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ELEMENTOS DAS DANÇAS CABO-VERDIANAS NA KIZOMBA

Autores: Hélio Santos; Guilherme Mendonça

Resumo

A dança comummente conhecida como kizomba tem conhecido, em Portugal e

no estrangeiro, crescente popularidade. Não existe, no entanto, consenso ou um estudo conclusivo, relativamente às origens da kizomba. O presente ensaio procura identificar elementos das danças cabo-verdianas tradicionais na kizomba contemporânea.

Abstract Kizomba dance has gained wide international acceptance in recent years. There is however no consensus or serious study on the origins of kizomba. This paper attempts to identify elements of capeverdian traditional dances in contemporary kizomba.

Introdução

Miguel Real dizia, num escrito recente, estar a viver-se em Portugal, no campo

do romance, uma “verdadeira época de ouro” (Real, 2012, p.161). Num outro escrito

o autor alarga o âmbito da sua observação à ciência, à ilustração, ao documentário, à

pintura e ao cinema, dando a entender um fenómeno de ampliação e diversificação da

oferta cultural que extravasa as fronteiras de uma produção erudita. 1

É pertinente juntar a estes outros agentes que, misturando-se com o cidadão

comum, têm contribuído para a extraordinária diversificação e ampliação da oferta

cultural em Portugal. Estamos a referir-nos, por exemplo, aos workshops de dança, à

meditação, ao yoga, para citar alguns exemplos. A diáspora africana tem tido

particular importância neste fenómeno sendo os falantes de português,

particularmente afortunados no que concerne a sua extensão geográfica e humana e a

diversidade cultural que dela resulta. Parece haver público interessado, disponível

para pagar e não falta quem dê formações e workshops. Os participantes integram

estas actividades muitas das vezes sem grande informação sobre as origens e natureza

1 O autor diz-nos numa entrevista à revista digital Progredir “No campo da cultura Portugal não está

em crise. Na literatura, na ciência, na pintura, no cinema, no documentário, na ilustração

nova geração de elevadíssima qualidade, uma autêntica geração de ouro, não nacionalista nem paroquial, que está a operar uma revolução radical na cultura portuguesa, integrando-a num mundo global.” (http://www.revistaprogredir.com/miguel-real.htm [10-11-2014, às 10:00])

Existe uma

do que se propõe realizar ou sobre a formação do professor/orientador. Tudo isto é big

business — dizemo-lo sem qualquer espécie de pudor e também sem qualquer espécie

de preconceito. Tudo isto é também característico da génese dos fenómenos culturais

na sua expectável espontaneidade.

A kizomba é um caso de sucesso. Os professores que dão workshops de

kizomba em Portugal tem uma agenda carregada de eventos por Portugal e pelo

mundo. Arriscamo-nos a dizer que a kizomba começa a ganhar uma popularidade e

dimensão que a aproxima das danças latino-americanas.

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Se nos regozijamos com o surgimento e disseminação da kizomba devemos,

no entanto, notar a falta de investigação sobre a mesma. Circulam pelos meios da

kizomba um sem-número de ideias popularmente aceites sobre a sua origem e

percurso histórico–geográfico, mas não existe, tanto quanto sabemos, uma

investigação séria sobre o assunto.

Uma procura breve do termo na internet dá-nos um conjunto de informações

apresentadas como evidência. A Wikipedia, por exemplo, diz-nos que a kizomba

surge em Luanda, nos anos sessenta, espontaneamente, como resultado de um

conjunto de danças praticadas em contexto social, especificamente: o semba; o

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merengue angolano; a kilapanda. Oyebade reconhece a existência de ideias

contraditórias avançando a hipótese de uma origem mista cabo-verdiana e angolana

ou mesmo de uma origem exclusivamente cabo-verdiana:

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“Confliting notions exist regarding the origins of kizomba. Although some contend that it is of Angolan origin with influences from other Lusophone countries, others hold that it originated on the Cape Verde Islands.” (2007, p.

156).

