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CARITULG + UA A FILOSOFIA NA ForMaAcAo po Epucapor A Filosofia da Educagio entendida como reflexio sobre 0s problemas que surgem nas atividades educacionais, seu significado e fungio. objetivo deste texto! é explicitar o sentido e a tarefa da filosofia na edu- O cacao. Em que a filosofia poder nos ajudar a entender o fendmeno da ‘educagio? Ou, melhor dizendo: se pretendemos ser educadores, de que maneira e em que medida a filosofia poder contribuir para que alcancemos 0 nosso objetivo? Na verdade, a expressao “filosofia da educacao” é conhecida de todos. Qual é, entretanto, 0 seu significado? Aceita-se correntemente como inquestionavel aexisténcia de uma dimensao filoséfica na educacao. Diz-se que toda educacao deve ter uma orientacio filoséfica. Admite-se também que a filosofia desempenha papel imprescindivel na formagao do educador. Tanto assim é que a Filosofia da Educacao figura como disciplina obrigatéria do curriculo minimo dos cursos de Pedagogia. Mas em que se baseia essa importincia concedida a Filosofia? Teria ela bases reais ou seria mero fruto da tradigao? Sera que o educador precisa realmen- te da filosofia? Que é que determina essa necessidade? Em outros termos: que & que leva 0 educador a filosofar? Ao colocar essa questo, nés estamos nos inter- rogando sobre o significado e a fun¢ao da Filosofia em si mesma. Poderiamos, pois, extrapolar o Ambito do educador e perguntar genericamente: que é que leva © homem a filosofar? Com isto estamos em busca do ponto de partida da filoso- fia, ou seja, procuramos determinar aquilo que provoca o surgimento dessa atitu- |. Escrito em 1973 como texto diditico para os alunos da discipina Filosofia da Educagio |, do curso de Pedagogia - PUC/SP Publicado na Revista Didata, n® |, janeiro de 1975. 10 _Epucagdo: Do Senso Comum A Consciincia FiLosrica. de nao habitual, nao espontanea a existéncia humana. Com efeito, todos e cada um de nés nos descobrimos existindo no mundo (existéncia que é agir, sentir, pensar). Tal existéncia transcorre normalmente, espontaneamente, até que algo interrompe © seu curso, interfere no processo alterando a sua seqiiéncia natural. Ai, entdo, o homem é levado, é obrigado mesmo, a se deter e examinar, procurar descobrir 0 que é esse algo. E é a partir desse momento que ele comeca a filoso- far. O ponto de partida da filosofia é, pois, esse algo a que damos o nome de Problema. Eis, pois, o objeto da filosofia, aquilo de que trata a filosofia, aquilo que leva o homem a filosofar: so os problemas que o homem enfrenta no transcurso de sua existéncia, 1. NoGAO DE PROBLEMA Mas que é que se entende por problema? Tao habituados estamos ao uso dessa palavra que receio ja tenhamos perdido de vista © seu significado. 1.1. Os Usos Correntes da Palavra “Problema”: Um dos usos mais freqiientes da palavra problema é, por exemplo, aquele que aconsidera como sindnimo de questo. Neste sentido, qualquer pergunta, qualquer indagagao & considerada problema. Esta identificacio resulta, porém, insuficiente para revelar 0 verdadeiro cardter, isto , a especiicidade do problema. Com efeito, se eu pergunto a um dos leitores: "quantos anos vocé tem?", parece claro que eu estou Ihe propondo uma questo; e parece igualmente claro que isto nao traz qualquer conotacao problemitica. Na verdade, a resposta serd simples e imediata. Nao se conclua daf, todavia, que a especificidade do problema consiste no elevado grau de complexidade que uma questo comporta. Neste caso estariam excluidos da nogao de problema as questées simples, reservando-se aquele nome apenas para as quest6es complexas. Nao se trata disso. Por mais que elevemos o grau de complexi- dade, mesmo que alcemos a complexidade de uma questo a um grau infinito, nao isto que ird caracterizé-la como problema. Se eu complico a pergunta feita ao meu suposto leitor e lhe solicito determinar quantos meses, ou mesmo, quantos segundos perfazem a sua exist€ncia, ainda assim ndo estamos diante de algo problematico. A resposta ndo ser simples e imediata mas nem por isso o referido leitor se perturbara, Provavelmente, retrucard com seguranca: " dé-me tempo para fazer os calculos e A FILOSOFIA NA FORMACAO DO EDUCADOR II Ihe apresentarei a resposta"; ou entdo: "uma questéo como essa é totalmente destituida de interesse; ndo vale a pena perder tempo com ela’. Note-se que 0 uso da palavra problema para designar os exercicios escolares (de modo especial os de matemitica) se enquadra nesta primeira acepgao. Sao, com efeito, questdes. E mais, questdes cujas respostas sao de antemao conhecidas. Isto € evidente em relacdo ao professor, mas nao deixa de ocorrer também no que diz respeito ao aluno. Na verdade, o aluno sabe que o professor sabe a resposta; e sabe também que, se ele aplicar os