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| SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 Uma poética do préprio, da presenga e da singularidade A obra concreta Antonio Jareim Pra Michelle Cardoso, pelos debates construtivos ‘que possibilitam. As obras que se inscrevem em nés ‘concretamente, dialogam conosco ‘como rentincia de uma presenga, Quando se fala de Heitor Villa-Lobos, a simples mengiio do nome faz aparecer, de imediato, um conjunto de possibilidades, articulagdes, desde manifestagdes costumeiras, do tipo — 0 maior compositor do Brasil, passando por genialidade, brasilidade, etc. Em mim, como miisico, compositor ecomo ser humano, outras questes se presentificam, tais como: a emergéncia poética, a vigorosidade de um proprio, a necessidade de uma presenga, © anunciar-se de uma singularidade, o obrar de uma obra € 0 realizar-se de uma concretude. Neste trabalho pretendo dar um testemunho, trazer a meméria e nada mais, do modo como a simples emisséo desse nome faz acionar, em mim, essas dimensdes A poética em Villa O grande poeta japonés Matsué Bashd nos disse de certa feita: - “Nao procurem os antigos... e sim 0 que eles procuravam”, po- outro lado, tenho repetido muitas vezes que, nos tempos do pés-moderno, todo criador, que merece assim ser chamado, é um pré-antigo. Por que? - Simples de entender, o poético ndo é um valor fora dos preceitos em que a criagao tenha valor. Um criador é aquele que, atendendo ao que o real nao pode deixar de, ao real, dar- Ihe encaminhamento, de encaminhé-lo e, desse modo, responder aos apelos deste mesmo real desenvolvendo e devolvendo, a partir de sua sensibilidade, como criagao e das possibilidades que Ihe foram outorgadas desde o real, uma interferéncia neste mesmo real. Essa compreensio parece ter se desencaminhado em nossos dias. Desse modo, so numa tempo-espacialidade ancestral - eviterna- é que 0 poético é poético O real se diz.e ao se dizer nos obriga a dizé-lo conforme podemos. Se no fosse assim, deveriamos crer que um floricultor, por exemplo, cria a flor quando, na verdade, originariamente, © que se deu foi o inverso: foi a flor que “inventou” tanto o floricultor quanto a floricultura, Ea flor, como dizer-se e mostrar-se, que faz do floricultor aquele que é capaz de cultivi-la. Aquele 7 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 que por uma res-posta sensivel toma a flor como sentido. O real é tudo que 6, 0 que se presentifica. E, assim, verdade enquanto 0 que se da para 0 desvelamento que se desvela, Simultaneamente se vela, desvela e se revela, Assim, verdade € sempre uma instancia pré-predicativa, antecedente a qualquer modalidade do julgamento, antecedente a qualquer Sux (diké, justia), antecedente a qualquer juizo. Com o advento da predicagio como verdade, na passagem da verdade - entendida adi Gera.(alétheia, desvelamento do real), para op0ores (orthétes, corregao, adequagéo) - quando verdade se converte em certeza, a verdade se converte em juizo, em um mere julgamento. O certo é um juizo, 0 verdadeiro, por outro lado - um gesto manifesto de real. Assim, linguagem — entendida como condigao de todas as possibilidades do real se manifestar ~ significa, primeiro e antes de qualquer predicagao, gestualizar e nunca o correto, 0 juizo, a predicacao real € gesto primigénio e porque primigénio, imemorial. Portanto, todo gesto de real é um acionamento dele mesmo, desde seu proprio para o seu proprio. O real ¢ definitivamente propicio. Esses acionamentos so necessariamente multiplos ¢ plurais, Os acionamentos sfio produzidos pelas coisas, pelos seres que se encontram no proprio do real, integrando-o como constituidores de espagos-tempos sempre possiveis. Ora, o que garante essas possibilidades & sempre realidade, isto é, o real como potencial acionador e passivel de acionamento. O poético, a poética, 6a esséncia desse acionamento, Mas, por qué? Todo o acionamento de real se dispoe como modificago, mundificagao, quer dizer como instauragio de mundo, isto é, de arranjo, de ordenacao do caos. De todos os seres aquele que se sabe como desencadeador de mundo, ou melhor, de possibilidades de mundos, é o homem e ai esta talvez, a sua principal peculiaridade fazer mundo, mundanizar, mundificar, modificar, mesmo desde o real, 0 seu relacionamento com este é um acionamento criativo e