Você está na página 1de 41

cOMPONENtE cU rrIcULar: artE

ENSINO MÉDIO • VOLUME úNIcO

SOLaNgE UtUarI DaNIELa LIbâNEO FábIO SarDO Pa S c O a L F E rrar
SOLaNgE UtUarI
DaNIELa LIbâNEO
FábIO SarDO
Pa S c O a L F E rrar I
manual do professor
MÉDIO • VOLUME úNIcO SOLaNgE UtUarI DaNIELa LIbâNEO FábIO SarDO Pa S c O a L

manual do professor

cOMpONENtE cUrrIcULar: artE

ENSINO MÉDIO • VOLUME úNIcO

1.ª edição São Paulo – 2013

MÉDIO • VOLUME úNIcO 1.ª edição São Paulo – 2013 SOLaNgE DOS SaNtOS UtUarI FErrarI Mestre
MÉDIO • VOLUME úNIcO 1.ª edição São Paulo – 2013 SOLaNgE DOS SaNtOS UtUarI FErrarI Mestre

SOLaNgE DOS SaNtOS UtUarI FErrarI

Mestre em Artes (área: Artes visuais) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Licenciada em Educação Artística pela Universidade de Mogi das Cruzes. Especialização em Antropologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Especialização em Arte Educação pela Universidade de São Paulo. Artista plástica e ilustradora, formadora de educadores em Arte, assessora de projetos educativos e culturais, autora de materiais didáticos e de livros para formação em diversos níveis.

DaNIELa LEONarDI LIbâNEO

Mestre em Artes pela Universidade Estadual de Campinas. Licenciada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade de São Paulo. Bailarina e professora de dança por 17 anos, professora universitária, gerente acadêmica, pesquisadora institucional e consultora educacional.

FábIO SarDO

Mestre em Artes (área: Processo de Criação Musical) pela Universidade de São Paulo. Bacharel em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado. Professor de música em escolas particulares de São Paulo e elaborador de projetos para a rede pública paulista voltados a CEUs, ONGs e fundações. Violonista, instrumentista, arranjador e interventor musical em ambientes corporativos.

paScOaL FErNaNDO FErrarI

Mestre em Ciências (área de concentração: ensino de Ciências) pela Universidade Cruzeiro do Sul. Especialização em Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Licenciado em Pedagogia pela Universidade Camilo Castelo Branco. Licenciado em Psicologia pela Universidade Braz Cubas. Professor universitário, ator, diretor de teatro, consultor em projetos culturais em Artes Cênicas e autor de materiais didáticos para cursos de formação de professores em ambientes virtuais.

POR TODA PARTE Copyright © Solange dos Santos Utuari Ferrari, Daniela Leonardi Libâneo, Fábio Sardo e Pascoal Fernando Ferrari, 2013 Todos os direitos reservados à

EDITORA FTD S.A. Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 — Bela Vista — São Paulo — SP CEP 01326-010 Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 — CEP da Caixa Postal 01390-970 Internet: www.ftd.com.br E-mail: ensino.medio@ftd.com.br

Diretora editorial Silmara Sapiense Vespasiano Editora Juliane Matsubara Barroso Editora adjunta Angela C. Di Cesare M. Marques Editora assistente Roberta Vaiano Assistentes de produção Ana Paula Iazzetto Lilia Pires Assistente editorial Gislene Aparecida Benedito Supervisora de preparação e revisão de textos Sandra Lia Farah Preparador José Alessandre S. Neto Revisores Carina de Luca Daniella Haidar Pacifico Desirée Araújo S. Aguiar Francisca M. Lourenço Giseli Aparecida Gobbo Júlia Siqueira e Mello Juliana Cristine Folli Simões Juliana Rochetto Costa Lilian Vismari Carvalho Maiara Andréa Alves Pedro Henrique Fandi

Coordenador de produção editorial Caio Leandro Rios Editora de arte Tania Ferreira de Abreu Projeto gráfico e capa Tania Ferreira de Abreu Fotos de capa Digital Vision/Getty Images Photodisc/Getty Images

Iconografia

Supervisora

Célia Rosa

Pesquisadora

Cristina Mota

Editoração eletrônica Diagramação Sonia Maria Alencar Tratamento de imagens Eziquiel Racheti Vânia Aparecida Maia de Oliveira

Gerente executivo do parque gráfico Reginaldo Soares Damasceno

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ferrari, Solange do Santos Utuari

Por toda parte : volume único / Solange dos Santos

Utuari Ferrari

Outros autores : Daniela Leonardi Libâneo, Fábio Sardo, Pascoal Fernando Ferrari “Componente curricular: Arte.”

[et al.]. – 1. ed. – São Paulo : FTD, 2013.

ISBN 978-85-322-8585-0 (aluno) ISBN 978-85-322-8586-7 (professor)

1. Arte (Ensino médio) I. Libâneo, Daniela Leonardi. II. Sardo, Fábio. III. Ferrari, Pascoal Fernando.

13-04026

CDD-700

Índice para catálogo sistemático:

1. Arte : Ensino médio

700

Direção: Márcia Polacchini. 2013. Foto: Márcia PolacchiniJefferson

Cena da peça teatral A Dama Mijona.

FernandesOlafur

Eliasson. 2011/2012. SESC Pompeia. Foto: Rita DemarchiFoto:

Agnaldo Passos/Acervo do projeto Bailarina Projétil

Agnaldo Passos/Acervo do projeto Bailarina Projétil De cima para baixo: grupo Arte em Cena em apresentação

De cima para baixo: grupo Arte em Cena em apresentação da peça A Dama Mijona, de José Martinez e direção de Márcia Polacchini, no teatro E. E. Plínio Barreto, em 2013; apresentação do Grupo Experimental de Música (GEM), no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, SP, em 2011; exposição Seu corpo da obra, de Olafur Eliasson, no Sesc Pompeia, em São Paulo, SP, em 2011-2012; performance da bailarina Deise Gabrielle, do projeto Bailarina Projétil, em Ferrovia, Salvador, BA, em 2013.

A p re sent A ção

Sons, cores e gestos inventam a arte.

Podemos estar em um show de música, ouvindo instrumentos feitos com os mais inusitados materiais, andar por uma instalação cheia de cores e formas, assistir a uma peça de teatro, interpretá-la na escola ou simplesmente estar em um terminal de ônibus, em uma estação ferroviária, no metrô, e depararmos com uma bailarina que de repente começa a dançar

A arte é assim: pode estar aqui, ali, acolá, é preciso

estar atento para perceber as muitas linguagens que nos

convidam a pensar, sentir e criar.

Estudar arte é conhecer diferentes linguagens e compreender como construímos conhecimento por meio de sons, gestos, movimentos e imagens. No estudo de Arte aprendemos a entender a natureza estética e criativa da humanidade em diversos tempos e lugares, a reconhecer as várias maneiras de expressar pensamentos, ideologias, crenças, estilos, formas, sonhos

A arte proporciona uma reflexão sensível, necessária

para a compreensão de como reagimos diante de acontecimentos da vida e de como nos expressamos.

O estudo e a criação da arte englobam muitas razões

e emoções. Mergulhar no universo de artistas, de obras,

de processos de criação e de linguagens da arte pode ser instigante, incômodo, prazeroso e desafiador. Essa aventura vale a pena!

Convidamos você, então, para uma conversa sobre arte. Vamos?

Os autores

SUMÁRIO

Capítulo 1

O que é arte?

8

Tema 1 O sentido das coisas

10

Detalhes da arte de O Teatro Mágico

Giro de ideias: O que é arte?

12

11

Projeto experimental de Arte: linguagens artísticas

13

Conexões: Arte e Tecnologias – mergulhos virtuais

14

Tema 2 O que é arte?

15

Detalhes da arte de Paulo Bruscky

16

Tema 3 Procurando pela arte

17

Tema 4 A arte sempre foi arte?

19

Conexões: Arte e Filosofia – estética e poética

21

Tema 5 Renascem ideias

21

Detalhes da arte de Duchamp

25

 

Detalhes da arte de Nelson Leirner

25

Giro de ideias: linguagens contemporâneas

26

Projeto experimental de Arte: linguagens artísticas

26

Projeto experimental de Arte: música

27

27

 

Projeto experimental de Arte: dança

Conexões: Arte e História – ideia e opinião

28

Tema 6 Se a arte está perto, tudo pode ser arte?

30

Detalhes da arte de Andy Warhol

31

Projeto experimental de Arte: um mundo visual

32

 

Giro de ideias: arte poética

33

Projeto experimental de Arte: em busca da poética

34

Tema 7 Arte é experiência?

35

Giro de ideias: experiência estética

Conversa com o filósofo

Resgatando o que você aprendeu

Expedição cultural

38

39

38

37

Capítulo 2

Por línguas e línguas

40

Tema 1 Linguagens que se misturam

42

Detalhes da arte de Alex Flemming

Arte em todos os lugares

Giro de ideias: cotidiano e arte

Projeto experimental de Arte: divulgando a arte

43

44

46

47

Projeto experimental de Arte: linguagens artísticas

1. Espelho, espelho meu

2. Quem quer dar uma espiadinha?

49

Giro de ideias: espelhos da alma

Conexões: Arte e Língua Portuguesa –

50

versos para ver

52

49

49

Tema 2 A proposição das linguagens

54

Detalhes da arte de Hélio Oiticica

55

Detalhes da arte de Augusto Boal

56

A rua é o lugar da linguagem

56

Giro de ideias: o “espect-ator”

59

Projeto experimental de Arte: nós, os

“espect-atores”

1. Hipnotismo com a mão

2. Adivinhando a mímica

59

59

59

3. Conhecendo e potencializando o corpo

60

4. O teatro jornal

60

5. Dramaturgia simultânea

60

Conexões: Arte e Cidadania – teatro fórum

61

Tema 3 As linguagens artísticas no tempo

62

Conexões: Arte e Matemática – joias do tempo

65

Conexões: Arte e Literatura – música e palavra

67

Tema 4 As dez linguagens da arte e outras suposições

Giro de ideias: arte em coleções

Projeto experimental de Arte: artes visuais

73

74

Tema 5 As linguagens estão se transformando

76

Detalhes da arte de Adriana Varejão

Detalhes da arte de June Paik

Giro de ideias: videoarte

Conexões: A diversidade cultural e as linguagens

78

78

79

artísticas

80

Projeto experimental de Arte: artes visuais

82

Resgatando o que você aprendeu

Expedição cultural

Conversa com a iluminadora

85

84

81

70

Capítulo 3

A criação

86

Tema 1 Intervenção como criação

88

Detalhes da arte de Alexandre Orion

Detalhes da arte de Gabriel o Pensador Giro de ideias: liberdade de expressão

89

90

91

Projeto experimental de Arte: criação no reverso Projeto experimental de Arte: improvisação e

92

ritmo

94

Conexões: Arte e Língua Portuguesa – metáforas

96

Conexões: Arte e Meio ambiente – ação artística

100

Tema 2 “Dom”, virtuosismo, genialidade ou curiosidade? 102

Arte é conhecimento

Coisas para observar, lembrar e imaginar

Giro de ideias: criatividade e talento artístico

Projeto experimental de Arte: criando tintas,

104

105

descobrindo cores e transparências

109

108

Projeto experimental de Arte: imagens para observar,

lembrar e imaginar

110

Tema 3 Criação e registro

112

Detalhes da arte de Raymond Murray Schafer

Detalhes da arte de Rudolf Laban

Giro de ideias: percepções

Projeto experimental de Arte: movimentos, criação e

113

114

115

registros

116

Projeto experimental de Arte: registro sonoro

117

Conexões: Arte e Ciências – Todo mundo cria!

