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A paisagem sonora — termo cunhado pelo proprio R. Murray Schafer — é nosso ambiente sonore, 0 sempre presente conjunto de sons, agradaveis € desagradaveis, fortes ¢ fracos, ‘ouivides ou ignorades. com os quais vivemos. ‘Do zumbido das abelhas ao rude da explosao, esse vasto compéndio, sempre em mutacao, de cantos de passaros, britadeiras, musica de camara, gritos, apitos de trem e barulno da -chuva tem feito parte da exist8ncia humana, A afinacdo do mundo € uma exploragao pioneira da paisagem sonora - uma teniativa de descobrir como era elano passado, de analisar e criticar 9 modo como € hoje. de ‘imaginar como seré no futuro. R. Murray Schafer HUNDAGAG EDITORA DA UNESP Heshlonta do Conselho Curodoe Herman Yoorwalé ii Jon Presidonts Gaslihe Marques Neto ator fxocutive Ibilo Heenan’ Borafim Guatero Asiosser Estoril Arionio Colao Ferreira Gono Ealtoriol Académico ‘Nborta Tayeshi hee Cilia Aporeddo Ferrara Tolentino lida thie. Geox Hliabath Crlsevelo Urkinalt Idaborlo Muniz de Armaica Lie Gonrage Marchexan Nikon Ghirerdells Povlo Gisar Correa Borges Soigio Viento Mote Vicon Plater (toreAssisientes Avlomsen Robore Niole Zebber Ligio Ceemo Cantera R. Murray Schafer A afinagdo do mundo Uma exploragéo pioneira pela historia passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora Tradugdo Marisa Trench Fonterrada Unese © 19778, Minty Schofor The Tining of the Warld © 1997 de adugoo bras: Fundogba Estos do UNESP {FEU} j Proga da 86, 108 1D01-700~ Sao Faule SF Tols (Out!) 3242-7171 Fx: (Qvel1) 3242-7172 www/aditora unasp. be Tiulo original em ingh omlivariaunespicombr ou@edttora.unesp.br Devdos Intenacionsie de Catalagasss na Puslenss (CIP) [Cémora Brasileira ds Uwro, $F Brel Seon seo ‘alinacao co mune: unaeleragsapienete pla Hla peasedae pla baled so mais nasligeniedoasoede do sto embiente: epaisconm sonore. NuroySchafr: treo Mario Tench Feta SnPovler Edt UNESE 200) "il original: he Tosing he Wo, Tioga, savas.7139.3522 |. thiico Acta fico 2. MékicoFlesiawetiiea 3. Som Tul ovtrar eop7e14 dco pare caldiogo sstemdtice: 1. Mision: Aedes @ fies 781.1 Sth tn Se : euee lise Agradecimentos Nossos agadecimentos pela permissio de utlisar material previamente ediado, J Brill Gedfico de “The Spectographic Analysis of Sound Signals of Use Domest Foul, de N, Collins © M, Joos, osiginlmente publicido em Behaviour, VV. Cambridge University Press: Gritico de Bird Song, de We HL. Thorpe, © 1961, p63 Timbem seis versos de Teocrtne, exgankzaco e waduzide por A. S, T Gow, @ 1950, vA Myf lake, Irwin & Company Lites: excertos de Hundreds and Thousands, de Ply Cat, © 1966 de Clarke, Irwin and Company Lite. Harcount Brice Jovaroviteh, Inc: Excertes de Tecbnics and Civilization, de Lew Mumiord, © 1934 Indaana University Pres: excenos de Rormatized ses de tans Xenakis, © 2971, p, 9) ‘New Directions Publching Cofporation e Plsee and Faber Limited: 28 vercs de Gani f {aq veros de Canto XV7L Repulicagio de Os cantacde Ears Pound, © 1634 de Wn Pound Penguie Books Limited: nave vertos de Pastoral Poems de Vino, acide por. \: Ries, © 1954, de EV, Be University of Chicago Press: Versox 43-4 € 291-6 de Georgies, Lio 1 de Viggo, traduido por Smith Palmer Sevie, © 1956 da University of Chisago University of thinols Press Pigun 8 cle fyformatin Theory and Esthote Porseption AAbrafam Moles, © 1966 de Board of Trustees of the University of Tinos ‘nivensty of Michigan Press: verso 67894 e £29-35 de Theogomy de Hesfodo tc tio pork Latinvre, © 1G. E também oo vores G45 de Werk and Days de Hesico, traduzido por B.Tauinore, © 1968. Wiliam Alanson White Psychiatrie Fouedation, Inc: pequends excestos des p-308-10 de *Culture, Paychiatry, and the Werten Word’, de J, C. Carothers, Reimpiesso Ge Pyychtotry, 22 cle novenleo, BP, Aes meus colaboradores ito Projeto Paisagem Sonora Mundial. Preficio 9 Preficio A ediclo brasiteira 11 inrodugio 17 Parte | ‘As primeiros paisogens sonoras 1A paisagem sonoma natural 23 2 Os sons da vida 53 3 A paisagem sonora rural 71 4 Do vilarejo a cidade 85 Parte Il A paisagem sonora pés-industrial 3 A Revolucdo Industrial 107 6 A Revolueao Elétrict 131 Interlidio. 7. Musica, paisagem sonora e mudangas na percepeio 151 a ADU oe aes Parte Ill Andlise 8 Notwgto 175 9 Glassificigio 189 10 Perepeio 213 I Morfologia 227 12 Simbolismo 239 13 Ruido 255 Parte IV Em direcao ao projeto acistico 14 Audigao 287 15 A comunidade acistica 299 16 Ritmo e tempo na paisagem sonora 915 17 © projetisaa actstico 229 1s ¢ 19 Jim sonore 341 ncio 381 Kpilogo—A misica de além 359 Glossério de temas relatives 2 paisagem sonora 263 Apéndices 1 Amostragem de sistemas de notagio sonora 371 2 Pesquisa internacional de preferéncia sonora 378 Indice remissivo 377 Prefécio Desde que comecei a estudar o ambiente acistico, tenho tido a esperins fa de reunit meus texos a respeito desse tema em um livro que pudesse servir de guia para futuras pesquisas. Por esse motive, neste lio ul extensamente muitas de minhas publicagdes anteriores, em especial os livretos ‘The New Soundscape LA nova paisagem sonora’ ¢ The Book of NoselO huro do muda) ¢ varios documentos do Prejeio Paisagem Sonora Mundial, particu Jarmente 0 ensaio “The Music of the Environment’ [A musica do ambiente"] € © nosso primeiro estudo de campo, The Vancouver Soundscape 1A palsit- ‘gem sonora de Vancotwwer\, Mas tento dar 2 esse material fugidio uma org nizaco mais cuidadosa. Como certos dados vieram de remotas fontes, € como tenho refleticlo mulio ou tecebido estimulos de meus companhciros de peoquisa, varias das minhos primeiras suposicbes foram revistas ou abanconadas. Q- presente livro é tho definitivo quanto possivel, mas, como somente Deus sabe as coisas com certeza, ainda se deve tamé-lo como experimental, Grande parte do material deste livro fol evelada pelo estudo internacional denominade Projeto Paisagem Sonora Mundial, que muitas agéncias finan- ciadoras ajuclaram a manter, Tenho um grande débito de gratidio pant com meus colaboradores imedistos do Projetn, por nossos incontaveis ¢ esimulan- tes enconitos € cliscuss6es. Este livro € tanto deles quanto meu, pois eles 1 Eine vet tansformou-se mais tarde em umn dos caphulos Ue The Thinking Bar, publica fa Baal sob o itu © overdo pensante(Si0 Paulo: Edtora UNESE, 1991). ON.) ‘R Murray Schafer am € forneceram-me dadas € palavras de incentive, Agridego particulammente a Hildegarel Westerkamp, Howard Broomfield, Bruce Davis, Voter Huse e Barry Trax. Jean Reed, hoje minha mulher, foi uma colaborade- 4 muito especial, que confrontou Fontes de informa: Gos ¢ tolerou as mudancas de humor do autor. Diverses pesquisadores, em diferentes disciplinas, t@m encorajado a reall zagao de estudos a respeito da paisagein sonora. Muitos deles leram partes deste liveo © colaboraram com valiosos comentitios, Outros sugeriram novos Singulos de investigecio ou enviaram materiais de paises que, de cutro mado, nto poderiam ter side obtidos. Querw agradecer particulumente acs seguin- les pesquissdlores: Professor Kurt Blaukopfé Dr. Desmond Mark, do Tastinuto sle Misica, Dana ¢ Teatro de Viena; GS, Métauxe Anny Malroux, da Unesco, Patis; Dr. Philip Dickinson, do Depasta engenharia da Univers. ‘ucle de Utah; Professor John Layge, do Instituto de Pesquisa do Som e Vibra- Gla ca Universidade de Southampton; Dr, David Lowenthal, do Departamento ke Geografia do University College, Londres; Dr. Peter Csuvald, do Instituto Neuropsiquidirico Langley Porter da Universidacle da CalifSrnia; Marshall Mecluhen, do Centro de Cultura € Tecnologia da Universidade de Toronto; Michel P. Philippot, dé Instituto Nacional do Audiovisval, Paris; Dra. Catherine His, da Universidade de Adelaide; Professor John Paynter, cla Universidade de York; Professor JeanJacques Nattie2, da Universidade de Montreal; © Profes: sor Pat Shand, ca Universidade de ‘Toronto. ida le encorajamento a pe 19, leu numeroses esbo- nenta dle Bio. Tenho uma d ‘especial para com Yehudi Menuhin, por seu constat juisa da paisagem sonora, e para com o Dr. Oita Laske, pelos valiosos comentirios que teceu a respeito de meu texto. © Projeto Paisagem Sonora Mundial nao pocleria ostentar esse titulo sem ‘05 numerosos relatos ¢ verificacdies realizados em diversos paises. Por forne- corem informagbes especiais ou haverem auxiliado em stia tradlucio, agra- dego a; David Ahern, Carlos Aratijo, Renata Braun, Junko Carothers, Mieko Skegame, Roger Lenzi, Beverley Matsu, Judith Maxie, Albert Mayr, Marc Métraux, Walter Ooya, John Rimmer, Thotkell Sigurbjérnsson, Turgut Var © Yogve Witkander. Nick Reed merece agradecimentns especiais, pela valiosa pesquisa em bibliotecas. Agradeco a Pat Tait, Janet Knudson Linda Clark, pela datilografia de humerosos rascunhos de manuscrito. Quando um autor fica mudando de in a todo momento, 0 servico dos datilégrafos € o mais drduo de todos. K Murray Schafer Vanoouver, agosto de 1976 Prefacio & edigéo brasileira O aparecimento de 4 afinagito do mundo em portugues me dda oor tunidade para tecer alguns comentitios breves a respeito da evolucio dt paisagem sonora, desde sua publicacio original, em 1977. Acredito que sxe livro fol a primeiza tentativa de estudar 0 ambiente actstico de manci- 1a sistemética, Mew objetivo era mostrar de que modo @ paisagem Sonos havia evoluido no decorrer da historia e€ de que modo as mudangas por que passou podem terafetado nosso comportamento. Queria também que as pesscas percebessem que a paisagem sonora € dindmica, transformzvel e, assim, possivel de ser aperfeigoadla. Naturalmente, a expressio soundscape! n2io exisiia quando comecei &, dese modo, a nogao de que 9 ambiente acistico poderia tornar-se um campo de pesquisa nao ert ainda bem avaliada, Tive de inventer meu proprio Vocabukirlo, &@ medida que © conceito evoluia: ecologia aciistica, esquizofonia, marca sonora, som fundamental etc. alguns desses terms passaram a integrat o vocabu- lsio de varias linguas. Outros foram mal compreendidos ou remodelados para servir a interesses comerciais. For exemplo, um andncfo em urna cio convida voce a “fazer'a paisagem sonora de revista americana de com seu escritério”, no sentido de acrescentar divisées actisticas part espacos externos; e, embora determingda companhia aérea tenha um certo tipo de 1 Soundscape ¢ um ncologisno cado pelo aor e que fen ako comenmuslmeme sadurid, aos pases Itinos, por "palsagem soron” (NT) Bi Murray Straten ge’ cm Seu programa intitulado “Soundscapes’, a palavri ind conserva seu significado aut@ntico para um nimero crescente de pesquistdores ¢ educadores em todo o mundo. Fxiste agora The World Porm for Acoustic Ecology [Féram Mundial de Ecologia Actstica}, que publica um notiekitie chamado Soundscape Newsletter (Noticias da paisa gem sonora e um Anuétio com pesquisas a respeito dese tema, HA tam- hein onganizagses que tratam da paisagem sonora em muitos paises, © Muilas conferEncias nacionais ¢ intemacionais foram realizadas nos anos mais fecentes, Naturalmente, o inipacto dessas atividades na evolugao da dial tem sido pequeno. Sempre achei que a educa- ‘go publica € 0 mais importante aspecto do nosso trabalho. Em primeiro lugar, precisamos ensinar as pessoas como ouvir mais cuidadosa € critica Inente 4 paisagem sonora: depois, precisamos solicitar sua ajuda p: feplancida, Fim uma sociechdte verdacleiramente demoerstica, a paisagem Sonor seri plinejada por aqueles que nela vivem, ¢ no por forgas impe- rialistas vindas de fora A maior parte dos sons que ouvimos nas cidades, hoje em dia, peitea- ce @ alguém e € utilizada retoricamente para atrair nossa atengo ow para neler alguma coisa. A medida que a guerra pela posse de nossos ouvidos aumenta, ¢ mundo fica cada vex mais superpovoado de sons, mas, 30 mesmo tempo, a variedade de alguns deles decresce. Sons manu= palsagem sonora mu faturades sao uniformes ¢, quanto mais eles dominam a paisagem sonora, mais homog gem sonora arual, Flas precisam ser protegiclas, do mesmo mado que a natureza. De fato, muitos dos sons em extingao sto sons da natureza, dos quais as pessoas cada vez. mais se alienam, Seed que o mundo € hoje mats barulhento do que vinte anos atrés? Naturalmente, o mimero de sons aumenta na medida em que a papula- to cresce, mas cle tambem se expande com o desenvolvimento das novas tecnologias. Como tnico exemplo, tomemos o telefone celular, lum sucesso quase instantineo, agora presente em toda parte, em trens, has (as, nos restaurantes Ou aas salas de aula. © equivalente a isso, em 1960, foi o riclio transistorizado. Perturbadlor para muitos, o ridio teansisto- tizado conferiu identidade actistica a uma classe de pessoas que até aquele lempo permanecia completamente invisivel, especialmente negios ¢ ado- lescentes. (Do mesmo modo, 0s trabalhadores tornaram-se visiveis quan- © pas por méquinas de terraplenagem.) No mo- nea ela se torna. Ha mi s “espécies em extingio” na paisa- aa PR AIRD CO NEO mento, 0 lelefone celular recuperou a superioridade das elassen abaasta das, que posten anunciar sua importinela a qualquer pessiod que eMelt uo aleanee de sua vor. ons sugridos” do mundo, a perpétua necessichde da policit hem 4 indkistia da aviaglo renunciou 40 novit © de outeas sirenes permane seu clamor como 0 negocio mais ruidoso do mundo. Enquanto ei eragdo de jatos € alguns decibéis mais silencioga do que as prececentes, 6 enorme aumento no timer de vos deixou em farrapos alaximas das amente conquistadas nos anas 60 € 70, tais como a intertup: ‘20 dos vdos noturnes nos maiores aeroporios. Somente 0s jatos de CarK auiientaram mais de 2.000% em trinta anos nos EUA, Feliz ou infelizanente, 4 previsto de que as mais recentes tecnologias da comunicagio mundial idade de viagens aéreas, do mesmo modo que tantas ‘outmas previsoes, mosirou estar errada. recuziriam a neces A afinagdo do mundo & © relato histérico da paisagem sonora alé 1975. Os fatos contidos no livro permanecem validos, ¢ muitas teorias © imétodos de pesquisa foram confirmados pelas numeroeas tincugbes € revel ‘ces do livia em minha prOpria lingua. Sou grato a minha colega e amiga Professora Marisa Fonterrada, «ue ff taduzin O ouvidlo pensante, por U duzir A afinagao do mundo para 0 portugues. Espero que esta traduca possa inspirar jovens pesquisacores no Brasil € em Portugal a investigar aspectos de suas proprias paisagens sonoras, que so tnicas, fascinantes @ para os que no as conhecem, exéticas. R. Murray Schafer Sao Pavlo, 8 de novembro ce 1998 Nilogavun de “The Tuning ofthe Would? do Uiiuague Coot Lfeteria, de Halve Fadel (1817), Introdugdo. Now Leif do notbing bus sien. Tear all sounds running togetoer, combined, fused or following, Sounds of the city and sounds out ofthe city, sounds ‘aj the day and night ‘Walt Whiman, Songs of Mysel™ ‘A paisagem sonora do mundo esta mudancdlo. © hemem modemo comes a habitar um mundo que tem uni ambiente actistico radicalmente diverso de qualquer outso que tenha conhecido até aqui, Esses novos sons, que diferem em qualidade ¢ intensidade caqueles do passado, tém alerado muh tos pesquisicores quanto aos perigos de uma difusio indiscriminada ¢ impe- rialisia de sons, cm maior quantidade © volume, em cada reduto da vidi humana, A poluigio sonora & hoje um problema mundial. Pode-se dizer que ccm todo 9 mundo a paisagem sonora ating 0 ipice da vulgaricade em nosso tempo, e muitos especialistas tem predito a surdez universal como actin conseqiiéncia desse fendmeno, a menos que © problema venha a ser rapid mente controlado. 1 Ageea nada faco além de ouvs (Ono rodos 0s sons que corre juntos, combinados, que ae fanden oe secede, Son da clade de fora ci cca, som do dia eds noite..(8.) _ ENTTEY Sane: ‘bin varias partes do mundo, importantes pesquisas estao sendo efewuadas fon) muitas reas independentes de estuddos sBnicos: actistica, psico-uctistic otolopla, praticas e procedimentos internacionais de controle do ruido, co- munjeagoes © engenharia de registos sonoros (miisica eletroxctatica c ele- , peroepeo de padres aucitives e andilise estrutural da linguagem e a. Essa pesquinas sito interrelacionadas, e cadat vin delas refere- se a aspectos da paisagem sonora munca pesquisadores que se dedicam a esses vaclados teinas esto fazendo a mes- ‘nit perguinta: Qual é a relagao entre os homens @ os sons de s2u ambiente e que acontece quando esses sons se modificany Os estudos a respeito da ppalsigem sonors tentam unificar essas diferentes pesquisas, A poluigto sonora ocore quantlo © homem nao ouve cuickadosamente. Ruidos so os sons que aprendemos 4 ignorar: A poluigdo sonora vein comibatida pela diminuigto do ruido, Essa & uma abordagem negativa, Pre= cisamos procurar um muaneira cke tomnar a accistica ambiental um programa tronics la mn De um modo au de extra, os dle estudos positive. Que sons queremos preservar, encorajar, muiplicad? Quando soubermos responder a ess pengunta, os sons desagetdaveis ou dlestrutivos precominario « tal ponto que saberemos por que devemos climiné-los. Somente uma total apreciacaio do ambiente actistico pode nes dar recursos para aperfcigoar a orquestraio da paisa Hi muitos anos venho Iunando em prol da impeza de ouvidlos nas excol «la climinagao da auciomeria nas fabricas. Clariaudigncia, € nto ouvides sonoma mundial, amortecidlos: eis uma idéia ca qual nio desejo ter a posse permanente © terrk6rio basico dos estudos da paisagem sonora estara situzdo a mneio caminho entre a ciéncia, « sociedade ¢ as artes. Com a actistica € a psico-actstica aprenderemos a respeito das propriedlades fisicas do som e ‘Jomodo pelo qual este € interpretadlo pelo eérebro humano. Corn 2 socie- dade aprendleremos como o homem se comporta com os sons 2 dle que nc moxlificam o seu Comportamento, Com as artes, € particularmente com a miisica, aprencleremos de que moro o homem cri paisagens sonoras ideals para aquela outra vida que é a da imaginagao e «la reflexo psiquiea. Com os fundamentos dle uma nova interdisciplina ~ 0 projeto actistico. maneirt estes afet © nesses estudos, comegaremos @ construir Do projeto industrial co projeto actistico A mais importante revolugio na edueacio estética do século XX foi aquela realizada pela Bauhaus, a mais célebre escola de arte lem dese a Aatinagte de mundo soulo. Sob a lideranga do arquiteto Walter Gropius, a Bauhaus reunta alguns dos maiores pintores e arquitetos do tempo (lee, Kandinsky, Moholy-Nagy, Mies van der Rohe) a artestos de reconhecida compete cia, Em principio, pareceu desapontador 0 lato de nenhuin dos grad dos por essa escoli aleangar a mesma notorieckade dos seus orientaclore: Mas 0 prop cola era outro. A sinengia interdiseiplinar das habic lidades dos membros permitiu estabelecer um novo campo de estudos sr idustrial. A Bauhaus levon a estéticn a maquinaria ea procucao de massa Cabe-nos agora criar uma interdisciplina que podertamos chamar projeto aciistico, na qual muisicos, engenheiros actisticos, psicdlogon, socidlogos € outros estudariam em conjunto a paisagem sonora mun: dial, © que nas capacitaria a fazer recomendacdes inteligentes para sua melhoria, Esse estudo teria por objetivo documentar aspectos im- portantes dos sons, observar suas diferengas, semelhancas ¢ tendéncias, 0, estudar os ef ito cla es iplina chamada projeto s dos novos colecionar sons ameacatlos de eatin sons antes que eles Fossem colocados in te, estudar o rico simbolismo des sons € os padrdes do comportamento humano em diferentes ambientes sonoros, com o fim de aplicar conheci- mento 20 planejamento de faturos ambientes, Dados interculturais dle todo © mundo precisam ser cuidadosamente reunites e interpretados, Novos métodos de educar 9 piblico pant a importéncia do ambiente sonore precisam ser criados. A questio final seri: A paisagem sonora mundial € uma composi¢ao Incleterminadla, sobre a qual nao Lemos controle, ou seremos n6s, os seus Compositores e executantes, encarte gados de dar-lhe forma e beleza? liscriminadamente no ambien- Orquestracdo é assunto para musicos jarel do mundo como uma composigao No tanscurso deste livro, 1a musical macrocdsmica. Essa é ume idéia insélita, mas vou levit-la inexo- ravelmente adiante, A definicio de mésica tem sofido uma mudanga radical nos éltimos anos, Numa das mais recentes, John Cage declerou *Misica é sons, sons 4 nossa vali, quer estejamos dentro on fora das salas de concerto ~ vejam Thoreau’. Cage esta aludindo a Walden, de ar MAUPOY eNO Thoreau, onde © autor descobre uma inesgotavel fonte de entretenimen- lo nos sons ¢ visdes da natureza.? Definie @ miisica meramente como sons teria sido impensivel alguns Anos atris, embora hoje as definigdes mais restrtas sejam as que se (em revelade mais inacei 44s definicoes tadicionais de musica foram caindo por tera em razio da Alinclunte atividade dos préprios mtisicos. Em primeiru lugar, pelt enorme xpansao dos instrumentos de percussio nas nossas orquestras, mutes dos {quals produzem sons sem altura definida ou amrimicos; depois, pela intro- cle procecimentos alestérios, nos quis todas as tentativas para onga- izar os sons de uma composicio racional foram suplantadas pelas leis ‘mais altas? da entropia; em seguida, pela abertura dos recipicrites espuco- lemporais que chamamas de ‘composigdes* ou “salas de concerto” para permitir a introdugao de toclo uni inundo nove de sons situades fora delas (om 4 33" Silence de Cage, ouvimes apenas os sons externos ’ propria compesicao, que nao passa de uma cesura prolongada); depois, pelas prsti- ‘eas a maesique cone Pouce a pouco, no decorrer do século XX, todas te [musica concretal, que insere qualquer som ambiental composicio por via da fita;¢, finalmente, pela miisica elesrénica, que em (odo 9 mundo nos tm revelado toda uma nova gama de sons musicais, muitos deles relacionados com a tecnologia industrial ¢ elétrica. Hoje, todos os sons fazem parte de um campo continuo de possibili dles, que perience ao dominio compreensivo det miisica. Bis a nova orques- int 0 universo sonore! E os muisicos: qualquer um e qualquer coisa que soet Conceito dionisiaco versus 0 conceito apolineo de musica F mais facil perceber as responsabilidacles da engenharia zctistica ou ka audiologia pera com a paisagem sonora mundial do que entender a cata maneira pela qual © misico contempos vasto tema, Daf eu bater na mesma teda mais algum tempo, Ha duas idéias basicas a respeito do que a mdisica € ou deveria ser. Elas mifos gregos que explicam a neo pretend ligar-se a esse podem ser vistas mais claramente em dl 2 Aud BBL Schafer: The Now Soandicape. Londen, Viet, 197, pl. bet RM, Schafer. 