspectiva e nesta problemática tl<.o� �. uLu . N�" �." ...". fU p.. Maio. . .u d1..._ • . ptiftlbo. J. __�<>k.m _ lu. relativamente à r�' '''.>!­ . veremos adiante que este mesmo :-. . �..� r�. . .". tugueses": ele e o sobrinho D. •• S..i-p>� ecepuM �bl'OO'll 1..k:t=>:o... '{Ot. �... r.6.b .U..ch d. .." lU .oa. I... Ik-.? .pn: é '•• rkil sociedade e à política do Estado angolano. crítica peças de temática histórica moderna...t:�r��: ��:f1:: J.� do> .� r.rU. O ".dor ti."...q . desde os administrativos à PIDE..i".� �:. .i. do I...<:>f .. IUI I.t�'. O rei vende escravos aos para a Rodésia servirá para enviar "contratados" portugueses: "A maior parte para o Rei': Mas "tem pelo Lucas Mateus "praticamente um traficante de medo de nós.... I'� f''''II. kc:o Tt..d.. . .. 1 . .. Auu Ah.'� �.Iu..G'" :�� I .j.. Somos nós que temos toda escravos"..f"dkY..n<:>"o• ..qu ll-od.u ..k I"..l.\nu " ••b . li..u(.:.ui ...."""l<>Ihd f.!':��:. . .u '" u>!.o...�:": :nlf��. r!e...o P:Ól".�I'O 6 .. Ild. ���u:jE���f?::f � ...:. mas nem querem ouvir falar é politicamente correcto nos nossos dias: "A força em eles serem tratados como gente"....oç ..k de Sousa (Cabo Verde) é uma dura evocação do !t. . quadro da transição para a independência.. ".v.� ••bo-. ] os escravos e (Gomes) não sai assim tão mal. com repercussões da Guerra Civil """'i<:.dt:.. f. u.o c. "..Jou.!�'. . u. o rei do Kongo "permitiu a entrada dos por­ (2000) 104 do moçambicano Leite de Vasconcelos..... n. ..� ........ cWio di'<df.. """ · i..e<hf.o <4 • ...:.:t:l...<t". c:IO�..... •�.�". l cco .se.d.. I" � nJO.m .rfO do.I\ob �. Mas "o que pode mudar as coisas é o desejo P a :n o r n :lI1 1'l1 T e D.. ..«. "... VAI A ANGOLA o Tealro dOI Elludlnles di Unlversldad..i..i':.o de 1.... como habitualmente muito mal­ obviamente condena: mas a solução do crime fica tratados. qC• •= I•. 'lU oIe U�b ·iut':I"'IU� � .:/""- .....] os artesãos [ . O::' I'<<<b � "'''.. �J. o racismo aflora no comportamento dos a força [ .. 1<U.. . �T�'" pI..» ..U:o"" ' 'I'''' ". i!uc.lI..� .... É tudo o que os portugueses querem..!..hJ. j A Ulp"""" <elud. ".�.lu= . . r-o< ... """.. l .W _ .IoJI� de fundo a peças de Pepetela passadas nos nossos <N-� . ..!d!�·d�·������� la..o.. �dI<J... . ...I'" 1 ... ..u. U.o 1.. � 'c. .rtt...I. ....u... li>U d<a p.�·��-:!·� f'lno...o d.. A estrada é historicamente exacto. "!4 n . c .." o =<...l<> .Jo (4r...r � M.I"...n<. É também o caso da muito bem armada trama 53 política e policial de As Mortes de Lucas Mateus .. p. "'. f<>i .. ' <'..x...I...I O .. ÔI...UI u>!:� r..w.. • I"'" t.. enIo ck ..lro � de Espanha e ainda das relações com a população \'.... z.r"_I� 'lU .:.:. ch...*. .. �... n"U"" p. •..ftoJ. ��Í(" . campo prisional.. a cumplicidade dos manis..' 3.�. n ... serve TNs. r.al>i....Jo . <Of'Od... o que aliás vergentes e uma vez mais ambivalentes.1" p.... . 'u tulr<I J.o T..... Ir"..) � ...? ...a o -u...L..rlo.. 10 1"'" UI.... •• """.u s..�lu .!'tJiCO: . ..J...... ..f .. deve ir para os que "trabalham com as mãos'.• � d. ...'. tiu • 4>LWiJ• •�hI.duo _ 20 do Abril & �. ..t1Uu • -. .�..U .. r!t\...e.. ÚV. o povo...� -r....lu\r�h rN"� UI� t'> 1�..J.. .MJ.� �.h d. ç.lI. Afonso subvertem a onde a temática política se assume em planos con­ ordem tradicional e aliam-se a Portugal. dfto<<:>Io J . . ... �..."FftI.(O l lu '!"' ..lli.d.:':�""�7M::::N... n-h? 1<'.t.. �6o.. do plblko q �olcs �.l..I....� .. ...& ... . . No.. a venalidade dos pares e a destrui­ ção dos ídolos constituem aliás a síntese conflitual da situação. mais acen­ O problema complica-se com a intervenção tua a crítica à rede de complexidades que o autor dos missionários.....to _. fU.odoo _ <»rÃ..><.<hoo. I»tlil:ri...n«"'�· r<i· .tlllridoSo.� � -Ae d' '-''i�I&.. ] os camponeses': ..10" 1'-> • • local. �r..u .iJÍ<> _ .n. .. t r u I LOURENÇO MARQUf.oci<&&l &t 1. .<..s."""" o <.i..<I. .:MG<bto.. � 1.. .tlo raoJo... ..o. Mas são homens como nós. .alr.q_ pol<a... d......o d.tor "'-"".�:.l.:oo ".·l<ol>:>l� " f"""·..Ic'. U& eo d. .r"i .. cJ. . .t . ..:u. quadro histórico.. o!.<k _ A história moderna e a crítica da situação �. n r�� C..!!:..... "" C<.k• .. �.." .i. I. política antes e depois das independências .r.a .w.'P.. u•••�d�� <OIIIj>I• Achada Grande do Tarrafal (1979)103 de Franco pon.«or...o}:..1o ..ut.. f.ô . � • •\u".. c.......""w.bk� oe .tIJ.. �..Lé:t ...t..ta lu". ::... . . [ UN'''''' ""' U�h'''' luu.�.u.. ""'tl-ou!.ko uk..!o AlmtiJ. ..h k41.:......" nível: já num nível acima a situação torna-se mais O capitão e o padre usam e abusam de uma lingua­ crítica.'Jo. � r . ... o que brancos ("vocês fartam-se de dizer que os pretos não é historicamente exacto no século XVI... p.!. "p><.. ..u.o(d� 1j"i.t poç. .. niais. 29 O conflito religioso.'..l<!o hih !'ll l<fru ...' J.h�... gem blasfema.l.�.p!. U.. ". u Tt.1.�I..\". . : a .Õ<i:lin cr..t:�� .. 1948 REVISTA DO UlliA/. o lZIol.21<11lt_".. � I-!....uUf'·"'" .$ das pessoas': Ora.. A io.. ü. tiQ F.:�IOo. . Iii _ '1�' o.. lUto ltl. .i. no ':C:. l r.uo>r. 'la .....iho..a c!c .�. <"Ij _ ...d...0.""ul.. � o ''''' ''''4r ..>t 1l.PnH...... • ••...... "'l>1. �''' I'':"..«<.oe . c..u .l ....h I"'�" F. .. . ..-..

macaco para aqui. e ter um paizinho que pagou os estudos [. Pior. Não é culpa minha [oo. Quando p ergunta se "é crime que põe em cena a situação real de três clandes­ fazer uma apresentação original'. destaca-se como condenação directa "o vício do intelectualismo': O principal crime do do colonialismo. onde integrou zairense. . é vício de O apresentador é pois "condenado à pena cidade:' E a promiscuidade sexual do chefe Sabrino máxima. matou sem convicção tra o colectivismo intelectual e artístico.] Esta fuga constante surrealistas. descrita em tom objectivo: "O problema não ambientado nos EUA. ] " o tom expressionista do terceiro. Certos desvios que "já confessou o crime [oo. O Panfleto ( 1986) 105 de Domingos apresentador é saber lel� o que representa "uma Van Dunen (Angola) que retrata uma situação fuga constante ao colectivo [oo.] está bem identifi­ policial a partir de tipos correntes da população cado o inimigo da classe. Esteve exilado e tenta voltar a para a ignorância. rio à nossa linha!"IOB. pessoal e angolano Manuel dos Santos Lima. No Liceu . Nesta temática em que se aborda a história e a Mas parece que não é s ó o apresentador que política imediatamente antes ou depois das inde­ está a ser original. O racismo perdura: no Zaire. A Última Viagem do dura da realidade angolana. António é um obrigado a estudar. escreveu o autor em 2002. de macaco para ali[ . que trata Como testemunho indirecto da luta pela inde­ a situação dramática dos retornados do Zaire a pendência. . . como álibi ("cumpri ordens"). Abrantes. . prar comida. O primeiro. cena de construção e ensaio de colonial são evocadas pelos dois lados: "O clandes­ uma peça de teatro pelo apresentador e por um tino [ . Mas isso também tem o tempo O apresentador bem tenta desculpar-se: "Era dele acabar!'. Hoje em dia. Noutro plano ainda s e situa a obra d e Mena portanto.] o problema é depois sítio onde com­ Vietname. . Paga uma grade de cerveja': da PIDE assume valor simbólico." pedir esmola: "Mas na terra do colono. fez o quinto ano do liceu. diz a Mamã Luzia. com veteranos da Guerra do é o dinheiro [oo. O Cão e os Calundas107. A revolução de 25 de Abril e a guerra O primeiro. . ] foi à guerra neste navio". de "O Suicidiota'. "A Vala Comum'. constitui um violento libelo con­ à guerrilha que o repudiou. toda a gente tem um só dono. curiosamente social. No Século passado. . temos A Pele do Diabo (1977)106 do Angola. pois não há supermercados:' O médico Pepetela publicou em 1985 um curiosíssimo não consegue que lhe reconheçam o diploma texto em prosa. O Sr. E designadamente dois trípticos de exce­ O conjunto contém de facto uma visão crítica muito lente linguagem. Século sibilino'. ... . 54 . ] " nessa nossa cidade de Luanda. E a respectiva problemática. O segundo actor também tem pendências. Tudo isto num texto de excelente qualidade O apresentador é condenado pelo colectivo de acto­ com ressaibos pirandellianos no último episódio. um "belga duas dramatizações autónomas. Essa originalidade de ir à escola . certo tom absurdo no segundo texto. . um dia gabou-se disso': que é o colono. tempo. com citações de Fernando Pessoa. a mediocridade e a prepotência. Esses que andaram na da sociedade. . respondem-lhe tinos encerrados num contentor. "A escravatura já acabou há muito Escola. dução individualista. tentou juntar-se grupo de actores. . descolonização. ao colectivo. "O Contentor'. . "As cenas que se que tinha a oficina" só tratava os empregados "de vão narrar passaram-se no ano de 1980 e seguintes. Intelectualista! Isso é contrá­ pelo menos na sua primeira parte. res por ter desviado "o rumo da peça pela sua intro­ O outro tríptico é O Pássaro e a Morte (1994). _ RegressadoslO9 é um texto realista. África.] como degredado: "Até parece que é o único condenado se um colectivo de ignorantes não fosse capaz de que veio em Angola:' O colono trouxe "o vício" de encenar uma peça sobre a ignorância. Os textos dramáticos Príncipe Pelfeito (1989) 110 constitui uma alegoria da intitulam-se O Elogio da Ignorância e Regressados. .

mas aqui diz bastante do criticismo corajoso da alegoria: e a situação no ex-Zaire não exclui as generalizações. .tudo isto atira para a passagem por parte do autor. por sua vez. E a alegoria transfere-se para o processo de descolonização e a independência surge num contexto de repressão violenta. .. a última Farsa. ] A sociedade das minhas nização/descolonização. 1982 Centro de Documentação e a morte do líder popular. filho na vala comum ("eu preciso de ser a mãe de E a fala afinal mostra um enorme desencanto todos os mortos") . O esquema é mais com­ Investigação Teatral do Mindelo plexo. tal como de Patrice Lumunba. ] o Circo deixa de ser circo e saro e a morte servem de ligação. como um modesto tratador vezes sobrepostos. [ .sem qualquer escrúpulo tração de temas e situações.1978) 1 1 1 . que o seu fuzilamento des­ aliás os outros temas e subtemas analisados ao mentiu. Com uma epígrafe Importa referir que a vida quotidiana. na alegoria do Palhaço Rico e do Palhaço Pobre. o Grande Circo As Troianas Autêntico é a ditadura do novo poder. não destroem a unidade crítica: o confronto com formaram a independência numa j aula para nos a polícia na África do Sul ("os polícias dispararam observar do exterior': O Novo Líder Popular acaba à toa sobre nós .. enquanto o domador.. num fundo de questão religiosa. chicoteia à esquerda e à direita com vigor:' Mas o poder colo­ nial (o domador) alia-se aos novos poderes.. Cabo Verde. . o Amansar Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo das Feras é a definição do poder político. " Os leopardos actuam com ferocidade contra o coro. . .. Diz com efeito o tratador: "Agora do realismo para o ambiente mágico em que o pás­ que isto tudo é meu [ . o que envolve uma interpene­ de leopardos ascendeu . . ]" E por aí em diante! sinal contrário depois da independência.") ou a intervenção dos militares por passar a acção ao tratador. surge em Mena Abrantes na poderosa alegoria de O Grande Dramatização da vida quotidiana Circo Autêntico ( 1977. . Grupo Cénico Korda Kaoberdi. que exprime melhor a realidade Mas a mais dura crítica ao processo de colo­ dos que estão cá dentro. . mesmo de minhas! [ . a Ameaça contra o Circo é a independência. na perspectiva das cum­ minas. ] conta. Toda a primeira parte retrata uma colaboração entre colonizador e colonizado. Mercenários e dos Leopardos levam ao fim do ou ainda a situação pungente da mãe à procura do Circo. aliás não O texto abre com um "esquema geral" que Mindelo à Tona orienta o leitor no seu didactismo alegórico: o Grupo Cénico Amarante. E muito de situações de afronta à liberdade. a dono do circo': a retratação dramatúrgica do quotidiano.. Ao abordarmos agora e por vontade alheia. passa a ser cerco. esta "farsa tragicómica [ . 1953 Grande Circo é o fim do poder colonial. ou quase. meio a longo desta pesquisa são convergentes e muitas sério meio a brincai. que através dos ("fuzilar um homem duas vezes é ser desumano"). que todos conheciam por so-minas fica a plicidades históricas e políticas e da permanência partir de agora a chamar-se so-minhas. ao 55 ponto de o Líder Popular reconhecer que "trans- . Cabo Verde.