criador, mundificante, mundificador. Em ultima instancia, dizer-se enquanto modificador, perpassado pela criagdo, é necessariamente postico e é postico na medida em que a palavra postica, em grego noinais (poiesis), diz radicalmente fazer, mas nunca qualquer fazer e sim o fazer radical - a criagdo. A criagdo que encanta porque mundifica, faz. mundo, modifica 0 real de modo que este jamais podera voltar a ser 0 que ja foi - 0 que faz do real devir, movimento. A esséncia da agio é transmutar. O criar nao mente, E gesto. Nao & alegre nem ¢ triste, é to somente postico e mais no necesita A postica, o poético, como preferem alguns, nao fala a verdade, apenas se diz. como 0 modo essencial da verdade, isto é, como presenga capaz de mundificar, modificar e modificando — constitui-se presenga que encanta, Desse modo, a postica nao esti sujeita aos juizos impostos pelos estilos de época, pelas classificagdes ou pelos conceitos que se perderam das questdes que Ihe deram origem. A postica trata a presenga como presenga e assim se poe como verdade, jamais engana ¢ assim jamais podera ser irreal! Se for realizago, bem. Se nao for, também. Afinal, como nos adverte Hélderlin: “Tilo 0 que permanece fundanr-no os poetas”, Nao ocorreria a ninguém procurar por Macondo de Garcia Marques, como uma forma de legitimagio de Cem anos de solidéo, nem tampouco encontrar 0 Serta rosiano para tomar mais verdadeiro 18 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 Grande sertéio: veredas, ainda menos a Floresta Amazénica de Villa-Lobos, A verossimilhanga aqui tem muito pouco a dizer O que aqui diz é 0 fazer criador: aquele que desde o real faz-se essencialmente real, O que permanece Como diz Caeiro: “as coisas néio tém significagdo: tém existéncia”, ¢ existéncia aqui diz presenca, quer dizer, esséncia ¢ aparéncia definitivamente reunidas, sem mais A poética em Villa é a substantividade que nao é capaz de admitir qualquer adjetivagao. FOU menor ¢ uma questo que precipita-se Villa é substantivamente criagdo. Uma criagio m: como solugao para dar uma resposta historica, estética e analitica, apenas O prop: No idioma grego surge para 0 ocidente a compreensto do que ¢ proprio e surge com a palavra dvrds (aids), palavra que no grego diz tanto o mesmo, quanto © pronome pessoal reto da terceira pessoa do singular, isto é 0 ele, 0 outro. O mesmo ¢ o outro num s6 gesto, 0 gesto de vigor de uma presenga. Assim, o que ¢ proprio € o que tem a capacidade de num dimensionamento conjugar num s6 sentido duas diregdes: de la pra ¢4, e daqui pra la. De mim para um outro e de um outro para mim. Essa maneira de compreender impede qualquer nogao de sujeig&io ~ quer seja de mim ao outro ou de qualquer outro para mim. O idioma grego nos ofereceu enquanto possibilidade generosa a superagdo das sujeigdes. Para que algo seja proprio, € preciso superar sujeigdes. Ter proprio, desse modo, nao é fazer do proprio um meio de imposigao a qualquer alteridade, ter préprio é estar articulado vigorosamente com o que é E ser, essencialmente, para além dos ajuizamentos sejam eles pré-antigos, modemos ou pos- modemos. Ser proprio € nao estar submerso as sujeigdes estéticas, historicas, ou analiticas. Ser proprio é ser. Significa, ou se é proprio ou se é uma reificagao historic, estética ou analitica, ou quaisquer combinagdes destas. © proprio é 0 destemor perante as adjetivagoes. Ser proprio é estar numa substantividade bastante, Repito: Como diz.Caeiro: “as coisas néio 16m significagdo: tém existéncia”, eexisténcia aqui diz presenga, quer dizer, esséncia e aparéncia definitivamente reunidas, sem mais, Significa as coisas esto substantivamente além das adjegdes, Uma reunidio essencial e presente s6 ode efetivamente se dar, se 0 proprio faz-se vigor, vigéncia, ea antes que qualquer representagdo tenha lugar. Antes do significado... - o sentido, sempre. O sentido nao se dicionariza se mostra, se diz e se faz. sentir antes que possamos cogitar acerca das significagses, igéncia s6 se toma presente quando 0 postico se apresenta e se presentifica A musicalidade, enquanto 0 conjunto de possibilidades advindo do real, é que encanta e mostra 0 criador antes que acerca dele possam se iniciar as classificagdes epocai classificagdes estetificantes ou historificantes, O ritmo da criagaio é o que faz. com que habitemos as 19 