2 Alguns exemplos de professores de kizomba (por ordem alfabética): Avelino Chantre, Bandeira, Hélio Santos, Kwenda Lima, Pétchu, Tomás Keita; Waty Barbosa, Zé Barbosa.

3 http://en.wikipedia.org/wiki/Kizomba (28-06-2014, às 16:43)

4 Há outros exemplos: o site Kizombalove diz-nos que se trata de um desenvolvimento do semba (http://www.kizombalove.com/Kizombalove,45[28-06-2014, às 16:58]); o Kizomba Nation também dá a entender uma origem exclusivamente angolana (http://www.kizombanation.com/pt/sobre-nos [28-06-2014, às 16:58]).

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Stead and Rorisson propõem uma origem mista resultante da fusão entre o semba e o zouk das Antilhas “Kizomba. Another very popular rhythm, which evolved in the 1960’s, from semba and music from the French Caribean such as zouk.” (2013, p.46) 5

Existem, assim, quatro hipóteses relativamente à origem da kizomba: a hipótese de uma origem angolana; a hipótese de uma origem cabo-verdiana; a hipótese de uma origem mista angolana e cabo-verdiana; a hipótese de uma origem mista angolana e antilhana. 8 Apesar da diversidade de opiniões sobre as origens da kizomba e da variedade de estilos com que é praticada é possível fazer um conjunto de afirmações consensuais sobre a kizomba. Trata-se de uma dança social, urbana, dançada a pares, obedecendo a um conjunto de rotinas. Sabemos também que a kizomba é uma dança relativamente moderna — surgindo por volta dos anos oitenta do século XX. Nada que ver, portanto, com as danças ditas tribais, ou cerimoniais, dançadas como parte de um ritual. As quatro hipóteses, mesmo quando discordantes, têm em comum a ideia de uma dança ou danças anteriores que lhe dão origem. Se a kizomba tem origem numa dança ou danças anteriores então deveria ser possível encontrar elementos da kizomba nessas danças — foi este o nosso ponto de partida. Interessamo-nos pelas danças cabo-verdianas por duas razões: por haver em Cabo Verde uma grande diversidade de danças sociais dançadas a pares; por preferência pessoal. Na morna; na mazurca e na coladeira, especificamente, entrevimos elementos que nos pareceram preconizadores dos movimentos da kizomba . Não tínhamos como objectivo afirmar uma origem

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5 Consultamos propositadamente fontes diversificadas: literatura académica; informação turística; redes sociais. Foi notória a dificuldade em encontrar fontes académicas, especificamente em relação à kizomba dança.

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A kizomba é conhecida em Cabo-Verde como ‘passada’.

A hipótese de uma origem angolana é de longe a que mais adeptos tem nos meios da kizomba.

8 Decorre disto uma quinta hipótese não referenciada: a de uma origem mista cabo-verdiana e antilhana.

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É difícil estabelecer com clareza a data para o aparecimento da kizomba dança. Acreditamos que os

movimentos da kizomba dança começam a emergir nas danças sociais antes dos anos oitenta.

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exclusivamente cabo-verdiana, mas sim encontrar (ou não) paralelos entre danças tradicionais cabo-verdianas e a kizomba que pudessem contribuir para uma compreensão das origens e desenvolvimento dessa dança.

Enfoque, objecto de estudo e aspectos metodológicos O problema que acabamos de enunciar têm grande alcance não só pelo

interesse da kizomba enquanto fenómeno cultural e social per se mas também pelo que a investigação nos pode trazer relativamente à compreensão do desenvolvimento cultural paralelo dos países falantes de língua portuguesa e à importância de Portugal como país aglutinador de uma diversidade cultural. 10 Existem, no entanto, considerações metodológicas que importa fazer a priori. Em primeiro lugar, há que estabelecer claramente o âmbito deste ensaio. Uma análise dos movimentos migratórios dos PALOP ao longo dos séculos XVIII e XIX dar-nos- ia, com certeza, informação sobre a movimentação concomitante de práticas culturais. São conhecidos os grandes fluxos migratórios cabo-verdianos para outros países

africanos

Cabo Verde entre os séculos XV e XX.

importância porque fundamenta a possibilidade de origens mistas — a dança, bem

11 e para a Europa, durante o século XX, bem como a presença europeia em

12 O estudo das migrações é da maior

10 Epalanga, num artigo recente faz uma breve narração da sua experiência nos meios das danças africanas em Lisboa. O aspecto mais interessante desse artigo, em nosso entender, é o reconhecimento de Lisboa como espaço de afirmação da kizomba — um aspecto que nunca vimos discutido. (2014, pp.

46–57)

11 Em direção à Europa, Estados Unidos e África, com particular relevância para Angola a partir de

1940. João Lopes Filho a isto alude (Olhares Partilhados, 2014). Os movimentos migratórios recentes são relevantes porque deixam em aberto a hipótese da migração das danças cabo-verdianas para outros países africanos. Cardoso (2004) faz o elenco desses movimentos migratórios bem como das suas razões “É a conjugação de factores, debilidade econômica — sistema de distribuição de terras — fomes, que motivou e alimentou durante largos anos da história de Cabo Verde uma emigração que se

]” (p.24). Cardoso faz

também o elenco dos principais destinos: EUA, a partir de 1830; SãoTomé, a partir de 1863 e até aos anos 70 do século XIX; Senegal, em 1921–22; Europa, a partir de 1950, sendo de referir um aumento do fluxo para Portugal, a partir dos anos 60 (p.25–29). Sobre a presença cabo-verdiana em Angola a autora avança a hipótese de se ter estabelecido essa comunidade em Angola entre 53 e 73, a partir de Portugal (p.29); dá-nos ainda o número de cabo-verdianos residentes em Angola em 1998 — 45.000, segundo dados do Instituto de Apoio ao Imigrante (p.29).

tem orientado em várias direcções, conforme a conjugação interna e externa [

12 A chegada dos europeus explica o aparecimento de elementos das danças sociais europeias em Cabo Verde. Vejam-se, por exemplo, a mazurca, de origem polaca, a contradança e a valsa (Brito, 1998, p.

21).

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como outras expressões da cultura, viaja sofrendo alterações no país de destino e regressando, muitas vezes, ao país de origem com uma nova forma. Essa seria uma abordagem interessante, mas demasiado vasta para a dimensão pretendida aqui. Neste ensaio queremos chamar a atenção para aspectos das danças cabo-verdianas que julgamos estarem presentes na kizomba; faremos referência breve aos elementos históricos, sociais ou demográficos, mas não nos debruçaremos sobre eles. Em segundo lugar há aspectos aparentemente discordantes no que concerne a

relação entre música e dança que é necessário assinalar. A kizomba, bem como a generalidade das danças, surge em concomitância com géneros musicais. Assim encontramos uma mazurca dança, dançada ao som da mazurca música; uma valsa dança, dançada ao som de uma valsa música. Isto não é, no entanto, válido para todo o espectro de danças — principalmente quando falamos de danças sociais com o grau de difusão da kizomba. A dança kizomba é hoje dançada ao som da música kizomba,

mas não exclusivamente.

produzido, com a expectável espontaneidade, um conjunto de variantes,

independentes entre si.

conhecimento e estilo pessoal, a outras tipologias musicais — trata-se de uma ‘adaptabilidade natural’ do movimento à música. Esta ‘adaptabilidade natural’ representa simultaneamente uma distanciação de formas antigas e uma aproximação a novas formas. Trata-se de um mecanismo de evolução cultural — veja-se, por exemplo, a contradança, dançada na ilha de Santo Antão, que tem origem na country- dance Inglesa e que preserva alguns dos traços da dança de origem, como por exemplo a figura do ‘mandador’ (Tavares, 2006, 51). Partiu-se da country-dance, para se chegar à contradança. Ora, este aspecto da ‘adaptabilidade’ da dança tem implicações metodológicas importantes para o que nos propomos discutir. Primeiramente porque a kizomba música nos dá pistas relativamente à kizomba dança (as datas dos registos musicais são, por vezes, a informação mais objectiva que temos). Depois, porque é justamente a ‘adaptabilidade natural’ da dança que nos permite fazer pontes entre elementos das danças tradicionais cabo-verdianas e a

13 Os praticantes de kizomba, bem como os músicos, têm

14 Os praticantes adaptam os seus passos, na medida do seu

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O mesmo se aplica a outras danças.

