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(U0 HNN |LHOS DAGUA 2554703 Vi s6 lagrimas e a lagrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tan- tas lagrimas, que eu me perguntei se minha me tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E s6 entao compreendi. Minha mae trazia, serenamente em si, aguas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mae era cor de OLHOS D’AGUA. Aguas de Mamae Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superficie. Sim, aguas de Mamae Oxum. ogbo MINISTEMO BA GUETURA ‘dt Igualdede Racial. union BIBLIOTECA NACIONAL, CONCEIGAO EVARISTO hhaseeu muma faveta da zona sul de Belo Hartonte. Teve que concitiar as esti dos com o trabaiho come empregada ‘em 1971, ica, até cancluir 0 curso Norm 0625 anos. Murdau-se entio para ¢ Riode Janeiro, onde passou num ‘concurso piiblice para.o magl esttidow Letras nia UFR, Na década de 1980, entrowem contato com o Grupo Quilonrisheje. Estreou na literatura em 1980, com obras publicadlas na série Cadernas Negros, publicada pela arganieagie E Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, ¢ Doutora em Lites Comparada peta Universidade Fe Fluminense, Suas obras, em especial o romance Ponefa Viegncto, de 2003, abe temas como a discriminagao de género edectasse. A obra foi traduzida para o inglés e publicada nos Estados Unidos em 2007, Se OLHOS D’AGUA Conceicaio Evaristo Conceigao Evaristo DLHOS D’'AGUA cm, Copyright @2014 Gancelgdo Evarsio ae SE BRASIL Presi a pen residdocia da epbicn ra Rowan sepa de Pots Bem e ‘uate Bacal — SEPPMUPR into Ctra Mora Supity putas worvoma, Fans else rin rman ro navodawit ——suasiame rth ‘Dieter Executes Produgso wus Mim Lewin Area Bias tote Cabri cei detsinctsiongis ayo Santer Gonndomibnindetsiontt® capa dagen Manele So tna beat lec Ea Ona is Ao pe. ‘Grund irs Kool Mine ali, pare am Sent de i ve thrmagio ds le ons devel a pen S270. ‘or pe sass Ard dem gan Pens “ceo esrb Paes ene aaron spud pe ug co denen sone pea ena pea ie pa ide orm en CaPVRRASIL EATALOGACAD-RA-FONTE 1 eta mts Fata sec cna Tha FAQ) ehcicaicincemen temps peeeetoe PAULAS USSpisiamacimae Sumario freee} Introdupso, 13 Porter Were} feWrrtergrt|Monin tein) to i feria) G-cooper de Cida, 65 Pees Wrrerthe er eterno te as cal Pit oeaa eee etcst Osamores de Kimbé, 87 pate) PU amen) na fa Agente Pvpocr ee Vervgr ms caerecoesn oO prerkcto “Minha mde sempre costurou a vida com fios de ferro.” |As palavras acima, de uma personagern do conto “A Gente ‘combinames de no morter’, constituem contundente -epigrafe para um comentario sobre Othos d°dgua, esta nova colegio de contos de Conceigo Evaristo, Trata-se de fra- se-chave que enfeixa o turbilhiao de questaes sociais € exis- tenciais recorrentes na escrita da autora, a presidir sua cons- ‘rugdo ficcional e a reiterar sua unidade tematica, Como antes em sua obra ficcional, poética, ensaistica, ‘Conceigao ajusta o foco se seu interesse na populagao afto- -brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violéneia urbana que a acometem; "Ulimamente na favela tiroteios aeanteciam com frequéncia ¢ # qualquer hora”, le mos em "Zaita esqueceu de guardat os brinquedos", Sem sentimentalismos facilitadores, mas sempre incar- porando a tessitura pottica a fixgao, 03 contes de Concti- eoyex! GAO EVARISHO do Evarlsto apresentam uma significativa galeria de mu: theres - Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querenga, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zafta, Ou serio todas a mesma mulher, captada recriada no caleidoseéplo da literatura, em variados instantineos da vida? Diferem elas em idade € em conjunturas de experiéncias mas compartilham da mes- ma vida de ferro, equilibrando-se na “frdgil vara" que, lemos no conto“O Cooper de Cida", é a “corda bamba do tempo”. Na verdade, essa mulher de multas faces € emblemética de milhdes de brasileizas na sociedade de exclusOes que é a nossa, Frégil vara, corda bamba, flos de ferro, ferro de pas- sar, a danga das metéforas as enlaga e retronstrdi a vida de pessoas despossuidas a qual expressa, apesar de tudo, uma vitalidade propria que o texto de Conceigio insiste em cele- rar; “Era tudo to doce, tao gozo, tio dor!" sintetiza "Ana Davenga”. Os contos, assim, equilibram-se entre a afirma- cdo ea negacdo, entre a dentincia e a-celebragdo da vida, en- tre o nascimento e a morte: “Brevemente iria parir um filo. ‘Um filho que fora cancebido nos Frageis limites da vida e da morte." (*Quantos filhos Natalina teve2")- No livro esto presentes mies, multas mies. E também filhas, avés, amantes, homens ¢ mulheres ~ todos evoca- dos em seus vinculos ¢ dilemas soclais, sexuais, existencials, ‘numa plutalidade e vulnerabilidade que constituem a hue mana condigio, Sem qualsquer idealizacdes, sie aqui recrla- das com firmeza ¢ talento as dutas condigGes enfrentadas pela comunidade afro-brasileira. ‘A abrangéncia de tal problemdtica ultrapassa, decerto, ‘0 mundo gro, assim como transcende o dia de hoje. Os contos, sempre fincades no fugilio presente, abarcam 0 pas- sado e interrogam 0 futuro. Sintomaticamente, so muitos € diversos ¢s velhos e as ctlangas que os habitam. O pasado @ inevitavel mente implacvel, o futuro, em geral duvidoso, certas vezes inexoravelmente negado, & 0 caso, por exem- PReFAcio plo, do pivete Lumbia, ou do menino Lixo, nos contos que levam os seus nomes: “E [Lixo] fol se encolhendo, se en- roscando até ganhar a posicio de feto”. A forca simbdlica de tal regressio fisica e emocional é de uma sintese irrepardvel. Em.sew percurse, 0 livro, além de mundo de mulheres ede meninos, incorpora homens como protagonistas (Quimbé, Ardoca), cuja perspectiva, acastonalmente, passaa comandar anarragao. Ousodizerqueo fluxo narrativoatingeoseuclimax no ja citado “A gente cambinamos de néo morrer” em que, pela primeira vez, diversas: nareadores encaminham a ago. Fragmenta-se uma univocidade feminina, por mals dispersa -e miiltipla que esta {a fosse. A par disso, constata-se, mum ‘crescendo, um estihagar ficclonal que 0 texto assume ao reduplicar a precariedade de seus personagens, para quem "4s vezes a morte é Jeve como poeira, Ea vida se confunde ‘com um p6 branco qualquer". O conto implode a sua pré- ppria técnica narrativa, Em um verdadelro avesso de apoteo- se, 0 texto ficcional, paradigmatico da sociedade, também se pulveriza: “Aiguém cantou a pedra e o segrede foi rompi- do, A desgraga vaza dos poros da tetra. O mundo explode. Seres de mil mdos agarram tudo. Nada escapa.” Atencio, leitor. com voeé, é conosea, ¢ com todos, que aqui se Fala. Mas a positividade textual prevalece, apesar de tudo. Uma positividade em que escrever é, certamente, “uma maneira de sangrar’; mas também de invocar e evocar vidas costura- das “com fios de ferro” — porém aqui preservadas com a per sistente costura dos fios da ficcéo, em que também se almeja se combina, incansavelmente, no decerto a imortalidade, ‘masa tenaz vitérla humana, a cada geracéo, sobre a morte. Heloisa Toller Gomes Introdugdo ‘A mulher negra tem muitas formas de estar no mundo (to- dos tem), Mas um contexte desfavervel, um cenirio de dis- ceriminagdes, as estatisticas que demonstram pobreza, babxa escolaridade, subempregos, violagdes de direitos humanos, traduzem histérias de dot. Quem nao ve? Parcelas da sociedade estao-dizendo para woot que este 0 cenario. As leituras que se faz dele tra possibilidades em ex- ‘tremos: pode se ver tantoa mulher destituida, vivendo olimt- te do ser-quenfo-pade-ser, inferiorizada, apequenada, violen- tada. Pode-se ver também aquela que nada, buscando formas de surfar na correnteza. A que inventa jeitos de sobrevivencia, para si, para a familia, para a comunidade. Pode-se ver a que é derrotada, expurgada. Mas, se prestar um pouco maisatencéo, val ver outra, Val ver Caliban (0 escravo de Sheakespeare em A Tempestade) atualizado, vivo, pujante. Aquele que aprendea lingua do senhor e constréi a tiberdade de maldizer! EONCEIGAD EUARISTO ‘Ao subverter a lingua de Prospero — 0 homem branco —, Caliban — a mulher negra — abre caminho para a liber~ dade. Radicaliza © jogo. Expde as regras do jogo que joga: conta © segredia, Descortina o mistério. ‘Aqui, instala-se a cultura de arkié atualizada, como €x- pressou Muniz Sodré. Atesta-se a presenca ¢ o poder de uma tradigao viva. ‘Neste livro encontrei outra vez Calibas ocupado em mut- tas subversées. Era lyaledé, a que fala pelas mutheres que no podem falar, contando, dizendo, amaldigoando. Era ‘Oxum, as portas da casa de Oxala, amaldig¢oando a pobreza a injustiga que recaia sobre as mulheres. E crescende em forga e poder, transformando-se na dona de toda a riqueza. £ assim que as mulheres, nds mulheres negras, buseasttos formas de ser no mundo. De contar o munde come forma de apropriarmo-nos dele. De nomeé-lo, De nomimo, 0 axé, a palavra que movimenta a existéncia. # assim que Conceigo Evaristo inventa este mundo que existe. De Ana Davenga, Marla, Duzt-Querenga, Natalina, Salinda, Luamanda, Cida, Zaita, Malta. E desses meninos/ homens perdidos, herdeiros de mies sem nome, heransa que as mulheres deixaram e que minguém quis receber. Sao ‘histérias duras de demrota, de morte, machucados. Sao his- +érias que insistem em dizer 0 que tantos no querem dizer. 0 mundo que € dito existe, Suas regras, explicitas. © lugar de mero ouvinte & desautorizado. Nesta literatu- ra/cultura, a palavea que é dita reivindica © corpo presen- te.O que quer dizer aco. ‘ConceicHo, lyalode, canta sua cantiga. Conta, Propaga oaxé. Aqui, onvida-nos a cantar com ela. Fazer existir outro:mundo. Eu agradeco Jeena Werneck Olhos d’agua ‘Uma noite, ha anos, acordei bruscamente ¢ uma estra- mha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mie? Atordoada, custei reconhecer squarto-da nova casa em eu que estava morando ¢ nao con- segula me lembrar de como havia chegado até ali. E a insis- tente pergunta martelando, martelanda. De que cor eram 5 alhos de minha mae? Aquela indagasao havia surgide hha dias, ha meses, posso dizer, Entre um afazer ¢ outro, cu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mie, E 0 que a principio tinha sida um mero pensamento interogativo, naquela noite se transformou em uma do- lorosa pergunta carregada de um tom acusativo. Entiio eu no sabia de que cor eram 0s olhos de minha mie? CONCEIGAO EVARISTO Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo busquei dar conta de minhas proprias dificuldades, crescl répido, pas: sando por uma breve adolesctncla, Sempre ao lado de mi- nha mde, aprendi a conhect-la. Decifrava o seu silencio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer, em scus gestos, preniincios de possivels alegrias. Naquole mo- mento, entretante, me descobria chefa de culpa, por no recordar de que cor serlam os seus olhos. Eu achava tudo ‘muito estranho, pois me lembrava nitidamente de varios ‘detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo smin- dinhe do pé esquerdo... da verruga que se perdia no miele uma cabeleira crespa e bela... Umt dia, brincando de pentear bhoneca, alegria que a mae nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, @ passa-passa das roupagens alheias e se tomava uma grande boneca negea para as filhas, descobrlmos uma bolinha escondida bem no couro cabelu- do dela. Pensamos que fosse carrapato, A mie cochilava € uma de minhas irmas, aflita, querendo livrar a boneca-mae daquele padecer, puxou rapido o bichinho. A mae e nds ti- ‘mos ¢ rimios ¢ rimos de nosso engano. A mae riu tanto, das lagritias escorrerem. Mas de que cor eram os olhos dela? Fu me Jembrava também de algumas histérias da infén- de minha mie. Ela havis nascido em um lugar perdido no interior de Minas. All, as criangas andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que 0s seios comegavarit & brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. As veees, a8 historias da Infancia de minha mie confundiam-se com as de minha propria infincia. Lembro-me de que muitas ve- zes, quando a mae cozinhava, da panela subia cheiro sl- gum. Fra como se cozinhasse, ali, apenas 0 nasso desespe- rado desejo de alimento. As labaredas, sob a agua solitaria ‘que fervia na panela chela de fame, pareciam debachar do vazio do nosso estomago, Ignorando nossas bocas infantis ‘em que as linguas brincavam a salivar sonho de comida, E tee ‘era justamente nesses dias de parco ou nenhum alimento {que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasides a brin- cadeira preferida era aquela em que a mae era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu frono, um pequeno ban- quinho de madelra. Felizes, colhfamos flores cultivadas em um pequeno pedago de terra que circundava 0 nosso barsa- co. As flores eram depois solenemente distribvuiclas por seus cabelas, beagos € colo, E diante dela faziamos reverénetas 2 Senhora. Postivamos deitadas no chia e batfamos cabega para a Rainha. Nos, princesas, em volta dela, cantévamos, dangivamos, sorriamos. A mie s6 ria de urna maneira triste © com um sortiso molhado... Mas de que cor eram 05 olhos de minha mae? Eu sabia, desde aquela época, que a-m Inventava esse e outros jogs para distrair a nossa fome. Ea nossa fome se distrafa. As veres, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do temps, ela se sentava na solelra da porta ¢, jun- tas, ficdvamos contemplando as artes das nuvens no céu Umas viravam carneitinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormeeidas, e havia aquelas que eram sa muvens, algodo doce. A mae, entio, espichava 0 brago, que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhes e enfiava répido na boea de cada uma de nds. Tudo tinha de ser mui- to rapido, antes quea nuvem derretesse ¢ com ela 0s nassos somhos se esvaecessem também. Mas de que cor eram os olhos de minha mae? Lembro-me ainda do temor de minha mie nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agatrada a nds, ela nos protegia com seu abrago. E com os olhos alagados de pran- tos balbuciava rezas a Santa Barbara, temendo que 0 nosso {fragil barraco desabasse sobre nds. E eu no sei se o lamen- to-pranto de minha mae, se © barulho da chuva... Sel que tudo me causava a sensagao de que a nossa casa balangava ao vento, Nesses momentos os olhos de minha mae se con cOnergAO EVARIETO fundiam com os olhos da natureza, Chevia, choraval Cho- rava, chovial Entdo, por qué eu ndo conseguia lembrar a cor sos olhos dela? E naquela noite a pergunta continuava me atormentan- do, Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saira de minha casa em busca de melhor condigdo de vida para mim e para minha familia: ela e minhas irmés tinham ficado para tras. Mas eu nunca esquecera a minha mae. Re- conhecia a importéncia dela na minha vida, nao s6 dela, mas de minhas tias ¢ de todas as mulheres de minha