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ANO VII • N 46 • NOVEMBRO/DEZEMBRO 2006


EDITORA REVISTA DOS TRIBUNAIS

A crescente vigilância feita por câmeras e outros meios


tecnológicos põe em discussão os limites da busca da
segurança diante da necessidade de preservar
a privacidade das pessoas
Capa
Privacidade num mundo de vigilância constante
Com câmeras e diversos aparatos tecnológicos de monitoramento por todos os lados, a
sociedade moderna se vê diante da constante necessidade de refletir até que ponto pode
abrir mão de determinados direitos individuais em prol da segurança da coletividade.

Vigilância eletrônica, 24 horas por dia, não é lugar ser um ponto histórico ou turístico. Tudo

Araújo
mais parte da ficção imaginada no passado. O em nome da segurança.
arsenal tecnológico de controle vai além dos
“olhos eletrônicos” e inclui radares que fla- As regiões abrangidas pelos “olhos eletrônicos”
gram e fotografam motoristas desrespeitando são observadas permanentemente a partir de
regras de trânsito, sensores que apontam uma central da Guarda Civil Metropolitana, ca-
furtos de mercadorias em lojas, leitores digitais paz de acionar imediatamente as unidades de
e de íris que servem de senhas para a abertura patrulhamento, tanto da própria GCM, quanto
de portas, cruzamento de informações ban- da Polícia Militar, que estiverem próximas ao
cárias e fiscais que denunciam sonegação de local e que precisem intervir. A intenção das
impostos, identificação biométrica de suspeito autoridades paulistanas é fazer do sistema uma
de crimes e até monitoramento via satélite de referência para outras cidades do Brasil, pela
presos em liberdade condicional. Neste ritmo, cobertura da área observada, qualidade das
falta pouco para ganhar espaço a imaginada imagens, capacidade de aproximação para ver
“identidade universal”, que seria usada para detalhes da cena e intervenção imediata.
rastrear, instantaneamente, qualquer cidadão,
onde quer que ele esteja. Além das ruas, os cidadãos modernos vivem
cercados de câmeras em muitos outros lu-
Sergio Cruz Arenhart: “A questão é ter claro onde
Diante desta situação, estaria o mundo de gares, como elevadores, portarias de prédios,
deve haver expectativa de intimidade e onde não”
hoje ficando mais parecido com aquele bancos, supermercados e estações de metrô,
imaginado no final da década de 1940 pelo para citar alguns exemplos bastante conhe-
escritor inglês George Orwell, em seu clássico cidos. Trata-se de uma tendência mundial. Paraná e procurador regional dos Direitos do
1984? Na obra, assim como na sociedade que Cidadão. Segundo ele, os controladores
parece estar em construção, nenhum local Um estudo do Comissariado de Informação eletrônicos são um mal necessário da
estaria a salvo da vigilância permanente. do Reino Unido, divulgado no início de no- sociedade moderna, mas isso não significa que
vembro, mostrou que aquele país está se tudo possa ser permitido sob o pretexto da
Introduzidas com grande expectativa como transformando numa “sociedade de vigilância”, segurança. “É fato que o conceito de intimi-
armas para aplacar a crescente violência com cada habitante sendo filmado por cerca dade é relativo, varia de acordo com a cultura
urbana, as tecnologias de monitoramento de 300 câmeras todos os dias. O Comis-
também podem revelar um lado muito sariado é um órgão independente, respon-
negativo, segundo a análise de alguns sável por proteger a privacidade do público e
especialistas. Do ponto de vista jurídico, a ajudar os cidadãos a terem acesso a
preocupação é evitar que os métodos de con- informações oficiais. Ainda de acordo com
trole se expandam a tal ponto que possam este levantamento, o Reino Unido tem
comprometer liberdades individuais e 4,2 milhões de câmeras de circuito
garantias asseguradas constitucionalmente. fechado (uma para cada 14
habitantes), que vigiam os cidadãos
Na mira das lentes nas ruas, nos meios de transporte e
em estabelecimentos públicos e
Recentemente, a prefeitura de São Paulo – a comerciais.
exemplo do que vêm fazendo outras cidades
de vários países – instalou um conjunto de 35 “Em muitas cidades brasileiras,
câmeras eletrônicas na região central da capital. também se torna cada vez mais
Os equipamentos permitem captar detalhes de difícil encontrar um local que não
diversas ocorrências cotidianas. De acordo com seja vigiado. Neste caso, não há
as informações da administração municipal, a como negar que as pessoas sentem
escolha dos locais para a instalação das câmeras um aumento da sensação de segurança,
obedeceu a critérios que levam em conta fato- mas, por outro lado, a privacidade diminui
res como a grande movimentação das pessoas, na mesma proporção”, comenta Sergio
número de incidentes registrados e o fato de o Cruz Arenhart, procurador da República no

