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PORTUGUÊS 10º ANO

ÍNDICE

1. Metas curriculares

2.

3.

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10.

11.

12.

13.

14.

15.

16.

17.

18.

19.

20.

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A LÍRICA MEDIEVAL

O AMOR CORTÊS

Quanto aos temas, elaboraram os Provençais o ideal do amor cortês, tão diferente do idílio rudimentar nas margens dos rios ou à beira das fontes que os cantares de amigo nos deixam entrever. Não se trata agora de uma experiência sentimental a dois, mas de uma aspiração, sem correspondência, a um objeto inatingível, de um estado de tensão que, para se manter, nunca pode chegar ao fim do desejo. Manter este estado de tensão parece ser o ideal do verdadeiro amador e do verdadeiro poeta, como se o movesse o amor do amor mais que o amor a uma mulher. E não só a esta dirigem os poetas as suas implorações, queixas ou graças, mas ao próprio Amor personificado, figura de retórica muito comum entre os trovadores provençais e por eles transmitida aos galego-portugueses. O amor reina, até, numa Vila ideal, com as suas cortes, os seus foros e leis.

numa Vila ideal, com as suas cortes, os seus foros e leis. O trovador imaginava a

O trovador imaginava a dama como um suserano a quem «servia» numa atitude submissa de vassalo, confiando o seu destino ao «bon sen» da «senhor». Todo um código de obrigações preceituava o serviço» do amador, que, por exemplo, devia guardar segredo sobre a identidade da dama, coibindo toda a expansão pública da paixão [o autodomínio, ou «mesura», era a sua qualidade suprema], e que não podia ausentar-se sem sua autorização. [ ]

A este ideal de amor corresponde certo tipo idealizado de mulher que atingiu mais tarde a máxima depuração na Beatriz de Dante ou na Laura de Petrarca: os cabelos de oiro, o sereno e luminoso olhar, a mansidão e a dignidade do gesto, o riso subtil e discreto.

António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 2000

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O texto acima é muito claro quanto ao conceito de amor que se exprime nas cantigas de amor. Esta cantiga, do rei D. Dinis, permite perceber melhor esse amor cortês.

Quer'eu em maneira de proençal 1

fazer agora um cantar d'amor 2

e querrei 3 muit'i loar 4 mia senhor

a que prez 5 nem fremosura nom fal 6 ,

nem bondade; e mais vos direi en:

tanto a fez Deus comprida de bem 7

que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,

quando a fez, que a fez sabedor 8

de todo bem e de mui gram valor,

e com tod'est[o] é mui comunal 9

ali u deve; 10 er deu-lhi bom sem 11

e desi 12 nom lhi fez pouco de bem

quando nom quis que lh'outra foss'igual.

D. Dinis, CBN 520; CV 123

Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,

mais 13 pôs i prez e beldad'e loor 14

e falar mui bem e riir melhor

que outra molher; des i é leal

muit'; e por esto nom sei hoj'eu quem

possa compridamente 15 no seu bem

falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al. 16

no seu bem falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al. 16 1. «Quer'eu em maneira

1. «Quer'eu em maneira de proençal / fazer agora um cantar de amor»

1.1. Explica o sentido deste propósito do poeta.

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provençal cantiga de amor quererei louvar valor não falta repleta de bem

8 conhecedora

9 sociável quando deve ser senso além disso mas louvor completamente

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16 Pois não há outro bem para além disso

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A LÍRICA MEDIEVAL

2. Afinal o tema desenvolvido no poema não é bem aquele que corresponde ao propósito enunciado.

2.1. Expõe em que consiste essa diferenciação.

3. Traça o retrato da «senhor», a partir das características físicas, morais e comportamentais referidas no texto.

4. A comparação é um recurso que assume uma particular importância no retrato traçado. Porquê?

5. Analisa e classifica a cantiga ao nível da estrutura formal [estrofe, métrica, rima).

A cantiga anterior coloca o foco nas qualidades da mulher amada. Esta, de modo diferente, focaliza sobretudo os sentimentos experimentados pelo sujeito poético que vivencia o amor.

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Como morreu quem nunca bem houve da rem 17 que mais amou,

e que[m] viu quanto receou

dela 18 , e foi morto por en 19 :

ai, mia senhor, assi moir'eu! 20

Como morreu quem foi amar quem lhe nunca quis bem fazer,

e de que lhe fez Deus veer

de que foi morto com pesar: 21 ai, mia senhor, assi moir'eu!

