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Título

INSULARIDADES

COMENTÁRIO:

VERSÃO. 1.0 / DATA: 02/2013

PALAVRA-CHAVE:

Arquipélago, Continentalidade, Hypo-insularidade, Hiper-insularidade, Ilha, Isolamento, Insularidade, Ultraperiferia, Ultraperificidade

RECOLHA e organização: VIEIRA ALBERTO, CEHA, 2013©

VIEIRA, Alberto, 2013, Insularidades , Funchal. CEHA, Disponível em. URL. Consulta em -- /--/----

APRESENTAÇÃO

…é necessário ter nascido do ventre de uma mulher, numa ilha, ou morando nela, ser inoculado pelo vírus da insularidade.

[texto atribuído a Gaspar Frutuoso (Ribeira Grande-S. Migel-Açores:1522-1591)., in Nereu do Vale Pereira, A Ilha de Santa Catarina-Portal do Atlântico Sul, in A Ilha de Santa Catarina. Espaço,Tempo e Gente, vol. I, Florianópolis, 2002, p.20. ]

Por tradição, vimos insularidade associada a isolamento 1 . O isolamento

e o provincianismo são considerados a parte negra da insularidade. Mas,

no mundo científico e académico, apesar da falta de consenso quanto à

sua definição, o fenómeno não se reduz apenas a isso 2 . Desta forma, nas

últimas décadas, surgiu em França a noção de ilheidade, a definir de

forma esta complexidade, numa tentativa de afastar a insularidade do

fantasma do isolamento.

Não

podemos

esquecer

que

a

insularidade

anda

também

obrigatoriamente associada à relação íntima que se estabelece entre o

Homem e o espaço e à forma como o condiciona e o identifica na sua

ação 3 . Esta perceção ou conquista do espaço atua, com clareza, nas

ilhas e define ao insular uma forma distinta de ser e de estar no mundo.

Certamente que o facto da escola geográfica francesa estabelecer uma

aproximação clara com o teor geográfico do isolamento leva a que não

estabeleça qualquer diferença com a continentalidade. Foi também na

escola francesa de Geografia, a partir da década de oitenta do século

XX, que vimos novas reflexões sobre esta realidade e a uma maior

explicitação dos fatores que definem o conceito, apelando cada vez mais

1Cf. SOULIMANT, 2011

2TAGLIONI, 2003. 3Cf. MOLES/ROHMER, 1972; FISHER, 1981, 1994; ALLAND, 1982.

a uma utilização do conceito de ilheidade, como uma expressão mais

ampla e aberta desta realidade.

Entende-se ainda que a insularidade não é um modo de ser, mas sim de

estar. Quando a vemos como um modo de ser confunde-se com a

ilheidade (îléité, dos franceses) que é algo mais amplo e que se afirma

pela diferenciação de uma identidade insular. Entendida como modo de

estar confunde-se com isolamento. Mas aquilo que é mais importante na

insularidade

não

é

a

ideia

ou

a

presença

negativa

do

fenómeno

geográfico de isolamento, mas sim a presença permanente do mar, que

estabelece uma noção clara de finitude do espaço, de descontinuidade

territorial, como também da capacidade (ou não) que o insular tem em

vencer ou dominar o espaço. Nada disto colhe a atenção da noção de

continentalidade, onde quase só domina a ideia negativa do isolamento.

A palavra só apareceu a partir de 1838 e começou por ser um conceito

operatório dos naturalistas, que, desde o século XVIII, estudaram de

forma afincada as ilhas 4 . Com o tempo, o discurso construiu-se com nova

terminologia

como

insulamento,

a

sua

reafirmação

com

a

sub-

insularidade, ou a negação com a hypo-insularidade ou, então, a visão

exagerada com o insularismo.

Antonio DIEGUES (1998: 93) seguindo de perto as ideias de MOLES

(1982), PÉRON (1993) e MEISTERHEIM (1989) define a insularidade

como: fenômenos sociais resultantes do relativo isolamento dos espaços insulares, que podem ser quantificados (distância do continente, e etc.). E acrescenta: A insularidade refere-se à identidade cultural do ilhéu diferenciada do continental, mas é resultante das

4VILLATE, 1991; NICOLAS, 2001, TAGLIONI, 2003, I:18, SOULIMANT, 2011, SANTOS, 2011.

