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A NOÇÃO DE TEMPO NA HISTÓRIA:

O TEMPO MÍTICO EM ALGUMAS CIVILIZAÇÕES ORIENTAIS E NA ANTIGUIDADE GRECO-ROMANA

MARIA DO SOCORRO BAPTISTA BABOSA

A NOÇÃO DE TEMPO NA HISTÓRIA:

O TEMPO MÍTICO EM ALGUMAS CIVILIZAÇÕES ORIENTAIS E NA ANTIGUIDADE GRECO-ROMANA

Maria do Socorro Baptista Barbosa 1

Eu louvo a tua perfeição (

...

),

Deus venerável do primeiro tempo, Que fez a humanidade e criou os deuses,

Ser primevo que lhes deu vida, Que lhes falou no seu coração, Que os viu crescer Que enunciou o que nunca aconteceu E concebeu o que existe. Nada cresceu sem ti. 2

A NOÇÃO DE TEMPO NA HISTÓRIA: O TEMPO MÍTICO EM ALGUMAS CIVILIZAÇÕES ORIENTAIS E NA ANTIGUIDADEg lês, Graduada em Peda g o g ia e História. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1219189361353604 Hino de louvor, a Ptah, Deus Egípcio. In.: ALLEN, 1988, p. 39, apud SOUSA, 2006, p. 313. " id="pdf-obj-1-20" src="pdf-obj-1-20.jpg">

Quando se pensa em tempo com relação à História pensa-se, frequentemente, no tempo linear, no qual um evento sucede a outro, e assim vão se construindo as narrativas. Essa visão, entretanto, pertence ao senso comum, pois a própria noção de tempo se modifica, sendo diferente em diferentes culturas e civilizações. Esse pequeno artigo tem como objetivo mostrar como se dá essa noção de tempo, que Le Goff (1992) chama de “tempos míticos”, em diferentes culturas da chamada Idade Antiga, começando com algumas religiões orientais e vendo, também, a civilização greco-romana. Segundo MARQUES (2008, p. 45), a própria definição de tempo é indefinida, impossível. Para ela,

Qualquer definição única que se dê à idéia de tempo é indubitavelmente insuficiente para explicá-lo, pois toda racionalização de sua natureza nos leva sempre a certos problemas insolúveis. Assim, o pensamento humano se obriga a limitá-lo em concepções que nos parecem opostas e, ou as aceita conjuntamente, ou prefere uma em detrimento da outra. Trata-se da dicotomia entre o tempo físico, absoluto, alheio à consciência e à vontade, e o tempo psicológico, relativo à experiência e à percepção do ser humano.

Considerando então esse tempo não linear, mas cíclico, Le Goff (1992, p. 283) afirma que

Para dominar o tempo e a história e satisfazer as próprias aspirações de felicidade e justiça ou os temores face ao desenrolar ilusório ou inquietante dos acontecimentos, as sociedades humanas imaginaram a existência, no passado e no futuro, de épocas excepcionalmente felizes ou catastróficas e,

1 Doutora em Letras Inglês, Graduada em Pedagogia e História. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1219189361353604 2 Hino de louvor, a Ptah, Deus Egípcio. In.: ALLEN, 1988, p. 39, apud SOUSA, 2006, p. 313.

por vezes, inseriram essas épocas originais ou derradeiras numa série de idades, segundo uma certa ordem.

Le Goff (1992, p. 283) também afirma que “a idade mítica final é, muitas vezes,

a repetição da inicial”, ou seja, idades cíclicas, nas quais há um “eterno retorno” ao

inicio dos tempos. Nesse artigo serão trabalhadas algumas civilizações que viam o tempo, e, consequentemente, a História, dessa forma não linear. Inicialmente será visto um pouco da mitologia de algumas civilizações orientais, como o Egito, a Mesopotâmia, e a China, bem como algumas religiões orientais, como Zoroastrismo, Hinduismo e Budismo, tentando relatar, em cada uma dessas formas de ver o mundo, como se constrói a questão do tempo. Depois então será estudada a civilização greco-romana considerando os escritos de Hesíodo, Ovídio, Heráclito Empédocles, Virgilio, Platão e Aristóteles, sempre levando em conta essa visão de história cíclica, não linear. Para Le Goff (1992, p. 284), a descrição e a teorização sobre esses tempos míticos encontram-se sobremaneira nos mitos, seguindo então para textos religiosos e filosóficos, chegando, por fim, aos textos literários. Por essa razão, tais textos serão o fundamento desse artigo. Barros (2010, p. 180) elabora a seguinte ilustração para explicar melhor a estrutura dos tempos míticos:

por vezes, inseriram essas épocas originais ou derradeiras numa série de idades, segundo uma certa ordem.

O autor esclarece que “o padrão circular acima representado, alternando dois momentos, é apenas exemplificativo. Há mitos que articulam três, quatro, doze, ou mais momentos em sua narrativa cíclica.Nas explicações abaixo veremos que esse padrão pode ser observado em algumas civilizações, mas em outras ele se torna muito reducionista.

1.

EGITO

No antigo Egito todos os aspectos da vida eram explicados pela mitologia. Segundo o site do Discovery Channel, “o nascer e o por-do-sol, a jornada da vida para a morte e o além, a natureza e a mudança das estações, são todos os aspectos da vida que os egípcios tentavam explicar através da mitologia”, ou seja, tudo pertencia ao tempo mítico, que era cíclico, prenunciando o eterno retorno às origens. Acreditava-se em uma Idade de Ouro anterior à criação do ser humano, e, segundo Le Goff (1992, p. 288), essa criação ocorre a cada manhã, no inicio de cada estação, de cada ano, de cada novo reinado. Para Sousa (2006, p. 317), “o mundo anterior à criação era visualizado como um oceano primordial, o Nun, cujas águas caóticas continham, em potência, toda a criação.” Assim, para o autor, na religião egípcia, o papel das águas do Nun era ambivalente e revestia-se de um significado simultaneamente negativo e positivo.Semelhante à cheia que tudo submergia ao mesmo tempo em que fertilizava o solo do Egito, o Nun infinito, amorfo, disordenado, e impenetrável, era também a fonte da regeneração do mundo e continha, em potência, todas as possibilidades da criação.Dessa forma, sugere Sousa (2006, p. 317), foi deste mundo sem forma que surgiu um elemento essencial das cosmogonias egípcias que assinalava o início da criação: a colina primordial.Tendo como base o fenômeno natural das cheias do Nilo que, a cada ano, ao se retirar, deixava à vista pequenas elevações de terra firme, os “teólogos” egípcios, concentraram nessa imagem todo o poder evocativo do início do mundo. Para Sousa (2006, p. 317):

Na maior parte dos casos a colina primordial consubstanciou-se ao próprio corpo do criador. Em Heliópolis esta colina era vista como a corporização de Atum, mas em Mênfis era tida como o corpo de Ptah-Tatenen. Em Hermópolis, onde também estava presente, a colina primeva era evocativa da Ógdoade. De uma forma geral, a colina primordial ilustrava as duas facetas latentes na Mónade inicial: por um lado possuía uma dimensão ctónica, associada aos poderes generativos da terra, por outro, revestia-se de uma dimensão solar, já que era desta colina que o deus sol, na forma de uma criança, emergira e iniciara a criação do mundo.

  • 2. MESOPOTÂMIA

o cosmos dos mesopotâmicos é uma bolha imensa no mar infinito das águas primordiais. Esta esfera é cortada em duas pelo plano circular da Terra. O inferno situa-se por baixo, constitui um submundo ou mundo inferior e, ao alto, o espaço celeste é balizado pelas constelações.

Oliveira (2009, p. 3) afirma ainda que, quanto à concepção do mundo, é possível resumir em duas palavras: está escrito, ou seja, tudo é pré-determinado. Na Babilônia de há 4.000 anos, luxuosa e festiva, a lei humana era gravada em caracteres cuneiformes, que haviam herdado da Suméria, sobre o corpo mole de placas de argila. A lei dos deuses, entretanto, afirma Oliveira (2009, p. 4)

era registrada sobre a enorme massa da criação, no alfabeto complexo e sofisticado dos adivinhos. Bem ou mal, insignificante ou colossal, o menor acontecimento da vida de um homem, nação ou reino, desde o seu nascimento até à morte, era escrito 'preto no branco' pelas divindades.

Le Goff (1992, p. 288) afirma que há um poema cosmogônico chamado Enuma Elish (Poema da Criação), no qual, segundo Oliveira (2009, p. 4) “o destino dos homens estava selado na água. (…) O destino de cada um havia já sido fixado pelas Tábuas do Destino e ninguém a isso podia escapar.Esta fé cega em uma predestinação divina aproxima-se da obsessão no caso dos mesopotâmicos. Na ânsia de conhecer, a qualquer custo, a sorte que lhes era reservada, as pessoas entregam-se sem qualquer vergonha à adivinhação. Desde a invenção da escrita até ao desaparecimento da Babilônia este povo cobriu dezenas ou mesmo centenas de milhares de placas de argila com a sua escrita cuneiforme. Tudo era anotado: mitos, leis, os cânticos, os épicos, observações da Natureza, contabilidade, contratos comerciais, tratados de medicina e listas intermináveis discriminando o conteúdo da Criação. Segundo afirma Oliveira (2009, p. 4), os deuses, 'construídos' segundo o modelo humano, deveriam ter a mesma ânsia de tudo escrever. Acreditava-se que, em algum lugar, deviam ter escrito, com toda certeza, o destino dos seres humanos. O autor aponta que

Tortuosos nesta senda e acima de tudo, Marduk e os seus pares tinham coberto de caracteres premonitórios a totalidade da Criação. Todos os astros, cada objeto, cada ser vivo, era susceptível de transportar nele um pedaço da sua prosa! E exprimiam-se ainda através dos sonhos, do comportamento das plantas e animais, nascimentos, pelo aspecto físico de um homem - por exemplo as diversas localizações de uma mancha vermelha sobre o seu corpo -, os fenômenos meteorológicos ou astronômicos - tempestade ou eclipse - , a configuração de um curso de água ou de uma terra, etc.

Marduk, o grande herói cujas aventuras são narradas no livro da criação, teria matado a deusa Tiamat para, a partir de seu corpo, construir o mundo. Em seu mundo, no qual a escrita começa a predominar, a noção de tempo ainda é cíclica, e todos os anos as cerimônias de ano novo repetiam os feitos de criação de Marduk.

3. ZOROASTRISMO

O zoroastrismo, também chamado de masdeísmo, mitraísmo ou parsismo, é uma religião monoteísta fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com os historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta e admite a existência de duas divindades(dualismo), representando o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã), de cuja luta venceria o Bem. Le Goff (1992, p. 288) afirma que nessa forma de ver o mundo o “tempo limitado domina tudo”, e que não haverá mais morte ao final do ano cósmico de 9 mil anos, quando então haverá a felicidade perfeita, a luz.

Figura 2. O Faravahar (ou Ferohar), representação da alma humana antes do nascimento e depois da
Figura 2.
O Faravahar (ou Ferohar), representação da alma humana antes do nascimento e
depois da morte, é um dos símbolos do zoroastrismo.

4.

HINDUISMO

Para Barros (2010, p. 181), com relação ao tempo mítico, “outros modelos de movimento binário extraídos da natureza podem inspirar mitos subdivididos em dois momentos, como é o caso do vai e vem das águas do oceano, ou ainda o duplo movimento de inspiração e expiração dos seres vivos.” Para o autor, é sobre essa matriz que se constrói a cosmogonia hindu, na qual a “respiração de Brahma” representa a idéia de que, quando o Deus expira, o Universo se manifesta, e, quando inspira, o universo se retrai e retorna ao não-manifesto.A matriz da respiração, neste caso, também pode ser articulada, na opinião de Barros, com a

“matriz da oposição entre as duas fases do dia, gerando as imagens do “dia de Brahma” e da “noite de Brahma”, respectivamente relacionadas à expiração e inspiração do deus.Le Goff (1192, p. 289) afirma que no Hinduísmo “a teoria das idades Míticas é mais complexa e insere-se na crença do eterno retorno”. O autor afirma ainda que a “unidade de tempo mítico é um dia de Brahma, ou kalpa. Barros (2010, p. 181) complementa o pensamento de Le Goff ao afirmar que na metade do kalpa o universo é criado. Entretanto, continua o autor, em um certo momento, o mesmo é destruído pelo Deus Shiva para que se inicie a “noite de Brahma”. Aqui, aponta Barros, “a narrativa mítica circular, articulada em dois momentos, projeta-se diretamente sobre o alfa e o ômega, sobre a questão primeira e última: a da própria criação e destruição (renovação) do Universo”.

  • 5. CHINA

A ideologia da filosofia chinesa tradicional foi construída sobre o princípio de um erro de cálculo do destino (predestinação) e previsão de evolução, de modo a ser capaz de inserir em pré-definidos padrões de objetos e fenômenos, a realidade instável da percepção humana, com um desconforto mínimo. Esse constante incômodo é um fator importante na redução da vida humana, enquanto o valor principal, que orienta o indivíduo no espaço de existência, é a durabilidade e longevidade. Portanto, a ciência do tempo e técnicas de previsão são os dois principais componentes do sistema de valores do mundo tradicional chinesa.

Idealmente, em um tempo mítico de lançamento, ciclos consecutivos de acordo com a vontade do Imperador Amarelo Huang Di, que segundo algumas fontes teve lugar em 2697 aC, o primeiro sinal do ciclo celeste coincide com o primeiro conhecido seqüências terrestre e no céu, na altura era meia-noite do dia da lua nova solstício de inverno. O sol e a lua em seus ciclos não são totalmente equilibrados, o que se expressa em uma diferença simbólica entre cinco e seis, e, portanto, o início dos ciclos solares e lunares raramente coincidem com o início do ciclo de troncos e galhos. Isto pode explicar o desequilíbrio na circulação de objetos e fenômenos em nossa vida tumultuada. O ciclo anual, como a base de coordenadas no sistema de rotação no espaço da vida humana (afinal de contas, e as nossas vidas são consideradas unidades do ano passado) é dividido em duas metades, uma das quais é a preponderância de força, enquanto Ian e os outros, respectivamente, Yin. Depois, há quatro temporadas e sua correspondente fase de nucleação, crescimento, colheita e guarda das sementes (para plantio futuro). O próximo nível da divisão - de oito articulações, em que, além dos quatro pontos da temporada destaque dois equinócios e dois solstícios como equilíbrio de fases e para o desenvolvimento máximo do Yin e Yang, do masculino e do feminino.

  • 6. BUDISMO / JANAÍSMO

Barros (2010, p. 187) afirma que o Janaísmo, que é uma das mais antigas religiões indianas, ao lado do Budismo e do Hinduísmo, apresenta uma imagem bastante peculiar do Tempo, descrito como um “giro cosmogônico” que inclui dentro de si a sequência da degradação humana. O que ocorre, porém, é que a ‘série descendente de degradação’ será contrabalançada por uma ‘série ascendente’ de

recuperação da virtude, de modo que ao fim de tudo se constitui um círculo que se

repete eternamente. O autor elabora a seguinte imagem para descrever a cosmogonia jainista:

Na mitologia jainista, o Tempo é representado por uma roda de doze raios (idades), sendo que
Na
mitologia
jainista,
o
Tempo é representado por uma
roda
de
doze
raios
(idades),
sendo que seis idades
constituem uma
‘série
descendente’
(avasarpini)
e
seis idades constituem a ‘série
ascendente’
(upsarpini).
O
circuito descendente, no qual a
felicidade começa a se misturar
com a tristeza e a virtude com
os
vícios,
corresponde
à
ocorrência
de
sucessivos
decréscimos
na
estatura
física
e
moral
dos
seres

humanos, que de colossais gigantes geminados, plenos de virtudes, ao final da série

descendente já terão se transformado em anões entregues a toda sorte de vícios e já sem nenhum resquício das virtudes primordiais. Mas então se iniciará deste que é

o

ponto mais baixo

possível da decadência humana, a série ascendente, que

através de seis novas idades restituirá progressivamente aos seres humanos a sua

estatura moral e física, levando-os de novo ao

ponto de

origem, no qual todos

possuíam uma altura descomunal em relação ao padrão atual. Depois disso, o círculo se reinicia, e assim ocorreria indefinidamente através de imensos ciclos de tempo.

  • 7. ANTIGUIDADE GRECO-ROMANA

Na antiguidade greco-romana a questão do tempo e da história é discutida por diferentes autores. Tentar-se-á, nesse artigo, citar como cada um deles retrata o tempo mítico de acordo com suas diferentes visões de mundo.

7.1. Hesíodo

 

Em

seu livro

O trabalho

e

os

dias,

Hesíodo, o mais antigo

poeta grego

conhecido, descreve a criação do mundo dividindo-a em cinco diferentes idades míticas: A Idade do Ouro, a Idade da Prata, a Idade do Bronze, a Idade dos Heróis,

e a Idade do Ferro, sendo que o mito das quatro Idades dos metais é mais antiga, e o poeta insere, na sua versão, a idade dos Heróis que, segundo Le Goff (1992, p. 293), ele teria retirado de alguma outra mitologia. A Idade de Ouro seria a idade perfeita, o tempo de Cronos, quando nada faltava ao ser humano então criado. A Idade da Prata, ao contrário, vai mostrar seres imperfeitos, que se recusavam adorar os deuses, e que enlouqueciam ao atingir a puberdade. A Idade de bronze relata o surgimento de seres inquebrantáveis, poderosos, que trabalhavam com o bronze e sucumbiam à própria força. A idade de ferro traz um ser humano fadado ao sofrimento, com trabalho árduo e sem descanso. Entre a idade de bronze e a idade de ferro, Hesíodo fala da Idade dos Heróis, que, no dizer de Le Goff (1992, p. 295) seria uma distorção das idades míticas. Para o autor

se é certo que há deterioração contínua, da primeira à quinta raça, não só a quarta raça introduz uma descontinuidade nesta decadência, como permite supor a criação de uma raça melhor e depois da Idade do Ferro, a vinda de uma idade mais feliz, pois que Hesíodo se lamenta de "ter morrido muito tarde" ou "ter nascido muito cedo". Portanto, mais do que de um verdadeiro declínio contínuo, fala-se em Os trabalhos e os dias de um retorno à Idade do Ouro. Sabe-se que Hesíodo, longe de se entregar ao desespero nesta Idade do Ferro, exorta a uma vida de coragem e trabalho e, na primeira parte do poema, apresenta um outro mito, que não exalta o fiar niente da Idade do Ouro, mas sim a atividade criadora do homem, o mito de Prometeu. Note-se ainda que um elemento, que habitualmente faz parte da Idade do Ouro, aparece aqui na Idade dos Heróis o tema da Ilha dos Bem aventurados. Assim, o poema de Hesíodo apresenta distorções essenciais, quanto aos temas das Idades Míticas: quatro idades que são cinco, se assim se pode dizer; uma Idade do Ouro, um ciclo de decadência que conhece altos e baixos e não acaba, nem numa catástrofe final, nem num retorno ao tempo primitivo. E, se o tema da idade do ouro apresenta os caracteres habituais e correntes, os valores exaltados por Hesíodo estão mais marcados do que é habitual, pela ideologia e ética da Grécia arcaica: a fertilidade agrícola, a recusa do excesso (hybris) a piedade para com os pais, os hóspedes, os amigos e os deuses, a consciência individual (aidós), a justiça (dikê) e o bem (agathón).