Com'home que ensandeceu, 22 senhor, com gram pesar que viu

e nom foi ledo 23 nem dormiu

depois, mia senhor, e morreu:

ai, mia senhor, assi moir'eu!

Como morreu quem amou tal dona que lhe nunca fez bem,

e quen'a viu levar a quem

a nom valia, nen'a val:

ai, mia senhor, assi moir'eu!

Pai Soares de Taveirós, CA 35

mia senhor, assi moir'eu! Pai Soares de Taveirós, CA 35 1. Faz a análise da estrutura

1. Faz a análise da estrutura formal do poema (agrupamento estrófico, métrica, rima, refrão).

17 pessoa.

18 viu acontecer aquilo que receou acerca dela

19 por isso

20 assim morro eu

21 desgosto

22 como homem que enlouqueceu

23 alegre

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2. Caracteriza o estado emocional do sujeito poético.

2.1 Determina a causa que lhe está na origem.

A LÍRICA MEDIEVAL

3. O sujeito de enunciação não expõe, diretamente, a sua coita de amor.

3.1. Explica o processo que utiliza para a exprimir.

4. Mostra que o amor que se manifesta nesta cantiga é um amor cortês.

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Nesta bela cantiga de amor, ao mesmo tempo simples e retoricamente muito elaborada, Pero da

Ponte exprime o seu (impossível) desejo de vingar-se daquela que sempre o tratou mal, pagando-lhe na

mesma moeda: deixando de a amar, procurando o seu mal e fazendo-a sofrer. Mas é este um desejo

impossível, até porque a culpa é do seu próprio coração, que o fez desejar quem nunca o desejou. Sem

poder dormir, só lhe resta pedir a Deus que desampare quem sempre o desamparou e lhe dê a ele a

capacidade para a perturbar um pouco - e assim já dormiria. Ou pelo menos que lhe desse coragem para

falar com ela.

Se eu podesse desamar

Mais rog'a Deus que desampar

a

quem me sempre desamou

a

quem m'assi desamparou,

e

podess'algum mal buscar

ou que podess'eu destorvar

a

quem me sempre mal buscou!

a

quem me sempre destorvou.

Assi me vingaria eu, se eu pudesse coita dar

E

logo dormiria eu, se eu podesse coita dar

a quem me sempre coita deu.

a quem me sempre coita deu.

Mais sol nom poss'eu enganar

Vel que ousass'en preguntar

meu coraçom que m'enganou, per quanto mi fez desejar

quem me nunca preguntou,

a

por que me fez em si cuidar,

a

quem me nunca desejou.

pois ela nunca em mi cuidou;

E

por esto nom dórmio eu,

e

por esto lazeiro eu:

porque nom poss'eu coita dar

porque nom posso coita dar

a quem me sempre coita deu.

a quem me sempre coita deu.

Pero da Ponte, CA 289, CBN 980, CV 567

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A LÍRICA MEDIEVAL 1. Descreva o estado de espírito do sujeito poético e indique o

A LÍRICA MEDIEVAL

A LÍRICA MEDIEVAL 1. Descreva o estado de espírito do sujeito poético e indique o motivo

1. Descreva o estado de espírito do sujeito poético e indique o motivo por que se encontra assim.

2. Identifique o tom da composição e explique de que modo se relaciona com o assunto.

2.1 Transcreva versos que comprovem a sua resposta.

3.1 Interprete a forma como, segundo o refrão, o eu poético crê que pode suavizar o seu problema.

4. Identifique quem enganou o sujeito poético, de acordo com a segunda estrofe, e explique o que fez.

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4.1 Identifique uma figura de estilo presente no verso 9 e comente a sua expressividade.

5. Interprete os quatro primeiros versos da estrofe final.

6. Explique de que forma este poema representa a inacessibilidade da mulher no amor cortês.

7. Explique de que modo a cantiga, por outro lado, contraria convenções do amor cortês (apoia-te no

texto da pág. 3).

