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RESENHAS 189

lações, de um lado, e, de outro, em face da cons- Uma leitura filosófica de


tatação dos limites da tradução cristã – que de
certa forma a presente análise confirma –, se a an- Durkheim e Weber
tropologia hoje não está sendo solicitada a em-
preender caminho diverso, de modo a dar conta
do que a tradução cristã escondeu e do que as Ivan DOMINGUES, Epistemologia das ciências
línguas comuns não permitiram acessar. humanas (Tomo I: Positivismo e hermenêutica:
Durkheim e Weber). São Paulo, Edições Loyola,
2004. 671 páginas.
Notas
Alexandre Braga Massella
1 Carlos Fausto, “Fragmentos de cultura tupinambá”,
em M Carneiro da Cunha (org.), História dos índios Reflexões acerca do estatuto das ciências hu-
no Brasil, São Paulo, Companhia das Letras/Fa- manas, dos pressupostos lógicos e epistemológi-
pesp/SMCSP, 1992. cos que as orientam não são relevantes apenas
para os filósofos da ciência. De fato, questões so-
MARTA AMOROSO é professora do Departa- bre a natureza das ciências humanas parecem ine-
mento de Antropologia da FFLCH-USP. vitáveis se partirmos do razoável pressuposto de
que há modos alternativos de enfrentar uma série
de problemas. Por exemplo, a ciência social com-
partilha formas de explicação ou metas cognitivas
com as ciências naturais, se é que podemos falar
destas como um todo homogêneo? Podemos atri-
buir autonomia explicativa às instituições quando
se trata de explicar as ações humanas, ou qual-
quer correlação que envolva fenômenos sociais
deve ser, de alguma forma, inteligível à luz das
crenças e dos objetivos dos indivíduos? Ignorar
essas questões significa, na prática, delegar a ou-
tros a decisão a respeito das opções envolvidas.
Além disso, os vários modos alternativos de se
praticar a ciência social ainda estão bastante vin-
culados à tradição filosófica, recorrendo muitas
vezes a esta como forma de se justificar e se legi-
timar. É claro que o praticante, o cientista dedica-
do a um programa de pesquisa empírica, não
pode investir todo o seu tempo a tais controvér-
sias metodológicas. Espera-se dele, porém, que
saiba definir racionalmente sua posição no deba-
te e exemplificar a fertilidade desta com as pes-
quisas empíricas que realiza. A relevância da epis-
temologia em particular pode ser formulada de
maneira simples: se as ciências sociais pretendem
proporcionar um conhecimento científico da rea-
lidade, elas não podem negligenciar a questão so-
bre o que é afinal este conhecimento.
O livro de Ivan Domingues1 pode ser inse-
rido neste âmbito de problemas. Trata-se de uma
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obra de filosofia ou, mais precisamente, de anômico ou anômico-altruísta. Talvez valesse a


“epistemologia aplicada”, inspirada na escola pena aqui prolongar a análise e, valendo-se do in-
francesa de G. Bachelard e G. Canguilhem. Sua ventário das dicotomias efetuado pelo autor, dis-
intenção não é meramente exegética: a recons- criminar os diferentes níveis de abstração em que
trução dos textos dos dois autores mais enfatiza- essas se inserem ou os diferentes papéis teóricos
dos, E. Durkheim e M. Weber, é orientada por e metateóricos que desempenham no pensamen-
determinados problemas, pela tentativa de ex- to de Durkheim. O autor aponta para esse tipo de
trair dos autores as soluções e explicitar certas análise ao sugerir que a noção durkheimiana
lacunas de seus pensamentos. de homo duplex representa uma “teoria metafísica
A mesma pergunta é dirigida aos autores: da natureza humana” que não se integra com as
como pensam a questão da fundação das ciências dualidades fundadoras presentes em O suicídio.
