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Colegdo Campo Imagético cinema pos je na dntica qu mats vs expo as trades isis dentro das qt sefrmou Camp agin asim pads, abrese sobrchariantes dives da expresdo ais’ a forma a tlre video are sis digas a documento fle de feo. Bt cole prteneeplraro ‘ix cinema er su rah clic ow de vanguard, em sua expresio ‘utr ou incr em su forma documenta ou fiona, em sua dmensto isorigrfien ou anelta.Ineragind om oeonunt das cecias humana econ career ste em rc privilegiads pase esa a crag atin ‘em com atria a imgerfon mead pel cen Feenio Pesoa Ramos Coordendor da cleo Jacques Aumont tradugao Marina Appenzeller AS TEORIAS DOS CINEASTAS PAPIRUS EDITORA Sumario iwtopucho 7 1. A TEORIA DOS TEORICOS 16 Inventar conceito 6 Apresontar problemas a “arkovakt © tempo asclpido — Epstin O tempo eid Promover sistemas 2 isenstain,ctador de sistemas — Bresson wo cinemetografo 2.0 VISIVELE A IMAGEM, A REALIDADE E SUA ESCRITA 53 A imagem ¢ 0 visivel os Entra inguagem « via: Godard — Entre cinema »pitur: Rohmer — Entre natures osbaoito:Terkovskl Ente visto = vito: Brakinage — Entre imagem «imager: Frampton, 0 visivele a reelidade os ‘A telidedeauto-scrit: Pasolini — A realidad ropensads: Eprtsin A reslidadarevelaga: Vortow, Grierson, Egoyen — “As clas ext a": Ronslin Staub O realime: Fassbinder Aseria, 0 estilo 7 Duras: Eeraver, i le — Aru: De depo sctmere-caneta— itchooek: 0 “suspense” como a forma principal — Flsiacher: A recomposio Apoosia 90 © tudo fotopinico: Joan Eptein —Pasoink 0 “cinema de poesia" — Cocteau fo um pouce Bresson: Oeopiite de poesia ‘3, MAQUINARIAS & MAQUINAGOES © cineesta na Rep verdad soca: Vortov ~ A preccupago didi: Rossa “A poltice vet doTaresiro Mund Roche A resposta ideotégica (a utopia) (1 fines ajudam a viver ~ Pasolini A povsie “Teoveki A arte para todos Straub ou © Gus 9 cinema camiahe pare sue odard: A repressto come selvario 4. RARTE EA POETICA O cinoma entre as artos ‘Da necossidade do clsscisme: Rohmer — Da superordade “do cinema: De Clara Tarhovaki De cinema como sinone das arte: Os Eannatein a Godord mai le) O autor, 0 artista (© gue 6 wn “cinennta"? —0 ariat:Tarkovalt, Coe ‘Aeriicn¢ sous autores: Tatfout —O outer 0 atelis do cinessta ‘A tricolagem # 08 experimentadores — A profisde: Lewis, sadovkin 0 artesanato: Staub, Dues, Mo Experimentagio @ ensino osrimentador— Kalachov: Um ate [REFERENCIAS SIBLIOGRAFICAS iuoice onomAstico Inoice DE TITULOS DE OBRAS. 7 107 135 135 163 185 189 INTRODUCAO “ado mun pode exer am romance ahs "ewan agence ida Tit A diedad que cs experimen entra pro ar Wide, O ene are Uo cineasta 56 merece esse nome a partir do momento em que sabe ‘que eth fazendo” Longe de serum eric, o homem que profere se julzo ‘aegorco manfestou em gerl grande desconianc da especulasa e sempre {efendeu, 20 contévo, ums concep tecnica de Seu oii. Contudo,ndo€ por amor desmesurado a0 paradoso que lio, nesseaforismo de Claude CChabroocariterinevitiel da flex na patca do cinema, por menos que ‘sta sea acompanhada de alguma ambigto de proceder coretamente “Ambigio artistic, amigo somenteartesanal, poco imports cineasta & tum homem que no pode evtaraconsciéncia de su arte, eles sobre seu ‘cio esse ialidades, eer sta, o penstmenta stelivo€consagrado a expoigo ds prineipas reflexes de cineas tassubreseu ofc‘ sa arte—as mais rants, 8 mals inovadoras, as mais traentes. lo significa que cle priilegi os cinesstas que tivram a ambicz, ‘endo a masclevada, pelo