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Os fantasmas da América Latina* Anibal Quijano ‘A regio que hoje chamamos de América Latina foi se constituindo com e como parte do atual padrlo de poder do- rminante no mundo. Aqui se configuraram e estabeleceram a colonialidade e a globalidade' como fundamentos e mods for- madores do novo padrio de poder. Daqui partiu 0 processo histérico que definiu a dependéncia histérico-estrutural da ‘América Latina e deu lugar, no mesmo movimento, & const tuigho da Europa ocidental como centro mundial de controle esse poder. Enesse mesmo movimento definiram-se também ‘osmovos elementos materiaise subjetivos que fundaram o modo de existéncia social que recebeu o nome de “modernidade”, Em outros termas /a América Latina foi tanto 0 espago a como o tempo inaugural do peradohistric edo mundo que ainda habitamos] Nesse sentido espeiico, foi a radu: Olga Caatecio " Sobre eats eategorisy, remeto a Anibal Quijno,“Coloiidad del poder, curocntien y America Latina, em Edgardo Lander (org), Calo ‘Sir eacetrioo cit sce enon Are ClacsrUnesc, 200) pp. ote se; "Coloialidod del pode, globauasén y demecaci em Instituto ‘de Altos Eataion Internacionales Pedro Gus! (og), Tendencies sas de ruse ec (Caracas: Istituto de Altos Estudios Ineacionaes Pero Gea 2000, pp. 2-65, wadugio brasileira "Caonilidade, poder, loblizago ¢ ‘Como nesta ocasiso nao seria pertinente ir mais longe, nem mais fundo, acerca dessa questdo especfica, permitam- me apenas recordar que se trata, primeiro, da desintegragio dos padroes de poder e de civilizagio de algumas das m: avangadas experiéncias histéricas da espécie. Segundo, do exterminio fisico, em pouco mais de trés décadas, as primei- ras do século XVI, de mais da metade da populagio dessas sociedades, cujo total imediatamente antes de sua destruio estimado em mais de 100 milhSes de pessoas. Tereiro, da eliminagio deliberada de muitos dos mais importantes pro- dutores, nao apenas portadores, daquelas experiéncias, seus * As impliagdes do atu movimento cultural «politico das “indigent fmericanossko dscutidar com Anibal Qujana, "O "movimen ndige eas ‘quests pendentes na América Latina”, em Palla Exter 126 So Pala Thotituto de Estudos Econdmicos Ineracionie da Universidade de Si fms a AmdresLntine dirigentes, intelecuais, engenheiros,cientistas, artistas. Quar- to, da continuada repressio material e subjetiva dos sobrevi- ventes, durante 0s seguintes séculos, até submeté-los condi ‘¢i0 de camponeses iletrados, explorados ¢ culturalmente colonizados e dependentes. Ou seja, até o desaparecimento de qualquer padrio livre e auténomo de objtivacio de idéias, imagens, simbolos. Em outras palavras, de simbolos,alfabe- to, escrita, artes visuais, sonoras e audiovisuais. ‘Uma das mais ricas herangas intelectuais e atistcas da espécie no s6 foi destruida, como também e sobretudo sua parte mais elaborada, mais desenvolvida e avangada ficou ina- cessivel para os sobreviventes desse mundo. Mais adiante, e até no ha muito, esses sobreviventes no poderiam ter ou pproduzir sinais e simbolos proprios senio nas distorcées da clandestinidade ou nessa peculiar dialética entre a imitagio e a subversio, caracteristia do conflito cultural, prineipalmen- te nas regides andino-amazénica, meso e norte-americanas.* A produgio de um novo padrao de poder. Raga e dominacio social global Esse labirinto, contudo, estava apenas comesando a ser edificado, Entre os escombros desse prodigioso mundo em estruigdo, e com seus sobreviventes, foram produzidos, no ‘mesmo movimento histérico, um novo sistema de domina- * ate esa proposta tic, ver Anal Quin, “Coleiaidad del poder, al "ay conacmiento en Arica Latina" em Aare Maritain, Lima, 198 pp. 13-122. Ese esto eat reproduside em vais pubbage coma, por exemple, Waller Migolo (org) Catalan y eooliie de oncinete (Goenos Aires: Ediciones del SignDuke University 2000), pp. 117153. cio social e um novo sistema de exploragio social. E, com eles, um novo padrio de conflito. Enfim, um novo e histor camente especifico padrio de poder. Onovo sistema de dominagao social teve como elemento fundamental a idea de raca. Essa é a primeira categoria socal da modernidade” J4 que nio existe previamente ~ nio hi rastros eficientes dessa existéncia -, nio tinha entio, como tampouco tem agora, nada em comum com a matrilidade do universo conhecido. Foi um produto mental e socal pecifico daquele processo de destruigio de um mundo hist rico e de estabelecimento de uma nova ordem, de um novo padrio de poder, e emergiu como um modo de naturalizagio das novas relagSes de poder impostas aos sobreviventes desse mundo em destruigio: aidéia de que os dominados s50 0 que so, ndo como vitimas de um conflito de poder, mas sim como inferiores em sua natureza material e, por isso, em sua capa ‘cidade de producio histérico-cultural. Essa idéia de raga foi tho profunda e continuamente imposta nos séculos seguintes sobre 0 conjunto da espécie, que para muitos, lamentavel- ‘mente muitos mesmo, ficou associada nao s6 i materialidade das relagbes sociais, mas & materialidade das préprias pessoas. Avastae plural histéria de identidades e memérias (seus rnomes mais famosos so conhecidos de todos: maias, astecas, ineas) do mundo conquistado foi deliberadamente destruida, ea toda a populacio sobrevivente foi imposta uma tinica iden- tidade, racial, colonial e derrogatéria ~ “indios". Assim, além da destruigio de seu prévio mundo histérico-cultural, a esses Sabre ease questo, ver Anibal Quijan fe Immanuel Wallerstein, “Ameicnity| Soa Concept or the Arenas inthe Ndern World-Sytem™ oh (x fntumas da Amir Latina povos foi imposta a idéia de raa e uma identidade racial, como emblema de seu novo lugar no universo do poder. E, pior, durante quinhentos anos foram ensinados a se olhar com 0 colho do dominador, De modo muito distinto mas nio menos eficaz e perdu- ravel, a destruigio hist6rico-cultural e a produgio de identi- dades racializadas teve também entre suas vitimas os hak tantes seqilestrados ¢ traidos, desde o que hoje chamamos de Africa, que, escravos, foram racializados como “negros”. Eles provinham também de complexas ¢ sofisticadas experiéncias de poder e de civilizagio (ashantis, bacongos, congos, iorubas, ‘ulus, ete). E, embora a destruigso daquelas mesmas socie~ dades tenha comecado muito mais tarde, nio aleangando a amplitude e a profundidade a que chegou na América ("Lati- na”), para esses seqiiestrados ¢ arrastados 4 América, © desarraigamento violento e traumatico, a experiéncia e a vio- léncia da racializagio e da escravidao implicaram, obviamen- fe, uma no menos maciga e radical destruigao da prévia sub- jetividade, da prévia experiéncia de sociedad, de poder, de universo, da experiéncia prévia das redes de relagdes prima- Flas e societdrias. E, em termos individuais e de grupos especi- ficos, muito provavelmente a experiéncia do desarraigamento, da racializagao e da escravidao pOde ser, talvez, até mesmo mais perversa e atroz. que para os sobreviventes das “comu- nidades indigenas”. ‘Ainda que agora as idéias de “cor” e de “raga” sejam virtualmente intercambiaveis, essa relago entre ambas é tar- dia: vem desde o século XVIII e hoje testemunha a luta social, ‘material esubjetiva por elas. Originalmente, desde o momento, inicial da Conquista, a idéia de raga 6 criada para dar sentido as novas relagdes de poder entre “indios” e ibericos, As vitic ‘mas originais, primordiais dessas relagies e dessa idéia, so, pois, 08 “Indios”. Os “negros”, como eram chamados os futu- 108 “africanos”, eram uma “cor” conhecida pelos “europeus” 1h milhares de anos, desde os romanos, sem que a iddia de raga estivesse em jogo. Os escravos “negros” nao serSo embu- tidos nessa idéia de raga sendo muito mais tarde, na América colonial, sobretudo desde as guerras civis entre 0s encomenders eas forgas da Coroa, em meados do século XVI" Mas a “cor” como sinal emblematico de raca nao hes sera imposta sendo desde bem entrado século XVIII e na drea colonial anglo- americana. E nela que nasce e se estabelece a idéia de “bran- co”, porque ali a principal populagio racializada e colonial- mente integrada, isto é, dominada, discriminada e explorada dentro da sociedade colonial anglo-americana, eram 0s “ne- 3103". Por outro lado, 0s “indios” dessa regido nfo faziam parte dessa sociedade e nio foram racializados, tendo sido coloni- zados ali s6 muito mais tarde. Como se sabe, durante o século XIX, depois do macico exterminio de sua populagio, da des- truigdo de suas sociedades e da conquista de seus territrios, ‘os sobreviventes “indios” serio confinados em “reserva” den- tro do novo pais independente, os Estados Unidos, como um setor colonizado, racializado e segregado? "Segundo documentos do Archivo Histérco dela Muniipaidad de Lima, Surante esras guerras no vice-reinado peruano, muitos ert "grr ‘Shegaramn a acupar porto de cheles militares, chegando » cape, © que rormalmente correspondia aes "fidalgo", membros da nobress da pons ‘Perinalar foram inclusive berados da escavidso as hore ds velet ncomenars: Depa de sua drtos chamado Paciicador, Pedro dels G0, romuigou amie draconians dat legislagGes colonial cna os et" Some punigi racial defntvs Sobre 2 formaso das iduias de “branco* e de “negro” como nomena sat” na fren colonial anglo-smeicana, ver prncpalmente Teodor: ADE, (0 fies de América Latina Em toro da nova idéia de raga foram se redefinindo & reconfigurando todas as formas e instncias anteriores de do- minago; em primeiro lugar, a de género. Assim, no modelo de ‘ordem social patriarcal, vertical e autoritirio, do qual eram portadores os conquistadores ibéricos, todo vario era, por de- finigS0, superior a toda mulher. Mas, a partir da imposicio e legitimagao da idéia de raga, toda mulher de raga superior se tomou imediatamente superior, por definicio, a todo vario de ‘raga inferior. Desse modo, a colonialidade das relagGes entre os sexos se reconfigurou em dependéncia da colonialidade das relagBes entre raas. E isso se associou & produgio de novas identidades histéricas e geoculturais originais do novo padrio de poder: “brancos”,"indios”, “negros”, “mestigos” Desse modo, fazia seu ingresso na histéria humana 0 primeiro sistema de classificagio social bisica e universal dos individuos da espécie. Nos termos do jargio atual, a primeira classificagao social global da histéria. Produzida na América, foi imposta ao conjunto da populagio mundial no mesmo