119

Tema 4 Lugares para criar

121

Criando em grupo

123

Giro de ideias: amigos artistas

124

Projeto experimental de Arte: criando um ateliê Projeto experimental de Arte: “musicoteca” –

124

um lugar para ouvir e fazer música

127

Projeto experimental de Arte: o ambiente das artes

cênicas 128

Conexões: Arte e Língua Portuguesa – os manifestos

da arte

129

Conexões: Arte e Matemática – a tangência perfeita 131

Tema 5 O espetáculo não pode parar: criação como

improvisação

132

Improvisação como técnica teatral

Projeto experimental de Arte: jogo de improvisação

132

teatral

133

Conexões: Arte e Sociedade – trabalhos

colaborativos

134

Conversa com as atrizes

134

Resgatando o que você aprendeu

Expedição cultural

137

136

Capítulo 4

Matérias da arte

138

Tema 1 Materialidade: o corpo da arte

140

Detalhes da arte de Pina Bausch

Giro de ideias: as bailarinas

Projeto experimental de Arte: o corpo tem

143

144

alguém como recheio

146

1. Minha parte favorita

146

2. A dança das cadeiras

146

3. Roda de adereços

146

Conexões: Arte e Tecnologias – a desmaterialização

do corpo

147

Conexões: Arte e saúde – Dançar é salutar!

Tema 2 As marcas no corpo Giro de ideias: a tatuagem

150

152

148

Conexões: Arte e Sexualidade – a valorização

do corpo

154

Conexões: Arte e Pluralidade cultural – marcas culturais 157 Projeto experimental de Arte: arte corporal

158

Pintura corporal

2. Percussão corporal

1. 159

159

Tema 3 A alquimia da arte

160

Tema 4 Do Oriente ao Ocidente, a arte é um fazer

Detalhes da arte de Massao Okinaka

Projeto experimental de Arte: a arte dos

165

samurais

166

162

Tema 5 Tudo azul! Pigmentos como crenças e poéticas

contemporâneas

168

Detalhes da arte de Yves Klein

171

Conexões: Arte e Ciências – luz, arte e vida

212

Giro de ideias: o significado das cores

171

 

Um mundo em cores para ver

213

Conexões: Arte e Meio ambiente – fora do lugar

172

Giro de ideias: cores e coisas

215

Projeto experimental de Arte: ferramentas para

Conexões: Arte e Biologia – olhares sabidos

215

pintar 173

Projeto experimental de Arte: piquenique com

Conexões: Arte e Química – as têmperas

176

arte

217

Tema 6 Se a criação é mais, tudo é coisa musical!

177

Projeto experimental de Arte: a cor significa

218

Há alguma coisa no ar!

O som das cordas

Giro de ideias: criando um som Conexões: Arte e Biologia – a voz

Projeto experimental de Arte: os sons que ecoam em

178

180

180

181

nossa afrodescendência

Construção da kalimba 182

182

Tema 7 Do barro ao lixo extraordinário

Conversa com o músico

Resgatando o que você aprendeu

Expedição cultural

186

187

187

184

Capítulo 5

A arte em sua forma, a forma em

seu conteúdo

Tema 1 As formas e os conteúdos da arte

188

190

Tema 2 A gramática visual

A linha poética

193

192

Projeto experimental de Arte: escolhendo cores

220

Tema 3 O conjunto da obra

222

 

223

Giro de ideias: a dança como louvação Projeto experimental de Arte: dança

223

 

A

língua do corpo

224

Detalhes da arte de Charlie Chaplin

225

 

Formas no teatro

225

A

forma da comédia

226

Giro de ideias: pesquisa de teatro

227

 

Projeto experimental de Arte: teatro de sombras

228

Projeto experimental de Arte: a força dos gestos 229

Projeto experimental de Arte: gestos do cinema

Dramaturgias da luz e do gesto

231

Conexões: Arte e Literatura – caminhante

229

230

Tema 4 As qualidades, parâmetros do som

Ouvindo vozes

Giro de ideias: dimensões de sons

233

234

232

Giro de ideias: traçando linhas

195

 

Projeto experimental de Arte: música

235

Projeto experimental de Arte: ponto de vista

196

Conversa com a bailarina

236

 

Projeto experimental de Arte: linhas de luz

198

Resgatando o que você aprendeu

237

As formas

200

 

Expedição cultural

239

As formas e os movimentos

201

 

Projeto experimental de Arte: as fotoformas

202

Capítulo 6

Bagagem cultural

240

Projeto experimental de Arte: arte cinética

203

Tema 1 Tudo o que me compõe

242

Conexões: Arte e História – poéticas e reflexões Projeto experimental de Arte: criando imagens

204

Vidas privadas e públicas

243

Detalhes da arte de Jackson Pollock Detalhes da arte de Geoffrey Farmer Giro de ideias: imagens marcantes

244

incríveis

204

245

E

a luz se fez

206

245

Detalhes da arte de Lucia Koch

Giro de ideias: Quem tem medo do escuro? Projeto experimental de Arte: entre luzes e

208

sombras

211

209

Projeto experimental de Arte: Essa imagem é

a minha cara!

246

Projeto experimental de Arte: Uma celebridade em

minha vida!

247

Mundo visual que se transforma 248 Projeto experimental de Arte: o ofício da viola de

Mundo visual que se transforma

248

Projeto experimental de Arte: o ofício da viola de

Giro de ideias: imagens e efeitos

253

cocho

288

A música popular brasileira e as gerações de

Conexões: Arte e Geografia – Na boca do povo!

290

ouvintes

253

Coisas preciosas para guardar

291

Detalhes da arte de Cartola

257

Conversa com o artista intermídia

292

Detalhes da arte de Cazuza

258

Resgatando o que você aprendeu

293

Giro de ideias: O que é passado e presente?

258

Projeto experimental de Arte: trilhas sonoras

259

Conexões: Arte e História – na mala da

memória

259

Conexões: Arte e Literatura – Vamos comer!

262

Projeto experimental de Arte: criando um novo

som

264

Tema 2 Tem gente que guarda cada coisa!

265

Colecionismo: a mania de guardar

Sensações para guardar

Giro de ideias: coleções de arte

Projeto experimental de Arte: coletas sensoriais

Conexões: Arte e Língua Portuguesa – Gavetas

266

268

269

para me guardar

270

269

Tema 3 O patrimônio nosso de cada dia

272

Giro de ideias: o patrimônio da minha cidade

Prédio tombado também cai?

O teatro como Patrimônio Cultural da

275

274

Humanidade 275

Giro de ideias: a catarse

Conexões: Arte e Língua Portuguesa – palavras para

278

guardar 279

Projeto experimental de Arte: leitura dramática

As maravilhas do mundo

Operação salvamento

Giro de ideias: S.O.S. bens patrimoniais

Projeto experimental de Arte: Bem que te quero

282

283

284

280

bem! 284

A matéria do imaterial

Giro de ideias: bens imateriais

Projeto experimental de Arte: na roda de capoeira –

284

286

som e movimento

287

Expedição cultural

294

Arte na web – Sugestões de aprofundamento

295

Artigos, entrevistas, textos, filmes e

documentários 295

Sites oficiais de artistas, companhias e museus

Índice do Glossário

Referências

302

301

297

Professor, a descrição de cada item encontra-se nas Orientações do livro digital em Diálogo com o professor.

Ícones de material digital complementar. Acione cada um deles no livro digital para ter acesso.

digital complementar. Acione cada um deles no livro digital para ter acesso. Vídeo/áudio Objetos educacionais digitais

Vídeo/áudio

digital complementar. Acione cada um deles no livro digital para ter acesso. Vídeo/áudio Objetos educacionais digitais

Objetos educacionais

digitais

Rodrigo Berton/Acervo OTM

88

“[ ] Uma parte de mim é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte noutra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?”

GULLAR, Ferreira.Traduzir-se. In: Na vertigem do dia. 17. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,

p. 335.

1980.

Apresentação do grupo O Teatro Mágico em São Paulo, SP, em 2012.

Capítulo 1

O que é arte?

Capítulo 1 O que é arte? Capítulo 1 • O que é arte? 9

tEMa 1

O sentido das coisas

“Nem toda palavra é Aquilo que o dicionário diz Nem todo pedaço de pedra Se parece com tijolo ou com pedra de giz

] [ Tem aquele que parece feio Mas o coração nos diz que é o mais bonito

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais Querer saber demais

]” [

O TEATRO MÁGICO. Sonho de uma flauta. In: O Teatro Mágico: segundo ato. CD, 2008. Disponível em:

<http://www.vagalume.com.br/o-teatro-magico/ sonho-de-uma-flauta.html>. Acesso em: 2 abr. 2013.

Marcos Hermes/Acervo OTM
Marcos Hermes/Acervo OTM

Fernando Anitelli em apresentação do grupo O Teatro Mágico, em São Paulo, SP, em 2012.

Durante a busca motivada pelo interesse em compreender algo, em sa- ber os sentidos das coisas, geralmente encontramos vários caminhos. Podemos procurar explicações lógicas, científicas, baseadas em nossa vivência ou em crenças.

Em meio a tanta diversidade, como explicar o que é arte? Ao nos dizer, na letra de sua música, que “Nem toda palavra é aquilo que o dicionário diz”, o grupo O Teatro Mágico pode nos indicar algumas pistas sobre esse tema.

Uma palavra, por pertencer a uma linguagem, pode ser manipulada pelo autor de uma obra, como um poeta ou um escritor, por exemplo, e assumir muitos usos e diversas interpretações. Em um espetáculo de arte contempo- rânea, como o do grupo O Teatro Mágico, encontramos a arte de bailarinos, atores, poetas, músicos e artistas circenses, além de programadores visuais, ilu- minadores, sonoplastas e tantos outros artistas dos bastidores, que têm sua importância na construção de um produto cultural, nesse caso, um show. Essas múltiplas linguagens são reunidas no mesmo palco para mostrar, contar e can- tar algo, para transmitir mensagens por meio das línguas da arte.

Arte

contemporânea:

expressão que usamos para nos referir a produções artísticas surgidas a partir da segunda metade do século XX até nossos dias.

