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10.030 o) Smo 80) S32 FLAVIO GOMES MARGENS MirTicas: A AMAZONIA NO IMAGINARIO EUROPEU DO SECULO XVI Auxiliomar Silva Ugarte INTRODUCAO Sea chegada da expedi¢ao colombina as Antilhas, em 1492, contribuiu ‘a a ampliagao do horizonte geogréfico e cultural dos europeus no final do sé- sulo XV, uma vez que as terras recém-descobertas tornaram-se uma gigantesca “margem do mundo”,! as varias expedicdes conquistadoras, que trilharam o Novo Mundo ao longo do século XVI, revelaram, por seu turno, que nesta imen- sa “margem do mundo” havia outras “margens”. Foi assim que, a partir das Anti- thas, as regides de terra firme do continente americano foram sendo conquista- das. No primeiro momento, foi a regio mesoamericana, tendo a derrota da Con- federacio Asteca como seu principal triunfo. No segundo, jé a partir do que é hoje o Panam, foi a vez dos Andes Centrais, ¢ como prémio, o Império Inca. Foi nesse proceso de conquista colonial? que a regido amazdnica tor- nou-se uma das “margens” do Novo Mundo, Porém, uma “margem” que, ao con- trario do que ocorreu com 0 Vale Mexicano ou com Andes Centrais —“margens” que se tornaram “centros” do mundo colonial -, continuow nessa condigio, vin- do até os nossos dias. Em outros termos: foram os duvidosos resultados do grada- tivo avango europeu ~ que por todo o século XVI revelar-se-ia pontual, se levar- ‘mos em conta a quase inexisténcia de estabelecimentos coloniais -, que condicio- naram a “marginalidade” da Amazénia.} Deve ficar claro, todavia, que estamos analisando a perspectiva dos europeus. Eles nao somente revelaram a si mesmos essas “margens” ~ limites ~ do mundo, mas também, ¢ principalmente, transfor- maram tais “margens” em periferia cultural, econdmica e politica - de seu uni- verso social. Sendo uma das “margens” — limites ~ do Novo Mundo, a AmazOnia, como regio ainda bastante desconhecida pelos europeus, tornou-se, ao lado de Many De outras “margens americanas”, “um alimento para a imaginagdo coletiva”.t Em outras palavras: & medida que a conquista européia prosseguia, o empirismo do devassamento era acompanhado por expectativas e projegées oriundas de um universo mental carregado de componentes de longa duragio¥ e outros simbolis- mos,® que foram de/ao encontro de elementos advindos do contato com a nova realidade. Esses elementos contribuiriam para reestruturar 0 proprio imagindrio” europeu, em que os fatores econdmicos ¢ politicos estavam inseridos decerto, po- rém matizados por outros, cujas caracteristicas eram expressas por elementos mi- tico-lendérios,* que compunham a mentalidade dos conquistadores. A partir dos conceitos, juizos, simbolos, mitos e valores de sua civiliza- io, os conquistadores, através de suas narrativas — escritas e orais -, transmitiam aos leitores e ouvintes determinadas imagens mentais, que tornavam menos es tranhas as novidades dos territérios desbravados. Muitas vezes, essas imagens mentais, conforme veremos, eram transformadas em imagens formais, isto é, em gravuras, feitas por especialistas que ilustravam folhetins, livros e mapas. Como bem demonstra Ana Maria Belluzzo, essa produgao iconografica “oferece uma hist6ria de pontos de vista, de distancias entre observagGes, de trian- gulacdes do olhar... mais do que enxergar a vida e a paisagem americana, leva a focalizar a espessa camada da representacio. Evidenciar visdes e nao fatos [...] As imagens elaboradas pelos viajantes participam da construgio da identidade euro- péia, Apontam os modos como as culturas se olham e olham as outras, como ima- ginam semelhangas e diferengas, como conformam 0 mesmo ¢ 0 outro... Foi gracas a esses meios que a AmazOnia, juntamente com outras re- gides do continente americano, foi sendo introduzida no imaginario europeu ocidental. universo mental europeu sobre o Novo Mundo em geral, e sobre a Amaz6nia em particular, nao separava a realidade material da realidade imagina- da, Alguns mitos europeus ganhavam novas expressdes com 0 desbravamento das terras americanas, e alguns deles tiveram lugar no seio da Amaz6nia. Assim sendo, nosso intento objetiva alcangar, por meio dos testemunhos que chegaram até nés, a forma pela qual se deu a insercao da Amaz6nia ~ como “margem” da “margem do mundo” ~ no imaginério europeu. Para tanto, recorre- mos aos escritos deixados pelos conquistadores, bem como aos relatos e a0 mate- rial iconogréfico de seus contemporaneos, a fim de investigarmos até que ponto as referentes & regio amaz6nica foram apreendidas e digeridas na Europa entista e expansionista do Quinhentos. PERCEPCAO INAUGURAL: AS VIAGENS DE PINZON ePe (1500) A regidio amaz6nica foi tocada pela primeira vez por europeus em feve- 0 de 1500. Comandava a expedigao o espanhol Vicente Yétiez Pinz6n, cujas wvelas singraram vinte Iéguas do futuro rio Amazonas. Tal qual um Adio -afo, Pinz6n ~ eivado de religiosidade crista e admiragao ante o fenémeno rvado ~ estabeleceu uma curiosa analogia entre a “dogura” da Virgem Ma- €0 volume de Aguas doces que avangava no mar, batizando 0 rio com o nome Santa Maria de la Mar Dulce, embora seus companheiros denominassem le rio de Maraitén, Adentrando no Santa Maria de la Mar Dulce, os espa- is observaram que havia “islas dotadas de muy fertil suelo llenas de pueblos” ie no “interior de aquella comarca indicaban los indigenas que habia no des- iable cantidad de oro...”, conforme os depoimentos colhidos pelo humanis- Pedro Martir de Anglerfa,"° quando os expedicionarios retornaram & Espa- em setembro de 1500. A primeira aventura européia em solos amazénicos nao ficou apenas no Jumbramento da grandiosidade e beleza da regido. Iniciou, da mesma forma, histria da Amaz6nia, uma cadeia de encontros ~ seguidos imediatamente de frontos ~ com os nativos, j4 que o primeiro contato resultouw na captura de indigenas, embarcados nos navios espanhéis.!! A viagem de Pinzn resultou em introduzir aquela regiao recém- atada nos planos de conquista e colonizacao que a Coroa espanhola ja di- no Novo Mundo. Os reis espanhéis nomearam o préprio Pinz6n, como compensa a0 seu feito, capitdo e governador das novas terras: “[..] desde a dita ponta de Santa Maria da Consolacao, seguindo a costa até Rosto Formoso, e de ali toda a costa que se corre ao noroeste até 0 dito rio ao qual pusestes o nome de Santa Maria do Mar Doce, incluidas as ilhas que es- tao na boca do dito rio [...] [para] que, das coisas, interesses e proveitos que houver, se acharem e adquirirem de agora em diante nas terras supracitadas, trios ¢ ilhas, tanto ouro como prata, cobre ou qualquer outro metal, pérolas e pedras preciosas, drogas, especiarias e quaisquer outras coisas de animais, pescados, aves, drvores ¢ ervas ¢ outras coisas de qualquer natureza ou quali- Os Seni dade, enquanto for a Nossa mercé e vontade, tenhais e gozeis a sexta parte do que Nés tivermos [...].”"? A segunda expedig4o européia que chegou as terras amazénicas - tam- bém na desembocadura do rio Amazonas ~ foi a comandada por outro espa- nhol, Diego de Lepe, em fevereiro de 1500, alguns dias apés a passagem das caravelas de Pinz6n. Chegando, coincidentemente, a0 mesmo lugar onde esti- vera a expedigio anterior, a de Lepe foi recebida pelos nativos de armas nas mos, por causa do-cativeiro daqueles 36 indios, levados por Vicente Pinz6n. Este segundo encontro resultou em mortal confronto. Os indigenas da regio = por nao aceitarem a presenga desses novos castelhanos, tidos certamente como escravizadores — tentaram impedir o desembarque ¢ mataram alguns dentre os espanhéis. Estes revidaram com as armas de fogo, matando muitos indios e fazendo outros cativos."* De volta Espanha, Diego de Lepe recebeu dos reis espanhéis uma Capi- tulagdo semelhante a de Vicente Pinz6n, na qual constava: “[..] para que vades [...] e descubrais no mar Oceano ilhas ¢ terra firme nas par tes das Indias aonde fostes da outra vez, para ver a terra que descobristes e de ‘onde voltastes [..] possais, nas ilhas e terra firme que descobristes nesta nova via~ gem, escambar e ter ouro, prata, cobre, estanho, mercério e qualquer metal de qualquer qualidade, alj6far, pérolas, j6ias e pedras preciosas, monstros, cobras quaisquer outros animais de qualquer qualidade, pescados, aves, especiarias, drogas ¢ quaisquer coisas de qualquer nome e qualidade [...]