humanas. A resposta não seria a mesma, e Do- Mas parece interessar mais a Domingues a pergun-
mingues procura, assim, fixar os “parâmetros ta pela dualidade fundamental da teoria social de
epistemológicos” que permitiriam dar conta tanto Durkheim. A resposta que encontra são as várias
da unidade de meta (fundar as ciências humanas) dicotomias empregadas por Durkheim em obras
como da diversidade dos métodos empregados. como A divisão do trabalho social (solidariedade
Haveria diferentes formas de racionalidade nas mecânica/solidariedade orgânica), O suicídio (in-
ciências humanas, o que permitiria traçar uma ti- tegração/regulação) e As formas elementares da
pologia das formas de racionalidade, segundo as vida religiosa (sagrado/profano). Com efeito, e
modalidades de tratar a “diferença e a diversida- esta é provavelmente a raiz da dificuldade de dis-
de do social” (p. 22): em Durkheim, teríamos um tinguirmos uma dualidade fundadora em seu pen-
pensamento que tende para as dicotomias; em samento, Durkheim associava o trabalho teórico à
Weber, um pensamento que combina dualidades pesquisa empírica de um problema determinado,
com esquemas triádicos. Mas não se pense que o evitando especulações no vazio e tentando se
autor impõe esses esquemas de forma rígida às afastar assim da filosofia social e de sua busca por
obras que analisa, nem que tome as dicotomias noções fundamentais que tudo explicariam.
como algo que definiria a essência do pensamen- No caso de Weber, também teríamos, além
to. De fato, trata-se mais de uma orientação ini- das dualidades, a incorporação de formas mistas
cial, cujo poder analítico reside principalmente na e de tríades, divisões que o autor exemplifica com
exploração das decisões metateóricas alternativas as noções que Weber elabora em sua sociologia
envolvidas no uso das dicotomias. Por exemplo, da religião. Mas, diferentemente de Durkheim, os
é preciso decidir entre a natureza contínua ou elos intermediários entre as noções dicotômicas
descontínua do espaço das relações em que as ca- não são considerados por Weber como casos es-
tegorias dicotômicas se inscrevem, sobre a natu- peciais. Tratar-se-ia de uma diferença de “índole
reza das relações entre os pólos (contraditórios ou de temperamento”, assim formulada pelo au-
ou complementares), ou, ainda, sobre o caráter tor: Durkheim estaria mais próximo de uma visão
dinâmico ou estático das dicotomias. São essas “holística e reconciliada da sociedade”, ao passo
decisões, e a enumeração acima não é exaustiva, que Weber endossaria uma “visão fragmentada e
que Domingues explora em suas análises. Assim, tensionalizada” (p. 590).
se as dicotomias abundam no pensamento de Indicamos a seguir os temas que, além da ti-
Durkheim, Domingues assinala como não é ho- pologia das formas de racionalidade, orientam
mogêneo o modo pelo qual são operadas. Há di- sua investigação. Em primeiro lugar, o chamado
cotomias que são pares complementares, como as “argumento do criador do conhecimento”, segun-
noções de regulação e integração, há outras que do o qual “do real só podemos conhecer efetiva-
são contraditórias e opostas, como a dos tipos de mente aquilo que nós mesmos criamos” (p. 34).
suicídio altruísta e egoísta e há ainda dualidades Esse argumento seria o “núcleo duro” da teoria do
em meio às quais se inserem formas de transição conhecimento, dando lugar a uma epistemologia
e tipos mistos, como as noções de suicídio ego- construtivista moderna, com suas variantes instru-
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mentalista, operacionalista, pragmatista e realista, veis: modelos funcionais, por exemplo, são em-
sucintamente caracterizadas pelo autor. Nas ciên- pregados tanto por marxistas como por teóricos
cias humanas, todas essas posições teriam sido de índole conservadora. Convém ressaltar tam-
acolhidas, com exceção do instrumentalismo e do bém que Durkheim impunha limites estritos à
operacionalismo.2 O problema e o paradoxo de analogia entre sociedade e organismo: “Reconhe-
uma epistemologia construtivista, que enfatiza o cemos de boa vontade que a sociedade é um tipo
papel do sujeito do conhecimento e de suas cate- de organismo; mas não vemos como este aforis-
gorias mentais, são bem conhecidos dos filósofos: mo funda a ciência. Se entendermos, com isso,
se nosso aparato conceitual determina tudo o que que uma nação é composta por elementos coor-
observamos, então a observação não proporciona denados e subordinados uns aos outros, não faze-
uma instância de controle independente, com a mos mais do repetir um verdadeiro truísmo. Se
qual confrontamos nossas crenças; se, por outro quisermos, com isso, dizer que o estudo da vida
lado, renunciarmos à tese de que os conceitos de- individual é uma excelente preparação ao estudo
da vida social, estaremos dando um bom conse-
terminam a observação, então o que observamos
lho para os futuros sociólogos. Mas se formos
passa a ser algo não conceituado, isto é, sem for-
além, se considerarmos a sociologia uma nova
ma e não descrito, sendo assim novamente inca-
aplicação dos princípíos biológicos [...], então es-
paz de fornecer qualquer teste para nossas cren-
taremos impondo a esta ciência condições que
ças.3 O autor poderia, neste passo, explorar a
acabarão por tornar mais lento o seu progresso”.4
distinção que Durkheim estabelece, em As regras
Em terceiro lugar, há o parâmetro constituí-
do método sociológico, entre sensação subjetiva e do pelas categorias de descrição, explicação e in-
sensação objetiva. Trata-se de uma distinção epis- terpretação. Neste ponto, o autor avança a hipó-
temológica que tenta livrar a noção de sensação tese de que o esvaziamento dos paradigmas
(objetiva) das possíveis conotações psicológicas clássicos nas ciências humanas passa por esse tri-
que a vinculariam a determinados órgãos dos sen- pé metodológico (p. 19).