Detalhes da arte de O Teatro Mágico

Luiza Prado/Acervo OTM
Luiza Prado/Acervo OTM

O grupo O Teatro Mágico em foto de 2013.

Com elementos de circo, música e artes cênicas, entre outras linguagens artísticas, o grupo O Teatro Mágico, conhecido como OTM, tem se apresenta- do em vários espaços culturais desde 2003. Sua origem é paulista, da cidade de Osasco. A proposta do grupo de artistas, criado pelo ator, músico e compositor paulista Fernando Anitelli (1974-), é apresentar poesia, música, dança e filosofia

em espetáculos que utilizam linguagens diversificadas, efeitos visuais e tecnologias aliados à singeleza das performances circenses. Seus componentes misturam sons

e gêneros musicais originários de diversos contextos culturais.

O OTM acredita na acessibilidade de músicas e vídeos via internet, por meio da flexibilização do direito autoral. Na visualidade de seus shows, vemos músicos, atores e bailarinos vestidos de palhaço, com maquiagem e roupas que exploram

a ideia de que cada um de nós tem um personagem escondido, um clown, um poeta a se revelar por meio da arte.

Clown: termo usado para se referir à figura do palhaço, um arquétipo que faz as pessoas rir.

Dica para navegar
Dica para navegar

A linguagem do circo é antiga, mas continua fascinando diversos grupos de artistas contem-

porâneos.

Hoje, é possível aprender a linguagem circense em vários projetos e escolas de artes cênicas. Procure saber se em sua cidade há esse tipo de ação educativa.

O grupo O Teatro Mágico estuda a linguagem circense para utilizá-la em seus shows. Conheça

mais sobre essa trupe por meio de seu site oficial, disponível em: <http:ler.vc/qmomz5> (acesso

em: 2 abr. 2013).

Para o filósofo italiano Luigi Pareyson (1918-1991), a arte é uma linguagem que se reinventa constantemente para construir, conhecer e expressar questões dos seres humanos (Pareyson apud BOSI, 1989). Entretanto, realizada de diversos modos e formas, a arte muitas vezes faz e provoca perguntas em vez de apresentar respostas prontas. O artista cria com base em suas ideias e intenções, mas quem aprecia a obra também cria por meio de suas interpretações. Não podemos estabelecer uma verdade absoluta sobre o que as obras de arte querem dizer porque sempre há a interpretação de quem as olha, prova, toca ou ouve, ou seja, o espectador, o apreciador de arte.

Para compreender a arte, precisamos nos deixar levar pelo seu teor poético, pelo que ela nos provoca e entrar em um universo de sentimentos, pensamentos e sensações que ela nos propõe, des- providos de respostas esquematizadas e verdades preestabelecidas. Conhecer arte é observar, sentir e nos permitir descobrir o inesperado.

gIrO DE IDEI a s : O QUE É ARTE?

O que é arte? Se alguém lhe fizer essa pergunta, o que você vai responder? E seus colegas, que conceitos têm sobre esse tema?

Para conhecer as opiniões da turma, organize um fórum. Pode ser na sala de aula ou em algum ambiente virtual.

Escreva aqui a conclusão a que você chegou depois de ter participado do debate sobre “O que é arte?”.

Professor, o debate pode acontecer tanto de forma virtual como presencial. Converse com os alunos sobre qual a melhor opção. De qualquer forma,

é importante estabelecer a figura de um mediador. O mediador tem a função de organizar a discussão e coordenar o ritmo do debate. Traga para

os alunos o poema de Ferreira Gullar que abre este capítulo. Faça uma leitura interpretativa com eles e converse sobre o que pode ser a arte: uma parte

de nós, uma linguagem? Relacione o poema com as questões trazidas pelos alunos no debate. Se preferir, traga o poema musicado: esse poema teve

várias adaptações para a linguagem da música. Você pode sugerir aos alunos que as procurem na internet.

LIN g U ag ENS artí St I ca S Projeto experimental de Arte Você
LIN g U ag ENS artí St I ca S
Projeto experimental de Arte
Você pode ter suas próprias escolhas ao selecionar o que considera arte.
Cole ou desenhe uma imagem que represente sua concepção do que seja arte. Se preferir, escreva um
trecho de um poema ou de uma música que você gosta e também considera um exemplo de arte.

Conexões: Arte e Tecnologias – mergulhos virtuais

http://www.googleartproject.com#collections/
http://www.googleartproject.com#collections/

Reprodução da página do projeto Google Art que mostra o acervo da Coleção Frick, Nova York, EUA.

Na chamada era da informação, iniciada no século XX, e que vivenciamos potencialmente hoje, os modos de conhecer as coisas do mundo se ampliam e mudam rapidamente, oferecendo também múltiplas oportunidades de acesso para conhecer a arte.

Atualmente, temos disponíveis ferramentas que podem nos ajudar a visitar e conhecer acer- vos de museus de vários países. Os museus virtuais são espaços interativos em que podemos conhe- cer patrimônios históricos, artísticos e culturais. Em vários deles é possível, inclusive, percorrer esses espaços virtualmente, simulando uma visita real. Há ambientes virtuais que utilizam efeitos de ima- gem em profundidade que proporcionam a ilusão de se estar dentro da sala de exposição. Trata-se de uma experiência que pode ampliar muito seu repertório cultural. Pesquise espaços virtuais de arte na internet. Você encontrará sites oficiais de artistas plásticos e de grupos de teatro, dança e música, de galerias de arte e outros espaços culturais. O Google Art Project, por exemplo, mostra acervos de vários museus de todo o mundo, nos quais podemos fazer um passeio virtual e conhecer o que está sendo apresentado como exemplos de arte. Obras do passado e do presente estão disponíveis em:

<http://ler.vc/5ad2ro> (acesso em: 3 abr. 2013).

Depois de um giro pela internet para conhecer o que outras pessoas no mundo estão consi- derando como arte, combine com os colegas a montagem de uma exposição virtual com as obras de arte favoritas da turma. Não se esqueça de verificar o uso de direitos de imagens, músicas, textos etc.

tEMa 2

O que é arte?

O que é arte? Para que serve?, de Paulo Bruscky, 1978. Documentação de ação da impressão em papel fotográfico fosco, 40 cm 29 cm. Na imagem, uma das quatro fotografias expostas na 29. a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010.

Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara
Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara Roesler

Afinal, o que é arte? O questionamento que move nosso estudo neste capítulo é feito até mes- mo por artistas. Na 29. a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010, o pernambucano Paulo Bruscky (1949-) fez essa pergunta ao público. Na obra O que é arte? Para que serve?, de 1978, o artista multimídia e poeta questiona a todos sobre a função da arte. Para muitos pode parecer estranho um artista fazer esse tipo de indagação, pois é comum as pessoas acreditarem que os artistas sempre sabem o que é arte e qual sua função na sociedade. Contudo, além de os artistas em geral se questionarem constan- temente sobre os significados e as dimensões da arte, ela tem mudado tanto nos últimos tempos que mesmo um artista pode fazer essa pergunta sem causar espanto. Fazer perguntas a si mesmo e aos ou- tros é natural nos seres humanos, que buscam tentar compreender todas as coisas, o que inclui a arte.

O papel da arte não é o mesmo em cada época, lugar ou cultura. A maneira como nos rela- cionamos com a arte também está sempre em mudança. Encontrar respostas para esse tipo de ques- tionamento pode parecer difícil, mas é possível perceber algumas pistas observando a própria arte.

Ao longo dos tempos, criamos diferentes modos de fazer arte, por razões diversas. Na con- temporaneidade, as maneiras de criar arte são ainda mais variadas. Responder às questões feitas pelo artista Paulo Bruscky requer investigar como os seres humanos produzem arte e cultura. Assim como as pessoas, a cultura está em constante movimento, em fluxos de pensamentos, valores e gostos.

Detalhes da arte de Paulo Bruscky

Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara
Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara Roesler

Nesta imagem, outra das quatro fotografias expostas na 29. a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010. Documentação de ação da impressão em papel fotográfico fosco, 29 cm 40 cm.

Performance: linguagem

artística realizada em um espaço com uma ação efetuada por um artista ou um grupo e que pode utilizar diversas formas de expressão. No caso de Paulo Bruscky, sua arte aconteceu em pleno espaço da cidade do Recife, cercado de transeuntes curiosos com as atitudes daquele “homem-sanduíche”.

Paulo Bruscky criou a obra O que é arte? Para que serve? em 1978 para provocar uma reflexão sobre o tema. Ele escreveu essas duas perguntas em um cartaz de papelão e “vestiu” o material como um homem-sanduíche. O termo “homem-sanduíche” é usado para identi- ficar pessoas que trabalham nas ruas das cidades carregando cartazes pendurados no corpo. O artista ficou exposto em uma vitrine de livraria e andou pela rua entre as pessoas, fazendo o que chamamos de uma performance.

A linguagem da performance requer fundamentalmente a realização de algo em que os ar- tistas que estão se expressando possam utilizar diversos recursos e materiais. Como toda ação (acon- tecimento) é efêmera, a única maneira de mostrar a obra em outros momentos e lugares, além de reapresentá-la outra vez, é fazer um registro do evento, que pode ser por meio de fotografias ou de gravação de imagem e áudio (uma filmagem).

A performance de Paulo Bruscky foi registrada em quatro fotografias expostas em vários luga- res, um deles na 29. a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010. Entretanto, a obra é de 1978, época em que o Brasil vivia um regime político autoritário, no qual os meios de comunicação e as expressões ar- tísticas eram monitorados pelo governo de regime militar. A intenção do artista era provocar a refle- xão sobre os critérios escolhidos por galerias e museus ao determinar o que era arte e o que não era.

tEMa 3

Procurando pela arte

Jaume Plensa. 2012. Praia de Botafogo, Rio de Janeiro. Foto: Alex Ribeiro/Corbis/Latinstock
Jaume Plensa. 2012. Praia de Botafogo, Rio de Janeiro.
Foto: Alex Ribeiro/Corbis/Latinstock

Olhar nos meus sonhos (Awilda), escultura do artista espanhol Jaume Plensa, 2012. Essa escultura gigante, com 12 metros de altura, retrata o rosto de uma mulher, feito de resina de poliéster, e está instalada na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ).

“[ ] Com a roupa encharcada, a alma repleta de chão Todo artista tem de ir aonde o povo está Se foi assim, assim será [ ]”

BRANT, Fernando; NASCIMENTO, Milton. Nos bailes da vida. In: NASCIMENTO, Milton. Uma travessia musical. Rio de Janeiro: Reader’s Digest, 1999. CD. Faixa 10.

Museus, galerias, teatros, casas de espetáculos para dança e mú- sica, centros culturais, pontos de cultura etc. são os locais determinados para encontrarmos arte. Entretanto, será apenas nesses espaços o lugar da arte?

