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CVA N IG UM ESTUDO SOBRE SEU PENSAMENTO POLITICO iia © 1989, Editora Campus Ltda. ‘Todos os direitos reservados e protegidos pela Loi 6388 de 14/12/73. Nenhuma parte deste livro, sem autorizago prévia por escrito da oditora, poder cer reproduzida ou transmitida sojam quais forem os pelos emprenados: eletrdnicos, mecénicos, fotograficos, gravacBo ‘ou quaisquer outros. Capa Otavio Studart Copy-cesk. Flavia Vasconcelos Composicao Editora Ubyassara Ltda. Revisto Peulo Henrique Brando Carlos Roberto de Garvalho Projeto Gratico Editora Campus Ltda. Qualidade internacional a servigo do autor @ do leitor nacional. Rua Bariio de Itapagipe 55 Rio Comprido Telefone: (021) 293 6443 Telex: (021) 32606 EDCP BR 20261 Rio de Janeiro RJ Brasil Enderego Tolegrafico: CAMPUSRIO ISBN 86-7001-587-9 Ficha Catalogrética CIP-Brasil, Catalogagdo-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Coutinho, Carlos Nelson, 1943- Gramsci: um estudo sobre seu pensamento politice / Carlos Nelson Coutinho. — Rio de Janeiro: Campus, 1989. Basoado no trabelho apresentado como requisito percial pare hebiltagio em con- curso para professor ttular no Dept® de Politica Social da Escola de Servico Social da UFRJ, marco de 1888, Bioliografia ISBN 85-7001-5e7-9 1. Gramsci, Antonio, 1891-1937. 2. Ciéncia politica. I. Titulo, cop — 923.2 320.5 ‘DU — 82GRAMSCI 321.6/.8 9392919089 987664321 NOTA PRELIMINAR s primeiros sete capitulos deste livro retomam a longa in- trodugao que escrevi para o volume sobre Gramsci da colegao “Fontes do pensamento politico”, Porto Ale- gre, LP&M Editores, 1981; 0 texto original foi revisto e ampliado em varios pontos, sobretudo no item relativo as concepcoes filos6- ficas de Gramsci. O Capitulo 8, inédito em portugués, foi publi- cado em espanhol, como concluséo ao volume Introduccién a Gramsci, México, Era, 1986, que reproduz a introdugao citada. O Capitulo 9, sobre Gramsci e o Brasil, apareceu pela primeira vez em italiano, em Critica marxista, ano 25, n?5, 1985, pp. 33-55, e€ Fepublicado aqui com algumas modificagoes. Nesta nova forma, o trabalho foi apresentado como requi- “sito parcial para habilitacao em concuirso para rofessor titular no partamento de Politica Social da Escola a Servico Social da siversidade Federal do Rio de Janeiro, realizado em marco de . A banca examinadora do concurso foi composta pelos Pro- 4 Francisco Weffort, Gelba Cavalcante Cerqueira, Luiz Vianna, Muniz Sodré e Octavio Tanni. Agradecgo-lhes idas e brilhantes observagées criticas feitas quando da de- do trabalho, bem como pela nota maxima que generosa- ie concederam. a via; Inspi seu ¢ na st esta das dem Abi Gra sua, seus con Len fori hes est int ali ou At alr INTRODUCAO J pprrcecsed sta exposigao do pensamento de Gramsci pretende analisar os pontos decisivos da formagio e sistematizagao de sua teoria politica. Assim, depois de abordar os “anos de aprendizado” (1910-1926), nos quais Gramsci assimila progressi- vamente os elementos essenciais da heranga de Marx e de Lénin, { procuro discutir os problemas metodolégicos centrais de sua obra da maturidade — os Cadernos do Carcere — e mostrar os tépicos concretos onde ele me parece estabelecer com Marx e Lénin nao uma telacdo de simples continuidade, mas uma auténtica relagao dialé- tica de conservac4o/renovagao. Finalmente, nos dois tiltimos capi- tulos, tento demonstrar a universalidade do pensamento gramscia- no, analisando nao apenas sua influéncia na reflexao marxista con- tempordnea, mas sobretudo a validade operatéria de muitas de suas categorias para uma anilise em profundidade da tealidade brasileira. Essa concentragao na teoria politica obrigou-me a deixar de lado, ou a tratar apenas marginalmente, muitos aspectos impor- tantes da reflexao gramsciana: bastaria recordar, como exemplos, suas andlises do vinculo entre literatura e sociedade, o conceito de cultura nacional-popular, as muitas observagées sobre questdes de educacio, etc. Tal concentracao me parece justificada, porém, pela propria estrutura interna da obra de Gramsci: como tentarei mos- trar, em particular no Capitulo 4, a politicaé.o panto focal de onde Gramsci analisa a totalidade da vida social, os problemas da cul- tura, da