Literatura e estruturas Recebido em

de sentimento: fluxos entre
04/09/2011

Aprovado em

Brasil e África
20/10/2011

Eliane Veras Soares1 1
Professora do
Departamento de
elianeveras1@gmail.com
Ciências Sociais
e do Programa de
Pós-graduação em
Sociologia da Uni-
Resumo Partindo do pressuposto de que é possível apreender, a partir da versidade Federal
de Pernambuco.
literatura, a formação de estruturas de sentimento, argumento em torno da
presença de dois momentos emblemáticos do entrecruzamento, atentando a
seus efeitos nas construções de sentido das identidades nacionais no Brasil e
em Moçambique. O primeiro nos remete à luta anticolonial na África, a partir
da década de 1940. Nessa fase, observa-se um fluxo da literatura brasileira
em direção aos países de colonização portuguesa, no qual navegou a estru-
tura de sentimento da mestiçagem harmoniosa. O segundo momento nos re-
mete ao fluxo no sentido África-Brasil, em que uma estrutura de sentimento
afirmativa, amadurecida no período pós-independência das ex-colônias, pas-
sa a influenciar, já no século XXI, uma estrutura de sentimento emergente na
sociedade brasileira, a estrutura de sentimento africanizante.
Palavras-chave Estruturas de sentimento; Identidade nacional; Literatura;
África; Moçambique; Brasil.

Abstract Starting with the assumption that it is possible to apprehend the
formation of structures of feeling from literature, I make a case for the pre-
sence of two iconic moments for the interweaving of these with respect to
their effects on the building of a sense of national identity in both Brazil and
Mozambique. The first moment is the anti-colonial struggle in Africa starting
in the 1940´s. At this time there was a wave of Brazilian literature towards the
countries colonized by the Portuguese, on which sailed a structure of feeling

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para mim. o advento da literatura passou direta ou indiretamente pelo caminho da metrópole. mature in the post-indepen- dence period of the former colonies influences. of harmonious mestizo. Keywords Structure of feeling – National identity – Literature – Africa – Mo- zambique . quer as elites intelectuais tenham se formado no continente ame- 96 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . é resultante do processo de urbanização que acompanhou o advento da modernidade (FREI- TAG. proibiu qualquer tipo de atividade intelectual em sua colônia americana – escola. Entrevista) Apresentação do argumento A literatura moderna. 2002). que tiveram consequências para a formação da vida cultural das colô- nias.Brazil. En- tretanto. estão ligados ao florescimento da vida urbana e das instituições se- cularizadas de produção do conhecimento. Seu surgimento e desenvolvimento. which we could call an africanized structure of feeling. incluindo nelas o traçado urbanístico das cidades e as universidades. nos diversos contextos na- cionais. tão cheio de nossa língua e da nossa religiosidade – nos entregava essa margem que nos falta- va para sermos rio” (Mia Couto – Sonhar em casa) “Os escritores africanos. a feeling of sentiment emerging in Brazilian society. The second moment refers to a flow from Africa to Brazil where a structure of affirmative feeling. Nos países criados a partir de contextos coloniais. “O Brasil – tão cheio de África. encontram-se na tipologia criada por Holanda (1995) para caracterizar as colonizações espanholas e portuguesas na América Latina: o ladrilhador e o semeador. Exemplos de processos de colonização diferen- ciados. universidade e prensa tipográfica estavam banidas no Brasil colônia (HOLANDA. são os melhores sociólogos que temos nesse momento” (Elisio Macamo. already in the 21st century. Enquanto o colonizador espanhol (ladrilhador) transplantou para o continente americano o conjunto de suas instituições. o português (semea- dor) deixou as cidades florescerem sem planejamento. tal como a compreendemos hoje. 1995).

estamos também definindo uma experiência social que está ainda em processo. a literatura ocupou e ocupa um lugar de destaque na expressão das estruturas de sentimento formadas mediante a emergência de experiências típicas de certo quadro geracional. com relações internas es- pecíficas. elas estão acontecendo. O recorte analítico tem como referência a literatura de língua portuguesa produzida nos países africanos e o interesse recente que essa mesma literatura tem despertado no leitor brasileiro. exercem influência. Estamos então definindo esses elementos como uma estrutura: como uma série. APPIAH. 2008). Meu objetivo é discutir. que dá o senso de uma geração ou de um período” (WILLIAMS. nos dois casos. Nas palavras do autor. historicamente diferente de outras qualidades particulares. p. 1997). ao mesmo tempo engrenadas e em tensão. uma continuidade viva e inter-relacionada. a elaboração de uma hipótese a respeito dos fluxos de influência cultural re- cíproca entre o continente africano e a América Latina. mesmo assim. com frequência ainda não reconhecida como Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 97 . 134). não se institucio- nalizaram.ricano (como no caso das colônias hispânicas). “é uma qualidade particular da experiência social e das relações sociais. 1979. é uma tentativa de apreender processos de emergência de expe- riências típicas que constituem um certo quadro geracional. A noção de estruturas de sentimento. quer tenham se formado no continente europeu (como no caso brasileiro e dos países africanos de co- lonização portuguesa). Postulo aqui que. como nos países africanos que se constituíram a partir da experiência colonial. 2008. tanto no Brasil. o segundo diz respeito ao fato de que são experiências pré-emer- gentes. Não obstan- te. a partir da noção de estrutura de sentimento. ela serviu como instrumento de autoa- firmação política e cultural nos processos de emancipação e de construção do estado-nação (ANDERSON. a despeito da origem colonizada da língua e da literatura (FANON. não tomaram forma fixa. tal como elaborada por Raymond Williams. Trata-se de uma consciência prática de um tipo presente. Dois aspectos merecem ser destacados nessa definição: o primeiro é o reco- nhecimento de que tais experiências têm um caráter social e não apenas pessoal.

mas que na análise (e raramente de outro modo) tem suas carac- terísticas emergentes. como solução. do ponto de vista metodológico. p. distintas de outras formações se- mânticas sociais que foram precipitadas e existem de forma mais evidente e imediata. derivada na prática de tentativas de compreender esses elementos e suas ligações. idiossincrática. dominantes ou residuais. 1979. 134). o conjunto de valores e características cristalizado como típico de um determinado grupo. também pode ser compreendido como uma estrutura de sentimento. Essa hipótese. e mesmo isoladora. a essa evidência” (WILLIAMS. relacionadoras e dominantes. Formam-se e transformam-se a partir de estruturas de sentimentos que. As forma- ções efetivas da maior parte da arte presente se relacionam com formações sociais já manifestas. 134). interativamente. A “fixa- 98 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . Essas são. se relaciona com uma estrutura contemporânea de sentimentos. p. classificadas e em muitos casos in- corporadas às instituições e formações (WILLIAMS. As identidades individuais e coletivas não são fixas e imutáveis. quando foram (como ocorre muitas vezes) formalizadas. mas como privada. e que deve sempre retornar. acrescenta Williams. 134). O sentimento de pertença a uma dada nação. com frequência. tem relevância especial para a arte e para a literatura. por sua vez. É por essa razão que. que tenderá a se institu- cionalizar. sen- do principalmente com as formações emergentes (embora com frequência na forma de modificações ou perturbações nas ve- lhas formas) que a estrutura de sentimento. ou resultante de uma disputa entre estruturas de sentimento. estão profundamente ligadas aos processos sociais. se relaciona (WILLIAMS. e na verda- de suas hierarquias específicas. social. porém. 1979. As estruturas de sentimento podem ser definidas como expe- riências sociais em solução. uma geração ou período. 1979. p. “uma ‘estrutura de sentimento’ é uma hipótese cultural. Nem toda arte. mais reconhecíveis numa fase posterior.

1997. 2001. Esse aspecto é emblemático. também é verdade que ela se impõe como um objeto de reflexão difícil de ser apreendido. Surgem. conceitos e categorias da Antropologia. assim. MUTZENBERG & SOARES. 2010. surge em contextos específicos (sempre vinculados aos processos de modernização e urbanização). Como qualquer literatura. cria estilos. ela é um produto da vida social e. 2002. transforma-se. o presente e o futuro. estereotipada pelo conhe- cimento científico. a literatura parece ter assumido uma posição Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 99 . MBEMBE. MACAMO. etc. diversifica- se. 2009B. assume novas formas. por exemplo. Em princípio. No limite. Ocorre aqui uma dupla hermenêutica: se é verdade que África foi classificada. exigências de refinamento conceitual. inaugurando um nicho denominado “história oral” para dar conta das “sociedades ágrafas”. 2009. podemos pensar no lugar que a África ocupou no processo de formação da ciência moderna. o lugar de objeto do conhecimento. no fi- nal do XIX e durante todo o século XX. 2009a. metodológico. Em África. como decorrência do processo de colonização. literaturas africanas deveriam ser compreendidas sim- plesmente como literatura. HOUNTONDJI. 2009). para o de- senvolvimento das teorias. Do mesmo modo. e que o próprio questionamento des- sas categorias tem se tornado o motor das lentas mudanças reclamadas no campo da produção do conhecimento. como tal. Sobre a noção de literaturas africanas Estamos familiarizados com ideia da “África” como uma invenção do “Ocidente” e com o fato de a história da África ter sido escrita por histo- riadores não africanos. teórico e epistemológico (APPIAH. Sua permanência no quadro de referência comportamental dependerá das disputas que ocorre- rão dentro da própria sociedade em seu permanente processo de transfor- mação no qual se articulam o passado. ROSA. nomeada. a África também foi o laboratório a partir do qual a História renovou os seus métodos de investigação.ção” de uma identidade nacional resulta da preponderância – muitas vezes obtida com o uso da força ou outras formas de violência – de determina- das características e valores em detrimento de outras.

MENDONÇA. SAÚTE. 1999). Trata-se de uma literatura de luta e conflito. 1999). e que nós classificamos como “tradições”. HAMILTON. A literatura africana corresponderia àquela produção que visa a dar conta do passado. a estrutura de sentimento “afirmativa”. Uma literatura tipicamente moderna no sentido de ser aquela que surge da contingência de um conjunto de mudanças e que ex- põe um sem número de conflitos e contradições (ADESANMI. Poderíamos. 2007. dicionários. especial: ela teria ocupado o lugar da antropologia. 1998. 2002). 1998. a formação de uma estrutura de sentimento. do presente e do futuro. conhecimento colonial e conhecimento africano (MACAMO. SOPA. 1999). eles próprios também sistematizadores de línguas nativas. em grande parte exercida pelos missionários. 1999. retorno ao ponto inicial. descartando qual- quer ideia de cronologia. em seu entrecruzamento com a emer- 100 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . 2006. baseada nas narrativas que constituem o repertório de histórias pertencentes ao gru- po. AUGEL. presente em todas as culturas. a “literatura colonial” e com o seu tempo. 2010. Esse processo está diretamente ligado à ocupação colonial. etc. 1998. mas também a toda uma literatura produzida sobre a África a partir de um “olhar externo”. Para concluir essa digressão de caráter teórico. também em permanente transformação. 1998). a saber: conhecimento tradicional. SANTANA. 1998. MATUSSE. transpor para o campo da literatura a classificação do conhecimento sobre África elaborada por Elísio Macamo. biográfica. poderíamos pensar na tradição oral como uma espécie de “literatura tradicional”. presente em uma certa literatura africana contem- porânea. mais ainda. uma literatura que dialoga de modo ambíguo com a “tradição”. De modo que. ou sociedade. agora domesticadas em gramáticas. (COUTO. A literatura colonial corresponderia a uma produção de textos de natureza etnográfica. MATUSSE. grosso modo. produzindo etnogra- fias sobre o que seria o continente e os seus habitantes. 2009a. E. TAVARES. comunidade. E aqui vou me restringir à colonização portuguesa. a partir da literatura. OKOLO. 1999. uma literatura produtora e problematizadora da identidade. 2007. tem impactado o sentimento de desestruturação da identidade nacional na sociedade brasileira. como sugere a análise de Francisco Noa sobre a literatura colonial em Moçambique (NOA. NGOENHA. tomando para si o lugar da enuncia- ção (HAMILTON. reafirmando a hipótese de que é possível apreender.