práticas econômicas e sociais em um espaço limitado, cercado pelo oceano. A ilheidade é um neologismo de origem francesa utilizado para designar as representações simbólicas e imagens decorrentes da insularidade e que se expressam por mitos fundadores das sociedades insulares e lendas que explicam formas de conduta, comportamento, etc. 5

No quadro do biogeografia, a insularidade afirma-se pelos endemismos,

na língua e literatura, pelos arcaísmos, enquanto na economia e política

é o isolamento que conta, o afastamento dos centros de decisão e

mercados. O discurso histórico, quanto a isto, não tem posição clara,

pois que atribui sempre ao espaço a dimensão do tempo e aos múltiplos

enquadramentos que sucedem aos espaços insulares nas conjunturas e

estruturas dos espaços próximos ou de dominação, dando uma ideia de

contacto e permanente interligação, que o próprio homem, através de

diversos mecanismos, pode reforçar a sua posição e valorização, nos

diversos

corredores

oceânicos.

Desta

forma,

a insularidade

não

é

entendida como uma condição genérica e persistente nos espaços

insulares.

Construir a insularidade com base no conceito geográfico de isolamento

será renegar a própria insularidade porque esta se constrói de múltiplas

formas, pela finitude e dimensão do espaço, pela omnipresença do mar

junto

das

populações

litorais,

pela

distância

que

os

separa

dos

continentes de que dependem politica e economicamente, pela própria

intervenção do insular na valorização ou redução do impacto destes

fatores,

pela

forma

como

os

“continentalizam” 6 .

continentais

as

“insularizam”

ou

5DIEGUES, 1998: 5l.

6Sobre esta ideia de continentalização dos espaços insulares veja-se NICOLAS, 2001; BOMBAUD, 2007:425. São exemplo disso as ilhas de Cuba, Japão, Filipinas e Madagáscar.

No

caso

português,

o

facto

de

a

constituição

liberal

definir

os

arquipélagos da Madeira e Açores como ilhas adjacentes atuou de forma

clara no sentido de as “continentalizar”, procurando pela letra da lei

amarrá-los ao continente, situação que, de facto, não sucedeu 7 . Porque,

na verdade, aquilo que faz com isso aconteça é definição de uma

adequada política de transportes 8 .

E é no campo da Biogeografia que existem maiores consensos quanto à

definição e afirmação da insularidade dos espaços insulares e dos seus

múltiplos impactos na fauna e flora. Desde Darwin que as atenções dos

biólogos estão viradas de forma clara para as ilhas. Estas são espaços

perfeitamente delimitados e as condições de isolamento propiciam que

sejam autênticos laboratórios para estudo da evolução das espécies. O

isolamento,

a

distância

que

as

separa

dos

continentes

estão

diretamente relacionados com o número de espécies e da sua evolução

particular.

Aos biólogos 9 . seguiram-se os geógrafos que, nomeadamente em França

se repartiram entre a afirmação e a negação da sua existência e

influência nas sociedades insulares. As décadas de 80 e 90 do século XX

foram momentos de ativo debate sobre o tema. A partir daqui, o debate

em torno da definição e afirmação da insularidade ganhou coro no

mundo científico, no quotidiano e na política, pelo que as últimas

décadas foram férteis em estudos e ensaios sobre o tema.

7Tal como refere ALVES (2010:160), a noção de adjacente quer dizer junto de e não parte de, sendo reveladora de falta de equidade e igualdade de oportunidades.

8Para HOYLE (1999:137) ,

9 WALLACE,1869,1881; MACARTHUR e WILSON, 1967/2001; QUAMMEN, 2008; BAEZ, 1987 GRANJON e DUPLANTIER, 1989; LOPES,

GASPAR, NAPO DIEGUES, 1998; LEAO, SANTOS, PAVAO, VIEGAS-CRESPO, 2007:QUAMMEN, MALFERRARI, 2008; LESCURE, JEREMIE, LOURENÇO, MAURIES, PIERRE, SASTRE, THIBAUD, 1991; LINGLART, BLANDIN, 2006; VIGNE, 1997; DOUMENGE, 1984.

a insularidade está relacionada ao transporte, que é o fator central na sua explicação.

CITAÇÕES

1. os discursos da Ciência

A insularidade refere-se à identidade cultural do ilhéu diferenciada do continental,

mas é resultante das práticas econômicas e sociais em um espaço limitado, cercado pelo oceano. A ilheidade é um neologismo de origem francesa utilizado para designar as representações simbólicas e imagens decorrentes da insularidade e que se expressam por mitos fundadores das sociedades insulares e lendas que explicam formas de conduta, comportamento, etc.