curso da expansio do colonialismo europeu pelo resto do mundo. Desde entao, a idéia de raga, 0 produto mental origi- nal e especifico da conquista e colonizagao da América, foi imposta como 0 critério e © mecanismo social fundamental de classificacao social bisica e universal de todos 0s membros ‘The Invention ofthe White Race 2 vos. (Londres: Vers, 1994): « Matthew Frye Iscabson: Wiens of « Difrent Calor European migrants a he Alchemy of Race (CambridgerLondres: Harvard University Press 1998), ase a con Pleaidadese contradigten do processo de racaizaqio doe “negror” no tun: fo colonial anglo-americano, vr 0 sugestvo estado de Steve Martinot, The Rute of Raciantion Clem, tty, Governance (lad: Temple Press, 2003, de nossa espécie. De fato, durante a expansio do colonialismo ceuropeu, novas identidades histéricas, sociais e geoculturais serio criadas sobre os mesmos fundamentos. De um lado, a “indios", “negros", “brancos” e “mestigos” se acrescentario “amarelos”, “oliviceos” ou “azeitonados”. Por outro lado, co- ‘mesard a emergir uma nova geografia do poder, com sua nova nomenclatura: Europa, Europa ocidental, América, Asia, Afri a, Oceania, e de outro modo Ocidente, Oriente, Oriente Pri ximo, Extremo Oriente e suas respectivas “culturas”, “nacio- nalidades” e “etnicidades”. A classificagio racial, uma vez que se assentava num puro produto mental, sem nada em comum com nada no universe material, no seria nem sequer imaginavel fora da violencia da dominacio colonial. Mas o colonialismo é uma ‘experiéncia muito antiga. No entanto, s6 com a conquista ea ccolonizacio ibero-crista das sociedades e populagbes da Amé- rica, do século XV ao XVI, foi produzido 0 constructo mental de “raga”, Iso demonstra que nio se tratava de um colonialismo ‘qualquer, mas sim de um muito particular e especfico: ocor- ria no contexto da vitéria militar, politica e religioso-cultural dos cristios da Contra-Reforma sobre os muculmanos e ju- deus do sul da Ibéria e da Europa. E foi esse contexto que produziu a idéia de “raga”. ‘Com efeito, a0 mesmo tempo que se conquistava e co- lonizava a América, a Coroa de Castela e Aragio, jé no micleo do futuro Estado central da futura Espanha, impunha 20s -mugulmanos e judeus da peninsula Ibérica a exigéncia de um “certificado de limpeza de sangue” para ser admitidos como “cristios” e ser autorizados a habitar a peninsula ou viajar para a América. Tal “certificado” ~ & parte o fato de ser teste- (Os fontasmes da América Laing ‘munha da primeira “limpeza étnica” do periodo da colonial/ modernidade ~ pode ser considerado 0 mais imediato ante- cedente da idléia de raca, jé que implica a ideologia de que as idéias religiosas, ou mais geralmente a cultura, sio transmiti- das pelo “sangue”.”" ‘A experiéncia continuamente reproduzida das novas re- lagdes ¢ de seus pressupostos e sentidos, assim como de suas instituigBes de controle e conflito, implicava, necessariamen- te, uma auténtica reconstituicio do universo de subjetivida- de, das relagées intersubjetivas da populacio da espéc dimensio fundamental do novo padrio de poder, do novo mundo e do sistema-mundo que assim se configurava e de- senvolvia, Desse modo, emergia todo um novo sistema de dominagdo social. Especificamente, 0 controle do sexo, da subjetividade, da autoridade e de seus respectivos recursos € produtos mais tarde ndo estaré s6 associado, mas dependeré, antes de mais nada, da classificagdo racial, jé que o lugar, os papéis e as condutas nas relagées sociais, eas imagens, estere- Jtipos e simbolos a respeito de cada individuo ou grupo, em cada um daqueles Ambitos de existéncia social, estario mais adiante adscritos ou vinculados ao lugar de cada um na clas- sificagio racial (O novo sistema de exploracio social Em estreita articulagdo com esse novo sistema de domi- naga social e ao tempo de sua constituicao, foi também emer- Sobre esa questo, ver Anibal Quijano, “Rasa, eniay nein en Jong Carts Maristegitcuestionesablrtse, em Roland Forges (org), Jose Carlos ‘Marie y Europa lar desariniento (Lima: Amat, 1953) pp 166-87 Cite ines da Amie Latina gindo um novo sistema de exploracio social, ou, mais espe- Cificamente, de controle do trabalho, de seus recursos e produ- tos: fodos os mados historicamente conhecidos de controle do ta- balho ou de exploracto ~ escravidao, serviddo, pequena producdo ‘mercantil independente, reciprocidade e capital ~ foram associa- dos, articulados, num tinico sistema conjunto de produsio de mercadorias para 0 mercado mundial. Pela posicio dominante do capital nas tendéncias basicas do novo sistema, este teve desde 0 inicio, como tem hoje, caréter capitalista, Nessa nova estrutura de exploragio do trabalho e de istribuigdo de seus produtos, cada um de seus componentes € redefinido e reconfigurado. Em conseqiiéncia, socioligica e hhistoricamente, cada um deles é novo, néo uma mera exten- so ou prolongamento geografico de suas formas anteriores ‘em outras terras, Esse sistema tinico de produgio de merca- dorias para o mercado mundial, evidentemente, é uma expe- rigncia histérica sem precedentes, um novo sistema de con- trole do trabalho, ou de exploragio social ‘Tals sistemas de dominagio e de exploragio social, his- toricamente