que a realidade cabo­ -verdiana largamente justifica: "Viver é com luz:' Mena Abrantes. género irrompeu em língua nacional com força Cabo Verde. A Doida dos Cahoios ( 1987) 1 1 7 adapta à cena um romance de António Assis Júnior O Segredo da Morta (19 29) 118 . em Calanga. documenta muito mais a produção de político. os embarcadiços nacionais e estrangeiros. as alegrias e tristezas. e por outro adiante encontraremos. dúvidas e esperanças: as amigas de vida agitada. Osório. a esta também o quotidiano. João Branco. 1 1 5 © João Barbosa António Aurélio Gonçalves e Cândido Ferreira propõem entretanto uma adaptação da novela do primeiro. seus problemas. Os poderosos movimentos barriga aqui! Ninguém é afilhado e enteado:' da "Claridade'. Tanto o conto. as festas. os vizinhos e os amigos. Mostram um quotidiano desencantado de homens e mulhe- res sofridos num meio urbano pequeno e pobre (o Lombo "zona labiríntica" do Mindelo).muito numerosa. amores e desamores e a esperança. © João Branco e Descarado de Donaldo Macedoll4. Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Flávio José. Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ IC. As Virgens Loucas (199 6)116. Mais optimista será Brito Os Dois Irmãos Semedo. Verde. reconhece-o: "Uma das formas menos expressivas Cabo Verde. O Panfleto de Van Dunen é transversalidade. como a bem armada dramatização cénica traçam uma panorâmica da sociedade popular da cidade. Cabo Luís Hopffer Cordeiro Almada (Eugénio Tavares. muitas vezes. E cita as peças Gervásio (1977) de O. A família da mamã Luzia. o pequeno comércio de sobrevivência. Os mesmos e Preto no Bronco ainda alguns autores esparsos são referidos por José Grupo de Teatro Juventude em Marcha. disso exemplo flagrante. Saíram da mesma ser de outra forma. Jorge Tolentino). os namo­ escassez de teatro em Cabo Verde. O que não impede a mamã Luzia de dizer: espectáculos do que peças originais. ao afirmar que "após a independência esse Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/ Ie. da "Certeza" e do "Suplemento Cultural'. Manuel Ferreira. também não fogem. por um As expressões de teatro popular. aliás. algumas das peças já referidas enquadram cional. Guilherme Ernesto. 1999 mobilizadora e com função essencialmente forma­ Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo tiva" 1 I3. e não poderia "Vocês são todos meus filhos. 2004 Jaime Figueiredo. 1999 desta literatura é a área do teatro:' E só cita Terra de Centro de Documentação e Investigação Teatral do Mindelo Sôdade . nelas subjaz a situação política. teremos presente que. na rados e os polícias quase humanizam o substrato obra citada. 56 . não se Os Dois Irmãos preocupam com o teatro.Argumento para bailado folclórico (1946) © João Branco de Jaime de Figueiredoll2. Artur Vieira. que mais lado. para citar só estas referências. Ano Noho. Uma situação algo insólita prende-se com a as irmãs Titã e Zé. e até as de teatro tradi­ lado.

atinge surge pelo menos na cena um certo expressionismo em primeiro lugar o regime colonial. O carácter fantástico da intervenção de © Joào Branco "méssê Damião'. diz a democrática popular à volta do mito do "velho'� velha D. que nos fez dramatização que aqui assinalámos.tudo isto. aqui o teatro tradicional. da sociedade Grupo de Teatro do Centro Cultural Português/I(. da memória dos náufragos e da pro­ fecia do "filho que será o novo guia do nosso povo. De uma poética envol­ ligado à sociedade colonial. Clara Pederneira. do curandeiro. a cargo do Forasteiro: "Venho de uma terra muito longe. ] sepultar o racismo/ abrir a ver­ . Sobre dade/ calcar as preferências/ despir a vaidade/ des­ ele escreveu Pires Laranjeira que "vale sobre­ mobilizar o comodismo/ descalçar os santuários" tudo pela especificidade da representação social pois "autocrítica é o que se pede'� Cita-se entretanto e espacial" 1 l9.Satan de Macedo. mas sem quebra de autonomia criacional. mas não se sublinhado e simbolizado na "cobra dos meus infor­ escusa a um claro pacifismo e apelos à expressão túnios e mensageira das minhas desgraças'. se relaciona com a época do romance. É como se estivesse no exílio. do são-tomense Fernando relevantes pelo peso literário e político: A Esperança . pela sua especificidade. a mulher de vir­ tude. um rei de todos ignorado crescerá do teu ventre" . uma vez mais. Com uma nota política. É o caso de No Velho Ninguém Toca (1 978) 1 21 As datas dizem muito acerca do ternário obviamente do angolano Costa Andrade. o que corresponde à perspectiva da o Che.. E finalmente. 2002 Centro de Documentaçào e de inspiração. será altura de referir que as expressões poéticas desta dramaturgia assumem maioritaria­ mente as formas do teatro e do espectáculo tradi­ cionais: o que não significa uma completa ausência de conotações políticas e sociais. redunda numa cena de marionetas em que os míti­ cos rei Amador e Andreza são evocados. num contexto que traça Diz-se por exemplo que "é necessário iluminar bem a sociedade da época.. não obstante não analisarmos o Chaka122 de Léopold Sédar Senghor. ] combater a intriga e cura da Calanga. da "Santificada'. que pelos vistos serve Cabo Verde." Expressões poéticas E finalmente: dentro dos critérios já largamente definidos. lembrar. de São João de Angolares. as sobras/ Em nome dos olhos que vejo/ abater a E o mesmo se dirá da dramatização da lou­ demagogia e o calculismo [ . Trata-se. tanto mais interessante quando a divisão tribal! [ . numa situação que gira à volta de Madalena.. Mas também pertenço a esta grande família que é fermento do nosso povo. fazemos referência a E citamos ainda três textos não analisados mas 57 Cloçon San ( 1 997) 120. vente mas enérgica na sua dimensão política. num símile com o mítico Jika. oscilando entra o realismo e o fantástico. a toda uma Investigação Teatral do Mindelo literatura. Mas a par do realismo.

a mulher de Zeca © José Frade "rebolinha de prazer'� 128 E a nota política também está presente no con­ texto onírico. Natá­ habitual. ] trabalhavam muito e eram sérios". "mais lentos [ . significativo pranto de sofri­ onírica de amor e morte. A Estória da Galinha e do aculturação de poemas tradicionais portugueses Ouro (1984) de Luandino Vieira. 1 27 belo Monólogo para duas vozes Amêsa ou a Canção Vejamos a primeira. De salientar a invenção ou utilização insólita de neologismos: os Mia Couto pés "icebergam'. A Luarmina "para os devidos efeitos (não) é branca'. Trata-se de uma "estória" de seres míticos. diferentes de todos os outros da terra'. dentro da baleia:' Mas se calhar "( . .. Assume uma linguagem do Desespero (1991). animais e mitos.." E "nenhuma carícia [ . "muito pregui­ çosos" e prepotentes. e Amirá. Interessante a adaptação enquanto amor de Luarmina e de Zeca Perpétuo. como Na Azuá. ] devolve tanta alma como a lágrima deslizando': .. e A Montanha da Água Lilás - personagens entre pessoas.(1982) de Óscar Ribas. artistas. Mas o final pode permitir uma interpretação Macedo e de Mena Abrantes próximas do Tchiloli.lírico diálogo de rico-coloniais. o que não é atingem uma expressão poética dominante. e os j acalupis. diz o romance. ou como belíssimos textos em prosa: Mar me quer de Mia o Prodigioso Filho de Kimanaueze se casou com a Couto.. . . ] educou( -a) em pre­ ceito de Deus e o livro'� A certa altura fala-se de um "país capitalista (que) estava a abastecer os bandidos e as armas vinham pelo caminho do mar. Mena ainda deve ser citado em textos de lia Luiza surge assim ligada à teatralização dos poética tradicional. [ . esperançosa: "Pingos de chuva/ já molham o chão/ Neste último caso. os lupões. 58 . de tamanho desmedido.. e Sagrada Espe­ ("Lá vai a nau arrogante/ com muito para contar rançal23 de Agostinho Neto. A (2005) 1 26 romance . fábula para quarenta (2001 Moçambique).. a partir do sonho-reali­ mento que já não é específico das situações histó­ dade do Avô Celestino e do pícaro . Outro tom assume A Montanha da Água Lilásl29.. os lupis "cor de laranja. ]/ Olha a triste viuvinha/ que anda na roda a cho­ Referimos as dramatizações de Fernando rar"). filha de um marinheiro grego. como está no . a Tartaruga e Miúdos ao sol! não matam ninguém. a) baleia vinha era dos países socialistas'� Nada disto supera porém o teor poético da lin­ guagem: "Os olhos de quem amamos são um barco. é "mulata'.de Pepetela (2000). autor do conto e co-autor da adaptação Filha do Sol e da Lua (1989) 1 25. . Pedro Andrade."fábula para todas as idades" expressão poética está bem presente.. "O Padre português [ . Zeca lamenta o facto de a "vizinha Editorial Caminho e eu não nos simetricamos já'. ." o Gigante (1989) 124 constitui um caso interessante E há peças que assumidamente procuram e de passagem de um país para outro.

Maria Leonor Garcia da. a edição moderna de LuÍz Francisco Rebello. pp. 11 CIDADE.. XXIV-XXV.. José Ramos. .Uma Os poemas do lupi-poeta "chegaram ao conhe­ Leitura Crítica da Expansão Portuguesa. II. LuÍz Francisco. Prelo Ed. cit. BRAGA. 397 e segs. BRAGA.l. nas suas vertentes políticas. A . op. nos seus aspectos Verbo. 398 e seguintes. p. Alberto E . BRAGA. E entram em conflito por causa da 3 CRUZ.. 32. garante uma qualidade téc­ s. adiante citada. e certamente o que 23 Cit. E de todo o Mundo ligado à cultura teatral. ob. Teófilo. 1898. s.. p.. GOMES. Poesia e Dramatlllgia Popula­ concilia com qualquer tema e qualquer ideologia. Funchal. José Ramos. que Pepetela roman­ 10 As citações de Gil Vicente são feitas a partir da edição de Obras Completas. Prefácio e Notas de Marques Braga. Editora Caminho. 1977. Ed. Lisboa.. 136-139 e pp.. p.Das Enriquece as respectivas literaturas. cit. 30 Cfr. Lisboa. pp. op. Trata de um ver­ Ed. ob. de C. C . op.Baltazar Dias. 26 Cfr. 7 Ob. Prelo. sd. nica e literária de teatro de matriz ocidental.. Lisboa.. cit. 46-47 Mas o que acima se deixa. História Social dos Escravos Para lá deste estudo Libertos em Portugal. 1963. 1961. Duarte Ivo.. Lisboa. 2004. 1961.] aprende­ de Hernâni Cidade e Notas de José V.l. Cf. Autos e Trovas de Baltazar Dias. Obras de Henrique da Mota. Funchal. ob. 1983. s. 14 Todas as citações na edição de Marques Braga. "Autos e Comédias Portuguesas'. s. cit. apontam em certa medida Português . p. ob. ICLP. bons e maus. Autos e Trovas de Baltazar Dias. 24 Cfr. Hernâni. o lupi-sábio. 1973. Liv. 28 TINHORÃO. Alberto. 80. de Coimbra Martins. I. tro Português . Um Auto de Gil Vicel/te.. econó­ 8 Cf. dências. para o Dicionário de Autores de Literaturas Afri­ 18 Cfr. que aliás 15 GARRETT.M. em especial o prefácio. in GOMES. VaI. Coimbra. 270. a edição fac-similada de "O Mundo do Livro'. utilização da milagrosa água lilás. Teófilo. INCM. Editora Cosmos. p.e também a de Portugal. p. Alberto E. o 2 Cf. 12 Gil Vicente. Hernâni. citado. Lisboa. p. Alberto E. pp. O Essencial sobre Teatro Luso-Brasileiro. 223-233. 1889. lN CM.d. "História'. pp. 1. 2001. Cena XV. 27 Idem.e. tivas culturas . ed. A Literatura Portuguesa e a Expansão lupi-poeta. Acto I. pp. Teófilo. Esta sociedade tipifica-se em funções distintas: Cf. "Tea­ e de Timor. 22 Cfr. Ed.o que 21 Cit. sd. e CRUZ.. Alberto. s. Arménio Amado. Prelo.. cit. pp. Duarte Ivo.Das Origens ao Romantismo'. que se 25 GOMES. 472. in "Teatro Fernando Cavacasl30. Neil T. e PIMENTEL. Ed. BRAGA.. loco cit... 82 13 SAUNDERS. e que dá testemunho de uma utilização da herança IX-LXIII. se continuará a estudar. reflecte a sociedade humana. Duarte Ivo. Há inúmeras edições bibliográficas sistemáticas. rivalidades entre os próprios lupis . o lupi-pensador. linguística e cultural comuns. Lisboa. Prefácio Será que "as gerações vindouras [oo. e REBELLO. pp. Os Fumos da Índia . Lisboa. pp. in CRUZ. A análise dos textos disponíveis e das fontes 17 Publicado pela primeira vez em 1587. canas de Língua Portuguesa.. História do Teatro Português. Alberto E . o lupi-diplomata. dadeiro combate entre os três grupos e os restantes 4 Cf. VaI. mas também o jacalupi capitão ou o Ultramarina. animais. MILLER. Escola de Gil Vicente e o Desenvolvimento do Teatro Nacional. 270 e segs. uma narrativa do Avô Bento. Lisboa. CIDADE.e. as respec­ Origens ao Ronlantismo'. Lisboa. 1982. cit. cimento dos avós dos nossos avós" sob a forma de Lisboa... 57-59. Obras do amplamente se justifica no contexto das indepen­ Poeta Chiado. do Brasil 29 "Auto da Bela Menina'. cit. ed. lupi-azarado.. 20 Cit. GOMES. fac-similada. de Aldónio Gomes e 19 Cfr. sd. Sá da Costa Ed. loco cit. Teófilo. 1971. TINHORÃO. 42 e segs. CRUZ. ID. Lisboa. S9 rão com a estória"? 13 1 Lysia. Ed. Os Negros em Portugal.cit. 328-349. prossegue num trabalhos permanente de investi­ 16 Cfr. 2 Vais.e esse combate 6 Cit. O teatro nos países africanos de língua por­ Lisboa. tuguesa vai mais para lá deste estudo. com as componentes de desacordos e Idem. 91 e para uma preponderância inicial pelo menos de segs. loco cit. res 1/0 século XVI .' Ed. 1998. cit in REBELLO. cenas e diálogos. com destaque ainda modernas. Editora Sá da ceou e Natália Luiza dramatizou em belíssimas Costa. gação. formas de expressão dramática tradicional . in "Teatro Português . PIMENTEL. micas e morais. Editora. LuÍz Francisco.Das Origens ao Romantismo'. pp..