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É possível dançar kizomba ao som de uma morna, de um zouk, de um semba e até de uma coladeira.

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kizomba, como adiante se verá. Sabemos que o ‘mandador’ é um dos elementos

trazidos da country-dance inglesa

esse tipo de precedências que procuramos. Finalmente, porque decorre do anteriormente exposto uma autonomia da kizomba dança em relação à kizomba música. A kizomba dança evoluiu, desenvolvendo passos e estilos próprios, não necessariamente em resposta a ou em concomitância com a kizomba música. A música kizomba é um elemento fundamental para compreender a génese da

dança kizomba, mas não é o nosso objecto de estudo — o nosso objecto de estudo é a kizomba dança. Neste ensaio procuraremos manter clara a distinção entre kizomba dança e kizomba música. Em terceiro lugar, e ainda em relação com o ponto anterior, é preciso

reconhecer que a kizomba não se encontra ainda cristalizada

multiplicidade de escolas e a sua popularidade trazem, por um lado diversidade e riqueza à prática da dança e representam, por outro lado, um sério risco de perda de identidade. Proliferam no meio versões de kizomba a que mais facilmente

chamaríamos semba, estilos de kizomba influenciados pelas danças latino-americanas, e disseminaram-se várias ideias mais ou menos infundadas relativamente à origem da kizomba. Em certo sentido, qualquer pessoa pode dizer que dança kizomba; ninguém detém os direitos sobre a kizomba, tampouco existe uma definição clara e universalmente reconhecida das suas características. A necessidade de uma clarificação da definição da dança kizomba é justamente uma das motivações para a escrita deste ensaio — não estamos fora deste ‘problema’, estamos dentro e, como observadores participantes, reconhecemos certa parcialidade no nosso ponto de partida. Ou seja, existe uma dimensão subjectiva neste ensaio: partimos de um entendimento pessoal do que é a kizomba para tentar identificar características resilientes nessa dança. É, no entanto, importante salientar que não se trata de uma visão resultante apenas da prática, tampouco se trata de uma visão meramente subjetiva — trata-se da

15 para a contradança cabo-verdiana — é justamente

16 enquanto dança. A

15 Na contradança cabo-verdiana o ‘mandador’ dá as ordens em francês; a country-dance terá chegado a Cabo Verde via França e já transformada (Tavares, 2006, p.51).

16 Contrariamente ao funáná, por exemplo. Acreditamos que a kizomba tem uma base mas que sobre ela ainda se estão a produzir muitas alterações. Sobre isto falaremos adiante.

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visão conjunta dos dois autores deste ensaio: um especialista em dança com uma prática extensa como bailarino, como coreógrafo e como professor de dança; um académico e profissional das artes performativas com créditos firmados. 17

Em quarto lugar é preciso falar do modo argumentativo. Alguns dos aspectos que discutiremos neste ensaio (transformação de passos, suspensões) são de descrição muito difícil: a forma como um passo de morna se pode transformar num passo de kizomba, por exemplo. Por essa razão incluímos pequenos clips vídeo com demonstrações. As demostrações apresentam apenas a parte masculina. Procedemos assim em benefício da argumentação e por razões técnicas — é, por um lado, muito mais fácil perceber o aspecto específico que queremos demonstrar a partir da movimentação de um só dançarino e, por outro lado, visualmente mais ‘claro’. No fim do ensaio e em jeito de conclusão, são apresentados clips com demonstrações a