(DIEGUES, 1998: 5l).

Dans le domaine océanique, les archipels et les îles sont les points remarquables où vient s’appuyer

la circulation. On a vu, à propos des techniques de navigation, leur rôle dans la

découverte de la mer, et comment les navires se sont à l’époque moderne progressivement affranchis de leur sujétion. Non pas complètement. Le cas des Hawaii dans le Pacifique montre encore l’importance actuelle d’un archipel pour la circulation transocéanique : Honolulu est en relation régulière avec Vancouver, San Francisco, Los Angeles, Panama, les îles Samoa, Les Philippines et le Japon .». SORRE,.1948: 540

Petites ou grandes, leur importance vient de ce qu’elles sont d’indispensables escales au long des chemins de la mer et qu’elles offrent entre elles, ou parfois entre leurs côtes et le continent, des eaux relativement calmes, recherchées par la navigation » BRAUDEL, 1966 : 136

« un milieu humain cohérent dans la mesure où pèsent sur elles des contraintes

analogues qui les placent à la fois très en retard et très en avance, par rapport à l’histoire générale de la mer. […] C’est que l’“isolement” est une vérité relative. Que

la mer les enveloppe et les sépare du reste du monde, c’est vrai, chaque fois qu’elles

sont effectivement en dehors des circuits de la vie marine. Mais lorsqu’elles y entrent, qu’elles en deviennent, pour une raison ou pour une autre (raisons souvent extérieures et gratuites), un des chaînons, elle est au contraire activement mêlée à la vie extérieure, beaucoup moins séparés d’elle que certaines montagnes par quelque infranchissable défilé. » « la grande histoire […] aboutit aux îles ». BRAUDEL, 1960: 137-138

As ilhas não se veem como centros, pela simples razão de que negam o centro, flutuando, movendo-se, desafiando os centros convencionados CUNHA (2010: 4)

Si l’on suit Vérin, l’insularité n’est pas quelque chose qui vient des lieux et marque les hommes mais quelque chose qui vient des hommes et marque les lieux ! Et ce qui

vient des hommes, c’est d’abord la perception des îles comme étroites, limitées, pauvres en ressources. GOMBAUD (2007: 387)

l’île doit être considérée comme un espace au même titre que d’autres, comme la montagne, la plaine ou la vallée… BRIGAND (2004)

L’île est une terre de polémiques et de malentendus parfois volontaires ! GOMBAUD (2007:351)

2. Os Discursos da Política

O conceito tão difuso de «insularidade», a que abusivamente se recorre, como tábua de salvação, para explicar desequilíbrios e retrocessos das estruturas insulares, creio que pode ser materializado neste facto muito concreto: o isolamento. A questão é que este pode ser atenuado por meio de medidas objectivas de adequação racional do sistema de comunicações e dos meios de transporte. Talvez, por isso, se fale hoje tanto de insularidade; porque, sendo um termo de conteúdo mal definido, responsabiliza muito menos as pessoas. Além do papel fundamental que o sistema de comunicações desempenha em qualquer tipo de economia insular, os transportes são um elemento imprescindível de coesão da comunidade nacional. Isto, que parece uma verdade elementar, tem sido, porém, muito difícil de entender. deputado Sousa Pedro, AHP, Diário das sessões, 99//30 de abril de 1971, p. 1987

Não é o horizonte nostálgico e distante que nos abisma do Mundo e implica o já conhecido determinismo fatalista do ilhéu. Não é a amenidade climática que nos amacia a agressividade do insulamento. Não. Não é. Nós estamos bem próximos de tudo e de todos.

A duas horas, via aérea, do continente português.

A quatro horas, via aérea, do ocidente americano.

É neste continente americano que lá vivem, felizes, cerca de um milhão de açorianos e descendentes, já tomados cidadãos americanos. Viver numa ilha é viver subdimensionado, onde tudo resulta mais caro, onde tudo tem o preço da pequenez.

Mas

Justamente ambiciosos; porém, humanos e compreensíveis. Desejamos só o que nos parece devido.

então o horizonte nostálgico e distante faz-nos obviamente ambiciosos e diferentes.

E

queremos, porque carecemos realmente.

O

tributo de ser ilhéu é um tributo amargo.