fa- milia, E também, ja naquela época, eu entoava cantos de Iouvor a todas nossas ancestrais, que desde 2 Africa vinham arando-a terra da vida com as suas préprias maos, palavras ¢ sangue. Nao, eu no esquego essas Senhoras, nossas Yabis, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mie? £ foi entao que, tomada pelo desespero por nfo me le brar de que cor seriam os ofhos de minha mie, naquele mo- mento resolvi deixar tudo ¢, no dia seguinte, voltar a cidade em que nascl. Eu precisava buscar 0 roste de minha mae, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor ide seus olhos. Assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita, Vivia a sensagio de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixas deveria sex descoberta da cor dos olhos de minha mae, E quando, apés longos dias de viagem para chegar 4 mi nha terra, pude contemplar extasiada os alhos de minha mie, sabem 0 que vi? Sabem @ que vi? Vis6 ligtimas ¢ ligrimas. Entretanto, ela sorria feliz, Mas cram tantas lagrimas, que eu me perguntei se minha mae tinha olhos ou los catrdalosos sobre a face. E:s6 entao com preendi. Minha mae trazia, serenamente em si, guas cor- rentezas. Por isso, prantos< prantos a enfeitar 0 seu rosto, A cor dos olhos de minha mae era cor de olhos d’agua. Aguas. ibe ‘ounos o'Kaua dle Mamie Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superficie, Sim, Aguas de Mamae Oxum. Abracei a mie, encostel meu rosto no dela © pedi prote- ‘slo, Senti as légrimas delas se misturarem as minhas. Hoje, quando jé alcancel a cor dos olhos de minha mae, tento descobrir a cor dos othos de minha filha. Fago a brin- cadeira em que 0s olhos de uma se tomam o espelho para ‘os olhos da outra. E um dia desses me surpreend! com um, gesto de minha menina. Quando nés duas estévamos nesse tloce jogo, ela tecou suavemente no meu rosta, me contem- plando intensamente, E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas téo baixinho, como se fosse uma pergunta para ela mesma, au como estivesse buscando e encontrando a revelagae de um mistério ou de um grande sepredo. Eu eseutei quando, sussurrando, minha filha falou: — Mie, qual ¢ a cor tio timida de seus olhos? Ana Davenga ‘As batidas na porta ecoaram como um prentincio de samba. © coragao de Ana Davenga naquela quase meia-noite, tao aMlito, apaziguou um pouco. Tudo era paz entao, uma relat- ‘ya paz, Deu um salto da cama ¢ abriu a porta. Todos entra- fam, menos 0 seu. Os homens cercaram Ana Davenga. As mulheres, ouvindo 0 movimento vindo do barraco de Ana, foram também. De zepente, naquele mindsculo espago cou- be o mundo, Ana Davenga reconhecera a batida. Ela mio havia confundide a senha. © toque prendincio de samba ou le macumba estava a dizer que tudo estava bem. Tudo em paz, na medida do possivel. Um toque diferente, de batidas pressadas dizia de algo mau, ruim, danoso no ar. © toque que ela owvira antes nao prenunciava desgraga alguma. Se CONcEgKO evans era assim, onde andava o seu, j4 que os das outras estavam all? Por onde andava o seu homem? Por que Davenga nao cestava all? ‘Davenga ndo estava all. Os homens rodearam Ana com suldado, € as mulheres também. Era preciso cuidado. Da- venga era bom. Tinha um coragdo de Deus, mas, invacado, era 0 proprio diabo. Todos haviam aprendido a olhar Ana Davenga. Othavam a mulher buscando nao pereeber a vida © as delicias que expladiam por tado a seu corpo. ‘© barraco de Davenga era uma espécie de quartel-gene- ral, e cle cra o chefe. Ali se decidia tudo. No principio, os companhelros de Davenga olharam Ana com cidime, cobiga € descanfianca. 0 homem morava sovinho. Ali armava e confabulava com os outros todas as proczas, E de repente, ‘Sem consultar oS companheiros, mete ali dentro uma mu- ther. Pensaram em escolher outro cheft ¢ outre lecal para ‘quartel-general, mas no tiveram coragem. Depois de certo tempo, Davenga comunicou a todos que aquela mulher fi- carla com ele e nada mudaria. Ela era cega, surda © muda mo que se referia a assuntos deles. Ele, entretanto, queria dizer mais umta coisa: qualquer um que bulisse com ela ha- veria de moner sangrando. nas maos dele feito porco capa- do, Os amigos entenderam. E quando © desejo aflorava ao vishimbrar os peitos-macas salientes da mulher, algo como uma dor profunda doia nas partes de baixo deles. O desejo abalxava entio, esvanecenda, diluindo a possibilidade de execdo do prazer. E Ana passou a ser quase uma inma que povoava 0s sonhos incestuosos dos homens comparsas dos delitos ¢ dos crimes de Davenga. © peito de Ana Davenga doia de temor, Todos estavam ali, menos o dela. Os homens rodeavam Ana. E as mulhe- es, como se estivessem formando pares para uma danga, rodeavam seus companheiros, parando atris de seu homem certo. Ana olhou todos ¢ nao percebeu tristeza alguma, © ze AMA DAVEE, quie seria aquilo? Estariam guardando uma dor profunda e apenas mascarando 0 sofrimento para que ela niio sofresse? Seria alguma brincadetra de Davenga? Ele estarla escondido por ali? Nao! Davenga nao era homem de tais modost Ele até brincava, porém, s6 com os. companhelros. Assim mes- mo deuma brincadeira bruta, Socos, pontapés, safandes, ta- pas, “seus filhos da puta’... Mais parecia briga. Onde estava Davenga? Feria se metido em alguma confusao? Sim, seu ho- mem 36 tinha tamanho, No mais era crianga em tudo. Fazia ‘coisas que ela nem gostava de pensar. As vezes, ficava dias € las, meses até, foragido, e quando ela menos esperava dava ‘com ele dentro de casa. Pois é, Davenga parecia ter mesmo ‘© poder de se tornar invisivel. Um pouco que ela saia para buscar roupas no varal ou falar uri tantinho com as amigas, quando voltava dava com ele, deitado na cama. Nuzinho. Bonito o Davenga vestido com a pele que Deus lhe deu, Uma pele negra, esticada, lisinha, brilhasa. Ela mal fechava a por- ta ese abria todinha para o seu homem. Davenga! Davengal Lai acontecia o qué ela nfo entendia, Davenga que era tio ‘grande, #80 forte, mas tio menino, tinha prazer banhado ‘em lagrimas, Chorava feito crlanga. Solugava, umedecia ela toda, Seu reste, seu conpo ficavam timidos das Lagrimas de Davenga. f todas as vezes que ela via aquele homem no go- {20-pranto, sentia uma dor intensa. Fra como se Davenga ex tivesse sofrendo mesmo, ¢ fosse ela a culpada. Depols entéo, -0s dois ainda de corpos nus, ficavam ali. Ela enxugando as ligrimas dele. Era tudo tio doce, tao gozo, to dor! Um dia pensou em se negar para nao ver Davenga chorando tanto. Mas ele pedia, cagava, buscava. Nao restava nada a fazer, a hijo ser enxugar © go20-pranto de seu hemem ‘Todos continuavam parados olhando Ana Davenga, Ela recordou que uns tempos atras nenhum deles era amigo. Eram inimigos, quase. Eles detestavam Ana. Ela nao os ama- va nem os odiava, Ela nao sabia onde eles estavam na concEIGAD vais de Davenga. & quando percebeu, viu que nfo poderia ter por eles indiferenga, Teria de amé-los au odié-los. Optou por ama-las, entao, Foi dificil, Eles nao a queriam. Nao era do agrado de nenhum deles aquela mulher dentro do quar- tel-general do chefe, sabendo de todos os segredos, Acha- ‘vam que Davenga iria se dar mal e comprometer toda.o gru- po. Mas Davenga estava mesmo apaixonado pela mulher. ‘Quando Davenga conheceu Ana em uma roda de samba, cla estava ali, faceira, dancando macio. Davenga gostou dos. movimentos do corpo da mulher, Ela fazia um movimento bonite € ligeiro de bunda, Estava tio distraida na danca que nem percebeu Davenga olhando Insistentemente para cla. Naqueles dias, ele andava com temor no peito. Era preciso cuidado. Os homens estavam atris dele Tinha havido um assalte a um banco e 0 eaixa deserevera alguém parecido com ele. A policia {4 tinha subido 0 morro ¢ entrado em seu barraco varias vezes. O pior é que ele nao estava metico naquela merda, Seria burro de assaltar um banco all mesmo no balrro, tao perto dele? Fazia os seus servigos mais longe, € além do mais nao gostava de assaltos a bancos. Ja até par- ra de alguns, mas achava o servicinho sem graca. Nao dava tempo de ver as feigées das vitimas. © que ele gostava mesmo era de ver 0 medo, otemor, o pavor nas fei¢des e mo- dos das pessoas. Quanto mais forte 0 sujeito, melhor. Ado- rava ver 05 chefdes, os mandachuvas se cagando de medo, feito aquele deputado que ele assaltou um dia, Foi a maior comédia, Ficou na ronda perto da casa do homem. Quando ‘ele chegou e saltou do carta, Davenga se aproximou, —Pols é, doutor, a vida ndo té fcil! Ainda bem que tem homem li em cima come-o senhor defendendo a gente, 05 pobres. — Era mentira, — Doutor, eu votel no senhor. — Era mentiva também. — Endo me atrependi. Veio visitar a familia? Eu também tou indo ver a minha € quets levar uns presentinhos. Quero chegar bem-vestido, camo o-senhor. 246 ‘© bomem nao deu trabalho algum, Pressentiu a arma que Davenga nem tinha sacado ainda. E quando isto acon- teceu, 0 préprio deputado jé tinha adiantado @ servico en- tregando tudo, Davenga olhou a rua, Tudo ermo, tudo escu- fo, Madrugada e fio, Mandou que o homem abrisse 0 carro ‘© pedit as ehaves, O deputado tremia, as chaves tilintavam em suas mos. Davenga mardeu o labio, contendo o riso. Olhou o politica bem no fundo das olhos, mandou entao que ele tirasse a roupae foi recolhendo tudo. — Nao, doutor, a cueca mio! Sua cueca néo! Sei li seo senhor tem alguma doenga ou se ti com o cu sujo! ‘Quando arrecadou tudo, empurtou o homem para den- tro do carro, Olhou para ele € balancou as chaves. Deu um adeusao deputado, que correspondeu ao gesto. Davenga ti- inha.o peito explodindo em gargalhadas, mas conteve 0 riso. Apertou © passo, tinha de abreviar Eram trés e quinze da madnegada, Dai a pouco passaria por ali uma patrulhinha. Dias atrds ele hnavia estuclado o ambiente, oi por aqueles dias do assalto ao deputado que Davenga conheceu Ana. A venda do relégio the havia rendido algum dinheiro, fora o que estava na cartelra, E de cabega leve re- solveu ir com os amigos para © samba. Sabla, porém, que devia ficaratento. Estava atento, sim. Estava atento 20s mo- vimentos e a danga da mulher. Ela Ihe lembrava uma baila- tina nua, tal qual a que ele vira um dia no filme da televisda. Abailarina dangava livre, solta, na festa de uma aldeia afri- cana, Sé quando a bateria parou foi que Ana também parou © se eneaminhou com as outras para o banhelro, Davenga ‘ssistia a tudo. Na volta ela passou por ele, olhou-o deu- Ihe um largo sorriso. Ele criow coragem, Era preciso coragem, pita chegar a unia mulher. Mais coragem até do que para fazer um servigo, Aproximou-s¢ ¢ convidou-a para uma cer- Veja. Ela agradeceu. Estava com sede, queria Agua ¢ deu-Ihe lum sorriso mais profundo ainda. Davenga se emocionou. 225. CONCEIRAD EVARISTO Lembrou da mie, das irmas, das tias, das primas e até da avé, a velha Isolina, Daquelas mulheres todas que ele no. vvia hé muitos ans, desde que comecara a varar 0 mundo, Setia tio bom se aquela mulher quisesse ficar com ele, mo- rarcomele, serdele na vida dele. Mas como? Ele queria uma mulher, uma s6, Estava cansade de nio ter pouso certo. Ea muther que the lemibrava a bailarina nua havia mexido com ele, com alguma coisa ld dentro dele. Ela the trouxera sauda- de de um tempo paz, um tempo crianga, um tempo Minas, Ia tentar, ia tentar... Ana, a bailarina de suas lembrangas, be- beu agua enquanto Davenga enamorado tomava a cerve sem sentir 0 gosto do liquido. Quando terminou, pegou na mio da mulher e saiu, Os amigos de Davengs viram quando ele, descuidado de qualquer perigo, atravessou o terreiro da roda de samba e caminhou feito namorado puxando amu Iher pela mao, ganhando 6 espago ld fora, quase esquecida do perigo. ‘Desde aquele dia Ana ficou para sempre no barraco e na vida de Davenga. No perguntou de que 0 homem vivia, Ele trazia sempre dinheiro e coisas. Nas tempos em que fi- cava fora de casa, eram os companheitos dele que, através das mulheres, Ihe traziam o sustento, Ela nia estranhava nada. Muitas vezes, Davenga mandava que ela fosse entr gar dinheiro ou coisas para as mulheres dos amigos dele, Elas recebiam as encomendas ¢ mandavam perguntar quan- do e se seus homens voltariam. Davenga as vezes falava do regresso, as vezes, no, Ana sabia bem qual era a atividade de seu homem. Sabia dos riscos que cortia ao lado dele. Mas achava também que qualquer vida era um risco e 0 risco maior era o de nfo tentar viver. E naquela noite primeira, no barraco de Davenga, depois de tudo, quando calmas cle jd de olhtos enxutos, — ele havia chorade copiasamente no gozo-pranto— puderam conversar, Ana resolyeu adotar onome dele, Resolveu entao que a partir daquele momento ae we ‘Ana Davengs. Ela queria 8 marca do homem dela no seu corpo e no seu nome. Davenga gostara de Ana desde o primeiro momento até © sempre. Dera sew nome para Ana e se dera também. Fora com ela que descobrira e comegara a pensar no porqué de sua vida. Fora com ela que comecara a pensar nas outras muillieses que tivera antes, E uma the trazia um gosto de re- miso, Ele havia mandado matar Maria Agonia. Conhecera a mulher ao visitar um companheiro na ca- dela, O amigo armara umae n3o se dera bem. A prisio devia ser horrivel, $6 em pensar tinha medo e desespero. Se um dia cafsse preso e nao conseguisse fugir, se mataria. E foi ‘essa dnica visita a0 amigo que conheceu Maria Agonia. Fla vivia dizendo da agonia de uma vida sem 0 olhardoSenhor. Naquele dia, quando sairam da cadela, ela velo conversan- do com Davenga. Era bonita, usava uma roupa abaixo do joetho, © eabelo amarrado para trés. Uma vor cama acom- panhada de gestos tranquilos, Davenga estava gostando de ‘ouvir as palavras de Maria Agonia, Marcaram um encontro para’ domingo seguinte na praga. Quando ele chegou, o pastor falava, € Maria Agonia estava com a Biblia aberta na Indo, Davenga observava os modos contritos da mulher. Ela, ‘40 levantar os olhos e perceber o olhar dele, pledosamente abalxou a cabeca.e voliou ao Livro. Ele salu e se encaminhou para © botequim em frente: Ao acabar a pregacio, ela saiu do meio dos outros, passou por ele e fez um sinal. Ele foi tras. Assim que todos se dispersaram, ela falou do desejo de starcom ele, Queria ir para algum: iugar, sozinhos. Foram se amaram muito. Ele chorou como sempre. Esses encon- tos aconteceram muitas e multas vezes. Primeiro a praca, 4 pregagdo, a crenga. Depols tudo no siléncio, na moita, tudo escondidinho. Um dia ele se encheu. Fropds que ela subisse o morro e ficasse com ele. Corresse com ele todos os pperigos. Deixasse a Biblia, detxasse tudo. Maria Agonia rea. cONCENGAO EvARISTO: giu. Vé 6 se ela, crente, fitha de pastor, instruida, iria deixar tudoe morarcom um marginal, com um bandido? Davenga se revoltou. Abt Entio era isso? S6 prazer? 