Lisboa. p. Príncipe'. em Lisboa (manuscrito). in Alves. 339 e segs. Universidade Cruz na revista Contravento. António Manuel Couto. FRECHES. pp. lar Mirandês. 77 Ed. 81 Ed. ed. 86. Ed. Tomaz. Ed. Lisboa. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. "Le Tchiloli de S. BAREOSA FILHO. Paris. Teatro Maizum. 1 1 1 . pp. 2002. Vol.Lon. 2002. 86 Ed. Lisboa. 1983. Mário de. 1923. Teatro Popu. 1991. Comédia Ulissipo. 2 Vols. 162. ibidem. 66 CRUZ. "Teatro Escolhido'. Panorama . Ed. Lisboa. Frankfurt am Main . SPA. Évora. Pedro. Cabo Verde'. 1969. 1982. INCM. Excelente Poeta Simão Machado. gal. Prefácio aA Vingança da Cigana. 45 FRECHES. Brasília Ed. Fernando. 1989. 559 e segs. VASCONCELOS. policopiada. Degredados. Setembro 2001. pp. Lisboa. SCTEB. 2. Teatro Quinhentista da Índia e do A1medina. João Maria. Textos de Cariz Profano. IBNL. "O Teatro em Cabo 79 REBELLO. 1971. 1968. João. Parceria A. 1971. "Amizade'. André e Crabée Rocha. 45. BRAGA. Claude-Henry. Ed. Lisboa. 36 RIBAS. 35 VALVERDE. Goiânia. Cotovia. Nizet. pp. "Teatro Medieval em São Tomé e Príncipe'. I. Iko Verlag füI ção. 202. Livraria Brasileira. Nogueira e Nota de Maria A1iete Galhoz. 64 Representado no Teatro Nacional de D. Lisboa. Lisboa. "Diário de William Beckford em Espanha e Portugal'. São Paulo. INCM. Lisboa. Casa do Sul. 136 e 143. INCM. Lisboa. Duarte Ivo. Ed.. Miguel Sousa. 36.. 69. 2 Vols. 47-49. Cidade da Praia 2004. Duarte Ivo. sd. 51 TINHORÃO. Cit. 47 PEREIRA. 1997. 1973. fac-similada. Ramada. Ed. Maria II em 1936. Livraria Aillau e Bertrand. "História" cit. Ed. 94-95. Vera Lopes de. Ed. de Tânger. Clássica Ed. 1997. 50 BIÃO. "Espectáculos populares do 63 "Colonos'. Oficina do Poeta'. Ed. Vasco de Mendonça A Promessa. peça em 1 acto. pp. Máscara. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz.. SPA. Lisboa. 55 Cfr. in "Teatro Completo" de Marcelino 32 SIQUEIRA. Coimbra 2001. cit. CRUZ. ed. 41 e segs. Erico. Também do mesmo autor. 82 Ed.. pp. Celta. Universidade Editora. Lisboa. p. Mário.. 2005. Vol. Caminho.Teatro Completo. Duarte Ivo. 60 . do Livro'. "Tradições Pirenes'. 39 BAPTISTA. Setembro 1967. pp. 1925. Introdução. Ed. Vol. .. e em Lisboa'. 58 MÂNTUA.163. Tomé'. Cfr. 1966.1986. Salvador 2005. Capricórnio. Lisboa Portugália Ed. Lisboa. Artes Gráficas. "Teatro Completo" de Carlos Selvagem. Kelps. 67 Cfr. Coimbra. p. 1995. I. Anna. Livros do 68 SÁ-CARNEIRO. Christian. pes- 34 REIS. lI. 85 Ed. 84 Ed. Silvina. Lisboa. Introdução de Manuela Brasil. Lisboa. Colegial deLetrase Lembran- Oeiras. Ed. Lisboa. "Das Tchiloli von São Tomé'. Equador (romance). Lisboa. J . túrgico em Portugal e nas Ilhas de São Tomé e Príncipe'. Lobito 1974. sd. Ed. Ed. Lisboa. 59 ALVES. Ed. sd. Ed. Capricórnio. Duarte Ivo. 2000.O 1 . 2004. p. 43 MARTINS. Livraria Ed. 73 Edição A. 2005. p. 1931. Luíz Francisco. Actores e Autores. BN. in Espiral. p. 40 VERfSSIMO. e CRUZ. Lisboa. selec- 33 PEREIRA. Lucciana Stegagno. Lisboa. 49 ALMADA. 48 Cf. CRUZ. Lisboa. O Vencido. 83 Ed. SPA. Ed. 1927. don. Introdução. 1971. Ed. 75 Edição Capricórnio. Ulmeiro. op. Verde" in Revista Cullllral. Lobito 1973. "Caminhos do 56 MÂNTUA. FCG. Comédias Porhlguesas Feitas pelo 71 LELLO. p. p. 70 VICTORINO. ed. 33 e segs. "Teatro de Cordel na Bahia 80 Ed. Ordinário Marche!. 1939. e KALEWSKA. R . Alfredo Cortez .. Brotéria. Livraria Brasileira. 108. Coimbra. Lisboa. idem. 1915. p. Mesquita. Armando Jorge de Carvalho. 21."História do Teatro em 46 Idem. Júlia. Ed. in Panorama. 60 Cfr. pp. Hermilo. Lourenço Marques. cfr. Nordeste'. n. Ed. Teatro PopularPorhlguês. Floripes Negra. Lobito. 219 Livro. 1936. Nação Teatro . Lisboa. 78 Ed. 38 BAPTISTA. in François Castex. 331 e segs.. quisa e análise crítica de Duarte Ivo Cruz. Universo Carolíngio . Le Tlleatre Neo-Latin au Porhl. ANDRÉ. 1979. "Baltazar Dias e as Metamorfoses do Discurso Drama. edição de "Teatro Escolhido" de CURTO. Lisboa. comunicação pp.SNI. 41 Crr. 53 Cfr. BRANCO. Ed. História do Teatro Português. pes- Livraria A1medina. 44 BRAGA. INCM. Bento. Ed. CRUZ. Brasília. Marques. Duarte Ivo. Ed. 1975. 1997. Leite de e GUERREIRO. Personagens das Comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos. 1992. Ed. E d . 2003. 65 A peça permaneceu inédita até ser publicada por Duarte Ivo Machado. Verão de 1965. de Coimbra. Sobre a identificação de "Caldas o 87 TAVARES. Lisboa. 1964. Augusto. Duarte Ivo. Teatro Quinhentista nas Naus da Índia. a Vocação d e Teatro. O Álcool. Lisboa. 37 Crr. Mato e Morte. Lisboa. M. Ed. A1medina. Claude-Henry. Maria Odete Dias. Lisboa. E ainda VALBERT. Lisboa. "Mário de Sá-Carneiro e a Génese da Amizade'. Manuel Ivo. p. 62. 1988. Ed. Vol. pp. 100 Anos de Teatro POrhlguês. 337. 1989. Virgínia. p. Coimbra INCM. Vol. Lisboa. 2004. O Tempo e o Vento. Liv. p. cit. Pereira.. cit. José Luís Hopffer Cordeiro. A. O Essencial do Teatro Brasileiro. Lisboa.. 2003. Domingos Caldas Barbosa. 1959. Lisboa. 2000. Campo das Letras. sd. O Cerco ESTC. prefácio e notas de CRUZ. V. lN CM. Ed. Mário de. 42 Cf. 74. Ed. Brotéria. A. 52 CRUZ. Virgínia Victorino. Paulo. 1990.o Tchiloli de São Tomé'. Ed. Ed. 61 VIANA. J. Lisboa. Ramada. ças. proferida a 6 de Dezembro de 2003 no Pequeno Auditório 57 MÂNTUA. I. INCM. As Avenhlras de Anfitrião. Bento e SACRAMENTO JÚNIOR.. Cena Lusófona. António. Bento. Lisboa. 1995. 72 Cf. 69 SÁ-CARNEIRO. 2004. Lisboa. Coimbra 1989. Livraria Popular Francisco Franco. Teófilo. Buriti. 54 Fialho de Almeida.a ed. CURTO. 1913. "O Tchiloli ou as Tragédias de São Tomé e 62 Cf. 6. e outros. "O Mundo ESTC.. 76 Ed. A Linguagem das 74 Edição Capricórnio. 89-90. da Universidade de Varsóvia. Interkulturelle Kommunikation. p. Japão.31 PICCHIO.

Manuel. Luanda. Luanda. Sá da Costa. A Corda. 201-222. pp. 1998. as Luzes e as Sombras'. pp. 60 e segs. 1 1 8 ASSIS JUNIOR.. Lisboa. romance. ob. 179-219. p. EUA. EUA. pp. 123 Cfr. Ed.. 120 Cloçon San. 1979. Cena Lusófona. 89 Cfr. 96 ABRANTES. 65-74. 2002. 13-56. "Teatro II'. António O Segredo da Morta. BRANCO.. l l l-120. 109 Idem. pp. 91 ABRANTES. Ed. 102 Idem. 119 Cf. 85-100. Prov. "O Teatro em Angola'. cit. Osório cit. "O teatro em Cabo Verde'. Lisboa. 162-316. fona.. 1 1 6 As Virgells Loucas. Aldónio. pp. in SEMEDO. ICLP. Leopol Sédar "Chaka'. Ed. 2002.. 4. cit. Lisboa. Ed. Edições 70. "Os Teatros. Coimbra. Macedo. p. Ed. J. cit. Cena Lusófona. ABRANTES. Ed. Vol I. M. in Revista Cultura. 277 e segs. a Doida dos Ca/lOios. 1998. Alfaómega. Hélder. Ed. BAPTISTA. Lisboa. 162. Luanda. ob. Cena Lusófona. 114 D O NALDO.. cit. 1979. em Verde'. e Júlio de Castro Lopo "Uma Rica Dona de p. José Mena. Ed. Nzila. José Mena. pp. 131 PEPETELA. in "Teatro 1'. cit. "O teatro em Cabo 92 Remete-se a bibliografia histórica citada em "Teatro 1'. Junho. p. Ed. 201.. Ed. cit. pp. Popular'. J. 1998. Mar me quer. in Poemes. cito 107 O Cão e os Call1lldas . 101 PEPETELA. 1999. Costa No Velho Ninguém Toca. "Teatro 1'. Coimbra 1999. A Montallha da Água Lilás. M. Vol. Centelha. Portuguesa. n. in 113 O. Ed.. 243. Literaturas Africanas de Expressão 27-84. 97 ABRANTES. pp. crónicas. LARANJEIRA. 125 ABRANTES. Lisboa.' ed. Quixote. llO "Teatro 1'. Coimbra. 50. sd. in SEMEDO. 2005. 1978. J. Lisboa. Luanda. 1999.. "Teatro II" cit. p. pp. Zé do Telllado. p. J. M. Centelha. "Técnicas Latino Americanas de Tean'o 122 SENGHOR. "A produção literária Revista Camões. 126 COUTO. Publicações Dom Quixote. iII FERREIRA. das em São Tomé. pp. 127 PEPETELA. Augusto. L. 1977. África Editora. Ed. romance. 99 Cfr. Editora Afrontamento. José Mena. BOAL. especial "História de Angola'. Ed. pp. José Mena. 1995. cit.a Ed. Lisboa. c . Fernanda e GOMES. in "Teatro I" oh. Coimbra. 1975. 90 NEVES. 128 Mia Couto e Natália Luiza. Brito.. cit. . Coimbra. 1978. 70. Ed. António Loja. cabo-verdiana após a independência" in Revista Cultura.. A Revolta na Casa dos ídolos. sd. 103 Acllada Grande do Tarrafal. in Revista Cultura. 2000. bra. Mia e LillZA. Regressados. Augusto. Tomé e Príncipe'. raturasAfricallas de Língua Portuguesa. Junho. Coimbra. "Teatro 1'. Brito. 1977. 1964. "Teatro I" cit. Natália. Cena Lusófona. O Elogio da Ignorância. in ob. 105 O Panfleto. Remete-se para a bibliografia no capítulo 112 Jaime de Figueiredo cit. 1997. 106 A Pele do Diabo. Cena Lusófona. Luanda. 100 Cf. Literaturas supra. Africallas de Expressão Portuguesa. Ed. 68. Lisboa. 115 Almada. 2000. Lisboa. du Seuil. Publicações Dom 129 Pepetela. op. Paris. "Teatro 1'. Pires. cit. Lisboa. 97-136. Ed. 155-200. Fernando de "Teatro do Imaginário Angolar de São 121 ANDRADE. 88 Não há texto publicado das numerosas versões representa­ 1 1 1 "O Grande Circo Autêntico'. 2000. 130 CAVACAS. A Montanlw da Água Lilás cit. 98 MACEDO. Caminho. cito 61 . Coim­ pp. 124 ABRANTES. Biblioteca do Com. CEA. cit. 95 ABRANTES. Ed.O 1. Ed. Luanda'. M. Setembro 2001. 1988. Dicionário de Lite­ 108 Idem. 1. 93 ABRANTES. Coimbra. 1980. Universidade Aberta. pp. 223-262. J. A Montanlla da Água Lilás . 94 COSTA. João. 1977.. ob. 117 Calanga. Cena Lusó­ 104 As Mortes de Lucas Mateus. 5.