Há comunidades populacionais em todas as ilhas, em cada concelho, que ainda não bebem

e à mesma luz lêem as maravilhosas

e saudosas cartas dos familiares emigrados; que não desconhecem o progresso, que sabem

estar a viver num autêntico bucolismo, no dealbar da era sideral. Mas para se viver feliz nos Açores, mesmo com todos os meios do progresso ao alcance de todos, ainda fica para muitos um vazio, a falta da expressiva urbanidade dos meios grandes - a luz da cidade, o encanto do movimento em turbilhão, etc. Aquela, afinal, que permite que os homens, na sua maioria, se sintam livres nas opções mais elementares.

água canalizada, que se alumiam à luz do candeeiro

A insularidade é um sentimento que nos idiossincretiza profundamente e só encontra

lenitivo - atenuância - na melhoria substancialíssima dos meios de transporte, de comunicação, de deslocação.” Deputado Câmara Pereira, AHP, Diário das sessões, 8//06-12-1973 , p.92

O continente, a República que vai pagar os custos de insularidade da Madeira e dos Açores é Trás-os-Montes, é a Beira Interior, é o Alentejo, é o Algarve serrano, e podemos chegar à situação de o nu ter de ajudar o roto a vestir-se, o que é, obviamente, impossível. Isto é: há regiões no continente que não são menos insuladas, isoladas, do que a Região Autónoma dos Açores ou da Madeira e cuja carência de ver suportados os custos da sua insularidade não são menores do que os da Madeira e dos Açores Vital Moreira, AHP, Diário das sessões, 69/25/06/1980, p.3322.

Uma vez que o preço dos transportes, nomeadamente de avião, das Regiões Autónomas dos

Açores e da Madeira para Lisboa são subsidiados pelo Governo, era justo que, em relação

a Trás-os-Montes, onde não há transportes alternativos capazes, o Governo assumisse também, na mesma proporção, aquilo que designamos por custos da interioridade.

(

)Quero

reafirmar, mais uma vez, o meu protesto sobre esta matéria perante esta Câmara,

de

forma que pelo menos os deputados que integram a maioria e que foram eleitos pelos

círculos eleitorais de Bragança e de Vila Real possam, junto do Governo, assumir a minha

reivindicação e dar voz às vozes que a não tem, que sistematicamente são lesadas Armando Vara, AHP, Diário das sessões, 29/10/01/1990, p.1040.

Sr. Presidente, Srs. Deputados: O problema que a insularidade suscita é demasiado sério para ser tratado demagogicamente e para ser aproveitado por forças que sobrepõem os seus interesses à solidariedade que deve existir entre as populações continentais e

insulares!

Os desequilíbrios existem e devem ser discutidos, ponderados e compensados. É preciso que

as populações continentais tomem consciência disso e não nos julguem sob a influência de mentalidades eivadas ainda de conceitos paternalistas e colonialistas. Os insulares equacionam constantemente o problema e sentem as carências que atrás ironicamente referi. É tempo de a Nação, no seu todo, reflectir seriamente sobre elas.Sá Fernandes, AHP, Diário das sessões, 17/23/11/1982 p.526.

Muito se tem falado dos custos de insularidade, mas quase nunca numa perspectiva

correcta. Têm servido inclusivamente, para criar, junto da opinião pública, a ideia de que

as regiões autónomas são grandes sorvedouros dos dinheiros públicos e desfrutam de uma

situação privilegiada no Orçamento do Estado. Não raro, e dentro deste espírito, temos ouvido contrapor aos custos de insularidade os custos de interioridade. Não é que não tenhamos por essas regiões, também elas desfavorecidas, um sentimento de solidariedade. Mas entendemos que se trata de conceitos totalmente distintos e achamos que seria mais correcto comparar a interioridade com um outro conceito, que nunca vimos referido, mas que poderíamos designar de litoralidade.” Vargas Bulcão, AHP, Diário das sessões, 46/23/03/1986 p.1594.

Importa, pois, alertar o País e certos responsáveis políticos, que a reflexão sobre os designados «custos da insularidade» não é figura de retórica oportunista, nem é uma invenção parasitária dos portugueses dos Açores e da Madeira.” Carlos César, AHP, Diário das sessões, 95/23/06/1989 p.4702.

Esperámos nós e esperam todos os açorianos que a insularidade que sofremos seja compreendida dentro dos parâmetros traçados e que o voto favorável desta Câmara proporcione à Região Autónoma dos Açores mais um adequado instrumento legislativo que lhe proporcione um melhor e mais eficaz enquadramento no todo nacional.” Teixeira Dias, AHP, Diário das sessões, 13/14/10/1998 p.428.