pares,

pares. Na versão online é possível aceder aos clips vídeo via hiperligação; na versão escrita são fornecidos os endereços completos de acesso. É indispensável o

visionamento dos clips para que se compreenda inteiramente o que estamos a propor. A parte escrita da nossa análise, será, como adiante se verá, muito curta; a argumentação surge verdadeiramente nos clips vídeo. É importante que se perceba que a escrita serve apenas para enquadrar uma forma de análise de movimento que foi levada a cabo na prática e que está expressa visualmente. Por último, é importante salientar ainda um aspecto da prática da kizomba que tem implicações metodológicas para este estudo. Disseminou-se no meio da dança a utilização de expressões importadas da música com significados diferentes. Estamos a referir-nos especificamente à utilização das palavras ‘binário’, ‘ternário’ e

18 para que se perceba o tipo de ligações que propomos também na dança a

17 Hélio Santos concluiu a sua formação em dança na Performance Art Research and Trainning Studio, em Bruxelas, com bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Trabalha como bailarino, como coreografo e como professor de dança. Um aspecto fundamental da sua formação foi o contato com as danças sociais in loco. Hélio Santos nasceu em São Vicente, em Cabo-verde. Fez parte de grupos de dança tradicional apresentando espectáculos na totalidade do território cabo-verdiano. Em 1998 mudou-se para Santiago, onde viveu até 1999. Há mais de uma década que começou a desenvolver o seu método pessoal de ensino da kizomba. Guilherme Mendonça tem uma carreira dupla na artes performativas e na academia. É actor, encenador, dramaturgo e professor de teatro no ensino superior. É doutorado em dramaturgia. O seu interesse pela cultura popular e o seu contacto com as danças sociais africanas levou-o a interessar-se pela kizomba como objeto de estudo.

18 Pode ver-se uma kizomba dançada a par, mas também uma mazurca, uma morna e uma coladeira.

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‘quaternário’, que designam na música o compasso e na dança a contagem do passo. A contagem dos passos é fundamental na aprendizagem da dança e é um aspecto central do desenho da dança. O dançarino pode desconhecer a linguagem e teoria musical, mas é a partir da contagem dos passos que aprende a dança. Nem sempre a contagem dos passos corresponde ao compasso. Assim, e de forma a evitar confusões, preservaremos as expressões ‘binário’, ‘ternário’ e ‘quaternário’ para descrever o compasso musical e utilizaremos os ‘base 2’, ‘base 3’ e ‘base 4’, para designar na dança a contagem dos passos — a dois, a três e a quatro, respectivamente. O compasso da kizomba música é o quaternário. A kizomba música é dançada maioritariamente, no ‘base 3’ e no ‘base 4’ (ainda que também se use o ‘base 2’). Os dançarinos de kizomba compõem a sua rotina multiplicando e somando os ‘base 3’, ‘base 4’ e ‘base 2’, para gerar sequências complexas. Estas combinações de ‘bases’ são livres — o dançarino cria a sua rotina a partir dos ‘bases’. Este é um aspecto caracterizador da kizomba.

Resumo da abordagem Assim, a nossa análise: 1 — centrar-se-á em elementos das danças tradicionais cabo-verdianas que suspeitamos estarem na origem de elementos da kizomba; 2 — colocará o enfoque na kizomba enquanto dança e não enquanto música; 3 — partirá de um entendimento pessoal, mas informado, do que é característico na kizomba; 4 — trata-se de uma observação prática de elementos de três das danças sociais cabo- verdianas mais emblemáticas — mazurca, morna e coladeira. Essa observação será apresentada em clips vídeo, acompanhada de uma breve exposição escrita.

Estudo

A mazurca é uma dança originária da região da Mazúria, na Polónia. É dançada em quase todas as ilhas de Cabo Verde, com especial incidência para Santo Antão, São Nicolau e Boavista (Brito, 1998, p.21). No Fogo dança-se também uma variante chamada rabolo. Tavares (2006, p.51) dá-nos conta de referências à contradança em documentos históricos em 1841. O tratamento paralelo, por esse

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autor, da contradança e da mazurca sugere uma data de aparecimento da mazurca em Cabo Verde anterior a 1841. Tradicionalmente, a mazurca é dançada nos cantos da sala, reproduzindo o esquema de movimentação da mazurca europeia. Na mazurca encontramos o ‘base 3’ — dançado sobre a ponta do pé esquerdo,

com arrastamento lateral do pé direito.

mazurca: ‘base 3’ com micro-suspensão (na contagem de três o 1 é esticado); ‘base 3’ dançado em passo (esquerdo direito, esquerdo direito) com acentuação alternada 20 [clip 1]. O passo com micro-suspensão é semelhante ao ‘base 3’ na kizomba — a diferença é que na kizomba o ‘base 3’ é feito com a planta do pé e na mazurca é feito com a ponta do pé [clip 2]. A semelhança entre o ‘base 3’ na mazurca e o ‘base 3’ na kizomba é evidente se se desacelerar o passo da mazurca [clip 3].

19 Existem duas formas de dançar o ‘base 3’ na

A morna Como manifestação identitária de Cabo Verde por excelência, a morna tem

sido objecto de numerosas teorias sobre a sua génese, sem existir, no entanto, qualquer espécie de consenso sobre as suas origens. Os registos conhecidos dão a entender, segundo Tavares (2006, p.54), uma origem anterior a 1850. O autor avança a hipótese de a morna ter surgido na ilha da Boavista a partir dos cânticos dos pastores escravos, tendo depois sido levada para a ilha Brava, onde adquiriu o carácter

sentimental que a caracteriza, e mais tarde para S. Vicente (p.56–58). é tocada e dançada na totalidade do território cabo-verdiano.

21 A morna, hoje,

Na morna dançada encontramos três velocidades. Temos uma ‘velocidade

base’

da morna pode achar-se uma correspondência singular entre velocidade na dança e

22 a partir da qual se fazem variações mais lentas e mais rápidas [clip 4]. No caso

19 O compasso da mazurca é ternário.

20 Ou seja (acentuações sublinhadas): esquerdo/direito–esquerdo/direito–esquerdo/direito–esquerdo/ direito–esquerdo/direito etc

21 Tavares faz, aliás, um apanhado das teorias sobre a origem etimológica da palavra ‘morna’ bem como de um conjunto de teorias sobre a sua origem possível em Portugal, via fado. (p.51–58).

22 ‘Velocidade base’ aqui indica somente um ‘tempo referência’ ou ‘tempo de partida’; não confundir com o ‘base 2’, o ‘base 3’ ou o ‘base 4’. A morna é dançada em ‘base 2’ e ‘base 4’. O compasso da morna é o quaternário.

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velocidade dada pela configuração instrumental. Os instrumentos mais comuns na

morna são, por ordem de importância: a guitarra, a voz, o violino e o cavaquinho. A

‘velocidade base’ é dada pela guitarra

23 e a variação mais lenta é dada pela voz e pelo

violino; as variações mais rápidas são dadas pelo cavaquinho. O dançarino de morna responde a esta variação de tempos na música criativamente, alterando também o seu tempo. A variação de tempos dada pelos instrumentos tem um paralelo na kizomba — também na kizomba se fazem variações da ‘velocidade base’ (mais lentas e mais rápidas), mas esta correspondência não é tão facilmente observada. A morna é tradicionalmente tocada com instrumentos acústicos. A configuração acústica de uma morna permite uma distinção clara dos instrumentos e consequentemente dos tempos na música e na dança; a kizomba é normalmente produzida com sintetizadores; a

característica do som sintetizado é ser mais ‘cheio’. É muito mais difícil identificar os diferentes tempos musicais na kizomba, mas o ‘eco’ dessa variação de tempos está lá:

a variação de tempo na kizomba dançada é similar à variação de tempo na morna

dançada. A variação de tempo na morna dançada, por sua vez, é uma consequência da