56 0 gastas0? S6- aquilo na cama? Saiu dali era novamente a Biblia? Mandou que a mulher se vestisse. Hla ainda se negou. Estava que- rendo mais, Estava precisando do prazer que ele, s6 ele, era capaz de dat. Sairam juntos do motel, a certa altura, como: sempre, ele desceu do carro ¢ caminhou sozinho. Nao havia de ser nada. Tinha alguém que farla o servico para ele. Dias depois, a seguinte manchete aparecia nos jomnais; “Filha de pastor apareceu nua e toda perfurada de balas, Tinha ao lado do corpo uma Biblia, A maga cultivava o habito de visitar os presidios para levar a palavra de Deus". Por mais que Ana Davenga se esforcasse, nao consegutia atinar com o porgue da auséneia de seu homem. Todos es- tavam ali. Isso significava que, onde quer que Davenga es- tiveste naquele momento, ele estava 36. E no era comum ‘em tempos de guerra como aqueles, eles andarem sozinhos. Davenga devia estar em perigo, em maus lengdis, As histé= Flas e as feitas de Davenga vieram quentes ¢ vivos em sua mente. Dentre eles, um em que havia uma semelhante sua, morta. Nem no dia em que Davenga, de cabeca baixa, Ihe contara 0 crime, ela tivera medo do homem, Buscou as fe- des de suas semelhantes, ali presentes. Encontrow calma. Seria porque os homens delas estavam all? Nao, nao era. A auséneia de um deles significava sempre perigo para todas. Por que estavam tio calmas, tao alleias assim? Novas batidas ecoaram na porta ¢ jf etam prendncias de samba, Fra samba mesmo, Ana Davenga quis romper o cir- culo em volta dela ¢ se encaminhar para abrir a porta. Os homens fecharam a roda mais ainda ¢ as mulheres em volta deles comegaram a balangar @ corpo. Cadé Davenga, cade Davenga, meu Deus? O que seria aquilo? Era uma festa! Dis- tinguiu vozes pequenas e havia as crianeas. Ana Davenga 230 AN DAWENGA Allsou a barriga. La dentro estava.a sua, bem pequena, bem sonho ainda. As criancas, havia umas que de longe ou as Ye- yesde perto, acompanhavam as faganhas dos pais, Algumas heguiriam pelas mesmas trilhas. Qutras, quem sabe, traga- am caminhos diferentes. E 6 filho dela com Davenga, que faminho farla? Ab, isto pertence ao-futuro. S6 que o future All chegava ripido. © tempo de crescer era breve. O de ma- tar ou marrer chegava breve, também. E o filho dela e de Davenga? Cadé Davenga, meu Deus? Davenga entra furando 0 circulo, Alegre, zambeira, ca- begassonho, nuvens. Abraca a mulher, No abraco, além do compe de Davenga, ela senitiu a pressio da arma. —Davenga, Davenga, que festa ¢ esta? Por que isto tudo? — Muller, ta pancada? Parece que bebe? Esqueceu da vila? Esqueceu de voce? Nao, Ana Davenga nao havia esquecido, mas também ho sabia por que lembrar. Era a primeira vez na vida, uma festa de aniversario, © barraco de Ana Davenga, como © seu coragio, guar- dava gente ¢ felicidades. Alguns se encostaram pelo pouco espago do terretro, Outros se amontoaram nos barracos vie rinhos, por onde rolavam a cachaca, a cerveja e © mals © mais, Quando a madrugada afirmou, Davenga mandou que todos se retisassem, recomendando aos companheiros que ficasser alertas. cstava feliz. Sé Davenga mesmo para fazer aquilo, E 0 viciada na dor, fizera dos momentos que antecede- fam a alegria maler um profuncie safrimento, Davenga esta- -va ali na cama vestido com aquela pele negra, brilhante, Ilsa que Deus Ihe dera, Ela também, nua, Era tio bom ficar se tocando primeiro. Depois haveria o choro de Davenga, tio doloroso, tao profundo, que ela ficava adiando o gozo-pran- en ‘CONCENERO EUARISTO to. Jf estavam para explodir um no outro, quando a porta abriu violentamente e dois policiats entraram de armas em punho. Mandaram que Davenga se vestisse rapido e nao baneasse o engragadinho, porque o barraco estava cercado, Outro policial do lado-de fora empurrou a janela de macel- ra, Uma metralhadora apontou para dentro de casa, bem na diregio da cama, na mira de Ana Davenga, Ela se encotheu Ievando a mio na barriga, protegendo o filho, pequena se- mente, quase sonho ainda. Davenga vestiu a calga Jentamente. Ele sabia estar venel- do. E agora o que valia a vida? © que valia a morte? Ir para a prisdo, nuncal A arma estava all, debalxo da camisa que ele ia pegar agora. Poderia pegar as duas juntas. Sabla que este gesto significaria a morte. Se Ana sobrevivesse & guerra, quem sabe teria outro destino? De eabeca baixa, sem encarar os dots polictais a sua frente, Davenga pegau a.camisa e desse gesto se ouviram muitos tiros. (05 noticidrios depois lamentavam a marte de um dos po- liciais de servigo. Na favela, os companhelros de Davenga choravam a morte do chefe de Ana, que morrera ali na sama, metralhada, protegende com as mos um sonho de vida que ela trazia na barriga. ‘Em uma garrafa de cerveja cheia de agua, um botio de rosa, que Ana Davenga havia recebida de seu homem, ma festa primeira de seu aniversério, vinte e sete, se abria 300 Duzu-Querenga um lambeu os dedos gordurosos de comida, aproveitande 1s tiltimos bagos de arroz que tinham ficado presos debai- xo de suas unhas sujas. Um homem passou e olhou para a mendiga, com uma expressao de asco. Ea the devolyeu um olhar de zombatia. © homem apressou 0 passo, temenda {ue cla se levantasse ¢ viesse Ihe atrapalhar o caminho, Duizu olhou no fundo da lata, encontrando apenas o es page vazio, Insistiu ainda, Diversas veces levou a mao lé dentro € retornou com um imaginario alimento que jogava ptizerosamente a boca, Quando se fartou deste sonho, ar- folou satisfeita, abandonando a lata na escadaria da igreja ¢ caminhou até mais adiante, se afastando dos outros men digos. Agachou-se quieta. Ficou por algum tempo olhando CCONcEIGRG EvaRIstO o miundo. Sentiu um inieio de edibra nas pernas, ergueu-se pela metade, acacorando-se de novo, Estava mesmo fican- do velha, pensou, Levantou devagar. Olhou para tras, viu 0s companheiros seus estirados, depois de almoco, contem- plandoe meio-dia, Ensaiou e mudou os passos, cambalean- te ¢ insegura felto crianga que comega a andar. Sort da ler- deza e da eaibra que insistiam. E, a pera estava querendo fathat, Ela € que nfo ia ficar all assentada. Se as pernas nao andam, é preciso ter ssas para voar. Quando Duzu chegou pela primeira vez na cidade, ela era menina, bem pequena. Viera numa viagem de trem, dias € dias, Atravessara terras € rias. As pontes pareciam fragels. Ela ficava 0 tempo todo esperando o trem cair, A mae {6 estava cansada. Queria descer no melo do caminho, O pai queria caminhar para o amanha © pai de Duzu tinha nos atos a marca da esperanca. De pescador que era, sonhava um oficla novo, Era prceiso aprender outros meios de trabalhar. Era preciso também dar outra vida para a filha, Na cidade havia senhoras que em- pregavam nieninas. Ela podia trabalhar e estudar. Duzu era caprichosa e tinha cabega para leitura. Um dia sua filha se- ria pessoa de muito saber, E a menina tinha sorte. Ja vinha ino Tumo certo. Uma senhora que havia arrumado trabalho paraa filha de Zé Nogueira ia encontrar com eles na-capital. Duzu ficou com na casa da tal senhora durante muitos anos, Era uma casa grande de muitos quartos. Nos quartos. moravam mulheres que Duzu achava bonitas. Gostava de ficar othando para os rostos delas. Elas passavam muitas coi- sas no rosto e na boca, Ficavam mais bonitas ainda. Duzu trabalhava muito. Ajudava na lavagem ena passagem da roupa, Era ela também quem fazia a limpeza dos quartas. A senhora tinha explicado a Duzu que batesse nas portas sem- pte. Batesse forte ¢ esperasse o pode entrar. Um dia Duzu es queceu € fol entrando, A moga do quarto estava dormindo. uru-ouenenca in) cima dela dormia um homem, Duzu ficou confusa: por que aquele homem dormia em cima da moca? Salu devagar, mas antes ficou olhando um pouco os dois, Estava engraga- do, Estava bonito. Estava bom de olhar, Entao resolveu que ‘hem sempre ia bater nas portas dos quartos. Nem sempre ia esperar 0 pode entrar Algumas vezes ia entrarentrando, E fol no entrar-entrando que Duzu viu vérias vezes homens (ormindo em cima das mulheres. Homens acordados em ‘cima das mulheres. Homens mexendo em cima das mulhe- res, Homens trocando de lugar com as mulheres. Gostava de ver aquilo tudo. Em alguns quartos a menina era repreendi da, Em outros, era bem-aceita. Houve até aquele quarto-em que o homem the fez tem carinho no rosto ¢ foi abaixandlo 1 mo lentamente.,. A moga mandou que ele parasse, Nao estava vendo que ela éra uma menina? © homem parou. Le- vantou embrulhado no lengol. Duzu viu entéo que a moga sstava nua. Ele pegou a carteira de dinheiro e deu uma nota para uz, Els olhou timidamente para o homem. Vottow ali ho outro dia no entrar-entrando, Nao era o-mesmo. Salu de- sypontada e triste, Passados alguns dias voltou a entrar de su~ petio, Era ele. Era ohomem que the havia feito um carinho e Ihe dado um dinheiro, Era ele que estava lé, Estavam os dois ‘nuzinhos. Ele em cima, parecendo dentro da mulher. Duzu ficou olhando tudo. Teve um momento em que ¢ homem ‘¢hamou por ela. Vagarasamente ela fot se aproximando. Ele, ‘em cima da mulher, com uma das mos fazia carinho no rust € nos selos da menina. Duzu tinha gosto € medo. Era ‘estranho, mas era bom. Ganhou muito dinheito depois. Duzu voltava sempre. Vinha num entrar-entrando cheio lie medo, desejo e desespero. Um dia o homem estava dei- ado nu esozinho. Pegou a menina e jogeu na cama. Duzu nfo sabia ainda o ritmo do corpo, mas, répida ¢ instintiva- mente, aprendeu a dancar. Ganhava mais € mals dinheiro, Voltava ea moga do quarto nunca estava. en CONCEIgKO EvARISTO Um dia quem abriu a porta de supetdo foi D. Esmeralei- na, Estava brava, Se a menina quisesse deitar com homem podia. $6 uma coisa ela nao ia permitir: mulher deitando com homem, debaixo do teto dela, usando quarto e cama, € ganhando o dinheiro sozinhal Se a menina era esperta, cla era mals ainda. Queria todo o dinheiro e jé! Duzu naquele momento entendew o porqué do homem Ihe dar dinheito, Entendeu o porqué de tantas mulheres ¢ de tantos quartos ali, Entendeu 0 porqué de nunca mais ter conseguide ver a sua mie eo seu pai, e de nunca D. Esmeraldina ter cum- prido a promessa de deixé-ta estudar. E entendeu também qual seria a sua vida. f, ia ficar. laentrar-entrando sem saber quando e porque para Dona Esmeraldina arumou um quarto para Duzu, que pasiou a receber homens também. Criow fregueses e fama Duzn morou ali muitos anos e de ld partiu para outras 20- nas, Acostumou-se aos gritos das mulheres aparihando- dos homens, ao sangue das mulheres assassinadas, Acostumou-se as pancadas dos cafetdes, aos mands ¢ desmandos das eafe- tinas. Habituow-se a morte como uma forma de vida, Os filhos de Duzu foram muitos, Nove, Estavam espalha- dos pelos morros, pelas zonas ¢ pela cidade, Todos os filhos tiveram filhos, Nunca menos de dois, Dentre os seus netos rs marcavam assento maior em seu coragao. Trés netos Ihe abrandavam os dias. Angélico, que chorava porque nao gos- tava de ser homem. Queria ser guarda penitenciério para poder dar fuga ao pal. Tatico, que nao queria ser nada. E a menina Querenga que retomava sonhos e «lesejos de tantos outros que ja tinham ido... Duzu entrou em desespero ne dia em que soube da mor- te de Tatico. Ele havia sido apanhado de surpresa por um grupo inimigo, Era tao novol Treze anos. Tinha ainda voz ¢ jeito de menino. Quando ele vinha estar com ela, passava as vezes a nolteall. Disfargava. Pedia a bengao. Ela sabia po- ase OUZU-qUERERCA Hany que ele possuta uma arma e que a cor vermelho-sangue J.se derramava em sua vida, Com a morte de Tético, Duzn ganhou nova dor para yuiardar no pelto, Ficava ali, amuada, diante da porta da gro}. Olhava os santos 14 dentro, os homens cf fora, sem obter consolo algum. Era preciso descobrir uma forma de lidlibriar a dor, Pensando nisto, resolveu voltar a0 morro, Li onde durante anos ¢ anos, depois que ela havia deixado 4) zona, fora morar com os filhos. Fol retornando all que Duzu deu de brincar de faz de conta. E foi aprofundando Nas raias do delirio que ela se agarrou para viver o tempo de seus tiltimos dias. Duru olhow em volta, viu algumas roupas no varal. Le- yantou com dificuldadles e foi até 4. Com dificuldade maior ainda, ficou nas pontinhas dos pés abrindo as bragos, As toupas balanavam ao sabor da vento. Ela, ali no meio, se sentia como um pdssato que fa por cima de tudo e de todos. Sobrevoava o morro, o mat, a cidade. As pernas dofam, mas Prossisfa asas para voar, Duzu voava no alto do morte, Voava quando perambulava pela cidade. Voava quando estava all ntada a porta da igreja. Du2u estava feliz. Havia se agarra- Up) 408 delirios, entorpecendo a dor. E fol se misturando as foupas do varal que ela ganhara asas e assim viajava, voava, Uistanciando-se 0 mais possivel do real. Estava chegando uma época em que o sofrer era proibido. Mosmo com toda dignidade ultrajada, mesmo que matas- sem Os seus, mesmo-com a fome cantando no estimago de todos, com o frie rachando a pele de muitos, com a doen- (@ comendo © corpo, com o desespero diante daquele vie Vorsmorter, por maior que fosse a dor, era proibido 0 sofrer, la gostava deste tempo. Alegrava-se tantol Era o carnaval. {i |@havia até imaginado a roupa para o desfile da escola. {ila viria na ala das baianas. Estava fazendo uma fantasia linda. Catava papéis brilhantes ¢ costurava pacientemente 035 CONEEIGRD CUMRISTO em set vestido esmolambado, Um companheiro mendigo hhavia-Ihe dito que sua roupa, assim tao enfoitada de papéis recortadas em forma de estrelas, mals parecta roupa de fada do que de baiana, Duzu reagiu. Quem disse que estrela era 6 para as facas! Estrela era para ela, Duzu. Estrela era para ‘Titico, para Angélico, Estrela era para a menina Querenga, moradia nova, bendito ay, onde ancestrais e vitals sonhos hhaveriam de florescer ¢ acontecer. Duzu continuava enfeitando 4 vida € 0 vestido. © dia do desfile chegou. Era preciso inaugurar a folla, Despertou edo. Fol ¢ voltou, Levantou yoo e aterrizou, F fol escor- regando brandamente em seus famintos sonhos que Duzu visualizou Seguros plantios¢ fartas colheitas. Estrelas proxi- mase distantes existiam e insistiam. Rostos dos presentes se aproximavam. Faces dos ausentes retoravam. V6 Alafaia, ‘V6 Kilia, Tia Bambene, seu pai, sua mie, seus filhos e netos. ‘Menina Querenga adiantava-se mais e mais. Sua imagem screscia, crescia. Duzu deslizava em vistes € sonhos por um misterioso e eterno caminho... Menina Querenga, quando soube da passagem da Avo Duzu, tinha acabade de chegar da escola, Subltamente se sentiu assistida ¢ visitada por parentes que ela nem conhe- cera-e de quem $6 ouvita éontar as historias. Buscou na mé- méria os nomes de alguns. Alafaia, Kili, Bambene... Escu- tou 05 assobios do primo Titieo 14 fora chamando por ela. Sorriu pesarosa, havia uns trés meses que ele também tinha ido... Querenga descew 0 morro recordando a histéria de sua familia, de seu povo, Av Duzu havia ensinado para ela a brincadeira das asas, do voo. E agora estava ali deltada nas escadarias da igreja. E foi no delirio da av6, na forma alucinada de seus ditl- mos dias, que ela, Querenga, haveria de sempre umedecer seus somhos para que eles floresoessemn e se cumprissem vir ‘vos ¢ reais, Era preciso reinventar a vida, encontrar novos 168 puzw-ournenca cuininhos. Nao sabia ainda como. Estava estudanda, ensi- vi as eriangas menores da favela, participava do grupo de Jovens da Associagao de Moradores ¢ do Grémia da Escala. Intute que tudo era multe pouco. A uta devia ser maior Ainda, Menina Querenga tinha treze anos, como sew primo Vithco que havia ido por aquetes dias. ‘Querenga olhou novamente corpo magro e a fantasia {li av, Desviou o othare entre lagrimas contemplou a Tua. (© spl pasado de meio-tia estava colado no alto do céu, Ruslos dle lux agrediam o asfalto. Mistérios coloridos, cacos (le vidro: — fixo talvez — brilhavam no cho, Maria Marla estava parada ha mais de meia hora no ponto do éni- hus, Estava cansada de esperar. Se a distancia fosse menor, fla ilo a pé. Era preciso mesmo ir s¢ acostumando com a taminbada. O prego da passagem estava aumentando tan- fo! Além do cansago, a sacola estava pesada, No dia anterior, hho domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava pari casa 0s restos, O osso do peril e as frutas que tinham nifeltado a mesa, Ganhara as frutas ¢ uma gor|eta. © oss0, a ation ja jogar fora, Estava feliz, apesar de eansago. A gor|e- {i clivgara numa hora boa, Os dois filhos menores estavam shulto gripados, Precisava comprar xarope € aquele remedi- filo de desentupir nariz, Daria para comprar também uma ni de Toddy. As frutas estavam dtimas e havia mello, As conceigho Evanisto eriangas nunca tinham comido melo, Sends que os meni- nos irlam gostar de melo? ‘A palma de uma de suas mios doja, Tinha sofrido um cor- te, bem no meio, enquanto cortava © pernil para a patroa, ‘Que coisal Faca a laser corta até a vidal Quando o Snibus apontou 14 na esquina, Maria abaixou ‘© corpo, pegando a sacola que estava no chio entre as suas ‘pernas, O énibus nao estava cheio, havia lugares. Ela poderia ‘escansar um pouco, cochilar até a hora da descida, Ao en trar, um homem levantou la de trds, do altimo-banco, fazen- do um sinal para 0 trocador. Passou em siléneio, pagando 2 passagem dele e de Marla, Ela reconheces 0 homem. Quan- to tempa, que saudades! Como era dificil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. © homem sentousse a seu lado. Bla se lembrou do passade. Do homem deitado com cla, Tia vida dos dois a0 barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gemeos, da alegria dele. ‘Que bom! Nasceu! Era um menino! E haverla de se tomar um hortem., Maria viu, sem olhar, que era 0 pai de seu filha. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, 0 olhar assustado nao s¢ fivando em nada e em ninguém. Sentiu uma magoa imensa. Por que nio podia ser de uma outra forma? Por que néo podiam ser felizes? E 0 menino, Maria? Como vai 0 me- rnino? cochichou o hemem. Sabe que sinto falta de vooés? Te- ho um buraco no pelto, tamanha a saudade! Tou sozinho! Nao arruniet, nao quis mals ninguém. Voc’ ja teve outros.. outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pecindo perdao. £. Ela teve mais dois filhas, mas nfo tinha ninguém também. Ficava, apenas de vez em quando, cam um ou ou- tro homem. Era tao dificil ficar sazinhal E dessas deitadas repentinas, loucas, surgiram os dois flhos menores. E veja 56, homens também! Homens tambséen? Eles haveriam de ter ‘outra vida, Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, sno te esqueci! Ta tudo aqul no buraco do peito... CO homem falava, mas continuava estitico, preso, fixo no Ineo, Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto ‘Vint patao lado dela. Ela sabia que o homem dizia, Ee es- lava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filo, de vida, lv morte, cle despedida, Do burrace-sauslade no peito dete. Vesta vez ele cochichou um pouguinho mais alto. Ela, ain- hi som ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraco, um Veljo; um carinhe no filo. E logo apés, levantou répico Sicindo a arma. Outro 16 atrds gritou que era um assalto. Marla estava com muito medo. Nao dos assaltantes. Nao {4 morte. Sim da vida. Tina trés filhos. © mais-velho, com nzeanos, era filho daquele homem que estava ali na frente om uma arma na mio. O de ld de tras vinha recolhendo uclo, O motorista segula a viagena. Havis 0 siléncio de to- os no 6nibus. Apenas a voz-do outro se ouvis pedindo aos pasnageiros que entregassem tudo rapidamente, O medo da Vid em Maria ia aumentando, Meu Deus, como seriaa vida lo seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no Onibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu bi-homem. passow por ela e nao pediu nada. Se fossem ou- ios 05 assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, {ini 9350 de peril e uma gorjeta de mil cruzeiros. Nao tinha Felbgio algum no brago. Nas maos nenbum anel ou allanca. Alls, nas mios tinha sim! Tinha um profunda corte feito ‘cayn faca a laser que parecia cortar até a vida. (Os assaltantes desceram rapido. Maria olhou saudosa © sesperada para o primeiro. Fol quando uma vor acordou a ‘oragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada IW da frente conhecia os assaltantes, Marla se assustou. Ela ilo conhecia assaltante algum. Conhecia © pai de seu pri- ineivo fitho. Conhecia o homem que tinha sido dela € que ola atnda amava tanto. Oulu uma vor: Negra safada, vat ver ie Slava de colzio com os dois. Qutra voe winda lé do fundo lo Gpibus aceescentou: Caima, gente! Se ela estivesse junto CCONCEIGRO evans com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela nao tinha descido $6 para disfargar. Estava mesmo com os ladroes, Foi a tinica a ndo ser assaltada, Mentira, eu ndo fit e ndo sei porqué. Maria olhou na direg3o de onde vinha a vor iu um rapazinho negro e magro, com feigoes de menino ¢ que relembravam vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de tedas, torniou-s¢ um grito: Ague- Ia puta, aguela negra safada estava com os ladrées! © dono da vor levantou e se encaminhou em diregio 8 Maria, A mu- Iher teve medo e raiva. Que merda! Nao conhecia assaltante algum. Nao devia satisfa¢3o a ninguém, Ola s6, a negra ain- da é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Linclal Lincha!... Uns pas- sageiros desceram ¢ outros voaram em direcio & Maria. © motorista tinha parado 0 Onibus para defender a passageira: — Calma pessoal! Que loucura ¢ esta? Eu conhego esta mulher de vista, Todos 03 dias, mais ou menos neste hord- rio, ¢la toma 0 Snibus comigo. Esta vindo de tratmalho, da tuta para sustentar os filhos. Lincha! Lincha! Lincha! Maris punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvides, A sacola havia arrebentado € as frutas rolavam pelo chio, Sera que os meninos iriam gostar de melaa? ‘Tudo foi tio rapido, tio breve, Maria tinha saudades de seu exchomem. Por que estavam fazendo isto com ela? 0 ho- mem havia segredado um abrago, um filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir 0 recado. Estavam todos armados com facas a laser que cortam até a vida. Quanda 0 Onibus esvaziou, quando chegou a policia, © corpo da mulher estava todo dilacerado, toda pisateado. Maria queria tanto dizer ao filo que o pat havia mandae do um abrago, um beijo, um carinho. Quantos filhos Natalina teve? Nitlina alisou carinhosarnente a barriga, 0 filho pulou 1é lle dentro respondendo.so earinho. Ela sorriu feliz. Era a sua juarta gravicez, € 0 seu primetro filha. $6 seu, De homem lguin, de pessoa alguma, Aquele fitho ela queria, os eutros ilo, Os outros eram como se tivessem morrido pelo mei ip eaminho. Foram dados logo apés e antes até do nasci mont, As eutras barrigas ela odara. Nao aguentava se ver wliilando, estufando, pesada, inchada e aquele troco, aque- WW cosa mexendo dentro dela. Ficava com 0 coracao cheio lp Olo, Enjoava e vomitava muito durante quase toda a jyovider, Na terceira, vomitou até na hora da parto. Foi a jilor gravidez para Natalina, Pior até do que a primeira, em- og fosse ainda quase uma menina quando pariu o primel- CONCEICRO EvARISTO ro filho, Brincava gostoso quase todas as noites com 0 seu namoradinho e quando deu fé, 0 jogo prazeroso brincou de pique-esconde la dentro de sua barriga, A mae desesperada perguntou se ela queria o filho e se Bilico queria também, Ela nao sabia responder por ele, Sabla, porém, que ela, Na- talina, nio queria, Que a mea perdoasse, nao batesse nela, no contasse nada para 0 pal. Que fizesse segredo até para 1 Bilico. Ela estava com Odie vergonha, Bilico Trunca mais brincarla com ela, Ele no ia querer uma menina que est vesse esperando um filho. Que a mae ficasse calada, Ela ta dar um jeito naquilo. Natalina sabia de certos chs. Varlas vezes vira a mie be- ber, Sabla também que as vezes 05 chis resolviam, outzas veres, ndo, Escutava a mde comentar com as vizinh — Ei, fllana, 0 trogo desceui! — E soltava ums gargalhada aliviada de quem conhecia o-valor da vida eo valor da morte. Natalina preparou os chés e tomou durante varios dias, Ela ficava em casa cuidando dos irmaos menores. la fazer catorze anos. Uma coisa estava 14 dentro da barriga dela ¢ ia crescer, crescer até um dia arrebentar no mundo. Nao, ela no queria, precisava se wer livre daquito. Amenina estava comegando a ficar desesperada, Tomava ‘0s chis e nao resolvia, Um dia a mae perguntou-lhe como ‘estava indo tudo. Ela no respondeu. A mie entendeu a res posta muda da filha. Agora ela mesma é quem ia preparar os ‘chas. Como haveria de criar mais uma crianga? © que fazer quando o filho da menina nascesse? Na casa {é havia tanta gente! Ela, o maride e sete eriangas. E agora teria o filho da filha? la tentar mais um pouco de beberagens, se nao dese ccerto, levaria.a menina a S4 Praxedes. A velha parteira cobra~ ria um pouco, mas ficariam livres de tudo. Natalina segurow © temor em silencio. Sa Praxedes, nol Ela morria de mede da velha, Diziam que ela comia meninos. Mulheres barrig das entravam no barraco de $4 Praxedes, algumas, quando 440 QUAN Tas FILOSavATALINA TE ‘Silt, trizlam nes bragos as suas eriangas, outras vinham ‘lo aria, de bragos © mos vazias. Onde Sé Praxedles metia W evlanigas que ficavam 1d dentro? Sa Praxedes, nfo, A mae Hy Natalina e as outras maes sabiam que era s6 dizer para feslangas que iar chamar a velha ¢ 5 filhos ficavam quis JX obedéeciam. Sa Praxedes comia crianga! Natalina sabia iliiie, Hla também muitas vezes conseguin a obediéncla dos hos menores trazendo a velha partelta até o medo deles. ‘A inte devia estar mesmo com muita mégoa dela. Estava eisndolevé-ta a $4 Praxedes. A velha la comer aquilo que istiva na barriga dela. 1a conseguir fazer o que os chs néo inham conseguido. Natalina esperou. No outro dia, quando a una a cozinha da madame, ela salu logo atras para lugar al- jim, Nao sabia para onde ia. Ao descer o morro, ert um dos heer: passou em frente ao barrace de Bilico, Era ali que os ols brincavam prazerosos, sempre, Passou rapido, pisando Jovomente com medo de ser vista. Tinha de fugir de S4 Pra. Aviles, Ganhou a avenida, ganhou outras rus, Escondeu-se 10 tnals lange possivel de casa, Ganhou outros amigas tam~ ben, Un dia, junto com outra me bem esperava um filho, tomow um trem para mais longe Winla, respirou aliviada. Sa Praxedes nao a pegaria nunca Ni terceira barriga ela sabia de tudo que ia acontecer. Na pilinelra ¢ na segunda fora apanhada de surpresa. Billco, fiiige de infineia, crescera com ela. Os dois haviam des- Gabierto juntas o compo. Fol com ele que ela descabsiu que, aposar de doer um pouco, o seu buraco abria ¢ ali dentro ‘ili 0 prazer, cabia a alegria, Quando a crlanca nasceu era () fara de Bilico. Igual, igualzinha, Ela conseguira fugir de i Praxedes. Nao queria o menino, mas também no que- 449 que ele fosse comido peta velha. Uma enfermeira quis 0 seilie, A menina-mae salu levee vaala do hospital! E era sai cedo: a-mulher que tame LCONCEEGKO EYAKISTO como se ela tivesse ganho uma boneca que nao desejasse e cedesse 0 brinquedo para alguém que quisesse. ‘A segunda gravidez. foi também sem querer, mas ela jé estava mais esperta. Brincava gostaso com os homens, mas nao desculdava. Quande cismava com qualquer coisa, to- maya 08 seus chazinhos, &s vezes, 0 més inteiro. As regras desclam entie copiosas camo rios de sangue. Mesme assim, um dia uma semente teimosa vingou. Natalina passou no- vamente pelo momento de vergoniha, Nao Ja contar para Tonho, mas o rapaz desconfiow. Havia noite que se assen- tavam no bance da praca e nem conversaram, ela sé cochi- lava. Uma vez vomitou ao sentir cheiro de pipoca. Depols, um dia, no quarto da abra onde ele morava, quando Nata- lina se ps nua, o tapaz perguntou docemente sobre aquela barriguinha que estava crescendo, Ha, envergonhada, con- tothe qué estava esperando um filho, Que ele a perdoasse. Que ela havia tomade.uns chés, Que ela conhecia uma tal de Sa Praxedes,.. Quande acabou a falago ¢ olhou para Tonho, © mogo chorava e ria. Abragou Natalina ¢ repetia feliz que ia ter um filho. Que formartam uma familia. Natalina ganhou preocupacao nova. Ela nao queria ficar com ninguém, Nao (queria familia alguma. Nao quetia filo. Quando Toinzinha nasceu, ela € Tonho jé haviam acertado tudo. Ela gostava dele, mas nao queria ficar morando com ele. Toho chorou muito e voltou para a terra dele, sem munca entender a necu- sade Natalina diante do que ele julgava ser 0 modo de uma mulher ser feliz. Uma casa, um homem, um filho... Voltou levando consigo o filho que Natalina nao quis. A terceira gravider, ela também nao queria. Quem quis fol o casal para quem Natalina trabalhava. Os dois viviam ‘bem. Viajavam de tempos em tempos ¢ quando regressa- ‘vam davam sempre festas. Ela gostava de trabalhar all. Era tudo muito tranquilo, ficava sozinha tomando conta do apartamento. Cozinhava, passava, lavava, mas s6 pra si. A -QUANTOS FHLMDS MATALINA TEVE? ‘ha parvela ser 86 dela, Um dia, enquanto divagava em seus jinhiossde pretensa ona, o telefone tocou. Eras patroa que Aijaya do estrangeiro, em prantos, Ihe pedia ajuda. Ela que- Wk} precisava ter um filho. $6 Natalina poderia ajuds-ta. Ha HAG entendeu o telefonema nem as palavras da patroa. Vico aguardando o regresso dos dois. Dat uns dias a patroa Vallou, Natalina ouviu e entendeu tudo. A muther qui ius lio © nde conseguia. Estava desesperada ¢ envergonha- {ij por isso, Ela e marido ja haviam conversado. Era 36 a em- Pleqada fazer um flho para o patrdo. Elas se pareciam um Dpoiivo, Natalina sé tinha um tom de pele mais negro. Um {ilio do marido com Natalina poderia passar como sendo Mis, Natalltia lembrou-se de Sé Praxedes comendo criangas. Val vor que a-velha, um dia, comeu o filho desta mulher ¢ 4) hem Sabla, Lembrou da primeira crianga que tivera e que iH) linha visto direito, pois fora dineto para as maos-cora~ {phi (i enfermeira que seria a mae. Lembrou da segunda qu lelxura com 0 Tonho, pai feliz. Nio entendeu porque Jijelu muller se desesperava e se envergonhava tanto por Fito ter anv filho. Tudo certo, Deitaria com o patréo, sem Jaa dlguma, tantas-veres fosse preciso. Deitara com ele até ‘Hullra ¢ engravidar, até a outra encontrar no fundo de um Ailuro, que nao o seu, algum bebé perdido no Limiar de wm Jeinipo que 56 a velha Praxedes conheeia. A patra chorava ‘Wad parecla um pouco mais aliviada. Natalina levantow ¥ {ilo e fol ao banheiro, na boca uma saliva grossa, Eram os jplinelios-enjoos que fa comegavam. A patroa de Natalina passou a viajar sozinha. O patrio f- ‘avi fe quarto dele, de noite levantava e ia buscar Natalina {i sjuitto cle empregada, Nao falavam nada, naqueles en- “{onios de prazer comedido, Cada vez que a patzoa voltava, {eld em si-@ desejo de gravider no olhar. Os trés buscaram is ravidez durante meses © meses. Uri dia as regras de Na- linn nto desceram, A patroa afta pediu a urina, fizeram en CONeIgKO evARISTO fizesse carinho. Natalina, entre © Salo € 0 pavor, obedecia a tudo. Na hora, quase na hora do goz0, 0 homem arancou a venda dos olhos dela, Ela tremia, seu corpo, sua cabeca es- tavam como se fossem arrebentar de dor. A noite escura nao permitia que divisasse 0 rosto do homem, fle gozou feito cavalo enfurecido em cima dela, Depois taibau sonolento ao lado. Foi quando, ao conserlar @ corpo para se afastar dele, cla esbarrou em algo no chio, Pressentiu era a arma dele. O movimento foi rapido. O tiro fol certeire e 30 prd- ximo que Natalina pensou estar se matando também. Fu- ‘git, Guardou tudo 56 pra ela. A quem dizer? O que fazer? $6 que guardou mais.do que.o édio, a vergonha, 0 pavor, ador de ter sido violentada, Guardou mais do que a coragem da vinganga e da defesa. Guardou mais do que a satisfacio de ter conseguido retomar a propria vida, Guardau a semente invasora daquele homem. Poucos meses depois, Natalina se descobria gravida. Estava feliz. © filho estava para arrebentar no mundo a ‘qualquer hora. Estava ansiosa para olhar aquele filo € no ‘ver a marca de ninguém, talvez nem dela. Estava feliz © £6 consigo mesma. Lembrava de S4 Praxedes ¢ sorrla, Aquela ctianga, $4 Praxedes nao ia conseguir comer nunca, Um dia, quando era quase menina ainda, saira da cidade onde nas- cera fugindo da velha parteira. Agora, bem recentemente, saira de outra eldade fugindo do comparsa de um homem ‘que ela havia matado. Sabla que o periga existia, mas estava feliz, Brevemente iria parit um filo. Um fitho que fora con- -cebido nos frageis limites da vida eda morte. soe Beijo na face fulinida tombou suavemente @ rosto ecom as maos em con- in colhicu, pela milésima vez, a sensagio impregnada da fieljo om sua face, Depois com um gesto lento ¢ culdadoso, ‘hiv ay palmas clas macs, contemplando-as. Sim, lestava 0 ‘esliglo do carinho, Algo tao ténue, como os restos de uma ish dmarela, de uma borboleta-menina, que fol atropelada ios prlineiros instantes de seu inaugural voo. Rememorou Alida © compe que um dia antes estivera em. ofertor jus luclo, Tudo parecia um sonho. Os toques aconteceram juiteiados de sutileza, Carinhos inicialmente experimen. Failos apenas com as pontas dos dedos-desejos. Hla estava jprenslendo um novo amor, Um amor que vivia e se forta- Hcl na espera do amanha, que se fazia inesperadamente conceigho evantsto ‘nas frinchas de um momento qualquer, que se revelava por um simples piscar de olhos, porum sorziso-ensaiado na me- tade das bordas de um lébio, por um repetir comstante do e1 1c amo, declaragao feita, muitas vezes, em vor silenciosa, audivel somente para dentra, fazenddo com que © eco dessa {ala se expanddisse no interiot mesmo do proprio declarante. No principio a aprendiizagem Ihe custara muito, Acostu mada ao amor em que tude ou quase tudo pode ser gritado, exibide aos quatro ventos, Salinda perdeu 0 cho. Habitua- da a0 amor que pecie e permite testemunhas, inclusive nas horas do desamor, viver silente tamanha emogao, era come deglutir a propria boca, repleta de fala, desejosa de contar as gl6rias amorosas, E por que nao gitar, ndo pichar pelos muros, nao expor em outdoor a grandeza do sentimento? Nao, nao era a ostentagdo que aquele amor pedia. © amor pedia o direito de amar, samente, Salinda tentou guardar em si as lembrangas ¢ retomar a rotina. Era préciso viver a calma e 0 desespero como se nada cestivesse acontecendo, Havia quase um ano que a felickdade Ihe era servida em conta-gotas. Pequenas goticulas que guar- davam a forga e a parecenca de reservatdrios infindos, de re- ‘presas de felicidad inteira. Mesmo estando entupida de ale- ‘gria, com uma cangao a borbulhar ne petto, Salinda precisava ‘embrutecer 0 corpo, as olhos, a voz. Estava sendo observada em todos seus movimentos. A vigilincia sobre as seus passos pretendia, se possivel, abarcar até seus pensamentos. Ela, que até entao fora sempre distraida, teve de aprender a prestar atengioa tudo-eem todos. A mulher ou homem que estivesse assentado ao seu lado no Snibus poderia ser o detetive parti- ‘cular que o seu marido tinha contratade para seguita Ao se lembrar do marido, Salinda fai até ao quarto desfa- 2er 2 mala, que estava ali abandonada desde maha. Tinha ido até Cha de Alegria, deixar as criangas de férias com tia, Era para aquela cidade que viajava sempre com 05 fi se Whit Altin da ida a0 trabalho, Salinda nao podia salr 6 1 fillies, sem saber, tinkam sido transformados em vigias Hi Wile A Viagem de regresso, que ela fez sozinha, fol con- (ili tesde & momento em que deixou a casa da ta, No Jiiiieiplo, logo que camegou a ser wigiada, chegou a pen- Hf tito ustivesse sofrendo de mania de perseguigao. Con- HinoW, porém, que cstava sendo seguida, quando, numa Well, 0 marido, julgando que ela estivesse dormindo, fala- Wi alto 14 sala ao lado ¢ sem querer ela ouviu todo o teor da ‘anivema, Ble pedia noticias de todos os passos dela, Depois A cHufirmagio fol se dando pelas noticias que ele trazia. Ela AH/shu sto vista-em tal ¢ tal lugar. Salinda entendeu o com- Jludlamento do marido, Estava a vigid-ta, mas ao invés de ile ey silencio, vinha de propria vor alertécla. Era como se le Iuiseusse retarcor um encontro com a verdade. AAp§ poueas.as ameacas feitas pelo marido, as mais diver- ‘Aiiends e ceueis, foram surgindo. Tomar as criangas, maté-la 44) hilleldar-se deixando uma carta culpando-a. Salinda, por Jj() nna ha anos actiando um rompimento definitive com ele Htha medo, sentia-se acuada, embora as vezes pensasse jue ole nunca faria nada, caso ela © deixasse de vez, Apren- Alu dosde entao, certas artimanhas, sondava terreno, pro- FUFAVA Saides, Aas poucos foi se fortalecendo, criande defe- Wh faruntindo pelo menos o seu espace intimo, Vio Vandu, em Cha da Alegria, era anica pessos que adi- Vinhou 0 sofrimento de Salinda, acolheu seu segredo e se {ono camplice. Era na casa da tia que os encontros acon- {ec inith, De noite, depois das criangas, desconhecendo 0 qué ‘W piwsava com a mie, dormirem, Salinda, no quarto desti- uy a ela, podia se dar, receber, se ter ¢ ser para ela mesma ‘# hit mals alguém. Tia Vandy era guardia do novo e secre- We atior de Salinda. Aillnda desfazia a mala relembrando o seu regresso de hi do Alegria. Voltava para casa trazendo lembrancas en- est CCONcEIGKO evanISTO talhadas na memérla. Jogou algumas roupas no tanque; outras, ainda dmidas do desejo que brincava nos corpos amantes, para essas, ela inventow um esconderije. Queria a preservagio do tesoure, que as pegas mofassem sob a apa0 do temp intimo de sua esperanca, Havia dois tempos fundamentais ma vida de Salinda: um tempo em que @ matido ¢stava envolvido e cada vez mais se diluia € 0 tempo em que.o novo amor se solidificava, Dai uns minutos, 0 homem chegarla, poderia vir calmo, amigo como nos bons tempos de namoro e ainda durante alguns anos de casada. Sim, tinha sido dele, o lugar do célido amor de adolescente. Foi cle a primeira pessoa, que a tornou apta eavida para todos os demais amores que ela veio a ter. Podia chegar também amargo, agtessivo, infellz, querendo arra- har a face da felicidade dela. Vinha entio com as pergurt- tas de sempre: o que ela fizera durante os anos em que, ain- da solteiros, terminaram © namoro e se separaram? Quem era 0 homem, pai da primeira fitha dela? Por que depois de tanto tempo afastada, ela acettou voltar e se casar com ele? E assim aos poucos, Salinda foi percebendo que nunca deveria ter assumido novamente uma relacde com ele, Re ‘conhecia, entretanto, que antes, tanto na época do namoro da jventude coma na do proprio casamento, eles haviam experimentado tempos felizes. ‘A mala ja sendo desfeita lentamente enquanto tempos distintos amalgamavamese ern suas lembrangas. A imagem dos fithos voltow sua mente. Estavarn de férias, ¢a melhor companhia para eles no momento era, sem diivida, a Tha Vande. Um misto de tiaavé, mie e amiga. A casa sem as crlangas tinha o siléncio que brincava matreiramente nos cOmodos. A auséncia de qualquer som transportou-a nova- mente para os poucos dias vividos em Cha de Alegria. No dia anterior tinha levantado cedo guardando no rosto € no corpo as marcas do encontro vivido na noite, Feliz,cantou, ste SUH A Yee potas terras de Cha de Alegria. As criangas acor- ALAM 40 som da ave.mae que nao estava presa na gaiola. ‘A vidls velha, menina se maturando mulher, olhou Salinda Hos Ullios ¢ sorriu. Ela recotheu o sorriso da filha e percebeu ‘Wi alituude da menina uma possivel cumplicidade, que e5- jie guardou e aguardou poder realizar um dia. 1 elesarrumar a mala e em reviver varias lem- Wyinigap, Salincla nao percebeu © avancar das horas. Quando Wlihi por st (6 era noite. Estranhou o silencio ea auséncia do ‘hilo. Hle nae tinha ido buscé-la na rodovidria, mas, assim ue wld chegou, recebeu um telefonema dele dizendo que welava a casa da mae. Fla admitada, gostou. Depois delon- Jeans, la poder ficar sozinha. Havia uns cinco anos, desde {uw ele desconfiou dela com um colega de trabalho, um in- Jomo nu relagiio dos dois havia se instaurado. Das perguntas Waldosas feltas de maneira agressiva surgiu uma vigilincia “wevera © constante que s¢ transformoa em uma quase pri- Nii domicillar, Ela respondeu com um jogo aparentemente Juissivo. Fingiu ignorar, Era apenas uma estratégia de sobre- Vivericla, Ensaiava maneiras de se defender aguardando as ‘rljiigas crescessem um pouce mals, Quande fol Iniciado o (hiiore doméstico, a menina que ele havia assumido como [ill desde os onze meses tina treze anos. Mis por que 0 marido estava demorando tanto? Ela co- juga a se atormentar. O que estava por traz daquela au- {ivels Mao silenciosa? © que tinha acontecida? O que estava Jima acontecer? E sua vida secreta? Serd que o segredo ha- lu sido descoberto de alguma forma? Salinda tinha viajado (Gis) 4s eriangas, Sair com os filhos nfo levantava suspei- (0 alguma. E quando qualquer desconfianga acontecia, fjuunldo aplicava as suas taticas intersogativas. As crianyas jan) conclamadas a falar exaustivamente sobre o passelo. {ijeentemente narravam tudo, felizes por estarem conver- sundo com o pai, | —__—_____nmmmmmmmmmmaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, cONeEIEAD EvARISTO Salinda se lembrou das ameagas de marido. Pieferiu de- sacreditar que ele tivesse coragem suficiente para qualquer decisio. Entretanto, nio se tranquilizou, alguma coisa es- tava acontecendo, Levantou aflita procurando os cigarros. Buscou uma caixa fOsforos que deixou cair no chao. O lle geiro barulho da caixa caindo no solo retumbou como uma bomba atémica, e Cha Feliz se desenhou em sua mente. Ti- nha ido ae circa com as criangas em um dos dias que ficara na casa da tia, Estava mais entusiasmada do que elas. Bem cedo, quando a manhé ainda estava no nascedouro, ela go- zou antecipadamente a doce afligao que sentiria a tarde 20 deparar-se com 0 equilibrista. No circo, @ momento que Sa- linda mais gostava, era o de vigiar a acrobacia do bail na corda bamba, Naquele dia, quem se apresentava era uma mulher. Salinda vigiou os pasos cambaleantes da moga ten- tando se aprumar sobre um tao fino € quase imperceptivel fio, Ela sabia que, qualquer pasio em falso, a mulher esta~ ria chamando a morte. Por um mamento pediu para que tudo se rompesse. E, como equilibrista, la mesma sentiu um gosto de morte na hora, mas logo se recuperou mior- dendo novamente o sabor da vida, Seu halito ainda estava impregnadto da amor vivide na noite anterior, Levantou-se acompanhando com gosto 0 jogo da dangarina na fugaz linha da vida, A muther cambaleava, titubeava no espaco. la calr? Recuperou-se em seguida, cam um passo-gesto te- dondo, proprio ¢ justo, no fino fio estendido sob seus pés pubblico aplaudiu. Vozes infantis norteavam a alegria dos demais, Salinda salu vitoriosa do cireo. ‘A auséncia e o silencio do marido continuavam. © tele. fone tocou. Levantou preparadia, sabia que era ele. Bo outro lado do fio, com uma voz forgosamente calma, @ marido anunciou que {4 sabia de tudo. Perguntou se ela havia es- quecido de que os olhos da noite podem nao ser somente estrelas, Outros olhos existe; humanos vigiam. E ria debo- sce “Hille Mo descuido dela eda tia, Disse ainda que niio que- (VOI Nunc mais, mas eva bom ela fr se preparando para MUFF. Nou matita, Naa ia cometer sutcfdio. Mas ia \ niente 0s fills. Ele queria as filhos, todas. “All uot. Satinda recebeu 0 golpe com a cabeca ergui iy) Sua vor: nao podia demonstrar nenhum temor. Batathas WHIAIN, piores, mais cruéis que as anteriores. Sentiu porém Srl alivio, A versade tinha sido apresentada, por pior que Dine valor, © que fazer? Que cuidados e pravidéncias tomar ‘i Momento? A quem recorrer? E as crlancas? Nao, ela nao Wi atesiitir delas. Seus filhos eram uma opgio que ela fizera I) Mi)pre, Sentiuse desesperadamente 6. Quis ligar para it Viridi, ponclerou entretanto que seria melhor esperar Wi pouco. A noite as criangas sempre ligavam para casa \ianuly estavam por Id. Agora mais do que nunca precisava i iijoconsto cove ‘Tentoniio se cquilibrar sobre a dor € 0 susto, Salinda con- {uinplou-se no espelho, Sabia que ali encontraria a sua igual, Histtiva o esto contemplative de si mesma. E no lugar de ‘ih five, vlu a da outra, Do outro lado, como se verdade Tina 9 nltido rosto da amiga surgiu para afirmar a forga de Wi) amor cnire duas iguals. Mulheres, ambas se pareciam. Aili) neyras e com dezenas de dreads a lhes enfeitar a cabe- (4 Siibas aves femeas, ousadas mergulhadoras na propria fjilinders, Ea cada vez que uma mergulhava na outra, fh Silny® encontro de suas fendas-mulheres engravidava as lias ale pn @ que parecla pouco, multo se tornava. 0 Me Hinito ers, se etornizava. Eum leve e fugaz beijo na face, Suri rasurada de uma asa amarela de borboleta, se tarna- Wainy cevteza, uma presenga inerustada nos poros da pele wala trio os7 Luamanda Tiiiihinda consertou o vestido no corpo observande por al- Wiis Instantes ocalo eo pescogo, Nao, a sua pele no denun- Hiya ds quase cinco décadas que ja havia vivido. As marcas ‘Hi fosto, poucas, mesmo quando observadas de perto men- Hip descaradamente sobre a sua idade, Nunca ninguém ha- “Wi ie dado mais dle quatro décadas de vida. Um dia o Lance Wills alto que ela orguthosamente aceitara fora de 35 anos. ‘Miii1h1 bo ouvir a oferta. £, estava inteirinha, apesar de tantos ‘Hpjiiballwes ¢ actdentes de percurso em sua vida-estrada. {uj), Luamanda, companheira, mulher, Havia dias em W 1 tomada de uma nostalgia intensa, Fra a lua mos- Hise redenda no céu, Luamanda na terra se desminlin- Wille (odinha, Era como se algo derretesse no interior dela e COnceieA evanesta feasse gotejando bem na altura de. coragse, Levava a a0 peito e sentia a pulsacio da vida desentreada, louca Taquicardia. Tardio seria, ou mesmo haveria um tempo. em que as necessidades do amor seriam todas saciadas? Fla iniciara cedo na busca, menina, muito menina ain- da, Lembrava-se da primeira paixdo, Sentimento esquivo, conde se misturavam fevistas em quadrinhos, giz colorido, partilha de pao com salame ¢ um epilogo cruel dramati- zada pela sutra que levara da mie, O amor di? Na épora pensou que a dor de amor era tanta, porque tinha onze anos e um corpo-coragae pequeno. E desejou crescer. En- tre um pelo e outro que nasciam, em suas axilas e sobre © seu ptibis ensaiou e experimentou sorrisos, acenos distan- tes, piscar de olhos, troca de desenhos, cartas mal-escritas horradas com os dedos trémulos de amores platénicos. O amor é terra morta? Usn dia, aos treze anos, a cama de gaze foi arrumada em pleno terreno baldio, A lua espiava no eéu denunciando ‘com @ sua Iuz unt corpe confuso de uma quase menina, de uma quase mulher, Corpo-corago espetado por um fal, também estreante, Um menino que se fazia homem ali, 3 inaugurar em Laamanda © primeiro jorro, fora de suas préprias masturbantes maas. E ambos se lambuzavam fes- tivamente um no corpo do eutro, Luamanda chorando de ‘prazer. © goz0-clor entre as suas pernas lacrimevaginava no falo intumescido de macho menino, em sua vez primeira no corpo de ura mulher. © amor é terremoto? Depois, em outro tempo, quando jé acurnulada de warias vivéncias, ela deparou-se com um homem que vitia inaugu- ‘ar novos ritos em seu corpo. Uma sensagao estranha, algo ‘como um jorrox'agua ou um tapa inesperado caiu sabre 0 roste de Luamanda, ae avisté-lo pela primeira ver. Ele sor- ru, Ela sentiu o sortiso desgrudando da face dele e morden- do Id dentro dela. © corago de Luamanda cogou e palpitou, soe Jyiihibta a cara da ua nem estivesse escancarada no.céu, N&o “fieli mil, a tua viria depois. E velo, varias vezes. Lua cam- “Pilite das barrigas-luas de Luamanda. Vinha para demarcar HW lumpo gravido da muther e expulsar, em lagrimas amni- Jalluny © nangue, os filhos: cinco. Navegacéo intima de seu Hiniem no buraco-céu aberto de seu corpo. O amor é um [igo misteriaso onde se acurnulam diguas-lagrimas? Depols, tempos depots, Luemanda experimentava o amor 41) 119605 semelhantes 305 seus, Os bicos dos seios dela ro- (ginilo em outros intumescidos bieas. No primeizo instante, HomnlU falta do encaixe, do membro que completava, Num Ain dle exquecimento, sua mao procurau algo ereto no corpa jjie estava dliante do dela, Emcontrou um fala ausente. Mas filiva tio Gmida, to aquosa aquels superficie misteriosa- mente plana, to aberta e igual a sua, que Luamanda afune ilinse em um doce e feminil carinho. E quando se sentiu {betta por pele, poros ¢ pelos semelhantes ans seus, quan- liv ud igual dancou com leveza a danga-amor com ela, Wiiidide alguma sentiu, vazio algum existiu, pots todas as Adidas de seu corpo foram fundidas nas femininas oferen- lis ca outta. O amor se guarda s6 na ponta de um falo ou Husee também cos labios vaginais de um coragto de uma uiller para outra? {\jamanda, um dia, também amazona, montada entao sobre uum jovem. O mogo encantado por aquela mulher que Ole yabla madura, mas de imprecisa idade. O jovem ama- {iWynlnio-se no tempo vivide dela, Luamanda se realimen- Japilo, (eencontrando a sua juventude passada ¢ encantada [jolt vinilidade quase inocente dele. Era tio grande a juvenil ign do moco a atravessar © corpo de Luamanda, que en- sividleckda, as vezes, quando ele estava ld embaixo no bura {wiporna, cla pensava que o intumescido bastio dele ia pe: JiHlnit na seu corpo, desde 14 de Baixo e Ihe vazar pela boca “Woh; O amor nao cabe em um corpo? CCONcEIgO evARISTO ‘Tantos foram os amores na vida de Luamanda, que sem- pre um chamava mals um, Aconteceu também a palxio avassaladora pelo velho, pelas rugas que ele trazia na pele, pelo cansaco dele, pela copula que ela esperava e espreita- va durante dias e dias, Eta to bom contemplar aquele falo adormecida, preguigoso, sapiente de tanto corpos-histérias do pasado. Era como vivenciar uma duvidosa e infiel f€, sustentada por uma temerosa esperanga de que © milagre nao acontecesse. E fol ne corpo de velho que ela melhor executou 6 ritual do amor. Pacientemente penteava cu ou- rigava, com os dentes, os embranquecidos pentethos do.cor podele. E de noite, depois de muitas noites, quando a pedra envergonhada e soturma se desabrochava em flor, ambos ca- vavam 0 abismo do abismo encontrando o nada como rea- lidade dinica e, entio, € que aconteciam as juras de amor. E © velho vinha lento, calmo, culdadoso, closo do fundo ca- minho que ele teria de adentrar. Ela também calma, apenas retesando suavemente os finos véus sanguineos, bordados ‘nas paredes vaginais. Ele chegava € ela silenciando os gritos se quedava embevecida diante do-quase nada de um dtimo de prazer, O amor é um tempo de paciéncia? Se havia o amorna vida de Luamanda, também um gran- de fardo de dor compunha as tembrangas de seu caminho. ‘A vagina ensanguentada, perfurada, vielada por um fino es- peto, arma covarde de um desesperado homem, que mio soubera entender a solidae da hora da partida. E durante meses, 0 sangue menstrual de Luamanda, sangue de mu- Iher que nasce naturaimente de seu Gtero-alma vinha mis- turar-se ao sangue e pus, dadivas dolorosas que ela ganhara de uum estranho fim amoroso. E ptor do que a dor foi a dor- méncia de que foi atacada, em sua parte tio viva, durante ‘meses a fio. Logo all onde a vida se entranha e desentranha. All onde Luamanda havia parido coneretas ¢ vitalicias lem- ‘brangas de si ¢ de outro homem que ela amara tanto, nas 620 $e seus filhos. Foi um, tempo em que preci lara paciéneia com o seu proprio corpo. Tran cada moltior, aberta para si mesmo, com as mios es- 0 loves imaginava lenitivos carinhas. Chorando huilla, contornava uma cicatriz que ficara desenhada | ponte da pele, onde os pelos se rarearam para sem- Jim ponto Gnico, mintsculo, um impertinente ca- All, entioalisava a dor ¢ seus contornos. Exa preciso. W-40 10 Sua Mloresta espessa € negra de que o prazer Ha Via retorniivel, de que o gozo ainda era possivel. O rianites sentimentos? © desencontros, Luamanda estava em {AVI flhos, trés mulheres e dois homens, Todos eles piraclos no mistério maior da vida. A mais nova es poris de parir, Luamanda, av6, mae, amiga, campa- -alma-menina no tempo. Hgemer|ina no tempo? Ngo, ela nao se envergonhava de iWiNsmo, Ha coms ele que ela compunha e recompu- (isle um poema, em que uma mulher contemplando a ei, pergniva angina onde queda 1a face, a antiga, pois rio se recanhecia na- Iria sempre. Pouguissimos fios de cabelos brancos in| buscando-criar um territério préprio em sua ca- l}ou esses fios, pxou-os querendo destac#-los en- CONEEIRAG EVARISTO. tre 05 demais. Imaginou-se com 0s cabelas brancos sobre @ tasto negro. Seria bela como a Velha Domingas lé das Gerais. “Viajando no tempo-evento de sua vida, Luamanda, dis- traida, esqueceu-se do compromisso para.o qual se prepara- ‘va no momento, Acordou, para o encontro que estava para acomtecer naqueta noite, quando ouviu 0s assoblos de al- guém que aguardava por ela li fora. Apressou-se. Podia ser ‘que-o amor | no supartasse um temnpe de longa espera, O cooper de Cida nha nascende mothado na praia de Copacabana, isi do tempo, a manha vagabunda nos olhos so- dos moradores de rua, o trabalho inconsequente om seu fazer e desfazer, tudo isto comprometia de Gida. A moga foi diminuindo o passo, Ela era portista natural. Cortia o tempo todo querendo vit © minguade tempo do viver. Era preciso bus- unpre. O que tinha ficado para tris, 0 agora e o que ta vir De manha, depois da corrida, ia & padaria, itura dindmica que fizera hé uns anos atrés, cor plas manchetes tentando aprender as acon- concer Ao evaRIstO tecimentos. Em casa, cortia ao banho, a6 quarto, 4 sala, & ccozinha. Fervia o leite, arruriava a mesa, voltava ao quarto, avancava sobre o guatda-roupa e atracava-se ao uniforme de trabalho, logo depols jf estava na sala fechando a por- tae indo. Voava pelas escadas, pols o elevador era lento © no constante cooper ganhava a Tua. Corrla sobre a corda bamiba, invisivel ¢ opressora do tempo. Bra precise avangar sempre e sempre. Hla era vencedora de outras distancias. J4 saltara mon- tanhas e divisas de um tempo-espaco que ficara para tris. Como era mesmo a sua cidade natal? Nao sabia bem. Lem- brava-se, entretanto, que as pessoas eram lentas. Andavam, falavam ¢ viviam de-va-gar-zi-nho. A vida era de uma ler- deza tal, que algumas mulheres esqueciam-se de parir seus rebentos. A barriga eresela até aas onze meses. As criangas rnasciam moles, desesperadamente calmas ¢ adiavam indef inidamente o exercicio-de crescer. Cida desde pequena guat- dava um sentimento cle urgéncia, Seu corpe aos nove anos saturou-se no sangue mensal de mulher, As suas brincadei- ras prediletas, ainda nessa época, eram a de apostar corrida com as criangas.e a de desafiar grandes e pequenas, no tem- po gasto para execucao de qualquer tarefa. Vencla sempre, utilizando um tempo diminuto em ralagdo-a todos. ‘Aos onze anos, Cida foi pela primeita vez ao Rio com a mae, em viagens de negécios. A mie reclamava da velocida- de dos carros, do amontoado ¢ da corteria das pessoas, do vai e vem de todos. Cida bebeu enlouquecida 0 zigue-zague dos carras, das pessoas, dos pés quase voantes dos pedrestes desafiando, vencendoe encontrando a morte. Descobriu na turbilhiéo da cidade um jogo de caleidoseopto formado por peas, gente-maquinas se eruzando, entrecortando bragos, todas, cabegas, buzinas, motos, peas, pes e corpos aroma- tizadas pela esséncia da gasolina, Gida descobriu outras pes- soas também portadoras da urgéncia de vida que ela trazta soe @caorer ot cioa JT haduele memento optou por retornar um dia para ill, Yinham razao, a cidade era maravilhosa. ‘dovessote anos, um emprego, 0 primelro, arranjaco No, permitiu que ela wiesse para a capital, vida ‘No titmo acelerado de seu desejo. Trabalho, trabalho, iho, O dia entupido de abrigagdes. A noite fest Wwontros de rapides gozas. Os amores tinham de ser | Curses, estudos somente aqueles que proporcionas- Jltos Imediatos. Nada te sala de aula durante anos {lo gastar 0 tempo curto ¢ raro. £ preciso eorrer, para Jor antes, conseguir a vaga, 0 lugar ao sol, pegar a fila jena no banco, encontrar a lavanderia aberta, testemu- I) Assistia a metade da liturgia, pelo menos nao ficava ‘1emorso inteiro. Nao perder a missa aos domingos foi (ov ecomendagao que a mac fizera. Alguns habitos ela deixado para trés, outros reforgara ¢ havia adguirido jovos, Passou a beber diariamente um refrigerante, G luinbém comprava todos os dias um jornal, que na ia das vezes rem lia, Aumentara vertiginosamente © live calgadio da praia. fam e-vinham em toques ripidos iilvon, Como se tivessem envergonhados dos carinhos lmprimnia mais ¢ mais velocidade a sua louca e solita- {iipsitona, Corria contra ela propria, no perdendo endo ‘siiilidngs nunca. Mas naquete dia, a semidesperta manha Tiipilava Cldla.de um sentimento pachorvento, de um dese ‘querer paras, dle nao querer ir. Sem perceber, permitiu JWintidlio aos seus passos e pela primeira ver viu o max iieiplo experimentou uma profunda monotonia ob- ja os movimentos repetidos e maniacos das ondas. CONCEIGAD EVARISTO Como a natureza repetia séculos e séculos, por todo o sem pre, os mesmos atos? O dia raiar, a noite cair, o sol, a lua... O mar magninimo lavando repetidamente, a curtos los a atela elrcundante, Tudo manétono, certo e previsivel, Tao previsivel como-os principals atos dela: levantar, corter, sait, voltar. Contemptou os rostos que passavam, conhecia ‘todos de relance. Todas.as manhas topava com aquelas faces. suadas diante de si. Assustou-se. Percebeu que no estava correndo. Estava andando em cAmera lenta, quase. Sentiu a planta dos pés, mesmo guardadas nos ténis, tocando 0 solo. Ela estava andando, parando, andando, parando, pa- rando, Todos os seus membros ¢stavam lassos, 56 0 cora- ‘sao batla estonteado. Cida levou a mio ao peito, Sentiu 0 coragila € 05 seios. Lembrou-se entio que era uma mulher © nfo uma maquina desenfreada, louca, programada para corrercorrer. Envergonhou-se dos orgasmos premeditados, cronometradas que vinha cultivando até all. Ela no se en- ‘tregava nunca e repudiava qualquer gesto de abandono-que alguém pudesse ter diante dela. A corda bamba do tempo, varal no qual estava estendida a vida, era frégil, podendo se romper a qualquer hora. Era preciso, pols, um constante estado de alerta. O mar mavimentou-se novamente num gesto aliciante e canvidativo. Cida abandonau o calgadso e encaminhou-se para a arela, Sentiui necessidade de arrancar 05 tenis que Ihe prendiam os pés e deixou aquelas correntes abandonadas ali mesmo. Afundou os pés na arela e contem- plou mais uma vez 0 mar, Um nadador brincava repetidas ‘veues com os bracos e a cabeca na égua. Cia aguardou ci fora desejando ansiosa que ele safsse. Ela queria saber do tempo dele, barganhar momentos, pedir um tempo-empres- tade talvee, Como uma pessoa, em plena terca-feira, as seis ¢ cinguenta ¢ cinco da manha, podia estar t20 tranquila- mente brincando no mar? Deveria ser extremamente rico. Viver de juros. Lembrou-se dos mendigos que constante- terva sae @ caorce ot cion, #105 NH Serlam medidas justas do tempo. Ela esta- [Hille @ nove anos. Pouco? Muito? Medic, comparar, relago a que? Haveria um tempo ou- WeKdo no coragao do tempo? © nadader continu- algo que ela nao encontrava ci fora. Dizem que lo tar abriga riquezas e mistérios. Eta lembrou-se Ayes rotineiras, incorporar-se navamente ao co- #16 © quuarenta e cinco, Pedro acionaria a buzina WH) om frente ao prédio dela, Jé pronta, desceria rapi- Hw iH oveaita, e antes, bem antes das olto ¢ trinta, seo wstivesse born, eles aportariam no escritario da Rio | liu preciso ie, corer mais ainda. Havia maculado o 0 olhiare a espera pecaminosa diante do mar, Hianq.ullo insistia em seu jogo. Cida veto voltando, him, © mar insistia em se mostrar diante dela. $6, qucle dia, ela percebera © mar. E como tudo era daynente belo. Atravessou calmamente a rua, nao fé. Tomavam o liquide. tinham a expressio. a de sono, fore, descompromisso ¢ abandono. 