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A escolha de Serra

Demétrio Magnoli

O Estado de São Paulo (08/07/10)

José Serra quase desistiu de disputar a eleição presidencial


no fim de janeiro. Haveria motivos para a desistência. O
País cresce à taxa de 6% e o consumo explode, sob o
influxo do real valorizado e do ingresso de capitais de curto
prazo, num cenário de déficit na conta corrente que será
sustentado durante o ciclo eleitoral. Dilma Rousseff é a
candidata de Lula, do núcleo do setor financeiro, dos
maiores grupos empresariais e da elite de neopelegos
sindicais. A decisão de seguir em frente revela a coragem
política do governador paulista. Contudo,
contraditoriamente, sua estratégia de campanha reflete a
sagacidade convencional dos marqueteiros, não o
compromisso ousado de um estadista que rema contra a
maré em circunstâncias excepcionais.

Marqueteiros leem pesquisas como seminaristas leem a


Bíblia. Do alto de seu literalismo fetichista, disseram a
Serra que confrontar Lula equivale a derrota certa. Então, o
governador resolveu comparar sua biografia à da candidata
palaciana. Mas Dilma não existe, exceto como metáfora, o
que anula a estratégia serrista. "Vai ficar um vazio nessa
cédula e, para que esse vazio seja preenchido, eu mudei de
nome e vou colocar Dilma lá na cédula", explicou Lula, cuja
estratégia não é definida por marqueteiros. O pseudônimo
circunstancial de Lula representa uma política, que é o
lulismo. A candidatura de Serra só tem sentido se ele
diverge dessa política.
O lulismo não é a política macroeconômica do governo,
tomada de empréstimo de FHC, mas uma concepção sobre
o Estado. A sua vinheta de propaganda, divulgada com
dinheiro público pelo marketing oficial, diz que o Brasil é
"um país de todos". Eis a mentira a ser exposta. O Estado
lulista é um conglomerado de interesses privados. Nele se
acomodam a elite patrimonialista tradicional, a nova elite
política petista, grandes empresas associadas aos fundos
de pensão, centrais sindicais chapa-branca e movimentos
sociais financiados pelo governo.

O Brasil não é "de todos", mas de alguns: as máfias que


colonizam o aparelho de Estado por meio de indicações
políticas para mais de 600 mil cargos de confiança em
todos os níveis de governo. Num "país de todos", a
administração pública é conduzida por uma burocracia
profissional. O Brasil do lulismo, no qual José Sarney
adquiriu o estatuto de "homem incomum", não fará uma
reforma do Estado. Estaria Serra disposto a erguer essa
bandeira, afrontando o patrimonialismo entranhado em sua
própria base política?

O Brasil não é "de todos", mas de alguns: Eike Batista, o


sócio do BNDES, "o melhor banco de fomento do mundo",
nas suas palavras, do qual recebeu um presente de R$ 70
milhões numa operação escabrosa no mercado acionário.
Também é o país dos controladores da Oi, que erguem um
semimonopólio a partir de privilégios concedidos pelo
governo, inclusive uma providencial alteração
anticompetitiva na Lei Geral de Telecomunicações, e se
preparam para formar uma parceria com a Telebrás no
sistema de banda larga. O lulismo orienta-se na direção de
um capitalismo de Estado no qual o BNDES, as estatais e os
fundos de pensão transferem recursos públicos para
empresários que orbitam ao redor do poder. Teria Serra a
coragem de criticar o modelo em gestação, inscrevendo na
sua plataforma a separação entre o interesse público e os
interesses privados?

O Brasil não é "de todos", mas de alguns: a nova


burocracia sindical, cuja influência não depende do apoio
dos trabalhadores, mas do imposto compulsório de origem
varguista, repaginado pelo lulismo. Ousaria Serra defender
a adoção da Convenção 87 da Organização Internacional do
Trabalho (OIT), declarando guerra ao neopeleguismo e
retomando a palavra de ordem da liberdade sindical que
um dia pertenceu ao PT e à CUT?

Num "país de todos", o sigilo bancário e o fiscal só podem


ser quebrados por decisão judicial. No Brasil do lulismo,
como atestam os casos de Francenildo Costa e Eduardo
Jorge Caldas, eles valem menos que as conveniências de
um poder inclinado a operar pela chantagem.

Num "país de todos", a cidadania é um contrato apoiado no


princípio da igualdade perante a lei. No Brasil do lulismo, os
indivíduos ganham rótulos raciais oficiais, que regulam o
exercício de direitos e traçam fronteiras sociais
intransponíveis. Num "país de todos", a política externa
subordina-se a valores consagrados na Constituição, como
a promoção dos direitos humanos. No Brasil do lulismo, a
palavra constitucional verga-se diante de ideologias
propensas à celebração de ditaduras enroladas nos trapos
de um visceral antiamericanismo.

Estaria Serra disposto a falar de democracia, liberdade e


igualdade, distinguindo-se do lulismo no campo estratégico
dos valores fundamentais?
O lulismo é uma doutrina conservadora que veste uma
fantasia de esquerda. Sob Lula, expandiram-se como nunca
os programas de transferência direta de renda, que
produzem evidentes dividendos eleitorais, mas pouco se fez
nas esferas da educação, da saúde e da segurança pública.
No país de alguns, os pobres não têm direito a escolas
públicas e hospitais de qualidade ou à proteção do Estado
diante do crime organizado. Teria Serra o desassombro de
deixar ao relento os Eikes Batistas do mundo,
comprometendo-se com um ambicioso plano de metas
destinado a universalizar os direitos sociais?

Há um subtexto na decisão de Serra de comparar


biografias. Ele está dizendo que existe um consenso político
básico, cabendo aos eleitores a tarefa de definir o nome do
gerente desse consenso nacional. É uma falsa mensagem,
que Lula se encarrega de desmascarar todos os dias. Os
brasileiros votarão num plebiscito sobre o lulismo. Se Serra
não entender isso, perderá as eleições e deixará a cena
como um político comum, impróprio para circunstâncias
excepcionais. Mas ele ainda tem a oportunidade de escolher
o caminho do estadista e perder as eleições falando de
política. Nesse caso – e só nesse! – pode até mesmo
triunfar nas urnas.

Sociólogo e doutor em geografia humana pela USP. E-mail:


demetrio.magnoli@terra.com.br