1

Newton Messias

passagem
Poesia

2017
Recife – PE

Edição de Sammis Reachers
Foto de capa: Pixel 2013, Pixabay (Domínio Público)

2
Índice

Apresentação / 05
Prefácio / 06
Passagem / 08
Aparência / 09
Estética do oculto / 11
Serventia do espelho / 13
Paz moderna / 14
Altercultura / 15
Choro e riso / 16
Lições do semeador / 18
Pescador/ 20
Eclosão / 21
Ovo, ventre e grão / 22
Paciênca / 23
O tempo de Deus / 24
Necessidade / 26
Haikai / 27
Renascimento / 27
Restos e faltas / 28
Quadrinhas despreocupadas / 29
O peso do mundo / 31
A tormenta e sua paz / 32
3
Peace break / 33
O que e quando / 34
Zoom / 35
Ecce homo / 36
Bom homem / 37
Poema na areia / 40
Por fora / 42
Sobre ir juntos / 44
Nós / 45
Grandes e pequenos / 46
Quem é de Deus? (uma parábola) / 47
Saga de fruto / 49
Esperança / 50
Zé nuvem / 51
Visão / 52
Vida: via de mão dupla / 53
Bumerangue / 55
Ser quem sou / 56
Balada do amor de Pedro / 59
Sobrexistência / 61
Painossinho / 63
Graça / 64
1 coríntios 13 (um resumo poético) / 65

4
Apresentação
Em “Passagem” ofereço poemas que falam de
fé, amor, esperança, vida, ética e espiritualidade:
alguns deles não são muito comuns na poesia em
geral, mas são necessários. Além disso, são eles que
enchem meu coração, então não há como escapar.
Nele vai muito do que creio e do que espero para
mim e para os outros nessa dura caminhada que é a
vida aqui no chão da terra.
Agradeço o empenho de meu caro amigo, que
ainda não conheci pessoalmente, o também poeta e
editor Sammis Reachers, que editou esse e-book
que sonha virar livro físico algum dia.
Publico poesias diariamente em minha página
do facebook: https://www.facebook.com/poesiatd/

Boa leitura!

5
Prefácio
A poesia de Newton Messias é a verbalização
de sua ampla humanidade: ora ferida (& exposta),
ora oferta amiga, contundente em sua busca de paz
e equalização, justiça e misericórdia. Frutos que ela
quer e possui, e, em seu amor resiliente, avança
semeando-os em todas as escalas, fundando suas
próprias territorialidades semióticas.
Seu verso ora livre, ora liberto em rimas, tem
o toque desconcertante e álacre da poesia marginal;
alma e musicalidade são o tônus de suas
composições, onde toda uma herança de modernos
faz-se ouvir, ruído de fundo, eco a perpassar sua
prosódia prenhe de linguagens mestiçadas. Filho e
andarilho do mesmo chão pernambucano que um
Cabral de Mello Neto e um Manoel Bandeira,
encontramos em Newton um poeta feito, que
trabalha a palavra com a perícia com que dedilha
seu violão (é professor da violão clássico no
Conservatório Pernambucano de Música).
Sua poesia não se alheia, refém de vazios
alumbramentos, mas firma sua voz no cotidiano,
percebendo e decompondo(-se) (n)o zeitgeist, o
6
espírito de seu tempo, como neste trecho de Paz
moderna:
após desejar bom dia em trinta grupos do whatsapp
saiu calado sem cumprimentar ninguém
depois de assinar um avaaz contra a corrupção
estacionou na vaga de idoso (...)

Sua fé é a crença dos alforriados da
religiosidade, dos que depositam em Cristo o
somatório de tudo o que são – fraquezas e dons,
sucessos e angústias – enfastiados pelo moroso
amor e a célere corrupção que faz descarrilhar do
verdadeiro cristianismo a tantas das instituições
ditas cristãs.
É um prazer segredar a leitor que este
pequeno volume, para parafrasear o título de um
famoso livro de Mário Quintana, é um Baú de
(alegres) Espantos, uma aprazível seleta de poesia
das mais vivazes, audazes e comunicantes de
empoderamento, empoderamento em amor, que
tenho lido nos últimos tempos.