0 nto pensance. S20 VaQlo: Baioes UNESP, 1991/1995, “a Nakivagtes de ruindes origem dla miisica Nas Doze odes phicas, Pinduro nos conta como a arte de tocar 0 aves? fol inyentda por Palas-Atena quando, apos a decapitagle jou um nomas! en) chy Meclasa, elt se comoveu com o choro das in sua honra, Num hino homérico em louvor a Hermes, uma origem alterna: 2 lea foi inventada por Hermes quanclo ele tiv € mencionacla. Dizsse qu pereheu que 2 carapaca de uma tartan de ressonfincia, poderia produzir som. No ptimeiro desses mitos, & mtisica surge como emogito subjet segundo, € 0 resultado da descoberta das propriedades sonons los mate riais do universo. Tais sto os furidamentes sobre os Guais todas as teorlas se fosse utilizada como caix ne. Satacteristicamente, a lira @ 0 da misica subseqtientes estio fundadas. instrumento de Homero, da epopéia, da serena contemplacao do univer So, enquanto 0 ctulos (o obo€ com palheta) € 6 instrumento da exaltagiho € ca tragédia, 0 instrumento do ditirambo* e do drama. A tira & o instrumen: to de Apolo, 0 atdlosdos festivais de Dioniso, No mito dionistaco, a musica é concebida come um som interno, que irrompe do peito do homens; no mito apolineo, ela é compreendida como som extemo, enviado por Deus para nos lembrar‘a harmonia do universo. Na visto apolinea, a musica ¢ ‘exata, serena, matematica, associacla 2s visdes transcendentais da [opi & ch Harmonia das Esferas, E também a andbata dos teoncos hindus. a base da especulacio de Pitfgoras € dos teSricos medievais poca em qe 4 miisica era ensinada como uma disciplina do quadrivium, ao lado da aritmetica, da geomettia ¢ da astronomia), bem como da técnica de com: posigio sobre doze notas de Schoenberg.® Sus métodos de exposigio so 4s teorias dos ntimeros. Ela busca harmonizar o mundo pelo projeto actis tico, Na visio dionisiica, a milsica € Inacional e subjetira. Bla empreya icdes temporais, cbscurecimento da dimimica recursos expressives: flat coloracio tonal, Ea miisica de paleo operistico, do bel canto, € sua vor 3 Autos Wsrunento de palheta dupla, entecessor do maclerio obos, astante somhecido ns Grecia antiga. N.'E) 4 omos na Grecia antiga, melodia interivels 4S Quats se attbuls inluéncs mga ov ritual Provinces dt comunicacio diving, sonerte um grande isa nha o poder de eee los. Ds moras enim. cesigradas pelo deus que louvavatn Coastltar Miso de Andrade, Poquoma bier da misioa ed Belo Korzante: atiaia, 1907. p30.(N. 7) 5. Diinamde, composivio de ence ¢ verso inegulases qe expsmem entasiamn ¢ dil [Na Greeia aciga, er: 0 canto em louvor 3 Buca (Dions0). &N. 7) 6 O autor referee a0 métcdo de composirie dodecafnica, (N. T) baa i as ail lagucht @ penetrante pode uumbem ser ouvida nas Patxoes de Bach. £ so: bretuclo a expresso musical do antista romantico, tendo prevalecido du- hunte todo 0 século XIX € no exptessionismo do século Xx. Ainda hoje & cla que preside & formagio dos misic Pelo fato de a producto de sons ser, em grande parte, uma questio subjetiva do homem moderna, a paisagem sonora contemposinea € notivel por seu hedonismo dindmico. A pesquisa que pretendo descrever repre- Sena uma reafizmacao da maisica como busca clas influéncias harmonizado- ay dos sons do mundo sobre nds. Em Urulsque Cosmt Historia, de Robert Hild, hd uma ilustragio entitulads “A afinagio do mundo? na qual a Tera formu 0 corpo de um instrumento sobre o qual corcas so esticadas e afina- chs por mao divina. E preciso reencontrar 0 segreddo dessa afinagav. A mosica, a paisagem sonora eo bem-estar social Em 0 jogo das contas de vidro, Hermann Hesse nos apiesenta uta Gin interessante. Diz ele ter encontraclo tima teeria 2 respeita da relagio eatie a mdsica e 0 Estado numa antiga fonte chinesa: “Por isso, 2 mtisica de uma época harmoniosa & c: muisica de uma €poca inquieta € excitada e colérica, € seu governo & mau. A mitisica de uma nagio em decackncia € sentimental ¢ triste, ¢ seu gover- ho corre perigo".* Essa teorla poderia sugerir que 0 igualitrio e iluminista reinado de Maria Teresa (por exemplo, como est expresso em seu cédigo criminal Uunificado, de 1768) ea graca e 0 equilibrio da mtisica de Mozart nao sie \cidentais. Ou que as extravagincias sentimentis de Richard Strtuss est20 perfeitamente de acordo com o declinio do Império Austro-hangaro. Em Gusay Mahler encontramos, esboradas por dcida mao judaica, marchas € alemas de tal sar a jovial, e€ 0 govemo equilibrado. A iemo que nclas temos uma espécie de antevisio ks dance macabre (danca macabral politica que logo se seguiria A tese € igualmente confinmada nas sociedades tribais em que, sob 0 esstito controle da comunidade préspera, 2 miisica é firmemente estru- 7 the Tuning ofthe Wore. em inglés, cue dew tilo a0 reser lvra em sua verso original wT Heimann Hest. The Glas Bose Gane. New or, 1969, 930 el. brs: © jogo descents de id. rid, Lavina Abreoctes Vint © Five Vieira de Sasza. Sko Paulo: Basliense, 19721 ag Aalinagto do mundo Huricla, enquanto nas dreds destribalizdas o% individuos caniam hont tis, Qualquer etnomusicologe pode vonfirmar esi veils cangbes sentimen sicw & wm indie is mensagens is ¢ mesiio aliemagito, Resta pouea diivida, portanto, de que an dor da €poca, revelando, para os que sabem como ler su sintom um modo de reordenar acontecimentos 0 politicos Desde algum tempo, eu também acredito que 9 ambiente actistico dor das condigdes sgoril de uma Sociedade pode ser lide como um indi 5 que.0 produzem e nos contar muita coisa a respeito das tendencias social da evolugio dessa sociedad. No decorrer deste liveo, vou sugerir mullas €, embora minha natureza me leve provavelmente 4 fi70- modo enfaties, espero que © leltor possa continuar a consider método vilido mesmo se alguumas equuacdes parecerem desagradaveis, Tockis elas este abertas a Investigagoes posteriores A notagao da paisagem sonora (sonografia) A paiisagem sonora € qualquer campo de esiudo aefstioo, Podemos referi-nos @ uma composiglo musical, a um programa de ratio ou mesmo aun ambiente actstico como perisagens sonoras Podemos isolar um ambiente acvstico como um campo de estudo, do mesmo moda que podemos esti dar as careteriaticas de uma determined paisagem. Todavia, formular urna impressio exata de uma paisigem sonora é mais dificil do que a de uma pale sagem visuell. No existe nada em sonografla que comesponda & Impressio instantanea que a fotografia consegue criar. Com uma cimers, € possivel dletectar os falos relevantes cle um panorama visual e criar uma impressid imediatamente evidente. O microfone nao opera dessa maneira. Bie faz uma amostragem de pormenores € nos fornece uma impressio semelhante & de um close, mas nada que corresponds « uma fotografia a€rea. Do mesmo modo, enquanto qualquer pessoa tem alguma experi@ncla na leitura de mapas € muitos podem extrair informagdes significativas de outros diagramas da paisagem visual, como plantas arquitetonicas ou mi- pas executaclos por gedgrafos, pouices conseguem ler as elaboradissimns Cartas utilizadas pelos foneticistas, engenhelros actisticos ou mUsicos, Dit ‘uma imagem totalmente convineente de uma paisagem sonoma requer habi lidade e pacénéia extraordi i rias: seria necessirio fazer milhares de grave Murray sehater goes © dlezenas dle mitbares de medigdes, € um nove modo de descricaio teria que ser inventado. Uma ¢ vistos, Para al sagem sonora consiste em eventos oumidase mio em objetos m cht peroep¢lo auditiva esto a nomagio ea fotografia dos Mons, que, por serem silentes, apresentam certos problemas que serio isoutides num capitulo especial, na seco “Andlise’ deste livro. Infeliz- Inenle, por apresentar os noss0s dados em. paginas silenciosas, antes dessa remos forcados 4 utilizar alguns tipos de projecio visual e tam. hem de notagae musical, ¢ eles somente serio siteis se puclerem abrir os ouviddes ¢ estimular 9 clariauclianeia Estamos numa posicéo igualmente desvantajosa quando se trata de buscar uma perspectiva histérica para 0 objeto de nosso esiudo, Embora isponhamos de muias fotos tiradas em épacas diferentes ¢, antes delas, dle desenhos © mapas que nos mostram como um determinado cenario se modificou com o pass mos fazer inferéncias no « 1s miudancas sobrevindas na paisagem sonora. Podemos saber exatamente quantes edificios foram construfdos numa determinada rea ao longo de inte dos anos, preci uma década ou qual foi © crescimento da populago, mas nao sabemos Mlizet em quantos decibels o nivel de ruido ambiental pode ter aumentado fem um periodo de tempo comparivel. Mais que isso: os sons podem ser iilientdos ov desaparecer © merecer apenas. parcos comentarios, mesmo por parte do mais sensivel dos historiadores. Assim, embora possamos utilizar modernas téenicas de grava aisagens yonoras contemporineas, para fundamentar as perspectivas historias te- remos que nos voltar part o relato de testemunhas auditivas da literatura ¢ cla mitologia, bem coma aos registros antropoldgicos € histéricos, ‘lise no estudo das O testemunho auditivo A primeira parte deste livro tem uma divida especial para com tis relatos. Sempre procuret ir diretamente as fontes. Assim, um escritor so € considerado fidedigno quando escreve a sespeito de sons diretamente iaclos ¢ intimamente conhecidos. Escrever sobre outros lugares © pocas costuma resultar em descrigdes simulacks. Para tomar um exemplo Obvio, quando Jonathan Swift desereve as cataratas do Niégara dizendo fazem um “barulho terrivel € cayo", ficamos sabeado que ele PURE YO WO MUN hunea esteve ki, mas quando Chateaubriand relass que, em 1794, ouviu o nupiclo das cataritas do Nidgara a oito ou dez milbas de distancia, fornece- hos un Oeil informagao a respeito do nivel do som ambiental, com o qual rar o nivel sonore de hoje. Quando um escritor escreve se poxteria comps de modo vercadeiro a respeito de experiéncias diretamente apreendidas, as vezes os ouvidos podem burlar o eérebro, como Erich Maria Remarque deseobriu nas trincheiras, durante 2 Primeira Guerra Mundizl, quando a vi granadas explodindo perto dete, seguiclas pelo estrondo da arilharia distance que as disparava, Essa ilusio audlitiva & perfeitamente explicivel porque, deslocando-se a velocidades supersGnicas, as granadas chegavam antes dos sons da detonacio original, mas somente alguém com Formacao 4 teria previsto esse fenémeno, Nada de novo no front? € con- nele quando descreve em acts Vincente porque 0 autor estava Id. E acreditam ‘outros eventos sonoros nao-usuais — por exemplo, os sons produzidos pelos cadaveres: “Os dias sto queates e 0s mortos jazem desenterractcs, Nao podemos ir buscar todos, nao saberiamos 9 que fazer com cles. Nao precisamos, porém, nos preocuparmos: sto enterrados pelas granacdas. Alguns tm as bavrigas inchadas como baloes, assobiam, arrotam © me- xemece, So 0s gases que se agitam neles".!? William Faulkner também comhecia 6 barulho dos cadiveres, que ele descreve como “pequenas ex plosdes gotejantes de secreto ¢ murmurante berbulhat’.!! Assim se estabelece a autenticidade da testemunha. Um (lento espe- cial permitiu a somancistas como Tolst6i, Thomas Hardy ¢ Thomas Mann capturar as paisagens sononis de seus lugares e épocas, € tais desericdes constiuem o mellior guia disponivel na reconstrucio das paisagens sono- ras do pasado, Aspectos da paisagem sonora © que o analista da paisagem sonora precisa fazer, em primeiro lugar, € deseobrir o8 seus aspectos significativos, aqueles sons que sto impostan- tes por causa de sus individualidade, quantidade ou preponderincia. Fi- 9 Brith Maia Remarue. A Quer on the Westorn Front Boston, 1929, xer- exp. 4. fe. be [Nada de novo vo front Trad. Helen Rumianeck, Sto Paulo: Abril altura, 1981 10 thider, p12. 11 Wiliam Faulkner. Ax ey Dying. New Yor, 1950, 202, a a al al nahnente, alygum sistema de classificagao genérica tera que ser delineadk, © @s6e seri 6 tema da Parte Itt deste livro, Para seri suficiente categorizar os principais temas da paisigem sonora, distin- suilndo entre o que chamamos de sons fundamentals, sinais marcas sonoras A estes poderiamos acrescentar os Sons arquetipicos, aqueles mnisterio-sos sons antigos, n2o raro imbuidos de oportuno simbolismo, que hherdamos cla alta Antigtidade ou da Pré-hietria, Som findamentalé um testo musical. Ea nota que identifica a escala 001 tonalidade de uma determinada composigdo. fa Ancora ou som basico, embora © material possi modular 31 sua volta, obscurecendo a sua inn portincis, € em referéncia a esse ponto que tudo o mais assume o seu sigoit clentemente; ele as duas primeims partes, lo especial. Os sons funsiamentais mio precisam ser ouvidos cons- 10 entreouvides mas néio podem ser examinados, jé que se tomam habitos auditivos, a despeito deles mesinos. O psicslogo da peroepcio visual fala de “figura” e “fundo". A figura & vista, enquanto o funclo s6 existe para dar a figura seu contomo e sua r Mas a figura nao pode existir sem o fundo, subtraia-se o fundo, ¢ a fi se tornard sem forma, inexistente, Assim, ainda que os sons fundamentais de“ hem sempre possam ser ouvicos conscientemente, o fato de eles estarem ubiquamente ali sugere a possibilidade de uma influéncia profunda e pe- netranie em nosso comportamento € esiados de espitito. Os sons funda- is de um determinad espago so importantes porque nes ajudam a dclinear © cardter dos homens que vivem no meio deles. Os sons fundamentals dle uma paisagem Sto es sons erkdos por sua geoerafia ¢ clim: tos desses sons podem encerrar um significado arquetipico, isto é podem ler-se imprimido to profuncamente nas pessous que os ouvem que a viele sem eles setia sentida como um claro empobrecimenta. Podem mesmo afetar © Comporiamento € 0 estilo de vida de uma sociedade, mas para iguld, Vento, planicies, prissaros, insetes @ animais, Mui: Lunia dliscuss2o a esse respeito teremos que esperar até que 6 leitor esteja tnais fatnlliarizalo com assunto. Os sinais sto sons destacaclos, cuvidos conscientemente. Nos termos tla psicologia, so mais figuras que fundo, Qualquer som pode ser ouvide cons- cientemente ©, desse modo, qualquer som pode tomar-se uma figura ou sinal, mas para os propasitos de nosso estudo, orientado para a comunida dle, devemos limitarnos a mencionar alguns desses sinais, que precisam ser ouvides porque so recursos de avisos actisticos: sinos, apitos, buzinas mE: ‘Aafinagio do rnundo © Alrenes. NiO Fir 0s sinais sonoros podem ser organivados dent de codigos bastante elaborads, que permitem mensigens de conskterivel cont plexklude serem transmitidas Aqueles que podem interpreti-las, Fo caso por exemplo, da cor de chasse ltrompa ci cagal, ou dos apitos de tes ou navio, como iremos descobrit. © terme marea sonora deriva de marco? © se ‘comuniclacee que seja Unico ou que possua leterminacdas qualidades que 0 tomem especialmente significative ou notado pelo povo daquele lugar Uma ver identficada a marca sonora, & necessario protesé-la pomul marcas sonoras tomam Gnica a vida acdstica da comunidacle, Este € um tema a ser levantado na Parte IV, deste livro, onde se discutem principlos do projew actistico, ‘Tentarei explicar todas as outras terminologies da. paisagem sonort medida que forem sendo introduzidas, No final do livro, ha um pequeno slossitio de termos que ou so neologismos ou foram utilizados de maneiti idiossincratica. Ele poder disimir as clividas que porventura surgirem ao longo do texto. Fiz 0 possivel part ndo utilizar mukos termos aecisicos complexos, embora um conhecimento dos principis bsicos da actstics ¢ ‘uma familiaridace com a teoria © a historia da musica sejam desejaveis, ere a um som dt Ouvidos e clariaudiéncia Nao rguinentaiemos @ favor da prioridade do ouvido, No Ocidente, 0 ouvido cedew lugar a de informacao desde a Renascenc2, com o desenvolvimento da imprenss) ¢ da pintura em perspectiva. Um dos mais evidentes testemunhos dessa mi danca € 0 modo pelo qual imaginamos Deus, Néo foi sendio na Renascenga que esse Deus tornou-se retrativel, Anteriormente ele ert concebido como som ou vibragio, Na religiio de Zotoastm, o sacerdote Srosh (que represen: 0 genio da aucigio) se posta entre o homem e o pantedo dos deuses ¢ uve as mensagens divinas que ele transmite & humanidade. Samaé 4 pala. ‘Via sufi para audicao ou escuta, Os seguidores de Jalal-uc-din Rumi entrt= vam em transe mfstico cantando € rodopiande em girs vagarosos. clanga € considerada por alguns pesquisaclores como haseada na represen: 10 olho, consideraclo uma cas mais imporantes fonles Dm ings, const que soundmark¢ derivado de landmark, Na teducio, a estreta reach certe o¢ dois waesinlos se porte. (N. 1) ‘BR Mutray Schafer Lucho do sistema solar € evoca também a crenca mistica profiunclamente urralgada, cm unis musica extrarerrestre, a Mdsica das Esferas, que algunas veves a/alma afinacla é capar de ouvir, Mas esses poceres de audicao excep. clonais, que denoming clariaudiéncia, a0 foram obtidos sem esforgo. O poet Sadi diz em um de seus poemas lirices: Ku nao drei, iemaos, 0 que é 0 sara Antes que suiba quem € © ouvinte Antes di era da eserita, na 6poca dos profetas © épieos, 0 sentido da ‘dicho era mais vital que 0 da visio, A palavra de Deus, a hist6ria das tribos © losis a> outras Informacées importantes eram ouvidas, © no vistas. Em \igumas partes do mundo, o sentido da aucligio ainda tende a predeminar: s afiicanos suri vivem, em grande parte, no mundo do som — mundo caregada de impo odidental vive muito mais num mundo visual, 9 qual, em sua tozaldade, ihe € indiferente ... Os sons perdem muito de sa impontincia na Europa ocidenal ‘oncle © homem muitis vezes desenvolvs, @ precisa desenvolver, nokivel eapacida de para considers. Enguento para os europeus em geral ‘ver ¢ aeredta”, par (os afticanos nurais, a realidade parece vesidir muito mis no que se ouve e se diz De fito, a gente se ve compelido a acreditarque os oles so considerados, por nuitos africans, mals como vin insttumento da Vonkaide que Come drgta recep- tox, sendo 0 ouvido o principal srgao de recepeto.” i pessoal diresa para ouvinie -, enquanto © @iropeu Marshall McLuhan afirmou que desde 0 advento da cultura elétrica podemos retroceder a esse estado, € acho que ele esti certo. A grande emergéacia da poluigio sonora camo um tépico reresse pliblico ates- 110 fato de que 6 homem modeie esti ficando interessido pelo menos em tirar as sujeiras de seu cuvido & em recupenir o talento para a clariau- diencia — a audigao limpida, Um sentido especial Q tato € 0 mais pessoal dos sentidos. A audigzo e o tato sé encontram ho ponto em que as mais baixas freqiiancias de sons audiveis passam a vibragdes técteis (cerca de 20 hertz). A audicio € um modo de tocar a 15 J. 6 Garothess. Culture, Payehizry and the Writes Word. Pacbiaer, now, 1958, p.406-10, A alinngoo te unite i se respello, distineis, e 0 intimidade do primeito sentido fundesse a sociabitiducle Yer que as pessoas se rednem para ouvir algo especial. A e Ieia.se © que um emormusicélogo escreveu: “Todos 0s grupos énteos que conhego tem em comum sua grande aproximacao fisica e um incrivel senso de ritmo. © sentido da audicao nio pode ser desligado a vontade, Nao existent palpebras auditivas. Quando dormimos, nossa percepgao de sons ¢ a Uitima porta a se fechar, e é também 4 primeira a se abrir quando acorda mos, Esses fatos levaram McLuhan a escrever: “O tetror € 0 estado nor mal de qualquer sociedade oral, pois nelas, todas as coisas afetam (uel, ‘aces dois procedimentos parecem coexist ‘0 tempo todo" A.unica proiecao para os ouvidos & um elaboraclo mecanismo psicol6g co que filtra os sons indesejaveis, para se concentrar no que 6 descjavel, Os colhos apontam para fora; os ouvides, para dentro, Eles absorvem informa ‘Glo, Wagner disse: “© homemt voltailo para o exterior apela pata 0 olhio; © homem interiorizado, pera 0 ouvido”. O ouvido é também um ofificio erdti- 0, Ouvir lindos sons, por exemplo, os sons da miisica, € como sentir @ lingua de um amante em nossos ouvidos. Assim, por sua propria matureza, 0 onvido reqiier que as sons disperses @ confuses sejam interrompidas par que ele posse concentrarse naquilo que tealmente importa. Finalmente, ste livro trata dos sons que realmente importam. Para revel los, pode ser necessirio investir contra os que rio lo importantes. Nas artes LeU, levarel o lellor a ume longa excursdo pela pasagens sonora (i hist6ria, com fore concentragio na paisagem do mundo ocidental, embor procure incorporar, sempre que possivel, materiais de outras partes do mun do, Na Parte Il, @ paisigem sonora sera submetida 2 uma andlise criti como preparacio pars a Parte [V, onde se eshagarho os principias clo projeto acistico — a0 menos na medida em que for possivel determiné-los, ‘Toda pesquisa sonora precisa concluir com o siléneio — esse pensamen to requer que se espere por seu desenvolvimento nos capftulos finals, Mas 0 leifor perceberd claramente que essa kléia também ligt a Parte Ido livro & ltima, unificando assim uma empresa que é sobretudo de carter litico. “14 Marshall Mactuhan. The Galaxy) Guroniborg, Toronto, 1962, p32, led. bras A galdsia ‘Gutrberg. Tra. enilas Gora se Carr Ske Paul: Cin Eatora Nasional, Pusp, 9 pala) es _ Um alerta final, Apesar de muitas vezes eu estar tratando de percepeo auditiva ¢ de actisticr como se fossem esqquecer-me de que © ouvido € apenas um sentido receptor entre muitos outros, Chegou a hora de titar © som do laboratério e colocé-lo ao campo «lo ambiente vivo. Os estudos da paisagem sonora fazem isso. Acima de {uslo, poréim, cles precisam ser iniegracios ao estudo mais amplo de ambiente (otal, neste que ainda nao é 6 melhor dos mundos possfveis iplinas abstratas, nao quero Yem agora, com tovlos 0s teus poceres, dliscernir 2 maneire como cada coisa se minifests, conBando ato mais na visio do que ni audicio © nto mals no ‘uvido que ecoa do que na lingua que saboreia; sem rejetar nenhums cas partes do corpo que poderiim ser um meia de conhecimento, mas arentando em cada ranifertagae pasieulir!” 15 Fimpidoctes, in Philip Whoolonighe, The Presoerticn New York, 1966, r70. 30 Parte | As primeiras paisagens sonoras “rtaqueles diss, 08 cusidos dos homens ouvintm sons ‘cuja pureza angelical mio pod ser corjurad novamente, por qualquer quantilace de eiénca ou mati Hemann Hesse, 2 jogo das eomias de vitro Plows mural uses de tim tecadee i erusca dk idor de Ranta com piearo, de Tilniar, Taguints, tals. 1 A paisagem sonora natural Vozes do mar is, Qual foi o primeiro som que se fez ouvir? Foi a caricia das dg Proust chamou © mar de “a queixosa ancesiralidade da terra perseguincl, como nos dias em que nao existia nenhuma criatam viva, sua agitagio lunitica e imemorial”, Os mitos gregos nos contam como © homem sutgilt do mar: “Alguns dizem que todos 08 deuses € locas as criaturas vivas se originaram na corrente de Oceanus que envolve o mundo, ¢ que Tethis fol de todos os seus filhos”.! © oceano dos nossas ancestiais encontra se reprodusic no vier aquo- so de nossa mie & ests quimicamente relacionado com ele. Oceano & Mae, No liguido escuro do oceano, as incansiveis massus cle gua impetiam © primeiro ouvido sonar, A medida que © feto se move ao liquide amniético seu ouvido se afira com o mranulho € © gorgolejo das Aguas. Em principio, ¢ ressonancia submarina do ma, ainda nao € 0 quebrar das ondas. Mas ent80 fs aguas pouco 4 potico comesaram 4 s€ mover, E NO movimeMo das fgDs o grande peixe eas ctiaturas escamadas foram petturhaclos ¢ 28 ontdas comevaam yolar env daplos wagalhdes, 08 senes que abizam as jguias foram tomados com T RAH Gives, The Greek tyes le acon om aBimmagto de Hera. Mada XO). 