procedimentos transmitidos na seqliéncia das aulas, a resposta serd obtida com certeza. Se algum problema ele tem, nao se trata af do desconhecimento das respostas as quest6es propostas mas, eventualmente, da necessidade de saber quais as possiveis conseqiiéncias que poderd acarretar o fato de nao aplicar os proce- dimentos transmitidos nas aulas. Isto, porém, sera esclarecido mais adiante. O que gostaria de deixar claro no momento € que uma questo, em si, ndo é suficiente para caracterizar 0 significado da palavra problema. Isto porque uma questo pode comportar (e 0 comporta com freqiiéncia, segundo se explicou acima) resposta jA conhecida. E quando a resposta é desconhecida? Estarfamos af diante de um problema? Aqui, porém, nés jd estamos abordando uma segunda forma do uso comum e corrente da palavra. Trata-se do problema como ndo-saber. Deacordo com esta acepgio, problema significa tudo aquilo que se desconhece. Ou, como dizem os dicionarios, "coisa inexplicdvel, incompreensivel" (cf. Caldas Aulete, Diciondrio Contempordneo da Lingua Portuguesa, vol. IV, verbete problema, Ed. Delta). Levada ao extremo, tal interpretacao acaba por identificar o termo problema com mistério, enigma (o que também pode ser comprovado numa consulta aos dicionarios). No entanto, ainda aqui, 0 fato de desconhecermos algo, a circunstancia de nao sabermos a resposta a determinada questo, nao é suficiente para caracterizar o problema. Com efeito, se retomo o dislogo com 0 meu suposto leitor e Ihe pergunto agora: "quais os nomes de cada uma das ilhas que compdem o arquipélago das Filipinas?" (cerca de 7.100 ilhas). Qu: "Quais os nomes de cada uma das Ilhas Virgens (cerca de 53), territorio do Mar das Antilhas incorporado aos EE.UU.?" Com certeza, o referido leitor nao saberd responder a estas perguntas e, mesmo, é possivel que sequer soubesse da existéncia das tai ilhas Virgens. E evidente, contudo, que essa situa¢ao ndo se configura como problemitica. E quando 0 néo- saber é levado a um grau extremo, implicando a impossibilidade absoluta do saber, configura-se, como jé se disse, o mistério. Mistério, porém, ndo é sindnimo de problema. E, ao contrario e freqiientemente, a solugao do problema, e, quiga, de 12_Epucagio: Do Snso Comum A Consciftncia’ FiLosOrica todos os problemas. Dé prova disso a experiéncia religiosa. A atitude de fé implica a aceitagao do mistério, O homem de fé vive da confianga no desconhecido ou, melhor dizendo, no incognoscivel. Este é a fonte da qual brota a solucao para todos 0s problemas. Com isto nao quero dizer que a atitude de fé nao possa revestir-se, em determinadas circunstancias, de certo cardter problematico. Apenas quero frisar que 0 problema nao est na aceitagdo do mistério, na confianga no incognoseivel. Esta é uma necessidade inerente ao ato de fé. O problema da atitude de fé estard no fato de que essa necessidade nao possa ser satisfeita, ou seja, na possibilidade de que a confianga no incognoscivel venha a ser abalada. Em suma, as coisas que nés ignoramos sao muitas e nds sabemos disso. Todavia, este fato, como também a consciéncia deste fato, ou mesmo, a aceitagao da existéncia de fenémenos que ultrapassam irredutivelmente e de modo absoluto a nossa capacidade de conhecimento, nada disso é suficiente para caracterizar 0 significado essencial que a palavra problema encerra. O uso comum do termo, cujo constitutive fundamental estamos buscando, registra outros vocibulos tais como obstéculo, dificuldade, ctivida, etc. Nio é preciso, porém, muita argticia para se perceber a insuficiéncia dos mesmos em face do objetivo de nossa busca. Existem muitos obstdculos que nao constituem problema algum. Quanto ao vocabulo “dificuldade', é interessante notar as seguintes definigoes de problema’, encontradas nos diciondrios: "coisa de difcil explicagio" (cf. Caldas Aulete, citado) e "coisa dificil de explicar’ (cf. Francisco Fernandes, Dic. Bras. Contempordneo, p. 867). Julgamos supérfluo comentar semelhantes definicoes, uma vez que as consideracdes anteriores jé evidenciaram suficientemente que nao é o grau de dificuldade (mesmo que seja elevado ao infinito) que permite considerar algo como problemitico, Por fim, a ddvida tem, a partir de sua etimologia, o significado de uma dupla possibilidade. Implica, pois, a existéncia de duas hipdteses em principio igualmente validas, embora mutuamente excludentes. Ora, em determinadas circunstancias é perfeitamente possivel manter as duas hipéteses sem que isto represente problema algum. O ceticismo é um exemplo tipico. A vida cotidiana assim como a histéria da ciéncia e da filosofia nos oferecem intimeras ilustragdes da "divida nao problematica’, Tomemos apenas um exemplo da experiéncia cotidiana: imagine- mos dois garotos caminhando em diregéo a escola; a cem metros desta, um deles langa ao outro 0 seguinte desafio: " duvido que vocé seja capaz de chegar antes de mim’. Nesta frase, ambas as hipéteses, ou seja, "voce é capaz" e "vocé nao é capaz" s&o igualmente admissiveis, embora mutuamente excludentes. Ao dizer "duvido", o A FiLosoria NA ForMagio bo Epucapor _13 desafiante estava indicando: "nao nego, em prindpio, a sua capacidade; mas, até que vocé me demonstre 0 contrério, no posso tampouco admiti-la". O desafiado poderd aceitar 0 desafio € uma das hipéteses sera comprovada, dissipando-se conseqtien- temente a diivida. Poderd, contudo, nao aceitar e a divida persistiré sem que isto implique problema algum. 