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Ação declaratória de constitucionalidade e

semiótica jurídica: uma nova visão da


supremacia constitucional

Silvia Regina Pontes Lopes

Sumário
1. Intróito: uma delimitação epistemológica
do tema. 2. O sistema jurídico sob uma
perspectiva semiótica. 2.1. Os conceitos de
validade e sua tradicional função sintática.
2.2. O ordenamento jurídico como sistema
proposicional nomoempírico prescritivo. 3. O
papel da Constituição numa visão semiótica: a
supremacia constitucional absoluta como ideal.
4. A ação declaratória de constitucionalidade:
uma concretização da realidade semiótica do
Direito. 4.1. A inconstitucionalidade da ADC e
sua extensão semiótica. 4.2. Processo abstrato e
objetivo versus princípio do contraditório: uma
discussão sintático-semântico-pragmática.
4.3. Do efeito vinculante: tentativa de diminui-
ção da diversidade semântico-pragmática do
Direito. 4.4. O sentido jusfilosófico da discussão
dogmática. 5. Conclusão.

1. Intróito: uma delimitação


epistemológica do tema
As teorias tradicionais que analisam o
Direito enquanto subsistema social confe-
rem uma abordagem restrita acerca do
tema, procurando imputar-lhe ora uma
extensão exclusivamente lógica, ora tão-
somente pragmática, dissociando o logos
e a praxis jurídica, como se aspectos
necessariamente antagônicos de um
mesmo fenômeno fossem.
A criação de abstrações pela tradicio-
Silvia Regina Pontes Lopes é graduanda
em Direito da Universidade Federal de nalíssima abordagem lógica do Direito
Pernambuco e pesquisadora bolsista (CNPQ/ parece ser, segundo alguns, a única possi-
PIBIC) na área de Teoria Geral do Direito e bilidade de conferir-lhe uma análise
Direito Constitucional. científica, ao passo que, para outros, apre-
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senta-se inútil a tentativa de compreensão linguagem jurídica apenas no século XVI,
sistemática do fenômeno jurídico pela sim- sendo popularizado por Christian Wolf e
ples razão de ser o Direito um fenômeno so- tornando-se um termo técnico-jurídico
cial, condicionado, portanto, tão-somente às apenas no século XIX. Como bem observa
noções de vontade e efetividade. Tércio Sampaio Ferraz Júnior, “a bem da
A elaboração de teorias jurídico-cientí- verdade, pode-se falar, por exemplo, em
ficas restritas ao âmbito do logos foi respon- ordenamento jurídico na Roma Antiga,
sável pela criação de verdadeiros mitos mas o sistema do direito romano é uma
principiológicos, tal como a idéia de com- criação do século XIX”1. O Direito encara-
patibilidade necessária entre os elementos do como sistema mostra-se, assim, a maior
normativos, da qual proveio o dogma da contribuição do Jusnaturalismo Moderno,
supremacia constitucional absoluta. desencadeador do processo de racionali-
Diante desse panorama, a transposição zação e formalização do Direito, o que
das noções da semiótica (ciência que tornou possível a realização, no século
estuda os signos) para a compreensão do XIX, da chamada positivação jurídica, no
fenômeno jurídico mostra-se instrumen- sentido de que as normas valem juridi-
talmente propícia à análise do Direito em camente enquanto frutos de um processo
sua amplitude lógica e prática, ao conside- decisório por meio do qual os valores e
rar-se o ordenamento jurídico como aspirações sociais são filtrados 2.
linguagem (prescritiva), detentor, portan- Apesar da equivocidade, o termo
to, de uma dimensão sintática (relaciona- “sistema” assume um significado-base:
mento da norma com os demais elementos conjunto de elementos que formam um
normativos do ordenamento), semântica todo unitário. Essa unidade é, freqüente-
(perquirição do significado da norma e de mente, analisada sob o paradigma da
seu objeto) e pragmática (relacionamento validade. Tal termo é doutrinariamente
da norma com seus emitentes e destina- abordado sob diversos ângulos, que par-
tários), reciprocamente condicionantes. tem de um pressuposto comum, qual seja:
À luz da semiótica jurídica, analisar- relação. Dessa forma, algo não vale por si
se-á, portanto, o fenômeno do Direito, só, mas vale frente ou em relação a algo.