filosofia, etc. E, além disso, é na esfera da teoria politica— ou, de modo mais amplo, na elaboragao de uma ontologia mar- xista da praxis politica — que me parece residir a contribuigao es- sencial de Gramsci 4 renovagao do marxismo. Concordo com Umberto Cerroni quando ele diz que, “considerando atentamente a dramatica evolugio da teoria politica do socialismo no século XX, é forgoso reconhecer que somente } com Antonio Gramsci essa teoria alcancou uma elaboracao sufi cientemente afticulada, capaz de competir com a teoria politica + oficial. Seriaalsd,-entretanto, deduzir dessa justa constatagio.de carter hist6rico-universal a existéncia, na obra de Gramsci, de in- dicagées precisas ¢ completas-sobre.todos os problemas tedrico- politicos hoje enfrentados pelo movimento socialista de inspiragao marxista. Por isso, tentarei indicar brevemente, neste livro, os mo- mentos em que a reflexao gramsciana foi concretizada — conser- vada, mas também elevada a nivel superior — nao s6 na elaboragao teOrica de seus herdeiros mais ditetos, os marxistas italianos, entre os quais se destaca Palmiro Jogliatti, mas também na obra tardia de Nicos Poulantzas. Portanto, o reconhecimento da centralidade de Gramsci na construgao da teoria politica marxista nao deve levar a nenhuma nova € perigosa canonizagao, dogmatica\Nao existe “grams-\) cismo”, assim como nao existe “leninismo”, se com esses termos | se pretende indicar um conjunto de dogmas fixos e imutaveis, ob- fi tidos mediante a descontextualizacao e conseqiiente desistoriciza- cao de afirmagées literais dos dois pensadores revolucionariad Ja em 1923, Lukacs dizia: “Em questoes de marxismo, a ortodoxia se refere exclusivamente ao método”.? Esta observagio me parece in- teiramente valida também para Gramsci; e é por isso que 0 pre- sente livro atribui uma particular importancia & metodologia con- tida nos Cadernos do Carcere. Mas isso nao significa negar a extra~ ordinaria fecundidade teorica de muitas das categorias forjadas por Gramsci a partir de seu método, categorias cuja eficiéncia analitica transcende scu tempo e seu pais, como tento demonstrar, no ul- timo capitulo, ao analisar o caso brasileiro. Espero que este livro, apesar de suas limitagGes e lacunas, possa contribuir nao apenas para tornar mais clara a novidade das categorias de Gramsci no seio do pensamento marxista, mas também para ressaltar a necessi- dade de um 10 brasileiro de seu legado tedrico ¢ politico. NOTAS 1, Umberto Cerroni, Teoria politica e socialismo, Roma, Riuniti, 1973, p. 151. 2. Georg Lukacs, Storia ¢ coscienza di classe, ed. italiana, Milio, Sugar, 1967, p. 2. SUMARIO ey; Capitulo 1 e i UMA CONTRADITORIA FORMACAO JUVENIL: 1910-1918... Capitulo 2 : a CONSELHO DE FABRICA E DEMOCRACIA OPERARIA: 1919-1920 .... : Capitulo 3 TRANSICAO PARA A MATURIDADE: 1921-1926 . Da Fundacdo do PCI 2o Enfrentamento com o Fascismo O Combate Contra o Sectatistmo......c.scece re As Primeiras FormulagSes do Conceito de Hegemonia. Capitulo 4_ Z OBSERVACOES METODOLOGICAS SOBRE OS CADERNOS DO CARCERE........ er, A Universalidade Te6rica dos Cadernos. O Lugar de Gramsci na Evolucdo do Marxismo ‘ Gramsci Como Critico da Politica ne Sobte as Relagdes Entre Economia e Politica | As ConcepgGes FilosOficas de Gramsci .......e.escscsesesseses seers Capitulo 5 TEORIA “AMPLIADA” DO ESTADO | OConceito de “Sociedade Civil” .........1cse: | “Sociedade Regulada’’ ¢ Fim do Estado ... Capitulo 6 ‘ A ESTRATEGIA SOCIALISTA NO “OCIDENTE” . Guerra de Movimento e Guerra de PosicZo . é ea Da Proposta Gramsciana de Assembléia Constituinte a “Democracia Progressiva” de Togliacci Capitulo 7 ‘O PARTIDO COMO “INTELECTUAL COLETIVO” Este liv da hist Brasil. Gram: proble em te pensa pensa Ofere da rev revolt persp revel: a viaj Inspi seu c na st esta das ¢ dem Abi Gra: sua seus con Len, for heg est int Capitulo 8 jy A UNIVERSALIDADE DE GRAMSCI Capitulo 9 AS CATEGORIAS DE GRAMSCIE A REALIDADE BRASILEIRA _A “Revolucao Passiva” ¢ a Histéria Brasileira J O Transformismo ¢ 0 Fortalecimento do Estado... ee LA Teoria Ampliada do Estado ¢ 0 Brasil Contemporaneo ............ NOTAS BIBLIOGRAFICAS ... UMA CONTRADITORIA FORMACAO JUVENIL: 1910-1918 O aprendizado intelectual e politico de Gramsci nao comeca. em 1914, ano em que — estudante universitario em Turim, onde reside desde 1911 — ele ingressa numa organizacio juvenil do Partido Socialista Italiano. Nascido em 1891, na Sardenha, uma das regides mais atrasadas da Itdlia, Gramsci experimenta desde garoto as dificeis condigdes de vida das camadas mais baixas da populacdo italiana. Embora tenha cumprido brilhantemente os exames de admissao ao gindsio em 1903, Gramsci — por causa das dificeis condigées materiais de sua familia na época — nado pode prosseguir seus estudos; é obrigado a trabalhar durante dois anos, apesar de sua deficiéncia fisica (em conseqiiéncia de uma queda, quando tinha 4 anos, Gramsci tornara-se corcunda), numa reparti¢do. publica de Ghilarza, onde carrega durante dez horas por dia pastas de proce is pesados do que ele. Anos mais tarde, recordaria a injustiga de que fora vitima: embora fosse o melhor aluno da classe, nao pudera prosseguir seus estudos, ao contrario do que ocorrera com os maus alunos, que se valiam do fato de serem filhos das familias mais abastadas da regiao.! Finalmente, entre 1904 e 1908, gragas aos esforgos da mae e das irmas, Gramsci retoma os estudos e conclui 0 gindsio, resi- dindo (em condig6es extremamente precarias) na casa de uma camponesa em Santu Lussurgiu, a 15 quilémetros de Ghilar; onde entado residia sua familia. Data desse periodo seu primeiro contato com a imprensa socialista: seu irmao mais velho, Genna- ro, que emigrara para Turim, envia-lhe periodicamente 0 Avanti! “Orgio central do Partido Socialista Italiano (PSI). Para prosseguir seus estudos, Gramsci deslo 2 depois para Cagliari, capital da sardenha; I4 vive com Gennaro, que voltara de Turim e se tornara tesoureiro da Camara do Trabalho (uma espécie de coordena¢ao sindical em nivel municipal). Gramsci freqiienta reunides do mo- vimento socialista local, fortemente marcado, na época, por ten- déncias regionalistas e autonomistas. Numa redagao escolar sobre © tema “Oprimidos e Opressores”, datada provavelmente de no- vembro de 1910, o jovem sardo demonstra tragos de seu primeiro Este liv da hist Brasil. Grams proble em tet pensa: pensa Ofere da rev revolt persp revelz a vias Inspi seu c na st esta: das c dem A bi \ | Gra sua seus com len forr heg esti int ah oul aprendizado socialista. Depois de afirmar que as guerras e as conquistas ainda fazem parte da vida normal dos homens, e de insinuar que o povo sardo é um povo oprimido pelos italianos do Norte, Gramsci conclui com tons proféticos: “A Revolucdo France- sa abateu muitos privilégios, despertou muitos oprimidos; nao fez mais, porém, do que substituir uma classe por outra no dominio, Deixou, contudo, uma_grande ligao: que_os_privilégios so: sendo produto da sociedade ¢ nao da natureza, podem ser supe- rados, A humanidade necessita de um outro o de sangue para cancelar muitas dessas injusticas.”? Amadurece nele, nesse periodo, ao lado de uma profunda revolta contra as desigualdades sociais, um intenso sentimento regionalista. Seu primeiro artigo, de 1910, é publicado no jornal autonomista de Cagliari, Unione Sarda. Ja em Turim — onde, gragas a uma bolsa de estudos obtida em concurso, ingressa na Universidade com a intengdo de se formar em lingiiistica — Gramsci da sua adesdo ao “Grupo de Agdo e Propaganda Antipro- tecionista”, que congrega intelectuais mericlionalistas; torna-s também leitor assiduo do jornal LUnitd, dirigido pelo socialista meridionalista Gaetano Salvemini, cujo objetivo principal é a luta contra a politica protecionista aplicada entio pelo governo do liberal Giovanni Giolitti (1903-1913), politica que contava com o apoio tacito do grupo parlamentar reformista do PSI. §: i esld_convencido — uma convicg4o que Gramsci adotara e desen- volvera_nos anos subseqtientes — de que a politica protecionista € o instrumento de formagao de um bloco conservador, que une os industriais do Norte e os grandes latifundidrios do Sul, em detrimento sobretudo das populagdes camponesas meridionais. As medidas protecionistas, permitindo altas margens de lucro para os industriais do Norte, favorecem a politica de pequenas conces- 6s a setores operarios, praticada por Giolitti e referendada pelos reformistas. Gramsci toma-se um defensor do livre-cambismo, que