Você está na página 1de 129

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE SETE LAGOAS – UNIFEMM Unidade Acadêmica de Ensino de Ciências Gerenciais - UEGE

KARL RUMMENIGGE OLIVEIRA BARBOSA

ANÁLISE DE CUSTO E DESENVOLVIMENTO DE PROJETO DE FUNDAÇÃO DE UM EDIFÍCIO RESIDENCIAL E COMERCIAL

SETE LAGOAS

2016

KARL RUMMENIGGE OLIVEIRA BARBOSA

ANÁLISE DE CUSTO E DESENVOLVIMENTO DE PROJETO DE FUNDAÇÃO DE UM EDIFÍCIO RESIDENCIAL E COMERCIAL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Engenharia Civil, da Unidade Acadêmica de Ensino de Ciências Gerenciais, do Centro Universitário de Sete Lagoas – UNIFEMM, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Engenharia Civil.

Área de Concentração: Fundação

Orientador: Prof. Bárbara Héllen Rodrigues

SETE LAGOAS

2016

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE SETE LAGOAS - UNIFEMM Unidade Acadêmica de Ensino de Ciências Gerenciais Curso de Engenharia Civil

KARL RUMMENIGGE OLIVEIRA BARBOSA

ANÁLISE DE CUSTO E DESENVOLVIMENTO DE PROJETO DE FUNDAÇÃO DE UM EDIFÍCIO RESIDENCIAL E COMERCIAL

Sete Lagoas,

de

Aprovado como a nota

BANCA EXAMINADORA:

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Engenharia Civil, da Unidade Acadêmica de Ensino de Ciências Gerenciais-UEGE, do Centro Universitário de Sete Lagoas – UNIFEMM, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Engenharia Civil.

de 2016.

ORIENTADOR: Prof. Bárbara Héllen Rodrigues

AVALIADOR: Prof.

AVALIADOR: Prof.

RESUMO

Apresenta-se um estudo de caso de viabilidade técnica e econômica de dois tipos de fundações de um edifício modelo: estaca e tubulão. Neste estudo, busca-se verificar as fundações existentes no mercado atual bem como suas vantagens e restrições, retirar as informações do solo necessárias em um projeto de fundações através dos Relatórios de Sondagens, realizados através de um dos ensaios de campo mais utilizado no Brasil, o SPT. A metodologia proposta demonstra métodos adequados para o dimensionamento de cada uma das fundações, através de processos de estudo do solo, incluindo sua classificação e a verificação dos perfis estratigráficos a partir dos relatórios de sondagens, resultando nos quantitativos para as análises. Aplicam-se as fundações escolhidas para um edifício residencial e comercial com duas situações para melhor comparação dos resultados: primeira, situação comparativa através de planilhas de orçamento existentes; e segundo, custo real de execução do processo de fundação da edificação em questão. Conclui-se qual o método técnico e economicamente viável para o edifício, fazendo-se uma análise das soluções apresentadas e sugestões de ideias para obtenção de resultados melhores.

Palavras-chave: Fundações, Estaca, Tubulão.

ABSTRACT

Presents a case study of technical and economic feasibility of two types of foundations of a building model: stake and drum. In this study, we seek to verify the existing foundations in current market as well as its advantages and restrictions, remove the information from the soil required in a project of foundations through the reports of surveys, conducted by one of the field trials more widely used in Brazil, the SPT. The proposed methodology demonstrates appropriate methods for scaling of each of the foundations, through processes of study of soil, including its classification and verification of the stratigraphic profiles from the reports of surveys, resulting in quantitative limits for the analyzes. Apply the foundations selected for a residential building and commercial with two situations for better comparison of results: first, comparative situation through spreadsheets of existing budget; and second, actual cost of implementing the process of foundation of the building in question. It is concluded that the method technical and economically viable for the building, making an analysis of the solutions presented and suggestions of ideas for obtaining better results.

Keywords: Foundations, stake, Caisson.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1.

Localização do Terreno

 

18

Figura 2.

Intervalos de valores dos tamanhos de

partículas

20

Figura 3.

Perfil longitudinal do subsolo segundo alinhamento das sondagens

22

Figura 4.

Fundação superficial e profunda

 

23

Figura 5.

Principais tipos de fundação profunda

24

Figura 6.

Alguns Tipos de fundações

mistas

24

Figura 7.

Nível do lençol freático

28

Figura 8.

Equipamento de Sondagem

29

Figura 9.

Amostradores para solos

30

Figura 10. Esquema de funcionamento de sonda rotativa

33

Figura 11. Ensaio CPT e equipamento desenvolvido pela COPPE-UFRJ

34

Figura 12. Resultado de um ensaio CTP realizado com piezocone

35

Figura 13. Ensaio PMT

36

Figura 14. Resultado de ensaio pressiômetrico

37

Figura 15. Relação entre N e a densidade relativa e o ângulo de atrito efetivo de areias

38

Figura 16. Relação entre N e a resistência não drenada de argilas

39

Figura 17. Fundação profunda

40

Figura 18. Estacas de madeira sem(a) e com reforço de ponta(b)

42

Figura 19. Estacas metálicas ou de aço

44

Figura 20. Estacas pré-moldadas de concreto

44

Figura 21. Execução de estaca tipo Broca

46

Figura 22. Execução de estaca tipo Strauss

47

Figura 23. Execução de estaca tipo Franki

49

Figura 24. Execução de estaca escavada

50

Figura 25. Execução de estaca raiz

51

Figura 26. Execução de uma microestaca

52

Figura 27. Execução de estaca hélice contínua

53

Figura 28. Execução de uma estaca prensada

54

Figura 29. Tipo de tubulões quanto ao revestimento

55

Figura 30. Execução de tubulão a céu aberto

56

Figura 31. Execução de tubulão a ar comprimido

57

Figura 32. Ruptura de diversas soluções teóricas

63

Figura 33. Modelo de ruptura de Terzaghi

64

Figura 34. Fatores de carga em função de ângulo de atrito interno f

65

Figura 35. Determinação da resistência de ponta

68

Figura 36. Área da ponta da estaca

69

Figura 37. Área da Base circular e falsa elipse nos tubulões

75

Figura 38. Base Circular e Falsa Elipse do Tubulão

76

Figura 39. Dimensões da base do tubulão

78

Figura 40. Cálculo do volume do tubulão com base circular e falsa elipse

79

Figura 41. Tensões em bloco para uma estaca

81

Figura 42. Bloco para duas estacas

82

Figura 43. Forças de tração e compressão do bloco

83

Figura 44. Área de compressão da biela

84

Figura 45. Armação Bloco para três estacas

85

Figura 46. Armação para cento de gravidade

85

Figura 47. Armação paralela aos lados

85

Figura 48. Armação Bloco para quatro estacas

86

Figura 49. Execução do bloco sobre estacas

87

Figura 50. Comparativo entre o Método de Décourt-Quaresma e Aoki-Velloso

92

Figura 51. Situação em corte de locação da armação 2 estacas

99

Figura 52. Situação em planta de locação da armação 3 estacas

100

Figura 53. Situação em planta de locação da armação 4 estacas

101

LISTA DE TABELAS

Tabela 1.

Classificação do solo em relação a compacidade/consistência

37

Tabela 2.

Tipos de

estacas 41

Tabela 3.

Cargas usuais de trabalho para estacas pré-moldadas de concreto

45

Tabela 4.

Cargas usuais e máximas para estacas tipo brocas

46

Tabela 5.

Cargas usuais e máximas para estacas tipo Strauss

48

Tabela 6.

Cargas usuais e máximas para estacas tipo

Franki 49

Tabela 7.

Cargas nominais para estacas do tipo hélice contínua

53

Tabela 8.

Valores limites de N SPT para a parada de

estacas

59

Tabela 9.

Fatores de Capacidade de Carga

64

Tabela 10. Fatores de forma

65

Tabela 11. Valores de k e a – método Aoki e Velloso

67

Tabela 12. Valores de F1 e F2 – método Aoki e Velloso

67

Tabela 13. Valores dos coeficientes a,β

69

Tabela 14. Valores de C

70

Tabela 15. Valores de F1 e F2 – método Décourt e Quaresma

71

Tabela 16. Valores de k e a– método Décourt e Quaresma

71

Tabela 17. Diâmetro da estaca conforme capacidade de carga

72

Tabela 18. Estacas moldadas in loco: parâmetros de dimensionamento

74

Tabela 19. Tensão admissível para solos coesivos

80

Tabela 20. Resultados dos 3 furos dos relatórios de sondagens

90

Tabela 21. Tensão admissível para solos coesivos

93

Tabela 22. Carga Máxima dos Pilares

94

Tabela 23. Dimensionamento das estacas

96

Tabela 24. Dimensionamento das estacas e dos blocos de coroamento

98

Tabela 25. Armação Blocos 2 estacas

99

Tabela 26. Armação Blocos 3 estacas

100

Tabela 27. Massa nominal das bitolas

101

Tabela 28. Quantitativo de concreto e aço CA 50 das estacas

102

Tabela 29. Quantitativo de execução de serviços (estacas)

103

Tabela 30. Armadura Blocos Tubulões

104

Tabela 31. Dimensionamento dos tubulões

105

Tabela 32. Quantitativo de concreto dos tubulões

106

Tabela 33. Quantitativo de execução de serviços reais da obra (tubulões)

107

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1.

Gráfico das Sondagens

90

Gráfico 2.

Comparativo entre os métodos

91

Gráfico 3.

Comparativo de Custos

108

LISTA DE QUADROS

Quadro 1.

Critérios gerais para escolha do tipo de fundação

59

Quadro 2.

Critérios específicos escolha tipo de fundação

61

Quadro 3.

Escolha do tipo de estaca adequado para a fundação

94

LISTA DE EQUAÇÕES

Equação 1.

Cálculo resistência de ponta base circular

63

Equação 2. Cálculo resistência de ponta base

quadrada

63

Equação 3.

Cálculo da carga de ruptura

66

Equação 4.

Cálculo do número de SPT médio

67

Equação 5. Cálculo da capacidade de carga da estaca – Décourt e Quaresma

68

Equação 6. Cálculo parcela de atrito lateral

69

Equação 7. Cálculo do atrito lateral com coeficiente de segurança

69

Equação 8. Cálculo da Tensão de ruptura de ponta

70

Equação 9.

Taxa de armação do corpo da estaca

73

Equação 10.Cálculo da área da base do tubulão

75

Equação 11.Cálculo do diâmetro da base circular do tubulão

76

Equação 12.Cálculo do diâmetro da base falsa elipse do tubulão

76

Equação 13.Cálculo do diâmetro do fuste

77

Equação 14.Cálculo da tensão do concreto

77

Equação 15.Cálculo da altura da base do tubulão

77

Equação 16.Cálculo do volume em base falsa elipse

78

Equação 17.Cálculo do volume em base circular

78

Equação 18.Cálculo da tensão admissível do solo

80

Equação 19.Cálculo da relação entre a tensão de tração e a de compressão

81

Equação 20.Cálculo da tensão de compressão

81

Equação 21.Cálculo da força de tração

81

Equação 22.Cálculo da área de armação horizontal

81

Equação 23.Cálculo da taxa de armação vertical

82

Equação 24.Cálculo da área de armação vertical

82

Equação 25.Cálculo das forças de tração e compressão

83

Equação 26.Cálculo da armação principal para 2 elementos

83

Equação 27.Cálculo da área de compressão da biela

83

Equação 28.Cálculo da tensão de compressão da biela

84

Equação 29.Cálculo da tensão de cisalhamento

84

Equação 30.Cálculo da área de armação dos estribos

84

Equação 31.Cálculo da armação principal para 3 elementos

85

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

15

2

CARACTERIZAÇÃO DO AMBIENTE ESTUDO

17

3

REFERENCIAL TEÓRICO

19

3.1

Solos – Conceitos e Terminologias

19

3.1.1

Areia

20

3.1.2

Argila

20

3.1.3

Silte

21

3.1.4

Nível do lençol freático

21

3.2

Fundações

22

3.3

Elementos Necessários em um Projeto de Fundação

25

3.4

Investigação

Geotécnica 26

3.4.1

Etapas de investigação

26

3.4.2

Processo de investigação do subsolo

27

3.4.2.1

Programação de sondagem e reconhecimento dos solos

27

3.4.2.2

Poços e sondagem a

trado 28

3.4.2.3

Sondagem à percussão

29

3.4.2.4

Sondagem rotativa e mistas

32

3.4.2.5

Ensaio de cone (CPT)