."" As viagens comandadas, respectivamente, por Vicente Pinzén e Diego Lepe inaugurariam a percepgao européia sobre o mundo amaz6nico, em di vertentes: 1) o encanto pelo imediatamente visivel e positivo — as aguas doces aparente fertilidade da terra; 2) a expectativa, igualmente positiva, da existé de diversas riquezas. As noticias sobre a regio do Santa Maria de la Mar Dulce nio fos apreendidas, todavia, somente no viés pragmatico colonial-mercantilista cor Capitulacées de Vicente Pinz6n e Diego de Lepe fazem parecer. No meio intel curopeu, impulsionado pelo humanismo italiano, alguns letrados interessav. sobremodo pelas noticias de terras recém-contatadas pelos navegadores. Em fi século XV ¢ infcios do XVI, a Peninsula Ibérica, mormente a Espanha, atraiu. eruditos italianos, como o jé citado Pedro Martir de Angleria, Alessandro Ge e Lucio Marineo Siculo.'§ Dentre esses humanistas, Pedro Martir de Anglerfa (1455 ou 1459-1526) um grande destaque. Nos 39 anos em que viveu na Espanha, servindo como ista de Castela, dispunha de informagées de primeira mao trazidas do conti- americano pelos navegadores e conquistadores."* No que tange ao fenome- lo em que as naus, sob o comando de Pinzén, haviam singrado, Pedro Mértir apenas registrou a impressio dos espanhis, mas também avaliou até que pon- 3 mesma era verdadeira, pondo em dGvida suas informagbes acerca do portento rgura do rio: “Desde aquella punta de tierra donde se pierde el polo artico, viniendo casi ‘rescientas leguas en continuo trecho al Occidente, hacia Paria, como a mitad del espacio, dicen que dieron con un rf llamado Marafion, tan ancho que sos- echo es fabula. Seatreven a decir que tiene mas de treinta leguas de ancho, y oy ue con curso arrebatado corre al mar, que cede a su furor. A diivida originava-se de seu conhecimento dos rios europeus, © estionamento preservava-Ihe as opinides pessoais, o que garantia sua vera- Sidade junto aos seus interlocutores. Consciente de que o principio aplicado a fala de seus informantes poderia, da mesma forma, atingir 0s seus escritos, Pe- dro Martir cede, todavia, & possibilidade de existirem grandes rios em outras Partes do mundo, uma vez. que nessas regides a Natureza poderia ter agido di- ferentemente, Recorre ao exemplo do Dantibio para estabelecer a compara- $40 € concede ao Tempo o status de esclarecedor das davidas que pairavam em sua época: “No obstante, si reflexionarmos lo grande que se dicen las bocas del Dantbio, {a boriostomea y la spireostomea, y por quanto trecho empujan a las olas del mar y dan agua dulce a los navegantes, dejaremos de maravillarnos, aunque este rio se afirma que es mayor. Quien quitard a la naturaleza que pueda for- mar este rio més grande que aqueél?[...] Algiin dia entenderemos estas cosas més claramente [...]."!8 Pedro Médrtir néo viveu o suficiente para ver confirmada a possibilidade gue intuiu ao formular 0 jufzo anterior. O humanista faleceu em 1526 — quatorze anos antes do Santa Maria de la Mar Dulce ou Maraiién ser navegado em toda a sta extensio por cingiienta homens comandados por Francisco de Orellana, ga- nhando a partir dessa viagem o nome de Rio das Amazonas e sendo reconhecido como o maior rio das Indias Ocidentais, sendo de todo o Orbe. G RE & FLAvH a =i 0s Rios Os Sennones. Gomes 8 Lay a = PELO Rio Maranon Os Europeus EM Busca po Pals pa CANELA, DAS AMAZONAS, DE OMAGUA E DE EL Dorapo maior parte das vezes, 2” ocasionava a migraczo Beografic: a do maravilhoso, © qual 2 formava-se a cada ava } Por sua vez, trans- inco dos conquistadores, © Portugués Diogo Nunes, também o cronista da yj de povoamento da regiaoeo que E necessério para conquistar esta terra agora ao presente, quatrocentos ceatoe vinte de cavalo, e os outros de pé. Esta gente toda se ha de fazer em Alentejo e no Algarve e alguns homens da Africa [...].”22 onde se poder povoar uma vila que seja porto e escala de toda esta terra. Como se pode observar, a natureza amazOnica aparece dadivosa em Dio- go Nunes. A abundancia de alimentos e de riquezas minerais é exaltada tanto pelo que o cronista viu como pelo que presumiu.. Poderiamos levantar a hipstese que o seu relato contém descrigdes exageradas ou fantasiosas para agradar ao rei de Portugal, a fim de que este autorizasse ou financiasse novas expedigdes, cujo comando Nunes teria a seu encargo. Todavia, néo seria demasiado lembrar que 0 “consciente” da propaganda sobre a nova terra encontrava-se, ele mesmo, enqua- drado em praticas, experiéncias ¢ valores culturais dos quais os conquistadores exam embebidos sem se darem conta. Diogo Nunes, na qualidade de conquistador e cronista da primeira expe- digdo a estar no Amago geografico do mundo amaz6nico, pretende reinaugurar a presenca européia nessa regio, com vistas a efetiva implantagao colonial, mas sob a égide lusitana, e nao espanhola, apesar de sua participago num destaca- mento de espanhéis. Vemos em sua carta a D. Joao III, rei de Portugal, a seguinte expressio: “Dando V. A. 0s navios e munigio como assim digo, eu porei mantimentos, cava- los e gente, porque se tomo a vontade de fazer este caminho nio por outro res- peito, senio por servir a Deus e @ V. A. e para dar ordem como se salvem esta gentilidade e sejam cristios toda a mais parte desta quantidade de gente que este € meu desejo, pois para mim e meus filhos, minha mulher, tenho de comer que me baste.”? Os intentos de Nunes nao foram levados a termo, uma vez que nenhuma acto da Coroa portuguesa foi implementada para tal. Entretanto, ficaram suas impressées do territério, que, alguns anos depois, seria novamente percorrido por aventureiros espanhdis A Provincia da Canela e as Amazonas A semelhanga da expedigio de Alonso Mercadillo, que malogrou em ple- no Alto Amazonas, temos a expedigio do governador Gonzalo Pizarro (1541) | Este intencionava conhecer, incorporar ¢ explorar, também, as regiées aleste dos Andes, que jd tinham recebido, neste momento, o nome genérico de Provincia da Canela, Esse nome derivava da presenca de érvores de canela, das quais algumas Famagens, por obra dos indios, chegaram aos espanhois em Quito: “L--1y era muy deseada, porque se pensaba que avia de resultar hallando tales ar- boledas y especias, gran servicio 4 Dios en la conversion de los indios que la pos- seen, € mucha utilidad é actescentamiento para la hacienda real, é ottos muchos Provechos ¢ secretos que se esperaban desta nueva empressa,"™4 Dessa forma, o mito impulsionador nao estava dissociado das conse- aéncias da propria conquista, ou seja,realizada a ocupacio da Provincia da Ca. nela, seus habitantes nativos iriam ser convertidos ao cristianismo ¢ as riquezas da ‘erta revertcriam para os cofres da fazenda real. A implantacio colonial era pro- & posta, mas sem se explicitarem os meios que seriam empregados para sua efetiva- 2 $40. Além disso, o cronista registrou ainda “outros Proveitos ¢ segredos” que a “aventura propunha. 10 Safda de Quito em fevereiro de 1541, a expedigo de Gonzalo Pizarro malgrado ter sido bem provida de mantimentos, meios de transporte, armas % _ Imunigio e cies de caca— enfrentou toda sorte de petigos até chegar ao tio cobica- do tertitorio da especiaria, na regiao do rio Coca. 2 Para tristeza dos espanhéis, embora existisse realmente a canela, sua z __ dispersio na floresta, em grandes extensées, dificultaria a coleta, tornanda in- % __ vidvel a exploragéo comercial. Ademais, os mantimentos haviam terminado e é a fome causava mal-estar na hoste conquistadora, Neste contexto de desespe- ro, a solugao encontrada por Gonzalo Pizarro ~ ao saber dos indios que, bai- xando o Coca durante dez dias, haveria mantimentos - foi enviar uma peque- a tropa para buscar os anunciados alimentos na regio de confluencia do rio Coca com 0 rio Napo. | | © comando da tropa (59 homens) foi confiado por Pizarro a0 capitao Francisco de Orellana. Ambos combinaram que, caso Orellana néo regressasse, 0 Bovernador deveria retornar ao Peru por outros meios. Em verdade, comecava ‘uma epopéia que duraria nove meses, de dezembro de 1541 a agosto de 1542, e seria a primeira expedicao a percorrer todo o rio Amazonas até foz, no Oceano Arlantico, uma vez que este pequeno grupo de espanhdis nao teve condigées de voltar, por causa da correnteza do rio. Os detalhes da viagem foram narrados Pelo dominicano frei Gaspar de Carvajal, que fez parte desse Pequeno grupo. Ao longo de toda a viagem, a melhor receptividade que os espanh6is ti- entre 0s indios foi nos dominios do cacique Aparia maior.