A Luta de Classes

S.S Papa Pio XII

Discurso aos Representantes dos Trabalhadores Italianos, 13 de junho de 1943.

As duras condições presentes não pesam só sobre a multidão dos operários,
mais que os outros, oprimida e aflita; todas as classes compartilham este peso,
umas mais penosa e molestamente que outras; e nem só o estado social dos
trabalhadores e trabalhadoras está pedindo alterações e reformas: toda a
complexa estrutura da sociedade tem necessidade de ser restaurada e
melhorada, abalada profundamente como está na sua contextura. Quem não vê,
porém, que a questão operária, pela dificuldade e variedade dos problemas que
implica, e pelo vasto número de membros que afeta, é tal e de tão grande
necessidade e importância, que merece mais atento, vigilante e previdente
cuidado? Questão delicada como nenhuma outra; ponto movediço e insidioso,
exposto diante dos olhos da inteligência e do impulso do coração, em face da
doutrina de justiça, de equidade, de amor, de recíproca consideração e convívio,
que a lei de Deus e a voz da Igreja recomendam.

Vós certamente não ignorais que a Igreja voz ama enternecidamente, com ardor
e afeto maternal que não são de hoje, e que com vivo sentido da realidade das
coisas examinou as questões que vos tocam mais de perto, os Nossos
predecessores e Nós mesmo, com repetidas doutrinações, não perdendo ocasião
alguma para fazer compreender a todos as vossas necessidades e exigências
pessoais a familiares, proclamando como postulados fundamentais de concórdia
social aquelas aspirações que vos estão tanto a peito: um salário que assegure a
existência da família e seja tal que torne possível aos pais o cumprimento do
dever natural de criar prole sanamente alimentada e vestida; habitação digna de
pessoa humana; possibilidade de dar aos filhos suficiente instrução e educação
conveniente, de prever e adotar providências para os tempos de escassez,
doença e velhice. Há que levar ao fim destas condições de previdência social, se
se quer que a sociedade não seja abalada de tempos a tempos por turvos
fermentos e convulsões perigosas, mas se pacifique e progrida na harmonia, na
paz e no mútuo amor.

Pois bem, por mais louváveis que sejam as diversas providências e concessões
dos poderes públicos e o sentimento humano e generoso que anima não poucos
patrões, quem poderá assegurar e defender que tais propósitos se realizaram
por toda parte? Em todo caso os trabalhadores e trabalhadoras, conscientes da
sua grande responsabilidade no bem comum, sentem e ponderam o dever de
não agravar o peso das extraordinárias dificuldades que oprimem os povos,
apresentando clamorosamente e com movimentos imprudentes as suas

para uma revolução que proceda da injustiça e da insubordinação civil.pensando só no proveito próprio.reivindicações nesta hora de universais e imperiosas necessidades. Não diferentemente de outros sistemas e organizações sociais. que transforme a consistência social ou se revista de caráter nacional. ordena e constringe a formar um espantoso instrumento de guerra. ele tudo agrupa. A revolução social orgulha-se de levar ao poder a classe operária: vã palavra e mera aparência de realidade impossível! De fato vedes que o povo trabalhador permanece ligado. Não. entre patrões e operários. e sobretudo na prática da religião e até na vida da consciência. esse proveito material nunca chega a compensar dignamente as renúncias impostas a todos e que lesam os direitos da pessoa. nos círculos. não está na revolução a vossa salvação. ao asseverar e propugnar corajosamente os direitos do povo trabalhador. na condição de cidadão. vós os ouvistes já nas praças. que se hajam como resolvidas todas as questões. pioraram e agravaram as condições de vida e de progresso material e moral. e o tornar-se tristemente culpável do sangue dos . exclusivo e material. Esses falsos pastores fazem crer que a salvação deve vir de uma revolução. mas persistam no trabalho e perseverem nele com disciplina e calma. combatendo o erro em várias ocasiões. prestando apoio inestimável à tranquilidade e proveito de todos na vida social. lestes suas promessas em folhas avulsas. que chamam ao mal bem e bem ao mal. no exercício da profissão. e transforma os operários numa gigantesca máquina de trabalho. os mútuos acordos. e que. ouviste-os nos seus cantos e nos seus hinos. guarda e mestra da verdade. subjugado e vinculado à força do capitalismo de Estado. ponderando-a e difundindo-a com clamorosa jactância. o que contudo não deve induzir alguém a pensar. sempre incerto . longe de melhorar. não consentem. que mantém e promovem a concórdia social para o progresso e a utilidade comuns. que pretende combater. A Igreja. que oprime e sujeita a todos. como já o notamos. Nós damos o Nosso elogio a essa pacífica concórdia de ânimos e vos convidamos e exortamos paternalmente a perseverar nela com firmeza e dignidade. nos congressos. entre o capital e o trabalho. mas também os bens e a prosperidade do povo. tanto as famílias como as consciências. Estes amigos do povo. a liberdade na direção da família. que exige não só o sangue e a saúde. E ainda que os dirigentes se vangloriem desta ou daquela vantagem ou melhoria conseguida no campo do trabalho. mas quando é que às suas palavras corresponderam os fatos ou às suas esperanças as realidades? Enganos e desilusões é o que experimentaram e experimentam os indivíduos e povos que lhes deram fé e os seguiram por caminhos que. vangloriando-se de ser amigos do povo. teve de prevenir-nos contra o perigo de nos deixarmos iludir pela miragem de especiosas e vãs teorias e visões de bem-estar futuro e pelas ardilosas seduções e incitamentos de falsos mestres de prosperidade social. e é contrário à genuína e sincera profissão cristã o tender .