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CARACTERÍSTICAS DAS CANTIGAS DE'AMOR

A LÍRICA MEDIEVAL

A cantiga é posta na boca dum enamorado, que exprime os sentimentos amorosos pela dama (destacando a sua coita de amor que o faz "ensandecer" ou morrer);

O amador implora ou queixa-se à dama, mas também ao próprio Amor;

A «senhor» surge como suserana a quem o amador «serve», prestando-lhe vassalagem amorosa;

A dama é uma mulher formosa e ideal, frequentemente comprometida ou até casada, inacessível, quase sobrenatural;

O ambiente é raramente, sugerido, mas percebe-se que a cantiga de amor é uma poesia da corte ou de inspiração palaciana;

A sua arquitetura de mestria, o ideal do amor cortês, certo vocabulário, o convencionalismo na descrição paisagística revelam a origem provençal;

As canções de mestria são as que melhor caracterizam a estética dos cantares de amor.

O AMOR CORTÊS E AS SUAS REGRAS

«Festa e jogo, o amor cortês realiza a evasão para fora da ordem estabelecida e a inversão das relações naturais. No real da vida, o senhor domina inteiramente a esposa. No jogo amoroso, serve a dama, inclina-se perante os seus caprichos, submete-se às provas que ela decide impor-lhe.» (Georges Duby)

Amor vassalagem: o trovador serve a dama; submete-se à sua vontade e seus caprichos; ela é a suserana que domina o coração do homem que a ama;

A dama, muitas vezes mulher casada, é cortejada, e definida como o ser mais perfeito;

Para conseguir os favores da dama, o amador tem de passar provações (à semelhança dos ritos de iniciação havendo por isso graus de aproximação amorosa: fenhador (que apenas suspira), precador (que Suplica), entendedor (que, tem correspondência) e drudo ou amante (quando a relação é completa);

Ao exprimir o sen amor, o trovador deve usar de mesura (autodomínio) para não ferir a reputação da dama.

A RELAÇÃO AMOROSA

Nas cantigas de amor a beleza e a sensualidade da mulher são sublimadas, mas a relação amorosa não se apresenta como experiência, mas um estado de tensão e contemplação;

A senhoré cheia de formosura, tipo ideal de mulher, com bondade, lealdade e perfeição; possuidora de honra (prez), tem sabedoria, grande valor e boas maneiras e é capaz de «falar mui bem» e rir melhor

O amor cortês apresenta-se como ideal, como aspiração que não tende à relação sexual, mas surge como estado de espírito que deve ser alimentado; pode-se definir, de acordo coma teoria platónica, como ideia pura;

Aspiração e estado de tensão por um ideal de mulher ou ideal de amor;

Amor fingimento: enquanto o amor provençal se apresenta mais fingido, de convenção e produto da imaginação e inteligência, nos trovadores portugueses, aparece mais sincero, como suplica apaionada e triste.

ARTIFÍCIOS DAS CANTIGAS DE AMOR

Ata - finda - É a ligação sintática e ideológica entre as estrofes;

Finda - é urna especie de conclusão do assunto em dois ou três versos.

Dobre - utiliza uma palavra em cada estrofe duas ou mais vezes para a realçar

Mozdobre ou mordobre - é a repetição de uma palavra, mudando o tempo verbal ou o género.

EncavaIgamento palavras essenciais ao conteúdo de um verso que surgem no verso seguinte

Verso perdudo - é o verso que surge no meio da estrofe sem corresp6ndência rimática (é um verso branco"

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PARALELISMO ENTRE AS CANTIGAS DE AMOR E AS DE AMIGO

CANTIGAS DE AMIGO

CANTIGAS DE AMOR

Eu lírico feminino.

Eu lírico masculino.

Presença do paralelismo; musicalidade.

Ausência do paralelismo; predominância das ideias.

Motivo literário principal: o lamento da moça cujo namorado partiu.

Motivo literário principal: o sofrimento amoroso do eu lírico perante uma mulher idealizada.

Amor natural, espontâneo e sensual.

Amor cortês, artificialismo e convencionalismo.

Ambientação preponderantemente popular e rural

Ambiente aristocrático da corte.

Presença da tradição oral ibérica.

Forte influência provençal.

MOISES, Massaud. A Literatura Portuguesa. 30ª ed., São Paulo: Cultrix, 1999.

Forte influência provençal. MOISES, Massaud. A Literatura Portuguesa . 30ª ed., São Paulo: Cultrix, 1999. 12

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