® Numa de suas iras aldeias, os expedicionarios foram abastecidos de papagaios, pescados « gas. O entendimento da lingua dos indios de Aparia maior, mesmo sendo io por parte do capitio Orellana, possibilitou um minimo de comunicacio ¢ 0 espanhéis e os indigenas. Desse modo, quando havia oportunidade de estabelecer amistosos relacio- jentos com os indigenas, duas ordens de objetivos vinculavam-se a “boa ima- espanhola” que os conquistadores tentavam alcancar. A primeira era imediata, pois visava a sua sobrevivéncia fisica, porque assimesmo pata conservarnos nesgessario el buen tractamiento que se ese d los indios para poder passar adelante”, uma vez que cada povoado dei- jo para tras, sem combates, representava uma vit6ria contra a morte naque- imenso rio e a renovacio da esperanga em alcangar o mar, e chegar a povoa- s cristdos. A segunda visava a um alcance mais profundo, cujos resultados eram es- rados num futuro préximo, j4 que se revelou uma importante tatica que prepa- va 0 caminho para a implantagao colonial, sob 0 dominio da Espanha. Por emplo, antes de partir da aldeia, onde residia Aparia maior, Orellana recebeu itimentos deste e de outros indios, retribuindo-lhes com um “bom” tratamen- , pois deu-lhes contas de vidro, com as quais os indios ficaram muito contentes. ci Gaspar de Carvajal confessou o objetivo de seu comandante: “L.-] porque el intento é desseo de nuestro capitan era procurar, si possible fues- se, que quedasse en aquella gente barbara un buen respecto é grado de avernos conoscido é no descontentamiento alguno, porque desto serian servidos Dios é nuestro Rey é sefior, para que adelante, quando 4 Su Cessérea Magestad plugui- esse, con més facilidad nuestra Sagrada Escriptura é fé e sagrada é la bandera de Castilla con més oportunidad sepa la tierra, é la hallen mas doméstica para pasifi- calla é la poner en obediengia que 4 su real servicio conviniere [...].”2* Todavia, depois da provincia de Aparia maior, poucas foram as etnias que receberam os espanhéis amistosamente. Como poderiam saber das intengdes da- queles homens tao estranhos? Em sua maioria, antes mesmo de os conquistadores saltarem as margens, os indigenas atacavam-nos em imensas frotas de canoas, e em terra, com seus esquadrdes de dezenas de guerreiros. Isto aconteceu com os indios das provincias de Machiparo de Homaga, bem como com os indios de outros ter- kee Fe 0s Sew s senat Titérios, cujos nomes nao foram registrados pelos conquistadores, até a safda no Oceano Adlanti Foi num desses encontros bélicos que os espanhéis notaram a presenga de 0. mulheres ~ definitivamente transformadas em amazonas a partir dessa viagem — as uais nao somente animavam os homens nos combates, mas também lutavam e, apa- Tentemente, comandavam os guerreiros indigenas. No imaginario europeu do Quinhentos, a crenca na existéncia de “ama- zonas” em terras do Novo Mundo era algo possivel, pois fora difundida por Cris- t6vao Colombo no final do século XV, Em sua carta a Lufs de Santéngel, em 1493, Colombo referia-se a uma ilha caribenha habitada somente por mulheres: “Numa ilha que é a segunda quando se chega as fndias habitam homens que so, tidos por mui ferozes € que comem carne humana [..] Eles se unem a algumas ‘mulheres que habitam, sozinhas, uma ilha chamada Matenin. Essas mulheres nao se entregam a nenhuma ocupagao prépria a seu sexo; servem-se de arcos e fle- chas ¢ protegem-se com laminas de cobre, metal que possuem abundancia.” Embora Colombo nao use o termo “amazonas”, quem quer que lesse sua carta nio deixaria de fazer associacio entre essa noticia eo antigo mito; 0 nave- Sante genovés torna, desse modo, implicita a existéncia real da provincia femini- nano Nove Mundo. O mito das amazonas migrou, assim, do Velho para o Novo Mundo, redimensionado com a nova realidade que se afigurava para os europe- us. No continente americano, o mito migrou das Antilhas para a América do Sul, acompanhando os conquistadores, No que tange as informagSes sobre as “amazonas” encontradas no rio Marafin, o cronista Gaspar de Carvajal interpreta o ataque indigena aos espa- nhois como defesa do territério das “amazonas”. Para o dominicano, aqueles in- dios eram vassalos do reino feminino, Relata Carvajal: “Quiero que sepan qual fue la cabsa por qué estos indios se defendfan de tal max nera. Han de saber que ellos son subjetos y tributarios a las amazonas, y sabida nuestra venida, vanles a pedir socorro y vinieron hasta diez o doce, que éstas vi- ‘mos nosotros que andaban peleando delante de todos los indios como capitanas, ¥ peleaban ellas tan animosamente que los indios no osaban volver las espalduas, y al que las volvia delante de nosotros le mataban a palos ae Em seguida, Carvajal fornece uma descrigio fisica das combatentes, aerescentando as qualidades dessas mulheres na arte da guerra: “Estas mujeres son muy blancas y altas, y tienen muy largo el cabello y emeremaa =: do y revuelto a la cabeza, y son muy membrudas y andaban desnudas em ewe, tapadas sus verguenzas, con sus arcos y flechas en las manos, haciendo canta guerra como diez indios; y en verdad que hubo mujer de éstas que metié un pal mo de flecha por uno de los bergantines, y otras que menos, que parecian nues- 2 ‘ros bergantines puerco espin. Para Carvajal, mesmo com toda essa coragem e destreza, as “amazonas” inferiores aos espanhdis na arte da guerra. Embora cansados, famintos ¢ fe- idos, os espanhéis dispunham de armas de fogo e contavam, na visio do cronis- w ta, com outra poderosa arma, a superioridade de sua religio, o cristianismo, fa- ndo-os representantes de Deus naquelas paragens de povos barbaros, e que nao desampararia: “Torando a nuestro propésito y pelea, fue Nero Seftor servido de dar fuerza y 4nimo a nuestros compaiieros, que mataron siete o ocho, que éstas vimos de las amazonas, a cabsa de lo cual los indios desmayaron y fueron vencidos y desbara- tados con harto dafio de sus personas [...].”5° Os SenHones pos Ri Deixando a regio, e tendo cativado um indio, os espanhéis prossegui- ram a viagem rio abaixo. Por um “vocabulario” que fez, 0 capitao Orellana inter- rogou o prisioneiro acerca daquelas mulheres. O curioso é que no se sabe em que lingua se deu o “didlogo”. Todas as respostas dadas pelo indio as perguntas de Orellana, na verdade, eram interpretadas conforme as expectativas que 0s es- panhdis tinham desde Quito, pois, segundo Carvajal, os expedicionérios ja ti- nham “noticias” de tais mulheres guerreiras desde os arredores daquela cidade, quando a viagem comegou em 1539, ainda comandada por Gonzalo Pizarro.*! E importante notar que o mito das mulheres guerreiras comecava, em terras amaz6nicas, a ganhar novos elementos em sua estrutura. Carvajal reco- Iheu, evidentemente, nao as respostas traduzidas, mas a interpretacao que Orella- na dava do que o prisioneiro dizia. Na interpretagio de Orellana, o indio dizia que aquelas mulheres nao eram casadas; que cativavam homens para as servirem sexualmentes que ao tér- mino da gravidez, no tempo de parirem, se a crianga fosse homem o matayam e 0 enviavam ao pai, mas, se fosse mulher ficava com a mae ¢ era educada nas coisas da guerra; que habitavam em setenta aldeias, cujas casas eram de pedra, e cuja ca~ pital tinha adoratérios dedicados ao sol, com idolos de ouro e prata; que manti- nham as tribos limftrofes em sujeigéo; que, na regio onde se encontravam as al- deias, achavam-se duas lagoas de 4gua salgada, de onde elas extraiam sal; que se vestiam de mantas, feitas de la de ovelhas como as do Peru, deixando o busto des- coberto. Depois de nove meses de viagem, os espanhdis conseguiram sair a0 Oce- ano Atlintico em agosto de 1542. Todavia, nao sairam incélumes, pois alguns de- les morreram nos combates ao longo do rio Amazonas. Depois, navegaram até a ilha de Cubagua e, de l4, até Santo Domingo. O capitao Orellana rumou daf para a Espanha, sendo recebido na corte de Carlos V, em maio de 1543. A aventura comandada por Orellana resultou em sta nomeagio, em fe- vereiro de 1544, como Adelantado do territério “descoberto”, que foi batizado como Nueva Andaluzia. Em maio de 1545 partia da Espanha rumo & Nueva Andaluzia. Enfrentando toda sorte de contratempos, chega ao delta amazénico em dezembro desse ano. Jé sem quaisquer condiges de se implantar na terra por onde passara quatro anos antes, sua expedicao fracassa, e ele proprio morre, bas- tante enfermo, possivelmente em novembro de 1546.