tidos. Domingues prefere, porém, ressaltar a tese Por fim, o autor introduz o parâmetro da ob-
filosófica mais geral acerca da “estrutura invenci- jetividade, o último elemento que caracteriza as for-
velmente circular do processo cognitivo”. mas de racionalidade e as estratégias discursivas.
Em segundo lugar, há o parâmetro fornecido Esses elementos fornecem as coordenadas
pela noção de paradigmas ou modelos. Em Dur- para a análise das obras de Durkheim e Weber. Em
kheim, por exemplo, o paradigma (entendido relação a Durkheim, Domingues concentra seu es-
como “segmento do real que aloja o princípio das tudo nas obras O suicídio e As formas elementares
coisas ou o ente tido como a realidade por exce- da vida religiosa, por considerar que A divisão do
lência”, p. 52) seria o organismo, que proporcio- trabalho social tem uma “densidade científica” me-
naria ao sociólogo “tudo o de que ele precisa para nor no interior da obra durkheimiana e que As re-
levar a cabo suas investigações”: o objeto, o mé- gras do método sociológico “não legislam nem reco-
todo de observação objetiva, as categorias de gru- brem as soluções epistemológicas encontradas por
po, de função e de causação e a regra metodoló- Durkheim tanto no Suicídio como nas Formas” (p.
gica de afastar as idéias prévias e tomar os fatos 201). De Weber, o autor privilegia os textos meto-
sociais como coisas (p. 64). Domingues tende a dológicos e a sociologia da religião.
considerar esta instância do paradigma como de- Sua análise não é apenas reconstrutiva, mas
terminante ou como logicamente anterior em re- também crítica, chegando por vezes a avaliações
lação a outras instâncias (teoria, métodos e técni- contundentes. Assim, após apresentar as teses de
cas). Ao que parece, é como se tudo pudesse ser Durkheim em O suicídio, Domingues considera
dela deduzido e esses níveis não desfrutassem de que “a impressão que resta é que o sociólogo
uma relativa independência. Cabe lembrar porém passa ao largo da coisa (o suicídio) e fica girando
que, na história da sociologia, decisões relativas a em torno do fenômeno, comparando, medindo,
um determinado nível podem ser compatíveis correlacionando, e que o essencial não é respon-
com diferentes posições assumidas em outros ní- dido: por que afinal alguém se suicida?” (p. 242).