menos mais profunda ea maisconseqiente: para teoriza, para simplesmente refi €prefeive aprofundar opines estes <0 ue tudi-las 0 tempo todo ow permanecer na superficie. Também da maior espago aos que acreditavam que o cinema era mas ase a uma arte do que uma tenica ou a um neg, Nao que tenis 0 neycio impeyam a rlexto ~ muito pelo contro, Porém, ean nossa clizaga0 a iia da arte €acompanhada de uma série de pressupostos, que fazem do Indvidu crador 0 Unico tesponsivel pela sua crac e, portant, © mais bem stuado para desenredar seus mecanismos ¢ suas fzdes, Quando o ‘enico,o industrial o economista pensam em cinema ~ mesmo que sjam ‘inestas~ pensam nele tendo em va um Fim que no € 0 cinema e sim 0 ‘inheio, sucesso, a conformidade «uma norma. Ao contri, ocineasta ‘qe considera umm artista pens em sua ate par as fnalidades da ate:0 ‘na pelo cinema, o cinema para dizer © mundo essa obsessio que me parece estar no canto da teria dos cineasts (0 cinema ser uma arte e cineaets um artista, parece evident, mas apenas porque a defnigbes mais importantes da ate pasaram a constiuir Certeras pats nbs, HA muito tempo existe instituigbes que se diam 3 Aefesa 8 defngto do cinema: nsttugi hllywoodiana, com seu poder. ‘conémicoe ses apéndicespublicdtios e cultura (os rtos de cinema, 0 (Oscar, maquinara promocional, ue incl grande parte da imprensa ‘specilzada ee) simetricamente e como contrapes, 3 erin Francesa, fconomicamenteineistent, mas muito forte na plano ideolgico, com ‘oncetos sds eeputaga ("politica ds autresa “dee; mastardea *modernidade” et). As duasinsiuigdesGrersm com que exstisse um meio sstruurad que cerca o cinema, produ? 0 cima, acompanha-o em sua Aifust. A dfiniio institucional da ate € hoje de long, a principal Todos ‘so as muses es aleras para vee (para consumie arte mais do que para ‘era obras ums parela importante da art contemporinea consiste em reflexes sobre es situa; umn instalgio por exerplo, tanto uma obra {quanto uma manera dese situar na instituiéo dos museus. O mesmo ‘conte, em pare, com a cinema, de formas diferente essencialmente, 0 ‘inema continu fazendo parte da industria do eras sua difasaotambéen Se tornow vinculada a inetituigdo dos muscu, jgualmente das escoas das tniversdade ‘aturalmente, quando os cineasts filam d arte do cinema émaisem ‘outros temos. Em eral pensim que artista a obra quese quisartsia.em vietade dem dejo expresso de fazer uma obra de arte ede inengBes, particles que presidem cada obra singular;a obradearte aqui que fo riado por uinindviduo gue tem wm projet. Esa dfiniao implcta mao ‘deina de apresentarperigos porgueas melhores intengtesporsimesmasmada significam: a sabedoria popular fez com clas um provérbi, € Ingmar Berginan, um romance sutobiogrifico (Bergman 1992. Se essa diigso inencional da arte permanececontudo exencalé porque vinculaa questio de are esfera do "telativo 8 crag" & questao de uma possvel pttc. Const tods «questo da relagzo entre intencionaldadee personalidde, ‘por muito tempo confandidas pela critica “autrita” de cinema (até a mata ea ust sentimental). (Outros artistas aceditam que a arte produ certs efitos que s ela produz. Efeitossensacionaise estticos: 0 cinema sidera ou seduz seu tspectaor convo nenhuma oute forma de ate Eetos soci idologcos: f cinema convene, informa ~ no sentido mais estrit: pbe em forma ‘eremos muitos cineastas preocupados com eses efeitos eepeciakmente os efeitos coletivos até um pensamento do politico: etodasa artes, ocinemaé