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onde seus pais se encontravam. E arriscavam tudo com as tournées ao Brasil!" De Jo s é Car l o s A i V ar e Z facto. nem mesmo como meio de arranjar colocação (1 900. Lucinda Simões (1850. as nossas melhores companhias e os nossos mais populares e famosos actores e actrizes . neste artigo. como era seu hábito.. um lúcido e oportuno artigo intitulado "Rumo a África'. levando até a que alguém poeticamente (ou teatralmente) apelide esse permanente vaivém como um grande palco sobre o oceano Atlântico.1928) e sua filha Lucília Simões [(1879-1962) tendo até nascido no Rio de Janeiro. Não aparece um arrojado empresário que arrisque uns contos de reis num giro de experiência pelo Império Colonial? [ .praticamente todos foram actuar ao Brasil. e num Contribuição para o estudo português exemplar.1 974) para alguns desempregados? . As idas [às vezes sem volta.1 925). ] . 1969 Pinheiro (1873-1933). Chaby Paquete Uíge ao largo do golfo da Guiné. Maria Matos ( 1886-1952). António Pinheiro ( 1867. Carlos Leal fazia uma espécie de síntese do que acontecera nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX quanto a opções (hoje diríamos estratégias) de digressão e circulação das principais companhias teatrais por­ tuguesas e dos seus actores. teatro e actualidades Espectáculo. mas sempre inteligente. utilizando a linguagem da época) teatrais de companhias e actores portugueses às suas colónias de teatro e dos actores africanas. Beatriz Costa (1907- .1943).1964). a viver]. da presença das companhias a propósito da inexistência de digressões (ou tour­ nées. como Eduardo Brasão (185 1 .. numa prosa rebuscadíssima. nas páginas do semanário de cinema. escrevia o ilus­ tre actor Carlos Leal ( 1 877. entre Portugal e o Brasil. Rumo a África EM 1 936. "morreram todas as tentativas de organiza­ ção de tournées às Colónias? Ninguém mais pensa nisso. nessa data. alguns deles fazendo mesmo uma parte significativa da sua carreira entre cá e lá. em tom de apelo e portugueses em África desafio. tal era a quantidade de barcos de carreiras regulares que transportavam nos seus camarotes. © Manuel Maria de Santa clara Vasco Santana (1898-1958). como são os casos de Ester Leão ( 1895-1971) ou Maria Júdice da Costa (1870-1960)] ao Brasil são constantes. Questionava então o actor.

n. sobretudo. s. uns bons anos outro. inv. e do qual apenas resta o primeiro plano da vida teatral de então. nome adaptado a um cinema. em 1924. as deslocações de figuras de peso inundam o Brasil (e quase toda a América Latina). do século xx.um teah'o mandado construir por um ita­ escrúpulos de um qualquer empresário de momento liano e que era preferencialmente frequentado pelos que pretende contratar artistas para trabalharem nas estrangeiros aí residentes. Victor Machado. fortes justificações tâncias e das condições de transporte. inv. o autor. ainda em actividade Já para África são raras. depois de dar notícia da falta de Varietá . s. n. sendo falta de técnicos. a Hortense Luz (1900-1984) e Maria Matos]. Carlos Leal Fotografia. o colónias'. como antes. Intitulado nas principais cidades das colónias africanas (são ''A triste odysseia de alguns dos nossos artistas nas excepção os dois teatros de Lourenço Marques. Escreve ele 64 . ao contrário. também não são alheias. pelas então designadas trupes ou companhias de as condições empresariais. no primeiro número do quinzená­ a quase inexistência de verdadeiros teatros à italiana rio Correio dos Teatros por ele dirigido. por um lado. para além das dis­ conh'aste encontra. Se este flagrante nada profissionais em África.d. com uma fachada muito semelhante à do plo um episódio recente que envolveu artistas de Teatro Paliteama de Lisboa. algumas situações mais de raiz teatral. a este e explicações cientificamente tratadas no âmbito propósito. Aliás. MNT.e o Gil colónias sem quaisquer garantias. parece-me interessante referir um outro das Ciências Sociais.' 791 143 Maria Matos Fotografia. por artigo escrito por A. dá como exem­ Vicente. normalmente pouco ou menores dimensão e qualidade. até aos anos quarenta na actual capital moçambicana) que. já desaparecido . MNT. a impossibilidade de permutas. a as poucas digressões normalmente asseguradas inexistência de uma dramaturgia local e.' 92 895 1996) ou Carlos Leal.d. entre muitos e muitos outros. do nosso teatro [são excepções as actrizes bem como a carência de público qualificado.

auferindo uns Como já ficou claro. tina. apenas. depois de "terem percorrido todas as regiões onde a língua portuguesa era Lubango. nas peças e documentos que que "é preciso que se convençam de vez que ir a constituem as suas colecções. Mossamedes e Lobito. quando não quase inexis­ de fome . o número quatro do mesmo as companhias profissionais que desde o final do quinzenário. esta situação reflecte-se. com repertório leve. aconselhando exaustiva e completa. quanto é certo que está absolutamente História. onde alcançaram dominante.. Teatro é actualmente constituído por mais de 250 Os Temos. recebida apoteo­ ligado. traditórias e dos contratempos que terão. por certo. com o teatro (ou. pelo menos. todos os períodos e África não é o mesmo que ir a qualquer das nossas todos os elementos que constituem essa vastíssima províncias. Portugal. pretensões (poderá Vêm a caminho desiludidos e sem trabalho para a ter esse "utópico" desejo. Maria Matos. degredados.fiados nas promessas cynicas do 'engra­ tente. encontraram-se riamente. numa pequena notícia. em 1938. por ram sobremaneira'. Longe das suas terras. nele incluindo. ) de abarcar de forma próxima época de verão:' E continua. essa presença foi sempre vencimentos ridículos . a um dos episódios colo­ ticamente.1917). como niais da nossa história imperial mais conhecidos: a é descrito no seu livro de memórias. o acervo do Museu Nacional do de artistas. apesar de um dia para o outro a braços com o Destino que de ser um museu nacional e de se assumir como lhes foi bem adverso. demonstrado que na África só um pequeno grupo No entanto. ao longo dessas décadas. 65 (MNT). campanha de Chaimite e a derrota. clara e necessa­ os infelizes artistas. com a Argen­ desmembrou. influência cultural africana. em contraste absoluto com o que se passava xador de artistas a preços reduzidos� Tudo por lá se com o Brasil e até. volta. publicado poucas semanas depois. preservação da memória da História do Teatro em que faziam parte da companhia. não tem. pode equilibrar-se. como então se desig­ de notável equilíbrio estético e marcadamente de nava) na África colonial (entendida aqui. simbolicamente. Ora. através das colecções vavelmente) por aquele chefe indígena e por ele existentes no acervo do Museu Nacional do Teatro oferecido ao actor António Cardoso ( 1 860. o qual. por exemplo. dos seus lares. da digressão do Trio das. dá século XIX até aos nossos dias por cá foram cria­ conta. para além do enigma que representa. no acervo daquele Museu.1906). e consequente Vem tudo isto a propósito da intenção e da detenção (1895) e extradição para Portugal con­ origem deste texto: fazer um roteiro e traçar um tinental do régulo moçambicano Reynaldo Gun­ percurso da presença de companhias e actores gunhana (?. obviamente. em alguns períodos. com a criação teatral) atingido esta sua digressão. e Os Gera/dos:' documentos e memórias de praticamente todas Curiosamente. foram desligados. acabados actuaram nos diferentes palcos espalhados por de serem recebidos em Huambo onde "agrada­ todo o território nacional ou. que os actores "lá foram. melhor ainda.. directamente.o suficiente para morrerem extremamente diminuta. todo feito à mão (pro­ como Angola e Moçambique). Trata-se de um pequeno cesto. por certo. um dos comediantes mais populares e queridos do . vilipendiados. portugueses (ou da Metrópole. Afonso de Matos. a trupe de Thomaz Vieiral mil espécies. está vez mais a África. onde. Tina Vale e Maria Helena. é alvo de inúmeras homenagens. vestígios. um extraordinário êxito'� O vestígio mais antigo à guarda daquele Museu Maria Matos. pelo menos. a instituição de referência no nosso país quanto à Romualdo de Figueiredo. que apesar destas notícias con­ é um objecto que nada tem que ver. bem como duma muito substancial parte dos Maria Matos (a grande actriz mais Afonso de Matos actores e actrizes que. uma mas que. e Gabriel Lopes) por terras de Angola.

familiar directa do actor. doado ao Museu por D. Este cesto. pelo que ficou também 66 . n. 1902 interior um pequeno cartão manuscrito e assinado MNT. contudo. fazendo. com os dize­ Actor Cardoso res: "Esta cestinha é destinada ao actor Cardoso. aliás. permanecendo a relação e o "encontro" daquele régulo moçambicano com um dos actores mais populares da vida teatral portuguesa daquele período como uma incógnita. um cartão-de-visita do referido actor. n" 20 709 30-8-902'. inv. cujo valor simbólico e afectivo parece evidente? São tudo questões para as quais não conhecemos resposta. inv. absolutas certezas: o actor António Cardoso nunca terá viajado pro­ fissionalmente para as colónias. continha no seu Cartão manuscrito por Reynaldo Gungunhana. n" 80 296 pelo próprio Reynaldo Gungunhana. o Ginásio. com os nomes "António da Silva Pratas Godide" e "Roberto Frederico Zixaxa" manuscritos no verso e um pequeno recorte de jornal com a notícia "Com 120 anos morreu a viúva do régulo Zixaxa': Qual a relação que tudo isto tem com aquele actor? O que terá levado Gungunhana a lhe oferecer tal objecto. uma grande parte da sua carreira sempre no mesmo teatro. Ester Cardoso. Duas coisas são. Cesto executado manualmente público lisboeta do final do século XIX e inícios do por Reynaldo Gungunhana MNT.d.· 80 296 século xx . inv. Fotografia s. MNT.

. que só há bem poucos anos nos deixou. tinha como principal Companhia Filomena Lima'Adelina Fernandes figura a popularíssima actriz H0l1ense Luz (que lhe dava o nome) e era integrada por outros actores que Direcção Musical do maestro Tomás Jorge fizeram história no nosso teatro como Henrique Alves (1873-1934). Foi um sucesso! O velho Teatro Varietá estava sempre cheio. 67 actriz e fadista muito querida do público lisboeta. inv.'IJ alcançado grandes êxitos em Lisboa. estreando­ -se. primitivo e de tanga. quer a partir dos manuais escolares até ao cinema "oficia\'. SfleI\DO. de Lourenço Marques. Lourenço Marques. mais novo do vagem. em 1925.Programa da Companhia Filomena Lima-Adelina Anos mais tarde. 3> cado' O Grão deBico. 1925 MNT. Alberto Ghira (1888-1971) ou Alfredo Ruas (1890-1966). Lourenço Marques. o régulo A revista tinha bons actores.. que a propaganda Programa da Companhia Hortense Luz do Estado Novo colonial durante décadas tentou Teatro Varietá. e outro para o vaudevil/e O JO/ge c( " '* s> I1 DELlNI1 fERNI1NDES Cadete. com a revista Rez-Vez.. '* . ] por essa altura foi a Lourenço Marques a Companhia de Teatro e Revistas de Hortense Luz. nandes (n. A primeira referência propriamente teatral exis­ tente no acervo do Museu Nacional do Teatro é um bonito Programa do Teatro Varietá.' 66 712 ques a célebre Companhia Hortense Luz. 1931 MNT. no mesmo Teatro Varietá. Nós íamos às mati­ nées para uma frisa acompanhados pela governanta. anunciando a presença da Companhia Filomena Lima·Adelina Fernandes. em 1931. . Tendo já �la�R«1) !iftIHJiU . e o ainda jovem Eugénio Salvador (1908-1992).' 135 059 criar no imaginário colectivo de muitas gerações de portugueses do século xx. tendo no filme Chaimite (1953). o seu máximo exemplo. actuava pela primeira vez em Lourenço Mar­ Teatro Varietá. 28 DE NOVEMBRO DE 1925 trabalhando sempre como notável compere de revista. inv. numa digressão a Fernandes África. "ampliada com números novos e fados e guitarra" por Adelina Fernandes (1896-1983). �� I\s 9 HORI\S DI\ NOITE = até à sua m0l1e. n. este bastante completo e graficamente muito trabalhado) e uma notável descrição constante no Dedicada à ilustre Imprensa livro Memórias Ultramarinas de Virgínia Cabral Fer­ de Lourenço Marques.. esta Companhia. e por lá permanecendo em cartaz durante algu­ mas semanas. Escreve esta autora que ''(.. Desta presença em Moçambique restam dois programas (um para o 'melodrama musi­ Récita da ac!ris . n. conhecido p elo "Cardoso do Ginásio". de Jorge Brum do Canto. . principalmente os cómi­ Reynaldo Gungunhana não era o perigoso sel­ cos e os bailarinos. o---<:>--mn:ru G do empresário Mário Pombeiro. Meu irmão Augusto. . 1916).