configuração acústica desse género musical. Ou seja: é uma hipótese que a variação de tempos no passo base da kizomba tenha origem na morna. Do ponto de vista do desenho da dança, encontramos na morna o ‘base 4’ dançado em duas variações: ‘abre-junta’ e ‘dois-dois’. Encontramos também o ‘base 2’ usado para fazer a variação mais lenta — o característico ‘esticar do tempo’ da morna. Na kizomba podemos encontrar as mesmas duas variações sobre o ‘base 4’ —

o ‘abre-junta’ e o ‘dois-dois’ — e também um ‘esticar do tempo’ [clip 5]. Na kizomba

o ‘esticar do tempo’ é conhecido como ‘suspensão’, na morna o ‘esticar do tempo’ pode ser descrito como um ‘embalar’. Nas duas danças é notória ainda uma preocupação com o movimento harmonioso e melancólico.

A coladeira Sobre a coladeira sabemos um pouco mais. A tradição diz-nos que a coladeira surge em Cabo Verde por volta dos anos 40, no Mindelo, ganhando projecção nos anos 50 e 60 (Tavares, 2006, p.65). Um aspecto interessante da coladeira é ser

23 Em Cabo Verde ‘violão’. (Brito, 1998, p.80-83)

reconhecida a influência dos ritmos latino-americanos no seu aparecimento. Duas teorias são avançadas como explicação para o aparecimento da coladeira: a hipótese de ser a coladeira uma morna acelerada, passando-se dos ritmos quaternário para o binário; a hipótese dessa transição para o binário ser o produto de influências estrangeiras (Brito, 1998, p.22). 24 Também na coladeira podemos encontrar passos comuns com a kizomba, 25 mas é um outro aspecto que mais nos interessa na coladeira — a ‘clareza’ de movimento. A mazurca e a morna são dançadas numa espécie de ‘abraço’ que torna o desenho da dança ‘nebuloso’. Na kizomba podemos encontrar simultaneamente o ‘abraço’ tão característico das danças cabo-verdianas e uma ‘clareza’ de movimento que aquelas danças não têm. O único candidato possível dentro das danças cabo-

verdianas (se procurarmos um elenco de influências exclusivamente a partir de danças

26

cabo-verdianas) é a coladeira

Conclusão Partimos para este estudo pensando que a discussão se centraria na comparação dos pares kizomba/mazurca, kizomba/morna, e kizomba/coladeira — danças cabo-verdianas que partilham com a kizomba o facto de serem danças sociais dançadas a pares. À medida que fomos avançando, vimo-nos obrigados a clarificar alguns aspectos metodológicos. Estes aspectos metodológicos surgem-nos hoje tão importantes quanto a proposta comparativa inicial. Uma revisitação do resultado da investigação deve assim compreender uma exposição do que foi ou não conseguido relativamente à proposta inicial, quer nos resultados da investigação propriamente ditos quer na metodologia; deve ainda identificar caminhos possíveis para a investigação e reflectir sobre as implicações da mesma.

24 Brito (1998) propõe ainda explicações alternativas mais detalhadas sobre a ideia da transição do quaternário para o binário. Trata-se de uma brevíssima exposição das teorias de Jorge Monteiro e Eutrópio Lima da Cruz.

25 Especificamente o movimento ‘dois-dois’.

26 Evidentemente que esta ‘clareza’ de movimento pode ter origem em muitas outras danças não cabo- verdianas, como por exemplo o semba ou o zouk.

No que concerne o estudo comparativo das danças obtivemos de relevante o seguinte:

Identificámos na kizomba a utilização do ‘base 3’ que se pode encontrar na mazurca;

— identificámos na kizomba duas variantes do ‘base 4’ (abre-junta, dois-dois) e um ‘esticar do tempo’ que podemos encontrar na morna;

— procurámos justificação para o ‘esticar do tempo’ (embalar) na morna na resposta dos dançarinos a diferentes instrumentos e avançámos a hipótese de essa resposta do dançarino ter transitado da morna para a kizomba;

