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BOLETIM MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL / N.º61 / ABRIL 2013 / ISSN
BOLETIM MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL / N.º61 / ABRIL 2013 / ISSN
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BOLETIM MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL / N.º61 / ABRIL 2013 / ISSN 1646 –9542

PROTECÇÃO CIVIL / N.º61 / ABRIL 2013 / ISSN 1646 –9542 Incêndios Florestais Dispositivo de combate

Incêndios Florestais

Dispositivo de combate ajusta-se às características do país

61

Abril de 2013

Distribuição gratuita Para receber o boletim PROCIV em formato digital inscreva-se em:

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©Pedro Santos

Incêndios florestais: ajustar os recursos às características do país

O Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) para o corrente ano foi aprovado pela Comissão Nacional de Protecção Civil no passado dia 14 de março, e nesse mes- mo dia apresentado à comunicação social. Preparado ao longo dos últimos meses, visa garantir uma resposta operacional perma- nente e adequada às características e condições de um país que tem sofrido profundas alte- rações no que respeita à ocupação do solo, caracterizado por um acelerado despovoamento do interior e envelhecimento da população rural, ao que corresponde um maior abandono dos terrenos agrícolas, cada vez mais substituídos por matos e pastagens com elevada carga combustível. Estas condições favorecem o desenvolvimento de incêndios florestais e obrigam a uma contínua evolução e adaptação dos recursos humanos e técnicos do país, que – relembro – nunca serão suficientes para acudir a todas as situações. De entre as inovações introduzidas este ano, destaco os Grupos de Reforço de Ataque Am- pliado (GRUATA), que surgem no seguimento da necessidade identificada de constituir um dispositivo permanente para intervenção estruturada em ataque ampliado; o recurso in- tensivo a máquinas de rasto, unanimemente consideradas como recurso insubstituível no combate a grandes incêndios florestais; a instalação de um sistema de videovigilância por espectrometria ótica no Parque Nacional da Peneda-Gerês; o emprego de reclusos para ações de vigilância, ao abrigo de um projeto conjunto com a Direção-Geral dos Serviços Prisionais do Ministério da Justiça; ou ainda o recurso a aviões C-295 da Força Aérea Portuguesa, para efeitos de comando e controlo. Mas porque o combate se faz essencialmente por mulheres e homens, no terreno, estas e outras iniciativas inovadoras serão complementadas por importantes e justos incrementos no financiamento dos bombeiros que irão integrar o Dispositivo, e ainda na comparticipação do combustível consumido pelos Corpos de Bombeiros. Durante o passado mês de março participei em diversas ações, em todo o país, algumas das quais organizadas por estudantes de cursos de proteção civil e áreas afins. Nestas ocasiões, pude testemunhar a energia que as camadas jovens colocam na sua aprendizagem, na promo- ção do conhecimento, e na divulgação junto da sociedade deste fascinante domínio da pro- teção e socorro. Ninguém ignora que o país enfrenta uma crise económica sem precedentes, que a todos preocupa, e cujos efeitos incidem com maior intensidade sobre aqueles que estão prestes a iniciar a sua vida activa. A despeito dos obstáculos económicos e sociais que todos vivemos, as novas gerações constituem de um factor de esperança para um futuro melhor.

EDITORIAL

de um factor de esperança para um futuro melhor. EDITORIAL Manuel Mateus Couto Presidente da ANPC

Manuel Mateus Couto Presidente da ANPC

"estas e outras inicia- tivas inovadoras serão complementadas por im- portantes e justos incre- mentos no financiamen- to dos bombeiros que irão integrar o Dispositivo."

PUBLICAÇÃO MENSALto dos bombeiros que irão integrar o Dispositivo." Edição e propriedade – Autoridade Nacional de

Edição e propriedade – Autoridade Nacional de Protecção Civil

Redação e paginação – Núcleo de Sensibilização, Comunicação e Protocolo

Fotos: Arquivo da Autoridade Nacional de Protecção Civil, exceto quando assinalado

Impressão – Textype

Diretor – Manuel Mateus Couto

Tiragem – 2000 exemplares

ISSN – 1646–9542

Projecto co-financiado por:

exemplares ISSN – 1646–9542 Projecto co-financiado por: Os artigos assinados traduzem a opinião dos seus autores.