Barros (2010, p. 186) aponta que o padrão mítico apresentado por Hesíodo não se trata de um caso isolado, várias outras sociedades produziram narrativas semelhantes, mostrando a degradação do ser humano, que o autor representa na seguinte ilustração:

Figura 4: um Mito de degradação humana
Figura 4: um Mito de degradação humana

7.2.

Ovídio

Para Le Goff (1992, p. 296), o ponto de chegada das idades Míticas de Hesíodo é Ovídio, principalmente com o livro I de Metamorfoses. O autor afirma que a difusão do texto de Ovídio durante a Idade Média e o Renascimento “assegurou a fortuna perene da concepção de uma felicidade primitiva, simbolizada, não por uma raça de ouro, mas, mais propriamente, por uma Idade do Ouro (aurea aetas) da humanidade. Diferente de Hesíodo, entretanto, Ovídio opõe somente duas idades, a de Ouro, da perfeição, da felicidade, e uma idade injusta, quando alguém comete o primeiro crime e leva a humanidade à perdição. Não há, no autor de Metamorfoses, o retorno á Idade do Ouro prevista por Hesíodo.

  • 7.3. A Teoria dos Ciclos

O que fica claro, tanto em Hesíodo como em outros escritores, como Heráclito e Empédocles, é a idéia de um eterno retorno à idade do Ouro, o que mostra um tempo cíclico, que se repete continuamente. O escritor romano Virgilio dá continuidade a essa idéia.

7.4.

Virgílio

Le Goff (1992, p. 301) aponta que o poeta romano faz uma descrição da idade do Ouro conforme já feita por outros poetas. Será um momento de perfeita paz e harmonia, no qual haverá abundância, saúde e prosperidade para todos.

  • 7.5. Platão e Aristóteles

Platão afasta-se das formas tradicional de lidar com as idades míticas, utilizando-se deles somente de forma literária, de modo a enriquecer seus textos. Ele fala de Atlântida, e cidade submersa, como exemplo da idade do ouro. Aristóteles, por sua vez, com sua visão sobre a eternidade do mundo, e a teoria dos ciclos cósmicos aliados à crença num tempo circular e no eterno retorno, poderia, na concepção de Le Goff (1992, p. 303-304) ter sido um apologista da idade primitiva e um defensor do seu retorno; nunca se encontra nele a idéia de um progresso linear, no universo cósmico ou no universo cultural, político ou moral.

O que se pode concluir é que as civilizações aqui rapidamente descritas acreditavam na possibilidade de um retorno a um tempo mítico no qual havia a perfeição e a felicidade eterna, e no qual o ser humano reencontraria a perfeição perdida.

REFERÊNCIAS

BARROS, José D’Assunção. “Os Tempos da História: do tempo mítico às representações historiográficas do século XIX”. Revista Crítica Histórica Ano I, Nº 2, Dezembro/2010. Disponível em: <http://www.revista.ufal.br/criticahistorica/ attachments/article/72/OS%20TEMPOS%20DA%20HISTORIA.pdf>. Acesso em: 21 de julho de 2011.

DISCOVERY CHANNEL. Disponível em: <http://www.discoverybrasil.com/egito/ mitos/index.shtml> Acesso em: 21 de julho de 2011.

LE GOFF, Jacques. História e memória.Trad. Bernardo Leitão. Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1992.

MARQUES, Juliana Bastos. O conceito de temporalidade e sua aplicação na historiografia antiga. Revista História, São Paulo, n. 158, jun. 2008. Disponível

OLIVEIRA, Paulo. “Mesopotâmia”. Disponível em: <http://pauloliveira.com/ MesopotamiaDiversos/Meso.htm> Acesso em: 21 de julho de 2011.

SOUSA, Rogério Ferreira de. “O Imaginário simbólico da criação do Mundo no antigo Egipto”. In.: DEPARTAMENTO de Ciências e Técnicas do Património, Departamento de História (org.). Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Amadeu Coelho Dias. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006. p. 313-334.