Tais lugares são extraordinários para termos contato com a arte, e é muito importante frequentá-los, mas a arte pode estar mais perto do que imaginamos. Andando pelas ruas, podemos encontrar obras arquite- tônicas históricas ou contemporâneas, esculturas, mosaicos, pinturas em grafites, e, tendo sorte, talvez alguns artistas fazendo performances ou uma intervenção urbana.

Intervenção urbana:

linguagem artística das cidades. Ela tem a intenção de “ir aonde o

povo está”. Dessa forma,

a expressão é feita pelos

artistas nas mais variadas linguagens, entre elas as

performances, os happenings,

as intervenções, o teatro de rua, dentre outras

manifestações. Esse tipo de arte procura interagir com

o público e surpreendê-lo,

geralmente criando formas de provocação para que as

pessoas reflitam sobre a arte

e a sociedade.

Cena da peça de teatro Auto do Boi da Manta. Foto: Leo Drummond

Hoje, as cidades oferecem espaços para espetáculos de rua nas linguagens da dança, do tea- tro, da música e das artes visuais, abertos a toda a população. Podemos ter acesso a acervos virtuais de museus e galerias do mundo todo navegando pela internet, no computador mais próximo, em celulares e tablets. Há muitos espaços da arte dentro e fora de instituições culturais. Muitos artistas têm o desejo, como disseram o cantor, músico e compositor Milton Nascimento (1942-) e o jornalista e compositor Fernando Brant (1946-), de “ir aonde o povo está”.

Na arte contemporânea, muitas linguagens inovam na forma de criar arte, como também na maneira de encontrar o público, como é o caso das intervenções urbanas.

Na intervenção urbana Transit (Trânsito), de 2001, a artista gaúcha Regina Silveira (1939-) fez surgir moscas luminosas sobre prédios, muros e transeuntes da cidade de São Paulo em meio às luzes dos edifícios e luminosos que contagiam a metrópole à noite. A artista relata, ao falar dessa obra, que sentiu como se pudesse desenhar sobre “a epiderme da cidade”.

Dica para assistir

sobre “a epiderme da cidade”. Dica para assistir Assim como no caso das performances , as

Assim como no caso das performances, as intervenções urbanas também podem ser filmadas para depois serem apresenta- das em várias situações. É o caso do vídeo produzido para registrar a obra Transit, que está disponível no site oficial da artis- ta, disponível em: <http://ler.vc/nk8ez6> (acesso em: 3 abr. 2013).

Transit, intervenção urbana de Regina Silveira, 2001-2009, em São Paulo, SP. Gobo, projetor e carro em movimento.

em São Paulo, SP. Gobo, projetor e carro em movimento. Regina Silveira. 2001-2009. Gobo, projetor e

Regina Silveira. 2001-2009. Gobo, projetor e carro em movimento. Foto: Renato Pera

Gobo, projetor e carro em movimento. Foto: Renato Pera Dica para frequentar Verifique se perto de

Dica para frequentar

e carro em movimento. Foto: Renato Pera Dica para frequentar Verifique se perto de sua residência

Verifique se perto de sua residência há algum local em que podemos encontrar arte, como um ponto de cultura, por exem- plo. Os pontos de cultura são locais man- tidos por grupos que recebem incentivos financeiros do governo para manter ativi- dades artísticas e culturais. Nesses lugares é possível fazer cursos, assistir a espetácu- los ou ver exposições de arte, entre outros eventos artísticos.

Foto de cena da peça Auto do Boi da Manta na inauguração do Ponto de Cultura Yporanga, 2010.

tEMa 4 Professor, aproveite esse momento para discutir com os alunos a respeito da imagem
tEMa 4
Professor, aproveite esse momento para discutir com os alunos a respeito da imagem como magia e sentimento de
posse. Traga o tema para a atualidade e questione-os com perguntas como: “Será que em nosso tempo também vemos
as imagens como algo que possui poder?”; “O que pode exercer algum tipo de magia sobre as pessoas hoje?”; “O que
transforma ou influencia comportamentos?”.
A arte sempre foi arte?
Reprodução de Bisão ferido, pintura rupestre, Idade Paleolítica,
c. 15000-10000 a.C., na caverna de Altamira, Espanha. Foto de 2011.
Busto da rainha Nefertiti, Egito
antigo, 18.ª Dinastia (c. 1340).
Pedra calcária, 50 cm de altura.
Foto de 2012.
The Art Archive/Alamy/Glow Images
Michael Sohn/AFP/Otherimages

Muito do que hoje chamamos de arte, na época em que foi criado não era considerado como tal. Vários artefatos tinham, entre outras funções, a religiosa ou ritualística. Um exemplo são as pinturas conhecidas como arte rupestre. Em o Bisão ferido (c. 15000-10000 a.C.), por exem- plo, pintado na parede da caverna de Altamira, na Espanha, a expressão artística é contextualizada por meio das tensões entre linhas e tons que representam a agonia da morte de um animal. Os historiadores até hoje discutem se quem produziu essa imagem queria relatar um fato ocorrido ou projetar um desejo de caça bem-sucedida. Não há como ter certeza, mas, pela análise da pintura, podemos imaginar como era a vida daquelas pessoas em um mundo extremamente hostil, no qual obter sucesso em uma caçada era uma questão de vida ou morte também para o caçador. O que hoje considerados como arte, para as pessoas da época podia ser uma atividade “mágica”, por meio da qual seria possível capturar a alma do animal e, assim, dominar aquele ser no momento da caça.

Assim como a imagem de arte rupestre, que especulamos ter sido criada por acreditarem ter

a capacidade de fazer um ser morrer, no Egito antigo também havia a crença em obras com a fina-

lidade de eternizar a vida. Os escultores criavam imagens de rostos em pedra calcária, entre outros materiais, para que as pessoas continuassem a viver além-túmulo. Segundo o historiador de arte Ernst Gombrich (1995, p. 58), a expressão “escultor”, em egípcio, podia significar “aquele que mantém vivo”. Talvez fosse esse o desejo da rainha Nefertiti ao solicitar a um escultor da época que

eternizasse seus traços de mulher jovem, “eternamente bela e jovem”. Esse era, na crença egípcia,

o poder dos escultores: manter vivas a alma e a imagem da pessoa retratada por meio da arte.

c. 450 a.C. Mármore. Museu Nacional Romano, Roma. Foto: Superstock/Getty Images
c. 450 a.C. Mármore. Museu Nacional Romano, Roma. Foto: Superstock/Getty Images

Discóbolo, de Myron de Eleuteras, c. 450 a.C. Réplica em mármore do original em bronze, 155 cm de altura.

Arte sacra: termo usado para designar a arte realizada dentro do contexto religioso. Presente em muitas culturas, esse tipo de arte engloba produções que apresentam o sentido de sagrado. Na religião católica, ganha dimensão no ornamento de igrejas, tendo também a função de ensinar doutrinas religiosas.

Professor, é importante relacionar a história da arte com os conceitos contemporâneos.

Para ampliar esse assunto, estimule o interesse dos alunos com a apresentação de mais imagens em que a ideia de belo clássico esteja presente em nossos dias. Oriente seus alunos

a buscar essa ideia de belo à sua volta. Explore

a ideia de que o conceito de belo é relativo

e está ligado aos juízos de gosto e valor, dentre outros fatores. Você pode propor uma enquete entre os alunos para saber o que eles consideram belo em nossos dias.

Interior da catedral de Notre-Dame de Amiens. Em destaque, a pintura colorida medieval restaurada com canhões laser, fotografada em 2013.

Na Grécia antiga, principalmente nos períodos conheci- dos como clássico e helênico, a arte é resultante da percepção sensível do mundo, e sua representação é feita por meio da ideia do que é belo na concepção cultural da época. A beleza na concepção clássica dos gregos pode ser apreciada na es- cultura que mostra o corpo de um jovem em movimento no momento em que arremessa o disco. Trata-se de Discóbolo (c. 450 a.C.), escultura copiada pelos romanos, em que se des- tacam características daquilo que, na época, eram considerados o corpo perfeito, o movimento perfeito, ideias do belo clássico. Será que esse conceito de belo faz parte apenas do passado?

Na Idade Média (séculos V a XV), há um retorno das funções religiosas da arte na cultura ocidental. A arte a serviço da Igreja católica cria templos, imagens, músicas e esculturas que podemos encontrar no acervo da arte sacra.

SOBERKA Richard/Hemis/Easypyx
SOBERKA Richard/Hemis/Easypyx

Conexões: Arte e Filosofia – estética e poética

A estética, como um ramo de discussão filosófica, atua na reflexão sobre o papel da arte na vida, sua natureza, seus valores e suas concepções, e discute compreensões de beleza ao logo dos tempos.

A poética é um ramo da filosofia da arte que estuda a qualidade das obras artísticas em função de como são produzidas, o que expressam e o que provocam na sociedade. Para os gregos

existiam normas para dizer se uma obra tinha poética ou não. Podemos dizer também que a poética

é o modo singular com que fazemos as coisas, ou ainda o jeito particular com que fazemos arte. A poética representa as ideias dos artistas.

Na base dos estudos da filosofia da arte estão os debates sobre mímesis, ideias discutidas por filósofos gregos como Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.).

Segundo Alfredo Bosi (1986), Platão dizia em seus discursos que a arte é uma mímesis da vida, como a sombra de um reflexo. A palavra grega mímesis (mimese, em português) apresenta a ideia de imitação, cópia, reprodução, representação. Para Platão, a mímesis na arte era representação da natureza, mas como uma cópia, um reflexo da vida. E a vida, por sua vez, era também um reflexo do mundo das ideias. Assim, a arte seria a cópia da cópia. Já Aristóteles dizia que a arte é a represen- tação da vida como manifestação poética do ser humano, defendendo que o conhecimento advém da percepção dos sentidos. Os artistas criam arte por meio da poética. A arte imita a vida, porém de modo mais belo, sublimado.

As ideias ainda hoje estudadas para compreender a natureza estética e poética da arte e a concepção de belo sublimado, colocada por Aristóteles, influenciaram muitos períodos da história da arte. A arte como função poética foi estudada pelos gregos antigos e é investigada até hoje em razão da necessidade de compreender o que é arte e por que a fazemos.

Será que a concepção de arte como imitação da vida ou o conceito de beleza sublimada ainda fazem parte de imagens que criamos em nosso tempo, tanto na arte como nos meios de comunica- ção? Vamos pensar sobre isso?

tEMa 5

Renascem ideias

No Renascimento (séculos XV-XVI), o interesse se voltou para as questões humanas e os ideais de beleza clássica, resga- tando as técnicas artísticas gregas do passado. A função da arte assumiu diferentes caminhos: os artistas buscavam representar a

realidade com um olhar mais científico e relacionavam diferentes conhecimentos às linguagens artísticas em suas criações. O de- bate sobre a importância da arte na sociedade ganhou força e status. Vários nomes ficaram conhecidos como grandes mestres da arte renascentista, como o italiano Leonardo da Vinci (1452- -1519), que pintou um dos quadros mais conhecidos do mundo,

a obra Mona Lisa (1503-6). Da Vinci ainda se destacou como es-

cultor, cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, arquiteto, botânico, poeta e músico.