3. OS DISCURSOS LITERÁRIOS

Apenas este ilhéu é que é pequeno.

O

resto é tudo grande: o tédio, a vida,

O

dia enorme, anoite mais comprida,

e o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

( )

Do livro O Cancioneiro (1943) , in GOMES, A. F.,1985, Cabral do Nascimento, Funchal, 102

Uma ilha, digam o que disserem, ou é um continente que não cresceu, ou um continente em via de acabar-se. Ou é um desdapontamento ou virá a ser uma saudade. Mas, para que possua atractivos, para que nos prenda e seduza, não deve passarde uma miniatura, de um bibleot que nos paeteça possuir. Às limitações dos nossos sentidos, à nossa propria pequenez, agrada um mundo limitado tambem onde nos sintamos maiores; que se veja onde começa e onde acaba e que, a bem dizer, quase se possa fechar nas nossas mãos. Exigimos que nesse minúsculo mundo, tuso seja pequenino, delicado, graciosos, miniatural e tão bem proporciondo como no lendário país de Liliput das Viagens de gulliver.

Ora, neste aspecto, a Madeira é um acervo de contra-sensos. ( )

NATIVIDADE, Vieira, 1954, Madeira, a epopeia rural, Funchal, 21

O mar – horizonte de todos os ilheus (

nas lonjuras do oceano (

)

)

Todos alongam o olhar, a imaginação e a esperança

O mar anda na ansiedade e na latente nostalgia do ilhéu – seja ele ensimesmado ou de temperamento

exuberante. É o infinito e o isolamento também. Chegam e partem os grandes vapores; desce e torna a levantar

voo o avião; passam ao largo transatlânticos, petroleiros, navios de carga – tudo exterior, vida distante, vida

diferente. Tudo visões do mar

secretas afinidades, como ha secretos ressentientos e paixões, que muitas vezes não passam do sub-consciente. São esses desentimentos que geram a psicologia insular. Falo na generalidade, em referência especial à ânsia

de evasão que atormenta o madeirense e ao arraigado amor que para sempre o prende à ilha, esteja ele onde

estiver, seja de que classe for, sabendo embor aque de novo se sentiria asfixiado, se aqui voltasse para ficar.

Amo apaixonadamente a minha ilha! Apsar disso sinto-me aqui tão doente, nostálgico. Mas não posso viver muito tempo longe dela – desabafo dum ilheu que tem a lucidez do encanto e do “mal” da Madeira.

LAMAS, Maria, 1956, Arquipelago da Madeira. Maravilha Atlântica, Funchal, 117-118

E o ilhéu faz de cada visão um sonho: o seu sonho. Entre os ilhéus e o mar há

O continente encerra- vos? Fecha-vos as ideias em inquiridos de antolhadas teorias? Entendei que a poesia é superação do continente.

Conteúdo fervente. Como a Ilha, contida. Mas pela animação perpétua do mar.( )

porque nessa vivência iniciática que

é o estado de alma poético - fusão com o centro do universo- inscreve-se a inviolabilidade

A criação poética revela-se geneticamente insular.(

)

da Ilha.(

)

Não necessariamente inculcado pela presença física da Ilha. Mas por sua imanência e eminência, sub specie interioritatis. É a demanda interior do paraíso perdido de que os poderes poéticos são instigadores e que a supra-tradição simbólica situa na Ilha Encoberta. Natália Correia , in 1979, A ILHA/2, Funchal, 117-118

( )

estavam cansados do inverno enquanto o tempo não andava. enquanto a ilha não era continente

( )

GONÇALVES, J. A., 1991, Antologia, Verde, Funchal, 6

Era uma ilha. Eram navios, navios do mundo pela ilha dentro, ilha do mundo por dentro da vida.

) (

Ilha, vulnerável raiz salgada, eterna mãe,

eterna ferida, eternos navios que passam, flutuantes aldeias de trémulas luzes, ao largo.

) (

Sim, ao fim do caminho, de todos os caminhos,

há sempre uma ilha, a ilha, ilhas de assombro, lugares onde se morre e adormece.

) (

Sim,

há sempre uma ilha para quem se despede, um lenço que as mães bordaram, quase imóveis em cadeiras de vime, no terraço, à porta ou no quintal

) (

Há sempre uma ilha, estrangeiro, a ilha, ilhas de pesada mágoa onde se despede e os lenços de cambraia e sal se agitam no único cais.

BAPTISTA, J.A., 2000, Biografia, 164-168