33

3.4.2.6

Ensaio pressiométrico (PMT)

35

3.4.3

Principais informações obtidas em ensaio

SPT 37

3.5

Fundações Profundas

39

3.5.1

Estacas

40

3.5.1.1

Estacas de madeira

41

3.5.1.2

Estacas metálicas

43

3.5.1.3

Estacas pré-moldadas

44

3.5.1.4

Brocas

46

3.5.1.5

Estacas Strauss

47

3.5.1.6

Estacas Franki

48

3.5.1.7

Estaca escavada

50

3.5.1.8

Estaca raiz

50

3.5.1.10

Estacas tipo hélice contínua

53

3.5.1.11

Estacas prensadas

54

3.5.2

Tubulões

54

3.5.2.1

Tubulões a céu aberto

55

3.5.2.1

Tubulões a ar comprimido

56

3.6

Escolha do Tipo de Fundação

57

3.6.1

Escolha do tipo de estaca

60

4

METODOLOGIA

62

4.1

Capacidade de Carga – Métodos Estáticos

62

4.1.1

Método teórico resistência de ponta ou base

62

4.1.1.1

Solução de Terzaghi (1943)

63

4.1.2

Métodos semiempíricos utilizando o SPT

66

4.1.2.1

Método de Aoki-Velloso (1975)

66

4.1.2.2

Método de Décourt-Quaresma (1978)

68

4.2

Critérios para Dimensionamento da Seção da Estaca

72

4.3

Critérios para Dimensionamento de Tubulões

75

4.3.1

Tensão admissível no solo

80

4.4

Dimensionamento do Bloco de Coroamento

80

4.4.1

Dimensionamento para 1 elemento

80

4.4.2

Dimensionamento para 2 elemento

82

4.4.3

Dimensionamento para 3 elemento

84

4.4.4

Dimensionamento para 4 elemento

86

4.5

Levantamento de Quantidades e Estimativa de Custos

86

4.5.1

Execução de bloco sobre estacas

87

4.5.2

Execução de bloco sobre tubulão a céu aberto

88

5

ANÁLISE DOS RESULTADOS

90

5.1

Análise dos Dados Geotécnicos Adotados

90

5.1.1

Verificação da tensão admissível do solo

93

5.2

Definição de Carga Estrutural

93

5.3

Escolha do Tipo de Fundação – Viabilidade Técnica

94

5.4

Solução em Estaca

95

5.4.1

Estacas Tipo Strauss – Aplicação de Formulário

95

5.6

Viabilidade Econômica Estaca Tipo Strauss x Tubulão

107

6

CONCLUSÃO

109

REFERÊNCIAS

110

ANEXO A RELATÓRIOS DE SONDAGEM

112

ANEXO B PROJETOS ARQUITÊTONICOS DO

EDIFÍCIO

117

ANEXO C PROJETO DE FUNDAÇÃO – TUBULÕES

126

15

1 INTRODUÇÃO

As fundações são elementos vitais para toda e qualquer edificação que se possa vislumbrar. Focado em fundações profundas, esse trabalho propõe soluções que envolvem conhecimentos em áreas da engenharia civil, tais como: geotecnia e estruturas. Qualquer tipo de edificação,

independente de sua dimensão ou local de implantação, e dos diferentes tipos de materiais a serem utilizados, está sujeita a ação das cargas provenientes de seu próprio peso, cargas móveis

e ações de vento, temperatura, dentre outros. Essas ações produzem esforços em toda a estrutura da edificação formando um conjunto de esforços que deverão ser obrigatoriamente resistidos por cada elemento estrutural existente como lajes, vigas, pilares e pela fundação.

Dentre todos os elementos da estrutura, os elementos da fundação merecem destaque por serem responsáveis por receber e transmitir todos os esforços da edificação para o subsolo, de modo

a garantir, estabilidade estrutural ao sistema. Tendo isso em vista, é de suma importância a

definição do tipo de fundação a ser utilizada, assim como as etapas de execução de seu processo

construtivo, uma vez que a obra deverá ser suportada pelo subsolo da região. A realização de investigação do subsolo deve ser criteriosa, abordando um perfil geotécnico por meio de

sondagens, de forma que os resultados possam possibilitar ao engenheiro decidir-se sobre qual

a melhor solução técnica executiva e econômica a ser adotada.

A determinação da capacidade de carga é um dos grandes desafios no dimensionamento de fundações, pois é necessário que os conceitos teóricos sobre as propriedades dos solos e o comportamento do sistema solo-estrutura, estejam adeptos à realidade em que se pretende executar uma fundação. Após encontrada a capacidade de carga e definida a tensão admissível do solo, alguns parâmetros de resistência para os materiais deveram ser adotados, além de considerar os coeficientes exigidos no procedimento técnico. E, posteriormente, realizar os cálculos que definem as dimensões geométricas e a quantidade de materiais que a fundação irá demandar para atender o estado limite de serviço.

Considerando-se os métodos acessíveis no mercado regional, para um edifício modelo, qual a melhor fundação a ser executada? Quais critérios influenciam essa escolha? Para que se possa responder essas perguntas o presente estudo propõe-se a: analisar qual o melhor tipo de fundação que deve ser utilizada para a edificação a ser realizada na Rua João Pessoa, nº 217, Bairro Canaã, município de Sete Lagoas, aplicando o dimensionamento através dos métodos

16

escolhidos para verificar qual o mais viável a ser executado na região em que o empreendimento se localiza. A verificação da viabilidade técnica e econômica, bem como o dimensionamento de fundações, são itens que justificam este tipo de estudo. Podendo ainda ser importante na aquisição de conhecimentos práticos e habilidade construtiva através da aplicabilidade e não somente de bases teóricas.

Assim, procede-se com as etapas de: uma investigação geotécnica criteriosa, através de análise do solo do local, estudos dos diferentes tipos de estaca e tubulão, análise de capacidades de carga pelo método semiempírico de Décourt-Quaresma (1978) e Aoki-Velloso (1975), dimensionamento das fundações, apresentação dos resultados, demonstração da viabilidade econômica de ambas soluções e avaliação do método mais vantajoso para o edifício em questão.

17

2 CARACTERIZAÇÃO DO AMBIENTE DE ESTUDO

O planejamento e a organização do espaço físico de um município constituem informações de

relevada importância, provenientes de instrumentos e diretrizes básicas para a implantação de

uma política de desenvolvimento urbano (ABNT, 1991).

O município de Sete Lagoas aprovou o Plano Diretor do município com objetivo de abranger a

totalidade do território municipal e servir como instrumento básico da política de desenvolvimento do município e estabelecer diretrizes para o planejamento e gestão urbana (SETE LAGOAS, 2006).

O Edifício Residencial e Comercial Canaã será construído na Rua João Pessoa, nº 217, Bairro

Canaan, município de Sete Lagoas/MG, CEP 35.700-299, e encontra-se em fase de construção. Segundo o Plano Diretor do município (2006), o Edifício será construído em zona urbana, Zona 2 – R3, área de ocupação e uso do solo restritos, devido a proteção das lagoas e da paisagem da Serra Santa Helena.

O terreno onde será construído o Edifício possui 360 m², registrado no Cartório de 2º Ofício do

Registro de Imóveis – Comarca de Sete Lagoas/MG, sendo os proprietários, Pablo Picasso Silva Barbosa e Luiz César de Rezende. Ressalta-se que o Edifício será construído com área de

implantação de 268,96m², sendo a taxa de ocupação do solo de 74,7%. A distribuição da edificação será constituída de:

Pilotis – setor que abrangerá toda área de garagem e entradas principais do edifício, assim como, um cômodo comercial com aproximadamente 60m²; 1º Pavimento – neste andar serão construídos dois apartamentos com área total de 127,95m² cada, e; 2º Pavimento – neste andar serão construídos dois apartamentos com área total de 172,30m² cada.

A escolha do local de construção da edificação partiu do princípio do terreno estar localizado

próximo aos principais centros urbanos do município e de empresas essenciais, como hospital, escolas, supermercados, farmácias, clubes/lazer, bancos, dentre outros. A FIG.1, a seguir apresenta a localização do terreno.

18

Figura 1 – Localização do Terreno

Área do Terreno
Área do Terreno

Fonte: GOOGLE MAPS, 2016, s.p.

19

3 REFERENCIAL TEÓRICO

A base teórica para elaboração deste documento leva em consideração obras literárias de autores

conceituados, artigos científicos, normas técnicas brasileiras. Ressalte-se que neste capítulo serão apresentadas as definições necessárias para o desenvolvimento do projeto em questão, abordando o processo de investigação do subsolo, breve discussão sobre o termo de fundações diretas (rasas), e abordar com ênfase fundações indiretas (profundas) enfatizando a tipologia de fundações através de Tubulões e Estacas e como proceder para o seu dimensionamento.

3.1 Solos – Conceitos e Terminologias

De acordo com a Norma Brasileira Registrada NBR 6502 – Rochas e Solos (1995, p. 17), solo

é um “material proveniente da decomposição das rochas pela ação de agentes físicos ou

químicos, podendo ou não conter matéria orgânica”. A ação contínua do intemperismo, através

dos agentes atmosféricos, tende a decompor e desintegrar as rochas, dando origem ao solo (UFJF, 2009). Conforme Knappett e Craig (2014), engenheiros civis consideram solos como qualquer agrupamento de partículas minerais soltas ou fracamente unidas, formado pela desintegração e decomposição de rochas, além de possuir os espaços entre as partículas preenchido por água e/ou ar.

Segundo a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF, 2009), a terminologia solo adquire significado específico conforme a finalidade. No ponto de vista técnico da área de engenharia civil, o termo aplica-se a materiais da crosta terrestre que servem como suporte, e reagem sob as fundações, onde deformam-se e resistem aos esforços, de forma a influenciar diretamente as propriedades e aos comportamentos das estruturas (UFJF, 2009).

É importante ressaltar que, para dar suporte a uma fundação é necessário a descrição completa

de um solo, com a inclusão de detalhes tanto do material quanto das características da massa do solo, para diferentes de tipos (KNAPPETT e CRAIG, 2014). Os autores reiteram que, os tipos básicos de solo são areia, argila, silte, pedregulhos, pedras e matacões, definidos conforme o tamanho das partículas (FIG. 2).

20

Figura 2 – Intervalos de valores dos tamanhos de partículas

2 – Intervalos de valores dos tamanhos de partículas Fonte: KNAPPETT e CRAIG, 2014, p.4. Segundo

Fonte: KNAPPETT e CRAIG, 2014, p.4.

Segundo a NBR 6502 (1995, p.15), matacão é “Fragmento de rocha, transportado ou não, comumente arredondado por intemperismo ou abrasão, com uma dimensão compreendida entre 200 mm e 1 m”. A referida norma estabelece ainda que, Pedra de mão é “Fragmento de rocha com diâmetro compreendido entre 60 mm e 200 mm”. Já Pedregulhos são formados por minerais ou partículas de rocha e diâmetro entre 2 mm e 60 mm, caracterizados conforme o diâmetro dos grãos como: fino (2 a 6 mm), médio (6 a 20 mm) e grosso (20 a 60 mm).

3.1.1 Areia

Conforme NBR 6502 (1995), trata-se de um solo não coesivo entre seus grãos, permeável e sem plasticidade, formado por partículas ou minerais de rochas com diâmetros entre 0,06 mm e 2,00 mm. A Norma ainda classifica conforme o diâmetro dos grãos como: fina (0,06 a 0,20 mm), média (0,20 a 0,60 mm) e grossa (0,60 a 2,00 mm).

Segundo Das (2007), permeabilidade é a propriedade que o solo apresenta de permitir o escoamento de água por meio dele. O autor ressalta ainda que, devido à alta permeabilidade apresentada por este tipo de solo, a execução das escavações exige cuidados especiais em relação ao nível do lençol freático.

A plasticidade pode ser entendida como a “propriedade que um solo apresenta, em determinadas condições de umidade, de poder sofrer grandes deformações permanentes, sem ruptura, fissuramento ou apreciável variação de volume”. (NBR 6502, 1995)

3.1.2 Argila

As principais características deste tipo de solo são coesão, plasticidade e baixa permeabilidade, além de possuir graduação fina e dimensão das partículas muito pequena, com valores menores

21

que 0,002 mm (NBR 6502, 1995). Devido as propriedades apresentadas neste solo, a execução das escavações é facilitada, e o afloramento do lençol freático ocorre lentamente. (DAS, 2007)

3.1.3 Silte

Segundo a NBR 6502 (1995, p.17), trata-se de um solo formado por partículas com diâmetros entre 0,002 mm e 0,05 mm, com baixa ou nenhuma plasticidade, e de baixa resistência quando

o ar está seco. A norma ressalta ainda que a fração silte constitui suas propriedades dominantes.

3.1.4 Nível do lençol freático

As rochas sólidas e maciças contêm numerosos vazios, poros e fraturas, denominados de interstícios, que variam em diversas formas e dimensões originando-se o aquífero (MARAGON, 2008). Segundo o autor, devido ao fato destes interstícios serem interligados as águas infiltradas podem se deslocar, de modo, a se penetrar por gravidade no solo até atingir as zonas saturadas, que constituem o reservatório de agua subterrânea denominado aquíferos. Ainda segundo o autor, os aquíferos podem ser "Artesianos" ou "Livres", sendo este último denominado lençol freático, onde a água circula no subsolo de forma livre, já os Artesianos a circulação é através de pressão.

Através da ação da gravidade e como consequência da infiltração, a água precipitada sobre superfície terrestre penetra no subsolo e sofre um movimento descendente até atingir a zona

onde os poros, vazios e fraturas se encontram completamente preenchidos de água, zona esta denominada zona de saturação ou freática (MARAGON, 2008). Segundo o autor, esta zona é separada por uma linha conhecida como nível freático ou lençol freático (NA). A FIG.3 ilustra

o perfil longitudinal do subsolo para as profundidades do nível freático.

22

Figura 3 – Perfil longitudinal do subsolo segundo alinhamento das sondagens

longitudinal do subsolo segundo alinhamento das sondagens Fonte: FONTOLAN, 2014, s.p. Segundo Maragon (2008), um

Fonte: FONTOLAN, 2014, s.p.

Segundo Maragon (2008), um significativo número de obras de engenharia encontra problemas relativos as águas subterrâneas. Afirma o autor que, os exemplos mais comuns deste tipo de problema são identificados em escavações de valas e canais, fundações para edifícios, corte de estradas, pontes, barragens, dentre outros.

Para Maragon (2008), existem conceitos importantes para a execução de um projeto de fundação, como a condição de saturação e submersão, onde o primeiro refere-se, a zona de saturação da água localizada, até certa altura, acima do nível freático, e o segundo abaixo do nível freático, onde o solo se encontra em condição de submersão. Outro conceito importante é sobre o rebaixamento do lençol freático, a construção de edifícios com subsolo, pavimentos inferiores, pode requerer escavações abaixo do NA, que podem exigir tanto uma drenagem quanto um rebaixamento do lençol freático (MARAGON, 2008). Ainda segundo o autor, são inúmeros métodos para eliminação da agua existente no subsolo, porém, somente após a realização de ensaios preliminares, pode-se definir os possíveis métodos a serem empregados.

3.2 Fundações

De acordo com Azeredo (1977), fundações são elementos necessários para transmitir as cargas de uma estrutura ao terreno em que ela se encontra apoiada, sendo de suma importância a escolha do tipo de fundação adequada apara cada tipo de terreno, de modo que a resistência deverá

23

suportar as tensões causadas pelos esforços solicitantes. Assim, para escolha da fundação mais adequada deve-se conhecer os esforços atuantes sobre a edificação e as características dos elementos estruturais e do solo. O custo de fundações bem projetadas corresponde de 3 a 10% do custo total do edifício, porém, caso a elaboração e execução do projeto sejam realizadas de forma inadequada, este custo poderá elevar-se cerca de 5 a 10 vezes comparado ao tipo de fundação mais adequada. (BRITO, 1987)

Segundo Velloso e Lopes (2011), as fundações podem ser classificadas em dois grupos, fundações superficiais (diretas) e fundações profundas (indiretas), de acordo com a forma de transferência de carga da estrutura para o solo. Ainda segundo os autores a distinção entre estes dois tipos de fundação parte do critério de que em fundações profundas os mecanismos de ruptura de base não surgem na superfície do terreno.

Velloso e Lopes (2011) complementam que, os mecanismos de ruptura de base atingem acima dela duas vezes sua menor dimensão, área denominada bulbo de tensões, conforme especificado na FIG.4. A norma NBR 6122 – Projeto e Execução de Fundações (2010, p.3) determinou que fundação profunda é um:

Elemento de fundação que transmite a carga ao terreno ou pela base (resistência de ponta) ou por sua superfície lateral (resistência de fuste) ou por uma combinação das duas, devendo sua ponta ou base estar assente em profundidade superior ao dobro de sua menor dimensão em planta, e no mínimo 3,0m. Neste tipo de fundação incluem-se as estacas e os tubulões.

Figura 4 – Fundação superficial e profunda

os tubulões. Figura 4 – Fundação superficial e profunda Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.11. Velloso

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.11.

Velloso e Lopes (2011) descrevem as fundações profundas separadas por três grupos, sendo estaca, tubulão e caixão, conforme FIG.5:

24

I.

Estaca – elemento executado por ferramentas ou equipamentos, execução esta que pode ser por cravação ou escavação, ou ainda, mista (Fig.5a);

II.

Tubulão – elemento de fundação de forma cilíndrica que, requer a descida de operário ou técnico pelo menos na fase final de execução, a distinção do tubulão para estaca se dá pelo processo executivo e não por suas dimensões (FIG.5b);

III.

Caixão – elemento de forma prismática, concretado na superfície e instalado por escavação interna, este tipo de fundação não é citado na NBR 6122/2010 (FIG.5c).

Figura 5 – Principais tipos de fundação profunda

Figura 5 – Principais tipos de fundação profunda Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.13. Segundo Velloso

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.13.

Segundo Velloso e Lopes (2011) existem, ainda, as fundações mistas que são a combinação entre as fundações superficiais e profundas (FIG.6), como exemplo temos, sapata associada à estaca (FIG.6a), sapata associada a estaca com material compressível entre elas (FIG.6b), e radier sobre estaca (FIG.6c) ou tubulões (FIG.6d).

Figura 6 – Alguns Tipos de fundações mistas

estaca (FIG.6c) ou tubulões (FIG.6d). Figura 6 – Alguns Tipos de fundações mistas Fonte: VELLOSO e

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.13.

25

3.3 Elementos Necessários em um Projeto de Fundação

Para que a fundação desempenhe o papel de transmissão dos esforços provenientes da edificação por toda infraestrutura de forma eficaz e eficiente, e para assegurar a qualidade dos serviços do projetista e executor da obra, Velloso e Lopez (2011), estabelecem critérios necessários para o desenvolvimento de um projeto de fundação, sendo eles:

I. Topografia da área – engloba o levantamento topográfico (planialtimétrico), e dados sobre taludes e encostas no terreno ou que possam atingir o terreno;

II. Dados geológicos-geotécnicos – investigação do subsolo, às vezes em duas etapas, preliminar e complementar; dados geológicos e geotécnicos como mapas, fotos aéreas, e de satélites, levantamento aerofotogramétricos, artigos sobre experienciais anteriores na área, dentre outros;

III. Dados sobre construções vizinhas – através do número de pavimentos, carga média por pavimento, tipo de estrutura e fundações, desempenho das fundações, existência de subsolo, possíveis consequências de escavações e vibrações provocadas pela nova obra;

IV. Dados da estrutura a construir – tipo e uso que terá a nova obra, sistema estrutural (hiperestaticidade, flexibilidade, etc.), sistema construtivo (convencional, pré- moldado, etc.) e cargas (ações nas fundações).

Velloso e Lopes (2011) ressaltam que o projetista deve avaliar o conjunto de dados I a III em visita ao local de construção, e que os dados apresentados no item IV entre o projetista da fundação, o arquiteto da obra e o projetista estrutural, de forma a verificarem os deslocamentos admissíveis e os fatores de segurança a serem aplicados às diferentes cargas ou ações estruturais. Ressaltam os autores que, nas zonas urbanas, as condições dos vizinhos constituem o fator decisivo na definição da solução de fundação.

Outro aspecto de suma importância a ser considerado pelo projetista é a interface entre os projetos de superestrutura e de fundações/infraestrutura, uma vez que, ao receber as ações decorrentes da estrutura, o projetista de fundações deve verificar se são fornecidas como valores característicos ou como valores de projeto (valores majorados por fatores de cargas ou fatores de ponderação), além de analisar quais as combinações foram utilizadas para dimensionar os elementos na interface entre os dois projetos, a exemplo, os pilares. (VELLOSO e LOPES, 2011)

26

3.4 Investigação Geotécnica

A análise do solo é fundamental, uma vez que, os tipos de solo possuem diferenças quanto à sua

composição e propriedades, fatores estes importantes na avaliação de sua utilização como

material de construção civil e como suporte para elementos estruturais de fundação (DAS, 2007). A partir deste princípio, e dentre a enorme quantidade de variáveis envolvidas na escolha do tipo de fundação a ser executada, é determinante ao projetista de fundações se envolver com

o processo de investigação do subsolo para ter conhecimento sobre as camadas de solo subjacentes à construção (VELLOSO e LOPES, 2011).

3.4.1 Etapas de investigação

Segundo Velloso e Lopes (2011), a definição das etapas da investigação e os objetivos a serem alcançados é o alicerce para uma adequada investigação do subsolo. Os autores afirmam ainda que as etapas são: investigação preliminar, investigação complementar ou de projeto e investigação para a fase de execução. De acordo com Velloso e Lopes (2011, p.33) essas etapas consistem em:

a) Investigação preliminar: objetiva-se conhecer as principais características do

subsolo. Nesta fase, em geral, são executadas apenas sondagens à percussão, salvo nos casos em que se sabe a priori da ocorrência de blocos de rochas que precisam ser ultrapassados na investigação, quando, então, solicitam-se sondagens mistas. O espaçamento ou a “malha” de sondagens é geralmente regular (por exemplo, um furo a cada 15 ou 20 m), e a profundidade das sondagens deve procurar caracterizar o embasamento rochoso;

b) Investigação complementar: procuram-se esclarecer as feições relevantes do

subsolo e caracterizar as propriedades dos solos mais importantes do ponto de vista dos comportamentos das fundações. Se antes desta fase já se tiver escolhido o tipo de fundação a ser adotada, questões executivas também podem ser esclarecidas. Nesta fase, são executadas mais algumas sondagens, fazendo com que o total atenda as exigências de normas, e, eventualmente, realizando-se sondagens mistas ou especiais para a retirada de amostras indeformadas, se forem necessárias. Nesta fase, são realizados alguns ensaios in situ – além do ensaio de penetração dinâmica (SPT) que é executado nas sondagens a percussão, como os ensaios de cone (CPT), de placa, etc. as amostras indeformadas podem ser utilizadas em ensaios em laboratórios, os quais devem ser especificados e acompanhados pelo projetista;

c) Investigação para a fase de execução: deve ser indicada também pelo projetista e

poderá ser ampliada pelo responsável pela execução da obra. Ela visa confirmar as condições de projeto em áreas críticas da obra, assim consideradas pela responsabilidade das fundações (exemplo típico: pilares de pontes) ou pela grande variação dos solos na obra. Outra necessidade de investigação na fase de obra pode vir da dificuldade de executar o tipo de fundação previsto. Em qualquer um dos casos, o projetista deve acompanhas as investigações desta fase ou pelo menos, ser colocado a par dos resultados.

27

De acordo com a NBR 6122 (2010), para qualquer edificação a ser executada deve ser elaborado um programa de investigação técnica preliminar, estabelecido no mínimo por sondagens à percussão (SPT), com objetivo em determinar a estratigrafia e classificação dos solos, a posição do nível d'água e a medida do índice de resistência a penetração N SPT 1 , conforme a norma NBR 6484 – Solos: Sondagens de Simples Reconhecimento com SPT - Método de Ensaio (2001). A partir dos resultados obtidos nesta investigação pode ser necessário uma complementação dos dados, sendo assim, realizada a investigação complementar, através de sondagens adicionais, instalação de indicadores de nível d'água, outros ensaios de campo e ensaios laboratoriais. (NBR 6502, 1995)

O projetista deverá, após a fase preliminar, ter ideia dos possíveis tipos de fundações para a

obra, de forma que este conhecimento o conduzirá por todas etapas do projeto, desde o método

de cálculo a ser adotado, os coeficientes de segurança que serão considerados, as cargas críticas

responsáveis por possíveis rupturas do solo, até a definição da tensão admissível. (VELLOSO e

LOPES, 2011)

3.4.2 Processos de investigação do subsolo

Segundo Velloso e Lopes (2011), os principais processos de investigação para fins de projeto de fundações de estruturas são: Poços, Sondagens a Trado, Sondagens a Percussão com SPT, Sondagens Rotativas, Sondagens Mistas, Ensaio de Cone (CPT), Ensaio Pressiométrico (PMT).

3.4.2.1 Programação de sondagem e reconhecimento dos solos

A norma NBR 8036 – Programação de Sondagens de Simples Reconhecimento dos Solos para

Fundações de Edifícios (1983), estabelece uma programação das sondagens de simples reconhecimento dos solos destinada a elaboração de projetos geotécnicos para construção de edifícios. Segundo referida Norma, o número de sondagens e a sua localização em planta dependem do tipo de estrutura, das condições geotécnicas do subsolo e de suas características especiais, sendo suficiente para fornecer um aspecto quantitativo e qualitativo da provável variação das camadas do subsolo do local em estudo.

1 Índice de resistência a penetração N SPT – é a relação do número de golpes, expressa em centímetros, dada pela penetração do amostrador nos ensaios SPT (NBR 6122, 2010).

28

De acordo com a NBR 8036 (1983), devem ser estabelecidos uma sondagem para cada 200 m² da área de projeção em planta do edifício, até 1.200 m² de área. Estabelece ainda que entre 1.200 m² e 2.400 m² deve-se fazer uma sondagem para cada 400 m² que excederem de 1.2000 m². O número de sondagens para áreas acima de 2.400 m² deve ser fixado conforme o plano particular da construção (NBR 8036, 1983). A Norma afirma ainda que para quaisquer circunstâncias o número mínimo deve ser de duas sondagens para área da projeção em planta do edifício com até 200 m², e três para área entre 200 m² e 400 m². Em estudos de viabilidade ou escolha do local, onde não existe ainda uma disposição em planta, deve-se realizar mínimo de três sondagens com distância máxima entre elas de 100 m. (NBR 8036, 1983)

3.4.2.2 Poços e sondagem a trado

Os poços permitem a retirada de amostras indeformadas tipo bloco ou em anéis, além de um exame nas paredes e no fundo da escavação (VELLOSO e LOPES, 2011). Os autores afirmam que são escavações manuais e avançam até encontrar o nível d’água ou onde estiver estável, através de procedimentos normativos estabelecidos pela norma NBR 9604 – Abertura de Poço e Trincheira de Inspeção em Solo, com Retirada de Amostras Deformadas e Indeformadas:

Procedimento (2016). Já as sondagens a trado (FIG.7), são sondagens executadas por trados manuais, com profundidade limitada até o nível d’água, e retirada de amostras deformadas, conforme diretrizes normativas estabelecidas pela norma NBR 9603 – Sondagem a Trado:

Procedimento (2015). (VELLOSO e LOPES, 2011)

Figura 7 – Trados manuais mais utilizados

(2015). (VELLOSO e LOPES, 2011) Figura 7 – Trados manuais mais utilizados Fonte: VELLOSO e LOPES,

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.38.

29

3.4.2.3 Sondagem à percussão

Segundo Velloso e Lopes (2011), sondagens a percussão são perfurações capazes de atravessar solos relativamente compactos e duros, e ultrapassar o nível d’água. Ressaltam os autores que a perfuração prossegue, caso estável, sem revestimento do furo, com adição de bentonita à água; caso ocorra instabilidade, o furo é revestido com lamas de estabilização, desde que não estejam previstos ensaios de infiltração na sondagem. O ensaio de sondagem à percussão é normatizado pela NBR 6484 – Solo: Sondagens de simples reconhecimento com SPT: Método de ensaio SPT – Standard Penetration Test (2001).

De acordo com Velloso e Lopes (2011), sondagens à percussão são, às vezes, detidas por pedregulhos, e não ultrapassam matacões e blocos de rocha, além da dificuldade de ultrapassar saprólitos (sólidos residuais jovens) muito compactos. Ainda segundo os autores, a cada metro, o processo de perfuração é interrompido; quando é realizado o ensaio de penetração dinâmica (Standard Penetration Test ou SPT), através do equipamento de sondagem mostrado na FIG.8b.

Figura 8 – Equipamento de Sondagem

do equipamento de sondagem mostrado na FIG.8b. Figura 8 – Equipamento de Sondagem Fonte: VELLOSO e

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.38.

30

Para Velloso e Lopes (2011), o procedimento estabelecido pela NBR 6484 (2001) do ensaio de penetração dinâmica (SPT), consiste na cravação de uma amostrador normalizado, originalmente chamado Raymond-Terzaghi (FIG.9), por meio de golpes, onde ergue-se um peso batente de 65 kgf até a altura de 75 cm e deixa-se cair em queda livre sobre a haste. Posteriormente, anota-se o número de golpes necessários para cravar 45 cm do amostrador, divido em 3 conjuntos de golpes para cada 15 cm. Embora o número de golpes para penetração dos primeiros 15 cm seja fornecido, o resultado final do ensaio SPT é a soma do número de golpes necessário para cravar os 30 cm finais, o que dará o índice de resistência do na profundidade ensaiada, sendo assim, desprezado os dados 15cm iniciais. (VELLOSO e LOPES,

2011)

Segundos Velloso e Lopez (2011), ainda que a amostra retirada do amostrador é deformada, sendo necessário a utilização de amostradores especiais para retirada de amostras indeformadas para ensaios de laboratório; a exemplo, o amostrador conhecido como Shelby utilizado para argilas, através do uso de pistão; e no caso de solos muito resistentes, como os saprólitos, pode- se utilizar o amostrador Denilson, que requer processo rotativo.

Figura 9 – Amostradores para solos

processo rotativo. Figura 9 – Amostradores para solos Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.39. Segundo a

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.39.

Segundo a NBR 6484 (2001), o processo de perfuração de sondagem deve ser iniciado com o emprego do trado-concha ou cavadeira manual até atingir a profundidade de 1 m. Nas operações

31

subsequentes de perfuração, intercaladas as de amostragem, deve-se utilizar o trado helicoidal

até se atingir o nível d’água freático, até que o avanço seja inferior a 50 mm após 10 minutos de

operação, ou no caso de solo não aderente ao trado. Nestes casos, a norma afirma que, passa-se a utilizar o método de perfuração por circulação de água (lavagem), onde se utiliza o trépano de lavagem como ferramenta de escavação, sendo a remoção do material através de bomba d’água motorizada.

A partir de 1 m de profundidade, as amostras são coletadas a cada metro de perfuração, e

imediatamente acondicionadas em ambientes herméticos com dimensões suficientes para receber pelo menos um cilindro de solo colhido do bico do amostrador, posteriormente estes recipientes devem ser etiquetados com informações sobre a designação do trabalho, o local da obra, número da sondagem e da amostra, profundidade da sondagem e número de golpes e respectivas penetrações do amostrador, logo após, os recipientes deverão ser encaminhados para laboratório para análise táctil-visual do material por profissional especializado (NBR 6484, 2001). A Norma afirma ainda que as amostras são examinadas para identificação de no mínimo características como, granulometria (separação em solos grosso e finos), plasticidade, cor e origem (solos residuais, transportados, aterros), completando a caracterização do solo com indicação da consistência e compacidade e da origem geológica da formação.

A NBR 6484 (2001) ressalta que os critérios para paralisação do processo de perfuração por

circulação de água devem estar associados a uma das seguintes condições: quando em 3 m sucessivos, se obtiver 30 golpes para penetração dos 15 cm iniciais do amostrador-padrão; quando em 4 m sucessivos, se obtiver 50 golpes para penetração dos 30 cm iniciais do

amostrador-padrão; e quando em 5 m sucessivos, se obtiver 50 golpes para penetração dos 45

cm

do amostrador-padrão. A norma estabelece ainda que dependendo da natureza do subsolo,

do

tipo de obra e das cargas a serem transmitidas às fundações, admite-se a paralisação da

sondagem em solos de menor resistência à penetração, desde que, haja justificativa geotécnica

ou solicitação do cliente.

Segundo Velloso e Lopes (2011), outras informações importantes fornecidas pela sondagem são

as condições das águas subterrâneas, com determinação da profundidade do nível do lençol

freático não influenciada pela sondagem. Após término da sondagem e retirada do revestimento, deve-se observar até que se estabilize, por um período mínimo de 24 horas, o nível do lençol freático. O relatório final constará a planta do local com a posição das sondagens realizadas e o

32

perfil individual de cada sondagem e/ou seções do subsolo, com a indicação da resistência do solo a cada metro perfurado, o tipo e a espessura do material e as posições dos níveis d’água, quando estes aparecerem no processo de sondagem. (NBR 6484, 2001)

3.4.2.4 Sondagem rotativa e mistas

Segundo Velloso e Lopes (2011) as sondagens rotativas são utilizadas em elementos de rochas que precisam se caracterizados ou ultrapassados no processo de investigação, como matacões ou blocos. Ainda segundo os autores, o processo de perfuração consiste em fazer girar as hastes, através do cabeçote de perfuração, e força-las para baixo, geralmente por um sistema hidráulico (FIG.10). Os autores completam que no topo das hastes existe um acoplamento que permite a ligação da mangueira de água com as hastes que estão girando.

No processo de sondagem rotativa é utilizada ferramenta tubular que possui em sua extremidade inferior uma coroa, com pastilhas de tungstênio ou diamante, chamada de barrilete, para corte e retirada de amostras de rocha (VELLOSO e LOPES, 2011). Os autores afirmam ainda que a qualidade das amostras depende do tipo e diâmetro do amostrador utilizado, sendo preferível os barriletes duplos, se possível giratórios. Ressaltam os autores que as sondagens mistas são uma combinação de um equipamento de sondagem a percussão (SPT) com um equipamento de sondagem rotativa.

33

Figura 10 – Esquema de funcionamento de sonda rotativa

33 Figura 10 – Esquema de funcionamento de sonda rotativa Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.40.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.40.

2.4.2.5 Ensaio de cone (CPT)

De acordo com Velloso e Lopes (2011) o ensaio de cone (CPT) se difundiu mundialmente devido à qualidade de suas informações (FIG.11). Afirmam os autores que o ensaio consiste na cravação a velocidade lenta e constante de uma haste com ponta cônica, onde mede-se a resistência encontrada na ponta e a resistência por atrito lateral, através de um sistema de medição de células de carga elétrica (locais). Ressaltam os autores que desde os cones mecânicos se tem normalizado a velocidade de cravação, inicialmente 1 cm/s e atualmente 2 cm/s, a área da ponta do cone em 10 cm² e o ângulo de ponta em 60º, sendo este ensaio normalizado pela NBR 12.069 – Solo: Ensaio de penetração de cone in situ (CPT) (1991).

34

Figura 11 – Ensaio CPT e equipamento desenvolvido pela COPPE-UFRJ

11 – Ensaio CPT e equipamento desenvolvido pela COPPE-UFRJ Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.42. Segundo

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.42.

Segundo Velloso e Lopes (2011), um típico resultado deste ensaio é demostrado na FIG.12, no primeiro gráfico temos um perfil de resistência de ponta e de atrito lateral local; no segundo, é apresentada a razão entre o atrito lateral local e resistência de ponta, com indicação do tipo de solos atravessado, o terceiro apresenta poropressões medidas no ensaio, sendo possível através da utilização de um piezocone. Os autores ressaltam que, pode-se observar que nas areias a poropressão é próxima da hidrostática, enquanto que nas argilas existe um excesso de poropressão gerado na cravação do cone. Não são retiradas amostras dos solos atravessados neste tipo de ensaio, sendo recomendado que o tipo de investigação seja associado a sondagens a percussão. (VELLOSO e LOPES, 2011)

35

Figura 12 – Resultado de um ensaio CTP realizado com piezocone

12 – Resultado de um ensaio CTP realizado com piezocone Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.43.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.43.

3.4.2.6 Ensaio pressiométrico (PMT)

Este ensaio consiste na expansão de uma sonda ou célula cilíndrica instalada em um furo executado no terreno, assim, esta célula, que normalmente é de borracha, expande-se através da injeção de água pressurizada, e têm-se sua variação de volume medida na superfície do terreno juntamente com a pressão aplicada, conforme apresentado na FIG.13 (VELLOSO e LOPES, 2011). Segundo os autores, a descrição do procedimento supramencionada é do pressiômetro Ménard, desenvolvido na década de 50 (FIG.13a), posteriormente desenvolveu-se o pressiômetro autoperfurante, no Laboratório Central de Ponts et Chaussées (LPCP), na França na década de 70 (FIG.13b) e outro da Universidade de Cambridge (FIG.13c).

36

Figura 13 – Ensaio PMT

36 Figura 13 – Ensaio PMT Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.44. De acordo com Velloso

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.44.

De acordo com Velloso e Lopes (2011), um típico resultado deste ensaio composto dos seguintes trechos, trecho de recompressão (0 – A), trecho aproximadamente elástico linear (A - B) e trecho elatoplástico (B – C), conforme apresentado na FIG.14. Ressaltam os autores que a interpretação dos dados do ensaio fornece o estado de tensões iniciais (tensão inicial e o coeficiente de empuxo no repouso) e propriedades de deformação elástica do solo (o Módulo de Young pressiômetrico e o Módulo cisalhante). Para os autores este tipo de ensaio é muito sofisticado, sendo utilizado na Europa, principalmente na França, porém, pouco utilizado no Brasil.

37

Figura 14 – Resultado de ensaio pressiômetrico

37 Figura 14 – Resultado de ensaio pressiômetrico Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.45. 3.4.3 Principais

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.45.

3.4.3 Principais informações obtidas em ensaio SPT

Segundo Velloso e Lopes (2011), a primeira utilidade do ensaio SPT é a indicação da compacidade dos solos granulares (areias e siltes arenosos) e da consistência dos solos argilosos (argilas e siltes argilosos). Ainda segundo os autores, a norma de sondagem com SPT, NBR 6484, estabelece como critério o fornecimento, no boletim de sondagem, a compacidade ou consistência dos solos, junto com sua classificação. A TAB.1 apresentada os dados a serem fornecidos no boletim de sondagem conforme a NBR 6484 (2001).

Tabela 1 – Classificação do solo em relação a compacidade/consistência

Solos

N

Compacidade/Consistência

< 4

Fofa(o)

 

5 – 8

Pouco compacta(o)

Areias e siltes arenosos

9

– 18

Mediamente compacta(o)

19

– 40

Compacta(o)

>

40

Muito compacta(o)

 

<

2

Muito mole

 

3

– 5

Mole

Argilas e siltes argilosos

6

– 10

Média(o)

11

– 19

Rija(o)

>

19

Dura(o)

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.47.

38

Para Velloso e Lopes (2011), o projetista que se propõe a utilizar ábacos e tabelas deve considerar, impreterivelmente, a questão energia efetivamente aplicada no ensaio SPT, que possui variação com o método de aplicação dos golpes. De acordo com os autores, o sistema mais comum utilizado no Brasil é manual, com energia aplicada na ordem de 70% da energia nominal, já nos Estados Unidos, o processo é mecanizado com energia na ordem dos 60%. Ressaltam os autores que o número de golpes obtido através de uma sondagem brasileira pode ser majorado de 10 a 20%. Segundo Velloso e Lopes (2011 apud Gibbs e Holtz 2 , 1957; Bazaraa 3 , 1967), foram estabelecidas correlações entre o número de golpes (N) e a densidade relativas de areias, conforme FIG.15a. Mello 4 (1971, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.47), estabeleceu correlação entre N e o ângulo de atrito efetivo (FIG.15b).

Figura 15 – Relação entre N e a densidade relativa e o ângulo de atrito efetivo de areias

a densidade relativa e o ângulo de atrito efetivo de areias Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011,

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.47.

Para se avaliar a resistência não drenada das argilas saturadas dispõe-se das correlações apresentadas na FIG.16 (U.S. NAVY 5 , 1986, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.48). As propriedades de deformação dos solos, por sua vez, podem ser obtidas através do SPT associadas a métodos semiempíricos para estimativa de recalque de fundações superficiais (VELLOSO e LOPES, 2011). Os autores afirmam ainda que procedimento adicionais foram propostos recentemente com o objetivo de se obter mais dados deste ensaio, procedimentos estes que

2 GIBBS, H. J.; HOLTZ, W. G. Research on determining the density of sands by the spoon penetration test. In:

International Conference on Soil Mechanics and Foundation Engineering, 4., London, 1957.

3 BAZARAA, A. R. S. S. The use of the Standard Penetration Test for estimating settlemet of shollow foundation ou sand. PhD Thesis-Champaigne-Urbana, University of Illinois, 1967.

4 MELLO, V. F. B, de. The Standard Penetration Test. In: PANAMERICAN CONFERENCE OF SOIL MECHANICS AND FOUNDATION ENGINEERING, 4. San Juan, 1971.

5 U. S. NAVY. Design manual NAVFAC 7, Naval Facilities Engineering Command. Washigton: U.S. Government Printing Office, 1986.

39

consistem em: aplicação de torque ao amostrador visando à estimativa de atrito lateral de estacas, e a observação da penetração de um tubo que substitui o amostrador sob a ação estática do peso de bater visando à estimativa da resistência de argilas muito moles.

Figura 16 – Relação entre N e a resistência não drenada de argilas

Relação entre N e a resistência não drenada de argilas Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.48.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.48.

2.5 Fundações Profundas

Segundo Brito (1987), devido as dimensões das peças estruturais as fundações indiretas são todas profundas, com transferência das cargas por efeito de ponta e por efeito de atrito lateral. De acordo com a NBR 6122 (2010), a fundação profunda é um elemento que possui resistência de ponta, em que a transmissão de carga ao terreno é realizada pela base, e a resistência de fuste, com essa transmissão sendo feita por superfície lateral. Ainda segundo a norma, neste tipo de fundação incluem-se as estacas, tubulões e caixões.

Velloso e Lopes (2011), afirmam que, no Brasil, a norma NBR 6122 (2010) reconhece a execução dos seguintes tipos de estacas: de madeira, de concreto pré-moldado e de aço cravadas (por percussão, prensagem ou vibração), estaca do tipo Franki, tipo Strauss, estaca escavada (sem revestimento, com revestimento de aço), estaca raiz, microestaca injetada e estaca hélice. Complementam os autores que os Tubulões se dividem em Tubulão a céu aberto e Tubulão a ar comprimido (Tubulão pneumático).

40

A norma NBR 6122 (2010) estabelece que nas fundações profundas a profundidade de

assentamento deve ser maior que o dobro da menor dimensão em planta do elemento de

fundação, conforme esquematicamente mostrado na FIG.17.

Figura 17 – Fundação profunda

mostrado na FIG.17. Figura 17 – Fundação profunda Fonte: UFC, 2016, s.p. 3.5.1 Estacas Segundo a

Fonte: UFC, 2016, s.p.

3.5.1 Estacas

Segundo a norma NBR 6122 (2010, p.3) define as estacas como sendo, "elemento de fundação

profunda executado inteiramente por equipamento ou ferramentas, sem que, em qualquer fase

de sua execução, haja descida de pessoas. Os materiais empregados podem ser: madeira, aço,

concreto pré-moldado, concreto moldado in loco ou pela combinação dos anteriores".

Segundo Velloso e Lopez (2011), as fundações em estacas podem ser classificadas através de diferentes critérios, de acordo com o material: estaca de madeira, de concreto, de aço e mistas;

de acordo com o processo executivo: segundo o tipo de deslocamento (efeito no solo) que

provocam ao ser executadas, e podem ser: de deslocamento (estacas cravadas em geral, sendo que o espaço ocupado pela estaca é deslocado horizontalmente), e de substituição (estacas escavadas em geral, sendo que o espaço ocupado por estas estacas é removido, causando redução

de tensões horizontais geostáticas). A TAB.2 estabelece os principais tipos de estacas executados no Brasil.

41

Tabela 2 – Tipos de estacas

Tipo de execução

Estacas

Grande

Deslocamento

(i)

Tipo Franki

(ii)

microestacas injetadas

Pequeno

Deslocamento

(i) Estacas hélice especiais

Estacas moldadas in loco

(i) Escavadas mecanicamente com trado helicoidal

Sem Deslocamento

 

(ii)

Estacas raiz

 

(i)

Escavadas sem revestimento ou com uso de lama

De substituição

(ii)

Tipo Strauss

(iii)

Estaca hélice contínua em geral

 

(iv)

Tipo Broca

Estacas pré-moldadas

Grande

Deslocamento

(i)

Estaca de Madeira

(ii)

Estaca de Concreto

(iii)

Estaca Metálicas

Fonte: Adaptado (VELLOSO e LOPES, 2011, p.182.) e (UFC, 2016).

Para Terzaghi e Peck 6 (1967, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.182), as estacas podem ser agrupadas em três tipos:

I. Estacas de atrito em solos granulares muito permeáveis: a maior parte da carga é transferida por atrito lateral. A porosidade e a compressibilidade do solo são reduzidas dentro e ao entorno do grupo, devido ao processo de cravação. Assim, as estacas desta categoria são chamadas, também, de estacas de compactação. II. Estacas de atrito em solos finos de baixa permeabilidade: cargas transferidas por

atrito lateral, porém não produzem compactação apreciável do solo. As fundações suportadas por essas estacas são conhecidas como fundações em estacas flutuantes.

III. Estacas de ponta: as cargas são transferidas a uma camada resistente de solo, situada a uma profundidade considerável abaixo da base da estrutura.

A seguir, são apresentadas as definições, vantagens e desvantagens, e os processos executivos dos principais tipos de estacas empregadas no Brasil.

3.5.1.1 Estacas de madeira

As estacas de madeira são utilizadas no Brasil, quase que exclusivamente, em obras provisórias, sendo constituídas por troncos de árvores, com uma preparação das extremidades (topo e ponta) para cravação (FIG.18), limpeza da superfície lateral e, um tratamento com produtos

6 TERZAGHI, K., and PECK, R.B. Soil Mechanics in Engineering Practice, 2nd. edition, John Wiley and Sons, New York, 1967.

42

preservativos caso sejam utilizadas em obras permanentes (VELLOSO e LOPES, 2011). Para os autores, esse tipo de estaca possui duração ilimitada quando mantida permanentemente debaixo d’água, e quando sujeita a alternâncias de umidade e secura, quase todas as madeiras são destruídas rapidamente. Ainda segundo os autores, as vantagens seriam a facilidade de manuseio, de corte e preparação para a cravação e após a cravação. Em regra, as estacas de madeira não devem ser utilizadas em obras terrestres sem tratamento, quando estão inteiramente ou parcialmente acima do lençol d’água subterrâneo. (VELLOSO e LOPES, 2011)

Figura 18 – Estacas de madeira sem(a) e com reforço de ponta(b)

18 – Estacas de madeira sem(a) e com reforço de ponta(b) Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011,

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.189.

As seguintes prescrições são estabelecidas pela NBR 6122 (2010) para estacas de madeira:

Os diâmetros da ponta e do topo devem ser maiores que 15 e 25 cm, e o seguimento de reta que une os centros das seções da ponta e do topo deve estar compreendido integralmente no interior do perímetro da estaca; Para minimizar os danos durante a cravação deve-se proteger o topo das estacas por cepos ou capacetes menos rígidos. Porém, quando ocorrer algum dano na cabeça da estaca durante a cravação, a parte afetada deve ser cortada e; deve-se proteger as pontas, com ponteiras de aço, para penetrar ou atravessar camadas resistentes; As estacas devem possuir seus topos (cota de arrastamento) abaixo d’água permanente, em obras provisórias ou sob tratamento de eficácia comprovada, essa exigência pode ser dispensada; Em terrenos com matacões deve-se evitar este tipo de estaca; Controle de execução – locação do centro das estacas, profundidade de cravação, proteção da cabeça das estacas com capacete metálico.

43

De acordo com a Universidade Federal do Ceará (UFC, 2016), devem ser executadas com madeira dura, resistente, através de peças retas, roliças e descascadas, com diâmetros entre 18 a 35 cm, e comprimento de 5 a 8 m. Ainda segundo a autora, apresenta vida útil ilimitada quando mantida permanentemente abaixo do nível d’água, sendo as mais utilizadas o eucalipto, peroba do campo, maçaranduba, aroeira, dentre outras.

3.5.1.2 Estacas metálicas

Segundo Velloso e Lopes (2011), as estacas metálicas podem ser em forma de perfis laminados, perfis soldados, trilhos soldados, tubo de chapada calandrada e soldada ou sem costura (Fig.19). A norma NBR 6122 (2010) estabelece que a cravação pode ser feita por percussão, prensagem ou vibração, sendo que, a escolha do equipamento deve ser associada ao tipo, dimensão da estaca, condições de vizinhança, características do solo e do projeto e peculiaridade do local. Cornfield 7 (1974) e British Steel Corporation 8 (1976, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.193), afirmam que as estacas metálicas possuem as seguintes vantagens:

Fabricação com seções transversais de várias formas e dimensões, o que permite adaptação de ajuste para cada caso; São fáceis de transportar e manipular devido ao pequeno peso e à elevada resistência na compressão, tração e flexão; São mais fáceis de cravar do que estacas de madeira e de concreto pré-moldado devida a elevada resistência do aço, o que facilita ultrapassar camadas compactas e o embutimento nesses materiais; Não oferecem dificuldades nos ajustes de comprimento no canteiro de obras, devido a facilidade de corte com maçarico ou emendas por soldas, além do aproveitamento dos pedaços cortados no prolongamento de outras estacas; Em casos especiais pode-se utilizar aços resistentes a corrosão; Controle execução: locação centro/estacas, profundidade/cravação, emendas e nega 9 .

Segundo a Universidade Federal do Ceará (UFC, 2016), estas estacas apresentam elevada

7 CORNFIELD, G. M. Steel bearing pires, CONSTRADO – Constructional Steel Research and Development Organisation, Croydon (UK), 1974.

8 BRITISH STEEL CORPORATION. Piling Handbook, 1976.

9 Nega é o comprimento médio, pré-fixado em projeto, obtido dos 10 últimos golpes do martelo durante a cravação. Medida dinâmica e indireta da capacidade de carga da estaca, com objetivo em verificar a uniformidade do estaqueamento. (ECIVILNET, 2016)

44

capacidade de suporte, grande rapidez de execução, além de que, as perturbações produzidas durante a cravação são inferiores as produzidas por estacas de concreto.

Figura 19 – Estacas metálicas ou de aço

de concreto. Figura 19 – Estacas metálicas ou de aço Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.192.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.192.

3.5.1.3 Estacas pré-moldadas

A resistência a agentes agressivos e por suportar muito bem as alternâncias de secagem e umedecimento, além da condição de executar estacas de pequena e grande capacidade de carga, fazem do concreto o melhor material de construção para confecção de estacas (VELLOSO e LOPES, 2011). Segundo os autores as estacas pré-moldadas são moldadas em usinas ou no canteiro de obra, e podem se classificar quanto à forma de confecção (FIG.20), como concreto vibrado, concreto centrifugado, extrusão, e quanto à armadura, como concreto armado e concreto protendido.

Figura 20 – Estacas pré-moldadas de concreto

armado e concreto protendido. Figura 20 – Estacas pré-moldadas de concreto Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011,

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.198.

45

Para Brito (1987), este tipo de estacas costuma ser pré-fabricada por empresas especializadas, ou no próprio canteiro por meio de um processo de controle rigoroso. O autor afirma que em decorrência do problema com transporte e equipamento, por limitações de comprimento, o que leva a fabricação em segmentos, proporciona a necessidade de grandes estoques e requerem armaduras especiais para içamento e transporte.

Segundo Velloso e Lopes (2011), a grande vantagem da esta pré-moldada sobre as moldadas no terreno está na qualidade do concreto que se pode obter e devido aos agentes agressivos, presentes no solo, não conseguirem nenhuma ação na pega e cura do concreto. Para os autores, outra vantagem é a segurança em ultrapassar camadas muito moles, onde a concretagem in loco pode apresentar problemas. Os autores afirmam ainda que a principal desvantagem das estacas pré-moldadas é a dificuldade de adaptação as variações de profundidade do terreno, caso se tenha grandes variações e a previsão do comprimento da estaca não foi feita adequadamente, poderá ser necessário enfrentar problemas de corte e emendas, ocasionando, assim, prejuízo para a obra.

Segundo a NBR 6122 (2010), a escolha do equipamento a ser adotado deve ser feita de acordo com o tipo e dimensão da estaca, características do solo, condições de vizinhança, características do projeto e peculiaridades do local. Este tipo de estaca não é recomendado em terrenos com matacões ou camadas pedregulhosas (UFC, 2016). Cargas usuais de trabalho são apresentadas na TAB.3.

Tabela 3 – Cargas usuais de trabalho para estacas pré-moldadas de concreto

Carga Usual

Carga Máxima

 

Tipo de estaca

Dimensão (cm)

(kN)

(kN)

 

20

x 20

250

350

Vibrada quadrada

25

x 25

400

550

(s

= 6 a 9 MPa)

30

x 30

550

800

 

35

x 35

800

1000

Vibrada circular

20

300

400

29

500

600

(s

= 9 a 10 MPa)

     

33

700

800

Protendida circular

20

250

350

25

500

600

(s

= 10 a 14 MPa)

     

33

700

800

 

20

250

300

26

400

500

Centrifugada circular

33

600

750

(s

= 9 a 11 MPa)

42

900

1150

 

50

1300

1700

60

1700

2300

Fonte: HACHIC, Waldemar et al, 1998, p.224.

46

3.5.1.4 Brocas

Segundo Velloso e Lopes (2011), este tipo de estaca é executado com trado manual entre 20 a 40 cm de diâmetro, sendo empregada em situações que a base fica acima do nível d’água ou que possa seguramente realizar a secagem do furo antes da concretagem (FIG.21). Os autores afirmam ainda que, como resultado do dimensionamento estrutural e devido as condições de suportes estabelecida pelo terreno a esse tipo de estaca, as cargas de trabalho são relativamente baixas.

Figura 21 – Execução de estaca tipo Broca

baixas. Figura 21 – Execução de estaca tipo Broca Fonte: NAKAMURA, 2013, s.p. A Universidade Federal

Fonte: NAKAMURA, 2013, s.p.

A Universidade Federal do Ceará (2016) afirma que o diâmetro varia entre 15 e 25 cm e o comprimento até 6 m, sendo, normalmente, empregadas para pequenas cargas devido as limitações do seu processo executivo, conforme demostrado na TAB.4.

Tabela 4 – Cargas usuais e máximas para estacas tipo brocas

Diâmetro

Tensão

Carga Usual

Carga Máxima

(cm)

(MPa)

(kN)

(kN)

15

50

70

20

3 a 4

100

150

25

150

200

Fonte: UFC, 2016.

47

3.5.1.5 Estacas Strauss

Estaca moldada no solo através de um equipamento simples, sendo um tripé com ganchos, um pequeno pilão, uma ferramenta de escavação, e tubos de revestimento (VELLOSO e LOPES, 2011). Segundo os autores a execução é realizada através da descida de um tubo de revestimento no terreno, por processo semelhante ao das sondagens à percussão ou por escavação pelo interior do tubo com uma ferramenta chamada piteira (FIG.22). Ao se atingir a cota desejada, o tubo é preenchido com cerca de 75 cm de concreto úmido, que se apiloa à medida que o tubo é retirado. Manobra que é repetida até o concreto atingir um pouco acima da cota de arrasamento para garantir boa qualidade do concreto. Os autores afirmam ainda que, por requer grande cuidado na execução, é desaconselhável que se trabalha com esse tipo de estaca abaixo do lençol d’água.

Figura 22 – Execução de estaca tipo Strauss

d’água. Figura 22 – Execução de estaca tipo Strauss Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.206. Segundo

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.206.

Segundo a Universidade Federal do Ceará (2016), a vantagem operacional deste tipo de estaca está na leveza e simplicidade do equipamento de execução, possibilitando a utilização em locais

48

2confinados, terrenos acidentados ou interiores de construções existentes, além de não provocar vibrações no processo executivo. A cargas usuais, em função do diâmetro, são apresentadas na

TAB.5.

Tabela 5 – Cargas usuais e máximas para estacas tipo Strauss

Diâmetro do Furo

Tensão

Carga Usual

(cm)

(MPa)

(kN)

25

200

32

4

300 – 350

38

450

45

650

3.5.1.6 Estacas Franki

Fonte: HACHIC, 1998, p.225.

Segundo Velloso e Lopes (2011), esse tipo de estaca ganhou mercado devido ser uma estaca de qualidade e a custo vantajoso, pelos comprimentos menores de estaca por causa da base alargada e da concretagem apenas no comprimento necessário. Porém, os autores afirmam que, o modelo original veio perdendo espaço devido as vibrações produzidas. A FIG.23 apresenta a sequência de execução deste tipo de estaca, conforme a Universidade Federal do Ceará (2016) são estacas de grande deslocamento classificadas como:

1ª Etapa – posicionamento do tubo de revestimento e formação da bucha (brita e areia) no interior do tubo através da compactação pelo impacto do pilão, fazendo o material aderir fortemente ao tubo; 2ª Etapa: cravação do tubo no terreno através de sucessivos golpes do pilão na bucha; 3ª Etapa: após cravação, o tubo é preso à torre do bate-estacas por meio de cabos de aço, para expulsar a bucha e iniciar a execução da base alargada através do apiloamento de sucessivas camadas de concreto seco; 4ª Etapa: colocação da armação da estaca de forma a garantir sua ligação com a base; 5ª Etapa: concretagem do fuste e recuperação do tubo; 6ª Etapa: finalização dos processos executivos, com concretagem do fuste até 30cm acima da cota de arrasamento.

49

Figura 23 – Execução de estaca tipo Franki

49 Figura 23 – Execução de estaca tipo Franki Fonte: HACHIC, 1998, p.330. Segundo a Universidade

Fonte: HACHIC, 1998, p.330.

Segundo a Universidade Federal do Ceará (UFC, 2016), devido as características do processo executivo, este tipo de estaca não é recomendado em terrenos com matacões devido às vibrações, e em terrenos com camadas de argila mole saturada, devido aos problemas de estrangulamento do fuste. A TAB.6 apresenta as cargas de trabalho em função do diâmetro do fuste. A NBR 6122 (2010), estabelece relações entre o diâmetro da estaca, a massa e o diâmetro do pilão, para cravação a percussão por queda livre.

Tabela 6 – Cargas usuais e máximas para estacas tipo Franki

Diâmetro do Furo

Tensão

Carga Usual

Carga Máxima

(cm)

(MPa)

(kN)

(kN)

35

600

1000

40

6 a 10

750

1300

52

1300

2100

60

1700

2800

Fonte: HACHIC, 1998, p.226.

50

3.5.1.7 Estacas escavadas

De acordo com Velloso e Lopes (2011), estacas escavadas são executadas por uma escavação ou perfuração no terreno, com retirada de material, e posteriormente enchimento com concreto. Os autores ainda afirmam que as escavações podem ter ou não suas paredes suportadas por um revestimento recuperável ou perdido, ou por fluido estabilizante (FIG.24), sendo permitida a perfuração não suportada apenas em terrenos argiloso acima do lençol d’água, natural ou rebaixado.

Figura 24 – Execução de estaca escavada

ou rebaixado. Figura 24 – Execução de estaca escavada Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.214. 2.5.1.8

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.214.

2.5.1.8 Estaca raiz

A estaca raiz caracteriza-se pela perfuração rotopercussiva ou rotativa e por uso de revestimento integral no trecho em solo, por meio de um conjunto de tubos metálicos recuperáveis, sendo completada, com a colocação da armadura em toda extensão do tubo e preenchida com argamassa cimento/areia (NBR 6122, 2010). Velloso e Lopes (2011) descrevem algumas

51

particularidades que este tipo de estaca permite em sua utilização e que não podem ser empregados em outros tipos de estaca, são elas:

Não produzem choques nem vibrações; Existem ferramentas que permitem a execução através de obstáculos como peças de concreto e blocos de rochas; Possibilita o trabalho em ambientes restritos, pois os equipamentos, em geral, são de pequeno porte, e; Podem ser executadas na vertical ou em qualquer inclinação.

Velloso e Lopes (2011) ressaltam que devido a essas características, as estacas raiz e as microestacas injetadas, praticamente retiraram do mercado as estacas prensadas (Tipo Mega). A FIG.25 apresenta as fases de execução deste tipo de sondagem.

Figura 25 – Execução de estaca raiz

as fases de execução deste tipo de sondagem. Figura 25 – Execução de estaca raiz Fonte:

Fonte: HACHIC, 1998, p.361.

52

3.5.1.9 Microestacas – escavadas e injetadas

Segundo Velloso e Lopes (2011), o processo executivo deste tipo de estaca usa-se, na perfuração, o processo rotativo com circulação de água ou lama bentonítica, e quando necessário coloca-se um tubo de revestimento provisório. Ainda segundo os autores, a armadura pode ser construída por um tubo de aço munido de válvulas expansíveis de borracha, ou por uma gaiola de vergalhões, por meio da qual, será injetada calda de cimento sob pressão. A FIG.26 mostra a execução de uma microestaca.

Figura 26 – Execução de uma microestaca

uma microestaca. Figura 26 – Execução de uma microestaca Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.225. O

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.225.

O processo executivo, conforme demostrado na FIG.26 possui as seguintes etapas:

a. Perfuração – usa-se o processo rotativo, com circulação de lama bentonítica ou água, no caso de areias fofas e argilas moles, coloca-se um tubo de revestimento provisório;

b. Armadura – pode ser constituída por um tubo de aço munido de válvulas expansíveis (manchetes) ou uma gaiola de vergalhões, através das quais será injetada calda de cimento sob pressão;

53

superfície. Posteriormente é realizada a injeção da calda de cimento sob pressão (até 20 kgf/cm²) através das válvulas manchetes, uma a uma, a fim de se ter o controle de qualidade da calda consumida. Por fim, procede-se o enchimento do tubo de injeção com argamassa ou calda de cimento. Desta forma, obtém-se um fuste irregular.

3.5.1.10 Estacas tipo hélice contínua

Segundo a NBR 6122 (2010), este tipo de estaca é de concreto moldada in loco, executada por rotação de um trado helicoidal contínuo e de injeção de concreto pela própria haste central do trado, de forma simultânea conforme sua retirada, sendo que a armação é colocada após a concretagem da estaca. Segundo Velloso e Lopes suas principais vantagens são o baixo nível de vibrações e a elevada produtividade. A FIG.27 ilustra a execução da estaca hélice contínua.

Figura 27 – Execução de estaca hélice contínua

Figura 27 – Execução de estaca hélice contínua Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.227. A TAB.7

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.227.

A TAB.7 apresenta as cargas nominais para as estacas do tipo hélice contínua em função do diâmetro executado.

Tabela 7 – Cargas nominais para estacas do tipo hélice contínua

Descrição

Unid

Valores

 

Diâmetro nominal

cm

35

40

50

60

70

80

90

100

Carga máxima

kN

600

800

1300

1800

2400

3200

4000

5000

Fonte: UFC, 2016, p.227.

54

3.5.1.11 Estacas Prensadas

De acordo com NBR 6122 (2010), estes tipos de estacas são constituídos por segmentos metálicos ou de concreto armado. Velloso e Lopes (2011) afirmam que, as de concreto podem ser tipo armado, centrifugado ou protendido, e as metálicas, do tipo perfis ou tubo de aço, sendo cravadas por prensagem com auxílio de macacos mecânicos. Os autores afirmam ainda que, para cravação deste tipo de estacas emprega-se uma plataforma com sobrecarga ou a própria estrutura como reação (FIG.28), e que em toda estaca cravada realiza-se uma prova de carga.

Figura 28 – Execução de uma estaca prensada

de carga. Figura 28 – Execução de uma estaca prensada Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.231.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.231.

3.5.2 Tubulões

Por sua vez a NBR 6122 (2010, p.3), define tubulão como, "elemento de fundação profunda, escavado no terreno em que, pelo menos na sua etapa final, há descida de pessoas, que se faz necessária para executar o alargamento de base ou pelo menos a limpeza do fundo da escavação, uma vez que neste tipo de fundação as cargas são transmitidas preponderantemente pela ponta".

Segundo Velloso e Lopes (2011), tubulões podem ser executados sem revestimento ou com revestimento (metálico ou de concreto), conforme ilustrado na FIG.29. De acordo com os autores, os tubulões podem ser divididos em dois grupos, sendo tubulões a céu aberto (sem ar comprimido) ou tubulão pneumático (a ar comprimido). Os autores afirmam ainda que, a

55

concretagem pode ser feita por meio de concretagem a seca, com concreto lançado da superfície do terreno, ou concretagem embaixo d’água, com auxílio de uma tromba ou tremonha. A NBR 6122 estabelece que a tremonha é uma tromba (tubo) conectado a um funil, e este deve ter comprimento mínimo de 1,5 m.

Figura 29 – Tipo de tubulões quanto ao revestimento

m. Figura 29 – Tipo de tubulões quanto ao revestimento Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.233.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.233.

3.5.2.1 Tubulões a céu aberto

De acordo com a NBR 6122 (2010, p.3), é um tipo de fundação profunda escavada manualmente ou mecanicamente, com descida de pessoal para limpeza do fundo ou alargamento da base. A norma afirma que, "as cargas são transmitidas essencialmente pela base a um substrato de maior resistência", com execução realizada acima do lençol freático ou abaixo dele, em casos de solo estável sem riscos de desmoronamento e com possibilidade de controlar a água no interior do tubulão. As fases de execução desse tipo de tubulão estão ilustradas na FIG.30.

56

Figura 30 – Execução de tubulão a céu aberto

56 Figura 30 – Execução de tubulão a céu aberto Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.234.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.234.

3.5.2.2 Tubulões a ar comprimido

Segundo a NBR 6122 (2010) este tipo de tubulão é empregado não execução de tubulões abaixo do nível d’água em solos que não atendam características de estabilidade e possibilidade de controlar a água no interior do tubulão. Ressalta a norma que, a escavação do fuste é sempre realizada com auxílio de revestimento de aço ou de concreto (FIG.31).

De acordo com Velloso e Lopes (2011), o diâmetro mínimo interno é de 80cm para todo tipo de tubulão, e no tubulão com revestimento de concreto, a espessura de parede deve ter 20cm, sendo reduzida para 10 cm em câmara de trabalho. A Portaria do Ministério do Trabalho e Emprego nº 644 (MTE, 2013) complementa que o diâmetro interno poderá ser de 70 cm, com justificativa técnica do engenheiro responsável pela fundação.

57

Figura 31 – Execução de tubulão a ar comprimido

57 Figura 31 – Execução de tubulão a ar comprimido Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.235.

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.235.

3.6 Escolha do Tipo de Fundação

Segundo Alonso (2010), a escolha de uma fundação para determinada construção deve constatar que a mesma satisfaça as condições técnicas e econômicas da obra, com base nos seguintes elementos:

Proximidade dos edifícios limítrofes, bem como seu tipo de fundação e estado da mesma;

Natureza e característica do subsolo local;

Grandeza das cargas a serem transmitidas à fundação;

Limitação dos tipos de fundação existentes no mercado.

De acordo com Alonso (2010), escolhe-se os tipos de fundação que satisfaçam tecnicamente o caso em questão, e posteriormente, realiza-se um estudo comparativo de custos dos diversos tipos selecionados, visando escolher o mais econômico. O autor complementa que na inexistência de cálculo estrutural, estima-se a ordem de grandezas das cargas da fundação a partir do porte da obra, onde pose-se adotar, para estruturas de concreto armado destinadas a moradias ou escritórios, a carga média de 12 kPa/andar. As seguintes fundações a serem

58

pesquisadas são fundação rasa, fundação em estacas (brocas, Strauss, pré-moldadas, Franki, metálicas, prensadas e as escavadas), fundação em tubulões (ALONSO, 2010). O QUADRO 1 a seguir apresenta critérios gerais de escolha de, no mínimo, as fundações que devem ser pesquisadas.

Segundo Rabello (2008), a fundação profunda será adotada quando a fundação rasa não for aconselhável. Para isso, o autor considera que o número de golpes da sondagem (SPT) deverá ser maior ou igual a 8 até a profundidade de 2 metros para que se possa considerar a execução de fundação rasa. O autor, ressalta ainda que, em fundações profundas a transferência de carga da superestrutura é realizada através do atrito lateral do fuste e o solo e a resistência de ponta.

59

Quadro 1 – Critérios gerais para escolha do tipo de fundação

TIPO DE FUNDAÇÃO

 

CRITÉRIOS

 

Tipo de fundação vantajoso quando a área ocupada de fundação abranger, no máximo, de 50 a 70% da área disponível;

Fundação Rasa

De maneira geral, não de ser utilizada em aterros não compactados, argila mole, areia fofa e muito fofa, existência de água onde o rebaixamento do lençol freático não se justifica economicamente.

 

FUNDAÇÃO PROFUNDA – ESTACAS

 

Aceitáveis para pequenas cargas, de 50 a 100 kN, mesmo acima do nível d’água; São de diâmetro variável de 15 a 25 cm e comprimento em torno de 3 metros.

Brocas

 

Faixa de carga compreendida entre 200 a 800 kN; Não provocam vibrações e, quando justapostas, podem servir de cortina de contenção para execução de subsolos; Não recomendado abaixo do nível d’água, principalmente em solo arenoso, devido a inviabilidade de secagem da água no tubo; Não recomendado em solos de argilas moles saturadas por causa do risco de estrangulamento do fuste durante a concretagem.

Strauss

 

Faixa de carga entre 200 a 1500 kN; Não recomendado em terrenos com presença de matacões ou camadas de pedregulhos, e em terrenos com previsão de cota da ponta da estaca muito variável, e em caso de precariedade das construções vizinhas, devido as vibrações da estaca.

Pré-moldadas

 

Faixa de carga de 550 a 1700 kN; Não recomendado em terrenos com matacões, construções vizinhas em estado precário (excesso de vibrações), terrenos com camada de argila mole saturada (estrangulamento do fuste); Recomendado no caso de camadas resistentes encontrarem-se a profundidades variáveis, terrenos com pedregulhos ou pequenos matacões dispersos.

Franki

 

Faixa de carga de 400 a 3000 kN; Recomendado em casos que não se deseja vibrações nas escavações, quando servem de apoio para pilares de divisa (eliminam uso de vigas de equilíbrio e ajuda no escoramento).

Metálicas

 

Faixa de carga em torno de 720 kN; Recomendado no caso de reduzir as vibrações ao máximo e quando nenhum tipo de estaca pode ser feito.

Prensadas

 

Faixa de cargas elevada acima de 1500 kN; Não causam vibrações, porém necessitam de área grande para instalação dos equipamentos para execução.

Escavadas

 

FUNDAÇÃO PROFUNDA – TUBULÕES

 

Utilizado acima ou abaixo do nível d’água em terreno predominantemente argiloso; Utilizados para qualquer faixa de cargas, não causam vibrações.

A céu aberto

 

Executados abaixo do nível d’água (coluna máxima de 30m); Utilizados para cargas elevadas acima de 3000 kN.

A ar comprimido

Fonte: ALONSO, 2010, p. 117 – 121.

60

3.6.1 Escolha do tipo de estaca

Segundo Cintra e Aoki (2010), a escolha do tipo de fundação parte da análise de dados da edificação (tipo, porte, localização, valores das cargas de pilar, etc.) e principalmente de dados do terreno, como a sondagem SPT. Os autores afirma que, após análise e delimitação dos tipos de fundação tecnicamente viáveis, a opção por determinado tipo de estaca já inclui a definição do diâmetro e da seção transversal do fuste da estaca, conforme as cargas de catálogo de fabricantes ou executores desses tipos de estaca.

De acordo com Cintra e Aoki (2010), devemos considerar dois aspectos relativos à exequibilidade para cada tipo de estaca, sendo que um refere-se ao comprimento máximo limitado pelo equipamento disponível; o outro refere-se à diminuição da eficiência do equipamento com o aumento da resistência do solo, com possibilidade de parada da estaca. Na prática, pode-se estabelecer para cada tipo de estaca, uma faixa de valores de N SPT em que costuma ocorrer a parada da estaca (TAB.8), sendo estes valores, interpretados como limites máximos para a cravabilidade ou escavabilidade, sem que haja recursos executivos adicionais para garantir a penetração. (CINTRA e AOKI, 2010)

Tabela 8 – Valores limites de N SPT para a parada de estacas

Tipo de estaca

Nlim

Pré-moldada de concreto

< 30 cm

15 < N SPT < 25 N SPT = 80

30 cm

25 < N SPT 35

Perfil metálico

25 < N SPT 55

Tubada (oca, ponta fechada)

20 < N SPT 40

Strauss

10 < N SPT 25

 

Em solos

Franki

arenosos

8 < N SPT 15

Em solos

 

argilosos

20 < N SPT 40

Estação e diafragma, com lama bentonítica

30 < N SPT 80

Hélice contínua

20 < N SPT 45

Ômega

20 < N SPT 40

Raiz

N SPT 60 (penetra na rocha sã)

Fonte: CINTRA E AOKI, 2010, p.48.