iicontesavelmente a menos aastada da realdade socal. E mesmo se hoje ‘utes midis osuperaram em inluéciadeolgia, uma parte importante (4 teri eximar seu poder (eeventualmente seus deveres) decid! (0 cincasta ¢ sao, a0 mesmo tempo, plo reconhecimento de uma instiuigso (mesino marginal coma © underground), por projet pessoal € porque invents formas. Mas quer écineasta? No que diz respeito 3 teoria dos Cineastas a questo parece secundaria (ou j esl): astra do cinema foi feta pelos diretores £ importante contudo observar que essa concepelo ro € absolut, A histéra do cinema que concebemos espontaneamente fssemelhase muito uma naratva herds, com “grandes homens seus impulsos suas aventuras sus obsticulssé a histriaexposta ns dis ios eG Deleue nas Histoire) du cinéma |Hstxas) do cinema) de Jean Laue Godard: histéria romantica ¢ mitia, enganadora como 0 mito ¢ confiante convo ele de sua pscudocertra. Ness lio, como em todos os butts, o interes concentra se apenas nos dictores. Sem equecer que wma futra opsio mas ampla sera posiel e que sera posivel questionar a Contebuigao teérica dos fotdgrafos, dos roteiristas, dos produtores, dos smontadores, permancgo sem muitos remorsos na encarnagto dt arte ma esto, Exitem mits manta defze teri sbretud, sf um artista que fa teria de sua arte Desde o Renaseimento, todo artista no Ocidente pode ser consierado um erica ~ mesmo que jamais tena dito algo que isa Eom que we actdie gue € Fazer musica ¢fornecer uma tora da misc et {eu live sobre Wagner List dise menos que o proprio Wagner no Ring Wagner disse menos em seu ensaio sabre Beethoven que o¢sltimos ‘qartetos). Pinta € particpae da arte petdica, decidir sua posiio nas trandes qurelas que a clvaram e fazer com que cada ver main arte sea scompanhada de uma tora da arte (ques tornou quase que wm manual de intrugds no final do século XX). O cinerna nio constitu uma exesio, © seria fecundo acompanhar os pensamentos sobre a arte do filme que se ‘encarnam mas grandes abras cinematogrifcas nao hi tanto pensament eo “Murnau que no dixou nenhum texto teérico,em Lubitsch, que fundi suas feflexdes no moldejornalistico, em Resnais, que sempte se recusou a comentar se trabalho, quanto em Ruiz, que €fsof, em Rohmer, que se tornou historiador da arte e musicdlogo, em Godard, que quis fazer 0 empreendimentahstricoeetético do sculot Optei por me limitar& parte verbal d teoria dos cineastas, sem Aissimlar para mim mesmo a aiteaiedae det apeS0, Quando escreve ‘um artigo, participa de uma entrevista, esreve sua correspondénci, um ‘nesta force a para reflec a frramenta mals comu a ingua. Mas imediatamente, comega ase parecer com qualquer outro comeatador, em particular, como comentador profsional ue €o critic, tora “indigens” do cinema ésobretud obra deeticos de André Bazin Serge Dancy Mais tarde, vio tora universitra eh vinte anos, esas dust insituigdes ‘encontrar se em uma espéce de rvalidade latent, cada uma dels com vontadede questions leptimidade da outa, com critics tentadosa“dizer mais do que o necesiro™ na exbigt de uma supostacompeténcia tess 04,20 contrtioionizando rdieulo de qualquer empreeadimentotssrco, 0s universitrios que aventam afetos, emogdes, em sma, o sentiments srtica, [Nao & portant, a definigao da tori por critérios externos que Aesignard os cineastastedricos, mas, antes, 0s crtros interns. Existem suits crtros intros de vaidad, ou de interes, até de defini de tum teria. Consider ts importantes: a coerenci, 4 novdade, 