1955, pat. Nes es eee oes (uior, e enquanto as ondas se precipitavam juntas, aos pares, o bramido eb oceano fieiva mais forte © o9 burifos eram agoitudos com furl, e guirlancles de espumna se Cixuiim, € © grande cceano se abris para as profundezas, eas Aguas rugiam ce wm ldo para 6 outro, & as furiosas evitas das ondas iam encontrande este ou agicle caminks, ‘Onda fustigadas na ressaca, artemessando as primeiras rochas, enquan- to oanfibio surge do mar. E embora ele posia, ceasionalmente, dar as custas 's ondas, nunca escapard de seu encanto ativico, “O homem séhio deleita- se com a agua", dliz Lao-tsé, Todos os caninhos do homem levam a agua. Bla € o Fundamento cla paisagem sonora original ¢ 0 som que, acima de todos os outros, nos cd o maior prazer, em suas incontaveis transformacdes. Em Oostende,* a praia é larga, com uma inclinagao quase impercept vel do lado oposto aos hotéis, de motlo que, se alguém se detém nesse pont, fem 2 impressao de que © mar, a distancia, & mais alto do que a praia e que, mais cedo ou mais tarde, tudo sera levado para o esque mene lo por uma enorme e Nexivel maré. ‘Totalmente diverso é o Adriitico em Trieste, onde as montanhas saltam para dentro do oceano com uma ener ia angular € 08 punhos ferozes das ondas batem nuidosamente nas ro clits, como bolas de borracha, Em Oostende, o nexo da teria é suave tanto em relagio a vista quanto em relagio ao som, Nao hd rochas em Oostende em que se possa sentac, ¢ assim caminha nos milhas em diregao ao Sul com 0 som das ondas no ouvido direito e, em diregio ao Norte, no esquerdo, preenchendo a consciéncia ativiea ‘com 9 pulsar da agua, pleno de Freqiiéncias. Todos os caminhos levam 4 Agua. Se tivessem essa oportunidade, provavelmente todos os homens viveriam na orla da elemento, 20 alcance do som de seus humores, noite € dia. Nés nos afasiamos dela, mas a partida € temporéia, Dia apée dla, andamos ao longo da praia ouvindo 0 indolene rumor clas pequenas ondas, medindo o graclual crescendo em directo aos mais pesados e, dai, para o conflito organizado da arrebentacio. A mente precisa tornar-se mais lenta para captar os milhoes de transformacoes da gut na areia, na amgila, contra os pedacos de madeira flutuante, contra os 908 2 “he questions of King Milind’. n TW, Rys Davids The Sacre thos of he Fast Oxted 1890, 2000, p175) § Oostende: porte Mimengs na Bélgics, no mar do Noss. 2) 34 —— iquies: Gad you Howe numa alnura diferente; cada onda estabelece vim five diverve, num inexaurivel suprimente ce rude betes, Algins soni sno separidos, outtos continuos, No mar, os dois se fundem em unitacle primordial, O» rkmos do mar sie muitos: infrabioligioos — pols a Agua ucla @ altura e 6 timbre mais mapicamnente do que a capacidade do ouvilo pant captar-essas muclangas; biokOgicos ~ as ondas se identificam com o rés, com o dia ea noite; & pulmo © as batidas do ec : suprabiologicos ~ a presenga eterna € inextinguivel da agua, “Observe as medidas’, diz Hesiodo ent Os trabalbas ¢ os dias: “Mostraret & voots as dimensées do ribombanie mar’ pata thin polyphlcisooio thetasses iz Homers (utfada, £34), eaptando por enomatopéia os esplénddidos exer fe seu recuo, Cantares ide Kara Pound citos de ondas na orla do ma omega assim: 5 pobre do velho Homero, cega, cege morcego, Ouvide, ouvido para 0 oarutho..t rads em © amor pelo oceano tem fontes profundas, ¢ estas esto regi uma vasta literatura maritima do Oriente ¢ do Ocidente. Quando a dghia presencia a histéria da tribo, os dedos do oveano agarram 0 pico. \ matéria-prima da Odisséia € 0 oceano. O agratio Hesiodo, vivenco nit BeGcia, ‘longe do mar € suas inquictas Sguas", nao pode eviter a atraglo do 06 sano: Por cingtienta dias, aps o solsticio de vera, quando a fostidiosa eatzqa0 clo calor lest por terminar, ‘ enide € 0 momento oportuno para os homens vigjarem. Op nérdicos conheciam a ferocidade do oceano. Quando navegavam, mugiam contra as castados do navio € ressoavam qual penedos x 4, pl ec. bras: Gamtares Tra. AOU 1] Bera Round the Cents of Ere Posotd. London, 1954, p10. lec. bras: Gat de Compos, Désio Pignatirie Haroklo de Camprs. Sto Paalo: Minisério de Edaaagia © ‘urs, Sorrigo de Doeamentagto, el, p21 5 estore, Works anal Days. Tad Lamon Avs Atbor Mlcbignn, 1958, were 563-5 a iil ll ne entrebatende”, © verso aliterativo dos Pdas’ € poesia de remadotes. As conseanles repetidas em cada metade de verso fazem que os aceatos conespondam a cada batida € rewomo do remo: Splashing ears raced ren ratteet shickd rang on sbield as sbe vikings rowed cutting the waves atthe King’s command: farther and farther the fleet sped on, Wher ibe erevied uewes of Rolga’s ster nisi on the keels the sound that came twas the boon of surf that breaks om rocks* Do outro Indo do mundo, no noite tropical da Austrélia, a3 ondas eram Innis brandas, ndas subindo; alts ondas subinda contra as rochas, quebrando, chit cht quando k sobe a meré maré Nuindo através da grin quebrando-se: chil chit Ent suas aguas midests uve os vai alta, luzindo sobre as aguas: whamse as jovens sn que Fazem Com as mos, engquanto brincem! Qualquer visttante da orla maritima acharé inesquecivel o recital das ondias, mas somente 9 poeta do mar, com © ostinato do mar em seus Suvides, pode medir precisamente a sistole © a distole das ondas e das tharés. Ezra Pound passou boa parte da vida mudindo-se de una costa 4 url ch peninsula italiana ~ de Rapallo a Veneza. Seus Cantares principiam hho mar, tém muito de sua dialética nos seus limites, afastam-se para longe © depois retornam. Onde Scou Fitzgerald, um visitante do Mediterraneo, linha ouvido apenas “o pequeno ¢ exausto us-ua das ond: ", Pound, com, Instinliva autoridade, nos oferece as proprias flutuacdes dl Agua: 0) the Saga of Vosungs, RG, Finch (Org). London, 1965, pS, 7. Fila: nome de cas cclecdes escandinavas de poems mitigcos, heros e gnbinicon do século XI, (8.7) Pi tay of Bet, were 101-10 Remes Fontes prciptavanrse,o ferro retmla/escudos se cereshocsvaa, ehquinto Os ¥Rings remain,’ coranso a6 ondas a0 camaniio do Reis! squad saa cca Yee mms ripico,/ Quando as cists as cos das irs Kola batiam, 8 qulls, 0 som que se oUvia/ era o esttonde dest guchranlose contr a6 rochas ) Tiibo laragia, Ausielia. Technicians ofthe Sacred. J. Reshenborg (Org) New York, 1949, pat 36 ‘aye SO ne onivel tadopio se Ayan ineryos de Posidon, yp ale hiatino, ‘one de video sobre 0 Th, Densi tenca, inquietde, Dyilhante rebolige de cordées de espuma, Enno, agua quiet, cquieta na areia acamuryad ‘Aves expalmam as juntas das 4815, patinhando en pocas € fendas, A beira-mar, enire pequenas dunas; Drilho video de onda comtea 0 sol, palor de Héspes0, CCriga gris da onda, ‘onda, cor de polpa de uv Cinza ova pero, longe, cinzastumo dos peahascos, ‘sas tost-salméo, do marim-pescador sombras cinzenias sobre a Agua Atom, como um grande giaso de um 35 olho, alongt 0 pescoro acima do ollvl, F ouvimos fruinos censurar Pro‘eu Fodor dle fen sob as oliveiras) F fas cantando contra faunos, a meis-lnz Ee (0 mar 6 0 som Fundamental cle todas as civilizagdes markimas. F tan bem um fériil arquetipo sonico. Todas as estradas revanduzem & iy Reiomaremos a6 mar. As transformacées da agua A Agua nunca morre. Vive para sempre, reencamada como chuvay : Higua c Fontes, #ios rodopiantes como riachos murmuranies, comp quedas d'gua c Fontes, hos rodop' ¢ profundlos rios taciturros. : : im riacho de montantia & wn acorde de multas nots soanclo este fonicamente pelo caminho de ouvinte atento. © som continuo da Agua 10 Bart oun ope a7 PEG Santer dos rhichos nas montanhas suigas pocle ser ouvide a milhas de distincia (uzindo © vale silente, Quando um riacho salta numa cascata de cem Metros nas montanhas rochosas, ha uma quietude tensa, quase apreensi- vat, Segui nto ruidoso quando «le bate nas rochas, ld embaixo. As figuas das chamecas inglesas ndo tém essa virtuosidade; scus Guminkios sie mats sutiss : 1 de um exeit O vijane que passise nes diego eM se dees, and ote “ Se detvesse, ands que por une poweos memenbs, uma noite plc, podera ow snfons singles cess Ss com de ergs iar, oor tet em don tone ds pees mei prea 9 ws ogquas da meet, Ein tin cil Um oro, num ss pode, eles exectavam un rect onde un ach afaente nse ti antepao de pein, ees rina ere sob um aco, preduzi v metilico de cimbalos; ¢, na caverna Dunnover, sssobiavam.’ * ool Os ties do mundo falam sues proprias linguagens. © calmo murmirio ilo Rio Merrimack, “codopiando, sorvendo e deslizando para baixo, beijan- lo a areta 2 sua passigem’, era um sonifero para Thoreau.!? Para James Henimore Cooper, os rios do norte do Estado de Nova York sempre se Moviam preguicosamente para dentro de cavernas nas rochas, “produzi slo um com cavo, que lembrayat a explosto de unt canhao eistante”. Como so diferentes as furiosis catarates do Nilo em Atbaral e Bers Pois 0 som de hatalha nto pode deixar de se manifesiar quand 0 tio, entre mires de has osha ers su camino, a lng de is, em come, crt romano dse que os hbtatesemigrasn porque hava pedo a ipacidide de escutar, mas a8 vores potentes dos herberes nos provam heve que \ necessicice foraloce qualquer Sxgao, pris seus gritos transpoem o slo knpeiue- ‘0, de sbanccica cp sbaneeics,eaquanto os homens brancos dlticiimente podem fouvitsse uns aos outros, a dez passos de distincia.™ 11 hans iy he ar cteroe tondon, 1954 don. 850,931, 12 em Dai Trea A Weck onthe Cc and Merck Writings, New York, 1937, p.413. eee J Renner Cooper Te atid ew Yor, 188 ps Websea. cidade do Suclicr (N, 7.) a Deer pmo Sonim gOFO de Ade, 1) 10 © esckor mano reel € Plo Uta mara, x30, qe aka tena ve 2 sts ein mills mio zane ccm mse A ip pe lr Phowtn cee Yt gn 19,8670, once so ean ie mor os gta cbt, co Ny espe te dnt pos oo mas peas cepram bom pend restore ten G — Aigo da mune: 14 na ailenclosos ros do Sito, 0 exeritor Somerset Maugham encontion , 96 ocasionalmente quebysacht “pelo 14 marayilhost sensagio che pa Je um remo, quando alguém passava silenclosimente em se sum débil iow sninho part east, Quando acordava & noite, perce) incnio; enquianto a casa flumante oscilava um pouco, ouvia 6 pequeno oriental viajasne Mann, as jongolejar cla qua, como se 0 fantasma de alguma mais Em Morte em Voneza de Thon no tempo, € NAG No espago” desoladas e Iigubres iguas dos canais formam um tragico lelimotiis "S ‘agua batia, com um chape, contra a madeira ea pedra. O grito do gendoleire, ineio adverténeia meio saudacio, era respondido, do siléncio do labirlnte, como que num estranho acordo’ Agua nunca morre, ¢ © homem sibio rejubila-se com ela, Nem mess mo duas gotas de chuva soam do mesmo modo, como 6 ouvide atento podert comprovar. Sera entao 0 som da chuva persa igual dos Agores? Em Fij, uma tempestade de verlo, que fustiga e se transforma num enor me tutbilhiio, dura menos de sessenta segundos, enquanto em Londres eli tamborila monotonamente, tio aborrecida quanto a histéria cle um home de negécios. Em algumas partes da Australia nto chove durante dois anus ou mais, Quando chove, as criangas pequenas se amedrontam com 0 Som Na costa do Pacifico, na América do Norte, chove calma € continuamente cerca de 148 dias por ano, A pintora canadense Biily Can descreve essa chuya muito bem: ‘As gotas de chuva batem no tethedo com pequenos estalios desist pe‘furantes. Através da janela abort o'som da chuva nas folhas nao soa asin mals coro um suspiro Continuo, vin sopro que jamais se esgota, sem genbinni entrada de ar Fresoo. A chuva do telhado tamborila sobre a concavicade oi salt, sgolpeis ¢ cosa.” © timpano trangitilo da chuva na costa ocidental nao € ambicioso, Ho contririo das violentas tempestades das planicies da Riissia € do centro di ewido da atisao". Una lend, tadavia, parece terres cess» efit, pois ene mes mengio a ele ent Distaes of Workers, de Besnarlive Ramazaini De Morfe defen, de 1513, obra notivel por sero primi estide cones « mencionar « sugez ndash (08 A) (Emil Luding, Thode, New York, 1957, p250-. 17 Somerset Masghath, The Gentleman ithe Pariua; London, 1940, 18 "Thomas Mann. Death la Nerice. ln Stores of Three Decides. New York, 1935, 0.21 [i bras Marve em Voneza Trad, Masta Delog. So Pau: Abril Calurl dy #17, p49 4p Enily Care. Hundreds end Thousands, Tecoma, Vancouver, 1938, PSO. REPAY Serre América do Norte, Na Africa do Sul, a chuva é torrencial: “6 trovto ribom- Hava Mt fort sobre suas cabe ‘as ¢ eles podiam ouvira chuva precipitandlo= Ae os campos. Num timo ela estava golpeando o telhade de ferro com uum barutho ensurdecedor’. A geografia ¢ 0 clima confers sons fondamentais nativos & paisagem snnnora, Nas vastas areas do Norte da ‘Tesra, 0 som do invemno € 0 da agua Congelada — gelo & neve, Durante 6 invemo, 30% a 30% da superficie da leita Cobrem-se de neve por algum tempo e 20% 2 30% ficam cobertos de Neve por mais de seis meses todos os anos. Gelo € neve sao os sons fundamentais fundamenval da vida 1 das regides nérdicas, do mesmo modo que o mar é 0 som ima, gelo e neve sao afinados pela temperatura, Virginia Woolf, em Iluckiviars, ouvia a neve “deslizar e cair no chéio”. Mas na Escandinavia ‘Winco o gigante Hymir de The Blder Eelda retornou da cacada, Fingentes dle gelo retiniam ‘indo de suns barbas congeladas, In) seu poema Orfano, Giovanni Paseoli de: loco de neve da Tilia reve a lenta queda do lenta la neva flocca, focea, locea® © som da neve na pouco gelada Italia € muito diferente do som produ- vido sob 39 gravs negativos em Manitoba ou na Sibétia. A medida que iulenitumos os grandes Continentes nérdicos, as leves passadas amorteci- sis comegam a ranger © depois a guinchar ~ até dolorosamente. Boris Pasternak, em Dosttor jivago, conta-nos como, no invemo sso, sent hows fazerem “a neve guinchar raivosamente a cada paso", Do mesmo modo que a paisigem maritima coriqueceu a lingua dos povos do mar, as civilizagées de clima frio inventaram diferentes expres- noes, das quais as numerosas palavras esquimds para neve sio as mais famosas, embora no sejam de mowlo algum o tnico exemplo. The Mustrated Glossary of Snow aud Ice [Glossario thustrado da neve e ao getol contém Al Paton, Cy, she Betowed Ceaunoy, New Yorks, 1950, p24 81. im alin no original “A nave lentimerte ea em Mawos, Rac locos. (7) 2-1 Armstrong, Roberts, € Switiobank. The ysnal Gose of Saow al fo. Cane 136 -” Aatinayio do mundo 184 terms: para neve e goky ent ingles € os: compart com termi em dinamarques, finlandes, alenvio, islandés, noruegués, russo, fnine’s chy plo, is das expresses — por EX © espanhol da Argentina, Mai co*! — mito existem nas outras lingua. normafrost, (cebouind, pack ice — nto existe eoh ners, sbworve o smn, 4 ert nbc est ela de ercTAQeh do siléneio do inverno. Durante 6 invero, a auséncia de vid ou sone sinistra € opressiva, Quinn 1 ee at eho, potem-e prcber nla pega cle annals passin de lim cervo e, ocasionalmerse, de umn USD, mas 11AO 9€ oave som ale frito, nem 1m sussurro, nem mesmo um farfalhar de Folhas. Se aiguém sentanse Sobre uma arvene cakls, 0 silGncio se tomar opressva, quaise dotoroso, fin alivio cuvir a0 menos o murmuito du neve Lalndo nos ramos dos ciprestess dav pinheiros ou dos teixos que se estendem 14 em cima como negros penichos de alos, acima das eabecas. Quando a neve é recente ¢ leve, mesmo o tradicional estalo dos trendy 6 mudo: “deslizamos sobre a neve recente, que tinha sido levemente pis da duvante noite, num movimento Ho suave e silencioso que sugeria \im vwéio sem asas...7 Até as cidades esto quietas. Nada é mais quieto co que o sléncio de uma cidade nbrdica no inverno 40) amanhecer, Oeasionalmente havia um silvo sassurrado e um rtspar contr ds je las, entio, cu sabie que estava nevando, mas gertimente nto havi nada além de ta calvapalptante até os bones comeyarem a subir para Gite des Neji 8 eu os ouvia conio se fosse 0 vento soprando através tos velhos bueieos A destruigio do silente inverno nérdico pela obstrugto dos earos lin padores de neve ¢ snowmobiles? & uma das maiores meiamorloses di paisagem sonont do séaulo XX, pois esses instrumentas eso destruindo a idéia do Norte” que moldou o temperamento cle 1odes os povos nbriicos e gerou para o mundo uma mitologia substancial. A idéia do Norte, que era austera, espacosa ¢ solitiria, podia facilmente encher de medo © cont i Murtay Sehatar ‘s80 (ndio relrigerou Dante © centro do seu Inferne?), mas podia também. evoeay intenss admiragao, pois era pura, isenta de tenta Os teenoc ss € silenciosa, tas lo progresso no percebem qué, ao fenclerem 0 Norte com 4H) maquinaria, esto retalhando a integrdade de suas proprias mentes, (lenegrindo os mistétios inspiracores de admirasio com poscas de gasoli- nite recuzinio suas lendas a bonecas de plstico. A medida que o siléneia val sendo expulso do mundo, os grandes mitos também se vao. Isso signi- fict que se torna mais dificil apreciar os edase as sagas e grande parte do que constitui o centro da literatura & da arte mssa, escandinava e esquimé. 0 tradicional inverno nérclice é notivel por sua tangjiilidade, mas sua € violenta, De inicio ha uma certa pulverizacio do gelo e, de- tubitamente, todo o tio imompe em diregio ao cent, como um iro nh, € as correntes impetuosas precipitam o gelo tio abaixo, Quan- slo perguntanam a Stravinsky 0 que mais amaya na Rassia ele respondeu: ‘A violenta primavera nussa, que parece comecar de repente ¢ é como se teint tocls se. fendesse” 2 Vozes do vento Entre os antigos, o vento, como o mar, foi divinizado. Na Teogonta, Hesiodo nos conta como Tifeu, 6 deus des ventos, lutou com Zeus, fol dlerioado € banido, exilado no Tarearo, nas entranhas da terra. Tifeu, um lous dlissidente, tinha cem cabegas de serpente: ‘ Eom todas estas cabegas homivels, clewavamese voues, Fazenclo ouvir mil acentos de indesertivel horcor As vers, ceram sons quee somente es deuses podium enteniler, mas outras vezes, ers a vor de um towro amugindo, srrogante ¢ furieso, alm de indorvel, on de um leto, despudorado © erucl, ou era aincls como latidos de ees, 20 Igor Stsviy: Memartes and Commeniartes London, 1960, 9:30. Aralinayio do mundo tun aswombeo de we ort ans fata evo” 8 ihe das mais interes: A historia é memonivel porque evoca um to, como © mar, apresenta um infinito numero de nina de ses auilitivas. Ove variagdes vocilicas. Ambos tén sons ce ample espeetro, ¢ em su freqtiéncia outtos sons parecem ser ouviclos. A qualidade iluséria clo vento também o tema de uma descrigao em Victor Hugo. £ preciso elo no original part seatirthe © apuro dla linguagem Levaste trouble des soiiudes a une gamme; crescendo redouble: te grain, it ofale, la bourrasque Forage, la ourmente, la tempete, ta trombe; fs sept cordes de tea lyre des vents, les sept notes de Vabime .. Les vonts couren’, nolent, sabato ‘fiwisent, ecomencent, planer sflert, magissens, rent frenctiques,laselfs efits iprenant tours aises sur la vague irasctble. Ces burteurs ont tre barmonte. is font tout fe ciel sonore. Hs soufflont ans la nude comme dancin cuivre, Msembeuchent espace, oils chantent dans Fnfins, avec rouses les volx amuilgurnées des claro, ides buceins, des oliphants, des bugles et des trompettes, une sorte de janfare proméibéene. Qui les entend écoute Fan.” © vento é um elemento que se apodert dos ouvidos vigorosumente. 4 sensagio € etil,akém de auditiva. Que curioso e quase supernatural é ouvir 6 vento a distincia, sem sentilo, como em um dia calmo nos Alpes suiG05, ‘onde 6 débil, suave assobio do vento por sobre as gelciras, a milhas de distincia, pode ser ouvide eruzando a quietude interveniente dos vale, ‘Nas secas pradarias cle Saskatchewan 0 vento € penetrante € constanie, ‘Agora 0 vento pedis ser cuvido como uma cangio mais persistente ¢, 40 fongo da estada que separa a cidaderinha da peadacia, coprava brancamente: através dos fios que correm esteica abaivo © vento da notte nha duas vow 29 Heniods, Tengonia Trad, R, Lattimere. Ann Alber, Michigan, 1968, esos 82-9 30. Em feneés no original: "Ei uma eseala, wa vata turvacio dis soldaes:renivel crescendo; 3 bias, 2 hada, a bomases, 0 kengor, «torment, a tempesade, 4 tomb as sete condas ci fim do vento, as sete nots db able .. Ox vemos correm, yoo, abutem-se, expifiM, feviven, paiam, assovan, rogem, rim freneacos, lass, svar, comam. conta hk ‘via irascvel Tem harmonia esses borridores. Tena sonoro fodo @ eu. Sopram nas paver) ‘coms aun metal, emoceeno espa canta no infinite, com todas as vores amalgam Gr clres, busines ¢ wombetas uma eepicls de angeres prometearos. Quem os OWE, IVE N.(N. 1) Yiewor Fuge Ze avatrs ele mer Pais 1802, p-191-2, le. brass Os be ores do mar. Led. Tad. Machado cle Ass. S20 Prulp: Abnil Cultural, 1973. Ox tmrais Bh emer, ©18 290300) W Muay Sehater ihm, qe se Hmentava so fengo dos fies pulsamtes; a cute, clas prachnas, que gotgolejava longa & profindamene, Abertay © com divores, as practarias constituem uma enorme harpa Olid, que vibra incessantemente com “o aumbido fervilhante dos flos tele- fonicos’, No lado ingles, mais protegido, o vento faz. que as folhas bruxu- leiem em diversas tonalidade: Prt os halbtantes da floresta, quase todas as espécies de divers tm uma vo Ddpria, além de um aspecto peculiar. Ae perpassar da bra, cs pinleitos soins € Bempem no menos dstintamente do que se balan; 0 zzevinho assobia enquante lata consigo mesmo; o freixo sisi em meio a seus tremores: faa farfalha enquane fo seu ramos isos sohem e descem. Fo inverno, que modifica o son dessas Anvores 40 mesmo tempo que cerruba as suas folbas, mo les desire a indivicualidade.