— mencionámos o desenho claro da coladeira como origem hipotética de uma clareza de movimento na kizomba;

— observámos genericamente nas danças cabo-verdianas uma preocupação com a harmonia do movimento que encontramos na kizomba também. No que concerne a metodologia e sua relevância para um estudo da kizomba, fizemos o seguinte:

propusemos uma distinção entre compasso (‘tempo’ da música) e ‘base’ (‘tempo’ na dança);

— enquadrámos academicamente as possíveis origens geográficas da kizomba: Cabo-verde, Angola, Antilhas. Como resposta à questão genérica na origem deste ensaio “se há ou não elementos das danças cabo-verdianas na kizomba”, podemos dizer que os aspectos apresentados são evidência robusta da existência desses elementos. Para a questão ainda mais genérica de saber de onde é originária a kizomba não temos resposta — essa questão merece um tratamento muito mais longo que compreenda aspectos demográficos e históricos e um estudo profundo das danças autóctones de todos os países referidos. Resta saber se essa é uma questão com resposta possível. Das conclusões apresentadas resultam algumas observações paralelas interessantes também — nomeadamente, no que concerne a relevância da influência

europeia na kizomba. O que faz das danças cabo-verdianas candidatas fortes a ‘danças

de influência’ ou mesmo a ‘danças de origem’ da kizomba é, entre outros, o facto de

estas serem danças sociais dançadas a pares tal como a kizomba. A tradição de danças

sociais a pares em Cabo Verde é um produto da influência europeia. Ou seja, a

hipótese de uma origem ou influência cabo-verdiana para kizomba deixa em aberto a

hipótese de uma influência europeia também. Por outro lado, há que reconhecer a

importância de Portugal no desenvolvimento da kizomba. Lisboa, em particular,

transformou-se num importante centro para as danças africanas — tem funcionado

como rampa de lançamento para dançarinos e professores pela Europa e pelo mundo e

é das capitais europeias aquela em que a kizomba é dançada há mais tempo. Ora, tanto

os aspectos das danças sociais europeias como o papel de Portugal no surgimento e

disseminação da kizomba, são aspectos de uma dimensão europeia desse fenómeno

que nunca vimos discutida.

Post scriptum:

No decorrer deste ensaio é apresentado um conjunto de clips de vídeo muito

curtos, ilustrativos de paralelos entre kizomba e danças autóctones cabo-verdianas. Os

clips são, por razões de clareza, centrados no movimento do homem, focando-se

especificamente no movimento das pernas. O leitor pode encontrar também ligações

para exemplos das danças referidas em clips longos a pares: uma kizomba [clip 7] ;

uma mazurca [clip 8]; uma morna [clip 9]; uma coladeira [clip 10].

Bibliografia

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Cultural Português

— Cardoso, K. A. L. R. (2004), Diáspora, a (décima) primeira Ilha de Cabo Verde —

a Relação entre a emigração e a Política Externa Cabo-Verdiana, tese de mestrado, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa

Epalanga, K. (2014) Kizomba! — A Obra ao Negro. Ler, nº135, Setembro, pp 46–

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Oyebade, A. (2007), Culture and Customs of Angola, Westport, Greenood Press

Peixeira, L. M. S

(2003), Da Mestiçagem à Caboverdianidade — Registos de

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— Stead M. and Rorison, S. (2013) Bradt Travel Guides: Angola, Guilford, Connecticut, The Globe Pequot Press

— Tavares, M. J. (2005), Aspectos Evolutivos da Música Cabo-Verdiana, Praia, Centro Cultural Português, IC Praia

— Progredir. Disponível em: http://www.revistaprogredir.com/miguel-real.htm [visitado a 10 de Novembro de 2014]

Agradecimentos:

Raquel Alcaria Isaac Barbosa Sofia Cochat Joana Carvalho Kalu Ferreira Benvindo Fonseca Ananya Jahanara Kabir Kwenda Lima Afonso Malão Edgar Medina Avelina Merkel Lara Serra Meyer Stansberry António Tavares (Tony)