™ Assim, nao conseguiu efetivar a conquista do territério que explorara, anteriormente, ao “servigo de Deus e de Sua Majestade”. Quando em maio de 1543, em Valladolid, apresentou-se ao imperador los V para relatar a viagem que comandara pelo maior rio das Indias Ociden- (1541-1542), o capitao Francisco de Orellana talvez nao imaginasse quanto historia iria repercutir em diversos meios sociais, quer na Europa quer na érica, quer no século XVI quer nos seguintes. Em verdade, a repercussao aconteceu, inicialmente, na prépria América, vez que Orellana e seus comandados jé haviam relatado sua aventura para s compatriotas na ilha Cubégua ~ quando la chegaram em setembro de 1542, s safrem da foz do rio Amazonas — e, depois, na ilha Hispaniola. Nesta, 0 cro- ta Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdez, que na ocasiao era o comandante fortaleza de Santo Domingo, recolheu depoimentos orais e escritos dos expe- iondrios sobre a viagem. Na Europa, € curioso notarmos que, antes da corte espanhola tomar co- ecimento da viagem comandada por Orellana, outros j4 soubessem algo da sina, Por exemplo, o cardeal e humanista italiano Pedro Bembo foi o primeiro cconhecé-la, uma vez que 0 cronista Oviedo, amigo e correspondente do cardeal, reyeu-lhe contando o ocorrido, em carta datada de 20 de janeiro de 1543. jembros da corte lusitana ficaram igualmente conhecedores da viagem, através préprio Orellana, quando este, em seu retorno a Espanha, passou por Lisboa; jiseram até contratar seus servicos para D. Joao III.°* [As noticias dadas por Orellana nao deixariam, ainda, de repercutir nos érculos cartograficos da Europa. E na iconografia dos mapas que podemos vis- Jumbrar a absorgao, quase imediata, das imagens mentais sobre a Amaz6nia per- corrida pelos espanhéis em 1541-1542, Varios mapas que foram confeccionados ‘no século XVI, apés 1544, ¢ que retratam o interior da América do Sul, trazem al- gum tipo de imagem relacionada & regiao amaz6nica. Assinalamos a data de 1544 porque nesse ano foi confeccionado 0 mapa de Sebastido Caboto cuja ilustragao da América do Sul retrata, pela pri- meira vez, toda a bacia do rio Amazonas. Se considerarmos o regresso de Orel- ana a Espanha, a confeegio do mapa de Caboto deu-se apenas com um ano de intervalo. © rio Amazonas é representado pelo cartégrafo italiano como uma gi- gantesca serpente, em cujas margens vemos cinco cidades inexistentes 4 época (tres na margem esquerda, ¢ duas na direita). Sebastido Caboto representou, 2 partir do que fora relatado por Orellana, uma alegoria do combate entre os espa- nhdis e as “amazonas”. Aqueles esto vestindo armaduras e portam escudos e es- » FLAVIO Gomes Padas, ¢ estas vestem mantas e portam arcos fechas. Tanto os espanhéis quanto as “amazonas” esto representados em duplas. Ao contrrio da descricao fisica fornecida pela crénica de Carvajal - que Caboto nao conheceu -de que as “ama- Zonas” eram “brancas”, e, assim, semelhantes aos espanhbis, a representacdo das mssinas no mapa de Caboto mostra-as como tipicamente indigenas, indiciando a alteridade nao apenas fisica, mas principalmente cultural, Emboraa ilustragio de Caboto sejaa segunda representagdo das “amazo- has” no contexto das navegagées e da conquista— pois a primeira constou daedi- Sto alema, de 1509, da carta de Américo Vespticio, a Lettera - todavia, cla é a Primeira a situé-las espacialmente na América do Sul. Em 1558, foram gravados dois mapas em que a bacia do rio Amazonas também é retratada, O primeiro é de autoria de Sebastiao Lopes, ¢ 0 segundo teve como autor Diogo Homem, No mapa de Sebastido Lopes, seguindo uma convencao da cartografia duinhentista de representar os territ6rios coloniais ibéricos, ¢ expressando 0 See MOGs RAI cla calm worn meron Gramm mellem fencente a0 dominio espanhol, jf que o cartégrafo registrou trés bandeiras Se anaeebceicy 0 A\conven.ao\derrenressara!| en ete timna Serpente, inaugurada por Sebastiio Caboto, é repetida por Lopes. Este nso actescentou quaisquer outros simbolos ou alegorias além das bandeivas de Castela. Por sua vez, 0 mapa de Diogo Homem é bastante rico em alegorias, No- Namente, o rio Amazonas é representado como se fosse uma serpente. Sobre os Contornos do rio, vemos ilustrag6es de cidades inexistentes na regio A €poca da Conduista. Trés bandeiras e um escudo de armas indicam 0 dominio espankol, O rio Amazonas € registrado com o nome de Mare Aque Dulces (Mar de Aguas Do- ces) € avanga no Oceano 'Atlantico, lembrando a primeira denominagao que foi dada por Pinzén, por causa das Sguas doces que avangavam sobre 0 mar. Abaixo do rio, vemos duas alegorias em que aparecem um acampamento dos conquista- dotes espanhéis — com homens em armas, tendas, cavalos —e um ajuntamento de indigenas. Nele, podemos observar uma cena antropofigica, em que pedagos de carne humana estao sendo assadas e outros esto pendurados numa arvore; a sua direita o cartégrafo registrou o nome Canibales. Aos poucos, a regio amaz6nica comegava ser mais conhecida pelos curopeus, Porém, conforme estamos mostrando, esse conhecimento empitico “ta acompanhado de expectativas, cujo contetido se encontrava permeado de s, de elementos fantésticos. Por isso, nas imagens cartograficas apareciam ‘0 as informagées objetivas quanto esses elementos do maravilhoso sobre a Embora tenha encontrado receptividade em alguns circulos intelec- #s, a historia de Francisco de Orellana nao foi acolhida sem reservas, mesmo Espanha. O historiador Francisco Lopez de Gémara, em 1552, fez um duro entario sobre 0 episédio narrado pelo capitao, chamando-o, inclusive, de ntiroso: “Entre los disparates que dijo, fué afirmar que habfa en este rfo amazonas, con quien ély sus compafieros pelearon. Que las mujeres anden allf con armas y pe- een, no es mucho decir, pues en Paria, que no esté muy lejos, y en otras muchas partes de Indias asf acostumbraban; ni creo que ninguna mujer se corten y que- men el pecho derecho para tirar al arco, pues con é! lo tiram muy bien, ni creo que maten o destierren a sus propios his, ni que vivan sin matidos, siendo luju- riosfsimas. Otros, ademés de Orellana, han levantado semejante hablilla de ama- zonas después de descubrirse las Indias, y nunca tal cosa se ha visto ni se ver tampoco en este rio. Con este testimonio, pues, escriben y llaman muchos rio de Jas Amazonas, y se juntaron tantos para ir allé.""7 Todavia, 0 ceticismo de Gémara nao impedin que a historia de Orellana Sobre a conquista do grande rio e sobre as mulheres guerreiras da América ~ ga- Outro exemplo de como essa hist6ria repercutiu € a obra de frei André Thevet, Singularidades da Franca Antarctica, cuja primeira edicao francesa 1558.°5 Nesse livro, André de Thevet dedica dois capitulos a aventura dos es- thdis sob o comando de Orellana. Para André de Thevet, as mulheres que bateram os espanh6is eram realmente as amazonas, e nao somente guerreiras acompanhavam os homens nas batalhas. © frade chegou a argumentar que a “onfianca dos historiadores em relagio a este assunto devia-se, antes, ao seu nhecimento dos pafses recém-descobertos, ou seja, de que eles, com poucas ‘6es, nunca estiveram em tais paises (leia-se na América). Thevet apresenta ‘0s argumentos em favor do relato de Orellana: “Ao contrério da opiniao de alguns autores, quero crer que sao essas mulheres realmente amazonas, porquanto tém os mesmos costumes de suas homonimas da Asia. E, antes de ir adiante, é preciso notar que as amazonas, das quais falo, vivem Segregadas em certasilhotas, as quais lhes servem também de fortalezas, Demais, Gomes Many Deu P | Os SENHORES DOS Rios | many pe Os SeNHones Dos Rios quase nao tém outra atividade sendo a das guerras perpétuas contra os seus inimi- gos ~justamente como as amazonas descritas pelos historiégrafos. De fato, essas ithas so freqlientemente acometidas pelos inimigos, que lhes véo ao encontro, em canons ou em outras embarcagdes, atacando-as a flechadas, embora se defen- dam estas por si mesmas, corajos mente, com ameacas, ULros € os mais espanto- sos gestos.”? Nesse livro de Thevet, ha uma ilustragéo em que figuram as amazonas de acordo com a descrigao anterior. Elas aparecem todas nuas, de arcos e fle- chas nas mios, protegidas por grandes escudos feitos de cascos de tartarugas Os inimigos - todos homens ~ atacam-nas por agua, em canoas, com arcos € flechas, e macas. As figuras masculinas lembram as representacdes dos tupi- nambés nas obras de outros autores quinhentistas, como Jean de Lery e Hans Staden. André de Thevet narra 0 “encontro” dos espanhéis com as “amazonas”, porém o faz, exagerando a desproporcdo entre aqueles ¢ estas: “Como ia dizendo, mal desembarcaram os espanh6is & procura de repouso ¢ de al- guns viveres, as amazonas, admiradas com aquela estranha equipagem, reuniram-se incontinente. Em menos de trés horas, contavam doze mil, no minimo, mulheres ¢ ctiangas, todas nuas, mas de arco e flecha em punho, urrando como se estivessem dliante de seus inimigos. E algumas flechadas mesmo chegaram a ser atiradas, pelo que os espanhéis, nao querendo resistir retiraram-se a salvo, ~ Ancoras levantadas e velas despregadas.™” Uma vez que aquele pequeno contingente de homens europeus saiu ileso do encontro, fatalmente belicoso, com tao grande quantidade de mulheres, nosso Autor utilizou a desproporcao numérica para enfatizar a superioridade européia ante 0 “outro” americano. Ademais, pds em relevo a visio de sua época sobre os papéis sexuais, enfatizando a superioridade dos homens em relacao as mulheres. E para terminar sua narracdo, Thevet usou uma metéfora bem irOnica para a reti- po- rada dos espanhéis, como se fosse uma despedida da terra das “amazonas”: rém, uma despedida com o estrondo de canhées, fazendo vitimas: “Verdade é que no momento da partida, & guisa de adeus, os navegantes sauda- ram-nas com alguns tiros de canhfo. E a isso se seguiu debandada geral, sendo provavel, todavia, que as guerreiras nao se salvassem assim to facilmente [...] Antes disso, deveriam ter sentido 0 efeito dos tiros.""! Ao que tudo indica, um possivel reino de mulheres na América exercia ho fascinio no imaginério dos conquistadores europeus que, salvo algu- exCeg0es, sus existéncia foi aceita sem reservas. Como o préprio Léper de ara havia reconhecido em sua época, muitos jé denominavam o rio em espanhdis navegaram de Rio das Amazonas, Na esteira da repercussio que a histéria de Orellana teve, cronistas por- Ses nao ficaram alheios ao espraiamento daquelas noticias, como Pero de lhdes Gandavo e Gabriel Soares de Sousa. Embora nao trate da viagem do capitio espanhol, mas da migragao de in- ‘upls, saidos possivelmente do litoral de Pernambuco, e que chegaram a0 » Por volta de 1549, Pero de Magalhaes Gandavo foi primeito cronista luso faz mencio ao Rio das Amazonas na sua Historia da Provincia de Santa Cruz, 1576. Conforme Gandavo, esses tupis eram movidos pelo desejo de “buscar sempre terras novas, a fim deIhes parecer que achardo nelasimortalide- de e descanso perpétuo aconteceu levantarem-se uns poucos de suas terras, e me- terem-se pelo sertio dentro [...¢ foram dar em o Rio das Amazonas, onde se em- barcaram em algumas canoas que fizeram, e a cabo de terem navegado por cle acima dois anos, chegaram a Provincia de Quito, terra do Peru, povoada de Cas- telhanos [...].°? Isto indica, claramente, que a denominagéo Rio das Amazonas estava in- porada ao vocabuliétio dos cronistas e conquistadores desde, pelo menos, a da de 1550. © outro autor luso que nao duvidou do episédio narrado por Orellana i Gabriel Soares de Sousa. Este cronista, em seu Tratado Descritivo do Brasil 587), malgrado narré-la sumariamente, enaltecen a aventura espanhola e in- xporou, definitivamente, a denominagio de Rio das Amazonas: “Como nao hé coisa que se encubra aos homens que querem cometer grandes empresas, ndo pode estar encoberto este rio do mar Doce ou das Amazonas a0 pela insatisfacao generalizada entre os es da conquista ou os novos, €s a autonomia politica que, até entao, ;panhGis ~ fossem os antigos solda- que nao paravam de chegar ~ que nao haviam beneficiados com encomiendas ¢ repartimientos. Tais circunstancias, com- s) ocasionaram revoltas contra a autoridade real, c (1544-1548), de Sebastian de Castilla (1553) e de Francisco Hernéndex n (1554), todas esmagadas pelo poder monérquico. Quando Andrés Hurtado de Mendoza, 10 do Peru (1556-1560) havia um clima sevoltas ainda nao haviam sido compl omo a de Gonzalo Pi- © Marqués de Cafiete, assumiu o de instabilidade, pois as “feridas” lctamente sanadas; porém, mais do que Principalmente dos deserdados da Conquista, permaneciam, shoolstiaahaler Yer iorzarm Gritmaral a Grand laymen dat @-ese @proximadamente, uns 6.500 espanhéis sem oficio nem beneficio, 1 Prebendas y estaban dispuestos para qualquer tumulto”, forcando a uma série de “operacdes de descarga” "7 AJomada de Omagua y Dorado foi uma dessas operac6es, pois aliava si- ente os desejos de muitos espanhéis em encontrar sua fortuna —e, temente, as suas causas, que ovi- con- abrir espago na sociedade estamental que ia se consolidando na ~ € os imperativos do Estado em imultidao de desocupados, Sua Majestade”. Ap6s um ano € meio de preparativos, garantir a ordem publica, ameagada ue agora poderiam ser diteis ao “servigo de Deus a expedigéo de Pedro de Ursua Para.a conquista de Omagua e Dorado em setembro de 1560. Outro cro- sah Patticipou da expedigao, o capitdo Altamirano, declara que a mesma Posta, aproximadamente, de 870 pessoas, sendo 370 espanhéis e mest. dois bergantins, sete chatas, "A alimentagao contava com uns mil porcos. Des. ‘es rios Huallaga e 0 Marafién, a partir do rio Napo, Orellana fizera 18 anos antes.” 500 indios. Os meios de transporte foram isas € muitas canoas.* a expedicao seguiu a F Feay lpcreioet 1 Os sew FLAY a Os sews Com uma quantidade tao grande de pessoas, a expedicao congregava tam- bém, como dissemos, os deserdados da Conquista, avidos de riquezas faccis ou res- sentidos com a falta de recompensas pelo que faziam nas indias, muitos dos quais enyolvidos nas rebelides de 1553 ¢ 1554. E, embora estivessem alistados para des- bravar as terras de Omagua e Dorado, tais expediciondrios no abandonavam a idéia de obter riquezas e posigdes sociais no préprio territ6rio do Peru. O capitéo Altamirano relata que sete dias antes da expedicio partir, o governador Pedro de Ursua foi questionado por alguns soldados, dentre eles Lope de Aguirre, sobre a va- lidade do empreendimento, pois, para eles, nao havia lugar onde houvesse mais prata e ouro que no Reino do Peru, onde estavam e sem muito trabalho. Assim, fazendo parte da grande “operacio de descarga” arquitetada pelo Marqués de Caftete, a Jornada de Omagua y Dorado portava contradigées ¢ ten- s6es socioeconémicas que — ao nao serem sanadas imediatamente, conforme a ex- pectativa daqueles integrantes — poderiam explodir em nova revolta, como veio a ocorrer, de fato, ao longo desta viagem. Ao longo do rio Amazonas, expedicao de Ursua esteve em contato, prati- camente, com as mesmas sociedades que, 18 anos antes, recepcionaram amistosa ou belicosamente a expedi¢do de Orellana. Nos povoados de Carari e Maricuri— possivelmente aldeias do antigo dominio de Aparia maior ~ os novos conquista- dores foram abastecidos com pescado, tartarugas, milho, inhame e muita fruta. Os indios vestiam roupas de algodao e portavam finas jéias de ouro. fudo isso despertou na soldadesca a vontade de conquistar aquela regido, pois em sua opi- nido “por que gente tan buena y de tanta razon y policia, y tierra tan rica, y prospe- 1a, era forcoso que toda la comarca circunvezina era tierra muy rica, y de mucho sustento, por que aquel oro fino no podia venir... sino que la tierra adentro era muy rica, y prospera e de mucha gente...” > Malgrado houvesse autorizado pequenas entradas nas areas proximas as aldeias, Pedro de Ursua nao consentiu a conquista da regiéo, argumentando que “Liu pues las lenguas [os tupis que serviam de intérpretes}, y relacion no auian mentido hasta alli en cosa alguna, que no seria razon dexar lo cierto por lo dudoso, y no detenernos en lo que no sabiamos” ** f bem pos vel que os animos comegas- sem a ficar exaltados, pois os soldados insistiram junto ao governador, contradi- zendo-o “[...] que mas incierto estaba lo otro [Omagua e Dorado), que no aquello, por que lo presente lo auian visto por los ojos, y lo otro sabian donde estaba y que bien se via, y echaba de ver ser tierra muy fertil, y rica, pues io echaban de ver por las insignias, con todo lo replicado no quiso el Gouernador descubrir aquella tierra que fuera muy importante {...]” A Viagem prosseguiu rio abaixo. Chegando a provincia de Machifaro, os edicionarios ficaram em uma de suas aldeias mais de vinte dias. Como nao fae nenhum sinal das riquezas anunciadas, a soldadesca voltou a manifestar ims ‘¢40 com a jornada, julgando- @ enganosa, Pedro de Ursua voltou a exortar os panheiros; entretanto, comegavam a surgir boatos de motim ¢ o desejo de Htar a0 Peru. Em meio aos revoltosos, surgiram algumas liderangas, que come- ain a tamara morte do governador: Lope de Aguirre, Fernando de Guzmén © renzo de Salduendo. Lope de Aguirre, até entio figura de quase nenhuma expresstio na via- Bi tenet ad cus finosdoteadetete lat ee ee do motim. Primeiro, atuou como eminéncia parda da c Bansformar Fernando de Guzmén ~ muito proximo a Ursu *m general dos amotinados. Depois, Somandaria com mao de ferro o remai dade do rei Filipe II. O governador Pedro de Ursua— acusado de “desservico a Sua Majestade ~ foi morto durante a noite de Ano-Novo de tendo os rebeldes gritado ebeldia, conseguindo a, sendo seu alferes — climinando seus rivais, inclusive Guzman, inescente da expedicao e desafiaria a autori- ibertad, libertad, viva el Rey nuestro senor, muerto & el traidortirano..”, 0 que, segundo 0 ctonista Vazque2 era apenas para“... en- cubrir su traici6n y maldad con las voces del Rey” 5 Além de Ursua, seu tenente-general Juan de Vargas e varios soldados. Fernando d eleito general e Lope de Aguirre, mestre-de-campo. Pot seu lado, o cronista Altamirano entendeu 0 motim como manifesta- Sie de forcas diab6licas, que desviavam a expedigao de uma de suas finalidades Precipuas, “servir a Deus”. Na opiniao do cronista, como a Jornada abreviaria o reinado do Deménio, introduzindo a palavra de Deus em meio a gentilidade do io das Amazonas, o principe do mal conseguiu adiar a implantagio do Evange- tho, clegendo seu Judas na expedicao, Nesta Passagem da crénica de Altamirano, Aoramos uma opinigéo semelhante & dos espanh6is da primeira expedigiio de Orellana, pois define a alteridade dos indios negativamente, uma vez que estes se eicontravam em trevas espirituais, sob o poder do Deménio. Se ajornada desvis. Vase de “servir a Deus”, aqueles povos continuariam mergulhados na ignorancia da verdadeira £6. Bis as palavras de Altamirano: foram mortos le Guzman foi “L--Ipor que el demonio viendose, que estaba a pique de que se le quitasse la po- cession de tantas, y tan ciegas naciones, como tenia, y tiene en aquellas estendi- das regiones, se entré como en otro Judas en el coracon de este traidor, roman- » FLAY 6 dole por instrumento para que matasse al General [...] y se quedaria en su injusta pocession como lo auia intentado [...] el traidor lope de Aguirre {sic}, diciendo que ya no auia, que tratar de buscar el dorado [sic], y Omagua.”** O novo comando da expedicao logo ficou dividido entre os que defen- diam a continuidade da busca de Omagua e Dorado, ¢ os que desejavam retornar ao Peru imediatamente. Aqueles voltaram a declarar que a morte de Pedro de Ursua nao poderia ser considerada traicao, uma vez que o perdao real seria alcan- cado se Omagua y Dorado fossem conquistados em nome de Sua Majestade. Jé 0 outro grupo, tendo Aguirre como lider, argumentava que se expedicao voltasse ao Peru era mais facil esquivar-se das penalidades que adviriam, pela ajuda de cer- tas pessoas, possivelmente encomienderos poderosos.” Aexpedicao, que j mergulhara em sangue ~ com a morte de Ursua e dos seus servidores — nao estaria livre da violéncia a partir de entao. Os dois partidos comecaram a digladiar-se. Aguirre utilizou toda a sua estratégia para eliminar os rivais, tramando a morte daqueles que nao concordassem com as suas idéias. Alguns sequazes de Fernando de Guzman, que defendiam a busca de Omagua e Dorado, estiveram na mira do mestre-de-campo Aguirre. Este exercia enorme influéncia sobre o novo comandante da jornada, conseguindo eliminar, pouco a pouco, seus contrérios. Obtendo controle da situacao, Lope de Aguirre pressionou Fernando de Guzmén para chefiar a volta ao Peru. Todavia, nao mais para se restabelecerem como antes da partida, e sim como senhores independentes do tertit6rio perua- no, que deixaria de ser vice-reino para se tornar um reino, separado da monar- quia espanhola.°* Antes, porém, era mister néo somente 0 apoio, mas também a legitimacao de seus atos por parte dos comandados. Assim, para sensibilizé-los, foi encenada a rentincia ao comando da expedigao, para deixd-la sem norte. Alcangado o objetivo, Fernando de Guzmén foi reconduzido ao cargo de general. ‘Asacées do novo comando da expedigao, sob a influéncia de Aguirre, ca- minhavam no sentido, nao do “desservico” com que a morte de Ursua foi justifi- cada, porém da rentincia ao proprio lema de “servir a Deus € a Sua Majestade”. Para se tornarem senhores do Peru, os expediciondrios deveriam continuar a “servir a Deus”, mas renunciando ao “servico de Sua Majestade Catélica”. O novo e mais radical passo foi dado, quando Aguirre chamou a todos os expedicionarios, e num discurso disse-lhes que “[..] para que la guerra leva- se mejor fundamento y mds autoridad, conventa que hiciesen y tuviesen por su Principe a D. Fernando de Guzmdn desde entonces, para le coronar por Rey en zando al Pirti, y que para hacer esto era menester que se desnaturasen de los ‘os de Espanha, y negasen el vasallaje que debian al rey D. Felipe, y que él e alli decta que no conoscia nile habia visto, ni queria ni le tenia por Rey, y elegia y tenfa por su Principe y Rey natural a D. Fernando de Guzman, ) 10 a tal le iba a besar la mano y que todos le seguiesen y hiciesen lo mis ”. Os cronistas informam, ademais, que consumado o ato, foi instalada com ceriménias e cargos, e os documentos expedidos comecavam com . Fernando de Guzman, por la gracia de Dios, Principe de Tierra Firme y i, y Gobernador de Chile”. A rebelido contra a monarquia espanhola estava declaradamente aberta, historiador Francisco de Solano classifica como “excepcional” esse comporta- to, equipardvel somente a rebeliio de Gonzalo Pizarro (1544-1548), dado um dos elementos fundamentais no conquistador espanhol era sua fidelidade jonarquia, e embora as diretrizes politicas fossem criticéveis, o poder real nun- se questionava."' Portanto, os novos comandantes da Jornada incorriam no me de lesa-majestade. Ademais, € importante observar que a rentincia a vassalagem que deviam ei espanhol vinha acompanhada da rentincia a um elemento de sua cultura, €, 0 pertencimento & nacao espanhola, que estava ainda em consolidacao nes- idos do século XVI. A viagem continuou rio abaixo. plano era ir conquistando cada palmo Antilhas e da Terra Firme, passar do Panamé até a conquista do Peru. Em seu tubo, os novos conquistadores chegavam a repartir, antecipadamente, nao so- te as propriedades, mas também as mulheres dos “vecinos” daquelas terras, plena aquiescéncia de seu Principe D. Fernando de Guzmén: “Hacerse hé manera, y téngalo vuestra merced por suyo dede agora.” prosseguimento da viagem pelo rio Amazonas ~ apés a aclamagio de ndo de Guzman como “Principe da Terra Firme, Peru, e Governador do le” — nao ocorreu conforme o juramento que os oficiais fizeram sobre o Evan- - Novas disputas pelo poder na expedicio fizeram-na banhar em sangue. de Aguirre, para manter-se no controle dos expedicionérios, eliminava to- os rivais. Nem mesmo a Semana Santa de 1561 impediu as mortes perpetra- por Aguirre. Segundo os cronistas, Fernando de Guzman, ao ver tanta carnificina em 0s seus, arrependeu-se da morte de Ursua e do plano de conquistar o Peru, reuniao com seus oficiais mais préximos, com excegao de Aguirre, decidiu re- | Many pen pas REE FLAVIO G Many Det Pat Ru 0s sew tomar a busca de Omagua e Dorado. Na reuniao, foi decidida a morte de Aguirre € dos seus homens, considerados o maior estorvo a retomada da viagem em busca de Omagua e Dorado.* Deve estar claro que o atrependimento devia-se, antes de tudo, pelo temor dos julgamentos que viriam, além do que a rebelido contra Ursua poderia ser, novamente, transformada em “servigo de Deus e de Sua Ma- jestade”, como alguns conquistadores haviam feito em outras partes das Indias, na esperanga das mercés reais. Todavia, como Aguirre era um homem desconfiado ¢ cauteloso, ao sa ber da reunido sem a sua presenga, desde entao andava acompanhado de qua- renta soldados. Adiantando-se aos rivais, elimina todos, inclusive Fernando de Guzman, em 22 de maio de 1561. De maio a julho daquele ano, Aguirre, auto nomeado general, foi o senhor absoluto da expedicao. Nesta, j4 nao havia ou- tras liderangas capazes de obstar o plano de Aguirre de conquistar o Peru. A Jor- nada de Omagua y Dorado encontrava seu término. Mergulhada em sangue desde o assassinio do governador Pedro de Ursua até a safda no Oceano Atlantico, a expedigio —a partir do comando de Lope de Aguirre — desviou seu objetivo para uma nova conquista que, como vimos, seria a do vice-reino do Peru, com suas riquezas em ouro, prata, terras ¢ indios enco- mendados. Nao obstante o fascinio com as riquezas presumidas no interior ama- z6nico, muitos soldados ~ denominados por nés como deserdados da Conquista, € que integraram a Jornada de Omagua y Dorado — nao deixavam de acalentar 0 sonho de “valerem mais”, ndo em outra regio, mas no antigo pais dos incas, de onde sairam a busca dos fabulosos tesouros de El Dorado. A Jornada de Omagua y Dorado pelo rio Amazonas foi, assim, mais uma das tentativas de encontrar o velocino de ouro, que os conquistadores europeus, principalmente espanhéis, buscavam na América. Até a safda no Oceano Atlantico, embora a expedicao entrasse em contato com varias sociedades indigenas, Aguirre nao tomou posse das terras amaz6nicas, como fizera Orellana em 1542. Houve perfodos em que a expedi- ¢40 nao tocou as margens, para que mais depressa chegasse ao mar. Saidos ao Oceano Atlantico em julho de 1561, os expedicionédrios ru- maram para Margarita, depois Borburata. Os homens de Aguirre cometeram grandes desmandos nessas ilhas. Depois de tantas atrocidades, tanto Aguirre como seus soldados encontraram a morte em outubro daquele ano, pondo fim A rebeligo contra a monarquia espanhola e 20 desejo de conquistar o antigo pais dos incas. algum ponto indefinido da Amazonia Cidade de Manoa, amazonas e acéfalos Depois da malograda Jornada de Omagua y Dorado, no tiltimo quartel século XVI 0s espanhéis nao singraram mais todo o rio Amazonas nem tenta- im colonizar seu imenso vale, deixando um vazio de poder colonial na regiao. al fato ocasionou que novos ensaios de conquista fossem tentados, agora, por imigos dos hispanicos, mormente ingleses ¢ holandeses. O mito de E! Dorado mtinuava muito vivo nesse periodo, tornando a regido setentrional da América o Sul, incluindo a Amaz6nia, suscetivel de novas expedigdes A sua procura, des- erta € conquista, pois, embora se acumulassem frustracées ¢ malogros para 1a descoberta e conquista, desde que os espanhéis se langaram & sua procura na sdécada de 1530, Bl Dorado continuara a exercer fascinio sobre os europeus, pois, como lembram os historiadores Jorge Magasich-Airola e Jean-Marc Beer as in. formagées sobre a terra do ouro “atravessam as fronteiras do império espanhol e chegam aos ouvidos dos inimigos de Filipe I”. A mais famosa expedicao desse final do século XVI foi a comandada pelo tnglés Sir Walter Raleigh. Este fidalgo — de posse de documentos espanhéis captu- rados numa incursdo inglesa a ilha de Trinidad, nos quais constavam narrativas sobre EI Dorado® — consegue financiamento para armar navios ¢ contratar ho- mens para a conquista dessa regiao. Em 1595 chega ao litoral norte da América do Sul, conquista Trinidad e depois navega pelo rio Orenoco. Os resultados ma- feriais da expedi¢ao foram paupérrimos, uma vez que, & excecio de algumas pe- Pitas de ouro, nao se encontraram as tio esperadas riquezas de El Dorado.” Todavia, o magro resultado econdmico da viagem nao inibiu o apareci- mento de uma das mais fantasticas histérias sobre EI Dorado. Voltando a Lon- dres, Walter Raleigh publica, em 1596, The Discovery of the large, rich and beaw- tiful Empire of Guiana, with a Relation of the great and golden citie of Manoa, wich the Spaniards call El Dorado [A descoberta do grande, rico e belo Império. da Guiana, com uma relagao da grande e dourada cidade de Manoa, a qual os es- panhéis chamam de El Dorado),“* no qual relatou nao somente sua peregrinagao Pelas regides do Orenoco — marcada por toda sorte de intempéries ~ bem como, e Principalmente, difundiu, ainda mais, 0 mito de El Dorado. Segundo Walter Raleigh, o Império da Guiana havia sido fandado por um dos filhos menores de Waina Capac — transformado em Guaynacapaca, daf o nome Guiana em sua homenagem -, que conseguiu fugir com numerosa corte ¢ grande exército, apés a detrota do império incaico pelos espanhéis. Com esse poderoso 2 Os Sens | Many Det Prione # Flavio Gomes & Os Sew exército, o novo Inca péde conquistar toda a regio sul-americana entre os rios Ore- noco e Amazonas.” Conforme esta avaliacio, 0 império guiano ocupava, assim, todo o trecho norte do rio Amazonas. A capital desse império mitico, Manoa, era, segundo Raleigh, maior e mais rica do que qualquer outra cidade do mundo. Localizava-se sob a linha equi- nocial, em regido aprazivel, as margens de um lago salgado, tao grande quanto o mar Caspio, na Asia.” Os Incas que governavam 0 império guiano reproduziram em Manoa, em grau mais sofisticado e escala maior, o fausto da antiga corte incaica de Cuz- co. Todos os objetos de que se serviam eram de ouro ¢ prata. Raleigh busca na Historia general de las Indias, de Gomara, os referenciais para as informagées so- bre a riqueza dos senhores da Guiana.”! Conforme vimos anteriormente, Walter Raleigh navegou 0 Orenoco, e nao o Amazonas. Todavia, a falta de conhecimento in loco de Walter Raleigh sobre 0 vale amazénico, nao se tornou impedimento para o corsario inglés mencionar 0 rio-mar como demarcador do império guiano, bem como redimensionar aconteci- mentos que nele tiveram lugar, uma vez que variadas noticias relacionadas ao gran- de rio ja estavam bastante difundidas na Europa, desde a viagem comanda por Orellana. As citagées e mengées de autores, como Francisco Lopes de Gémara e André de Thevet, que tiveram suas obras traduzidas para o inglés, demonstram as fontes intelectuais, onde Raleigh obtinha informagées sobre o rio Amazonas. Em primeiro lugar, porque o nome do rio deveu-se Aquelas guerreiras in- digenas, que combateram os espanhéis, transformadas em amazonas desde 1542. Quanto a existéncia real das mesmas, Raleigh aceita-a sem reservas. Todavia, a fim de tornar sua narrativa sobre elas mais verfdica, dado que nao as “viu" — dife- rentemente dos espanhdis capitaneados por Orellana ~ apela para o “testému- nho” de indios que teriam “estado” nas regides onde as famosas guerreiras habi- tavam. Por esses testemunhos, as “regiones donde viven esas mujeres estan situa- das en la parte Sur del rio, en las provincias de Topago, y su mayor nitmero y terri- torios donde predominan coincide con las islas situadas al lado Sur de la entrada, a unas 60 leguas aguas arriba de la boca del rfo citado”.72 Sobre os costumes das amazonas, Raleigh, mesmo propondo que tivesse informacées de suas “testemunhas”, repete o que, na Europa e nos centros de i radiacao colonial americanos, jé se tornara comum dizer acerca das valentes mu- heres. Em sua narrativa, apelando, ainda, & autoridade de seus “informantes”, acrescenta certos detalhes e tenta corrigir possiveis equivocos das histérias refe- rentes as mulheres guerreiras: “Las que se encuentran cerca de la Guyana solo tienen trato con hombres uma vex por afio, y por un periodo de un mes, que tengo entendido es el de abeil Ex esta €poca todos los reyes de las fronteras y las reinas de las Amazonas se rete nen y, una vez que las reinas han escogido, las demés sacan a suerte sus Valent nes [parejas]. Durante este mes hay banquetes y bailes; y todos beben de su vino en abundancia, Pero al acabar la luna, todos se marchan a sus respectivas tiee- ras, Silas amazonas quedan en estado, y dan a luz, envian el frato a su padre si ¢s var6n. Pero si es hembra, se quedan con ella y la crfan. Por cada hija mandan un regalo al progenitor, ya que todas tienen grandes deseos de incrementar el nuimero de las su sexo y clase. Pero no tengo encontrado confirmacién a lo que sedice referente a que se cortan el pezén del pecho derecho, También me dije- ron que si cogen prisioneros en alguna guerra conviven con ellos en cualquier €poca; pero al final, indefectivamiente, lo matan. Segiin dicen, son muy ctueles ¥ sanguinarias, sobre todo con los que intentan invadir sus territorios, 7 Quando no final de seu livro, Raleigh fala da possibilidade de os ingleses istarem a Guayana, tal fato nao somente confirmaria a fama de grandeza ¢ po- gue a rainha da Inglaterra, Blizabeth I, desfrutava na Europa, mas chegaria sua 20 império das amazonas, e “estas mujeres oirdn de esta manera, el nombre de virgen, que no solamente es capaz de defender sus proprios territorios y los veci- sino tambien de invadir y conquistar imperios tan poderosos y tan lejanos”.7* Em segundo lugar, porque o velocino de ouro do setentrido sul-ame- ino ~ que se deslocava na geografia mitica do imaginario conquistador — tam- m foi associado a imensa avenida de aguas barrentas do, j4 entio, rio das azonas. Raleigh, por exemplo, erroneamente atribui a Orellana — quando navegou pelo Amazonas ~ 0 intento explicito de descobrir e conquistar El ado, que o aventureiro inglés identifica especularmente ao Império da Guia- . De modo similar, declara que a expedigio comandada por Pedro de Ursua-Lope de Aguirre, que como vimos desceu o rio Amazonas, também obje- ivava a conquista do império guiano,” por sua vez identificado a El Dorado (cste, sim, realmente procurado nas plagas amaz6nicas, principalmente quando Ursua ainda comandava a expedigao). O fracasso dessas expedigdes espanholas (Orellana, Ursua-Aguirre), que Rio lograram conquistar El Dorado/Império da Guiana, indica para Raleigh que esse fabuloso mundo, onde o ouro ¢ abundante sem igual em outras regides, es- tava reservado & rainha Elizabeth I e 4 propria nac3o inglesa.”” Ao lado de El Dorado ¢ das amazonas, até a década de 1580 os mais fa- mosos mitos do norte da América do Sul, Raleigh difunde a noticia da existéncia EB FLAY Mary Det Os Sey de acéfalos nessa regio. Na verdade, o navegador inglés redimensiona as hist6- las que os espanhdis contavam sobre uns indios, de nome Arimaspos, sobre os guais se dizia que tinham os olhos, 0 natiz e a boca sobre o peito. Transposicao, Por sua ver, das historias referentes aos acéfalos do imagindrio europeu medieval, bastante popularizadas por J. Mandeville.”* Os acéfalos da narrativa de Raleigh, chamados de Exeaipanoma, a diferenga dos outros, tém uma farta cabeleira, pois “un grand mechon de pelo les crece hacia atrés entre los hombros”.”? De maneira similar ao tema das amazonas, Raleigh apela para a autorida- de de “testemunhos” indigenas quanto aos acéfalos Ewaipanoma. Segundo seus “informantes”, “aquellos son hombres mds fuertes de toda la Tierra, y que sus ar- cos, flechas y macanas tienen tres veces el tamafto de los de la Guayana o de los Orenoqueponi..”.® Quanto a existéncia de tais seres, Raleigh é mais enfitico ain- da, pois é o quantitativo de seus informantes que determina a veracidade da noti- sia, isentando-o, portanto, de qualquer responsabilidade do dado que fornece: “Se pude pensar que esto sea mera fabula; pero estoy convencido de que es ver- dad, pues hasta los nifios de las provincias de Arromaia y Canuri asf lo afirman ¥o no los vi personalmente, pero me parece dificil que tanta gente pueda po- nerse de acuerdo para inventar esta especie."*! Na literatura da conquista, a partir da qual vishumbramos o imaginétio euro- eu sobre as regises do Novo Mundo, o livro de Raleigh constitui-se no elo entre a vi- ‘éncia dos mitos supramencionados pelos béricos e a cultura anglo-saxd, A qual per- tencia esse grande navegador. £ através do The Discovery... que o mundo amazénico cntra nas especulagdes dos intelectuais europeus norte-ocidentais, anglo-saxdes e ger- manicos, dado que o livro foi conhecido também fora da Inglaterra, citculando em tra- stugdes na Alemanha ¢ na Holanda, ricamente ilustradas por gravadores, como Levi- nus Husius, Hondius, Theodor e Johann de Bry (pai e filho, respectivamente), Na edigao latina de 1599 da narrativa de Raleigh, por exemplo, aparece a carta do gravador Theodor de Bry, Tabula Geographica nova omnium oculis exibens...."* Neste mapa, Theodor de Bry sintetizou, a partir das hist6rias de Ra- leigh, os elementos maravilhosos que permeavam o imaginério europeu que po- demos relacionar 4 Amazénia no final do século XVI. Nas alegorias miticas que Podemos observar, encontram-se representados a cidade de Manoa, 0 lago Pari- ima, 08 acéfalos, as amazonas. © gravador fez registrar, ainda, alguns animais que nao fazem parte da fauna amazénica, como 0 ledo, o tigre e 0 gamo. Segundo a representagéo no mapa de Theodor de Bry, o lago Parima, i- uado 20 norte do Rio das Amazonas, esta abaixo da linha equinocial, apresenta "ns6es gigantescas, e se encontra, na maior parte de sua extensio, nos domé espanhéis.** Na sua margem norte est a cidade de Manoa, a tio falada capi- lo Império da Guiana. Jé os acéfalos Ewaipanoma foram representados segundo a iconografia dos tros blémios, que faziam parte do bestiario fantastico da Idade Média, cuja po- izagio foi realizada por Mandeville. A figuragao dos Ewaipanoma, na carta de Bry, est conforme a descrigao de Raleigh: uma criatura belicosa, armado de arco © tinico elemento da descrigéo que est ausente é a cabeleira. Por sua vez, pela auséncia de uma descricSo fisica mais detalhada das ama- no livro de Raleigh, elas encontram-se registradas conforme, ainda, a narrativa Orellana, na figura de uma mulher branca ~ diferentemente da ilustragao realiza- por Caboto em seu mapa de 1544 —, em posigao de guarda, armada de arco e fle~ - O gravador, seguindo a tinica descricao feita por Raleigh, registrou a amazona 2 mutilagao do seio direito. A obra de Walter Raleigh, como dissemos, introduz — ao lado de outras jensGes espaciais da América do Sul—o mundo amaz6nico nas preocupacées ¢ culagdes dos navegadores, homens de Estado, homens de negécios e intelec- is dos cfrculos anglo-saxio e germAnico, por meio de elementos fantAsticos ie permeavam o imagindrio da conquista européia no século XVI. A carta de odor de Bry é um exemplo de tal penetracdo que os informes de Raleigh tive- nesses Ambitos culturais. A esse propésito sao bastante apropriadas as obser- es de Johnni Langer, quando diz que essas obras “possuiam finalidades especificas de demonstrar familiaridade do europew pe- rante essa regio geogrifica, com claras intengdes colonialistas pela Inglaterra ¢ demais paises europeus, Juntos, deram um extraordindrio impulso para a difusio do mito do Eldorado. Os mapas cartogréficos ¢ os atlas nao sio apenas revelado- res das concepgées da realidade fisico-geografica de cada época, mas também cfi- cazes instrumentos de amplificagio das mesmas — popularizando mitos e fanta- sias sem correspondéncia com o real.”** Na historia da Amaz6nia, 0 século XVI marca sua entrada no cenario da Conquista européia. Porém, antes da efetiva conquista militar e da implantacao colo- nial, que se deu apenas a partir do século XVII, a regio amaz6nica foi conquistada pelo imaginatio colonialista, uma vez os conquistadores nao dispuseram das condi- ses materiais para realizar de fato o seu intento. Desse modo, no século XVI, & Amaz6nia-“margem” da “margem do mundo” que era a América — foi atribuido o sardter de palco, onde algumas das fantasias européias foram encenadas. Many Dew P 6