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Vale notar que o autor não se limita ao âm- com mais de uma explicação causal, ficando a es-
bito propriamente epistemológico na análise dos colha da causa a depender de um contexto mais
autores. Ao discutir o problema da base empírica amplo, que se decidiria em outro nível de análi-
de O suicídio, Domingues desloca o seu foco de se. Esse contexto seria da ordem da interpretação,
análise, isto é, ele não enfatiza tanto as questões e, portanto, da teoria, que introduz hipóteses, mo-
especificamente epistemológicas, como a do tipo delos e postulações de sentido. A interpretação
de dado que Durkheim privilegia e quais as razões estaria mais “descolada” do empírico, inserindo-se
que esse autor alega para deixar de lado os rela- num nível teórico ou até mesmo “subjetivo” e vol-
tos ou as motivações apresentadas pelos suicidas. tando-se para o significado dos fenômenos – o
O epistemólogo certamente teria o que dizer para modo pelo qual nós os significamos, bem como a
nos esclarecer acerca da natureza da base empíri- forma pela qual eles nos “interpelam ou nos afe-
ca selecionada por Durkheim: por que as taxas es- tam”. Mas, na avaliação de Domingues, quando as
tatísticas, mais do que os relatos deixados pelo ciências humanas se puseram a investigar a ques-
suicida e interpretados pelos que o cercava, têm tão do sentido mediante métodos empíricos, o re-
aos olhos do sociólogo um valor de conhecimen- sultado foi uma “embrulhada sem fim entre os fa-
to? É verdade que o autor aponta o privilégio con- tos e as significações” (p. 125).
cedido por Durkheim às formas objetivadas dos Descrição, explicação e interpretação se
fenômenos sociais. A matriz positivista do pensa- confundem, desafiando as tentativas de distinção
mento de Durkheim “leva-o não só a recorrer aos e separação e gerando a necessidade de articulá-
dados da observação e da experiência para catalo- las e correlacioná-las (p. 129). Para Domingues, o
gar o suicídio, como também a tabelas ou quadros elemento interpretativo, entendido como o esfor-
estatísticos, tanto para ‘objetivar’ o fenômeno ço de elucidação do sentido, é o que teria maio-
como para ‘mostrar’ a verdade dele”. Mas a análi- res chances de desempenhar um papel preponde-
se de Domingues, quanto a este aspecto, não ex- rante no método.
plora as ressalvas de Durkheim às noções do sen- Vejamos como, segundo o autor, Durkheim
so comum relativas à motivação da ação. Em teria articulado, em O suicídio, a descrição, a in-
compensação, ganhamos um balanço crítico cui- terpretação e a explicação. Junto com a descrição
dadoso dos comentadores que apontam supostas vem a definição: haveria uma operação concei-
falhas substantivas na base empírica de O suicídio. tual, com seus engajamentos teóricos, do lado da
Um dos parâmetros que orientam sua análi- definição, e uma operação empírica, baseada nas
se e que nos parece o mais rico é o “tripé meto- notas de observação, do lado da descrição (p.
dológico” constituído pela descrição, explicação e 224). É interessante notar que, para Domingues,
interpretação (compreensão). Durkheim introduz a definição sociológica do sui-
A descrição envolve “recortes, seleções e abs- cídio após excluir os fatores que a literatura nor-
trações do real”, organizando a base empírica. No malmente atribuía ao suicídio, como o clima, as
plano da ação social, além dos aspectos objetivos raças e as doenças mentais. A definição que Dur-
dos comportamentos dos homens, a descrição de- kheim oferece na Introdução, antes de qualquer
verá incidir sobre um “conjunto de elementos sub- outro procedimento comparativo envolvendo as
jetivos, tais como as intenções, os sentimentos, a taxas de suicídio, seria provisória e, segundo Do-
consciência, os valores e os fins visados pelos mingues, insatisfatória na avaliação do próprio
agentes”. As descrições devem ser orientadas por Durkheim “por mais de uma razão”. Durkheim,
hipóteses a respeito do sentido dos acontecimen- porém, segundo lemos na Introdução de O suicí-
tos históricos ou das ações. dio, defende sua definição argumentando que ela
A explicação indaga como os fenômenos se teria um rendimento teórico ao aproximar fatos
comportam, “à luz de uma origem, de uma estru- de devoção e coragem a atos de imprudência ou
tura ou de um fim”. O autor chama sempre a simples negligência. Este detalhe poderia ser me-
atenção para a integração dos níveis de análise: lhor explorado, tanto mais que Domingues é par-
assim, uma mesma base factual seria compatível ticularmente atento à carga teórica que informa a
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observação e aos procedimentos conceituais e pode ser encontrado em certas passagens da obra
dialéticos empregados por Durkheim. Também do sociólogo: em As regras do método sociológico,