9 iiedicla de tempo para eles? Em meio a esses Wits, Gila che gow & porta de-seu prédlia, Pedro fora If) Mepatava-se para entrar e ao deparar-se com ela, Aslistado olhando para a moca da cabeca aos pés: Whi? Por que ela estavee chegando do cooper naquele Jia assattada? Levararn-the os ténis? oa preciso sue CONCEIGAY EVARISTO: Lembrou-se de que quando era crianga, ama de suas diver- sGes era colar o radinho no ouvido e ficar ouvindo a narra- io do futebol. Tinha a impressio de que a fala de locutor ¢ra-mais eSpida do que a bola nos pés dos jogadores. Parecia que era a palavra do homem que empurrava o jogo. Pedro bradava, bradava. O tempo-estava pasando e ela continuava ali apalermada. © que estava acontecendo? $4 entdo Cida percebeu © motivo de aflico do amigo. Ela estava chegan- do atrasada do cooper, Tinha comprometido, extrapolade 0 tempo, O que havia acomtecido? Nao, nao tinha aconteci- do nada, Nao tinha sido assaltada, Apenas demorara mais, muito mais do que o costume. Se distrafra, esquecera das horas. Ele poderia lr, |4 estava bastante atrasado. Hoje ela nndo iria trabalhar, queria parar um pouco, nao fazer nada ‘de nada talve2. B $6 entie falou significativamente uma ex- pressio que tantas vezes usara e escutara, Mas falow tao bal- xinho, como se fosse um momento tinico de uma misterio- sae profunda prece. Ela la dar um tempo para ela, ita esqueceu de guardar os brinquedas iJhow as figurinhas no chao, Olhou demoradamen- ‘ii ima delas. Faltava uma, a mais bonita, a que \4 garotinha carreganclo uma bragada de flores. “perfume parecia exalar da figurinha ajudande a | A Min(iseulo quadro. A inma de Zaita ha muito tem- ‘0 desenho e vivia propondo.uma troca. Zafta nao ‘A putea, com certeza, pensou Zaita, haviaapanhado agora, como fazer? Nao poderta falar com i) nas duas. Depois rasgaria todas as outras figue bande de vez com a coleclo. A menina recolheu CONCEIGRO evaMISTO ‘Ame de Zaita estava cansada, Tinha trinta € quatro anos © quatro filhos. Os mais velhos jé estavam homens. © pri melro estava no Exército. Queria seguir carrelra, O segundo também. As meninas vieram muito tempo depois, quando Benicia pensava que nem engravidaria mais. Entretanto, 1a estavam as duas. Gémeas. Eram iguais, iguaizinhas. A dife- renga estava nia maneira de falar. Zaita falava baixo ¢ lento. Naita, alto ¢ rapido, Zaita tinha nos modos um qué de do- ura, de mistérios ede sofrimento. Zafta virou a calxa, ¢ os brinquedos se esparramaram, fa- zendo barulha. Bonecas incompletas, chapinhas de garra- fas, latinhas vazias, calxas e palitos de fésforos usados. Me- xeu em tudo, sem se deter em bringuedo algum. Buscava insistentemente a figurinha, embora soubesse que nao-a en- contraria ali, No dia anterior, havia tecusado fazer a troca mais uma vez. A irmé oferecia pela figurinha aquela boneca negra, a que sé faltava um brago e que era to bonita, Dava ainda os dois pedagos de lépis cera, um vermelho eum am: rela, que a professora Ihe dera. Fla nao quis. Brigaram, Zaita chorou. A noite dormiu com a figurinhaeflor embaixo de travesseiro. De manha foram para escola, Como o quatri- niho da menina-flor tinha sumido? Zaita olhou os brinquedos largados no chao ¢ se lem- brow da recomendacio da mie. Fla ficava brava quando isto acontecia. Batia nas meninas, reclamava do barraco peque- ‘no, da vida pobre, dos fithos, principalmente «do segundo, ‘Um dia Zaita viu que o irmio, 0 segundo, tinha os olhos aflites, Notou ainda quando ele pegou uma arma debaixo da poltrona em que dormia e saiu apressado de casa. AS que a mie chegou, Zaita perguntou-the porque o irmio es- tava tao afito e se a arma era de verdade, A mie chamou 4 outra menina e perguntou-lhe se ela tinha visto alguma ‘coisa, Nao, Nafta nao tinha visto nada, Benicia recomendou ‘entio 0 silencio. Que nao perguntassem nada ao irmio, Za- ne ‘volta (SQUFEEUDE cUARDAR OS BeINQUEDDS que a voz da mae tremia um pouco. De noite ‘luns estampidos de bala ali por perto, Logo {out 05 passos apressados do irmio que entrava. o\1 mais para junto da mae. A itm dormia, A ui a Cama varias. vezes; em um dado momento susiada, lepots se deitou navarente cobrindo-se 0, Fintrctanto, nao conseguiu dormair mais, tinha lio edo, ¢ a mae Ihe paréceu ter passado a noite levaiitou € saiu, deixando os brinquedos espalha- jiowirido as recomendagoes da mae. Alguns ficaram ‘mente expostos pelo caminho. A linda boneca uly ACU Unico brago aberto, parecia sorrir desam- \ionite feliz. A menina estava pouco se importando lupus que pudesse receber. Cueria apenas encontrar ihitflor que tinha sumido. Procurou pela ima nos ‘isa, desapontada, 6 encontrou 0 vazio. nia arrumava-os poucos mantimentos no velo ‘udcira, Zaita teve medo de olhar para ela. Sai pereeber c bateu no barraco de Dona Fiinha, 20 nil do estava ali também. Onde estava Nafta? havin 4e metido? Zaita saiu de casa em casa por Hwieo, perguntando pela irms. Ninguém sabia res- | A cada quséncia de informagao sua magoa crescia. hide, junto cons a desesperanca, Tinha o pressenti~ {0 que# figurinha-flor nao existia mais. {le Zita, 0 que ndo estava no Exército, mas que- lipgatrelia, buscava outra forma e local de poder. Ti- jeter bom forte dentro do petto. Queria uma vide pera, Uma vida farta, um camino menos hulso nao varie. Via os seus trabalharem ¢ acu- Fi lséria no dia a-dia, O pai dele e do inmia mais jayu sew pouco tempo de vida comendo poeira de on ES conceigxG evanisto ‘foes, arela, cimento ¢ cal nas constmucoes civis. O pal das xgemeas, que durante anos morau com sua mae, trabalhava muito € nunca trazia bolse chelo. © moco via mulheres, homens e até mesma eriangas, ainda melo adormecidos, sairem para o trabatho e voltarem pubres como foram, acu, miulados de cansaco apenas. Queria, pois, arrumar a vida de outra forma, Havia alguns que trabalhavam cle outro modo € ficavam ricos, Era 56 insistir, x6 ter coragem, $6 dominar O'medo e Ir adiante. Desde pequeno ele vinha aeumulando experiéncias. Novo, crianga ainda, a mae nem descontia- va e cle jf tracava 0 seu caminho. Corria dgil pelos becos, cola recados, entregava encomendas, e displicentemente assobiava uma miisiea infantil, som indicativo de que os homens estavam chegando. Zaila andava de beco em beco a procura da ima. Chora- va, Algumas pessoas conhecidas perguntavam 0 parquié de la estar tio longe de casa, A menina se lembrou da mie € a raiva que ela devia estar. la apanhar muito quando vole tasse. Nio se importou com aquela lembranga, Naqucle mo- ‘mento, ela buscava na meméria como o desenho da meni- na-flor tinha nascido em sua colecio. A figurinha podia ter vindo em um daqueles envelopes que o irmao, 0 segundo, as vezes comprava para ela. Quem sabe viera no meio dag duplieatas que a mie ganhava da filha da patroa, ou ainda fruto de alguma troca que cla fizera na escola? Mas podia ser também parte de um segrede que ela niio havia contado nem para sta igual, a Naita. A figurinha podia ser uma da- quelas dez, que ela havia comprado um dia com uma moe ds que tirara da mae, sem que ela pereebesse. Zaita por mais ue se esforcasse retomando as lembrancas, nao consegula atinar como a figurinha-flor tinha se tornado sta. A mie de Zaita guardau rapidamente os poucos manti- mentos. Teve a sensagio de ter perdido algum dinheira no- supermercada., Impossivel, levara a metade do salario ¢ nido 740 ZAltA ESQUECEU DEGUAROAK OS BuiNQUEDOS ‘conseguiria Comprar quase nada, Estava cansada, mas tinha de aumentar o ganho. Ia arranjar trabalho para os finals de semana. O primetro filho nunca pedia dinheiro, mas ela sabia que ele precisava. E sem que 0 segundo soubesse, Bo- nici colocava uns trocadinhos debalxo do travesseiro para ele, quando ele vinha do quartel. Havia também o aluguel, a taxa dle agua e de luz. Havia ainda a irma com os filhos Pequenos e com o homem que ganhava tao pouco, ‘Amie de Zaita, as vezes, chegava a pensar que o segundo filho tinha razao. Vinha a vontade de aceitar o dinhcira que le oferecia sempre, mas no queria compactuar com a esco. Tha dele, Orgulhosamente, nao aceitava que ele contributsse com nada em casa, Estava, porém, chegande a conclusio de que trabalho como o dela ngo tesolvia nada, Mas o que fazer? Se parasse, a fome viria mais rapida ¢ yoraz ainda. hee nicia, ao dat por falta das meninas, interrompeu as pensa- mentos. Nao ouvia as vores das duas hé algum tempo. De. ‘viam estar metidas em alguma arte. Sentiu certo temar. Vi andando afta da cozinha ¢ troperou. nos brinquedos espar- Famados pelo chi. A preocupagao anterior se transformou €m ralva. Que merda! Todos os dias tinha que falar a mese ‘ma coisa! Onele as duas haviam se metido? Por que tinkiam deixado tudo espathado? Apanhou a boneca negra, a iais Donitinha, a que s6 faltava um brago, e arrancou 9 otttro, depois a cabega © as pernas, Em poucos minutos a boneca sstava destruida; cabelos arrancados e olhos vazados. A ot {ra menina, Nafta, que estava no barraco ao lado, escutan. do os berros da mae, voltou afta. Fok recebida com tapas € safandes. Saiu chorande para procurar Zaita. Tinha duas tristezas para contar a sua inmd igual. Havia perdido uma coisa que Zaita gostava muito, De manha tinha apanhade & fgurinha debaixo do tavesseiro. Queria sentir. perfume de perto. E agora no sabia mais onde estavaa flor. A ouitra ‘coisa era que a mamie éstava brava porque os brinqueclos CONEEIEAG EvaRISTO estavam largados no chio e de raiva ela havia arrebentado aquela bonequinha negra, a mais linda... ‘Nos filtimos tempos na favela, 0s titoteios aconteciam com frequéncia ea qualquer hora. Os componentes dos grupos a vals brigavam para garantir seus espagas e freguesias, Havia ainda 0 confronto constante com os policials que invadlam a 4itea. © immo de Zaita liéerava o grupo mais navo, entretan- to, o mais armado. A drea perto de sua casa ele queria s6 para si. O barulho seco de balas se misturava & algazarra infantil ‘As crlangas obedeciam & recomendagao de no brincarem Jonge de casa, mas as vezes se distralam. E, entde, nio expe. rimentavam somente as balas adocicadas, suaves, que derre. tlam na boca, mas ainda aquelas que thes dissolviam a vida, Zaita seguia distrafda em sua preocupagio. Mals um tiro- telo comegava. Uma erianca, antes de fechar-violentamente a fanela, fez um sinal para que ela entrasse ripido em um bbarraco qualquer, Um dos contendores, ao motar a presenca da menina, imitou 0 gesto feito pelo garoto, para que Zaf- ta procurasse abrigo, Ela procurava, entretanto, somente a sua figurinha-flor., Em melo ao tiroteio a menina Ia. Balas, balase balas desabrochavam como flores maktitas, ervas da- ninhas suspensas no ar, Algumas fizeram citculos no compo da menina. Daj um minuto tudo acabou. Homens armados sumiram pelos becos silenciosos, cegos e mudios. Cinco: ou sels corpos, como o de Zaita, jaziam no chao. A outra menina seguia aflita @ procura da irma pata the falar da figurinha-flor desaparecida. Como falar também da bonequinha negra destruida? Os moradares de beco onde havia acontecido 0 tiroteio ignoravam 0s outros corpos e recolhiam s o da menina. Nalta demorou um pouco para entender o que havia acon- tecido. E assim que se aproximou da ima, gritow entre 0 desespero, a dor, 0 espanto e o medo: — Raita, voc’ esqueceu de guardar os brinquedes! T60 Di lixdo. ‘Di Lixo abriu os olhos sob a madrugada clara que a se tor- nava dia. Apalpou um lado do rosto, sentindo a diferenca, mesino sem tocar a outro, O dente latejou espalhando a dor por todo o céu da boca. Passou lentamente a lingua no canto da gengiva. Sentiu que a bola de pus estava inteira. G companheito de quarto-marquise levantou um pouco © earpo ¢ entre o sano olhau espantado, meio adormecido, para ele. Di Lixdo encheu ripido a boca de saliva e dew uma cusparada no rasto do menino. © outro, num sobressalto, acordou de seu seno todo instinto de defesa. Pulou inespe- radamente, acabando de se levantar. Di Lixo acompanhou © geste raivoso de menino, levantando também, Numa fra- (io de segundos recebeu um pontapé nas suas partes baixas. CONCEIGAO evARISTO Abaixou desesperado, segurando os ovos-vida, foi se en- colhendo, se entoscando até ganhar a posigtio de feto, Pela primeira vea, depois de tudo, se lembrou da mae. Ainda bem que aquela puta tinha morrido! Ele sabia quem havia mata- doa muther. Tinha visto tudo direitinho. Na policia negou que estivesse por perto, que suspeitasse de alguém. Depots de trés ou quatro idas a delegacis, os policiais acabaram por deixa-la em paz. Ele sabia quem: Pouco importava. Que dei- xassem o homem solto. Nao gostava mesmo da mae, Ne- inhuma falta ela fazia. Nao aguentava a falagio dela, Di, vai para a escola! Di, nao fala com meus homens! Di, eu nasci aqui, voc’ nasceu aqui, mas dé um jeito de mudar 0 seu ¢a- minho! Puta safada que vivia querende ensinara vida para ele. Depots, pouco adiantava. Zona por zona, ficava all mes- ‘mo. 14 fora, o outro mundo também era uma zona. Sabla ‘quem tinha matado a mae. E dai? © que ele tinha com isso? ‘As partes de baixo de Di Litio dofam. © dente continua- \va‘a latejar. Serd que ele ia morrer? Sera que.a dor de cima la ‘se encontrar com a dor de baixo? Seré que 0 encontre seria uma dor 34? Pensou no colega de quarto-marquise. © menino havia sido mais esperto do que ele. Fugira. Ganhara o mundo. Jé tinha Dastante tempo. que os dois dividiam aquele espaco. De dia perambulavam peta rua, cada qual no seu ganho. Encontravam-se all no meio da notte. As vezes conver muito, Falavam de tudo. Até de um pai, menos dan Lixo achava que a histéria da mae da outro de parecer com a da sua mie, Ele nao sabia se gostava ou néo do me- nino. Tinham quase a mesma idade. © pequeno, tinha quatorze anos. Ele, no ia qualquer, tinha feito quinze. (© dente de Di Lixdo latejava compassadamente. Ele eta uma dor 36, As dores haviam se encontrado. Boia o dente. jam as partes de baixa. Doia 0 odio. yee prunao Sentiu vontade de mijar. Quando ele era pequeno mijava nas calgas. Sua mae the batia sempre por isso. Um dia, ela, numa crise de raiva, a0 ver 0 menino tade ensopado de mijo, puxou a bimbinha dele até quase arrebentar. E dizia para ele aos berros que aquilo esa para mijar, para mijar, mijar, mijar.. ‘A dor que Di Lixdo sentiu naquele dia