menosprezando no conceito da sociedade nacional a nobreza que Deus lhe outorgou. Não pretender que a vida do indivíduo dependa totalmente do arbítrio do Estado. como são as sociedades de seguros e de previdência social. que com o trabalho asseguram a própria vida e a dos seus. depois de provas dolorosas. como meio e apoio para obter e ampliar o verdadeiro bem material de todo o povo. Não é na revolução. mas dos frutos que deles se colhem melhorar também as condições pessoas do operário. unicamente o maior lucro possível. E descobrireis então como. que fazem frutificar a multiforme e necessária produção do solo nacional. pois. na terra em que habita. corajosa e consentânea com a natureza iluminada e guiada pelas santas normas cristãs de justiça e de equidade. de modo que vá diminuindo gradualmente essa massa de povo irrequieto e audaz que. as rivalidades e lutas intestinas se converteriam numa temível ameaça para todos. umas vezes por tétrico desespero. paliativo de grupos particulares para subtrair-se aos sacrifícios indispensáveis ao equilíbrio e à tranquilidade pública. já vedes que a nação acabaria por ser uma ficção sentimental. mas de edificar e consolidar. de destruir. supra. se deixa arrastar por todo vento de falsas doutrinas ou por artes astuciosas de agitadores sem consciência. e especialmente os pais e as mães de família. mas promover a sua difusão como fruto do trabalho consciencioso de todo trabalhador ou trabalhadora. no trabalho de que vive. pode levar à satisfação dos desejos e das necessidades honestas do operário. A violência nunca fez mais que destruir em vez de construir: reacender as paixões em vez de as apaziguar. Ai de quem esquece que uma verdadeira sociedade nacional inclui a justiça social e exige uma equitativa e conveniente participação de todos os bens do país! Porque. para tornar menos árdua e dura a sua fadiga e fortalecer os vínculos da família. Não dispersar o capital particular. e precipitou os homens e os partidos na dura necessidade de reconstruir lentamente. no uso dos progressos técnicos. um pretexto fátuo. mas na evolução harmoniosa que está a salvação e a justiça. fundamento da estabilidade da família. mas procurar a sua harmônica coordenação com o artesanato e a agricultura. Só uma evolução progressiva e prudente. mas antes procurar que o Estado. sobre as ruínas da discórdia. Não coarctar nem preferir exclusivamente a indústria. nada de abolir a propriedade particular. Direis talvez que esta é uma formosa visão da realidade. mas fomentar a sua organização. acumular ódios e ruínas em vez de irmanar os contendores. cujo dever é promover o bem comum por meio de instituições sociais. Nada. de outro modo. mas como se poderá levar à prática e dar-lhe vida no meio do povo? É mister antes de tudo grande probidade na vontade e perfeita lealdade de propósitos e de ação na marcha e no . secunde e complete o que ajuda a fortalecer na sua ação as associações operárias. prudentemente vigiado.compatriotas e da destruição dos bens comuns. outras por cego instinto. Não ter em mira.

possam viver os seus dias em paz com Deus e com os homens. que sua obra representa sempre uma contribuição pessoal? Precisamente aqueles renovadores do mundo. porque sabe que a convivência humana produz sempre e necessariamente toda uma escala de gradações e de diferenças nas qualidades físicas e intelectuais. como o ópio. aquietando-o inteiramente com a esperança de uma vida eterna. desde muito tempo e se continua a afirmar que a religião torna o trabalhador fraco e relaxado na vida cotidiana. e os convida a tomar sobre si o seu jugo.governo da vida pública. . e dispor-se-á ate ao último. numa palavra. mas ao mesmo tempo ela se dispõe. O homem é imagem de Deus uno e trino. porque o seu jugo é suave e o seu peso é leve. Se algum homem no mundo deve convencer-se e impregnar-se sempre mais desta verdade. mas fazem da capacidade produtiva dele um simples objeto. que ela. que reivindicam para si os cuidados dos interesses dos operários quase como um seu monopólio e declaram que seu sistema é o único verdadeiramente "social". nas disposições internas e tendências. o adormenta. diretores e operários. como também no Coração d'Aquele que chama a si todos os que estão fatigados e oprimidos. para encontrar paz e repouso para suas almas. esse homem é o trabalhador. superiores e inferiores. É mister antes de tudo que o espírito de concórdia e fraternidade anime a todos. do qual a "sociedade" dispõe a plena vontade e a inteiro arbítrio. A Igreja diz que a liberdade humana tem os seus limites na lei divina e nos múltiplos deveres que a vida traz consigo. na felicidade do lar e em uma tranquila e honesta condição. e portanto também ele pessoa. que sua capacidade de trabalho não deve ser considerada e tratada como uma "mercadoria". se ela requer para o operário no contrato de trabalho o justo salário. se exige para ele uma eficaz assistência em suas necessidades mentais e espirituais. Afirmou-se já. qual é o motivo disto. senão que o trabalhador é uma pessoa humana. irmão do Homem-Deus Jesus Cristo e com ele e por ele herdeiro de uma vida eterna: eis qual é a sua verdadeira dignidade. nas ocupações e nas responsabilidades. grandes e pequenos. Mas em igual tempo ela assegura a plena igualdade na dignidade humana. 31 de outubro de 1948. na defesa dos seus interesses provados e públicos. A Igreja não promete essa absoluta igualdade que outros proclamam. Manifesto erro! Se a Igreja em sua doutrina social insiste sempre sobre o resguardo devido à íntima dignidade do homem. --- Discurso aos Trabalhadores da Fiat. não tutelam a dignidade pessoal do trabalhador. a fim de que todos. todas as categorias do povo. tanto por parte dos cidadãos como das autoridades.

Não significaria talvez isto um violentar a natureza e não criaria somente novas opressões e divisões na família humana. Antes. Onde Deus não é o princípio e fim. que domina sobre os grandes do mundo. sem elas. proclama a verdade da única perfeita beatitude que nos está preparada no céu. que. no alto e embaixo. Somente esta ideia religiosa do homem pode conduzir a uma única concepção de suas condições de vida. a unidade entre os homens é irrealizável. A Igreja. que está sob a lei do pecado original e de suas consequências e que por isto. estaremos para dizer uma irrisão do homem no meio do mundo. sem esta luz e sem esta graça. que nos espera no termo desta vida terrestre sobre o limiar da eternidade. é imperfeito. sacrificam a dignidade da pessoa humana e a felicidade doméstica aos ídolos de um mal entendido progresso terreno. com as promessas do além. aos quais já mencionamos. Mas exatamente por isto põe os fieis sólida e potentemente sobre o terreno da realidade presente. Todas as medidas puramente terrenas do progresso são uma ilusão. Jesus Cristo. exorta a todos. na economia privada e pública e em toda vida social? Todo legítimo poder sobre os homens não pode ter origem e existência senão do poder d'Aquele. que por sua natureza possui tal onipotência no céu e na terra. . a Igreja repele todos os totalitarismos de Estado. o qual no ama e nos redimiu do pecado com o seu sangue. sem limites de tempo e de espaço. bem como não debilita. a usar conscienciosamente os dons recebidos de Deus. enquanto fazem brilhar aos olhos do povo a miragem de um futuro de quiméricas prosperidades e de inatingíveis riquezas com a superstição da técnica e da organização. onde a ordem de sua criação não é para todos guia e medida da liberdade e da ação. ao qual seja dada gloria e império pelos séculos. experimentada educadora da humana família e fiel à missão que lhe foi confiada pelo seu divino Fundador. Pois que o Juiz supremo. não podem constituir o fundamento da unidade das classes trabalhadoras sobre base de uma afirmada uniformidade de interesses. a justa defesa dos direitos dos trabalhadores sobre a terra. Tal é a única medida de todo verdadeiro progresso para Deus e na semelhança com Ele. de injustiça e de egoísmo. evitar todas as injustiças e tirar proveito de toda ocasião para obras de amor e de bem. embora também com as luzes e a graça divina. cairia em um abismo de miséria. para tutelar a liberdade e a dignidade humana.Deste modo. tomadas em si mesmas. em um momento no qual todo trabalhador honesto aspira a uma ordem justa e pacífica. e não para favorecer os interesses particulares deste ou daquele grupo. são aqueles reformadores do mundo. As condições materiais da vida e do trabalho.

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