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julgar as condutas filmadas. Daí, sob o singelo O contínuo desenvolvimento tecnológico
pretexto de repressão da criminalidade, não deverá alimentar ainda mais a discussão. É o
faltará muito para a repressão ideológica e caso dos novos programas existentes na
política”, argumenta. Ademais, segundo ele, na- internet capazes de captar, via satélite, imagens
da garante que o uso das câmeras irá efeti- de qualquer região do planeta. A tecnologia,
vamente reduzir globalmente os índices de ainda embrionária, já permite localizar ruas
criminalidade. “É provável que haja um des- e casas. “Se nós, cidadãos comuns, podemos
locamento dos focos de delinqüência para acessar esses sites e capturar essas imagens, o
bairros pobres, zonas rurais e o interior das que mais aqueles que liberaram estes recursos
residências”, acrescenta. podem acessar que nós ainda não sabemos?”,
questiona Arenhart. “Não devemos criar uma
Motivos para preocupação não faltam. Na paranóia, mas é preciso ter garantias de que a
avaliação do professor Bismael Batista de tecnologia seja usada para preservar os
Moraes, mestre em Direito Processual e ex- indivíduos, os cidadãos de bem, e não para
presidente da Associação dos Delegados de prejudicá-los. Assegurar esta condição, porém,
Polícia do Estado de São Paulo, a constante não é uma tarefa fácil”, considera.
vigilância cria problemas que vão além da
simples redução da privacidade. “Vivemos O advogado criminal e diretor do Instituto
Bismael Batista de Moraes: “O direito de negar, uma espécie de ‘neurótica fobia coletiva’, que Brasileiro de Ciências Criminais, Theo Dias,
como parte da defesa, desaparece diante da nos induz a considerar os muitos controles também avalia que sempre haverá uma tensão
verdade da máquina” ótico-eletrônicos como válidos, mas é preciso entre os meios usados para promover a se-
cautela”, afirma. Ele tem se preocupado espe- gurança contra a criminalidade e os direitos
e o tempo, mas é importante não se esquecer cialmente com a questão do direito de defesa, individuais. “Observo que, hoje em dia, a socie-
de que a privacidade é fundamental para o garantido constitucionalmente. “Para o ‘impu- dade está mais disposta a renunciar a certas
desenvolvimento das pessoas e deve ser tado’, ‘suspeito’, ‘apontado’, ‘fotografado’ ou liberdades em nome da sensação de segu-
respeitada. A questão é saber em que espaços ‘flagrado’, a ampla defesa desaparece ante a rança, mas isso não quer dizer que se tornou
e situações deve haver uma expectativa de verdade da máquina. Ninguém pode, face as aceitável qualquer tipo de invasão à intimi-
intimidade e em quais não deve existir, já que evidências eletrônicas, usar do princípio dade”, comenta. Segundo ele, as
a vigilância eletrônica tornou-se uma realidade. nemo tenetur se detegere câmeras fazem parte do que na
Creio que as discussões deverão caminhar (ninguém é obrigado a fazer Inglaterra se denominou
neste sentido”, acrescenta. prova contra si mesmo) É quase inevitável prevenção situacional, por
porque o autuado (sur- deixar de fazer uma associação meio da qual se lança
Num artigo intitulado “A Era do Controle: preendido) não tem mão de instrumentos
introdução crítica ao Direito Penal ciberné- perguntas a res- entre a crescente vigilância nos arquitetônicos, urbanís-
tico”, publicado pela Revista dos Tribunais há ponder”, diz. Em dias atuais com a ficção ticos e tecnológicos
quase três anos, o jurista Túlio Lima Vianna outras palavras, a pena para reduzir as opor-
abordou a preocupação com o uso desme- está previamente selada