no caso das formas elementares da vida religiosa, por exemplo, lemos que o conhecimento das coi-
Domingues reduz a definição de religião dada por sas “passa progressivamente dos caracteres mais
Durkheim a um procedimento meramente nomi- exteriores e mais imediatamente acessíveis aos
nal (p. 275), em que o termo “religião” é trocado menos visíveis e mais profundos”; no artigo “Re-
pelo termo “sagrado”, aparentemente sem ganho presentações individuais e representações coleti-
de conhecimento. Seria pertinente levar em conta vas”, há uma formulação ainda mais explícita.6 Es-
aqui a análise de F. A. Isambert,5 que compara a ses reparos que propomos não atingem porém a
definição de religião dada por Durkheim em As tese mais forte de Domingues, a saber, a de que
formas elementares com uma definição anterior haveria um procedimento em três etapas – descri-
elaborada pelo mesmo autor em um artigo para o ção, explicação e interpretação – operando no es-
L’Année Sociologique. A definição dada em As for- tudo de Durkheim. Mas talvez a distinção entre a
mas elementares refletiria um possível progresso explicação e a interpretação pudesse ser traçada
no conhecimento do fenômeno religioso, graças de outra forma, explorando-se o modo pelo qual
ao enriquecimento da noção de sagrado propor- Durkheim tenta especificar como o individualis-
cionado pelos trabalhos de H. Hubert e M. Mauss. mo desmesurado pode gerar o suicídio. É neste
Uma vez mostrada, por Hubert e Mauss, a perti- momento que são inseridos os elos de significa-
nência do conceito de sagrado para dar conta das ção, e o meio social surge como o núcleo que
características rituais do sacrifício, uma definição confere sentido à vida do indivíduo adulto e civi-
de religião que recorresse a este conceito poderia lizado. É claro que a questão é controversa, e Do-
ser introduzida com ganho de conhecimento. mingues endossa a posição, bastante razoável
Ultrapassada a etapa descritiva, da qual a ti- como interpretação do pensamento durkheimia-
pologia classificatória dos quatro tipos de suicídio no, de que o modo pelo qual a sociedade deter-
fariam parte, Durkheim introduziria os esquemas mina os comportamentos seria por meio de senti-
explicativos. Domingues parece identificá-los com mentos e motivações psíquicas e não por meio de
as correlações estatísticas estabelecidas por Dur- forças morais (p. 238).
kheim, que envolvem variáveis como estado civil, Em Weber, Domingues ressalta que a descri-
credo religioso, idade ou local de residência. A ção, ou a base observacional, além de ser “seleti-
explicação seria de natureza “operacional, empíri- va, perspectivística e incompleta” é bastante varia-
ca e concreta” (p. 270). Não vemos muito bem da quanto às fontes e à escala. E, mais importante,
como esta etapa vai além da tipologia classificató- a descrição já está informada pela meta cognitiva
ria, já que os tipos de suicídio são constituídos de captar o sentido da ação, sentido que seria da
justamente após o estabelecimento das proposi- ordem do inobservável e cuja captação depende-
ções empíricas. ria, portanto, de “postulações teóricas e inferên-
O momento interpretativo, por fim, se dá cias indiretas”. A explicação assume a forma de
quando Durkheim propõe o sistema de forças in- conexões causais, que não teriam uma direção
tegrativas e regulativas como causas do suicídio. única determinada por um fator social privilegia-
Neste passo, Durkheim passaria da ordem do vi- do, funcionais e teleológicas (que seria um tipo
sível para a do invisível (p. 233): a interpretação de causalidade reabilitada por Weber). No caso da
é de ordem “teórica, transempírica e abstrata” (p. causalidade histórica, o autor ressalta que as hipó-
270). A idéia de Durkheim seria a de que “o ter- teses contrafactuais são decisivas no método we-
reno das causas e das leis é o domínio do invisí- beriano. A interpretação, muitas vezes identifica-
vel, devendo o cientista esforçar-se por descobrir da por Weber com a compreensão, restitui o
e mostrar o laço que une o invisível ao visível, sentido das ações e das relações sociais, incorpo-
mediante meios muitas vezes indiretos”. Domin- rando elementos normativos: haveria um hiato
gues comenta que Durkheim nunca explicitou entre a decifração do sentido e a explicação e a
esta idéia. No entanto, um início de formulação observação dos fatos. Esses três planos estariam
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de tal forma articulados que, nas palavras de Do- e mergulhando o objeto dentro de si mesmo ou
mingues, “descrever já é interpretar, do mesmo na consciência de si” (p. 650). O tema deverá ser
modo que interpretar é descrever, nem mais nem aprofundado no segundo tomo prometido pelo
menos que explicar e interpretar é descrever, e autor, dedicado às obras de Marx e Lévi-Strauss.
