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Apresentação 8 Aula 1: Bases da Teoria do Negócio Jurídico 10 Introdução 10 Conteúdo 10
Apresentação 8 Aula 1: Bases da Teoria do Negócio Jurídico 10 Introdução 10 Conteúdo 10

Apresentação

8

Aula 1: Bases da Teoria do Negócio Jurídico

10

Introdução

10

Conteúdo

10

Constituições

10

Constituições

11

Código Civil de 1916

12

Justiça Social

13

Princípio da isonomia

14

Constituição Federal de 1988

15

Apelação Cível

16

Relação do consumo

17

Recurso Especial nº 1.194.627-RS

17

Qualidade intrínseca

18

Declaração

20

Papel da Jurisprudência

20

Ordenamento jurídico

20

Princípio da autonomia

21

Autonomia privada

21

Teoria da imprevisão

22

Princípio da conservação

23

Contratos

23

Direito privado

24

Informativo nº 492 do STJ

24

Recurso Especial nº 1.321.655-MG

25

STJ Superior Tribunal de Justiça

25

Recurso Especial nº 1.132.943-PE

26

Cláusulas

26

Distrato

26

Modelo individualista-liberal

27

Conclusão

27

Atividade proposta

27

Referências

28

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

1

Exercícios de fixação 29 Notas 33 Chaves de resposta 33 Aula 1 33 Exercícios de

Exercícios de fixação

29

Notas

33

Chaves de resposta

33

Aula 1

33

Exercícios de fixação

33

Aula 2: Boa-Fé Objetiva

36

Introdução

36

Conteúdo

36

Lealdade contratual

36

Boa-fé subjetiva

37

Ordenamento jurídico

37

Intérprete jurídico

38

Contratos de adesão

38

Renúncia antecipada

39

Direito de sequela

39

Súmula

39

Função social do contrato

40

Conduta leal

40

Intenção

41

Violação positiva do contrato

41

Aplicação da violação positiva

42

Deveres anexos

43

Contorno jurídico

43

Funções da boa-fé objetiva

44

Boa-fé objetiva x boa-fé subjetiva

45

Jurisprudencialização do direito

46

Jurisprudência

46

Transmissão das obrigações

47

Tribunais estaduais

48

Dever de lealdade

49

Segunda seção do STJ

49

Informativos do STJ

50

Conduta de lealdade

50

Contratos

52

Ordenamento jurídico nacional

52

Desfazimento da pactuação

53

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

2

Vício redibitório 53 Diploma civil 54 Informativo 506 do STJ 54 Garantia contratual 54 Dever

Vício redibitório

53

Diploma civil

54

Informativo 506 do STJ

54

Garantia contratual

54

Dever anexo de lealdade

55

Ascendente e descendente

55

Conclusão

56

Atividade proposta

57

Referências

57

Exercícios de fixação

57

Chaves de resposta

62

Aula 2

62

Exercícios de fixação

62

Aula 3: Função Social do Contrato

65

Introdução

65

Conteúdo

66

Função social do contrato

66

Direito civil-constitucional

66

Eficácia interna e externa

66

Função socioambiental do contrato

70

Institutos jurídicos

71

Código Civil brasileiro

71

Cláusula solve et repete

72

Sistema jurídico

73

Enriquecimento sem causa

73

Contrato de comodato

74

Obrigações indivisíveis

75

Cessão de crédito

76

Pagamento indevido

76

Tribunais brasileiros

78

Tipos de contratos

78

Denunciação da lide

79

Dação em pagamento

80

Teoria do adimplemento substancial

80

Conclusão

81

Atividade proposta

81

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

3

Referências 82 Exercícios de fixação 82 Chaves de resposta 87 Aula 3 87 Exercícios de

Referências

82

Exercícios de fixação

82

Chaves de resposta

87

Aula 3

87

Exercícios de fixação

87

Aula 4: Institutos da boa-fé objetiva

89

Introdução

89

Conteúdo

90

Contextualização

90

Abuso de direito Conceito

90

Abuso de direito Controle preventivo e repressivo

91

Venire contra factum proprium Conceito

92

Venire contra factum proprium Jurisprudência

92

Obrigação de dar coisa incerta

93

Não declaração de nulidade de contrato de compra e venda

94

Promessa de doação

96

Duty to mitigate the loss

97

A função de integração da boa-fé objetiva

98

Supressio e surrectio

100

Supressio e surrectio Código civil

101

Tu quoque

102

Atividade proposta

103

Referências

104

Exercícios de fixação

104

Notas

108

Chaves de resposta

108

Aula 4

108

Exercícios de fixação

108

Aula 5: Formação dos contratos eletrônicos

111

Introdução

111

Conteúdo

111

Conceito de contrato

111

Características do contrato

112

Fases da formação contratual

112

Fase de negociações preliminares ou de puntuação

113

Fase de proposta, policitação ou oblação

114

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

4

Proposta entre ausentes e presentes 115 Fase de contrato preliminar 115 Fase de contrato definitivo

Proposta entre ausentes e presentes

115

Fase de contrato preliminar

115

Fase de contrato definitivo

117

Contextualização sobre a formação do contrato pela via eletrônica

118

Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos contratos eletrônicos

118

Formação do contrato pela via eletrônica

120

A visão jurisprudencial acerca dos contratos eletrônicos

120

Atividade proposta

123

Referências

124

Exercícios de fixação

124

Notas

129

Chaves de resposta

129

Aula 5

129

Exercícios de fixação

129

Aula 6: Revisão judicial dos contratos

131

Introdução

131

Conteúdo

132

Revisão judicial dos contratos

132

Quando há um conflito de interpretação de cláusulas

133

Diante da abusividade de cláusulas contratuais

134

O que o juiz pode fazer diante da abusividade de cláusulas contratuais considerando a função social do contrato?

134

Quando ocorre fato imprevisível

135

Fato imprevisível aplicação pelo judiciário

136

Onerosidade excessiva

137

Necessidade de o fato ser imprevisível

137

Análise jurisprudencial

138

Inadimplemento obrigacional e inexecução voluntária do negócio jurídico

139

Execução forçada nas obrigações de dar coisa certa

139

Pagamento de astreintes

141

Pagamento das perdas e danos

143

Cláusula penal

144

Cláusula penal Comodato

146

Contrato de doação

147

Atividade proposta

150

Referências

150

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

5

Exercícios de fixação 150 Notas 155 Chaves de resposta 155 Aula 6 155 Exercícios de

Exercícios de fixação

150

Notas

155

Chaves de resposta

155

Aula 6

155

Exercícios de fixação

155

Aula 7: Direito contratual e Direito obrigacional

159

Introdução

159

Conteúdo

160

Conceito de contrato

160

Direito à moradia

160

Direito à saúde

164

Direito fundamental - entrega de diploma

165

Tutela jurisdicional

165

Abandono afetivo

166

Abandono afetivo - STJ

168

Atividade proposta

169

Referências

170

Exercícios de fixação

170

Chaves de resposta

175

Aula 7

175

Exercícios de fixação

175

Aula 8: Relações de consumo

178

Introdução

178

Conteúdo

179

Conceito e classificação do contrato

179

Contrato de adesão

180

Artigo 54 do CDC parágrafo 2º

181

Artigo 54 do CDC parágrafo 3º

182

Artigo 54 do CDC parágrafo 4º

184

Artigo 51 do CDC

186

Onerosidade excessiva

189

Descumprimento de cláusula contratual plano de saúde

190

Abuso do direito renovação de contrato

190

Atividade proposta

192

Referências

192

Exercícios de fixação

193

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

6

Chaves de resposta 198 Aula 8 198 Exercícios de fixação 198 Conteudista 200 TÓPICOS ESPECIAIS

Chaves de resposta

198

Aula 8

198

Exercícios de fixação

198

Conteudista

200

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

7

É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio
É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio
É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio
É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio
É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio

É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o

maior negócio jurídico. Dessa maneira, a apreensão, tanto de sua base principiológica, quanto de sua formação, torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito.

O atual Direito Civil vem incorporando o fenômeno de constitucionalização aos

seus institutos, modificando os critérios de interpretação e aplicação do negócio

jurídico. Nesse sentido, o Código Civil de 2002 já não é mais concebido como

um

diploma patrimonialista e individualista, mas sim social.

O

direito civil-constitucional é materializado, por meio do exercício

jurisprudencial, a partir da aplicação dos princípios da boa-fé objetiva e da função social do contrato aos casos concretos.

Esses princípios, atualmente, devem ser levados em consideração, diante da revisão judicial dos contratos, da formação dos contratos pela via eletrônica e pela via consumerista, além de determinarem a preservação do patrimônio mínimo dos contratantes.

Sendo assim, esta disciplina tem como objetivos:

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

8

1. Compreender o negócio jurídico à luz do direito civil-constitucional, por meio da aplicação dos

1. Compreender o negócio jurídico à luz do direito civil-constitucional, por meio

da aplicação dos princípios constitucionais às relações contratuais;

2. Analisar a formação dos contratos, sua revisão judicial e a preservação do

patrimônio mínimo dos contratantes;

3. Observar a relação existente entre os contratos civis e os contratos consumeristas;

4. Definir a aplicação jurisprudencial nas obrigações e nos contratos em geral.

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

9

Introdução É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior
Introdução É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior

Introdução

É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o

maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua base principio lógica se torna um verdadeiro diferencial aos operadores do direito.

O atual Direito Civil vem incorporando o fenômeno de constitucionalização aos

seus institutos, modificando os critérios de interpretação e aplicação do negócio jurídico. Assim, o Código Civil de 2002 já não é mais concebido como um diploma patrimonialista e individualista, mas, sim, social.

Para tanto, a materialização dos princípios constitucionais às relações privadas, antes submissas ao império da autonomia privada sem limites e do seu correlato pacta sunt servanda, tornou-se uma realidade a partir do respeito aos valores da isonomia, da dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre outros.

Objetivo:

1. Analisar o negócio jurídico à luz do direito civil-constitucional por meio da

aplicação da isonomia e da dignidade humana às relações contratuais;

2. Analisar os novos contornos jurídicos do princípio da autonomia privada e do

pacta sunt servanda nas relações contratuais.

Conteúdo

Constituições

Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se influenciado pela Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação paradigmática em sua interpretação.

Como resultado, a doutrina e a jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e premissas metodológicas do direito civil-constitucional, entendido, pois,

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

10

como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e direitos fundamentais às relações

como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e direitos fundamentais às relações privadas.

É possível constatar, como seu objetivo precípuo, a unificação do direito a partir do desiderato constitucional, consubstanciado nos valores da isonomia, da dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre outros.

Sob a égide do direito civil-constitucional, a doutrina vem transformando as bases conceituais dos institutos que compõem a teoria do negócio jurídico, sendo a interpretação e aplicação contratuais aquelas que mais sofreram modificações.

Assim, a imutabilidade contratual vem comportando verdadeira intromissão estatal, que tende a evitar o enriquecimento sem causa e a desproporção negocial, acarretando a nulidade das cláusulas consideradas abusivas.

Constituições

Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se influenciado pela Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação paradigmática em sua interpretação.

Como resultado, a doutrina e a jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e premissas metodológicas do direito civil-constitucional, entendido, pois, como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e direitos fundamentais às relações privadas.

É possível constatar, como seu objetivo precípuo, a unificação do direito a partir do desiderato constitucional, consubstanciado nos valores da isonomia, da dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre outros.

Sob a égide do direito civil-constitucional, a doutrina vem transformando as bases conceituais dos institutos que compõem a teoria do negócio jurídico,

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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sendo a interpretação e aplicação contratuais aquelas que mais sofreram modificações. Assim, a imutabilidade

sendo a interpretação e aplicação contratuais aquelas que mais sofreram modificações.

Assim, a imutabilidade contratual vem comportando verdadeira intromissão estatal, que tende a evitar o enriquecimento sem causa e a desproporção negocial, acarretando a nulidade das cláusulas consideradas abusivas.

Código Civil de 1916

É importante destacar que o Código Civil de 1916 era considerado um

sistema jurídico individualista e patrimonialista, não se preocupando com direitos sociais, nem, tampouco, com os direitos de personalidade.

A própria origem do direito civil perpassa pelos direitos de propriedade,

consagrados pela ideologia burguesa de acumulação de riquezas e disciplinamento detalhado do dever-ser.

Dessa maneira, o direito civil moderno, inaugurado com o Código Napoleônico de 1804, retoma a noção romana ao fenômeno jurídico, atribuindo força plena à vontade e à impessoalidade do vínculo. Na presente perspectiva, o indivíduo é concebido como sujeito de direito e detentor de liberdade volitiva para poder gozar dos institutos da propriedade e do contrato.

O autor italiano De Cupis criticou tal concepção, observando a configuração de

interesses relacionados ao indivíduo, que são suscetíveis de proteção jurídica,

e, de fato, são mais merecedores de tutela que os bens econômicos.

Ao inverter a visão clássica da sociedade civil, o autor desloca a pessoa humana para o centro do universo jurídico.

Com isso, foi constituída a unidade conceitual de situações jurídicas subjetivas acerca dos direitos de personalidade, em um momento de total ausência do

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

12

direito privado em matéria de proteção dos direitos relacionados ao indivíduo, ainda como consequência do

direito privado em matéria de proteção dos direitos relacionados ao indivíduo, ainda como consequência do caráter patrimonial do ordenamento jurídico.

Justiça Social

O Código Civil de 2002, a partir de uma leitura constitucionalizada do

ordenamento jurídico, apresenta mecanismos que visam atenuar o princípio da

autonomia privada por meio da incorporação da justiça social distributiva aos negócios jurídicos.

Dessa forma, o presente diploma foi alçado a uma posição de norma regulatória geral das relações privadas, não excluindo a legislação específica (microssistemas que visam a proteção da parte hipossuficiente, como o Código

de

Defesa do Consumidor), nem a aplicabilidade da interpretação constitucional

às

situações que disciplina.

Assim, por meio da técnica hermenêutica denominada diálogo das fontes, busca-se a harmonização entre as diversas normas do sistema jurídico nacional.

Dentro da presente concepção social da obrigação, esta passa a ser entendida como um processo de cooperação contínuo e efetivo entre credor e devedor, segundo a doutrina alemã, na tentativa de mitigar a subordinação do devedor ao credor ao redirecionar-se o olhar para o adimplemento mais satisfatório ao credor e menos oneroso ao devedor. Importante destacar que a responsabilidade do devedor restringe-se ao seu patrimônio, nos moldes do Artigo 391 do CC.

A fim de ilustrar o fato de que a responsabilidade do devedor restringe-se ao seu próprio patrimônio, cabível citar decisão prolatada no Recurso Especial nº 1.130.742-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em

1º/10/2013.

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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Para a Quarta Turma do STJ, não cabe prisão civil do inventariante em razão do

Para a Quarta Turma do STJ, não cabe prisão civil do inventariante em razão do descumprimento do dever do espólio de prestar alimentos, uma vez que a restrição da liberdade constitui sanção de natureza personalíssima, não podendo recair sobre terceiro, estranho ao dever de alimentar. Como é sabido,

a prisão civil somente pode ser imposta ao devedor de alimentos, nos moldes do Artigo 733, §1°, do CPC.

Ainda consta da decisão a possibilidade que tem o próprio herdeiro em requerer ao juízo, durante o processamento do inventário, a antecipação de recursos para a sua subsistência, podendo o magistrado conferir eventual adiantamento de quinhão necessário à sua mantença, dando, assim, efetividade ao direito material da parte pelos meios processuais cabíveis, sem que se ofenda, para tanto, um dos direitos fundamentais do ser humano: a liberdade.