ele julga ser um meio nao apenas de favorecer 0 desenvolvimento das forcas produtivas do Sul, mas também de quebrar a tentativa reformista de integracao do proletariado nortista (ou de sua cama- da superior) no bloco dominante.? O “sardismo” de Gramsci é assim, um dos principais pressupostos de seu anticapitalismo juvenil; mas é também, ao mesmo tempo, uma das fontes de sua aversao as concepgdes politicas e ideolégicas reformistas, bastante vivas no PSI de entao. Mas ha outra componente, talvez ainda mais decisiva, na formagao juvenil de Gramsci. Ingressando na Universidade, ele entra em contato com © movimento cultural idealista, dirigido sobretudo por Benedetto Croce e Giovanni Gentile, dois filésofos neo-hegelianos radicalmente contrarios 4 wadigao positivista que dominara, em fins do século XIX, nos meios culturais do norte da a didi pow 2 we Turall promeyal Ltr fo PSt + % Trumcy obuctlavien Quis ocllawduinute 0 Minoru Mrdulriod AWM bom conlig acltew 4 tues, wrvilevidmuds, Go Aouclar® ¥ Italia. (Essa hegemonia cultural do positivismo era resultado de uma mentalidace cientificista, ligada ao rapido desenvolvimento industrial daquela regiao italiana). Contra 0 evolucionismo vulgar, contra © cientificismo empirista e positivista, Croce e Gentile pre- gavam o valor de uma cultura filos6fica, humanista; contra o ape- go aos fatos, defendiam o valor do espirito, da vontade e da agdo. Nao € dificil, hoje, a distancia de tantos anos, avaliar clara- mente © carater problemitico e até mesmo antiprogressista e re: taurador do neo-hegelianismo italiano, que — como seu congéne- re alemao' — era muito mais um retorno ao moralismo abstrato de Kant e Fichte, com um forte matiz irracionalista, do que uma verdadeira retomada do historicismo dialético e concreto de Hegel. E assim com plena razéo que Francesco Valentini chama o renascimento do idealismo na Italia de “contra-reforma da dialé- tica”, observando que ele “se enquadra num movimento de restau- ragao cultural que continua ideologicamente a reagdo romantica. A polémica antipositivista, em nome da ‘dignidade do espirito’, fazia parte de preocupa¢des politicas provenientes do grande medo provocado pela Comuna de Paris e pelo crescimento do movimento socialista (...). Isso leva ao abandono de certas conquistas da filosofia hegeliana. Essencialmente, ao abandono dos resultados da polémica anti-subjetivista e, portanto, a graves lesdes no proprio historicismo.”> Desse modo, nao € por acaso que Croce, depois de um primeiro perfodo no qual se apresenta (sem nunca ter sido marxista) como o porta-voz do revisionismo de Bernstein e Sorel na Italia, se converte mais tarde num liberal antidemocratico e profundamente anticomunista; nem € por acaso que Gentile, apés uma interessante tentativa juvenil de_apresentar © marxismo como uma “filosofia da praxis’, adere de armas ¢ bagagens ao fascismo, tornando-se um dos principais idedlogos dotegine Aisssoliniano-Cdo_qual foi por Vv 38 Ministro da elementos problematicos j4 estavam contidos no neo- idealismo italiano na época em que o jovem Gramsci é por ele influenciado (embora 0 carater claramente restaurador do movi- mento s6 venha a se manifestar mais tarde). Contudo, o que entéo se destaca, pelo menos na “leitura” de Gramsci, é 0 elemento liberador, o elemento que acentua o papel da vontade e da acdo na transformagao do real, a recusa do fetichismo dos “fatos” e dozs mitos cientificistas, que levavam a um determinismo vulgar e fatalista. E esse determinismo vulgar havia se tornado, em grande parte, a ideologia oficial do socialismo italiano. Fundado tardiamente, Sr Seto ares 0 culto do cien- lificismo, vigente na cultura Durguesa progressista da Italia setentrional, com a interpretagdo estreitamente evolucionista e economicista do marxismo que vigorou na Segunda Internacional, 3 Este lis da hist Brasil. Gram: proble em te | pensa q pensa | Ofere da rev revolt / persp f revel: a viay Inspi seu c | nase | esta | das \ dem | A bi Gray sua seus con len fort hep. ent! int al em particular no Partido Social-Democrata Alemao, que havia se tornado rapidamente o partido-guia também dos. socialistas italianos. Nesse quadro, os importantes escritos filosficos do marxista Antonio Labriola (1843-1904) tiveram um destino singular: influ- enciaram fortemente as formulagdes dos jovens Croce e Gentile. mas foram pouco discutidos entre os socialistas. Afastado da acdo pratica do PSI (cujo ecletismo doutrinario Ihe provocava aversao), €, por isso, acusado de QNeASRo, Labriola nao pode quebrar a preponderdncia maci¢a no PSI do evolucionismo vulgar de tipo kautskyano, embora seus escritos revelassem uma concepcao original do marxismo, fortemente atenta a heranca hegeliana e dialética de Marx e Engels. Por outro lado, se sua posicao tedrica ia de encontro a ideologia dominante no PSI, suas colocagdes politicas — basta pensar, por exemplo, na defesa da ac4o colonial italiana na Libia punham Labriola no 4mbito da Segunda Inter- nacional; e isso dificultava a aceitagao de suas idéias pelos socia- listas mais radicais, que buscavam um novo caminho durante o periodo da Primeira Guerra. De qualquer modo, embora muitas de suas idéias filosOficas tenham chegado a Gramsci através de Croce e Gentile, nao parece ter sido muito grande a influéncia direta de Labriola na formagao juvenil do socialista sardo.° Assim, era dominante entre os dirigentes socialistas italianos uma concep¢ao positivista-evolucionista do marxismo; e essa con- cepgao servia como uma luva para justificar ideologicamente a pratica politica imobilista, fatalista, que predominava entao nas correntes em que se dividia a maioria do PSI. ‘Tal como Kautsky, © grande maitre a penser da Segunda Internacional, os principais ideGlogos do PSI entendiam a revolu¢ao proletdria como o resul tado de uma inexordvel lei do desenvolvimento econdmico: 0 progresso das forcas produtivas, agugando a polarizagio de classe e conduzindo a crises de tipo catastrofico, levaria fatalmente, em daclo momento, a um colapso do capitalismo, com a conseqiiente irrupgao da insurteicao proletaria, Enquanto isso, cabia ao prole- tariado fortalecer ao maximo suas organizac6ées e esperar pelo “grande dia”, a intransigéncia doutrinaria juntava-se uma posigao objetivamente passiva, de expectativa imobilista, O marxismo era interpretado como uma defesa dos fatos contra a vontade, da objetividade “natural” contra a subjetividade criadora. Ja no ano da fundacao do PSI, em 1892, Filippo Turati — que mais tarde se tornaria o lider da corrente reformista — afirma- va: “Muito depende das coisas, do ambiente, das circunstdncias; pouco, malgrado a ilusdo, deriva do propésito e do querer. Os fa- tos delerminam as idéias e subvertem as previsoes,” A complexa dialética de causalidade e teleologia (ou de determinismo e liber- dade), que esta no coracio da ontologia do ser social de Marx, era inteiramente abandonada. Nao era por acaso que Turati, de pleno acordo com Kautsky, defendia uma sintese entre marxismo ¢ darwinismo, base para a afirmacao de um evolucionismo vulgar e fatalista: “Marx @ precisamente o Darwin da ciéncia social. (...) Poder-se-ia dizer que a sua @ a doutrina da transformagdo das espécies histéricas anexada ao transformismo biolégico dos darwinistas.” E, no caso de Turati, o fatalismo aparecia como clara cobertura ideolégica para uma pratica reformista: “Os dois na- cleos [proletariado e burguesia]l se formam, e, 4 medida que o antagonismo se simplifica, ao mesmo tempo se acentua. No fim desse processo, temos a revolugao social. Nao tememos as refor- mas econémicas € politicas, porque o fundo de nossa doutrina é uma concep¢ao otimista. Pensamos que 0 rio desemboca fatal- mente no mar, As coisas nao se passavam diversamente entre os represen- tantes da corrente “maximalista” (assim chamados por serem defensores do “programa maximo”), verbalmente oposta refor- mismo, e que conquistara a diregdo do PSI em 1912. Giacinto Menotti Serrati, seu principal lider, declarava em 1919, revelando ter uma concepcdo do marxismo similar 4 de Turati: “Baseamos toda a nossa concepcdo maximalista na doutrina marxista e na sua interpretacdo mais rigida (quase diria sectaria). Negamos 0 yoluntarismo, tanto 0 anarquista quanto o reformista. NOs, mar- xistas, interpretamos a historia e ndo a fazemos, movimentamo- nos, ao longo do tempo, segundo a légica dos fatos € das coi: O industrialismo, 0 trustismo, 0 imperialismo, a guerra: eis os fatos burgueses que