são muito raras as memonas Programa da Companhia Hortense Luz (quer descritivas. bem C O M PA N H I A como dos teatros onde tudo se passava.' 135 054 táculos e dos ambientes que proporcionavam.' 135 091 GOIIPÂNIII. Muitas plumas. inv. com a revista Zabumba. Infelizmente. na inauguração do Nacional Cine-Teatro de Luanda. quer iconográficas) destes espec­ Nacional Cine-Teatro. também levado à cena ainda em Dezembro de 1931 no Cine-Teatro Barbara Volckart2 (não se encontrou qualquer infor­ mação sobre este teatro). 1932 MNT. segundo as más línguas. integrados na mesma digressão: na capital angolana. . inv. Programa da Companhia Hortense Luz Cine-Teatro Barbara Volckart. em 1 de Janeiro de 1932.) '' Gine Teatro Barbara Volckart BEI'IGUELA 22 de Dezembro de 1931 que eu. ria-se perdidamente. Alfredo Ruas era o seu preferido:' E conclui Virgínia Cabral Fernandes. Luanda. 93::2 táculos em África. 2'7 de Janeiro üe 1. muitas lantejoulas e . batendo com um dos punhos com força no parapeito da frisa. em Benguela. n.\ IIORWiSR LUZ . F [<:til . filha do então governador-geral de Moçambique. de outros espec­ L O A N D A. no mesmo teatro em finais do mesmo mês com Revista das Revistas (uma selecção dos melhores números de 12 outras revistas aplaudidas em vários teatros de Lisboa) e com o já referido O Grão de Bico. O corpo de baile era formado por jeitosas raparigas que. HORTENSE LUZ Desta mesma Companhia há ainda notícia.-\ -\ I tT í ST r ( ' _-\ o que dava muito realce à representação. N a c i o n a l C i ne-Teatro através dos respectivos programas. . DE = léu das bailarinas. deram a volta à cabeça de muitos homens e lhes esvaziaram as carteiras:' 68 . Benguela. coronel DA - Pereira Cabral: "O guarda-roupa era espectacular. n. muitas pernas ao \. 1931 MNT.

pai do actor Octávio de alcançaram em Portugal e no Brasil': Matos (1939). parte "no ecran" com diversos documentários cine­ que actuou em Luanda no Club Transmontano de matográficos (como foi hábito em todos os cinemas Angola. empre­ o Nacional (deverá ser o atrás referido Cine-Tea­ ende uma tournéeteatral pelas colónias portuguesas tro Nacional. se poderá assistir (1899. actor" Estêvão Amarante ( 1889. destacavam-se as actrizes Cremilda Torres até aos anos setenta do século xx)..1988) e Berta Monteiro ( 1898-1960) e o tenor à apresentação única de um recital pelo "grande portuense Morgado Maurício (1908-?). que "enquanto passava a galope a quadriga dos . depois de uma primeira sos de Lisboa" Iscas com Elas. inv.. n. um dos actuais resistentes da revista Sem existir qualquer indicação segura sobre a à portuguesa e um dos mais populares cómicos origem da presença de tão notável actor em terras das nossas televisões.0 actor excêntrico que poderia mente a hipótese de que Estêvão Amarante seria um ser um dos maiores actores do teatro português" 69 dos passageiros em férias naquele cruzeiro.1964).1951). "o ídolo da Ainda de 1941 é um exótico programa refe­ cena portuguesa nas suas mais gloriosas criações rente a uma digressão por terras de África do actor das revistas e vaudevilles.' 103 424 �) \ NAS COLÓ N IAS PORT U G U ESAS De Setembro de 1935 é um programa para Em plena II Grande Guerra. que tão notável êxito Octávio Mattos (1901. de Luanda) sobre um espectáculo de Angola e Moçambique a Companhia Embaixada extraordinário em homenagem ao Cruzeiro de da Saudade com a revista e "um dos maiores suces­ Férias às Colónias no qual. a leitura do programa leva a colocar forte­ man'. 1 1941 MNT.Programa da digressão por Angola de Ling-Chong. "o nosso 1. Nesta companhia. em Ling-Chong "the devil de África. em 1941.

sobretudo pelos Atlântico como um imenso palco ou dos paquetes seus magníficos retratos pintados e esculpidos que constantemente o cruzam entre Portugal e o pelo seu irmão Júlio de Sousa. depois do êxito no Coliseu dos Recreios de Lisboa "este artista se esforça por apresentar-vos de igual maneira.1 979). lê-se ainda naquele texto. um misto entre a Revistas Carlos Coelho arte do ilusionismo e a revista à portuguesa. 1955 kimone. abandona o surto Programa da Companhia de Revistas Carlos Coelho glorioso da sua carreira artística para. neste caso. a revista-fantasia Sonho de são da revista Olha o Balão!. demonstrando grandes nomes do teatro português. Canto e Castro (1930- Moçambique. Luís Horta (1919-1991). em Abril de Adelina ( 1930). Mello e Alvim. sobretudo. aparecer no palco como ilusionista'. como MNT. muito novo ainda. Da companhia deste excelente actor de notáveis e versáteis actores portugueses das últimas revista. pois em 1948 foi cabeça de verdadeiros palcos flutuantes. "E vemos Lisboa e Porto consagrá-lo nesta nova modalidade'. igualou os nomes dos ' Changs ' e ' Fumanchus '. com "ensenação de Ling-Chong" que. é o Programa das cartaz da tournée da opereta Zé do Telhado àquele Festas da Passagem do Equador e Espectáculo de continente. no Cine-Parque de Luanda.. prematura­ português. como veterana. bem como todo o material avaliado no valor de 400.gloriosos por convencionalismo. Brasil ou. onde regressaria novamente em 1949 "Music-Hall" pela Companhia de Revista Carlos integrada no elenco de uma outra revista. Octávio Mattos surgia como cabeça de cartaz do espectáculo de beneficência da Troupe Violetas. como a sua uma forte ligação a África. as colónias africanas. a caminho de uma digressão por Angola e tos (1914-1966) e. da português nesta arte difícil. durante algum tempo. "e tão alto se guindou que o Estado não hesitou em subsidiar a sua digressão a África. Mariamélia ( 1908-?). tinha estado já em décadas. integrando o elenco da digres. rara no meio teatral mulher Helena Tavares ( 1932. n O I 034 024 PAQUETE "UIGE" Viagem se pode ler no texto introdutório daquele programa. em África. Maria Coelho ( 1923-2000) no paquete Uíge. para que nestas p aragens des t a s i longínquas do Império se saiba que um artista . conhecido na vida social e teatral lisboeta 8speclácu[o de "cMusic-8eall" como Fumanchú) apresentava nesta digressão o pelo c o m p a n h i a d e espectáculo Parada de Ilusões. Jaime San­ 1955. (com uma Dando corpo à já referida imagem do oceano carreira desigual e hoje lembrada.· 6/1767 assinado pelo Dr. mente falecida. faziam parte outros Pierrot. vestindo um Festa da passagem do Equador Paquete Uíge. Ainda no mesmo ano actuam no Teatro 1935 em Angola. esses magos construtores 8a ssa g e Jll do 8 q u a d o r de maravilhas': e Octávio Mattos (que ficou. 70 . inv. mas também já.000$00': Mas já em 1924. malgré tout. Varietá. da qual restam inúmeras fotografias 2005). recentemente desaparecido e um dos mais de cena. n. que. numa peça infantil (o que não deixa de ser.

d. P. por certo.-eçoe r'edu::r. 601 L U A N o A T o l e r. a participar transporte de longo curso e uma brutal redução numa digressão a Moçambique.. uma completa revolução no (1899-1977) e Maria D omingas (192 1). a segunda novidade é a página de publicidade à companhia aérea belga SABENA que. n. "Costinha" (1891-1976). MNT. De 1954 é um programa para o moderno e numa peça infantil espaçoso Cine-Teatro Restauração de Luanda. a quase totalidade da programação artística das diversas digressões a África até então. n. 3310 LUANDA f) �(lConjttutota 71 . 1954 MNT. sua mulher Luísa Durão prenunciando. 2690 I ElEF..aplda. ( I N E-T E A T R O DO � ( C. Costinha e Lulsa Durão.vaudeville que representava. com um magnífico De 7. P. inv. l n h _ .' 59 056 � 11 . redu­ zindo-se o repertório à comédia O DI: Juiz de André Ferdinand..:l doe pelas • L-... 3028 � -----�--_·�--�----·- I REST Çà O I 9C 1 NÃO SE A SABENA C O M P R O M E T A S E M C O NS U L T A R 1 PAIl�ARD@ COM O ' D(l/iJ«� PROJECTOR Representantes GeraIs p. os actores Augusto Costa escala no então Congo belga. male . Programa da Companhia Berta de Bivar-Alves da Cunha Cine-Teatro Restauração.Maria Domingas. no tempo de viagem para aquelas zonas do globo.. c.' 56 684 apresenta duas grandes novidades: a primeira. inv. Luanda. com também. assim. STUDIO DE PUBLICIDADE ARTlsTICA . uma novidade). anunciava voos regulares para Luanda (para onde a nossa TAP voava também já desde 1947). foge ao habitual formato de revista -fan­ tasia . vizinho de Angola.mágica . que Fotografia s.

levando à anulação da prevista continuação da digressão a Moçambique. o que poderia signi­ ficar também uma terceira novidade. na programação anual das diversas companhias de teatro comercial existentes em Lis­ boa (à semelhança. e consti­ tuída ainda por outros actores "históricos" e ines­ quecíveis do teatro português como Maria Schulze 1912-?). Resta dizer que esta comédia era levada à cena pela notável Companhia Berta de Bívar ( 1889-1964) . apesar das longas viagens "teatrais" continuarem. as "digressões ao Ultramar" entram. em definitivo.' 223 388 década e da que se lhe seguiu (obviamente até à sociais. Benguela e Lobito. nova fase de relacionamento com as colónias.. Calulo. actuando. 72 . mas sem consequências de maior).. como é óbvio. ainda durante alguns anos. n. um casal de dois enormes actores do nosso século xx. que partiu de Lisboa no paquete Império (exac­ tamente no mesmo dia em que este barco sofreu uma enorme explosão. ) numa . mais evidente. das quais o início da guerra colonial será a descolonização): José Miguel e.1992).A título de exemplo. o que. cidade onde acabariam por embarcar no paquete Pátria para regresso ante­ cipado a Portugal. em Malange. Por outro lado. fruto da vontade dos três mais contribui também directa ou indirectamente para Fotografia. percorreu uma parte do território angolano. por doença súbita de Alves da Cunha. José Amaro (1915-1975). Esta companhia. uma viagem de barco (só ida) poderia demorar até um mês (estamos a falar de Angola e Moçambique). fazendo-se a mesma distân­ cia de avião em apenas três dias (com tendência para ir sempre encurtando esse tempo). Ricardo Alberty (1919.Alves da Cunha (1889-1956). com o que acontecia seppe Bastos e Vasco Morgado. hoje ainda em grande actividade teatral. inv.t963 influentes e activos empresários teatrais daquela esta situação um conjunto de alterações políticas e MNT. A partir do final da década de cinquenta. Empresa Giuseppe Bastos Digressão a África com todo o país). a ser feitas preferencialmente nos paquetes da CNN (Companhia Nacional de Navegação). Giu. podia alterar claramente a organização e a pro­ gramação das digressões. Carlos José Teixeira ( 1920-1977) e a esplêndida Cecília Guimarães (1927). entrando-se agora. no que respeita à vida teatral e cultural (e não só. sempre com grande êxito. de resto. sobretudo.

n. em que as suas companhias teatrais actuaram em Camilo de Oliveira (1924). Lígia Teles (1937). Eugénio anual. 7.1 993).o 54 615 COM A com tom an�ia Teatro Ale�re SOB A ECÇÃO ARTíSTICA -fjfiIlZ DE r l'E IRI�'VI[l §li Ji. inv. Bastos. duções próprias ou êxitos recentemente levados Dos vários programas e fotografias existentes à cena em Lisboa e no Porto. MNT. 1962 MNT. de desta­ regresso ou à passagem por terras africanas (alguns. que Isidro (1907. Fran­ mas). e os da Companhia de Revistas de Giuseppe cisco Ribeiro "Ribeirinho" (191 1 .1990). car os referentes à Companhia Teatro Alegre. inv. VASCO MORGADO Fotografia s.A Programa da Companhia Teatro Alegre. Manuela Maria (1935).. Luísa Durão. Nicolau Breyner (1940). ao no MNT que documentam estes factos. n O 55 654 APRESENTA -'--A� l > a a sua d i g ressão Programa da Empresa Giuseppe Bastos . S RIQUE SANTANA M/ 17 a nos 1962 -====1. LeóniaMendes (1922-2000). Isabel Ferreira e Luis Horta . Lia companhias daqueles géneros teatrais com pro­ Gama (1945) ou a brasileira Berta Lóran (1928). Armando (o número da digressão era indicado nos progra­ Cortez (1928-2002).1========. pelo menos até 1970 faz quatro digressões a África -2002)... "Na sequência de uma assiduidade que se Salvador (tantos anos depois . 1967 AO ULTR AR MNT. e. Maria Helena Matos ( 19 1 1 . através delas. António Anjos (1936. Isabel de Castro (1931 -2005). terras ultramarinas.o 174 660 ao D1GRESSÃO 3. volta a Angola e Moçambique desta feita de braço . Costinha.< Palmira Ferreira. uma bem mais que uma vez) de uma quantidade ímpar companhia de comédias dirigida por Henrique de grandes nomes do nosso teatro como Irene Santana e "empresariada" por Vasco Morgado. Mariema (1943). Humberto Madeira estreitou através de mais de uma dezena de anos (1921. Henrique Santana (1922. ). Irene Isidro.d. Óscar como formatos quase exclusivos. o produtor Giuseppe Bastos 73 -1995) (natural de Angola). == UMA MENSAGEM DE ALEGRIA Mantendo o teatro de revista e a comédia ligeira Maria Domingas.1984). n. António Montez (1941).1995).' digressão ao Ultramar. à deslocação periódica e organizada de grandes Maria Dulce ( 1936). Henrique Santos (1913-2000). inv. que em 1963 vai já na sua oitava digressão Luísa Durão.1971). assistimos assim Acúrsio (1916. GIUSEPPE BASTOS aprasenl.