voltava agora, O que era aquilo? Naquele dia a mae havia puxade a bimbl- nha dele. Agora ele era grande, experimentads na vida. TI nha levado um chute no saco, nos ovos. E doia para cacete. A vontade de mijar se comfuncia com a dor, Naquela época, pensava que a bimbinha s6 servia para mijar, mijar, mijar. ‘Agora nao! Tinha crescido, a bimbinha se transformado em pau, cacete, Hé muito tempo havia descoberto que bimbi« ha grande, em pé, tinha outro fazer. Tinha experimentado isto nos quartos daquelas putas, Foi também no quarto ao lade de de sua mae, com uma menina da idade dele, que como ele havia nascide ali, que experimentou 0 primeito prazer a dois, Quando acabou ‘tudo, quase morreu de vergonha. Estava na cama ainda ¢ a0 conseguia para. Nao conseguia parar 0 mijo. Mijou-se todo. Di Lixao estava com vontade de mijar, Queria levantar © nao podia, Ia soltar nas caleas. Nao podia fazer. A mac, aquela puta, era bem capaz de viver de novo e vir castiga-to. Apalpou, meio sem jelto envergonhado, as partes doidas, © dente latejou fundo no profundo da baca. Dor de den- te matava? Nao sabia. Sabla porém que ia morrer. Mas isto também, como a morte da mae, pouca importancia tinha. Onde estava o desgracado do outro? $6 nao queria morrer 80 sozinho. Os primeiros trabalhadores passavam apressados. Di Li- xo teve vontade de chamar um deles, mas silenciou 0 de- sejo na garganta. O sol anunciava o dia quente. Ble, entr tanto, tremia de frio. Sentia um vazio na cabeca, no peito & a7 eONCEIERO EVARISI flor, As vezes o casal se desgarrava, mas na mesma hora, sem tespirar, o par se fundia de novo. Lumbi ficava por perto olhando de soslaio para a mulher. E quando notava que ela estava toda mole e o homem derretide, » menino se punha quase entre os dois, com a flor em riste, impon- do a mercadoria. © caliente namorado enfiava a mao no balso, tirava o dinheiro e pegava a rosa, recomecando 0 ca- tinho. As vezes, tio distraida no beija-beija estava 0 casal que a rosa nao era colhida das maos do menino. E 0 troco honestamente oferecido ao fregués cansava de esperar na mao do vendedor. Lumbid calculando © lucro da venda sortia feliz. As vezes, 0 menino usava outta ardil para im- pulsionar a venela. Chegava elogiando a mulher, dizia que ela era linda ¢ que os dois iam ser muito felizes. Havia ca- sals que respondiam: —Serd? Estamos terminando agora! ‘© menino nao se dava por vencido. Muito sério respond — Nao ha grande amor sem problemas! Uma flor, uma rosa na despedida de vacés, ‘Vencia sempre. Feliz, Lumbid ¢ o amigo Gunga depois ‘lam do beijo babado do homem eda mulher. Fle sabia tam- bém que ndo era s6 homem ¢ mulher qué s¢ beijavam. Ha~ ‘via 0 casais, em que a dupla era formada por semethantes. ‘Homem com homem. Muther com mulher. Esses casais nao se beljavam em pablico. As vezes faziam um earinhe ripide ‘nas mos do outro, Raramente compravam rests, AS Mu theres se aventuravam mais, Compravam ¢ ofertavam para a. amiga presente. Lumbia gostava muito de aproximar dos casais semethantes. Gostava da troca carinhosa que ele as ‘vezes assistia entre esses pares. O beijo era depositado nas aze tung mias, que escormegavam levemente na direcdo da palma da ‘utra pessoa, ou substituida pela leveza de uma flor-sorriso que se abria na intenggo de um lablo a outro Lumbid tinha ainda outzos truques. Sabia chorar, quando queria, Escolhia uma mesa qualquer, sentava, abaixava.a ca- boca ¢ se banhava em ligrimas. Sempre comecava chorando Por safadeza, mas em meio as ligrimas ensaiadas, o choro teal, profuiide, magoado se confundia. Nas histérlas, que Inventava nas momentos de choro para comover as pesso- 2s, tinha sempre uma dissimulada verdade. Um dado real da vida dele ou do amigo Gunga se confundia com a invenga0 domenino. E enquanto chorava o pranto ensaiade para co- mover 05 compradores, contava ofa sobte a surra que hax via levado da mae, ora pela mercadoria que estava ficando encalhada (cele precisava retornar para casa com um bom resultado de venda), ou ainda, pelo dinhelta, fruto de seu ttabalho, que tinha sido tomado por um metino maior... E 405 poucos, em meio as verdades-mentitas que tinha inven- tado, Lumbié ia se descobrindo realmente triste, tdo triste, profundamente magoado, atormentado em seu peito-cora- 40 menino. Havia, porém, uma ocasiao em que nada ameacava os dias go20s0s do menino: 0 advento do Natal. A cidade se enfeitava com luzes que brotavam de todos os cantos. Lam- padas como fogueiras incendidrias ateavam um falso fogo umindtio sobre as fachadas dos prédios, sobre as arvores, das ruas, dos jardins piiblicos e privados. Entretanto, nao ‘era esse pirotécnica espetéculo que seduzia Lumbia, Nem ‘© petsonagem Papai Noel gordo ¢ feliz, com o seu sorriso envidragade dentro clas vitrines, Das drvores de natal, nao gostava dos pinheiros iluminadas cotorides, Dos presen- tes expostes nas vitrines, principalmente os embrulhados, tinha vontade de apanhé-los e amassé-los. Ficava irritado, sabia que tudo eram caixas vazias. $6 havia uma coisa que o ea CCONCEIGRO EvAKISTO O sinal! O carro! Lumbia! Pivete! Crianga! Ere, Jesus Me- nino. Amassados, massactados, quebrados! Deus-menino, Lumbié morreu! Os amores de Kimba Kimbé acordou as cinco © quarenta ¢ nove da manhi, Le- vantou rapide da cama ¢ olhou o tempo. O céu ja andava claro € um bruto sol ameagava penetrar em tudo. Um dia ensolarado prometia acontecer. Sentiusse mais aliviado. De- testava chuva. Chuva na favela era um Inferno. Q barro e a bosta se confundiam. Os becos que circundavam os barra- cos se tomavam: escorregadios. AS criancas ¢ as cachortos se Comprimiam dentra de casa. As mies passavam o dia intetro gritando para que os Zezinhos se sassegassem. Antes, ele fora também Zezinho, Kimbi fot 0 apelido que um amigo rico, viajado por outras terras, the dera. O amigo notou a seme. thanga dele com alguém que cle havia deixada na Nigéria. Entao, para matar as saudades que sentia do amigo africano, concigho avanisTo rebatizou Zezinho com 0 nome do outro. O brasifelro seria 0 Kimbé. Zezinha gostou mais do apelido do que do proprio nome, Sentiu-se mals em casa com a neva nomeagiia, ‘Olhando € sentido © dia, Kiinbé por um instante teve 0 desejo de deitar novamente. Era preciso, entretanto, ma- vimentar a vida até 4 morte. Esse pensamento foi acom- panhado de um movimento t20 brusco, que o eco de seus gestos agrediu o sono de quem «ormia na quarto ao lado, vizinho ao seu. V6 Lidumira, a velha sentinela, que duran- te toda a noite, aflitivamente murmurou rezas, tossiu seco pigarreau uma ave-maria. As duas irmas de Kimba, que igualmente ali dormiam, semidespertadas pelo acondar do rapaz, disputaram maisuma vez 0 Gnico travesseiro, em que juntas aninhavam a cabega. Sua mae ¢ suas tias, também contaminadas pelo movimentar do maso, Ii do outro lado da parede, estremeceram, cada uma por sua vez, mas como se tivessem sido atravessadas pot uma mesma e fina Kimina de aco, da caleca aos pés Kimbé olhou comovide para o irmao mais velho que dot- mia ali no mesmo quarto com ele, Gostava do mais velho. Coitado do Raimundo! Sempre bébado e sempre querendo mais e mais cachaca. Observou a imobilidade do outro e riu de sua prapria agilidade, de seus movimentos sem diregao, sem alve certo. Levantou, ¢ de pé sentiu methor @ seu cor Po, Era alto. Espichande 0 brago, ultrapassava o tethado, Ficow uns segundos gozando o prazer que seu tamanho Ihe dava. Sabla-se alto, Sabia-s¢ forte. Sabia-se bonito. As mu- Iheres gostavarm dele ¢ os homens também. Alias, fol uma descoberta que Ihe assustou muito, Uma situacio pertus badora que ele Iutava para esconder: os hamens gostavam dele também, Kimbé desceu uni por um os degraus da escadaria da la- deira, Ci em baixo:sentiu dor e alivio. Tinha conseguide sairdo barraco, Detxar tudo para trés. Todas os dias pensava age OS AMORES 8& eimad que nao conseguiria. Detestava a pobreza, a falta de confor. to, a fossa exalando o cheiro de merda. Detestava o roste la- vado li fora no tanque, café no copo vazio que antes fora de geléia de mocoté, 0 pio comprado ali mesmo na tendi« nha. Detestava a voz alta e forte da mie, as rezas de V6 Lie dumira, os euidados das tlas © os olhares curiosos das irmas, As irmis viviam. perguntando tudo. Aonde ele ia? De ‘onde ele vinha? Com quem ele saia? Perguntavam tudo em ailéncio. Olhavam para ele de cima a baixo, ¢ 0 olhar delas arava justamente ali. Um dia ele estava com a braguilha aberta e sé percebeu quando os olhares das duas pararam dix teto ali, mexendo com o pudor dele. Envergonhado, puxow © 2iper. Porém, nao tinha nada a temer, 0 membro dormia esquecido, macio. Ele detestava também ter de ser dols, trés, varios talvez. Dava trabalho mudar o rosto, @ coxpo, mudar ‘até 0 gosto. Seria to bom se ele pudesse ser 6 ele. Mas o ‘que era ser ele? Era ser 0 Zezinho? Eraser 0 Kimbé? Zerinho cresceu solto pelos becos de morro, Empinava Pipas, vendia picolé, aprendia um pouico das coisas da es- cola. Ganhava uns trocados-da mie ¢ das tias. Brigava com as Irmas. Provava de vez. em quando uns goles de pinga do inmao, que j4 naguela época bebia muito. Zezinho gostava de jogar capoeira. Vove Lidumira pegava 0 rosério e ficava recanclo-rezando, enquanto ele atacava um inisigo imagi- nério. Ela rezava pedindo a Senhora do Rosirlo que prote- ‘gesi¢ 0 menino. Estava chegande: 9 tempa de guerra, dizia ‘Vovd Lidumira, Zezinho ria. Jogava capoeira até se cansat Depois entrava no tanque e se banhava, Saia fresco e calmo. Deseia 0 morro e fa encontrar os amigos, Ele ndo gostava de seus colegas vizinhos, gastava da tutria ld de baixo. No Meio dleles, os 14 de baixo, ele, Zezinha, era o diferente. Era © que jogava capoeira, o-que morava no morro, o que con- tava as historias. Era ouvide sempre. Frequentava a casa de alguns sonhanclo com o dia em que teria tudo coma eles. or CONCEIGKO EvARISTO Kimbé caminhava firme em diregao a casa de Beth, Sabla que ela e Gustavo esperavam por ele. Tinham combinado tudo na noite anterior. Tinham colocado o dedo na ferida. Beth estava apaixonada por ele. Ele estava apaixonado por Beth, © amigo estava apaixonado por ele, Estavam tentan- do viver, Beth tinha dinheiro, O amigo, dinheiro e fama. Kimbé, a noite ¢0 dia, A decisio sttia, portanto, de Kimba, que nao tinha nada a perdes. Sé a vida, Era s0 ele querer. J4 que nao estava dando para viver, por que no procurar ‘@ morte? Seria fill. Primeiro Beth, depois o amigo e em seguida ele, A morte selaria @ pacto de amor entre eles. A ‘morte pelo. amor dos trés. Ao acordar as cinco e quarenta ¢ nave da manha, Kimbé jd tinha a vida acertada. Vé Lidumira, a velha sentinela, in- sistia em suas rezas, tinha 0 rosdrio nas mos e murmurava padre-nossas, ave-marias ¢ salve-rainhas. Kimbé ndo queria mais nada do cu, da terra ou do infemo. Ele sabia que o seu dia estava tompendo. Seria preciso coragem, muita co- ragem, Se as orag6es de V6 Liduntira nunca valeram nada, agora era 0 que menos valia. Detestow, profundamente, ‘mais uma vez, a av6. Kimba caminhava firme, estava chegando. Parou. na par- ta do prédie olhando tudo. Sorriu para o porteira, eleva- dor demorou, Subiu a pé até ao nono andar. Beth eo amigo ji esperavam por ele, Estavam os dois nus. Kimba tirou len- tamente a roupa € sé sentou. Os copos ja estavam prepara- dos. Ele, com um ligeito tremor de maos, ofereceu o primel- ro capo. mulher. © segundo ofertou ao amigo. Ao pegar 0 terceiro copo, o dele, teve um breve desejo de recuo, Beth & Gustavo ji estavam deitados no chao a espera do mais nada. Kimbsi procurou algum motivo de vida, Os amigos estavam nna quase morte. Sorveu de uma iinica vez a sua porgio e se deitou ali no meio, para esperar com eles também. Ei, Ardoca © banulltar seco e cortante do trem inritava os ouvidos de Ardoca. atrite da maquina nos trilhos ecoava constante- mente ne fundo de seus timpanos. Aos domingas, dentro de casa, no-siléncio da mulher, nas vozes ¢ brincadeiras dais filhos, ele ouvia © grit arranhado do ago espichado sobre ‘9 solo. Grito lancinante ¢ cortante debalxo do combolo pe- sadio que parecia massaczar a linha férrea inerte. Ardoca ascera quase que denteo daquela maquina, Sua mae, mo- radora do subiirbio, fazia a viagem diaria rumo ao trabalho, Ela gravida, ele estufanda na barriga materna respondiia a0 solavancos do trem com chutes imtemos. Depois, ci fora, No mundo, no colo da mie, acordava ¢ chorava durante todo 0 tempo da viagem. Cresceu em meio aos salavancos, CONCEIGRD EvaraSTO 80 empurra-empurra, aos gritos dos camelés, as rezas dos crentes, as vazes dos bébados, aos Iamentos e cachilos dos trabahadores ¢ trabalhadoras cansados. Assistiu Indimeras vezes, como testemunha cega e muda, a assaltos, assassina- tos, trifico e uso de droga nos vagbes superlotadas, A cida viagem, Ardoca mais estranhava e desacastumava A vida do trem, Queria viajar com o mesmo descuido de alguns que jegavam porrinha ou dormiam durante o percurso, mas Permanecia sempre desesperacamente acordado. Estava sempre atento, tenso, como s¢ o trem, a qualquer momen. to, pudesse autocolidis, se auitoembarafunhar, fazendo com que o titimo vagso se fechasse em citculo sobre o primeiro € soltasse tudo pelos ares. E foi entéo, que em uma tarde, Ardaca eaminhou com Passos lentos em directo a estagao. Era sibado. O movimen- to menor de passageiros nao garantiu porém a possibilida- de de um lugar vazio. He se sentia cansado por tedos os dias, todos os trabalhos, ¢ por toda a vida, Entoou na fila para a compra do bithete. © funciondrio deu-the © troco, Ardoca com um gesto recusou, Olhou o trem, a composi- so pareceu-lhe mais longa ainda. Subiu com diticuldades, encastou-se & parede do vagio ¢ depois lentamente foi es- corregando © corpo até chegar ao chao. Algumas pessoas riram. Alguém gritou que o homem estava bébado. Outro ‘completau a observacio dizendo que o dinheiro do pobre ‘mao dava para © alimento, ias dava para a cachaca. O trem continuava parado, mas 2 barulhelra sobre os trilhos alcan- ava e feria os ouvidos de Ardoca. Ele sorria um potico. Um suor frio escorria sobre a sua face, Um grupo de crentes can- tava olhando para ele coma se quisesse comové-lo. Aleluia- vam a0s altos brados um Senhor qué, segundo eles, falava em siléncio aos homens. Ardoca abandonava o corpo, que Pendia lentamente para um lado, O passageiro do banco préximo eneolheu 0 pg. Um camelé que vendia dgua pur 260 EEE Eyaraoca tou por cima dele para atender uma pessoa, Ardaca respira: Wa com difculdade, debaixo do negro de sua pele, um som amarelo desbotado aparecia. Uma mulher levantou, conn Brow un copo gua edeu-the de beber, tentande recrind, lo. Os crentes continuavam bradando 0 hino. vendedor de gua, buscando um espaco para fazer valer 2 cam fala, Saurtiava o seu produto em altissima voz, © trem parade,