amadurecem o devir socialista,”* A comum interpretagao fatalista e positivista do marxismo condicionava a resposta s6 aparentemente diversa que reformistas © maximalistas davam a questao da luta pelo socialismo. Por um lado, os maximalistas limitavam-se a esperar passivamente a Hora- H, “o grande dia”, qae~chegariam trazidos “naturalmente” pela evoligae-ce-capitalismo; enquanto isso, tratava-se de evitar qual- @uer compromisso com a ordem vigente, empenhando todas as forgas numa acao de propaganda radical e intransigente; o resul- fado dessa posigéo era uma mistura de radicalismo verbal e de impoténcia pratica. Por outro lado, os reformistas — sem avalia- rem que a luta pelas reformas nao é um movimento unfvoco, mas um terreno dinamico de alternativas, onde a correlag4o de forcas pode se alterar tanto em favor do proletariado quanto da bur- guesia — limitavam-se a endossar as palidas reformas propostas pelas classes dominantes, na convicgao ingénua de que, mais dia menos dia, “o rio desembocaria no mar” (Turati), ou seja, o secialismo chegaria como que por milagre; e dai até confundir as WOprias reformas com o socialismo, 0 movimento com © objetivo nal, como ja o fazia Bernstein, era um passo, que Turati nao 5 S coprenetir = opm om rouabavry,Q Pyy7ac) ¢ x Le x sper. Prag apo YPMmas w wort r + vpvne sores) ae ae oy r vet 7 1 gpenrnor § + ‘ tardou em dar explicitamente. O abismo entre a tatica e a estraté- gia — a incapacidade de articular 0 objetivo final com a luta concreta para aproximar-se dele — refletia-se no falso dilema forma ou _revolueao”, na oposigdo/complementaridade de reboquismo reformista e de passividade maximalista. E como, na Ppratica, Os reformistas agiam e os maximalistas limitavam-se a fazer agitacao e propaganda, os primeiros — mesmo quando em minoria — eram na verdade os dirigentes do partido, sua corrente hegem6nica. Desde seu ingresso no PSI, Gramsci ndo se sente A vontade no ambiente determinado por esse falso dualismo. Decerio, ele simpatiza com o radicalismo dos maximalistas, mas nao aceita sua passividade e seu verbalismo vazio. E, se o meridionalismo anti- protecionista do jovem sardo o prepara para recusar o reform mo, OU seja, uma politica centrada nos interesses corporativos de uma restrita aristocracia Operdria nortista, sua bagagem idealista — a assimilagao do neo-hegelianismo de Croce e Gentile — vai lhe servir para denunciar e superar o positivismo fatalista que esta na base do imobilismo maximalista. © principal elemento dessa bagagem idealista do jovem Gramsci sao dois ensaios famosos, publicados em 1899, nos quais Gentile apresenta sua interpretacao do pensamento de Marx.” A partir de uma leitura das Teses sobre Feuerbach, Gentile tenta mostrar — opondo-se a interpretagao ja formulada por Croce!’ — que © essencial do pensamento de Marx nao é 0 determinismo econémico defendido pelos tedricos da Segunda Internacional (entre os quais Gentile inclui o proprio Engels), mas sim uma “filosofia da préixis”: uma concepgdo segundo a qual nio é a economia, mas sim a praxis humana, a vontade subjetiva, o verdadeiro motor da hist6ria. Decerto, a “leitura” de Gentile — acentuando unilateralmente 6 momento da vontade ¢ da subje- tividade — termina por reduzir a praxis a um ato moral, perdendo de vista a complexa articulagdo entre objetividade ¢ subjetividade, entre natureza e historia, entre teleologia e causalidade, articula- ¢ao que Marx afirma existir no trabalho econémico (no “metabo- lismo entre 6 homem e a natureza”) e, conseqtientemente, nas formas superiores de praxis, que t@m no trabalho sua célula e seu modelo. Pode-se dizer, assim, que a “filosofia da praxis” que Gentile atribui a Marx tem mais a ver com o idealismo subjetivo de \Fichte, com a dialética abstrata do Eu e do Nao-Eu, do que coma dialética materialista do autor de O Capital. Mas, de qual- quer modo, sua colocag4o chamava a atengao para um aspecto decisivo do pensamento marxiano — a centralidade da praxis na construgao do ser social —, aspecto que havia sido inteiramente negligenciado pelo marxismo da Segunda Internacional.” Gentile antecipa, de certo modo, uma “leitura” do marxismo que vai ter 6 seus exemplos maiores, em 1923, em Marxismo e Filosofia, de Karl Korsch, € sobretudo em Hist6ria e Consciéncia de Classe, de Georg Lukdes, (Nao é aqui o lugar para mostrar como essa obra de Tukaes, embora contenha também elementos idealistas, é muito mais conereta ¢ profunda que a de Gentile.) Tracos da interpretagao de Marx por Gentile estao presentes em_toda_a“pradugaa_gramsciana_dof Assim, ja artigo de 1914, Gr i historia como criagao do préprio espirito."’ E, em abril de 1917, saudando os eventos russos, nao hesita em ver na revolucdo proletaria a realizacio do imperativo categérico kantiano: “E esse © fenémeno mais grandioso que um dia o operar humano produ- ziu. O homem maffeitor comum tornou-se, na revolugao russa, homem tal como Emmanuel Kant, o teorizador da moral absoluta, havia pregado; o homem que diz: a imensidade do céu fora de mim, 0 imperativo de minha consciéncia dentro de mim. E a libertacdo dos espiritos." Na agao dos bolcheviques, com os quais simpatiza imediatamente, Gramsci enxerga a plena realizagao de sua visto do marxismo, uma visao radicalmente antipositivista € ‘intievolucionista, mas nao isenta de fortes tragos de idealismo subjetivo e de yoluntarismo: “Lénin e seus companheiros bolche- viques esto convencidos de que é possivel realizar 0 socialismo 4 qualquer momento, Sado alimentados pelo pensamento marxista. S40 revolucionarios, nado evolucionistas. E o pensamento revolu- clonario nega o tempo como fator de progresso. Nega que todas 48 experi€ncias intermediarias entre a concepgao do socialismo e sua realizagdo devam ter no tempo e no espago uma comprova- ¢o integral. Basta que essas experiéncias se realizem no pensa- Mento para que sejam superadas e se possa seguir em frente.” Vissa_mescla_de_antipositivismo e yoluntarismo, que € 0 trago. eSpecifico do marxismo juvenil de Gramsci, éncontra sua forma *cldssica”-no-célebre-artigo “A Rev ao contra ‘O Capital’: ao Mostrarem que a vontade humana, “plasmadora da realidade objetiva’, € o verdadeiro motor da hist6ria, os bolcheviques ferlam superado o economicismo, pois “eles vivem o pensamento Murxista, o que ndo morre nunca, o que @ a continuagao do pensamento idealista italiano e alemao, e que em Marx se havia Fontaminado de incrustracdes positivistas e naturalistas.”!® Na atividade socialista desenvolvida por Gramsci até a Re- Yolugio de Outubro, um lugar de excepcional importancia cabe 46 trabalho cultural e de educacao, a luta para preparar as Pondicdes subjetivas da praxis revolucionaria. Gramsci est4 con- Vericido, como diz em janeiro de 1916, de qué “toda revolu¢ao foi Pieeedida por um intenso trabalho de critica, de penetragao cul- fiival, de permeacao de idéias em grupos de homens antes refra- Tiflos © que sO pensavam em resolver dia a dia, hora a hora, por u Este li da his Brasil Gram probl em te pens: pens: Ofer da re revol pers} revel avia Insp seu! nas si mesmos, seus proéprios problemas econdmicos e politicos.”!” A batalha cultural, a preparacao ideolégica organizada, aparece ao jovem Gramsci como um meio privilegiado para romper com a falsa alternativa entre reformismo inécuo e maximalismo vazio. A cultura lhe aparece, conforme podemos ver na tiltima citagdo como um meio privilegiado de superar o individualismo, de des. pertar nos homens sua consciéncia universal, E a batalha das idéias liga-se ainda no jovem Gramsci a uma concep¢ao integral ampla, do socialismo: “Os socialistas — diz ele em 1917 — nao devem substituir uma ordem por outra. Devem instaurar a ordem em si, A maxima juridica que querem realizar é: possibilidade de realizacdo integral da propria personalidade humana como algo concedido a todos os cidadaos.”"* E quando, no mesmo ano, ele propoe a fundagao de uma Associacao Socialista de Cultura, que em seu entender iria completar a frente da luta operaria (que é unilateral se se limitar apenas as batalhas econdmicas e€ politicas) afirma: “O socialismo 6 uma visdo integral da vida: tem uma filo- sofia, uma_mistica, uma moral.” E é interessante registrar que tanto Serrati, lider dos maximalistas, quanto Amadeo Becisanee mais tarde confluira com Gramsci na fundag’o do Partido Co- munista, combatem duramente o projeto gramsciano_de fundar associacoes culturais socialistas, considerando-o um projeto ide lista, uma perda de tempo. 