Você está na página 1de 10
30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

A MIDIATIZAÇÃO NO DIREITO PENAL:

UMA CONJUNTURA PRAGMÁTICA SENSACIONALISTA

Marcele Camargo D’Oliveira 1 Mariane Camargo D’Oliveira 2 Maria Aparecida Santana Camargo 3

RESUMO Busca-se, com a presente pesquisa, de caráter qualitativo e cunho bibliográfico, demonstrar como a mídia vem exercendo poder de domínio sobre a opinião pública, visto que, enquanto mecanismo de informação, influencia sobremaneira o senso comum. Constata-se que o ordenamento jurídico reserva proteção especial à manifestação de ideias, opiniões e ideologias, bem como ao direito de informação. Ocorre, entretanto, que, muitas vezes, os meios de comunicação de massa utilizam-se destes direitos e garantias para transmitir ao público informes e notícias sensacionalistas, precipuamente no que tange ao Direito Penal. Aliado a este caráter dramático perpassado pela mídia, encontra-se presente o sentimento de curiosidade das pessoas, as quais buscam se manterem informadas acerca de assuntos e notícias relacionados à violência e aos crimes. Desta forma, persuadida pelos veículos de comunicação, a sociedade acaba desconsiderando, muitas vezes, direitos fundamentais e princípios constitucionais dos acusados. Constata-se, assim, que os meios de comunicação exercem grande influência e manipulação não só sobre a opinião pública, mas também nas próprias fases do processo penal. Não é papel da mídia, portanto, visar alienar os sujeitos com suas opiniões e ideologias. Poderia, ao contrário, buscar desenvolver nos indivíduos um senso crítico, que os torne capazes de interpretar as informações que recebem. Palavras-chave: Opinião Pública. Resguardo. Notícias. Persuasão.

ABSTRACT Aim, with this research, qualitative and bibliographical, demonstrate how the media hás been exercising control over the Power of public opinion, since, as a mechanism of information, greatly influences common sense. It appears that the legal reserve special protection for expressions of ideas, opinions and ideologies, as well as the right information. There is, however, that often the means of mass communication are used such rights and guarantees to convey to the public and sensational news reports, primarily in regard to criminal law. Allied to this dramatic character permeated the media, this is the feeling of curiosity of people, who seek to stay informed about news and issues related to violence and crimes. Thus, persuaded by the media, society ends us disregarding often fundamental rights and constitutional principles of the accused. It appears therefore that the media have great influence and manipulate not only public opinion but also in their own stages of criminal proceedings. The media should not therefore seek to alienate the subject with their opinions and ideologies. Should instead seek to develop individuals in a critical sense, which will enable them to interpret the information they receive. Key-words: Public Opinion. Guard. News. Persuasion.

1 Acadêmica do 5º Período do Curso de Direito da Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ). E-mail:

marcelecamargod@gmail.com

2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).

Graduada em Direito pela Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ). Advogada. E-mail:

maricamargod@gmail.com

3 Doutora em Educação, Professora da Universidade de Cruz Alta. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Humanos e Pedagógicos (GPEHP) da UNICRUZ. E-mail: cidascamargo@gmail.com

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

INTRODUÇÃO

Os meios de comunicação de massa, enquanto produtos diretos da globalização, vêm, com o transcurso do tempo, adentrando todos os setores da sociedade e conquistando mais espaço. A tecnologia facilitou, sobremaneira, a vida dos indivíduos, de modo que hoje é praticamente impossível viver sem ela. Os avanços desta tecnologia trouxeram consigo a necessidade de nos mantermos cada vez mais informados, visto que é próprio do ser humano interessar-se pelos acontecimentos envolvendo a conjuntura na qual está inserido. Neste sentido, a mídia surgiu como importante mecanismo informacional, no momento em que trabalha para transmitir notícias que considera relevantes ao conhecimento do público. Sendo o principal meio de transmissão de informações, os meios de comunicação acabam por exercer sobre os indivíduos grande poder de domínio, principalmente no que concerne ao senso comum, difundindo, assim, estereótipos, pensamentos e ideologias. Ocorre, entretanto, que cientes do sentimento de curiosidade que perpassa os sujeitos de um modo geral, notadamente no que diz respeito a assuntos referentes ao Direito Penal, tal qual a violência e os crimes, a mídia acaba utilizando-se de notícias sensacionalistas para constituir uma realidade e, do mesmo modo, uma opinião pública. Isto quer dizer que, em busca de maiores índices de audiência, a mídia “enfeita” muitas informações, para, assim, atrair cada vez mais a atenção do público que a acompanha. Desta forma, no momento em que deixa a sociedade perplexa com suas notícias sensacionalistas, propagando a ideologia defendida pelas classes dominantes, o âmbito midiático influencia a sociedade, a fim de exigir do Poder Público medidas cada vez mais céleres e coercitivas para punir aqueles que cometem crimes, acreditando ser esta a melhor alternativa para solucionar a problemática da violência. Sob este viés, a presente pesquisa tem o objetivo precípuo de discutir e refletir acerca da influência exercida pelas ideologias propagadas pelos veículos de informação sobre a opinião pública, no Direito Penal. Para tanto, será traçado um panorama acerca da própria evolução da mídia, do papel que esta desempenha na formação da opinião pública, bem como se analisará, também, a preocupação do legislador em garantir o direito à liberdade de pensamento e de expressão e o direito de informação. Por fim, verificar-se-á o poder que a mídia exerce no campo do Direito Penal. Com as breves digressões, pretende-se evidenciar como o discurso midiático é instrumento de persuasão do senso comum.

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

1. A EVOLUÇÃO MIDIÁTICA SOB A PERSPECTIVA DA GLOBALIZAÇÃO

Hodiernamente, é sabido que vivemos na era da tecnologia, caracterizada de forma precípua pelo advento dos meios de comunicação de massa. A mídia, seja ela impressa, eletrônica ou digital, vem ocupando espaço significativo na sociedade e desempenhando papel de destaque na formação da opinião pública, uma vez que é ela a responsável pela proliferação e transmissão das informações. O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa foi resultado de uma longa e lenta evolução midiática, gerada por transformações

econômicas, políticas, culturais e sociais. A partir da segunda metade do século XX, com o advento e desenvolvimento de novas tecnologias, como a televisão e o rádio, a relevância dos meios de comunicação na vida em sociedade começou a ganhar força. A mídia, aos poucos, foi deixando de ser mera fonte informativa para se transformar no principal mecanismo de comunicação e conectividade, abarcando, atualmente, todas as esferas sociais. A popularização da mídia digital, principalmente a partir na década de 1990, acarretou uma revolução na maneira como os indivíduos se comunicam e se relacionam entre si, criando, deste modo, uma nova forma de interação social. Assim, a globalização faz com que

a troca de informações seja cada vez mais imediata, de modo que é possível acompanhar os

acontecimentos das mais diversas partes do mundo instantaneamente, em tempo real, sem nem sequer sair de casa. A rapidez e a facilidade com que hoje as informações chegam a seus receptores acabam por influenciar, sobretudo, na forma como os sujeitos pensam e interagem

com os demais. O que se percebe é que, ao invés de utilizar a divulgação de fatos apenas com

o fim de informação, a mídia vem exercendo poder de domínio sobre as pessoas em, sendo, atualmente, o principal mecanismo de formação de opinião pública.