em uma nação condenada ao fracasso. Desse pessimismo absoluto. Casa Grande e Senzala. por sua vez. um bávaro. que apresentou o texto “Como se deve escrever a história do Brasil”. As identidades contemporâneas não se constituem apenas no plano local. de outro lado. é produto das desestabilizações identitárias provocadas por diversos processos de globalização. que. Ambiguidades na formação da identidade nacional brasileira: pele negra. máscara branca? A identidade nacional brasileira foi resultado de um longo processo que tem início com os movimentos políticos localizados de independência. com o concurso realizado pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. pela sua composição étnico-racial. O prêmio foi outor- gado a Carl von Martius. destinado a premiar o melhor plano para a escrita da História do Brasil. há um longo percurso. defendendo a ideia do Brasil como uma nação constituída por três raças: o indígena. em seu processo recente de redemocratização. à elaboração de uma visão otimista da mestiçagem. entre eles. regional. e. A persistência da escravidão e a predominância das teorias raciológicas tornavam difícil a elaboração de uma identidade nacional positiva e harmoniosa. promovendo uma espécie de novo cosmopolitismo. se relaciona de modo conflituoso e ambíguo com a estrutura de sentimento da “mestiçagem harmoniosa”. de alcançar o estatuto de nação civilizada. esboçada em Freyre e nos representan- tes do Movimento Modernista de São Paulo. mas que só começou a tomar forma na segunda metade do século XIX. nacional. A presença majoritária de povos/raças considerados inferiores e a indesejável mestiça- gem transformavam o Brasil.gência de uma estrutura de sentimento “africanizante”. A presença desse sentimento de desestruturação é resultante. de um lado. mas adquirem também um dimensão trans- nacional. na visão da intelectualidade do século XIX. consolidada quase um século depois na clássica obra de Gilberto Freyre (2001). impossibilitada. publicada em 1933. o africano e o europeu. a transnacionalização das identidades. Foi justamente a partir dessa perspectiva otimista. das mudanças que ocorreram dentro da própria sociedade brasileira. nos anos 1920 – com a noção de Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 101 .

Enquanto essa estrutura de sentimento tomava corpo no Brasil. 2000. SCHWARCS. que o encaramos como fenômeno 102 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . de Oswald de Andrade. ORTIZ. folclórico. antropofagia. a nossa sensualidade. o negro pode ser ostentado até vaidosamente a estrangeiros. No momento em que a influência do negro deixa de ser coisa pouco confessável para se tornar simplesmente coisa interessante. mas com uma curiosidade distante e sobranceira (…). e com o personagem-símbolo Macuna- íma. afastamo-lo naturalmente de nós. que tem como principal ideia de referência a imagem do Brasil como uma democracia racial. nos seus costumes civis e domésticos. 1993). Encarado com atenção científica e benévola nos seus batuques e macumbas. 1994. nos seus “mores”. sem truculência e sem humilhação. nas suas superstições e religiosidade. A representação dos descendentes de africanos. a nossa graça. A respeito da dimen- são perversa dessa visão distorcida e parcial. Pode-se atri- buir a esse momento a elaboração de uma estrutura de sentimento da “mesti- çagem harmoniosa”. 1981. anedótico. alertava nos anos 1940: O erro de parte considerável dos estudos feitos nos últimos tem- pos entre nós a respeito da influência do negro parece-me con- sistir no fato de encararem com demasiada insistência o lado pitoresco. a maio- ria dos países africanos vivia seus mais duros momentos de exploração co- lonial. não encon- trava uma imagem alternativa: a imagem prevalecente é a do subalterno. com rara perspicá- cia. em outras palavras o aspecto exótico do africanismo (…) [o que] é uma variante apenas mais inteligente do modo tradicional de considerar a questão e que consistia em fazer por esquecê-la ou ignorá-la. Holanda. É a maneira de mostrar que tam- bém somos diferentes dele. de Mário de Andrade – que se instaurou a fábula ou mito das três raças como pilar da construção identitária brasileira (CHAUI. o herói sem nenhum caráter. DA MATA. Sua incorporação positiva à formação da nação se dá a partir do véu do exotismo: os africanos e seus descendentes trouxeram para o Brasil os nos- sos temperos. dos descendentes de homens e mulheres que vieram para o Brasil escravizados.

13) Entre outras coisas. HAMILTON. no qual aflorou. mesmo quando se difundia a ideia da integração do negro à identidade nacional. mais capaci- tada de sua distinção. menos africano”. 1978. Dizendo de outro modo. todas elas variantes do mito fundador das três raças. MATUSSE. 2010. SAÚTE. p. em seus obscuros motivos. conteúdos obrigatórios do currículo escolar em todos os Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 103 . observa-se. uma estrutura de sentimento africanizante. tem início. 1998. É nesse contexto que vem se desenvolvendo. no final dos anos 1980. dado que “em vez de admitir que o caldeamento de raças (…) pode significar enriquecimento de potencialidades (…) procuramos enganar-nos com a opi- nião fácil de que o tempo apagará bem cedo e sem deixar vestígios toda a influência africana na formação nacional” (HOLANDA. mais segura de si. não nos recusamos a considerá-lo no que ele é realmente para nós e para a nossa nacionalidade? (HO- LANDA. a persistência da atitude de “fabricar para uso externo e interno um Brasil mais europeu. tardiamente. 13). a partir de 2003. p. singular e digno de contemplar-se. Nesse processo. A partir dos anos 1950. Sérgio Buarque de Holanda observava. 1998. naquilo em que deixará de influir sobre ela ou influirá somente de maneira indireta ou negativa e em que a faz. por conseguinte. em concomitância com o processo de afirmação cultural da literatura em África. no continente africano. a África e a herança africana no Brasil tornaram-se. SOPA. 1997. não haveria antes um desvio ou uma substituição do verdadeiro problema? Estudando o negro naquilo em que se distingue minuciosamente de nossa civilização branca e bracarana. naquele con- texto. 1998). 1999. hoje sintetizada nas noções de ações afirmativas. seja na versão exótica. o processo político de redemocratização. a estrutura de sentimento da mestiçagem harmonio- sa se produz numa perspectiva voltada para o ideal de civilização europeu. a afirmação de uma literatura autóctone ligada às lutas de libertação e aos projetos político-culturais de construção da nação (APPIAH. reparação histórica e combate à desigualdade. 1978. SANTANA. No Brasil. Mas considerado em seus verdadeiros. a luta contra a discriminação e a desigualdade racial. na sociedade brasileira. seja na versão da mestiçagem.

Em Angola. culturais. 2009). 2010). 2009). foi ela a primeira arma de combate na luta anticolonial (SAÚTE. Novos estados in- dependentes. afetivos. níveis de ensino (MOURA. É interessante notar que. a literatura parece ser o caminho mais imediato em que estruturas de sentimentos diversas se entrecruzam em diferentes registros históricos. desempenhou um papel de grande relevância. nessa nova perspectiva política. tomavam a literatura brasileira como um exemplo a ser seguido. uma língua própria. identidade e literatura As primeiras manifestações de independência nos países africanos co- lonizados por Portugal surgiram nos meios urbanos intelectualizados (CA- BAÇO. 1998). enquanto a intelectualidade bra- sileira tendia a examinar o negro brasileiro com olhos de estranhamento. identidade e cultura no Brasil contemporâneo requer. Moçambique. Surgiu. Cabo Verde e Guiné Bissau. Nesse con- texto. notadamente os poetas e escritores. O modernismo brasileiro e o romance social dos anos 30 foram fontes de inspiração de toda uma geração de escritores angolanos e moçambicanos (COUTO. A literatura africana contemporânea abre possibilidades para a elaboração de um novo olhar sobre a diversidade africana em res- posta às narrativas oficiais. em especial a poesia. um novo contexto político. mas que nações? Nações resultantes do pro- cesso de colonização? Resultantes das lutas de libertação? O processo de 104 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . BRAGA & SOARES. SANTANA. Formação do estado-nação. Refletir sobre desi- gualdade. 2009b. A literatura. então. diferente do colonizador. os intelectuais africanos de língua portuguesa. Isso tem colocado em evidência o desafio de tentar superar as versões colonizadas da história e ir ao encontro de outras narrativas. novas nações. ou melhor dizendo. Apenas em meados dos anos 1970 houve o reconhecimento das independências das colônias portuguesas. proceder a um retorno à África. Uma prova material da possibilidade de construção de uma cultura pró- pria. um modo de ser próprio. promover um (re)encontro com o continente africano. as lutas pela li- bertação transcorreram durante os anos 1960 e 1970.

nas últimas décadas. 1997). e. criadas e recriadas. no plano local. o cavalo de Tróia que o colonizador legou. etnias destruídas. os governos firmaram acordos com organismos financeiros internacionais. rivalidades reforçadas. 2001). [em que] o abandono do projecto social e económico pós-independência e de todo o simbolismo que o sus- tentava. etc. profundamente marcada por todas essas processos contraditórios e ambivalentes: um “continente” que se constitui. em concor- rência. No início dos anos 1990. Tanto a colonização. Moçambique e Guiné Bissau. o conjunto dessas mudanças tem acarretado consequências em todos os ní- veis. que po- dem ser sentidas nas palavras de António Sopa. (APPIAH. a emergência no quadro político de outros discursos. levam o cidadão moçambicano a interrogar e a interrogar-se sobre estas questões particulares” (SOPA. nos últimos 500 anos.fixação de sentido de uma identidade nacional estava dramaticamente em curso em meio a duas guerras: no plano internacional. 1998. a partir da exploração econômica. lutas de libertação fundadas na afirmação da negritude como ideologia da au- tenticidade do ser africano. Desmoronaram as potências socialistas que davam sustentação política e econômica aos regimes pós-independência em An- gola. em direção a um processo de democratização da sociedade e do estado. como a luta pela libertação tenderam a atuar como forças de homogeneização dos sentidos sobre a África e os africanos (MBEMBE. sobre Moçambique: “um país com apenas 20 anos de existência. Economicamente destroçados por anos de guerra. A literatura produzida nesses países tem sido. a guerra civil. Ao mesmo tempo em que se tentou construir uma visão homogênea. Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 105 . Desde então. o espaço em que a primeira se materializava. uma sobreaceleração dos processos sociais. como não poderia deixar de ser. comprome- tendo-se a instaurar o pluripartidarismo e eleições regulares. há toda uma mudança no quadro político inter- nacional e nacional. ascenderam as políticas econômicas neoliberais. a guerra fria. no contexto da mundialização. O impacto sobre a construção identitária da nação e sobre a literatura tem sido marcante. p. deixou-se fora da definição de africano aquilo não que não era reconhecido como autêntico. 73). territórios que foram arbitrariamente transformados em estados – para mencionar a metáfora de Hebert Ekwe-Ekwe (2001). Pode-se afirmar que os países em questão vivenciaram.

mas sugerir o trajeto dos caminhos. a do ser africa- no. os processos de aceleração histórica. autores africanos têm sido frequentemente premiados. o exótico aparece como a malha a partir da qual se pode pescar o que é ou não africano. ritmos. Fluxos e entrecruzamentos de estruturas de sentimento Como forma de arremate do argumento. das pontes. Recentemente. ao mesmo tempo que dele buscam se libertar. 2010). Proces- sos. a literatura. não poderia ser diferente. tendo. aparentemente. Criaram-se. pois. Desde o estouro editorial de “O mundo se despedaça” (Things fall apart). que lhes garante. busco aqui sistematizar dois momentos dos fluxos de influência cultural entre Brasil e os países africa- nos de colonização/língua oficial portuguesa. estilos que. em ciclos de longa duração. E. como chão. a presença no mercado internacional. novamente. Meu objetivo não é estabele- cer homologias ou destacar diferenças. assu- miram aqui outra temporalidade e outra dinâmica. um ideal comum (libertação. de Chinua Achebe. assim. Querem se afirmar como escritores e não como porta- dores de uma bandeira (Santana. vivenciados. uma novíssima geração de escritores tenta se libertar do estigma da autenticidade e da missão da construção da nação. em outros contextos. rejei- tam o ideário comum. em parte. dos elos que foram construídos nos dois lados do Atlântico Sul. de modo criativo. A emergência de novas estruturas de sentimento. Onde antes parecia predominar um mesmo tom para diversas vozes. O primeiro marco significativo desse fluxo de estruturas de sentimen- to foi simbolizado no impacto da literatura de Jorge Amado nos escritores 106 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . eclode uma pluralidade de tons. Estigma perverso. querem tirar das costas o peso de um passado e constituir-se como escri- tores de seu tempo. A literatura foi atravessada por esse complexo campo de disputas. é justamente essa marca. Ela incorporou. não querem ser percebidos como uma “geração”. tem ocorrido de modo turbulento. O fato é que a literatura africana tem obtido cada vez mais reconhecimen- to para fora. afirmação da identidade nacional). novas divisões.

2009b. p. p. 2009b. com o gosto e o cheiro da terra. continua Couto. um Brasil que saiu da África? Mas a identi- ficação não para aí. a influência a que se refere o escritor moçambicano. logicamente. capaz de dei- xar “marcas profundas e duradouras” em diferentes gerações de escritores africanos nas décadas de 50. José Lins do Rego. Mia Couto. 68-69). não Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 107 . Ao lado de Jorge Amado. aqui. dos escritores e poetas brasileiros do século XX. afirma ter sido Jorge Amado “o escritor que maior influência teve na génese da literatura dos países africanos que falam português” (COUTO. A liberdade de que fala o poeta é a liberdade de pensar a si mesmo. nós nos libertámos com a ajuda dos brasileiros. “não escrevia[m] livros. nas palavras de Mia Couto. Quando chegou o Jorge Amado. uma literatura nacio- nal. escrevia[m] um país (…) era um Brasil todo inteiro que regressava a África” (COUTO. p. tem. falando em nome de escritores de Angola. Moçambique. com Gregório de Matos (1636 – 1695). 60 e 70. ela tem consequências políticas e culturais prementes. 68). De que regresso Mia Cou- to fala? Como podemos entender “um Brasil todo inteiro que regressava a África”? Trata-se. Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Ra- quel de Queiroz. Cabo Verde. 65). “havia pois uma outra nação que era longínqua mas não nos era exterior. p. porém. Essa passagem requer uma pausa para análise. de um processo de identificação? O Brasil que re- gressa a África é. Mia Couto ressalta: “Numa dada altura. como Jorge Amado. Carlos Drumond de Andrade. nós tínhamos chegado a nossa própria casa” (como citado em Couto. na obra de Jorge Amado. E nós precisávamos desse Brasil como quem carece de um sonho que nunca antes soubéramos ter. Citando José Craveirinha sobre a importância da literatura brasi- leira para a constituição de uma literatura de caráter nacional em Moçam- bique.africanos de língua portuguesa. dotada de estilo próprio. com o degredado Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810). e ao século XVIII. Ainda que a presença de poetas brasileiros em território africano remonte ao século XVII. um ponto de inflexão. Jorge de Lima. 2009b. (…) Descobríamos essa nação num momento histórico em que nos faltava ser nação” (COUTO. 71). 2009b. E toda a nossa literatura passou a ser um re- flexo da Literatura Brasileira. estavam Manuel Bandeira. Érico Veríssimo. Graciliano Ramos e muitos outros autores que. já que. João Cabral de Melo Neto. Ela diz respeito ao surgimento de uma literatura brasileira.

pelas estruturas de sentimento que integram um determinado tempo. ali estava a sensualidade e o perfume das nossas mu- lheres. (COUTO. distanciado em relação ao cânone português. SOARES. BRAGA & COSTA. p. As suas personagens eram vizinhas não de um lugar. 68) Em todo caso. A literatu- ra brasileira surgia ali como um exemplo positivo. no período pós-Abolição (BASTIDE & FERNAN- DES. aberto à presença da África no Brasil. espaço. 2008. isto é. Entretanto. mas de nossa própria vida. gente com os nossos nomes. 2009b. 2007. entre outras coisas. O que torna isso possível? A meu ver. à manutenção do status quo e à atualização dos mores característi- cos do período escravocrata. FERNANDES. gente com as nossas raças passeavam pelas páginas do autor brasileiro. Ali estavam os nossos malandros. Gente pobre. Cabe indagar que África (ou será Brasil?) está presente na literatura brasileira. 108 Revista Sociedade e Estado – Volume 26 Número 2 Maio/Agosto 2011 . ela criou uma imagem do Brasil e dos brasileiros que contribuiu. Qual o lugar da mestiçagem nessa literatura? Quais as características dos personagens que exalavam tanta familiaridade? Uma hipótese para responder tais questões está na presença da estrutura de sen- timento da mestiçagem harmoniosa. homogeneizadora e silenciadora das diferenças. que dominou o imaginário nacional bra- sileiro a partir de 1930. ali estava o cheiro da nossa comida. sociedade. 2004). ali estavam os ter- reiros onde falamos com os deuses. como um mero reflexo do outro. 2008. dois aspectos indissociá- veis devem ser considerados para ser responder esta pergunta: a natureza aberta da obra de arte que possibilita diferentes leituras em diferentes con- textos e o fato de que nossas leituras estão sempre condicionadas pelo nosso próprio horizonte cultural. mas como uma expressão própria. obras literárias típicas dessa estrutura de sentimento de- sempenharam um papel libertador. o que importa destacar é que essa estrutura de sentimento da mestiçagem harmoniosa significou para nós a possibilidade de uma identi- dade nacional unificadora. Não deixa de ser significativo o entusiasmo de Mia Couto com os personagens dos romances de Jorge Amado. mais especifica- mente em Jorge Amado. no contexto da luta anticolonial naque- les países.

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