o dinamismo e a vontade férrea de bem servir os MNT.d. por mais afastados que se encontrem da Capital. porém. n. n. que integrava alguns dos nomes mais popu­ lares do teatro. Vasco Morgado. ao ar livre em palcos improvisados ou mesmo na "caixa aberta" dos célebres camiões Berliet/TramagaP. Laura dado com o mais dinâmico dos empresários seus Alves! Laura Alves (há muito aguardada vem pela colegas. Florbela Queirós são.1 986). A digressão actual marca. Maria II Rey Coiaço Robles Monteiro': Em 1967. e ainda da "extraordinária Companhia do Teatro Nacional D.' 37 922 frequentadores de teatro. no entanto. percorre e actua quer nas principais cidades de Angola e Moçambique. lê-se na segunda página do p rograma Era com esta pompa e circunstância que este que anuncia a fusão entre estes dois empresários empresário. Artur Semedo ( 1924-2001). tem um significado especial a marcar e Artur Semedo Fotografia s. inv. em espec­ táculos destinados aos soldados portugueses que PELA PRIMEIRA VEZ NO ULTRAMAR então combatem na guerra colonial. Plorbela Queirós (1943). com temporadas brilhantes da sua Companhia de pela mão de Vasco Morgado:' Teatro Alegre'. Leónia Mendes. Helena Tavares e Leónia Mendes. que desde 1 960 várias digressões de comédia têm sulcado os mares em demanda das Províncias de Angola e Moçambique. apresentava a primeira digressão desta Companhia de Revistas': Grande curiosidade deste programa é o anúncio. Octávio de Matos (filho). E S P E C T Á C U L O S DE Num texto constante num programa referente LAURA ALVES VASCO MORGADO a (mais) uma digressão a África apresentada por 74 .' 106 974 (192 1 .. porque tem a honra de apresentar aos portugueses radicados nestas paragens a actriz mais popular e mais querida do público. inv. também já aureolado primeira vez ao Ultramal� com a sua Companhia.. dos pró­ Laura Alves Fotografia s. do 'Lar comum dos portu­ gueses: [ . Óscar Acúrsio ou Maria de Lurdes Rezende (canço­ netista). ] foi mercê da iniciativa sempre actuante de Vasco Morgado. com a sua "Fabulosa . do cinema e da rádio portugueses de então. também marido de Laura Alves ( 1922- na digressão Ultramar 66. pode ler-se: "Esta digres­ Octávio de Matos. um ponto alto na sua acti­ vidade teatral. na sua contracapa.d. ximos espectáculos no Ultramar de "Laura Alves MNT. quer também nas mais remotas povoações ou aquartelamentos.1986) à frente da sua notável Companhia" (só irá três anos depois). Vasco Morgado. como (uma vez mais) Carlos Coelho. em 1969. uma digressão intitulada Vedetas Shaw.

próximo do trabalho teatral mais experimental e dos grupos do chamado teatro independente. O Com­ antes. n. por Laura Soveral nadamente. quer ambas ao mesmo tempo. criado pelo actor e encenador Jacinto Ramos ( 19 17-2004). O Diário de Um Louco de director da Companhia). "tinha várias finalidades: trazer ao público o teatro autêntico (não o subproduto) que tem relação. dos Governos-Gerais daquelas então 75 duas províncias. com subsídios do Ministério do Ultramar. quer humana. Representando. e estamos a falar apenas no teatro "de cá p ara lá'. com um curto amada pelo grande público do teatro comercial e elenco constituído pelo próprio Jacinto Ramos. refiro­ -me agora a duas históricas digressões. para esta digressão. como se podia ler no Programa preparado para esta digressão africana. Este grupo.Teatro do Nosso Tempo. extraordinária actriz. Manuela Cartaz da digressão a África do projecto Somos Dois Maria ou Carlos José Teixeira. João Mota Nicolau Gogol. quer estética. patrocinada pelo Ministério do MNT. ainda. com o Grupo de Teatro Fernando Pessoa). pelos repertórios que envolveram e por todo o trabalho técnico (tradução. Contudo.' 5108 Ultramar e pela Secretaria de Estado da Informação e Turismo. prador de Horas.) que as prece­ deu: a "primeira digressão ao Ultramar" do TNT . quatro grandes êxitos sucessivamente (curiosamente natural de Benguela. muito provavelmente.1977). outros momentos existiram. sobretudo. com o tempo português em que vivemos'. alter­ qualidade de actor e director. do Fundo Nacional de Teatro e . de um elenco de luxo. leva roso (sem a sua participação). A Idiota e. a África. nesta Década de 1970 marcante digressão. não só pelos actores que movimentaram mas. Mas é no início da década de setenta que se dá a primeira grande ruptura.Teatro do Nosso Tempo e a digressão Somos Dois. inv. na ligeiro português. com encenação de Jorge Listopad. Tomás de Macedo (1917-1980). onde Mentiroso de Jerome Kilty. de Eunice Muiioz (1928) e José de Castro (1931. Laura Alves rodeou­ um repertório de peso. em Angola. O TNT . O Jovem Menti­ Alberto Vilar e Luís Pinhão (19 19-). cenografia. nas habituais digressões de tendência revisteira e comédia ligeira. aplaudidos no Teatro Monumental de Lisboa. por onde já teria andado em digressão. poucos anos A Rainha do Ferro-Velho. etc. deslocou-se a Angola e Moçambique. apresentando Adorável -se. entre outros. à data a mais popular e mais da Fundação Calouste Gulbenldan. (1942). Canto e Castro. Se. A Flor do Cacto. numa encenação de pontificavam Rui de Carvalho (1927) (também Luís de Sttau Monteiro.

Em relação ao projecto Somos Dois tinha como "razão de ser" o toda a gente saber que "a princi­ pal função do artista é comunicar. procurando plateias mais longínquas Peça Dois num Baloiço Digressão Somos Dois. entre outros. Os Dactilógrafos de Murray Schisgal. não admira que Eunice Munoz e José de Castro.' 97 877 todos já anteriormente levados à cena em Lisboa e no Porto com óptima recepção. a partir de textos Programa da Companhia Teatro do Nosso Tempo música de Jorge Peixinho e cenário de Sá Nogueira (TNT) e O Porteiro de Harold Pinter. Tendo em consideração estas verdades funda­ mentais. iniciam. para muitos. MNT. Faziam ainda parte deste excepcional conjunto de espectáculos um Recital de Poesia. desprezando outras situações profissionais mais cómodas. Para o actor de declamação este alargamento tem um limite geográfico traçado nitidamente pelas fronteiras territoriais em que o seu idioma é enten­ dido. uma histórica digressão a Angola e Moçambique. inv. n O 4652 "desprendimento" e regulados por estes princípios de prática artística que estes dois notáveis artistas. António Maria Lisboa ou Herberto Hélder. e exactamente porque é essa a sua principal função torna-se o seu maior prazer fazê-lo em toda a parte em que lhe for possível alargando os seus auditórios cada vez mais. ence­ nada por Costa Ferreira. com encenação da pró­ pria Eunice. e apesar da morte prematura de José de Castro. também com ence­ Digressão a África nação de Jorge Listopad e cenário de João Vieira. com encenação de Carlos Avilez e a A Voz Humana de Jean Cocteau. quer da crítica quer do público. 1970 onde a sua arte possa ser entendida': É com este Fotografia MNT. em Março de 1970. A Oração de Fernando Arrabal. n. com poemas de Mário Cesariny. Nos diferentes palcos onde actuaram apresentaram as peças Dois num Baloiço de William Gibson. inv. com encenação de Francisco Russo e cenário de Victor André. tenham constituído um repertório PRIMEIRA D I G RESSÃO AO U L TRAMAR que consideram actual e de bom nível intelectual 76 . dois dos maiores actores portugueses do século xx. e artístico e na velha tradição teatral da carroça Eunice Muiioz e José de Castro de Therpis. a Conferência Ilus­ trada de Luiz Francisco Rebello.

António Marques.1985) ou Eliza de Guizette (1912. Eunice Munoz voltará a África (mais uma vez. a Angola e Moçambique) em 1973/1974. e estando em cena no dia 25 de Abril de 1974 em Vila Pery.1 988). e outros já consagra­ dos pelo público. alguns ainda no início de brilhantes carreiras como João Vasco. Sttau Monteiro. A Maluquinha de Arroios. de Lope de Vega. Zita Duarte (1943-2000). estrangeiros e portugueses. Fundado em 1965. Eugénia Bettencourt. de André Brun. dos clássicos aos contemporâneos. Alberto Vila!. como se pode facilmente constatar através do repertório escolhido para esta digressão: o Auto da Índia e o TEATRO EXPERIM ENTAL DE CASCA S 77 Auto da Barca do Inferno. o o ] interessado na procura e na experimentação. n. n O 2454 de Luigi Pirandello. Augusto Digressão Somos Dois. '' [ . 1 974 MNT. de Gil Vicente. o Teatro Experimental de Cas­ cais (cuja criação significou uma autêntica pedrada no charco da vida teatral de então) tem vindo a apre­ sentar uma longa lista de autores. Eunice Munoz e Alberto Vilar de Bernardo Santareno. Luanda. Alina Vaz. tendo esta versão do TEC/Carlos Avilez estreado em 24 de Abril de 1973. Oração . e Os Dois Verdugos. integrada numa grande digressão do Teatro Experimental de Cascais. naquelas duas antigas colónias. na primeira e única vez que esta histórica companhia se deslocará áquele continente. que permitem um trabalho rico e diversificado". um notável grupo de acto­ res. pela crítica teatral e pela dedica­ ção a esta arte como Isabel de Castro.' 134 872 tratou de um acontecimento cultural raro e a todos os títulos excepcional. de Fernando Arrabal. em Barcelona. em Moçambique. Lizette Frias (1928-?). Maria Albergaria (1928. se Digressão a África. inv. encenado por Costa Ferreira e Programa de Fuenteovejuno com José de Castro e Alberto Villar. Fedra. de Jean Racine (numa interpretação sublime de Eunice). Santos Manuel ou Carlos Daniel (1952-1996). apoiada uma vez mais pela Fundação Calouste Gulbenldan. década de 1970 Sobral e Romeu Correia e O Homem de Flor na Boca Fotografia MNT. inv. Para além de Eunice Munoz. e o aclamadíssimo Fuenteovejuna. integrou esta digressão. Facilmente se Teatro Experimental de Cascais entende que.

Lou­ "Dicca" (?). pois Knopfli.· 143 609 teatro boletim do clube de teatro de angola �!1����� No mensário moçambicano Rádio Moçambi­ cana". pela primeira vez. dar início a uma vida táculo cheio de vida. sopravam (ainda muito devagarinhooo. de Novembro de 1970. Capa do boletim do Clube de Teatro de Angola. (natural de Moçambique. Entretanto. Para bem do teatro em Lourenço Marques mente dito. através dos tempos. uma sociedade que mantém. inv. no artigo . [00'] Um punhado de jovens de boa vontade. Referia-se o autor ao espectáculo Medida por que RM n. continuação. Jorge dantes Universitários de Moçambique. e que também palestrou). no palco do Gouveia dava notícia de. E conclui: compreensão da história dos últimos quarenta anos "Oxalá não se perca esta bela iniciativa [00'] e tenha daquela arte no nosso país. precedido de um ciclo de conferências renço Marques ter "teatro Shakespeare num palco proferidas por Abílio Cardoso. Eugénio Lisboa e Rui da cidade. 1972 MNT.O 405. novos ventos na vida teatral das capitais de Angola e 78 .) e para bem da cultura da juventude moçambi. o encenador Mário Barradas conseguiu-se dar uma ideia do que é teatro a sério. apesar do seu encenador já não estar Tal como já acontecera em Portugal propria­ entre nós. É de louvar o esforço dispendido. levado à cena pelo TEUM Teatro dos Estu­ - "Apontamento sobre o Teatro Universitário". em Estrasburgo. o Dr advogado (na qual era um jovem promissor e cheio Mário Barradas ('advogado de Lourenço Marques de talento) para. diri­ abandonaria a sua terra natal e a sua profissão de gidos por um elemento que sabe o que quer. criticando dedicada exclusiva e apaixonadamente ao teatro. na prestigiada com muito nome e encenador'). n. os sendo hoje uma das figuras determinantes para a mesmos erros e as mesmas qualidades". de calor humano. deu-nos um espec­ escola do Teatro Nacional. Medida.