O Quadro 2 apresenta um resumo dos critérios para a escolha da fundação.

61

Quadro 2 – Critérios específicos escolha tipo de fundação

   

Unidade

Tipo de Fundação

Critérios de Escolha

de Custo

por 10kN

Fundação Direta

Número de Golpes N (SPT) maior ou igual a 8 em profundidade de até 2 metros.

 

-

Broca

Carga do pilar inferior a 400 kN; Parar escavação no solo com SPT acima de 12; Comprimento inferior a 6 metros; Não executar abaixo do lençol freático;

1

uc

Strauss

Carga dos pilares até 1600 kN; Impossibilidade de execução abaixo nível d’água;

1,5 uc

Escavada Mecanicamente com Trado Espiral

Avaliar possibilidade de acesso do equipamento; Impossibilidade de execução abaixo nível d’água

1,5 uc

Pré-moldada de concreto

Avaliar possibilidade de acesso do bate-estaca; Mais limpa do que a Strauss e às de trado espiral, porém cerca de 20% mais cara;

4

uc

Hélice Contínua

Carga do pilar acima de 1000 kN;

3

uc

Franki e Escavada com Lama Betonítica

Carga do pilar acima de 5000 kN;

5

uc

Tubulão

Viável para pequenas cargas e em substituição das estacas Franki, hélice contínua e escavada com lama betonítica, ou quando o local não permitir o acesso do equipamento para execução de outros tipos de estaca;

10 uc

Fonte: RABELLO, 2008, p.115-116.

62

4 METODOLOGIA

O presente trabalho compreende a análise comparativa entre dois tipos de fundação profunda, sendo ele embasado em relatórios de sondagem reais, estudo de caso em questão. Para obtenção dos resultados realizou-se uma revisão bibliográfica, a cerca, dos tipos de fundação profunda. Posteriormente, a partir do levantamento de dados em campo, da planta de cargas e perfis geotécnicos do terreno, limitou-se o dimensionamento da fundação para alguns tipos de estaca e tubulão, conforme critérios de seleção mencionados anteriormente. Ressalta-se que parte dos dados foram levantados em campo para análise dos parâmetros geotécnicos e fatores essenciais para o dimensionamento; já a outra parte, além da pesquisa bibliográfica, realizou-se investigação documental com busca de informações em arquivos públicos para a verificação de critérios e procedimentos obrigatórios para o dimensionamento de fundações. Todos os procedimentos de dimensionamento foram realizados no software Microsoft Office Excel para facilitar análise dos resultados.

4.1 Capacidade de Carga – Métodos Estáticos

De acordo com Velloso e Lopes (2011), estes métodos são utilizados no cálculo da capacidade de carga, onde a estaca mobiliza toda a resistência ao cisalhamento estático do solo, obtidos, assim, em ensaios laboratoriais ou in situ. Os autores afirmam ainda que estes métodos se separam em racionais/teóricos (utilizam soluções teóricas de capacidade de carga e parâmetros do solo) e semiempíricos (baseiam em ensaios in situ de penetração, a exemplo SPT). Ressaltam os autores que, haveria os métodos empíricos, estimados através das camadas atravessadas, porém geram uma estimativa grosseira da capacidade de carga de uma estaca.

4.1.1 Método teórico resistência de ponta ou base

Segundo Velloso e Lopes (2011, apud Vesic 10 , 1965), neste método são estudadas fórmulas e soluções para resistência de ponta com base na Teoria da Plasticidade, supondo-se diferentes mecanismos de ruptura conforme ilustrado na FIG.32.

10 VESIC, A. S. Ultimate loads and settlements of deep foundations in sand, Bearing Capacity Settlements of Foundations, Symposium held at Duke University, Durham, North Carolina, 1965.

63

Figura 32 – Ruptura de diversas soluções teóricas

63 Figura 32 – Ruptura de diversas soluções teóricas Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.240. A

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.240.

A FIG.32 ilustra a solução apresentada por Velloso e Lopez (2011, apud Terzaghi 11 , 1943) e

será abordada a seguir. Segundo Velloso e Lopez (2011), nesta teoria, a ruptura do solo abaixo

da base da estaca, não pode ocorrer sem o deslocamento do solo para os lados e para cima.

4.1.1.1 Solução de Terzaghi (1943)

De acordo com Velloso e Lopes (2011, apud Terzaghi, 1943), na ruptura do solo abaixo da base da estaca ocorre o deslocamento do solo para cima e para os lados (FIG.33), sendo que os deslocamentos possuem tensões cisalhantes desprezíveis ao longo de L, pois, o solo é mais compressível do que abaixo da base, sendo assim, a resistência de ponta pode ser calculada.

a.

Para base circular (diâmetro B)

b. Para base quadrada (B x B)

, 1,2

0,6

, 1,2 0,8

(Eq.1)

(Eq.2)

Em que c é a coesão do solo; g, é o peso específico do solo sob a fundação; B, a menor largura;

N c , N q , N g são fatores de capacidade de carga e S c , S q , S g são fatores conforme o tipo de forma.

11 TERZAGHI, K. Theoretical Soil Mechanics. New York: John Wiley & Sons, 1943.

64

Figura 33 – Modelo de ruptura de Terzaghi

64 Figura 33 – Modelo de ruptura de Terzaghi Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.242. Para

Fonte: VELLOSO e LOPES, 2011, p.242.

Para Velloso e Lopes (2011), caso o solo for homogêneo, as tensões cisalhantes e os deslocamentos que ocorrem acima da base da fundação têm dois efeitos significativos: (1) podem alterar o mecanismo de ruptura de modo a invalidar os fatores de capacidade de carga

N c , N q , N g ; (2) alterar a intensidade da tensão vertical no solo junto à base da fundação. A TAB.9

são fornecidos os fatores de capacidade de carga N c , N q , N g (ruptura geral para solos de elevada

resistência) e N' c , N' q , N' g (ruptura local para solos de baixa resistência).

Tabela 9 – Fatores de Capacidade de Carga

f(º)

Nc

Nq

N g

N'c

N'q

N' g

0

5,7

1,0

0,0

5,7

1,0

0,0

5

7,3

1,6

0,5

6,7

1,4

0,2

10

9,6

2,7

1,2

8,0

1,9

0,5

15

12,9

4,4

2,5

9,7

2,7

0,9

20

17,7

7,4

5,0

11,8

3,9

1,7

25

25,1

12,7

9,7

14,8

5,6

3,2

30

37,2

22,5

19,7

19,0

8,3

5,7

35

57,8

41,4

42,4

25,2

12,6

10,1

40

95,7

81,3

100,4

34,9

20,5

18,8

45

172,3

173,3

297,5

51,2

35,1

37,7

Fonte: BOWLES 12 (1968, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.241).

Segundo Alonso (2010), nos tubulões despreza-se a carga proveniente do atrito lateral, assim, os métodos para se estimar a taxa do solo neste tipo de fundação são:

12 BOWLES, J. E. Foundation analysis and design. 1.ed. New York: McGraw-Hill, 1968.

65

I. Método – Fórmula de Terzaghi – caso o solos apresente ruptura geral, a tensão de

, em que c é a

ruptura pode ser obtida por:

coesão do solo; g, é o peso específico do solo sob a fundação; B, a menor largura;

q, a pressão efetiva do solo na cota de apoio a fundação. Os fatores de carga (N c , N q ,

N g ) e os fatores de forma (S c , S q , S g ), podem ser obtidos nas FIG.34 e TAB.10.

Ressalta o autor que, solos com ruptura local utiliza-se 2/3 da coesão real do solo.

Figura 34 – Fatores de carga em função de ângulo de atrito interno f

Fatores de carga em função de ângulo de atrito interno f Fonte: ALONSO, 2010, p.98. Tabela

Fonte: ALONSO, 2010, p.98.

Tabela 10 – Fatores de forma

Forma da

Fatores de Forma

Fundação

S c

S g

S q

Corrida

1,0

1,0

1,0

Quadrada

1,3

0,8

1,0

Circular

1,3

0,6

1,0

Retangular

1,1

0,9

1,0

Fonte: ALONSO, 2010, p.98.

De acordo com Alonso (2010), realizado os cálculos e conhecido o s R , o valor da tensão

admissível s s será dado pela expressão:

!

"# , onde FS é o fator de segurança, geralmente

adotado de valor igual a 3. Segundo a NBR 6122 (2010), a profundidade de assentamento da base ou da ponta da estaca é aquela correspondente a uma carga de ruptura mínima de pelo menos duas vezes a carga admissível (útil) da estaca, assim, adota-se Fator de Segurança igual a 2.

66

4.1.2 Métodos semiempíricos utilizando o SPT

A sondagem a percussão com realização do SPT é a investigação geotécnica mais difundida e

realizada no Brasil, por isso, profissionais da área de fundações procuram estabelecer métodos

de cálculo de capacidade de carga de estacas utilizando os resultados deste tipo de sondagem (VELLOSO e LOPES, 2011). Segundo os autores, alguns dos principais métodos utilizados no Brasil são o método de Aoki-Velloso e o de Décourt-Quaresma.

4.1.2.1 Método de Aoki-Velloso (1975)

De acordo com Velloso e Lopes (2011) este método foi desenvolvido a partir de resultados de provas de carga em estacas e de SPT, sendo utilizada a seguinte expressão para uso dos dados obtidos em ensaios SPT:

$ = % &'

"

+

*&' Δl

"

(Carga de ruptura)

(Eq.3)

Em que, o cálculo da 1ª parcela, referente a carga resistida pela ponta é expresso por:

N = Número de golpes finais do ensaio SPT; K = Fator característico em função do solo; A = Área de Ponta; F1 = Fator em função do tipo de estaca.

O cálculo da 2ª parcela, referente a carga de atrito lateral, é expresso por:

N = Número de golpes finais do ensaio SPT; K = Fator característico em função do solo;

a=Parâmetro em função do solo;

Al = Área Lateral (perímetro da seção transversal da estaca x seu comprimento); F2 = Fator em função do tipo de estaca.

67

Segundo Velloso e Lopes (2011, apud, Monteiro 13 , 1997), com base na experiência adquirida

na empresa Estacas Franki Ltda., existem correlações diferentes tanto para os valores k e a,

quanto para os fatores F1 e F2. Os valores de k e a estão estabelecidos na TAB.11, e os valores

para os fatores de escala e execução F1 e F2 estão dispostos na TAB.12. Ressaltam os autores

que, Monteiro (1997) estabeleceu algumas recomendações para aplicação do método, sendo

elas: o valor de N é limitado a 40; e deverão ser considerados valores ao longo de espessuras

iguais a 7 e 3,5 vezes o diâmetro da base, conforme estabelecido na FIG.35. Sendo os valores

para cima adotados como q ps , e os valores para baixo fornecem q pi . Adotando-se:

,

= + -

2

./á1 213 43 5é4738

.Eq. 48

Tabela 11 – Valores de k e a

Tipo de solo

k (kgf/cm²)

a (%)

Areia

7,3

2,1

Areia siltosa

6,8

2,3

Areia siltoargilosa

6,3

2,4

Areia argilossiltosa

5,7

2,9

Areia argilosa

5,4

2,8

Silte arenoso

5,0

3,0

Silte arenoargiloso

4,5

3,2

Silte

4,8

3,2

Silte argiloarenoso

4,0

3,3

Silte argiloso

3,2

3,6

Argila arenosa

4,4

3,2

Argila arenossiltosa

3,0

3,8

Argila siltoarenosa

3,3

4,1

Argila siltosa

2,6

4,5

Argila

2,5

5,5

Fonte: MONTEIRO 14 (1997, apud VELLOSO e LOPES, 2011, p.266).

Tabela 12 – Valores de F1 e F2

Tipo de estaca

F1

F2

Franki de fuste apiloado Franki de fuste vibrado Metálica Pré-moldada de concreto cravada a percussão Pré-moldada de concreto cravada por prensagem Escavada com lama bentonítica Raiz Strauss Hélice contínua

2,3

3,0

2,3

3,2

1,75

3,5

2,5

3,5

1,2