conciliando-se seus elementos essenciais, A validade, numa visão semiótica, pode
o logos e a praxis, a fim de rever-se o ideal ser encarada sob as perspectivas sintática,
já arraigado, no senso comum acadêmico, semântica e pragmática. A maioria dos
da supremacia constitucional em termos juristas são adeptos a teorias exclusivistas
absolutos, demonstrando-se a completude acerca do conceito de validade, analisando-
de uma teoria semiótica do Direito para a a, freqüentemente, apenas sob um aspecto
compreensão de controvérsias dogmá-
lógico-sintático: válido é o elemento
ticas, particularmente da ação declara-
relevante frente ao sistema e com ele
tória de constitucionalidade, instituto do
compatível, e conferindo-lhe a função
Direito Positivo brasileiro, que expressa
principal de garantia da unidade do
claramente essa realidade semiótica.
sistema jurídico.
Essa unidade do sistema condicionada
2. O sistema jurídico sob uma
à validade em sentido sintático de seus
perspectiva semiótica elementos está, contudo, intimamente
relacionada à falsa concepção de que a
2.1. Os conceitos de validade e sua
coerência ou compatibilidade é caracte-
tradicional função sintática
rística essencial de qualquer sistema 3 .
A visão do fenômeno jurídico como Necessário se faz, portanto, distinguir-se
sistema é tendência moderna. Na verdade, as diversas espécies de sistemas, analisan-
o vocábulo “sistema” passou a integrar a do-se, particularmente, o sistema jurídico.
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2.2. O ordenamento jurídico como sistema endem, dessa forma, as ciências causais
proposicional nomoempírico prescritivo (naturais e sociais), bem como as norma-
tivas, referentes indiretamente a dados
Os sistemas podem ser classificados em
reais por meio da descrição do conteúdo
reais (empíricos) ou proposicionais (nomoló-
de normas (morais, religiosas, jurídicas,
gicos ou nomoempíricos) conforme decorra
etc.). Apesar do caráter de compatibilidade,
sua unidade, respectivamente, da maneira
são sistemas que se caracterizam pelo
por meio da qual seus elementos rela-
fechamento sintático e pela abertura semân-
cionam-se ou da existência de um funda-
tica e pragmática, por serem condicionados
mento comum para todos os elementos
pela experiência (praxis).
integrantes do sistema 4 .
Os sistemas nomoempíricos prescri-
Os sistemas empíricos são formados
por elementos físicos, sociais e psíquicos tivos assumem, a seu turno, uma função
que se relacionam pelo princípio da de direcionamento da conduta humana (não
causalidade. Seus elementos vivem em de seu conhecimento ). Suas proposições
constante conflito, o que não prejudica a pretendem ser válidas, porém não verda-
unidade do sistema, proporcionada pela deiras, sendo, não raras as vezes, contra-
interação causal de seus componentes. A ditórias entre si, por estarem condiciona-
sociedade é um típico exemplo de sistema das a regras de incorporação e expulsão
empírico. Os si stemas proposicionais que, em geral, não atuam concomitan-
nomológicos caracterizam-se, a seu turno, temente. A compatibilidade entre seus
pela completude e coerência. São sistemas elementos, portanto, não é essencial5 .
ditos axiomáticos, posto partirem de uma O ordenamento jurídico é um sistema
proposição que vale independentemente proposicional nomoempírico prescritivo.
de qualquer comprovação fática, a partir Assim, como todos os sistemas proposi-
da qual se pode inferir, por um processo cionais normativos, “a coerência é tão-só
lógico de dedução, todos os demais elemen- um ideal racional, fundado na exigência
tos, possuindo, dessa forma, a nota de de segurança”6. Tal se dá em virtude de
fechamento . Assim, possuem extensão sua extensão semântico-pragmática (con-
meramente sintática, pois, pragmati- teúdo normativo indeterminado e plura-
camente, caracterizam-se por uma neutra- lidade de aplicadores), que possibilita a
lidade axiológica, sendo, semanticamente, existência de regras de admissão e de
indeterminados. São, portanto, os sistemas rechaço 7 das normas, regras essas que não
lógico e matemático. possuem, devido à referida extensão, os
Por outro lado, os sistemas nomoem- mesmos suportes fáticos. É possível, desta
píricos referem-se, direta ou indiretamen- forma, que uma norma integre o ordena-
te, a objetos reais, daí estarem em perma- mento jurídico sem ser coerente com o
nente contato com a praxis, possuindo, sistema (válida), dele sendo expelida
assim, as três dimensões semióticas. São apenas quando da incidência de normas
de dois tipos: sistemas teoréticos (descri- de rechaço (pronunciamento judicial,
tivos) ou sistemas normativos (prescritivos). verbi gratia ). A visão do ordenamento
Os primeiros assumem uma função gno- jurídico como um sistema formado neces-
seológica, pois analisam as formas de sariamente de elementos compatíveis
relacionamento entre dados reais, regen- entre si decorre da análise do sistema sob
do-se pelo princípio da verdade. Suas uma ótica exclusivamente lógico-sintática,
proposições são, assim, necessariamente em que reina o princípio da não-contra-
compatíveis, dada a impossibilidade de dição. A existência de contradição é um
duas afirmações antagônicas serem conco- dado empírico, essencial a uma aborda-
mitantemente verdadeiras. Compre- gem semiótica do Direito.