Sammis Reachers
Poeta e editor
7
passagem

sei que ele passa

(é nítida sua passagem)

não sei quantas vezes ele passa
(há muitas passagens a cumprir)

também não sei quando será -
ou terá sido - sua última passagem

o que sei é que

arrependimento é ir com ele

quando ele passa

8
Aparência
I
Tudo o que vemos
esconde algo
que nós não vemos

Está oculto
de nosso olhos
contudo existe

Exemplo: a árvore
no solo esconde
longas raízes

Um rio tranquilo
só é tranquilo
na superfície

Assim também
qualquer sorriso
pode ser triste

O "eu te amo"
pode esconder
um dedo em riste

9
II
É assim em tudo
aqui no mundo
das aparências

Onde é preciso
treinar a vista
pra ver além

Soprar com força
tirando o pó
da maquiagem

Fazer o incêndio
da coerência
queimar a imagem

Até que reste
a coisa nua:
verdade crua

Desvelamento
do que se esconde
por baixo e dentro

10
Estética do oculto

É sobre pessoas bonitas e feias...
Existem

Sei:
há muita feiura na boniteza
há beleza que parece feiura
e quem era bonito pode enfeiar
vice-versa três vezes

Também sei:
beleza (essa de dentro)
não tem no mercado
nas letras
na religião
no pacote instantâneo
do guru de plantão
Tampouco se compra
barato ou caro
do cirurgião

11
Beleza de dentro acontece depois
que o espelho revela
e se perde
a ilusão

A beleza começa
na visão da feiura
Não está na fachada
pois se encontra oculta

Não é obra acabada
mas se acha na busca
por aqueles que não
desistem da procura

12
Serventia do espelho

Não percebes
o quanto és ridículo
ou bobo ou mesquinho
até que descubras
por ti mesmo

Mas aí já será tarde
já deixaste de sê-lo

Melhor então
te servires
de um bom espelho
que são os bons olhos
(não quaisquer olhos)
alheios

13
paz moderna

após desejar bom dia em trinta grupos do whatsapp
saiu calado sem cumprimentar ninguém
depois de assinar um avaaz contra a corrupção
estacionou na vaga de idoso
após digitar ‘feliz aniversário’ numa timeline
qualquer
ignorou a tristeza do colega ao lado
depois de escrever hashtagparemaguerra
curtiu a página do facista militar
depois de curtir e comentar o gif Deus é amor
continuou achando que "bandido bom é bandido
morto"
continuou mandando todos pro inferno

e seguiu assim fraturando a vida
deixando o melhor de si no virtual
e o pior no mundo real

14
altercultura

húmus/humanos: chão fértil, ventre
(enxergar o húmus que o outro é)

semeadura: tudo o que lançamos é semente
(no húmus que o outro é)

germinação: o fruto, sonho do grão, voltará
semente/serpente
(é preciso dar tempo, soprar o grão)

colheita: prova da semeadura haverá sempre
(faca da vida e foice da morte)

15
choro e riso
"Aquele que sai chorando enquanto lança a semente,
voltará com cantos de alegria, trazendo os seus
feixes.” Salmos 126:6

I
é dura
a semeadura
como determina
sua rima

é seca
a terra, barreira
que esconde no chão
o grão

é escura
a noite em que fura
a terra, o toco
do broto

16
II
é pura
a velha cantiga
que junto à espiga
se entrança

ressoa
poesia remota
do feixe uma nota
se lança

madura
canção de alegria
amor, euforia
e dança

17
lições do semeador
para Caio Fábio

1
semeador é ponte
entre chão e semente
semeador é mão
seu lavor não é vão
2
semente boa
não escolhe chão
se lança
sobre sim ou não
3
o chão
paixão do grão
é também seu caixão