1.2. Necessidade de se Recuperar a Problematicidade do "Problema" Notamos, pois, que 0 uso comum e corrente da palavra problema acaba por nos conduzir A seguinte conclusdo, aparentemente incongruente: "o problema nao é problematico". Isto permitiu a Julian Marfas? afirmar: “Os ultimos séculos da histéria européia abusaram levianamente da denominagao “problema'; qualificando assim toda pergunta, o homem moderno, e principalmente apartir do ultimo século, habituou-se a viver tranquilamente entre problemas, distraido do dramatismo de uma situagdo quando esta se torna problemdtica, isto é, quando ndo se pode estar nela € por isso exige uma solugao." Se 0 problema deixou de ser problematico, cumpre, entao, recuperar a problematicidade do problema. Estamos aqui diante de uma situagdo que ilustra com propriedade o processo global no qual se desenrola a existéncia humana. Exarninamos alguns fendmenos, ou seja, algumas formas de manifestagao do problema. No entanto, 0 fendmeno, ao mesmo tempo que revela (manifesta) a esséncia, a esconde. Trata-se daquilo a que Karel Kosik’ denominou "o mundo da pseudo-concreticidade". Importa destruir esta "pseudo-concreticidade' a fim de captar a verdadeira concreti- dade. Esta é a tarefa da ci€ncia e da filosofia. Ora, captar a verdadeira concreticidade ndo € outra coisa senao captar a esséncia, Nao se trata, porém, de algo subsistente em sie por si que esteja oculto por detras da cortina dos fendmenos. A esséncia é um produto do modo pelo qual o homem produz sua prdpria existéncia. Quando © homem considera as manifestagdes de sua prépria éxisténcia como algo desligado dela, ou sefa, como algo independente do proceso que as produziu, ele esta vivendo no mundo da "pseudo-concreticidade". Ele toma como esséncia aquilo que é apenas fendmeno, isto é, aquilo que é apenas manifestagio da esséncia. No caso que estamos 2. MARIAS, J. - Introdugéo 4 Filosofia, p. 22. 3. KOSIK, K. ~ Dialética do Concreto, especialmente pp. 9-20. 14_Enpucacio: Do Senso Comum A ConscifiNciA FILOsOFICA, examinando, ele toma por problema aquilo que é apenas manifestacao do problema. Apés essas consideragées, cabe perguntar agora: qual é, entao, a esséncia do problema? No proceso de producio de sua propria exist&ncia o homem se defronta com situag6es ineludiveis, isto é: enfrenta necessidades de cuja satisfagao depende a continuidade mesma da existéncia (ndo confundir existéncia, aqui empregada, com subsisténcia no estrito sentido econdmico do termo). Ora, este conceito de necessidade é fundamental para se entender o significado essencial da palavra problema. Trata-se, pois, de algo muito simples, embora freqiientemente ignorado. Aesséncia do problema é a necessidade. Com isto € possivel agora destruir a "pseudo- concreticidade" e captar a verdadeira "concreticidade". Com isto, o fendmeno pode revelar a ess€ncia e nao apenas ocultd-la. Com isto nés podemos, enfim, recuperar 0 usos correntes do termo "problema’,, superando as suas insuficiéncias ao referi- os nota essencial que Ihes impregna de problematicidade: a necessidade. Assim, uma questao, em si, nao caracteriza o problema, nem mesmo aquela cuja resposta & desconhecida; mas uma questo cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer, eis af um problema. Algo que eu nao sei nao é problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, entao, diante de um problema. Da mesma forma, um obstaculo que é necessario transpor, uma dificuldade que precisa ser superada, uma divida que nao pode deixar de ser dissipada sio situagées que se nos configuram como verdadeiramente problemiaticas. Aesta altura, é importante evitar uma possfvel confusao. Se consignamos como. nota definitéria fundamental do conceito de problema a necessidade, nao se creia com isso que estamos subjetivizando o significado do problema. Tal confusdo é possivel uma vez que 0 termémetro imediato da nogao de necessidade é a experiéncia indi- vidual, o que pode fazer oscilar enormemente 0 conceito de problema em fungao da diversidade de individuos e da multiplicidade de circunstdncias pelas quais transita diariamente cada individuo. Deve-se notar, contudo, que o problema, assim