2 apc: bildade ou pertngnca.Coernca 8 “eorias do cinema” so muitas wezes constugBestsrcas um tanto frou, nfo compacas, porque seu préprio ‘objeto € mal definido. A maior parte do tempo so spies de seriica do filme pimentadas ds vezs com um pouco de pragmitica (a recep}, um pouco de scilogia (dos publics) ou um pouco de psicolgia (da eracdo)¢ ‘no se poderia esperar uma coeréncaabsolta da parte dels. Vereros, or cxemplo, um dos grandes trios desu arte, SM. Eisenstein, aparenteente Panis Eators Aervar de um contest erica a outro a longo de tts déeadas ede muits situagdes polticase ideldgicas (0 que no nos impediré de achi-lo consistent) [Novia (ou inventividade) crtroinviivel~sendo ateorine arte consagrads3nvengio mas ambiguo, porque toda novidade¢relatva por ‘etn, eaqulo que parece novo em certo context pode ser banal em um, ‘outro. A propria equasio "novo = interessante” & datads; groso modo, ‘coincide com oe momentos de reactoanticlsica (porque, para as sociedades uj idea clissco 0 novo €subordinado 20 antigo). A concepeto atu ‘mente dominante alors novidadeestetcaesper-se que o artista produra obras nova ou se fundamentadas em concitos novos. Mas esses concetos ‘Sho conceit des obras, nio dat teoras. Temos 0 dirito de pensar 20 ‘contro, que esa concepgio dominante nZo espera novidade terica respite da arte, porguetende, como qualquer concepcio dominant a zat por sua propria continuagio e reprodusto. As teorias dos cineastas nto ‘Sicapam a esa repr, embors eu tenha me esforade por conservar as mais origins. Portnnc: 0 rtro da aplicabilidade~ formuli-o,porém, como *pertinéni”torna-o menos normative, Existem muitos eos de pertinéncl que poder ser considerados pars qualquer tora alguns dos quis nto Coreespondem a usos coms, embora tenham soa justifativa propria, ‘inda neste cso o exemplo de Eisenstein €reveador: acusado de perder se ‘em consieragdes totalmente ines (impertinents) de ordem pscologics, tntropoogia ou criminoigia, asic suas pesquisas 20 contro, por Sua neces, nts em uns hgar diferente daguele em que era procurada ara o que die respeito teoria dos inate, a questi permanece ambigu irata-se de pertnéncia intratesrica ou de pertnéncia com rlagdo & um projeto de cineast? sistem grandes cineasts que também si trios, € tons tebricos de acordo com meus crtéios(produzem ideas bastante coorentes, sida, ign), mas cua teria nao parece com os filmes ou, tale cue les eequece 3 teori: ver Epstein, ver até Tarkok ‘Meu projeto éexaminar as construgbestericassuicentemente laboradas expt articlads por cineats em toro desta preocupas: ‘amo 0 intlectale oartstico podem se unit na atividade de um tnico hhomem? Como un artista (um areso, um praticante) pode ou deve ser também un eo? Ema questo amplae que ecobre muitas outs ~ por xempl, as seguintes, queso como o horzonte de minha pesquls Fala dos cinestas como tericos permite defini outasainidades, 4s fail, com base mais em cites itlectuas terieos do que em ‘riteriosprofissonas ou até estticos? Com daa cere, considerarateoria {ds cineasts fz com que imediatamente um conjunto como o da nowele gue se despece, Fie evident quando os eos ei desde 1960, que existe muito pouco em camum entre Rivete Chabol até entre Rohmer € Tlf. €porguese trata de um conjuntoparamente institucional eins ‘na mesma revista, chegaram a0 ofcio de cineasa ~confundido com uma ‘omunidadeexetica, Ow enti, de um ponto de vista um pouco diferente, no € 2 teora do cinema tabalhada de dentro pels