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 uma espago-temporalidade entreaberta pelo criador, Habitando essa espago-temporalidade, na medida em que por ela é habitado, 0 criador constitui com sua obra o que é capaz de obrar em nos um tempo no cronolégico (na verdade ednico-kairético) e um espago para além das mensuragdes, O ritmo pulsante da criagdo nos toma e esquecemos necessariamente da cronologia. Nao sabemos quanto tempo ouvimos: sabemos que habitamos um espago-tempo postico, isto €, criado, constituido desde 0 concreto que se estabelece com a miisica, na sua coneretude, tratada como tempo-espago mundificante e modificador do bom senso e do senso comum, Se faz sentir, faz sentido, diz a maxima presente nas redes sociais hoje em dia, A obra vigente em Villa se faz sentir no apenas nesta comemoragao destinada a celebrar o vigor € a vigéncia do que obra na obra entre nds. Nao ¢ esta comemoragdo que faz memoravel a obra de Villa, ao contrario, Esta comemoragio é desde a obra, desde um criador que fez e faz eviternamente acontecer memaria. Por isso se faz. um festival, Se faz um festival porque a obra é vigor de presenca. O festival & uma requisigdo do proprio feito substantivamente obra. Um festival é apenas um adj vo que qualifica o proprio de uma obra Assim sendo, o proprio em Villa é, na verdade, uma auto-con-sideragao, isto €: nao é apenas uma questo subjetiva nem nossa nem dele. E um préprio siderar conjunto, independe dos nossos juizos ou de um ridiculo tribunal de qualquer corpo de jurados. O autoconsiderar, também independe do juizo que Villa tinha acerca de si. Independe do que ele era capaz de dizer de si ou do que nos somos capazes de dele dizer. O autoconsiderar-se ¢ um mover-se desde uma obra criativamente criada, Esse mover-se, move-se desde ela, obra, nao desde qualquer espécie de subjetividade, Mover-se desde ela, obra, nfo desde Villa apenas mas desde um algo que é um autoconsiderar-se, Mover-se desde ela, obra, nao desde nés, nem de nossa capacidade de adjetar ou de formular adjetos. Nos no mevimentamos inicialmente uma obra, por principio ela nos movimenta, ela nos move, ela nos faz acenos e a eles respondemos ou nao e s6 entdo a movimentamos. Mas, nao respondemos a qualquer obra. Nao! Respondemos apenas a obra que conduz proprio. proprio em Villa éa substantividace que nao é capaz de admitir qualquer adjetivagao Villa é substantivamente criagao. Uma criggao & a exigéncia que se faz comemoragao. Um festival é uma dimensao que se precipite como solugao para dar uma resposta historica, estética e analitica, apenas. A presenga em Villa Oencanto produzido pela presenga é sempre oinicio para qualquer possivel conhecimento Uma presenga é sempre a forga primigenia, poética ¢ inaugural de toda e qualquer criagio. A misica, assim como qualquer dimensao artistica impGem-se como presenga. 20 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 A arte no 6, nem jamais sera, mentira ou mera falsidade. Nao representa nunca — so apresenta, O poeta, um criador, é um fingidor? Sim, todo criador é um fin; escultor (fingere, esculpir) das palavras, das tintas, dos sons, com seus ritmos, sons ¢ siléncios enquanto com-posigdes. O escultor faz 0 mesmo com os volumes (modus tollens), 0 pintor com a luz € a cor (modus ponens) € o miisico com o som (modus com-ponens). Villa é um poeta, um criador, um escultor o fingidor que se presentifica aqui, neste evento comemorativo. Ele compde este evento de celebragdo memorivel como dimenstio de um tempo-espago que & simultaneamente pré-antigo e pds-moderno, ¢ € assim um gesto em dire¢do ao i-memoravel, quer dizer: ao que se converte em meméria desde aquilo que Ihe € proprio, propicio. E , desse modo, pré-antigo a medida que suas obras articulam sentido na anterioridade com as stancias de sentido de uma arché, desde um principio que se presentifica com seus temas € solugdes modemas, pés-modernas, pés-modernissimas. Nao se deixem iludir com as formas aparentemente convencionais dessas obras, ou quaisquer outras. Nao! A sintese € mais que solugo para tese ¢ antitese é a vigéncia e vigor das contradigdes substantivas a que sua obra nos conduz. Nao procurem os antigos procurem os principios, isto é 0 que de pré-antigo insiste em todo ato, em toda aemalitas, em toda pseudo-pos-modernidade, estes, Villa nos