um texto antropológico de um observador atento da sociedade do seu tempo': 2 Barbara Volckart (1848-1935) foi uma das mais brilhantes actrizes portuguesas do seu tempo. Thomaz Vieira (1878-1979). . . natural de Angola e com fortes com uma escola de teatro própria. ) lá vão." grandes actores do século xx. o fim do MNT Império Colonial e a possibilidade (e o esforço) dos novos países africanos poderem. onde então residia a sua famOia mais próxima. Criar os grupos lá. durante mais de 35 anos. tornaram­ -se. que se ordem económica. do mesmo tário (de estudantes e independente) e germina com mensário Rádio Moçambique RM: "É claro que - a criação do TEUM e do TALM. percorrendo com um carro caravana (mais tarde b aptizado QlIO \lndis) todas as cidades e sertões do interior daquela colónia. e com o excelente problemas que se põem pelo meio! Problemas de Boletim que durante alguns anos editou. vivendo em Lisboa. com quase três anos de antecedência. principalmente. às ideias. e com o fortíssimo pensei muitas vezes ir a Moçambique. à pouca qualidade então piores do Continente. acho que é raízes em Moçambique. ir ao Ultramar. . . Fazem esse negócio e qualquer critério para além do riso fácil. sem feitos pelos empresários. quando as companhias Ce quase sempre as cinzentismo e. e outros. as pessoas têm e fazer enorme confusão acerca do Sem querer ser tão "excessivo" como Rogério que é o teatro.1993). Rogério Paulo prenun­ da revista Rádio Moçambique. nas suas próprias raízes culturais e sociais a construção de uma dramaturgia de uma linguagem própria e verdadeiramente autónoma. Há tantos com o Clube de Teatro de Angola.] Temos é de acabar vão criando pequenos núcleos de verdadeira resis­ com o facto de só se ver teatro em Angola e Moçam­ tência (social. termino com duas Dando continuidade. a que se dedicou na primeira fase da sua vida activa. buscando. sobretudo. mercê de negócios dominante na maioria desta arte. Mas não é apoio de Mário Barradas. para além desta sua actividade como actor. 197\ ciava. [ . no teatro universi­ dada ao n. 3 Estes camiões pesados para transporte de tropas. estética e política) ao marasmo. um dos Ícones e um dos equipamentos mais utilizados pelo Exército português durante 79 a Guerra Colonial. . à crítica e às propostas de A. sua. Moçambique: se em Lourenço Marques este movi­ passagens duma interessante entrevista por ele mento assenta. parcialmente fabricados na já desaparecida fábrica do Tramagal.O 417. Nasceu em Lisboa e faleceu em Benguela. umas dezenas de anos depois. brejeiro mandam para lá companhias com peças comple­ e do sucesso comercial. por bons e maus nl0tivos. livre e finalmente. Paulo (1927 . as companhias lá. "Autêntico testemwlho de vida. Vítor Rogério Paulo na capa Machado e de Carlos Leal. também um dos nossos um esforço que deve ser feito. Em 1967 publica um livro de memórias. em Luanda é sobretudo fácil. aos 53 anos virou-se para a difusão do cinema e criou em Moçambique a primeira companhia de cinema ambulante. "importada'. que vão chamar o pior dos instintos que agonizavam os seus últimos dias. ao bique. de Novembro de 1971. escolher e organizar a sua vida e a sua história tea­ tral. duma metrópole onde o tamente desclassificadas e que não têm qualquer velho Império Colonial e o anacrónico Estado Novo interesse.

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adaptou para esta companhia . fala de africanos a viverem fora de África. A partir de 1995 estabelece-se na cidade do Porto. adoptando em cada um deles. escreve e encena Mundau. das influências. 1973 ardo Agualusa.em conjunto com Mia Couto . deu os primeiros passos no teatro trabalhando com os mais activos grupos de Maputo. funcionamentos estru­ turais e sociais diferentes. Co-directora artística do Teatro Meridio­ nal. estreado em 2002. alguns dos quais ajudou a fundar. Discurso SENDO EXAUSTIVA e exemplarmente abordada nesta revista por Duarte Ivo Cruz a questão das dra­ maturgias portuguesas de temário africano e das dramaturgias pós-independências de raiz cultural d irecto portuguesa. aqui numa conceptualização mais abrangente: a de pes­ soas que convivem em simultâneo com culturas e normas de mundos distintos. procurámos e A l b e rt o M a g a s s e l a num mesmo contexto cultural a exposição de inte­ resses e práticas artísticas diversas que acentuam a multiplicidade dos pontos de vista.. Alguns de nós. pareceu-nos importante complemen­ tar essa abordagem dando voz a dois activos inter­ venientes na cena teatral portuguesa nascidos em Moçambique. por centrar estas duas entrevistas a personalidades c o m Nat á l i a L u l Z a com raízes num mesmo país. de José Edu­ Ciclo de Teatro Popular Tradicional Fundação Calouste Gulbenkian. optámos . Na impossibilidade de estender a enunciada complementaridade a todos os países objecto do Car l o s P i m e n ta estudo efectuado por Duarte Ivo Cruz. desenvolvendo intensa actividade como actor . . um texto que '� .' 141211 A Montanha da Água Lilás. Fala sobretudo de mulatos. Assim. Natália Luiza. de Pepetela. e fala de pessoas que conhecem África por vias não directas. encenadora e autora. actor e encenador. por necessidade. Em 2003.Mar me Quer. João. somos Capa do programa da peça Aulo de Floripes estes:' Em 2004 encena Geração W.fundamentalmente no Teatro Nacional de S. e no ano seguinte adapta e encena MNT. Alberto Magassela. actriz. n. fala de África. tem dedicado grande parte do seu trabalho às temáticas africanas. inv. dos objectivos artísticos e das motivações pessoais e profissionais.

são os agentes culturais que. portuguesa. a articulação e comunicacional sustentado em indeléveis laços entre instituições.--. ao estabelecimento de culturas e contribuem decisivamente para uma uma cartografia cultural na qual cada parte integra miscigenação cujos contornos evoluem na razão de pleno direito o todo. como condicionantes dessa efectiva ções dedicadas a acções de intercâmbio e formação. tem determinado o estabelecimento Definidas as fronteiras políticas e geográficas de cumplicidades que aproximam as diferentes assistimos. - 82 . .timorense. . organiza­ guns casos. considerar as ainda persistentes contin­ tactos. A presença de actores. artistas e organizações no terreno históricos. de uma forma directa da multiplicidade e qualidade dos con­ realista. trabalhando cionantes e a valorização e desenvolvimento dos no terreno. na cena teatral de uma mesma língua.-��. autores podemos ler de uma forma activa e orgânica aquilo de origem africana e brasileira ou . constituem hoje as correias de trans­ laços culturais que historicamente têm prevalecido missão de atitudes e comportamentos nos quais nos mais adversos contextos.TNSJ -. integração. numa comunidade artística tem sido reveladora de um relacionamento cultural com sólidos hábitos de cooperação. . gências socioeconómicas que se constituem. Alberto Magassela em Arranha-Céus de Jacinto Lucas Pires Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1999 - © João Tuna . Devemos. ---=- =. possibilitará. ---�-. .embora em que nos caracteriza enquanto comunidade falante muito menor escala . a superação dessas condi­ comum. . No entanto. �. tendo em conta a especificidade de Não obstante o significativo peso dessa herança cada situação concreta. . -. nal­ A existência de festivais temáticos. encenadores. cada vez mais.

que a nível pessoal Aurora. entre 1984 e 1994. sentia que estava no Mutumbela Gô-Gô há já muito tempo. . Também tando o texto à realidade moçambicana. em Maputo. dado que me permitiu um não havia investimento nenhum. Nesse mesmo Apresentei nessa ocasião a peça Os Malefícios ano prescrevi no segundo ano da faculdade onde do Tabaco. começámos a trabalhar do texto. Apesar de te teres flXado em POl'tugal continuas a ir com regularidade a Moçambique? Por que razão vieste para Portugal em 1 99 5 e Sim. adap­ 83 seguia o curso de Matemática e Física. E Nós. Eu neste último que adquiri uma experiência que foi fiz teatro em Moçambique numa altura em que muito enriquecedora. Todavia foi o meu futuro em Moçambique estava limitado. o grupo tinha crescido muito mas não o suficiente para as minhas exigências na altura. acabou por passar ao cinema com o título Comédia Infantil. João senti que. o que conduzia com o repertório ocidental foram por intermédio os jovens a situações de marginalidade. área teatral. com os grupos Nkarianga. mas tam­ Em Moçambique os meus primeiros contactos bém pelo desfazer dos casamentos. De facto. na altura. do escritor russo Anton Tchekov. para além de poder contribuir nessa fase inicial do teu percurso artístico? com a minha experiência. Quase todos os anos. M'Beu e Mutumbela GÔ-Gô. mas acabou Mercado Central. experiência muito traumatizante. frente ao os grupos de teatro existentes no país. realizando-se improvisações artístico que era feito no terreno. Depois desta que reunia boas condições em termos de disciplina pesquisa fazíamos improvisações às quais o Mia e organização. tendo trabalhar a convite do Governo sueco. Compreendi também. com Mia Couto. A Descoberta. que foi para lá Fazíamos então trabalho de campo. as dramaturgias ocidentais? Quando foi realizada a primeira edição do Festival Vim para Portugal por diversas razões. como objectivo a exploração destas temáticas. do encenador Henning Mankell. A maior parte das peças eram fei­ no sentido de dar acompanhamento ao trabalho tas a partir do nada. este dramaturgo fora enviado para Moçambique Na preparação desse trabalho cheguei a dormir para trabalhar no Ministério da Cultura com todos quatro noites com os miúdos na rua. Todo este trabalho deu origem à peça outro tipo de temas mais ligados às dramaturgias Os meninos de ninguém. Procuro manter um como surgiram os teus primeiros contactos com intercâmbio profissional que me parece importante. Então vim para em função do tema que queríamos abordar. partindo depois para a elaboração Mankell ao Mutumbela. trabalhei oportunidade para alargar os meus horizontes. A partir da ligação do Henning Couto assistia. Como foram os teus primeiros contactos com Quando se me deparou a possibilidade de vir para o teatro em Moçambique e quais os processos Portugal integrar o projecto do Teatro Nacional de de trabalho e as temáticas que el'am abordadas S. existia aí uma excelente Em Moçambique. Não havia polí­ contacto directo e um trabalho muito partilhado ticas definidas a nível do Ministério da Cultura. Lem­ Portugal com o objectivo de evoluir tecnicamente bro-me que um desses temas tinha que ver com o e de poder melhorar os meus conhecimentos na aumento do número de crianças desamparadas. que constituiu uma em que eu estivesse presente. para viver de perto o mesmo por optar pelo Mutumbela pois era o único grupo tipo de dificuldades que eles tinham. A de Agosto. que a Solveig Nordlund ocidentais e aos grandes temas africanos. situação provocada não só pela guerra. a organização fez questão morte prematura do meu pai.

as tradições que. é ao homem que é reconhecida a chefia.TNSJ Porque é que sentiste necessidade de adaptar o culturais não se modificam de um dia para o outro. texto à realidade moçambicana? Por desconhe­ No entanto. Alberto Magassela e Ângela Marques em A hora em que nada sabíamos uns das outras de Peter Handke Encenação: José Wallenstein Produção: Teatro Nacional São João 2001 - © João Tuna . levas situação poderia ser um choque interessante. Eu entendi que esta trabalho. apesar de ser um fumador inveterado. existe receptividade para outras formas culturais Apesar de existir alguma evolução. O facto de teres vindo para conferência. tamento do tipo de trabalho sobre a realidade Nos Malefícios do Tabaco temos um indivíduo que social do país .campo no qual trabalhavas com está condicionado pela mulher e que dá aquela o Mutumbela GÔ-Gô. seguramente. Sentes que que traz sinais culturais completamente diferentes. Portugal afastou-te. no fundo. desse tipo de por imposição da mulher. uma vez que o espectáculo Na cultura moçambicana não existe a possi­ subvertia todos esses valores. por questões cul­ dental em Moçambique isso já significa um afas­ turais. periodicamente. Mas. Embora na prática seja a mulher Ao apresentares uma peça do repertório oci­ quem organiza e controla. são induzidas do exterior? 84 . dado outros conceitos e outras práticas. bilidade de ser a mulher a comandar os destinos de uma família. o confronto com outras realidades cimento deste tipo de dramaturgia ou pela inexis­ culturais pode dar um contributo significativo e daí tência de referências culturais que permitissem a necessidade de adaptação da peça ao contexto a sua leitura? cultural moçambicano. Ao regressares.

o tipo de teatro que se faz em Moçambique Nem por isso. Mesmo um formada e uma maior abertura. É frequente o público aplaudir a É necessário desenvolver a formação artística. Em Moçambique não há nenhuma escola tive que adaptar também o espectáculo em função de teatro. No caso de Os Malefícios do Tabaco essenciais. existe apenas uma escola de belas-artes. em termos gerais. O país está a crescer. enquanto no Teatro Avenida havia um Quais os grandes temas que são mais relevan­ viveiro. 1999 © João Tuna . clássico tem que ser perspectivado dessa forma. eu sinto que existe uma grande foram formados no Teatro Avenida. a realidade do teatro em Maputo está Alberto Magassela e Isabel Lopes em Combote de negro e de cães de Bernard-Marie Koltés Encenação: Fernando Mora Ramos Produção: Teatro Nacional São João . mas formava essencialmente profissionais "para uso interno'. para a manifes­ para discutir todos os temas e todas as dramaturgias. fazer essa procura. Sinto que há espaço e damos espaços.TNSJ 85 . Só que não um viveiro do teatro em Moçambique. Exis­ meio dos espectáculos ou fazer comentários e dar tem poucas referências quanto às linguagens técnicas a sua opinião. tação do público. Neste sociais? momento. dessa realidade. Houve inves­ tem que ser sempre perspectivado em função do timentos na formação. A maior parte dos actores moçambicanos No entanto. Na Mas para a continuação deste desenvolvimento o fase de ensaios nós contamos com essa participação intercâmbio é fundamental. Há já uma opinião pública público e da participação desse público. A Casa existem propostas em número suficiente para satis­ Velha também deu um contributo neste sector. entre as réplicas. que tem sido abertura a outras realidades culturais. havia o M'Beu do qual podiam sair actores tes neste momento? Continuam a ser os temas para o Mutumbela ou para outros grupos.

as pessoas com as quais trabalhas e aproximação efectiva? Em que pontos se centra que não têm acesso à prática artística que desen­ essa aproximação? volves em Portugal? Temos que encarar duas realidades. Uma A cultura moçambicana tem uma grande decorre do passado histórico e cultural dos dois riqueza porque não está ainda descolada da terra. Tendo a referência dos dois universos aspectos e interesses de natureza económica. Sendo um entanto. João. uma ponte para sentando novas propostas dramatúrgicas. desde s. a tua maneira de encarar o teatro. ção política e social dos dois países. A outra tem que ver com o abdicar das minhas raízes. a possibilidade e acabou por limitar as possibilidades artísticas na da abordagem à sua obra na mesma língua facilita sua abrangência. Para mim Nós passámos por uma fase. existe uma por sua vez. passa com os meus colegas que vêm para cá estudar Nesse aspecto o Mutumbela Gô-Gô foi também ou trabalhar na área do teatro. para nós. a nossa tendência inicial é a da cooperação me torna cada vez mais rico. de um patriotismo exacerbado. no caso do teatro. apre­ portuguesas constituem. Eles próprios e colonizador. nas tuas idas recorrentes a Moçambi­ pendência como vês hoje o relacionamento. A língua e a cultura muito importante na formação dos públicos. Apesar da histórica relação entre colonizado balho que aqui tenho desenvolvido. no domínio técnico influenciou. absoluta com a maior naturalidade. No culturais. seguramente. países e reflecte-se na utilização de uma língua Mas também temos a consciência de que não é só comum. No consideração das suas diversas nuances. altura o grupo polivalente dos Caminhos-de-Ferro. isso determinou todos os comportamentos autor da dramaturgia portuguesa. termos teatrais. Um artista tem que estar aberto a a compreensão dos seus universos.que é da dramaturgia mundial e com métodos de tra­ hoje o grande concorrente do Mutumbela . logo a seguir à foi um enorme desafio pessoal porque apesar da independência. uma das minhas maiores alegrias sentiram essa necessidade de abertura a outras profissionais foi ter começado por trabalhar Gil formas culturais. posso enriquecê-las condicionamento desta aproximação por diversos através de outro tipo de informação cultural que vou factores relacionados essencialmente com alguns adquirindo. O mesmo se diferentes propostas e a novos desafios. sem aproximação natural. Até que ponto Passado o período colonial e o período da inde­ procuras. Esteve o ano passado em Portugal uma compa­ nhia moçambicanal a apresentar um espectáculo Mas.todos balho em que são privilegiadas as competências têm a mesma origem ou motivação. Este factor determinante propícia uma o "étnico" que deve prevalecer. Vicente quando cheguei a Portugal. existência de uma língua comum era importante a que se calhar é normal em todas as revoluções. que apresentava canções revolucionárias e coreo­ o facto de teres vindo para Portugal e teres traba­ grafias a partir de canções revolucionárias do género lhado fundamentalmente no Teatro Nacional de "colonialismo nunca mais" ou "a luta continua': 86 . quais são os temas comuns que realizaram com o Manuel Wiborg e aquilo que nos quais é possível encontrar afinidades? me pediram foi precisamente que lhes facultasse O grande tema é o do fortalecimento da rela­ todo o material que tem servido de base ao tra­ ção. tomando contacto com os grandes textos os grupos da periferia da cidade ao Gungu . com Portugal? Com a estabiliza­ transportar essas aprendizagens e influenciar. em que e nas acções de formação que aí desenvolves.muito referenciada ao Mutumbela Gô-Gô. tal permite-me fazer um cruzamento que entanto. No entanto. Existia na as outras culturas ocidentais.

O festival não tem uma política definida de "actualidade patriótica em vigor" sentimos um reportório. público por via da língua.TNSJ Quando o Mutumbela começou a pegar em Muito variado. que é uma ini­ ao lado a África do Sul que é um país com uma dra­ ciativa relativamente recente. porque Existe alguma circulação mais evidente do reper­ compreendemos a necessidade de fazer essa apro­ tório lusófono'? ximação. Têm sido também apresentados espectá­ tanto há que ter cuidado com aquilo que é apresen­ culos de teatro-dança. Mas não nos esqueçamos que temos mesmo ali No caso do Festival de Agosto.por uma questão de proxi- . Nós começámos com pouco público mas. qual é o tipo de maturgia muito forte. acabámos com espectáculos sempre esgo­ Sim. Eu acredito que Moçambique 87 repertório que é apresentado'? investiria muito mais . O público moçambicano era na altura. com textos de Mia Couto ou mais do que agora. porque também não nos interessava criar Têm participado grupos de diversos países um vazio. que não tinham que ver com a Belbel. Por necessidade de aproximação ao tados e a fazer reposições a pedido do público. A organização está mais interessada na distanciamento por parte do público. Desde Shakespeare até Sergi obras literárias. africanos e europeus.Alberto Magassela e Adelaide João em A Tragicomédia de D. um público em formação. Duardas de Gil Vicente Encenação: Ricardo Pais Produção: Teatro Nacional São João 1996 - © João Tuna . público. Tivemos que participação do maior número de grupos do que no encontrar motivações para uma aproximação desse estabelecimento de critérios de programação. choque cultural que possa conduzir a uma rejeição. que constituem um género tado e como é apresentado para não provocar um muito forte nas companhias teatrais africanas. Por­ Pepetela.

José Wallenstein. 2001. no Instituto Médio Outras há que são ainda feridas abertas mas que Pedagógico de Maputo em 1989. Nuno Cardoso e Francisco Alves. 2002. Natália Luíza. Assinou as seguintes encenações: Au Théâtre Comme Au Théâtre. Desde então trabalhou com vários encenadores. Giorgio Barbe­ rio Corsetti. constatar factos omissos e desconhecidos.midade . tendo de seguida é necessário começarem a ser contadas. como sabemos. miscigenações. como Professor . No entanto. Primeiro no grupo sidade cultural feita de especificidades próprias. Pedro Barbeitos e Alberto Magassela em Mundau de Natália Luíza Abreu.A Tragicomédia de Dom DUal'dos.C de Primeira. embora haja cada vez Como se enquadram hoje as dramaturgias africa­ mais pessoas a falar inglês em Moçambique. a língua inglesa é um obstá­ culo à sua maior propagação. contaminações culturais. Manuela Soeiro e Henning Mankell e con­ Encenação: Natália Luíza tactou pela primeira vez com Mia Couto. Josina Machel. baseado na peça Tarai. Foi. em diversos trabalhos para cinema e televi­ são. cana num contexto de aproximação cultural'? Entendo que existem muitas estórias que não foram Alberto Magassela nasceu em Maputo/Moçam­ ainda contadas. João e encenada por Ricardo Pais. outro lado. Miguel Seabra. Minha Conto. de Anton Tchekov. de François Servet. produzida pelo Teatro Nacional de S. baseado em três contos de Mia Couto. 1 998. 2002. Participou. tais como: Rogério de Car­ valho. Formou-se em Matemática e Física comuns. Não Tenho Culpa. há uma tendência para Antes e durante a sua formação como docente tratar os países e as culturas africanas como se toda co-fundou e integrou vários grupos de teatro ama­ a África subsariana fosse constituída por um único dor. de Gil Vicente. Maputo. Fernando Moreira. Os Malefícios do Tabaco. de Luigi Pirandello. atália luíza: como há um défice de traduções e de tradutores de palav as que nos unem teatro em Moçambique. no Teatro Avenida em Maputo modelo de expressão cultural e não por uma diver­ que a sua carreira se solidificou. altura em que integrou o elenco © Patrícia Poção e Rui Mateus da peça . tanto em Portugal como em Moçam­ bique. Paulo Castro. Estórias da história de vivências bique em 1966. apesar nas e a dramaturgia portuguesa de temática afri­ de tal só se verificar nos grandes centros urbanos.na dramaturgia sul-africana. José Caldas. M'Beu e depois no grupo Mutumbela GÔ-Gô. Neste último trabalhou com os encenadores Evaristo Daniel Martinho. 88 . 1 999. Os Sonâmbulos. no entanto. de Mia Couto. Vive no Produção: Teatro Meridional 2003 - Porto desde 1995. Por cisco Manyanga e Escola Secundária de Lhanguene. Fernando Moura Ramos. Fran­ sem o recurso à acusação ou desculpabilização. serena­ leccionado estas duas cadeiras em várias escolas de mente. baseado no romance A Varanda de Frangipani. tais como: 25 de Junho. Nuno Carinhas.

quando estórias que nos permitem outro tipo de "focagem" me coloco perante as estórias e sinto a urgência e em que pelas condições da natureza da vida social de as comunicar. é naturalmente relevante a quali­ ainda tem voz. Quando avanço na leitura de alguns autores O facto de nela nos podermos perceber e comunicar africanos encontro-me perante personagens.ou somente . e de ela ser ainda uma reactualização textos e linguagens que me permitem uma reflexão constante de um mesmo legado oral e escrito cria partilhada. indo directo ao coração. São somos ainda profundamente ignorantes -. ponto de vista dos seus conteúdos de comunicação.Ângelo Torres e João Ricardo em A Varando do Frangipani de Mia Couto Encenação: Miguel Seabra e Álvaro Lavín Co-produção: Teatro Meridional! Teatro Nacional São João/ Ponti 1999 - © Henrique Delgado No entanto. permite o se através da palavra nos fosse dado olhar uma .pelo e económica com que nos deparamos. não é tanto . É como 89 mundo que. nos permi­ propósito de divulgar as dramaturgias africanas ou tem também uma reavaliação do nosso posiciona­ as dramaturgias portuguesas com temáticas africa­ mento como indivíduos cada vez mais globalizados. determinante no estabelecimento de uma relação. desejando dar a conhecer wn mundo entendimento dos conceitos mais complexos e em que houve tanto tempo de partilha comum onde está sempre subjacente a questão de como nos entre gentes e culturas . nas. con­ mutuamente.e das culturas africanas situamos no mundo e na relação com os outros. Encontro aí uma espécie de expressão uma dinâmica e uma sinergia em termos de comu­ primordial dos afectos e um entendimento do nicação que é de enorme importância. da devolução de um mundo no qual a natureza Por outro lado. afectiva e racional do relação das personagens com o ambiente e a terra. dade e as especificidades literárias dos autores que A língua portuguesa é também um factor temos escolhido. mas sobretudo pelo facto de elas comportarem Como se algumas estórias nos trouxessem o eco da matéria universal. transversal.

Daniel Martinho e Luis Gaspar em Geração W de José Eduardo Agualusa Encenação: Natália Luiza Co-produçào: Teatro Meridional! Cena Lusófona -2004 © Patricia Poçào e Rui Mateus 90 . de cada escrita. Agualusa em Mar me quer de Mia Couto Adaptação: Mia Couto e Natália Luiza e Mia Couto)? Direcção Cénica: Miguel Seabra Como referi anteriormente. certamente. Ficamos cénica com a especificidade de trabalho e rigor que a compreender que o mundo é novo. a procura de cada Co-produção: Teatro Meridional! Culturgest 2002 - © Pedro Serra Nunes um destes autores e da escolha de algumas das suas obras para programação do Teatro Meridio­ nal. autores diversos. São. tornando-a posteriormente escrita renascida noutro tempo. Qual a especificidade de cada uma das drama­ Cucha Carvalheiro e Daniel Martinho turgias que tens trabalhado (Pepetela. no pressa de vertigem. o âmbito destas linhas. teatro. com outras cores. há ainda o tempo autores seria tão extenso como exaustivo e extra­ . para além do espaço.o tempo das personagens. respondem a diferentes momentos de uma urgência de comunicação em que encontrámos nas palavras de cada um destes autores a resposta para essa vontade de contal� procurando depois responder e interpretar as necessárias exigências paisagem redescoberta noutras subjectividades. Laurinda Chiungue. Patricia Galiano Abreu. e as outra relação com a finitude. andando pelos o Teatro Meridional procura nos seus projectos de mesmos caminhos. e entanto. Referir especificidades de cada um destes Mas. que aplacam a nossa pola. suas obras também. Elas parecem ter mais tempo. únicos e específicos.

da cidade da Matola. Se é tão distinta a escrita de Saramago e de Actores. escritora sérvia Bijana Srbljanovic. mas de cada Bacharel em Psicologia na Faculdade de Psicolo­ autor.Romeu Costa. formadora e actriz. na qual a língua comum é somente facilitadora da difusão? Natália Luíza nasceu em Moçambique em 1960.. Produtores. O que caracteriza cada autor não é a sua refle­ I Trata-se da Associação Cultural Mugachi. . lite­ Superior de Teatro e Cinema . Carla Maciel. Encontra-se actualmente a fazer o mestrado Lobo Antunes. em co-produção com a APA com o seu tempo histórico e o seu percurso pelo (Actores. Associados). temáticas.2005 © Patrícia Poção e Rui Mateus Podemos falar de uma dramaturgia lusófona ou ficam a sua perenidade.pessoais. Não diria sequer de cada país. de cada país. independentemente dos devemos enquadrá-la como expressão própria contextos históricos em que é realizada. As dramaturgias africanas estão condicionadas As entrevistas a Alberto Magassela e Natália LuÍza foram pelos contextos da sua relação histórica ou aquilo conduzidas por Carlos Pimenta . É co-directora artística do Teatro Meridional.. o espectáculo América. Carla Gaivão e Carla Chambel em A Montanha da Agua Lilós de Pepetela Adaptação e encenação: Natália Luíza Produção: Teatro Meridional . consultor que se sobrepõe é a "expressão poética"? do Instituto Camões para a área do teatro. porquê categorizar-se Pepetela e em Estudos Africanos no ISCTE.Curso de Formação de rárias . da 91 mundo? A relevância e a qualidade da obra justi.actor/encenador. xão/expressão poética na relação que estabelece que apresentou em Lisboa e Porto. Tem dividido a sua Agualusa e/ou Luandino em conjunto? actividade como encenadora. e licenciada pela Escola e especificidades várias . Parece-me uma injustiça confundir autores gia e Ciências da Educação.