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A ocorrência de contradições não real, apenas neutralizada, em definitivo ou
prejudica, contudo, a concepção siste- não, pelo pronunciamento de algum órgão
mática do ordenamento jurídico, pois estatal11 .
sua unidade deve-se a um fundamento
comum sobre o qual todas as normas se 3. O papel da Constituição numa visão
assentam. Baseando-nos no brilhante semiótica: a supremacia constitucional
entendimento de Marcelo Neves, a uni- absoluta como ideal
dade torna-se possível pela existência de
Numa visão exclusivamente sintática
um núcleo normativo originário, que deter-
do ordenamento jurídico, a unidade do
mina os órgãos ou fatos produtores de
sistema jurídico manifesta-se estrutu-
normas jurídicas e compõe um complexo
ralmente por meio da noção de hierarquia
normativo originário , instituído por um entre os elementos normativos intras-
Poder Constituinte ou por fatos costu- sistemáticos fundamentada na noção de
meiros. Assim, distinguem-se as noções de validade: estabelece-se a superioridade
pertinência e validade8: toda norma válida (material e formal) de uma norma frente
pertence a um determinado ordenamento a outra, retirando cada uma delas seu
(ou existe frente a ele, como diria Pontes fundamento de validade da eminen-
de Miranda9), mas nem toda norma perti- temente superior. No topo da pirâmide
nente é necessariamente válida10 . O que hierárquica, localizar-se-ia a Constituição,
possibilita a qualificação de uma norma norma suprema, fundamento mediato ou
como jurídica, ou seja, o que permite sua imediato de validade de todas as normas
inserção no mundo do Direito é a concre- infraconstitucionais.
tização de um suporte fático suficiente A tríade unidade – hierarquia – supre-
para a produção de uma norma jurídica, macia é clamada pela teoria constitucional
isto é, a obediência ao núcleo normativo tradicional em termos absolutos, pois se
originário. Dessa forma, uma norma per- desconsideram os aspectos semântico e
tence ao ordenamento jurídico quando pragmático do ordenamento jurídico.
emana do órgão ou fato reconhecido pelo Trata-se de resquício da não-separação dos
sistema como produtor de normas jurídicas. planos da validade e da existência dos atos
A expulsão da norma do sistema se dá jurídicos. Entretanto, sob uma perspectiva
pela aplicação de regras de rechaço que semiótica,
solucionam, mediata ou imediatamente, “a unidade do ordenamento jurídi-
as antinomias intrassistemáticas, quer pela co é puramente sintática, ou seja,
incidência direta de um elemento do decorre da vinculação, direta ou
próprio ordenamento que a solucione, indireta, de todas as normas do
como, por exemplo, o princípio lex superior sistema ao núcleo normativo origi-
derogat inferiori, lex posterior derogat priori nário (...). A diversidade de matérias
ou lex specialis derogat generali – situação reguladas pelo ordenamento jurídi-
na qual as antinomias são chamadas de co impossibilita-lhe a unidade se-
aparentes –, quer por meio da necessidade mântica (...). Também inexiste uni-
de realização de um certo procedimento dade do ponto de vista pragmático,
para expurgar a norma do ordenamento o que resulta da pluralidade de
jurídico, como o que ocorre, verbi gratia, interesses e fins dos emitentes e
com o caso de normas inconstitucionais, destinatários”12 .
que, apesar de constituírem, sob um ponto Dentro dessa perspectiva, a suprema-
de vista lógico, conflitos que podem ser cia constitucional deverá ser compreen-
solucionados pelo princípio da lex superior dida em termos relativos. Considerando as
derogat inferiori, são uma antinomia dita noções nevianas de núcleo normativo
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originário e de pertinência, não podemos hierarquia deve ser, portanto, entendida
chegar a outra conclusão senão a de que a como o dever de se expurgar da ordem
Constituição como complexo normativo jurídica aquela lei inconstitucional em
originário, produto de um poder consti- obediência à Constituição.
tuinte ou de um fato costumeiro consti- A supremacia constitucional é, dessa
tuinte e instituidora, portanto, dos centros forma, relativa. Caso se a tenha por
de irradiação normativa, determina o absoluta, faz-se em nome do ideal de
critério de pertinência e, mediata ou segurança jurídica, da certeza de que os
imediatamente, o de validade dos ele- direitos nela consagrados serão sempre
mentos normativos, assegurando, portan- respeitados, embora, sob um ponto de
to, a unidade sintática do ordenamento vista pragmático, poderão não sê-lo. Tal
jurídico. supremacia relativa não implica, contudo,
O núcleo normativo originário, presente o ingresso definitivo da norma inconsti-
na Constituição, determina os centros de tucional no sistema, nem que serão os
emanação normativa, estando o produto efeitos por ela produzidos definitivamente
dessa atividade amparado pela presunção mantidos, mas tão-somente a possibili-
de constitucionalidade, motivo pelo qual dade de sua inserção aliada ao concomi-
essas normas, por irradiarem desses tante dever de expulsão.
centros normativos, ingressam no ordena-
mento, podendo servir de ponto de partida 4. A ação declaratória de
na argumentação dogmática e, assim, constitucionalidade: uma concretização
produzir efeitos jurídicos até que não da realidade semiótica do Direito
sejam expelidas do sistema pela eiva de
invalidade. A norma, nesse caso, pertence 4.1. A inconstitucionalidade da ADC e sua
ao ordenamento jurídico, mesmo sendo extensão semiótica
contrária material e/ou formalmente à
Constituição, podendo produzir os respec- Abordar o ordenamento jurídico numa
tivos efeitos jurídicos. perspectiva semiótica nos leva a uma
Segundo Pinto Ferreira, “as regras visão mais abrangente da realidade jurí-
constitucionais são dotadas de uma hie- dica, considerando sua extensão sintática,
rarquia profunda com relação às demais pragmática e semântica. A visão do
normas jurídicas. Essa hierarquia se ordenamento jurídico como um complexo
justifica a fim de melhor manter a estabi- lingüístico prescritivo implica uma clara
lidade social do grupo, estabelecendo-se compreensão da multiplicidade significa-
um sistema de preceitos básicos a que se tiva de seus institutos, sem que se carac-
submete a conduta coletiva”13. Ao afirmar terizem tais fenômenos como aberrações
que a Constituição detém uma “hierarquia jurídicas, destruição da Constituição ou
profunda”, bem destacou o fundamento ameaças ao Estado Democrático de Direito.
axiológico para o qual tal posicionamento Entre inúmeras questões dogmáticas
se presta, a saber: o de “garantia de que revelam essa extensão semiótica do
estabilidade social do grupo”. Tal “hierar- ordenamento jurídico, destaca-se a discus-
quia profunda” não pode ser concebida, são acerca da constitucionalidade da ação
entretanto, em termos de hierarquia declaratória de constitucionalidade (ADC),
absoluta, no sentido de se afirmar que uma controvérsia que já ensejou a propositura
lei inconstitucional não existe para o de ação direta de inconstitucionalidade
Direito, que nunca ingressou no ordena- (ADIn n. 913-3) 14 e que, apesar de não
mento jurídico, sendo incapaz de produzir mais possuir extensão judicial, em virtude
efeitos jurídicos. A “profundidade” da de decisão vinculante do Supremo Tribunal
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Federal a favor da constitucionalidade do nentes: autor, réu e juiz, concebendo a
instituto15, não perdeu, doutrinariamente, existência necessária de uma lide material
suas dimensões semântico-pragmáticas, subjacente à relação processual 18 . Em
sendo significativa, portanto, para a combate a tal concepção, encontram-se
compreensão do fenômeno jurídico. juristas como Jean-Claude Béguin19, para
A ação declaratória de constituciona- quem existem processos, denominados
lidade foi introduzida no art. 102, inc. I, abstratos, que, por não envolverem inte-
alínea a, de nossa Carta Magna, encon- resses particulares, mas sim um interesse
trando-se também regulada nos seus arts. geral e comum na apreciação da questão
102, § 2º, e 103, § 4º. Atribui-se ao STF acerca de um direito objetivo e não subje-
competência para julgá-la e aos elencados tivo, dispensam um pólo passivo na
no art. 103, §4º, da CF/88 legitimidade ad relação processual e, por conseguinte, a
causam para propô-la. Nos termos do instauração de um contraditório, consti-
art. 102, § 2º, as decisões definitivas de tuindo, assim, processos objetivos.
mérito dessa ação terão eficácia contra Frente ao silêncio de nossa Consti-
todos e efeito vinculante relativamente tuição quanto ao pólo processual passivo
aos demais órgãos do Poder Judiciário e em ADC 20 , o STF extraiu a tradicional
ao Poder Executivo. Diferentemente da distinção supra do âmbito meramente
ADIn, não se prevê qualquer encarregado doutrinário, conferindo-lhe uma ampli-
de impugnar a demanda em sede de ADC. tude sintático-normativa essencial para
É essa uma das principais razões pelas justificar a constitucionalidade de um
quais certos juristas afirmam tratar-se de processo sem réu na ADC, argumentando
dispositivo sui generis, embora entendam que, por ser ela um instrumento de con-
alguns ser essencialmente a mesma ação trole de constitucionalidade abstrato,
direta de constitucionalidade16 . deveria ser julgada em processo objetivo,
Concebida por muitos como a “ação que dispensaria a instalação de um
das ações”17, é alvo de incessantes discus- contraditório 21 .
sões: à medida que se elogia sua criação Por outro lado, argüíram seus oposi-
em prol da certeza, da segurança e da tores a impropriedade da extensão sintá-
isonomia das decisões judiciais, afirma-se, tico-normativa da referida distinção, em
por outro lado, ofender os princípios face da garantia do art. 5º, inc. LV: estar-
constitucionais da separação dos poderes, se-ia ocultando, na verdade, a discussão
do contraditório e da ampla defesa, do juiz de inúmeros direitos subjetivos, sob a
natural, do acesso à justiça, do princípio justificativa de que se colocaria em pauta
do devido processo legal, além de compro- apenas um direito objetivo, desconside-
meter o controle difuso de constituciona- rando-se que, ao analisar-se certo direito
lidade. Observam-se, dessa forma, inter- objetivo, discute-se, igualmente, direitos
pretações sistemáticas divergentes acerca subjetivos dele decorrentes, por serem
do relacionamento da ADC com cláusulas ambos faces de uma mesma moeda 2 2 .
constitucionais pétreas, o que revela uma Ademais, a averiguação da inconstitucio-
extensão semântica controvertida. nalidade de um ato normativo referir-se-
ia igualmente a um caso concreto, qual seja:
4.2. Processo abstrato e objetivo versus
ao(s) ato(s) que gerou(ram) a norma e não
princípio do contraditório: uma discussão
à norma em si, tendo em vista que uma
sintático-semântico-pragmática
das principais funções da Constituição é
A teoria clássica do processo, desen- o de prestar-se à condição de estatuto
volvida por Liebman, afirma ser a relação jurídico do sistema político, impondo
processual integrada por três compo- limites à ação dos poderes 23. Assim, devido
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à existência de interesses contrapostos na ao Poder Legislativo confere-se a função
questão de constitucionalidade, seria precípua de elaborar as leis, pressupõem-
necessária a instauração de contraditório, se que sejam elas constitucionais: tal
sendo, portanto, inconstitucional a ADC presunção juris tantum de constituciona-
por não prevê-lo. lidade das leis seria, portanto, ilidida,
transformando-se o Poder Judiciário em
4.3. Do efeito vinculante: tentativa de chancelador da atividade legislativa. Para
diminuição da diversidade semântico- certos juristas, a ADC não está contra a
pragmática do Direito presunção de constitucionalidade norma-
Outro ponto extremamente controver- tiva, mas sim a favor de tal presunção,
tido, nesta matéria, refere-se à vinculação tendo em vista que se pretende a declara-
à decisão do STF, em sede de ADC, dos ção vinculativa da constitucionalidade,
demais órgãos do Poder Judiciário e do que deverá ser observada pelos órgãos do
Poder Executivo, pois se, por um lado, Poder Judiciário e Legislativo.
argumenta-se que a vinculação veio em Outrossim, afirma-se restringir a ADC
nome da segurança e da celeridade das o direito de ação, garantido no art. 5º, inc.
decisões jurídicas, por outro, afirma-se XXXV, da CF/88, pois os indivíduos
ferir diversos princípios constitucionais, ficariam inibidos de defender seu interesse
que nos propomos a, em breve, analisar. jurídico por decisão preestabelecida, a cujo
Argumenta-se que a ação declara- processo não tiveram o menor acesso.
tória de constitucionalidade fere o Contrariamente, clamam alguns já ter o
princípio da separação dos poderes Judiciário, por meio do STF, apreciado a
garantido nos arts. 2º e 60, § 4º, inc. III, da questão constitucional, devendo ser
CF/88, porquanto analisada a lesão ou ameaça de direito
“declarar a constitucionalidade nos pela instância inferior à luz da norma
moldes previstos na ação é, em estabelecida pelo STF.
última análise, legislar. Instaurar-se- Outro argumento utilizado para im-
ia uma espécie de ‘dependência’ pugnar a ADC consiste na alegação de que
entre Legislativo e Judiciário, pois o comprometeria o controle difuso de
mesmo faria a lei sob condição; constitucionalidade, pois os juízes não
aguarda-se a chancela, o crivo do mais poderiam apreciar a constituciona-
Judiciário” 24 . lidade da lei ou ato normativo federal com
Em contraposição, outros defendem não base em sua livre ciência e consciência,
dever o referido princípio ser conside- bem como nas situações materiais do caso
rado com toda sua rigidez semântica: concreto. Alega-se, em contraposição, não
conceber-se-ia, atualmente, não uma ser o controle difuso uma garantia consti-
separação absoluta de poderes, mas sim tucional, mas sim uma mera previsão
uma esfera de distribuição de função. Não constitucional25, decorrente mais precisa-
ocorreria ofensa ao princípio em questão, mente do art. 102, inc. III, da CF/88, não
pois o Poder Judiciário atuaria conforme havendo de vislumbrar-se afronta à
sua função de guardião da Constituição Constituição brasileira.
conferida pela própria Carta Magna, em
4.4. O sentido jusfilosófico da
consonância com o objetivo de imprimir
maior eficácia ao controle constitucional discussão dogmática
por ele realizado. Diante de argumentos tão convin-
Alega-se, igualmente, a violação do centes, quanto contraditórios, que refle-
princípio da presunção da constituciona- tem a plurivocidade semântica dos insti-
lidade das leis, argumentando-se que, se tutos jurídicos e suas repercussões prag-
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máticas, coloca-se em questão a noção de 5. Conclusão
supremacia constitucional em termos
Uma visão semiótica do Direito possi-
absolutos, pois, na análise supra, observa-
bilita a reunião do logos e da praxis em uma
se que tanto os argumentos a favor da
teoria coerente e capaz de explicar as anti-
constitucionalidade da ADC quanto os
nomias inerentes a qualquer sistema jurí-
contra são dogmaticamente plausíveis,
dico, por conferir-lhe uma tríplice aborda-
embora cheguem a conclusões diame-
gem sintática, semântica e pragmática.
tralmente opostas.
Como uma entre tantas antinomias
Sob a ótica dos opositores da ADC que
reais do ordenamento jurídico brasileiro,
elegem a compatibilidade e, por conse-
elegeu-se, para comprovar a extensão
guinte, a supremacia constitucional abso-
semiótica do Direito, a controvertida ação
luta como características do sistema
declaratória de constitucionalidade, que,
jurídico, estar-se-ia frente a uma contra-
já tendo sido apreciada pelo Supremo
dição insuperável: a verificação da inser-
Tribunal Federal por meio dessa mesma
ção definitiva, em virtude da decisão
vinculante, de instituto de controle da ação, arraigou-se em nosso sistema jurí-
constitucionalidade inconstitucional no dico como instituto constitucional.
sistema jurídico significaria, em princípio, Observou-se que o ser ou não constitu-
cional a ADC deve ser compreendido
uma verdadeira aporia frente a uma teoria
lógico-sintática do Direito. semioticamente, ou seja, com a observação
São dois, basicamente, os possíveis da extensão semântico-pragmática do
caminhos para a superação dessas incon- sistema jurídico, pois se, para uns, é
gruências numa perspectiva lógica: um instituto perfeitamente compatível com a
completo alheamento da realidade fática, Constituição, militando a favor da segu-
construindo-se, assim, uma teoria cientí- rança e da celeridade do Direito, para
fico-jurídica estruturalmente organizada outros, está eivada de inconstitucionali-
como um sistema proposicional nomoló- dade por violar cláusulas pétreas.
gico, inadequada, portanto, para a análise Constata-se, assim, que a supremacia
do Direito, enquanto fenômeno social da Constituição é relativa, tanto em
(sistema proposicional nomoempírico virtude da verificação de antinomias reais
prescitivo), ou a aceitação, a título precário no sistema fruto da distinção entre regras
e excepcional, de “concessões sociológicas” de admissão e de rechaço, quanto pela
na teoria jurídica, o que refletiria, na extensão semântico-pragmática do orde-
verdade, uma necessidade de reformu- namento jurídico, que permite a alega-
lação teórica26 . bilidade judicial de normas de constitu-
Semioticamente, entretanto, a “incon- cionalidade duvidosa.
gruência” em questão seria meramente Tais possibilidades, entretanto, não
virtual, tendo em vista que se considera ilidem a concepção estrutural sistemática
como pressuposto, na elaboração de uma do Direito, que não possui como funda-
teoria científica do Direito, suas extensões mento de unidade (sintática) a noção de
semântico-pragmáticas, concebendo-se, validade (compatibilidade em todos os
portanto, como situação cientificamente níveis normativos), mas sim um núcleo
justificável – como de fato o é, se analisar- normativo originário (segundo expressão
mos inúmeros outros institutos jurídicos neviana), ou seja, um centro normativo
tidos por inconstitucionais – a inserção de constitucionalmente qualificado e enca-
tão controvertido instrumento de controle rado como suporte fático suficiente para
de constitucionalidade no ordenamento o ingresso da norma no ordenamento
jurídico brasileiro. jurídico.
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Notas autonomizado a ADC frente à ADIn. Cf. MENDES,
Gilmar Ferreira. A ação declaratória de constituciona-
1
FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao es- lidade: a inovação da Emenda Constitucional n. 3, de
tudo do Direito: técnica, decisão e dominação. 3. ed. São 1993. In: MARTINS, Ives Gandra, MENDES, Gilmar
Paulo : Atlas, 1990. p. 166. Ferreira. Ação declaratória de constitucionalidade. São
2
Cf. ADEODATO, João Maurício. A legitimação Paulo, Saraiva, 1996. p. 51-106.
pelo procedimento juridicamente organizado: (notas à 17
SLABI FILHO, Jagib. Ação declaratória de constitu-
teoria de Niklas Luhmann). Revista da Faculdade de cionalidade. Rio de Janeiro, Forense, 1994. p. 21.
Direito de Caruaru. Caruaru, a. 22, n. 16, 1985. p. 70-78. 18
Cf. CINTRA, Antônio Carlos, GRINOVER, Ada
3
Cf. NEVES, Marcelo. Teoria da inconstitucionali- Pellegrini, DINAMARCO, Cândido. Teoria Geral do Pro-
dade das leis. São Paulo : Saraiva, 1988. p. 23-27. cesso. 13. ed. São Paulo, Malheiros Editores, 1996. p. 288.
4
Cf. VILANOVA, Lourival. As estruturas lógicas e o 19
Segundo o jurista: “l’audition des représentants des
sistema do direito positivo. São Paulo, Revista dos Tribu- organes constitucionnels intéressées en raison de leur
nais, 1977. passim ; Cf. NEVES, Marcelo. Idem, passim . participation à l’élaboration ou à l’application de la norme,
5
Cf. NEVES, Marcelo. Idem, p. 21-23. Ainda ne saurait avoir pour conséquence de donner la qualité de
segundo o autor: “o ordenamento jurídico constitui, partie dans une procédure qui n’en connaît pas”. BÉGUIN,
do ponto de vista semiótico, um complexo sistema de Jean-Claude. Le contrôle de la constitutionnalité des lois en
linguagem, sendo-lhe característica, portanto, a République Fédéral d’Allemagne. Paris, 1982. p. 61.
existência de três dimensões básicas: a sintática, a 20
Expôs o Ministro Relator da ADI n. 1-1 – DF: “o
semântica e a pragmática”. silêncio da Emenda Constitucional n. 3 a esse respeito,
6
NEVES, Marcelo. Idem, p. 3. não obstante tenha incluído um §4º no art. 103 da Carta
7
Cf. ALCHOURRÓN, Carlos E., BULYGIN, Magna, é um silêncio eloqüente, a afastar a idéia de
Eugenio. Introduccíón a la metodolgia de las ciencias que houve omissão, a propósito, por inadvertência”.