2. BREVE ANÁLISE ACERCA DA LIBERDADE DE PENSAMENTO E DE EXPRESSÃO E DO DIREITO À INFORMAÇÃO NO CONTEXTO SOCIAL

Embora muito se discuta acerca da influência, não raras vezes, negativa que a mídia exerce sobre a opinião dos indivíduos, não se pode olvidar que a liberdade de pensamento e de expressão, bem como o direito à informação são direitos constitucionalmente previstos em nossa Carta Magna, uma vez que é garantido a todos a livre manifestação de pensamentos,

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

ideias, opiniões e ideologias. Isto porque a necessidade das pessoas de comunicar-se livremente, expondo seus modos de ver e compreender, bem como receber informações, é um aspecto inerente à vida em sociedade. Assim sendo, denota-se que:

expressar o pensamento é uma característica intrínseca do ser humano. É

próprio do Homo Sapiens viver em sociedade e interagir com os seus semelhantes. Sem a expressão do pensamento estaríamos diante de uma reunião de seres andróides, sem capacidade de se autodeterminar, se desenvolver. A comunicação é pressuposto para a formação da cultura, para o acúmulo de conhecimento, para uma convivência pacífica e harmoniosa dos membros das comunidades, na dissolução de conflitos, para um estado de solidariedade entre a espécie humana (ALMEIDA, 2007, p. 16).

] [

Sob este prisma, a liberdade de manifestação de pensamento é resguardada pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso IV. Da mesma forma, no citado art. 5º, inciso IX, e no art. 220, a Carta Maior garante, também, a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação. Ainda nesse mesmo panorama, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, já havia ressalvado, em seu art. 11, a importância de se garantir aos indivíduos a liberdade de manifestação de pensamento, afirmando que “a livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do Homem; todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na Lei. Indo ao encontro destes textos legais, observa-se a preocupação do legislador constituinte em garantir a proteção da liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, elencando-os como direitos fundamentais do indivíduo e alicerces, por consequência, do Estado Democrático de Direito. Partindo-se desta premissa, é possível analisar que a liberdade de opinião, segundo constata Caldas (1997, p. 59), “compreende tanto

o

direito de informar, que se confunde com a liberdade de manifestação do pensamento, como

o

de ser informado, que corresponde ao direito coletivo de receber informação para que o

receptor melhor edifique seu pensamento”. Ademais, a Constituição Brasileira prevê o livre acesso à informação, inclusive, resguardando o sigilo da fonte, quando este for necessário ao exercício profissional (art. 5º, XIV). No que tangencia ao direito à informação, pode-se averiguar que:

esse direito de informação ou de ser informado, então, antes concebido como um direito individual, decorrente da liberdade de manifestação e expressão do

[

]

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

pensamento, modernamente, vem sendo entendido como dotado de forte componente e interesse coletivos, a que corresponde, na realidade, um direito coletivo à informação (GODOY, 2001, p. 58).

Desta forma, é possível perceber que o nosso ordenamento jurídico reserva proteção especial à manifestação de ideias, opiniões e ideologias, da mesma forma que garante a todos

o direito a receber e compartilhar informações. Entretanto, o que se constata é que a imprensa,

caracterizada, principalmente, pelos meios de comunicação de massa, tais como os jornais, as revistas, a televisão, os rádios e a internet, no momento em que exerce seu direito à liberdade

de pensamento e de expressão, acabam por tornar-se fonte de propagação de ideias e ideologias, uma vez que influencia na opinião dos indivíduos.

3. A MÍDIA ENQUANTO MECANISMO DE FORMAÇÃO DE OPINIÃO PÚBLICA

Com a proliferação dos meios de comunicação de massa, sejam eles televisão, rádio, jornais, revistas, internet, dentre outros, a mídia passou a exercer grande poder de persuasão sobre os indivíduos e, consequentemente, manipulando o senso comum, criando o que, hoje, denominamos de sociedade da informação, conforme colacionamos o seguinte entendimento:

A sociedade contemporânea atravessa uma verdadeira revolução digital em que são dissolvidas as fronteiras entre telecomunicações, meios de comunicação de massa e informática. Convencionou-se nomear esse novo ciclo histórico de sociedade da informação, cuja principal marca é o surgimento de complexas redes profissionais e tecnológicas voltadas à produção e ao uso da informação, que alcançam ainda sua distribuição através do mercado, bem como as formas de utilização desse bem para gerar conhecimento e riqueza (BARRETO JUNIOR, 2007, p. 61).