como qualquer outro aspecto da existéncia humana, apresenta um lado subjetivo e um lado ‘objetivo, intimamente conexionados numa unidade dialética. Com efeito, ohomem. constréi a sua existéncia, mas 0 faz a partir de circunstancias dadas, objetivamente determinadas. Além disso, 6, ele préprio, um ser objetivo sem o que ndo seria real. A verdadeira compreensao do conceito de problema supde, como ja foi dito, a neces- sidade. Esta s6 pode existir se ascender ao plano consciente, ou seja, se for sentida pelo homem como tal (aspecto subjetivo); ha, porém, circunstancias concretas que objetivizam a necessidade sentida, tomando possivel, de um lado, avaliar o seu caréter iis A Fiosoria NA Formacio po Epucapor 15 real ou suposto (ficticio) e, de outro, prover os meios de satisfazé-la. Dirfamos, pois, que 0 conceito de problema implica tanto a conscientizagao de uma situagao de necessidade (aspecto subjetivo) como uma situago conscientizadora da necessidade (aspecto objetivo). Essas observac6es foram necessérias a fim de tornar compreensivel o uso de expressdes como "pseudo-concreticidade'" e, no caso espectfico, "pseudo-problema’. Na verdade, se problema é aquela necessidade que:cada individuo sente, nao teria sentido falar-se em "pseudo-problema’. © problema existiria toda vez que cada individuo ‘osentisse como tal, nao importando as circunstancias de manifestagéo do fendmeno. Sabemos, porém, que uma reflexdo sobre as condigdes objetivas em que os homens produzem a prépria existéncia nos permite detectar a ocorréncia daquilo que est sendo denominado "pseudo-problema’. A estrutura escolar (em geral por reflexo da estrutura social) é fértil em exemplos dessa natureza. Muitas das questdes que integram os curriculos escolares sao destituidas de contetdo problematico, podendo-se aplicar a elas aquilo que dissemos a propésito dos exercicios escolares: "se algum problema o aluno tem, nao se trata af do desconhecimento das respostas as questes propostas mas, eventualmente, da necessidade de saber quais as possiveis conseqiiéncias que lhe poderd acarretar 0 fato de nao aplicar os procedimentos transmitidos nas aulas". Toda uma série de mecanismos artificiais é desencadeada como resposta ao cardter artificioso das questées propostas. O referido carater artificioso configura, eviden- temente, o que denominamos "pseudo-problema'". Um raciocinio extremado tornara 6bvio 0 que acabamos de dizer: suponhamos que as 7.100 ilhas do arquipélago das Filipinas tenham, cada uma, um nome determinado. Suponhamos, ainda, que um pro- fessor de Geografia exija de seus alunos 0 conhecimento de todos esses nomes. Os alunos estardo, entdo, diante de um problema: como conseguir a aprovacao em face dessa exigéncia? Uma vez que eles nao necessitam saber os nomes das ilhas (isso nao 6 problema), mas precisam ser aprovados, partirdo em busca dos artificios ("pseudo- solugées') que hes garantam a aprovacio. Est abertd o caminho para a fraude, para aimpostura. Com este fendmeno estao relacionadas os ditos ja generalizados, como: “os alunos aprendem apesar dos professores'", ou 'a tinica vez que a minha educagio {oi interrompida foi quando estive na escola’ (Bernard Shaw).* 4, Cf, POSTMAN, N. & WEINGARTNER, C. — Contestagdo: Nova Férmula de Ensino, p. 77. Recomendamos a leitura de todo o cap. IV ~ Em busca da relevancia, pp. 65-87, onde sao encontrados diversos exemplos de "pseudo-problemas’ 16_Enucagio: Do Sinso Comum A ConscIENCIA FILOSOFICA O "pseudo-problema’, como ji se disse, é possivel em virtude de que os fendmenos nao apenas revelam a esséncia, mas também a ocultam. A consciéncia dessa possibilidade torna imprescindivel um exame detido das condigdes objetivas } em que se desenvolve a nossa atividade educativa. j Em surma: problema, apesar do desgaste determinado pelo uso excessivo do termo, possui um sentido profundamente vital e alta mente dramitico para.a existénca humana, pois indica uma situacdo de impasse. Trata-se de uma necessidade que se impde cobjetivamente e é assumida subjetivamente. O afrontamento, pelo homem, dos problemas quea realidade apresenta, eis af, o que é filosofia. Isto significa, entdo, que a flosofia néo se caracteriza por um contetido espectiico, mas ela é, fundamentalmente, uma atitude; umaatitude que o homem toma perante a realidade. Ao desafio da realidade, representado pelo problema, o homem responde com a reflexao 2. Nogdo DE REFLEXAO E que significa reflexo? A palavra nos vem do verbo latino "reflectere! que significa “voltar atrés'. E, pois, um re-pensar, ou seja, um pensamento em segundo grau. Poderiamos, pois, dizer: se toda reflexio é pensamento, nem todo pensamento é reflexao. Esta 6 um pensamento consciente de si mesmo, capaz de se avaliar, de verificar © grau de adequacao que mantém com os dados objetivos, de medir-se com o real. Pode aplicar-se as impressdes e opinides, aos conhecimentos cientificos e técnicos, interrogando-se sobre o seu significado. Refletir é 0 ato de retomar, reconsiderar os dados disponiveis, revisar, vasculhar numa busca constante de significado. E examinar detidamente, prestar atencio, analisar com cuidado. E é isto 0 filosofar. Até aqui aatitude filoséfica parece bastante simples, pois uma vez que ela é uma reflexao sobre os problemas e uma vez que todos e cada homem tém problemas inevitavelmente, segue-se que cada homem é naturalmente levado a refletir, portanto, a flosofar. Aqui, porém, a coisa comeca a se complicar. 