inéditos, precisavam um do outro. Um sem 0 ‘outro nio teriam se consolidado e reproduzido universalmente durante téo longo tempo. Na América, por isso mesmo, ou seja, dada a magnitude da violencia e da destruigéo do mun- do anterior, as relagBes entre os novos sistemas de dominacio ¢ de exploragio chegaram a ser virtualmente simétricas, ¢ a divisio social do trabalho foi por um bom tempo uma ex- pressio da classificagio racial da populagio. Em meados do século XVI, essa associagao entre ambos os sistemas ja estava claramente estruturada e se reproduziria durante quase qui rnhentos anos: os “negros” eram, por definigdo, escravos; 0s (0 anes de Amiri Latina ““indios”,criados. Os nao-indios e nlo-negros ~ amos, patroes, administradores da autoridade publica, donos dos beneficios. comerciais ~ eram os senhores que detinham o controle do poder. E, naturalmente, em especial desde meados do século XVIII, entre os “mestigos” era precisamente a “cor”, © matiz de “cor”, que definia o lugar de cada individuo ou grupo na divisSo social do trabalho, Colonialidade e globalidade no novo padrio de poder ‘Uma ver que a categoria raca era colocada como 0 crité- rio universal e bisico de classificagao social da populagao e & sua volta se redefiniam as formas anteriores de dominacio ~ ‘em especial entre sexos, “etnicidades”, “nacionalidades” & “culturas” -, esse sistema de classificagio social afetava, por efinigio, a todos e a cada um dos membros da espécie. Era 0 ceixo de distribuigdo dos papéis e das relacGes a eles associadas no trabalho, nas relagbes sexuais, na autoridacle, na produsao. eno controle da subjetividade. E era segundo esse critério de classificagao das pessoas no poder que se inscreviam entre toda a espécie as identidades histérico-sociais. Enfim, as iden- tidades geoculturais se estabeleceriam, também, em tomo de tal eixo. Emergia, assim, o primeiro sistema global de domi- nagio social historicamente conhecido: ninguém, em nenhum, lugar do mundo, poderia estar fora dele No mesmo sentido, uma vez que a divisio social do tra- balho ~ isto é, 0 controle e a exploragio do trabalho ~ consis- tia na associagio conjunta de todas as formas historicamente conhecidas em um dinico sistema de produgio de mercadorias para o mercado mundial, e em exclusivo beneficio dos controladores do poder, ninguém, nenhum individuo da es pécie, em nenhum lugar do planeta ficava & margem desse sistema, Poderiam mudar de lugar dentro do sistema, mas, 1do ficar fora dele. Emergia, pois, também o primeiro siste- ma global de exploragio da histéria: o capitalismo mundial Por outro lado, esse nove padrio de poder que se base- ava na articulagio dos novos sistemas de dominagio social ¢ de exploracio do trabalho se constitu um produto central da relaco colonial imposta na América Sem ela, sem a violéncia colonial, nao teria sido possivel a \egracdo entre esses novos sistemas, menos ainda sua pro- Jongada reprodugio. Assim, a colonialidade era ~ é ~ 0 traco central inerente, inescapavel, do novo padrio de poder que foi produzido na América. Nisso se baseava e se baseia sua globalidade. ‘e configurava como Eurocentralizacio do novo padrao de poder: capital e modernidade (© dominio colonial da América, exercido pela violéncia fisica © subjetiva, permitiu que os conquistadores/coloniza- dores controlassem a produgio des minerais preciosos (ouro ‘e sobretudo prata) e dos vegetais preciosos (no inicio, princ- palmente tabaco, cacau, batata), por meio do trabalho nio remunerado de escravos “negros” e de criados ou pedes “in- dios” e de seus respectivos “mestigos”. 70 0 fontoomar de América Latina ‘Talvez nio seja necessirio insistir aqui no processo histd- rico que permitiu aos grupos dominantes entre 08 colonizado- res a produgio de um mercado monetarizado e articulado re- gionalmente ao longo da Cuenca del Atlntico,* como um nove centro de troca comercial. Mas é provavel, por outro lado, que no seja intl fazé-Io considerando o fato de que, até a chama- da “revolugio industria!” no século XVII, a partir dessas regies (portanto, da Europa ocidental) no se produzia nada que ti- vesse importineia no mercado mundial. E que, em conseqiién- ia, fosse exclusivamente 0 controle colonial da América e do trabalho no remunerado de “negros” e “indios” produzindo rminerais e vegetais preciosos o que permitiy, aos que exerciam (© dominio entre os colonizadores, no 6 comecar a ter uma posisao importante no mercado mundial, como sobretudlo concentrar enormes beneficios comerciais e junto com eles tam- >bém manter dentro de seus proprios paises a remuneragio ost ‘mercantilizagao da forga de trabalho local Tudo isso implicou a ripida expansio da acumulagso capitalista nessas regides, permitindo inclusive que se apro- veitassem as inovacies tecnolégicas produzidas pelos escra- vos “negros” das Antilhas, para por em marcha o desenvolvi- mento da “revolugio industrial” no norte da futura Europa ocidental."' Somente sobre essa base a emergente Europa oci- dental podera depois partir para a colonizagao do resto do mundo e para 0 dominio do mercado mundial. * Relerese & rgido que englobs o aceane Atlintico nore, © goll do Ménico 0 mar do Caribe. (Not da tadutora) "VerDate Tami Though the