18
4
sementes tem inimigos
acima: que as roubam do chão
abaixo: proíbem raízes
ao lado: as sufocarão
5
boa terra
acolhe o grão
e expecta
o mover da mão
6
dorme o grão
acorda pão
morre o grão
renasce pão
re feição
7
é o mesmo grão
entre mão e chão
é o mesmo grão
entre chão e pão
ressureição

19
Pescador
para Sammis Reachers


onde a rede é o mar
meu poema vou lançar

de largo trançado
pesca quem quer ser pescado


fora do mar ácido
o vento convida o pássaro

(martim caçador?)
a ser também pescador

20
eclosão

para romper do ovo
a casca

e soltar o que preso
se acha

urge rasgar o que
separa:

fina membrana e casca:
furá-las

deixar soprar o vento
na cara

21
Ovo, ventre e grão

Nem todos nascerão
porque nem todos atinarão
na precisa ocasião da eclosão

Nem todos nascerão
porque nem todos suportarão
a dor da contração na concepção

Nem todos nascerão
porque nem todos tolerarão
o breu do chão até o brotar do grão

Nem todos morrerão
porque alguns se transfigurarão
em passarinho, pessoa e pão

22
paciência

lento lento lento
é tudo muito lento
é como um escorrer gosmento

é preciso adaptar-se ao andamento
adágio molto piu lento
cada coisa espera seu momento
o tempo de seu movimento
(a cortina não sobe antes do tempo)

desde o nascimento
e o lento crescimento
e da vida o florescimento
e do poema o arredondamento
até o nosso passamento

tudo tudo é acontecimento
lento lento lento
extremamente lento

23
O tempo de Deus

O tempo de Deus é um outro tempo:
é o tempo da paciente semeadura
e da lenta germinação do broto
até a culminância do fruto
sem agrotóxico ou fertilizante

O tempo de Deus é um outro tempo:
é o tempo do natural crescimento
sem a freima da magia hormonal
que torna adulto o jovem animal

O tempo de Deus é um outro tempo:
é o tempo do lento sazonamento
onde o próprio Deus deve esperar
trinta anos para então falar
(Hoje, qualquer menino de dezoito
diz que Deus está morto
enquanto ele esperou mais de trinta
para morrer pelo menino)

O tempo de Deus é um outro tempo:
é o tempo da navegação à vela
24
pelo indomável mar da Galiléia,
(zombamos desse tempo enquanto
em nossos titanics naufragamos)

O tempo de Deus é um outro tempo:
é o tempo das longas caminhadas
pelas estradas da pobre Judéia:
poeirentos percursos por entre
assombros, parábolas e mistérios

No tempo de Deus dá tempo
de olhar as aves do céu
e os lírios do campo
Dá tempo de abençoar as crianças...

Feliz o que ajusta suas velas
e reafina seu canto
ao outro ritmo de seu vento

25
Necessidade

É preciso que haja um Deus
a quem pedir perdão
por quem ser perdoado.

É preciso que haja um Deus
para que assim entendam
que somos muito iguais.

É preciso que haja um Deus
assim como é preciso
que exista mais perdão.

É preciso que haja uma Luz
pra onde todos olhem
na densa escuridão.

26
Haikai

Entre mim e Deus
Um imenso mar de silêncio
Mergulho. Sou eu.

Renascimento

Todas as manhãs renasço
como se tivesse dormido no útero de Deus
E tenho a clara percepção do que realmente
importa:
vaidades desmascaradas
veleidades esmagadas
todos os pecados perdoados

27
restos e faltas

se não beberes tua água
com toda tua sede
o que farás
com a sede que sobrou?

se não amares teu amor
com toda tua paixão
repousará
o anseio que restou?

se não creres em teu Deus
com todo teu assombro
te assombrará
à noite o que ficou

28
Quadrinhas despreocupadas

“A cada dia
basta o seu mal”
que somos fracos
pro que é fatal.

Melhor se come
finas fatias:
partir o medo
em magros dias.

Estar no agora,
também aqui,
que nada temos
fora isso aí.

O que passou
“descanse em paz”
porque o ontem
não volta mais.