O

inventariante é considerado um terceiro estranho na relação entre exequente

e

executado, configurando constrangimento ilegal à possibilidade de prisão. O

referido é apenas um auxiliar do juízo, nos moldes do Artigo 139 do CC, não podendo ser civilmente preso pelo descumprimento de seus deveres, mas, sim, destituído por um dos motivos do Artigo 995 do CC.

Princípio da isonomia

Dentre os princípios constitucionais aplicáveis ao direito civil, destaca-se o princípio da isonomia.

Por isonomia, entende-se que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, conforme Artigo 5º da Constituição Federal.

Na tentativa de apreender seus parâmetros, que, uma vez violados, geram ofensa à igualdade, Bandeira de Melo enumera: primeiro, o elemento tomado como fator de desigualação; segundo, a correlação lógica abstrata existente entre o fator erigido em critério de discrímen e a disparidade estabelecida no tratamento jurídico diversificado; e, por último, a consonância desta correlação

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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lógica com os interesses absorvidos no sistema constitucional e destarte juridicizados. Interessante discussão acerca da

lógica com os interesses absorvidos no sistema constitucional e destarte juridicizados.

Interessante discussão acerca da aplicação do princípio da isonomia às relações privadas envolve a taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras, pois existe verdadeira disparidade estabelecida no tratamento jurídico concebido aos bancos em relação aos particulares.

No atual cenário jurídico, vem prevalecendo o entendimento trazido pela Súmula nº 596, de 15/12/1976, do STF: “As disposições do Decreto

22.626 de 1933 não se aplicam às taxas de juros e aos outros encargos cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privadas, que integram o sistema financeiro nacional”.

Constituição Federal de 1988

É de se perceber que a referida súmula foi concebida antes da Constituição Federal de 1988, o que corrobora o entendimento por sua não incidência às relações contratuais.

A Constituição da República é clara ao elencar, dentre os seus valores fundamentais, a isonomia, sendo oportuno questionar a razão que exclui das limitações da Lei de Usura as instituições bancárias.

Assim, se um particular quiser emprestar um determinado valor a outro sujeito por meio de contrato de mútuo feneratício, nos moldes do Artigo 591 do CC, deverá respeitar a limitação imposta pelo Artigo 1º da Lei de Usura (Decreto nº 22.626/33), mas o mesmo não se aplica aos bancos, que, desta maneira, podem fixar a taxa de juros compensatórios que bem lhes aprouverem. Importante esclarecer a existência de divergência jurisprudencial a esse respeito, e a tendência majoritária pela continuidade de aplicação da Súmula nº 596 do STF.

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

15

Apelação Cível Segundo a Apelação Cível nº 195.023.114 , Rel. Darci Waccholz, 1º Grupo Cível

Apelação Cível

Segundo a Apelação Cível nº 195.023.114, Rel. Darci Waccholz, 1º Grupo Cível do TARGS, a Súmula nº 596 não pode ser aplicada segundo seus fundamentos, pois feriu o princípio da isonomia ao reconhecer privilégio desproporcional em favor das instituições financeiras ao estabelecer, sem uma relevante razão, diferenças entre as pessoas, além de a referida súmula encontrar-se desatualizada.

Porém, a aplicabilidade da Súmula nº 596 constitui entendimento majoritário na jurisprudência brasileira, como consta do seguinte julgado do STJ:

Outra discussão que envolve a mesma matéria se relaciona ao fato de que fere a isonomia o comportamento dos bancos, ao remunerarem, de forma desproporcional, as atividades que realiza.

Porque, ao depositar em poupança, o sujeito é remunerado com uma taxa baixa e, ao contratar um financiamento com o mesmo banco, o sujeito é obrigado a desembolsar uma taxa exorbitante? A Súmula nº 297 do STJ

determina: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”.

Assim, no mesmo tribunal, apresentam-se decisões antagônicas, já que não se estabelece um limite às atividades realizadas pelas instituições financeiras, mas seus clientes gozam, em tese, do conjunto protetivo disciplinado pelo CDC.

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO BANCÁRIO. AFASTAMENTO DA LIMITAÇÃO DOS JUROS REMUNERATÓRIOS EM 12% AO ANO. INAPLICABILIDADE, NO CASO, DA LEI DE USURA. INCIDÊNCIA DA LEI Nº 4.595 /64 E DA SÚMULA 596/STF. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Nos termos da pacífica jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, os juros remuneratórios cobrados pelas instituições financeiras não sofrem a limitação imposta pelo

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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Decreto nº 22.626/33 (Lei de Usura), a teor do disposto na Súmula 596/STF, de forma

Decreto nº 22.626/33 (Lei de Usura), a teor do disposto na Súmula 596/STF, de forma que a abusividade da pactuação dos juros remuneratórios deve ser cabalmente demonstrada em cada caso, com a comprovação do desequilíbrio contratual ou de lucros excessivos, sendo insuficiente o só fato de a estipulação ultrapassar 12% ao ano ou de haver estabilidade inflacionária no período. 2. Agravo regimental improvido. (grifos nossos).

Relação do consumo

Segundo o STJ No que diz respeito à relação de consumo, segundo o próprio STJ, configura hipótese de violação do Artigo 51, II e IV, do CDC, as cláusulas contratuais que estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade.

Artigo 51 Nesse contexto, cabe ressaltar o disposto no Artigo 51, §1º, III, do CDC, que presume ser exagerada a vantagem que “se mostra excessivamente onerosa

para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares do caso”. Como

resultado, devem ser tais cláusulas declaradas nulas de pleno direito, uma vez que violam o ordenamento jurídico civil-constitucional.

Recurso Especial nº 1.194.627-RS

Já no Recurso Especial nº 1.194.627-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 1º/12/2011, a turma julgadora entendeu pela aplicação do Código de Defesa do Consumidor à relação contratual de mútuo estabelecida pelas partes com a instituição financeira para compra de ações da Copesul.

Nesse contexto, o que se ventilava na ação não era a redução da taxa de juros compensatórios, mas, sim, a declaração de nulidade da cláusula de eleição de foro contratualmente pactuada.

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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Para o Min. Relator, o simples fato de os recorrentes, pessoas físicas, terem utilizado o

Para o Min. Relator, o simples fato de os recorrentes, pessoas físicas, terem utilizado o financiamento obtido junto à instituição financeira para investimento em ações não desnatura a relação de consumo estabelecida entre as partes.

Somente se afastaria a figura do destinatário final daquele que contrai mútuo com instituição financeira caso ele se dedicasse à atividade financeira, valendo- se da quantia obtida para reemprestá-la, cobrando juros de terceiros.

Portanto, deve-se afastar a validade da cláusula de eleição, prevalecendo o foro do domicílio do consumidor para processamento e julgamento da demanda em que se discute a validade do contrato de financiamento.

Qualidade intrínseca

Dentre os princípios constitucionais aplicáveis ao direito civil, destaca-se o Princípio da Dignidade Humana. Segundo Sarlet, dignidade da pessoa humana pode ser entendida como:

Qualidade

A qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano, que o faz merecedor do

mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante

e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas

para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com

os demais seres humanos.

Relações privadas

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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Aplicar a dignidade da pessoa humana às relações privadas é tarefa recorrente no atual ordenamento

Aplicar a dignidade da pessoa humana às relações privadas é tarefa recorrente no atual ordenamento jurídico por meio da jurisprudência. No Recurso Especial nº 1.324.712-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 24/9/2013, o STJ decidiu ser incabível a exigência de caução para atendimento médico-hospitalar emergencial. Dessa forma, o Tribunal Superior vem materializando o valor jurídico-constitucional da dignidade aos contratos de prestação de serviços médicos, afastando a constituição de garantia para tratamento emergencial, mesmo que a mencionada caução tenha sido pactuada entre as partes ou seus familiares.

Atenção O Superior Tribunal de Justiça, antes da vigência da Lei nº 12.653/2012, já havia

Atenção

O Superior Tribunal de Justiça, antes da vigência da Lei nº 12.653/2012, já havia se manifestado no sentido de que é dever do estabelecimento hospitalar, sob pena de responsabilização cível e criminal, da sociedade empresária e prepostos, prestar o pronto atendimento. Com a superveniente vigência da Lei nº 12.653/2012, que veda a exigência de caução e de prévio preenchimento de formulário administrativo para a prestação de atendimento médico-hospitalar premente, a solução para o caso é expressamente conferida por norma de caráter cogente.

Negócios jurídicos Também constitui aplicação da dignidade humana aos negócios jurídicos, a determinação de que o Estado, em todas as suas esferas de poder, deve assegurar às crianças e aos adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à vida e à saúde, fornecendo gratuitamente o tratamento médico cuja família não tem condições de custear. Assim, há responsabilidade solidária, estabelecida nos Artigos 196 e 227 da Constituição Federal e Artigo 11, §2º, do ECA, podendo o autor da ação exigir, em conjunto ou separadamente, o cumprimento da obrigação por qualquer dos entes públicos,

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independentemente da regionalização e hierarquização do serviço público de saúde. Declaração De outra sorte, nos

independentemente da regionalização e hierarquização do serviço público de saúde.

Declaração

De outra sorte, nos Embargos de Declaração no Agravo nº 1.023.858-RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 4/12/2008, o STJ afastou a interpretação civil-constitucional ao possibilitar a penhora do único bem de família do fiador, nos moldes do Artigo 3º, VII, da Lei nº 8.009/1990.

O Min. Relator destacou que a orientação divergente de Tribunal estadual não tem o condão de afastar o entendimento predominante nos Tribunais Superiores no sentido de ser penhorável o imóvel familiar do fiador em contrato de locação.

Papel da Jurisprudência

Em conclusão, foi possível perceber o papel da jurisprudência diante da interpretação e aplicação dos princípios constitucionais às relações contratuais, com destaque para a isonomia e a dignidade da pessoa humana.

Assim, por meio da análise de casos concretos, foi constatada a tendência ao dirigismo contratual por parte do Estado, mas sem esvaziar por completo a autonomia privada, inerente aos negócios jurídicos modernos.

Ordenamento jurídico

Como analisado anteriormente, o ordenamento jurídico civilista estrutura-se no Estado Democrático de Direito, inaugurado com a Constituição Federal de 1988, a partir de uma nova leitura acerca dos negócios jurídicos que disciplina. A visão tradicional de que o contrato fazia lei entre as partes (pacta sunt servanda) resta superada, permitindo-se, desta forma, uma maior intromissão estatal na autonomia das vontades, o chamado dirigismo contratual.

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Tal dirigismo é a faculdade outorgada por lei ao magistrado para que este reveja o

Tal dirigismo é a faculdade outorgada por lei ao magistrado para que este reveja o contrato e estabeleça condições para sua execução, fazendo com que cláusulas sejam impostas em substituição da declaração volitiva do contratante.

Porém, isso não deve levar ao esvaziamento total do princípio da autonomia privada, mas, sim, à sua mitigação diante da aplicação da boa-fé objetiva e da função social aos negócios jurídicos, princípios corolários de uma leitura constitucionalizada do fenômeno privado.

Dessa maneira, a função social do contrato não tem a aptidão de afastar a autonomia privada, tal como determinado no Enunciado 23 da I Jornada de

Direito Civil do CJF/STJ: “a função social do contrato, prevista no Artigo 421 do novo Código Civil, não elimina o princípio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance deste princípio quando presentes interesses metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade da pessoa humana”.

Princípio da autonomia

Conceitua-se o princípio da autonomia privada como sendo um regramento básico, de ordem particular mas influenciado por normas de ordem pública , pelo qual, na formação do contrato, além da vontade das partes, entram em cena outros fatores: psicológicos, políticos, econômicos e sociais. Trata-se do direito indeclinável de a parte autorregulamentar os seus interesses, decorrente da dignidade humana, mas que encontra limitações em normas de ordem pública, particularmente nos princípios sociais contratuais.

Autonomia privada

Contratos de adesão Com a redução da autonomia privada, o negócio jurídico paritário perdeu espaço social em detrimento dos contratos de adesão, que passam a constituir a regra geral.

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Extinção dos contratos Apesar de tal mudança ocorrer, isto não acarreta a extinção dos contratos,

Extinção dos contratos Apesar de tal mudança ocorrer, isto não acarreta a extinção dos contratos, mas, sim, a mudança de sua estrutura e conceituação. O contrato muda a sua disciplina, as suas funções e a sua própria estrutura segundo o contexto econômico-social em que está inserido.

Padronização das transações Assim, para uma parte da doutrina, a liberdade de contratar não mais existe, uma vez que o contrato foi transformado em norma unilateral imposta pela empresa que está em situação dominante, a partir de um fenômeno conhecido como padronização das transações, decorrente de uma economia de massa.

Teoria da imprevisão

Dirigismo contratual É possível afirmar que, no campo intervencionista consubstanciado no dirigismo contratual, situa-se a teoria da imprevisão, nos moldes do Artigo 478 do CC.

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Desequilíbrio contratual Dessa forma, atingindo o plano de desequilíbrio contratual pela ocorrência de fato

Desequilíbrio contratual Dessa forma, atingindo o plano de desequilíbrio contratual pela ocorrência de fato imprevisível e/ou extraordinário, o direito deverá ser acionado e a obrigatoriedade contratual deixada de lado.

Ordenamento jurídico

O relatado desequilíbrio possibilita a revisão ou extinção do contrato em

respeito ao ordenamento jurídico, que não mais tolera a desproporção negocial, em que um se enriquece de forma desarrazoada em detrimento do

empobrecimento de outrem.

Princípio da conservação

Como decorrência do princípio da conservação do negócio jurídico diante da necessidade de aplicação da teoria da imprevisão, estabelece o Enunciado 176 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “Em atenção ao princípio

da conservação dos negócios jurídicos, o Artigo 478 do Código Civil de 2002 deverá conduzir, sempre que possível, à revisão judicial dos contratos e não à resolução contratual”.

Contratos

No Recurso Especial nº 936741/GO, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, é possível estabelecer uma digressão entre as várias espécies de contratos existentes no ordenamento jurídico pátrio. Anteriormente, foi afirmado que a autonomia privada vem sofrendo atenuações como decorrência do exercício jurisprudencial, a fim de adequar a estrutura do contrato às exigências constitucionais.

Porém, diante de contrato de compra e venda de safra futura, não há que

se aplicar a teoria da imprevisão em decorrência da onerosidade excessiva.

Dessa maneira, contratos empresariais não devem ser tratados da mesma forma que contratos cíveis em geral ou contratos de consumo, pois, nestes,

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admite-se o dirigismo contratual; naqueles, devem prevalecer os princípios da autonomia da vontade e da

admite-se o dirigismo contratual; naqueles, devem prevalecer os princípios da autonomia da vontade e da força obrigatória dos negócios jurídicos.

Direito privado

Ainda é possível extrair do julgado que Direito Civil e Direito Empresarial, ainda que ramos do Direito Privado, submetem-se a regras e princípios próprios. Logo, o fato de o Código Civil ter submetido os contratos cíveis e empresariais às mesmas regras gerais não significa que estes contratos sejam essencialmente iguais. A não incidência da teoria da imprevisão, nos moldes do Artigo 478 do CC, decorre dos seguintes argumentos:

Os contratos em discussão não são de execução continuada ou diferida, mas contratos de compra e venda de coisa futura, a preço fixo.

Alta do preço

excessivamente onerosa, mas apenas reduziu o lucro esperado pelo produtor rural.

prestação de uma das partes

da

soja

não

tornou

a

A variação cambial que alterou a cotação da soja não configurou um acontecimento extraordinário e imprevisível, porque ambas as partes contratantes conhecem o mercado em que atuam, pois são profissionais do ramo e sabem que tais flutuações são possíveis.

Informativo nº 492 do STJ

Assim, de acordo com o Informativo nº 492 do STJ, nos contratos aleatórios de compra e venda de safra futura, as variações de preço, por si só, não motivam a resolução contratual com base na teoria da imprevisão.

Ocorre que, para a aplicação dessa teoria, é imprescindível que as circunstâncias que envolveram a formação do contrato de execução diferida não sejam as mesmas no momento da execução da obrigação, tornando o contrato extremamente oneroso para uma parte em benefício da outra.

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E ainda que as alterações que ensejaram o referido prejuízo resultem de um fato extraordinário

E ainda que as alterações que ensejaram o referido prejuízo resultem de um fato extraordinário e impossível de ser previsto pelas partes.

Recurso Especial nº 1.321.655-MG

De outra sorte, no Recurso Especial 1.321.655-MG, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 22/10/2013, o STJ mitigou a força obrigatória do contrato ao estabelecer como abusiva a cláusula penal de contrato de pacote turístico que estabeleça, para a hipótese de desistência do consumidor,

a perda integral dos valores pagos antecipadamente.

Dessa maneira, não é possível falar em perda total dos valores pagos antecipadamente por pacote turístico, sob pena de se criar uma situação que, além de vantajosa para a empresa de turismo (fornecedora de serviços), mostra-se excessivamente desvantajosa para o consumidor, o que implica incidência do Artigo 413 do CC, segundo o qual a penalidade deve obrigatoriamente (e não facultativamente) ser reduzida equitativamente pelo juiz se o seu montante for manifestamente excessivo.

STJ Superior Tribunal de Justiça

O STJ tem o entendimento de que, em situação semelhante (nos contratos de

promessa de compra e venda de imóvel), é cabível ao magistrado reduzir o percentual da cláusula penal com o objetivo de evitar o enriquecimento sem causa por qualquer uma das partes.

Além disso, no que diz respeito à relação de consumo, evidencia-se, na hipótese, violação do Artigo 51, II e IV, do CDC, de acordo com o qual são nulas de pleno direito as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos neste código.

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Recurso Especial nº 1.132.943-PE No mesmo sentido do Recurso Especial nº 1.132.943-PE , Rel. Min.

Recurso Especial nº 1.132.943-PE

No mesmo sentido do Recurso Especial nº 1.132.943-PE, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 27/8/2013, que decidiu ser abusiva a cláusula de distrato (fixada no contexto de compra e venda imobiliária mediante pagamento em prestações) que estabeleça a possibilidade de a construtora vendedora promover a retenção integral ou a devolução ínfima do valor das parcelas adimplidas pelo consumidor distratante.

Cláusulas

Os Artigos 53 e 51, IV, do CDC coíbem cláusula de decaimento que determine a retenção de valor integral ou substancial das prestações pagas, por consubstanciar vantagem exagerada do incorporador.

Nesse contexto, o Artigo 53 dispõe que, nos “contratos de compra e venda de

móveis ou imóveis mediante pagamento em prestações, bem como nas alienações fiduciárias em garantia, consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas que estabeleçam a perda total das prestações pagas em benefício do credor que, em razão do inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto alienado”.

Distrato

Além disso, o fato de o distrato pressupor um contrato anterior não implica desfiguração da sua natureza contratual. Isso porque, nos moldes do Artigo

472 do CC, "o distrato faz-se pela mesma forma exigida para o contrato", o que

implica afirmar que o distrato nada mais é que um novo contrato, distinto ao contrato primitivo.

Dessa forma, como em qualquer outro contrato, um instrumento de distrato poderá, eventualmente, ser eivado de vícios, os quais, por sua vez, serão passíveis de revisão em juízo, sobretudo no campo das relações de consumo. Em outras palavras, as disposições estabelecidas em um instrumento de

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distrato são, como quaisquer outras disposições contratuais, passíveis de anulação por abusividade. Modelo

distrato são, como quaisquer outras disposições contratuais, passíveis de anulação por abusividade.

Modelo individualista-liberal

Em síntese, o princípio da autonomia privada pode ser apreendido como a possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas relações mútuas dentro de determinados limites, por meio de negócios jurídicos, enquanto o pacta sunt servanda é concebido como o princípio que determina a força obrigatória dos contratos.

Importante relembrar que, no modelo individualista-liberal, típico dos códigos oitocentistas, tais princípios eram tomados como absolutos. No entanto, na concepção atual do direito civil-constitucional, ocorreu sua relativização com vistas à melhor proteção da dignidade humana.

Conclusão

Conclui-se, portanto, que, ao surgirem questões práticas acerca da aplicação do princípio da autonomia privada, da liberdade e da dignidade da pessoa humana, deve-se privilegiar a liberdade do sujeito em detrimento dos interesses patrimoniais inerentes ao negócio jurídico, já que prevalece o direito existencial no sistema jurídico pátrio.

Atividade proposta

Leia sobre um case que aborda o conteúdo discutido nesta aula. Em seguida, diante do exposto, faça a analise do acórdão e identifique se há ou não desrespeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, diante da possibilidade de penhorar o único bem de família do fiador.

“TJRJ - DES. MARIO ASSIS GONCALVES - Julgamento: 09/05/2012 - TERCEIRA CAMARA CIVEL. Embargos à execução. Fiador. Bem de família. Penhorabilidade. Constitucionalidade reconhecida pelo STF. O inciso VII do artigo 3º, da Lei 8.009/90 afasta a impenhorabilidade do bem de família na hipótese de

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execução de obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. Assim, o imóvel apontado

execução de obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. Assim, o imóvel apontado pelo exequente, ainda que seja o único, pode ser objeto da execução. A constitucionalidade do referido dispositivo legal foi declarada pelo Supremo Tribunal Federal em julgamento de Recurso Extraordinário no qual se reconheceu a existência de repercussão geral. A matéria é, inclusive, objeto do verbete sumular nº 63 deste Tribunal. Desta forma, legítima a penhora realizada sobre o bem de propriedade da fiadora. Por fim cumpre destacar que a fiança é uma obrigação de garantia. Nesse tipo de obrigação, aquilo a que se obriga o fiador é pagar a obrigação se o devedor não o fizer. A fiança é outra relação jurídica da qual o devedor não faz parte e que se estabelece entre o credor e o fiador, são duas relações jurídicas distintas. Há uma relação jurídica principal que se estabelece entre credor e o devedor e há outra relação jurídica acessória que se estabelece entre o credor e o fiador. Da principal o fiador não é parte, assim como da acessória é o devedor que não é parte. Desta forma, quitado o débito pelo fiador este se sub-roga nos direitos do locador, podendo executar a dívida em virtude do direito de regresso. Recurso ao qual se dá provimento”.

Chave de resposta: À luz do direito civil-constitucional, é cabível o questionamento acerca da constitucionalidade do Artigo 3º, VII, da Lei nº 8.009/90, que possibilita a penhora do único bem de família do fiador. Importante lembrar que a referida lei encontra fundamento na doutrina do patrimônio mínimo do devedor, materializando a dignidade da pessoa humana nas relações contratuais. É de se concluir que tal precedente acaba criando um ambiente inseguro ao fiador e, por conseguinte, inviabiliza a assunção desta responsabilidade.

Referências

DE CUPIS, Adriano. Os direitos da personalidade. Campinas: Romana Jurídica, 2004. p. 121.

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MELLO, Celso Antonio Bandeira. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade . 3. ed. São Paulo:

MELLO, Celso Antonio Bandeira. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1995. p. 21.

TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 3. ed. São Paulo: Método, 2013. p.

539.

Exercícios de fixação

Questão 1 (Magistratura do Trabalho) A liberdade de contratar, segundo preceito expresso na Lei Civil, será exercida em razão e nos limites da função social do contrato, porque o Código Civil vigente traz uma maior preocupação com a dignidade da pessoa humana, quando visualiza o contrato como instrumento de integração do homem na sociedade:

a) As duas expressões são falsas

b) A primeira é verdadeira, e a segunda é falsa

c) A primeira é falsa, e a segunda é verdadeira

d) As duas são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira

e) As duas são verdadeiras, e a segunda não justifica a primeira

Questão 2 De acordo com os princípios que regem a relação contratual, identifique aquele que não se aplica a presente relação.

a) Princípio da dignidade da pessoa humana

b) Princípio da função social dos contratos

c) Princípio da responsabilidade pessoal do devedor

d) Princípio da boa-fé objetiva

Questão 3

O processo de mitigação dos tradicionais critérios para solucionar o conflito entre regras, em que se busca a harmonização entre as diversas normas do ordenamento jurídico ao invés do afastamento de uma delas, é denominado de:

a) Crise dos contratos

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b) Pacta sunt servanda

c) Dirigismo contratual

d) Diálogo das fontes

sunt servanda c) Dirigismo contratual d) Diálogo das fontes Questão 4 É possível afirmar que o

Questão 4 É possível afirmar que o direito civil-constitucional pode ser considerado como:

a) Uma nova técnica de hermenêutica, em que os princípios constitucionais deverão ser aplicados às relações privadas.

b) Uma nova técnica de hermenêutica, em que o credor deverá se submeter ao inadimplemento voluntário do devedor.

c) Uma nova técnica de hermenêutica, em que se reafirma o Código Civil como diploma patrimonialista e individualista.

d) Uma nova técnica de hermenêutica, em que o devedor deverá se submeter às cláusulas determinadas pelo credor.

Questão 5 (OAB) Semprônio realiza contrato de locação com Terêncio, de imóvel residencial urbano. Para garantir a avença, intercede Esculápio na condição de fiador pelo período do contrato, renunciando ao benefício de ordem. No curso da avença, o devedor, por motivos de doença da família, deixa de quitar algumas prestações. Após o período de dificuldades, credor e devedor ajustam a prorrogação do contrato, não informando tal situação ao fiador. Diante do exposto, marque a alternativa correta:

a) O fiador não será responsável, diante da prorrogação do contrato.

b) A fiança não constitui uma das espécies de garantia locatícia.

c) Qualquer modificação no contrato não precisa ser comunicada ao fiador.

d) O único bem de família do fiador poderá ser penhorado, por expressa força de lei.

Questão 6

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A possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas relações mútuas, dentro de determinados

A possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas relações mútuas, dentro de determinados limites, por meio de negócios jurídicos, constitui um dos princípios fundamentais da relação contratual. Aponte, dentre as alternativas abaixo, o presente princípio:

a) Princípio da função social dos contratos

b) Princípio da autonomia da vontade

c) Princípio do pacta sunt servanda

d) Princípio da conservação do negócio jurídico

Questão 7

Quanto aos princípios que regem a relação contratual, assinale a resposta incorreta.

a) Autonomia da vontade é a possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas relações mútuas, dentro de determinados limites, por meio de negócios jurídicos.

b) Função social do contrato é um princípio contratual, de ordem pública, pelo qual o contrato deve ser necessariamente visualizado, interpretado e estruturado de acordo com o contexto da sociedade.

c) Pelo princípio da boa-fé objetiva, os contratantes estão obrigados a cumprir suas prestações de forma leal e proba, sob pena de cometerem abuso de direito, o que acarreta responsabilidade civil.

d) A liberdade de contratar não será exercida em razão e nos limites da função social do contrato.

Questão 8 (OAB) Silvana, promitente compradora, celebrou instrumento de promessa de compra e venda de imóvel no valor de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) com Ivana, promitente vendedora, através de instrumento público. Durante a vigência do pacto, Silvana e Ivana decidiram desfazer o negócio e celebraram novo acordo por meio de instrumento particular, extinguindo o contrato inicial. Qual é o instituto jurídico pertinente?

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a) Trata-se de distrato, que deverá seguir a mesma forma exigida por lei para a

a) Trata-se de distrato, que deverá seguir a mesma forma exigida por lei para a realização do contrato.

b) Trata-se de distrato, que não precisará seguir a mesma forma exigida por lei para a realização do contrato.

c) Trata-se de resilição unilateral do contrato.

d) Trata-se de resolução contratual.

Questão 9 José celebrou contrato de compra e venda de safra futura de soja com Antônio, em que ficou determinado o pagamento por toda a safra de soja do segundo,

mesmo que esta não venha a existir. Quanto à classificação, é possível afirmar que:

a) O contrato é comutativo, cabendo aplicar a teoria da imprevisão.

b) O contrato é aleatório, cabendo aplicar a teoria da imprevisão.

c) O contrato é comutativo, não cabendo aplicar a teoria da imprevisão.

d) O contrato é aleatório, não cabendo aplicar a teoria da imprevisão.

Questão 10 (Exame da OAB 2012) Embora sujeito às constantes mutações e às diferenças de contexto em que é

aplicado, o conceito tradicional de contrato sugere que ele represente o acordo de vontades estabelecido com a finalidade de produzir efeitos jurídicos. Tomando por base a teoria geral dos contratos, assinale a afirmativa correta:

a) A celebração de contrato atípico, fora do rol contido na legislação, não é lícita, pois as partes não dispõem da liberdade de celebrar negócios não expressamente regulamentados por lei.

b) A atipicidade contratual é possível, mas, de outro lado, há regra específica prevendo não ser lícita a contratação que tenha por objeto a herança de pessoa viva, seja por meio de contrato típico ou não.

c) A liberdade de contratar é limitada pela função social do contrato, e os contratantes deverão guardar, assim na conclusão, como em sua execução, os princípios da probidade e da boafé subjetiva, princípios

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estes ligados ao voluntarismo e ao individualismo que informam o nosso Código Civil. d) Será

estes ligados ao voluntarismo e ao individualismo que informam o nosso Código Civil. d) Será obrigatoriamente declarado nulo o contrato de adesão que contiver cláusulas ambíguas ou contraditórias.

que contiver cláusulas ambíguas ou contraditórias. Contrato de mútuo feneratício: No presente empréstimo de

Contrato de mútuo feneratício: No presente empréstimo de bens fungíveis, permite-se a previsão de juros compensatórios entre os contratantes. Segundo o Artigo 591 do CC: “Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a que se refere o Artigo 406, permitida a capitalização anual”.

Juros compensatórios: Tal espécie de taxa de juros tem a finalidade de capitalizar o valor nominal que foi emprestado. Para os contratos pactuados entre pessoas físicas ou jurídicas que não exerçam atividade financeira, sua base normativa será a Lei de Usura.

financeira, sua base normativa será a Lei de Usura. Aula 1 Exercícios de fixação Questão 1

Aula 1 Exercícios de fixação

Questão 1 - D Justificativa: O Código Civil de 2002, a partir de uma leitura constitucionalizada do ordenamento jurídico, apresenta mecanismos que visam atenuar o princípio da autonomia privada por meio da incorporação da justiça social distributiva aos negócios jurídicos, bem como da dignidade da pessoa humana.

Questão 2 - C Justificativa: Conforme Artigo 391 do CC: “Pelo inadimplemento das obrigações, respondem todos os bens do devedor”.

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Questão 3 - D Justificativa: Cláudia Lima Marques denomina como diálogo das fontes o processo

Questão 3 - D Justificativa: Cláudia Lima Marques denomina como diálogo das fontes o processo de mitigação dos tradicionais critérios hermenêuticos, utilizados para se determinar qual norma deverá ser aplicada em dado caso concreto.

Questão 4 - A Justificativa: Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se influenciado pela Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação paradigmática em sua interpretação. Como resultado, a doutrina e a jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e premissas metodológicas do direito civil-constitucional, entendido, pois, como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e direitos fundamentais às relações privadas.

Questão 5 - D Justificativa: Conforme Artigo 3º, VII, da Lei nº 8.009/1990.

Questão 6 - B Justificativa: Em síntese, o princípio da autonomia privada pode ser apreendido como a possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas relações mútuas, dentro de determinados limites, por meio de negócios jurídicos.

Questão 7 - D Justificativa: Conforme Artigo 421 do CC: “A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato”.

Questão 8 - A Justificativa: Conforme Artigo 472 do CC: “O distrato faz-se pela mesma forma exigida para o contrato”.

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Questão 9 - D Justificativa: Informativo nº 492 do STJ: “Nos contratos aleatórios de compra

Questão 9 - D Justificativa: Informativo nº 492 do STJ: “Nos contratos aleatórios de compra e venda de safra futura, as variações de preço, por si só, não motivam a resolução contratual com base na teoria da imprevisão”.

Questão 10 - B Justificativa: Conforme Artigo 425 do CC: “É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código”; e Artigo 426 do CC: “Não pode ser objeto de contrato a herança de pessoa viva”.

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Introdução É possível afirmar que na sociedade atual o contrato se corporifica como o maior
Introdução É possível afirmar que na sociedade atual o contrato se corporifica como o maior

Introdução

É possível afirmar que na sociedade atual o contrato se corporifica como o

maior negócio jurídico. E, dessa forma, a apreensão de sua base principiológica torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito.

Nesse contexto, insere-se o princípio da boa-fé objetiva, a partir da personificação dos anseios constitucionais às relações privadas. Com isso, a exigência de conduta pautada na lealdade dos contratantes torna-se imprescindível e sua violação passa a constituir abuso de direito.

Diante da jurisprudencialização do ordenamento jurídico, as decisões judiciais ganham importância fundamental para apreensão dos institutos de direito. Diante dessa premissa, convém analisar a ocorrência ou inocorrência da boa-fé objetiva nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, cabendo a seguinte pergunta: qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário tem agregado ao referido princípio civil-constitucional?

Objetivo:

1. Analisar os elementos constitutivos do princípio da boa-fé objetiva: conceito, regulamentação, requisitos para aplicação, funções, deveres anexos, abuso de direito e violação positiva do contrato; 2. Analisar a aplicação jurisprudencial do princípio da boa-fé objetiva e perceber sua ocorrência nas obrigações e nos contratos em geral.

Conteúdo Lealdade contratual

A boa-fé objetiva determina que os contratantes estão obrigados a cumprir

suas prestações de forma leal e proba, sob pena de cometerem abuso de direito (Artigo 187, CC), o que acarreta responsabilidade civil, constituindo uma verdadeira cláusula geral, já que materializa um preceito de ordem pública.

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Boa-fé subjetiva Com o intuito de diferenciar a boa-fé subjetiva da boa-fé objetiva, leciona Gonçalves,

Boa-fé subjetiva

Com o intuito de diferenciar a boa-fé subjetiva da boa-fé objetiva, leciona Gonçalves, citando Martins-Costa:

“Num primeiro plano, a boa-fé subjetiva implica a noção de entendimento

sendo que a situação é

regular e essa sua ignorância escusável reside no próprio estado (subjetivo) da ignorância (as hipóteses de casamento putativo, da aquisição da propriedade alheia mediante usucapião), seja numa errônea aparência de certo ato

(mandato aparente, herdeiro aparente, etc).”

equivocado, em erro que enreda o contratante (

),

Ordenamento jurídico

Para doutrina italiana, a boa-fé é elemento constitutivo da fattispecie liberatória e a sua prova cabe ao devedor.

De acordo com o Enunciado nº 548 da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, “caracterizada a violação de dever contratual, incumbe ao devedor o ônus de demonstrar que o fato causador do dano não lhe pode ser imputado, conforme Artigos 389 e 475, CC”.

Tal enunciado justifica-se no fato do ordenamento jurídico ser composto por regras, princípios e valores coerentes entre si, o que acarreta a imposição do ônus de provar ao devedor, que não foi ele quem descumpriu a obrigação, tanto nas hipóteses de mora e de inadimplemento, quanto nos casos de cumprimento imperfeito.

Eventualmente, a boa-fé pode ser presumida, bastando a prova da aparência (Teoria da Aparência) da legitimação para receber, em relação ao credor putativo, nos moldes do Artigo 309 do CC.

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Intérprete jurídico Importante destacar que se presume a boa-fé, tanto objetiva quanto subjetiva, nos contratos

Intérprete jurídico

Importante destacar que se presume a boa-fé, tanto objetiva quanto subjetiva, nos contratos consumeristas (Artigo 47 do CDC) e nos contratos de adesão (Artigo 423 do CC).

A complementaridade entre as duas normas deve ser materializada pelo intérprete jurídico, em respeito à técnica denominada diálogo das fontes, em que se busca a harmonização entre as diversas fontes normativas que compõem o ordenamento jurídico nacional.

De acordo com o Enunciado nº 27 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “na interpretação da cláusula geral da boa-fé objetiva, deve-se levar em conta o sistema do CC e as conexões sistemáticas com outros estatutos normativos e fatores metajurídicos”.

Contratos de adesão

A conduta de lealdade deverá ser observada, principalmente, nos contratos de adesão.

Em breve conceituação, contrato de adesão é aquele em que uma parte, o estipulante, impõe o conteúdo negocial, restando à outra parte, o aderente, duas opções: aceitar ou não o conteúdo desse negócio (Artigos 423 e 424, CC e 54, CDC).

A consequência jurídica imposta pelo desrespeito à boa-fé objetiva em tais contratos é a nulidade das cláusulas abusivas; dentre elas encontra-se o pacto comissório real. Pelo Artigo 1.428, CC: “É nula a cláusula que autoriza o credor pignoratício, anticrético ou hipotecário a ficar com o objeto da garantia, se a dívida não for paga no vencimento”.

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Renúncia antecipada Não é possível a renúncia antecipada de direitos em contratos de adesão, nos

Renúncia antecipada

Não é possível a renúncia antecipada de direitos em contratos de adesão, nos moldes do art. 424 do Código Civil.

Atualmente, grande parte dos contratos de financiamento é de adesão, contratos nos quais há, normalmente, constituição de direito real de garantia, como é o caso da hipoteca.

Porém, a lei civil estabelece uma limitação ao credor, que não pode pactuar a tomada da coisa, diante do inadimplemento obrigacional no vencimento. Para tanto, à luz da boa-fé objetiva, necessitará de ação judicial, ou para cobrar a dívida, ou para tomar o bem.

Direito de sequela

Hipoteca De outra sorte, a hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro vem prejudicando o comprador do imóvel (consumidor), que acaba perdendo seu bem.

Direto Tal perda decorre do direito de sequela inerente ao direito real de garantia estabelecido.

Boa-fé Objetiva Porém, a Súmula nº 308 do STJ materializa a boa-fé objetiva, ao estabelecer:

“A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebração da promessa de compra e venda, não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel”.

Súmula

Segundo Tartuce:

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O cons umidor, diante do direito de sequela advindo da hipoteca não deverá perder o

O consumidor, diante do direito de sequela advindo da hipoteca não

deverá perder o bem. A referida súmula tende justamente a proteger o último, restringindo os efeitos da hipoteca às partes contratantes. Isso diante da boa- fé objetiva, uma vez que aquele que adquiriu o bem pagou pontualmente as suas parcelas à incorporadora, ignorando toda a sistemática jurídica que rege a incorporação imobiliária.”.

“(

)

Função social do contrato

(1) (2) (3) A utilização da função Há doutrina que entende ser o caso de
(1)
(2)
(3)
A
utilização da função
Há doutrina que entende
ser o caso de aplicar a
função social do
contrato, em sua eficácia
interna, à situação em
exame.
social
decorre
da
necessidade de proteção
do
hipossuficiente
da
relação,
no
caso
o
consumidor,
por
se
tratar
da
parte
mais
vulnerável no contrato.
Além do mais, a função
social se deflagraria,
pois o negócio jurídico
havido entre a
construtora e o agente
financeiro coíbe a
dinâmica natural dos
pactos, ao prejudicar a
coletividade na obtenção
dos bens da vida.

Conduta leal

Tornou-se comum afirmar que a boa-fé objetiva, conceituada como sendo exigência de conduta leal dos contratantes, está relacionada com os deveres anexos, que são inerentes a qualquer negócio jurídico, não havendo a necessidade de previsão no contrato, por se tratar de preceito de ordem pública.

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Atenção A inobservância desses deveres gera a violação positiva do contrato com responsabilização daquele que
Atenção

Atenção

A inobservância desses deveres gera a violação positiva do contrato com responsabilização daquele que desrespeita a boa- fé objetiva, independentemente de culpa, pois cometeu abuso de direito, conforme determina o Enunciado nº 24 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “a violação dos deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente de culpa”. Há o seu reconhecimento em todas as fases do negócio jurídico (interpretação contratual, fase pré-contratual, fase contratual e fase pós-contratual), se tornando uma nova modalidade de inadimplemento contratual.

Intenção

Como visto, diante da ausência de boa-fé objetiva, basta que o contratante lesado prove a existência da violação, mas não a intenção em prejudicar do outro contratante (como ocorre na má-fé); nos termos do Enunciado nº 363 da IV Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, “Os princípios da probidade e da confiança são de ordem pública, estando a parte lesada somente obrigada a demonstrar a existência da violação”.

Violação positiva do contrato

Exemplo da aplicação da violação positiva do contrato e das outras formas de inadimplemento possíveis no ordenamento brasileiro: João (comprador) celebrou contrato de compra e venda com Antônio (vendedor) de um bem imóvel.

Acompanhe esse exemplo, e aprenda!

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Aplicação da violação positiva Se Antônio deixar de entregar o imóvel a João, estará absolutamente

Aplicação da violação positiva

Se Antônio deixar de entregar o imóvel a João, estará absolutamente inadimplente. Com isso, João poderá ingressar com ação de obrigação de fazer, a fim de exigir que Antônio lhe entregue o imóvel ou arque com perdas e danos, nos moldes do Artigo 475 do CC, já que o contrato de compra e venda é classificado como contrato consensual, começando, pois, a produzir efeitos jurídicos a partir de sua assinatura.

Se Antônio deveria entregar o imóvel no dia 10 do mês, mas somente o entrega no dia 20 do mesmo mês, o vendedor encontra-se relativamente inadimplente, cabendo a cobrança dos juros moratórios determinados contratualmente, ou, na ausência de convenção, deveria ser observada a taxa estabelecida pelo Artigo 406, CC c/c Artigo 161, § 1º do CTN.

Se Antônio entregou o imóvel a João e esse entregou o valor do pagamento, para o direito civil clássico o contrato restaria extinto pelo cumprimento obrigacional.

Porém, se Antônio, ao vender o imóvel, sabia que em poucos meses seria construído à frente da porta do prédio em questão um viaduto com aptidão de acarretar desvalorização considerável no bem, o vendedor faltou com a boa-fé objetiva, pois tem o dever de informar tal situação, em respeito à conduta de lealdade imposta aos contratantes.

Dessa forma, o comprador poderá pleitear na justiça uma reparação civil pelos prejuízos daí advindos, em decorrência do cometimento do abuso de direito (Artigo 187 do CC), que deflagra a mencionada violação positiva do contrato.

De outra sorte, caso João tenha contratado com Antônio a compra do bem mediante coação, tal negócio jurídico encontra-se eivado com um vício, podendo o juiz declarar sua anulabilidade (Artigo 171 do CC). Nesse caso,

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houve a celebração do contrato sem o respeito à livre manifestação de vontade, o que

houve a celebração do contrato sem o respeito à livre manifestação de vontade, o que constitui um dos requisitos para sua validade, já que ocorreu a má-fé.

Deveres anexos

Juízos de valor Como foi afirmado, não existe um rol preciso de deveres anexos, pois se vive num sistema aberto que permite a aferição de sua ocorrência ou inocorrência em determinado caso concreto.

Dessa forma, constitui tarefa do magistrado a observação da efetivação da cláusula geral da boa-fé objetiva, à luz do direito civil-constitucional.

O exercício do bom senso acaba traçando um escopo jurídico à amplitude do princípio, também para não fomentar decisões calcadas em juízos de valor eminentemente subjetivo.

Contorno jurídico

Daí, na tentativa de lhe determinar contorno jurídico, Tartuce elenca alguns deveres anexos que correspondem ao mínimo exigindo em relação à conduta dos contratantes, e Gonçalves ajuda a exemplificá-los:

Cuidado em relação à outra parte contratual (não fazer do negócio jurídico um jogo de ganhos e perdas);

Respeito e probidade (não se locupletar em virtude das fragilidades pessoais do outro contratante, como, por exemplo, celebrar contrato desproporcional com pessoa idosa que, apesar de ser plenamente capaz, encontra-se mais vulnerável);

Respeito e probidade (não se locupletar em virtude das fragilidades pessoais do outro contratante, como, por exemplo, celebrar contrato desproporcional com

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pessoa

vulnerável);

idosa

que,

apesar

de

ser

plenamente

capaz,

vulnerável); idosa que, apesar de ser plenamente capaz, encontra-se mais Informação ou esclarecimento

encontra-se

mais

Informação ou esclarecimento (informação sobre o uso do bem alienado, capacitações e limites);

Confiança (possibilidade de efetuar e respeitar acordos realizados no bojo do contrato);

Lealdade (não exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de equivalência das prestações);

Cooperação ou colaboração (prática de atos necessários à realização plena dos fins visados pela outra parte);

Proteção (evitar situações de perigo);

Conservação (no caso de coisa recebida para experiência).

Funções da boa-fé objetiva

Constituem funções da boa-fé objetiva: interpretação (Artigo 113 do CC); controle (Artigo 187 do CC) e integração (Artigo 422 do CC).

Em relação à função de interpretação, a boa-fé objetiva constitui instrumento para o aplicador do direito, que deverá observar sua ocorrência ou inocorrência nos casos submetidos à sua análise. Constatada sua inobservância, surge a função de controle.

A função de controle da boa-fé objetiva aparece diante de sua ausência, a fim de conter o abuso de direito. Nos moldes do Artigo 187, CC: “Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede

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manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa- fé ou pelos

manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa- fé ou pelos bons costumes”.

Assim, exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de equivalência das prestações constitui abuso de direito, pois ao credor é possível prever uma cláusula penal (multa), mas não de forma que essa acarrete um prejuízo demasiado ao devedor. Dessa forma, cláusulas abusivas deverão ser afastadas em detrimento da autonomia da vontade.

A função de integração permite constatar a presença da boa-fé objetiva em todas as fases contratuais, inclusive nas fases pré e pós-contratuais. É entendida como uma orientação para o magistrado, de acordo com o Enunciado nº 25 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “O Artigo 422 do Código Civil não inviabiliza a aplicação pelo julgador do princípio da boa-fé nas fases pré-contratual e pós-contratual”, bem como para os contratantes, como determina o Enunciado nº 170 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “A boa-fé objetiva deve ser observada pelas partes na fase de negociações preliminares e após a execução do contrato, quando tal exigência decorrer da natureza do contrato”.

Boa-fé objetiva x boa-fé subjetiva

Conclui-se, portanto, que, enquanto a boa-fé objetiva é considerada uma regra de conduta na visão do homem-médio, a boa-fé subjetiva relaciona-se com a intenção do contratante, sua construção psicológica ou íntima convicção acerca do negócio jurídico.

Diante da boa-fé objetiva, examinam-se todas as circunstâncias do caso concreto e a partir daí indaga-se se o homem médio se comportaria do mesmo modo que os contratantes, sendo, pois, um arquétipo ou standart, porém não universal, e, dessa forma, não dispensa uma análise circunstancial.

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Tal imprecisão configura-se importante no sistema jurídico civil-constitucional brasileiro, uma vez que o intérprete

Tal imprecisão configura-se importante no sistema jurídico civil-constitucional brasileiro, uma vez que o intérprete deve ter liberdade em definir a sua dimensão e âmbito de aplicação em casa situação fática.

Jurisprudencialização do direito

Constitui fenômeno recente a jurisprudencialização do direito. Pelo referido fenômeno, a aplicação dos institutos jurídicos pelos tribunais passa a ser leitura imprescindível ao operador do direito, que pauta as fundamentações de suas peças processuais no cotidiano forense.

Além disso, como mencionado anteriormente, a boa-fé objetiva materializa-se nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, logo, há de se perguntar:

qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário tem agregado ao referido princípio civil-constitucional?

Jurisprudência

Como dito anteriormente, a boa-fé é elemento constitutivo da fattispecie liberatória, que pode ser presumida pelo devedor, bastando a prova da aparência de que dado credor é legítimo para receber o denominado credor putativo.

Convém transcrever a jurisprudência do STJ, que ilustra a presente afirmação:

“DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. OBRIGAÇÃO DE FAZER. PEDIDO DE OUTORGA DE ESCRITURA DEFINITIVA DE COMPRA E VENDA. DEFERIMENTO DE OUTORGA DE ESCRITURA DE CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS. JULGAMENTO EXTRA PETITA. NÃO OCORRÊNCIA. BEM TRANSACIONADO OBJETO DE INVENTÁRIO. PAGAMENTO AO CREDOR PUTATIVO. EFICÁCIA. SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. 2 - Considera- se eficaz o pagamento realizado àquele que se apresenta com aparência consistente de ser mandatário do credor se as circunstâncias do caso assim indicarem. A atuação da corretora e do recorrente indicaram à recorrida,

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compradora do bem, que aquela tinha legitimidade para as tratativas e fechamento do negócio de

compradora do bem, que aquela tinha legitimidade para as tratativas e fechamento do negócio de compra e venda.”

Transmissão das obrigações

O dever de lealdade, inerente à boa-fé objetiva, deve ser observado diante da

transmissão das obrigações. Constitui uma das espécies de transferência

das obrigações no ordenamento jurídico pátrio, a cessão de crédito.

A cessão é a regra no sistema jurídico brasileiro, diante da impessoalidade do

vínculo, devendo a cláusula proibitiva acompanhar o contrato originário, nos moldes do Artigo 286 do CC.

Com isso, não se exige o consentimento do devedor, mas tal fato não pode ser utilizado para prejudicá-lo, que deverá ser notificado da cessão realizada, conforme Artigo 290 do CC. Institui o diploma cível, ainda que o pagamento realizado pelo devedor de boa-fé ao cedente, sem ter sido notificado da transferência, seja considerado válido, como dispõe o seu Artigo 292, não configurando, dessa maneira, pagamento indevido.

Em outros sistemas de direito (Artigo 403, BGB e Artigo 1.689, Código Civil francês) a aceitação expressa do devedor é requerida.

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Atenção Quanto ao posicionamento do STJ, relevante observar a decisão a seguir, que corrobora o
Atenção

Atenção

Quanto ao posicionamento do STJ, relevante observar a decisão a seguir, que corrobora o disposto nos Artigos 290 e 292 do CC:

“CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA CUMULADA COM COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. CESSÃO DE CRÉDITO. SUBSTITUIÇÃO DE PARTES. AUSÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO. - A cessão de crédito não vale em relação ao devedor, senão quando a ele notificada. Precedentes desta Turma. - Agravo no recurso especial não provido. (AgRg no REsp 1.171.617/PR, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/2/2011, DJe 28/2/2011)“

Tribunais estaduais

Em outro sentido, segundo os tribunais estaduais, é dever do cessionário a comprovação da ocorrência da cessão, a existência do débito e a notificação do cedido, constituindo violação da boa-fé objetiva a inscrição do nome do devedor no cadastro de inadimplentes sem as referidas comprovações, ensejando pleito indenizatório pelos danos morais sofridos.

AGRAVO LEGAL. UTILIZAÇÃO FRAUDULENTA DE DADOS. CESSÃO DE CRÉDITO. INSCRIÇÃO CADASTRO RESTRITIVO. DANO MORAL. 1- É dever do cessionário a comprovação da origem, existência e regularidade do débito, bem como a notificação da parte devedora acerca da cessão de crédito. 2- E não comprovada a origem do débito, bem como a notificação da parte devedora acerca da cessão, forçoso o reconhecimento da inexigibilidade do débito. 3- Neste aspecto, a inscrição do nome do consumidor em cadastros restritivos de crédito decorrente de débito relativo a cartão de crédito não contratado, macula a segurança necessária à realização dos negócios, caracteriza o defeito do serviço e enseja o dever de indenizar os prejuízos daí advindos. 4- Desta forma,

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a indenização por dano moral deve representar compensação razoável pelo constrangimento experimentado, cuja

a indenização por dano moral deve representar compensação razoável pelo constrangimento experimentado, cuja intensidade, aliada a outras circunstâncias peculiares de cada conflito de interesses, deve ser considerada para fixação do seu valor, não podendo, todavia, traduzir-se em enriquecimento indevido (0045656-89.2011.8.19.0001 - APELACAO DES. MILTON FERNANDES DE SOUZA - Julgamento: 17/01/2012 - QUINTA CAMARA CIVEL).

Dever de lealdade

O dever de lealdade deve ser observado em todas as fases contratuais.

Diante do adimplemento obrigacional é fundamental observá-lo, principalmente, quando houver divergência entre credor e devedor, quanto ao valor devido.

Para tanto, o devedor se comportará dentro dos ditames estabelecidos pela boa-fé objetiva, no momento em que ajuizar ação de consignação em pagamento (quando existir contestação parcial do débito em questão), ação de repetição de indébito (quando ocorrer pagamento indevido) ou ação de obrigação de fazer (quando existir contestação integral do débito e o nome do sujeito encontrar-se no cadastro de inadimplentes).

Nesse sentido, importante observar o entendimento do STJ apresentado adiante.

Segunda seção do STJ

Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do nome de devedores em cadastro de proteção ao crédito, somente fica impedida se implementadas, concomitantemente, às seguintes condições:

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Ajuizamento O ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou integral do débito;

Ajuizamento

O ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou

integral do débito;

Demonstração Efetiva demonstração de que a contestação da cobrança indevida se funda na aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STF ou do STJ;

Contestação Que, sendo a contestação apenas parte do débito, deposite o valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, ao prudente arbítrio do magistrado.

Informativos do STJ

Consignação em pagamento Diante do ajuizamento de ação de consignação em pagamento, caracaterizará boa-fé objetiva do devedor o depósito da quantia que entender

devida, sob pena, inclusive, de improcedência de seu pedido. Além disso, consta dos atuais informativos do STJ que não basta o recolhimento dos valores vincendos, mas também dos valores vencidos anteriores ao ajuizamento da

ação:

“DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. NECESSIDADE DE DEPÓSITO DOS VALORES VENCIDOS E INCONTROVERSOS EM AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO. Em ação de consignação em pagamento, ainda que cumulada com revisional de contrato, é inadequado o depósito tão somente das prestações que forem vencendo no decorrer do processo, sem o recolhimento do montante incontroverso e vencido.“

Conduta de lealdade

A conduta de lealdade também deverá ser observada na fase pré-

contratual (fase em que ocorrem os debates prévios visando à formação do

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contrato definitivo), segundo a jurisprudência do STJ. Porém, cumpre informar divergência doutrinária a respeito. Já

contrato definitivo), segundo a jurisprudência do STJ. Porém, cumpre informar divergência doutrinária a respeito.

Já que não está previsto no Código Civil, duas correntes surgem quanto à responsabilização pelo descumprimento obrigacional do pré-contratante. A majoritária, capitaneada por Maria Helena Diniz, defende não haver responsabilidade civil contratual, uma vez que as partes não se vincularam por meio de contrato.

Para a corrente minoritária, capitaneada por Tartuce, apesar de não ocorrer vinculação entre as partes, há responsabilidade civil contratual em função dos Enunciados nºs 25 e 170 das Jornadas de Direito Civil, que reconhecem a aplicação da boa-fé em todas as fases do contrato.

Assim, quem desrespeita a boa-fé objetiva comete abuso de direito, gerando a obrigação de indenizar. A fim de ilustrar o posicionamento do STJ, cabe transcrever parte da decisão mencionada.

O ministro Villas Bôas Cueva, relator do recurso, considerou que a afirmação pela BMW de sua intenção em contratar, adiantando os documentos exigidos para a formalização do contrato definitivo, trocando correspondências, informando a aprovação da adesão aliada ao depósito prévio, deu origem à responsabilidade pré-negocial. Segundo a doutrina e precedentes do STJ, incorre em responsabilidade pré-negocial a parte que cria na outra a convicção razoável de que o contrato será assinado, mas rompe as negociações, ferindo legítimos direitos de quem agiu com boa-fé. No Brasil, o Código Civil de 2002 prevê que os contratantes são obrigados a guardar, na conclusão do contrato e em sua execução, os princípios da probidade e da boa-fé. No caso, o relator entendeu que a responsabilidade pré-contratual discutida não decorre do fato de a tratativa ter sido rompida e o contrato não ter sido concluído, mas, sim, de uma das partes ter causado à outra, além da expectativa de que o contrato

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seria concluído (conduta de lealdade, inerente à boa-fé objetiva), efetivo prejuízo material. Contratos A conduta

seria concluído (conduta de lealdade, inerente à boa-fé objetiva), efetivo prejuízo material.

Contratos

A conduta de lealdade deverá ser observada, principalmente, nos contratos

de adesão. Segundo jurisprudência do STJ (Precedentes citados: AgRg no Ag

866.542-SC, Terceira Turma, DJe 11/12/2012; REsp 633.793-SC, Terceira Turma, DJ 27/6/2005; e AgRg no REsp 997.956-SC, Quarta Turma, DJe 02/8/2012. REsp 1.300.418-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 13/11/2013), em contrato de promessa de compra e venda de imóvel submetido ao CDC, é abusiva a cláusula contratual que determine, no caso de resolução, a restituição dos valores devidos somente ao término da obra ou de forma parcelada, independentemente de qual das partes tenha dado causa ao fim do negócio.

Ordenamento jurídico nacional

De fato, não há, no ordenamento jurídico nacional, dispositivo que imponha a devolução imediata do que é devido pelo promitente vendedor de imóvel, porém o CDC optou pelo sistema aberto, ao estabelecer um rol meramente exemplificativo acerca das cláusulas consideradas abusivas, até porque impossível seria ao legislador prever todas as práticas realizadas pelas empresas/fornecedores em desrespeito ao consumidor.

Nesse contexto, o STJ vem entendendo serem abusivas situações fático- jurídicas submetidas a sua apreciação, por ofensa ao Artigo 51, II e IV, do CDC.

A

fim de materializar o dever de lealdade nos contratos de promessa de compra

e

venda, passa a constituir prática abusiva a restituição dos valores de forma

prejudicial ao consumidor.

Como se não bastasse, o promitente vendedor poderá revender o imóvel a terceiros, auferirindo vantagem com os valores retidos, além da própria valorização do imóvel. Importante destacar que o Tribunal Superior

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reconheceu, ainda, a abusividade da mencionada cláusula no âmbito do direito comum, com fundamentação no

reconheceu, ainda, a abusividade da mencionada cláusula no âmbito do direito comum, com fundamentação no Artigo 122 do CC. Revela-se evidente potestatividade na presente hipótese, o que é considerado abusivo, tanto pelo Artigo 51, IX, do CDC, quanto pelo Artigo 122 do CC.

Desfazimento da pactuação

A questão relativa à culpa pelo desfazimento da pactuação resolve-se no

quantum indenizatório a ser ressarcido ao promitente-comprador, não pela forma ou prazo de devolução. A presente fundamentação encontra-se disposta

no Artigo 543-C do CPC:

“Em contratos submetidos ao Código de Defesa do Consumidor, é abusiva a cláusula contratual que determina a restituição dos valores devidos somente ao término da obra ou de forma parcelada, na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra e venda de imóvel, por culpa de quaisquer contratantes. Em tais avenças, deve ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo promitente comprador integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente vendedor/construtor, ou parcialmente, caso tenha sido o comprador quem deu causa ao desfazimento”.

Vício redibitório

É possível constatar a exigência dos deveres de lealdade e de informação, diante do instituto do vício redibitório. Em breve conceituação, segundo Maria Helena Diniz:

“Vícios redibitórios são defeitos ocultos existentes na coisa alienada, objeto de contrato comutativo ou doação onerosa, não comum às congêneres, que a tornam imprópria ao uso a que se destina ou lhe diminuem sensivelmente o valor, de tal modo que o negócio não se realizaria se esses defeitos fossem conhecidos, dando ao adquirente ação para redibir o contrato ou para obter abatimento no preço.“.

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Diploma civil O diploma civil visa atribuir responsabilização do alienante pelos defeitos ocultos existentes na

Diploma civil

O diploma civil visa atribuir responsabilização do alienante pelos defeitos

ocultos existentes na coisa, antes da tradição. Com isso, materializa a boa-fé

objetiva nas relações contratuais.

O dever de esclarecimento resta claro no disposto do Artigo 443 do CC. Assim, para o adquirente pleitear a indenização por perdas e danos, deve-se comprovar a ausência de boa-fé do alienante, ou seja, que esse último tinha conhecimento do defeito. Se o alienante estiver de boa-fé, somente será obrigado a restituir o valor recebido mais as despesas do contrato

Informativo 506 do STJ

De acordo com o Informativo 506 do STJ, nos contratos de consumo

subsiste a responsabilidade do fornecedor pelos vícios da coisa presentes antes

da tradição, mesmo que terminado o prazo de garantia convencional.

Com isso, o STJ fundamenta sua decisão na boa-fé objetiva, determinando que o produto, ao apresentar vício fora do período de garantia contratual, não prejudica o consumidor, que poderá reclamar pelo vício e exigir a responsabilidade do fornecedor.

Nesse caso, o vício oculto decorre do processo de fabricação do bem, e não do desgaste natural desse, fazendo com que a responsabilidade do fornecedor persista e o prazo para o consumidor reclamar comece a partir da constatação do defeito, independentemente de ter vencido o prazo da garantia convencionada pelas partes. Colaciona-se a ementa do informativo.

Garantia contratual

Segundo o informativo 506 do STJ: “DIREITO DO CONSUMIDOR. VÍCIO OCULTO. DEFEITO MANIFESTADO APÓS O TÉRMINO DA GARANTIA CONTRATUAL. OBSERVÂNCIA DA VIDA ÚTIL DO PRODUTO. O fornecedor responde por vício oculto de produto durável decorrente da própria fabricação e

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não do desgaste natural gerado pela fruição ordinária, desde que haja reclamação dentro do prazo

não do desgaste natural gerado pela fruição ordinária, desde que haja reclamação dentro do prazo decadencial de noventa dias após evidenciado o defeito (Artigo 26 do CDC), ainda que o vício se manifeste somente após o término do prazo de garantia contratual, devendo ser observado como limite temporal para o surgimento do defeito o critério de vida útil do bem”.

Dever anexo de lealdade

Ainda no que concerne aos efeitos dos contratos, é possível constatar a exigência legal do dever anexo de lealdade, diante da evicção. Pelo Artigo 447 do CC, evicção é a perda da coisa diante de uma decisão judicial ou de um ato administrativo que a atribui a terceiro.

Há uma garantia legal quanto à evicção nos contratos bilaterais, onerosos e comutativos, subsistindo tal garantia ainda que a venda tenha sido realizada por meio de hasta pública.

Importante mencionar que, no caso de haver cláusula expressa de exclusão da garantia (cláusula de irresponsabilidade pela evicção), o alienante somente ficará isento de toda e qualquer responsabilidade caso o evicto tenha conhecimento do risco da evicção (Artigo 449 do CC), o que mais uma vez demonstra a exigência da boa-fé objetiva na conduta dos contratantes.

Ascendente e descendente

No contrato de doação entre ascendente e descendente exige-se o respeito ao dever de lealdade, não permitindo o ordenamento jurídico a utilização do mencionado instituto jurídico, a fim de se obrar fraudes ou simulações. Nesse sentido, faz-se importante transcrever a jurisprudência.

APELAÇÃO CÍVEL. REGISTRO DE IMÓVEIS. AÇÃO ANULATÓRIA DE ESCRITURA PÚBLICA C/C CANCELAMENTO DE REGISTRO IMOBILIÁRIO. COMPRA E VENDA DE BENS REALIZADA ENTRE ASCENDENTE E DESCENDENTE. SIMULAÇÃO. OCORRÊNCIA. DOAÇÃO. ONEROSIDADE DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS

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REALIZADOS NÃO DEMONSTRADA. INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS EM RELAÇÃO AO HERDEIRO PRETERIDO QUE DEIXOU DE RECEBER

REALIZADOS NÃO DEMONSTRADA. INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS EM RELAÇÃO AO HERDEIRO PRETERIDO QUE DEIXOU DE RECEBER SEU QUINHÃO PORQUE NÃO LEVADOS OS BENS DOADOS À COLAÇÃO NO INVENTÁRIO. SENTENÇA MANTIDA. HONORÁRIOS. MAJORAÇÃO. POSSIBILIDADE. SENTENÇA REFORMADA NO PONTO. I. A simulação relativa, ocorrente no caso dos autos, se dá quando se realiza aparentemente um negócio jurídico, querendo e levando-se a efeito outro diferente. Em outras palavras, caracteriza-se quando os contratantes concluem um negócio que é verdadeiro - doação -, mas o ocultam sob uma forma jurídica diversa - compra e venda. No caso concreto, o falecido, sua esposa e filhos comuns preteriram o autor - filho concebido fora do casamento - realizando diversas doações sob a aparência de compra e venda, com o objetivo de subtrair o direito do autor à herança de seu falecido pai. As doações ocultas prejudicaram o herdeiro preterido, porque não levadas à colação no processo de inventário, acarretando o desequilíbrio dos quinhões das heranças, razão pela qual foram declaradas ineficazes, em relação ao autor, as doações e cessões gratuitas realizadas pelo de cujus em favor dos réus. Apelos dos réus desprovidos. À UNANIMIDADE, NEGARAM PROVIMENTO AOS APELOS DOS RÉUS E DERAM PROVIMENTO AO APELO DO AUTOR. (Apelação Cível Nº 70038684460, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Liege Puricelli Pires, Julgado em 15/12/2011)

Conclusão

O contorno jurídico que o Poder Judiciário tem agregado ao princípio civil- constitucional da boa-fé objetiva é de verdadeira limitação à autonomia privada. Assim sendo, já não há mais espaço no ordenamento jurídico brasileiro para condutas eminentemente patrimonialistas, destituídas de lealdade, probidade, respeito, esclarecimento e cooperação pelos contratantes, sendo a ausência de tais deveres a base para a responsabilização civil, por meio da aplicação da teoria da violação positiva do contrato.

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Atividade proposta Entendimento jur isprudencial (ministro Luís Felipe Salomão): “Os denominados deveres anexos,

Atividade proposta

Entendimento jurisprudencial (ministro Luís Felipe Salomão): “Os denominados deveres anexos, instrumentais, secundários ou acessórios revelam-se como uma das faces de atuação ou operatividade do princípio da boa-fé objetiva,

sendo nítido que a recorrente faltou com aqueles deveres, notadamente os: de lealdade; de não agravar, sem razoabilidade, a situação do parceiro contratual;

e os de esclarecimento; informação e consideração para com os legítimos interesses do parceiro contratual”.

Qual é a consequência jurídica pelo descumprimento dos deveres jurídicos exigidos na jurisprudência colacionada?

Chave de resposta: Acarreta indenização por perdas e danos, uma vez violado positivamente o contrato.

Referências

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 11ª ed. São Paulo:

Saraiva, 2014. TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 3ª ed. São Paulo: Método, 2013.

Exercícios de fixação

Questão 1

É possível afirmar que, ao se desrespeitar os deveres anexos que compõem a boa-fé objetiva, o contratante comete abuso de direito, gerando, consequentemente, sua obrigação em indenizar perdas e danos do outro

contratante. Diante da presente afirmação, a doutrina mais atualizada tem incorporado uma nova espécie de inadimplemento obrigacional ao sistema jurídico brasileiro, denominada de:

a) Inadimplemento absoluto

b) Inadimplemento relativo

c) Violação positiva do contrato

d) Mora solvendi

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Questão 2 A Súmula nº 308 do STJ (“A hipoteca firmada entre a construtora e

Questão 2 A Súmula nº 308 do STJ (“A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebração da promessa de compra e venda,

não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel”), além de materializar o princípio da boa-fé objetiva, corporifica a eficácia interna do princípio da função social do contrato. Qual dos seguintes conteúdos pode ser atribuída à mencionada eficácia, no referido caso concreto?

a) Vedação do enriquecimento sem causa

b) Imprevisibilidade contratual

c) Conservação do negócio jurídico

d) Proteção do hipossuficiente da relação contratual

Questão 3 É nula a cláusula que autoriza o credor pignoratício, anticrético ou hipotecário a ficar com o objeto da garantia, se a dívida não for paga no vencimento. Tal regra expressa:

a) Pacto comissório contratual

b) Pacto comissório real

c) Cláusula abusiva nos moldes do CDC

d) Cláusula solve et repete

Questão 4 Segundo Carlos Roberto Gonçalves, a conduta em não exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de equivalência das prestações constitui o seguinte dever anexo:

a) Lealdade

b) Probidade

c) Informação

d) Cooperação

Questão 5

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Diante do direito real de garantia constituído por meio da hipoteca, terá o credor direito

Diante do direito real de garantia constituído por meio da hipoteca, terá o credor direito de buscar o bem com quem quer que esteja. Tal instituto jurídico constitui o direito:

a) De adjudicação compulsória

b) De retenção

c) De resilição unilateral do contrato

d) De sequela

Questão 6

Quanto ao disciplinamento da evicção pela lei e pela doutrina, marque a alternativa incorreta:

a) Não pode o adquirente demandar pela evicção, se sabia que a coisa era alheia ou litigiosa, porém podem as partes, por cláusula expressa, reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção.

b) Para poder exercitar o direito que da evicção lhe resulta, o adquirente notificará do litígio o alienante imediato, ou qualquer dos anteriores, quando e como lhe determinarem as leis do processo, que preveem a

denunciação da lide, nos moldes do Artigo 70, I, do Código de Processo Civil.

c) Nos contratos onerosos, o alienante responde pela evicção, subsistindo tal garantia ainda que a aquisição se tenha realizado em hasta pública.

d) Se parcial, mas considerável, for a evicção, deverá o evicto receber a restituição da parte do preço correspondente ao desfalque sofrido.

Questão 7

Quanto ao disciplinamento do vício redibitório pela lei e pela doutrina, analise as alternativas abaixo e, depois, marque a alternativa incorreta:

a) Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, agindo, pois, de má- fé, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se o não conhecia, agindo, pois, de boa-fé, tão somente restituirá o valor recebido mais as despesas do contrato.

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b) No que diz respeito à decadência do direito de pleitear reparação em virtude do

b) No que diz respeito à decadência do direito de pleitear reparação em virtude do vício, o adquirente terá os prazos do caput do Artigo 445 para obter redibição ou abatimento de preço, desde que os vícios se revelem nos prazos estabelecidos no parágrafo primeiro, fluindo, entretanto, a partir do conhecimento do defeito.

c) Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato, pode o adquirente reclamar abatimento no preço. No primeiro caso, caberá ação quanti minoris; no segundo, ação redibitória.

d) Em relação ao vício redibitório, a responsabilidade do alienante subsiste ainda que a coisa pereça em poder do alienatário, se perecer por vício oculto, já existente ao tempo da tradição.

Questão 8 Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do nome de devedores em cadastro de proteção ao crédito somente fica impedida se implementadas, concomitantemente, algumas condições. Assinale, dentre as alternativas abaixo, aquela que não precisa ser aplicada à espécie:

a) Ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou integral do débito.

b) Efetiva demonstração pelo devedor de que a contestação da cobrança indevida se funda na boa-fé objetiva e em jurisprudência consolidada do STF ou do STJ.

c) Sendo a contestação apenas de parte do débito, deposite o devedor o valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, ao prudente arbítrio do magistrado.

d) O devedor deverá requerer em sede liminar a retirada de seu nome do cadastro de inadimplentes.

Questão 9 (TJAC - 2012 - CESPE JUIZ) No que concerne a evicção, assinale a opção correta de acordo com o Código Civil.

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a) A responsabilidade decorrente da evicção deriva da lei e prescinde, portanto, de expressa previsão

a) A responsabilidade decorrente da evicção deriva da lei e prescinde, portanto, de expressa previsão contratual; todavia, tal responsabilidade

restringe-se à ação petitória, não sendo possível se a causa versar sobre posse.

b) Responde o alienante pela garantia decorrente da evicção, caso o comprador sofra a perda do bem por desapropriação do poder público, cujo decreto expropriatório seja expedido e publicado posteriormente à realização do negócio.

c) Dá-se a evicção quando o adquirente perde, total ou parcialmente, a coisa por sentença fundada em motivo jurídico anterior e o alienante tem

o dever de assistir o adquirente, em sua defesa, ante ações de terceiros,

sendo, entretanto, tal obrigação jurídica incabível caso o alienante tenha

atuado de boa-fé.

d) De acordo com o instituto da evicção, o alienante deve responder pelos riscos da perda da coisa para o evicto, por força de decisão judicial em que fique reconhecido que aquele não era o legítimo titular do direito que convencionou transmitir ao evictor.

e) Sendo a evicção uma garantia legal, podem as partes, em reforço ao já previsto em lei, estipular a devolução do preço em dobro, ou mesmo minimizar essa garantia, pactuando uma devolução apenas parcial.

Questão 10

Em relação à cessão de crédito, assinale a alternativa incorreta:

a)

O

credor pode ceder o seu crédito, se a isso não se opuser a natureza da

obrigação, a lei, ou a convenção com o devedor; a cláusula proibitiva da

cessão não poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar do instrumento da obrigação.

b)

A cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a esse notificada.

c)

Fica desobrigado o devedor que, antes de ter conhecimento da cessão, paga ao credor primitivo.

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d) O devedor que, notificado, nada opõe à cessão que o credor faz a terceiros

d) O devedor que, notificado, nada opõe à cessão que o credor faz a terceiros dos seus direitos, não pode opor ao cessionário a compensação, que antes da cessão teria podido opor ao cedente.

que antes da cessão teria podido opor ao cedente. Aula 2 Exercícios de fixação Questão 1

Aula 2 Exercícios de fixação

Questão 1 - C Justificativa: A violação dos deveres anexos gera a violação positiva do contrato com responsabilização daquele que desrespeita a boa-fé objetiva, independentemente de culpa, pois cometeu abuso de direito, conforme determina o Enunciado nº 24 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “a violação dos deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente de culpa”.

Questão 2 - D Justificativa: Há doutrina que entenda ser o caso de aplicar a função social do contrato, em sua eficácia interna, à situação em exame. A utilização da função social decorre da necessidade de proteção do hipossuficiente da relação, no caso o consumidor, por se tratar da parte mais vulnerável no contrato.

Questão 3 - B Justificativa: Pacto comissório real, conforme Artigo 1.428 do CC.

Questão 4 - A Justificativa: O dever de lealdade pode ser exemplificado como a conduta em não exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de equivalência das prestações (GONÇALVES, 2014, p. 60).

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Questão 5 - D Justificativa: A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro,

Questão 5 - D Justificativa: A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, tem prejudicado o comprador do imóvel (consumidor), que acaba perdendo seu bem. Tal perda decorre do direito de sequela, inerente ao direito real de garantia estabelecido. Exemplo extraído do texto de aplicação da Súmula nº 308 do STJ.

Questão 6 - D Justificativa: Conforme Artigo 455 do CC: “Se parcial, mas considerável, for a evicção, poderá o evicto optar entre a rescisão do contrato e a restituição da parte do preço correspondente ao desfalque sofrido. Se não for considerável, caberá somente direito a indenização”.

Questão 7 - C Justificativa: Tratam-se das ações edilícias; em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato, pode o adquirente reclamar abatimento no preço. No segundo caso, caberá ação quanti minoris; no primeiro, ação redibitória.

Questão 8 - D Justificativa: Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do nome de devedores em cadastro de proteção ao crédito, somente fica impedida se implementadas, concomitantemente, as seguintes condições: 1) o ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou integral do débito; 2) efetiva demonstração de que a contestação da cobrança indevida se funda na aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STF ou do STJ; e 3) que, sendo a contestação apenas parte do débito, deposite o valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, ao prudente arbítrio do magistrado.

Questão 9 - E Justificativa: Conforme Artigo 448, podem as partes, por cláusula expressa, reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção.

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Questão 10 - D Justificativa: Conforme Artigo 377 do CC: “O devedor que, notificado, nada

Questão 10 - D Justificativa: Conforme Artigo 377 do CC: “O devedor que, notificado, nada opõe à cessão que o credor faz a terceiros dos seus direitos, não pode opor ao cessionário a compensação, que antes da cessão teria podido opor ao cedente”.

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Introdução É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior
Introdução É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior

Introdução

É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua base principiológica torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito.

Nesse contexto, insere-se o princípio da função social do contrato a partir da personificação dos anseios constitucionais às relações privadas. Com isso, o contrato deverá ser visualizado, interpretado e estruturado de acordo com o contexto da sociedade, vedando o enriquecimento sem causa e declarando nula

a cláusula contratual, que desrespeita os princípios da Constituição Federal.

Diante da jurisprudencialização do ordenamento jurídico, as decisões judiciais ganham importância fundamental para apreensão dos institutos de direito. Diante dessa premissa, convém analisar a ocorrência ou inocorrência da função social nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, cabendo a pergunta: qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário vem agregando ao referido princípio civil-constitucional?

Objetivo:

1. Analisar os elementos constitutivos do princípio da função social do contrato:

conceito, regulamentação, requisitos para aplicação, eficácia interna e eficácia

externa;

2.

Analisar a aplicação jurisprudencial do princípio da função social do contrato

e

perceber sua ocorrência nas obrigações e nos contratos em geral.

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Conteúdo Função social do contrato Possível afirmar que a função social do contrato é um

Conteúdo Função social do contrato

Possível afirmar que a função social do contrato é um princípio contratual de ordem pública, pelo qual o contrato deverá ser visualizado, interpretado e estruturado de acordo com o contexto da sociedade, cabendo a pergunta: qual

é o contexto da atual sociedade brasileira?

Direito civil-constitucional

De acordo com o exposto anteriormente, tal contexto é baseado no direito civil- constitucional, uma vez que os princípios constitucionais devem ser aplicados às relações de natureza privada, diante da necessidade de concretização ética da experiência jurídica. Na busca pela presente materialização, o princípio da função social do contrato, a fim de afastar o enriquecimento sem causa, determina o respeito à igualdade, justiça contratual (equilíbrio da relação), equidade e razoabilidade.

Eficácia interna e externa

 

Eficácia

 

A

eficácia interna constitui uma

A

eficácia externa constitui uma

orientação para os próprios contratantes.

orientação para os contratantes em relação à sociedade e para a sociedade em relação aos contratantes.

A

eficácia externa da função

social determina que o contrato gere efeitos perante terceiros, o que pode ser percebido diante da tutela externa do crédito e da função socioambiental do contrato.