apresenta, nos mostra aqui neste evento e nos mostrara por muito tempo. A singularidade em Villa Falar de uma postica do proprio ¢ sempre falar de uma singularidade, isto é ¢ uma inscrigo no movimento que nos é constantemente trazido 4 presenga singular outorgada pelo real em sua constancia de movimentacdo, Real é aquilo que é, tudo 0 que ¢. A inscrigdo nesse movimento s6 se da e s6 se pode dar de modo substantivamente proprio e singularmente presente, por isso ¢ uma in-scrigdo, tudo aquilo que é, diferentemente de uma es-crita, um in- setivere, um in-screver-se. Em um relacionamento, que se possa nomear como substantivo, um acionamento desde o real precisa ser nomeado, como presenga propria que é, presenga do que é proprio, presenga de singular de uma singularidade, de uma obra que se concrete, uma obra concreta, Somos, por habito, levados a crer que acessar uma obra concreta se da através de nossos meios de anélise, Ao analisarmos uma obra acreditamos poder fazer emergir a qualidade de seu ctiador, por isso nos esmeramos em desenvalver os mecanismos os mais eficientes de anilise com a esperanga de podermos surpreender a genialidade de um artista, de um misico. Para efeito do que aqui nos reune, tentamos surpreender a genialidade de um miisico, de uma obra que todos nds admiramos. A anilise nos conduziré, cremos, como um dispositive (Ge-Stell), uma com-posigdo, seniio infalivel, que se aproxima da perfeigdo @ conclusdo da genialidade da criagdo de uma obra, E realmente € assim que uma desconstrugio analitica se poe para nos. como a razao para que a obra seja o que é. Sea obra corresponde a um dispositivo quea envolve 21 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 com virtuosidade € porque ela deverd ser to virtuosa quanto a anilise que a com-preende, que a cinge, que a envolve, Analisar nos aparece como uma promessa de entendimento de nivel superior, ja que pretende revelar tecnicamente as tramas internas de uma com-posigao, No entanto, devemos entender que a obra analitica enobrece menos a obra analisada que o analista A analise necessariamente se poe numa dimensao superior em ralagao & obra analisada. Se se diz. que a obra de um criador importante é porque ela foi previamente analisada para que se possa afirma-la como tal, Toda singularidade analisada perde-ce de si. Singularidade partida, quebrada, converte- se de singular em miultipla. A andlise na sia dimensfo de partigdo quebra a integridade de qualquer singularidade. Aqui neste ponto deste uabalho, em que se aborda 4 questo da andlise musical, se propde desenvolver uma reflexao sobre esta area de conhecimento musicologico. Nossa preocupacdo no contexto desta questo € como pensi-la sem cair na adogao de um modelo previamente definido; & ndo cai numa aceitagao por demais imediata do conceito €, por consequéncia, escorregar para uma pratica irrefletida tio a gosto de muitos misicos e professores de musica, Percorremos esta questio tentando surpreender nela alguma coisa que, embora presente na pratica de anélise musical, no se mostra com muita facilidade, Em geral, ao se praticar a analise, quem pratica ndo se da conta de algumas dimensOes existentes na pratica analitica e nao se dé conta exatamente pela aceitagdo pura e simples do conceito e de seu modo de aplicagao E claro que este texto nao pretende esgotar es condigdes de possibilidade em que andlise se da A pretensio é muito menor, na verdade, o que se pretende aqui é produzir um desvelamento, chamar atengdo para outras possibilidades contidas no conceito e na pritica relativos a ele. O modo como nos determinamos alcangar este desvelamento talvez. justifique nao 86 a existéncia da abordagem aqui realizada, mas também a propria apresentacao dela neste momento, ‘O modo como nos determinamos alcancar este desvelamento foi operando um retorno ao sentido etimoldgico originario de anélise e, 20 perceber a distancia que nos separa do conceito originario, tentar fazer aparecer alguma coisa do que ficou encoberto durante todo esse tempo. Entendemos portanto que a coneretizagaio de um conceito niio se da unicamente a partir da experiéncia que dele nds temos; de uma aquisi¢ao e utilizagao dele como algo acabado, estratificado, Esse tipo de operagiio como que opera, na verdade, uma des-substantivagiio do conceito e o coloca numa dimensao de mero atributo aplicado, O seu vigor, sua forga se dilui € © conceito tomado como mero instrumento fica incapacitado de trazer consigo a dimensio criativa que todo conceito, para que faga jus a seu nome, deve ter. Acreditamos mesmo que quando um conceito ¢ aceito a priori € reduzido a mero instrumento, é ai mesmo que perde o vigor de sua instrumentalidade e ao perder também isso, tudo esta perdido. 22, | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 O vigor de um conceito esta na possibilidade que ele desencadeia de instaurago de novas condigdes de pos: compreenda. Esta, apresentada aqui ndo passa de uma, entre outras, possibilidades de restaurar a substantividade do conceito de anilise, significa: uma, entre outras, possibilidade para fazer brotar, a partir de sua dindmica histérica, acepgdes usualmente desconsideradas pelos seus usuarios, lidade que se apresentam na instauragio de qualquer dinamica que 0 A instauragao ou re: conectada com a dindmica historica, E ne historicidade que uma substantividade pode se apresentar, mas é também na historicidade que substantividade pode se ocultar, pode se des- stauragdio de uma substantividade, para nds, esti diretamente substantivizar, A pailit dai, € necesséi iv que possammios da a compreender o que se entende por dindmiva historica, por historicidade. Como € mais do que ébvio, ninguém pode compreender dindmica historica como uma linear arrumagao de fatos, ao contrario da ideia de sucessividade e linearidade a que estamos habituados em nossa compreensio mais imediata de historia, A historicidade é multidirecional € tem uma densidade ndo linear, isto é: numa dinamica histérica participam simultaneamente diversas épocas, Essa superposi¢do configura uma espessura, uma diversidade de ordem diversa de uma sucessao linear e progressiva de fatos. Assim, na dindmica histérica da qual hoje participamos, vigoram substantividades outras que nao aquelas geradas aqui e agora. E desse modo que toda e qualquer substantividade s6 tem vigéncia numa estreita relago com a hist uma dinamica histérica determinada pela sue propria dina ica, bem como, com outras indmicas com que porventura se relacionen. Com os conceitos ocorre uma coisa semelhante ao que ocorre com as obras de arte, isto é, como tém instancia substantiva esto sempre em relagZo com uma dinamica historica. E isso que, a nosso ver, explica a constincia de certos conceitos ¢ de certas obras de arte que so capazes de transcender sua dimensao de época. No entanto, esta substantividade se relaciona com determinadas dindmicas historicas e suas respectivas densidades, Fazer emergir o complexo em que encaixa determinado conceito e determinado contexto, desvela para nés a densidade do conceito Ora, quando falamos de anilise em misica sabemos do que estamos falando e do que estamos ouvindo falar. Mas, com certeza, ao mesmo tempo, nao sabemos. Sabemos, na medida em que, qualquer miisico mesmo sem ser um “analista” entende por anélise musical um estudo que se propde investigar 0 modo como os elementos constitutivos da misica se ordenam naquilo que entendemos como uma composigao musical. Pensada desse modo a andlise seria uma forma de acesso a obra. Sem duvida isso é verossimil, dentre outras a anélise é uma forma de acesso a obra, Resta-nos perguntar: Que forma de acesso? De que forma a analise da acesso 4 misica? Muitas respostas poderiam ser dadas também a essa questo. Optamos por pensé-la 23 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 a partir do conceito de anilise ele mesmo. Seniio vejamos: a palavra analise se origina do grego devarsio (ana-lyo). Avo (/y0) 6a primeira pessoa do singular do presente do indicative do verbo desligar, va (ana) é um prefixo que diz, quando presente nas palavras compostas: de alto a baixo e, portanto, reforga o sentido de Abo(/y0), donde analise diz em seu sentido originario destigar, desfazer uma trama, dissolugao, resolugao de um todo em suas partes, solugao de um problema, ago de destacar, de partir, de quebrar! Vemos portanto que num sentido primeiro anélise diz desligar, desfazer uma trama, € nesse sentido ¢ empregada por Homero no Canto segundo, verso 109 da Odisséia, quando narra a descoberta feita pelos pretendentes de Penélope, de sua artimanha de desfazer de noite 0 trabalho realizado durante o dia. Diz Homero: «essa