* As vezes peco aos meus alunos que identifiquem os sons dh paisagem. "O yento”, dizem uns. “Arvores’, dlizem outros. Mas, sem objetos que se Interponham no seu caminho, 0 vento n2o faz nenhum movimento api- Fonte, Ple aleja nos ouvidos, com energia, mas sem direeao. De fato, quancio Liotsé visjon com 0 vento, deseobriu que este era absolutamente silencio- X0, porque ele proprio havia se tornado vento, De toclos os objetos, tnvores que dio as melhores in 4, enquanto 0 vento as alga Cala tipo de floresta produz sua propria nota ténica. A floresta de sem- ivas, em sua fase de maturapao, produ aleias sombriamente abobadadas, em meio as quais © som reverbera com insél ipOes, sacudindo as folhas, de ki para pre Ancia que, acord com Oswald Spengler, levava os europeus do norte a tentar re- produzir essa reverberacio na consteacio das catedrais géticas. Quando o Yento sopra nas florestas da Cokimbia Britanica, nio se nota o familiar che calhar-fafathar das floestas deciduas; bi, sim, um assobio grave e inintemupto, Em meio um vento forte, a floresta de sempre-vivas se agita e zune, pois os espinhos gitum e voltcian em movinentos rotatives, Com frequéncia, a falta le arbustos ou de clareiras mantém as florestas Columbia Briténica extea- «rcinariamente livres da presenga de animals, péissaros e insetos, circunstan. Ga que produzia uma impressio payoresa, quase sinista, nos primeiros colonizadores brancos. Voltemos a Emily Carr 31 WO, Mihell. Wo Faas Seen ibe Wind? Toronto, 1947, p19t 2 236. Mf Thomas Hatey. Under the Greenuoed tre. tondon, 1908. p.3. A afirvayto ey evunter 6 silencio ds nossay Norentas ocidentals rt to profindo que nossos Cut low 40 a custo pediaen abarciito, Quando alguéi fava, Kua vor rewornava, de 10 modo que 0 foo de algquem Ihe € devolve pedo espella, Ens gine ne a 1 de siléncio que mio houvesse lugar para os sons, Os push falodes, conyjas: Se a cinco de in anrarian, Makicores € sikenes, 08 Falvotay, owe 1 fosso tho ch os que vivian crim predadores ~ 4g pisiind siksie de sul garganta, os outros 0 a p passarinhas foram os primeiros & seguir os colonios mo a0 Oeste seme as ven clas comesaram co 0 mat © sempre tran sve les px sass espagos 6 a, famines de ruidos, enyotlan calmamense os ses ton Floresta era clifererte —ela meditava morbidamente em silencio € segredo.’ {A cficuldade dos primeitos colones em Tidar com a floresta © seus inseios por espaco e luz solar logo produiu outra nota ténica: a de come de madeira, Em principio, foi o machadlo do lentiadar que se ousiv ressear pari além da espagosa clareira, Mais tarde, foi a trangadora,*!e hoje, 0 emaranhado da serra elétrica que ecoa pelas comunidades florestais cad vex menares da América do Norte Houve uma época em que muitas partes co mundo eram cobertas por florestas. A grande floresta ¢ estranba, assustadora, hostl 2 vida intrusa, Ns poueas seferéncias 3 natureza nos primeiras Epicos, nas sagas € poesits anglo-saxénicas atestam esse fato; clas ou sto sumarias ou se detem nit descriczo dos seus horrores. Mesmno nas tarde, como em Carl Maria yon Weber (1786-1826), a floresta era um lugar de escuridao € maldade, ¢ sii pera Der Freischtitzé uma celebracao da vitoria da virwde sobre as lor gas do mal que povoam a floresta, A trompa de cag, que Weber sot 10 brilhantemente em sua partitura, tornou-se o simbolo actistico por mel a c duzida. do qual a melancotia da floresta era reprod / Een ‘9 homem: estava com medo dos perigos de um ambiente inex plorado, todo 0 seu corpo se convertia em um ouvido. Nas florestas virgen ‘da América do None, onde a visio ficava restrta a uns poucos metros, audicio era o mais importante des sentides. Leciberstocking Talesce Fenitnort Cooper estao cheios de belas e atemradoras surpresas: ene maga Hora vas © eS els cor pitied rate ma vi Tes tanec aac Sas igs, na cee gage da mar Ne Murray Scholar forests erm © ae suapirava em melo a dex mil divores, gua meirmurava ea pao, chayzva a rugir ater las peas; cle longe em lange se ouvia o romper de palho ou de-ynn uoneo, como se ruspasse algum objeo semelhante a ele, sob a tibrijao de um compo harmoniosamente equillyado ... Quando, todavia, ele desea Yat que seus compankeizos cessassem de falar, des mada que acabei de meneionas, seu cuvido vigilante pocta apreendes © som peculiar provocadio pelo pantirdo galho ewe dle uma divore, © cal, se seus sentides nao 0 enginavam, parecia vie di praia eelental, Quem quer que esteja acostumdo com esse som particular seve como 0 ouvido 0 recebe cometamente e quae Ficl é cltiagairo passo que queba um gallo sleovtios iuides da floresta.. “Sera que © maldito iroques ja tinha cruzado o rio sem luni bote, usando seus proprios bragas?™" A terra miraculosa "O que € 0 som de uma drvore caindo na mata, se ninguém estiver ki unta um aluno que estuda filosofia, Seria pouco imagi- Autivo responder que ela soa meramente comd qualquer arvore que cai Hloresta, ou mesmo, que no procuiz nenhum som. Na verciade, quando ma drvore cai na floresta e sabe que estd sozinha, ela soa como qualquer ols que queira ~ um furaedo, um eucs, um lobo, a vox de Immanuel Kingsley, a abertura de Don Giovani ou 0 delicado sopro oft, Qualquer coisa que qucira, do passido ou do futuro Uisiante. Et é livre para produzir mesmo aqueles sons sec: homens nunca na Kant ou Charles de uma Aauta Ds que os escutaro, por pertencerem 4 outios mundos. ‘A desmistificacio dos elementos, para a qual muitas ciéncias modernas (ém contribuido, tem transformado muita poesia em prosa. Antes do nasci- mento das eiéncias da Terra, © homem vivia em um mundo encantado. No ‘hatacto sobre ries e montanbas, do século {H, atribuido a Plutarco, apren- demas a respeite de uma peda da Lidia, chamada argrophylax, que se parece com prata: E muito eiffel reconhect-h, porque es intimamente misuurada com pequenos salpicos de ouro eneontraddos nas arcias dos tios, Hla (em uma propriedade muito ‘esinanfit. Os ricos habitantes di Lidit 4 colocam na entiada de suas casas de tesous0 te assim protegem seus estaques de ouro. Pois sempre que um ladrii se acerca dese lugar a peda emite um som como de wombeta ¢ os ktdroes, acrediando estaeem sendy penieguidos, fogem, ciem nos precipicies e tem uma merte viokenia.* AS |, Retimore Coxper, op. ch, p03, 4h Tretlo-Pheaico. Newtue on Kwers aid Mountetns. Citado de F, D. Adams, The Birth aud Devwippment of the Geological Sciences. New York, 1954, 9.31 Aralivenda dor murder “1 jurtis eram explicados como Tiny époras remotis, todos ox eventos naturtis eran explicad e ern drama entre os ded Um terremoto ou uma tempestade era unt drama ent r afer, “os terremexes foruin WO ViOe Quando os Gigantes roubaram o- lhapae ses) Quando Sigurd matou o dragio lentos que fou a ‘Tera estremeceu’” tonitruante martelo de Donner, e, sa barb sacuiu-se €om fi Seu cabelo aropiow selvagertente por sua arma, © deus procure em voli. Uma forte tempestade parecia aproximarse. Quando Zetis envioll 08 deuses gregos contra os Titis, © infinito grancle mar sugin terrvelmente a terra se pariv ruidosamente, ‘eoamplo cx reboou 6 priprio Zeus if nzo conteve a sua Foret, se coragio so enfureceu, e agoma ele mostrava ted a sva violencia, indicriminadameate: Fora do céa ale do Olmpo cle movia-se, Famcjando inceseaniemente seus raios etroves ‘que, acompantuidos de numer ¢ luz intencos, partiam juntos, vende un apos ‘© outro, de suas mos poderosas, ‘em redemoiahos de cama inumana; ¢, com eles, tert, oacdora de vida, gritara cenguonto ardia, @ a5 wseas Mlorestss, ‘gniavam em melo 2 cha.” # possivel compreender Donner ¢ Zeus ainda hoje, © trovaia ¢ 08 los cestio entre as mais temiveis forgas da natureza. O som que produzem & de ' muito grande intensidade € cobre uma extensdo extrema de freqiiénci 137 The sags of te Vong op. ot 9.304. wud 38 The lay of Tory, de The Eder Bd Tal. ing. Pasta Teuy, Now York, 99 0.8: 39. Hesioda, Thagonia, op. cit, versos 6724 MURTY ENE alén dy eseal humana de produgay cle sons, © abismo entre homens & deuses é grande, © muitas vezes pareeia que um forte ruiclo era necessitio Piri estabelecer uma ponte enue eles, Esse ruido er come 6 da erupcio clo Vestivio no ano 79 el. G., quando, segundo o relato de Dion Cassio, “0 Povo amechontaclo pensava que os Gigantes estavam guereande contra 9 é6us © Imaginava ver as formas e imagens dos Gigantes na neblina ouvir 08 sons de suas trombetas”, sonoros cla historia romana, © avontecimento fot um dos marcos Hntio, a terra comepon a tremer e a rachar, e as fendas eram fo grandes que © eho parecia erguer-se e ferver em alguns lugares, enquanto em ouites 0 19p0 (ou vith abaixo. Ao mesmo tempo que grandes ruidos € ons cram ouvicos, algans subterrineos, como trovées dentto da terri, outros eenivitm acima do cho, como gemicios ox vociferugdes. O mer betmia, os céus sicuidlam-se com ue barulhoaparorante, © els que sobeeveio ima subita & imensi fend, como se a estrutura cla ratureza se tivesse tompido ou todas as montanhis: tem tivessem enido de ume 86 vex,..2 «his mentantias afuncava Sons Unicos Cada paisagem sonora natural tem seu préprio som peculiar, e com frequencia esses sons sto tao originais que constitiem marcos sonoros. O ‘nals impressionante marco sonore geografico que ji escutel ocomeu na Nova Zelindia. Em Tikitere, Roiona, grandes campos de enxofie fervente, espalhados ao longo de muitos acres de terra, sio acompanhados por éstranhos ehombos e gorgolejos subtenineos. O lugar é una chaga pusite ie 1 na pele dle terta, com infemais efeitas sonoros em ebulicaa espalhan- tlo-se com os ventos. Os vuledes da Istindia produzem algo do mesmo efeito, mas quando se fasta deles a pessoa ¢ surpreendica pela mudanca dos efeits sonoros. Napa cratera i sons trovejanes » explosives © mesmo perto del se pode sentro cho tremes. As atidcas parks de lava (de dois ats metos de slur ava a pouco © pouco mitendo tudo 0 que encontram em sev eam nko, Sto quase sileaciosas, mas ne totalmente, pos, excutando com euidad prem se ourvie deliendos ¢ instvets evios nn crow ~ pequenos niktos S600 10 Din Css, cindo por thomas Bumet, The Sacred Theory of te fs, Li I, caphuto VU O601). Cartondale, Minos, 1965, 235, ae Aahinagio do mundo ‘eonio gelo outdo, que se espallim por muitas mila. Quando exieontrn tern olla, « hiv sibila de un meds sulcante: Aor isso, tuclo € silences Mesmo onde nao ha vida pode haver som. Os campos de gelo do Norte, por exemple, longe de silenciosos, ecoam sons espetaculires: ‘A wins distincia de és ou quaro mihas das geteeas, ouvese o quebrir de Inacigos bloeos de gelo, Hes soam como trevces distantes ¢ repetem-se a code bine ot seis minulos: Quanvlo se chega mais perto, poce-se distinguir entre 0 hhurulho inicial semethante a uma imensa vidraga que se quebra, segaido pelo emor do gelo que cal, ¢ entio tudo ecoa nas montanas distances Rios cle agua conpelada formam tinels embaiso do gelo. Q gelo que eal Ulenuio cesses tineis a dgua corrente e os mosimeates da lama das rochas efi ‘um barulho que € muuias vezes amplficado pela estnitura ox eatinge 0 observa doe ch superficie, com grande fora ‘Também no hi silencio abaixa da superficie da Terra, como Heinrich Heine descobriu quando visitou as minas das Montanbas Harz, em 1524, Nao alcancel a pane mais profands .. 6 ponte que atingi parecia profundo 0 soficiente — um constante murmurar e vugir, um siastro gemido de méquiri borbulhos de cachoeims sulserriness, a Agua espalhando por toda parte fortes exalagDes € a impada do mineiro brumaleando cada vez mais debilmente ni noite soli." Sons apocalipticos Talvez. 0 universo tenha sido etiado silenciosamente. Nao 0 stbemon. Nav havia ouvidos humanos para escutar a dinmica do milagre que fe nascer nosso planeta, Mas os profetas usaram a imaginacao ao falarem desse acontecimento. "No prinefpio, ert 0 Verto", diz Jodo; « presenga de Deuy foi anunciacs pela primeira vez como uma imensa vibragzo de som césini co. Os profetas acrecitavam que o fim também produziria um grande sony, Essas icferéneias Sto especialmente abundantes nas profecias judaicas muculmanas, Fi Trkall Sgbidenson, comaniaae pessoa 42 Dave Simmons, comunicagio pessoa. 43. Heinrich Heine. Die Harazese Simiiche Werke (iineb), x2, p1920, 190, Murray Scholar [Quando Krakstoa expiodi na noite de 26 de agosto de 1883, 0 som se fez ouvirem tela a dea Sombveada deste mapa, Geme:, pois o dit do Senhor esti prtxima ... Patel estremecer as eéus, @ a terra teemeri em sua base tob a irs do Senhor dos exércitos no dia de Furcr ke stu ‘Com ribombar cas tamiboses dt ressurreicio eles encheram seus dois ouvicis de terror (Com os dedos taparam os ouvides por causa dos treves, temerosos da morte. Na imaginagio dos profetas, 0 fim do mundo seria assinalado por um fone estrando, um estrondo mais violento do que o som mais forte que se poses imaginar, mais terrfvel que qualquer tempestade Conheckla, mals feroz que qualquer tovio. 4h aioe 13:6 © 13 4 Jalan n-xumnt, Dita & Sha Hats, 10 Corto 2, 19, ‘Aratinayan do vivo de que se tem meméria fol a explo sno da ealdeira che Krakatoa, na Indonesia, entre 26 ¢ 27 cle aposto che 163, (Os sons foram ouvidos na itha de Rod lista iproximadamente 4.500 quilmetros ¢ onde o chefe de poltcia local rel its vezes, durante d noite... ouviam-se explosoes vines clo Leste, © som mais forte ouvide nu Te ez, que estd 140 tow "Va ist lewalos de cesca de tiés a quatro horas, até as 15 horas do dia 27".!" Em nenhuma outs oeasido os sons puderam ser percebidos a uma dlistinckt como essa, ¢ 4 frea na qual os sons foram ouvidos em 27 de agosto tot lizou pouco menos do que 1/13 de toda a superficie do globo. E dificil para um ser humano imaginar um som apocaliptico, do mesmo modo como é dificil imaginar um siléncio defintivo. Ambas as experiénelis txistem apenas teoricamente para o ser vivo, uma yez que elas impdem ies nigidos de pesdos canhdes, Essas explosdes continuaram a Ini limites & pe6pria vida, embora possam no ter consciéncia das metas pelits quais se modelam as axpiragdes de diferentes sociecades. O homem sempre tentou destruit seus inimigos com ruidos temrveis, Encontramos tentativiss lcliberadas pata reproduzir 0 ruido apocaliptico na historia das gueras, desde 0 entrechocar-se clos escudos ¢ 0 rufar dos tambores dos tempos primevos até a bombs at6mica de Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guernt Mundial. A partir de entao, a ampla destruicao do mundo talve tenha sid reduzida, mas a destruigio sénica nfo, ¢ € desconcertante percebermos quis 0 indspito ambiente actistico produzico pela moderna vicle civil deriva do mesmo anseio escatologico. “The Brupton of Krahatoa. Reto ce The Krakatoa Cemmivee ofthe Royal Society: Lonilon, 88, 70.80, 2 Os sons da vida Cangéo de passaros Um dos mais belos milagres observados em toda literatura € 02 mitolo- gia ocorte no meio das brutalidades da Saga das Volsungs quando Sigurd, pas matar 0 dragao Fafner e provar do seu sangue, subitamente passa a entender a linguagem dos prissaros — um momento que Wagner utilizou de modo soberbo em sua Spera Siegfried. A linguagem € 0 canto dos passtros tém sido tema de muitos estudos, ‘embora mio se saiba 10 certo se, de fato, as passaros “cantam” on “conver sam”, no sentido costumeiro desses tetmos, Sea como for, nenbum som «la natureza tem estado ligado to aferivamente 3 imaginagio bumana quanto ‘as vocalizagbes dos pissaros, Em testes feitos em varios paises, temos pedi= ‘do aos ouvintes que identifiquem os sons mais agradaveis ce seu ambien- te; @ canto dos passaros aparece repeticlamente no topo da lista, on prOxi- mo dele, Ea lstoria das imitagoes de passaros na musica estende-se de ‘Clément Janequin (morto por volta de 1560)a Messiuen (nascido em 1908), Do mesmo mado que os priptios passaros, suas vocilizacées sao de todos os tipos. Algumas S20 penetrantemente fortes. © grito da cortuita castanha (Atrichoris mufenscens) da Australia "6 120 intenso que deica uma forte sensacao nos ouvidos”." Outros passaros podem dominar a paisagem 1 A. Je Matsball. The Funktion of Vocal Manicry 9 Bis. Bras Mellow, ¥59, 9.9, 1950. R Murray Sehater sononi, pela sua quantidacle, A araponga pequena CManorina melanopbrys) ouvild nos arredores de Metboume, com seu persistente som de sino soan- Jo sempre, aproximadamente, nas mesmas aluras (Mi, Fé, Fé), provoca gem sonora lo densa quanto a criada pelas cigarras, embori se Ailerencie dela pelo fato de manter uma certa perspectiva espacial, pols os sons dos passams provém de pontos reconheciveis, dlferentemente do festridulo das eigarmas, que cria uma presenga conifoua, aparentemente sem primeito plano ou fund, Em muitas pares do mundo, 9 canto dos passares € rico € variado, sem set imperiaisticamente domminadoe, Assim, Sio Francisco de Assis adoiou 8 pitssaros como simbolo da docilidade, do mesmo moclo que seu con- temporineo mugulmano Jalal-ud-din Rumi adotou a flauta de canigo para sua seita mistica como simbolo de humildade e simplicilade, em oposigao 2 vulgaridade ¢ & opuléncis de seu tempo, Mais aciante volkaremos a falar da impontaacia simbélica do canto dos pas lo para a paisagem sonora. A wocalizacio dos passaros tem sido muito estudacla em termos must ais. Em principio, os ornit6logos construfam palavras encantadoras, que mo constam de nenhuma linguagem conhecida pelo homem, para descre- ver esses sons? uma pal ros tanto part a musica quar Paral de bieo grosso Die. warts Tet. tobe Tursi-ut ‘Tentlhio vende lud-ut-udeuct-chou-chow-cbou-cbouw-heweut Cruza-bieo th. chipebip-chip fist pee Grande ehapim Bu, Zt, pti, tsutl, ueH ebing-s ching-si, dida-didadida, Bipot biviesttida Papamoseas Itchirol, tebivel, tcbirok, idol. didol- at Teiestedt tei: teui, tru, trae ‘Terdo-visgueizo Whi rio-rh, iei-rb-ontey Triivo-uboutouit Codomizao crecs-orees, crecoree, reprep Nareeja este. te-twe-tictuc-tic-Me-cbip A hip-t; chicchue: eine? 7 Batre ons do rh oan sted acpi, msde ina fepresentigto aproximack do mesmo som, (N.T) “ 5 FOL icin Kec. Songs WB London, 14, Aalivaghe do mundo A notigio musical tambén fol utiliaida, ¢ ainda o é, por Olivier Measles que tninsfermou a transerigo en uma complex forma de ate clu engenhosidude desse t \edes: los puissuros, oom ponies exceeds, lo Se prrestam As situNgSES Musicals, Muitos dos sons emikidos tuidos complexos, € 4 alta freqiénela € 0 tempo ballho, as vocal nto sd0 sons simples, 1 vipida de maiios cantos impedem que sejam transcritos em unt sistem hovacional projetado para as tessituras em frequiéncias mais graves ¢ kempos mats lentos da misica humana, Um método mais preciso de nowgto & 6 do espectografo sonora & os ornitologos, atualmente, o esto utilizanda, ® 20, Tempo (a) ‘Um expeeuigrlo sonoro dlatinge claramente ce sons dor pastes qa tm qualddey nla 4) som do rouxinel: muito pao, com harmentos. b) ioutneyr asin caso; &) eal do piano: trinado musical: dh paral corde gesso: ruldo sem altura delnidase) pequeno papal austraao: v6o banulnento, guinchos A estrutura do canto dos pssaros costuma ser elaborada, pois muilos deles sto executantes vinuosisticos, Alguns sto também imitacores. A ave do parsiso, da Austeilia, é uma imitador soberba, ¢ seu canto, quase Sem pre, inclui ndo somente imicagdes ce cantos ce mais quinze outras especies de pissaros, mas também o relinchar de cavalos, o som de sertas, burinas de automével € apitos de fétsrical Os cantos de muitos péssatos contém motivos repetidos, ¢ embora muitas vezes a funcao das repetigoes seja obs: ‘cura, esses loifmaties melédicos, variacdas e expansées mostram certas simi- laridades com os recursos melodicos usados na. musica, tals como os empre gades pelos troubadours.ou por Haydn ¢ Wagner. Em alguas de seas por menores, a linguagem afetiva de certos passaros, como vem sendo mostia~ RTL SEF «lo, mantém relagto com as formas dle expressao humana vocal e musical Por exemplo, os sons afitos dos pintainhos so compostos apenas por fe stiéneias clescendentes, enquanto as freqliéncias ascendentes predomi ham nos cantos dé prazer, Os mesmos contornos gerais esto presentes expressdes de tristeza e prazer do homem. Mas, apesar dessas simikarichides, € Obvio que, seja o que for que 08 safos estejam comunicando, suas vocalizagbes so projetadas para seu prSprio beneficio & nao para o nosso. Alguns homens podem descobric os Seus cSdigos, mas a maior parte se contenlatrd apenas em ouvir a extrava- ane © surpreendente sinfonia de suas vozes. Os passaros, como 05 poc- has, no precisam significar, mas set Sinfonias dos passaros do mundo Cada territério da Terra teri sua propria sinfonta de passaros, produ: indo unt som fundamental nativo — to: caraeteristico quanto a lingua dos homens que vivem nese lugar. Em Paris, Victor Hugo ouviu os pissaros dos Jardins de Lixemburgo durante o me de maio, época do acasalamentio: Os quincunxes ¢ tabuleins enviavam-se mutuamente no meio da hay, pete mes € fulgores, Os ramos, Suiscantes 4 claridade do meto-dla, pareciam’ querer abragar-sc, Nos sicOmeros, chilreavaam bandos cle tutinegtas, de paedais tiunfan- tes, de pici-paus que subiam pelo tronco das eastanheiros dando bicadas aos buuracos da eases... Fra ums magnificéneds limpida, O grande silencio da raturezs Fie enchia o Jardim, silencio celeste, compativel com mil mnisices, amulhos de ‘ninbos, zunido de enxames, palpitaghes do vent Uma tica polifonia como essa esté ausente das pastagens ila América do Norte. Em uma planicie perto de Pitishurgh, hd um século, um escritor ale- imo nao enconirou “absolutamente nacla ... até uma grande dictancia em comprimento ¢ largura, nio havia um passaro, nem uma borboleta, nem fit de-animal, nem zumbido de insato”.® Nas pastagens, os sons se evapo- 4 Vitor Hugo, Les mistrables, 1962: fed. bras: Os isenives Tad Carles Santos. roulo do Livro] Gusto de Lanescape Painting of te Muctenth Century Manca Vasevchi New York, 1971, p10. 