Os artigos assinados traduzem a opinião dos seus autores. Os artigos publicados poderão ser transcritos com identificação da fonte.

Autoridade Nacional de Protecção Civil

Telefone: 214 247 100

Pessoa Coletiva n.º 600 082 490

www.prociv.pt

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P.2 . PROCIV

Número 61, abril de 2013

Av. do Forte em Carnaxide / 2794–112 Carnaxide

BREVES

Municipios de Aveiro e Mirandela participam em projeto interna- cional sobre mitigação de riscos

O projeto MiSRaR – Mitigação de

Riscos Espaciais Relevantes nas

Regiões e Cidades Europeias – que decorreu entre 2010 e 2013, teve como propósito promover a cooperação

e o intercâmbio entre várias regiões

da Europa no tema da prevenção de

riscos, abordando as temáticas de identificação, análise e avaliação de riscos e implementação de medidas de mitigação e monitorização. Com envolvimento nacional asse- gurado pelos municípios de Aveiro

nacional asse- gurado pelos municípios de Aveiro e Mirandela, o projecto foi desenvolvi- do ao abrigo

e Mirandela, o projecto foi desenvolvi-

do ao abrigo do programa INTERREG

IVC, tendo participado igualmente

a Holanda (Região South-Holland

South), a Bulgária (Fundação Euro Perspective), a Estónia (Município de

Tallinn), a Itália (Província Forlì Cese- na) e a Grécia (Região Epirus). Como resultado deste projecto foi de- senvolvido um Manual de Mitigação

de Riscos, cuja aplicação será testada

no PRISMA, projecto co-financiado pelo Departamento de Ajuda Huma- nitária e Proteção Civil da Comissão

Europeia, cujo objectivo é o de promo- ver a utilização da avaliação de risco

e estratégias de gestão de risco por en- tidades locais e regionais. Informações adicionais poderão ser obtidas em www.prismaproject.eu.

Planos de emergência internos das barragens de Santa Luzia e de Alto do Ceira II

Realizaram-se, no passado dia 12 de março, em Fajão e Pampilhosa da Ser- ra, distrito de Coimbra, duas sessões de apresentação dos planos de emer- gência internos (PEI) das barragens de

Santa Luzia e de Alto do Ceira II. Os en- contros contaram com a participação de diversos autarcas, técnicos da EDP, APA (Agência Portuguesa do Ambien- te) e, naquela que foi uma ação inédita de comunicação sobre segurança de barragens e medidas de proteção. Estas sessões visaram familiari-

e medidas de proteção. Estas sessões visaram familiari- zar os responsáveis políticos locais com as opções

zar os responsáveis políticos locais com as opções preconizadas pelos técnicos daquela empresa para os pla-

nos de emergência em questão, estan- do prevista a continuação do diálogo com as «forças vivas» locais, no senti- do de melhorar aqueles documentos essenciais. Com a aprovação destes planos de emergência, a população potencial-

mente afetada por um incidente ou acidente numa destas duas barragens – cuja probabilidade de ocorrência

é ínfima dado o cumprimento estrito

dos normativos em sede de projeto, construção e operação de qualquer

destes empreendimentos hidráulicos

– passará a dispor de um maior nível

de proteção, quer quanto à sua vida

e integridade física quer em relação aos seus bens e haveres.

Força Especial Bombeiros aposta na melhoria da qualificação dos Operacionais

A Força Especial de Bombeiros “Ca- narinhos” (FEB), força especial de proteção civil dotada de estrutura e comando próprio e inserida no dispo- sitivo operacional da ANPC, foi criada ao abrigo do diploma que define o re- gime jurídico aplicável à constituição, organização, funcionamento e ex- tinção dos corpos de bombeiros, no território continental. Desde a sua criação, esta Força Espe- cial tem vindo a apostar no treino ope- racional dos seus próprios elementos

apostar no treino ope- racional dos seus próprios elementos e também no dos demais agentes de

e também no dos demais agentes de

proteção Civil. Para o corrente ano, esta atividade for- mativa integra um programa de trei- no que prevê a realização de 71 ações, num total de 1359 horas, visando um universo de aproximadamente 1200 elementos. Este investimento, susten- tado num diagnóstico de necessidades efetuado a partir das lições apreendi- das no ano anterior, assume objetivos claros na ampliação e aperfeiçoamen-

to das competências dos operacio-

nais que concorrem para a proteção

e socorro de pessoas e bens e na salva- guarda do ambiente.

PROCIV . P.3

Número 61, abril de 2013

TEMA

Incêndios Florestais

'DECIF 2013' ajusta-se às características do país

Os incêndios florestais propiciam condições para o surgimento de situações difíceis, normalmente potenciadas por condições meteorológicas de muito curta previsão. Podendo originar perdas de vidas humanas e bens, exigem por isso a preparação e organização de um Dispositivo Especial de Combate adequado para os enfrentar.

Dispositivo Especial de Combate adequado para os enfrentar. P.4 . PROCIV Número 61, abril de 2013

P.4 . PROCIV

Número 61, abril de 2013

D e acordo com a informação preliminar do 6º Inventário Florestal Nacional (IFN), os espaços sil- vestres, floresta e matos sofreram um acréscimo

face ao anterior apuramento, representando neste momen-

to, em termos de uso do solo, 67% do território continental

(cerca de 6,0 milhões de hectares). Constata-se assim uma

diminuição da área ocupada por floresta (4,6%) que se deve sobretudo à sua conversão para a classe de usos “matos e pastagens”. Também como conclusão preliminar deste in- ventário, verifica-se uma redução do uso agrícola do solo, que se deve essencialmente à conversão do uso para matos

e pastagens, resultantes do abandono da produção

agrícola. Os apuramentos acima enunciados, associados à diversi-

dade do país a nível geográfico, climático, social, cultural e infra-estrutural, ao despovoamento do interior e ao en- velhecimento da população rural, às alterações relativas ao aproveitamento e exploração da floresta, às alterações cli- máticas e à acumulação de elevada carga de combustível, reúnem condições cada vez mais favoráveis ao desenvolvi- mento de incêndios florestais complexos e violentos. Ainda de acordo com os resultados preliminares daque-

le Inventário, a ocupação dos espaços florestais nacionais

continua a manter-se centrada em três espécies florestais, sendo que o eucalipto é neste momento a principal ocu- pação florestal do continente (26% ou 812 mil hectares), seguido do sobreiro com (23% ou 737 mil hectares), ultra- passando ambas as espécies a ocupação com pinheiro- bravo (23% ou 714 mil hectares) que até aqui era a espécie

com maior representação. Com base neste apuramento, constata-se que a principal alteração da ocupação florestal

se verifica ao nível do pinheiro-bravo, que apresenta uma

diminuição de 13% entre 1995 e 2010, sendo que a maior

parte desta área (62%) se transformou em matos e pasta- gens, ao passo que a área total de eucalipto aumentou 13%, no mesmo período. Há ainda a destacar o aumento das áre- as de pinheiro-manso (46% em área total) e de castanheiro (27% em área total). Na prossecução dos grandes objectivos estratégicos do Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PNDFCI), foram estabelecidas metas cuja concretização passa pelo empenho de todas as entidades com responsabi- lidades no Sistema de Defesa da Floresta Contra Incêndios (SDFCI) e que visam globalmente, para o horizonte tem- poral de 2012 e de 2018, a redução da superfície percor-

©Tiago Petinga / Lusa rida por incêndios florestais, para valores equiparáveisà média dos países da
©Tiago Petinga / Lusa
rida por incêndios florestais, para valores equiparáveisà
média dos países da bacia mediterrânica.
O período de maior probabilidade de ocorrência de in-
cêndios florestais continua a centrar-se entre os meses de
Julho e Setembro. No entanto, mesmo nos períodos pre-
visíveis de menor perigo de incêndio, são cada vez mais
recorrentes situações especiais, provenientes de condi-
ções meteorológicas adversas ou de outras circunstâncias
agravantes do perigo.

O Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) preparado para o corrente ano, visa assim garan- tir uma resposta operacional permanente e adequada às características e condições acima elencadas, em confor- midade com os graus de gravidade e probabilidade de ocorrência de incêndios durante os meses mais críticos. As principais alterações introduzidas este ano são as se- guintes:

> Grupos de Reforço de Ataque Ampliado (GRUATA)

A constituição destes Grupos surge no seguimento da ne-

cessidade identificada de constituir um dispositivo perma- nente para intervenção estruturada em ataque ampliado

a incêndios florestais. As suas capacidades modulares de

comando e intervenção, associadas a conjunto de premis- sas, nas áreas da formação, características dos equipamen- tos, autonomia e capacidade de reação, serão condições exigidas para a garantia de uma qualquer intervenção de alto nível em ataque ampliado.

> Planeamento estratégico com vista à eficaz utiliza- ção de máquinas de rasto

A utilização de máquinas de rastos no apoio às ações

de combate a incêndios florestais tem sido referencia-

TEMA

do, nos diversos documentos sobre a temática dos in- cêndios florestais, como uma das ferramentas de gran- de capacidade e utilidade na criação ou ampliação de faixas de contenção e no contributo que podem prestar na consolidação do perímetro dos incêndios e nas ações de rescaldo capacitando ainda o acesso a outro tipo de equipamentos de combate e/ou apoio. Se a utilização des- tes recursos tem vindo a sofrer um incremento no com-

bate a incêndios florestais, esta utilização tem sido, em muitas situações, desligada da estratégia de combate. Assim, tem sido realizadas ações de formação e treino operacional na utilização destes equipamentos no âmbi-

em ataque inicial, em função das características de cada ignição, sua localização, intensidade, combustível afetado

e

nível de acessibilidade, garantindo uma resposta pronta

adequada a cada situação. No caso de um alarme, o sistema fornece informações adicionais, tais como a localização do fogo, fotografia da deteção e dados meteorológicos, reúne reconhecidas vanta- gens na relação custo/benefício, possibilitando uma dimi- nuição considerável do tempo de reação de combate ao in- cêndio. Trata-se de um sistema com a capacidade única de reconhecer fumo orgânico, através de uma análise química da atmosfera por espectrometria ótica distinguindo-o de outras fontes de fumo (por exemplo o proveniente de in- dústrias) e de decidir, de forma completamente autónoma, até uma distância de 15 km, se há motivo para enviar um alerta de incêndio. O sistema contém um sensor ótico re- moto de grande alcance e uma câmara óptica de elevada re- solução. Esta unidade realiza um varrimento horizontal de 360º e vertical de pelo -45º até 90º. Inclui também sensores atmosféricos que monitorizam as condições atmosféricas do local (temperatura, humidade, direção e velocidade do vento, e pluviosidade).

e

to

do combate a incêndios florestais, nomeadamente nos

procedimentos de segurança das equipas de bombeiros que acompanham o trabalho destas máquinas e a sua in- tegração no plano estratégico de acção a desenvolver pelo comandante das operações de socorro, criando-se em si- multâneo um processo uniforme de accionamento destes meios.

>

Mobilização de aviões C-295 da Força Aérea

O

avião C-295M apresenta-se como um precioso meio de

 

avaliação de comando e controlo, tendo já sido testado em acções operacionais. Este avião integra a mais recente tecnologia existente no mundo aeronáutico e a sua capa- cidade de operar em teatros de operações está sustentada em equipamentos de comunicações “seguras”, agilidade de frequência V/UHF, permitindo um acompanhamento em tempo real das operações, nomeadamente dos incêndios florestais, pelo que a sua utilização se enquadra num supe- rior interesse de sistema de apoio à decisão operacional em teatros de operações de alguma dimensão.

>

Integração de reclusos em ações de vigilância

Estima-se que o projeto esteja instalado no início do cor- rente mês.

> Alterações às Circulares Financeiras

A

par das inovações técnicas e organizacionais atrás referi-

das, serão introduzidas importantes alterações à compen- sação financeira dos elementos que irão integrar o Dispo- sitivo, que passa de 41 para 45 euros, para bombeiros, e de 57,50 para 60 euros, para Comandantes de Permanência às Operações. Haverá, ainda, um acréscimo da comparticipação por litro de combustível gasto pelos Corpos de Bombeiros, passando de 0,80 para 1,20 euros e de 1,05 para 1,37 euros, consoante se trate de gasóleo ou gasolina.

No campo da atuação em incêndios florestais, o objetivo deste programa, que mereceu desde o primeiro momen-

to o apoio da ANPC, é formar equipas, partindo de uma disponibilidade de cerca de
to
o apoio da ANPC, é formar equipas, partindo de uma
disponibilidade de cerca de 900 elementos, devidamente
custodiadas para as ações de prevenção e pós-incêndio, in-
tegradas nos serviços municipais de proteção civil, e que
no quadro dos planos operacionais municipais, se envol-
vam nas diferentes ações de apoio, prevenção, rescaldo e
vigilância pós-rescaldo enquadrados no âmbito do 1º e 2º
pilares da defesa de floresta contra incêndios.
>
Instalação de um sistema de apoio à decisão e moni-
torização dos incêndios florestais no Parque Nacio-
nal da Peneda-Gerês.
Considerando a orografia do terreno bastante acidentada
associada a uma reduzida ocupação humana e dificulda-
de
de circulação em algumas áreas deste Parque Nacional,
o recurso a este sistema permitirá avaliar a sua capacida-
de
de deteção, análise e apoio à decisão de focos nascentes
de incêndios florestais, permitindo adequar a resposta,
seuqraM.M©

©Pedro Santos

PROCIV . P.5

Número 61, abril de 2013

OPINIÃO

Catástrofes Naturais

Atos de Deus ou omissões humanas?

seuqraM.M©

Infelizmente, a atitude preventiva essencial a minimizar as perdas – patrimoniais e humanas – decorrentes de um desas-

tre natural, não constitui uma postura sócio-cultural dos povos latinos, lacuna que se tem revelado trágica em episódios

recentes, como as derrocadas na Madeira, em fevereiro de 2010, ou o deslizamento ocorrido nos Açores, na localidade de Faial da Terra, na ilha de São Miguel, no passado mês de março.

©Tiago Petinga/Lusa

P.6 . PROCIV

Número 61, abril de 2013

© R. Santos
© R. Santos

P ortugal detém uma posição paradigmática na te- mática das catástrofes naturais. O terramoto, se- guido de maremoto, que destruiu Lisboa em 1755

é considerado por muitos o primeiro desastre moderno.

A célebre frase do Marquês de Pombal "Socorram os

vivos e enterrem os mortos" pode servir de mote a um momento que todas as catástrofes desencadeiam recuperação, mas a tragédia de Lisboa marca sobre- tudo uma nova atitude na conceção das cidades e no aumento da segurança de técnicas de construção: au-

mento de distância entre prédios e flexibilização das estruturas através do modelo da "gaiola pombalina". As catástrofes naturais, sobretudo no

contexto que atravessamos, de drásticas alterações climáticas com pluviosidade mais intensa e concentrada, seca mais prolongada, furacões mais devastadores

e avalanches mais frequentes, requerem

uma redobrada atenção aos sinais indi-

ciários. Um desastre natural dificilmente se evita mas os seus efeitos devastadores podem ser mitigados, com ade- quadas e atempadas medidas preventivas. Das Estratégias

- Planeamento territorial (zoneamento; sinalização; fisca- lização);

- Sistemas de alerta precoce;

- Formação de profissionais e voluntários;

- Informação ao público;

- Incremento da qualidade de construção;

- Implementação de estruturas institucionais de resposta

pronta, nacionais e internacionais;

- Criação de fundos de assistência à reação e recuperação. Estas diretrizes têm vindo a ser assimiladas pelos legis-

ladores nacionais, muito particularmente na dimensão do planeamento. Por exemplo, em Portugal, o Decreto- Lei 115/2010, de 22 de outubro, que es-

tabelece um quadro para a avaliação e gestão dos riscos de inundações, com o objetivo de reduzir as suas conse- quências prejudiciais transpondo a Diretiva 2007/60/CE do Parlamento

Europeu e do Conselho, de 23 de outu- bro, tem como instrumentos principais as cartas de risco de inundações e os planos de gestão do risco de inundação. A plena implementação destes instrumentos enfrenta, no entanto, dois importantes obstáculos: por um lado, a resistência das pessoas em deslocar-se de locais aos quais se sentem emocional e patrimonialmente ligadas; por ou- tro, a força da inércia das autoridades, sobretudo locais, que inibe a execução destes instrumentos e/ou a adequada fiscalização do seu cumprimentos, tanto por razões socio-

o ponto de vista jurídico, porventura a questão mais relevante é a de saber onde acaba a inevitabilidade e começa a omissão, nomeadamente por violação de deveres de prevenção.

de

Yokohama (1994) e de Hyogo (2005), dois documentos

de

síntese que resultaram de duas conferências mundiais

promovidas pela ONU sobre a temática da prevenção de catástrofes naturais, decorre um conjunto de linhas ope- rativas de prevenção, das quais destacaríamos as seguin- tes:

TEMA

OPINIÃO

lógicas, como financeiras. Já do ponto de vista humano,

as catástrofes naturais convocam problemas assistenciais

magnos (cuidados de emergência e assistência pós-trau- mática; alojamento e alimentação aos desalojados; recons-

trução). Do ponto de vista financeiro, avultam os custos da mitigação e reparação, tendo em consideração a extensão

e gravidade dos danos (o custo de recuperação dos danos

provocados pelas enxurradas na Madeira foi na ordem dos

mil milhões de euros). Enfim, do ponto de vista jurídico, porventura a questão mais relevante é a de saber onde aca-

ba a inevitabilidade e começa a omissão, nomeadamente

por violação de deveres de prevenção. Situações como as

das enxurradas da ilha da Madeira, ou de Angra dos Reis,

no estado do Rio de Janeiro, em 2011, são atos de Deus ou

omissões do Homem? O planeamento territorial configura a técnica mais ade-

quada a fazer face a uma atitude sistemática e eficaz de pre- venção de risco de desastre natural, no sentido de mapear zonas de risco, instalar sistemas de contenção para mini- mizar danos onde eles possam ser implementados, de colo- car em funcionamento tecnologias de alerta precoce para proporcionar evacuações rápidas ou mesmo de relocalizar habitações ou conjuntos populacionais se o risco for alto

no índice de ocorrência e intenso nos efeitos prejudiciais.

A elaboração destes planos/cartas/mapas deve envolver

quer os técnicos da proteção civil, quer as populações a

vertente da comunicação do risco é essencial para enraizar

a cultura de prevenção. A aprovação do plano de risco cons- titui, todavia, apenas um primeiro passo disciplinador:

a sua implementação requer uma vitalização constante

através de ações comunicacionais, formativas e informati-

através de ações comunicacionais, formativas e informati- ©Tiago Petinga/Lusa fundamento em omissão ilícita.

©Tiago Petinga/Lusa

fundamento em omissão ilícita. Prevenir o risco de catástrofe natural é uma tarefa pú- blica, mas é também uma tarefa coletiva, partilhada, de consciencialização da comunidade para eventos extremos e suas consequências lesivas. Em face da emergência climática que vivemos, não há tempo para hesitações, nem para pensar que as tragédias só acontecem aos outros. Os riscos são reais e cumpre, se não evitá-los, antecipá-los e reduzi-los ao mínimo tecnicamente possível .

Carla Amado Gomes Professora Auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Professora Convidada da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa carlamadogomes@fd.ul.pt

vas dos sujeitos afetados, no sentido de uma conscienciali- zação objetiva dos riscos e da melhor reação perante a sua

eventual eclosão. Todos estes fatores devem ser tidos em consideração mormente no plano antecipatório. No entanto, o controlo

 

A temática das catástrofes naturais e sua prevenção cons- titui o objeto do livro Direito(s) das Catástrofes Naturais, (Al- medina, 2012), que reúne textos de especialistas em várias áreas do Direito em que a ocorrência de desastres naturais interfere. O lançamento do livro foi assinalado com a rea- lização de uma conferência subordinada ao tema Catástro- fes Naturais: uma realidade multidimensional, que teve lugar na Faculdade de Direto da Universidade de Lisboa, a 20 de outubro de 2012, e cujas atas se encontram publicadas no sítio do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da FDUL www.icjp.pt/publicacoes.

atas se encontram publicadas no sítio do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da FDUL www.icjp.pt/publicacoes.

da

sua verificação é determinante em caso de ocorrência

de

danos, para diferenciar entre um facto irresistível ou

mitigável, entre um dano inevitável ou antecipável. Assi- nalam-se dois exemplos práticos e reais desta abordagem.

O

primeiro, uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos

do

Homem, no caso Boudaieva contra a Rússia (2008), que

determinou uma condenação do Estado russo por omissão

de

medidas de prevenção (de contingência; de alerta) de

uma enxurrada em que faleceram vários membros de uma família. O segundo, mais próximo (e também mais discu-

tível), uma decisão do Tribunal Central Administrativo – Sul (2011), que condenou a Região Autónoma da Madeira

a

indemnizar um automobilista pelos danos sofridos no

seu veículo na sequência da queda de pedras numa zona

de

deslizamentos, por omissão de medidas de vigilância.

Aqui não estamos seguramente perante uma “catástrofe natural”, mas o Tribunal sublinha a necessidade de ado- ção de uma atitude de prevenção do risco pelas autorida- des públicas em zonas em que tal risco se encontra perfei- tamente caracterizado, sob pena de, a ocorrerem danos, ser considerado responsável pelo seu ressarcimento com

PROCIV . P.7

Número 61, abril de 2013

AGENDA

6 de abril, Vila Verde, Braga

17

e 18 de abril, Aljustrel, Beja

Seminário “Matérias Perigosas – Um Mundo” Promovido pelos Bombeiros Volun- tários de Vila Verde e pelo núcleo local da Juvebombeiro, o encontro

Feira das Profissões Esta iniciativa pretende oferecer aos jovens da região um certame com uma oferta variada de opções para o

futuro, tanto a nível académico como

21 a 24 de abril, Sintra Exercício Tritão

À semelhança de anos anteriores, a Câmara Municipal de Sintra promove este exercício em torno de dois eixos fundamentais: um relacionado com

pretende contribuir para o conheci-

profissional. A ANPC estará presente

a

preparação das estruturas munici-

mento sobre as matérias perigosas

pais para o risco de incêndio (LIVEX)

com temas pertinentes no intuito

com um stand, onde divulgará a sua atividade.

e

outro, no âmbito do risco sísmico

de melhorar a atuação nesta área de

e

envolvendo o Plano Municipal de

intervenção dos Bombeiros partici-

Emergência (CPX). Na iniciativa, para

pantes.

19

de abril ,Lisboa

Inscrições e informações através do site: w w w.bv-vilaverde.org

1º Fórum da Plataforma Nacional para a Redução de Catástrofes Organizado pela ANPC, este Fórum,

além da estrutura municipal estarão também mobilizados os agentes de proteção civil, instituições de saúde

de ensino, segurança social, organi- zações e empresas do concelho.

e

10 a 12 de abril, Maputo, Moçambique Fórum de Ministros de Adminis-

que contará com a participação da Representante Especial do Secretá-

rio-Geral das Nações Unidas para

 

tração Interna da CPLP

3

a 5 de maio, Albergaria-a-Velha,

O Fórum dos Ministros da Adminis-

a Redução de Catástrofes, Margareta Wallström, terá lugar em Lisboa, no

Aveiro

8ª edição da Expoflorestal

Sendo já a maior feira florestal nacio-

tração Interna da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa realiza- se, este ano, na capital moçambicana, sucedendo a Luanda, que acolheu o evento em novembro de 2011. O encontro será precedido, por reuniões setoriais e por uma sessão plenária dos chefes das várias estruturas policiais.

auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian. Visando a partilha de experiências com responsáveis autárquicos – a quem se dirige em primeiro lugar o encontro – com vista ao reforço da re- siliência a nível local, serão, no final deste Fórum, atribuídos certificados de "cidades resilientes" às autar-

nal e referência no setor, perspetiva- se neste certame a presença de 30.000 visitantes e mais de 200 expositores institucionais, empresariais, organi- zações do setor florestal e do ambien- te, escolas, corporações de bombei- ros, entre outras. Inscrições para expositores até ao dia

quias de Lisboa, Amadora, Funchal e Cascais.

5

de abril.

entre outras. Inscrições para expositores até ao dia quias de Lisboa, Amadora, Funchal e Cascais. 5