maneira a apanhamos, que o belo tecido desmanchava, tendo-se visto obrigada a acabar o trabalho, por forga». O sentido de anilise como acesso a alguma coisa, ¢ portanto posterior, Analise passa a dar conta de um determinado modo de conhecimento de algo, exatamente ao mesmo tempo, € na mesma proporgao em que seu sentido originério vai sendo encoberto, velado Masé claro queum conceito tem uma multiplicidade de sentidos, bem como, éigualmente claro que ele se move, isso nao estamos, absolutamente, questionando, No entanto nos parece que © interessante & pensar porque se moveu desta ¢ ndo de uma outra maneira. Nao seria, por assim dizer, sintomatico que tenha prevalecido como dominante no coneeito o sentido de modo de ter acesso a trama em detrimento do sentido de desfazer a trama? O que significa isto? Cristalizar 0 acesso como entidade pura ¢ fazer isto prevalecer é ndo estar atento para © modo como este acesso se dé. Em verdade, ele é também um modo de di tempo em que é acesso o, ao mesmo Poderiamos ainda tomar um outro sentido que talvez pudesse ser mais aproximado a modo de acesso -solugo de um problema, por exemplo. Temos ento que pensar o que quer dizer solugio. No idioma grego solugio se diz dvédvors (anlysis), significa: desmanchar; jé mpoparpa (problema) diz originariamente: aquilo que se tem diante de si, aquilo que se tem presente, e por analogia, obsticulo, Desse modo ainda teriamos o obsticulo desfeito, Isto é, 0 sentido de diluigzo permanece ‘Quando se tem um problema o que sedeseja é chegar ao fundo dele, énos aprofundarmos nele, é enfim chegar ao seu nucleo. Se 0 nosso problema, isto é, aquilo que temos diante é uma pedra, digamos: seria verdade dizer que o ter acesso ao seu micleo seria possivel partindo-a em duas? Teriamos assim acesso ao seu micleo, ou teriamos multiplicado o problema, isto é -aquilo que se tem presente? Caracterizamos a analise musical como uma forma de acesso as obras, ¢ refletimos sobre isto acima, No entanto quer nos parecer que esta caracterizagao pode ser complementada se dissermos além disso que esse acesso se da através de uma série de procedimentos técnicos 1 Dictionaire Gree-Frangais, p. 130. 24 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 Nao seria desse modo, equivoco se dizer que a analise musical tem uma dimensio técnica Pensemos um pouco sobre esta. A palavra técnica também tem origem grega. Ela se origina na palavra texviKov (technikén) que des na o que pertence a téyvy (féchne), esta por sua vez “nao designa somente 0 fazer do artesio e sua arte, mas também a arte no sentido das belas artes”. A téyym (échne) faz parte do pro-duzir, da potesis, logo ela ¢ algo de postico. Aristételes nos diz, através de Heidegger “Apmn (téchne) & um modo do H.cBetiew (alethetein). Bla desvela aquilo que nao se produz a si mesmo ¢ cinda nio esta diante de nés, aquilo que pode portanto tomar, tanto tal aparéncia, tal cnfigurago, quanto outta’ Desse modo observamos que 0 ponto fundamental na fecne niio esta circunscrito a um fazer, no sentido de manejar, nem tampouco na utilizago de meios, mas no ser ela também uma forma de desvelamento. E no desvelanento e nao na fabricagaio que a técnica tem seu princi abordar, O desvelamento que rege a técnica moderna perdeu a sua dimensio de vars (physis) Esta perda coloca a técnica numa dimensdo exclusivamente voltada para a produgdo de uma Mas o desvelamento operado pelatée a modema é diferente deste que acabamos de existéncia dimensionada exclusivamente no modo do agir, es6 ai ela faz sentido. E desse modo que a técnica se apropria da natureza, a racionaliza, quer dizer: a reduz A dimensiio em que as variiveis siio decorréneia necessiria ¢ suficiente de uma constante-razdio, Este modo de fazer aparecer varidveis como componentes do real, a0 se estabelecer, cria uma determinada maneira de conceber no mundo esse proceso como dado desde sempre, € nesse sentido um modo de persuasio que se estabelece como a priori imprescindivel para 0 dominio desta concepgiio tanto de técnica, quanto de real, produgdo, anilise e etc... Desse modo a técnica moderna esté fundada na persuasio de um dispositivo. Persuasdo desde um dispositive é aqui entendida como o fazer emergir a razo como modo de assegurar a si mesma e ao real através do con-senso. Significa: 0 que é constante s¢ apresenta como dado desde sempre e é em toro deste. que é proclamada tant con-senso quanta nentralidade Con-senso diz aqui aceitagia de uma constante como razao. Claro esté que esse modo se aperfeigoa a cada dia por meio do vertiginoso avango tecnoldgico experimentado hoje. Ao caracterizarmos a analise musical em sua relago necessaria com a técnica é ai que por fim se apresenta a andlise musical, ao menos enquanto fundada nesses principios, como um modo privilegiado de acesso as obras. Esse modo privilegiado nds chamamos Persuasio desde um dis-positivo fazer emergir a raziio como modo de assegurar a legitimidade de seu préprio entendimento como consenso dado desde sempre. O modo como isto se da é bem descrito por Nietzsche, no “Livro do Filésofo” Se alguém esconde uma coisa atris de um arbusto, procura-a neste lugar € a encontra, nada existe de adminivel nesta procura e nesta descoberta: no entanto, @ mesmo aconlece com a procura ea descoberta da verdade no recinto da azo, Quando dou a 2 Heidegger, A questao da Técnica, p. 5, tradugao do autor. 25 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 definigao de mamifero e declaro, apés ter examinado um camelo, “eis um mamifero”, cerlamente revelei uma yerdade, mas nfio obstante cla tem valor limitado...° Num certo sentido, constatamos, a anélise musical tem seguido este caminho. O mais decisivo, no entanto, tem sido essa pretensfo de ser a posteriori ocultando de si mesma seus a priori, Essa tem sido a forma por ela encontrada para se erigir uma pretensa neutralidade, por sua ver, fator facilitador, da mera adogo de métodos e técnicas. Assim se oculta nela, por ela, ¢ dela propria a persuasfio desde um dispositivo, seu ser oculto, A Persuasio desde um dispositive € 0 ser oculto da ciéncia, da técnica e andilise musical modernas. A obra concreta em Villa Por que nao fazer uma anlise técnica de uma obra conereta propria e de presenga singular? Porque nesse caso perdemos o sagredo de seu nome. Nao o sagrado do nome de uma autor con-siderado génio mas de uma obre que se inscreve em nos como capaz de fazer 0 memoravel eclodir. Toda vez. que o memoravel eclode ha uma con-sagrago. A obra é esotérica, to € ocupa o lugar om € 0 que rompe com o religioso pelo pensar, pelo cuidado exigido por ser uma consagragao, um vigor de criagdo de um espago-tempo, ¢ esse gesto é um gesto pré-predicativo, antes que 08 juizos sejam adjetados. Mas para a adveniéncia desse tempo-espago se da justamente pela abertura possibilitada em toda e qualquer questo ~por exemplo, como é que uma obra, obra? ~ de se dar a pensar se dar ao cuidado. A anilise é uma simulagao do cuidado, porque em verdade 86 cuida de seu processo analitico, e isso independe da ética do analista, ¢ parte da constituigaio analitica, Abrir o pensamento quer dizer movimentar, e movimentar desde a coneretude de uma obra, A analise é tanto misica, quanto uma tabela per uma obra desde sua substantividade é penser um substantivo sem juizos, sem 0 seu contrario, uma vez que nao existe o contririo de uma uva. Nao existe o contrario de uma uva assim como sagrado, um tempo-espago memoravel. E, aq , 0 mais sagrado €quimica, isto é nunca-nada. Pensar nao existe o contrario de um substantivo. S¢ o adjeto admite contrario. Pensar uma obra desde sua substantividade nao ¢ julger, néo € dizer de uma obra se ela é boa ou ruim, bem ou mal executada, bem ou mal com-posta. Antes que julguemos uma obra precisamos nos posi jonar na abertura que se entrega numa obra, ao mesmo tempo em que se a recebe, Em que se recebe a sua con-sideragdo, em se a con-sidera em que ela se mostra para se auto-con-siderar, isto & quando ela se move em seu préprio ser. Participando-se num tempo-espago que ela mesma (autés) cria, Se uma obra se considera nos impde que seja considerada, Precisamos consideré-la em suas con-diegdes, em seu dizer-se, perceber suas con-tra-dicgdes, e perceber suas concretas diogdes precisa dar-se sem precipitagdes. Uma obra conereta nao tem contradi¢ dicgdes. Como uma uva nao tem contrério, ama obra também nao o tem. Uma obra se afirma, Tem con-tra~ 3 Nietzsche, Livro do Filésofo, p. 71 26 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 afirma-se em sua permanéncia, em seu ser, raquilo que ela mesma & Um grande pensador um dia disse que na presenga de uma obra de principio, isto &, de uma obra originaria, 0 material no se esconde, ao contrario ele mostra o vigor de sua presenga em suas con (juntar), tra (entre, por meio de), dicgées (seus dizeres). Assim, quando um templo € erigido ¢ repousa sobre 0 solo, ele templo faz aparecer a pedra, ele resiste as a tempestade, o seu brilho mostra o brilho do sol e faz. com que o dia se presentifique, em sua luminosidade e a noite em sua plenitude. A solidez da obra faz contraste com 0 movimentar-se das ondas do mar revolto e proximo. A arvore e a erva, 0 passaro e a serpente aparecem em sua conformagdo, Significa, a physis se manifesta em sua presenga, Assim, é em sua relagao com a physis que uma obra abre mundo, E assim que algumas obras so capazes de renunciando tempo pelo espaco fazem com que ambos se presentifiquem em sua inseparabilidade. itempéries Toda e qualquer obra de arte, ao contrario da ciéneia ndo separa tempo de espago, a0 contririo faz deles sua con-dicgao, mostra como ambos se dizem juntos e s6 podem se dizer assim, con-juntando, con-dizendo, con-diccionando. A verdade desde uma obra de arte, precisa ser entendida como um movimento de desvelamento e velamento, ¢ nao escolhe a melhor maneira de se enviar, mas esta em envio constante, Talvez a tinica coisa que possa nos favorecer a questo da miisica nesse caso é que a masica, na medida em que nao é linguagem verbal, certamente dificulta uma abordagem verbal. Pelo menos nao se vao cometer com a misica os mesmos equivocos que se cometem, por exemplo, em relagdo poesia ou a pintura, mas outros foram, sfo e serdio cometidos e se & assim, que sejam pelo menos outros equivocos. A miisica nao vai admitir € nunca admitiu, de maneira nenhuma, ser reduzida a expresso verbal. Quando se tenta fazer isso, 0 maximo que se tem é disponibil idade técnica, ou seja, 0 discurso téct 0. A questo da verdade é acionada como a emergéncia do ser, ¢ a questio do modo de presentificagao do ser. A miisica no esta fora disso, nem guarda para si uma especialidade nisso, se nos a olhamos desse modo. Se nds a olhassemos desde nma perspectiva representacional, ai talvez se fivesse como ver a ampliagio que a musica impoe, porque, com um olhar representacional, nao dé para falar de miisica Masica nao representa; no tem como. ‘Quando falamos de musica falamos de como a obra produz uma rentincia do espago pelo tampo, quer dizer, aqui renuncia ¢ abrir mac de algo, ao mesmo tempo em que ¢ o presentifica de algo, Reniincia é abrir méio mas é re-anunciar. Assim, a miisica se inscreve em nés, fazendo acionar experiéncias, fazendo acionar uma extensio dos limites (ex-peiro), a0 apresentar 0 imerno e © externo que tem que se pronunciar em qualquer fenémeno. Assim, a miisica faz eclodir toda a historicidade do real para além de uma sucessividade crénica, A musica sendo Katp6g (kairds — 0 tempo propicio-) faz acontecer 0 dt6v (aién — tempo vivente) que con- dicciona o tempo vivido, faz acontecer um :empo de simultaneidades em que os limites estao postos para além de um antes e depois. O tempo da miisica é um sendo, enquanto participagao sempre presentificada de simultaneidades. raz. 0 passado para a experiéncia presente, ¢ traz.0 27 | SIMPOSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: OBRA, TEMPO E REFLEXOS m6 ‘9p: NOVEMBRO: 0 futuro numa antecipagao, A obra conereta desencadeia a realidade no como uma agio acabada, mas realidade no sentido fundamental de pessibilidades trazidas pelo real em sua participagaio em presenga, A miisica é sempre um participio presente la-Lobos nunca sera pasado, ele nos con-verte ao que somos desde o que fomos para 0 que precisamos vira ser. Nao como uma mensagem do passado ao futuro como ele proprio afirmara, mas como a densificagio que se faz presente a cada vez.que sua performance se da, A obra concreta em Villa nos devolve ao modo como somos presenga, como nos localizamos com a inserigo que a cada vez faz em nds até estarmos tio marcados por sua presenga que dela nao temos como nos ausentar, sejam nossos juizos certos ou errados, positivos ou negativos. A obra conereta nunca é certeza, 6 sempre verdade. Por mais que tentemos falar, a muito antes que dela possamos fazer discurso verbal. Assim! re uin dily anterior, um dito que se diz isica sera st ‘Comemoremos portanto a verdade feita obra na obra de Heitor Villa-Lobos. 28