Leonardo da Vinci. c. 1503-6. Óleo sobre madeira. Museu do Louvre, Paris
Leonardo da Vinci. c. 1503-6. Óleo sobre madeira. Museu do Louvre, Paris

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, c. 1503-6. Óleo sobre madeira, 77 cm 53 cm.

Courbet. 1844-1845. Óleo sobre tela. Coleção particular Jacques-Louis David. 1784. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, ParisGustave

Nos séculos seguintes, outras correntes artísticas surgiram na cultura ocidental para criar tensões entre tradições e rupturas estéticas, o que provocou mais debates a respeito do que é arte.

o que provocou mais debates a respeito do que é arte. Professor, nos capítulos seguintes, mais

Professor, nos capítulos seguintes, mais correntes estilísticas e artistas que compõem a história da arte serão mencionados. Para estimular o interesse da turma e aprofundar o assunto, sugerimos que exponha mais exemplos de concepções sobre o que é arte no contexto de épocas, lugares e culturas diversos. Em relação à tradição e à ruptura na arte, uma situação de aprendizagem interessante é a leitura de imagens que comparem obras com estilos de aspectos contrastantes. Indicamos a leitura do texto Uma abordagem da análise estilística: contrastes entre Renascimento e Barroco (Apud WOODFORD, Susan. Modos de ver a pintura. In: A arte de ver a arte. Trad. Álvaro Carvalho. Rio de Janeiro: Zahar, 1983).

O juramento dos Horácios, de Jacques-Louis David, 1784. Óleo sobre tela, 3,3 m 4,2 m.

A Liberdade guiando o povo, de Ferdinand Victor Eugène Delacroix, 1830. Óleo sobre tela, 260 cm 325 cm.

Eugène Delacroix. 1830. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris
Eugène Delacroix. 1830. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris
Delacroix. 1830. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris Autorretrato (O homem desesperado) , de Gustave

Autorretrato (O homem desesperado), de Gustave Courbet, (c. 1844-1845). Óleo sobre tela, 45 cm 55 cm.

Neoclassicismo: movimento cultural do século XVIII e parte do século

XIX

que defendia a retomada da

arte

antiga, especialmente a greco-

-romana, considerada modelo de equilíbrio, clareza e proporção. Recebeu fortes influências do estilo renascentista, principalmente nas questões técnicas em composições de pinturas. Esse estilo se manifestou em várias linguagens, como a pintura, a escultura, a arquitetura e a literatura.

Romantismo: estilo artístico que se desenvolveu entre os séculos XVIII e XIX em várias linguagens

da arte, como a literatura, a música,

a pintura e a escultura.Trazia

uma visão idealista e romântica

sobre a vida, que valorizava mais as emoções, a subjetividade e as intuições dos seres humanos em detrimento da razão.

Realismo: movimento artístico

e literário surgido na França em

meados do século XIX como reação

às formulações da arte neoclássica, que apresentavam narrativas idealizadas. Os realistas buscavam apresentar na arte a vida em pleno aspecto social e histórico com

foco na realidade. Desenvolveram-

-se nas artes visuais temas como trabalhadores do campo, das cidades, pessoas simples do povo, entre outros.

A cultura está sempre em movimento e, no fluxo da história, as concepções de beleza e de sentido da arte foram se transforman- do, como veremos a seguir.

No período do neoclassicismo, os artistas se preocupavam em escolher “grandes” temas para criar obras que exaltavam o heroísmo e os valores morais, a exemplo do francês Jacques Louis David (1748-1825), que escolheu apresentar em suas obras temas como O juramento dos Horácios (1874), em que três irmãos ju- ram lutar pela República romana.

No Romantismo, o francês Eugène Delacroix (1798-1863) tratou do tema da revolução francesa em A Liberdade guiando o povo (1830), em que já são perceptíveis os ventos da mudança estética em relação às concepções de arte e beleza que viriam a se- guir. Nessa corrente estilística, o sentimento é mais importante que as normas clássicas para criar imagens na arte.

No Realismo, a pintura propõe representar a vida o mais próximo possível da sua exatidão. Artistas como o também francês Gustave Courbet (1819-1877) retratam pessoas em seu cotidiano e também a situação social da época. Diante de mudanças na socie- dade e na arte, o que um artista sente e pensa? Ao ver a expressão de Coubert em Autorretrato (c. 1844-1845), podemos imaginar que esse momento foi de grande questionamento para o artista.

Anita Malfatti. 1915-1916. Óleo sobre tela. Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros
Anita Malfatti. 1915-1916. Óleo sobre tela. Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos
Brasileiros USP, SP – Coleção Mário de Andrade, MA-0319

O homem amarelo, de Anita Malfatti,

1915-1916.

Óleo sobre tela, 61 cm 51 cm.

A fonte, de Marcel Duchamp, 1917 (réplica, 1964). Ready made, urinol de porcelana, 60 cm
A fonte, de Marcel
Duchamp, 1917
(réplica, 1964).
Ready made,
urinol de porcelana,
60 cm  48 cm  35 cm.
Marcel Duchamp. 1917/1964. Porcelana. Museu Nacional de Arte Moderna, Paris.
Foto: RMN/Otherimages

No final do século XIX e início do século XX, as concepções de belo são questionadas e o mundo se transforma velozmente diante dos acon- tecimentos e das conquistas industriais e tecnológicas. A maioria dos ar- tistas assiste às mudanças participando ativamente, questionando a vida,

a arte e a sociedade. Entre os movimentos que marcam o momento da

arte moderna, o Expressionismo rompe com as concepções do belo clás- sico, com cores, formas e temas que falam da existência humana, como na pintura da artista paulista Anita Malfatti (1889-1964). Um exemplo é a obra O homem amarelo (c. 1915-6).

Na reflexão sobre a sociedade na ótica do Dadaísmo, artistas pes- quisam novas linguagens e materialidades para expressar ideias e novos con- ceitos na arte. Marcel Duchamp (1887-1968) provoca o universo da arte co- locando um objeto do cotidiano em pleno espaço de exposição, que era an- tes reservado a obras de arte consagradas em pinturas, desenhos, gravuras e esculturas. A obra A fonte (1917) coloca em evidência os questionamentos sobre a arte e seu futuro. Desde esse período, diversas mudanças ocorrem em pouco tempo, e até hoje, na arte contemporânea, há ainda quem per- gunte “O que é arte? Para que serve?”, ao se deparar, por exemplo, com

a obra Porco Empalhado (1967), de Nelson Leirner (1932-), exposta na

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Expressionismo:

movimento artístico nascido no início do século XX. Em meio a conflitos

e guerras, os artistas

refletiam a respeito das condições sociais da existência.

Dadaísmo: movimento surgido durante a Primeira Guerra Mundial, no qual artistas e intelectuais posicionaram-se de modo crítico em relação à cultura do Ocidente do início do século XX, em

meio a contradições sociais entre avanços tecnológicos

e a barbárie da guerra,

como uma forma de fazer

arte que manifestava

a intenção de romper

fronteiras entre linguagens,

delimitações de materiais ou regras na arte.

Professor, ao fazer um “passeio” pela história da arte, é possível apontar alguns momentos que mostram diferentes concepções sobre o que é arte. A proposta é provocar reflexão sobre como as ideias do que é arte mudaram ao logo dos tempos. Questionar a respeito do que é arte e para que ela serve é uma maneira de provocar, assim como os artistas, o pensamento crítico sobre a arte.

Nelson Leimer. 1967. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo
Nelson Leimer. 1967. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Porco empalhado (Happening para a crítica), ou O porco, de Nelson Leirner, 1967. Objeto, engradado de madeira e porco empalhado, 83 cm 159 cm 62 cm.

Detalhes da arte de Duchamp

Toda revolução sempre traz em sua his- tória muitos personagens. Nas transformações provocadas pela arte dadaísta não foi diferente. Artistas questionavam os moldes de arte que ti- nham influência da concepção de belo clássico e técnicas tradicionais. Buscavam um novo sentido para arte em meio às turbulências da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

O pintor, escultor e poeta francês Marcel

Duchamp (1887-1968), como outros artistas atu- antes nessa época, começou a utilizar objetos “prontos”, retirados do cotidiano, para lhes dar novos significados e sentidos, determinando-lhes um caráter estético e poético, transformando- -os em arte conceitual, os denominados ready mades (ver índice do Glossário). Na obra A fonte, Duchamp escolheu uma peça de cerâmica pintada com esmalte branco fabricada pela R. Mutt (uma indústria da época). Era apenas um mictório para uso em sanitários, um urinol, mas o artista deu o título de A fonte, assinou com o nome do fabri- cante da peça e enviou-a para um concurso de arte. Você pode imaginar o debate desencadeado por essa obra em 1917? Duchamp entrou para a história como uma das figuras de destaque na provocação da discussão sobre o que é arte.

Marcel Duchamp. 1917/1964. Porcelana. Galeria de Arte de Barbican, Londres. Foto: Dan Kitwood/Getty Images

A fonte, de Marcel Duchamp, réplica (1964) em exibição em Londres. Foto de 2013.

Arte conceitual: manifestação artística que prima por uma arte mental, fortemente ligada ao discurso do artista e à interpretação de quem a aprecia.Trata-se de uma arte de intensidade intelectual, divergindo da narrativa ou da forma como o mundo estava acostumado a ver arte antes do início do século XX.

Detalhes da arte de Nelson Leirner

Depois dos objetos cotidianos trazidos para o cenário da arte pelos artistas dadaístas, muitos outros se aventuraram por caminhos estranhos aos olhos do público e da crítica. Na segunda metade do século XX, muitas concepções de arte já tinham sido aceitas, tanto que, em 1967, o pintor, dese- nhista, cenógrafo e professor Nelson Leirner (1932-) enviou um porco empalhado, em um engrada- do, com um presunto pendurado no pescoço, para o IV Salão de Arte Moderna de Brasília. Sua obra foi aceita e o artista veio a público indagar quais os critérios para considerar um porco empalhado como uma forma de arte.

O que o artista fez foi um happening, provocando a crítica para que participasse do debate. A

palavra happening é usada para descrever uma linguagem artística em que artes visuais e teatro po- dem estar unidas em um acontecimento provocado pelo artista. As pessoas podem ser envolvidas em uma situação ou convidadas a participar dela. No caso, os críticos de arte e os jurados do IV Salão de Arte Moderna de Brasília foram envolvidos sem perceber no happening de Nelson Leirner. O artista planejou a situação, esperando, com sua percepção do panorama da arte na época, que as pessoas participassem involuntariamente, o que de fato aconteceu. Tal atitude provocou polêmica e muita discussão entre a crítica e o público, fazendo vir à tona mais uma vez a questão sobre o que é arte.

gIrO DE

IDEI a s : LingUAgEns cOnTEMPORânEAs

Ready made, performance, happening são linguagens artísticas contemporâneas. Observe as obras criadas pelos artistas Marcel Duchamp, Paulo Bruscky e Nelson Leirner e converse com os colegas a respeito dessas produções.