jurídicas y sociales. Buenos Aires, Atenco, 1974. p. 119. 21
No relatório da ADC n. 1.1 – DF, posicionou-se o
8
Cf. NEVES, Marcelo. Op. cit., p. 21-25. Ministro Moreira Alves: “A ação declaratória de cons-
9
Cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Caval- titucionalidade insere-se no sistema de controle em
canti. Tratado de Direito Privado. T. 3. Rio de Janeiro, abstrato da constitucionalidade de normas, cuja
Borsoi, 1954. passim . A noção de existência introduzida finalidade única é a defesa da ordem jurídica, não se
pelo douto jurista limitou-se ao estudo da teoria dos destinando diretamente à tutela de direitos subjetivos.
fatos jurídicos. Por isso mesmo, deve ser necessariamente estruturada
10
Abordamos o tema, em “Breves digressões lógicas em um processo objetivo”.
sobre as noções de validade e existência na teoria do
22
Adota-se, nesse ponto, a teoria kelseniana que
fato jurídico” (Estudantes – Caderno Acadêmico. a. 2, n. 4, supera a dicotomia “direito subjetivo versus direito
Recife, jul./ dez. 1998), passim), criticando a noção de objetivo”: “dizer que este indivíduo ‘tem’ um direito
existência/pertinência, mas nos limitando, conscien- subjetivo, isto é, um determinado poder jurídico,
temente, a uma análise meramente lógica do fenômeno significa apenas que uma norma jurídica faz de uma
de incidência. conduta deste indivíduo, por ela determinada,
11
Cf. BOBBIO, Noberto. Teoria dell’ordinamento pressuposto de determinadas conseqüências”
giuridico. Torino, Giappichelli, 1958. p. 95-96. (KELSEN, 1997, p. 152).
23
Fundamenta-se o argumento na concepção de
12
NEVES, Marcelo. Op. cit., p. 26.
Hans Kelsen, para quem: “(un proceso) es bueno por
13
PINTO FERREIRA, Luis. Princípio da suprema-
exponer claramente la real situación de los intereses. Pero
cia da constituição e controle da constitucionalidade
tudo esto no se puede ver si se oculta la oposición dada de
das leis. Revista de Direito Público . São Paulo, a. 4, n. 17,
intereses mediante la ficción de un interés general o de una
set. 1971. p. 17. unidad de intereses” (KELSEN, 1995, p. 42).
14
A Associação dos Magistrados Brasileiros, 24
FIGUEIREDO, Marcelo. A ação declaratória de
apoiada pela Ordem dos Advogados do Brasil, constitucionalidade – inovação infeliz e inconstitu-
ingressou com esta ação, cujo mérito não foi conhecido cional. In: MARTINS, Ives Gandra da Silva, MENDES,
por falta de legitimidade ativa ad causam. Gilmar Ferreira. Ação declaratória de constitucionalidade.
15
A constitucionalidade da ADC foi declarada em São Paulo, Saraiva, 1996. p. 155.
sede da ADC n. 1-1 – DF. 25
Tal argumentação fundamenta-se na distinção de
16
Gilmar Ferreira Mendes defende estar a referida Nélson Nery Jr. entre previsão constitucional e garantia
ação implícita no nosso ordenamento jurídico, posto constitucional aplicada especificamente quanto ao duplo
ter admitido o STF, no tocante à antiga representação grau de jurisdição. Afirma o jurista: “não havendo ga-
interventiva, que o Procurador-Geral da República rantia constitucional do duplo grau de jurisdição, mas
interpusesse esta ação para depois requerer sua mera previsão, o legislador infraconstitucional pode li-
declaração de constitucionalidade. O mesmo raciocínio mitar o direito de recurso”. NERY JR., Nélson. Princípios
seria, então, pertinente frente à ação direta de inconsti- do Processo Civil na Constituição Federal. 4. ed. São Paulo,
tucionalidade, tendo apenas a referida emenda Revista dos Tribunais, 1997. p. 164.

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26
A famosa teoria pura kelseniana vislumbrou teoria de Niklas Luhmann). Revista da Faculdade
estas “concessões sociológicas” ao desenvolver a teoria de Direito de Caruaru. Caruaru, Faculdade de
da recepção (Kelsen, 1997, passim). Direito de Caruaru, a. 22, n. 16, 1985. p. 67-92.
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dade n. 1- 1 – Distrito Federal (relatório) In :
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