3. As EXxIGENCIAS DA REFLEXAO FILOSOFICA Com efeito, se a filosofia é realmente uma reflexdo sobre os problemas que a realidade apresenta, entretanto ela nao é qualquer tipo de reflexao. Para que uma reflexao possa ser adjetivada de filosofica, é preciso que se satisfaca uma série de exigéncias que vou resumir em apenas trés requisitos: a radicalidade, o rigore a eeeeer— eeess—<(isiCrS A Firosoria NA Formacio po Epucapor 17 globalidade. Quero dizer, em suma, que reflexdo filosdfica, para ser tal, deve ser radical, rigorosa e de conjunto. Radical: Em primeiro lugar, exige-se que 0 problema seja colocado em termos radicais, entendida a palavra radical no seu sentido mais prdprio e imediato. Quer dizer, é preciso que se va até as rafzes da questo, até seus fundamentos. Em outras palavras, exige-se que se opere uma reflexdo em profundidade. Rigorosa: Em segundo lugar e como que para garantir a primeira exigéncia, deve-se proceder com rigor, ou seja, sistematicamente, segundo métodos determinados, colocando-se em questdo as conclusées da sabedoria popular e as generalizacoes apressadas que a ciéncia pode ensejar. De conjunto: Em terceiro lugar, o problema no pode ser examinado de modo parcial, mas numa perspectiva de conjunto, relacionando-se 0 aspecto em questo com os demais aspectos do contexto em que estd inserido. E neste ponto que a filosofia se distingue da ciéncia de um modo mais marcante. Com efeito, ao contrario da déncia, a flosofia nao tem objeto determinado; ela dirige-se a qualquer aspecto da realidade, desde que seja problemitico; seu campo de acéo € 0 problema, esteja onde estiver. Melhor dizendo, seu campo de agao é 0 problema enquanto nao se sabe ainda onde ele est4; por isso se diz que a filosofia é busca. E é nesse sentido também que se pode dizer que a flosofia abre caminho para a ciéndia; através da reflexao, ela localiza © problema tornando possivel a sua delimitagio na area de tal ou qual ciéncia que pode ento analisé-lo e, quigé, soluciond-lo, Além disso, enquanto a ciéncia isola o seu aspecto do contexto € o analisa separadamente, a flosofia, embora dirigindo-se as vezes apenas a uma parcela da realidade, insere-a no contexto e a examina em fungio do conjunto. A exposicao sumiria e isolada de cada um dos ftens acima descritos nao nos deve iludir. Nao se trata de categorias auto-suficientes que se justap6em numa somatéria suscetivel de caracterizar, pelo efeito magico de sua jungio, a reflexio filosdfica. A profundidade (radicalidade) é essencial a atitude filosdfica do mesmo modo que a visdo de conjunto. Ambas se relacionam dialeticamente por virtude da intima conexao que mantém com o mesmo movimento metodolégico, cujo rigor (ctiticidade) garante 20 mesmo tempo a radicalidade, a universalidade e a unidade da 18_Epucagho: Do Sinso ComuMA CONSCIENCIA FILOSOFICA reflexio floséfica.® Deste modo, a concepgao amplamente difundida segundo a qual © aprofundamento determina um afastamento da perspectiva de conjunto, e, vice- versa: a ampliagio do campo de abrangéncia acarreta uma inevitivel superficalizagio, & uma ilusdo de éptica decorrente do pensar formal, o nosso modo comum de pensar que herdamos da tradi¢do ocidental. A inconsisténcia dessa concepgio vem sendo fartamente ilustrada pelos avangos da ciéncia contemporanea, cuja penetragio no 4mago do processo objetivo faz estourar os quadros do pensamento tradicional. Eaisto que se convencionou chamar a crise das ciéncias (em especial da Fisica e da Matematica).* Nao se trata, porém, de uma crise das ciéncias (em nenhuma época da Historia experimentaram progresso to intenso), mas de uma crise da Légica Formal. Com efeito, o aprofundamento na compreensio dos fendmenos se liga a uma concepgio geral da realidade, exigindo uma reinterpretacao global do modo de pensar essa realidade. Entdo, a logica formal, em que os termos contraditérios mutuamente se excluem (prindpio de ndo-contradigao), inevitavelmente entra em crise, postulando a sua substituigio pela l6gica dialética, em que os termos contraditérios mutuamente se incluem (principio de contradi¢ao, ou lei da unidade dos contrérios). Por isso, a légica formal acaba por enredar a atitude filoséfica numa gama de contradig6es frequentemente dissimuladas através de uma postura idealista, seja ela critica (que se reconhece como tal) ou ingénua (que se autodenomina realista). A visdo dialética, a0 contrério, nos arma de um instrumento, ou seja, de um método rigoroso (critico) capaz de nos propiciar a compreensio adequada da radicalidade e da globalidade na unidade da reflexdo floséfica. Afirmamos antes que o problema apresenta um lado objetivo e um lado subjetivo, caracterizando-se este pela tomada de consciéncia da necessidade. As considerac6es supra deixaram claro que a reflexao é provocada pelo problema e, ao mesmo tempo, dialeticamente, constitui-se numa resposta ao problema. Ora, assim sendo, a reflexdo se caracteriza por um aprofundamento da consciéncia da situagéo problemitica, acarretando (em especial no caso da reflexao filos6fica, por virtude das exig&ncias que lhe so inerentes) um salto qualitativo que leva a superagio 5. Mesmo pensadores no afeicoados ao modo de pensar dialético admitem implicita ou explicitamente 0 que acabamos de dizer. Cf, por ex., COTTIER, in Revista Nova et Veteras, “deux traits sont caractéristiques du philosophe: l'universalité de son champ de vision et la recherche de raisons profondes” 6. Cf. a respeito, PINTO, A. V - Ciéncia e Existéncia, especialmente o cap. IX. oe hhh — A FiosoriA NA ForMAgAO po Epucapor_19 do problema no seu nivel origindrio. Esta dialética reflexo-problema é necessario ser compreendida para que se evite privilegiar, indevidamente, seja a reflexdo (o que levaria a um subjetivismo, acreditando-se que o homem tenha um poder quase absoluto sobre os problemas, podendo manipuléd-los a seu bel-prazer), seja o problema (o que implicaria reific’-lo desligando-o de sua estrita vinculagao com a existéncia humana, sem a qual a esséncia do problema nao pode ser apreendida, como jé foi explicado). Por fim, & necessdria uma observagio sobre a expresso bastante difundida, "problema filos6fico". Cabe perguntar: "existem problemas que nao sao filo- séficos?" Na verdade, um problema, em si, nao é filoséfico, nem cientifico, artistico ou religioso. A atitude que o homem toma perante os problemas é que € filoséfica, cientifica, artistica ou religiosa ou de mero bom-senso. A expressdo que estamos analisando é resultante, pois, do uso corrente da palavra problema (j4 abordado) que a dé como sindnimo de questao, tema, assunto. Aqueles assuntos, que so objeto de estudo dos cientistas, por exemplo, so deno- minados "problemas cientificos". Dai as derivacées "problemas sociolégicos", "problemas psicolégicos", "problemas quimicos", etc. Mas como aceitar essa interpretago no caso da filosofia que, como foi dito antes, nao tem objeto determinado? Como aceité-la, se qualquer assunto pode ser objeto de reflexio filoséfica? © uso comum e corrente tem se pautado, entdo, pelo seguinte paralelismo: assim como "problemas cientificos" sio aquelas questées de que se ocupam os cientistas, "problemas filosdficos" nao sao outra coisa sendo aquelas questdes de que se tém ocupado os fildsofos. Nao se deve esquecer, porém, que nao é porque os fildsofos se ocuparam com tais assuntos que eles so problemas; mas, ao contrario: 6 porque eles so (ou foram) problemas que os fildsofos se ocuparam e se preocuparam com eles. Resta, entdo, a seguinte alternativa: a expresso "problemas filos6ficos’ é uma manifestagio corrente da linguagem e, como fendmeno, ao mesmo tempo revela € oculta a esséncia do filosofar. Oculta, na medida em que compartimentalizando também a atitude filoséfica (bem a gosto do modo formalista de pensar) a reduz a uns tantos assuntos j4 de antemao catalogaveis, empobrecendo um trabalho que deveria ser essencialmente criador. Revela, enquanto pode chamar a aten¢3o para alguns problemas que se revestem de tamanha magnitude, em face das condicdes concretas em que o homem produz a sua existéncia, que exigem, em carater prioritario, uma reflexdo radical, rigorosa e de conjunto. Tratar-se-ia, por 20_Epucagio: Do Senso Comum A ConsciéNcia FILOsGrica conseguinte, de problemas que poem em tela, de imediato e de modo inconteste, a necessidade da filosofia. Estaria justificado, nessas circunstancias, o uso da expresso "problema filoséfico". 4. NocAo pb FILosoria Esclarecido o significado essencial de problema; explicitados a nogao de reflexdo € 05 requisitos fundamentais para que ela seja adjetivada de filoséfica, podemos, finalmente, conceituar a flosofia como uma REFLEXAO (RADICAL, RIGOROSA E DE CONJUNTO) SOBRE OS PROBLEMAS QUE A REALIDADE APRESENTA. A partir dat, é facil concluir a respeito do significado da expressio "Filosofia da Educagio' Esta néo seria outra coisa sendo uma REFLEXAO (RADICAL, RIGOROSA E DE CONJUNTO) SOBRE OS PROBLEMAS QUE A REALIDADE EDUCA- CIONALAPRESENTA. 