Contemporaneamente, os meios de comunicação, na maioria das vezes, ao invés de buscar desenvolver nos indivíduos um senso crítico, capaz de analisar e compreender as situações pragmáticas, acabam por influenciar suas opiniões do modo que mais lhes convém. Desta forma, a transmissão de informações difundidas pela mídia, já chega ao público com o

senso constituído, o que dificulta o desenvolvimento de um senso crítico àqueles que recebem

a notícia. Acerca desta influência midiática na formação de opinião pública, percebe-se que:

Na medida em que transmitem acontecimentos e opiniões por meio da escrita, sons e imagens, os meios de comunicação funcionam como instrumentos de influência na construção e compreensão da realidade. A mídia, portanto, exerce uma espécie de

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

controle social de forma indireta, informal, na medida em que dita comportamentos, modismos, costumes, dissemina ideologias. A opinião pública é construída sob forte influência midiática (ALMEIDA, 2007, p. 12).

Neste entendimento, vislumbra-se que, a cada dia que passa, a mídia apresenta-se como fator de controle social, de modo que é capaz de interferir e manipular as opiniões pela transmissão de informações com ideias já formadas, o que acaba por disseminar na sociedade ideologias defendidas por aqueles que transmitem estas notícias. Assim, embora seja indiscutível a relevância que a mídia desempenha no contexto social, já que é o principal meio informacional, é de extrema importância que esta seja utilizada para estimular nos indivíduos uma interpretação conforme a realidade dos informes transmitidos. Neste sentido, não basta tão somente ler ou ouvir a informação, é imprescindível que o receptor seja capaz de interpretá-la, desenvolvendo, desta forma, seu senso crítico e sua própria opinião acerca de cada nova notícia e dado recebido.

4. A INFLUÊNCIA MIDIÁTICA NA SEARA DO DIREITO PENAL

Indiscutível é afirmar que a mídia e o Direito Penal sempre possuíram uma estreita correlação. Não é de hoje que se depreende o poder de influência que os meios de comunicação de massa exercem sobre a sociedade, forjando uma circunstância e, inclusive, propagando as ideologias das classes dominantes, capazes de persuadir e manipular seu público alvo. A mídia, enquanto principal meio informativo, tem o dever de transmitir aos indivíduos os acontecimentos, problemas e conflitos sociais. Contudo, informar não significa deturpar informações, nem sequer atribuir a elas dramatização e maior gravidade. Os meios de comunicação não devem, em nenhum momento, visar alienar os sujeitos com suas opiniões e ideologias, e sim buscar desenvolver nos indivíduos um olhar crítico, que os torne capazes de interpretar as notícias e informações que recebem. O que se nota, primordialmente quando se trata de um assunto referente ao Direito Penal, é que a mídia utiliza-se de informações para “vender” ideias aos sujeitos, visto que atribui às notícias caráter sensacionalista, visando, sobremaneira, impressionar o público, tendo em vista a competição. Logo, em não raras situações, constata-se o descumprimento da mídia com a veracidade, na medida em que, almejando aumentar os níveis de audiência, acaba dedicando significativo espaço às notícias sensacionalistas. Nesta ótica, conforme

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

Bourdieu (1997, p. 25), “a televisão convida à dramatização, no duplo sentido: põe em cena, em imagens, um acontecimento e exagera-lhe a importância, a gravidade, e o caráter dramático, trágico”. Convergindo com esta perspectiva competitiva e dramática da mídia encontra-se o sentimento de curiosidade dos indivíduos, que, cada vez mais, almejam se manterem informados acerca de assuntos e notícias relacionados à violência, crimes e infrações penais, ainda mais devido à desestabilização e à insegurança que estes causam, gerando, com isso, a própria banalização do Direito Penal. Neste enfoque:

A imprensa, portanto, não tem como ficar alheia ao interesse causado pelo crime, mesmo porque a imprensa é o “olho da sociedade”. Jornais impressos, revistas, o noticiário televisivo e radiofônico dedicam significativo espaço para este tipo de notícia. Acontece que, muitas vezes, a divulgação reiterada de crimes e a abordagem sensacionalista dada por alguns veículos de comunicação acabam por potencializar um clima de medo e insegurança. A criminalidade ganha máxime e a sociedade começa a acreditar que está assolada pela delinquência. Cria-se uma falsa realidade que foge aos verdadeiros números da criminalidade (ALMEIDA, 2007, p. 33).