E o amanhã
(o que é isto?)
também trará
seu próprio risco.

29
(Importa à noite
cantar um réquiem,
pela manhã
dizer o credo).

De cada dia,
de cada hora,
neste segundo,
só conta o agora.

Melhor remédio
que já se fez:
viver um dia
de cada vez.

Pra ter saúde
de alma e corpo:
viver um dia
depois do outro.

“Só basta o mal
de cada dia”
quem disse tal
sabedoria?

Porei o crédito-
correto é isto-
quem disse a pérola
foi Jesus Cristo.

30
O peso do mundo

Há dor demais no mundo
e ninguém pode com seu peso
sobre os ombros.
Não é mão de criança
como cantou Drummond
mas mão pesada de gigante.

O sentimento do mundo
(essa aflição sem tamanho)
vez por outra pousa num ombro
qual abutre,
jamais pomba gentil.
Aí daquele que
sob suas garras
não consegue fazer a prece
por si
e por todos os que padecem,
lançando assim
o insuportável peso
do sentimento do mundo
sobre os ombros daquele
que suporta tudo.

31
A tormenta e sua paz

Quando as ondas rugem furiosas
e os ventos sopram indiferentes;
quando a escuridão penetra os ossos
e embaixo há um abismo com seus dentes.

Quando é tarde e já se perde a nau,
que espera aflita o golpe fatal-
ninguém à vista, nenhum navio-
e o grito se perde no vazio.

Tudo, mas tudo o que alguém deseja,
seu espírito e sua carne frágeis,
é o Senhor andando sobre as águas
ou mesmo dormindo, mas que esteja.

32
Peace break

Quando a mente convulsiona
perturbada além da conta
por problemas em tumulto
que atormentam e esmurram...

Bom pensar que existe além
da desordem interior
algo maior, mesmo alguém,
cujo nome eu sei: Amor,

que escondido e em silêncio
como um hábil diretor
dirigindo toda a cena
vai, atrás do refletor.

Não o vemos, pois a luz-
também as trevas- nos cegam
para tal presença oculta,
porém certa como certa

é a chegada do arco-íris
logo após e além das chuvas,
revelando em sua curva
a renovação da vida.

33
o que e quando

o que canta no rosto
é amor

o que brilha no verso
é amor

o que sangra na vida
é amor

é amor o que fica
da partida

é amor o sim
de toda negativa

34
Zoom

Ah! violência e suavidade dos gestos amorosos:
um grito é como uma mão entendida
um bom dia como um afago
um abraço é um abraço

um beijo é como uma bomba

35
ecce homo

o que faz de um homem um homem:
marcar um encontro com o inimigo
em lugar deserto
à noite
sozinhos

olhar em seus olhos
demoradamente
sentir a fervura
a memória
o golpe
a ira acumulada
sacar do bolso a arma:
uma flor
depois atirar:
perdoo você
enterrar o corpo do outro
num abraço
e sair pra vida livre

36
Bom homem

Ser um bom homem não me interessa.
Bom homem é um homem que desempenha bem
um papel:
trabalha,
consome,
paga impostos,
torce por um time,
bebe cerveja,
transa
e quando a morte chama, obedece.

É como um bom carro,
um bom liquidificador,
um bom papel higiênico,
uma boa metralhadora,
um bom ladrão.

Homem bom é outra história.
Não que seja fácil distingui-lo de seu duplo.
Não é.
Ele faz tudo igual

37
mas desenvolveu cacoetes peculiares:
não mente,
não gosta de maldizer,
ama crianças,
não rasga mas também não beija dinheiro,
tem uma paciência insuportável,
limpa a merda do sapato e, vejam só, alimenta o cão
que cagou no chão.
Se você me entende...

Esse tipo
frequentemente é odiado pelos homens em geral.
Ele não é funcional.
Insiste em fazer certas coisas de modo diferente do
usual,
atrapalhando o andamento normal do mundo,
ritmo estabelecido a muito custo
por milhões de bons homens
durante milhares de anos.