5. Noc&o pr "Fitosoria DE VIDA" Mas serd que isso nos diz alguma coisa? Quando ouvimos falar em filosofia da educagao nao me parece que ocorra em nosso espirito a idéia acima. Com efeito, cuvimos falar em Filosofia da Educagio da Escola Nova, Filosofia da Educacao da Escola Tradicional, Filosofia da Educagao do Governo de Sao Paulo, Filosofia da Educacao da Igreja Catdlica, etc.; e sabemos que nao se trata af da reflexao da Igreja Catélica, dos educadores da Escola Nova ou do Governo de Sao Paulo sobre os problemas educacionais; a palavra filosofia refere-se af orientacdo, aos principios e normas que regem aquelas entidades. Tal orientacdo pode ou nao ser conseqiiéncia da reflexio. Com efeito, a nossa acdo segue sempre certa orientacao; a todos momentos estamos fazendo escolhas, mas isso nao significa que estamos sempre refletindo; a agdo nao pressupde necessariamente a reflexdo; podemos agir sem refletir (embora nao nos seja possivel agir sem pensar). Neste caso, nés decidimos, fazemos escolhas espontaneamente, seguindo os padrées, a orientagao que 0 proprio meio nos impée. E assim que nds escolhemos nossos clubes preferidos, nossas amizades; € assim que os pais escolhem o tipo de escola para os seus filhos, colocando-os em colégio de padres (ou freiras) ou em colégio do Estado; é assim também que certos professores elaboram o programa de suas cadeiras (vendo o que os outros costumam transmitir, transcrevendo os itens do indice de certos livros RMACAO DO EpUucAL didéticos, etc.); e & assim, ainda, que se fundam certas escolas ou que o Governo toma certas medidas. Nessas situaces nds no temos consciéncia clara, explicita do porqué fazemos assim e nao de outro modo. Tudo ocorre normalmente, naturalmente, espontaneamente, sem problemas. Proponho que se chame a esse tipo de orientagao "filosofia de vida".’ Todos e cada um de nés temos a nossa “filosofia de vida". Esta se constitui a partir da familia, do ambiente em que somos criados. 6. NogAo DE "IDEOLOGIA" Mas, como jé dissemos, quando surge o problema, ou seja, quando no sei que rumo tomar e preciso saber, quando nao sei escolher e preciso saber, af surge a exig€ncia do filosofar, af eu comeco a refletir, Essa reflexao ¢ aberta; pois se eu preciso saber e ndo sei, isto significa que eu nao tenho a resposta; busco uma resposta e, em principio, ela pode ser encontrada em qualquer ponto (daf, a necessidade de uma reflexdo de conjunto). A medida, porém, que a reflexio prossegue, as coisas comegam a ficar mais claras e a resposta vai se delineando Estrutura-se entéo uma orientacao, princlpios sao estabelecidos, objetivos sao definidos e a agdo toma rumos novos tornando-se compreensivel, fundamentada, mais coerente, Note-se que também aqui se trata de principios e normas que orientam a nossa acao. Mas aqui nds temos consciéncia clara, explicita do porqué fazemos assim e ndo de outro modo. Contrapondo-se a “filosofia de vida’, proponho que se chame a esse segundo tipo de orientagio, "ideologia’.* Observe- se, ainda, que a opcio ideolégica pode também se opor & “filosofia de vida’ (pense- se no burgués que se decida por uma ideologia revolucionaria): neste caso, 0 7. Esta nogio de “flosofia de vida" corresponde, na terminologia gramsciana, a0 conceito de "senso comum’, Cf, GRAMSCI, A. Quaderni del Carcere, especialmente 0 caderno 10. (Na tradugéo brasileira, ver, Concepcdo Dialética da Histéria, em especial a Parte I.) 8. Para uma discussdo dos diversos sentidos da palavra "ideologia’, ver, FURTER, R - Educacdo e Reflexdo, Cap. 4; GABEL, |, ~ Idéologies; DUMONT, F. Les Idéologies; € a coletnea de Lenk, K. — El Concepto de Ideologia que traz, inclusive, uma abordagem histérica do problema. Sobre o trabalho de P Furter, cit, observe-se que ele vale mais pelas indicagdes bibliograficas que contém do que pelas interpretagdes do autor, Para uma discussdo sobre as relagdes entre ideologia e falsa consciéncia, ver, GABEL, J. — La Fausse Conscience e SCHAFF. A. ~ Histéria e Verdade, pp. 155-171, Por fim, cabe lembrar que a nogéo adotada neste texto, ainda que sem pretensdes de alcar-se a0 plano de uma teoria da ideologia, obtém forte apoio em GRAMSCI A. ~ Concepao Dialética da Histéria. (Ver principalmente, pp. 61-63 € 114-119.) 22_Enucagio: Do Senso Comum A ConsciinciA FirosOrica conflto pode acarretar certas incoeréncias na agio, determinadas pela superposigio. orade uma, ora de outra. Aqui se faz mais necessdria ainda a vigilancia da reflexdo. 