5 Rerinand Kmberger, DerAmorthu-mill, 1855, Cao le Davie Lowenibal. The Ameiicin Sone. The Gongraphical Reviow, vANTHL, 21, p71, 1568 ae ‘Wealinegee de reanito navi, Como He nuned tivessem Sido produzidlos, Nay esk ‘ nte isolados “Tudo to dos pssaros também era freqiient ‘ vente acioa, nas profuncezas celestiais, uma corovia esti gorjeando & a umada ¢, cle tony Jas caem sobre at te cla alturas et@reas, as Notas pate ‘ jos em tempos, ¢ geite de uma gaivota, ou.6 som metiico de uma codoma ‘cco na estepe’." De longe em longe, apenas uma especie & ouvichs “Como ra encantador esse Ing! Os papa-figos emitiam o seu canto fon ues sons claros, parando somente 0 temipo suticiente para deixar o campo: Gmidos sons Alautados, até a ttima vibragio". alo. por és absorve-lo, por eatee os il F no inverno os passares se misturavam aos sinos dos trends, “O que pode: no beira clo campo ch ve € hha ser mais agractivel do que sentarse se : ouvir © chilrear dos passarms no siléncio cristalino de um dia de invemo enquanto, de algum lugar muito distant, soavam 8 guizos de wins Woe que passava —aquela graca melancélica do inverno russo!” + ied PPR LSS ia (hy) Frage QI 04 06 08 10 12 1A 18 18 20 22 24 Teg i) Fapestoarfi enor de cons de prnee Cain) « de sgt abate) de wm pint de ne i \ X43 nN U2 04 08 08 10 2, Cielo de Mares Vales, 6 ‘Nicolai Gogol. Bienlrgs on a Heri near Dikaniea, 1851-18 ch. 2 7 Bone Patek, Bectr Zhkig New Vk 198, fet: etre Tela Ts sane i, 1566) 8 Nisin Gork, Caco Gado de Maco Verh of &L p.27 _ Murtey Schafer Mas nas florestas cla Binnnia essa claridade era impossivel de se ens contrar, como Somerset Maugham descobriu quando 4 esteve. “O rumor ds grilos e sapos ¢ os gritos dos piissaros* produziam um rufdo tremendo, de modo que até que se acostume a ele pode ser dificil dormin” "Nao ha condi Maugham. (Os ornitélogos ainda no meditam a densictade estatistica do canto dos pissaros nas diferentes partes do mundo com detalhes que nos permitam fazer comparagdes objetivas — comparagées que ajudasiam a fazer mapas los complexes ritmos ca paisagem sonora natural. Mas eles tém realizado muitos trabalhos em outro campo de inieresse para o pesquisador da pat- sagem sonora, classificando tipos e fungées das cangdes Bisicamtente eles se classificam assim: silencio 20 Le: dos passaros, ceantos cle prazes ccantos de angtistia ‘eantos dle defesa teritorial ‘eantos de cantos de vo eantos de phumagem ccantos cle nino cantos de alimento Podem-se encontrar equivaléncias para muitos desses cantos na experi- @ncia humana de produzir sons. Para tomar alguns exemplos dbvios: 0s cantos territoriais dos péssams sia reproduvidos no som das buzinas dos Automdveis; os cantos de aleita, nas sitenes da policia; e 0s cantos de prazer, no ridio na praia Nos cantos territoriais dos passiros, encontramos a géne- se da idea de espaco acistico, cla qual trataremos mais adiante. A definicao do eepaso por significados actisticas é muito mais antiga do que o estabele- cimento de cercis ¢ limites de propriedade; e, 3 medtcla que a propriedade privada se torna cada Yex mais ameagadora no mundo modemp, € de cret que 08 principios reguladores da complexa rede de espacos actisticos que se sobrepdem € interpenciram, como ocome entre os passaros & animais, teri de novo uma grande significagio também para a comunidade humana, Os plissaros podem ser distinguidos pelos sons que prodluzem ao voat. (© grande e lento adejar da aguia é bem diferente da tremula agitacio do 9) Somerset Maugham. Toe Generar tx the Perot: Lonwlon, 10, p38, ‘Watitayie do mundo patel Ho ar Nac verladle ey Ho vi 8 passano, mas OUVLE NApldD rule escreveu Frederick Philip Grove depois de crusar as prudariay canndlenses durante a noite, O amedrontade éxedo de um banda de gan sos em um hago do Norte canadense—um brilhante aelejar cle ayay ni agi 6 Um som que se imprime Go fiememente no espiritn dos qué O Ouven {quanto qualquer ttecho de Beethoven. Alguns passaros tm ssas furtivas: *O v6o da coru 10 almofadadas na parte inferior, Voce pode ouvit seu linda canto mas nao 0 seu Yoo, mesmo que ela circuke em yolta de sua cabegn ".#” Somente os que vive perto da tert poclem distinggit o8 sons Ue suas asas ao vor, © homem ucbano reteve enti habilidade apenas para in: Fogo 26160. Note-se com tristeza como o homem moderno est perdendo até @ nome dos passaros. “Estou ouvindo um passaro” & uma resposta que freqiientemente recebo durante 0s passeios aucltives pela cidade, "Que passaro? "Nao sei.” A estrutura lingiistica nfo é apenas assunto da lexicogratily 56 percebemos aquilo que podemos nomear, Em um munclo dominado pelo homem, quando o nome de uma coisa morre ela € eliminaita da socle dade © sua propria existéncia corre perigo, muito silencioxo) suas asa Insetos (Os sons de insetos que o home modemo reconhece mais Facilmere si0 05 thas initantes.. O pemilongo, a mosca ¢ 4s vespas.sfio facilmente reco~ nheciveis, © ouvinte atento pode mesmo dizer qual é a diferenca entie pernilongos macho ¢ fmea, pois normalmente o macho produz um som mais qgudo, Mas $ um apicultor sabe dlistinguir todas as varianies dos son’ das abelhas. Leon Tolstoi criava abelhas em sua propriedace ¢ 0 som delay é descrito por ele tanto em Ana Karenina quanto em Guerra epaz Ov: am-se constantemente os diversos sons tlo enxame das que voavam diligen: tc, dos ociosos zangios ¢ das abelhas-guardias, que defendiam do is que era seu" Quanclo uma colméia sem tainha esté morrendo, os apicul- tores ficam sabendo pelo som: 1D P.Philp Grove, Oner Prairie Nats, Toronto, 1922, p38 LL Leon Tolstoi, Anna Karenona Yad. G. Garnet. New York, 1965, p87. fe. as: Aaa Kan nina. Ted. Joao Caspar Simoes, Sto Paulo: Abil Calera, 1971.) — (0/006 as abeltias nto & come 0 spate cts tat, Quando ten pared a cdot Yee I npando apes pee esa ee nal sce sto amt este peru so deseo ¢ esa triode lees pares da cel sera wl ice enmine de gins cvandonee uonbcando ame, roms eae ti deena da cone two we ower o unio rue, o mani da nas 0 Camo lea event, mas tvonoce fond edema Snore Nas Gesrgicas, Virgilio descreve 0 modo como os apicultores romanos iziam. um barulho vibrante” com cimbalos a fim de atrair as abelhas part as coliéias, Ele também descreve vividamente como duss colméias cle vez em quancle gueretam ocasionalmente entre si com “gritos semelhan. les 208 Sons abruptos de um trompete’.!* (Os sons dos insetos sito produzicos em um ndmero surpreendente de maneiras. Alguns, como 0s dos mosqnites & as zangios, resultam apenas jo das asis. A tessitura das frequénctas dos sons das asas dos insetos situa-se entre 4 © 1.100 vibrages por segundo, € muitos dos sons de inseios que ouvimos sio produzidlos por essas oscilagées. Mas, quando a borboleta movimenta suas asas entre cinco ¢ dez vezes por segundo, o resultado € muito débil e muito grave para ser registrado, Na abelha co Tun, @ frequéneta da batida das asas € de 200 a 250 cictos por segundo, € 1 do pernilongo (dredes cantans) foi medida em 587 ciclos por segunda (cps). Essis freqiiéncias, entlo, seriam as notas hasieas dos sons resul: lantes; mas, como Um rico especico cle harmdnicos esta sempre presente, 6 resultado pode ser unt som misto, Como um diapasiio pouco discernivel, Outro tipo de som produzio por alguns insetos é © das batidas no ehiio, Bo caso de muitas especies de tériniias, Um grande niimero de {érmitas pode bater no chao em unk de adverter a vib ‘ono, presumivelmente como recurso , hum media de cena de dez vezes por segundo, produe vindo um débil tamborilar, Julian Huxley escreve: “Lembro-me de estar acoxdado uma noite no campo, perto do Lago Edward, no Congo Relga, € ouvir um estranho estalido ou Uque-taque. Unt lanterna revelou que ele eon TOMO War and Peace tad G. Rio de Janeiro: Globo, 195). 1) Vea, Gesrateas, ers TV, ventas 6268 « 7 Senet. London, 1971, p34, ed. bas: Girne pa. Wad. C. Day Lewis, New York, 1964 40 se Nee Minha de wna coluna cle te s que eu protege dt encurid Ouitos insetos, como os gules. ¢ etieundo unia pane de sun anaiomia, chamada scrape rome files.” © resultado desse continuo raspar 6 um rumor complexe, reo rus formigas, procuzem) estriduuloy inisitios proxiutores cle estridley pmoduzidos pelos insetos & feita mOnicos, A variedacle desses met © enorme, ¢ cextamente a maioria dos sor ‘em sons hi ess maneint. ‘As cigacras figuram entre os insetos mais ruidosos. Flas produzem som de textura semelhante lo por meio de membranas rigidas ou timbales, pergaminho, prOxime 2 jungao do 1Grax € do ablome, que sto postas em movimento por um vigoroso muisculo preso a sta superficie interna; esse miecanismo proc uma série de estalidos, semelhantes aos dle uma tampa de estanho quanclo pressionada com os decos. © movimento do timbale (que chega a vima freqiiéncia de cerca de 4.500 c.p.s) & grandemente ampli ficado pela cimara de ar que reveste a maior parte do abdome, de moto que 0 som pode ser ouvido a meia milha de distinct, Em paises como a Austeilia e a Nova Zelandia, elas prodiuzem um som quase opressivo emt uminadas época (le dezembto a margo), embora durante a noite cedam lugar ao suave exiceilar clos gritos. E cificil descrever as cigacras para alguém que nao as conheca. Quan do joven, Slexandse Pope, ao traduzira frase de Virgilio ‘Sole sub ardentl resonant arbusta cicadis” Cenquanto os pomares ecoam 0s sons das aspe ras cigarmas © os meus"), serviu-se do expediente de utilizar um som mais reconhecivel para comunicar 2 mesma idéia a seus letores de lingua ingle sa: “The bleating sheep with my complaints agree*” CO cameito que bale conconla com minhas queixas’) A Tteratura clissica, a exemplo da Htecatura oriental, esti cheia de refex cigamras. Hlas ocorem na sud (em que & palavia greys tks det rencas 4 1H Julian Huxley, Ladwing Koch, Adal Zanguage New York, 1968, p.24 15 Oe ghibs, para produsir sons, mupam as bores dura de sas ass aateriones. No caso Forngas, sto 3s antes temponsivess pelo som Sorapese fles(ietaiments“agpadors! ‘e“lmas’) sko niemes aprosinatsos éados 2 esrumuris semifiadas de anen (ro Caso his Formigas) ¢ de asis (no caso dos giles). (NT) 16 G nome tinal € dace et aproximucdo com cero tipo de tambor.(N. 1) 17 Compara Vigo, Afege 1. com a parsleae de Pope, The Second Pastoral a pense Das one Tere, costuma ser erroneamente traduzida como “gat, de Hi Habit do Sul. ‘entin homens tocaclos pelas musas que passavam a vida cantando €, esque- cendo-se de comer, morriam e renasciam como insetos, No woismo, as lgartas se assocaram a bsien, a alma, ¢ imagens de cigarsas eram utilizadas qqvande se preparava um compo para set incinerado a fim de auxiliar a alma 1 se libentar dele apés a morte. A importancia da cigarra na paisagem sonora «lo Sul, assim como o simnbolismo por ela provocado, tem sido negligenciada desde 6 comparativamente recente acimulo nérdico das civlizagoes euro- pela © americana, Quando se tornam parte do calencirio dos fazendeitos, os insetos, co- Mo 0s passaros, evidenciam-se na paisagem sonora e tornam-se sinais para determinades atos: “Podemtse preparar as terras pant a semeadunt en- quanto Hi em cima a cigarra, olhando os pastores 20 sol, fu ronde das aevores?, hoto") © nas obras io. Tedcrito diz que os gregos as mantinham em gaiolas por sva le Canora € essit prdtica ainda & comum entre as criancas das terras im Fedro, dle Pltao, Séerates conta que originalments a3 cigarras z miisica na Os sons dos insetos, entio, formam sitmos tanto circadianos quanto stgonais, mas os entomolegistas ainda no os mediam com pormencres suficientes para que o pesquisacor da paisagem sonora seja capaz de esta- belecer claros modelos sonoros a partir deles, Tom havide muitas diffculda- sles na andlise precisa das intensidades e freqiéncias dos sons dos insetos. Isso ocorte tanto porque as espécimes individuais sao dificeis de isolar quanto Porque Cs Sons produzidos por insetos geralmente tém esiruturas de fre- qiier as complexas ou ruidos de amplo espectro, com harmOnicos que; em geral, aleancam @ faixa dos ultra-sons. O gafanhoto Schistocona grogaria emite um som de cerca de 25 decibéis quando grwvado bem proxime 4 fonte, mas 0 ruido de batica de asa atinge 50 decibéis quando em véo. 0 nuido do voo do gafanhoto do Geserto foi medido e atingiu perio de 67 clcibéis 4 uma distincis de dez contimetzos do microfone, A poténeia de som de muitas mariposas pode ao ultrapassar 20 decibéis quando gravacia bem préximo a fonte, enquuento os insetos dotados de asas € corpos rigidos ‘como as moseas, a8 abelhas & os besouiros, procduvem sons superiores a 50 0 60 decibéis, Como 0 ouvido humano € mais sensivel aos sons situados em tessituras médias ou altas, os sons de freqiigncia mais aguda (em ama 18 TeScita,HiEXVE AS. F. Gow CF). Cambie, 1950, vA, p22. 62 eRe renee Indalia situadks entre 400, 1,000 ep.) soar avait fortes 0 oUvkLO) rH nenluim ouvide humano pode escutar as freqdéncias amis agucs cho chia tnnado dos gakanhiotos, que fot verificado estarem a faixa. che 99 mil ep oto & duns oitavat ‘da capacidaile de audigio do ouvido humano. Para nossos propdsitos, contudo, uma simpl dos insetos € suliciente, Mais, talvez, do que qu eles nos dito a impressto de serem constantes ou ocorrerem nuns nh Jo, pois muitos insetos mods ininternupta, Em parte isso pode ser uma lusio, p tos insets n modes sutis, mas, apesar do efelto vin -simpressvo geral dos sons |quer outro som na nature a e muitos lam em pulbagdes ou variam de “granulado’ que lais modulagbes criam, a impressio dada por muitos inse 0s € de voniinua € invatiével monotonia, Como a linha ret no espaga, 4 linha constante no som raramente ocorre na naturezi, ¢ eka 86 ocorrert com 4 intioducdo da. maquinaria moderna peki Revolugio Industral © som das criaturas das aguas ‘Ossons das criatuiras vivas io emitides apenas no ambito de uma este fem torna ca superficie da terra — muito menos do que n da terra, 20 ma, tura muito este 1% de seu raio, em exiensto, Confinam-se a Gare tne dea mpeie 6c nee na dela. Mas nessa Area relaivamente pequena a diversidade de sons prox dos pelos organistios vivos é dexconcertantemente complex, No € ROK e somente tocaremgs emt super‘ic ogar todos os sons da natu propdsito aqui cat tre deles que estio entre os menos usuais' a Se os peixes tenham mecanismos produtores de som nem desenvolvide Gago auctives, mutes deles produzem sors Gales, alguns dos quits extremainiente muito fortes. Alguns pelses, come 0 pel xelva (rolim) ou certas espécies de cavala, produzem sons rangendo oll s Jind gases ou vibrando a ido os denies. Outros fazem sons expe! en > Um peixe, o misgurnus,2) produz um rufdo forte en- bexiga natatés 5 a sls ‘ascren ets asst an rs deal extn mie 55 ea rs ea eo , tes tos ema gy ue Haye aig Hac es Yor, 96 1 ciizado pars a Flutuabvilidade, ou se, 08 peiney, 20 benign nator dos pies eum cpio ata ps mmm adi ena deus, encom bei Ge ae, quando que det cova. (NT) . 21 No Bat, o nome poplar dasee poke ‘dojO% WW.) 63 OR ne eee wolinds bolhas de a 8 com forga pelo Anus, Pelo menos 44 iReneros de peixe produzem som pela vibracio da bexiga natatcria. Os cantos cles baleias 1@m sido objeto de um numero conside estudos reventes, © alguns registros da baleia jubarte® foram produzidos comercialmente em 1970. A imediata e espetaculat atencao de que foram alvo deveurse parcialmente & comoyo provocada pelo fato de os cantores peitencerem a uma espécie em extingio, além do fate de as cangSes se- ‘em obsessivamente belas, Além disso, eles mostraram a muita gente, que se havia esquecido dle que os peixes ertm seus ancestrais, as abdhadas sonoras cas profundezas ocednicas e uniram os efeitos de feedback da Incsica popular eleuOnica € de guitarra aos multiplos ecos da actistica submarina — assunto ao qual vokaremos mais adiante, Os cantos das ba- leis jubartes podem ser analisacos em termos musicais, Cacla canto pare e Consistir numa sétic dle variagOes Sobre temas ou motivos constantes, Fepetidos em um ndmero diferente de vezes. Os pesquisdores estio co- Inevando a indagar se diferentes grupos ou familias de baleias jubartes no © expelinds- wel de loriam diferentes dlalctos. Muitos crustiiceos emitem sons. O camaro mantis (OMoridella®) prox ‘i vm som forte friccionando partes de sua cauda, enquanto a ligosta espinhosa da Flérida emite um som grasnado friecionando uma ponta ‘especial existenve em suas antenas. Outros crusticeos produzem estalidos, ‘zumbidos, assobies ou mesmo rugidos que nito raro podem ser owvidos «la praia No inicio da primavera, os pintanos de muitas partes do mundo se cenchem de sons dle sapos © 18s. A América do Norte possui toda uma orquestra de execuantes: o lamtrio da gi-de-bocaestieita, © latido dos iposcachorto, © assobio das ras saltadoras, © sapo grilo-do-brejo © 0 trinado da + americana; 0 minisculo sapo grilo-do-brejo soa como um inseto, © sapc-do-campo produz sons de guizo, © sapo roedor ronca, o vaipe verde toca banjo € € © sapo-boi do Sul arrota Quando Julian Huxley visitou a América ¢ ouvia o grito do sapo-bot ppela primeira ver, "recusou-se a acreclicar que aquele som procedia cle um Ht ttunpoast bale 9 orginal. Coresporate, ent ports, (ome mais comand. As bales jubare pertencem a gfnero Magapters. (NT) 24, Mantis shrimp ne evigioal. © nome popular, ro Bets, © uunbucutics (9. 7) ‘len etaeundls* ou subse" a WAGES Co mune c muito perigoso, tho forte simple spo: 0 som sugerta um animal grande e muito perigono, G ce yrave ena"! No Norte, 0 sapos signiticam 0 mesmo que as Cigars pa Js japoneses & austealianes, A estidulagio altamente ressonante de agus ints especies, como o sapo-dorsul (uf frresr,assemelha-se ment90 I 4s, € 08 trinados sustentados do sapo-do-oeste (Bujo cognatiss) tluum cerca de 34 Sequncs, com fo registrado. Nas com o pi f pos-boi cai em altura eos noite, 6 arlor diminui nos pintanos; a voz dos ‘outros instrumentistas gradvalmente param de tocar. “Toma A a SO ie nom wmsaet 10 D 30 “ ee ee Tero (5) (© camo das bias jubartes, que consistem temas e vatiagdes hem detidos, 2H Haley & Koch, op. ct, pal oF a as Qs sons dos animais E impossivel examinar tedos os sons produzidos pelos animais, Mencio. harei apenas alguns, no nosso caminho em ditecio ao homem, Os «: voros produzem os sons individuals de thiior tessitura entre os animais, € muitos deles, conto 0 ura do le’o, 0 uivo do Iho ou a risida da hiena, (em qualidades de ao grande impacto que se imprimem imediatamente na imaginagao humana, provocando intensas imagens actisticas, Uma vez ouvidos, nunca mais serdo confundidas on esquecidos. Estio entre os Brandes sons que fazem historia, Os homens que apenas ouviram falar Ulcles pelos labios de um barco estremecerio 56 em pens Ludwig Koch registrou pelo menos seis tipos clstintos de expresso Yoral nos ledes. Op filhetes gritam para obter atengao dos pais, ¢ aparen- lemente gritam ce modo diferente de acordo com o genitor que esta senclo solictado, A respost maternal ¢ um som ressonante, semelhante a uum keunhido. Hi um “grito de pruzer’, observaco principalmente nos ledes 1 cativeltO, que se inicia com o aparecimento do tratador, O som prod “ido quando a fera se encontra sozinha, dllimentada e trangtilla € um ros. nado suave e profundo, No momento em que a presa 6 apanhada, os ledes cmitem um breve © amedrontador lacirido de ferocidade. Por fim, nd 0 Vertladeito rugido, normalmente ouvide & noite, 0 que é raroa luz do dia As vezes, quando tugem, os ledes mantém 2 boca junto ao chao, o que intensifica a ressonincia ¢ a vibragdo da voz, Os leBes nfio rontonam. Os leopardos ¢ as pantere sim, ¢ fortemente, Ao lado dos sons dle sibilar ¢ fungar que a maioria ds felinos produz quan. «lo est§ brava, cada qual tem © seu prSprio reperténo de sons tinicos, Por exemplo, © puma tem um forte grito lamusioso, clo qual Julian Huxley diz «ue “poderia ser confundide erroneamente com um grito de crianga", en. uiaato 0s filhotes produzem um som ibilado. Os ties so animais menos arulhentos que 08 le6es, porém, no cio, emitem um grit. desbragads, semelhante ao dos gatos comuns, mas gandemente aumentacto O uivo dos lobas & isolaclo e persistente, Em geral, 6 lider da alcatéia ‘omega em solo; enio, 08 outros se juntam em coro, usivando, em prinet- pio, @ depois baixanclo para um ladricdo atormentado, No grito do lobo, encontramos um ritual vocal que define a demarcagao territorial da ales ‘cia pelo espaco actistico ~ exatamente do mesmo modo que a trompa de aca demarca i floresta e 0 sino da igreja, a parsquia, 6 ‘ralinngio tha (undo: empre Interessaram @ divertinan 0. Os sons produzidos pelos primutas sempre int ame di an sn grande diversidacke, variando «lo apito, so ge echoes 0 muite fortes, O ‘Jos sons inarticolados a0 grunhido & 20 rugides. Alguns America clo Sul tem a vox mais Forte dentie 0» mannii ove que seu som percone eerex de cineo quilome: na floresta densi, O animal tem wma estruturt jnucacrngitactor da anho,¢ ro do seu t (vos em espago aberto, € tt 5 fe emelhante a um fole, em sua laringe, que © ajuda a proxluzir ene special, semelhante a um fole, em sua larlnge, ¢ an volume sonore. : esses animais, Medimos os gibdes de Hoolack em um pico de 110 dBAy fora de suas jaulas, no zoolSgico ele Vancouver. Julian Hualey fala a sespelio. Je um amigo que cuviu os gibdes no zoolégico de Londres, quando ele Chavo, OR io comego cat manhh ‘estaya no Oxford Circus, durante ap pldcidas horas di “yo ca Seria uma distincia de dois quilémetros, aproximadamente. ri im mecanismo de sons nao: O gorila € 0 nico primata que descobriu um mecanismo ck ado ums fretanto, ainda nio se fez nenhumia medida exa 51 : punhos, prod) ‘yoetis: cle golpela © proprio peito com os punhos, p ag forte e cavo. Isso ¢ feito tanto quando ele produz sons vocals como qua do nao © faz, O gorila descobriu propriedade da ressonancia indepen dlentemente do mecanismo natural da eaixa vocal. Fle parece estar sempre ha iminéncia de descobrir © instrumento musical, sem ser capaz 3 com nto quanto sabernos, pleura transigo do som pessoal para o artificial, Tanto quant somente o homem é capaz de fazer isso, © homem fax ecoar @ peisagem sonora na fala © na mésica “Todos 0 sons clos animais mencionados nestas paginas entram em alg Podem ser sons de alerta, chamados de acasalamenty, mas poucas calego cern ices eta He sear leer aiden, sons de limerrara0 eam sociais. Todos sto identificaveis nas emissces vorais do homem, € © hoe sito deste livro seri ilustrar como eles tém sido trabalhados nas comuniclt des humanas a0 longo da historia. A isles eee do tratadas desfavoravelmente pot (iv! i iialeee ‘ Jepresenia una resposta. GUI Se caeraas a Cy SEN TO: va comiesar, devemos atentar ao fato dle que muitos dos sinais comu nieados enire animais — os de cagaca, alerta, medo, raiva ou acasalain no uo Corresponclem estreizamente, em duracio, intensidace ¢ inflexio, Multis exctamagdes humanas, © homem também pode gorgoleja, uivat, ‘ssobiar, grunbir, rugir ou gritar. Isso, somado 40 fato de o homem mutitas exes compartilher os mesmos territGrios geograficos com os animais, reme- 1 20 seu freqiiente aparecimento no folelore e ent rituais, Nesses rituals, como a china «los macacos dos balineses, as vozes dos animais miglo, Marius Schneider escreve: 0 = 10 conju as pelo homem, em estreita in # preciso que se tena ouvido para se perceber como os aborigines sta capa 2¢8 de imitar os baruihos de animais ¢ os sons ds natureza de mancia tio realist. Chegam mesmo a fazer "concertos de niuuteza”, nos quals cada cantor imita um letezmintads som (ondas, vento, vores plangentes, gritos de animaisassustacles), ‘concertes" de suppreendertes magnitude e heleza Fstamos naquele tempo remoto da Pré-hisi6ria em que ocorre 6 duplo Tniligre de fala € da misica, Como esas atividacles comegaram? Seria preci Pilado insistir em que a fala originou-se exclusivamente da imitacio ‘onomtopaica da paisagem sonore natural. Mas alo pode hiaver dkivida de lingua dancou e ainda continua a dangar com a paisagem sonora. Os poeas e os m viva @ memoria, ainda que 0 homem Modemo se tenha convertido em um “espectador de culos’. No que concerne 10 pivelamento do estilo vocal humano, o imgtista Oto Jespersen escreven: Uma conseqiéne da civizarao wwaneada & que « paixdo ou, pelo menos, expressio da paixio seja modemda, caf ser forguso conchii que a fala do homem s#o-cvilzado primldvo era mais apaixonaamente agitade do que a nosso, 1 semelhante & miisica ou a cancao .. Emibora olhemos a comunicaso do pensames ‘0 como o principal objeto da fala. € perfckamente possfvel que a linguigem se {era desenvolvick a pattir de algo que nao tivesse culro propdsite a nio ser a do ‘xerckar 05 mtisculos di boca e da garganta e diverse, 1 si meamo e 40s ouros, bela producto de sons agracliveis ou, pomivelmerte, apenas esteinhes,= ‘ onomatopeia reflete 4 paisagem sonora. Mesmo com a nossa lingua: seem avaneaca, ainda hoje continuamos, no vocabuldrio deseritivo, a res- kitlar sons ouvidos no ambiente actistico; e hem pode ser que as mais complexas extensdes acdsticas do homiem ~ suas ferramentas e seus recur- Maris Schneider. Pmive: Dhue: tho Neo Cayord Leroy of Muse v1, London, 198%, py 2 Oto Jespersen. Language le Nature, Development and Onin, Lorde, 1954, paz € 437 an Aratinnion do muvee lumbem continuem, alé certo ponto, a amphiar os Retest ais, Katee as i jivemos discutinite os sini fonmion moxtetos arquetipicos, Bs ‘ peacteritic da ingungem, 6 Homem tem inulas palavas pam deserever mrt ke. So verbos, palavras che ‘onan dem animals que esto mas proxineos dle 5 t Deachono fate (CO cachotrinhe game © gato miae ronrond A.vaca muse lei mige Acabea bale Otigre rasna O labo nina © rato guineha © burp zune © porco grunbeou guincha (© cavalo relincha ov rineba® r 9 quutis 0» ingle A lingua inglesa reproduz somente os animais com 0» 4 i em suas muitas migragées, estiverum em estreito contato. Mas a ling inglesa nao conhece nenhuma palavma especial part os animais remoios, y, © Thama ou 6 tapir com 0s quais nao teve contato: 0 galago, 0 mangabey, 0 Thama ou 0 tay ‘Algum dia um lingista rd investigar as mais primevas imitagdes huma- la encontradas no folclore € nas rimas infantis, em que temes urTit onda ais de animais ¢ passaros. As decidida tendéncia para duplicar os sons reais ds P \o interessantes, diferengas enire as linguagens af (F), how-how (AD, gadget) Cacho tow-vo aa ha Oo, em nn kosoves CD co ee Coren €or, Cine ty one a 9 Mh esis del do (corks Shakespear ree hostekoko i Te A ings i tu fa trachxao das vores doy els. (8. T) 29. As abrevingbes das Hngagens sto V—viernamta, J ~ japonts, Al ~ slemo, sno, P— fea, Ae~ drab, : -geego, M ~ malaio, U— urdu 1 ~ lokele: tribe as: Wi Mariay hater le lists poderiamos acrescentar muitas outras palavras interessan- les, COMO espitto: kerchoo (Am), atishoo Q), acl \ ‘Am), atishoo (D, achum (Ar), ol Kakehun (), ach-shi (VD pie Naturalmente, cas imitagdes s urallmente, fais imitagdes se limitam aos fendmencs disponiveis para reproduce, em unt determinada linguagem. Mas um estudo e010 este, se for realizado dlligentemente, poderia deixar-nos mats perto de avali tle que modo 0s tagos crit sporti lo 0s trigos etiticos dos sons naturals sto percebi Fentes povos. a al ean abultlo onomatopaico, o homem harmoniza-se com a paisa. fem sonora sit volt fazendlo ecoar seus elementos, A impressio pvorvicl; a expressio € devolvida. Mas a paisagem sonora 6 demasiad. complexa para ser reprot taf it iplexa para ser reproduzicls pela fata humana. Assim, somente na mi sica € que o homem encontra verdadeira harmonia de fos inte ve é que los mundos interior € exterior, Seri também na musica que ele modelos di paisagem sono criard os seus mais perfeitos 1 ideal da imaginacay, Cena. dos ta Gramente: teeth, roret st ha . rob sin ore (1) fm pruges ttn WT) fesec 3 A paisagem sonora rural A paisagem sonora Hi-Fi Ao discutic a transigao da paisagem sonora rural para a urbana, util: 20 dois termos: bf,fic lo-fi) Esses termos precisam ser explicadas. Um sistema hi,ffé aquele que possui uma 14220 sinal/ruido favoravel. A pat sagem sonora biffé aquela em que os sons separados podem ser clant- mente ouvidos em razao do baixo nivel de ruido ambiental. Em geral, 0 campo @ mais bi,ff que a cidade, a noite mais que o dia, os tempos antigos mais que os modernos. Na paisagem Sonora bi fi, os sons se acbrepdem menos freqiientemente; hd perspectiva - figura e funda, 'o som de um balde na borda ce um pogo € 0 estalide de um chicote a distancia” — a imagem é de Alain Fournier, para descrever a econontia actistica da zona rural francesa (Q ambiente silencioso da paisagem sonora Bi,fi permite ao ouviate eseu tar mais longe, @ distincia, a exemplo dos exercicios de visto a longa distinct no campo. A cidade abrevia essa habilidade para a audicao (e visto) a distin ‘Ga, marcando uma das mais importantes mudangas na histéris da percepeto, Em uma paisagem sonora Jo,fi, 0s sinais actisticos individuais so obs- ‘aurecidos em uma populacao de sons superdensa, © som tansliicide = TT Hire Taft~kafidelidaclee babea fiddle. (N..) HOC SPT, Pes08 na neve, um sino de igreja ct ando o vale ou a fuga precipitida cle um animal no cerrado —é mascarado pela ampla faina dle muido, Perde-se 41 perspectiva, Na esquina de uma ma, no centro de uma cidade mocler pio ha distincia, hi somente presenga. Ha fala cruzada em todos 08 ct itis, € para que s sons mais comuns possam ser ouvidos eles 16m de ser intensamente amplificados, A transicao da paisagem sonora ht,fi para louft ocoreu gradativamente, ao longo dos sécules, ¢ nos capitulos seguintes set meu propésito mostrar de que modo isso se deu, No ambiente silencioso da paisagem sonora fi, mesmo as mais insig- nificantes perucbagdes podem comunicar informacdes interessantes ov viktls: “Ele foi perturbado em sua medlit vinba da casa de coches, Ent 0 & 0 por um rufco dissonante, que vento do tethado girando, e essa ‘mudanea no vento era o sinal de uma chuva calamitosa”.! © ouvielo huaia- ho €alerta como ¢ de um animal, No paralitica, na histor cas sob 0 ¢ léncio da noite, uma velha senhora cle Turgueniew, pode ouvir 2s toupeiras fazendo to- Isio € que é bom’, ela reflere, ‘nao hi necessidade de prensan” Mas os poetas pensam em cada som. Goethe. com 0 ouvide en- estado na grama: “Quando sinto mais perio do eoragao o fornigar de um pequeno universo escondlido embaixo das envilhas, e io os insetos, mos caeclos de formas inumeraveis cuja variedade desafia © observador, presenga do Todo-poderoso, que nos criow 2 sua imagem"? Dos pormenores mais préximos ao horizonie mais distante, os ouvidos openwvam com delicadeza sismogrifica, Quando os homens vivian quase sempre isolades ou em pequenas comunidades, os sons nao se amontoa- vamn, exam rodeados por lagos de quietude e 0 pastor, © madeireira e 0 Fizendeiro sabiam [@los como indicios dais mudaneas no ambiente. ‘io. into a Os sons pastoris De modo geral, os pastos eram mais silenciosos do que a farenda. Virgilio os descreve bem: 2 Thoms Hardy. Far rons the stnading Crows London, 1926, :291 5 Jolunn Wollgang von Goethe, Die Leiden des Jungen Werhers. Inc. Works Weinae, 1899, V19. DB, led. brs: Werer Ti. Galote Ceutinh. Sto Pavlov Abel Glkura, 1971, VA impress 1973, p15 oe ‘Ratinigde to Hunde: in te lisenjelam com dekeado zumbido, pelow ports dl rit snquaanto, cunante todo o- 1s vinhateinos cantarale part a brisa aaa iva Vor, Seri ouvides © as folinhas, do alte trap, 98 iu quros ponibos, ava vor, se do oitelro, nao delxarlo seus arnuthos terem fim Os pastores, diz, Luciécio, devem ter recebido do som lo vento sige sobios, Ou dos passaros. Virgilio diz que Pit s Sets CANIOS € a Woes pan os se : bosinou 6s pastores “a juntar alguns canigos com cera” como forma de conversar com a paisagent: ica do pinheixo distante Dace € a mnurmurante na primaver, eS 6 pastor de cabs, como doce tambem 6 o seu silvo .. mais doce, pastor, § 0 tua cance do que o fiacho distante que a salpicos.* ‘Os pastores tocavam flauta ¢ cantavam uns para os outros a fim a farer passar as horas soliirias, como nos mostram a forma dialogada do Idilio de Tebctito @ 25 Belogas de Virglio; e a mmisica delicada de suas cancées constituem talvez os primeiros € decerto os mais persistentes ar quéiipos sonotes produzides pelo homem. Séculos de flauta produzimam um som referencial que ainda sugere claramente a serenicade da pais cs sitios tadicionais este gem pastor, embora muitas imagens ¢ vecuts0s literitios tralcion jam comesando a desaparecer. O solo de instramentos de madeira sempte Fe po € to sugestivo que mesmo um orques: retrata a pastoral, € esse arcu ne trador granilloqtiente como Berlioz reduz a sua orquestra a um duet entre um corne inglés e um obos solistas para docemente nos conduzir 40 canipo (Sinfonia fantastica, tetceiro movimento). : Nit paisagem silente do campo, os gone suaves limpidos emitilos pela flauta do pastor assumiam poderes miraculosos. A natureza escutava e respondia por simpati: “A miisica chegava aos vales ¢ os vales @ env vam as estrelas ~ até os pastores serem avisadlos por Vésper que devi -voltar para casa ¢ contar os cameiros enquanto ela percortia, importuna, o céu cuvinte" Tederito foi o primeiro poets a fazer a paisagem ecoar os n 5 Tederte ill Ong. ead, ingl AS. & Cambridge, 1950, YL 6 Vito, The Fastoral Poems, op, ct, Flog VL “Viglio. Phe Peatoral Poors, Eslogat. Th FV. Rieu, Harmondsworth, Middlesex, 1640 rN Sea ntos das lautas clos pastores © os poetas pastoris 0 tém copiado desde entio: Exercitate em cangSes campestres nw alegre flauta pestoril fersinando as madeiris a fazer eco aes encantos de Amari? liz Vigo. P: ri uma repeticio dese miraculoso poder di misica, preci- "mlb espera os romancistas do século XIX, A paisagem sonora pastoril que nassos poetas descreverim continuou pelo século XIX, Alain Fournier a descreve na Franca: "De longe em longe, \ voa distante dos pastores, de um menino chamando por um companhei Fo ou de uma moita de abeto a outra crescia na grande calma da tarde gctadla’." A conexao entre cidade e campo & captada de forma encantadora it deserico de Thomas Harcly: © pasor ch colin leste podts pritar para dar a not i cops ur ihn a0 pastor da colina Geste, par sobre as chy : 2 nines intorpostas di edadecnha, sem snaiores inzonvenicntes pata a propria voz, tao prOximas exam as igremes pasts, 0s, nerustadas nos quintals das buses. 3 noite ers posvve ens perce ma dade © ouvir, das pastagens raivar noe nveis mats bainon de rchader o doce Ima sno o prune clos spe em que ace russe comprazian. Sons de caga Um tipo bem diferente de arquétipa sonoro nos foi legado pelas eatga chs, pois a trompa transpassa as sombris da florésta com sons herdicos € belicosos. Quase todas as culturas parecem ter empregad algum tipo de Wrompa na guerra © na caga. Os romanos utilizavam a trompa circular de tubo cGnico como instrumenio de sinalizagio pars seus exerctos, © hii Indineras referéncias 4 ela em Dion, Ovidio e Juvenal; mas, quando Roma dlectinou, a arte de fundir metais parece ter desaparecido © com ela se Perdeu um som muito especial. Quando "Sigmund tocou a trompa que Pertencera @ seu pai e incitou os seus homens"® era em ume trompa de Ti Bag & Aan oui, Tend Gnd Malad) Tel BN Yk 9 Thoms Hardy. Fellow Townsmen. tre Wasser Tales. London, 1920, a 10 These he abun Or HG Pde Landon, Bo a pant _ Aablivayie do euro, 10 ce Instrumente aparece nit slo XIY a tenica de fundir me ele tocava, O mesme chifte dle animal qu nljnas cla Ganpdo dle Rolanct. Mas no {is fol redescobena e tons brilhantes e metilicos comeca fant a ressentr eh todki a Europa. No século XVI, a corde ebasse Itrompa de caral alqui catiter definitive, e esse instrumento obteve um significado especial nit puisagem Sonor europeia, significado que perdurou até tempos bem te po racamente podin se come que un centes, Nos dias em que a eaga era popular, © ver livre dos chamadas da trompa, e o elaboraco codigo de sinais deve ter sillo amplamente conliecido € compreeadide. Como a corde chasse era uma trompa aberta e possufa somente alguns. harmonicos naturais, seus varios sinais tinham um cardter muito mais rit mnieo que melédico. Os virios eédigos que foram preservaclos so de con siclervel complexidade €, naturalmente, variam bastante de um pais ‘ulto, Estes podem ser classificados assim: 1 chamados breves, que iém a finalidade de animar os cies de de alertar, pedir ajuda ou indicar as circunstincias da cicada; 2 uma fanfarra especial para cada animal (varias para o veado, depen= dendo de seu tamanho e galhada); 3. cancées ormamentadas, para iniciar ou termina uma eagadla, ou comI9 sinal especial de alegria. ‘Tolstéi deu-nos um hom relato da natureza festiva da trompa na Reissia CO alaride clos cas cle cacs foi seguido pelo som grave do chamado de caca 10 Jobo, tocacl pela teompa ce Darilo, A nyatlha juntou-se aos ies primeires cachor. tos € as vores dos ees de cach pociam ser ouvidas com aquete som peculiar que serve paca anuineiar que esto ates ce um lobo, Os condutores dos ces mo. festavam agora agulando-os, mas instigando-os com gritos de "Hil Hol Hal" Fa fecas as vozes sobressaia a de Danilo, que passava de um som profunds 30 «gud, penetrante. 4 voz de Danilo parecia proencher tod a floresta, perfurs-la ¢ ressoat a0 longe no campo aberio." ‘Uma recordagdo contemporainea de uma jovem mostra quo forte ain da &a heranca da caga no norte da Alemanha. OTT eon Tot: Weer and Peace; Yanelon, 1871, 6.536. We Mirrdy Seherler ‘Ani estava escur0 quando um dos cagdores, cerimoniosimente, abtiu a es ‘oun cow ino fi mi fanfarra ery sua trempa, $e a dea da eegito onde se chtya a eugicla um campo aberto, 0 unio meio de comunicayao entre cagacleres ¢ bite sores tesiam sido os sinals emitclos pela trompa, Durante a formaigao, em que ox ‘eigadores fechavam a fre em trés lado e os bateslores em um, todos fi ‘uietos para nao perusbar os sninis, © silénciey emt quebradlo por um sinal da lrompa ¢ logo se ouvia a esposta tervel e perfurante de uma trombeta de um Gico ‘som (que mais parecia um trompete de hrinqueclo), sopmico por um dos Itedozes, cra sera 8 nossa frente com o wn de albus, pos, panclas, ‘ton que proiam bares de toda especie e gros em todas a8 modules, Aneciontadas pelo barulho, todas as efaturas vives se ferirhavam « fagham de seusabrig evinham em deo aos cagadores. Gana que enue, adorvamos fazcr co mais foes baruhos . Ao fal do da, todos reunam em roda e ouvitmn © trompista tocando as fanfaras em sinal de regio pelos animis monos. Hav lum siral para cada anil, lombrorme de que 0 da sapost ert'o mas bao, exquaato o do coello ert muito breve e simples. No fim do dia, ma escuiddo de ole, eagids teminara com ume fanfarm festa. quase wiunfasc ‘A wompa de caga oferece-nos um som de grande riqueza semintica, Ti) um nivel, seus sinais fornecem um eécligo que tolos os participantes compreendem. Em outro, ela adquire significaclo simbético que sugere “ae livres © a vida natural do campo. Fale| também do som da trompa a como um som arquetipico. Apenas os simbolos sonoros que atrt- vessaram séculos € séculos merecem essa distingdo, pois nos ligam as mais antigas herangas ancestrais, dando continuidade nos niveis mais profisn- dos da consciéneia, A trompa de posta Outeo som de caracteristicas semelhantes, também comum em todo o cendtio europeu, foi o da trompa de posta, Ela timbem persistiu. durante seculos, pois comecou no sécula XVI, quando a administragio do corre’ ‘estava a cargo da fant Thum and Taxis; e, como as rotas postais se esten- a Noriega & Espanha, 0 mesmo ocorria com os chamades das om pts (Cervantes os menciona). Na Alemanha, as titimas trompus dle posta form ouvidas em 1925." Na Inglarerra, as trompas de posta estiveram em [2 Mildegaice Waseem, exinunicaske peal |) Gomurdes;ao panicuar do Devtsees Bundesmirstrium fe das Pestund Fernmeldewesen, Wiatinyao de murda uso até 1914, quando 0 cortelo Londies-Oxford env transpontaclo por estrada iveram em uso até clepois da Pr sar Old won domingon, Na Austria, as trompas ¢ 1 Guerra Mundial, e ainch hoje mio @ permitido a ninguém te Lolism sentimenjal do insti unt trompa de posta, o que realgao Inentol" Cantigo 24 do Regulamento Postal Austriaco, 1957). ‘A wompa de posta também empregava um codigo preciso de sinais para indicar diferentes tipos de correspondéncia (express, normal, local, encomendas), bem como toques indicadores de chegada, parti ¢ perigo, Além de indicagdes a respeito do niimero de carraagens e cavalos ~ part ‘des dle troca puclessem receber tais avisos com antecedéncit, ques ‘Na Austria, un recruta tinha seis meses para aprencler os sinais ¢, se 40.0 conseguisse, ent demitido, elas muas estas ¢ através da paisagem campestre, 4 trompa de posta ett ‘ouvida nos vilarsjas e casalamedas das cidades, 10s portées dos castelos em cin ‘enos monestétios enibaixa, nos vales —em tod parte, seu som er eonliecilo, ex toilo lugar ele era siudado alegremente, He wocava todas a5 cords do congo hhumano: esperanca, uta, ansiedade e sandacles de cast ~ sus magia despertaya {odes 98 sentiments. Assim, o simbolismo da trompa de posta funcionava de modo diferen- te do da tompa de caga. Ela no conduzia 0 ouvinte para dentro dit paisagem, mas, atuando de modo inverso, trazia noticias de Jonge. ‘Tinh; carter cenisipeto em vez de cenitffugo, € os seus sons nunca cram mais apraziveis do que quando a posta se aproximava da cidade e entregavid suas cartes ¢ volumes a quantos 0s esperavam Sons da fazenda ‘Comparada & vida silenciosa dos pastos € as vibrantes celebragdes tha caga, a paisagem sonom da fazenda fornece todo um turbithao de ativi des. Cacki animal tem seus proprios ritmos de som e silencio, de desperta e repousar. © galo € © eterno despentador € 0 latide dos cachorros, © telégrafo original, pois a invasio de uma propriedade por um estranho Jogo é denunciaca pelo latico dos cachorres, passado de um sitio a outo, au 14 Be. Sramt Pope, eomunicacio peseo 15, Kar thieme, Zur Gescticte des Posters. ln: Putborascuie ned PosthoreTehertiederbuc Leipige tredrich Garber, 1908, p67 Ww irey Seharal Muitos clos sons da fizendla sto pesaclos, coma o lento vagar das Cos do glide & dos cavalos de tragio. Os pés dos facendeiros tambemn $e movem vagarosamente, Virgilio nos fakt das “carrocas de movimentos pe ado" was de debulhur ¢ “do peso excessivo do arado”, e tant hém nos oferece um interessante rotrato acts lianas apds o escurecer: us mei das casas de campo ita- im fizendctio permaneee aeonlado e, com sua face, ‘conta maclera para fazer tochas. B enquanto isso, sua mulher alivia suas tongas tarefas eam eanpoes fe fae comer as langadleiras guinchantes do tear pela tanta, 1 fev 0 mosto da vino adocicaclo sobre a chama eafflont com foihas 4 ondulagio de caldeirse borbulhante.! Certos sons da Fazenda tém mudado pouco no decorrer dos séculos, paniculamente os que sugerem a azafama do trabalho pesado; © as vores is também t8m dado uma consisténcia de sons & paisagem sono- il, Mas hd também os sons tipicos do lugar. De minha prépria juven- tude, recordo-me de alguns. © primeiro que me vem i mente é o de hater Nianteiga, Enquanto a nate era hatida por meiz hora ov mais, uma mudan- ‘98 quase imperceptivel ocorria no som € na textura, enquanto o creme Consistente ia Se transformando em manteiga. A bomba manual, tambén em deelinio, isrompe agora na minha meméria come um marco sonore de minha juventude, embora naquele: tempo eu a ouvisse descuidadamente Havia outros sons, como 0 grastiado onipresente dos gansos ou o ringido © batida da porteira, No inverno, ouviamese os pesados golpes das botas para neve no patio ou o grito dos coredores de trend ao longo das est las pavimentadas no campo. No siléncio da noite de inverno, ouvia-se um subito estalide, como se um prego saltasse de uma tébua em meio ao frio intenso, E havia os profundos acores emitides pelo cano da chaminé durante as noites de vento, E teunbém os ritmos regulares, como 0 gongo que nos chamava para o jantar cu 6 sussurro do moinho de vento, que as mulheres acionavam diariamente as quatto horas da tarde a fim de bombeae {gua para 0 gado que regressava das pastos. Defini como som fundamental um som regular que sustenta outros eventos sonores, mais fugidies ou recentes, Os sons fundamentais da fazenca eram 1 Vig, Georges, Lavo 1, verSos 291-296 ead, Smith Paliver Bovie. Chicago, 1956 me Wiamnawe de munde humeroyes, pols no Gampa a vide tern poucas Variagdes, Os ons fundamen tls poslem influenciar 0 comportamento das pessoas ou eriar ritmes que So transportados pp vidi, Umi exemplo bastari, Na Rss de Tolsti, os Cumponeses guardavam as pedras cle amrolar em peguenss el oy et outros aspects xay de estanho que ficavam presas 268 cintos; © ritmnico chocalhar de caixas produzit um som tipico durante os meses cle preparigto do feno, granio € sa, amon A crv, quando a gicanhat a cota, produaia um soa Ff ando-se em grandes medas, que despendiam intenso arom, Os ceifeiwos, uperta dlos pa zoaa em cue tabalhavam, tio depress deisavam vir 0 tuido dos eantis & 10 das gudanhas que davsm ras asestas das pedras a0 alias, como os guitar alegres ccm que se animavam uns 408 oUttos." Retornanclo des campos, os sitmos do trabalho disio se estendiam uy canedes Aas das casas segulam ts mulheres com os ancintos to ombro, ralintes non sews vetdos gris. lan ao ¢aleremente, Uma cs mere de ¥02 (ot bravia, entoou ina cangse que cingllenta outras vores, graves aah na altar do caro AS mess cat, oF pra, om eon say tes, tudo s¢ Ihe aliguou embalado a0 ritmo dessa canedo louca, acompanhad dt ascobies « de gritos estridentes.* A Riissia, naturalmente, nao € o nico lugar onde os ritmos do trabalho. foram Incrustidos nas cangoes folelbricas, mas as cangdes Folelérieas sugerides pelo trabalho sempre trazem em si um acento pesado. 