São difíceis de se lidar.
Pedras no sapato
Tanto é que muitos foram descartados:
envenenados,
queimados,
fuzilados,
38
outros, vejam só, pregados vivos de braços abertos
numa coisa chamada cruz,
ou apenas silenciados com táticas desenvolvidas e
aperfeiçoadas há milênios.

Eu,
que ainda sou apenas um bom homem positivo e
operante,
me envergonho
com o sal nos olhos
na presença desconcertante de um homem bom.

39
Poema na areia
baseado em João 8.1-11

“Mestre, esta mulher foi apanhada
em flagrante adultério.
Moisés manda
que seja apedrejada”
Mas Jesus inclinando-se,
escrevia com o dedo na areia:

desse pó os fiz
todos pó do mesmo chão
conheço cada um
tenho duzentos deles
em meu dedo agora
o que pensam que são
além de pó?
o que pode o pó
contra o pó!

Como insistissem,
Jesus se levantou e disse:
“Quem estiver sem pecado
que atire a primeira pedra”
40
e voltou a escrever no chão:

depois soprei o pó
e meu amor foi junto...
Quem lhes ensinou o ódio?
Quem plantou capim
nesse jardim?
Jacó foi o primeiro a sair:
sessenta anos de pó
José, Benjamim, André...
pé ante pé
pó após pó
tempestade de areia nesse deserto
eu porém
sigo soprando

“Mulher, onde estão teus acusadores?
Ninguém te condenou?
Ninguém, Senhor!
Nem eu te condeno”
Vai (soprou)
seja pó de Deus no mundo
não por eles
por mim
41
por fora

eu corro por fora
eu sempre corro por fora
sozinho e por fora
à margem e por fora

ao não de vocês digo sim
ao sim digo não
eu corro por fora
eu sempre corro por fora

eu morro lá fora
eu morro no morro lá fora
eu morro no morro maldito lá fora
eu corro por fora

42
você corta orelhas
eu ponho de volta
você apaga a vela
eu acendo e sopro
você encarcera
eu venho e solto
você apedreja
eu mato a morte

eu corro por fora
eu morro lá fora
eu chego na hora
depois vou embora

eu corro por fora

eu sempre corro por fora

43
Sobre ir juntos

Porque estou onde não estás
e tu estás onde não estou,
vejo coisas que não vês
e vês coisas que não vejo.
Por isso temos de ir juntos,
um enchendo o oco do outro
e apontando o ponto cego
que nossa viseira esconde.

Pra que assim seja possível,
mais que possível, viável,
a partir de duas imagens,
de dois olhos diferentes,
(como faz o nosso cérebro)
desenhar a imagem toda

...e quem sabe não apareça
no azul, um sinal de amor?

44
nós

eu sozinho sou eu sozinho:
beco sem saída
mar morto

eu e mais outro somos dois:
vias que se cruzam
vasos comunicantes

eu e mais dois já somos três:
“difícil arrebentar
corda de três fios”

eu e tu e eles e nós:
uma multidão
cantando a uma só voz

há um poder que emana
de nós entre nós

45
Grandes e pequenos

Grandes são os rios!
Eu, pequeno afluente,
levo aos ribeirinhos
água sem corrente.

Grandes são os grandes!
Eu, pequenininho,
concedo emprestado
o ombro ao vizinho.

Grandes são os clássicos!
Eu, sem classe alguma,
adentro no templo
roendo as unhas.

Grandes são vocês!
Pequeno serei:
darei o que tenho,
tenho o que darei.