vice-versa” (p. 416). Neste ponto o autor conside-
ra necessário ir além da tarefa exegética de inter-
pretar os textos de Weber, apontando que há uma Notas
instância abrangente, a compreensão, que, além
de recobrir e articular todos os passos do método 1 Resultado da tese de habilitação para professor ti-
weberiano, seria a única responsável pela especi- tular apresentada pelo autor no Departamento de
ficidade das ciências humanas (p. 519). A idéia de Filosofia da UFMG em 2002.
Domingues parece ser a de que a interpretação,
2 Seria preciso lembrar, entretanto, da forte influên-
isto é, o trabalho de elucidação do sentido da
cia que o operacionalismo exerceu na psicologia
ação, deve ser orientado por uma teoria da ordem
comportamental, além da obra de G. A. Lundberg
da compreensão (p. 416): ressalta-se assim que o
no âmbito da sociologia.
trabalho de descrição, explicação e interpretação
é orientado por uma teoria. Caberia indagar po- 3 Este problema foi analisado por I. Scheffler, Scien-
rém se a explicação causal e a interpretação dos ce and subjectivity, Indianapolis, Hackett Publis-
sentidos da ação não são, para Weber, dois mo- hing Company, 1982.
dos paralelos de explicação e em que condições 4 E. Durkheim, “Organisation et vie du corps social
um pode servir de apoio ao outro. selon Schaeffle”, em V. Karady (org.), Durkheim –
O livro de Domingues contém outros temas textes: éléments d’une théorie sociale, Paris, Minuit,
que mereceriam uma consideração mais detalha- 1973.
da, como a questão da verdade, do lugar conferi-
do ao sujeito do conhecimento por Durkheim e 5 F. A. Isambert, “L’élaboration de la notion du sacré
Weber e das relações entre a moral e a ciência. O dans l’école durkheimienne”. Archives de Sciences
leitor encontrará em várias passagens amplos Sociales des Religions, 42, 1976.
vôos panorâmicos pela história da filosofia, ao fi- 6 A formulação é a seguinte: “embora um fenômeno
nal dos quais são introduzidas e ponderadas as não seja claramente representável ao espírito, não
concepções dos autores tratados. Há ainda uma se tem o direito de negá-lo, desde que se manifes-
tese mais ambiciosa relativa ao tipo de conheci- te por efeitos definidos, estes representáveis e que
mento instaurado pelas ciências humanas: um co- servem de indícios para aqueles. Nós o imagina-
nhecimento objetivo da realidade histórico-social, mos então, não por ele próprio, mas em função
que tende a instalar os fenômenos sociais como desses efeitos que o caracterizam. Aliás, não há
um conjunto de formas objetivadas. A contrapar- ciência que não seja obrigada a usar tal artifício
te desse privilégio teria sido a “condenação das para atingir as coisas de que cogita. Ela vai de fora
vias introspeccionistas e de toda consideração para dentro, de manifestações exteriores e imedia-
acerca de aspectos ou fatores subjetivos, como os tamente sensíveis às características internas que
sentimentos, as volições, as idealizações e os va- tais manifestações revelam” (E. Durkheim, “Repre-
lores, tidos como indignos da ciência”. No plano sentações individuais e representações coletivas”,
epistemológico, o resultado disso foi “o esqueci- em Sociologia e filosofia, Rio de janeiro, Forense-
mento dos princípios e meios de objetivação, re- Universitária, 1970, p. 33).
sultantes do trabalho do pensamento e depen-
dentes do sujeito” (p. 23). A solução, sugerida na
ALEXANDRE BRAGA MASSELLA é doutor em
conclusão do livro, seria reconhecer a “dupla de-
sociologia pela universidade de São Paulo.
pendência do conhecimento do sujeito e do obje-
to, o objeto pivoteado pelo real e arrancando o
sujeito de si mesmo, o sujeito pivoteado pelo eu