Prim of Savery: Labor, Capital and Word Economy Woulder: Rowman and ited, 2000, esse modo, o capital como relaglo social de prostugio © exploragio pode se concentrar nessas regides e ser sua mar. ‘ca virtualmente exclusiva por um longo periodo de tempo, enquanto na América, como depois no resto do mundo colo- nizado, foram as relagoes de exploracio nio assalatiadas ~ escravidao, servidao e reciprocidade/tributacio ~ que a vie- léncia colonial manteve. Nao hé, pois, modo de nio admit que contra as propostas tedricas eurocéntricas 0 capital se desenvolveu na Europa no apenas associado, como também @ antes de mais nada apoiado nas demais formas de explora- do do trabalho e sobretudo na escravidio “negra”, que pro- duzia os vegetais preciosos, e na servidio “india”, produtora dos metais preciosos. Aqueles processos, na Europa, estiveram, como é bem conhecidlo, associados & produgio de uma nova estrutura lo- cal de poder, & reclassificagao social dos habitantes dessa re- gides, a conflitos de poder entre os dominadores sobre espe gos de dominagdo, o que incluia a Igreja, a conflitos de hhegemonia entre eles, a lutas religioso-culturais, ao dominio do obscurantismo religioso-cultural na Ibéria e & seculariza- cio das relagdes intersubjetivas no Centro-Norte da Europa. Nessas tiltimas regides, isso levou a tudo aquilo que, desde 0 século XVIII, se apresenta ao mundo como modernidade e marca exclusiva de uma nova entidade/identidade histérica que serd assumida como Europa ocidental. Com raizes que ja podem ser achadas nas utopias do século XVI, mas sobretudo com o debate filoséfico e tesrico- social do século XVII e com maior clareza no século XVII, a nova entidade/identidade que se constitui como Europa oc dental, jé sob 0 crescente predominio da regio Centro-Nor- n On fentumas ds Américain te, se assume e identifica como moderna, ou seja, como 0 que 1nd de mais novo e mais avangado na histéria humana. Eo sinal distintivo dessa moderidade da emergente identidade euro- péia ocidental é sua especifica racionalidade, ‘Sem a colonialidade do poder assentada na América, ou seja, sem a América, tudo aquilo no poderia ser explicado. No entanto, a versio eurocéntrica da modernidade esconde (ou distorce essa histéria, Porque é com a experiéncia histéri- cea que leva & formagio da América que se assentam na Euro- pa idéia e a experiéncia da mudanga, como um modo normal, nnecessério e desejivel da histéria; o abandon do imaginério de uma idade dourada num passado mitico em favor do imagi- nario do futuro e do “progresso”. E sem a América, sem con- tato e sem conhecimento de formas de existéncia social base- adas na igualdade social, a reciprocidade, a comunidade, a solidariedade social, entre algumas sociedades indigenas pré- coloniais, em especial na regio andina, nao se poderiam ex- plicar as utopias européias dos séculos XVI, XVII e XVIII, as quais, resimaginando, magnificando ¢ idealizando aquelas cexperiéncias indigenas, em contraste com as desigualdades do feudalismo no Centro-Norte da Europa, fundaram o ima: «gindrio de uma sociedade constituida em torno da igualdade social, da liberdade individual e da solidariedade social, como projeto central da modemidade e como cifra e compéndio de sua especifica racionalidade.” Em outros termos, do mesmo modo que para a centra- lizagio do desenvolvimento do capital, 0 papel central da ™ Sobre ete debate, vor Anibal Qu re Latina (Lima: Sociedad y Pol 1, Moder, Menta yup ew Ami 1988. tw de Amiri Latina Europa ocidental na produgio da modemidade era uma ex- pressio da colonialidade do poder. Ou seja, colonialidade e ‘modernidade/racionalidade foram desde o inicio, e nio dei- xaram de sélo até hoje, dois lados da mesma moeda, duas ddimensdes inseparaveis de um mesmo processo histérico.” Para a América e em particular para a atual América Latina, no contexto da colonialidade do poder, esse processo implicou que & dominagio colonial, &racializacio e &re-iden- tificag3o geocultural, 4 exploragio do trabalho gratuito, superpés-se a emergéncia da Europa ocidental como o centro de controle do poder, como 0 centro de desenvolvimento do capital e da modernidade/racionalidade, como a propria sede do modelo hist6rico avangado de civilizacio. Todo um mune do privilegiado que se imaginava, e se imagina ainda, autoconstituido e autodesenhado por seres da raga superior por exceléncia, por definiglo 0s tinicos realmente dotados da, ‘capacidade de obter essas conquistas. Desse modo, a partir de entio, a dependéncia histérico-estrutural da América Lati- nna ndo seria mais 86 uma marca da materialidade das relagbes, sociais, mas sim e sobretudo de suas novas relagées subjeti- vvas e intersubjetivas com a nova entidade/identidade chama- da Europa ocidental e a de seus descendentes e portadores, onde quer que fossem ¢ estivessem. I | | (0: oss da Amr Laing Os fantasmas da América Latina Nao deve ser, a esta altura do debate, dificil perceber por que e como a colonialidade do poder produziu o des/ tencontro entre nossa experiéncia histérica e nossa perspecti- 'va principal de conhecimento e, conseqiientemente, frustrou 1s intengBes de solucio eficaz de nossos problemas funda- mentais ‘A insohive condigio de seus problemas