46
Quem é de Deus? (Uma Parábola)

Havia um homem muito religioso: ia à igreja, falava
muito em Deus, etc e tal.
Havia outro homem que era simplesmente um
homem bom: cordial e humilde - longe dele o achar-
se melhor do que alguém.
O religioso o desafiou para um duelo, no qual ficaria
claro para todos quem era de Deus e quem não era.
No dia marcado, foi lançado o desafio:
"quem fizer chover é de Deus!"
O religioso fez sua oração.
Para sua própria surpresa, o céu foi ficando
nublado, escuro, cinzento...
O homenzinho desafiado olhou pra cima e depois
pra baixo, procurando algo em sua bolsa.
O vitorioso, já sentindo as primeiras gotas na
cabeça, olhando ao redor, cantou vitória para a
multidão, aproveitando pra fazer aquilo que melhor
47
sabia: falar de si mesmo.
O homem bom caminhou em sua direção com um
objeto pontudo como uma espada.
Chegando perto do santo- que a essa altura
interrompera seu discurso e olhava assustado para
o homenzinho- com um gesto rápido e preciso,
abriu sobre a cabeça do espantado homem de Deus
um guarda-chuvas, dizendo, sem cerimônia alguma:
"cuidado, você pode pegar uma gripe!"
Todos foram embora.
E ficou bem claro pra todos quem era de Deus
e quem não era.

48
Saga de fruto

Tu vês a beleza e a doçura que um fruto carrega?
Carrega o que nele também foi processo e espera,
Espera paciente do grão semeado na terra,
Na terra que é mãe do processo que a todos
encerra.]

Encerra essa saga do fruto uma grande lição,
Lição repetida nas dores de cada estação:
Que o fruto que surge após a beleza da flor,
Todo ele carrega na carne uma história de dor.

49
Esperança
Ainda falta muito até o impossível:
um longo caminho por entre pedras,
flores, espinhos, moinhos, poemas,
canteiros, espinheiros e canções.

Falta muito ainda até o impossível.
Caminhamos sob olhos espantados
de anjos, fantasmas, sombras, miragens,
numa louca estrada de sóis e luas.

Muito ainda falta até o impossível.
Olha ao lado e vê como a gente segue:
esse queimou os pés nas águas-vivas,
aquele cegou os olhos azuis.

Até o impossível ainda falta muito.
Os que caminham logo atrás de ti
olham e os olhos são pura esperança.
Não sejas a razão porque falharam!

Caminha, caminha, caminha que
ainda falta muito até o impossível!

50
Zé nuvem

Nunca existiu alguém tão livre!
Acordava quando bastava de dormir
comia quando dava fome
falava com bichos e crianças
sorria pela madrugada
sentia cócegas de Deus
amava

Certa noite saiu pela estrada
pegou carona com a primeira nuvem
e sumiu
até hoje

Na cidade quando estão tristes
bichos e crianças
pensam nele
até hoje

Zé nuvem era uma espécie de gente
ou não?

51
Visão

Minhas retinas impuras viram
um operário da construção civil
apoiado numa estrutura
no vago do horário
lendo em voz audível
com um sorriso nos lábios
um trecho das Escrituras.

(a imagem intraduzível merecia escultura)

“consiga entender por si mesmo
o que há de vida no evangelho”

pensei
e saí encantado na quentura do dia.

52
Vida: via de mão dupla

Cada qual cante
do que sobeja
seu coração

Cada qual veja
até onde alcança
a sua visão

Cada qual viva
conforme foi
sua decisão

Cada qual plante
e depois regue
o próprio grão

53
Cada qual colha
conforme o que
plantou no chão

Cada qual coma
depois de pronto
o próprio pão

Cada qual saiba
que assim é a vida:
mão, contramão

54
bumerangue

de tanto o povo passar na conversa
passaram uma faca na sua goela

de tanto brincar com espada afiada
meteram em sua garganta uma espada

de tanto andar sobre o fio da navalha
cravaram o gume em sua nuca canalha

de tanto mentir e jurar sobre o livro
jurado ficou e agora cativo

a fala da faca na face do falso
a foice que fere a fuça da fera

o grito do gume na goela do ogro
o fio da navalha ferindo o canalha

55
Ser quem sou

Após 43 anos de intenso convívio
percebi que nasci com o suficiente
para ser apenas quem sou.
E isso agora me parece uma sorte grande
pois tivesse ou fosse mais ou menos
não seria quem sou
e não sendo, estaria onde?
eu existiria?
(Esse pensamento me parece terrível!).