Assombrados pelo medo que os meios de comunicação transmitem, a população tende a exigir uma maior ação punitiva por parte do Estado, visualizando as penas mais severas e o encarceramento como a solução para combater o avanço desenfreado da criminalidade. Defendem, portanto, a coerção com a consequente aplicação de sanções rápidas, imediatas e, ao mesmo tempo, eficientes.

Agindo neste diapasão, a mídia transmite a falsa impressão de que vivemos numa sociedade mergulhada na criminalidade, dominada pelo medo, onde a máquina repressora do Estado seria a única opção para conter a violência e proporcionar um pouco de paz. Seria insensatez e pouco amor à verdade negar que a sociedade sofre com o crime, em índices que preocupam, e que a criminalidade perturba a vida em comunidade (cabe-nos lembrar que a prática delitiva é um fenômeno intrínseco à vida social). Mas aqui falamos de uma falsa realidade construída por profissionais de mídia que vêm no chamado mundo cão, um filão para conseguir audiência. Estas pessoas sabem que o crime, ao mesmo tempo que causa terror, atrai a curiosidade da multidão (ALMEIDA, 2007, p. 36/37).

Desta forma, persuadidos pelo exagero de certos veículos de comunicação, a sociedade acaba desconsiderando, muitas vezes, direitos fundamentais e princípios constitucionais, tais como o da presunção da inocência, da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal. O clamor público acaba, ainda que indiretamente, influenciando o Poder Judiciário a tomar medidas urgentes para punir os delitos cometidos, o que, ao invés de

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

priorizar a redução da criminalidade, acaba acarretando na supressão de garantias e direitos fundamentais dos indivíduos. É evidente que, a partir da prática de um crime, o sujeito infrator deve ser sancionado pela sua conduta ilícita. Conquanto, devem ser respeitados, sobretudo, seus direitos e garantias constitucionais resguardados pelo nosso ordenamento jurídico, de modo que lhe seja respeitada a dignidade da pessoa humana. O campo midiático, utilizando-se de um caráter que causa sensação, desrespeita, na grande maioria das vezes, o princípio da presunção da inocência, já que atribui, desde logo, a culpabilidade aos réus, sem nem mesmo tendo sido o processo transitado em julgado. Notório é que os pré-julgamentos feitos pela mídia e difundidos na sociedade, são capazes de gerar erros judiciários, porquanto, antecipadamente, condenam ou absolvem o sujeito, influenciando, sobremaneira, na decisão dos magistrados. Demonstra-se, neste aspecto, que os meios de comunicação exercem não só grande influência na formação da opinião pública, manipulando-a, mas também nas próprias fases do processo penal, mormente porque são capazes de modificar o desfecho processual de um julgamento. Além disso, própria mídia atribui aos indivíduos o rótulo de criminosos ou delinquentes, o que contribui, sobremaneira, para asseverar a criação de estereótipos referentes à criminalidade. Isto porque geralmente os criminosos e infratores passam a serem caracterizados como sendo indivíduos das classes mais desfavorecidas economicamente. Dentro deste enfoque, insta destacar a influência da teoria criminológica do Labelling Approach, ou seja, Teoria do Etiquetamento Social, que defende serem o delito e o delinquente consequências de um processo incriminatório, levado a cabo por aqueles que detém o poder. Assim, a criminalidade seria compreendida pela ótica da classe dominante, não raras vezes a elitista, sendo que é ela quem valora o delito. Logo, diante do aqui exposto, infere-se que o caráter de espetáculo transmitido pela mídia à sociedade, mais especificadamente no que se refere à violência e à criminalidade, acaba influenciando na opinião pública e, por conseguinte, na formação de um senso crítico. Deste modo, a população, dominada pelas ideologias midiáticas, exige do Poder Público medidas de punição cada vez mais coercitivas e julgando o sujeito infrator, desde logo, culpado sem nem sequer considerar seus direitos fundamentais, tais como a ampla defesa e a presunção de inocência.