Imagine que você e sua turma estão em um museu e deparam com essas produções. Que rea- ção vocês teriam? Um urinol, uma pessoa com um cartaz pendurado no corpo, um porco empalhado podem ser considerados arte? Qual é a sua opinião e a de seus colegas sobre esse tema? Que outros artistas atualmente utilizam essas linguagens artísticas em suas criações?

Escreva a sua opinião sobre essas três obras de arte e o que você descobriu em sua pesquisa.

 
LIN g U ag ENS artí St I ca S

LIN g U ag ENS artí St I ca S

LIN g U ag ENS artí St I ca S
 

Projeto experimental de Arte

A pergunta “O que é arte?” instigou muitos artistas a experimentar novos meios, linguagens e mate- rialidades. O ser humano precisava encontrar sentido na vida e na arte. Com as novidades trazidas pelas eras industrial e tecnológica, a proposta era criar arte como uma produção mais ligada a esse mundo que se apresentava, apontando no horizonte da humanidade os valores, os dramas e as angústias da existência humana, que precisavam estar no gene da criação artística. Os artistas da arte conceitual se utilizam dos mais diferentes recursos materiais e dos mais diversos discursos para provocar no espectador pensamentos

e

questionamentos sobre a arte e a vida.

No contexto atual, quais temas podem ser tratados nas linguagens artísticas ready made, performance

e

happening?

Essas linguagens, que ainda parecem estranhas para alguns, podem ser realizadas também na escola, quem sabe até mesmo na sala de aula. Para experimentar a linguagem do ready made, convide os colegas para um jogo. Cada participante escolhe um objeto dentro de sua bolsa e o coloca sobre uma mesa. Pode ser um óculos, um aparelho de celular, um cartão de passe escolar ou outro qualquer. A proposta é retirar a função cotidiana desse objeto e atribuir a ele uma função poética, propondo outro significado, mais subje- tivo e simbólico.

Assim como Duchamp batizou sua obra como A fonte, crie também um título. Depois escreva esse título em um pedaço de papel e coloque-o próximo de seu objeto, e peça aos colegas que façam o mesmo. Com os objetos e seus títulos expostos, apreciem a exposição criada por vocês e conversem sobre como cada um criou seu ready made.

Professor, a ideia é propor novos significados para os objetos e provocar um debate sobre as possibilidades de materiais do cotidiano serem utilizados para 26 criar arte, como na mudança que ocorreu na arte quando transformou a representação de objetos com o uso do próprio objeto pronto, na linguagem do ready made, uma arte conceitual. Explore esses conceitos com os alunos. É importante salientar que há várias maneiras de criar um ready made, e que o jogo proposto é apenas uma experimentação. Registre com fotos as propostas dos alunos para criar um portfólio.

Professor, como sugestão para ampliar a proposta, traga trilhas sonoras de filmes de que os alunos gostam para discutir sobre as combinações entre sons e imagens. Peça a eles que pesquisem sobre a arte dos DJs, que costumam misturar e mixar sons inusitados com as músicas. Estimule os alunos a contarem sobre suas experiências com música.

M
M

Projeto experimental de Arte

ú SI ca

ú SI ca

“Eu amo os sons e não o que eles podem representar. Para mim, o som basta” (John Cage, em entrevista disponível em: <http://ler.vc/zykfi4> (acesso em: 6 jan. 2013). Fluir, deixar-se levar pelo movimento do tempo, da vida, se lançar em no- vas experiências, sentir o lugar onde vivemos de modo intenso, o movimento artístico Fluxus reuniu vários artistas que tinham esse desejo em comum. Tradicionalmente, a música é concebida como arte do tempo, porque acon- tece em determinada cadência, fluxo, andamento. Nascido nos Estados Unidos,

Fluxus: movimento artístico iniciado na década de 1960, caracterizado pela concepção de arte como um acontecimento coletivo. Essa arte podia ser feita com materialidades diversas e em locais públicos ou privados, com o objetivo de questionar o mercado e o papel das galerias, museus e casas de espetáculos que apresentavam as produções artísticas de modo tradicional. Para os integrantes do Fluxus, não havia limites para a criação do artista.

o

músico John Cage (1912-1992) desenvolveu a concepção de arte na música

explorando também o espaço, o lugar cotidiano, a música como arte do tempo e do espaço. Para Cage, tudo ao nosso redor tem sons que podem se transformar

em música. São paisagens sonoras, ruídos, notas musicais

É preciso despertar a

mente, seja para os sons mais sutis até os que perturbam nossos ouvidos.

As ideias dos dadaístas e do grupo Fluxus foram propulsoras para as ex- periências na arte. As pesquisas de Cage impulsionaram os efeitos sonoros que hoje notamos em filmes, videoclipes e até na arte de DJs (disc-jóqueis) em músicas remixadas, que misturam sons que antes dessa resolução estética pareceriam impossíveis de encontrar em uma mesma apresentação. Aprender música é um processo contínuo de construção que envolve perceber, sentir, experimentar, imitar, criar e refletir. Vamos misturar sons e imagens? Veja como fica essa combinação. Para realizar esse experimento, você precisará de uma TV com aparelho de DVD, ou qualquer outro aparelho que possa repro- duzir um vídeo. Também vai precisar de um aparelho para gravar sons, o que pode ser feito por um celular. Grave sons (mecânicos ou da natureza). Escolha uma cena de videoclipe, filme ou desenho animado que você considere interessante para realizar uma trilha sonora. Caso a cena já possua uma trilha sonora ou sonoplastia, abaixe o volume para que você possa sonorizar a cena com os sons que pesquisou. Em vez de aplicar sons gravados, você pode usar instrumentos ou objetos que estiverem disponíveis, como panelas, tubos de PVC, garrafas com água em diferentes níveis, cabaças, bambus, papel, espirais de cadernos etc. Realize a sonoriza- ção do filme. Crie e faça vários experimentos combinando sons e imagens. É interessante usar uma filmadora para gravar a experiência e assisti-la depois, para observar como ficou o arranjo visual e sonoro.

Projeto experimental de Arte

D

a N ça

a N ça

Rudolf Laban (1879-1958), um dos precursores da dança moderna ocidental, também pesquisou sobre os movimentos corporais cotidianos para a criação coreográfica em dança. Para esse austro-húngaro, o cor- po se expressa mesmo nos movimentos mais corriqueiros. Perceber esses movimentos e aprender a conhecer

próprio corpo, matéria-prima para a dança, é importante para o dançarino que investiga as potenciali- dades expressivas do movimento. Se mesmo dormindo costumamos movimentar nosso corpo, sem perce- ber, ao acordar essa movimentação se amplia consideravelmente. Geralmente, nos espreguiçamos antes de

o

levantar, esticando articulações, músculos

Viramos de um lado para o outro, pensando em tudo o que

teremos para fazer no dia. Mesmo quem tem algum tipo de imobilidade física, temporária ou permanente, precisa praticar algum tipo de movimentação, até com a ajuda de outras pessoas. Esses simples movimentos cotidianos já podem ser estudados por você e usados em criações artísticas na dança. Vamos fazer experiências sobre os movimentos das manhãs? Organize um grupo de colegas para essa criação. Pensem em movimentos feitos durante as ações que realizam todas as manhãs, ao acordar. Repitam alguns desses movimentos. Escolham três movimentos e definam uma forma de repeti-los algumas vezes. Em grupos de três ou quatro pessoas, cada um deve ensinar seus três movimentos para os outros. Todos de- vem memorizar os movimentos dos colegas e repeti-los duas vezes antes de mudar para outro movimento. Ensaiem e memorizem a sequência. Coloquem música (até mesmo mais de uma e de estilos diferentes) e peçam aos grupos que façam a “dança das manhãs”.

Conexões: Arte e História – ideia e opinião

Cildo Meireles. 1970-1975. Carimbo sobre cédula em circulação. Coleção particular. Foto: Pat Kilgore
Cildo Meireles. 1970-1975. Carimbo sobre cédula em circulação. Coleção particular. Foto: Pat Kilgore

Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Cédula, do artista Cildo Meireles, 1970-1975. Carimbo sobre cédula em circulação.

A arte pode comunicar uma ideia? Sobre o que a arte fala? Que ideia ela transmite?

uma ideia? Sobre o que a arte fala? Que ideia ela transmite? Os objetos do cotidiano

Os objetos do cotidiano podem comunicar. Em épocas de governos ditatoriais, por exemplo,

muitos objetos foram utilizados artisticamente como “armas” na resistência contra a opressão, como

a que aconteceu no Brasil entre os anos de 1964 a 1985. Eram tempos de censura e medo, que im-

punham o silêncio à maioria da população. Quem ousava expor suas ideias podia ter sua liberdade e até a própria vida ameaçada pela ditadura militar.

O jornalista Vladimir Herzog, uma das centenas de pessoas que morreram pelo direito à de-

mocracia no Brasil durante a ditadura, foi assassinado na prisão em São Paulo, no ano de 1975. Sua morte fez crescer a ocorrência de manifestações públicas e artísticas em prol do fim da repressão política e a luta por um estado democrático, em que os direitos civis pudessem ser respeitados.

Mesmo quando é proibido dizer o que se pensa, é próprio da natureza humana encontrar meios para se expressar. A arte é uma dessas maneiras. cildo Meireles (1948-), artista plástico cario- ca, criou a obra inserções em circuitos ideológicos: Projeto cédula, na qual ele carimbou a frase “Quem matou Herzog?” sobre cédulas de dinheiro. O artista realizou essa intervenção no mesmo ano da morte do jornalista.

Como o artista usou cédulas de dinheiro corrente, era quase impossível saber de quem era

a autoria daquele tipo de arte, e o artista pôde levar suas ideias ao público. A arte não estava nos

museus, mas nas ruas, e foi ao encontro das pessoas em suas ações mais corriqueiras, como o uso de

uma nota de dinheiro. Trata-se de uma arte conceitual, uma voz que circula e sussurra nos ouvidos do cotidiano pedindo justiça e liberdade em quaisquer situações nas quais não sejam respeitadas.

E quanto a você? O que causa incômodo nos dias atuais? O que você quer falar, por meio da linguagem da arte, sobre as injustiças sociais, a violência ou outros temas? Faça um desenho expres- sando suas ideias. Depois, reúna-se com seus colegas e, utilizando objetos do cotidiano, criem uma obra fazendo intervenções e ressignificando os objetos.

Professor, para a compreensão do porquê de os artistas utilizarem objetos do cotidiano e formas inusitadas para fazer arte, é importante que os alunos conheçam os contextos históricos, políticos e sociais que motivam essas criações. Proponha aos alunos que investiguem mais sobre a arte utilizada como forma de protesto contra a repressão política desse período da história do Brasil.

tEMa 6

Se a arte está perto, tudo pode ser arte?

Nos objetos ao nosso redor também há pensamento estético e artístico. A palavra arte, de origem latina (artis), está ligada à língua grega no termo tékne (origem também de técnica, relati- va à arte, ao saber), e nasce da ideia de que o ser humano sempre fez coisas, desde sua origem. Entretanto, arte não é simplesmente uma técnica para “fazer coisas”. Para que algo seja arte, é ne- cessário um sentido ou uma intenção. Não há uma função cotidiana na arte, como encontramos em outros objetos, mas sim uma função poética, estética e artística. Então, o que isso significa?

Em nosso dia a dia, encontramos objetos criados com a intenção de agradar ao olhar, ao tato,

De um objeto tecnológico, como um celular, a uma simples caneta, todo o processo de

aos ouvidos

produção nasce do desenho (design) pensado por alguém que quis tornar aquele objeto mais atra- ente. Esses objetos têm uma função cotidiana, que pode ser mandar uma mensagem eletrônica ou

escrever uma carta manualmente para alguém. Há criação e organização de formas, cores, texturas, dimensões nos objetos em nossa volta, mas nem todos são considerados arte, embora carreguem

pensamento estético. Nas ruas também encontramos imagens, prédios, jardins, ouvimos sons

lugares, objetos e ambientes criados para o deleite e o uso das pessoas. No cenário em que vivemos, principalmente nas grandes cidades, há muitas linguagens (escritas, faladas, cantadas, desenhadas,

modeladas etc.), algumas criadas com intenções artísticas e outras que carregam elementos artísticos

e estéticos, mas que estão ligadas a funções de uso cotidiano.

São

Observe as imagens a seguir. Quando estamos diante de uma prateleira de supermercado, nossos olhos são preenchidos com tantas cores e formas das embalagens dos produtos que podemos

até ficar admirados com o apelo visual desses recipientes. Contudo, estar diante de uma obra de arte

é outra experiência, mesmo que tal obra apresente formas semelhantes às que encontramos nas prateleiras dos supermercados.

Mulher observando uma prateleira de supermercado. Foto de 2013. Mulher observa a obra Campbell’s Soup,
Mulher observando uma
prateleira de supermercado.
Foto de 2013.
Mulher observa a obra
Campbell’s Soup, de Andy Warhol,
1962, no Museu de Arte Moderna (MOMA,
Nova York, Estados Unidos). Foto de 2010.
Bilderbox/Age Fotostock/Easypyx
EI Chapulin/Alamy/ Glow Images

Andy Warhol. 1962. Tinta de polímero sintético sobre tela. Museu de Arte Moderna (MOMA), Nova York. Foto: Alamy/Glow Images

Pop Art: no início da década de 1960, muitos artistas questionavam o crescimento de meios de comunicação de massa, como a televisão, aparelho que abriu um novo canal de divulgação de produtos para o consumo. A publicidade começava a conduzir o gosto e o desejo das pessoas para a aquisição de objetos e a busca por padrões sociais de vida. Nesse cenário, a Pop Art surge como um movimento artístico que se apropria da cultura de massa em tom crítico. Nascido na Inglaterra, espalhou-se para outros países. A sociedade e a cultura dos Estados Unidos serviram de inspiração para diversos artistas que questionavam o estilo de vida norte-americano em suas obras.

O artista plástico e cineasta norte-americano Andy Warhol (EUA, 1928-1987) trouxe para suas pinturas imagens de produtos que podemos encontrar em prateleiras de supermercados. Ele es- colheu trabalhar com tais imagens em suas obras para provocar o pensamento crítico a respeito de como a sociedade produz e conso- me imagens. Andy Warhol é considerado um dos mais importantes artistas da Pop Art.

Uma embalagem de um produto na prateleira do supermerca- do não é arte, mas sua imagem na obra do artista pode ser. Quando Andy Warhol pintou a imagem de latas de sopa na obra campbell’s soup (1962), modificou a função cotidiana da imagem do produto, atribuindo a ela um novo sentindo, poético e estético. Sua intenção era discutir a função dos rótulos, dos produtos em série, do sistema capitalista que leva ao consumismo, mas que ao mesmo tempo torna coisas e pessoas conhecidas, deixando-as em evidência.

Hoje, é cada vez mais perceptível como os meios de comunicação dominam nossa cultura. Pessoas e produtos ficam conhecidos de uma hora para outra quando colocados em evidência pela mí- dia, assim como também são esquecidos rapidamente quando estão fora dos meios de comunicação.

Detalhes da arte de Andy Warhol

Uma imagem de latas de sopa pode ser considerada arte? As prateleiras de su- permercados, com suas cores vibrantes e formas repetidas, com objetos produzidos em série e colocados em sequência, inspirou

a maneira de como Andy Warhol compôs

a obra intitulada campbell’s soup cans

(1962). A marca de sopas Campbell’s era muito popular nos Estados Unidos na época, e seus produtos eram servidos até em cenas de seriados de televisão. Andy Warhol pin- tou individualmente 32 quadros de 50,8 cm 40,6 cm com tinta acrílica sobre tela nas cores do produto original. Depois, ele colo-

cou as 32 telas arrumadas uma ao lado da outra, tal qual a forma de arranjos que en- contramos em prateleiras de lojas e supermercados. As pinturas em cores vibrantes e combinadas em vários tons contrastantes e a repetição de imagens são pontos marcantes da obra de Andy Warhol.

Embora o movimento Pop Art tenha começado na Inglaterra, foi nos Estados Unidos, país de origem de Andy Warhol, que ganhou maior força. Os artistas desse movimento usaram cores vibran- tes, imagens com visual de histórias em quadrinhos, de celebridades de cinema, televisão e embala- gens de produtos que eram símbolos de consumo. As linguagens usadas foram bem variadas, desde pinturas, serigrafias a fotografias e vídeos, entre outras. Destacaram-se nesse movimento artistas como Roy Lichtenstein (EUA, 1923-1997) e Richard Hamilton (Inglaterra, 1922-2011), que trouxeram as imagens da vida cotidiana para os espaços de exposições de galerias e museus.

para os espaços de exposições de galerias e museus. Campbell’s Soup (Latas de Sopa Campbell) ,

Campbell’s Soup (Latas de Sopa Campbell), de Andy Warhol, 1962. Conjunto de 32 quadros em tinta de polímero sintético sobre tela, 50,8 cm 40,6 cm.

É comum a Pop Art ser lembrada na história da arte como um movimento de protesto. No entanto, ela foi além, porque também provocou diálogos entre os estilos de vida e a arte, entre a estética e o conceito de visualidade da segunda metade do século XX. Ofereceu, também, possibi- lidades de reflexão sobre o que é a fama desencadeada pelas mídias no tempo em que os meios de comunicação de massa começavam a oferecer um universo de imagens em cores, formas e movimen- tos em proporção até então nunca vista pelas pessoas, mudando modos de vida e valores estéticos que têm influência até os nossos dias.

UM MUNDO VISUaL Projeto experimental de Arte Visitante ao lado da obra Marilyn Monroe (Marilyn),
UM MUNDO VISUaL
Projeto experimental de Arte
Visitante ao lado da
obra Marilyn Monroe
(Marilyn), de Andy Warhol,
1967. Composição e folha,
91,5 cm  91,5 cm. Série de
serigrafias. Foto de 2008, no
Staatsgalerie Museum, em
Stuttgart, Alemanha.
Michael Latz/AFP/Getty Images
Andy Warhol. 1962. Acrílico e serigrafia sobre tela. Tate Gallery, Londres. Foto: AKG/Latinstock
Andy Warhol. 1962. Acrílico e serigrafia sobre tela. Tate Gallery, Londres. Foto: AKG/Latinstock

Marilyn Diptych, de Andy Warhol, 1962. Acrílico e serigrafia sobre tela, 205,4 cm 144,8 cm 2 cm.

Reuters/Latinstock
Reuters/Latinstock

Edição limitada de latas das sopas de tomate Campbell’s com cores e imagens do rosto do artista norte-americano Andy Warhol. Foto de 2012.

O artista pop analisa a cultura visual de seu tempo, principalmente sob o prisma dos valores e costumes. Traz para sua arte essa visualidade por ter sido marcado e tocado por ela. Enquanto Andy Warhol criava imagens com rostos de celebridades, ele mesmo se tornou uma delas. Até hoje sua imagem e suas ideias continuam a fazer sucesso. Por causa do destaque ainda dado a esse artista na mídia e no mundo da arte, o fabricante de sopas Campbell’s criou uma edição limitada com embalagens que trazem as cores utilizadas por ele e a estampa de seu rosto.

Diante do exposto, como você vê a relação entre a arte e o mundo capitalista?

A vida dos artistas pode nos inspirar, mas é importante olhar para nossa própria realidade e refletir sobre

a cultura que estamos vivenciando e como são os valores e as imagens que marcam nossa história.

Em suas investigações, Andy Warhol criou composições artísticas em que utilizou uma única imagem re- petida várias vezes. Como experiência artística, vamos fazer uma composição baseada no princípio da repe- tição. Escolha uma imagem que marcou sua vida (rótulos, embalagens, logotipos, imagens de pessoas, entre

outras), tire cópias na quantidade que considerar suficiente para causar o efeito de repetição que você deseja

e cole essas figuras no espaço. Faça intervenções com lápis de cor, canetas ou tinta transparente (pode ser

guache diluída em água, por exemplo). Você pode criar à vontade, colocando palavras, frases, outras figuras

e desenhos. Solte sua imaginação!

gIrO DE IDEI a s : ARTE POÉTicA

Arte é poética? O que é poética?

A arte pode espalhar e espelhar uma ideia, uma opinião sobre um fato ou uma ideologia. A poética é a força de uma obra de arte, é o que faz a diferença entre um objeto do cotidiano e as produções artísticas. Todos nós fazemos diversas atividades no dia a dia; algumas ações são mecâni- cas, outras mais conscientes, intencionais (porque escolhemos fazê-las de determinada maneira). Há algumas coisas que fazemos de modo tão significativo que podemos até dizer: “Isso ficou bom! Isso mostra quem eu sou! Essa é a minha poética!”.

Na arte, a maneira como o artista produz sua obra pode mostrar quem ele é. Seus estilos e pensamentos podem ser revelados na linguagem da arte por meio dos procedimentos e materialida- des escolhidas por ele.

Como podemos perceber a poética na obra dos artistas? Escreva a respeito.

Professor, como ampliação do estudo sobre a poética, proponha aos alunos que tragam exemplos de outras obras de arte e apontem a poética de cada artista.

Solicite uma pesquisa com análise sobre a poética em várias linguagens. Deixe que os alunos escolham qual obra e linguagem querem tratar em seus trabalhos.

Como verificação do aproveitamento, avaliação dos trabalhos e ampliação de estudos, faça um mapa no quadro com palavras-chave das principais questões

que aparecerem nas análises feitas pelos alunos, como, por exemplo, sobre o que os artistas falam em suas obras, como usam materiais para se comunicar

com o público, no que os artistas acreditam em relação à questão “O que é arte?”, entre outras.

EM b US ca D a p OÉ t I ca Projeto experimental de Arte
EM b US ca D a p OÉ t I ca
Projeto experimental de Arte
Vamos criar? Estudamos que muitas coisas podem se tornar arte se tivermos a intenção de dar significados
novos aos objetos e às imagens cotidianas. De embalagens, imagens de celebridades até a uma mosca gigante,
uma nota de dinheiro ou cartaz pendurado em alguém, tudo pode ser assunto para uma obra de arte.
Para criar na arte também é preciso experimentar diferentes materialidades e verificar qual material tem
mais relação com nossa intenção, nossa poética. Qual linguagem você gostou de conhecer e gostaria de
utilizar na criação de sua obra? Qual assunto, qual tema o influencia e estimula? Enfim, qual é a sua poética?
Faça um esboço de suas ideias a seguir.
Professor, como desafio estético,
proponha um trabalho prático em
que os alunos possam escolher
uma linguagem artística e se
expressar pensando sobre qual
é
a sua poética. Pode ser um
desenho, uma intervenção, uma
performance etc. O importante
é
que os alunos planejem como
pretendem realizar a atividade.
Assim, oriente-os para que façam
um esboço das ideias.

tEMa

tEMa Arte é experiência? Anne-Christine/AFP/Getty Images A bailarina alemã Pina Bausch (1940-2009) durante a

Arte é experiência?

Anne-Christine/AFP/Getty Images
Anne-Christine/AFP/Getty Images

A bailarina alemã Pina Bausch (1940-2009) durante a performance da peça Café Müller, em Avignon, França, em 1995.

“A arte existe porque a vida não basta.

Ferreira Gullar (1930-)

Vivemos experiências desde os primeiros minutos de nossas vidas. Algumas são esqueci- das, outras marcam para sempre nossa história. É próprio dos seres humanos contar suas histórias. Quando, por exemplo, nos deparamos com algo que nos emociona, dizemos que tivemos uma expe- riência. Você acha que, para ter experiências na arte, é preciso estar aberto à poesia?

A arte pode nos tocar de modos diferentes. Ter contato com a arte pode proporcionar ex-

periências significativas. Quando observamos uma imagem, assistimos a um filme, a um espetáculo de dança, a uma peça de teatro ou quando ouvimos uma música, sentimos emoções. Essas emo- ções podem ser tão agradáveis como também podem nos provocar sensações de estranhamento ou incômodo. Cada um sente a arte de um jeito diferente

porque somos pessoas com histórias e experiências diversas. Já aconteceu de você ir ao cinema com um amigo e um de vocês se emocionar com as cenas e história do filme, e o outro, não? Isso acontece porque somos seres singulares, com emoções e opiniões exclusivas. Podemos estar em estado de estesia ou anestesiados. Às vezes, temos a intenção de entrar nesse estado sensível, mas pode acontecer de estarmos distraídos. No entanto, podemos ser atraídos por uma música, uma cena de filme, um trecho de um poema ou uma imagem que nos coloca nesse estado.

Estesia: palavra usada pelos gregos antigos para dizer que, quando nos emocionamos com algo, é porque estamos abertos à poesia, em um estado de estesia, ou seja, estamos propícios a sentir.

Sergei Karpukhin/Reuters/Latinstock
Sergei Karpukhin/Reuters/Latinstock

Um observador ao lado da escultura Big Baby, do artista australiano Ron Mueck, na Casa de Leilão Christie, em Moscou, Rússia. Foto de 2011.

O artista australiano Ron Mueck (1958-) especializou-se em criar esculturas hiper-realistas. Em alguns casos, essas esculturas são gigantes; em outros, bem pequenas, cabendo até em uma palma da mão. Estar diante de obras de arte como as dele pode nos provocar sempre algum tipo de reação, seja de estranhamento, de admiração ou de espanto, entre outras.

São imprevisíveis as sensações que alguém pode sentir diante da arte, por causa do repertório cultural de cada um. A emoção diante das coisas, sejam arte ou não, pode acontecer em diferentes espaços e situações. Também nos emocionamos com a visão da natureza ou com o sabor de um alimento. No filme brasileiro O contador de histórias (2009), há uma cena em que a educadora Margherit, vivida pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (1965-) leva, o menino Roberto Carlos

Ramos, personagem vivido pelo ator adolescente Paulinho Mendes, para ver o mar pela primeira vez.

O garoto se emociona e corre para as ondas: o personagem vive uma experiência sensível. Quando

assistimos a essa cena do filme, também podemos nos emocionar com a reação do menino que olha

o mar pela primeira vez. Somos envolvidos por uma cadência de emoções provocadas pela visão da

natureza na existência do personagem e pela apreciação da cena criada na linguagem do cinema.

Nosso conhecimento é construído com base em observações do mundo, pelo acervo da me- mória, pela leitura, pelo estudo e pela imaginação. O jeito de olhar mais sensível vai além de visões externas e adentra a maneira como elas nos tocam. Para que isso ocorra, é preciso estarmos “aber- tos” para senti-las — em estado de estesia.

Cena do filme O contador de histórias, em que contracenam os atores Maria de Medeiros e Paulinho Mendes. Direção de Luiz Villaça. Brasil: Warner Bros Pictures, 2009.

Filme de Luis Villaça. O contador de histórias. Brasil. 2009. Foto: Acervo da Nia Filmes
Filme de Luis Villaça. O contador de histórias. Brasil. 2009. Foto: Acervo da Nia Filmes

gIrO DE IDEI a s: EXPERiÊnciA EsTÉTicA

A experiência estética acontece quando nos sensibilizamos com algo.

Você se lembra de uma situação em que viveu uma experiência estética com uma obra de arte? Pode ter sido ao assistir à cena de um filme, ao visualizar uma imagem, ao ouvir uma música.

Descreva ou desenhe no espaço a seguir uma experiência significativa que você vivenciou por meio de alguma linguagem artística.

que você vivenciou por meio de alguma linguagem artística. Depois de ter feito seu relato em

Depois de ter feito seu relato em forma de desenho ou texto, compartilhe com os colegas em uma roda de conversa.

Professor, forme grupos pequenos para essa dinâmica, de modo que não fique cansativa. Assim, cada aluno pode compartilhar suas experiências com arte e apresentar sua concepção e seu gosto sobre o que considera arte. Proponha, também, que conversem sobre o que apreenderam ao estudar este capitulo.

Capítulo 1 O que é arte?

37

Conversa com o filósofo

Como podemos responder à pergunta: “O que é arte”? Há apenas uma única resposta? Se conseguirmos chegar a alguma conclusão, essa ideia poderá mudar futuramente?

É da natureza humana pensar sobre tudo, ter novas ideias e concepções. Podemos chamar de arte tanto às obras que estão guardadas dentro de museus e galerias quanto aos acontecimentos ar- tísticos, como as performances ou intervenções urbanas? Por quantas linguagens a arte se expressa? São muitas e diversas as linguagens artísticas, como música, dança, teatro, performance, esculturas, pinturas, gravuras, desenhos, objetos. Então, onde está a arte? Dentro ou fora das instituições cultu- rais? Como conhecê-la e reconhecê-la?

São muitas as dúvidas daqueles que se aventuram a estudar a arte em nosso tempo. Para nos ajudar a compreender o universo da arte contemporânea, recorremos ao filósofo, crítico de arte e educador paulista celso Favaretto, em entrevista especial para este livro realizada em maio de 2013.

“A primeira coisa a se dizer é que arte hoje pode ser muitas coisas. Diferentemente do que ocorria até fim do século XIX ou meados do século XX, em que a palavra ‘arte’ significava ‘obra’. E as obras artísticas tinham características muito específicas, carregavam a ideia de serem obras úni- cas, com valores transcendentes, e não um valor imediato que refere à vida e ao cotidiano. No entanto, à medida que os processos experimentais nas artes se desenvolveram de maneira rápida e violenta, a partir das dé- cadas de 1950 e 1960, mas especificamente a partir da Pop Art, houve uma grande explosão de linguagens e tendências, o que ampliou o sentido da ideia de arte. Desse modo, não há um conceito de arte fechado. A arte é aquilo que você encontra como arte. O que isso quer dizer? A arte não pode ser avaliada sem considerar o lugar em que ela foi produzida, ou seja, em seu contexto.”

Resgatando o que você aprendeu

O que é arte? A pergunta que não quer calar!

Ao observarmos as obras dos artistas destacados neste capítulo, podemos concluir que a arte tem mudado nos últimos tempos e que, em cada tempo e lugar, ela teve papéis e funções diferentes. Cada artista criou com base em sua poética e visão de mundo, cada civilização reagiu às criações artísticas, aceitando-as ou não, emocionando-se, tendo experiências estéticas ou não, mas o fato é que a arte está sempre em fluxos, em movimentos, gerando acontecimentos estéticos que mostram como os seres humanos sentem o mundo.

Por essa razão, sabemos que a arte é importante, sabemos o que ela já foi, mas não sabemos o que será, porque a arte está sempre nos surpreendendo e se renovando. Não poderia ser diferente, porque a arte é produto da cultura humana. É a cultura em fluxos.

Agora, reflita e escreva sobre as indagações a seguir.

Fox Photos/Hulton Archive/Getty Images

• Diante das obras apresentadas, o que mais lhe chamou a atenção?

• Qual é a sua opinião sobre o que é arte?

• Sua ideias a respeito de arte mudaram depois de estudar este capítulo?

EXpEDIçãO cULtUraL

Vamos começar uma expedição cultural?

Que tal fazer registros sobre um lugar em que você esteja e sobre como sente e percebe o mundo nesse momento?

Observações sobre o cotidiano podem virar arte posteriormente, como na imagem ao lado, em que vemos um operário fazendo anotações sobre um mundo em transformação.

Leve sempre com você um caderno de ano- tações, que pode se transformar em um
Leve sempre com você um caderno de ano-
tações, que pode se transformar em um “diário de
bordo”, para desenhar, escrever, colar coisas que você
encontrar pela vida.
SPL/LatinstockFoto:D.C.Washington,Congresso,doBibliotecaXV.SéculoVinci.daLeonardo
Um operário no parapeito de um telhado adjacente toma notas

Um operário no parapeito de um telhado adjacente toma notas sobre o colapso Cornhill, em 1. o de agosto de 1927.

Página do caderno de anotações de Leonardo da Vinci (1452-1519), publicado no século XIX.

Capítulo 1 O que é arte?

39