7. Esuematizacao pa DIAL "ACAO-PROBLEMA-RE Podemos, pois, para facilitar a compreensio, formular 0 seguinte diagrama: |., Acdo (fundada na filosofia de vida) suscita 2. Problema (exige reflexao: a filosofia) que leva a 3. Ideologia (conseqiiéncia da reflexdio) que acarreta 4. Acio (fundada na ideologia). Nao se trata, porém, de uma seqtiénda légica ou cronoligica; é uma seqtiéncia dialética, Portanto, no se age primeiro, depois se reflete, depois se organizaa agio e por fim age- se novamente. Trata-se de um processo em que esses Momentos se interpenetram, desenrolando o fio da exist@ncia humana na sua totalidade. E como nao existe reflexio total, a aco trard sempre novos problemas que estardo sempre exigindo a reflexao; por isso, a flosofia é sempre necesséria € a ideologia sera sempre parcial, fragmentéria e superavel.” Assim, poderfamos continuar o diagrama anterior, da seguinte forma: 4, Ago (fundada na ideologia) suscita 5. Novos Problemas (exigem reflexo: a filosofia) que levam a 6, Reformulacio da ideologia (organizacao da a¢do) que acarreta 7. Reformulacao da aco (fundada na ideologia reformulada). 8. NocAo pk Fitosoria pa Epucagio Portanto, o que conhecemos normalmente pelo nome de flosofia da educagao néo 0 é propriamente, mas identifica-se (de acordo com a terminologia proposta) ora 9. Esta maneira de colocar as relacdes entre flosofia e ideologia nos permite ao mesmo tempo assinalar a oportunidade da distingdo entre saber e ideologia e evitar sua possivel limitagio. Tal limitagdo consiste em que o saber é geralmente posto como 0 outro que exclui (porque, a0 revelar suas origens, a dissipa) a ideologia. Com isto, acaba-se por defender o cardter desinteressado do saber. Cabe, pois, lembrar que 0 saber & sempre interessado, vale dizer, 0 saber supde sempre a ideologia da mesma forma que esta supde sempre o saber. Com efeito, a ideologia s6 pode ser identificada como tal, ao nivel do saber. A ideologia que nao supde o saber, supde-se saber, Ver, por exemplo, ALTHUSSER, L. ~ Ideologia e Aparelhos Ideolégicos de Estado € a apresentacio de CHAUI, Marilena ~ ideologia e Mobilizagdo Popular. A Fitosoria NA Formagho po Epucapor 23 coma ‘flosofia de vida’, ora com a “ideologia"’. Acreditamos, porém, que a filosofia da educagio sé sera mesmo indispensdvel & formagio do educador, se ela for encarada, tal ‘como estamos propondo, como uma REFLEXAO (RADICAL, RIGOROSA E DE CONJUNTO) SOBRE OS PROBLEMAS QUE A REALIDADE EDUCACIONAL APRESENTA. Podemos, enfim, responder & pergunta colocada no inicio: que é que leva o educador aflosofar? O que leva 0 educador a filosofar sio os problemas (entendido esse termo com o significado que Ihe foi consignado) que ele encontra ao realizar a tarefa educativa. Ecomoa educagio visa o homem, conveniente comecar por uma reflexdo sobre a redidade humana, procurando descobrir quais os aspectos que ele comporta, quais as suas exigéndias referindo-as sempre a situagio existencial concreta do homem brasileiro, pois é af (ou pelo menos a partir daf) que se desenvolverd 0 nosso trabalho. Assim, a tarefa da Filosofia da Educagao sera oferecer aos educadores um método de reflexio ‘que lhes permita encarar os problemas educacionais, penetrando na sua complexidade eencaminhando a solugao de quest6es tais como: o conflito entre ‘filosofia de vida" "ideologia’ na atividacle do educador; a necessidade da op¢io ideolbgica e suas implicagies: o cardter parcial, fragmentério e superével das ideologias e o conflito entre diferentes ideologias; a possiblidade, legitimidade, valor e limites da educagio; a relagio entre meios efins na educacio (como usar meios velhos em fungio de objetivos novos?); a relagio entre teoria e pritica (como a teoria pode dinamizar ou cristalzar a pratica educaconal?); 6 possivel redefinir objetivos para a educacio brasileira? Quais os condicionamentos da atividade educacional? Em que medida é possivel superd-los e em que medida é preciso contar com eles? O elenco de quest6es acima mencionado é apenas um exemplo do carater problemstico da atividade educacional, o que explica a importéncia e a necessidadle da reflexao filosdfica para 0 educador. Além desses, citados ao acaso, muitos outros problemas 0 educador terd que enfrentar. Alguns deles sio previsiveis; outros serio decorrénda do proprio desenvolvimento da agio. E se 0 educador nao tiver desenvolvido uma capacidade de refletir profundamente, rigorosamente e globalmente, suas possbil- dades de éxito estarao bastante diminuidas. 9. CONcLUSAO Assim encarada, aflosofia da educagio nao ter’ como fungio fara prior’ prindpios € objetivos para a educagio; também nao se reduziré a uma teoria geral da educagao 24_Epucacio: Do Srnso Comum A ConscifiNCIA FILOSOFICA. enquanto sistematizagio dos seus resultados. Sua fungao serd acompanhar reflexiva e criticamente a atividade educacional de modo a explicitar os seus fundamentos, esclarecer a tarefa e a contribuigo das diversas disciplinas pedagdgicas e avaliar o significado das solugdes escolhidas. Com isso, a agao pedagégica resultara mais coerente, mais Iticida, mais justa;'° mais humana, enfim. 10. Cf. FURTER, P - Educagéo Reflexdo, pp. 6-27.