18s0 fic claro se compararmos a miisica do trabalhader dos campos com # leveait das flautas do pastor. Creio no estar indo longe demmais se disser que homem s6 descobre o canto melodioso € o lirismo da musica na medi em que se liberta do trabalho fisico. Ruidos na paisagem sonora rural A paisagem sonora rural era silenciosa, mas conheceu duas profundas interrupedes scisticas: 0 muito da guerra ¢ 0 “ruido" da religtio, 17 teon Tolssi, Anna Karenina: News York, 1965, p27, fed, bras Ana Karena. So Pal ‘Nova Cultura 1985.27] 18 tbidem, p25. _ i ie Virgilio, eujt vida foi freqdemtemente inveitompica pelas guerras rom: tis, lamenta essas intrusdes na vida pastovil Tal era vida que o dourado Saturna levava sobre a terre ‘a especie: humans ainda nie ‘© clamor elo clara de guewa, neni o cangor da espa tna drt bigoma...” havi euvido, Para. Vingtic, os sons da guerra eram metal e ferro, ea imagem actistica Permanece intacta até os dias de hoje, embora Ihes devam ser acrescenta- das.as explosses de pélvora a partir do século XIV. literatura mundial esti repleta dle batalhas. Parece que os poetas ¢ os Cronistas sempre se espantaram com o ruido das batalhas, © poeta épico: persa Ferdowsi € tipico: ok grtor dos Divs © com o barutho feito pela poeim ne ela poeira negra, pelo ric Dombar clos tambores ¢ o relinchar dos cavalos de guerra, 8 montanhas se dilace favam e a terra. fendia 10 lenge. Homem algum jamais presenclaca ty furioso ‘mibate antes, Fragoraso era o esitldor produzido pelo entrechocar dos machados He guerra, cts espadas ¢ dos arcos “ esp ddos areos. © sangue dos combatentes trinsiormava as lanicies em pincanos, 2 tere parecia tum mar de piche eujas onc: as por machades, espadas € arco.” am. form Os exércitos condlecorados para a batalha ofereciam um espeticulo visual, mas a batalha em si era acdstica. Ao barulho dos metais que se entrechocavam cida exército acrescentava seus gritos de guerra ¢ toques de tambor no intuito de amedrontar o inimigo. © baeulho em um estrata- ema militar deliberado defendido pelos antigos generais: “Deve-se man- «lar 0 exército para a batalha gritando e, algumas vezes, comendo, porque seu subito aparecimento, os gritos e o fragor das armas confundem os Conigdes dlos inimigos"#" De Técito nos vem interessante descricdo de um canto de guerra germanico chamado haritus ‘Com suit execugao eles nto apenas se inflamam de coragem, mis auvinde o ‘Som podem prever 0 desfecho de um combate ent via dle se travac. Pois ou eles 1 Vigo, Gorges, veo IL, versos 538-540, Ti. C. Day Lewis. New York, 196i 2) Te kof the Kings (Shab-ndma). Ta, Nevben ey. Chicago, 1967, p5 21 Onasinler The Gener, 3XIK. Trad. Willias A. Okere1 ak London, 1923, p47t 80 Mathias Co MURED: exsorigam seus tnimigos Ow eles propeios se armedronun, cepenstenco cy ipo do burutho que se fz no gampo de bauilha; ¢ es 0 véem nda apenas como Inuilas vozes antando juntas, mas cone um upfssono de valor. Sew propoaite partivulay € produeir umn rugivo aspero € intermkente \e 0 som se anplifique em um profundo eres e eles mantém os escudos endo ein fem frente boc para da reverberagao, Quando 0s mouros atacaram Castela em 1085, empregaram tecadoreh dle tambor afficanos que, de acordo com o Poema de FI Cid, nunca havin) sido ouvidos anteriormente nt Europa. © hanulho atertorizou os cristos, mas “o bom Cid Campeador” apaziguou o seu exército prometeralo con preja. A associacao do banalho com a gue fiscaros tambores ¢ dod-los e com a religito no foi fortuito e€ no decorrer deste livro teremos multis, ocasioes para empurellii-los. Ambas as ativledes so excatolégicas, © sen) diivida hi uma conseiéncia desse fato por tris da peculiar conversio lat palavra latina bellum (guerra) no belf(e) do alemao vulgar € do ingles antigo (Significando *produzir um muido forte”) antes de sua fixacio final no instrumento que deu ao cristianismo o seu sinal actstico. Gutto exemplo reforgari a relagio entre religito, guerma e suldo, pois € a desctigio de uma batalha religiosa que parece ter sido travacla apenas por meio de sons: Foi as teés horas do dia 14 de agosto de 1431 que os cruzados, que estavat acampados ni planieie entre Doniazlice e Horsuy Tyn, teceberin a noticia le que sob 2 lderanga de Procépio, 0 Geande, estavam se aproximand) fos hussiz exivessem a quatio milhas dle distinc, 0 fragor doe Embora 0s boems aind seus cartos de guerra ea cangiio ‘All ye warriors of God” Todos os guerreiios Beusl, que texas as sins hastes entcavam, i se podiam ouvi. O entusasmo 0} uzados extingai-se vom rapidex esterrecedora .. 0 acaonpamento alemio fical) En total confusio, Os czvaleiros corriam em tostas as direcdes, ¢ 0 estiepito doy ‘eanos vizios que ecam condusidos em retirida quase encobria o som daquicle canio tenfvel .. Assim terminou a enuzada bogmia.® © que desejo mostrar com as diversas descricdes destas paginas ¢ que) ‘embora 4 paisagem sonora natural fosse em geral silenciosa, era delibert damente interrompida pelos ruidos aberrantes da guerra. A otvira ocasiio BE Ticho, Germuovia. Tod, Ts Mattingly 6 S.A, Hendfeed. Hasmonelwnth, Middlesex, 107) pats 23H. G. Wells, Toe Outline of Hoey, New York, 192), .591 SY Se pani um forte rufdo era a celebragao r entao que os chocilhos, liambores & ossos sagradcs entravam em cena € soavam vigorosimente para produzir 0 que, para © homem simples, constitula certamente 0 maior even actisties da vida civil, Néio ba dtivida de que essas atividades eram Lima imitagao direta cos amedrontadores sons da matureza jA estuclados, pols eles também tinham origens divinas, O trovao fot criado por Thor ou por Zeus, as tempestacles eram combates divinos, os cataclismos, punigécs dliyinas, Lembremos que a palavra de Deus, originalmente, chegou ao ho- mem pelo ouvide, ¢ nao pelo olho, Reunindo seus instruments ¢ fazendo luni tuilo impressionante, o homem esperava, par sua vez, captar p ouvi- do de Deus. Ruido sagrado e siléncio secular clas imuitas centenas de paginas ce seu Mitoldgicas 1, 0 antropélogo Jovi Strauss desenvolveu um arguniento para coloctr 0 ruido em paralelo Cot sagrado e o silencio na mesma relacdo com 6 profano™ © argumen- to de Lévi-Strauss, considerado do ponte de vista do mando modemo criva- do de tuidos, pode parecer obscure, mas os estucdos da piisagem sonora ajusluna torneo claro, © mundo protano era, se n2o silencioso, quieto. E. Se penssrmos no “ruido” em seu sentido menos pejorative, como qualquer som forte, a relacdo entre ruido e sagrado fica mais Ficil de ser interpretada, No decorrer deste livia, vamos descobrir que um certo tipo de ruido, «que agora podemos chamar de “Ruido Sagrado", nao somente estava ausen- te dt lists de “sons proscritos’ que as sociedadles, de tempos em tempos, fayem emergis, como era, dle fato, quase dcliberadamente invocaco como ma pausa para © tédio da trangtilidade, Samuel Rosen confirmou isso qivando estuclou © clima acdstico de um pacato povoado tial, no Sudo: Em gel, nivel sonoro nos poroades est absiso de 40 dB i excala ¢ da neha cle nivel sonoro, exceto ocasionalmente, ao nascer do sol ou log quando um animal doméstioo, como um galo, cirmeire, vaca ou pombo, se fe ‘ouvir Doninte seis meses do ano, pesadas chuvas caem cena de ts weZes por 24 Hreago alemar © letor de que Lévi-Sraass me Informed que # tecia de Rule sageada” llesenvolvida neste lisyo maném ‘pouer selacao, 38 & que exist algume® com o que Ge ‘seveveu, No enionte, devo recenher 16 mers0 de ter exatada minha mageacae, = Wadinaghe do mundo etna, com vin ou dls extiondos de trovde, Alguns omens ¥e eniregaM ex + palelras ccm as bast ‘cony-aliviudles procluivas, conve later aus ondes d delta. Masa atta de ayer shane eveabennte, ono pees a apaseotemente juste 09 forros, chao ov mebiltrio pesado etc, na vizinhanga tipazentemente de intonsicace meclélos na nivel sonom: 73:74 dB no cuvido do trie axon bahar.” ci de 100 decibéis) foram encontrados quando bs habitantes do povoado estavam cantando € dangando, © que ocomtay para a maior parte deles, “nuin periodo de cerca cle dois meses, durante celebragio da colheita da primavera” (isto €, um festival religioso. Para toda’ cristandade, o divino era sinalizado pelo’'sino da igrefi. & um desenvolvimento tardio da mesma nevessidace de clamor que antes havia sido expressa pelo canto € pelo estrondo, © interior da igrefa tam> a com os inais espetaculares eventos actisticos, poi o ho» bem reverber mem trouxe para esse Jigar no Somenté a8 vo7es que se ouviam nos cénticos, mas tambem a mais nuidosa maquina que a eno ele havi produzido —0 ézgio. E ele foi todo planejado para fazer a divindade ouvir Comparado as espetaculares celebracoes da guerra @ da religito, a vickt la cidade pequena, era wangbiila, Existem no mundo corte monokonamente, quase rural, € mesmo a muitas cidades silenciosas, onde a vida te: em segredo. As cidades pobres sito mais silenciosas que as prosperas. Vipitei cidadezinhas em Burgenland (Austria) onde © nico som a0 m dia € o adejar das cegonhas em seus ninhes nas chamings, ¢ cidacles einpoeiradas do Int onde 0 nico movimento € 0 eventual andar balangade de uma mulher carregindo 4gua enquanto 3s criangas pemnanecem silent: ciosamente sentadas nas mias. Camponeses ¢ homens de culuras tribals ‘em todo © mundo participam de uma vasia troca de silencio. BS Samos Resen e€ sl, Prestacusys Study of a Relatively Nowe Population In dhe Suan, American Otolowcil Sociery, Transactions, \.50, p.40-1, 1962, 4 Do vilarejo 4 cidade Os dois grandes fulcros de mudanca na hist6ria da humanicade foram 11 substituigdo da vida némade pela agriria, ocotridla entre dez € doze mil nos auris, €a wansico da vida sural para a vida urbana, que vem ocupan- dlo os sScalos mais recentes. A medica que este tihimo desenvolvimento vem ovorrendo, os vilatejos tém-se transformado em cidades ¢ as cicades amv ve expandilo para cobrie grande parte daquilo que era anteriormente © mundo rural. Quanto a paisagem sonora, uma divisio pritict da urbanizarae em desenvolvimento & como sucede em tants outros aspectos, a Revolug] Industrial, Neste capitulo vou considerar apenas 0 perfodo pré-industria, deixando 0 que vem a seguir para ser examinado na Parte Il deste livro, Uma considerac&o apropriada da vida nos vilatejos € nas cidades pré-in~ dustriais precisaria de um tratamento muito mais completo do que aquele que se pade fazer aqui. A vida no vilarejp & a vida na cidade divengiam bastante, antes que as revolugdes industrial eelétrica comegassem a niveld- las, mas tudo 0 que posso fazer é apenas esperar aludir a algumas das variagées enquanto me debruco sobre o cenitio europeu. Hi uma razio pritica para essa limitaglo: 0 acess 3 documentagio. Examinando o perfil de uma cidade medieval européia, logo notumos que 0 castelo, a muraifa ca cidade € a cuspide da igreja dominam o centro, Na cidade modlerna, o prédlio de apartamentos de muitos andares, a torre do banco ¢ a chaminé da fabrica & que sdo as estruturas mais altas. Isso nos diz R. Mutray Schafer muita coisa sobre as instituigoes socials proeminentes nas duas sociedades, Na paisagem sonora também ha sons que se impdem no horizonte acdstico: sons fundameniais, sinals @ marcas sonoris, ¢ esses tipos de sons, conse. ientemente, devem constituir o principal cema de nossa investigaco, Fazendo Deus ouvir Osinal sonoro mais significaivo da comunidtade eristd € 0 sino da igre Em um sentido bem verdadeiro, ele define a comunidade, pois a paréquia € lum espaco actistico circunscrito por sua abrangéncia. O sino € um som cen- tsfpeto; aura! € une a Comunidade num sentido social, do mesmo modo que tune homem © Deus, Algumas veces, ng passado, ele adquitia também uma forca centifuga, quando era utilizaclo para expulsar os espiritos do mal Parece que os sinos das igrejas se espalharam pela Europa durante o séoulo VIL. Na Inglaterra cles foram mencionados pelo Venerivel Beda,! no final do século VI Sobre sua presenga formidavel, escreve Johan Huizinga em 0 declinio da Idacte Média tin som sere contin sina suds dvd aha eee ss con pr sp tae eas, convavam cain, rm conheclor pols ss nomcso pants heen 6 sto de olando. Toda grt abso gifeatn di chenoe topes ate aps ines; no ptdam os eto no epito des urn Durante fameso dil pti ene do uiguencs de klene,em 15S, 9 grande in "que € hate! de ouvir no dae de Chases rarer cktou de oes. Que atecoumerto io deva prod o hala sn des de tals a igs em olen moles de Pars mente dee a a a seer e mesmo drat ke, uando se coca wn tate debe cists pap 1 vida quotidiona os bons espivitos que 1 Venetivel Beda: eogome de 0 Beet, an clo provavelmente enn 674, filecdo exh 735 116. Monge ingles, erudko, histovialer € te6logo, canbe pov we hives Reclsentcad Mutory of be Engsh Paoplo 8) (N.Y) 2 Johan Hts. The wining of do tutte gen New You, WA, (1404 led. poms aactone ashe Ses oa yay Nb son UN 10 | ‘A ofinagéo do mundo Agrupamientos de sinos € carrithoes de varias alturas eram especial mente populares nos Paises Baixos, onde irritaram Charles Burney em suas viagens pela Europa. “A grande conveniéncia desse tipo de musica’, ssereyeu Burney, “€ que ela entietéi toxlos os habitantes da cidade, sem thes dar o trabalho de is a algum lugar particular para ouvila.”* A certa distancia, todavia, os sinos podiam ser fortemente evocativos, pois 05 1ui- dos esiridentes dos badalos se perdem € recebem um fraseado legato que as correntes de vento ou gua modulario dinamicamente, de modo que mesmo alguns sinos simples € no muito bons podem nos propiciae horas de prazerosa audicio. Talvez nenhum outro som sefa mais beneficisdo pe la distincia € pela atmosfera, Os sinos formam um complemento sonoro para as distances colinas envoltas ¢m neblina azul-tcinzentada, Viajanclo por ¢ A de Charles Bumey, ¢ ainda percorendo os rios % ma rota semelhant canals © evitando as cidades, Robert Louls Stevenson pode ouvir os wansformados dessa maneira: Do outro ado clo vale, um grupo de telhados vermelhas eum eanipanitio rrostravam-se por eabe as folhegens. Daquele luges, © cavtilhio tendo por alti saspirado sine tornavaatanle musical, Havia algo muta doce eacolhedor ra. Ath fue ele tocava; € nds pensvames nunca ter ouviclo sings falarem de modo {iy intcligivel ou cantarem Go melodiosamsrte como aqueles .. HA quae eempre Uh) tom ameacador, alguma coisa rusdasa e metalica na voz dos sinos «ue nos lev, acredio, 2 sentir maito oais dor que prazer ao ouviclos, mas scjueles, encanto soavam 3 nossa volta, ore alto, ona baixo, ora com una exdncia chord que cp rva-o ouvido como apelo de ura cangio popula, eram sempre mecleraslon © inelodiosos € pareciam abater-se sobre 0 espifite dos lueares silencosos e restos ‘como 0 som de uma excheeim ou 0 balbucio de um vireko na primaver! Para onde quer que os missionfrios conduzissem a cristandlacle, sinos logo os segutam, clemarcando acusticamente a civitizagao paroqulil dla selvagem, situada além do aleance dos ouvides* Os sinos exam unit calendirio actistico que anunciava festas, nascimentos, mores, casamen los, ine€ndios € Fevolugdes. Em Salzburgo, num pequeno quarto «de un hotel antigo, avi inumeriveis sinos tocando, um pouco mais devagar clo S Chavles Dumney. an dighendDs Cini Attcal Tow be Contra Europe ant Deberlands Loniton, vt, 1953, 4 Robert Lous Stevenson: AM find Vostage New Yor ILL, pA 9 Tipeamene,enqan9 eqinnaiyne sists posaventsnpontante recursan dy sah ag, oc, ue AAD AMAA, Wi nurtey Ranatah que se podetia espe produzindlo poucis tenses Nl mente, come ante cipagao sentida uma fragzo de seguncio antes da realicade, Hen Sun Miguel de Allende, no México, lembro-me de ter visto os condenados, na , pondo em movimento os sinos gigantescos, puxando-os pelas bordas com movimentos pesados € desajeitados. atalaia, © som do tempo Foi durante o século XIV que o sino se uniu a uma invencao técnica de grande significado para a civilizagao curopéia: 0 religio mecanico, Juntos, eles se tornaram os sinais mais inevitéveis da paisagem sonora porque, como © sino ca igreja, € mesmo com mais implacvel pontualidade, 0 reldgio mede a passagem do tempo de forma sudivel. Por isso, ele dlifere dle todos os instrumentos de contagem de tempo vsadlos anteriormente — clepsidras, ampulhetas © quadrantes solares — que eram silenciosos: (O relogio da igreja bate onze horas. O ar esava io vazio de outios sons que © zumbido do mecanismo co relégio que precede imediatamente as pancadas era distin, assim como © seu clique final, Qs sons parte com a ustal obtusiade ‘cega das coisas inanimadas ~ batend « ricocheteando plas paredes, enciulando contra as nuvens dispersas, espalhando.se, por seus intersticics, airavés de Inexploradas milhas de espage.! © relogio sonoro tinha uma grande vantagem sobre o de mosirador, Porque para se ver o mostiador € preciso estar 4 sua frente, enquanto a pan- cada do relégio envia os sons do tempo para todas as diregdes, uniforme- mente. Nao havia cidadezinha curopéia que no tivesse os seus rel6gios. Outros relogios batiam 28 ofto, ce tempos em tempos — um, metancolicamen- 16, da privto, outra, di euneci de um asilo, com um rudy preparwuirio do mecanismo, mais aucivel do que o proprio som do sino; numa fileira, alas calxas de reldgio envemizadas, no interior da loja de um constrator de relégios, junta ‘vam-se uma apés a outet, como se venezianas 2s estivessetm encerrando, de modo semelhante a um (is Ge atores proferinelo suas falas finais antes de cair 6 pino; ‘eno s¢ ouviam os campanirios, gaguejando 9 Hino dos Marinhcios Sicianos, de modo que 0s crondlogos da escola supesice” se interpunham claramente, no {6 Thomas far. Far fiom the Matding Cro. Logs, 1928, 9238, 7 Na cacao, © Wocadtho s perde: a expresiie “cbronolagsts ofthe adeeoreed shout tca upto sentilor © auter bres com a ida de scligios que se adnan e a de escola de perumento que pena o firuo". (I) aoe Me ttlinagtis de renee fi canal ern dinegta 9 hans yeilnte, antes mesino que toto o apanato cag Velho (elogle) complotanse saliaioiiamente sew percurno. Oy reldgios regulavam os movioentos da cidade com aatoriturisine ado de marcas sonora te, Qeasionalmente, eles ascenciam ao es ‘a pentatonica descendente do som do rls (como me recordo bem da erréti eloglo do Kremlin ~a tinica extravagineia daquele lugar), Aletuosamente Vistos pelos habitantes, alguns antigos relogios sao mesmo especificimen lv desobrigados de atender 3 legislagtio anti-rufdo, como € 0 cio clo tld iio do correio de Bantford (Ontario).’” © historiaclor Oswald Spengler acreditaya que foi 0 reldgio me ‘que dew a Europa (e, particufarmente, a Alemanha) 0 seu seaso de cles ino Anieo historico: jes que deseebritam © eligi rithdes de incentivels Dente os poros do Ocidente, foram os ale tecnico, o terivelsimbole da passagem do tempo, totres de relogio que ressoam dia © nolie pela Europa octdental s80,talver, a sna muravihosa expresso do que € capaz um sentimento historico de mando," A associagdo entre relégios € sinos de igreja no foi absolutamente fortuita, pois o ctistianismo desenvolveu a idéia retilinea de tempo comme progresso, ainda que progresso espiritual, com um poato inicial (a Cri cho), um indicador (Cristo) e uma profética conclusao (© Apocalipse) If no século VII foi decretado em uma bula do papa Sabiniano que 09 sino ‘dos monastérios deveriam ser tangidos sete ve7es por dia, € €SS18 [OMI ‘oes eram conhecidas como horas canonicas, © tempo etd sempre se ‘cagotundo no sistema cristio, ea batida do relégio pontua esse fate, Sirus carrilhées sto sinais actsticos, mas mesmo em um nivel subliminar 0 tito incessante de scu tique-taque forma uma tonica de significado inevitivel a vida do homem ocidental. Os relégios penetram 0 secesso da Holle para lembrar ao homem a sust mortalidace. Outros pontos focais Os rel6gios siio sons centripetos; unificum ¢ regulam a comunidad, Mas Mo So 08 Unicos sons centripetos. Nos tempos antigos, nos terit6rios agile 18 Thoma: llandy. Toe Major of Casorbridge. Londen, 1920, p32, 9) bel 096-0 1969). 10 Oswald Spengler. Der merging des Abenctandet, Muni, 1923, ¥.1, PB TY his, 6 molnh er unt Instiuigae proeminente no eenina dt vida do vilarejo. B Se som eA Ho familiar quanto as vozes dos prdprion habitanies, No Holeslastey (12; 3-5), 0 autor esboca uma paisagem sonora sinistes, quando ‘us mulheres que moem o cereal cessam de tabalhar ... quando 0 ruido do Inoinho ¢ baixo, quando © chilrear do pardal fica mais ténue & 0 canto dos ". As 1odas-d'4gua uullizadas para2 moagem eram tegistraclas em Roma ff no século 1a, C.e, enquanto mmitas outras artes romanas desa- Pareceram apenas part serem redescobertas na Alta Idade Média, 0 moinho de digua sobreviveu, pois ha freqiientes referéncias a cle em toca a literatura lo inicio da tdacle Media, Mower gros no era o nico trabalho feito pelos moinhos, porquanto ho inicio do século XIV havia também Fibricas de papel e serrarias, Nessa Poca, 68 moinhos também se tomaram maquinas de moer para os armei- os, © mais tarde moviam as maquinas de forjar e cortar ferro. Essa é a fzay pela qual tantas vilas foram fundadas as mazgens de rios e riachos, onde a forea da gua era disponivel Ali onde ¢ lago se (ornava um) tiacho, havia dois outs moinhos. Suas todas Jiaresiam correr umas atris das outs, espisrande gua como grotestolas. Bu Costu ava passer por longas hors ali, olhando-o# © amemessando scixus nas queds- fe desaparecer sob © movimento das socis. Dos motthos padtam-se ouvir o banulho clas pedras de amoler, os moleitos cantando, a4 Giangas gritind e, continuo, 0 rangiclo da correne sobre a parte eentrl, enquanto a polenta estva sendo mexida, Sei dliso porque a fumaga quc sala ca chamine sempre procedia a ocoméncia dessa nota nova e estidente no cencerto universal. Em frente ‘tos moinios havia um constante ite vir de s1ces e figuras cobers de Fainha, Mulhe Fes dos vilarcics préximes vinharn & eagarlavam corn as mulheres dos moins, cenquanto seus grics estavam sendlo moidos. Nosse meio (cmp, 0s pequenos asnas, liberados de sues cong, devoravam avidament’ a mistury de furelo preparadt como. "eleicto para cles, por ocasiao dis viugens 20s moinhios Quando terminavam, pu. nnham-sea zum, esticanda alegremente as orelhas e as pemas Qccachora do toler laa ¢ corria& volta dees, com alacres movinientos de ataque e delesa, Eu thes digo, {ert uma cena realmente vivida © odo posso me lembrat de nada melhos"" gua para vé-los sala, ommae a c Para os que viviam nos préprios moinhos, a vida nunca ficava sem a lagarclice [‘patter”] (palavra de Thomas Hardy) da grande toda, A qual as fodas pequenas murmuravam em responsério, produzindo “uma remota semelhanca com o diapasio obstruido em um 6rgia"."" Mais tarde © moi- 1H ppoli Nieva. Confetsions of an Ocogenatian, 1867, cao de Marco Valeccht tandscape Painting ef the Nésetewnoh Contury. New York, 971, Pbk 12 Thomas Tasdy. the trumperstap: London, 1920, p2 ‘ — Rativngia des iu, Aho, fi equipado eooy UML aplio extridente, comegou a tomar um aspecto {iis dominador. Salaremos momentaneamente para 1900, para uma des- (rigno de Diyomov, Rissia, nas palaveas de Maximo Gorki: “Acordando na da de um amanhecer de outono, o senhor Artamoncv mais tarde, come- perola melancotia ‘uy o fore chamado da sirene do moinho. Mela hor fuvam os infaigiveis murmérios € sussurros, © habitual e apftico mas poletoso alarido de trabalho".! Outro som que continyava todo o dia ao iilcance do ouvido da maior parte dos eesidentes do primeiro vilarejo era o do Ferreiro: “os sons no poderiam ter sido mais distintos, se tivessem Imergido num pogo profundo. Da loja do feetio ... yinka wim tem-tam, Unt abelha 2umbia preguicosamente. Annie cantava em sta cezinka .. a coma dlesce, produzindo sons impacientes, pequenos e tlintanies. Tung- Jang: ting-teng-tang: er © martelo da Ab na bigorna”.* impossivel compreender como exim diversificados os sons to ferreito sem urna visita a uma forja ativa. Nenhuma bigorna de museu pede sugerir 6 seu som, pois éxda tipo de trabalho tinha seus prOprics ritmos e tonalia- des, Quando fizemos uma viagem pari registrar sons na Europa, tivemos a abio € seu assistente a escpientar sua sorte de persuadir um velho Ferreiro foria abandonada e demonstrar suas técnicas. Modelar Foices consistia em uma sipida sévie de batidas, seguicas por pausas ligeiras para fazer a inspe- ho, A modelagem de ferraduras requeria ajuda do assistente, que golpeava (© metal com fortes baticas de marrera, enquanto o Ferreiro, com o seu marte= 10 era ternstio, assim: linho, ia batendo © metal. O Jssistnte: pg dy ae Quando 0 ferreire queria mais acl bigorna com dois répicos floreios: si gail a eee 13. Mésin Godel The Anamonons Moscou, 1952, 40 14,0. Mitchell Who tar Seow the Wane?"Foronte, 147, » 230, NN prreeino ter passace por essa experiencia pars aprevii quo agiimente frit » ¢ Mave pari clento & part fora pari modelar o metal, entre ox golbes fortes e uniformes do assistente, N6s medimos 6 som em mais de 100 dlecibéls, ¢ a8 pessoas Fesidentes nos arredores do vilarcjo confirmaram que Sonseguitm ouvir o Ferreiro, que Comegava o seu trabalho ao amanhecer ¢, tluntote @ époct da colbeita (quando as foices tinham de ser amoladas regu- lannente), continuava até altas horas cla noite. Que tais ruidos noturnos no fram apreciaclos pelos habitantes de pequenas comunidades esti evicente no poem inglés do séeulo XY sobre o Ferreiro: ScuHos © esfumacades Ferreiros, eahertos de fame, Perturbavam a noite, com © som de seu matteo. Um barulho como esse ‘ow homens jamais tinkam ouwido... Ale it época da Revolucao Industrial, 0 som do martelo da ferreiro ers provavelmente, o som mais forte que a mio de uma 36 pessoa podia pioduzit ~ um magnifico retinido. No Oriente Médio, era o martelo do tunileiro que produzia as tGnicas Inutiy estridentes. Ainda se podem ouvir os alegres funileitos acocorados nos uivares, as Costas eretas como letra alepb, acenando sinais para o Visitante Com O Seu martelar em staccato, que forma um estranho contraponto com 0 Aeumitico arrastar de pés sobre as pedras de ‘model uuais das vielas. Hoje eles samovares para turistas; no passaclo, produsam grandes gongos rcitos reais. No Oriente, 6 gongs substituiu tanto 0 tambor camo Ao, “Saimos ao amanhecer, no subitbio do norte de Ispahan, conduzi- los pelos chaofishes da peregrinacto, que aauncievam nowsa partida com Fortes gritos © o nufar de seus tambores de cobre."* part ose: Sons fundamentais Muitos sons Funclameny is mais especiais sao produzidos pelos mate vais disponiveis em diferentes localidades geogréficas: bambu, pedra, metal 15 Siuaro-smieted swede, smateredt tt tmoke, drive me to det wit den of bere des: sich nus 7 naghtes ne bere men newer. Ou, em ings madtersto: Black and smoky sms, covered Lith smoke, Drive toalectb witb the souad of the hammering. Sich nose or night me never ead before... 7) 16 James Maries. The Adventures of Hage Babe of pabeam. Now York, 195 pa. 5 TITER Ho Muto ox shaddeini, © fontex de enettit come # Aguile O carvaE, Nas mais antigas dishides curopéias, o Visite estrngelY not imediatamente a preponde- Fincli da pedra A pedi @ Ox objetos que a cortam, batem e arranham for wim a primeira linha dos Sons fundamentais europeus. Numa cle suas obras, Scot Pitzgeralel fa como eles resscavam nas ras estreitas & noite Na América do Norte, a madeira foi o mais importante som fundamen: il, pols muitas aldeias e cidades foram talhadas a partir da floresia virgem (4 madeira, naturalmente, havia sido também o som fundamental da Euro Jia, mus as florestas se exauriram quando se precisou de madeira para liunilir e forjar metais). © som fundamental especial ca Colimbia Brtanica sinda @ da madeira. Nos primeiros tempos de Vancouver, pranchas de hvtcleira foram utilizaclas na construcao de passeios, calcadas e edilicios: is paralelepipedos de Zurique” edo modo sbstancis ‘As primeitas ruas exim cobertas de pranchas e, sempre que necessirio, como ovorrey com a velha Water Street, sustentadas por estacas. As fotes dessi época nao Conseguem transmitir © ronco suido € 6 estondo que accleravam pulse ‘uando as canruagens eorriam sobre 0 mmadeirame. Vancouver tinha pouco parale- lepipedo pata cobrie seus primeitos calgamentos ¢, assim, desde aquela épocs, a superficie original era composta, As calgadas também eram feitas de pranchas alto alto cas mulheres." cespacadas, prejudicando os sapatos d Naqueles dias (1870-1900), algumas das ruas de Vancouver prGxinnas & praia cram também pavimentadas com conchas de mariscos, A midei especialmente quando erguida sobre estacas, é uma superficie musical, pois cada tabua tem sua prépria altura € ressonancia, sob o salto da bota ou a roda da camiagem, Os calcamentos de pedra também apresentam ssa qualidade, mas a monofonia do asfalto € do cimento € uniforme: Madeira ¢ pedra se encontram em combinatéria quando se rolam bar ris sobre as pedras, um som que deve ter provocado consideravel pertur- bagi naqueles velhos tempos. A Cidade do Cabo o probe (Police Offences Acts, 0.27, 1882, § 27), 0 mesmo acontecendo na cidade australiana de Adelaide (Lei nIX, 1934, § 25a). Um som fundamental muito sutil € oferecido pela luz, Entre © leve irda vela € 0 zumbiclo estacionario da eletricidade, todo um capitulo da historia social humana poderia ser escrito, pois a maneira pela qual os 17 Brie Nicol. Vancorwer: Toronto, 1970, p54 Rh Murtey Senaten homens tumingn sua viele @ Mo jofluente quanto amin ont o tempo OU registra sui ling dling soeldl se aparecimento & declinio da imprensa, Marshall Metuhan ui dentie.vitios temas féctels.) A invencao do relo- 1 © NOSSO estudo, mas 0 efeito da ilumi- pela qual eles jem. (Ao atribuira dinamica mye dleyenvolvew ape lo meelinion é mais imediata hugo mio pode ser ignorado, Ni eyeurido especial do inveino do None, onde a vida estava centrada ow pequenos lagos de luz de velas, para além dos quais as sombras drape- Javan © bruxuleavan’ misteriosamente, a mente explorava o lado escuro hi natureza. As criaturas do mundo subterrneo da mitologia ndrdica sto sempre notumnas, A luz das velas, os poderes da visio sdo fortemente Heludidoss o ouvido € supersensibilizado e 0 ar palpita com as sutls vibra woes de um es listo comeca na penumbra e termina com a eletricidade. Na ficidade, os Ghimos rominticos tinham recolhido suas asas. ranbo conto ou de uma mtisica etérca, ae cht ol AiHusiea dlispensou © Noturno € a Nachtstiick [serenatal, € dos sales im- [neaMionistas cle 1870 cm diante a pintura adentrou a pleaa luz do dia. Niv eneontrimos confissdes impressionantes sobre os sons das velas & lorlity entre os antigos, da mesma forma que nao deparamos com elabore- dus deserigdes, entre os modernos, dos zambiddos de 50 aut 60 ciclos porque, einbor ambos tenham estado sempre presentes, so sons fundamentais ¢, como tenho dito seiteradas vezes, os sons fundamentais mramente Slo ouvE dos conscientemente pelos que vivem no meio deles, pois sio 0 fundo ais figuras dos sinais se tornam evidentes * sons fundamentais, no entanto, sio notades quando mudam, ¢ (quando desaparecem totalmente podem mesmo ser relembrados com afei- lo. Assim, lembro-me da forte impressdo que tive quando fui a Viena pela primeira vez, em 1956, ¢ ouvi o assobio das limpadas de gis 1 suliibios; ou, em outrA ecasido, o imenso silvo das mpacas Coleman hos bazases sem eletricidade do Oriente Médio, que altas horas da noite sobrepujavam completamente © borbulhar dos narguilés, Similarmente, {uando a heroina de Dowtor fieago chegou pela primeira vez a Moscou, depois de ter passado a infincia nos Urais, ficou “ensurdecida pela pom ostentagao das janelas € das luzes ofuscantes, como se também elas ‘emitissem sons por si proprias, como 0s sinos ¢ as rodas, No campo, a hoite era scompanhada pelo “débil erepitar das velas de cera” (Turgueniev) © cla foi imediatamente afetaca pela mudanca. Outro exemplo: em seu cont 0 qua ruas dos roan oe Ue die de 1918, enquanto rele yore pinta, Paul Klee fer ut paws pam ouvir quindo, em seu apartamento, “a asmatica Mimpacle de gas foi substituicla por uma fulguranie, sibilante e crepitante Kimpada de carbureto Sons da noite e do dia Quando 6s vilarejos € as cidades eram escuros & note, os sons do to- jue de recolher ¢ as vozes dos guardas notumos eram importantes sinais Guilherme, 0 Conquistador, decretou que 0 sino acusticos, Fm Londres ra batida do sino de St, Martin’s-te- locasse as oito horas da noite. A primel Gand), todas as outras igrejas setomavam o dobre e as portas cla cidade se fechavam. Os toques de recolher feitos por sinos perdusaram nas cidades até o século XIX, como lembra Thomas Hardy: ingle © sino ainda tocava em Casterbridge ¢ era revebido pelos habitantes como um sinal para fecharem suas lois, Tao logo 0s profundos sons do sino pulsavam por cenire a parte fronteira das casas, um estrondo «le venezianas se Fazia ouvit por (Oda High Street. Dali s powcos minutos o comércio em Casterbridige estava terminadlo por aquete dia.” Na Péssia também se anunciava 6 toque de recolher nas citlades, mas ‘08 sons eram diferentes by assis eessivamente a stare algazar da bande do ef, ao ali dos tamsbores e a0 crescendo dos trompetes anunclando o entardecer. Ouvia 0s vinos tons dow nuicrian anunlando as prees da trl, bem. como o penuenatembar da ' 1 1a ise se voltusse para cast, O grito das tice onlenanco que 0 poro fecasse sas bys se volun p “Extras na oes devi do patio dowel ea ovvido em longos intervals Depois que a cidade silenciava, a noite, a paisagem sonora, mesmo em uma grande cidade como Paris, tornava-se hi-fi Mais tarde, naquels noite — altima noite -, quando as crfangas e mulheres tinham-se aquictado em seus quintiis 0 su meceia ouvir os tiluuris passando pela mia. Hles passavam somente a espacos, mas fente pant me deisarem dorms, ¢o- Te ‘Thoms Handy. 1be Mery of Casterbridge op. cy p32. 19 James Mrie, op. ct, p12, on Ry Murray Schafer tlepois de cada um eu ficava aguardando piSximo mesnin contst a miaha yontade ra expectativa do tlintar dos sinos e do tropel dos eavalos no calgamento.” Durinte a noite, nas cdades de todo 0 mundo, os guaras-noturnes tranqililizavam os habitantes com seus sons pontuais: ‘Twelve o'lock Took well 10 sour lock, Your fire and yecer light And 89 g0od night Rose eta o grito de Londres, tal com foi registraco por Richard Dering et 1599. Milton observa que, em seu tempo, 6 guarda trazia um sino e eniova um oraco (If Penseroso, verso 82 ss.). Leigh Hunt preservou leserigoes de varios guardas-nowirnos de Londres em 1820: Uin delos cra © Guarda Dindl, que costumaiva fazer « sua ronda até o allo i ONot Sucet, proxime ao parque. Nos 0 chamavimos de “dindi* por cust de uy) prontincia, Fle tinh um jeito afetack ce far, pronunciand @ a, na palves pas, como em bat, fazendo um pequeno “hum” preparatéro ¢ carte sokanto © ve “Past io “en- um estilo de gentilindiferengs, como se, de um modo ger ele Fosse des opini Ouoctao Guarda Metis, que peronia 3 mesma rua em direglo A Hannover Sqlunte'€ Gna na vox um tom mesélico, como o de um trompete. Ele ena un © heli mois, mas qualepier diferenga é significativa em um guarda, , Que grituva as lors em Bedford Square, ers notivel por seu cluumido abrupto forte. Fstava na moda entre sua turma, naquela época, dizer sper hors inieiea, emitindo-se os complementas.” poe li cidade cram claramente tautoldgicos € 0 guarda estava em dectinio. Vinginia Woolf eapta bem essa situagao, colocando © guarda-noturno sen- ailment a di io € de Orlando, situado mais ou menos foco, “Ouvia-se o débil rolar de uma carruagem nas pedras. porém, o grito dos guardas ¢ os carrilhdes dos reldgios time cia. A cita 1) Alain Vener, The Winton te Grane etude, Teal bla, Now York, 1972, psL2 ‘oriique as Fecha fone ei Mie ' bos ote: (S10) 22 Legh Hine fomaye ana ores een, 1908) pm Aatinaces do rrundo Ouviuo grito longinguo de“um vigilante noturna, ‘Deze em ponto e getan- do! Mal acabava de dizer essas palavras, soou a primeira pancada da meia-noite." As vezes, os guardas-nolumos tocavam sinos, outras, mati ss apitavam, como ¢ natrado por Gorki em Os Artamionors. As xe: ainda hoje eu os tenho ouvide apitando um para o outro de quinze em quinze minutos, durante toda a aoite, nay cidades mexicanas. Essas interrupeSes noturnas nem sempre eram apreciadas, Flas iv mn ‘Tobias Smollet no século XVI You para cama depois da meisnoite, exausto © descontente com as dlissips ‘988 do da — comego cada ont do meu sono com o terrvel barulho do gussde~ owing prodamande as hors em cada aut @-arosindo ent cada posta: ns sujetos. Indiets que 96 server para perturtsar @ voniy dos eidadnos.* ros rtios do sol, © guarch-notumo sllenciava-se: &, de ‘Com 08 prim pois da chegada da iduminagio nas mas, cesapareceu completamente. ‘Ac raiar do dia, uma comorke diferente tinka inicio, Smollet cont nua: “ali pel a cama em conseqiiéncia do estrépito ainda mais terrivel feito pelas carrogas que vinham do campo € > can tos brads sob mi- 5 cinco horas, pulei poneses barulhentos oferecendo ervilhas verdes em nha jane Os sons fundamentais do cavalo e da carroca Smollct nao foi © tinico comentirista a initar'se com 0 continue assi- re calgamento de pa- métricn ruilo clas rodas de raios de metal rolando s tulelepipedes, E no $6 os eurupeus, camo pessoas de outtas partes do mundo queicavam-se dele freqitentemente. “O rangido das rodas € indes- ‘vitivel E diferente de qualquer outro som que se tenha ouvido na vida e fa ngendo 20 mes o sangue gelar. Ouvir um milhar dessas redas eagindo ssquuece ~ é simplesmente infernal mo tempo Gum som de que jamais se 1.77 s_Vilgin Woolf, Onno: Landon, 1960, 2 ako, Abd Gli AN 24 This Sailer TE eypsition of Mhanphy cliner New Yook, 1K, 0.1567 14 Clee Mots ih le lth Na, (eat Aes Koro, 1920s p12 4, fed. buns: Orton, rl Cea Mele 50 R. Murray Schafer Com os tlbutis, ieram 0s estalidos © os chicotes, que o fildsofo Schopenhauer supunha sero mais detestavel distraimento da vida intelectual Denuncio-o por tornara vida pacifica impossivel; ele poe fim-a todo pensa- menio silenciose .. ninguém que tenba alguma idéia na ealsega pocke ovitar um sentinento de panko real dtante desse ringido repemtino e agudo que paralive 0 ‘eérebro, rompe o fio da reflexdo e assssina 0 peasamenta Que Schopenhauer nao estava 56 a0 resistit ao muido dos acoites € eviclente pelos numerosos exemplos de legislacdio da Europa e arredores proibindo “o initl estalidos dos chicotes das carrocas’ Um dos sons furcamentais mais influentes das primeiras paisagens so- horis urbanas deve ter sido o tropel cos cavalos, audivel em toda parte, fs ruts pavimentachis cle peda, € diferente do cavo muicio dos cascos em. Glinpo aberto. Leigh Hunt escreve sobre a jomad: quiindo © nico meio para © Viajante saber se estava passando por um Niluejo era a elevagio do som da batida des cascos. Voltando a estrada tuinpestte, “0 timido cireuito das rodas @ © passo ritmado dos cavalos” yeabam hipnotizando mesmo o mais alerta dos viajantes.*” Decerto, nfo sou © Gnico a coneluir que o ritmo dos cascos deve ter henudido de modo contagiante na mente dos viajantes. A influéncia dos noturna em carruagem, wos dos cavalos nas cimas posticas devia produzir uma tese de doutora- lo, @ de fato Sit Richard Blackmore Falou certa vex em tansformar em verses "0 r0nco das rodas de seus coches’. Lim conhecedor da métrica eqliesire deveria ser capaz de wabalhar o tema a partir daf. Cert influéacia hu musica & wmbem evickente, De que outra forma poderia alguém tomar wonhecimento dos efeitos do ostinato como © baixo de Alberti, que foi ctiitlo (depois de 1700) quando viajar de coche pela Furop2 s¢ tomou A mesma influencia se pode sentir nos ritmos agitaclos cla quadrilha, que os americanos do Sul chamam, nio sem razio, le kicker music”."’Talver esses pensimentos sejam meramente idiossin- Ccriticos, mas desejo realinhavé-los quando considerar a influéncia da whi de ferro no jazz e do auomével na miisica contemporanes. pnitico, barato & popular? (0 Arthur Sehopentuver. On Nowe, in: Roe Pests Handbook rad, T, Badey Saunas. Lincoln, Nola, 194, 217.8, AP igh it, op ct, 258 2A Richos music darn pie so Tosa eselede Nagar tarce ou “usin, singin ‘onloeda pela fopaga0 ‘dryarine on queen 19 Aefinegéo do mundo Os ritmos de trabalho comecam a mudar Antes da Revolucio Industrial, o trabalho costumava estar associado & angio, pois os sitmos das tarefas eram sineronizados com 0 ciclo ca respira- Go humana ou surgiam dos habitos relacionados com as mitos € 08 pés. Mais adiante, discutiremos como 0 canto cessou quando os ritmos dos homens e das miquinas sairam de sincronia, mas nto & prematuro cl aatencao para a tragédia. Antes disso, os cantos dos mariaheitos, as can- (GBs campesties ¢ das oficinas davam o ritmo, que os vendedores de rua ¢ as floristas imitavam ou cantavam em contraponto, numa vasla sinfenia coral. Em principio, como atesta a novela de Gorki Os Aramonous, de bom grado os trabalhadores teaziam suas canedes para as cidades: Pyote Antamonor andava no local ds edilicios pusindo clietradamente a ore- Iha, observando o teibatho, Uns serra cortava a madeira com volipia; plainas se scrustava, sibilantes, part Mie paet ed; as batieas dos machados soavam fortes & Iimypicas; almiofarizes salpicavam a alvenatia © uma pedra de amclar solusava contra a Mining cega cle um machado. Carpinteiros,levantando uma vga, aticaram 4 Duhimashlete em alguns lugar ura vor jovem cantava com vigor: 10 ainige Zacavias visitox Mania e baceu-lhe na cara para fazé-a felin”® maldesas Mais tarde, os trabalhadores s@ resignasiam a dizer pilhéri ho moinho. Entéo eles apenas. reunizm-se no banco de Vataraksha, mordiscando sementes de abobora e girsssol ouvinels « resfolegar @ o antirin das serras, o arrastar das plaines, os golpes lavam em tom zombereito da infrutfer, esurepltosos dos: machaclos aguradlos. F constaugio da tome de Babel” 0 trabalho industrial matou 0 canto. Como disse Lewis Munford em ‘Technies and Civilization Técnica e ciuilizagad: “O trabalho era orques- tudo pela ntimero de revolucdes por minuto, € ado pelo ritmo da cance, lo canto ou do tamboritar dos dedos”* 29. Melony Gok op ek, ARAN, 40 biden 41) ein Mtn Revenue deeaon. New York) 1998 p201 R. Murray Schafer Gritos de rua Mas isso vem mais tarde, Antes dit Revohicao Industrial, as ruas € offci- as Fessoavam de vores ¢, quanto mals se adentrava 0 sul da Europa, mais nuidosas elas pareciam tornar-se: Olli pare cima, mires de janeles e haleSes, cortinas balengund ao sol, fothas ¢ Heres, ¢ entre elas pessoas, apenas para contimar (ua lusi0, Gritor dos de chicote enourdecent; a luz te cega, teu ofrebro comeca a anurli, ns © engples ar. Senteste puxado e torraste pare da entusistica domonstragao Patt aptaudir-e aritar “Eovive* —mas para qué? © que esté dtamte de teus olbos n & mci excepeional ou extravrelindrio, Tudo esti perfeitamtente calmo; nenhuma puto politica esta gitando essa genre, Cada um ainda se record de seus nego ‘los ¢ falt de coisas comuns: @ apenas um dls como outro qualquer, fa vids de Napoles em sug perfoita normalidade, nada mais Mor que as vozes dos europeus do Sul sempre parecem mais Fortes do le seus vizinhos lo Norte? Sera porque eles passam mais tempo no Simo, onile 6 nivel do ruido ambiental & mais forte? Recotdemos que os Hetheres aprencleram a gritar porqne tinham cle gritar sobre as cataratas do Nilo Mils is nas de toxlas as principais cidicles da Europa raramente eram tllenclosis niquetes dias, pots havia as constantes vozes dos vendedores Hmbolantes, misicos cle rua © mendigos. Os mendigos, em particular im. Portuniram 0 compositor Johann Friedrich Reichardt quando ee visitou Maris em 1802-1803. *Normalmente eles nido' sto violentos quando ahordum slgnem, mas incomodam as pessoas, com suas siplicas continuas ¢ seu SOoportanento miserével”™ Ena impossivel evitar 0s ubiquos gritos de rua, (C) Intkor a run pacecia violenta © horrivelmente cacofénico’, escreve Virginia Mooltem Orlande, mas isso & muito genético. Na verdade, cada ambulane {inh umn grito cheio. dé incontivels artlicios. Mais que as-palavras, 0 mative Inuieal © 0 inflexao ca voz, no coméreio, eram passados de pai para filho.e Nigerian, 4 quarteinoes de distancla, a profissao do cantor. Nos tempos em ‘ie a lojas se movium sobre rcss, os antincios cram constitutes por @ribiches vocals. Os gritos de rua atraram a atengio dos compositores inate Mico Naples rend ete ye, 1878 cho de Mire Nseceh, op. lt tke © Jehan Hledich Hokus, Yermume Bri als BANK Cichriebon in ten obra food HK NOt THe, Habu, LDH, jab A ofinacéo de mundo "foram incorporados a mumerosas composicdes vocais por Janeguin, na Fran- ‘ga do séeulo XVI, ¢ Weelkes, Gibbons ¢ Dering na Inglaterra cha Epoca de Shakespeare. As Fantasias dos hiimos trés compositores contém cerca cle 15) diferentes gritos ¢ cangdes de vendedores ambulantes. Uma lisia de alguns deles a uma boa idéia ca variedade de guloseimas e seevigos dispo- niveis nos vilarejos da Inglatesra elizaberana: 13 tipos diferentes de peixe 18 tipos diferentes de frusa 16 tipos de licores & eovas 11 vegetais 14 tipos de alimento 4 tipos de mobilia para cast 13 aniges de vestir 19 gotos de comerctanios 19 cangoes dle comercirios M4 cangées de pedlidos ein favor de prisionciios 15 cangoes de relojneiro 11 pregoeiros* dh cidade pregoeiro preservaclo por Dering é claramente anterior aos dias da reforma puritana, Ele comega com a tradicional invocarao “Oyez", do ver bo franco-normando attir, ouvir, yes, oyee Se agumn home mus, cdedto ou campones wer note : e nenhum ofho, com unt de uma égua cinzenta de ribo preto, com ues pernas e : grande buraco no tiseiro também no seu facinhs, se algusm tiver notida dessa gua, informe a0 pregosiro, que cle agradecerd pot seu tballo, ssegquits até aproximada. A pritica de manter pregosiims na cidade prosseguiu até ap mente 1880 ou, ao menos, foi por esse tempo que o nomes deles desapa- tecou das lisas de cidacles como Leicester © ambuinte ptblico também era levado pare os teatios ¢ casas de hall relata a respeo de Paris iedrich Re ‘pera, come Jobaan Fy hve os atos, es amtulantes enteim levardo Ineanida,fimomacta, somvete, fra 0 por dite, era mney outeos taizem libretos de Sper programas, jornis ips ee nn adc of Laridon Shubospente's Tye. Praveen the "Pon eno egal ell 8% ie Teclgh (sags ‘ie Mate nel Aiea de alas Tobe oe...