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

CONCLUSÃO

É indiscutível o relevante papel que a mídia possui na sociedade, uma vez ser esta o

principal mecanismo de transmissão de informações e notícias. Entretanto, com o passar dos tempos, o que foi possível verificar é que a mídia utiliza-se do poder que exerce sobre a

sociedade para manipular informações e notícias e, assim, influenciar a opinião pública e a formação do senso crítico.

O legislador constituinte visou assegurar em nosso ordenamento jurídico uma proteção

especial à liberdade de pensamento e de manifestação, de modo que a todos os indivíduos fosse garantido o pleno direito da liberdade de expressão, sem censuras. Da mesma forma, é direito também do cidadão manter-se informado acerca dos fatos e acontecimentos da sociedade, bem como compartilhar estas informações. Todavia, esta liberdade de pensamento e de manifestação não pode ser usada pelos meios de comunicação de massa para persuadir, manipular e influenciar seu público, pois isto acaba gerando um controle social. Percebe-se que, quando se trata de assuntos e notícias relacionadas à violência ou crimes, a mídia utiliza- se das informações para forjar realidades e difundir suas ideologias, o que acaba por se traduzir no desenvolvimento de uma opinião pública, que nada mais é que a ideologia das próprias classes dominantes. Assim, influenciadas pelas informações espetaculares divulgadas pela mídia, envolvendo violência e crimes, a sociedade passa a exigir, cada vez mais, do Poder Público punições mais imediatas e coercitivas aos acusados de algum ilícito penal. Desta forma, muitas vezes, indivíduos passam a serem vistos pela sociedade como culpados, sem nem sequer ainda ter o seu processo penal transitado em julgado. São desconsiderados e desrespeitados, neste sentido, direitos fundamentais e garantias constitucionais indispensáveis para a existência, de fato, de um Estado Democrático de Direito. Em suma, imprescindível é asseverar que o direito à liberdade de pensamento e de expressão devem sim ser exercidos e plenamente salvaguardados. Entretanto, sua utilização deve estar condicionada aos ditames da lei, sendo necessário que sejam usados com ponderações, de modo que estes não se tornem mecanismos de persuasão, manipulação ou controle social.

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS UFSM - Universidade

30, 31 mai e 01 jun / 2012- Santa Maria / RS

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Judson Pereira de. Os Meios de Comunicação de Massa e o Direito Penal: a influência da divulgação de notícias no ordenamento jurídico penal e no devido processo legal. 2007. Disponível em <http://www.bocc.ubi.pt/pag/almeida-judson-meios-de-comunicacao-direito-penal.pdf> Acesso realizado em 21 de abril de 2012.

BARRETO JUNIOR, Irineu Francisco. Atualidade do Conceito de Sociedade da Informação para a Pesquisa Jurídica. In O direito na Sociedade da Informação. São Paulo: Atlas, 2007.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro de 1988. 11. ed. São Paulo:

Saraiva, 2011.

CALDAS, Pedro Frederico. Vida Privada, Liberdade de Imprensa e Dano Moral. São Paulo: Saraiva, 1997.

GODOY, Claudio Luiz Bueno de. A Liberdade de Imprensa e os Direitos da Personalidade. São Paulo: Ed. Atlas S.A., 2001.

MARCÍLIO, Maria Luiza (resp.). Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão – 1789. Biblioteca Virtual de Direitos Humanos. Universidade de São Paulo (USP). Disponível em:

<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-

Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-

1789.html>. Acesso: 14. abr. 2012.