fundamentas foi povoando a América Latina de fantasmas Mstéricos muito specifica. No € me propésito desta ver identific-os, rmulto menos examina atdos, mas tenar tomar vsives os mais densos deles.Contudo, os fantasma tense prio ugar na hlstérae também sua préptiahstra. Desde a in- dependéncia e até fins do sdculo XIX, sem divide os mais persistentes e densos fantasinas que nos habitavam eram, sbretud, os de identidade e moderiade, Desde fins desse ‘culo, rmultos latinramericans comespram a perceber que ro era possivel desalojar ess fantasmas de nosso mundo sem democraca, ogo sm Estado-nagho moderno E, embo- ra separacioe a prolongada hostlidade entre os paises lat rovamericanostvessem quase enterado, durante o séeulo XD a proposta bolivariana de unidade e integracio, parece «que hoje ela ext reaparecendo com nova fre. Primeirrnen- te, pea conquistaecolanizacho pelos Estados Unidos da me- tude norte do México, mas expecatmente desde que, apts a derota da Espanhs, os Estados Unidos conquistram e colo rizaram Cuba, Porto Rico Flipinas e Guam e, com sua pol tka imperialitae expansionist, eclocaram de nov noi findriolatino-amercanoa questo da nidadee da interac. it ibs de Amrit Latina Desde a Segunda Guerra Mundial, a todas essas questies insoliveis se somou a do desenvolvimento, que apesar de apa- rentemente ter saido do debate nio deixou de estar presente no imaginério, estandoimplicta até mesmo como uma das pretensas bases de legitimidade da neoliberalizag3o nesses paises Pode-se, assim, assinalar que a identidade, a modernidade, 1 democracia, a unidade ¢ o desenvolvimento s8o os fantasmas que povoam hoje 0 imagindrio latino-americano, Com eles comecou a coabitar, desde o final do milénio passado ~ a ri- gor, desde que fizemos quinhentos anos ~, um novo e mais sombrio, definitivamente mais temivel: o da continuidade ou sobrevivéncia™ do préprio processo de produgio da ident dade latino-americana. Como esta implicito neste debate, a solugio dos proble- ‘mas inerentes a qualquer um deles implica, requer, a solugio de cada um dos demais. Essa condicdo os tornou até aqui invulneraveis a todas as tentativas de erradicé-los de nossa cexisténcia social cotidiana, uma vez que a hegemonia da pers- ™ Comegou,fnamene, um stve debate na Amésie Latina sobre significado ‘a expanaio de Des eoutonexbelecmentos mitares dos Estados Unidos evan armadas dense pais ee Itnoamericanas, muito especialmente tent da svias tennis de reneocoloniznio do mand, Inciada com Invaco e+ ocupaco do Imgue e do Alen. Adin lgumasprediies “Tineltemente resides svat rpidamente— nore conferna pubes em Universidade dos Estados Unidos, no final de 1992 aad Wit Latin Ames Strate? Fo publcads em portuts, com o lo de "A Amn Latin sre ives em Sie Pals et Pempeti, VI (2) So Paulo, Sead. 199, pp (em Cir 1, Rao de Janie, 1993: Vote! depols 9 ese ssunto ee “EL Tnbrito de América Latinas ;Hay otras saidas?™ em Revista nese de Economia y Ciencias Sie, 40 (1), Caracas, 2004, pp. 75-97 Hi tadugio ‘dese artigo pars 0 portuguts: Anibal Quan, “O Ibm da Arse Latin: ‘i outassalda?, em Theotonlo dos Santos (oor), Clo dimen {lentes (Sho Poul: PUCYLoyola/Reggen. 2008, pp. M2174, (0 fontanmen de Anti Latina pectiva eurocentrista de conhecimento levou a maioria, de ‘uma parte, a pensar tais problemas separados um do outro, € de outra, a tentar resolvé-los gradualmente e em seqiiéncia, E, por isso mesmo, a perceber as propostas e intengdes alter- nativas como meras “utopias” ~ no sentido pejorative do ter- ‘mo - € no como propostas de mutagio ou de producio de novos sentidas histéricos. Por tudo isso, tais fantasmas nos habitam entrelacados luns nos outros, inextricavelmente. E parecem estar sempre ali, Desse modo, acabaram se tomando familiares, na verda- de intimos, e fazem parte de nossa experiéncia e de nossas imagens. Seria possivel dizer, por isso, que agora sio virtual- ‘mente inerentes A materialidade e ao imagindrio de nossa. téncia histérica, Nesse sentido, formam o especifico né histé= rico da América Latina." Colonialidade, modernidade, identidade* Nao surpreende que a América admitisse a ideologia ‘eurocéntrica sobre a modernidade como verdade universal, ‘em especial até 0 comego do século XX, se se levar em conta Como enh Gordo consegulu corto anda e como ¢ provivel que ne- ‘ue o peruano fond Maria Argued. crlo que #6 pertinete cham de ni ™ Nesta ocsito me limitarel a propor a questo da ientdade e suas relies Com ada medemidade/racomaidade Minhas proporas nove ae questes da Semocracia edo moderno Estadornagdoe sobre as do desenvolvimento € sho podem ser encontradan,respectvamente, nos seguintes texto ‘Anibal Quijano, “Cali da pouvoir edemecratc en Amerique Latine fom A. Alvarez Bar tal, Ameriue Latin denecati et exclusion Collection Future Antéreut (Pats, UHarmatan, 1998), pp. 93-101, “Estado-nacon, ‘Sudadanisy democrcia questioner slat, cn Helena Gonads Hell que aqueles que se arrogavam de modo exclusivo o dircto de pensar em si e apresentar-se como representantes dessa Amé- rica eram, precisamente, os dominadores coloniais, ou sea, “europeus”. E desde o século XVIII eram, além disso, “bran. cos” e identificados com o “Ocidente”, isto é, com uma ima- gem mais ampla da “Europa”, mesmo depois de assumir as novas identidades “nacionais” p6s-coloniais, ainda hoje.” | Em outras palavras, a colonialidade do poder implicava / entdo, como ainda hoje basicamente, a invisibilidade socioligi- ea dos nao-europeus, “indios”, “negros” e seus “mestigas", ou seja, da assombrosa maioria da populagio da América ¢ sobretuclo da América Latina, a respeito da producio de sub- jetividade, de meméria histérica, de imaginério, de conheci- __mento “racional”. Logo, de identidade. E, de fato, como manté-los visiveis, afastados de seu lu gar como trabalhadores e dominados, se os ndo-europeus, dada sua condigio de ragas inferiores e de “culturalmente” primit- vos — arcaicos, como se costuma dizer hoje em dia ~ no eram, ra une nueva sce (Caras: Nueva Seid 1997). pp. Lo95e; “Colontalidad del poder, globalzacion y demectacs™ Gt. *Popuiema y fuimorame” em Felipe Batbana Se Lar (ong) fl fae ‘det popatomo (Caracay: FlacofNueva Socedad, 198), pp. 17E-207, “Ame ‘ica Latina en a sconomta muna, em Problems de! rl, XX1V 5, ‘Cidade do Msio, Instituto de Investigaciones Econdmiar dels Una eu ‘dee de 1990, antanma del denarai em Resor Ven de Ee 7 lencies Socaen, 2, Caracas, 2000. No apenas uma parte da intligenti, como, por exemple, Héctor Murens Important eseritor «intelectual argentino (1923-178). que js bem entade © stculo XX se desesperova por serum dos “europeus culos nese se {gers papas”, mat amber fous male poderosos goverantes Nunca ibe Fim em alrmarre como defensores da cvizago oidental nist" om, por exemplo a ferordtadurs militar argentina os anos 197, sé a0 mere Foros viral diiadura de Bush, js no secso XXL ‘Schunidt (orga), Democrat 0s fontasman de Américn Lat nao podiam ser por definisio, ¢ nao 0 sio inteiramente, ainda hoje, sujeitos e, muito menos, racionais?™ Derrotada a revolucao acaudithada por Tupac Amaru no vice-reinado peruano, em 1785, ¢ isolada, mutilada e, ‘embora de outro modo, finalmente também derrotada a ini- cialmente triunfante revolugio haitiana de 1803, os nJo-eu- ropeus da populagio latino-americana foram mental ¢ inte- lectualmente mais invisibilizados ainda no mundo dos dominadores e beneficidrios da colonialidade do poder.” No entanto, no mundo do poder, aquele que é atirado pela porta entra de qualquer modo pela janela. Com efeito, os {ardlament. como em Hegel, cue opines, em Lines de fava da histori, 'So conhecidae « repetidamenteciadas,sobre'aInevitavel destrugio dat Scie primitvae~ mada manos que wm retencia ns stas «inca ~ mm Eentato com o Eopnito,naturalmente Europe, e mas recentemente por exe plo em Heidegger, pare quem nto ¢posnvelflosotr sn wm slemio. Rrovlugio de Tupac Aman fo no Vie nado do Pera primeira teria ‘ald crior uma nova nord, ou ara uma nova erature de poder E talver una ova nacloalidade, ito, uma nova identidade me qual tvessem lugar ele- ‘mentor de origem « de carter Nepanico, mat Rstorcamente redelinidos pela ‘na América, dento de um padtio de poder hegemonicamente "indigena™ Sun derta abr pastagem pora que a futuraindependncia nessa epi 26 fesse so otal controle dos dominadores coloniais © a plena e duradours Imanutengi da colenialidade do poder Por seu lado, a revalugso hatana fo 3 Prmeira grande revolugo descolonizadora tiuntante de todo © perodo colo: ‘laimodemo, na ual 0» “negros” derrtaram on "brancos os escraves, 2 ‘stropeus os surepeus. Fol padrdo de poder coloniaimoderne nteiro ue lov subvertide e destrldo, Ambas as revolucySes produsiram, sem duvide, time tremenda comorto « um extenco pinico enre or donor do poder colonial) moderne orl a repeat sobre ov revslcniion pcre fo Calonaista de francess, prmerament,e de estadunidenses (ou "usoniones”, emo prope que sejam chamados Jost Buseaglia Salgado) repetidamente, ‘lurante dois scculo, até abafor a evolu e manter © Halt na arrepiante Hiria gue ado delxam fer em fim, Sobre o ferme “uroniancr”, vor Joos Busca Sagad, Undoing Empire. Race and Nation tthe Mutt Caribenn (CondresMinnespoli: Univerity of Minessota Pres, 2003), pp. 4 © 1 ilizados eram a ava: ladora maioria da populasio da ‘América Latina, considerada em seu conjunto,¢ seu univers subjetivo, suas maneiras de se relacionar com 0 univers, den 508 ¢ ativos demais para que fossem simplemente ignorados Por outro lado, ao mesmo tempo que a promiscuidade ea permissividade sexual dos cristios catslicos nfo parava de pro- duzir e reproduzir uma crescente populacto de “mestgos” - da qual uma parte muito importante formou, desde fins do século XVII em especial, as categorias dos dominadores- as, relagées intersubjetivas (“culturais”) entre dominadores¢ do- minados foi produzindo um novo universointersubjetivo com siderado igualmente “mestigo” ¢, em conseqinci, ambiguo € indeciso, exceto, sem dtivida, nos extremos de ambas as pit tes do poder. A identidade latino-americana comegou a set, desde / entao, um terreno de conflito, que nio deixou de se alargare XY ficar mais pedregoso, entre o europeu e o nio-europes. Mas ]_mesmo nesses termos no tem uma histéra linear ou simples, | pois expressa os elementos mais persistentes da colonilidade do poder. Em primeiro lugar, a relagdo “racial”, envolta em ov disfarcada de “cor”. Essa é, obviamente, uma relacio social hierdrquica de “superioridade”/"inferioridade’, entre “bran- cos”, “negros”, “indios”, “mestigos” e, desde a segunda mets- de do século XIX, “asidticos” ou “amarelos” e “azeitonados” ou “olivaceos”. Desde o século XVII, 0 aumento de “mest 08” obrigou a uma dificil e complicada escala de matizes de “cores” e de discriminagio entre “castas” marcadas por tais matizes. Essa gradagio social esteve em vigéncia até bem er 0» fanteomes da América Latina trado 0 século XIX O posterior aumento de “mesticos” tor- nou mais complexa a classificagao social baseada na “raga”, sobretudo porque a “cor” foi superposta ao biolégico-estru- tural, devido, antes de mais nada, &s Tutas contra a discrimi- naglo racial ou racismo. E, por outro lado, esse mesmo efeito, provém da moderna ideologia formal de igualdadle entre pes- soas de todas as “cores”, na qual se apsiam as lutas anti-racistas Em segundo lugar, trata-se das relagBes entre 0 “euro- peu/ocidental” ~ consegiientemente com a modernidade, ou ‘mais estritamente a versio eurocéntrica da modemnidade - e © ndo-europeu, Essa & uma relagio crucial, tanto mais que, desde essa versio eurocéntrica, amplamente hegeménica na ‘América Latina e ndo s6 entre os dominadores, o lugar e a condigio das experigncias histérico-culturais originais do mundo pré-colonial, logo também pré-"europeu ocidental”, seriam caracteriziveis como “pré-modemidade”, vale dizer “"pré-racionais” ou “primitives”, assim como 08 correspon- dentes as populagées seqiestradas na Africa, escravizadas e racializadas como “negros” na América. Potcos resistiriam hoje a admitir que no discurso dominante, portanto dos dominadores, a proposta de modemizacio nao deixou de ser, Pera por exempo,"zambo" onginalmente"menigo™caneprado” de “india” negro", ou “arealagus",Griginsimente ima das esl do “mslato™” Hole “morena” um termo com o qual se bupeeFedusirgefeito de “negro” Ct ‘stave, desde o peinipo,enratada nat heron scat imposias na peri Sula Tren ao deroiadon“mouros” ¢ « arun decendentes toh a dominagio ‘dos senhores do Norte. A chegada de populagier“aistcar” desde teado® fo século XIX, de chineses em especial gerou nowoe matics novos temas 1ndo obstante todo debate posterior & Segunda Guerra Mun- dial, equivalente & “ocidentalizagao” Em terceiro lugar, 0 que resulta da resisténcia das vi ‘mas da colonialidade do poder, que nio esteve ausente du- ante estes cinco séculos. Durante a primeira modemidade, sob 0 dominio ibérico, os primeiros intelectuais “mestigos” em primeiro lugar (no extenso Vice-Reinado do Peru, a maior parte da América do Sul atual, poucos desconheceriam os nomes mais célebres: Garcilaso de la Vega, 0 Inca; Huaman Poma de Ayala; Santa Cruz Pachacuti Salcamayhua; Blas Va- Iera) iniciaram a defesa do legado aborigine. Grosso modo, poderiam distinguir-se duas vertentes. Uma, procedente dos célebres Comentarios reais, de Garcilaso de la Vega, o Inca, que nao deixou de insistir no carster pacifico, civilizador ¢ solidario do incaico, e outra, mais critica, que insiste no poder e em suas implicagées, que se originou em Nueva crdnies y buen gobierno, de Huaman Poma de Ayala, Hoje, ambas de Nou din que os seguiram a0 linchamento do preteito de lave (Puno, Fes ‘entiiada como aimars,aimprenaaperuanaesbrctdo igure program de {elevisto vineularam esses acontecimentos bcondigao io “ocideta™ =e onanquenca no modema nem racona, dos “indigens” amar, Un neh fe ormalista, em um programa de televise, nlp itabeou em exlsmar que © en mp ul fr a an often, ee “dcrenes dstanten Mas ee dem estado ee PORE ms pales ractonticn Pont, avin» preset de ‘Crpsctc {que eoes ston se devam precisamente a det “amare Shivo comer legal e de cntrabando, afc de droga dopa peo ote {e'das remax monkipais, por tun relagho plies com pores urbana teen contrie om Lima, que disputam o contole de parse e per «de eur recursos, ee Tudo ano obvinmete, mo curso da'mais gov eee wal Politic epricomacal do Pera em mats de um secu, (0+ fontasmes da América Latina certo modo se juntam para reivindicar, contra 0 carater crescentemente predatério do capitalismo atual, a restau Gio de uma sociedade “tawantinsuyana”.* Em quarto lugar, a cambiante hist6ria das relagdes en- tre as diversas verses do europeu nesses paises. O mais inte- ressante dessa hist6ria comecou cedo, no século XIX, com conflito politico entre conservadores hispanéfilos ¢ liberais modernistas, e diante do expansionismo hegeménico dos Es- tados Unidos, aliado & Inglaterra. Os “brancos” liberais des- ses paises foram estimulados pela Franga, sob Napoledo TIL, a sugerir que sua identidade européia nio se esgotava no ibéri co (espanhol ou portugués), mas se remetia a um parentesco cultural muito mais amplo: a latinidade. E até fins desse mes- mo século, ante 0 franco expansionismo colonialista e impe- Fialista dos Estados Unidos depois de sua vitéria sobre a Espanha em 1898, a oposigio entre o “materialismo” e 0 “pragmatism” anglo-saxio dos americanos do Norte eo “espiritualismo” latino dos americanos do Sul, codificada prin- = Carlos Aronia organize Lima uma edigSo em castelhano ata de Garciaso ‘Se ls Vege, Los eomentars rele (Uima/Chdade do Mexico Fondo de Cull Ezonémica 199), mpuida de um volume de notaeerodiae de prande tilda