aividadesextracine- mmatogréfcas dos dretores, que so critcos,cxritores, mais earamente pintores oa ecllores, anda mals raramente misicos?O qu diz respsito a0 inema enio 4 Iieratura nas reflexes de Marguerite Duras ou de Alin Robbe-Grile? Cute preocupacio & com o valor ds teovas de cineats. Qual ose valor com lags a teoris de nZo-cincastas? Sto esto sida, tosis ‘quanto ae dos limos? Nio seria necessrio,ao contri, modficara prope Jmagem da tora com base na experitncia teria de certs cineasts? Por ‘outro lad, ome 0 meio des cinestas se comport em comparagdo com ‘outros miosartticoediante da possibilidae (ou exigéncia tedrca? De iret, € uma questo secundiis, de fat, uma questi importante: a da tultura dos cineastas dese saber ede suas referencias, Quando Raoul Ruiz ‘Mlema que sua concep do cinema se baseia nafsofa de Schopenhauer 0 ‘que ele quer dizer exatamente? O que querem dizer as inspragoes « teferéncastericas de um Eisenstein? De um Pasolini? , no contexto ameriano, onde foi parar a grande ultra dew Joba Ford? Edo queem seus filmes, mas eento? ‘Alga cineasts fizeram-se teGricos de mancira mais ou menos explicit mais ou menos copiosa, mais ov menos vive Isso quer dizer que ‘ster doistipsdecnesras, os querefletem torcamente sobre suaprtica ‘riadora esque cram “espontaneamente™? Ou isso que dizer que todos 0s, ‘ineastas em idle tence implica e que 6 alguns dles as explicit? A nde das tora explictadasnio permit responder com certeza, mas um Gos a priori deste lv € que a teoias elaboradas por alguns se eefletem na Dritica de todos o+ uttos, pelo menos no ponto em que a pitas to ‘Comparivels as declragbestGricas de Robert Bresson ndo esclarecem a pritics de Ford nem de Murnau). Pressuponko que, no meio doscinestas de tum determinadsépocs, rina uma concepeio do cinema que tem aspects 12 Pires eore ieoligicos estticos, € também te6ricos. Da mesma forma que Louis Althusc fla d "losofia espontinea dos eruitos” seria posivel far de ‘uma Teoria espontines dos cncasts”, da mesma forma como oseraditos, “que em geal nto st los, tém posizbes losiasespontineas que Ihes ‘So insinuadas pla deologia dominanteoscineatas, que em gral nd sto Ipéricos,tém poses tericasespontiness que refletem as concepyoes ddominantesem sews. Asistencia de ineasaserios deve enti ser ida {de acordo com dois eitoe poten (¢opsts)ou des formula em alo e bom som o que os outros pensim pars simesmosa daca (Pudovkin, Lewis, Bergman, Fassbinder; a0 contro, vio contra a corrente,constituindo nniclos de resistencia 4 concepgao majoritiria do cinema (Tarkovski, Rohmer, Duras, straub) £ pouco dizer que neste live priviegic a persoalidades mas fort aguelascujapermeabiiade ao meio € menor. Este trabalho visa, portant, tefl sobre a crag cinematogréfica,O cinessta €um rior de um ipo particular; "sem macs” (sem relagioimediata com qualquer material ou ferramenta;coagio por uma insitigio de tipo ndo apenas comercial mas semiindustiak que trablha segundo um rte insSlito, porque mesmo se faz um filme apés o outro, sem interupcio, como Walsh eFasbinder, a fabricagto de um filme deve pasar por estigos de natureza muito difreme ‘ote flmageny, manage). Como ese criador cri € uma vlhaquestio 2 qual a nogio de autor respondin em termosestticos. alr de tora ter perma dat outras espostas, pelo menos paca, mesmo se um cnessa,em Sus momentos de tora, continu sendo um cineasta antes de mas nda, Minha aposta € que os cineaststerios esclarecem, sem smplifc-os 08 problemas trios masmportantes, porque os enfentam em nome de uma Dries Ateoria dos cineasas nao ¢ pereta nem completa, mas € mais, edtors, mais vibrant, muita vezes mais limpida do que a tora dos tesco. so bats, Limitado por decisio incl aos cncasts que tem uma teoriaexpsta 1a forma verbal, esl aque, em grande mimeo, cua teria permanece implica e também aquelescuj tora apaente€ express de forma no verbal (caso feqiente entre or cineasas“experimentis”), Nesta obra, 08 ‘ineatas no so considerados por seus filmes, mas por suas teoris ~ desmembramentofustranee dif de manter, Assim, artistas muitisimo importantes do cinema mal so mencionados, porque além desas decisis conscents fui detrminado em miss escolhas por meu conhecimento forgosamenteincompleto da Srea (que €imensa sem limites clos) por _minas simptiasntelectaisemorateaha me esforsado por ulrapass ls ‘Cala tor observa, portato, inimerasauséncas que poderso parecer surpreendentes ou chacantes.Declar-me clpado de atemso por so poder inhi fugiiamente nesta panordmica Frit Lang eJohn Ford: Luis Bunuel e ‘Agnte Vara, Crs Marker e Alain Resnas, ba Kiarostami e David Lynch ‘Hans jargon Sperberge Peter Greenaway Jonas Mekase Andy Warhol entre muitos outs. Garano ao letor que me questone diate de cada um desses ‘ato e que nfo boot ninguém conscienterent ‘ina thima observaco em forma de averténca Propus uma dvisdo em captulos e subcapitlos eorganiasi minhasapeesntagdes de cao de ‘scordo com uma ordem deiberada. caro que ests no passa de uma das indmeratposibildads de apresentaiodetalassunto, ees plane funcional ‘no poderia pretender objetividad. Procure, antes de mas nada, tornar ‘ossivel uma letura continua ~ sabendo,contudo, que muitos letores prefeio, com razio, ssimila por fragments o que poderio encontat gui portanto dizer pouco que me parece pereitsmentejustificado ler este livgo“em desordem’ segundo as ciranstaniss dagilo qu, espero, star 1 A TEORIA DOS TEORICOS in fiji wa casi am can dears ‘George foil Todaro ‘Tiate-se, portanto, logo de inicio, da parte mais te6rica da teoris ~ 4 ‘ve visa explicagto exe aproxima um pouco da cifncin—edoscinests que levaram mate loge 0 gosto da teorizaao, na medida em que ea difere da critica, do comentiro de obra, da apreciagio avaliatva, da nareativa biogrifica, Esse gosto ¢inesperado a prior, pois, por defini, os ineastas reocupar, ants coma ctagto de flmes. Aingimos, portant, centro da ‘questi: por que alguns artistas precsram cia também models gras, Felativamente absteats,cujo objetivo vltrapassa sua obra pessoal Para ‘ompreender melhor e dominar melhor sua patca? Talver~mas ss jamais foi indispensivel existe cineasas que dominam muito bem seus recursos se clam), Para trmarem-efilsofo? Isso também € duvidoso. Ao final esa investigast,vltaremo a ser es pergunta. Inventar conceitos Um canceito, 0 qe se"conecheu uma ida, uma nocio— mas ua ieia que pode scr desenvolvida aplicada,tabalhads; 0 termo adquiru na flosofia, desde Kant, uma conotagio dinica que insite no destino des iia, Muitos ines tiveram tas ida iito-me, em prio lagae a ‘quatro cass ecohidos por sus diferengas em extensdo, em preciso, em Dotencial de generaldade ~ eguslmente por sua frcasugestiva propria ~a Fim de demonstrar bem depressao que a teria consege quando & urn cincasta ques mancia Bresson ¢ encontro Robert reson (1904-1999) ndo€ 0 autor de um tatado nem mesmo de muitos textos tric. No entanto, em pouco mais de cem paginas, sas Note sur le inomatographe [Notas sche o cinematégrafo]ofeecem uma concepeio do cinema insuperivel por su rigor ea das mais ifluentes Jamaispropstas. Basear-me-i agui em uma de suas noes mais cebres, ‘de modelo, qu toca emt uma questi central das ares visuals, a iguragso Sabe-se que plavraSigrac seus derivados prove do atin figura que pot su ver, procede do verbo figs, qe significa, entre outa coisas, modelar, portato, na din de gura sempre existe ecetamente a ieia de uma mio ‘gee model, mesmo nas artes sem maos como cinema, Bresson nZoabora ‘etimologi latina em seu vo, mas, quando define emo modelo = maisdo ‘que como ator ~ esse corpa que se encontow dante da cimera ¢ que 20 Ser fiado,permiiy produc certas Fgura, ranspae uma equagio disica das artes "iguraivas® qu seria posivel formula da seguate manera: modlar€ ‘ar forma a ipia do modelo ques uae (0 cinematdgrao & aplicaso na pritica dessa modelagem, des “figurasio™ por meio do trabalho de ivenczo da imagem e 0 trabalho de montagem, que produrem figuras. or exemplo, no inicio de Pickpocket Tide» (1959) ( ena do farto da bola na pista de corsa), ¢produzida ‘uma figura da dijungz,o rosto do modelo sendo dssociado de sua mao; ‘com io, sublinha-e gue Michel nada v8 (é por exempo,oefito do plano sobre o homem de binéculos) e que sew olharnio &' ferramenta de “exprestvidade ede comuniagio que normalmente é no cinema; ess cena é rmostrada fra de qualquer ponto de vista otalizante, cada fegmento deme Fines de rgadon dove ms nas eto, ot mas naa 2 trot 0 que tem, em por ap [de Joma 0 por men de ‘urs ines" (© realismo: Fassbinder Portano,o cinema fi asociado, agi e a 0 realism, O termo, porém,¢equivoco, dependendo se © considerarmas como a capacidade de Iostrar a realidad ~ ou cj, como 4 eapacidade de vé-la realmente ~ ou ‘segundo seu valor istic ultra ssciad d emergincia,noséulo XIX, cde uma ideologia realists a literatura e na pintura. Como movimento lite, al como 0 defnitam Zola e Maupassant, 0 elim se define em ‘posi as movinentos que oprecederam:trats-e de fgi ds clichts, de Pintar a realidad “com el &"~ temibem (o que € muito frequentemente ‘squecido} de rear o trabalho form coma tal Tatas, em Zola, da noo {de"tel que o artista interpde entre o rea ese lho mental para vel. O realismo francés do final do séulo XIX enfatizou assim um ver muito subjeivo ¢, contraditoriamente, uma consteugso documenta dos mundos imagindtis da fcp40. Os cineasas que acreditaram trabalhar © proton: tamento dese realsmoconstiulram uma ida ber diferente da de Vertow, ‘de Rosslini ede seus herdios involuntiros da realidad e de sua nto: (outta mtn Darren ko po manipulacio. Entre 0s (ratos)cineatas que diseram um pouco como oncebiam areal, Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) ¢sem dvida ‘aguel qc, al ds diferenga ities, 0 mas présimo dalicio de Zola. TFasbinder jamais desou de negar que ose "reaitnstindo ma parca de suljetivdade de ses filmes mas pra imediatamentelembrae que “quanto mas pesoaie soos filmes, mais dive coisas sobre o pas onde fram feitos” (assbinder 1987, p54) ~e também na necesidade de uma apresentagio mio trivial eat ni "real no sentid formal, do que é mostrado,chegando a tum segundo paradono:“quanto mais verdadsras soa coisas, mas Feticas so" (dom, p. 68). Sempre fi, contudo, estimulado por uma prencupasto profundamente reali Aurentcidade documental apresetada como necessiria,incuindo a parcels de investiga prelminar a Unica que permite constr oreferente ‘de um fato socal complexo (por exemplo, a realdade completamente ‘utenti a imigragio" para O medo devora a ala [Angst een See au, 1973). Ao contro, os mes que nfo ating ese valor docurestal sao desacteditados; para le, Os prima Les cousins], de Claude Cabrol(1959),€ lum “dacumento de epoca sem epoca esem valor documenta porgue io clea qualquer questi sobre as vexdadsrasnecessidades eo verdadeir Evatt descr, caja importnei €ergida em principio e que cia caricatra ea ard, Para garantila€necessrolimizaraamplid20 0 objeto descrito, mesmo no sentido mais material; para Berlin ‘Alexondeplt: ide) (1980), ra imposivelreconsitue a externas © que seria investr em algo vaso demais ini, batavareconsttuira manta de hubitar os interiors sso no dspensa de presenta ofenémeno decito «mn seu context social A respeito dos abus sexuais, por exrmplo, 0 segunt: quando se realga lado exitico, no hi tabu ~ smentes8 Yoo! restitul 0 contest social entho, af bse, p88). Em sums, ese cinema resist, apesar dele, dedica-se a recortar a realidad socal segundo as quests, os problemas seseecote for correo, ‘nto, com feito flr da vealidade indo sea impor the seu pont de ws, ‘mas deduir um ponto de vista sobre a realdade da propria reaidade, Asim, no canto do realise, mesmo o mais abriado, exe a creng na reaidade {que contem seu sentido. Mesmo 0 realists ou 0 naturaisa,herdetos ‘onscents da cultura terri, ateditam que aealidae pode ser levada& ‘signteago pelo cinema, 7 Popes Eaore Mediante sa rubrica dorealiama—a situagoporexceléciaem que 6 encontramos o que nds memos trowxemes conosco de toda a teoria {eriapossivel encontrar inimerscinesstas. Qual dels, deft jamais insists om 9 cinemat6grafo-aparcho em transmitir a realdade tal como ea & “Mesmo um cinesta tt rebelde a qualquer teoria como Wim Wenders, por cexemplo, x8 encontrou o spain como resposta 4 questi "por que wore filma”:"O cinema pode salar existincia das cosas" (Wenders 1990, p10), ‘Ao dscrever seu projet As sas do desjo (em alemio Der Himmel aber Berlin, O ci se Berim, 1987), apreenta-o como deterinado por us Togar, Beri, con sus historia: "Beri € um lugar histrco da verdad” (idem, p19). Ainda, Wenders era muito inluenciado pela critica e plo ‘nema francs, mas sex nome peri se facilmente substiuldo por muitos ‘outros, ebricos ou sem tear e até pelos mais “espontineos’ como 0 Americano John Cassavetes, ou Raoul Walsh, cuja ida de cinema eta, integralmente, aumenta o reals o tempo todo. Até 04 anos 80, pelo menos, 0 "eaismo" fio equivalent gral da teoria dos cineasts Aeescrita, 0 estilo A nog de resimo no sentido histércoe cultural & central para 0 cinema, 20 qsal tem o habito de viculr essa traigioocidental de wm realismo do oar ~ to de um realism das aparneias. Seria necessvio jamais exquecer que ese"reamc” se contenta como exterior das coisas dos teres equ, cuivando o olhar como sua arma mais poderos,o cinema tomou-se 0 contriri da pinta, que, no século XX, tornou a vincular se ‘com uma pose interiordade que abandonaraapés a ldade Média, Como ‘observ ovideomaker Bill Viol: Asian atin i psa dae com pci vam ‘agen nto ao sj eco ven s0 campo duempetas ‘Rental Por exempt mio most todo ads de um bf ‘inra bas pr expen que der exten. Aces 2 WS [Mosc capo pnioonarmsoenediem ques 5 OS ‘amen exer" Tr RW nae aceasta 'B. RVntn “Peon chlo apn pg ance Cie Wao Tr deh Imager, por urn lado, realidade, por outro; € dvs habit, © simples deat O cinema inventa imagens a eldade sea para exprimir a realidade, sea para neg Ic afrmat-se