do Big Brother imaginada há
tunidades de ocorrência
dido das tecnologias de vigilância. Ele aponta pelo aparato tecnológico. mais de seis décadas de crimes. “As câmeras ins-
que o argumento central dos defensores do “Os direitos individuais ou taladas em locais críticos po-
longus oculus estatal é a ausência do direito à subjetivos do acusado sucumbem, dem ser decisivas tanto para coibir
privacidade em locais públicos. Afinal, se al- por força de um ato delitos, quanto para facilitar a investigação
guém pode ser observado por outras pessoas, administrativo da autoridade pública”, diz. quando eles não puderem ser evitados. Creio
não haveria por que almejar privacidade. ser aceitável, do ponto de vista legal, a
“Evidentemente, trata-se de um sofisma, pois Controle sem abusos instalação desses equipamentos em aero-
o grau de observação de um sistema de vigi- portos, ruas e outros locais públicos, onde as
lância eletrônica é infinitamente superior à O temor de alguns especialistas acerca do uso pessoas possuem uma reduzida expectativa
visão do mais observador dos transeuntes. inapropriado das tecnologias de vigilância é de intimidade. O direito à privacidade é um
Não se pode comparar a visão humana com reforçado também por ocorrências até pito- bem jurídico que deve ser preservado, mas
câmeras onipresentes, na sua maioria ocultas rescas que vieram a público. No ano passado, que admite restrição na ponderação com
na paisagem urbana, permitindo aos agentes por exemplo, o TST-MG condenou uma em- outros direitos”, analisa.
públicos verem sem serem vistos. Não bas- presa a indenizar um dos seus funcionários
tasse a visão privilegiada das câmeras estrate- que movera uma ação contra a iniciativa da Por outro lado, Dias defende que a segurança
gicamente posicionadas, a gravação das ima- companhia de instalar câmeras de vigilância não deva ser buscada “a qualquer preço”.
gens permite sua reprodução com zoom e nos banheiros masculinos. Nos Estados Como apontado pelos outros profissionais
câmeras lentas, por infinitas vezes, inclusive Unidos também ganhou repercussão o caso ouvidos pelo RT Informa, ele concorda que
para terceiros”, analisa. de uma escola de ensino médio do Tennessee sempre haverá o risco de abuso. “Mas isso não
que havia instalado o mesmo tipo de impede o uso da tecnologia. Os desvios é que
Na opinião de Vianna, doutor em Direito do equipamento no vestiário feminino, devem ser combatidos”, enfatiza. “As es-
Estado e professor de Direito Penal na PUC- registrando as garotas do time de basquete tratégias de luta contra o crime devem estar
MG, o mesmo sistema utilizado para a seminuas. As imagens, captadas por uma de acordo com as regras do Estado De-
vigilância pode ameaçar direitos civis quando câmera sem proteção, ficaram registradas na mocrático de Direito. Devemos estar cons-
usado com fins políticos. “As câmeras cer- rede de computadores e foram parar na cientes dos riscos de um Estado ou de uma
tamente não filmarão somente crimes e cenas internet, dando margem para muita polêmica sociedade ‘paparazzo’, em que se barganha
do cotidiano, mas também greves, manifes- à respeito do quanto se pode deturpar o uso privacidade por uma pretendida ‘segurança’.
tações políticas e uma série de outras ameaças da tecnologia sob o pretexto original de O objetivo de contenção do crime não se
aos interesses de quem, mais tarde, terá a cuidados com a segurança. alcança a qualquer custo, com a abolição das
posse destas imagens e o poder de analisar e fronteiras que devem separar o crime do

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