Tudo aponta para um fato inequívoco:
de que recebi o necessário
para ser apenas esta pessoa que sou
e não outra.
Nasci desses pai e mãe
nesse país
sou esse corpo
com essa porção de inteligência e talento
esse no espelho sempre fui eu mesmo
por isso digo: meus pais, meu país, meu nariz,

56
minha insônia
minha dor de minha cabeça.
Não conheço outra pessoa
que possa falar desse jeito
das coisas que me dizem respeito.
Também não conheço ninguém
que possa tomá-las para si
ou possa ser eu no meu lugar
saindo de um imaginário banco de reservas
quando eu precisar.

Apenas eu posso ser-me
e se eu não for-me
estarei perdido...
Será um eu a menos no mundo
e logo quem?
eu

57
Decido portanto
diante do indiscutível fato de que
nasci com o suficiente
apenas para ser quem sou
e apesar de todo o tempo perdido
tentando ser sei-lá-o-que-menos-eu-mesmo
e assim nada sendo
(esse outro fantasma que tento ser sem ser é meu
pior inimigo!)
e também por uma absoluta e completa
falta de opção
decido a antiga questão
entre ser ou não ser
sendo quem sou.

58
Balada do amor de Pedro
para meu irmão Tales Ferreira

Neguei
Três vezes neguei
Três vezes a Cristo neguei
E justo na noite fatal
Na noite de angústia mortal

Cantou
O galo cantou
Duas vezes o galo cantou
Não era manhã de alegria
Mas noite da minha agonia

Olhou
Virou e me olhou
Jesus se virou e me olhou
Não era um olhar de censura
Meu Deus, que olhar, que ternura!

59
Sozinho
Sozinho ficou
Sozinho a cruz enfrentou
E enquanto eu bebia minha dor
Morria por mim, pecador

Depois
Não muito depois
Três vezes Jesus perguntou
Oh, Pedro, meu filho, me amas,
me amas, amigo, me amas?

Falei
Três vezes falei
Três vezes que o amava afirmei
(do canto do galo lembrei
também que três vezes neguei)

Calei
Mais nada falei
Enorme silêncio se fez
Na praia, onde eu e o Senhor
Imersos ficamos no amor

60
Sobrexistência

o que sou
sou diante de Deus

o que aparece
do lado de fora
(a parte de mim
não submersa)
assume formas diversas
pra quem de fora
me observa

ora santo
ora estúpido
ora belo
ora rústico

61
tantas imagens
tantas miragens
quantas
miradas houverem

por isso o Filho do Homem
ordenou "não julgueis"
porque todo julgar humano
não considera por inteiro
o que inteiro sobrexiste
noutro plano

62
Painossinho

Pai nosso
louvado seja
que seja
do vosso jeito

Pão nosso
não nos rejeite
perdoa
pelo mal feito

Protege
nessa peleja
teu povo
do dito cujo

Pai nosso
de nós aceite
a prece
que assim seja

63
Graça

Mesmo dizendo 'obrigado, obrigado'
não me sinto obrigado a coisa alguma,
pelo contrário, sinto-me motivado,
conquanto em mim não haja bem algum.

Julgo um mistério isso acontecer:
de solo pobre poder germinar
semente boa e dela florescer
essa tão grande vontade de amar.

Estou pra sempre reconciliado!
Vibra em meu peito aquele antigo brado:
'está consumado, beba, de graça'.

Por isso sempre que digo 'obrigado'
eu quero dizer e digo, de fato,
o mais apropriado 'muchas gracias'.

64
1 Coríntios 13 (um resumo poético)

Ainda que eu fale
se não amar:
barulho.

Ainda que eu saiba
se não amar:
nada.

Ainda que eu dê
Se não amar:
nulo.

O amor é
O amor será
O amor sobre tudo
permanecerá.

65
Newton Messias mora em Recife e é professor no
Conservatório Pernambucano de Música. É casado e
tem duas filhas. Considera-se um novato em poesia
e pretende lançar seu primeiro livro ainda esse ano.

66

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful