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RESENHA DO LIVRO PEDAGOGIA DA AUTONOMIA DE PAULO FREIRE

Resenhado por: Maria do Socorro Baptista Barbosa

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 31 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2005

O Autor

Paulo Freire foi, sem dúvida, o maior teórico da educação a nascer no Brasil,

embora ainda pouco estudado e lido em seu próprio país. Nascido em em 19 de

setembro de 1921 em Recife, era filho de Joaquim Temístocles Freire, capitão da

Polícia Militar de Pernambuco e de Edeltrudes Neves Freire, Dona Tudinha. Freire

teve uma irmã, Stela, e dois irmãos, Armando e Temístocles

A irmã Stela foi professora primária do Estado. Armando, funcionário da

Prefeitura da Cidade do Recife, abandonou os estudos aos 18 anos, não chegou a

concluir o curso ginasial. Temístocles entrou para o Exército. Aos dois, Freire

agradece emocionado, em uma de suas entrevistas a Edson Passetti, pois

começaram a trabalhar muito jovens, para ajudar na manutenção da casa e

possibilitar que ele continuasse estudando.

Sua família fazia parte da classe média, mas Freire vivenciou a pobreza e

a fome na infância durante a depressão de 1929, uma experiência que o levaria a se

preocupar com os mais pobres e o ajudaria a construir seu revolucionário método de

alfabetização. Por seu empenho em ensinar os mais pobres, Paulo Freire tornou-se

uma inspiração para gerações de professores, especialmente na América Latina e

O educador procurou fazer uma síntese de algumas correntes do pensamento

filosófico de sua época, como o existencialismo cristão, a fenomenologia, a dialética

hegeliana e o materialismo histórico. Essa visão foi aliada ao talento como escritor

que o ajudou a conquistar um amplo público de pedagogos, cientistas sociais,

teólogos e militantes políticos, quase sempre ligados a partidos de esquerda.

A partir de suas primeiras experiências no Rio Grande do Norte, em 1963, quando ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias, Paulo Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização, adotado primeiramente em Pernambuco. Seu projeto educacional estava vinculado ao nacionalismo desenvolvimentista do governo João Goulart.

Freire entrou para a Universidade do Recife em 1943, para cursar a Faculdade de Direito, mas também se dedicou aos estudos de filosofia da linguagem. Apesar disso, nunca exerceu a profissão, e preferiu trabalhar como professor numa escola de segundo grau lecionando língua portuguesa. Em 1944, casou com Elza Maia Costa de Oliveira, uma colega de trabalho.

Em 1946, Freire foi indicado ao cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social no Estado de Pernambuco, onde iniciou o trabalho com analfabetos pobres. Também nessa época aproximou-se do movimento da Teologia da Libertação.

Em 1961 tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e, no mesmo ano, realizou junto com sua equipe as primeiras experiências de alfabetização popular que levariam à constituição do Método Paulo Freire. Seu grupo foi responsável pela alfabetização de 300 cortadores de cana em apenas 45 dias. Em resposta aos eficazes resultados, o governo brasileiro (que, sob o presidente João Goulart, empenhava-se na realização das reformas de base) aprovou a multiplicação dessas primeiras experiências num Plano Nacional de Alfabetização, que previa a formação de educadores em massa e a rápida implantação de 20 mil núcleos (os "círculos de cultura") pelo País.

Em 1964, meses depois de iniciada a implantação do Plano, o golpe militar extinguiu esse esforço. Freire foi encarcerado como traidor por 70 dias. Em seguida passou por um breve exílio na Bolívia e trabalhou no Chile por cinco anos para o Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Em 1967, durante o exílio chileno, publicou no Brasil seu primeiro livro, Educação como Prática da Liberdade, baseado fundamentalmente na tese Educação e Atualidade Brasileira, com a qual concorrera, em 1959, à cadeira de História e Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife.

O livro foi bem recebido, e Freire foi convidado para ser professor visitante da Universidade de Harvard em 1969. No ano anterior, ele havia concluído a redação de seu mais famoso livro, Pedagogia do Oprimido, que foi publicado em várias línguas como o espanhol, o inglês (em 1970) e até o hebraico (em 1981). Em razão da rixa política entre a ditadura militar e o socialismo cristão de Paulo Freire, ele não foi publicado no Brasil até 1974, quando o general Geisel assumiu a presidência do país e iniciou o processo de abertura política.

Depois de um ano em Cambridge, Freire mudou-se para Genebra, na Suíça, trabalhando como consultor educacional do Conselho Mundial de Igrejas. Durante esse tempo, atuou como consultor em reforma educacional em colônias portuguesas na África, particularmente na Guiné-Bissau e em

Com a Anistia em 1979 Freire pôde retornar ao Brasil, mas só o fez em 1980. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores na cidade de São Paulo, e atuou como supervisor para o programa do partido para alfabetização de adultos de 1980 até 1986. Quando o PT venceu as eleições municipais paulistanas de 1988, iniciando-se a gestão de Luiza Erundina (1989-1993), Freire foi nomeado secretário de Educação da cidade de São Paulo. Exerceu esse cargo de 1989 a 1991. Dentre as marcas de sua passagem pela secretaria municipal de Educação está a criação do MOVA Movimento de Alfabetização, um modelo de programa público de apoio a salas comunitárias de Educação de Jovens e Adultos que até hoje é adotado por numerosas prefeituras (majoritariamente petistas ou de outras orientações de esquerda) e outras instâncias de governo.

Em 1986, sua esposa Elza morreu. Dois anos depois, em 1988, o educador casou-se com a também pernambucana Ana Maria Araújo, conhecida pelo apelido "Nita", que além de conhecida desde a infância era sua orientanda no programa de mestrado da PUC-SP.

Em 1991 foi fundado em São Paulo o Instituto Paulo Freire, para estender e elaborar as idéias de Freire. O instituto mantém até hoje os arquivos do educador, além de realizar numerosas atividades relacionadas com o legado do pensador e a atuação em temas da educação brasileira e mundial.

Freire morreu de um ataque cardíaco em 2 de maio de 1997, às 6h53, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, devido a complicações em uma operação

de desobstrução de artérias. O Brasil perde, nesse dia, um de seus mais ilustres

filhos, talvez o primeiro teórico da educação cuja principal preocupação era educar a

partir da realidade brasileira, com ideias geradas a partir dessa realidade. O legado

de Freire vai além de seus muitos escritos, vai também na própria linguagem de que

se utilizava, sendo o primeiro escritor brasileiro a livrar-se dos sexismos da língua

portuguesa, mostrando, sempre, um enorme respeito a todos e todas,

independentemente de gênero, etnia, classe social, ou filiação política.

O Livro

Pedagogia da Autonomia é o que se pode chamar de pequeno grande livro:

com apenas 146 páginas, medindo 17 cm de altura e 12 cm de largura, com uma

espessura de menos de 1 centímetro, fica perdido no meio a livros maiores e mais

volumosos. Entretanto, quando se pensa em conteúdo, dificilmente haverá livro

maior.

O livro é composto por 3 capítulos, cada um subdividido em diversos subitens,

o que indica claramente a preocupação do

educador com o processo ensino-aprendizagem, e com o ato de ensinar e aprender,

todos iniciados com “Ensinar exige

,

que, para ele, são indissociáveis.

Freire introduz Pedagogia da Autonomia com uma pequena introdução que

chama de “Primeiras Palavras”, explicando suas razões para analisar a prática

pedagógica do professor em relação à autonomia de ser e de saber do educando.

Enfatiza a necessidade de respeito ao conhecimento que o aluno traz para a escola,

visto ser ele um sujeito social e histórico, e da compreensão de que "formar é muito

mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas" (p

14).

Define essa postura como ética e defende a idéia de que o educador deve buscar

essa ética, a qual chama de "ética universal do ser humano" (p. 15), essencial para o

trabalho docente. Ele afirma ainda que:

Não podemos nos assumir como sujeitos da procura, da decisão, da

ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser

assumindo-nos como sujeitos éticos (

prática educativa, não importa se trabalhamos com crianças, jovens ou com adultos, que devemos lutar (p. 17 e 19).

É por esta ética inseparável da

)

Em sua análise, menciona alguns itens que considera como fundamentais para

a prática docente, enquanto instiga o leitor a criticá-lo e acrescentar a seu trabalho

outros pontos importantes. Inicia afirmando que "Não há docência sem discência",

título de seu primeiro capítulo (p. 21), pois "quem forma se forma e re-forma ao

formar, e quem é formado forma-se e forma ao ser formado" (p.23). Dessa maneira,

deixa claro que o ensino não depende exclusivamente do professor, assim como

aprendizagem não é algo apenas de aluno. "Não há docência sem discência, as

duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se

reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar, e

quem aprende ensina ao aprender" (p. 23).

Justifica assim o pensamento de que o professor não é superior, melhor ou

mais inteligente, porque domina conhecimentos que o educando ainda não domina,

mas é, como o aluno, participante do mesmo processo da construção da

aprendizagem.

Freire segue sua análise colocando como absolutamente necessário o rigor

metódico e intelectual que o educador deve desenvolver em si próprio, como

pesquisador, sujeito curioso, que busca o saber e o assimila de uma forma crítica,

não ingênua, com questionamentos, e orienta seus educandos a seguirem também

essa linha metodológica de estudar e entender o mundo, relacionando os

conhecimentos adquiridos com a realidade de sua vida, sua cidade, seu meio social.

Afirma que "não há ensino sem pesquisa nem pesquisa sem ensino" (p. 29). Esse

pesquisar, buscar e compreender criticamente só ocorrerá se o professor souber

pensar. Para Freire, saber pensar é duvidar de suas próprias certezas, questionar

suas verdades. Se o docente faz isso, terá facilidade de desenvolver em seus alunos

o mesmo espírito. Em suas próprias palavras:

O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma

das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer

Ensinar, aprender e pesquisar lidam com esses dois

momentos do ciclo gnosiológico: o em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente (p.28).

Ensinar, para Freire, requer aceitar os riscos do desafio do novo, enquanto

inovador, enriquecedor, e rejeitar quaisquer formas de discriminação que separe as

pessoas em raça, classes, gêneros, etc

É ter certeza de que faz parte de um

o

mundo (

)

processo inconcluso, apesar de saber que o ser humano é um ser condicionado,

portanto há sempre possibilidades de interferir na realidade a fim de modificá-la.

Acima de tudo, ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando. Isso fica

muito claro em sua fala:

O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e

O

professor que desrespeita a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que "ele se ponha em seu lugar" ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento de seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência (p. 59-60).

não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros (

)

É importante que professores e alunos sejam curiosos, instigadores. Para

Freire, é "preciso, indispensável mesmo, que o professor se ache repousadono

saber de que a pedra fundamental é a curiosidade do ser humano" (p. 86). Faz-se

necessário, portanto, que se proporcionem momentos para experiências, para

buscas. O professor precisa estar disposto a ouvir, a dialogar, a fazer de suas aulas

momentos de liberdade para falar, debater e ser aberto para compreender o querer

de seus alunos. Para tanto, é preciso querer bem, gostar do trabalho e do educando.

Não com um gostar ou um querer bem ingênuo, que permite atitudes erradas e não

impõe limites, ou que sente pena da situação de menos experiente do aluno, ou

ainda que deixa tudo como está que o tempo resolve, mas um querer bem pelo ser

humano em desenvolvimento que está ao seu lado, a ponto de dedicar-se, de doar-

se e de trocar experiências, e um gostar de aprender e de incentivar a

aprendizagem, um sentir prazer em ver o aluno descobrindo o conhecimento. Freire

afirma ainda que

É digna de nota a capacidade que tem a experiência pedagógica para

despertar, estimular e desenvolver em nós o gosto de querer bem e o gosto da alegria sem a qual a prática educativa perde o sentido. É esta força misteriosa, às vezes chamada vocação, que explica a quase devoção com que a grande maioria do magistério nele permanece, apesar da imoralidade dos salários. E não apenas permanece, mas cumpre, como pode, seu dever (p. 142).

Nessa obra, portanto, expondo os saberes que considera necessários à prática

docente, Paulo Freire orienta ao mesmo tempo em que incentiva os educadores e

educadoras a refletirem sobre seus fazeres pedagógicos, modificando aquilo que

acharem preciso, mas especialmente aperfeiçoando o trabalho, além de fazerem a cada dia a opção pelo melhor, não de forma ingênua, mas com certeza de que, se há tentativas, há esperanças e possibilidades de mudanças daquilo que em sua visão necessita mudar.

Opinião crítica

A Pedagogia da Autonomia é um livro pequeno em tamanho, mas gigante em esperança e otimismo, que condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideologia imobilizante de que "a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?" Para estes basta o treino técnico indispensável à sobrevivência. Em Paulo Freire, educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo neoliberal, reconhecendo que a história é um tempo de possibilidades. É um "ensinar a pensar certo" como quem "fala com a força do testemunho". É um "ato comunicante, co-participado", de modo algum produto de uma mente "burocratizada". No entanto, toda a curiosidade de saber exige uma reflexão crítica e prática, de modo que o próprio discurso teórico terá de ser aliado à sua aplicação prática.

Indicação

Um livro para todos, mas fundamental para professores, essencial para estudantes de toda e qualquer licenciatura.