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BIBLIOTECA DE DIREITO DO CONSUMIDOR Diretor: Awrom1o Henan V, Bexrann 1. Contratos no Cédigo de Defesa do Consumidor — Cléudia Lima Marques 2. Protegio do Consumidor no contrato de compra e venda — Alberto do ‘Amaral Finior 3. Responsabilidade Civil do fabricante ¢ a Defesa do Consumidor — José Reinaldo de Lime Lopes 4. Responsabilidade Civil do Fornecedor pelo Fato do Produto no Direito Brasileiro — Silvio Luis Ferreira da Rocha ‘Dados Inemaconals te Cetelogesio na Publiasio (CTP) "lias Braleta do Lie, 3, Bel sfotyia do onside oo contrat de compa events / Albeo do Ararat 2°25 Filo Edn Revie do bens Hn, ee de i 2, Consors, —, Proto Hoe to Tea Se ai entratoe = Dito $47. 44:581.681) ee pe ctns stones 4. Hn: Con aMrnP Gonmaas ¢ coonumidrta * Bsa Sr He50 ALBERTO DO AMARAL JUNIOR PROTECAO DO CONSUMIDOR NO CONTRATO DE COMPRA E VENDA EDITORA, REVISTA DOS TRIBUNAIS 2 PROTECRO DO CONSUMIDOR finalidade foi permitir &s partes atribuir qualquer contetido a0 acor- do por elas firmado. A teoria objetiva dos contratos reduziu os casos em que a Ocor~ réncia do erro poderia ensejar a sua nulidade. Com isso, pretendia-se evitar que a parte inadimplente pudesse subtrair-se 2 responsabili- dade que Ihe era devida, invocando a ocorréncia de casos en- quadréveis na disciplina de mistake. ‘Ao lado da reelaborago da disciplina do erro, firma-se a nogo de impossibilidade absoluta, que tem como objetivo restringir os a- sos de responsabilidade por inadimplemento contratual, Nesse senti- do, atenuam-se as hipdteses de responsabilidade por inadimplemento ccontratual, julgando-se com menor rigor os casos em que as obri- ‘gagSes contratuais nascem voluntariamente, e com maior rigidez os ‘casos em que as obrigagdes so impostas pela lei. Além disso, @ ¢x- clusio da responsabilidade somente tem lugar se ocorrerem cir- cunstfincias especiais, as quais devem ser comunicadas por uma parte 4 outra no momento da conclusio do contrato. No direito norte- americano, a passagem da teoria da yontade & teoria objetiva dos con- tratos guarda relagio com a necessidade de certeza e seguranga nas relagdes de troca, em conseqiiéncia do desenvolvimento econémico (que entzio comegava a verificar-se. 3 A VENDA CLASSICA 1, A VENDA CLASSICA E 0 SISTEMA DE GARANTIAS 1.1 Os pré-codificadores: Domat e Pothier A exposi¢do precedente serviu justamente para localizar 0 ‘quadro em que se situa a chamada venda cléssica, entendida esta como ‘0 conjunto de regras institufdas pelo movimento codificador de fins do século XVIII e infcio do século XIX. Resolvemos denominar venda cldssica 0 conjunto das disposigSes legais sobre o contrato de venda elaborado pelo movimento codificador, principalmente para distingui- Jada venda ao consumidor” ,que comega a aparecer nos ordenamenios jjurfdicos de varios paises. Apesar das diferengas hist6ricas que mar- ‘cam a evolugdo da teoria contratual.nos pafses continentais ena Com- ‘mon Law, as regras do direito anglo-saxOnico em matéria de venda nos séculos XVII ¢ XIX nfo sto substancialmente diferentes daquelas consagradas legislativamente pelo movimento codificador. Contudo, por raz6es de ordem sistemdtica, tais regras serio analisadas quando ‘ratarmos da transformagao da disciplina das garantias no contrato de ‘comprae venda e seus reflexos sobre a protecdo ao consumidor. ‘A disciplina da venda classica, particularmente as regras em ma- éria de garantia, nfo poderia ser adequadamente compreendida inde- pendentemente da referéncia anteriommente feita & constituigdo do paradigma do direito privado modemo, &nogdo de liberdade contratu- al e A regulacio legislativa do contrato, feita pelo movimento codifi- cador. Assim, a chamada venda clfssica ou qualquer outro instituto juridico que the seja contemporsinco, somente podem ser compreendi- dos pela referéncia ao direito como um pensamento dogmético, a0 processo de racionalizaggo dos procedimentos jurfdicos iniciado a partir dos séculos XV ¢ XVI e 8 formagdo da esfera privada livre de interven¢ao externa, na qual os it {duos so livres para trocar. nosso objetivo, aqui, nao é tratar os diferentes tipos de venda, 44 PROTEGAO DO CONSUMIDOR especificando as caracteristicas de cada um, Pretendemos, 20 contrario, 0 que é, als, inteiramente compatfyel com o trabalho que estamos realizando, analisar 0 modo como a disciplina da garantia no contrato de compra e venda foi contemplada pelo movimento codi- ficador de fins do século XVII € infcio do século XIX. Antes, po- rém, convém analisar, mesmo que sucintamente, a obra de dois pré- codificadores, Domat e Pothier, tendo em vista a maneira como ela- oraram o sistema de garantias e 0 regime de responsabilidade do ‘vendedor nos contratos de compra ¢ venda, Domat define o contrato de compra venda como "une conven- tion parlaquelle 'un donne une chose pour un prix d'argent en monnaic publique, $ autre donne le prix pour avoir la chose”. Desse modo, ‘pode-se perceber a natureza consensual da venda, que se aperfeigoa ppelo simples consenso das partes contratantes. Uma vez. celebrado, 0 n ra apenas efeitos o ue consistem, para o ven dedor, na obrigagao de entregar a coisa vendida garantindo ao adqui- rente a sua posse livre de quaisquer embaracos, enquanto 0 comprador deve pagar 0 prego convencionado. O mero consenso das partes nao ‘gera a transferéncia da propriedade, que s6 se opera com a tradic#o da_ coisa vendida. "Le premier effet de la délivrance est que si le vendeur est le matte de la chose vendue, I acheteur en devient en méme temps pleinementle maitre, avec le droit d'en jouir, den user S den disposer." ‘Apesar de tratados sucessivamente no titulo I do Livro 1 da ‘obra de Domat, a evicgao € 05 vicios redibit6rios nfo sfio dois aspec- tos do fendmeno da garantia como conseqiéncia natural da venda, ‘mas se enquadram entre as causas de resolugao dos contratos. O ter- ‘mo garantia deveria, assim, set utilizado somente para os casos de evicgto, J4 a ocorréncia de vicios redibit6rios no plano estrito das obrigagdes contratuais importaria, antes, uma violagdo do dever de informago que pesa sobre 0 vendedor®". Le vendeur est obligé de déclarer A Yacheteur les défauts de 1a chose vendue qui lui sont con- nus, Et sil ne la fat, ou Ia vente sera resolue, ou le prix diminué, se- Jon la qualité des défauts; S le vendeur tenu des dommages S intéréts de Vacheteur”, "Comme il n'est pas possible de réprimer toutes les in- fidelités des vendeurs.. on ne considére que ceux {défauts des choses vendues} qui les rendent absolument inutiles & Tusage pour lequel celles sont en commerce, ou qui diminuent tellement cet usage, ou le 29. Domat, Les Loie Civiles dans leur Ordre Naturel, owelte edition, Paris MDCCLXXVI, 11, tt Th, sect, pas. 30. Domat, op. cit, Paris MDCCLXXVI, 14, tt. p48 © ss. AVENDACLASSICA, 45 rendent si incommode, que sils avoient été conus a Tacheteur, il n’ aurait point acheré du tout, ou n'aurait acheté qu’ un moindse prix", ‘Quanto ao ressarcimento dos danos, Domat admite 0 ajuizamen- to de acdo redibitéria contra 0 vendedor que ignorasse os vicios da isa, A diferenga entre a hipdtese em que 0 vendedor conhecia € faquela em que ignorava os vicios da coisa, se estabelecia em termos de ressarcimento dos danos. Quando o vendedor ignorasse 08 vicios dda coisa caber-lhe-ia to somente a restituigo do prego pago, inde- pendentemente do ressarcimento dos danos causados. Por outro lado, {a0 estabelecer com absoluta clareza 0 cardter consensual do contrato de venda, Pothier afirma que mediante a sua celebragio 0 vendedor” oblige envers Fautre (contractant) de Tui faire avoir librement, a titre de propriétaire, une chose, pour le prix d'une certaine somme ‘argent, que Yautre contractant, qui est V'acheteur, soblige récipro- quement de lui payer”. ‘Aiém da entrega da coisa, cabe ao vendedor garantir 0 compra- dor "de tous troubles, par lesquels on Tempécherait de posséder la chose, et de s'en porter pour le propriétaire”. A celebracio do con- trato de compra e venda ndo impunha ao vendedor a obrigaczo es- peoffica de transferéncia da propriedade. O problema se coloca a propésito da transferéncia de coisa alheia. Quando esta se verifica~ vva, 0 vendedor de boa-fé mio podia ser obrigado & transferéncia de propriedade da coisa. Em caso de mé-fé do vendedor, podia 0 com- prador pedir a rescisio do contrato, mais perdas ¢ danos que resul- tavyam da ago dolosa do vendedor ao ocultar a verdadeira titulari- dade da coisa. A ago de garantia reservava-se a0 caso de evicgdo caracterizada como "la delais qu'on oblige quelq'un de faire d'une chose en vertu d'une sentence qui l'y condamne" ou ocorrendo trou- ble "cest a dite la simple demande que donne, contre Vacheteur, un tiers qui prétend avoir un droit existant dés Je temps du contrat de vente, de se faire, délaisser cet héritage”. sistema de Pothier € constitufdo, de forma unitéria, por tes obrigagdes que resultam da obrigago mais ampla que compete 20 vendedor de entregar ao adquirente uma coisa livre de quaisquer nus ou embaragos e que abrangem a evicedo, os Onus reais nao de- Clarados e os vicios redibitérios. Em relagdo a estes tltimos, Pothier labora um sistema bastante cquilibrado de repartigdo dos riscos que do contrato viessem a resultar. Em seu Tratado, Pothier afirma que a responsabilidade do ven- dedor deve-se a0 fato de que no deve, simplesmente, entregar a coi- ~ 46 $2 a0 comprador, mas que a coisa por ele enregue deve serine para o uso a que se destina, isto é, seja imune de vicios e defeitos. alienagdo de uma coisa ndo id6nea torna impraticdvel 0 uso desta, descaracterizando a razdo de-estar ela em comércio. Pothier considera que os vicios da coisa vendida podem dar lu- gar & garantia quando: "I- o vicio seja daqueles que segundo 0 uso do lugar seja tido como redibit6rio; 2- nao seja not6rio ao compra- dor, 3- ndo seja excetuado por uma cldusula particular do contrato; 4~ cexista ao tempo da celebragdo do contrato”. Diz ele que ¢ necessério distinguir a hipdtese em que o vendedor ignore o vicio redibit6rio da fhiptese em que tenha conhecimento da sua existéncia, No primeiro caso, 0 vendedor € obrigado a restituit a0 comprador 0 prego que este Ihe pagou e mao tem a obrigagio de ressarcir o dano que 0 vicio da causou a0 comprador ¢ aos seus bens. Jé no segundo caso, {quando 0 vendedor tinha conhecimento do vicio, ele deve ressarcir todos os danos que tal vicio provocou em seus bens. Essa € a regra que alicerca a construgéo do sistema de Pothier. ‘Mas, como lembra o préprio autor, hé um caso em que o vendedor & Obrigado a reparagao do dano que 0 vicio da coisa vendida causou ao ‘comprador e aos seus bens, mesmo quando o ignore expressamente, Isso ocorre quando 0 vendedor ¢ um artesdo ou um comerciante que vende o produto da sua arte ou comércio do qual faz. a sua profissio habitual. A razdo disso encontra-se, justamente, no fato de que a im- perfcia ou a falta de conhecimentos relativamente & sua arte ou ativi- dade 6 considerada uma falta que the deve ser imputada, pois nin- ‘guém deve exercer uma atividade quando ndo disponha de todos os ‘conhecimentos necessérios pata o seu bom exereicio. O mesmo ocor- reria para o comerciante que seja ou nto fabricanie. Pothier afirma {que se o vendedor € fabricanie "i ne doit exposer en vente que de bonnes marchandises; il doit s'y connaitre e nen débiter que de bonnes". Posta a questo nesses termos, a responsabilidade do ven- dedor ou fabricante decorre de uma violagio objetiva da obrigaglo contratual, da qual nfo pode se eximir aquele que exeree profissio- jemercane ( sistema de Pothier, contemplando a responsabilidade agrava~ da do vendedor ou fabricante em relagdo aos vicios da coisa, reflete a vyisdo segundo a qual os institutos juridicos nao devem ser com- PROTECAO DO CONSUMIDOR 31, Pothier, Oesnres, I. Traité du Contrat de Vente, Bruxelles, 1831. 1? 214, 335. AVENDACLASSICA 47 ( preendidos independentemente de uma concepedo moral do omen ) e da sociedade. Como jansenista, Pothier é, sob esse aspecto, um au- tor pré-capitalista, cuja preocupacio se assenta na adequacéo do diz reito a determinados princfpios de ordem moral 1.2 O Cédigo de Napoledo Diferentemente do que sucede com Pothier, o sistema das ga- rantias, especialmente a disciplina dos vicios redibitérios, institufda pelo Cédigo Civil francés, ndo traz. a marca de uma visio moral da responsabilidade do vendedor, presa ainda a0s valores tipicos de uma sociedade pré-capitalista. O c6digo, a0 contrério, representa @ consa- gragio legislativa dos principios econémicos da sociedade nascente, que ird se refletir, sobretudo, na alteragio do regime de distribui¢ao dos riscos entre vendedor e comprador no contrato de venda. ‘Alm disso, a regulagdo da venda pelo Cédigo Civil de 1804 se insere na aceitagio do princ{pio da eficdcia translativa da proprie- dade pelo mero consenso das partes. Se, por um lado, o artigo 1582 determina que "Ia vente est une convention par laquelle 'un s'oblige 2 livrer une chose et autre a la payer", o artigo 1583 afirma que “elle est parfaite entre les panties, et Ia propriété est acquise de droit & Yachéteur & Tégard du vendeur, dés qu'on est convenu de la chose et ‘du prix quoique 1a chose n’ait pas encore été livrée ni le prix payé". ‘Quanto a garantia em matéria de evicco, do mesmo modo que (08 vicios redibit6rios, se situam em um quadro normativo que procu- ra especificar as obrigagdes do vendedor em relagdo ao adquirente. Assim, 0 artigo 1604 estabelece, como principal obrigagdo do vende- dor, aquela consistente na entrega ¢ na garantia da coisa vendida. O equilforio na repartiglo dos riscos em matéria de compra e yenda, que constitui a principal caracterfstica do sistemardelineado por Po- thier, nfo foi, todavia, seguido pelo eédigo de 1804. Este, por sua ‘ver, no contemplou, como fizera Pothier, as hipsteses de responsa- bilidade agravada do vendedor ou fabricante. | Por outro lado, 0 c6digo permitiu que as partes dispusessem livre- mente sobre a modificacao ou ndo da disciplina legal dos vicios. O ‘Cdigo Civil francés estabeleceu, como regra geral, a responsabilidade do vendedor por vicios ocultos da coisa vendida. Tais vicios sto todos, ‘0s que tormam a coisa imprépria para o uso ao qual é destinada ou que