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Mitigação da força obrigatória do contrato: Como visto anteriormente, o pacta sunt servanda resta diminuído

Mitigação da força obrigatória do contrato: Como visto anteriormente, o pacta sunt servanda resta diminuído no atual cenário jurídico, uma vez que a autonomia da vontade encontra-se limitada.

É possível identificar como exemplo do presente fenômeno o disposto no Artigo

618 do CC: “Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções

consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução responderá, durante o prazo irredutível de cinco anos, pela solidez e segurança do trabalho, assim em razão dos materiais, como do solo”. A mencionada regra visa, claramente,

conter a autonomia privada, ao estabelecer que a responsabilidade do empreiteiro de obras consideráveis, desde que participe com a entrega da mão de obra e de materiais, será de cinco anos. Não cabe às partes convencionarem prazo inferior, pois, se o fizerem, tal cláusula será considerada como “não escrita”.

Outro exemplo a ser citado é o chamado pacto corvina, nos moldes do Artigo

426 do CC: “Não pode ser objeto de contrato a herança de pessoa viva”. O

ordenamento civilista determina, como objeto ilícito, a pactuação da herança de pessoa viva, o que, mais uma vez, representa limitação à autonomia privada. Dessa forma, receber a herança de um indivíduo, após a sua morte, constitui

ato legítimo, desde que herdeiro. O que a lei veda é a convenção do patrimônio hereditário por contrato, determinando sua nulidade, por configurar hipótese de nulidade virtual, conforme Artigo 166, VII, do CC: “É nulo o negócio jurídico quando: a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção”.

Proteção da parte mais vulnerável: Determina o Artigo 580 do CC: “Os tutores, curadores e em geral todos os administradores de bens alheios não poderão dar em comodato, sem autorização especial, os bens confiados à sua guarda”.

A norma visa proteger o tutelado, parte mais vulnerável da relação, uma vez

que o comodato constitui empréstimo gratuito de bens infungíveis. No mesmo sentido, o Artigo 497 do CC estabelece que o tutor não poderá comprar os

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bens, que estejam sob sua tutela, o que caracteriza uma norma de conteúdo ético, a

bens, que estejam sob sua tutela, o que caracteriza uma norma de conteúdo ético, a fim de evitar que o tutor se utilize de seus privilégios para obter vantagens patrimoniais.

Vedação da onerosidade excessiva: A teoria da imprevisão, nos moldes do Artigo 478 do CC, é instituto utilizado para se evitar a onerosidade excessiva, em decorrência de fatos imprevisíveis e extraordinários, que acarretam verdadeira desproporção negocial, principalmente em contratos de execução continuada, como no caso de contrato de financiamento imobiliário. Como aludido nas aulas anteriores, no campo intervencionista consubstanciado no dirigismo contratual, situa-se a teoria da imprevisão. Dessa forma, atingindo o plano de desequilíbrio contratual pela ocorrência de fato imprevisível e/ou extraordinário, o direito deverá ser acionado e a obrigatoriedade contratual deixada de lado. O relatado desequilíbrio possibilita a revisão ou extinção do contrato, em respeito ao ordenamento jurídico, que não mais tolera a desproporção negocial, em que um se enriquece de forma desarrazoada em detrimento do empobrecimento de outrem.

Importante lembrar que na resolução por onerosidade excessiva nos contratos de execução continuada (obrigação de trato sucessivo), o efeito jurídico será ex nunc, uma vez que não haverá a restituição das prestações já efetivadas, pois a extinção não terá efeito relativamente ao passado. Tal fenômeno jurídico ocorre, diante do enriquecimento sem causa, quando a causa jurídica, apta a desencadear o enriquecimento, deixa de existir, nos moldes do Artigo 885 do CC: “A restituição é devida, não só quando não tenha havido causa que justifique o enriquecimento, mas também se esta deixou de existir”. Já diante da resolução por inexecução voluntária em um contrato de execução única, o efeito será ex tunc, pois se declaram extintas todas as consequências jurídicas, desde o início do contrato.

Proteção da dignidade humana: À luz da personalização e constitucionalização do direito civil, pode-se afirmar que a real função do contrato não é a

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segurança jurídica, mas, sim, atender aos interesses da pessoa humana e de seu patrimônio mínimo.

segurança jurídica, mas, sim, atender aos interesses da pessoa humana e de seu patrimônio mínimo. A impenhorabilidade do bem de família, de acordo com a Lei nº 8.009/90, constitui um bom exemplo de respeito à dignidade da pessoa humana nas relações privadas. Salvo as exceções do Artigo 3º da citada lei, o único bem de família do devedor fica blindado em relação ao pagamento de suas dívidas. Diante do princípio da harmonização, o legislador ponderou interesses de igual grandeza, quais sejam, a dignidade e o direito de crédito, esvaziando o segundo em detrimento do primeiro.

Nulidade de cláusulas abusivas: Pela aplicação da função social do contrato no plano concreto, haverá a declaração de nulidade das cláusulas consideradas abusivas. Em sentido contrário ao direito civil-constitucional, o STJ vem entendendo que o julgador não pode conhecer, de ofício, a abusividade de cláusulas em contratos bancários, conforme Súmula nº 381: “Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas”. Porém, a Súmula 297 do STJ determina: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”. Assim, no mesmo tribunal, apresentam-se decisões antagônicas, já que não se possibilita ao julgador conhecer de ofício da abusividade de cláusulas em contratos com instituições financeiras, mas seus clientes gozam, em tese, do conjunto protetivo disciplinado pelo CDC.

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Atenção O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ determina: “ A
Atenção O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ determina: “ A

Atenção

O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ

determina: “A função social do contrato, prevista no Artigo 421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito”. Assim, a

proteção externa do crédito constitui orientação para que a sociedade respeite a convenção estabelecida pelos contratantes. É exemplo do presente instituto o Artigo 608 do CC, que assim

dispõe: “Aquele que aliciar pessoas obrigadas em contrato escrito a prestar serviço a outrem pagará a este a importância que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, houvesse de

caber durante dois anos”. Dessa forma, no contrato de prestação de serviços, que pressupõe a realização de serviços especializados sem subordinação, a sociedade não pode interferir no pacto, sob pena de o aliciador indenizar o tomador de serviços pelo prejuízo suportado, de maneira objetiva.

Função socioambiental do contrato

Por função socioambiental do contrato, entende-se que os contratantes são responsáveis pelo meio ambiente, como todo e qualquer cidadão, não podendo desrespeitá-lo, mesmo que as demais obrigações contratuais estejam sendo satisfeitas.

Exemplificando:

No caso da locação de um terreno que esteja sendo utilizado para armazenar material tóxico ao meio ambiente, mesmo que o locatário arque com todas as suas obrigações locatícias, poderá o locador extinguir o presente contrato, cobrando, inclusive, a cláusula penal determinada contratualmente.

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Por fim, importante mencionar as palavras de Assis. Para o autor, o contrato cumprirá sua

Por fim, importante mencionar as palavras de Assis. Para o autor, o contrato cumprirá sua função social

“ respeitando sua função econômica, que é a de promover a circulação de

riquezas, ou a manutenção das trocas econômicas, na qual o elemento ganho ou lucro jamais poderá ser desprezado, tolhido ou ignorado, tratando-se de uma economia de mercado”.

Institutos jurídicos

Constitui fenômeno recente a jurisprudencialização do direito.

Pelo referido fenômeno, a aplicação dos institutos jurídicos pelos tribunais passa a ser leitura imprescindível ao operador do direito, que pauta as fundamentações de suas peças processuais no cotidiano forense.

Além disso, a função social do contrato materializa-se nos casos concretos submetidos à apreciação judicial; logo, há de se perguntar: qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário vem agregando ao referido princípio civil- constitucional?

Código Civil brasileiro

O Código Civil Brasileiro encontra-se repleto de exemplos em que a função social do contrato resta evidenciada, sendo o instituto da exceção de contrato não cumprido um deles.

Pelo Artigo 476 do CC: “Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro”. Assim, de acordo com a máxima de que “ninguém pode se valer da sua própria

torpeza”, o contrato, via de regra, não deve conter cláusula que possibilite a um dos contratantes exigir o cumprimento da obrigação do outro diante do inadimplemento da sua própria obrigação.

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DIREITO CIVIL. RESCISÃO CONTRATUAL. DISSÍDIO NÃO DEMONSTRADO. EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO. SÚMULAS Nº 5

DIREITO CIVIL. RESCISÃO CONTRATUAL. DISSÍDIO NÃO DEMONSTRADO. EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO. SÚMULAS Nº 5 E Nº 7/STJ. NÃO INCIDÊNCIA. DESCUMPRIMENTO PARCIAL E MÍNIMO DA AVENÇA. DESPROPORCIONALIDADE. MANUTENÇÃO DO CONTRATO. PRECEDENTES. 3.

"- A exceção de contrato não cumprido somente pode ser oposta quando a lei ou o próprio contrato não determinar a quem cabe primeiro cumprir a

A recusa da parte em cumprir sua obrigação deve guardar

proporcionalidade com a inadimplência do outro, não havendo de se cogitar da arguição da exceção de contrato não cumprido quando o descumprimento é parcial e mínimo" (REsp 981.750/MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJe 23/4/2010). 4. Diante do contexto de desproporcionalidade que a presente hipótese evidencia, verifica-se que o acórdão, ao afastar a exceção do contrato não cumprido, acabou por violar princípios norteadores da relação contratual, quais sejam, o da proporcionalidade, da boa fé e da função social do contrato, porque, por uma importância desproporcional ao valor do bem, garantiu aos recorridos um benefício muito maior do que o contratado, haja vista que, o atraso na quitação do IPTU, no montante declinado, nunca representaria motivo suficiente ao pedido de rescisão contratual, seja pelo fato de que o imóvel já havia sido entregue, seja pelo fato de que o valor das prestações já quitadas supera em muito o montante atribuído ao Fisco e que, facilmente,

obrigação. (

)

poderia ter sido abatido do valor devido (Recurso Especial 1220251/MA, RECURSO ESPECIAL 2010/0186950-3, Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva).

Cláusula solve et repete

Em alguns contratos, existe a pactuação da denominada cláusula solve et

repete.

Pela referida cláusula, um dos contratantes poderá exigir o cumprimento da obrigação do outro, mesmo diante do inadimplemento da sua própria obrigação. Nos contratos com empresas de energia elétrica, tal prática é comum; assim, caso o consumidor seja cobrado a mais do que realmente deve

TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS

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pelo contrato, este deverá pagar a conta, sob pena de ser cortada sua energia elétrica.

pelo contrato, este deverá pagar a conta, sob pena de ser cortada sua energia elétrica.

Os tribunais brasileiros, de forma majoritária, vêm entendendo pela legitimidade da referida cláusula nesses contratos, por configurar prestação de serviços essenciais. Diferente ocorre em contratos de consumo, que, em sua maioria, são de adesão, sendo a cláusula solve et repete considerada abusiva, por desrespeitar a função social do contrato e o instituto da exceção de contrato não cumprido.

Sistema jurídico

O princípio da função social do contrato adquire importância ao sistema

jurídico, pois constitui fundamento para conter o enriquecimento sem causa.

Nas obrigações de dar coisa certa (Artigo 237 do CC), antes da tradição, a coisa pertence ao devedor (res perit domino). Dessa forma, se o devedor melhorar ou acrescer a coisa, poderá exigir do credor aumento no preço. Caso o credor não deseje arcar com o aumento, poderá o devedor resolver a obrigação, mas não será possível exigir o pagamento das perdas e danos.

A razão da norma deita origens na manutenção do sinalagma obrigacional e na vedação do enriquecimento sem causa, o que não impede uma análise fática das situações concretas, uma vez que o devedor poderá agir de má-fé.

Enriquecimento sem causa

Nas obrigações de restituir coisa certa (Artigo 242 do CC), também é possível perceber a vedação ao enriquecimento sem causa em relação ao possuidor de boa-fé (Artigo 1.219 do CC), que fará jus à indenização pelas benfeitorias úteis e necessárias. Corroborando o que foi dito, cabe a transcrição

da jurisprudência.

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AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE VENDA DE PONTO COMERCIAL. INADIMPLÊNCIA. BENFEITORIAS NECESSÁRIAS. RETOMADA DE BENS

AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE VENDA DE PONTO COMERCIAL. INADIMPLÊNCIA. BENFEITORIAS NECESSÁRIAS. RETOMADA DE BENS IMOBILIZADOS. POSSIBILIDADE. CLÁUSULA CONTRATUAL EXPRESSA. PRINCÍPIOS DA AUTONOMIA DA VONTADE E DA FORÇA OBRIGATÓRIA DO CONTRATO. As partes firmaram um contrato de venda de ponto comercial, inadimplido em parte pela co-ré.

Cabível a compensação do valor gasto com benfeitorias necessárias com o débito em discussão, de acordo com o disposto nos Artigos 242 e 1.219 do Novo Código Civil.

Em atenção aos princípios da autonomia da vontade e da força obrigatória do contrato, considera-se plenamente válida a cláusula contratual que dispôs acerca da retomada, pelos vendedores, dos bens imobilizados em caso de inadimplência da compradora. APELAÇÃO PROVIDA. (Apelação Cível 70026656843, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Túlio de Oliveira Martins, Julgado em 29/10/2009).

Contrato de comodato

No contrato de comodato, que também pressupõe uma obrigação de restituir coisa certa, há divergência quanto à indenização pelo comodatário acerca das benfeitorias úteis e necessárias. O Artigo 584 do CC assim dispõe:

O comodatário não poderá jamais recobrar do comodante as despesas feitas com o uso e gozo da coisa emprestada”.

Com isso, diante da interpretação literal do mencionado artigo, jamais deverão ser ressarcidas pelo comodante as despesas ordinárias em relação à coisa (IPTU, luz, água, gás).

Porém, há dúvida quanto ao ressarcimento das despesas extraordinárias, incluindo nestas as benfeitorias. De acordo com o Tribunal de Justiça do Rio de

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Janeiro, de forma majoritária, e Caio Mário, as benfeitorias estão englobadas no conceito de despesas,

Janeiro, de forma majoritária, e Caio Mário, as benfeitorias estão englobadas no conceito de despesas, não ensejando indenização ou retenção, uma vez que o comodato constitui-se como empréstimo gratuito.

Já para o Tribunal de Justiça de São Paulo, de forma majoritária, e Flávio Tartuce, as benfeitorias não estão englobadas no conceito de despesas, ensejando indenização e retenção nos moldes do Artigo 1.219 do CC, que trata da indenização das benfeitorias pelo possuidor de boa-fé, a fim de evitar o enriquecimento sem causa.

Cumpre informar que a segunda corrente está mais afinada com o direito civil- constitucional, materializando a função social do contrato, nada impedindo, de outra sorte, a renúncia à referida indenização contratualmente pelas partes em decorrência da própria essência gratuita do comodato.

Obrigações indivisíveis

Nas obrigações indivisíveis, pelo Artigo 263 do CC, diante da perda da coisa por apenas um dos devedores, apresentam-se duas correntes quanto à responsabilização pelas perdas e danos:

Flávio Tartuce e Gustavo Tepedino Para Flávio Tartuce e Gustavo Tepedino, só o culpado responde pelo equivalente, mais perdas e danos, pois o “equivalente” insere-se no conceito de danos emergentes. Porém, a melhor resposta seria a de que todos os devedores da coisa são credores do pagamento, e o cancelamento do negócio por culpa de um dos devedores prejudicaria os demais.

Álvaro Villaça Para Álvaro Villaça, o culpado responde pelas perdas e danos, mas, pelo equivalente, todos respondem. Com isso, tenta evitar o enriquecimento sem causa. O mesmo entendimento é observado em relação à obrigação solidária passiva (Artigo 279 do CC), em que apenas o culpado é responsável pelas

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perdas e danos. Nesse sentido, o Enunciado 540 da VI Jornada de Direito Civil do

perdas e danos. Nesse sentido, o Enunciado 540 da VI Jornada de Direito

Civil do CJF/STJ: “Havendo perecimento do objeto da prestação indivisível por culpa de apenas um dos devedores, todos respondem, de maneira divisível, pelo equivalente, e só o culpado, pelas perdas e danos”.

Cessão de crédito

Na cessão de crédito, espécie de transmissão das obrigações, de acordo com o Artigo 295 do CC, existe a responsabilidade do cedente pela existência da dívida nas cessões à título oneroso ou nas cessões à título gratuito se tiver procedido de má-fé, a fim de evitar o enriquecimento sem causa.

Dessa forma, mesmo havendo cláusula contratual em sentido contrário, o cedente fica responsável ao cessionário pela existência da dívida ao tempo da cessão, responsabilidade esta que não se confunde com a solvência do dívida pelo cedido, que, via de regra, o cedente não assume.

Pelo Artigo 296 do CC, a cessão é considerada pro soluto, ou seja, o cedente não responde pelo pagamento da dívida diante do inadimplemento do cedido, podendo haver convenção em sentido contrário, momento em que a cessão

será pro solvendo.

Pagamento indevido

Nos atos unilaterais de vontade, também é possível perceber a vedação ao enriquecimento sem causa diante do pagamento indevido.

Segundo o Artigo 876 do CC: “Todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir; obrigação que incumbe àquele que recebe dívida condicional antes de cumprida a condição”.

Importante informar que não cabe repetição em dobro do valor pago. Será cabível na ação de repetição de indébito (actio in rem verso) o pleito do valor pago atualizado, acrescido de juros, custas, honorários advocatícios e despesas

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processuais. Se presente a má-fé, também será cabível o pagamento das perdas e danos. Somente

processuais. Se presente a má-fé, também será cabível o pagamento das perdas e danos.

Somente haverá pagamento em dobro no pagamento indevido, nos moldes do

Artigo 940 do CC, que assim dispõe: “Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver prescrição”.

Bem como no direito do consumidor, conforme parágrafo único do Artigo 42 do

CDC: “Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.

Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável”.

Atenção

Atenção

Ainda dentro dos atos unilaterais de vontade, cabível mencionar a opção do legislador civil em constituir um instituto jurídico próprio para coibir o enriquecimento sem causa, nos

moldes do Artigo 884: “Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários”.

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Tribunais brasileiros Segundo os tribunais brasileiros, constituem requisitos para a sua aplicação: • Enriquecimento

Tribunais brasileiros

Segundo os tribunais brasileiros, constituem requisitos para a sua aplicação:

• Enriquecimento do accipiens;

• Empobrecimento do solvens;

Relação de causalidade entre enriquecimento e empobrecimento;

• Inexistência de causa jurídica prevista por convenção entre as partes ou pela lei, pois, no enriquecimento sem causa, falta uma causa jurídica para o enriquecimento, enquanto o enriquecimento ilícito encontra-se fundado em um ato ilícito;

• Inexistência de ação específica, pois, caso a lei forneça ao lesado outros meios para a satisfação do prejuízo, não caberá a restituição por enriquecimento sem causa, nos moldes do Artigo 886 do CC. Porém, pelo Enunciado 36 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “O Artigo 886 do novo

Código Civil não exclui o direito à restituição do que foi objeto de enriquecimento sem causa nos casos em que os meios alternativos conferidos ao lesado encontram obstáculos de fato”.

Tipos de contratos

A função social tem aplicação prática diante dos contratos comutativos, nos quais existem vantagens e sacrifícios para ambas as partes, como, por exemplo, no contrato de compra e venda, onde o enriquecimento sem causa gera revisão, em decorrência do desrespeito à proporcionalidade.

Diferente ocorre nos contratos aleatórios, nos quais existe o fator risco, pois uma das partes não sabe com exatidão sua prestação no momento da celebração do contrato, como, por exemplo, no contrato de seguro (pela natureza) e contrato de compra e venda de colheita futura (por determinação

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das partes). Nestes contratos, não se permite a revisão em decorrência da imprevisibilidade ou pela

das partes). Nestes contratos, não se permite a revisão em decorrência da imprevisibilidade ou pela simples onerosidade excessiva.

Na evicção, um dos efeitos dos contratos, também é possível visualizar a necessidade de vedação do enriquecimento sem causa. O Artigo 455 do CC

dispõe: “Se parcial, mas considerável, for a evicção, poderá o evicto optar entre a rescisão do contrato e a restituição da parte do preço correspondente ao desfalque sofrido. Se não for considerável, caberá somente direito à indenização”.

Pela jurisprudência, considera-se evicção parcial considerável aquela que supera a metade do valor do bem; entretanto, deve-se levar em conta o fator essencialidade da parte perdida em relação às finalidades sociais e econômicas do contrato, a partir da função social do contrato. Diante disso, mesmo que a parte perca menos do que a metade da coisa em decorrência da evicção, poderá alegar evicção parcial considerável se provar que o contrato violou sua finalidade.

Denunciação da lide

De outra sorte, para responsabilizar o alienante, o evicto deve, quando for instaurado o processo judicial, chamar o alienante ao processo. Utiliza-se a denunciação da lide, nos moldes do Artigo 70, I, do CPC, sendo medida processual supostamente obrigatória. Porém, o STJ tem entendido que a denunciação da lide não é obrigatória, podendo o evicto se valer de outro instrumento processual para rever aquilo que despendeu, a fim de evitar o enriquecimento sem causa. No mesmo sentido, o Enunciado 434 da V Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, que assim determina: “A ausência de

denunciação da lide ao alienante, na evicção, não impede o exercício de pretensão reparatória por meio de via autônoma”.

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Dação em pagamento A dação em pagamento pode ser conceituada como uma forma de pagamento

Dação em pagamento

A dação em pagamento pode ser conceituada como uma forma de

pagamento indireto em que há um acordo privado de vontades entre os sujeitos da relação obrigacional, pactuando-se a substituição do objeto obrigacional por outro, móvel ou imóvel, havendo necessidade de consentimento expresso do credor; pelo fato de isto ser um negócio jurídico bilateral (Artigo 356 do CC), diante da evicção, a obrigação primitiva é restabelecida, ressalvado direito de terceiro de boa-fé (Artigo 359 do CC), o que, mais uma vez, evidencia a necessidade legislativa em conter o

enriquecimento sem causa.

Teoria do adimplemento substancial

Decorre, também, do princípio da função social do contrato a teoria do adimplemento substancial. Dessa forma, quando a obrigação tiver sido quase toda cumprida, não caberá a extinção do contrato, mas apenas outros efeitos jurídicos, visando sempre à manutenção da avença em respeito ao princípio da conservação do negócio jurídico.

O requisito principal para a utilização da mencionada teoria é de que o

cumprimento seja relevante.

ARRENDAMENTO MERCANTIL. REINTEGRAÇÃO DE POSSE. ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL. Trata-se de REsp oriundo de ação de reintegração de posse ajuizada pela ora recorrente em desfavor do recorrido por inadimplemento de contrato de arrendamento mercantil (leasing) para a aquisição de 135 carretas.

A Turma reiterou, entre outras questões, que, diante do substancial

adimplemento do contrato, qual seja, foram pagas 30 das 36 prestações da avença, mostra-se desproporcional a pretendida reintegração de posse e contraria princípios basilares do Direito Civil, como a função social do contrato e

a boa-fé objetiva. Ressaltou-se que a teoria do substancial adimplemento visa impedir o uso desequilibrado do direito de resolução por parte do credor, preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação da avença,

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com vistas à realização dos aludidos princípios. Assim, tendo ocorrido um adimplemento parcial da dívida

com vistas à realização dos aludidos princípios. Assim, tendo ocorrido um adimplemento parcial da dívida muito próximo do resultado final, daí a expressão “adimplemento substancial”, limita-se o direito do credor, pois a resolução direta do contrato mostrar-se-ia um exagero, uma demasia. Dessa forma, fica preservado o direito de crédito, limitando-se apenas a forma como pode ser exigido pelo credor, que não pode escolher diretamente o modo mais gravoso para o devedor, que é a resolução do contrato. Dessarte, diante do substancial adimplemento da avença, o credor poderá valer-se de meios menos gravosos e proporcionalmente mais adequados à persecução do crédito remanescente, mas não a extinção do contrato. Precedentes citados: REsp 272.739-MG, DJ 2/4/2001; REsp 1.051.270-RS, DJe 5/9/2011, e AgRg no Ag 607.406-RS, DJ 29/11/2004. REsp 1.200.105-AM, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 19/6/2012.

Conclusão

Logo, o STJ aplica a teoria do adimplemento substancial, que tem como fundamento o princípio da função social do contrato para impedir que, diante de um inadimplemento mínimo do devedor (seis parcelas em um contexto de 36), possa o credor extinguir o contrato por intermédio da resolução, sendo a presente medida entendida como desproporcional e abusiva. Assim, o credor terá a possibilidade de se valer de meios menos gravosos para buscar seu crédito, como, por exemplo, uma ação de cobrança, mas não de reintegração de posse.

Atividade proposta

A ausência normativa não poderia configurar um óbice à aplicação da teoria do adimplemento substancial, mesmo diante da leitura do Enunciado a seguir transcrito, por ferir o princípio da autonomia da vontade?

Enunciado 361 da IV Jornada de Direito Civil: “O adimplemento substancial

decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a fazer preponderar a

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função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação do Artigo

função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação do Artigo 475”.

Chave de resposta: Segundo o STJ, “(

parcial da dívida muito próximo do resultado final, daí a expressão “adimplemento substancial”, limita-se o direito do credor, pois a resolução direta do contrato mostrar-se-ia um exagero, uma demasia. Dessa forma, fica preservado o direito de crédito, limitando-se apenas a forma como pode ser exigido pelo credor, que não pode escolher diretamente o modo mais

gravoso para o devedor, que é a resolução do contrato”.

tendo ocorrido um adimplemento

)

Referências

ASSIS, Araken. Comentários ao Código Civil brasileiro. v. V. Coord. Arruda Alvim e Thereza Alvim. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p. 85-86.

Exercícios de fixação

Questão 1 (OAB/Exame Unificado 2010) No que diz respeito à extinção dos contratos, assinale a opção correta:

a) Na resolução por onerosidade excessiva, não é necessária a existência de vantagem da outra parte, bastando que a prestação de uma das partes se torne excessivamente onerosa. b) A resolução por inexecução voluntária do contrato produz efeitos ex tunc se o contrato for de execução continuada. c) Ainda que a inexecução do contrato seja involuntária, a resolução ensejará o pagamento das perdas e danos para a parte prejudicada. d) A eficácia da resilição unilateral de determinado contrato independe de pronunciamento judicial e produz efeitos ex nunc.

Questão 2 (OAB/Exame Unificado 2008)

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De acordo com o Código Civil, a onerosidade excessiva decorre de evento extraordinário e imprevisível,

De acordo com o Código Civil, a onerosidade excessiva decorre de evento extraordinário e imprevisível, que dificulta extremamente o adimplemento do contrato. Nesse contexto, a onerosidade excessiva dá ensejo à:

a) Resolução do contrato por inexecução voluntária.

b) Resolução do contrato por inexecução involuntária.

c) Resolução do contrato por onerosidade excessiva.

d) Resilição do contrato por onerosidade excessiva.

Questão 3

Não constitui uma exceção à impenhorabilidade do bem de família, de acordo com a Lei nº 8.009/90:

a) Obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação.

b) Cobrança de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições devidas em função do imóvel familiar.

c) Pelo titular do crédito decorrente do financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos constituídos em função do respectivo contrato.

d) Obrigação decorrente de mútuo feneratício.

Questão 4

Dentre as assertivas abaixo, marque aquela em que se materializa a tutela externa do crédito.

a) No contrato de prestação de serviços, aquele que aliciar pessoas, obrigadas em contrato escrito, a prestar serviço a outrem, pagará a este a importância que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, houvesse de caber durante dois anos.

b) No contrato de compra e venda, sob pena de nulidade, não podem ser comprados pelos tutores, ainda que em hasta pública, os bens confiados à sua guarda ou administração.

c) No contrato de comodato, os tutores não poderão emprestar gratuitamente, sem autorização especial, os bens confiados à sua guarda.

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d) Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções consideráveis, o empreiteiro de materiais

d) Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução responderá, durante o prazo irredutível de cinco anos, pela solidez e segurança do trabalho, assim em razão dos materiais, como do solo.

Questão 5 O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ determina: “A função social do contrato, prevista no Artigo 421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito”.

Aponte, dentre as assertivas abaixo, o nome do instituto jurídico evidenciado no enunciado transcrito:

a) Eficácia interna da função social do contrato.

b) Eficácia externa da função social do contrato.

c) Pacta sunt servanda.

d) Princípio da conservação do negócio jurídico.

Questão 6 (Exame da OAB) De acordo com o que dispõe o Código Civil a respeito dos contratos, assinale a opção correta.

a) A onerosidade excessiva, oriunda de acontecimento extraordinário e imprevisível, ainda que dificulte extremamente o adimplemento da obrigação de uma das partes em contrato de execução continuada, não enseja a revisão contratual, visto que as partes ficam vinculadas ao que foi originariamente pactuado.

b) Considere que um indivíduo ofereça ao seu credor, com o consenso deste, um terreno em substituição à dívida no valor de R$ 30 mil, a título de dação em pagamento. Nessa situação, se o credor for evicto do terreno recebido, será restabelecida a obrigação primitiva com o devedor, ficando sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros.

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c) O evicto pode demandar pela evicção por meio de ação contra o transmitente, mesmo

c)

O

evicto pode demandar pela evicção por meio de ação contra o

transmitente, mesmo sabendo que a coisa adquirida era alheia ou

 

litigiosa.

d)

A

resilição bilateral não se submete à forma exigida para o contrato.

Questão 7 (FGV -2011) Nos contratos, os indivíduos devem observar os princípios da probidade e boa- fé. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. Nesse contexto, assinale a alternativa correta, de acordo com o Código Civil:

a) As partes não podem, em qualquer hipótese, reforçar, diminuir ou excluir

a responsabilidade pela evicção.

b) As cláusulas resolutivas, expressas ou tácitas, operam-se de pleno direito.

c) Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes poderá exigir, antes de cumprida sua obrigação, o implemento da do outro.

d) Admite-se que a herança de pessoa viva possa ser objeto de contrato.

e) Nos contratos de adesão, são nulas de pleno direito as cláusulas ambíguas ou contraditórias.

Questão 8 (OAB/Exame Unificado 2008)

A exceção de contrato não cumprido poderá ser arguida nos:

a) Contratos sinalagmáticos

b) Contratos de mútuo

c) Negócios jurídicos unilaterais

d) Contratos de comodato

Questão 9

Nos moldes do Artigo 884: “Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a

atualização dos valores monetários”. Segundo os tribunais brasileiros, não

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constitui requisito para a sua aplicação do instituto do enriquecimento sem causa: a) Enriquecimento do

constitui requisito para a sua aplicação do instituto do enriquecimento sem causa:

a) Enriquecimento do credor

b) Empobrecimento do devedor

c) Ilicitude do enriquecimento

d) Relação de causalidade entre enriquecimento e empobrecimento

Questão 10 Qual teoria visa impedir o uso desequilibrado do direito de resolução por parte do credor, preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação da avença, com vistas à realização dos princípios da boa-fé objetiva, da função social do contrato e da conservação do negócio jurídico?

a) Teoria da Imprevisão

b) Teoria do Adimplemento Substancial

c) Teoria do Inadimplemento Antecipado

d) Teoria do Cumprimento Defeituoso

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