7 eae Mas Gramsci nao desiste e, com alguns amigos, funda em fins de 1917 — fora dos quadros do PSI — um “Clube de Vida Moral”, um grémio destinado a promover debates intelectuais que eduquem moral ¢ culturalmente Os jovens socialistas. Os debates — orientados por Gramsci — destinavam-se quase sempre a desenvolver a personalidade moral dos integrantes do clube contribuindo para que superassem o individualismo e adquirissem uma consciéncia do valor da solidariedade humana. Gramsci via esse desenvolvimento da personalidade como um pressuposto ético do socialismo integral que queria construir. Numa carta que dirige ao pedagogo Giuseppe Lombardo-Radice (de orientacdo gentiliana), para solicitar-lhe conselhos, Gramsci mostra que concebe 0 “Clube de Vida Moral” como uma alternativa pratica ao verbalismo dos maximalistas: “Em Turim, acreditamos que nado basta a pregacao verbal dos principios e das maximas morais que deverao necessariamente se instaurar com o advento da civiliza- Ao socialista. Buscamos organizar essa pregacao: dar exemplos novos (para a Italia) de associacionismo."?> Nessa experiéncia do “Clube de Vida Moral”, Gramsci reve- la, ao mesmo tempo, os pontos fortes e as debilidades de sua con- cepcao si lista da época: por um lado, ainda concebe de modo idealista, moralista, os fundamentos da educagdo e da praxis so- cialistas (basta recordar que um dos principais textos discutidos 8 no “Clube” sao as maximas morais do estéico romano Matco- Aurélio); mas, por outro lado, revela uma justa preocupacdo com ‘os elementos culturais que fazem parte da luta pelo socialismo, o qual nao se esgota nas transformagoes econdmicas e politicas. O socialismo é também a criagdo de uma nova cultura, sem o que nao podera realizar plenamente suas potencialidades: e essa ¢ uma idéia que Gramsci jamais abandonard, como podemos yer em suas reflexes carcerarias sobre a importancia de uma “refor- ma intelectual e moral”, da luta pela hegemonia. Além disso, a idéia de que nao bastam as pregagdes verbais, de que é preciso comecar a construir as bases do socialismo j4 antes da tomada. do poder — uma idéia que ganhara tragos concretos na epoca do L'Ordine Nuovo, como veremos —, indica a ruptura objetiva de Gramsci com a impoténcia maximalista, com o adiamento de uquer medida conereta para depois da revolugao, embora ele qua fragdo maxima- continuasse formalmente ligado, nessa €poca, a lista no interior do PSL Podemos agora propor alguns elementos para um balango. A formagao juvenil de Gramsci teve 0 mérito de livré-lo dos im- passes positivistas e fatalistas que paralisavam o PSI de seu tem- po; de prepard-lo para uma concep¢ao mais rica _e articulada do socialismo (concebido também como ao de uma nova cultura e de um homem novo); de evitar sua passagem pela ideologia deformante da Segunda Internacional; e de tornar mais facil sua compreensdo da dimensao universal de Lénin e da Reyolucdo Soviética. Mas teve também — e dai seu ‘carater contraditorio — aspectos negativos, alguns dos quais, certamente minimizados ou parcialmente corrigidos continuaram a se manifestar até nos esctitos do carcere. Refirome, sobretudo, ao fato de que o carater marcadamente idealista dessa formagao afastou Gramsci de uma anilise mais detalhada das transformagdes econdmicas por que passava seu tempo: seu marxismo juvenil revela-se impermeavel a compreensao profunda da importancia do momento econémico, , de modo mais geral, do momento da causalidade, do determi- pismo, para uma anilise efetivamente dialética do ser social. A in- {ransigéncia moral, por outro lado, leva-o a perder de vista, nessa fase de sua evolucao, as necessirias mediagdes exigidas pela acao politica; o justo combate ao reformismo faz com que ele defenda tum “tudo ou nada” que, por vezes, aproxima-o perigosamente da eriticada passividade maximalista: “Ou tudo ou nada, diziamos. E 4 guerra nos deu razao, Ou tudo ou nada deve ser nosso programa de amanha, © golpe de porrete, nao o desgas piciente e metédico: A falange irresistivel, ndo a luta de toupeiras fim trincheiras fétidas.”2 Se nos lémbrarmos de sua concep¢ao ® Madura sobre a “guerra de posigoes”, sobre a nec ssidade de uma Jonga luta para conquistar as trincheiras da soci dade civil, . ")